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PREFEITURA MUNICIPAL DO SALVADOR

PROCURADORIA GERAL DO MUNICÍPIO


PROCURADORIA FISCAL
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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 9ª VARA DA


FAZENDA PÚBLICA DA COMARCA DE SALVADOR - BA

Processo nº 0755543-36.2017.8.05.0001

O MUNICÍPIO DO SALVADOR, por intermédio de um de seus procuradores adiante assinado,


nos autos do processo em epígrafe, em que figura como parte contrária a PROTEÇÃO
CONSULTAS MEDICAS SOCIEDADE SIMPLES PURA – EPP, vem, tempestivamente,
manifestar-se sobre a EXCEÇÃO DE PRÉ-EXECUTIVIDADE.

1. IMPUGNAÇÃO AO PEDIDO DE ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GRATUITA

A Excipiente afirma não possuir recursos financeiros para custear as despesas processuais, em
virtude de ser constituída sob a forma de EPP – Empresa de Pequeno Porte, requerendo a
concessão do benefício da assistência judiciária gratuita.

Ocorre que o enquadramento de uma pessoa jurídica em Empresa de Pequeno Porte não gera
qualquer tipo de presunção acerca da hipossuficiência econômica da parte. Assim dispõe o art.
99, § 3º, do CPC/15:

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Art. 99. O pedido de gratuidade da justiça pode ser formulado na petição inicial, na
contestação, na petição para ingresso de terceiro no processo ou em recurso.
§ 3o Presume-se verdadeira a alegação de insuficiência deduzida exclusivamente
por pessoa natural.

Nota-se, portanto, que a presunção de insuficiência só é atribuída à pessoa natural, cabendo à


pessoa jurídica demonstrar a necessidade da assistência judiciária gratuita.

Com base no dispositivo mencionado, requer que esse MM Juízo intime a Excipiente para
que comprove, mediante documentação idônea, sua condição de hipossuficiência
econômica.

2. BREVE RESUMO DA DEMANDA

O cerne da controvérsia levantada pela Excipiente gravita em torno da forma de recolhimento


do Imposto sobre Serviços – ISSQN, se a base de cálculo da exação deve ser a receita bruta
ou o recolhimento deve ocorrer através de alíquota fixa sobre o número de sócios.

A Excipiente afirma ser uma sociedade simples uniprofissional, razão pela qual faria jus à
sistemática de recolhimento através de alíquota fixa sobre o número de sócios (art. 9º, § 3º do
Decreto nº 406/1968).

Registra-se que a Notificação Fiscal de Lançamento que estriba a presente execução refere-se a
fatos geradores ocorridos em 2012 e 2013.

Ocorre, Excelência, que a Excipiente não trouxe, em sua manifestação, informações importantes
sobre sua conformação societária, as quais legitimam a autuação ora discutida.

Em primeiro lugar, a Excipiente só adquiriu a natureza jurídica de simples pura no ano de


2015 (fls. 41/44); os fatos geradores ocorreram em 2012 e 2013 (fls. 2).

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CLÁUSULA PRIMEIRA:
Após a presente alteração, a sociedade passa a atuar com a natureza jurídica de
Sociedade Simples Pura.
(fls. 41)

Em segundo lugar, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas,


conforme CLÁUSULA QUINTA do contrato social (fls. 43):

Como será demonstrado, a autuação ora guerreada não merece nenhum reparo, por estar em
absoluta compatibilidade com o ordenamento jurídico.

3. CARÁTER EMPRESARIAL DA EXECUTADA. AUSÊNCIA DE


RESPONSABILIDADE PESSOAL DOS SÓCIOS. RESPONSABILIDADE LIMITADA
AO VALOR DAS QUOTAS.

De acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a organização da Excipiente


como empresa, nos termos do contrato social anexo, retira-lhe qualquer possibilidade de ser
tributada segundo o regime excepcional vindicado (alíquota fixa), ainda que registrada
formalmente como sociedade civil:

TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL – ISS – SOCIEDADE POR COTAS DE


RESPONSABILIDADE LIMITADA – CLÍNICA MÉDICA – CARÁTER
EMPRESARIAL – NÃO COMPROVADA CARACTERIZAÇÃO COMO
SOCIEDADE UNIPROFISSIONAL – RECURSO ESPECIAL – AUSÊNCIA DE
PREQUESTIONAMENTO – VIOLAÇÃO AO ARTIGO 535 DO CPC –
INOCORRÊNCIA – DECISÃO RECORRIDA CONSENTÂNEA COM A

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ORIENTAÇÃO JURISDICIONAL DO STJ – CONHECIMENTO PARCIAL -


IMPROVIMENTO. Não cabe conhecer do recurso especialmente quanto à alegativa de
violação a dispositivo legal não prequestionado. Rejeitados os embargos de declaração
porque já examinados os pontos essenciais para o deslinde da questão, não há como
divisar violação ao artigo 535, inciso II, do CPC. É devido o ISS pelas sociedades
profissionais quando estas assumem caráter empresarial. As sociedades civis, para
terem direito ao tratamento privilegiado previsto pelo artigo 9º, § 3º do Decreto-lei
n° 406/68, têm que ser constituídas exclusivamente por médicos, ter por objeto
social a prestação de serviço especializado, com responsabilidade pessoal e sem
caráter empresarial. Recurso parcialmente conhecido, mas improvido.” (STJ, REsp
334554/ES, 1ª T., DJ 11/03/02, p. 202, Rel. Min. Garcia Vieira, julg. 06.12.2001, grifou-
se).

Conforme esclarecido pelo próprio Auditor Fiscal, à época dos fatos geradores (2012 e 2013) a
Excipiente era constituída sob a forma de sociedade limitada, sendo certo que a
constituição sob tal designação demonstra de plano o caráter empresarial da pessoa
jurídica, de modo a afastar a tributação mais branda, nos termos da jurisprudência mais
pacífica e atualizada do Eg. STJ:

TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO


DECLARATÓRIA CUMULADA COM REPETIÇÃO DE INDÉBITO. ISS.
SOCIEDADE PROFISSIONAL. MATÉRIA DECIDIDA NAS INSTÂNCIAS
ORDINÁRIAS. REEXAME DE PROVA. DESNECESSIDADE. AFASTAMENTO DA
INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ. SOCIEDADE LIMITADA. CARÁTER
EMPRESARIAL. TRATAMENTO TRIBUTÁRIO PRIVILEGIADO (ART. 9º, §§ 1º E
3º, DO DL 406/68). IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES. ACÓRDÃO
RECORRIDO EM DISSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ.
1. Trata-se de agravo regimental interposto pela Organização
Contábil Globo S/C Ltda contra decisão que deu provimento ao recurso especial do
Município para afastar o privilégio do recolhimento do ISS com base em alíquotas
fixas, previsto nos parágrafos 1º e 3º do artigo 9º do Decreto-Lei 406/68, julgando
prejudicado o apelo nobre da contribuinte.
2. Afasta-se, de pronto, os argumentos trazidos no presente recurso de que o relator "não
poderia este reverter a decisão de origem com base na reapreciação de provas" (fl. 590),

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pois, os fatos tal como postos no acórdão recorrido, não há falar em reexame dos
elementos probatórios dos autos. Assim, não prospera a tese de incidência do enunciado
7/STJ.
3. A decisão foi proferida com base na jurisprudência mansa e pacífica no sentido
de que o benefício da alíquota fixa do ISS somente é devido às sociedades
unipessoais integradas por profissionais que atuam com responsabilidade pessoal,
NÃO ALCANÇANDO AS SOCIEDADES EMPRESARIAIS, COMO AS
SOCIEDADES POR QUOTAS CUJA RESPONSABILIDADE É LIMITADA AO
CAPITAL SOCIAL.
4. O Tribunal de origem, ao analisar a demanda, consignou de forma expressa, que "a
contribuinte é uma sociedade civil por quotas de responsabilidade limitada" (fl. 330).
5. A orientação das Turmas que integram a Primeira Seção desta Corte firmou-se no
sentido de que, "nos termos do art. 9º, § 3º, do DL 406/68, têm direito ao tratamento
privilegiado do ISS as sociedades civis uniprofissionais, que tem por objeto a prestação
de serviço especializado, com responsabilidade social e sem caráter empresarial" (AgRg
no Ag 458.005/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 4.8.2003).
6. Agravo regimental não provido
(AgRg no REsp 1178984 / SP
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL
2010/0023754-9, Relator Ministro Benedito Gonçalves, 1ª Turma, Data do Julgamento
26/10/2010, Data da Publicação DJE 05/11/2010)

Por conseguinte, à luz dos aspectos acima evidenciados e da diretriz jurisprudencial firmada pelo
STJ, há de se concluir pela correta aplicação, por parte do agente autuante, da regra geral que
fixa como base de cálculo do ISSQN o preço do serviço.

4. CONCLUSÃO

Por todo o exposto, as alegações da Excipiente não merecem prosperar, razão pela qual este
incidente não deve ser acolhido, reconhecendo-se a validade e eficácia do crédito de ISS lançado
por meio da Notificação Fiscal de Lançamento (NFL) nº 6.2017, com o regular prosseguimento
da execução fiscal.

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Requer, por fim, a condenação da Excipiente nas custas judiciais, bem assim nos honorários
sucumbenciais no equivalente a 20% do valor da causa.

Pede deferimento.
Salvador, 29 de maio de 2018.

Sheili Franco de Paula


Procuradora do Município