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O Jardim e a Praça


Reitor Roberto Leal Lobo c Silva FiU1o
Vice-reitor Ruy Laurcnti

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE s.\o PAULO

Presideme Joao Alcxanuru Barbosa


Diretor Editorial PJinjo Martins Filho
Editor-assLçtente Manuel da Costa Pinto

Comissão Editorial João Alexandre Barbosa (Presi<knte)


Celso Lafer
José E. Mindlin
Oswaldo Paulo forattini
Dj;,hna Mirabclli Redonrlo
O Jardim e a Praça
O Privado e o Público
na Vida oocial e liislórica

Nelson 8aldanha
Copyrighl © 1993 by NeIson Saldanha

Dados lmernadooais de Catai


(Câmara Brasil . d ogação na Publicação (CIP)
eU'8 o Lavro, SP, Brasil)

Saldanha, Nelson, 1933_


O lanlim e a Praça. 0 Pri
Nclsoo Saldanha. _ Sôo

j,.t~ ~~ e o Público"'' Vida Social
o:L.u~loradaUujvc:n;·dade-
e HislOC!Q.j
..
1
ISBN: 85·314-QI6J·l de S•u Paulo, 1993.

P 'bl" I. Antropolo•c"
· 1-.,1osofica
. I Tilulo.
u •co ""Vida Social e Histórica . 11. Titulo: O Privado e o
93-1454 .
---~----------~COD-128
I An Índic:es para c a til ogo SJ•tcmatico·
.
· tropologia filosefica 128 ·

~ N ~Q)jg_1Q5103
Universidade Federal de PernambuCO
BlBUOTECA CENTRAL I CIDADE UNIVERSITÁRIA
CEP 50.67()..901 - Recife - Pernambuco - Srasi\
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Titulo: O JARDIM EA PRAÇA

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Printed in Brazil 1993

Foi feito 0 depósito legal


.... .
~

Para
João
li /dAlexandre Ba1·IJOSa
ua o Coutinho
':;aldemar Lopes
Zdenlfh Knurún

-~- Brasil

'11 a 4o

-r 06
SUMÁRIO

Nota do autor . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1. Abordagem e proposição geral do tema 13


2. Sobre os espaços na história 17
3. Ainda sobre os espaços na história . 21
4. A casa como tema histórico . 27
5. Vida pública e vida privada . 31
6. Dos jardins à ordem pública 35
7. Privatismo e publicismo 47
8. Platão e o intelectual moderno 51
9. Outra vez privatismo e publicismo . 57
10. Algumas digressões históricas 63
11. Outras digressões, com alusão ao direito e ao contra-
.:: tualismo 71
12. Sobre as utopias 83
13. A burguesia, o liberalismo e o problema do equilíbrio ' 89
14. Alusão à experiência brasileira 103
15. O ho.inem: Constantes e dualidades 109
16. Fundo, planta e pedra . 115
NOTA DO AUTOR

No número 11 (janeiro/junho de 1983) da revista Ciência &


'Trópico, da Fundação Joaquim Nabuco, publiquei um breve
artigo contendo reflexões que, devidamente acrescentadas, re-
sultaram em um opúsculo editado em 1986, com o título de O
Jardim e a Praça, por Sérgio Fabris, em Porto Alegre. Posterior-
mente, à base de notas tomadas em ocasiões diferentes, inclusive
por conta de temas e de fontes referentes a outros trabalhos,
repensei e reescrevi inteiramente o texto, ampliando-o bastante,
sobretudo em algumas partes.
Tratando ele um assunto cuja análise em detalhe seria
interminável, o presente livro, que é uma espécie de longa
anotação, se cinge conscientemente a certos tópicos, mais próxi-
mos elo nücleo ele idéias que norteou o esquema inicial. Alguns
amigos viram no texto uma introdução ao urbanismo; outros
uma revisão elos "ismos" contemporâneos. Entretanto o autor o
considera, apesar de seu feitio um tanto assimétrico e aparente-
mente descontínuo, um esboço ele antropologia filosófica. Ou, se
se prefere, de uma teoria não dogmática do homem e da história.
_ ...

. 1. ABORDAGEM E PROPOSIÇÃO GERAL DO TEMA

A estrutura de nossa e.\"Ístência aparece em


um primeira aspecto coma wna snma de cnntm.í-
dos que se entrecruzam, c se umoldum uns ciOS
outros; em um segundo aspecto, aparece como
uma soma de mundos, todos os quais abarcam
o mesmo conteúdo uíla./, mas cada um com sua
forma espedj"ica. Assim a religião, a arte, a
nwral, o conhecimento.

GEOilG SI~I~!E L

Começo aludindo a imagens mais ou menos consagradas. O


jardim se concebe, geralmente, como um trecho de espaço anexo
à casa, quase sempre à frente dela, mas em certos casos - como
nos chamados jardins ele inverno- dentro dela. O jardim é uma
parte do esp aço que circunda a casa (a casa ou outro tipo ele
edificação), uma parte específica pela posição e pelas caracterís-
ticas. A praça é pensada como um espaço amplo, que se abre, na
estrutura interna das cidades, como uma confluência de ruas, ou
de qualquer sorte uma interr upção nos blocos edificados. Um
espaço onde em geral se encontram árvores, bancos, eventual-
mente monumentos, em alguns casos pequenos lagos artificiais.
11 O ,J,I RDIM E A PRAÇA

Tenho de partir dessas alusões, por certo prosaicas edema-


siado genéricas, sem desatender ao fato de que há jardins de
diversos tipos, e praças de diferentes formas, inclusive variáveis
pela origem e pela função. Mas as duas imagens são aqui toma- Emcontrap
das como símbolos (evitarei dizer "meros" símbolos), de modo que público, com es
as diferenças dadas nos casos reais não deverão dificultar a v a da. As praças, nas
exposição. e em todos os ãm
De certa forma vale dizer que o jardim é, e ao mesmo tempo "genéricas": ligaiL-,
não é, uma parte da casa. Não se inclui no âmbito edificado da rio" do termo -, a
residência, mas integra seu espírito, inclui-se no conjunto (pe- dimensão religiosz.
queno ou grande) que ela domina. O jardim faz parte daquilo que praças sagradas ~ -
Gaston Bachelard, naquele livro admirável que é a Poética do ágora grega, arq-....-
Espaço, chama o "universo da casa", ao qual inclusive atribui - umbos mistura dE
uma ordem própria. Por sua vez a praça integra organicamente meetings polític~.>s.
o conjunto formado pela cidade, mas ao mesmo tempo "está" nele npcnas extensão e,
como um espaço - quase uma clareira- surgido pelo distancia- cial, correlato do
mento entre determinadas porções construídas. A praça "nega" Podemos de;;te
a continuidade das edificações, mas ao mesmo tempo ela é, em dimensões pode...:~:
certo sentido, a essência da cidade. o
Sob primeiro a;;:-
Como disse, as alusões iniciais se referem a imagens. Refe- no caso da casa ~
rem-se a estampas, às quais se prendem tradicionalmente nossa ajuntadas, âmbi:.o
imaginação e nossas associações de idéias. As artes plásticas e pessoas; no da pr-
a literatura se encarregaram, através ele séculos, aliás de milê- tende a confundir-~
nios, de consolidar as respectivas figuras. A noção de jardim
carrega consigo exemplificações que provêm de alu sões literárias espaço privado ccc
antiquíssimas, e de citações pictóricas igualmente remotas: ele tivclmente" preso
é fechado, não muito extenso, arborizado, ocupado com plantas temos o espaço pli~­
ornamentais. O jardim é o lugar das flores, e p ertence a casas d<'~s relações que
particulares ou de qualquer maneira a construções específicas: termos de produção
palácios, hospitais, conventos, universidades. Têm sido excepcio- Este segundo é o
nais os casos de jardins públicos, nos quais se podem enquadrar
alguns suntuosos jardins da história antiga, bem como exemplos
modernos como o das Tuilleries. O problema, nestes casos, é em
certa medida uma questão de linguagem. Às vezes chamam -se
ou chamavam-se jardins a certos logradouros públicos, que em relatara que o fa=
verdade são "parques" ou coisa parecida. Isto aconteceu inclusi- partes distintas: '"
ve nos séculos XVII e XVIII: Francis Bacon escreveu um .r :nsaio ligada aos militare~
altamente lírico sobre jardins (Of Gardens), considerando-os cultores. Obviame
mais acolhedores do que as praças e falando das sebes encurva- provieram deste e.:
ABORDAGEM E PROPOSTÇ;\O GER1!L DO TEi\H 15

prosaicas e dema- das que devem demarcá-los. No mesmo sentido valeria aludir ao
~ que há jardins de jardim do Luxemburgo, em Paris, celebrado inclusive em sentido
:: ir.clusive variáveis erótico pelos franceses elo século passado.
Em contrapartida a idéia de praça vai indicar a qui o espaço
púb lico, com específico desligamento em relação à moradia pri-
vada. As praças, nas cidades construídas em todos os quadrantes
c em todos os âmbitos culturais, se ligam a finalidades mais
____,é~ e ao mesmo tempo "genéricas": ligam-se ao espaço comum - no sentido "comunitá-
ãmbito edificado da rio" do termo -, ao âmbito político, à finalidade econômica, à
-.:-.se no conjunto (pe- dimensão religiosa ou m ilitar da vida social. Poderia lembrar as
:az parte daquilo que praças sagr adas dos aztecas ou os terraços votivos dos incas; a
:n::J. que é a Poética do ágora grega, arqui-exemplar, e sua continuação o forum romano
-ambos mistura de mercado e local de encontros, inclusive para
meetings políticos. A óbvia extensão espacial da praça não é
apenas extensão espacial: ela corresponde a um significado so-
cial, correlato do próprio espírito da cidade onde se insere.
Podemos deste modo dizer que a distinção entre as duas
dimensões pode dflr-se no sentido quantitat ivo e no qualitativo.
Sob ·o primeiro aspecto temos um problema de extensão espacial:
no caso da casa (e do jardim) um espaço menor, com coisas
ajuntadas, âmbito elo viver e sobretudo do viver noturno das
pessoas; no da praça, um espaço maior, que revela a cidade e
tende a confundir-se com ela. Sob o segundo aspecto, ocorre um
problema de caracterização e de conteúdo. E então temos o
espaço privado com um sentido de reduto, portanto algo "irredu-
tivelmente" preso ao existir mais íntimo do ser humano; ou
temos o espaço público como obra do viver social e do estender-se
e pertence a casas dns relações que perfazem este viver, e qu e se desdobram em
~ções específicas: termos de produção econômica, ordem política, criação cultural.
~-Têm s ido excepcio- Este segundo é o espaço mais amplo e mais problemático do
::- :Ee podem enquadrar humano, no qual se acha o pensar em geral, com heranças
bem como exemplos históricas e "ismos" modernos, um espaço dentro de cujas ocor-
nestes casos, é em rências se inventaram a geografia e a história.
:-:: ,-ezes chamam-se Aliás Aristóteles, expondo as idéias de Hipódamo de Mileto,
·--~~- públicos, que em relatara que o famoso arquiteto projetara uma cidade com três
partes distintas: uma sagrada, ligada aos cultos; outra pública,
ligada aos militares; e outra privada, ligada sobretucl0 aos agri-
cultores. Obviamente a lguns conteúdos da utopia de Platão
provieram deste es quema, mas isto é outra história.
2. SOBRE OS ESPAÇOS NA HISTÓRIA

Evidente que o tema da contraposição e das relações entre


a vida pública, simbolizada aqui pela praça, e a vida privada,
simbolizada pelo jardim, nos levaria a divagações c derivações as
mais diversas. É um tema fascinante, e um modo de disciplinar a
reflexão sobre ele consistirá em dar-lhe um tratamento histórico.
Ele é necessariamente histórico. Seria inclusive válido, sem em-
bargo de parecer uma idéia "fácil", tentar entender a história como
história dos espaços, história das relações entre culturas e espaços,
c do modo como os homens vêm utilizando o espaço.
Poderia inclusive mencionar alguns estudos que abordam o
assunto . Entre eles o de Paul Claval, relativamente recente,
Espaço e Poder 1, no qual se colocam alguns temas centrais,
inclusive o das conexões entre o poder e a administração dos
espaços, mas sem situar devidamente- a nosso ver, ao m enos-
certas questões prévias, dentre as quais o próprio fato da distin-
ção vital entre os planos em que se "desdobra" o espaço social.
Ou ainda o livro muito importan te de Jürgen Habcrmas sobre o
chamado "espaço público"2, um pesado e complexo ensaio de

1. E spaço e Pocl.er, lrad . W. D u lr~ , l1io de Jan eiro, Zaha r, 1!)70.


2. S trukl.urwnndcl der Offcnt.lic hkcil , lrad. francesa L'l!:.~pnce public - Archéologie rlR.lapublicité
18 O J ARDIM E A PRAÇA

análise das relações entre a esfera pública c as características morfológicas, po!'


da sociedade moderna. lembrar a distinç.ã
Parece desde logo evidente que o "organizar-se", desde as
primeiras experiências grupais do ser humano, foi sempre, em
parte ao menos, um problema de distinguir lugares, valorizando
uns e abandonando ou evitando outros, e de construir espaços, vari ações do "tiptJ
demarcando porções do território e amontoando pedras com fim Incsn1o p elas estr"
simbólico ou utilitário. Os horizontes sempre foram espaços, os ficação, o dos pa
céus também, e o próximo se insere em algum ponto do espaço. econômica, da j\.lri
Amor e ódio se situam como formas de estar diante do próximo, Ao fal ar em
e as armas sempre se classificaram conforme seu alcance em que esta ú ltima
termos de espaço. Os laços de pArentesco, tão caros a certos que foi iematizad=.
antropólogos como estruturas reveladoras, se compreendem clemnsiado fis:~L=w....
como linhas que interligam pessoas e grupos, aproximando/afas- m os em pregar .,..,..,_
tando, como que em termos de espaço . a os da dos h istv!":.
D emarcar .o tempo e demarcar o espaço foram certamente E ao alucb'
necessidades primordiais para todos os grupos humanos desde
os inícios. O t empo teve (como ainda tem) ele ser tomado como "ger a l", isto é o,;:
um outro espaço, e de ser assim cortado em pedaços: até certo tal imagem pode
ponto serviram para isso as repetitividades fornecidas pela prÓ· viver pessoal, q'.le
pria natureza, nas estações do ano e em outros tipos de ciclos vência m a is ínt~
biológicos. Os maias, em uma imagem bastante curiosa, imagi· N est e plan o se.:
naram a figura mítica dos "carregadores" do tempo, incumbidos ambigüidade do
de levá-lo e transportá-lo em seu interminável percurso . sempre se enten
Deste modo espaço e tempo, considerados na crítica kantia· tamente ligado ,._
na da razão como categorias a priori do entendimento, funciona- domésticos ~àe ~
ram desde as primeiras sociedades como pontos de referência do
viver concreto. Ou, por outra, como dimensões objetivas do mun-
do circundant e e também ela existimcia social. Dimensões no
sentido de pla nos, onde se intercalam níveis, o que significa a
possibilidade do desdobramento e das hierarquias. O espaço e o
tempo foram ocupados, desde os começos, com interdições e
obrigações, com o fazer e o não fazer, dias fastos e dias nefastos
entre os romanos, interdições e tabus entre diversos povos. O h á qu em pense -
convívio social, unitário e genérico sob certo prisma, sob outro se d i..-isão das part
apresenta diferenciado, recortado por dentro pelas diferenças de Ao falar na
ocupação, pelas castas ou pelas classes, por concentrações demo-

conw re dimension conslilutiuede la sociélé bow gcoise- Paris, Payo l, 1D78. par;:e em que ::oe
SODRE OS ESPAÇOS Ni\ EIISTÓ/1/i\ 19

morfológicas, por estrutur as e relações específicas. Compete


lembrar a distinção famosa, devida a Toennies, entre as comu·
'"'c:-ganizar-se", desde as nidades, com relações sociais diretas e espontâneas, e associe·
h~ano, foi sempre, em da eles, com relações complexas e indiretas. Lembrar também que ···-;
~ :ugares, valorizando todo o século XIX se ocupou um pouco com estes temas: o elas
_.., e de construir espaços, varinções do "tipo social", criadas pela divisão do trabalho (ou
- :oando pedras com fim mesmo pelas estradas no entender de Demoulins), o da estrati-
ficação, o dos padrões c formas da vida religiosa, bem como da
econômica, da jurídica, ela familiar.
Ao falar em planos da vida e do "espaço social", vale anotar
que esta última expressão não vai empregada, aqui, na acepção
que foi tematizada por uma certa sociologia, respeitável mas
demasiado fisicalisla, durante determinada época. Aqui tenta-
mos empregar umn configuração mais existencial e mais ligada
aos dados histórico-culturais.
E ao aludir aos planos do viver, t ambém indicamos com isto
uma alternativa elementar, aquela que se dá entre o viver
"geral", isto é o viver de todos (ou com todos, na medida em que
t::~ l in1Rgem pode caracterizar-se), e o viver consigo mesmo: o
viver pessoal, que é o privado e que consiste no plano da convi-
vência mais íntima, mais direta, correlata do existir individual.
Neste plano se situa a posição da família, apesar de uma ce:~a
ambigüidnde do fenômeno. Refiro-me ao fato de que a fam1ha
sempre se entendeu como concentração do existir p rivado, dire·
tamente ligado aos afetos mais pessoais e aos componentes
domésticos (de domus, casa); e de que entretanto as constelações
familiares parecem ter gerado em certos povos as comunidades
maiores, passando-se do clã ao Estado ou das fratrias à polis. O
tema nos levaria a mencionar o dilema de Platão ao pretender
par a o homem p úblico a ausência da família, fonte de egoísmos;
mas também a lembrar que hoje alguns juristas acham que o
"direito de família" não é b em uma parte do direito privado,
ficando em un1a r egião entre este e o público, ou antes- segun do
há quem pense - demonstrando a inoperância desta clássica
divisão das partes elo Direito. Ou ao menos sua crise.
Ao fAlar na "vid a com a família" será interessante pisar um
pouco no terreno da crise do conceito de família, atingida pelo
lado privado e pelo lado público de sua estrutura; alcançada na
parte em que se ligava às tradições religiosas pelo processo
20 OJARVIM EA PRAÇA

histórico chamado de dessacralização da cultura. A crise da


família tem tido o que ver com uma série de coisas, que correm
por conta do racionalismo e das modernizações; com coisas posi- 3. AL
tivas c coisa s questionáveis. Com a queda do princípio "virgin-
dade" c com a imagem monolítica e "indissolúvel" do casamento,
mas também com a diluição das estabilidades que davam ao
existir privado uma demarcação e uma dignidade muito valiosas.
As liberações e o relalivismo, peças importantes na experiência
histórica do homem moderno, têm tido como preço a perda dos
pontos de r eferência que balisavam a vida privada, em si m esma
e em suas conexões com a dimensão püblica, desde séculos, senão
milênios. Digo que também nessas conexões, porquanto as dilu-
ições, a que me refiro e que fragmentam a ordem tradicionr-tl, têm
o que ver com a reformulação das relações genéricas entre a
dimensã o pública e o plano privado do viver. E ao mencionar as
coisas que se perdem, ao mencionar a ordem familiar que se
desmonta, faço alusão ao gradativo desaparecimento da casa
(voltarei ao assunto mais adiante): a "casa de moradia" e o
modelo tradicional de família não poderiam sobreviver um sem
o outro .
Quero dtar aqui, ele passagem, um texto altamente suges-
tivo c inqui0tante de Leszek Kolakowski, que se r efere à impla- organ1zaçoes ;;n.:-
cável dest:.:·uição, nas década s mais r ecentes, das formas culturas "cláss!~ ~
tradi cionais do viver. Destruição que inclui o fim do "espaço série de temas u=
huma no", envolvendo o apagamento das noções ele casa de famí- torno de dados~.:.
lia e ela própria origem natal, bem como a antiga c fundamental plo a dualidade ~ê
noção de infância3 •

langes em sua~
r eligião, com se...s
dário; a famHia ·
fogo sagrado s.:,~:::
lo, contradição _
família (e não era
parte da cidade,
plementaridade.
gentes, ficou cc::::.._
possuímos da-~
3. "'A i\ ldcia Tnalca llçávcl", e 111 1\ncontros lnlcmaciorwis da UnB, Tirnsilin, 1080. sentido geral de
cr1se da

~ações; com coisas posi- 3. AINDA SOBRE OS ESPAÇOS NA HISTÓRIA


::::Eda do princípio "virgin-
- ·-::solúvel" do casamento,
::1dades que davam ao
d::gnidade muito valiosas.

~da p:rivada, em si mesma


_ _!.:a, desde séculos, senão
-:e:r:ões. porquanto as di lu-
~ a crdem tradicional, têm
ões genéricas entre a

casa de moradia" c o
·am sobreviver um sem
Aludimos acima ao desdobramento desses dois planos, dir--
sc-ia dois momentos, do viver (o público e o privado) dentro das
organizações grupais mais recuadas. Agora nos referiremos às
, recentes, das formas culturas "clássicas", especialmente à greco-romana. Há uma
mdui o fim do "espaço série de temas um tanto conjecturais a considerar, inclusive em
- "noções de casa de famí- torno de dados já registrados pelos estudos históricos: por exem-
a antiga e fundamental plo a dualidade de cultos, que ocorreu tanto na Grécia quanto na
Roma antigas, o culto público e o culto privado. O tema foi, desde
1867, tratado com erudição e persuasividade por Fustel de Cou-
langes em sua sempre notável Cité Antique. A cidade tinha a sua
religião, com seus ritos e seus símbolos, suas festas, seu calen-
dário; a família tinha seu culto, com sua alusão aos mortos, seu
fogo sagrado, seus altares. Não havia, e é interessante assinalá-
lo, contradição entre os dois planos: o indivíduo integrava a
família (e não era imaginável sem isso), e ao mesmo tempo fazia
parte da cidade, cuja razão de ser eram os cidadãos . Esta com-
plementaridade, característica dos próprios conceitos então vi-
gentes, ficou como elemento essencial dentro da imagem que
possuímos da "antigüidade", constituindo um elos traços daquele
- l:'z:D, BrJ.Silia, J!JSO. sentido geral de equilíbrio que atribuímos ao mundo clássico.
22 O JARDIM E A PRAÇA

Há algumas questões que parecem permanentes, e que cionadas inclusi.;·e


ressurgem quando nos debruçamos sobre o panorama das cultu- costume ele se da.~
ras ditas antigas, em sua respectiva fase "antiga", isto é, em seu
período de formação, no qual se estruturam formas sociais, espécie de crise, ou
formas lingüísticas, valores e imagens fundantes. Caberia por vida, assim tambéz.
exemplo pensar na relação entre a dualidade jardim praça e as so que modernam.:
formas de estratificação social. Evidentemente a vivência das série de crises, deE
praças por parte das classes altas terá sido sempre diversa da sobretudo) como
vivência por parte das classes baixas: a construção mesma dos interrogações n ovas...
"logradouros" foi sempre obra da classe dominante. Só que em O que se tem
alguns contextos, determinadas praças serviram às aristocra- elas estruturas e .! ..
cias como local de presença festiva ou cerimonial, e em outros através ele) longvs c
elas foram como que evitadas pela aristocracia e d eixadas à plebe predomínio da d i....-
para fesLas ou para a simples ocupação cotidiana. a compreensão da
Por outro lado seria o jardim, ao menos em sua expressão partir elo parale:!..-
mais requintada, uma criação elas classes altas ("classes" no macht frei, dizia-se
sentido mais amplo e flexível do termo); um prolongamento elas que, com a dinãm:
intenções espaciais contidas na casa, algo como um lugar espe- cidades, desencad
cífico de "meditação" ou de refúgio pessoal. A criação de jardins, vivência, os confJ.i· -
espaços privados, deve ter sido mais um símbolo das diferenças
sociais, e por outro lado mais um elemento de distinção entre
área pública e área privada: grades e muros, a circundarem o
jardim e simultaneamente a prendê-lo à casa, terão sido bastan- conjunto de rev;:; ..
te distintos da abertura das praças, lugares "de fora" (fora das denomina por con~
casas, como o explícito forum latino), e terão delineado com consolidar-se, den
nitidez as reservas de privacidade instaladas para si p elos pa-
triciaclos.
Com a referência a estes problemas, entretanto, vale inter-
calar aqui uma alusão a um fato de caráter muito genérico, um
desses acontecimentos centrais cujos contornos são certamente com espaços para
conjecturais, mas cujo significado para a evolução histórica é coisas deste tipo. As
básico. Trata-se do advento da vida urbana, profunda alteração foi transportada y.u
ocorrida em momentos distintos dentro daquela evolução - a te a colonização !a:
variar conforme os contextos -, a partir da prévia transição do das sólidas abad..as
"! ..: nomadismo para a "revolução agrícola", e em correlação com o substituídas pe:as
surgimento elas primeiras instalações fortificadas. Em correla-
ção portanto com a fixação da divisão das ocupações, com a
formação das línguas, com dezenas de definições iniciais, rela-
l
IITNDA SOBRE OS ESPAÇOS Ni\ IITST6RJi\ 23

m permanentes, e que cionadas inclusive com os começos do intrigante e fascinante


s_l:_'"t o panorama das cultu - costume de se darem nomes aos lugares e às coisas.
E da mesma forma que tudo isso deve ter constituindo uma
espécie de crise, ou de ruptura, em face dos modos anteriores de
vida, assim também veio a ser o ponto-início de um largo proces-
so que modernamente veio desaguar em outra crise, ou em uma
série de crises, desatadas dentro do mundo dito ocidental (dele
-c i sido sempre diversa da sobretudo) como uma constante e como um referencial para
-:· a construção mesma dos interrogações novas.
~ dominante. Só que em O que se tem hoje como crise é de certo modo a saturação
das estruturas e dos resultados da própria vida urbana, após (e
através de) longos e complicados percursos. Se por um lado foi o
predomínio da dimensão urbana que ensejou por parte de muitos
a compreensão da própria história como história da liberdade, a
menos em sua expressao partir do paralelismo entre vida urbana e vida livre (Stadtluft
c::tasses altas ("classes" no macht frei, dizia-se na Idade Média), foi por outro lado verdade
:illl prolongamento das que, com a dinâmica das a lterações históricas, centradas nas
rugo como um lugar espe- cidades, desencadearam-se as dificuldades e os dilemas da con-
-o;;na:. A criação de jardins, vivência, os conflitos maiores, inclusive- acentue-se- no tocante
- "G:::::l símbolo das diferenças às relações entre vida pública e vida privada.

- e muros, a circundarem o No ocidente intitulado moderno, que se m1c1ou com um


_ à casa, terão sido bastan- conjunto de r evoluções culturais e sociais (que em geral se
.:agares "de fora" (fora das denomina por conta de uma delas, o "Renascimento"), veio a
_ . e terão delineado com consolidar-se, dentro do acervo de imagens que chegaria até
.=..::,-taladas para si pelos pa- nosso século, a figura elas grandes casas senhoriais. O modelo,
em si, seria oriundo da Idade Média: tais casas sempre foram
uma espécie de miniaturas de castelos. Havia nela s, entretanto,
sobretudo a partir do Barroco, uma pretensão de imitar palácios,
com espaços para quadros e vitrais, escadarias ornamentais e
coisas deste tipo. As grandes casas, de cujo modelo alguma coisa
foi transportada para as residências rurais das Américas duran-
te a colonização, foram de a lgum modo também continuadoras
das sólidas abadias e dos "fortes" feudais. Foram por sua vez
substituídas pelos chalés oitocentistas, e depois, em nosso sécu-
lo, pelos ambíguos "palacetes" e pelos duvidosos "bangalôs".
~.;;.o
das ocupações, com a A grande casa, proveniente do absolutismo e depois corres-
é:e definições iniciais, rela- pondente à perduração da nobreza, revela o inegável sentido de
espaço e de projeção espacial, peculiar ao ancien régime. Casas
24 O JARDIM E i\ PRJ\Çi\

com terraços e páLios, porões, desvãos, andares superiores, pin- (inclusive a plaza .,...
turas n as paredes, colunatas e cavalariças (o pátio, la cour, afim Latina), entendida
ao dos conventos, fazendo pendant com o jardim). Trata-se da
casa cuja figura, por vezes pouco definida e também pouco Quanto aos :a::
esbelta, mas expressiva, aparece caracteristicamente na pintura elas - ao século :x=':
dos séculos XVII a XIX, tanto nos ambientes rurais - aquele europeus (refiro-r:::.e
ambiente inconfundível dos desenhos franceses, bem como do Comilança), certo;;
Moulin de Pontoise de Corot - quanto nos urbanos . No ambiente século passado, ou
urbRno há variáveis que vão das empertigadas fachadas de e as ironias dos ~
Canaletto às casas ditas normandas. De qualquer m a neira a V ai aqui out!"a
presença dessas casas nos perímetros urbanos denota, durante de jardim" foi sub
ccrLa fase sobretudo, a residência de senhores de terra que Viena Fin-de-Siec
possuem propriedades no campo mas mantêm um imóvel à sua Ao mencionar o rc
di sposição na cidade. o historiador se - -
Este tipo de edificação se acha magnificamente descrito no destacan do o confr-
Gattopardo de G. Tomasi di Lampedusa, justamente o palácio e a que se aprese~::
da família Salina em Donnafugata, que possuía "sete janelas personagem princi
sobre a praça" e que por dentro apresentava uma enormida de ele havia um jardim
quarlos, escadarias, salões e tudo o mais. Aliás o livro começa de tr::tnqüilo d o
com a descrição ele um jardim muito característico, e por sua vez estético raciona: e _
a praça de Donnafugata, mencionada no capítulo li ("vasta,
sombreada por plátanos poeirentos"), aparece como a lgo melan-
colicamente provinciano, algo ancorado no tempo como um espa-
ço romanesco perdido sem remissão.
Ainda a propósito das grandes residências das famílias da
nobreza, seria interessante observar que o absolutismo europeu
condicionou um emprego correlato do termo casa, na acepção de
dinastia (casa elos Áustria, casa de York, casa dos Bourbon), uma
acepção evidentemente muito antiga, herdeira de todas as lin-
guagens palacianas da história. O termo foi u sado também para
aludir às Casas do Parlamento inglês, a dos Comuns e a dos
L ordes. E com isso se teve um curios o entrelaçamento d a dimen-
s ão pública (política) com o plano privado: o reinado de tal ou
qual casa, na pessoa de tal ou qual governante, era um d ado
""... institucional e entretanto consagrava a eficiência do matrimônio
monárquico.
Por outro lado, àquele tipo de casa (correspondente às
m ansões da nobreza urbanizada), a ela e ao s eu jardim se
contrapôs, no mundo barroco, a praça principal das cidades 1. 'l'rad. Denise Botun-.
AIND,\ SOBRE OS ESPAÇOS NA H!S1'6RIA 25

.:: andares superiores, pin- (inclusive aplaza mayor trazida pelos espanhóis para a América
-:ças (o pátio, la cour, afim Latina), entendida como centro do recinto urbano .
.x- o jardim). Trata-se da
de5n.ida e também pouco Quanto aos jardins dessas vastas casas, eles chegam- com
;e~_sticamente na pintura elas - ao século XX, copiados ou conservados. E em certos filmes
_"T.bientes rurais - aquele europeus (refiro-me inclusive ao Jardim dos Finzi Contini e à
,. i"ranceses, bem como do Comilança), certos ângulos de velhos jardins de casas do fim do
:::.:üs urbanos. No ambiente século passado, ou do começo do nosso, sublinham as nostalgias
H:i:ipertigadas fachadas de c as ironias dos diretores.
" De qualquer maneira a Vai aqui outra anotação. A importância de uma "vivência
urbanos denota, durante ele jardim" foi sublinhada por Carl Schorske em seu belo livro
-<= senhores de terra que Viena Fin-de-Siecle 1, no capítulo "A Tansformação do Jardim".
~ mantêm um imóvel à sua Ao mencionar o romance Der Nachsommer, de Adalbert Stifter,
o historiador se detém sobre alguns elementos ela narrativa,
destacando o confronto entre a educação burguesa, ali retratada,
-...sa, justamente o palácio e a que se apresenta em Flaubert. Alude então ao encontro do
_e possuía "sete janelas personagem principal com a herdade chamada Rosenhaus, onde
:....-.-a uma enormidade de havia um jardim bastante significativo, oferecendo a impressão
ele tranqüilo domínio da natureza, ordenada segundo um plano
estético racional e pedagógico.

~o absolutismo europeu
~o casa, na acepção de
- casa dos Bourbon), uma
herdeira de todas as lin-
_-o foi usado também para
.:_• a dos Comuns e a dos
E'ill-:!"elaçamento da dimen-
do: o reinado de tal ou

~ (correspondente às
_ e!a e ao seu jardim se
=;xz principal das cidades 1. Trnd. Denise l.luLLmunn, Campinas, Siio Paulo, ~d. Unicrunp - Compnnhia das Lclrus,1988.
4. ACASA COMO TEMA HISTÓRICO


#'

O tema da casa, ligado óbvia e indissoluvelmente à proble-


mática da privacidade e da "intimidade", demandaria por certo
uma série de digressões . Não seria desperdício verbal aventar a
idéia de uma evolução da casa como testemunho (ou correlato)
ela evolução das formas sociais e também das formas da autoi-
magem do homem: tanto se tomarmos globalmente as diferenças
sociais, incluindo nelas a divisão de posições e funções, quanto
se levarmos em conta os estágios da experiência religiosa e da
própria "arte", com seus padrões e seus estilos. O que se edificl'l
para a privacidade é evidentemente uma parte muito especial
da instalação do ser humano no mundo, uma parte que exprime
em termos concretos e particulares (contraprova do abstrato e
do genérico) o próprio ser do homem, com suas fraquezas e seus
prolongamentos . O viver social consiste e subsiste em várias
dimensões, e uma delas ocorre nas casas: as sociedades ao
emergir para certo nível histórico são cidades, e as cidades
constam de casas, colocadas em ruas. E como as ruas - como as
praças- são já outra dimensão, ::t pública, eis que o plano público
e o privado se tocam, se completam, se complementam. Aliás o
caráter de determinados atos nem sempre se prende ao fato de
o agente se encontrar em sua casa ou em logradouro público.
28 OJIIJWJM E A PRAÇ:A

Pode-se, estando em casa, desempenhar uma tarefa com sentido (um tanto em contlõ
público, como se pode defender interesses privados atuando em cação espacial ou-.
recinto público. pela nobreza dom·
Deixamos de lado o problema grave e nebuloso de saber se Sobre o prob: ..
a vida pública surgiu "depois" da vida privada, ou se ambas necessariamente ao·
resultam de um desdobrar-se de formas; se primeiro foi o todo, instituições, nas p:-
o conjunto, e depois o espaço pessoal. livros de orientaçã o
Sobre a temática da casa anotou Gastou Bachelard, em seu Regis Debray, O E
livro J1 Poética do Espaço!, a analogia entre a casa e o cosmos, Morin, O Paradig~
não apenas quanto à estrutura, portanto ao aspecto espacial, influências marxis: _
mas também quanto ao problema temporal: inclusive porque a dindo inclusive à ;-
carga de tempo que passa por uma casa se integra na própria iniciais, onde pro-..·a
imagem que dela possuem seus habitantes. sua grande casa, em
Este é de fato um tema rico de sugestões. Os arquétipos e crescentement e al
as exemplaridades legados pelas diversas civilizações, sobretudo os escravos. No see
pelas épocas aristocráticas cle cada uma delas (admitindo que a serviço da indag
em cada grande ciclo cultural tenha havido uma época, geral- de sociedades se S'
mente inicial, dominada pela nobreza), ficaram como marcas por con1eços, n1as a h i"' •
assim dizer definitivas. Sabe-se que Édipo foi castigado inclusive dos, que eran1 org -
por haver violado a ordem das coisas, o equilíbrio elo mundo, e o Certo que n ãc e
que certos autores enxergam no conflito entre Creonte e Antígo- lógicos, fundamer.- -
na é que a legislação daquele desrespeitava a "natural" correla- se encaixam, com -
ção entre as leis do cosmos e as normas ela coneluda humana. testemunhos. Deve·
Entretanto, a idéia de casa não configura apenas o lugar físico
do morar, idéia fixada a parLir da morada das grandes famílias ter havido, nas m on.
iniciais, mas também os conceitos específicos de "berço" e de grandes realeza s ::--;::,
"teto". São conceitos vinculados aos valores feudais, ou seja, fundou muitas cal"'~
vinculados à imagem do sangue e também à noção de "origem": ao seguinte: temos
ter teto e berço, ou por outra ter eira e ter beira, foram sempre clássicas do pensa=
marcas de nobreza dentro dos contextos feudais ou para-feudais. que os grupos h um-
Marcas qualificadoras, fora das quais, como algo excluído, fica-
vam os plebeus, os não-patrícios. Observemos outra coisa: como
a casa é o pouso, e ter casa sempre significou possuir um espaço
definido, as épocas aristocráticas sempre desconfiam do homem
errante. Ele é um marginal, a não ser que seja um santo.
Compreende-se então que a "burguesia", que em seus inícios
revelava certas forn1as erradias de viver, ou ao menos de vender
2. O l!:scríb<l - Gên ese do
I. 'I'rud. brus., llio de Jnnciro, Livrariu Eldorado 'l'ijuca, s.d.
il CIISJ\ COMO TEMA JIJSTÓRJCO 29

-::bar uma tarefa com sentido (um tanto em contradição com o fundamental sentido de demar-
cação espacial ou "urbana" que lhe correspondia), fosse mal vista
pela nobreza dominante.
Sobre o problema das "primeiras formas urbanas", qu e
necessariamente acode quando se coloca o tema das origens das
instituições, nas primeiras culturas, vale registrar aqui dois
livros de orientação distinta mas ambos interessantíssimos: o de
Gaston Bachelard, em seu Regis Debray, O Escriba - Gênese do Político, e o de Edgard
~ en t re a casa e o cosmos, Morin, O Paradigma Perdido2 • O primeiro, baseado sobre certas
um.t o ao aspecto espacial, influências marxistas, coloca questões muito provocativas, alu-
:e,....,por a l: inclusive porque a dindo inclusive à possível disposição espacial d as estruturas
casa se integra na própria iniciais, onde provavelmente o senhor habitava o Centro, com
sua grande casa, em redor da qual se achavam, como em círculos
sugestões . Os arquétipos e crescentemente alargados, as famílias nobres, os homens livres,
as civilizações, sobretudo os escravos. No segundo temos a antropologia (física e cultural)
t=ma delas (admitindo que a serviço da indagação sobre origens: para Morin diversos tipos
ha\ido uma época, geral- ele sociedades se sucederam como camadas formativas desde os
z:.>. ficaram como marcas por começos, mas a história propriamente dita surgiu com os Esta-
Edipo foi castigado inclusive dos, que eram. organizações específicas.
' o equilíbrio do mundo, e o Certo que não é fácil, em termos antropológicos ou arqueo-
--~entre Creonte e Antígo- lógicos, fundamentar ele modo positivo estas alusões; mas elas
~:~ava a "natural" correla- se encaixam, com sentido bastante inteligível, em uma série de
::zn:as da conduda humana. t estemunh.os . Deve ter havido, com efeito, a presença ela casa no
:ig"".n-a apenas o lugar físico m eio elas formas iniciais: a casa maior c as casas menores . E eleve
:rada das grandes famílias ter havido, nas monarquias primordiais, que se prolongaram nas
E.Epecíficos de "berço" e de grandes realezas pos teriores, um conteúdo de significações que
:; valores feudais, ou seja, fundou muitas coisas, desde então permanentes. O que equivale
.-:.::lbém à noção d e "origem": ao seguinte: temos ele reconhecer que a m aioria elas categorias
e ::er beira, foram sempre clássicas elo pensamento c da organização provém do t empo em
"feudais ou para-feudais. que os grupos humanos possuíam reis c rainhas.
""• como algo excluído, fica-
~ervemos outra coisa: como
- .,..., .ficou possuir um espaço
e desconfiam do homem
ser que seja um santo.
-~-ia·', que em seus inícios
... er, ou ao menos de vender
2. () I~Rcriba- Gênese do l'olitico. Tn"l. M. de Cns lro, n io dc:.Jandro, T!ctour, 1983. Lc Paradigme
perdu, lutwlur e Jw maine, Seu i I, Paris, 1973.
5. VIDA PúBLICA E VIDA PRIVADA

As coisas que simbolizam o lado público e o lado privado da


vida podem ser arroladas segundo critérios bastante diversos.
Entretanto, sempre se pode situar o encaixe existencial de certos
objetos, conforme a correlação com aqueles lados. Deste modo
teremos em um sentido a cama e a mesa, a poesia lírica, o direito
privado, a psicologia, o médico de família, o jogo de cartas. Em
outro o comércio, a forca, a saúde pública, a b urocracia, os
bancos, o direito público, o circo, a poesia épica . Ou ainda,
refazendo a estampa, a sala, o leito de morte, o banho, o punhal,
os tapetes, os cosméticos; ou então o mercado, a espada, as
estradas, os templos, a política. Poderíamos pensar na evolução,
uma possível e conjecturai evolução dos âmbitos privados ao
espaço público; e aí o trânsito elo dinheiro privado aos dinheiros
públicos (embora seja válido pensar num trajeto oposto), bem
como a evolução dos cemitérios privados aos cemitérios públicos.
E aqui teríamos o jardim como correlato do foye r, ou ela "lareira";
depois, a evolução do culto doméstico ao culto público.
Também a dimensão sexual da vida, no sentido mais amplo
do termo "sexual", se acha relacionada ao dualismo público-pri -
vado. O jardim., inclusive como boosco deleitoso (e/ou reminiscên-
cia do paraíso), sempre serviu ele cenário acolhedor e conivente.
32 O JARDIM F: i\ PRAÇA

Podem-se recordar os casais famosos da literatura e da arte, com O problema a.


seus momentos no jardim: Romeu e Julieta, Fausto c Margarida, n1.o", termo que se-
.1\!fário e Tosca. Talvez coubesse aventar que no jardim se ence- demais ora eufe ~
nam os amore s não "publicáveis", não (ainda não) passáveis à inclusive com o :.:, -
praça. Seria o caso ele distinguir entre suicídios no jardim, mais Rougemont sobre -
recolhidos, mais discretos, elos suicídios na praça, mais dramá- da história elos ,....
ticos. Em Proust, em certa passagem do Caminho de Swann, há
uma referência ao caráter "mitológico" do Bois ele Boulogne.
Encontramos n o livro ele Paul Veyne, A Elegia Erótica
Roma.na 1 , o problema elas relações entre a publicidade, rep resen-
tada pela literatura, que revela e divulga situações pessoais (a "personalidade'". -
poesia lírica por exemplo), e a viela privada. Para Veyne, os volução Fran cesa.
autores antigos não se expunham, não revelavam facilmente sua menos roup as, d -
verdade pessoal, mesmo nos textos literários escritos na primei- que iriam oscilar a·
ra pessoa; na literatura moderna é que a "sinceridade" sentimen- De fat o o P-
tal se teria tornado mais corrente e mais perceptível. participa da área;.....
esta e reflui des:a
Caberia questionar, passando a um assunto afim, sobre até
lar. A tradição CO-
que ponto o que se chama "vida sexual" constitui realmente ou
e t raje ele r ua,
totalmente uma coisa privada.. Evidentemente a idéia provém
do caráter íntimo das atividades sexuais específicas, que sempre
se consideraram próprias para ocorrer "entre quatro paredes".
Contudo a família e os vínculos biológicos são em todas as
civilizações algo ostensivo, c mesmo os "caracteres" sexuais
externos se confirmam em todos os povos através do traje e ele
outros símbolos. O problema corresponde certamente a uma
m e" de cer tos re~
variável histórico-cultural, havendo, é claro, ponlos extremos e
r epente que aque e
graus intermediários . Um extremo, o puritanismo vitoriano,
sentido de t udo ~-­
en gendrador de hipocrisias e repressões, com as pessoas cober-
gcm, que é pr ojeç.ã
tas d e pano dos pé s à cabeça e com mil eufemismos na linguagem;
a fixar n a climen.sã
outro, o u so de formas obscenas na antiga cloçaria de certas
regiões européias, ou en t ão os atuais espetáculos de "sexo explí-
cito", senã o mesmo o nudismo, inclusive o das praias de hoje.
Lembro-me do ens aio de Aldous Huxley "Modas em Matéri a
de Amor", inserido em seu livro Do What You Wilf2, onde alguns
problemas correlat os se acham colocados.

I. A ~ll!gia E rólim Uomana. O Amor. a l'oesia. e o Ocid.enle, Siio Paulo, Brasiliense, 1085, p. 252
c ss.
2 . Trad. Lnts . Salânicos e Visionários, Rio de J aneiro, American a , 1075. 3. 'l'rad. T•. W•tlnnabe. S.:..-
VlD11 PÚBLTC11 E VIDA PRIVADA 33

ti:eratura e da arte, com O problema do sexo se desdobraria aqui no tema do "erotis-


&a Fausto e Margarida, n1o", termo que sempre me pareceu um tanto ambíguo, ora amplo
que no jardim se ence- demais ora eufemístico. Sobre o erotismo muito se tem escrito,
(ainda não) passáveis à inclusive com o livro ele Georges Bataille, e com o de Denis ele
~icídios no jardim, mais Rougemont sobre a "história do amor no Ocidente". Ou se trata ..,.
.:::na praça, mais dramá- da história dos modos de amar no sentido psicológico, ou o "'
_.: Caminho de Swann, há assunto são formas ele "expressar" o amor, inclusive em suas
do Bois de Boulogne. projeções estéticas; e por aí deslizam as ambigüidades.
·eyne, A Elegia Erótica Recentemente Richard Sennett, em seu livro O Declínio do
a publicidade, represen- Homem Público3 , colocando o problema da exibição pública da
__ga situações pessoais (a "personalidade", tratou da evolução elas roupas a partir daRe-
~.-:ivada. Para Veyne, os volução Francesa: com o Termidor, as mulheres resolveram usar
re:r-elaYam facilmente sua menos roupas, desnudando-se mais e iniciando ciclos de moda
Ei"á.-ios escritos na primei- que iriam oscilar até nosso século.
a · s:nceridade" sentimen- De fato o problema das vestes, como o da vida sexual,
" perceptível. participa da área privada e da pública: projeta-se daquela sobre
t.Ssunto afim, sobre até esta e reflui desta para aquela, como em um movimento penclu-
.:-.onstitui realmente ou lar. A tradição c01·rcsponde a uma distinção entre traje de casa
:::emente a idéia provém c traje de rua, distinção que se acentua nos contextos mais
.-específicas, que sempre formais, e que o professado "informalismo" de nossos dias ainda
·er:.tre quatro paredes". não conseguiu extinguir de todo. Um pedaço de pano pode alterar
• •g:cos são em todas as o "efeito" da figura humana, e nas civilizações mais conhecidas
- "caracte1·es" sexuais a dignidade social sempre corrcsponde a um tanto mais ele tecido
" através do traje e de ou de adornos sobre o personagem. Recordo uma passagem de
-nde certamente a uma Anatole France em que alguém, olhando com enlevo o ar "subli-
claro, pontos extremos e me" de certos retratos ele intelectuais românticos, observa ele
puritanismo vitoriano, repente que aquele ar dependia de uma escova de cabelos. O
-. com as pessoas cober- senLiclo de tudo isso é o seguinte: somos socialmente uma ima-
-:;femismos na linguagem; gem, que é projeção do ser real através de expletivos destinados
...:!t::ga doçaria de certas a fixar n a dimensão pública os caracteres da individualidade .
_ L:áculos ele "sexo explí-
.e o das praias de hoje.
::xley ·')..Iodas em Matéria
t You WilF, onde alguns

Paulo, Brnsilicnsc, 198fi, p. 252

IF=~ma. !915. 3. 'l'rnd. L. W"t.11nnbc, São Pnnlo, Companhia das Letras, 1988, cap. 8.
6. DOS JARDINS À ORDEM PúBLICA

....,.

No meio da profusão de imagens com que representamos a


"história antiga", em especial sua parte que se entende com o
rótulo de "mundo clássico", encontra-se com certa constância a
figura dos jardins. Jardins orientais, registrados na pintura e na
literatura, quase confundindo-se com oásis e com o vago mistér io
dos muros árabes . Os jardins da Pérsia; os do Egito, que P ierre
Grimal, no pequeno livro L'Art des jardins, afirma terem sido
verdadeiros asilos da vida privada. Os famosos jardins da Babi-
lônia, incluindo os da princesa Semiramis, os quais impressio-
naram aos gregos mais pelo arrojo do que pela beleza
propriamente. Sempre o espaço privilegiado, e sempre que pos·
sível fechado: o cintamento, a vedação, o acesso através de
escadarias ou passagens especiais. E sempre o sentido de con-
forto e repouso, como em um paraíso (o termo vem do persa, de
um vocábulo que designava "jardim"); o oposto do calor do deser·
to, da vastidão das areias, do "descampado".
Certos povos antigos consideraram alguns ele seus jardins
recintos sagrados. Tratava-se justamente, conforme observou
Mircea Eliade, ele jardins onde se reproduzia em miniatura a
ordem elo mundo, com suas partes e as respectivns funções.
~~ - --~~-- ------

J6 O ,JJIIIDJM E 11 l'Ri1Çt1

De qualquer sorte, ficou desses arquétipos, isto é, com eles,


diante do - --,. ----.
a idéia de que o jardim coloca ou recoloca o homem dentro do
polis.
plano "natureza". Sempre vale mencionar o belíssimo afresco,
que decorava uma sal::~ da Casa de Lívia em Prima Porta, perto
de Roma (e que hoje se conserva no Museu Nacional das Termas),
representando um jardim cheio de pássaros, com flores e romãs.
Do mesmo modo ficou a noção de "cultivar (cada qual) o seu
jardim", noção com certo sentido intimista e talvez biográfico. O
cultivo do jardim, como atividade privada, é algo contíguo à mesa
e aos implementas pessoais, diferentemente elos cultivos agríco-
las, que são externos. O verbo coZere, de onde viria o vocábulo
cultura, é sempre evocado nas etimologias em sua acepção agrí-
cola, mas parece que a acepção privada do "cultivo" não pode
estar fora ela idéia.
Richarel Sennett, no livro O Declínio do Homem Público
(mencionado mais acima), coloca um problema interessante ao
referir a idéia, própria segundo ele dos homens elo século XVIII,
de que a "natureza" e a "cultura" corresponcleriam respectiva-
mente ao privado e ao público. O esquema é sugestivo e chega
perto da verdade, salvo o fato de que o binômio natureza-cultura
só adquiriu vigência depois elo neo-kantismo, e seria impossível
encontrar esta idéia no século XVIII. Mas de fato a "viela privada"
sempre foi vista e sentida como um refúgio, um retorno ao paternal-fiGa:
orgânico, e n este sentido a família sempre foi entendida como parecia des··a..
fenômeno natural: não só pela dimensão biológica, mas pela geral.
significação essencialmente privada. E vid e r.-L.EI::"E~
zaçào como a
Jardins: a imagem clássica, empregando aqui o termo em r elações encre -
conexão com o mundo greco-romano, inclui vez por out ra uma cionais, e ond~
alusão ilustre, que se prende ao nome de Epicuro. O epicurismo,
por sinal uma filosofia que historicamente teve menos fortuna
do que merecia (e que merece ser repensada hoje), tem entre
outros aspectos o sentido de cultivo da vida privada, com seus
prazeres mas também com a consciência dos limites deles. E o
jardim aparece aí como asilo do pensar, não só em face ela
agitação e das vanidades da vida pública mas diante das adver-
sidades políticas (todos sabem que a doutrina do Epicuro, neste
ponto, refletiu o apagamento do poder grego e da política grega):
DOS JARDINS A ORDEM PÚDLTCA 37
-?tf..létipos, isto é, com eles,
loca o homem dentro elo diante elo aniquilamento dos ideais públicos, os da ágora e ela
-~~ o belíssimo afresco,
polis.
~..a em Prima Porta, perto No testamento ele Epicuro figurou com especial destaque a
~...:Xacional das Termas), doação, a Remarco, de seu jardim (e da escola que nele existia).
c::5a...Y"Os, com flores e romãs. O jardim configurou a convivência filosófica, e nisso o epicurismo
cm:h·ar (cada qual) o seu foi herdeiro do platonismo e elo aristotelismo, mas só nisso e no
--.i~...a e talvez biográfico. O sentido pedagógico daquela convivência. De certo modo a doutri-
ada é a lgo contíguo à mesa na de Epicuro expressou também a valorização da amizade, tema
~ente dos cultivos agríco- que seria retomado por Cícero e outros pensadores elo mundo
.:e onde viria o vocábulo clássico . A amizade tem sido realmente uma variável histórica,
;:as em sua acepção agrí- e cabe aqui aludir a isto: ela se delineia sempr e como um
::::::a do "cultivo" não pode componente da vida privada . É como se na vida pública as
alianças e coligações fossem tão somente articulações eventuais
"in:o do Homem, Público ou estratégias objetivas, não penetrando no ser pessoal de cada
problema interessante ao qual: recorde-se que Carl Schmitt, ao considerar que o elemento
::. i:omens elo século XVIII, definidor da política se acha na distinção entre amigo e inimigo,
- -sponderiam respectiva- prendeu o termo inimigo ao latim hostis, não a inimicus, acluzin-
~ema é sugestivo e chega do que se referia ao inimigo público n ão ao privado.
- ·.,...õmio natureza -cultura E mais, quando Platão, que condenava o tipo ele amor que
-::::.smo, e seria impossível os modernos chamariam romântico, preten dia que os guardiães
- !......:;~e fato a "viela privada" de sua cidade tivessem filhos em comum, para que o vínculo
refúgio, um retorno ao paternal-filial não estorvasse a clara visão dos filósofos, ele
""""pre foi entendida como p arecia d esvalorizar também a própria "amizade" em sentido
-.::ão biológica, mas pela geral.
Evidentemente a tematização destas cois as em uma civili-
za ção como a grega (e romana), onde o lado personalíssimo elas
~s-ando a qui o termo em relações entre os sexos pesava menos elo que as normas institu-
mdui vez por outra uma cionais, e onde o intercurso homossexual era mais ou menos
de Epicuro. O epicurismo, corrente, tinha de ser diversa daquela que é possível fazer hoje.
-~:e teve menos fortuna
_ .:c-!l.Sada hoje), tem entre
-ida privada, com seus Retorno ao p roblema do jardim. Sem dúvida o jardim con-
- dos limites deles. E o centra e registra a privacidade retendo uma porção da natureza,
. não só em face da enquanto que a praça vem a ser um espaço aberto na natureza,
mas diante das aclver- senão mesm.o contra ela. Um espaço muitas vezes tido com.o
..l::!""Ína do Epicuro, neste sagrado (morada de um deus, com seu t emplo), quase como um
~go e da política grega): modo ele compensar a violência, ou violentação, que o origina. Na
verdade o jardim é também cu ltural, e o que s e tem são dois
modos de ser elas relações entre o homem e o mundo. Na língua-
.18 OJAJWJM E A PRAÇA

gem de Ludwig Klages, dir-se-ia que o jardim corresponde à


alma, e a praça ao espírito.
A praça, caracterizada em todas as civilizações como espaço
"público", não tira seu s ignificado do mero fato da convergência
de vias "públicas". Ela pode ser anterior às ruas, ao menos
logicamente (ou estruturalmente) anterior. A rua, por sua vez,
possui a mesma essência da praça, posto que todo o traçado
urbano, que na praça se concentra, é a lgo público. A consagração
histórica do fenômeno urbano significa no fundo a consagração
ou consolidação da vida pública. Só que o jardim também terá o
que ver com o fenômeno urbano, mas em outro plano.
Por outro lado, como o termo público, que vem de "populi-
cus"- de populus, povo-, só aparece com os romanos, é obvia-
mente por projeção e extensão que o em:greg!_lmos para designar
experiências ocorridas em sociedades pré-romanas ou em qua·
drantes culturais estranhos ao percurso histórico dos povos
"clássicos".

Caberia dizer, e aqui retomamos as metáforas, que o jardim,


sendo fechado, é lírico, e que a prllça, sendo aberta, é épica. O
j ardim é côncavo, a praça é convexa. O jardim encerra a biogra-
m ente um ~e!:la
fia, a praça a história; um é introvertido, a outra extrovertida.
óbvia condição
Dois momentos, duas dimensões do humano e ele sua projeção t ais. E spaço;; d
nas (ou sobre as) coisas . Dir-se-ia também que no jardim o espaço
se põe em função das plRntas, enquanto que na praça o espaço é
o principal: em função do espaço se colocam árvores e monumen-
tos.
O "ar aberto", atributo da praça, corresponde ao advento do
nível institucional da vida, à instauração de uma ordem. genérica
(e menos "pessoal") elas coisas, ou seja: uma ordem em que os !"estre~ P a!"ece
comportamentos se regulam em função de fins sociais definidos.
daí. passando
O que já levaria ao problema ele não ser, a liberdade, uma
:eor:a pla~nica
descomprometida e anômica permissão total de agir, mas uma
condição social situada. A respeito da concepção grega, por
::!.OS.
exemplo, Max Pohlenz escreveu muito sugestivamente que

a origem da ~on~ei ência da lilx~ rdnd e se acha no domínio privado, no colllrnstc em


<Jlle o "senhor" c sna família se vêem em l'ace elo ser·vidor, CJlle é pal'l.e de seus ueus o
CJ<re não tom dire ito n dispor de si mesmo. A e tnpn seguinte foi a reunião de servidores
ni'io-livres em nma categoria especio l, em l'uce clu qual os ltomcJrs CJUC 11gem por si
DOS JARDINS ;i ORDEM PÚBLICA 39

o jardim corresponde à mesmos serão os "l ivres", sendo que com isso Lomnm plena consciência do que
rept·cscnta para eles o privilégio de intervir nos negócios da comunidade'.

~civilizações como espaço


ro fa;;o da convergência Ao aludir ao "ar aberto", que nos levaria a identificar com
:.enor às ruas, ao nienos a praça a própria cidade, temos de ligar o assunto às diferencia- ...,.,..
~or. A rua, por sua vez, ções que, pelo curso dos séculos, atravessam a distinção genérica
,;_o que todo o traçado
entre o lado "grupal" e o lado "pessoal" da multi milenar expe-
= público. A consagração riência do ser humano. Dentro da politicidade do homem, vemos
!::l'l fundo a consagração
que o an imal propriamente "político" (ou social), isto é, o habi-
·o jardim também terá o tante específico da polis não era a mulher - senão em certos casos
- outro plano. -, era especificamente o homem masculino. A casa era o reino da
:; que vem de "populi- mulher grega, que a governava, como foi o caso da matrona
latina. Daí que nos últimos Lempos da Antiguidade pagã a
filosofia aparecesse como consolação (consolatio): ela "fazia com-
~-romanas ou em qua- panhia" ao homem que perdeu a polis c ficou em casa, que saiu
histórico dos povos da praça e se recolheu ao jardim, diminuído em sua dimensão
pública embora podendo enriquecer-se epicuristicamente em
sua maturação privada .
Detenhamo-nos sobre este ponto. As imagens provenientes
ela hist ória "antiga" - na verdade a história elas primeiras
culturas, Antecessoras da "ocidental" - nos sugerem r epetida-
mente um tema central, o da correlação entre a política, com sua
óbvia condição urbana, e a sacralidade dos espaços fundamen-
tais. Espaços demarcados desde os primórdios como pontos de
referência, e associados, desde cedo, aos parâmetros celestes.
Segundo Mircea Eliade, as cidades no Oriente antigo eram
traçadas e edificadas conforme modelos cósmicos que funciona-
sponde ao advento do vam como arquétipos: as cidades babilônicas, por exemplo, ti-
de uma ordem genérica nham como modelos determinados constelações, e entre os
U!:la ordem em que os hebreus se fa lava em uma Jerusalém celeste, copiada pela ter-
c.e ;.n,s sociais definidos. restre2 Parece inclusive que a noção de uma "cidade ideal" vem
ser a liberdade, uma daí, passando depois por Platão e por Agostinho, e a própria
:c:a: de agir, mas uma teoria platônica das idéias tem que ver com a velha concepção
concepção grega, por que imagina em um "lugar celesle" uma série de modelos eter-
nos.

~-~----f.ri\'1H1o, no conLt-rtstc em
• que é pal'l.c de scns ben~ c
l. 'l'rnrlu ~i mo.s parafraoli~.;<JHH.:ntc segundo n vcr~õo francc~o <lc ~J. Coffinct., J~a T..i lX!rlá Grccque,
foi a reunião de servidores Pnris, Pnyol. 1050, p. 18.
os homens CJII C ngcm por si 2. r.e Afytlw de l'elcrnel relour, Paris, Gallimard, 197S, Cfl]l. I.
40

A exemplaridade assumida pelas imagens provindas da


Grécia antiga parece entretanto ter sido a máxima. Isto apesar
de que às vezes se exagera nas referências às coisas gregas
(assunto ao qual já fez menção o professor Moses Finlay no livro
Uso e Abuso da História).
Assim, a exemplaridade que envolve a figura das cidades
gregas se tornou por sua vez extrema, inclusive com o eco da obra
sempre viva de Fustel de Coulanges, La Cité antique (de modo viver.
nenhum superada pela "resposta" de Gustave Glotz em seu La
Cité greque).
Em texto interessantíssimo, Jean·Pierre Vernant assinalou
que nas cidades gregas se teria tido pela primeira vez o destaque
de um determinado plano da vida social como objeto de reflexão.
Ele se r efere ao próprio emergir de um pensamento político, que
teria vindo, no caso, completar a existência de um específico
domínio político dentro da vida social gcraP. Ocorre entretanto,
e é o mesmo autor que o mostra, que a formação de um modo
realmente urbano de viver- com seus espaços peculiares e seus
padrões de comportamento- importou em uma crise do sagrado.
Esta crise, acrescentamos nós, nos leva ao tema da diferença
entre o sagrado rural, talvez primevo, o das grandes pedras e elas
grandes águas, e o sagrado urbano; a "crise" equivaleria ao
gradativo predomínio deste, mais ligado ao poder urbano, ao ao estágio ~cie»
mesmo tempo que mais instável. A historicidade inerente ao como "des,.·el<lll....:::;'----'""1
meio urbano predispõe (agregamos ainda) ao próprio conceito de por conta de :;.m r
crise, que historicamente pressupõe o hedonismo latente na vida invocando um -
urbana- coisa que Ibn Kaldum já perceber a-, bem como certas depois, com cs r.-
tendências, já presentes no mundo "antigo" e ostensivos no tecer o sentido
ocidente contemporâneo: a tendência à racionalização (com suas da pala-.."Ta·ar:
ambigüidades), a tendência ao individualismo e à massificação. espaço público..--
Assim as crises, que se prolongam na modernidade, vêm a ser
crises (como já dissemos) da articulação entre vida pública e viela
privada.
É possível que em outros povos "antigos", que não os gregos
e os romanos, a relação entre viela pública e vida privada não
tenha tido recortes tão claros nem conotações axiológicas tão p ~i:úca. -~ ea::
perceptíveis, mas em todos os povos deve ter existido a diferença ..cidade". na ........___
po!iL:ca._ o~ n ....--.._......_
3. Mito e P e11-Salllmlo Clil r c o.s Gregos, Süo Paulo, Difus ão Européin do LivrcYUSP, 1973, cap. l 11. e efi~ier:.:.e :.::-.c-=-'----""1
DOS J1\ RDTNS À ORDEM PÚBLICA 41

- imagens provindas da entre as duas dimensões do viver. O que se destaca, contudo,


- a má.tima. Isto apesar como algo que entre os gregos teria surgido com nitidez maior, é
a origem de uma qualificação política da dimensão pública. A
política como ação, no sentido de Hannah Arenclt, ação casada
ao próprio questionamento das estruturas da ordem (portanto
--~e a figura das cidades ao uso hermenêutica da palavra e da discussão); algo substan-
r- ~:nsi\-e com o eco
da obra cialmente, irredutivelmente distinto da dimensão privada do
!!.1: Ci:é antique (de modo viver.
~ GastaYe Glotz em seu La
Retomemos a referência à politicidade atribuída ao "ho-
-?ie!'Te Yernant assinalou mem", e à condição diminuidora (os romanos fa lariam em capitis
.:.3 primeira vez o destaque deminutio) que foi a do cidadão grego privado da praça e devol-
- como objeto de reflexão. vido, após a invasão macedônica, R sua casa e seu jardim.
=pensamento político, que Ocorre pensar, e seria talvez um truísmo fazê-lo em termos
~-..Encia de um específico de "sociologia do conhecimento", na correlação entre as concep-
~?a!~. Ocorre entretanto, ções da verdade e os padrões sociais do viver. E como não
-.:: .a. foYIDaçào de um modo considero inteiramente destituído de senso o esquema da "lei"
e.,-pa-;os peculiares e seus elos três estados, de Comte (inspirada em Condorcet), poderia
e!!! uma crise do sagrado. aludir a uma verdade teológica, outra metafísica e ou tra socio-
...:e<:a ao tema da diferença lógica: esta sucessão de fases se apresenta exemplarmente no
das grandes pedras e das caso do Ocidente, mas também é reconhecível, sobretudo quanto
a ""c..>-ise" equivaleria ao às duas primeiras formas, no espírito "antigo". Todos sabem que
- -=ado ao poder urbano, ao ao estágio inicial c01·respondeu, no caso grego, a idéia ela verdade
~toricidade inerente ao como "desvelamento" (aletheia), como uma fAce que se descobre
::.:::.:ia ao próprio conceito de por conta de um fator especial, qual seja R nçi:io de um sacerdote
'bedor::ismo latente na vida invocando um oráculo, ou uma "revelação" excepcional; e que
ra - ,bem como certas depois, com os progressos do modo urbano d e vida, veio a preva-
antigo" e ostensivos no lecer o sentido ]Rico da verdade, com a valorização do diálogo e
- !"acionalização (com suas da palavra-argumento, desenvolvida precisamente dentro do
=alismo e à massificação. espaço público. Num estágio teria predominado, por assim dizer,
~odernidade, vêm a ser um sentido a um tempo privado e religioso, no outro um sentido
- e::.rre vida pública e vida público e político.

~ -.;os", que não os gregos Será truístico, portanto, dizer que o emergir ela noção de
lica e vida privada não "coisa pública" implicou o mundo clássico a valorização da vida
~n;.ações axiológicas tão pública. A casa se alarga e dá (liLeralmente) lugar à cidade:
3-e ü:r existido a diferença "cidade", na cultura clássica, significando a própria sociedade
política. Os romanos, que tiveram para tudo isto uma profunda
e eficiente sensibilidade, completaram aquela noção com a de
42 O .!t\HJJIM E 11 PRAÇA

ordem, pública, correia La da idéia do direito, o jus que é também a utores mais r ecen•
função da cidade. xistência ele um - .:_
nos estenderemos s.
Ainda uma anotação histórica. A v1gencia da dicÇ~tomia O problema ci_
direito público-direito privado varia conforme os contex tos his· gregos e rom.ano.s ~­
tóricos. Certos autores têm observado que na Idade Média euro- Primeira: entre os:'
péia, vale dizer durante os séculos em que prevaleceu o punha, pois, a não-
feudalismo, aquela dicotomia praticamente inexistiu. Teria ha- não conseguiam
vido então um predomínio das estruturas privadas - laços pes- ela polis e das ciL·i
soais, fidelidades pessoais -, ou então uma espécie de misto ou gener alizações, m
meio t ermo, em que o poder do "senhor" feudal, com sua família matizar o tema). S
e seu entourage privado, era ao mesmo tempo um poder genérico porânea enxergo·.r
e institucional. O crescimento elo pensar secularizado, com o considerar minori: ~
racionalismo e o iluminismo (que inclus ive delineou com nitidez clade pessoal - :::...
a diferença entre política antiga e política moderna), consolidou aligeirada por sua ~
dentro do liberalismo uma visão renovada da antiga dicotomia, non e p elas alusc ,
vindo a Revolução Francesa a configurar em seus resultados pesado e duro co~
legislativos uma cluplicidade de planos: no plano do dir eito E s tado e a fam.í::ia
público as constituições, no do direito privado as codificações.
Enqua nto isso, o senLimento de "modernidade", que surgiu
nos intelectuais do Ocidente a partir do século XVII mais ou
menos, e que incluía a consciência ele "posterioridade" em relação
aos "antigos", ressoaria na querela elo tempo de Perrault e
também, muito depois, na famosa conferência de Benjamin u da privacidade, a
Constant sobre a liberdade dos antigos e a dos modernos. A e outras mais. Tal-..·ezr
partir de certos dados, e ele certas motivações, reforçou-se a idéia r as", n1as que sem. ~
de uma diferença muito grande entre o homem moderno e o vida e com impo
antigo. A Cité Antique, de Fustel ele Coulanges, trazia em certos De fato as a;
tópicos a noção de que aos antigos faltava de fato a plena liter almente, per..l-
dimensão ela individualidade, noção aparentemente estranha, substituição da resi
mas não tanto: o grande historiador se referia ao caráter peculiar
da "liber dade greg::t", que era mais uma adesão do cidadão à sua por mais seguros e
polis do qu e uma contraposição em face dela. D e qualq uer sorte aumentos ele popU::!
Fustel ressaltou o império das instituições sobre o arbítrio pri- cidades, cada co~·
• .t v::tdo, inclusive no plano da família e do "amor", onde não parece cada bairro tinham :..
ter havido a larga parte ele opção c fruição que a culLura contem- O mundo de hoje ~
poriinea confere aos indivíduos. Como se sabe, o problema de ter b erto Eco dividem
ou não havido em plenitude a consciência da individualidade (e
da subjetividade), entre os antigos, foi já debatido por diversos
DOS JARDINS À ORDEM PÚJJL!Ct\ 43

ée!:.o~ o jus que é também autores mais recentes, inclusive com extensão ao tema da ine-
xistência de um "direito subjetivo" entre os romanos; mas não
nos estenderemos sobre isso.
- 'rig-ência da dicotomia O problema ela limitação ela idéia ele subjetividade entre os
~~e os contextos his- gregos e romanos nos levaria entretanto a duas ponderações.
ç:xe na Idade Média euro- Primeira: entre os povos elo Oriente antigo o problema sequ er se
em que prevaleceu o punha, pois, a não ser em pequena medida, as individualidades
-....;;õOK~e.u""-e inexistiu. Teria ha-
não conseguiam con trapôr -se ao peso elas instituições . No caso
-~ priYadas - laços pes- da polis e das civitas é qu e as questões emergem (passem estas
- ~a espécie de misto ou generalizações, merecedoras de ressalvas, como modo de esque-
fe-..1dal com sua família matizar o tema). Segunda: o que a m entalidade liberal contem-
~po um poder genérico
porânea enxergou mais no panorama antigo, de modo a
~ secularizado, com o
considerar minoritária a presença do indivíduo - e de sua liber-
-==~'\"e delineou com nitidez dade pessoal - foi o vulto do Estado: tanto na polis grega,
_-._.....L4 moderna), consolidou aligeirada por sua correlação com as esbeltas colunas do Parte-
da antiga dicotomia, non e pelas alusões dos filósofos, como no imperium romano,
- -.2al' em seus resultados
pesado e duro como os bronzes das estátuas dos Césares. O
-~---~~ .co plano do direito Estado e a família primavam sobre o indivíduo, e este valia
;:..-.n-ado as codificações. m enos por si do que como elo ele uma cadeia, dentro da família,
- ._ ;!enidade", que surgiu ou como um componente condicionado, dentro do Estado.
século XVII mais ou
"'~.e!"iorida de" em relação Mas pRsscmos outra vez ao tema ela casa. A crise da casa, nas
do tempo de Perrault e cidades do século XX, tem sido correlata de várias outras crises, como
mc!lferéncia de Benjamin a da privacidade, a elo liberalismo, a ela família, a das "humanidades"
--== e a dos modernos. A e outras mais. Talvez, crise de coisas que hoje parecem "conservado-
·ões, reforçou-se a idéia ras", mas que sempre tiveram o que ver com uma certa imagem ela
~ o nomem moderno e o viela c com importantes realizações históricas.
~an.;es, trazia em certos
De fato as casas se extinguem, ou, quando isto n ão ocorre
fZ:.a··a de fato a plena literalmente, perdem seu velho sentido ele "morada". Refiro-me à
.-'"e.ctemente estranha, substituição d a residência em casas pela r esidência em apartamen-
~ia ao caráter peculiar tos, a princípio preferidos por mais práticos e mais baratos, depois
a.rl:esào do cidadão à sua por m ais seguros, e afinal impostos a quase todos pelos enormes
d1:.a. De qualquer sorte aumentos de população, nas décadas mais recentes. Outrora, nas
t;::::~-~- sobre o arbítrio pri-
cidades, cada coisa tinha seu lugar, sem muitas mudanças, e em
amor'', onde não parece cada bairro tinham seu lugar a igreja, a escola, a casa de Beltrano.
<f'.le a cullura contem- O mundo de hoje, invadido pelas comunicações que segundo Um-
sabe, o problema ele ter bcrto Eco dividem os homens em "apocalípticos e integrados"", é
<ia individualidade (e
.. • debatido por diversos
•J. t\J!fKX!IÍpliros c Tnleyrados, Siio Paulo, Pcrspccl ivn, I DR7.
·14 O ,JJ\TWIIlf E A PR.1lÇA

um mundo em permanente alteração, em que nada é duradouro.


Além de se extinguirem as casas, e com elas o espírito ele tínuo e fragmentário.
estabilidade que parece ter havido em tempos anteriores, dá-se conflitos e fundamen·
que as pessoas já não gostam de ficar em casa: correm cada que uns tantos apo~
"fim-de-semana" pnra fora e para longe delas, auxiliadas pelos saudando o que al
automóveis (Hesse já dissera que para o homem do novecentos gência"0 , é sempre a...=:
o auto é o "objeto-rei") e impelidas por uma compulsão. Alguém dente ele elementos
já aventou a idéia ele associar este instabilismo espacial de hoje
a um novo nomadismo, uma volta ao viver nômade e errático de
outras eras .
Do mesmo modo que temos o paradoxo do jardim coletivi- Falei do hum3L.4
zado, e até massificado, com as "áreas de lazer" elas vilas popu· dora (os que chama::J.
lares e com os playgrounds dos edifícios tipo classe média, temos grande pensador"
também o problema da praça demasiado cheir~, com excesso de The H uman Condi.-
pessoas em todas as ruas e logradouros, rompendo com a dispo- pológica da evolução
nibilidade de espaço c de "ar livre", que sempre foi própria da se sobre os es tá~::.:
praça pública. implicações da disr!:-."
É a agonia dos velhos esquemas e d e certas imagens tradi- se relaciona com pr-
cionais. O ideal do "homem", moldado pelo humanis mo greco-ro- E ao aludir ao probl
mnno e pelas adições ocidentais, e que com a burguesia dos esta chega a destrcir
séculos XVIII c XIX se havia desdobrado no conceito de "cidadão" pois "priva os h om em:
(citoyen, Staatsbürger)r,, entrou também em um processo ele lar privado": a com p.
corrosão. Aquele conceito, que no fundo era correlato do ideal a privada em conexão
contratualista (segundo o qual as vontades individuais se arti- a ação, d epende de
culam com a vontade "geral"t tendia a fazer de todo ser humano tendem a eliminar o
um homem público, Alçando ao nível global da sociedade política
a existênci a pessoal ele cada um. Este ideal entrou em crise por liberalismo de cer~ ::
conta dos problemas sociais vindos do século XIX, e com ele as
formas de vida histórica que o haviam acomprmhado. clnssico, que em noss
Certo, Lodos sabem que por cima d a imagem da crise pode S trauss e que remon~
colocar-se uma placa aludindo ao futuro, que poderá ou deverá com a apolog·ia elo cil;.
ser melhor; como da visão do declínio disso ou daquilo se pode Trata também d
concluir que o que entra em declínio são coisas a serem substi- livro de Jürgen H a
tuídas; ocorre porém que não se enxerga quase nada p~ra além lichkeit8 , que já r efe.-
. -. da crise e do declínio, e este alcança justamente coisas que
vinham integrando a própria iml'lgem do homem e do "humano".

5. I lcrtwutll llcllet·, l?scrilos Po/(ticos, trad. cs p. S. de Arlechc, Madrid, 1\liunza E ditorial, 1!)85, 7.
pp. 2•11 c ss. 8. 'l'r ad . francesa , J: t:spact!
DOS JA RDINS ,i ORDliM PÚJJDTCII 45

e:=: que n a da é duradouro. Coisas vindas de um longo e profundo processo histórico, descon-
e ~ elas o espírito de tínuo e fragmentário mas expressivo e inteligível, e que inclui
conflitos e fundamentações, mitos e imagens, dados e teorias. O
em casa: correm cada
--....::..= que uns tantos apontam como melhor, festejando a crise e até
~ de_as, auxiliadas pelos saudando o que alguns chegam a chamar de "derrota da inteli-
... o b:;mem do novecentos gência"6, é sempre algo vago, algo indefinido e no fundo d epen-
mr.a compulsão. Alguém dente de elementos hermenêuticas que se acham dentro do
--.:-..abilismo espacial de hoje próprio processo histórico hoje entrado em crise.
~er nômade e errático de

~oxo do jardim coletivi- Falei do humano, pouco acima. Em 1958, a grande pensa-
de lazer" das vilas popu- dora (os que chamam as poetisas de poetas deverão escrever "o
11-....,;;__:s - ipo classe média, temos
grande pensador") H annah Arendt publicava seu notável livro
~-"-~~ cheia, com excesso de
The Human Condition, baseado em uma visão histórico-antro-
::. rompendo com a dispo- pológica da evolução ela própria experiência humana7 . Detendo-
:::-.:I.e sempr e foi própria da se sobre os est::lgios dessa evolução, Arcndt analisa ali as
implicações da disLinção entre vida pública e vida privada, que
~e de cen a s imagens tradi- se relaciona com problemas histórico-sociais muito relevantes.
pelo humanismo greco-ro- E ao aludir a o problema da sociedade de massas, observa que
e ..e com a burguesia dos esta chega a d estruir a ambas as esferas, a pública e a privada,
- r-.9 conceito de "cidadão" pois "priva os homens de seu lugar no mundo e também do seu
em um processo de lnr privado": a complementação ideal entre as duas dimensões,
--=:::.....n era correlato do ideal a privada em conexão com o trabalho e a pública em conexão com
a ação, depende d e certas estruturas que, se não mantidas,
tendem a elimim1.r o equilíbrio das coisas.
E videntem ente t udo isso soa a liberalismo. Mas não ao
liberalismo ele certos "liberais" de hoje, dispostos a aplaudir
ditaduras e a apoiar regimes militares, e sim ao liber a lismo
clássico, que em nosso século inclui também o nome sério de Leo
da imagem da crise pode Strauss e que remonta às fórmula s pedagógicas do iluminismo,
- r que poderá ou deverá com a apologia do cives latino e da praça popular.
di5so ou daquilo se pode
Trata tamb ém do tema - o da coisa pública - o d enso e difícil
- coisas a serem substi- livro de Jürgen Habermas, de 1962, Strukturwandel der Offent-
,.......~.--.- quas e nada para além
lichheit8, que já referimos. Partindo d a distinção grega entre
- JUStamente coisas que coisas comuns e coisas privadas, Habermas menciona a ágora e
~ homem e do "humano".

(l,AlninFinkiolkraaL, l.n!Ji'fitilet/(• In pm8rP, Pnris, Gnllimard, 1<)87.


Ma drid, Alinnza Ediloríal, 1085, 7. A Condição Humana, Hio de .T:t11eiro, Edusrv'ForellHe, 1981.
S. Trad. franccen , l."l.:spa('(' public, op. cit.
QJ,\RDIM E i\ PRtlÇA

com ela a noção de "ação em comum", observando por outro lado


a "força normativa" existente no modelo helênico da esfera
pública, sobretudo na forma em que este modelo veio a manter-se
a partir do renascimento. Para Habermas, o conceito feudal de
senhor (seigneur) teria sido neutro em relação às categorias
"público" e "privado"; e com a burguesia, realmente, é que se
teria tido o retorno da noção de esfera pública: a burguesia,
sempre interessada na circulação das mercadorias e também na
das informações, teria r edim ensionado essa noção, vinculando-a
a uma série de componentes novos, inclusive a "opinião pública".
Parece contudo haver um certo exagero nos termos em que o
problema é colocado por Habermas. O conceito medieval de
seigneurie, que de fato não se identificava com o poder elo Estado,
não era propriamente neutro em face elo binômio privacidade/pu-
blicidade; era referente a um. tipo ele estrutura ond e vínculos
basicamente privados se ampliavam até alcançRr sentido públi-
co, e em que vigências culturais muito amplas- como as imagens
do Sacro Império e da Madre Igreja - vinham por seu turno
penetrar certos atos privados. Mas voltemos-
a ágora: praça do:::::.~
vital, tornado his~­
atividacle política :: -
e povos sem ágo-a
N aquele espaço cen
ca: cenário, atores. -
as queixas e as d
da dimensão púb:.ic.a;
se a condição do h
na ágora a sua pU:S
diversos espaços ;-......
sas lnlclals, menc!
respondente ao ides::
ideais ocidentais.

. ..
~-
Macedônia, no fim
grega, e com ela a
arengas: acabou-se
homem público po:-
do domínio maced-
7. PRIVATISMO E PUBLICISMO
es::e :r=.::rl.e:o veio a manter-se
.:±it:::'E:n::!a.S- o conceito feudal de
E:::::l re!ação às categorias
--~~~ realmente, é que se
es:!er:a pública: a burguesia,
C::.fl'Ca.dorias e t ambém na
I " - - - - ' essa ~oção, vinculando-a
~i-·e a ""opinião pública".

rom o poder do Estado,


_:nõmio privacidade/pu-
e::u·urura onde vínculos
:;ué a!~çar sentido públi-
- 2:n;Jlas - como as imagens
- .P..:.n.ham por seu turno
Mas voltemos às imagens clássicas e mencionemos de novo
a ágora: praça do mercado, eixo social da polis, espaço centrRl e
vital, tornado historicamente símbolo da presença do "povo" na
atividade p olítica. Os gregos diziam qu e havia povos com ágora
e povos sem ágora, uns com liberdade e outros sem liberdade.
Naquele espaço central se sit uavam os elementos da vida públi-
ca: cenário, atores, ação. Nele estavam os debates e as facções,
as queixas e as decisões, e sobretudo a palavra como componente
d a dimensão pública: ao fazer-se pública a palavra, publicizava-
se a condição do homem. A polis, quase literalmente, teria tido
na ágora a sua pulsação. O espaço público, rea lizado a partir de
diversos espaços particulares convergen tes (inclusive o das ca-
sas inicia is, mencionadas por Fustcl), antecipava o modelo cor-
responden te a o idea l contratualista, antecipando também outros
ideais ocidentais.
Entretanto, como se sabe, a derrocada dos gregos diante da
Macedônia, no fim do século IV a.C., esvaziou a vida política
grega, e com e la a democracia da ágora com seu s temas e suas
arengas: acabou -se a importancia dos discursos políticos e do
h omem público por excelência, o político. Ao s ubmergir dentro
do domínio macedônico, a polis deixava de ser a medida das
-
18 O JA /1/J/M E 1\ PIIAÇA

crenças gregas (e aqui o termo pode entender-se no sentido com rever proble
orteguiano da distinção entre idéias e crenças). Restava o cos- do mundo. Isto é, :~
mos, inacessível aos golpes dos hoplitas e abrigo maior da razão; A historio
e restava a vida privada. Quase uma antecipação da frase de estoicismo e o epi
Kant sobre o céu estrelado e a lei moral. idéia sempre tr
Na verdade o afundamento da experiência política atenien- logos e suas leis
se - que aparece implícita ao falar-se padronizadamente da identificação com- -
"grega" - ocorreu aos poucos, no meio de coalisões militares e sempre se destacou.
confrontos internos, inclusive o confronto entre lideranças inte- como "refúgio do
lectuais. O ideal clássico de liberdade perdeu-se no tempo de estilo antigo. Aos •
Demóstenes, quando a autonomia das cidades helênicas se tor- político da Grécia e
nou inviáveF. A "política", que um historiador autorizado como acompanhou, se!!lk"-
Finlay considera uma invenção dos gregos, ou talvez dos gregos mas na verdade h.,.
e dos etruscos separadamente 2 , terá sido engulida naquela fase, epicurista, que Yal
dentro de coordenadas desfavoráveis. Em troca, surgia (talvez De qualquer
ressurgisse) a vida individual. que a polis, mediJa
Ressurgia ou cobrava novo destaque. Aqui entra um tema soberania e sua fo
histórico-clouLrinário específico, o da evolução elo pensamento
antigo sobre a liberdade humana. Ou aludindo-se, um tanto éticas e com os "p.
tardiamente, ao fato ele que nos próprios escravos a alma é livre, era duplo: por um
ou discutindo-se a condição do indivíduo diante dos "liames absoluto em que se
sociais" - como parece ter ocorrido em torno de Sócrates e ele valorizara o saber _
Diógenes-, chegou-se ao problema da dimensão pessoal, senão que se tinha agor-..l
mesmo "interior", da liberdade, pensada em gerações anteriores "República" (Poli;.. -
como condição externa do homem, ou antes: de determinados camente renuncia· -
hom ens. No sistema ~e
Se, como anotamos acima, o que restou depois de certos
fracassos foram o cosmos e a vida privada, entende-se- e isso se clagógica e aclm>n : :
encontra fácil nos compêndios - que as duas grandes filosofias levado a um pont.o
do período final da cultura helênica Gá paralela ao a largamento que depois se ch
da presença de Roma) tenham sido o estoicismo e o epicurismo. a uma existência !!!-
Na fase pós-aristotélica o pensamento grego se concentrou sobre e privada. Talvez:·
certos temas, em particular o reexame do problema do conheci- totélicos terão sid"'
mento e a construção do "ideal do sábio". Vieram também as separação entre '-:
• '!- cosmologias e filosofias da natureza (há uma ampla filosofia da tradição oriental
n atureza na obra de Epicuro), e as pequenas escolas preocupadas lectual e vida poE~·
dali em diante, nas
I. :vi. G. L.llammond, i\ llistoi)'O{Greece, to 322 BC, Oxford, 195!J, cap. VI, fina l. lando entre formas
2. M. I. l-'inlay, A Polltioo110 Mundo Antigo, Rio de Janeiro, Zahnr, J985, p. G9.
ou coisa p arecida. e
I'RIVA1'ISMO E PUBLTCJSMO 49

com rever problemas. Daí a figura do sábio solitário vivendo fora


do mundo. Isto é, fora da cidade e de suas ilusões.
:: ,:, ab!'igo maior da razão; A historiografia sempre ressaltou, no meio dessas imagens, o
- - a=.Lecipação da frase de estoicismo e o epicurismo como escolas maiores. Do primeiro, a ....
idéia sempre transmitida é uma visão global do mundo, com seu "
logos e suas leis imanentes, completada com a do sábio cuja
identificação com tais leis o torna imune ao sofriment o. Do segundo
cir coalisões militares e sempre se destacou a referência à valorização do viver privado,
:::::=o ~tre lideranças inte- como "refúgio do sábio" diante da inutilidade do esforço cívico ao
perdeu-se no tempo de estilo antigo. Aos pósteros, sempre impressionados com o legado
ad.arls helênicas se tor- político da Grécia e também com a carga de idéias gerais que o
acompanhou, sempre pareceu mais importante o pathos estóico,
mas na verdade havia igualmente muito de helênico no realismo
epicurista, que valorizava em cada ato uma quota de prazer vital.
De qualquer modo pode-se dizer que, a o mesmo tempo em
que a polis, medida do existir para o homem grego, perdia sua
soberania e sua força normativa, o pensamento ético partia para
um relativismo muito flexível, que se acentuou com as escolas
éticas c com os "probabilistas". Em relação a Platão, o contraste
era duplo: por um lado os relativismos se opunham ao modelo
absoluto em que se baseava a teoria das idéias - Platão super·
valorizara o saber rigoroso, a episteme -; por outro, a estima em
que se tinha agora a vida privada era antagônica ao ideal da
em ~erações anteriores "República" (Politéia), em que os pensadores-governantes prati-
de determinados
- ....::.!es: camente renunciavam à vida privada.
No sistema de Platão este cancelamento da vida privada
(para os pensadores-governantes) decorria, como conclusão pe·
entende-se - e isso se dagógica e administrativa, de um racionalismo absoluto, quase
...as grandes filosofias levado a um ponLo anti natural, em que a total dedicação àquilo
:m.Ie:a ao alargamento que depois se chamaria o "bem comum" reduzia o viver do s ábio
a uma existência muito mais oficial e pública do que espontânea
e privada. Talvez se possa p ensar que os relativismos pós-aris-
totélicos terão sido um dos primeiros passos no sentido de uma
separação entre vida intelectual e vida política, tão juntas na
tradição oriental (China e Egito por exemplo) . Entre vida inte·
lectual e vida política as relações seriam sempre problemáticas
dali em diante, nas diversas etapas da cultura ocidental, osci-
- . cap. VI, fi nal. lando entre for mas de fusão, com o intelectual a serviço do poder
19.:i:;, p.69.
ou coisa parecida, e formas de contraposição.
- - --

8. PLATÃO E O INTELECTUAL MODERNO

...
1'

Vale estender-se um pouco mais sobre o tema do intelec-


tual, em relação à política. Platão representou, como foi dito
acima, a pretensão à absoluta racionalidade política, esta por
sua vez correlata de uma justiça entendida como razão. Como
razão e como ordem, coisas vinculadas ao estável senão ao
imutável: como ordem natural, a ordem racional das coisas
equivaleria à base do verdadeiro e do justo. Com isso se
varreriam as incômodas oscilações da "opinião", inerentes
aliás à democracia, em favor do saber seguro e infalível da
ciência; a episteme em vez da doxa. Superava-se todo compro-
metimento subjetivo. Um igualitarismo de oportunidades, ins·
Laurado a partir de v erificações ped a gógicas, era a
contrapartida, na "República" (Politeia), do desigualitarismo
funcional e inabalável do sistema, que consagrava em p arte a
estrutura social existente na sociedade grega- embora corri-
gindo-a a modo de evitar o poder do dinheiro e o das armas,
ambos substituídos pelo do intelecto.
Na base estava, claro, o ideal helênico e principalmente ate-
niense, segundo o qual a realização integral de cada homem estaria
em participar da política (ou seja, da vida dapolis e de seu governo);
só que no autor do Timeu a coisa chega a pontos extremos, enten·
52 OJJIIWIM E A PRAÇA

dendo-se como necessário para a devoção à sabedoria e ao gover-.


no o abandono dos laços privados e dos interesses particulares,
próprios das almas insuficientemente educadas.
Como acentuou oportunamente Ernest Barker, Platão viu
na casa o abrigo dos exclusivismos c dos sentimentos egoístas; origens um sentido
além disso viu na família uma espécie de rival do Estado, fonte viver. Assim ima ,;
de um pernicioso divisionismo dentro da vida da cidade 1 • É fácil monarcas, respon_~
ver, nestas concepções, um como que voltar-se do espírito helê- junto com mulher :
nico contra si mesmo, pois a vida de família (e das casas) tinha simas pedras pal
sido a própria origem da ordem social grega , e o racionalismo - pragas misteriosas
que Platão leva e eleva ao grau m áximo- foi também um produto República platôni
cultural tipicamente grego. É provável, de resto, que ao tempo família - longe da
da República ainda estivessem relativamente nítidas na memó- vidas realmente ~p
ria dos povos gregos as imagens da época em que o panorama tualmente, dado o
político e social se achava dominado por grandes famílias, que e que o qualifica, e.
exerciam seu poder em uma estrutura de tipo feudal e que se tem de tomar e q'-4e
transformaram, com a democracia (tão criticada pelo filósofo),
em núcleos de sentido oligárquico. Também em Rousseau - cujo e sua condição es_
papel histórico-doutrinário me parece em diversos aspectos aná- nada, mesmo quan
logo ao de Platão- o r epúdio das vontades "particulares" corre são. O polít ico tam
paralelo à busca de uma ordem pública d efinitiva, uma ordem próprio (a não ser:::.:::
que se vin culava à "vontade geral" e que arrastava Jean-Jacques de Beruf e com si
para perto do que Talmon denominou "democr acia totalitária". países capitalistas
Mas voltemos a Platão. Em sua visão utópica, que confir- não se identifica co:::.
mou e ao mesmo tempo contrariou as imagens centrais da men- Se p or um :a
talidade grega, aparece bastante claro um traço comum ao socialmente cara~e:
intelectual e ao político, consistente no fato de que ambos corres - público, elas em ger.-
pondero a formas de vida cuja essência (ou cuja plenitude) parece de vida privada: h
incompatível com o que se chamaria a "normalidade" da existên- s oais. Mas na vida.
cia, entendida em sentido privado. Entendamo-nos. Ao olhar a necessidade de d
retrospectivo, as primeiras formas de organização urbana - as primento dos afazer
do tempo de Menfis, de Cnossos ou de Lagash- apresentam em vações de Bern~
seu centro uma certa junção entre o saber e o poder, que parece Super-Homem, ao
ter sido perdida e que de vez em quando as utopias (dos intelec- esteja por inteiro à-
. ..... tuais) sonham resgatar. Ali, em principados e cortes de dois mil fa mília e até do
sacrifício permite
L Erncst 13arker, Greeh Polilical 1'heo1)'.l'lato and i ts Predecessors, Londres, 1977, cnp. X. Cf.
quadro mais belo")..
tambérn a scgundn pHrlc do livro de Janine Chante ur, Platon, le desir et la. cité, Paris , Sircy, egoísmo, não dentro
1980. posto entre devoção
PLATÃO E O IN TELECTUAL MODERNO 53

~o à sabedoria e ao gover-. anos ou mais antes de Cristo, se instalou o poder político, com
- e àos interesses particulares, sua armação de hierarquias, correlatas da ordem religiosa; ins-
- · educa das . talou-se também a organização do conhecimento, que no início
- E:rn.est Barker, Platão viu deve ter sido menos crítico, e que também assumiu desde as
e dos sentimentos egoístas; origens um sentido específico em face dos afazeres "normais" do
• · ·e de rival do Estado, fonte viver. Assim imaginamos os sacerdotes e os magos, tal como os
da ,.ida da cidade 1• É fácil monarcas responsáveis por decisões que não se tomam à mesa
' . '
junto com mulher e filhos: rostos antiquíssimos, entre a~~lqUlS-
simas pedras palacianas, insones diante de problemas m1htares,
.;:,._,......_.:1..1grega , e o racionalismo - pragas misteriosas ou latentes conspirações. Assim o sábio da
fo....;.li~IU - foi também um produto República platônica, exercendo o governo longe do povo e da
· ·e!, de resto, que ao tempo família - longe da praça e do jardim-, solitário em relação às
· amen t e nítidas na memó- vidas r ealmente "pessoais" dos homens comuns. Solitário intelec-
::.:2. epoca em que o panorama tualmente dado o nível demasiado "alto" do pensar que cultiva,
~ por grandes famílias, que '
e que o qualifica, - que
e politicam en te, dado o caráter das decisoes
de t ipo feudal e que se tem de tomar e que não competem ao homem comum.
~o cr iticada pelo filósofo), Convenhamos em que o intelectual é realmente um clérigo,
Também em Rousseau- cujo e sua condição específica não configura uma "profissão" determi-
:::e e:::n diversos aspectos aná- n ada, m esmo quando o intelectual exerça esta ou aquela profis-
-=:ades "particul ares" corre são. O político t ambém não representa uma "profissão" em sentido
~o-....;.;,..(..-u definitiva, uma ordem próprio (a não ser na acepção de professio, testemunho, correlata
ve arrastava Jean-Jacques de BeTU{ e com significação peculiar). A condição do político, nos
-.iemocracia totalitária". países capitalistas, atravessa outras condições profissionais mas
-..são u t ópica, que confir- não se identifica com elas, ou não deve idenLificar-se.
- -..... agens centrais da meu- Se por um lado as diversas profissões, que são afaze~es
cLaro ULn traço comum ao socialmente caracterizados, possuem concretamente um sentido
:::::-;. fa:o de que ambos corres- p ú blico, elas em geral permitem ao "profissional" u m tipo_normal
(ou cuja plenitude) parece de vida privada: horários, convívio de família, ocupaçoes pes-
·no!"Illalidade" da existên· soais. Mas na vida política plena, bem como na vida intelectual,
a n ecessidade d e dedicação ou de concentração dificulta o cum-
crrganização urbana - as
=:E pr imento dos afazeres privados. O que nos faz lembrar as obser-
., !..agash- apresentam em vações d e Bernard Shaw, no primeiro ato de Homem e
~a! er e o poder, que parece Super-Homem, ao afirmar que o verdadeiro artista, dedicado que
~as utopias (dos intelec- est eja por inteiro à sua arte, termina por descurar dos laços de
~~'""dos e cortes de dois mil família e até do amor pessoal ("feneçam mil mulheres, se o
sacrifício permite representar melhor o H a mlet ou pintar um
quadro m ais belo"). Só que no caso já entraria a que~t~o do
egoísmo, não dentro da família mas fora d ela; e do narc1s1smo,
posto entre devoção pública e ocupação priva da, ou antes fora de
54 O JARDIM E A l'Ri\Ç!l

ambas, como em um limbo. Aliás Francis Bacon, em seu ensaio Mas voltando
"Of Marriage anel Single Life", já havia dito que os grandes atos niclacle (no sentido
e as grandes obras sempre cabem aos homens descasados e sem temos que nos séc::
filhos, embora os que têm mulher e família sejam em princípio categorias histó~ca,
melhores súditos 2 • rias predominantes'
E aqui uma anotação sobre o intelectual moderno. No caso, civilizações, incl -·
onde os exemplos se acham obviamente mais próximos pa~a nós "militar" e "político
ele hoje, parece aguçar-se aquele conflito latente, que se arma Pode-se obse_
entre a condição elo intelectual, ou elo político, c o viver elos no sacerdote ocorri:'
homens "não especiais" que exercem as profissões especiais. poder político. E!:l
Aquilo que os românticos (sem aludirem ao depois chamado fator existência privada
econômico) designavam como "burguês", constituía na verdade to, senão m esmo--
uma alusão ao prosaísmo elo homem privaclamente ajustado em relação aos afaz
(horários, afetos, obrigações), em contraste com o comportamen- da sociedade e de:;~
to do escritor (aliás parece vir desta visão romântica um certo sões. No caso elo ::L.li..!
conceito que equivocadamente encara o intelectual como "eles- mente um aias-
programado" e boêmio). latentemente o he ~
Nietzsche, em carta de março de 1887 a sua irmã Elizabeth, épica antiga e na-:::::.
falou da hipótese de casar-se, ou de ter-se casado. Dizia: "Se eu exernplaridade,se~
me casasse agora, isto seria apenas uma asneira, que me faria dos e constranged~- ~
perder uma independência que conquistei a preço de meu san- dote teve-se semp_
gue.( ... ) Antes viver miserável, doente e temido em algum canto sagrado; e o sagra
do que arregimentado e situado dentro da mediocridade moder- mundo antigo. ::\Ias
na":3 . a vida entregue à pa
Ou então o conhecido trecho ele Fernando Pessoa, no poema código de n ormas. c_.
"Lisbon Revisited" de 1923: o princípio, vigen:.e
Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável? a ser exigente cons:,.
fechamento para o_..,.
U ma elas primeiras expressões, vinda aliás do pensamento
social româ ntico, da saturação do existir moderno em t ermos de
espaços e relações, terá sido a obra maior de Toennies, onde se
descreve a sociedade como modo de agrupaçào mais amplo porém conceitos, e não à e
artificial, fundado sobre a "vontade reflexa", e a comunidade corresponcle basi~
como modo mais concreto, mais estreito, fundado sobre a "von- ra. Corresponde -
tade essencial". Desta se passaria àqu ela, como tendência evo- capitalist a. O idea:
lucional genérica. Seria um trânsito do privado ao público?

2. The Moral anel !Tislorical Worhs of LordBacon, Londres, George 13cll, 1890, pág. 19.
3. F. Nietzsche, Lettres Choisies, Librairic S!.ock, Paris, 1931, p. 213.
PLATÃO E O INTELECTUAL MODERNO 55

---5 Bacon , em seu ensaio Mas voltando ao tema do intelectual moderno, e da moder-
«E~ que os grandes atos nidade (no sentido amplo do termo) como gestadora de crises,
- -:::ens descasados e sem temos que nos séculos ditos burgueses entram em crise certas
categorias históricas, entre elas o militar e o sacerdote. Catego-
rias predominantes nas épocas aristocráticas da história das
.... - .
~moderno. No. caso' civilizações, inclusive registrando-se que, em certos contextos,
~ mE.s próximos para nós "militar" e "político" se identificavam.
Pode-se observar que tanto no militar (o "guerreiro") quanto
y.::..:!ico, e o viver dos no sacerdote ocorreu sempre, ele algum modo, a participação no
z: profissões especiais. poder político. Em ambos ocorreu sempre a ausência ele uma
ao depois chamado fator existência privada em sentido pleno. Em ambos um afastamen-
constituía na verdade to, senão mesmo uma posição de real ou pretensa superioriclacle
p~vadamente ajustado em relação aos afazeres comuns, ligados à manutenção material
~.e com o comportamen- da sociedade e definidos depois - ou desdobrados - como profis-
:são romântica um certo sões. No caso do militar, cuja atuação mais específica é social-
~:electu al como "eles - mente um afastamento (estar "em campanha"), teve-se
latentemente o herói, o vencedor armado, cantado sobretudo na
_-:~ - a sua irmã Elizabeth épica antiga e na medieval; o herói com seu distanciamento e sua
-~ ::asado. Dizia: "Se eu
' exemplaridade, sem as contingências nem os compromissos miú-
- a.:::.~eira, que me faria dos e constrangedores do cotidiano doméstico. No caso elo sacer-
~ e: a preço de meu san- dote teve-se sempre a respeitabilida de do homem ligado ao
e ;.enlldo e m algum canto sagrado; e o sagrado sempre esteve nas fundações, dentro do
da mediocridade moder- mundo antigo. Mas a ambos sempre se atribuiu algo ele sacrifício:
a vida entregue à pátria, ou dada à religião. E t a mbém um severo
_,__.ndo Pessoa, no poema código de normas, cujo cumprimento dá direito à reverência (daí
o princípio, vigente nas aristocracias, segundo o qu a l o primeiro
re &ributável? a ser exigente consigo mesmo é o mais nobre: noblesse oblige). O
fechamento para o mundo, para o sexo- no caso do religioso e ao
~ a:iás do pensamento menos em certas religiões-, enfim para a normalidade privada.
...:: moderno em termos de A queda do prestígio do sacerdote e do militar, nos séculos
de Toennies, onde se mais recentes - r efiro-me à vigência histórica de determinados
~o mais amplo porém conceitos, e não à eventual ocorrência de gover nos militares -,
t:xa. , e a comunidade corresponde basicamente ao p rocesso de secularização da cultu-
fm:dado sobre a "vou- ra. Corresponde também ao desenvolvimento da mentalidade
como t endência evo- capitalista. O ideal do progresso, com suas utopias e seu peda-
pivado a o público? gogismo, lançou as linhas d e uma sociedade onde a ciência
conduzisse as crenças, e o domínio do dinheiro (uma realidade
antiplatônica) entronizou o pragmatismo, complementado pelo
tecnicismo, pelo cientificismo e pela especialização. O ideal do
56 OJAIWJM E i\ PRAÇA

progresso e o cientificismo levaram no século XIX ao evolucionis-


mo, espécie de dogmatização linear de uma série de evidências.
O evolucionismo condenou como coisas arcaicas o padre e o 9. o-_
soldado, inviáveis, dentro da t ipologia spenceriana, na sociedade
industrial e liberal. Ao mesmo tempo consolidava-se nas socie-
dades do Ocidente a presença das profissões "liberais", como
vocações e como forma de ganhar dinheiro, dentro de uma estra·
tificação social menos rígida - a de classes - e sem as conotações
próprias da condição do soldado e do padre, ou por outra: do
guerreiro e do santo. As profissões ditas liberais, diferenciadas
entre si dentro das especializações (Fachwissenschaften) do sa·
bermoderno e de suas projeções práticas, situaram-se aos poucos
em um conjunto social formado a partir de vidas privadas (voca-
ção c "carreira" individua l), dentro daquilo que desde Hegel se
ficou chamando sistema das necessidades .

Retomo agora
acima, ao epicur::~
gar a frase "de

privada, os r om
singelo ao Impér.o
ritoriais e pela a<i
ft

tanto, que o esq:...


tiveram em seus
trias. Além do m
propriamente cor::
unificadores e ur·
Nem semp::-e
dados, sempre rein
mento" histórico
público, e o predc
que se desdobra a
daquela civilização 1
e irreversível.
- z:.: século XIX ao evolucionis-
~ :nna série de evidências .
~::.as arcaicas o padre e o
--'" .spen ceriana, n a sociedade
9. OUTRA VEZ PRIVATISMO E PUBLICISMO
o::;nsolidava-se nas socie-
- p!"1J.5ssões "liberais", como
-=:_riro, dentro de uma estra-
~s - e sem as conotações
e ~;:; padre, ou por outra: do
:.as ::iberais, diferenciadas
- F::.ohwissenschaften) do sa-
=::;u:as, situaram-se aos poucos
~ de vidas privadas (voca-
&qu!!o que desde Hegel se
des .

Retomo agora o tema do privatismo, com a alusão, feita


acima, ao epicurismo. Antes passamos pela tentação de empre-
gar a frase "de Péricles a Epicuro"; vem agora outra, a de
comparar o caso grego com o romano, em termos de oposição.
Enquanto os helenos teriam passado da dimensão pública à vida
privada, os romanos teriam ido desta para aquela: do arado
singelo ao Império monumental, passando pelas expansões ter-
ritoriais e pela adoção de instituições específicas. É claro, entre-
tanto, que o esquema seria falacioso, pois também os gregos
t iveram em seus inícios os grupos familiares, inclusive as fra-
trias. Além do mais a existência histórica de Roma começa
propriamente com a r ealeza e com a ordem implantada pelos reis
unificadores e urbanizadores.
Nem sempre se pode transformar a referência a certos
dados, sempre reinterpretáveis, em uma seriação, ou um "movi-
mento" histórico. O marco privado evolui junto com o domínio
público, e o predomínio de um ou de outro, dentro das fases em
que se desdobra a história deste ou daquele povo, desta ou
daquela civilização, não chega a configurar uma "linha" definida
e irreversível.
58 Q.JARDIJ\1 li A PRAÇ1\

Nem sempre, por outro lado, o limite entre a esfera pública e Além desta
a esfera privada é bastante firme. O termo latino fornm, que se constituíram er:::
designa algo historicamente correlato à ágora grega e que se feudal na época de
associa para nós à idéia de um espaço público, designou primeiro este sentido misto
o terreno fechado em torno de uma casa, e somente depois é que das signorie itali -
passou a denominar a área de fora das casas, nomeadamente a primórdios: e em à.:=-
praça do mercado 1 • va-se o gosto dos:
Por sinal, ficou constando de um registro de Plínio que o da uilla laurentina
termo hortus, no tempo das Doze Tábuas, era utilizado para o Jovem, que elog:i
aludir às propriedades rurais, passando depois, como se sabe, a sentido as uillae r.e.:
significar "jardim", justamente por conta do conteúdo central da varAm, nos séculos -
palavra hortus: um terreno fechado 2 de dark ages - , o ess
Na variedade de formas espaciais existentes na experiência mundo clássico. E
social romana, cabe aliás destacar o caso das uillae, que repre- paredões pintado:: e
sentou uma outra experiência no tocante aos espaços e às formas. e se perpetuou o m
De certa maneira a uilla, edificação ou conjunto de edificações filhos, modo de com
que servia de centro a uma empresa rural ou a uma propriedade conjunto de elem ~·
"de lRzer" (algo ao modo das "granjas" de hoje), constituía uma ao ntcnos, até o ·-
esLruLura intermediária entre o público e o privado. Nem foi por ocidental do h ab:: a!"
acaso que de certas grandes uillae partiu em alguns lugares a
o:rgRnização do feudalismo. Residência de campo, podendo ser de
tipo propriamente "rústico" ou de Lipo mais urbano, com freqüên-
resultado do esv
cia a uilla incluía um pátio central, misto de praça e de cour;
preservou-se nela o sentido romano da vida agrária, que para
antigo, com asa~
Roma ficou representando as origens, e ao mesmo tempo o
da democracia em
sentido do luxo, Lendo havido uillae imperiais que chegaram a
vivemos t ambém
ser verdadeiros palácios . Dentro do forum romano, perto do Arco
tempo d e Ortega.
de Tito, tive uma vez a emoção de ver os restos de uma uilla
tipo. Os regimes ;::
construída no século XVI por um cardeal, imitando em seus par-
qualidades intr -
ques com larAnjeiras o arranjo das villae do tempo de Horácio.
"informação" e dos
Estou mencionando o tempo de Horácio para citar o conhe-
além de conotare:::::::.
cido estudo de Gastou Boissier sobre a casa ele campo do poeta,
to de persua são p~
que lhe foi presenteada por Mecenas e que ficava perto de Tívoli,
escrito - além dos::-
no vale de Licenza3 .
. ~
bee e tantos mais-
tem seus pessimi:::·
ses têm trazido fo_
L F. Marlin, Les Moto lalins, Ed.llachclle, Paris, W76, pp. 86 c 87.
2. Picrre C ri mal, J.a CiuilisalioJL romaine, Paris, A•·lhaud, 1000, p. 207.
3. G. Boissier, "La Maison de campngne d'IIo race", "''P· I das NouuellesprOIILcnadesarchéologi- '1. André Bcreoff, Mam:.cl -
ques. Ilomcccl Virgile, Paris, llachcttc, 1886. HJ85; i\lain f.'inkiclkr.
OUTRt\ V/!:7. PR/VATJSMO E PUBLJC!SMO 59
- ;.e e!ltre
a esfera pública e
Além desta característica econômico-social das villae, que
~o latino forum, que
se constituíram em núcleos de produção e de aglutinação pré-
• ágora grega e que se
feudal na época de declínio do mundo antigo, há nelas também
~-O::co, designou primeiro
este sentido misto, meio público meio privado, meio prefiguração
e somente depois é que
das signorie italianas, meio repetição das grandes casas dos
....
d'
- - ::asas, nomeadamente a
primórdios: e em algumas delas, as de maior extensão, conser-
registro de Plínio que 0 va-se o gosto dos jardins (é Grimal quem o anota), como no caso
- ih-nas. era utilizado para da villa laurentina, propriedade de um romano amigo de Plínio,
depois, como se sabe, a o Jovem, que elogiava nela a "presença da natureza". Neste
sentido as villae terão s ido um elemento estabilizador. Preser-
- do conteúdo central da
varam, nos séculos iniciais elo medievo- chamados pelos ingleses
de darh ages-, o essencial do acervo ele hábitos e de conceitos do
~ exis:entes na experiência
mundo clássico. E creio que foi no recesso das villae, com seus
!:aS6as villae, que repre-
paredões pintados e seus utensílios domésticos, que se refugiou
-- acs espaços e às formas.
e se perpetuou o modo de vida privado romano: modo de educar
~ con;unto de edificações
filhos, modo ele comer e de dormir, hierarquia familiar etc. Um
ou a uma propriedade
de:: hoje), constituía uma conjunto ele elementos que veio perdurando, fragmentariamente
E o privado. Nem foi por
ao menos, até o início de nosso século, dentro ela concepção
ocidental do habitar e do viver privado.
~.J em alguns lugares a
dr campo, podendo ser de
=ais urbano, com freqüên - De novo sobre o epicurismo. Ele não foi "somente" um
C:SL.O de praça e de cour· resultado do esvaziamento da vida pública grega, dominada pela
- • .. , • J

v1aa agrana, que para vasta onda macedônica: foi um fenômeno elo declínio do mundo
~ e ao mesmo tempo 0 antigo, com a saturação da vida urbana e com a transformação
~r:ais que chegaram a da democracia em utilitarismo e em latente massificação. Hoje
- - r"mano, perto do Arco vivemos também (os que somos, como diriam certos autores do
~s :restos de uma villa tempo de Ortega, "hombres de las postrimerías"), coisas deste
im.:tando em seus par- tipo. Os regimes políticos dependem às vezes m enos de suas
dn ~mpo de Horácio. qualidades intrínsecas do que da viabilidade das técnicas de
"informação" e dos programas econômicos que os acompanham,
além de conotarem estruturas militares, que formam um apara-
to de persuasão paradoxal mas evidente. Vários escritores têm
escrito- além dos pensadores já clássicos como Spengler, Toyn-
bee e tantos mais - sobre o declínio da civilização. Cada geração
tem seus pessimistas, e recentemente alguns escritores france-
ses têm trazido fortes achegas à retórica do pessimismo4 • Este

1. i\nrlr(: llcrcoiT, Manuel d 'Tnslnlclion Ciuique fiOIJr Temps in/.!OUl'ernablrs, Paris, 13. CrnsHCt,
1ml5; i\lain Fil>kiclkrnut, Ln T)1i(a ile de /a J!I!IIS<Íe, cil.
60 OJARDifl.f B A PIIAÇA

pessimismo não é infundado, e dentro dele se lem colocado um


tema específico, o da decadência do homem público 5• ção entre o plano
Seria então o caso de se falar, talvez, em um p ossível retorno ao de uma al ten:.
do (ou ao) epicurismo. Aliás, no começo do século, na geração de presente no pens .,.....
Loti e Pierre Louys, um certo tipo de literatura orientalizante quívocas: a alte
cultivou um característico tom hedonista e de certo modo epicu- aquela entendida !l
rista, como no romance de Louys Aphrodite, em que o capítulo I condutas, esta n o ·
do Livro 11 se passa sensualmente nos jardins de la déesse. O De um lado as re
gênero não teve maior continuação, e na verdade não r epresen- dos pela própria c:
tava um pensamento fortemente fundado. A possível volta ao termo), regras e
epicurismo a que me refiro seria antes uma forma de descrença testam em fornaas
nas estruturas "maiores" hoje vigentes, ou na possibilidade de linguagem. De ou
se realizarem nelas os valores humanos essenciais; uma tendên- coisas pode (ou co.s
cia implícita e minoritária ao recolhimento, em face das estru- senão mesmo de -~
turas tecnocráticas, da massificação e das falsificações rência a este últimn
autoritaristas: algo comparável a um dos aspectos da posição que ele Martin H eideg5
Umberto Eco chamou "apocalíptica". Um dos lados do tema se de seu pensanaen~
acha nos debates sobre politizaçi'io e despolitização: alguns teó- exageros da tecno! =
ricos da direita, nos anos 20 e 30 - Carl Schmitt entre eles - I Certamente q:
pretenderam que o liberalismo seria uma atitude despolitizante, vários graus. Estes
sendo a verdadeira política a do confronto, com suas categorias total da técnica e
básicas expressadas nos termos "amigo" e "inimigo". Por sua vez alguma distância ,
Hcrman Heller, que era um socialista moderado, encontrava no envolventes e am~
burguês contemporâneo um tipo despolitizado, desligado de pre- outros caracteres dz
ocupações decisórias e preocupado com sua "condição privada de Pois do mesm-
possuiclor"6 . No caso, um tipo que na República de Platão jamais
poderia ter o poder. Entretanto trata-se de uma meia verdade, extremos, entre os~

já que o mundo histórico dos últimos séculos vem sendo (não só


econômica mas também culturalmente) um mundo burguês, com
liberalismos e anti-liberalismos, bismarquismos e outros ismos.
De qualquer sorte o tema de um possível retorno ao epicurismo
parece relevante: há muito o que resgatar, hoj e, dentro ela di-
mensão privada da vida, asfixiada pelos enormes travejamentos
da dimensão pública, e desvirtuada por uma série de distorções.

5. R ScnncLL, O Declínio do llomem. Público, cit.


G. I I. llellcr, Escritos Políticos, op. cit., p. 24G.
OUTRA VEZ l'RIVA'I'JSMO E PUBUCISMO 61

se ;;em colocado um Outra observação. De alguma forma o problema da distin-


!E~o çúblico5 • ção entre o plano público e o plano privado pode ser comparado
c=, um possível retorno ao de uma alternativa, nem sempre bastante explícita mas
s&clo na geração de presente no pensamento contemporâneo através de alusões ine-
:ara orientalizante quívocas : a alternativa entre a "vida social" e a "vida simples",
e de reno modo epicu- aquela entendida no sentido da sofisticação dos elementos e das
ar: que o capítulo I condutas, esta no da fuga às complicações ou às "frivolidades".
~..s àe la déesse. O De um lado as regras de convívio e os critérios de gosto, elabora-
~i.e não represen- dos pela própria civilização (no sentido clássico e qualitativo do
A possível volta ao termo), regras e critérios que não se p odem ignorar e que se
f..::L-=.a de descrença testam em formas específicas do viver social: gestos, deveres,
ca possibilidade de linguagem. De outro o fato de que a adesão excessiva a estas
_.ria·s: uma tendên- coisas pode (ou costuma) gerar certo grau de "artificialidade",
,. . .___J• ~ :"'ace das estru- sen ão mesmo de "inautenticidade" dentro do existir. Com refe-
e das falsificações rência a este último termo vale recordar aliás a defesa, por parte
..---'";.os da posição que de Martin Heidegger - este um dos â ngu los menos acadêmicos
~ lados do tema se de seu pensamento - , da vida despojada, que renuncia aos
'trZaçào: alguns teó- exageros da tecnologia e às alienações que acarretam.
~~ entre eles - Certamente que entre um extremo e outro se encaixam
:ie despolitizante,' vários graus . Estes se instalam a alguma distância da rejeição
total da técnica (e da própria evolução social), e t a mbém a
alguma distância da padronização e da "informação", ambas
• encontrava no en volventes e ambas tirânicas . E com elas, do consumismo e de
desligado de pre- outros caracteres da sociedade atual.
~r;ào privada de Pois do mesmo modo cabe salvar a privacidade salvando
~de Platão jamais também a dimensão pública, ambas estimáveis mas passíveis de
~;;meia verdade, extr emos, en tre os quais cabe situar graus, e situar-se n eles.
~en sendo (não s ó
===u!o burguês, com
-~.....,"e outros ismos.
~'i> ao epicurismo
.. e-, dentro da di-
~.5 travejamentos
sirie de distorções.
10. ALGUMAS DIGRESSÕES HISTÓRICAS

Mencionei, no início, o fato de que sob certo aspecto o


advento da praça corresponde, mais do que ocorre com o jardim,
a uma eliminação da natureza. Ou antes a um corte, mna abertura
nos espaços naturais, feita na verdade pelo próprio fenômeno ela
cidade, que se instaura como um outro tipo de espaço dentro dos
espaços físicos disponíveis no vale ou na montanha. O jardim refor-
mula a natureza, operando uma redução ou uma seleção quanto às
espécies vegetais e ao seu arranjo, em convívio com canteiros, muros,
colunas, estátuas (sempre me lembro do poema de Baudelaire que
começa com "Je n'ai pas oublié, voisine de la ville", e que menciona,
na casa a que alude, o arvoredo onde escondiam seus membros nus
mna Pomona e uma Vênus); o jardim a reformula, defendendo-a
como ao próprio sentido de privacidade que nele se recolhe. A praça,
parâmetro das ousadas coordenadas urbanas, se recorta como um
outro espaço, não natural, onde o que há de árvores e de flor es é
expletivo e complementar, embora às vezes pareça esteticamente
essencial.
Par~ce também, mas isto vai como anotação de passagem, que
a evoluçao em ambos os casos - o da praça e do jardim - veio
representando uma gradativa diminuição do papel (ou da presença)
da natureza: e aqui o termo natureza é usado no s eu sentido mais
O JARDIM E A PRAÇA

concreto, incluindo animais e arbustos, embora sem excluir a


relação com um signjficado mais profundo. E parece que este gradual
cancelamento da natureza, em seus componentes mais concretos, se econômicas, assumia a
faz mais perceptível, senão mais ostensivo, no caso da praça. Ou seja, abstrata, e a isso ,_-
nas representações da dimensão pública, inclusive nas ligadas ao "despojadas". As ima,
poder: edificações, ornamentação, linguagem de símbolos. ornatos: na mesma med
Nas representações antigas, os símbolos da ordem pública nam os capitéis cor...r:
envolviam indefectivelmente elementos da natureza, em seus edifício elo Reichstag c.:
três "reinos": havia altares e tronos com pés de leão, colunas com retratos mais conver:..:i
base em forma de lótus, capitéis com cabeça de touro ou com
folhas - as cl ássicas folhas de acanto -, as figuras dos deuses
eram concebidas e representadas com raios, conchas, frutos e
animais. Os reis eram assimilados em seu poder às entidades da nas começou a e.l.i.i,;~---.
natureza; nas tumbas e nos palácios se retratavam cenas festi- incrementou o ritmo da
vas com ramagens e aves (vejam-se inclusive as descrições da
pintura cLrusca no texto de viagens de D. H. Lawrence Etrnscan
Places). Na Idade Média a pintura religiosa não desdenhou de do Romantismo: mo
colocar coisas deste tipo junlo à figura dos santos - nem se irrepetíveis e pru·adig
entenderia São Francisco de Assis sem seus pássaros-, e tam- geometrismo racio ~ ·~
bém nas cortes do Renascimento sempre havia animais, ao tes; no segundo a ret
menos ao que nos mostram certos quadros onde aparecem cava- homem mais elo que o
los monumentais e cães solenes ou pachorrentos, compondo, nal, mas segue váli.::o;
junto com anões e bufões, a imagem elo entourage monárquico. A pensamos no Classic!.S
própria monarquia absoluta, que abriu largos espaços no âmbito ções (o espírito de sec:
das capitais n a cionais, se fazia retratar, em momentos ele priva- como algo ligado às c:-
cidade, com elementos da naLureza. li taristas, ressentimo::-·
Seria o caso de dizer-se que o mundo "moderno" (dito tam- ção de perda em sen~d
bém burguês), ao passar à fase chamada contemporânea, apres- Dir-se-ia, e isto -..a:
sou a eliminação dos ingredientes naturais. Ocorre lembrar o o Classicismo abriu
contraste, expressado por Vico, entre o "poético" das fases ini- áreas dentro das gr
ciais da história ele cada "nação" (hoje diríamos cultura, ou destas na expansã o d
civilização), e o prosaico das fases posteriores. Até o Romantis- nas artes e na poli ·
mo, com a restauração e o nacionalismo, ainda perduraram refluxo: um ele seus l
componentes naturais. Mas durante o século XIX o que pareceu um movimento ele re·
.....
,r
predominar foi a gravidade cinzenta, correlata das grandes ruralismo nostálgico) EC
máquinas e das securas vitorianas, e sem embargo do que de tra, portanto, o pubr -
positivo houve, inclusive na arte (não cabe aderir ao modismo de urbanismo "paleo ind -
detratar o oitocentos sem mais aquela) . Gravidade cinzenta que te que as coisas den·
foi uma espécie de acompanhamento do ideal formal da Repúbli- refolhos da onda r o •
ALGUMAS DIGRESSÕES HISTÓRICAS 65

€!::hora sem excluir a ca e da pretendida impessoalização do poder. O poder, embora


~ pa..'"'eCe que este gradual vigente em toda a plenitude sob vigorosas formas políticas e
----,.,..,.,..:es mais concretos, se econômicas, assumia a partir do liberalismo um sentido de coisa
a: caso da praça. Ou seja, abstrata, e a isso vinham corresponder representações mais
r:-..-·n.si:Y"e nas ligadas ao "despojadas". As imagens do poder perdem então em cores e em .. ,; '
... -~-_-;a:;::..,...... de símbolos. ornatos: na mesma medida em que os prédios públicos abando-
nam os capitéis coríntios e os portais ainda meio barrocos do
"-----.o:"' ::.a natureza, em seus edifício do Reichstag, os trajes se tornam mais monótonos, e os
::;x::; de :ieão, colunas com retratos mais convencionais. Com o século XX viria o estilo dito
~ de touro ou com "funcional", terrivelmente desgracioso, e com ele o completo
- a.:; :5.guras dos deuses cancelamento de figuras naturais (salvo em alguns painéis so-
'!'.;;.:.::s conchas, frutos e breviventes): veio o tempo em que a caça e a invasão das máqui-
se::: ?Jder às entidades da nas começou a eliminar as espécies animais, e em que se
se n;~a:a.-am cenas festi- incrementou o ritmo da destruição das reservas ecológicas.
u.s!...-e as descrições da
D 2.. Lawrence Etruscan Introduzo agora uma alusão ao problema do Classicismo e
do Romantismo: momentos do espírito moderno, a um tempo
--~ ~:J.S santos - nem se irrepetíveis e paradigmáticos. No primeiro, a cristalização do
~ 5r:!S pássaros - , e tam- geometrismo racionalista, vindo sobretudo da época de Descar-
~ haY:ia animais, ao tes; no segundo a réuanche do sentimento, no sentido de ver no
-~~- anâe aparecem cava- homem mais do que o puro ser "pensante". O cotejo é convencio-
pax±...::.:rrentos, compondo, nal, mas segue válido; inclusive passa pelo teste histórico se
~ r . - ~ge monárquico. A pensamos no Classicismo como próprio da burguesia das revolu-
La!-ços espaços no âmbito ções (o espírito de secularização na política) e no Romantismo
...--~- e:::: r:::1omentos de priva- como algo ligado às crises sociais subseqüentes (clamores igua-
litaristas, ressentimentos ela nobreza contra a revolução, sensa-
=:::=::!0> •!:!.oderno" (di to tam- ção ele perda em sentido difuso).
.....__ _ contemporânea, apres- Dir-se-ia, e isto vai com certas ressalvas, que de certo modo
~- Ocorre lembrar o o Classicismo abriu espaços públicos: construção de grandes
- -poético" das fases ini- áreas dentro das grandes cidades (Sombart estudou o papel
i: ~íamos cultura, ou destas na expansão do capitalismo), clarificação ela linguagem
~~,_..-,"'--:res . Até o Romantis- nas artes e na política . E que o Romantismo constituiu um
refluxo: um ele seus lados, porque ele teve vários, consistiu em
~~o XIX o que pareceu um movimento de retorno ao passado feu dal, ao ruralismo (um
-·-~- ron-elata das grandes ruralismo nostálgico) e ao par ticular, portanto ao privado. Con-
sez. embargo do que de tra, portanto, o publicismo-estatismo revolucionário e contra o
- z.she ~rlerir a o modismo de urbanismo "paleo industria l" elos séculos XVI II e XIX. Cert amen-
G!"a.....jdade cinzenta que t e que as coisas d entro ela história não são tão nítidas: nos
__ea:. formal da Repúbli- refolhos ela onda romântica persistiu o liberalismo com a a pre-
66 O JARDIM E A PRAÇA

goação da liberdade, ao lado do conservadorismo e do monarquis-


mo; mas sempre temos de reforçar certos traços para fazer o vida privada , cor::._
quadro mais inteligível. sempre tem con~
Lewis Mumford destacou, entre as marcas da influência do em política . Yioia
espírito romântico, amante do luar e das ruínas- também das observou que o r..._·~...."'-'-.:.,
ravinas-, a tendência a retornar ao gótico, na arquitetura, parte tudo um a ssunt.o
de uma genérica tendência a voltar ao passado 1 . Na Alemanha capitalistas, s eci;)
cultivaram-se as estampas antigas, Bilder aus der Vergange- "modernizantes,..
nheit, e por toda a Europa se procurou imitar os "jardins ingle- área elo viver co:!·
ses", caracterizados pela informalidade, pela espontaneidade e
pela irregu laridade. Algo como uma reação contra o espirit de
geométrie, contra a França imperial já derrotada mas a inda
representante das linearidades "claras e distintas". formado durante o-
A propósito de sociedade moderna e de época "burguesa", de militância hist.o~
vale porém repensar certas coisas. Nos casos grego e romano
(antigüidade), a estrutura social incluía o componente escravo
como algo natural. Em Roma, onde talvez tenha sido mais
caracterizada a existência de "classes", os conflitos só surgem
depois, e sem deflagrar ismos doutrinários. Não se teorizou (ou
quase não) sobre a dimensão econômica da sociedade nem sobre
o conceito de r evolução, este entretanto mencionado por Aristó-
teles na Política . Nas sociedades ocidentais modernas a presença
do componente burguês, vinculado ao processo ele secularização
cultural, tenderia historicamente a um peculiar equilíbrio entre
o lado público e o lado privado da vida, mas o fator "sistema inclinar-se sobre a -
capitalista" leva constantemente o pensamento a dar conta da e pode conduzir à !-'-
dimensão econômica, forçando a criação de ideologias que são viver, inclusive das
"ismos" econômicos t anto quanto teorias políticas ou filosofias
Contudo, se:::::
sociais. Deste modo o socialismo, que s empre carregou uma parte
estruturação das :!'f'
de utopia, tende modernamente a fazer pesar o lado público no
cias, nem do par:
qual parecem mais urgentes os clamores igualitaristas, e pare-
ambígua m as ind
cem mais releva ntes os projetos gerais de reconstrução. Enquan-
te a racionalização
to nas utopias de outros tempos a condição do indivíduo
opinião pública - ~~
-.. . enquant o particular apareceu mais nitidamente como objeto de
reflexão, nas programações socialistas contemporâneas ela pa-
volveu-se a impre~
racionaliz ação do _
rece importar menos.
garantias; m as a ~

2. Domcnico Fisichella. 11
l. A Cu ltura das Ciwdes. t.rad. Nci l Silva, Belo Horizont e, Itatiaia, 19Gl. pas si m.. Scient.ifica, 1987.
ALGUMAS DIGJIESSÕES HTSTÓRICAS 67

adorismo e do monarquis- O que se menciona como nós "revolucionário" no tocante à


o::ertos traços para fazer o vida privada, como costumes sexuais e estrutura familiar, nem
sempre tem conexão simétrica com as atitudes revolucionárias
~as m arcas da influência do em política. Viola Klein, em seu livro sobre o caráter feminino, ..,.
ê das ruínas - também das observou que o chamado movimento feminista vem sendo sobre- ""
:;::::co, na arquitetura, parte tudo um assunto das classes altas. Por vezes é nas sociedades
a~ p assado 1 • Na Alemanha capitalistas, senão mesmo sob governos ditatoriais (ditaduras
Bilder aus der Vergange- "moclernizantes"), que ocorrem as transformações mais sérias na
".l :mitar os "jardins ingle- área do viver cotidiano .
• de, pela espontaneidade e Vale ressaltar, a estas alturas, que a dimensão pública, dentro
reação contra o espirit de ela história social moderna, apresenta duas conotações bastante
....:... ~á derrotada mas ainda distintas. Por uma parte, ela corresponde ao racionalismo, trans·
formado durante o século XVII e sobretudo o XVIII em uma espécie
n:.a e de época "burguesa",
de militãncia histórica, que atuou como enciclopedismo e se desdo-
_ . os casos grego e romano brou em crítica revolucionária, condicionando uma visão mais
-~a o componente escravo
aberta dos espaços urbanos e da relação entre saber e poder, poder
~ talvez tenha sido mais
e governo, governo e obediência. Por outra parte, entretanto, ela
3€5 • • os conflitos só surgem
corresponde a uma conversão do populicus em estatismo, um
:::..á...~os. Não se teorizou (ou
estatismo latente em Rousseau e no jacobinismo. Este estatismo,
- ·ra da sociedade nem sobre que estava na monarquia absoluta, reponta na própria revolução
~'"o m encionado por Aristó-
feita contra o absolutismo, e passa incólume através do não-esta-
• !!tais modernas a presença tismo pleiteado pelos liberais clássicos, desembocando, nas propos-
· processo de secularização tas sócio-políticas do século XX, na permanente ameaça
".!!r: peculiar equihbrio entre totalitária2 • A noção de público, com generosa raiz empopulus, pode
r!da, mas o fator "sistema inclinar-se sobre a acepção lateral ele "coletivo", oposto ao privado,
e pode conduzir à precariedade ela própria dimensão individual do
-~o de ideologias que são
viver, inclusive das liberdades individuais.
~as políticas ou filosofias
Contudo, sem o espaço público não teria sido possível a
~e""""pre carregou uma parte
estruturação das repúblicas contemporâneas, nem elas democra-
er pesar o lado público no
cias, nem elo parlamentarismo. Não se t eria tido a vigência
~!"es igualitaristas, e pare-
ambígua mas indeclinável da opinião pública, nem possivelmen-
--5 de reconstrução. Enquan-
te a racionalização dos ordenament os jurídicos. Com a moderna
a condição do indivíduo
opinião pública- cujas origens Pascal havia detectado - desen-
~idamente como objeto de
volveu-se a imprensa e renovou-se a linguagem política, com a
-:;.as contemporãneas ela pa-
racionalização elo direito unificaram-se os procedimentos e as
garantias; mas a estatização e a tecnologia foram crescendo,

2 . l)omenico Fisichclla, Tota.lilal'ismo - Un Regime <Ü!l Noslro Tempo,Homa, Nuova Jt,alia


,l:.atiaia, 1961, passim.
Scientific.a, 1987 .
68 O JilRDIM E 11 PR1\ÇA
ALGC •

permitindo, no século XX, as ditaduras mais caracterizadas, bem terizante onipresença c 1


como a massificação e a tecnocracia. André Piettre: "as SOC2'!
Em certa passagem de seu Comunidade e Sociedade, um burocracia". De fato a·
dos livros mais notáveis da segunda metade do século passado, que reordenou o direi;.o ~
Ferdinand T oennies registrou uma impressionante dualidade de é sempre o contrapo~:;c
aspectos na estruturação do império romano: relações entre dimensãa.
suas distorções as ~
[ ... ]dois desenvolvimentos; de urna parte a cultura, a mobilização, a universa-
lização, tudo terminando pela sistcmoti7.açiio c codificação do direito; de outra parte
o desaparecimento da viJa c dos costumes no interior daquela brilhante culhn·a do
Estado, da g1·andc administmção pacíl'ica, c da jurisdiçiio rápida e segura3 .

Tentaríamos acrescentar a esta citação o seguinte: o próprio


fenômeno, ocorrido em várias culturas mas exemplarmente no
Ocidente, da passagem do direito "costumeiro" ao direito legis-
lado, confirma ao que parece primado da dimensão pública sobre
a privada. Os étimos latinos o ilustram: o verbo habeo, com
particípio passado em habitum, teve a mesma raiz que habitare e
habitudo, ele onde se percebe o parentesco entre o morar, ou seja o
estar na casa (habitatio) e o hábito, que se desdobra em costume.
Em alemão temos uma correspondência análoga ocorrente entre
wohnen (morar), gewohnen( habituar-se), e Gewohnheit, costume
(Gewohnheitsrecht, direito costumeiro). A passagem ao direito
legal terá constituído um triunfo da praça, do populicus, sobre o
âmbito privado, sobre o direito da casa e do foyer primitivo.
Talvez se possa então dizer, trazendo agora o enfoque para
a história moderna, que a observação de Tocqueville, segundo a
qual a Revolução Francesa não desmontou nem desmentiu a
organização administrativa do ancien régime, adotando-a e dan-
do-lhe continuidade, corresponde ao fato de que ao espírito
moderno (ou seja, pós-feudal), que tanto esteve presente no
tempo de Colbert como no de Napoleão, veio sendo correlato um
certo sentimento do domínio público. E talvez caiba registrar que
em nosso século, nas últimas décadas, vem -se dando uma espécie
de saturação deste domínio: saturação dos próprios espaços
físicos pelo excesso de gente, que se verifica por toda a parte com
a chamada explosão demográfica, e saturação do sentido de coisa
pública pelo acúmulo de reivindicações sociais e pela descarac-

3. S ociétéet Communcwté, trad. J. Lcif, Paris, PUP, HJ41, Livro !li, item XIX, p. 201.
ALGUMAS DIGRESSÕES HISTÓRICAS 69

terizante onipresença do Estado. Lembro-me sempre da frase de


André Piettre: "as sociedades nascem na religião e morrem na
'ànde e Sociedade, um burocracia". De fato a burocracia, fruto do p róprio racionalismo
=~arle do século passado, que r eordenou o direito e fez as epistemologias contemporâneas,
1---~~
~ ,...;
~ "onante dualidade de é sempre o contraponto da massificação, que desequilibra as
relações entre dimensão pública e recint o privado, afetando em
suas distorções as estrutura s e os conv ívios .
a mobilização, a universa-
--=;::~-vdo a:.reito; de ouLrn pa rte
=nela b rilhante cultlll'a do
- r.2pida c scgur a 3 _

~"-----"""~'"'~
seguinte: o próprio
n

a:..: ~ exemplarmente no
~--rro'' ao direito legis-
Cme::lSão púb lica sobre
--= c ·:-erbo habeo, com
_:::.:~~a raiz que habitare e
Bll!'e o morar, ou seja o
se desdobra em costume.

!':!. pa.:;sagem ao direito


«b populicus, sobre o
f.J>--er primitivo _
~-ora o enfoque para
Tocque·ille, segundo a
- • !:...e:n desmentiu a
e., ado:ando-a e dan -
de que ao e spírito
~e,·e presente no
_ H'!!do correlato um
<Caiba registrar qu e
dando uma espécie
;: próprios espaços
per toda a parte com
- do sentido de coisa
~........_.·""- e p ela descara c·

..:zm XIX. p. 201.


11. OUTRAS DIGRESSÕES, COM ALUSÃO AO DIREITO
E AO CONTRATUALISMO

Insisto sobre o problema do espaço, c dos espaços. No


pensamento de Kant, como se sabe, o tempo e o espaço são
categorias a priori do entendimento: são algo que se acha "den-
tro" do ser humano. Cabe compreender est a idéia no sentido de
que para a teoria do conhecimento eles são condições dadas na
própria estrutura do entendimento. Entretanto, no plano da
experiência concreta do viver dos homens, o tempo parece mais
redutível ao plano interior do que o espaço. "Sente-se" o tempo
como a lgo tanto exterior quanto interior, algo que nos atravessa
(e que nos penetra), pois estamos no tempo mas ele nos ocupa
por dentro; enquanto que o espaço - que o grande intuidor que
foi Descartes chamou étendue - sempre o imaginamos como
exterior ao eu, senão mesmo como a própria exterioridade, com
a qual identificamos inclusive a mensurável materialidade do
corpo humano . A corporeidade é, de imediato, espacialidade.

Sobre a demarcação do espaço, ou seja, dos espaços : a


"exterioridade" do espaço sempre enseja uma visão objetiva. O
espaço se entende como objeto, e sempre em rel ação com planos
e n íveis. Daí a constante relação da demarcação dos espaços, nas
72 O JARDIM R A PRAÇA

sociedades humanas, com a visão hierárquica dos homens e das


coisas. Foucault tocou no problema dos espaços em Les Mots et
les Choses e em Surueiller et Punir, estudando neste a implacável sempre constituiu
organização do espaço que em certa época foi vigente em escolas, vida das pessoas. C<l
hospitais, quartéis e prisões, mesmo após o iluminismo. das pessoas, dado
A propósito das conexões entre espaço e hierarquia, e com ções mais estreitas~
o que a sociologia acadêmica denominou durante decênios "dis- mento, desdobrar
tância social", cabe fazer algumas anotações. indivíduo, inclusi-.;· e
Desde os contextos mais antigos, as instituições sociais têm soalidade" se enco!:
condicionado a feitura de construções (edificações) específicas, O que se den:::-
destinadas a conter (ou a simbolizar e abrigar), em seus insubs- do que propriame:~·
tituíveis espaços, as diversas funções que correspondem à domi- empregar o termo
nação social. Assim os templos, os tribunais, os teatros, as coisas que possue:::::.
escolas. Nos templos a ostensiva distribuição das partes, na que se conceit u a ~
horizontal e na vertical, separando o recesso, ou seja o interior se um conjunto de.::.
- com o lado misterioso do sagrado - das diversas secções corporal quer
acessíveis ao público. Nos tribunais a representação das várias Jung), a part ir de
funções nas várias porções de espaço: o lugar do juiz, ou dos juízes,
o dos advogados, o dos réus se for o caso, o do público para quando
prevista a sua presença. Nos teatros o palco, que é um espaço de "sociedade", ou
distinto inclusive por sua significação de cena imaginária, coloca-se acepção global, es
abaixo ou acima dos lugares de onde será visto (outro problema, o coletividade terá er-_•
da diversidade de níveis nestes lugares, conforme a visibilidade,
inclusive frisas e camarotes). Nas escolas antigas, o estrado para
a figura do mestre, as cadeiras padronizadas para os alunos, o
espaço de recreação - coisas hoje contestadas mas tendendo a ser
substituídas por alguma outra forma de ordenação espacial. estão dentro do s
Estas demarcações espaciais correspondem à representa- indivíduos. Sercpre
ção do poder: o poder tem qualquer coisa de cênico, como perce- partir da correlaçã
beu e mostrou Georges Balandier'.E não cabe pensar, qual fazem de (ou coletividade
a ligeiradamente certas pessoas desconhecedoras da história, imperfeita: o p úb::._
que a fixação de níveis deste tipo é própria da sociedade "bur-
guesa", e de seu "aparato" estatal. Na verdade todos os contextos
anteriores à época dita burguesa tiveram este caráter, com o
recurso às proporções espaciais para a imponência do poder e
para a persuasão das mentes.
Espaço = poder

1. O l'oâer em Cena, trad. Luiz Mourn, 13rasílin, UnB, I!)82. origens, ao menos
OUTRAS DIGRESSÕES ... 7:3

:"~uica dos homens e das Quando se menciona a dimensão privada do viver, está-se
'espaços em Les Mots et colocando o tema da família (e das estruturas de parentesco), que
..---~...~
. . . do neste a
implacável sempre constituiu, em qualquer sociedade, o marco básico da
:oi vigente em escolas J
vida das pessoas. Com isso se coloca, por extensão, o tema do ser
-- o iluminismo. das pessoas, dado em sua existência concreta e em suas conota-
~';O e hierarquia, e com ções mais estreitas. Dispensável porém será, ao m enos no mo-
..... durante decênios "dis~ mento, desdobrar daí o problema da distinção entre pessoa e
('OeS. indivíduo, inclusive porque no caso a individualidade e a "pes-
~ =stituições sociais têm soa lidade" se encontram em um mesmo plano.
~--i.-'icações) específicas, O que se denomina indivíduo, em sentido :mtes psicológico
2!rr:gar), em seus insubs- do que propriamente ético (neste seria realmente mais cabível
-E correspondem à domi~ empregar o termo pessoa) e o que se denomina coletividade são
...::~ unais, os teatros, as coisas que possuem diferentes estruturas. Na estrutura daquilo
- ::mção das partes, na que se conceitua como indivíduo, ou como individualidade, acha~
recesso. ou seja o interior se um conjunto de elementos do viver, que se desenvolvem, quer
- das diversas secções corporal quer animicamente (esta palavra vai no sentido de
rer:-esentação das várias Jung), a partir de experiências que se ligam ao "mundo circun-
-~do juiz, ou dos juízes, dante", ou seja a um contexto caracterizado. Este contexto cor-
do público para quando responde por sua vez, e isto explica e complica, à noção corrente
pa!oo, que é um espaço ele "sociedade", ou por outra, à coletividade tomada em uma
~...:a ;..y,aginária, coloca~se acepção global, específica e provida de conteúdos peculiares. A
..... ~~(outro problema, o coletividade terá então de ser entendida como oposta aos indiví-
~onne a visibilidade, duos, mas também composta por eles, sendo o "social" evidente-
., a:::.r:!gas, o estrado para mente uma condição e um r esultado em relação ao núcleo pessoal
, _-:a c: para os aiunos o do viver, este de resto não totalmente isolável.
as mas tendendo a ser ' Habitualmente pensa-se, ou afirma-se, que os indivíduos
~e!laçào espacial. estão dentro do social, como se este se encont rasse "fora" c1os
111'-"P<::::n<'lndem à representa~ indivíduos . Sempre o uso das a lusões espaciais. Pois bem: a
de cênico, como perce- partir da correlação entre os binômios pessoa/privado e socieda-
cabe pensar, qual fazem de (ou coletividacle)/público, a utilização da metáfora se revela
:..cedoras da his tória, imperfeita: o público se concebe em geral como algo que está fora,
~- da sociedade "bur- ou para fora, e o privado como algo que se acha dentro ou para
:!da.de todos os contextos dentro, mas este não se acha propriamente dentro daquele. Mais:
..,.. este caráter, com o a ambas as noções é cabível atribuir um dentro e um fora, o que
r=ponência do poder e complica o lance.
Contudo, a permanecermos com esta metáfora, valerá ob-
viamente perguntar: o "privado" e o ''público" correspondem ao
dentro e ao fora de quê? Talvez ela casa: a experiência das
origens, ao menos em alguns contextos, avaliza a metáfora. A
71 O JARDIM E A PRAÇA

vida d esenvolvida à volta da casa e da família prolongou-se se diz também que n os s


gradativamen te, passando em certos casos "dos clãs aos impé· contrato, foi altamente.
rios" (na expressão adotada por Moret e Davy), ou passando ao Lo, no sentido m oderno e
m enos pelas dimensões da aldeia e da cidade. As grandes civili- o liberalismo, no qual c e ,
zações da a ntigüidade mais antiga for am basicamente cidades. ao espírito burguês - se
Ao advir a cidade, o homem redimensiona sua visão do mundo, liberdades individuais.
seu sentido de espaço, sua auto-imagem dentro da convivência impensável. No esquerr_
grupal. A casa entretanto prossegue, r evalorizando·se como in- to contract, configurava-
terioridade, como recinto do existir m ais "direto", que evoluirá passando ele conte},.rtos
dentro do que lhe está fora, isto é, do espaço urbano e da ordem dele, para situações e-
pública. Evoluirá paralelamente a esta ordem, s ofrendo trans· contratante - emer ge ::
formações históricas paralelas, mas sem se confundir com ela. A vo. O tema voltará 1l.!n
casa (o "lar" segundo o étimo clássico convertido em imagem Hegel, que via no
conven cional), não é entretanto uma realidade meramente "in- tudo a ética e a políti::a.
dividua l", mas de certo modo também grupal, e deste modo tend ência oposta ao J:"
possui u m fora c um dentro, um sistem a de conexões com a ordem público da organizaç.:.~
pública e uma estrutura interna, onde vigoram padrões variá- contratualismo r ousse.::
veis mas sempre específicos. zante, bem como do ··!::.
Evidentemente a evolução de ambas as esferas, a pública e in di viclual. Já n os esc:-:.-
a privada, depende de p adr ões culturais e de condições econômi· sado o contras te en:..>-t
cas. Trata-se de um quadro antropológico, onde se tem o ser gando a con siderar ·rr.i
humano construindo seus mundos- arte, produção, crenças - e se torna predomin B!lte
pra ticando seus ritos pessoais, domésticos e cotidianos. E aqui que o povo com.o um :.
se tem também o problema da propriedade, que igualmente Não sei se posso.::
evolui por dentro de ambas as esferas . Estar sentado debaixo de ele Rousseau , mas o
um arbusto em seu próprio jardim, ou parar sob uma árvore no refer ência conceituU:,
meio de uma praça, são duas coisas d istintas também sob esse clássica ela unidade c
prisma: achar-se em t erritório priva do, de propriedade de al- Rousseau foi n a verda-
gu ém, ou em esp aço público, coisa de todos (da comuna, como se roman as por exemplo.
dizia no tempo das cidades livres italianas). bastantes para que -
(o Esta do, a É tica. a
Anotemos algo sobre o privado e o público em Direito. implícito.
Observamos, acima, que o privatismo-localismo do costume foi Mas retornemo.s
suplantado, em diversos contextos his tóricos, pelo pub licismo- época de pactos, is~= e:
generalismo da lei. É comum, por outro lado, afirmar-se que n as pré-liberal, foi tamhe=
épocas em que prevalece o feudalismo, como a Idade Média, n ão "cartas" (como a =-.la~
se definem reciprocamente a esfera pública e a privada; ou então,
aquela não se r ealiza plenamente (daí a a lusão à inexistência de
2.
Estado no medievo). E n tretanto a coisa não é t ã o simples. Pois
OUTRAS DiGRESSÕES.. . 75

se diz também que nos séculos feudais o conceito de pacto, ou de


contrato, foi altamente relevante; entretanto a noção de contra-
to, no sentido moderno e contemporâneo tem muito o que ver com
o liberalismo, no qual o espaço público- que Habermas vinculou
ao espírito burguês- se articula com a própria reformulação das
..,.
liberdades individuais, em um sentido que na Idade Média seria
""
impensável. No esquema famoso de Sumner Maine, from status
to contract, configurava-se a inelutável evolução das sociedades,
p assando de contextos em que o grupo é tudo e o indivíduo função
dele, para situações em que a vontade individual - livre e
contratante - emerge como resultado histórico tido por definiti-
vo. O tema voltará um pouco adiante.
Hegel, que via no lado prático ela realidade humana sobre-
tudo a ética e a política, percebeu de pronto, no liberalismo, uma
tendência oposta ao Estado. Daí sua ênfase sobre o aspecto
público da organização das existências, e daí sua recusa do
contratualismo rousseauniano, segundo ele demasiado privati -
esferas, a pública e zante, bem como do "moralismo" kantiano, de índole subjetiva e
individual. Já nos escritos teológicos juvenis, havia Hegel anali -
- C:O:::Idições econômi-
:nde se tem o ser sado o contraste entre religião pública e religião privada, che-
uçào, crenças - e gando a considerar "infelizes" as épocas em que a vida privada
se torna predomin:=mte, sendo ao contrário felizes aquelas em
e cotidianos. E aqui
que o povo como um todo "exerce a virtude pública"2 •
~ que igualmente
~:mado debaixo de Não sei se posso atrever-me a dizer que Hegel foi mau leitor
..::00 uma árvore no de Rousseau, mas o certo é que neste o contrato foi só uma
"' ~bém sob esse referência conceitual, dominando em seu pensamento a imagem
propriedade de al- clássica da unidade cívica urdida em torno da moral pública.
Rousseau foi na verdade um fascinado pelas virtudes antigas, as
romanas por exemplo. De qualquer modo as alusões feitas são
bastantes para que reconheçamos em Hegel um certo platonismo
- :Wico em Direito. (o Estado, a Ética, a Moral pública), ou um anti-epicurismo
'~'-"---....,.uo
do costume foi implícito.
"' pe1o publicismo- Mas retornemos à noção de pacto. Se a Idade Média foi
afinnar-se que nas época de pactos, isto é, acordos de vontades em sentido ainda
a Idade Média, não pré-liberal, foi também, segundo se costuma afirmar, época de
pr:,·ada; ou então "cartas" (como a Magna Carta Inglesa de 1215 ou a Bula de Ouro
- .
~-....,-~a inexistência de
'
é cio s imples. Pois 2. c r.l\orhc r lo 13obbio, "Direi lo Privado c Dir eito Pt'oblic;o cmllcue l", C ll l ~nsa ios /':.WYllhidos, Sã o
Pnulo, Ed. Ca.rdim, 1988.
7(] O .JARDIM E A !'RAÇA

da Hungria de 1222), e não propriamente de constituições, estas


surgidas das r evoluções modernas como obra do lado publicizan- as estruturas do pensa!"
te do espírito burguês . Na verdade não parece tão óbvio, como as do existir priva do. :::
pretendeu Hegel, que a "burguesia" tenha tido apenas tendências ela o capitalismo; im~­
privatizantes; aliás Habermas, conforme já mencionamos, situou noção de ordem púbu
em conexão com o papel histórico do burguês a estruturação de entronizaram a p raça
um específico espaço público, ou de uma peculiar "publicidade". históricas. O iluminis
O que ocorre é que o espírito moderno, burguês-leigo-racional, à divisa sapere aude.
reformulou a seu modo um problema que em cada grande contex- conhecimento eleve ser
to histórico se reelabora: o das relações entre dimensão pública e que tinha sido em par...ê
dimensão privada. utópica, no sentido da
O Estado Moderno, com seu sentido de concentração e ao com o ideal pedago~.s­
mesmo tempo sua formalização normativa, passou a ser um progrcsso - destino ·
Estado "constitucional" na proporção em que esta formalização homens à plena posse
se tornou essencial para sua existência. E isto foi obra do libera- Detenhamo-nos •
lismo, que pretendeu redimensionar a posição do indivíduo dian- discutível, do tr ânsl::-
te do Estado, convertendo àquele em "cidadão" e a este em oriunda do human ism
sistema de funções, tornadas transparentes justamente pela os termos empregados
formalização normativa. nosso século apesar .:o
Pactos e contratos, que costumam ser ligados à idéia das ela vieram manten do-s...:
vontades privadas, podem dar-se também, historicamente, entre tros nem tanto.
povos, como entre impérios, como entre monarcas. A Idade Certos estudiosos
Média - não deixando sem registro o abuso que consiste em de que na Idade 1\.Iéd:;..:r
usar-se esta expressão como designadora de algo muito uniforme relações e das estruru::
-terá sido em grande medida um período de lealdades pessoais, nos séculos feudais a ,·-
onde pactos e alianças se mantinham sem o Estado por perto. a Igreja. Entret anto -
Entretanto o mundo moderno, com o capitalismo e como laicismo contexto são mais isso
"burguês", manteve em larga escala a utilização dos contratos, algun'l outro, o que oc;::_
só que reformulanclo seu alcance e metendo-os dentro de uma finais da história ro
sistemática jurídica inteiramente nova, como não podia deixar
ele ser.
Não se pode forçar as generalizações, nem pensar em dife-
renças muito extremadas entre duas épocas sucessivas, pois
quase sempre o que ocorre são transições, são variações de
ênfase, são combinações diferentes. Entretanto é certo que em
dados períodos as alterações se aprofundam, e elementos que naqueles séculos o ...
existiam em determinado contexto se apresentam, no contexto marca da terra sobre -
seguinte, basta nte transformados. Deste modo será válido falar trânsit o ao "moderno" -
ela influência elo processo de secularização geral que, ao esten- um novo sentido de L •
OUTRAS DIGRESSÕES.. . 77

ce ronstituições, estas der-se dentro do Ocidente a partir dos fins do medievo, modificou
., do lado publicizan- as estruturas do pensar, as do poder, as da economia e também
,parece tão óbvio, como as do existir privado. Com ele a burguesia se consolidou, e com
~ apenas tendências ela o capitalismo; implícita ou explicitamente se consagrou a
:::::encionamos, situou noção de ordem pública. As revoluções "burguesas" (liberais)
_ =-s a estruturação de entronizaram a praça como lugar e fonte, ou símbolo, de decisões
pa:c.~';ar "publicidade". históricas . O iluminismo, que Kant em ensaio famoso vinculou
' !!!'g"'Jês-leigo -racional, à divisa sapere aude, estabeleceu o princípio segundo o qual o
~cada grande contex- conhecimento deve ser público: contra o saber oculto e esotérico
~ dimensão pública e que tin ha sido em parte o da Idade Média. No fundo uma atitude
utópica, no sentido da absoluta difusão das "luzes", e consoante
'E"" concentração e ao com o ideal pedagogista do século XVIII, que pretendia que o
- passou a ser um progr esso - destino inexorável dos povos levasse todos os
__e e.::.-ra formalização homens à plena posse da ciência .
= ::::=ft :Oi obra do libera-
,...._:~-.._.do indivíduo dian-
Detenhamo-nos por um pouco sobre a imagem, sempre
discutível, do trânsito do medieval ao moderno. Esta imagem,
_=atião'" e a este em oriunda do humanismo e de seus prolongamentos- inclusive com
=.:.c::; :ustamente pela os termos empregados por Cellarius -, veio sendo mantida até
nosso século apesar do desgaste da expressão "moderno", e com
ela vieram mantendo-se velhos clichês, alguns verdadeiros ou-
tros nem tanto.
Certos estudiosos têm, como já dissemos, difundido a idéia
-::~ que consiste em ele que na Idade Média teria prevalecido o aspecto privado das
- a.r~o muito uniforme relações e das estruturas. Garcia-Pelayo chegou a adiantar que
"'_ea.:dades pessoais, nos séculos feudais a única coisa realmente "pública" teria sido
Estado por perto. a Igreja. Entretanto, como as imagens referentes a d eterminado
~n e como laicismo contexto são mais isso ou mais aquilo em comparação com as de
-;ão dos contratos, algum outro, o que ocorre é que a p resença do Estado nos séculos
...-:s dentro de uma finais da história romana, repetida de certo modo a partir do
absolutismo "moderno" n as grandes nações européias, faz com
que se veja o longo trecho medieval (confuso e variado mas com
alguns traços constantes) como um tempo onde houve "menos"
"" sucessivas, pois presença de estruturas estatais, e mesmo de espaços públicos no
são variações de sentido moderno. Além disso a configuração do privatismo me-
3a!lio é certo que em dieval se corrobora com o localismo ou "part icularismo", que foi
_ _-.. ::.. ., e elementos que naqueles séculos o complemento dos vínculos p essoais e da
-s:::.am, no contexto mar ca da terr a sobre os valores sociais. Não é por acaso que o
-:: será válido falar trânsito ao "mode rno" envolveu entre outras coisas o advento de
- ge..-lli que, ao esten- um novo sentido de vida urbana, aderido a o crescente papel da
78 O JARDIM/:: 1l PRt\ÇJ\

burguesia c do dinheiro. Talvez se possa realmente encontrar,


na urbanística moderna, um sentido de espaço bastante distinto
do que existiu nas cidades medievais; e é interessante aludir
aqui ao famoso ensaio de Werner Sombart sobre a relação entre nazismo, assumido in.::...
o capitalismo e o espírito do luxo, no qual se acham estudadas 1950 seu livro sobre G
as características das grandes urbes que foram, dos séculos XVI e em 1958 seus con -
e XVII em diante, centros de prazer e de poder: cidades com (Gespraeche über der.
largas áreas e com um novo padrão de mentalidade. Quanto à idéia ;]
A tentação das divisões triádicas, que sempre atuou sobre gundo a qual o saber
os diversos autores que trataram da história "geral", se refletiu vale acentuar algum::.s
em diversos esquemas: no de Vico (história divina, heróica e situa dentro da luta en.
humana), no de Comte (épocas teológica, metafísica e positiva),
no de Morgan (selvageria-barbárie-civilização) e também no de e a concepção "aber..a•
Engels e Marx, que falavam de escravismo, feudalismo e capita- ta). Esta luta, que na~
lismo, resolvidos na solução socialista. Entretanto a diferença no século V a.C., core
entre o mundo medieval e o mundo moderno tem dois aspectos. epistemológico, reapa:!
Por um lado eles são, no caso do Ocidente, uma continuidade, de ocultismo coexiste::n
são etapas de uma mesma cultura; por outro eles representam co-natural moderna . .
dois p adrões de vida histórica muito distintos, e neste sentido o alguns lances do temz
fosso entre feudalismo e capitalismo- ou sociedade moderna, ou Obra em Negro. :\o :
burguesa - é mais profundo do que o que pode existir entre aberta - à falta de m
capitalismo e socialismo. Estes dois são no fundo resultantes do XIX para o XX, em um
processo geral de secularização, que tanto afeta a esfera cultur'a l ções, de debates e de f
como a econômica, enquanto o mundo feudal foi anterior àquele ponderá à democrar
processo. difusão das "comunica ..
Retornando ao tema do advento do sentido de espaço públi- plicações da ciência
co no mundo contemporâneo (aceitando-se a convenção cronoló- "fechamento", com o -
gica que o instala a partir do trânsito do século XVIII a o XIX), ciências naturais, sob_
temos isto: o desdobramento da coisa "Estado" em diversas Sobre a democr a
formas institucionais e sob diversos ismos políticos, com osten- nheim escreveu em 1
sivo crescimento do lado público do viver (inclusive sua presença Demohratisierung àes
dentro da linguagem), e entretanto a persistência do padrão verter para Democrafi_
privado como conjunto de elementos vindos da antigüidade clás- de Geist por "espíri:o•
sica: matrimônio, mulher, crianças, cama, mesa, aniversários, trata-se, no estudo de~
laços domésticos. A dualidade, que nem sempre representa atri- como fenômeno históri
to, prossegue através do oitocentos e desemboca em nosso século. Pois naquele ensaio· o
Neste, entram em crise a vida da família e os valores domésticos
tradicionais, enquanto os regimes autoritários reforçam as pa-
redes do Estado, cujo intervencionismo se torna geral. A figura
OUTRAS DIGRESSÕES... 79

realmen te encon trar, do espaço público terá tido, no século XX, sua "esquerda" e sua
E5'p:a.ÇO bastante distinto "direita": assim a Praça Vermelha em Moscou com suas monu-
- e i: interessante aludir mentalidades, assim o tema do Lebensraum (espaço vital) no
""'---~. sobr e a relação entre nazismo, assumido inclusive por Carl Schmitt, que publicou em
_...::. 5e acham estudadas 1950 seu livro sobre o "Nomos da Terra" (Der Nomos der Erde)
.:"::"!"am, dos séculos XVI e em 1958 seus concisos "Diálogos sobre os novos Espaços"
e de poder: cidades com (Gespraeche über den neuen Raum).
- r::en:::alidade. Quanto à idéia iluminista, mencionada linhas acima, se-
gundo a qual o saber tende a (ou deve) tornar-se algo público,
:;.c.:-:a ''geral", se refletiu vale acentuar a lgumas de suas correlações históricas. Ela se
,tória divina, heróica e situa dentro da luta ent r e a concepção hermetizante e esotérica
l"~~·~.;;a. metafísica e positiva), elo saber, o saber como uma r evelação a que poucos têm a cesso,
.......zaçào) e também no de e a concepção "aberta", latentemente racionalista (e cientificis -
....s::::.~ feudalismo e capita- ta). Esta luta, que na Grécia antiga ocorreu ao tempo ela sofística,
En:retanto a diferença no século V a.C. , com o cultivo elo debate e com o r e lativismo
==demo t em dois aspectos. epistemológico, reaparece no Renascimento onde certos restos
c.A;:~=:e. uma continuidade, de ocultismo coexistem com os começos ela metodologia científi-
• outro eles representam co-natural moderna. Aliás Marguerite Yourcenar acenou com
-E;;.in:os, e neste sentido o alguns lances do tema em passagens de seu romance histórico A
- ou sociedade moderna, ou Obra em Negro. No fundo, a concepção que aqui chamamos
o que pode existir entre aberta - à falta ele melhor termo - vai desdobrar-se, do século
- no :i.mdo res ultantes do XIX p ara o XX, em um largo processo de ampliação de informa-
ções, ele debates e ele formas de expressão, processo que corres-
ponderá à democratização dos produtos culturais e também à
difusão das "comunicações". Embora que por outro lado as com-
plicações da ciência possam estar levando a um outro modo de
:::e a convenção cronoló- "fechamento", com o saber privativo de poucos - refiro-me às
do século XVIII ao XIX), ciên cias naturais, sobretudo.
"Estado" em diversas Sobr e a democratização elos produtos culturais, Karl Man-
:.GS políticos, com osten- nheim escreveu em 1933 um sugestivo ensaio, com o título de
:nclusive sua presença Demokratisierung des Geistes, que o tradutor espanhol preferiu
rersistência do padrã o verter para Democratización de la Cultura, evitando a tra dução
'i'::ld:)s da antigüidade clás- ele Geist por "espírito", mais correta mas no contexto inviável:
~a. m esa , aniversários, trata-se, no estudo de Mannheim, da influência da democracia,
!:!::! ~empre representa at ri- como fenômeno histórico abrangente, sobre expressões culturais.
~e:nboca em nosso século. Pois naquele ensaio3 o autor tenta estudar a cultura democráti-
-- e os \'alores domésticos ca, que veio crescendo com a própria presença histórica da
-- ~ios reforça m aspa-
:s;e torna geral. A figura 3. Inserido em E nsa)·os de Sociologia de la Cullura, lrnd. M. Snlirez, Mnclricl, 1\guillar, J057.
80 O JARDIM E A 11/lAÇA

democracia política, em confronto com a cultura aristocrática.


Ao atribuir à mentalidade democrática um pendor mais otimista tocante aos compor.: -
e ao mesmo tempo mais aberto às mudanças sociais, Mannheim gim e social do contra:._
coloca observações que revelam o relativismo que se acha dentro vam plenas. A alusão
daquela mentalidade, e que a nosso ver tem relação com um certo os períodos primit!...-;:;.~
sentido de posteríorídade histórica (em relação aos padrões aris- cabiam na imagem os -
tocráticos, especialmente), e também com o fundamental proces- no sentido da pré -de-
so de secularização. dos comportamentos - r
Este relativismo, próprio da Grécia antiga nos últimos acentua este dado dos _
tempos, tem muito a ver com a proliferação de ismos trazidos visão mais estática d
pelo pensamento leigo moderno, e se apresenta por assim dizer sentido, a interpreta·-
como lâmina de dois gumes: de um lado a validade dos criticis- cultura democrática Sê
mos está ligada a ele, mas de outro há o acúmulo de sutilezas e
a crescente sensação de crise.
Quanto ao problema do "papel social da ciência", latente na Quanto ao conta
idé ia de uma publicização do saber, ele chegou em nosso século antiga e aportada aos
a impasses dramáticos, com o problema - entre outros - dos mo, a referência aos ~
possíveis princípios éticos do trabalho do cientista, com freqüên- a legit imidade do
cia s ervindo ao poder e a discutíveis propósitos políticos. antes de tudo, um lega

Mas voltemos aos contratos e a o contratualismo, menciona-


dos algo acima. Os civilistas do século XIX, montados sobre
fontes romanas mas em sintonia com o espírito de seu tempo, de uma vontade "ger ai
pensaram nas vontades individuais como conteúdo específico do para terem sentido e
contrato, e neste como expressão p erfeita delas: complemento, viver. Esta quase peti -
de certo modo, de idéia rousseauniana da lei como expressão do argumento, e pe
(perfeita) da volonté générale. Pois n ã o faltou ao século XIX um deve descartar- se - a
modo de acoplar esta idéia com a genérica e onipresente idéia de "refutava" em ter m os
evolução. Quase todos os grandes pensadores daquele século
acreditaram em alguma forma de evolução: evolução da s elvage -
ria à civilização, das sociedades monocelulares à complexidade cem anos como cnse . . .
m oderna ou qualquer fórmula comparáve l. O liberalismo adota- cos, é algo mais do
va o "princíp io" da evolução como sucedâ neo ou prosseguiment o paradigma dogmático111
da lei do progresso. E em Sumner Maine, que já citamos e cuja sarnento jurídico, dian·
vivência na Índia reforçou suas crenças evolucionistas, encon- zação" do próprio co-
tramos a célebre expressão from status to contract, onde a noção codificador vindo do ~
de contrato era tomada em sentido amplo, envolvendo o aspecto
jurídico e as implicações sociais: do status, condição das pessoas
d entro daqueles grupos em que a ordem coletiva (e dentro dela
OUTRAS DIGRESSÕES... 81

o esquema de relações familiares) tudo definia e pré-definia no


tocante aos comportamentos, passava-se historicamente ao re-
gime social do contrato, em que as liberdades pessoais se torna-
vam plenas. A alu são ao status abrangia, neste tipo de pensar,
os períodos primitivos e as sociedades antigas, mas também
cabiam na imagem os séculos de cultura aristocrática, ao menos
no sentido da pré-determinação familiar das posições sociais e
dos comportamentos (Mannheim, no ensaio que citei mais acima,
acentua este dado dos contextos aristocráticos, o da tendência à
visão mais estática do que dinâmica das estruturas). Neste
sentido, a interpretação cabível seria mais ou menos esta: a
cultura democrática se considera mais dinâmica em relação aos
estágios "pré -democráticos", e neste dinamismo cabem, como
preço, as instabilidades e as crises latentes.
Quanto ao contatualismo, velha teoria surgida na Grécia
antiga e apartada aos conceitos e preceitos do moderno liberalis-
mo, a referência aos consentimentos individuais como base para
a legitimidade do poder, c portanto para a obediência, é nele,
antes de tudo, um legado teórico. Por mais relevante que a teoria
tenha sido em certo tempo, e por mais simpática que seja como
i'c==~t!"~mo, menciona- configuração doutrinária, permanece nela uma certa ambigüida-
li~. montados sobre de: as anuências individuais fundamentam a própria existência
~:ir:ito de seu tempo, de uma vontade "geral", que é já de nível social, mas dependem,
amr.eúdo específico do para terem sentido (e eficácia), de um plano m eta-individual do
delas: complemento, viver. Esta quase petição-de-princípio se acha no próprio interior
le! como expressão do argumento, e permanece mesmo quando se descarta- como
"' o ao século XIX um deve descartar-se - a interpretação empírica do contato, que o
"refutava" em termos antropológicos.
De qualquer sorte a chamada crise do contrato, ou crise da
"soberania" do contrato, que vem sendo denuncia da há quase
cem anos como crise do individualismo e do voluntarismo jurídi-
cos, é algo mais do que isso. Trata-se da crise do chamado
~-~ou prosseguimento paradigma dogmático4, o do próprio modelo priva tísLico do pen-
que iá citamos e cuja samento jurídico, diante do crescimento do Estado e da "publici-
~lucionistas, encon-
zação" do próprio conceito de Direito. Crise, também, do ideal
~~-act, onde a noção
codificador vindo do iluminismo e maturado durante o século
en··olvendo o aspecto
ro::dição das pessoas
4. Cf. Zuleta P ucciro, Paradigma fiDRmrit ico y ciencin del derecho, 8d. J1.,v. du Derecho Priuoclo,
e&:::.Ya (e dentro dela Madrid, 198 1.
82 OJAJWIM Jo: A PRAÇA

XIX: estaríamos dentro, segundo certos autores, de uma fase de


"decodificação" dos ordenamentos .
Esta alusão ao Direito r equer, entretanto, algumas anota-
ções mais. Citei, no começo, o importante estudo de Jürgen
Habermas sobre o espaço público, onde a noção genérica de
esfera pública se considera, em sua concentrada versão burgue-
sa, como categoria histórica específica5 . O Livro apareceu em
alemão em 1962. Em 1979, o próprio Habermas coordenou a
edição de um volume coletivo, referido à comemoração do livro
de Jaspers sobre a "situação espiritual do tempo"; volume no
qual se incluiu um estudo de Jürgen Seifert intitulado "Casa ou
Forum", dirigido a analisar a diferença entre duas concepções de
constituição: a constituição como casa, isto é, como s istema
fechado de valores, totalidade imodificável, ou como forum, isto
é, texto aberto, projeto democraticamente passível de ser refeito
com o concurso de todosn. Em 1980, tocando em temática análo-
ga, Peter Haberle estudou a função da dimensão pública n o
Estado democrático, afetando também o sentido do ordenamento
constitucional: a publicidade seria por excelência o princípio Entretanto, há
jurídico-constitucional da democracia7 • expressões sempre
Não podemos ir atrás do assunto em todas as suas correla- e os urbanos, e onde
ções, mas será sugestivo citar de novo o breve e incitante livro privada aparece oo:n
de Georgcs Balandier O Poder em Cena. Logo no capítulo primei- quase sempre, o pú
ro ele nos fala das cidades, que apresentam "múltiplas cenas implacável planiE
construídas pelos regimes sucessivos" - e neste caso o grande Alguns autore:::
exemplo para ele é Roma -, c também, especificamente, do contraposto dentro
espaço público que abriga os símbolos do poder, quase como o vélica" e a linha "1.4~ .:
palco de um drama, que se desenrola em termos inconfundíveis. nável, posto que se.
não contrasta mu::-
de Maquiavel; mas
cotejo. Inclusive o
quem pense que as ~
e isto é verdade e.r:r.
sido um pessimista -
....
fi.'.
_ que os grandes pe~
descrentes da 'bon-
5. L'l!:space public, 1\rchéologie de lapublicilé ele., cit. verdade ao menos :e-
6. J. Scifcrt, "llaus ode r Forum- Wcrtsystem odcroffcnc Vcrfassung", em Slrichworle zu.r Geistige Só que o ot·
Situation dcs Zeit, vol. I (Frankfurt, Suhrkamp, 1979).
7. Die Ver{assungdes l'luralismus, Konígstcin, i\i.henacunt, 1980, item Gdo cap. TT. seus autores des
12. SOBRE AS UTOPIAS
.. ....
~= ,..,.-~;o, algumas anota-
:i.A.!lle estudo de Jürgen
a noção genérica de ....,.
:=:::leo:rada versão burgue-
0 Li':To apareceu em
fhle__~as coordenou a
a a.n:emoração do livro
dt. :empo"; volume no
·:e-t int!~ulado "Casa ou
c:::re duas concepções de
~to é, como s is tema
ou como forum, isto
t:assÍ\el de ser refeito
~~~......__...~- em te mática análo-
d!mensão pública no
sentido do ordenamento
excelência o princípio Entretanto, h á um gênero lítero-político-filosófico em cujas
expressões sem pre ocorre o problema dos espaços, os geográficos
eo UIG.as as suas corre la- e os urbanos, e onde a opção entre dimensão pública e dimensão
b-e -e e incitante livro
9
privada aparece com freqüência. Trata-se das utopias. Nelas,
L<:--o no capítulo primei- quase sempre, o público prima sobre o privado, por conta da
-tam "múltiplas cenas implacável p lanificaçã o que Lende a pesar sobre os indivíduos.
- e ::este caso o grande Alguns autores , como por exemplo Gerhard Ritter, têm
especificamente, d o contraposto dentro da cultura política moderna a linha "maquia-
poder, quase como o vélica" e a linha "utópica". Esta contraposiçã o se revela questio-
n ável, posto que sempre há nas utopias um autoritarismo que
não contrasta muito com o absolutismo implícito do "Príncipe"
de Maquiavel; mas há a lgumas diferen ças que possibilitam o
cotejo. Inclusive o problem a do otimismo e do pessimismo: há
quem pense que as utopias s ão sempre um sinal de otimismo -
e isto é verdade em princípio :-, enquanto que Maquiavel teria
sido um pessimista. Aliás j á foi dito, não me recordo por quem,
que os grandes pensadores políticos são sempre ser pes simis tas,
descrentes da "bondade natural" do homem; e ist o também é
verdade ao menos em parte.
~~ em St richworte Z tl r Geistige
Só que o otimismo das utopias é r elativo: com freqüência
item 6 do cnp. li. seus autores descrêem do espontâneo arranjo de soluções entr e
84 O JARDIM E A PRAÇA

os homens e apelam para o Estado (ou para um governo absoluto) redução do indivíduo
com o fim de organizar definitivamente as coisas. Geralmente as mente predatória de
utopias são uma construção a -histórica; suas descrições não modo um tanto ób"-io
incluem a a lusão às "origens", e se mantêm num presente do também ao inaudito
indicativo mais ou menos abstrato. Vejam-se por exemplo as . tais, mesmo nos re.,
explanações do Genovês n a Cidade do Sol de Tommaso Campa- primeiro aspecto g"..ra..
nella (talvez a mais utópica das utopias e a meu ver a mais como as reflexões ex
infantil e mais absurda); vejam-se as de Rafael Hitlodeu na continuações, no t
Utopia de Morus. rede de complicações
Deixemos de lado certas classificações (Ernst Bloch por exem- de fruir com plenitu-
plo falava em utopias da ordem e utopias da liberdade) e tentemos passagem o livro de H
manter uma visão unitária. Há em geral um temp o utópico que não monde moderne1, qui:
é histórico, nem sequer empírico: algo como wna dimensão isenta de mo", o de William ·
mutações. Reflexo, na verdade, do ilustre modelo platônico, onde as focaliza os efeitos do -
reHlidades concretas se entendem - refiro-me à Politeia, que a e o clássico A Mut;; -
tradução habitual chama "República"- como expressão empobrecida colaboração com Na~~
de um paradigma, isto é, de um ideal. Por outro lado as utopias são ondas de Toffler, de-
uma imagem anti-sociológica das coisas, quase como se repudiassem estudos sobre o "pós-
auant la lettre a visão sociológica que ainda estava por vir (falo das
utopias dos séculos XVI, XVII e XVIII). Configuram sociedades onde
nada muda, onde não há "processos sociais".
apontar-lhes a con-:ra
Nas utopias clássicas o poder público é totalitário e é padro-
sões estatais, que co~
nizador. Campanella pretendeu regulamentar comidas e vestuá-
grupos e das p essoas
rio bem como casamento e vida sexual. Também Morus pensou
vida destes grupos do
n~a padronização do sexo e da procriação, chegando a exageros governismo tremen '-
ingênuos, ou mesmo grotescos (extremo oposto da desordem e da
de com as tendências
procriação irracional, que ocorre nos países subdesenvolvidos).
vida privada, esta ~
O modelo de Esparta, tomado como algo positivo por Platão,
são das comunicações
perpetuou-se através dele nas utopias clássicas. Nas utopias do
residência como -.;-á:id
século XX, em especial o Braue New World de Huxley e o 1984 ele
engrenagem meio pe
Orwell atua com sentido negativo um outro modelo, o das
sidade de saber coisas
ditadu;as das décadas trinta c quarenta: a de Stalin, a ele Hitler,
"celebridades" (inclu.s_
a de Mussolini. Sem a mediação histórica do iluminismo e do
O tema da pad-::.
liberalismo, dos estudos antropológicos e do relativismo, não se
em t odos os tempos -
teria chegado a uma visão crítica do modelo utópico, nem ao seu
uso para fins de advertência: advertência contra a padronização
1. Col. Jdt)""• Gallimard, :-:R:"
e o esmagamento do ser humano pelo poder sem limites. 2. N. York, Doubled.ay Ano ~ p
Esta advertência, como se sabe, tem sido feita em outros 3. São Paulo, Perspectiva. 1 9õ~
4. Sobre o problema, Cels-"
moldes e por outras formas de expressão, em nosso século. A l'ensam.enlo de llannah .l
SOBRE AS UTOPIAS 85

~a -:nn governo absoluto)


redução do indivíduo humano a um número, e à condição vaga-
-.as coisa s. Geralmente as
mente predatória de "consumidor", tem sido relacionada de
~; suas descrições não
modo um tanto óbvio ao novo mal do século, a massificação, e
~têm n um presente do
também ao inaudito crescimento do volume das decisões esta-
-::>::J -se por exemplo as
tais, mesmo nos regimes não "autoritaristas". Em torno do
.::J! de T ommaso Campa-
primeiro aspecto giraram as patéticas obras de Chaplin, bem
- ii"' e a meu ver a mais
como as reflexões exemplares de Ortega. Estas tiveram várias
- .:e Rafael Hitlodeu na
continuações, no tocante à análise do esvaziamento da vida e da
rede de complicações que exaurem nas pessoas a possibilidade
- - (E..'"Il.St Bloch por exem-
de fruir com plenitude as d imensões da existência. Citaria de
--=c da :iberdade) e tentemos
passagem o livro de Hem·i Lefebvre, La Vie quotidienne dans le
'=::!::! rempo utópico que não
monde moderne1, que estuda a "sociedade burocrática de consu-
'.l!:la dimensão isenta de
mo", o de William White Junior, The Organization Man 2, que
:::::..ooelo platônico, onde as
focaliza os efeitos do excesso de sistematismo e de organização,
~me à Politeia, que a
e o clássico A Multidão Solitária de David Riesman, escrito em
- ~expressão empobrecida
colaboração com Nathan Glazer e Reuel Denney3 • Sem falar nas
. ..::rolado as utopias são
ondas de Toffler, detalhadas e discutíveis, nem nos recentes
::.>.se como se repudiassem
estudos sobre o "pós-moderno".
~ "., es-;..ava por vir (falo das
u=:.5g-.rram sociedades onde
Retalhamos aqui dois pedaços da realidade moderna para
é ~talitário e é padro- apontar-lhes a contradição. O crescimento do volume das deci-
sões estatais> que controla aspectos os mais variados da vida dos
~wrr comidas e vestuá-
grupos e das pessoas, é menos um aumento da "polit icidade" da
:-<e:rrbém Morus pensou
___;:;~ chegando a exageros
vida destes grupos do que um sintoma das necessidades de um
C?Q-51:0 da desordem e da
governismo tremendamente concentrador. E le, entretanto, coli-
-.::;subdesenvolvidos). de com as tendências à proteção (inclusive constitucional) da
.;:.:go positivo por Platão, vida privada, esta todavia ameaçada, por outro lado, pela inva-
- 1-...a.5.sicas. N as utopias do são das comunicações e p ela destruição do velho conceito de
:: de H uxley e o 1984 de residência como válida e efetiva privacidade . Há sempre uma
~ outro modelo, o das
engrenagem meio perversa increment ando nos homens a neces-
.. --a de Stalin, a de Hitler sidade de saber coisas sobre a vida dos outr os, sobretudo a das
"ca do iluminismo e d~ "celebridades" (inclusive as que o são por poucos dias)1 •
-e ào relativismo, não se O tema da padronização das vidas, que há de ter ocorrido
e!o utópico, nem ao seu em todos os t empos- inclusive por conta do que Gabriel Tarde
- contra a padronização
pc:!er sem limites. I. Co!. ldécs, Gallirnard, NB,l•', lUGS.
2. N. York, Doubleday Anchor IJooh, W56 .
;:c:--: sido feita em outros 3. SiioPanlo, PerspectivA, 197 1.
,.,_::âo em nosso século. A -1. Sobre o problema, Celso Lafcr, Jl Reconstrução dos D ireitos IIu.man.os, um Diálogo com o
I'ensa.mento de lla.nnah Arenf"i.t, Silo Pnulo, Companhia das Letra s, lUSS, cap. Vl!l.
86 OJAIWIM E A PR;IÇA

(hoje tão pouco citado) chamou lei de imitação-, e que aparece diferentes - , probl -
como algo valioso nas utopias clássicas, ou na maioria delas,
parece assumir um aspecto ostensivo no século XX, justo porque camente, ao conturba
resulta da massificação e do burocratismo-con sumismo (deca- A estas alt uras
dência do Ocidente?); e também porque contradiz o quinhão de entre os diversos co::.
consciência histórica que vem aumentando no homem, ou pelo me ao fato de que o _
menos em alguns homens. Sabemos da grande variedade de a -histórico e n e gado::.-
formas correspondente aos diversos contextos em que vei<;> ocor- d'iniquités), segue
rendo a experiência cultural, mas temos de nos ater a uns poucos e de que ent retanto o
e obrigatórios figurinos no tocante ao pensar, ao vesLir e ao agir. tendência geral é o ·
Seria o caso de entender, com cético desespero ou mórbida e
outro sentido at é
satisfação, que ocorre um retorno aos moldes primitivos (ou pelo imediatismo é capit
menos "arcaicos") de vida, com a a bsorção de ca da um pelo todo. apesar disso ele se ::.
Jean Baudrillard caracterizou como um "confuso amontoado do quase todos os qua
social" a realidade das massas, como força de inércia6 •
O esquem a simplificador, que sempre tenta as mentes (mes-
mo as que se dedicam ou deveriam dedicar-se ao trabalho de veis e no uso gera: do
pensar), ocorre no caso de certos marxistas como uma visão sempre é agradávei. l
linear da história, redutora e maniqueísLa, da qual tem resulta- de é que a humanidad
do a acusação, sem rnais, de conservadores, aos pensadores que suas conquistas em -
vêem de modo negativo a ascensão das massas ou que de algum fonte dessas coisas ~
modo consideram os tempos correntes (isto é , o século XX da
primeira guerra em diante, mais ou menos) como tempos ele
crise: Max Weber, Alfred Weber, Mannheim, Jaspers, Ortega,
Huizinga. O a ssunto, por outro viés, foi colocado por Umberto
Eco em seu Apocalípticos e Integrados, distinguindo entre os que as pós-renascentis tas
dissentem, e falam de decadência , e os que n ão dissentem , e se talidacle que sobrepõe
integram t r anqüilamente à nova cultura de massas. Seria inter- pensamento utópicc "
minável e impertinente arrolar aqui as obras tematizando e que praça, e isto deve ter
vêm teorizando a crise, desde Comte e outros do oitocentos até existe nas utopias. n
Spengler e os que se lhe seguiram, com a contrapartida dos misto de narrativa m:
otimistas (socialistas ou capitalistas) que enxergam na confusão algo mórbido, e isto ">
de hoje o desenlace de um prefixado script histórico ou então ereto-existente, ao q~e
. ,_.....
_
saídas (issues!) muito pragmáticas para a prosperidade social.
Bem assim mencionar os graves proble~as éticos tratados por
precariedades a u topia
nizador, encaixado e -
um Bloch ou por um Gehlen - para citar autores de posições a apagar diferenciaçõ.:;.s:
(ou "fabuladora") se -
5. À l'ombre des majorilés si/endeuses, ou: la {indu social, lrad. bras., São Pnulo, IJrasiliense,
que alimentam o totà.:::
1985.
SOBRE i\S UTOPIAS 87

=::.:tação -, e que aparece diferentes -, problemas situados na "era da técnica" ou na


-;;;, ou na maioria delas, "sociedade afluente", e de qualquer sorte chegando já, dramati-
s.éculo XX, justo porque camente, ao conturbado limiar do ano 2000.
~o-consumismo (deca- A estas alturas vale registrar um outro paradoxo, vigent e
- connadiz o quinhão de entre os diversos contrastes das décadas mais recentes. Refiro-
- ~ do no h omem, ou pelo me ao fato de que o ideal revolucionário, que em si mesmo é
d..a grande variedade de a-histórico e negador do passado (o passado histórico como amas
:.exr..os em que vei<;> ocor- d'iniquités), segue animando muitos setores em muitas nações;
"' ãe n os ater a uns poucos e de que entretanto o que nossa época vem consagrando como
~. ao vestir e ao agir. tendência geral é o imediatismo, como negação do passdo em
~esespero ou mórbida outro sentido e até como negação do futuro. Dir-se-á que este
~.:r.s primitivos (ou pelo imediatismo é capitalista e irmão do pragmatismo ianque; mas
- de cada um pelo todo. apesar disso ele se acha instalado como um dado genérico em
...amfuso amontoado do quase todos os quadrantes. O imediatismo se acha tanto no
TÇa de inércia5 . consumismo como no culto da velocidade e na paixão pelas
u nta as mentes (mes- novidades da tecnologia; acha-se na destruição das coisas está-
'=-dicar-se ao t rabalho de veis e no uso geral do descartável. Poucos se recordam, e nem
::::-:ris~as como uma visão sempre é agradável lembrar isto, que nos períodos de estabilida-
--::~ da qual t em resulta- de é que a humanidade consolidou seus arquétipos e estruturou
- es aos pensadores que suas conquistas em todas as áreas (mesmo que a semente e a
- assas ou que de algum fonte dessas coisas tenham provindo, em a lguns casos, de sacu-
....s:o é, o século XX da didelas revolucionárias).
~os como tempos de
-l-.eim. Jaspers, Ortega, Com isto retornamos ao tema das utopias. Talvez se possa,
- - -relocado por Umberto efetivamente, afirmar que elas surgem (sobretudo as a ntigas e
.......,~-guindo entre os que as pós-renascentistas) como expressão do triunfo de uma m en-
;.;e não dissentem, e se talidade que sobrepõe o público ao privado. É como se o próprio
~e !n.assas. Seria inter- pensamento utópico se formulasse a partir da experiência da
!"'a.S tematizando e que praça, e isto deve ter relação com uma certa artificialidade que
..::.-"''S do oitocentos até existe nas utopias . Elas nos lembram museus de cera, ou um
=cc:. a contrapartida dos misto de narrativa mítica com bur ocratismo sublimado. Há nelas
- e~ergam na confusão algo mórbido, e isto vem do distanciamento em relação ao con-
p- histórico ou então creto-existente, ao que está no viver privado e empírico, de cuj as
2 prosperidade social. precariedades a utopia busca limpar-se . Seu componente padro·
....-.a:; éticos tratados por nizador, encaixado e enquadrado em esquemas genéricos, tende
~ autores de posições a apagar diferenciações e espontaneidades. Sua dimensão mítica
(ou "fabuladora") se revela em termos laten temente dogmáticos,
ClrSi. brn3., São Pau lo, Drasilien se,
que alimentam o totalitarismo e impõem a aceitação de fins e de
88 O JARDIM E A PRAÇA

normas elaborados não apenas de cima p ara baixo, mas também


de fora para dentro.
O não-privatismo das grandes utopias, traçadas como uma
espécie de macroarquitetura do social, aparece em certos enfo-
ques como correlato de uma "tendência" evolu tiva. Ass im August
Bebel, pensador socialista do século passado, dizia , em seu livro
sobre o futuro da mulher, que a vida social no futuro será
crescentemente pública, alterando inclusive a posição das mu-
lheres : a viela doméstica se r eduzirá ao mínimo, cedendo lugar a
largos espaços para leituras, debates e atividades sociais6 •
Ao "publicismo" abstrato elas utopias corresponde o fato ele
serem em princípio a-(ou anti) históricas, sendo em certo sentido
conservadoras. Nelas se congela uma dada forma de ordem como
sendo ideal e imutável. Mas se trata de um conservadorismo
abstrato, que não se confunde com o conservadorismo romântico
nem com os tradicionalismos pós-românticos: nestes se valorizam,
precisamente, o lastro histórico e o cerne privado da vida elas
comunidades. No conservadorismo propriamente dito, que não
abjura da evolução mas tenta conjugá-la com a preservação do
estável, há uma peculiar permanência da dimensão privada, vin-
culada h istoricamente a algum traço residual do feudalismo, e de
qualquer sorte não redutível ao racionalismo dito burguês, analí- predomínios, é en
tico em vez de s intético e universalizante em vez de particularista. duas dimensões de ~
Ficou dito, acima, que as utopias têm algo de narrativa concreto e imerua o
mítica. Isto se aplica inclusive aos relatos messiânicos, inclusive projeção de planos
os que falam de terras da fartura, com rios d e l eite e de mel. Elas equilibradora, os d.
têm realmente um la do religioso, e de le decorre o hierático deveriam ser comp:
dogmatismo que se encontra d escrito nas utopias literá rias: em tir dos grupos h
Ca mpanella, por exemplo, o poder supremo do "Metafísico" equi- mana. Mesmo porq
valia à exist ência de verdades indiscutíveis e de preceitos gerais equilíbrio. Na medi
inquestionáveis. Verdades sagradas: algo genérico, infenso às se entende com o
r efrações da vida privada, das dúvidas, do diálogo e da "opinião". vo reportar-se aos
Podemos ver como pólo oposto o conceito variável ou pelo menos clássica e do "Ociden.
"r elativo" de verdade, advindo da dessacra lização, expresso nítida e pers u asr·..-
como empirismo no iluminismo inglês e como criticismo na Média Cristã (e ta=
filosofia de K a nt. to.

G. \Vomall i11 lhe Past_ Preselll Glui Future, trnd. A. Walther, 3• ed., Londres W. Rccves, s. ri., p.
221.
13. ABURGUESIA, OLIBERALISMO E
0 PROBLEMA DO EQUILÍBRIO ...
#'

O que se depreende de tudo isso, no meio de oscilações e de


predomínios, é entretanto a permanência da distinção entre
duas dimensões do viver: a que circunda o indivíduo como algo
concreto e imediato, e a que se estende ao seu redor como
projeção de planos mais amplos e mais complexos. Em uma visão
equilibradora, os dois modos (para usar um termo spinoziano)
deveriam ser complementares, sendo ambos necessários ao exis-
=....s -~opias literárias: em tir dos grupos humanos e ao desenvolvimento da condição hu-
~ do ·~retafísico" e qui- mana. Mesmo porque as formas de vida são sempre formas de
...se de preceitos gerais equilíbrio. Na medida em que a distinção en t re público e privado
s enérico, infenso às se entende como uma constante histórica, será sempre ilustrati-
diálogo e da "opinião". vo reportar-se aos momentos mais exemplares da antigüidade
- ~..-!á,·el ou pelo menos clássica e do "Ocidente", nos quais aquela constante se apresenta
~alização, expresso nítida e persuasiva: nas cidades gregas e romanas, na Idade
- t: como criticismo na Média Cristã (e também entre árabes e persas), no Renascimen-
to.
No Renascimento, entre as coisas que se retomaram do
el. Londres W. Rccves, s. d., p. acervo cultural greco-latino, ressurgiu por exemplo o tema da
comparação entre a vida social e a vida solit ária. Sêneca havia,
!)0 O JARDIM E 11 PRAÇII

em varias de suas Cartas a Lucillius, tratado do assunto em O liberalismo e


termos de elogio da solidão e de desestima ou desprezo da críticas ele todas as~~
multidão e mesmo dos grupos mais restritos. E Pierre Charron, com o relativismo ' i
em seu livro de ensaios chamado De la sagesse (publicado em Denunciada por ?\I
1601), comparou as duas formas de vida, a solitária e a social, lismo, repudiada po!"-
advertindo contra as "más companhias", e distinguindo entre os valores criativos, a :..
contatos moderados, que são úteis, e os excessos que dizia platô- gem central do vas~.o
nicos, consistentes em ter tudo em comum 1 • a permitir o aclven'L..:.
O Lema da oposição entre vida social e vida solitária é de Marx e o de Nietz3
paralelo, digamos assim, ao da complementaridade entre vida dito, o de Kant, corr.
pública e vida privada. A vida privada, que também tem uma detestado pelos naz~
estrutura, se desenrola em espaços específicos, onde o humano que apesar de tudo
se concentra em conexão mais direta com o eu individual e onde a idéia de Estado-de-
o eu se cultiva através de conexões culturais concretas e pes- os diferentes ismGS
soais. Coloca-se nesta esfera o fenômeno milenar do residir, Hobbes, em torno
obviamente ligado à casa- a casa e seus espaços, a propósito dos Não cabe confuncEr
quais citamos mais acima o conhecido livro de Bachelard. Na
esfera oposta, a do viver público, paira a existência grave e oficial referiu-o como pos~
das chamadas instituições; as instituições ordenam o conviver, muiLo tempo), com
assumem o lado "genérico" da experiência humana e dão ao simples ideal econ
"social" o seu perfil peculiar. A filosofia de Heidegger, que subli- seja dito de passag
nhou o tema da "vida autêntica", contemplou também o conceito servem a muitos r
de morar (wohnen) como componente fundamental do estar no imperialismos bem
mundo. O viver privado possui obviamente algo de centro e de Foi por assim
refúgio, essencial referência posta entre o indivíduo e a "realida- de liberal vigente ! l '
de" - cósmica, social, pública. Mas a vida histórica evidentemen- ordem pública e o~
te não ocorreria sem a existência ela esfera pública, embora seja forma recusar a e.sf
certo que ela também inclui o viver privado: na esfera pública se todo comando exte..-
acham as definições sociais fundamentais, com o poder e seus de Stirner quantc
símbolos, as hierarquias, as edificações, as distâncias rituais, e liberal Spencer. _'-\a::
isto desde Ur e Ugarit até Atenas e Esparta, Roma e Cartago, das coisas, ao d~
França e Inglaterra. O lado público, na medida em que recorta (vimos como Bebe~
o "social", define e abriga os chamados papéis, que o homem viver público seria

. ""--
desempenha e que inclui seus ídolos (no sentido baconiano), liberalismo iluu~""""'
destacando-se os idola fori, as representações inerentes a cada Francesa e pelos :-·
contexto social (ou profissional). experiência histór!
tativa de equilibra-
1. Séncqnc, Lcllres à Lucillius, trad. F. c P. Richa rei, cd. hilingiic, Paris, Carnicr, s.d., passim; P. pública - cargas e e
Cluwron, De la Sabidurla, lrad. Elza Fabcrnig, D. i\ ires, Losadn, 19~8, caps. L c LI.
A 13URGUESJA, O LIBERALISMO... 91

~o do assunto em O liberalismo e a burguesia, sobre os quais têm caído


~a ou desprezo da críticas de todas as procedências, tiveram o que ver, entretanto,
=5 E Pierre Charron, com o relativismo que nos permite hoje repensar tudo isso.
::gesse (publicado em
- s.::::tária e a social,
Denunciada por Marx que a confundiu sem mais com o capita-
lismo, repudiada por Nietzsche que nela enxergou a negação dos
....
11'

~-::!nguindo entre os valores criativos, a burguesia constituiu na verdade o persona-


~s que dizia platô- gem central do vasto processo de secularização cultural que veio
a permitir o advento de todos os cr iticismos modernos, não só o
e tida solitária é de Marx e o de Nietzsche mas também o criticismo propriamente
:a-idade entre vida dito, o de Kant, com suas conotações específicas. O liberalismo,
detestado pelos nazistas como despolitizante e pelos socialistas
s, onde o humano que apesar de tudo aproveitam dele o esquema constitucional e
ea 1,-,dividual e onde a idéia de Estado-de-Direito, ensejcu a abertura relativista para
~concretas e pes - os diferentes ismos que se acotovelam, desde os tempos de
Z::::..:.:enar do residir, Hobbes em torno das indagações basilares da teoria política.
~---s a propósito dos Não cabe confundir o liberalismo propriamente, o que está den-
:-:::!'0 C.e Ba chelard. Na tro da valorização da liberdade desde os huguenotes (Ortega
.;..o......;:;.o::r""~""-'c:a grave e oficial referiu-o como posição demasiado elegante para manter-se por
C!'denam o conviver, muito tempo), com suas "implicações" capitalistas ou com o
h~ana e dão ao simples ideal econômico da livre concorrência. Nem tão pouco,
~degger, que sub li- seja dito de passagem, com as alegações "neo liberais" que hoje
~ambém o conceito servem a muitos para aderir a regimes autoritários ou aceitar
, ___.,-~en~ do estar no imperialismos bem armados.
al,;;-o de centro e de Foi por assim dizer implícita a busca, dentro da mentalida-
---=-.:~-Eàuo e a "realida- de liberal vigente nos dois últimos séculos, de um equilíbrio entre
-rica evidentemen- ordem pública e ordem privada. Ao anarquismo coube de certa
~::.:ca, embora seja forma recusar a esfera pública, com a rejeição a todo governo,
!:l:. =.s:"era pública se todo comando externo ao indivíduo: tanto no exacerba do egoísmo
_ =. o p oder e seus de Stirner quanto no exagerado antiestatismo do entretanto
~...ãncias rituais, e liberal Spencer. Aos socialismos coube enfatizar o lado público
Roma e Cartago, das coisas, ao dar destaque aos problemas econômico-sociais
_,..___...... em que recorta (vimos como Bebel anunciava o advento de uma época en: ~ue o
- ::: que o homem viver público seria dominante). Interrompida a tra)etona do
liberalismo iluminista, pelas coisas advindas da Revolução
Francesa e pelos tumultos sociais do século XIX, ficou faltando à
experiência histórica do Ocidente contemporâneo ret omar a ten-
tativa de equilibrar nos seres humanos a carga privada e a carga
pública - cargas e encargos.
92 O JARDIM E A PRAÇA ,\ BCJ

Mais sobre o liberalismo. Na medida em que a tendência do Como entendemos 7:-


esquema político liberal foi no sentido de eliminar os "corpos" e classe responsável pelo c-
as "ordens" postas entre o cidadão e o Estado, ele sublinhou o nação que ensejou e ense;
confronto entre o perfil privado e o perfil público dos homens. deixar de ser "classe" -
Com o tempo, deslocadas as linhas clássicas, ressurgiram corpos modo no mundo antigo o
de outra espécie - basicamente grupos econômicos - , e se des- podemos estimar na pres
montou o desenho que o liberalismo havia traçado. Em artigo de correlata daquela que es-
revista publicado em 1970, Rolf-Dieter Herrmann tentou articu- brios muito peculiares.
lar o problema do chamado domínio público com o tema da nacional e cosmopolitis-
estrutura sociopolítica das democracias ocidentais contemporâ- clássica), o equilíbrio e
neas, acentuando o desaparecimento do confronto entre o indi- aparece sob versões dii:.
víduo e o Estado ("a silhueta do homem privado ousadamente ainda o equilíbrio entre: .
levantada em face do Estado"), que teria ocorrido nos tempos da e a dimensão privada.
Revolução Francesa2 • Para Hermann, a alteração histórica en- Não se pode neglig
volve, no caso, uma revisão da própria experiência do poder, e mido pelo trabalho intel
também da noção do que seja público: para ele, o marxismo teria pelo sapere aude de on=
ensejado uma excessiva ampliação do "público", dissolvendo a dentro do sentido em que
própria diferença entre o social e o estatal, e também repudiando gucsia. A própria noção :le
o ideal liberal de discussão. vel dentro de conot ações:
Realmente caberia reexaminar o papel social ou antes his- nos séculos ditos mode:r.:
tórico dos grupos e dos "grêmios", mediadores entre o ponto de Sócrates. Sabe-se que o...,
referência da vida privada, o indivíduo, e o amplo horizonte ela nhava inclusive o trabaLlt
vida pública, composto pela ordem política geral (estatal e mes- gos é que, em geral, se
mo internacional). Os grupos, que reuiennent au galop logo que repassar informações, · - -
podem, invadem a sociedade e dão no "organizacionismo", que a permanência dos te~~
William White estudou e que m encionamos acima. A reflexão tocrata grego, mesmo que
sobre o assunto nos encaminharia , entretanto, a rever os chama· obras de Fídias, não se
dos processos de socialização, nos quais interfere a presença dos cinzelar pedras, e Nietzs
grupos - e grande parte da sociologia norte-americana neste ele seu fragmento sobre a
século surgiu como "sociologia dos grupos" -, e nos quais o de, da hierática atitude d
indivíduo, como ponto de referência, se comunica com esta coisa sada de algum modo con:
meio abstrata que é a genérica "sociedade". Por outro lado o historicamente as atitudêE
assunto nos conduziria de novo ao tema elas grandes massas teria sido impossível. Com
urbanas, que vimos mencionando, com o agravante dos pavoro- crescendo por dentro de
sos aumentos de população por toda a parte; e ao tema da crise co-comparativo, um r ela::.
das formas seculares de vida, crise da qual surgem expressões também hieráticos e que :
as mais variadas. começo do século XX, nas

2. "Vie publique- Vie privéc", con Diogéne, Paris, n. G!.l, jan.-mar., 1.970. 3. Cf. L. llcynolds e N. Wilson , &


A BURGUESIA, O LllJERJ\LISMO. .. 93

e::.::I: que a tendência do Como entendemos burguesia não no apertado sentido de


.;; eliminar os "corpos" e classe responsável pelo capitalismo e pelas estruuras de domi-
-_-;.ado, ele sublinhou o nação que ensejou e enseja, mas no de tipo histórico que- sem
m p-:iblico dos homens. deixar de ser "classe" - protagonizou no Ocidente (como de certo
' :-essurgiram corpos
a;::..::....:;:z.:: modo no mundo antigo) o processo de secularização da cultura,
- e:r~õmicos -, e se des- podemos estimar na presença histórica da burguesia uma busca,
- uaçado. Em artigo de correlata daquela que estava ínsita no credo liberal, de equilí-
.Her.rriann tentou articu- brios muito peculiares. Por exemplo o equilíbrio entre Estado
:;::::bilco com o tema da nacional e cosmopolitismo (estudado por Meinecke em obra
clássica), o equilíbrio entre racionalidade e sentimento, que
aparece sob versões diferentes em Rousseau e em Goethe, ou
ainda o equilíbrio entre praça e jardim: entre a dimensão pública
e a dimensão privada.
Não se pode negligenciar com um piparote o sentido assu-
mido pelo trabalho intelectual dentro dos contextos dominados
pelo sapere aude de origem iluminista e de base burguesa -
dentro do sentido em que entendemos acima o conceito de bur-
guesia. A própria noção de "trabalho intelectual" só seria possí-
vel dentro de conotações laico-racionais do tipo das que surgiram
nos séculos ditos modernos, ou na Grécia a partir da geração de
Sócrates. Sabe-se que o nobre, ao desdenhar o trabalho, desde-
nhava inclusive o trabalho intelectual: na Idade Média os cléri-
gos é que, em geral, se dedicavam a copiar manuscritos e a
repassar informações, tanto que a eles se deve em grande parte
a permanência dos textos antigos3 • Sabe-,s e t ambém que o aris-
tocrata grego, mesmo que apreciasse poemas de Arquíloco ou
obras de Fídias, não se "rebaixaria" a escrever versos ou a
cinzelar pedras, e Nielzsche registrou isso em um pa sso famoso
de seu fragmento sobre o Estado grego. A perda, na modernida-
,.• -. e nos quais o de, da hierática atitude do nobre diante do mundo, foi compen-
~~a com esta coisa sada de algum modo com a possibilidade de se compreender
I~L--~.J::-. Por outro lado o historicamente as atitudes, coisa que por parte do nobre hierátíco
~ ~andes massas teria sido impossível. Com isso aludimos ao relativismo, que veio
:::ra'\"ante dos pavoro- crescendo por dentro do pensar moderno, laico-racional e críti-
e ao tema da crise co-comparativo, um relativismo que se opunha aos dogmatismos
também hieráticos e que se expressaria depois, já sobretudo no
começo do século XX, nas tipologias: psicológicas, sociológicas,

3. Cf. 1•. n cynnld• ,, N . Wilson, Scribes and Scholors, :t' e<.l., Oxforc.l, 1!)8•1, jJUSSi lll .
94 O JARDIM E A PRAÇA

teórico-políticas. Aquele "saber classificatório", que Foucault do trabalho atende a


divisou nos começos da modernidade e que era ainda um uso ten do algo de ilusórioc
descritivo da razão, evolui com o relativismo até o pensar tipo- Um dos eqUÍvOC03
lógico, que representa um uso moderador da faculdade de julgar. burguesia vem sendo "J
que "sucedeu " à nobrezz.
Dentro da alusão à cultura burguesa - incluindo nela as dominando o operaria.:
roupas do século XIX e as ambigüidades bovaristas -, vai aqui de um eco das visões -.
uma nota sobre o problema da educação. Sempre ocorreu na mens, e dos específicos
história uma opção, expressa sob várias formas, entre a educação para esquematizar a
privada e a pública, aquela representada principalmente pela vários outros. Marx e~;..
família e e sta pela "escola", mormente a escola pública. Em um diferentes o problema _
breve e notável ensaio, incluído em um volume coletivo sobre ses, e a sociologia pos-..e
problemas de população, André Mnurois aludiu de modo muito dos modos de dar-se a
convincente (a não ser para os que detestam a priori a noção de Historicamente ~
"elite") e muito oportuno o problema do humanismo, que segundo tocracia) como "classe
ele só se mantém através da continuidade das gerações e dentro classe no sentido res:!": ·
da estrutura da família, ligada à comunidade. Os séculos onde nobreza sobre a b ucr 5
se cultivou o humanismo clássico for;:~m épocas de cidades peque- antigüidade quanto ::::.a
nas, onde havia espaço para o convívio e tempo para a leitu ra1 • O ch amado mundo b
Descontado destas frases um possível saudosismo, permanece do feudalismo e cuj a as
válida a sensação de perda que Maurois quis expressar; pois sendo o mundo da cu!
também cabe pôr de lado o preconceito anti-elite e perceber que economicismo que se
a grandeza criadora foi mais forte e mais fecunda nos tempos e na mentalidade), pe
onde não havia superpopulações e onde as estabilidades sociais centro e causa geral de
permitiam uma maior maturação das coisas. e outros. Vem daí a
Mas tratemos de novo do tema da tendência do espírito cap italista. De sorte q
burguês (na medida em que isto existiu ou vem existindo) ao criação do próprio "rc
equilíbrio entre os lados privado e público do viver. Vale repetir nalismo moderno. Do
que o conceito de burguesia aqui conotado não é o mesmo que dialética, e os concei:~ -
aparece na literatura socialista hoje largamente esparsa e em Hegel tratou da
grande medida criada por cissiparidade em relação aos textos seguintes da Filosofa
anteriores, sem maior repensamento crítico. Valeria também nien de 1821). O fato.::
fazer constar que não nos referimos, ao falar em equilíbrio,
àquela idéia - típica nos "clássicos" e peculiar em Aclam Smith
- segundo a qual os interesses elo indivíduo e os ela coletividade
se equivalem (ou se complementam), na medida em que a divisão componente contral:P
sorte Hegel herdou de
te entre o indivíduo o
1 . IC:n, As l'ressõesdn.l'opulaçiio, org. po r F. Osborn, trad. J .• f. Farias, l{io dcJan biro, Zahar, 19G5. dilema entre pertencer
A BURGUESIA, O LIBERALISMO. .. 95

:ório", que Foucault do trabalho atende a todos. Esta idéia contudo revela, mesmo
que era a inda um uso tendo algo de ilusório, aquela tendência básica a que aludimos.
...5!:10 até o pensar tipo- Um dos equívocos mais insistentes em torno da idéia de
cia faculdade de julgar. burguesia vem sendo o de considerá-la como uma classe social
que "sucedeu" à nobreza como grupo dominante, e que vem assim
'""'à - incluindo nela as dominando o operariado, que por sua vez lhe sucederá. Trata-se
~ b~T·aristas -, vai aqui de um eco elas visões triáclicas que sempre fascinaram os ho-
:; Sempre ocorreu na mens, e dos específicos triadismos que o século XIX formulou
~as, entre a educação para esquematizar a evolução. E este e quívoco se articula com
principalmente pela vários outros. Marx entretanto tratou de pelo menos três modos
escola pública. Em um diferentes o problema de como enumerar e caracterizar as clas-
T"o.ume coletivo sobre ses, e a sociologia posterior situ ou o fenômeno "classe" como um
-:: ~udiu de modo muito dos modos de dar-se a estratificação social.
;:.a::n a priori a noção de Historicamente, a burguesia não "sucedeu" à nobreza (aris-
f: manismo, que segundo tocracia) como "classe dominante": até porque es ta nunca foi
das gerações e dentro classe no sentido restrito do t ermo. Não houve "dominação" da
:l.ade. Os séculos onde nobreza sobre a burguesia, e sim sobre a p lebe - tanto na
~de cidades peque- antigüidade quanto na Europa ocidental - , o que é outra coisa.
e ·e:mpo para a leitura1 . O chamado mundo burguês, cujo início correspondeu ao declínio
_...:.c:sismo, permanece elo feudalismo e cuja ascensão fo i paralela à do capitalismo, vem
- ~~s expressar; pois sendo o mundo ela cultura urbana e clessacralizacla. Somente o
· -e~te e perceber que economicismo que se instaurou na vida contemporânea (na vida
:ecunda nos tempos e na m entalidade), permitiria p ensar-se no capitalismo como
"' "'.sLabilidades sociais centro e causa geral ele fenômenos como "burguesia", "laicização"
e outros. Vem daí a acepção ele burguês como sinônimo ele
tendência do espírito capitalista. De sorte que noções como burguesia e capital foram
:1 vem exis tindo) ao criação elo próprio "mundo burguês", ou seja, o mundo elo racio-
nalismo moderno. Do mesmo modo as versões modernas ela
E.âo é o mesmo que dialética, e os conceitos ele revolução e de proletariado.
-= ""Tõente esparsa e em Hegel tratou da famüia e ela viela p rivada nos §§ 158 e
IE":TT relação aos textos seguintes da Filosofia do Direito (de Berlin, ou seja: as Grundli-
..ro. Yaleria também nien d e 1821). O fato de t er o filósofo mencionado a família como
falar em e quihbrio, "substancialidade imediata d o espírito" n ão o impediu de, no
2'l1:Wiar em Aclam Smith concernente ao Estado (§§ 258 e segs.), repelir todo privatismo,
... e os da coletividade inclusive criticando na teoria política de Rousseau a presença do
=edida em que a divisão componente contratual, a seu ver privatizante. De qualquer
sorte H egel h erdou ele Rousseau a questão ela dualidade existen-
te entre o indivíduo (o "burguês") e o cidadão, correspondent e ao
- s,Riode Janeiro, ~a har, 19G5. dilema entre pertencer à dimensão privada e à pública. O pen-
!)(i OJARDIM EA PRAÇA

sarnento de Hegel vai aqui referido porque, de certa maneira, a e que, ao menos em_
dialética das relações entre o espírito objetivo e o espírito subje- Ortega, o n obre é se
tivo, dentro do sistema hegeliano, poderia comparar-se a uma nos revelam o contra_,
teoria da dimensão pública e da dimensão privada, pois o Direito o nobre atribui (ou
e o Estado são, para Hegel, manifestações da Idéia objetiva. Mas quando, referindo-se
não nos estendamos sobre isto: vale remeter, de passagem, a gostava de piadas c.:.
uma nota muito interessante do livro de Gérard Lebrun, O Hamlet, no monólo-g-
Avesso da Dialética5 • nobre", enfrentar am
Com freqüência se exagera ao acentuar certos aspectos da a esta por uma atiru
época moderna e dos séculos ditos burgueses. É como se o mundo (a velha hybris greg::.
medieval tivesse sido carente de "espaços", de "racionalidade" e Este desdém d:; ~
de outras coisas. Há entretanto alguns traços que caracterizam da, embora se tra:e
o advento da racionalidade pós-renascentista, coligada à secula- romanos mais aust.e.::
rização e a uma idéia peculiar de Estado: acaba-se inclusive o ças, pelas festas e pê
sistema oficial de privilégios, e com ele a educação aristocrática,
islo é, a educação dos aristocratas. Mencionamos acima o am-
biente burguês-comercial, que foi o de Vien a em meados (ou na ções como o do nobre
segunda metade) do século XIX e que vem referido no capítulo VI Eco, logo no prefác~o
do livro Viena Fin-de-Siecle de Carl Schorske (aliás intitulado, a lusão ao cont raste ~
sintomaticamente, A Transformação do Jardim) : um ambiente líptico, a referênc!a
mais prosaico e menos hierático- ou menos vertical- do que os imperante, a recusa e
contextos aristocráticos, mas povoado de vivências novas, inclu- de certas n obrezas .i
sive de novos espaços. o sentiram os româ!:-
De qualquer sorte os modos nobre e burguês, tornados, sou Vigny no verso:
através dos processos históricos, modelos genéricos (que no caso
Seul le silence "'
do nobre tem sentido quase arquetípico), podem encontrar-se,
fragmentariamente ou em forma de detalhes, expressados em
diversos pontos da vida contemporânea, através de valores, Mas r etornem«E
padr ões e atitudes que não se reduzem ao conceito de classe. brio, próprio do laic• ,
A noção paradigmática e arquetípica de nobre continua em Ocidente a presença
vigência dentro das formas de estimação e de linguagem, desig- rece como algo dema.s_
nando atitudes e qualidades: caráter nobre, gesto nobre, inten- aperceb ido aqueles q
ção nobre. A noção se acha penetrada por conotações como os burgueses de care,..

-
"' "desinteresse", "altaneria", "retidão", "altivez" e outras. Entre-
tanto há, na configuração da idéia do nobre - ou do aristocrata,
bém, de certo m odo
contabilidade empr~
que aqui usamos como sinônimo - um aspecto que Ortega fixou
6.
que os rotnanos teriam s ·
5. 'l'rad. 11. J . Ribeiro, São Pau lo, Companhi" da~ Lctrns , ID88, p. 311. Sobre Hegel, v. também
,José Guilherme Mcrquior, O Argumento L iberal, Hio dc J nnciro, Nova Fronteira, Hl83,passím.

ll BURGUESIA, O LTDERALTSMO... 97

_~.. de certa maneira, a e que, ao menos em parte, talvez corresponda à realidade. Para
:u.vo e o espírito subje- Ortega, o nobre é sempre "duro, sombrio, caçador". Estes traços
:::a comparar-se a uma nos revelam o contraste com a "frivolidade" e a flexibilidade que
- privada , pois o Direito o nobre atribui (ou atribuía) ao plebeu. Recordemos Hamlet,
da Idéia objetiva. Mas quando, referindo-se a Polonius, dizia ser este um velho tolo, que
;:er , de passagem, a gostava de piadas chulas e de gigas grotescas. Aliás o próprio
de Gérard Lebrun, O Hamlet, no monólogo famoso, refletia sobre o que seria "mais
nobre", enfrentar o mundo e vencer a adversidade ou sobrepor-se
certos aspectos da a esta por uma atitude indiferente, que não permitisse mistura
(a velha hybris grega!) com coisas inferiores.
de "racionalidade" e Este desdém do nobre pelas garrulices "plebéias" nos recor-
~sque caracterizam da, embora se trate de outro plano, o desdém com que certos
~~.coligada à secula- romanos mais austeros aludiam ao amor dos gregos pelas dan-
acaba-se inclusive o ças, pelas festas e pela alegria: greculus histrio6 •
De todos os modos parece comum, em certas épocas, o
_..__O!lamos ac1ma o am- conflito entre atitudes (ou entre Weltanschaungen) gerar posi-
.:::na em meados (ou na ções como o do nobre "sombrio". Assim encontramos em Umberto
referido no capítulo VI Eco, logo no prefácio de Apocalípticos e Integrados, junto com a
~ke a liás intitulado, alusão ao contraste entre a cultura de massa e o crítico apoca-
-~tsrdim) : um ambiente
líptico, a referência à atitude deste, que "opõe, à banaHdade
- vertical - do que os imperante, a recusa e o silêncio" . Silêncio que terá sido, por parte
de certas nobrezas destronadas, a resposta à adversidade, como
o sentiram os românticos desde a primeira hora e como expres-
oe burguês, tornados, sou Vigny no verso famoso:
~ =enéricos (que no caso
Seulle silence est grand, tout le reste est faiblesse.
podem encontrar-se,
tai:..es, expressados em
::.:.ravés de valores, Mas retornemos outra vez ao tema da tendênci a ao equilí-
conceito de classe. brio, próprio do laicismo a cujo processo histórico corresponde no
de nobre continua em Ocidente a presença do burguês. Este equilíbrio por vezes apa-
e de linguagem, desig- rece como algo demasiado prosaico, algo insípido, e disso se terão
t:?e .;esto nobre, inten-
apercebido aqueles que no come ço do século passado acusaram
por conotações como os burgueses de carentes de espírito. E a isso corresponde tam-
vez' e outras. Entre- bém, de certo modo, o fato de a economia burguesa ter criado a
:::re - ou do aristocrata, contabilidade empresarial e as técnicas orçamentá r ias: o modo
-" que Ortega fixou
6. D.ll. Lawrence, uus pti.ginus sobre sua vingCln o os s ítios arqueológicos de Ccrvctcrl, observou
quo os romanos tcrio m sido urna espécie de "prussiAnos" da nntigüidade, a os quais desagradava
• p. i i. Sobro llc{;'cl, v. t.nmhém (com o aos h istoriadores tipo Mommscn) a vida "vício.n" dos etruscos: D. II. Laummcc a11dituly,
~ .1 Fronteira, 1983, JXIBSÍm. Pcnguin Books, 1972, parte 3, " J,;trnsctln Placcs"
!18 O JARDIM e A PIIAÇA A

de viver dito burguês seria no caso um constante evitar riscos, e em Rousseau, coma
como a .vida é feita de riscos ela perde em substância com os que em Platão, e de
excessos de cautela. Agostinho. Não se~~
Uma via)ante, Karen Blixen, refletindo sobre os africanos, radicais e criadoras
observou certa vez que a compreensão do trágico só existe nas montaram esquemas
autênticas aristocracias e no verdadeiro proletariado: o trágico estes esquemas n~
aparece, para este e para aquelas, como parte da vida e até como combinar-se com form
parte de Deus, enquanto que para a burguesia o trágico é algo subseqüentes, dota
des~gradável, algo a ser evitado. Encontrei isto citado em um maior adaptabilidade
livro de Guillermo Floris Margadane. Se afastarmos da obser-
vação o equívoco esquema "nobreza-burguesia-prol etariado", po-
deremos aceitar o registro como basicamente válido e
surpreendentemente interessante. Na verdade, o que ocorre é observar que o pleito
que a secularização da cultura veio a apagar nas sociedades o de coadunar-se com a
patlws aristocrático-religioso, que é requisito do trágico (e que o sentido do "público
foi concretamente no caso dos gregos), trazendo crescentemente lução Francesa se :
o predomínio das formas menos "heróicas" de vida- isso pionei- clássica divisão r om -
ramente Vico percebeu - e entronizando a padronização cultural, do-se este sobre o :~
jurídico-política e econômico-social. Padronização que acarreta- sobre o Direito Nat..
ria o pragmatismo, o utilitarismo e o imediatismo do mundo de vez à tendência do ..
hoje. pressaria inclusiYe
Feitas ou admitidas estas ressalvas, mantemos todavia o sempre alegado "ind!
mérito da valorização do equilíbrio, existente no "espírito" bur- através dos modelos
guês na medida em que tal espírito é uma realidade histórica. estéticos no tocante
Muitos autores, que sem mais aquela combatem a burguesia, sentidodo espaço pú'
confundem o seu conceito com o dos freqüentadores de café-con- inclusive ao processo
certo do século XIX, ou o dos que iam ao jardim do Luxembugo o advento da democ:-
procurar grisettes e lorettes 8 • Estes segmentos da sociedade con- administração racio~
temporânea participam entretanto do modo laico-burguês de Ainda dentro do
vida do mesmo modo que o trabalho científico, cujo mérito nin- demasiado amena p
guém nega, ou os progressos da higiene, dos quais se beneficiam os autoritaristas de ·
os próprios detratores da burguesia. que viria eclodir sob~
a planificação. Den:!"C
É certo, entretanto, que o padrão burguês de pensar, mesmo
• 4
capitalista, privatiz
se o entendemos em sentido positivo, corresponde sempre a algo
keynesiana que tento.u
"não extremado". Assim o teríamos mais em Montesquieu do que
e o capitalismo, bu.s
planos, adotados na::-
7. lntmducciónalallistoria UniuersaldelDerccho, Xalapa, México, Ed. U ni v. Vcracruzana, 107•1,
p. 4G5.
discutir e refazer a.s
8. Cf. Cuide eles Plaisirs de l'aris, l"ouvcllc Eclition, Paris, s.J., pp. 210 c ss.
11 BURGUESIA. O Lll3ERALTSMO. .. 99

•<a~ ~ evitar riscos, e em Rousseau, como em outro contexto mais em Aristóteles do


e= s-o.~bstância com os que em Platão, e de certo modo mais em Tomás do que em
Agostinho. Não se negará a necessidade de ocorrerem posições
radicais e criadoras como as de Platão e de Rousseau, que
montaram esquemas fundamentais; mas aquela criatividade e • .1"
estes esquemas necessitaram, para frutificar historicamente, de
combinar-se com formulações complementares ou paralelas, ou
subseqüentes, dotadas de mais flexibilidade pedagógica e de
maior adaptabilidade ao real.

Quanto ao problema da limitação do Estado, formulado


~~~~~ente e dentro do racionalismo "burguês" pelos liberais clássicos, ocorre
~ - de o que ocorre é observar que o pleito em favor da restrição do Estado não deixou
.;ar nas sociedades o de coadunar-se com a permanência, aliás redimensionada, do
- do :rágico (e que o sentido do "público". Como se sabe, a obra legislativa da Revo-
lução Francesa se fundou sobre uma espécie de retomada da
clássica divisão romana do Direito em público e privado, basean-
do-se este sobre o legado romano e aquele, ao menos em parte,
;a~ão que acarreta- sobre o Direito Natural. Neste caso poderíamos aludir mais uma
~._:c......
-5'!Ilo do mundo de vez à tendência do "espírito" burguês ao equilíbrio. Ela se ex-
pressaria inclusive no fato de que, enquanto por um lado o
sempre alegado "individualismo" moderno veio realizando-se
através dos modelos domésticos, inclusive com certos requisitos
estéticos no tocante aos interiores e aos trajes, por outro lado o
:em a burguesia, sentidodo espaço público se desenvolveu exemplarmente, ligado
:;::-es de café-con- inclusive ao processo de reformulação das práticas políticas, com
~ Jo Luxembugo o advento da democracia, das técnicas eleitorais, dos ismos e da
da sociedade con- administração racional contemporânea.
aico-burguês de Ainda dentro do tema dos "limites do Estado" (expressão
demasiado amenrt para o anarquismo radical e inaceitável para
os autoritaristas de todos os matizes), vale referir uma questão
que viria eclodir sobretudo nas décadas 30 e 40 de nosso século:
a planificação. Dentro da própria área de influência da economia
capitalista, privatizantc, e em parte sob O< impacto da dout rina
keynesiana que tentou abolir a incompatibilidade entre o Estado
e o capitalismo, buscou-se um modo de adaptar a idéia dos
planos, adotados na União Soviética desde os anos 20. Buscou-se
Ll:ü" \"cracruznna~ 1074,
discutir e refazer as lindes entre o chamado setor público e o
setor dito privado: alguns autores em matéria de finanças públi-
100 OJAJWI/11 E 11 PRIIÇA

cas chegariam a negar a separação tradicionalmente existente


entre os dois.
No debate sobre planificação, onde entrariam entre outras
figuras Jaspers, Von Mises, Laski, Hayek, destacou-se pela
profundidade de suas análises Karl Mannheim, grande pensador
(um dos criadores da "sociologia do conhecimento") ao qual certos autoimagem do
professores desavisados e imbuídos de marxismo mal digerido nios, dentro do
vêm atribuindo, com azedo tom acusatório, posições "conserva- elas
doras". Segundo Mannheim, o crescimento das cidades no Oci-
dente moderno incrementou caracteristicamente uma v as ta rede
de "negócios carentes de intimidade": negócios em cuja estrutura
prevalecem formas totalmente objetivas, com o advenlo de con-
tratos impessoais, senão anônimos, e com o indivíduo solto
diante (ou dentro) desta vaga coisa que é o "público". O inverso,
portanto, do que havia sucedido no medievo. Daí a preocupação tos vieram
de Mannheim com as implicações do problema da planificação as formas de 'ida.
em termos de psicologia social, no sentido das alterações sofridas zações de p oder-
pela personalidade humana dentro das sociedades planificadas. acumulando-se •
Daí seu interesse pelo estudo das relações entre economia e
educação, desenvolvido com base na idéia de que em cada grande
tipo de sociedade predomina um padrão de personalidade, bem autoimagem do
como um modo de afirmação pessoal. Reordenar a sociedade, Humanitase
planejar e estabelecer coordenadas significará portanto algo gos e filólogos q~ea.
bastante complexo9 • fabricados pelo
A exacerbação do lado público das coisas, no mundo de hoje, agregaram ao
se exemplificará inclusive com o grande porte das organizações
econômicas internacionais, que destruíram as demarcações na-
cionais, realizando em grau ostensivamente extremo- embora
sob formas diferenciadas - o que talvez estivesse latente nos seja, para quase
grandes "impérios" do passado. humanos.
Voltando ao~
Entretanto um dos temas que me parecem mais centrais,
dentro do enovelado de assuntos que perfazem a fisionomia do
"mundo contemporâneo", é ainda o da perda das estabilidades.
É certo, como foi dito mais acima, que as transformações histó-
ricas não poderiam dar-se se as estruturas fossem inquebráveis,

9. Cf. "/\ Sociedade Planejada e o Proble1na da Personalidade flumaua", em Ensayos sobre


Sociologiay Psicologia Social, México, FCE, I 003.
uma no·:a
A BURGUESIA. OLTBERi\lJSMO. .. 1 01

nalmente existente e que toda estabilidade deve ter limites, inclusive os limites que
lhe atribuem a consciência ética e o pensar crítico, que são
~l"Íam entre outras obviamente variáveis no tempo e no espaço. Mas é que um dos
-. destacou-se pela
~.grande pensador
aspectos mais dignos de registro, dentro do que se chama de crise
do mundo moderno (ou do "contemporâneo"), é a condição da
,. .
_e!:: to") a o qual certos autoimagem do homem, formada através de séculos ou de milê-
:r:rismo mal digerido nios, dentro do quadro de instabilidades hoje existente. A maio-
posições "conserva- ria das representações fundamentais, algumas mesmo
- das cidades no Oci- arquetípicas, que vieram perfazendo a quela a utoimagem, foi
-e!:!.te uma vasta rede elaborada em épocas em que (ao menos segundo nos parece,
=:JS em cuja estrutura vistas de hoje) predominaram certos traços estáveis: a casa, a
_:,:r. o a dvento de con-
família, as relações de paternidade, a diferença entre velho e
::-=:m o indivíduo solto moço, enfim uma série de imagens, valores e preceitos .
..?-..ililico". O inverso, Ainda até duzentos anos atrás, mais valores e mais pre cei-
Daí a preocupação tos vieram agregando-se. O passar do tempo certamente afeta
~ da planificação
as formas de vida, através dos contextos culturais e das organi-
1las a:terações sofridas zações de poder; mas uma relat iva continuidade pareceu vir
..edades planificadas. acumulando-se, feita ele denominadores comuns vindos das mo-
- entre economia e narquias antigas e da Europa cristã. Coisas contrastantes vie·
e que em cada grande ram coabitando dentro dessa continuidade, confirmando a
-r personalidade, bem autoimagem do homem. Garantia-a, a esta, a noção l atina ele
~enar a sociedade, Humanitas e questionava-a, explorando-a, a legião de a rqueólo·
,.--::ea.....-á portanto algo gos e filólogos que a erudição ocidental produ ziu . Valores novos,
fabricados pelo mundo pós-renascentista, e preceitos novos se
"3" no mundo de hoje, agregaram ao conjunto. Mas depois de certo tempo os questiona-
:-..e das organizações mentos se tornaram maiores, o niilismo tomou corpo, e entroni·
a:::.as demarcações na· zou-se a noção de crise. Decadência elo Ocidente, s aturação elo
-;.e extremo - embora espírito secular, crise da burguesia e elo capitalismo ou o que
õ-=:'l;"esse latente nos seja, para quase todos há algo de podre no reino dos seres
humanos.
Voltando aos séculos pós-renascentistas, valerá anotar isto .
-~m m ais centrais, Entre os séculos XV e XVII, quando certas formas do mundo
:::Z.Ze!!! a fisionomia do antigo parecem r epetir-se - sem entretanto abolição total das
- das estabilidades. criações m edievais-, e quando s e consolidam dentr o de vigências
-.::..-.s:ormações histó- estáveis certos u sos, inclusive os que definem paradigmatica-
s.sem inquebráveis, mente o lado privado e o l ado público da vida, é que se iniciam
a s grandes movimentações que alterarão os mapas e os usos:
Huu:.ana'', em Ensuyos sobre n avega ções, alterações culturais, colonia lismo econômico. Toda
uma nova Voelkerwanderung, com suas conseqüências no plano
102 O JARDIM E A PRAÇA

militar, no político, no social, no ético. A partir daí começam a


periclitar as estabilidades. Deve ter sido assim em outras épocas,
14. _-
como com o surgimento do império macedônio ou com o fim do
mundo romano; só qu e é este out ro desatar-se de resultant es o
que chega até nossos dias, e nos alcança.
Enquanto o ser humano, ao que parece na maioria dos
contextos passados e até mais ou menos o século XIX, se recon he-
ceu a si mesmo dentro de certos parâmetros (aos quais não teria
talvez trazido grande alteração o advento do "antropocentrismo"
pós-medieval), o sécu lo XX introduz nas imagens a dissimetria e
o desequihbrio. O homem mesmo era um parâmetro, inclusive
no sentido das proporções físicas, diante das casas (paredes,
tetos e portas), dian te do casaria e das árvores; mas em nosso
século chegaria o colossalismo dos edifícios, com a brutal su bs-
tituição dos estilos pelos taman hos, com os espigões, com a
desmedida. Há nisso por certo uma conexão com o excessivo
crescimento das populações (tema estranhamen te mantido como
tabu), com a massifi cação, com os regimes autoritários, com a
sociedade industrial e pós-indust rial, e provavelmente com a Observemos a ;
perda de substância por parte da dimensão privada do existir. do no Br asil. O p -
Tecnologia, burocratização, violência, ruas sempre cheias. H enri oitocentistas e fo
Lefebvre falou inclusive no cibernântropo, ao tomar posição
"contra os tecnocratas", relacionando-o com a destruição do
humano e com entronização do "consumo de massa". Parecerá diversos autores, a:
talvez uma cantilena nostálgica, ou uma laudatio temporis acti homem é repúblicc•
colocar tintas tão sombrias nestas alusões, mas realmente a grifado normatiYo,
questão existe e a generalizada sensação de mal-estar não é líderes com "espíri:.o
infundada. o viver nacional se-
tido repetir aqui o _
fashioned mas nãc
sempre um proj eto
O reparo do e-
mente ser complet.<!.:
algumas páginas S"'~­
em seu Raízes do 3
Duarte, A Ordem
que inclusive anali.s
na história social b
cos em Gilberto Fre_
~ daí começam a
em outras épocas,
14. ALUSÃO À EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
=-;o ou com o fim do
-:;e de resultantes o

Ir"""'".,....., na maioria dos


--;:> XIX, se reconhe-
aos quais não teria
- ana-opocentrismo"
_;e:l.S a dissimetria e
r: ~~ ãrnetro, inclusive
~ casas (paredes,
~-:-es; mas em nosso

~ ~::na brutal subs-


: espigões, com a
_ com o excessivo
-<>::_r.e mantido como
:::.oritários, com a
~xelmente com a Observemos agora algo sobre como as coisas se vêm passan-.
- i=bada do existir. do no Brasil. O panorama histórico nos revela, entre gravuras
=-p!'e cheias. Henrí oitocentistas e folhagens tropicais, o perfil patriarcal da vida
.a~ w mar posição privada, que pareceu-, ao menos- predominar sobre as longín-
.:::::= z destruição do quasausteridades da ordem pública. Cita-se então, por parte de
_ :nassa". Parecerá diversos autores, a fan1osa frase do viajante: "neste país nenhum
.3... :io temporis acti homem é república". A frase, por debaixo da qual perp assa um
=as realmente grifado normativo, indicaria que o país deveria ter tido mais
líderes com "espírito público" (ou com dimensão maior), para que
o viver nacional se tivesse estruturado como proj eto. Sej a permi-
tido repetir aqui o persuasivo conceito ortegueano, talvez old
fashioned mas não desaplicável, segundo o qual uma nação é
sempre um projeto vital.
O reparo do encasacado turista do século XIX pode certa-
mente ser completado com registros mais r ecen tes. Por exemplo
algumas páginas sutis e perenes de Sérgio Buarque de Holanda
em seu Raízes do Brasil, ou certas p a r tes do livro de Nestor
Duarte, A Ordem Privada e a Organização Política Nacional,
que inclusive analisam as relações entre vida rural e vida urbana
na história social brasileira . Há também alguns relevantes tópi-
cos em Gilberto Freyre, referentes ao desdém do brasileiro colo-
101 O .Ji\RDIM E J1 PRJIÇ1l

nial pelos espaços públicos, pelo que não fosse o específico recinto
da casa de moradia e suas adjacências imediatas: inclusive no lhismo político, pa:'"
plano da higiene, vez que o lixo - inclusive algumas formas sa e descontínua p
terríveis de lixo - era jogado à rua (ou ao rio) sem nenhuma como tal.
cerimônia e sem nenhum respeito ao que fosse público, comunal, Por outro lado.
de todos. No capítulo II de Sobrados e Mocambos, o grande Brasil, uma vida p1i?_
escritor caracterizou entretanto o lento trifundo da praça, no se ocorrido a verte::::-
sentido ela viela urbana, sobre o engenho ou sobre a viela ele mos vivido a order::
engenho. O triunfo da praça, isto é, da vida urbana, foi correla- menos no sentido de
iivamente o d a rua, isto é, da viela em espaço público: a rua teria duas carências, de
inexistido dentro do engenho, isto é, dentro da área específica de colonização e no p.:>""
dominação da família patriarcaL A este fenômeno, próprio do Há de qualque
século XIX, teria porém corresponcliclo, segundo Gilberto Freyre, privatismo (o giga!"
a existência (em contrapartida) de um viver mais de casa do que outra coisa), al
de rua no sentido da concentração ele elementos culturais pecu- exemplo este para.d.
liares. tante a violência pri
O tema é vasto, e com ele navegaríamos por águas antropo- semana, assassma·
lógicas, sócio-históricas, histórico-políticas. Imaginamos a figu- violento), e que en_
ra dos heróis fundamentais ele outros contextos, inclusive os Não o tem em ge:- ·
fundadores de cidades- ou ele comunidades nacionais- e encai- aqui e ali ocorrente~
xamos sobre o modelo nossos figurantes históricos, a ver se tamento com a m.J.::
resulta algo no sentido clássico de transcender a privacidade. O nária (que ele resuc
combate contra a concepção elo "herói na história", empreendido especiais).
por certos entusiastas elo coletivismo, despercebeo fato de que o Podemos evide
herói, n este sentido "fundante" (como Numa, como Meroveu, privado, no p aís- _
como Bolívar), se identifica justamente com os traços mais gené- se - , com a perm~-6
ricos e mais "públicos" ela comunidade. E por isso mesmo não ria social: ainda ho:;
exclui o lado social, grupal, do processo histórico; antes existe largas partes do •
com ele. reforma agrária,
Pois encaixamos sobre esses modelos clássicos, carregados manipulam eleiç~
de exemplaridade, os nossos Bonifácios e os nossos Canecas: eles ma se liga inclus;~:
são certamente admiráveis, mas não convencem de todo como instituições com pe.s
criadores de um ethos político, porque o palco é vasto demais (um difundido equívoco
país enorme e heterogêneo) e porque o movimento cênico é que os adotam, is· ft

excessivamente desigual em ritmos e em direções. de alguém ser com·


tativo pela incom
De certa forma o problema do privatismo brasileiro, que se gião cristã mencin~
prende ao "p ersonalismo" ainda hoje perceptível, deverá ser despreparo ou a des
entendido em conexão com fenômenos idênticos, correntes em completamente esd:-
ALUS,iO À EXPERIÊNCIA JJRASTDEJJIA 105

o e::.--pecífico recinto toda a América Latina: latifúndios, famílias dinásticas, caudi-


lhismo político, partidos formados por coalisões pessoais, escas-
a:gumas formas sa e descontínua presença do povo e do sentido da coisa pública
rie sem nenhuma como tal.
- p'iblico, comunal, Por outro lado, vale notar que o fato de não termos t ido, no
':=carz bos, o grande Brasil, uma vida pública com plenitude não significou que tives-
.:~ào da praça, no se ocorrido a vertente opost a. Ou seja, não quer dizer que tenha-
~ sobre a vida de mos vivido a ordem privada em seu sentido fundamental, ao
menos no sentido do modelo clássico. E ambas as coisas, que são
duas carências, elevem ter decorrido ele distorções dadas na
colonização e no povoamento.
Há de qualquer sorte, em torno ela tendência nacional ao
privatismo (o gigantismo de Brasília c ela burocracia nacional é
I::..:!is de casa do que outra coisa), a lgumas outras observações a fazer. Vejamos por
~s culturais pecu- exemplo este paradoxo: um povo em que sempre foi uma cons-
tante a violência privada, sob diversas formas (crimes de fim-de-
- po:r á guas antropo- semana, assassinatos, rixas, facilidade do uso ele armas, trânsito
~aginamos a figu- violento), e que entretanto não tem o hábito da violência pública.
Não o tem em geral, sem embargo de revoluções e de sedições
aqui e ali ocorrentes na história; não o tem no sentido do enfren-
tamento com a milícia nem no da própria disposição revolucio-
náriR (que de resto implica radicalismos e disciplinações muito
especiais).
Podemos evidentemente relacionar o predomínio elo sentido
privado, no país- que, quem sabe, tenderá doravante a alterar-
se-, com a permanência das estruturas feudais em nossa histó-
ria social: ainda hoje essas estruturas continuam presentes em
largas partes do território nacional. Elas não só impedem a
reforma agrária, como se alongam pelos perímetros urbanos,
-~s~cos,carregados manipulam eleições no interior e geram impunidades. O proble-
- ~.s ::;s
Canecas: eles ma se liga inclusive ao hábito muito br asileiro de confundir
~r=D::!Il d e todo como instituições com pessoas. Hábito comparável, de certa forma, ao
êvasto demais (um difundido equívoco de se julgar regimes ou credos pelas pessoas
~ento cemco e que os adotam, isto é, pelo viver privado delas: descrer do fat o
de alguém ser comunista por vestir-se bem, elo regime represen-
tativo pela incompetência de alguns deputados, refutar a reli-
gião cristã mencionando padres relapsos. Acrescente-se a isso o
rti"--el, deverá ser despreparo ou a clesinformação de certos setores, gerando visões
s correntes em completamente esdrúxulas elas coisas. Como no caso das pessoas
]{)(j O JAIWJM I!: A l'HAÇr1

que pensam que democracia e socialismo significam uma iguali- ram escandalosame •
tarização absoluta no plano privado, quando o problema da além do muito m arc-
igualdade tem outro sentido (alguns parecem crer que a "demo- clero, que teria sido
cratização" consiste em andarem todos de calçajeans e sandálias gerou uma deforma -
de borracha, de preferência os homens com barba para ninguém ladas de uma orden:
resultar diferente). de si, na colônia, um.a
Foi com as estruturas ainda feudais e com o sentido perso- "nobreza" sempre :o:
nalista das coisas que, no Brasil, esbarrou o ideal iluminista do (o adjetivo é de Síb""!~
cidadão, oriundo da conversão do "súdito" em contribuinte e em teve semelhanças co
eleitor. Um ideal cujo alcance estaria em ver em cada indivíduo Europa medieval - .
sua dimensão pública. Um ideal, aliás, basicamente leigo e histórico-social.
urbano; e ao anotar isto passamos a outra reflexão. Estas carências
A distinção entre vida urbana e vida rural, configurada há cultar a estruturat;M
milênios, vigorou na antigüidade e na Idade Média. As primeiras a correlação ent re •
civilizações foram (ou giraram em torno de) cidades, e o urbano política e uma elite '
em sentido específico correspondeu a um padrão qualitativo de Retomando po:!'
vida ("urbanidade" e "modos urbanos"), sendo o viver no campo, faltado aos brasile·
ao n1enos em certos casos, considerado algo negativo ("rusticida- institucional) da v·!o. -
de", "vilão"), isto apesar do perpétuo fascínio do bosque e dos possibilidade conc!"e-
prados sobre a mente humana, e até da imagem do camponês •
um pa1s .... •
cuJa 1
popwa -

como gente pura e ainda não corrompida. A partir do surgimento br adoras, a consciêr:
elas grandes cidades, as pessoas se educam para viver de modo !ativamente. Com o E.:.:!
"urbano" (por ou para viver na cidade). Mas no Brasil aquela política, inclusive ec
distinção milenar vem sendo desfeita, sobretudo em certas áreas nos dezoito anos de
-o Nordeste inclusive-, onde o empobrecimento e as migrações densidade dos cleba::.e,
c arreiam para as cidades levas de pessoas que não têm condições popular. Com o golpe
ele viver adequadamente em um perímetro urbano. O problema se fizeram diversas ~
não é propriamente ele classe, nem ele pobreza material apenas, rep ressão e a clesin:"'c~
pois numa cidade como o Rio os sambistas do começo do século debates v em enseja!:
já tinham comportamento urbano (como os fadistas de Lisboa ao são entre as linhas _
tempo de Eça ou os tocadores ele tango em Buenos Aires antes com os sindicatos o~
mesmo de Gardel). lamentar e m anter ::.
idéia ele revolução ora,
Não sei até que ponto terão sido estudadas e compreendidas ao conceito de "ocu._
as razões pelas quais teria faltado ao Brasil, desde cedo, o continua pensando n
sentido daRes pública, seja em que medida isto de fato ocorreu.
Em outros países latinoamericanos a imprensa e a Universidade Um privatismo _
surgiram bastante cedo; entre nós (que entretanto tivemos ve- leiro. Sem jardins ::::--:!!
reanças municipais durante a colônia) estas duas coisas tarda- influências aclequaG.::.
&

AJ.US1lO 1i EXPli!UÊNCJA JJRASJLR!RA 107

-=:i!cam uma iguali- ram escandalosamente. Talvez tenhamos tido, além disso, e
!> o problema da além do muito marcado feudalismo, um excessivo predomínio do
clero, que teria sido normal em outro contexto e que entre nós
gerou uma deformação das hierarquias eclesiásticas, desarticu-
ladas de uma ordem política correlata. O clero não tinha junto
de si, na colônia, uma aristocracia verdadeira, originária. Nossa
"nobreza" sempre foi uma casta de senhores rurais truculentos
(o adjetivo é de Sílvio Romero), cujo poder, se no sentido formal
teve semelhanças com o de toda outra nobreza - inclusive a da
Europa medieval-, era totalmente distinto quanto ao significado
histórico-social.
Estas carências e estas deformações convergem para difi-
cultar a estruturação daquilo que foi modelar na antiga Roma:
a correlação entre um povo com presença contínua na vida
política e uma elite (inclusive a do Senatus) séria e levada a sério.
Retomando por um instante a referência ao fato de haver
faltado aos brasileiros o hábito (e por assim dizer o sentido
institucional) da violência pública, vale reiterar que o sentido da
possibilidade concreta da luta tem com freqüência faltado. Em
um p·aís cuja população vem crescendo em proporções desequili·
bradaras, a consciência de povo não se tem desenvolvido corre-
lativamente. Com o Estado Novo o "povo" foi um lance de retórica
política, inclusive ecoando nas canções "patrióticas" dos anos 40;
nos dezoito anos de duração da constituição de 1946, a pouca
:i' e as migrações densidade dos d ebates tornou como que desnecessária a pressão
-~ não t êm condições popular. Com o golpe de 1964, o povo foi um conceito sobre o qual
ano. O problema se fizeram diversas colagens, com slogans oficiais recobrindo a
" ll!aterial apenas, repressão e a desinformação. E de 1980 para cá a reabertura dos
começo do século d ebates vem en sejando vários equívocos, inclusive com a confu-
~:as de Lisboa ao são entre as linhas ideológicas (o Pl' dividido, o PC dividido) e
com os sindicatos oscilando entre ascender à representação par-
lamentar e manter a atividade pedestre: de todos os modos a
idéia de revolução ora está com a extrema esquerda ora dá lugar
"' e compreendidas ao conceito de "ocupar espaços", enquanto a extrema direita
d esde cedo, o continua pensando no putch como sempre.
_s:<f de fato ocorreu.
e a Universidade Um privatismo sem jardins: dir·se-ia ser este o caso brasi-
_ ;.anto tivemos ve- leiro. Sem jardins pelo fenômeno da pobreza ou por falta de
duas coisas tarda- influências adequadas. Os jardins dos subúrbios das cidades do
108 OJ;\RDIM 1.; 11 1'/li\ÇA

Centro-Sul se devem claramente a influências européias, en- 15. oHo_


quanto no Nordeste as cidades menores apresentam rudes e
singelas moradias quase sem flores, como certas casas de pro-
víncia da parte mais pobre de Portugal. -
Somos diversos "países" - vá o recurso à ambigüidade
semântica -, somos um território exageradamente extenso, e
como referência espacial isto ajuda pouco a aglutinar comunida-
des com senso político homogêneo. Não podemos, e é erro em que
certos autores vêm incidindo, entender as estruturas sócio-polí-
ticas nacionais sem levar em conta os dados do passado; n em
podemos prender-nos totalmente a eles. Por isto é realmente
difícil o trabalho de repensar o problema político (sócio-político)
do país. E é urgente fazê-lo, obviamente, para que se formulem
esquemas onde uma ordem pública complexa e flexível caiba a
todos os "países" existentes no Brasil, sem destroncar-se do
passado e configura ndo um projeto nacional adequado em termos
de valores e de inst ituições.
Regressando a;ora
mos de novo no tema d~
evoluçã o das r elações
verdadeiro objeto da

mana, se compõe de aJ.,


e é com est a r essalva
paradoxo veiculado por
naturaleza sino que -:a::i
é: obviamente "antropcl

escrever isto recordo a


Revoluciones: quando •
elaborada, ela passa a _
teve d e ser transforma
veio r etomando de de
.._,__~""""'-
européias, en- 15. 0 HOMEM: CONSTANTES E DUALIDADES
~":"e.sentarnrudes e
CJE:r..as casas de pro-

-.::~ à ambigüidade
____....;;a,:rrente extenso, e
~.. -::inar comunida-
....s e e erro em que
=::-*"'..!ttU-a s sócio-polí-
~ do p assado; nem
- 2~ é realmente
--- sócio-político)
:a ~:1e se formulem
e .:":exú-el caiba a
2estroncar-se do
~ado em termos

Regressando agora às perspectivas mais gen éricas, pense-


mos de novo no tema do homem: o homem e sua auto-imagem. A
evolução das relações entre esta e aquele constitui a nosso ver o
verdadeiro objeto da chamada antropologia filosófica.
O que o homem tem feito e tem sido, e o que pensa e imagina
com respeito ao seu fazer e ao s eu s er, e is o problem a do qual um
dos tópicos estivemos abordando sob diferentes ângulos. O que
consideramos como "natureza" humana, ou como realid ade hu-
mana, se compõe de algumas cons tantes que são algo h istórico -
e é com esta ressalva ou esta paráfr a se que podemos a ceitar o
paradoxo veicula do por Ortega a o dizer qu e "el h ombre no t iene
natur aleza sino que tiene historia". Const antes h istóricas, ist o
é : obviamente "antropológicas", algo que s e constata s empre ou
quase sempre em todas as comunida des humanas, d entro de
quadrantes e de época as mais diversas.
Fora disso seria o humano uma simples abstração, e ao
escrever isto recordo a advertência do autor de El Ocaso de las
Revoluciones: quando uma idéia s e s epa ra do contexto onde foi
elaborada, ela passa a s er uma a b stração. A figura do homem
teve de ser transformada em abstraçã o, dado que cada época a
veio r etomando de dentro (e por cima) dos contextos anter iores.

------------~-----~---------·__j
110 O JARDIM E A PRAÇA

Mas ela sempre constituiu correlativamente uma imagem sen- é que a família não e
sível (se não me engano Jung escreveu que as representações que em contextos ou
fundamentais são simultaneamente idéias gerais e imagens (tem sido moda citar
sensíveis), sobretudo se se tem em conta o seu "forro": a noção lhia os chefes, bem
de humano. A consciência que os homens possuem de fazer parte onde as mulheres f ->7
d e uma espécie, com caracteres tais e com tal ou qual situação refiro ao que ficou cc
no mundo, é fruto (mas ao mesmo tempo condição) deste perpe- co-romano e també::::J.
tuar-se da imagem do homem, que veio das mais velhas culturas presença o elemento
e vem atravessando épocas e contextos. As alterações históricas equilíbrio - mesmc
se inscrevem sobre - ou dentro de - um conjunto de traços, nos aparência, e a s m ull:.
quais se delineiam constâncias e inconstâncias. Nesses traços se em certas ocasiões.
entrevê o ser-do-homem, e aquelas alterações são correlato de Os igualitaris~~~
uma série de paradoxos e antinomias que terminam por ser minismo" - em alg' -
constitutivos do humano. Assim o homem se apresenta sempre ensejaram a partic!
colocado entre isto e aquilo: entre o passado e o futuro, entre ca. Só que, de certo-=.
projetos e lembranças, entre ir e voltar, entre tempo e espaço, Mas voltemos :::.~
nascer e morrer, pequeneza e grandeza, bem como entre paz e
guerra, masculino e feminino , uno e múltiplo, renovação e ruína.
Do mesmo modo entre a casa e o mundo, entre côncavo e convexo,
entre o jardim e a praça. "Colocado", mas por si mesmo, visto que
todas estas são coisas que ele mesmo p1·oduz . Deste modo o un1 nasce na casa.
homem se reconhece em seus próprios dualismos, em seus para· situação social: eis .._
doxos e suas contradições; ele toma estas coisas como demarca- pode ser hermenêut:.:::a..
ções necessárias à compreensão de si mesmo.
Insistamos n a i:
Menciono estas dualidades constitutivas, integrantes do ser riência dos parques p ....
do homem (do s er c do estar), para destacar esta bipartição- de jardins, mas alguns
que este texto vem tratando - entre o viver privado e o viver
público. O viver "consigo m esmo" (ou com os seus, como se diz), ria: o dos passeios aJ
e o viver com o grupo, ou no grupo, aliás os grupos: obviamente edificações caracter:su
o homem é o cria dor da vida social c os homens são obra dela ticular, questionado
(saiamos assim, p or um pouco, da pergunta circular). em contraste com os-
Para a experiência clássica, isto é, a dos "antigos" e de até (certos historia dor es
umas tantas gerações, o equihbrio entre esfera pública e esfer a pela Via Sacra)2 .
privada se dava mais ou menos deste modo: da famHia partici-
Portanto a ses
pavam tanto a mulher como o homem, mas somente os homens
participavam do "povo" e da vida pública. Poderia pensar-se, pelo
fato de a mulher "governar" a casa, na expressão romana, sendo
a vida militar e administrativa coisa de homens, que o lado
I.
privado é mais feminino (e o público, masculino), mas a verdade 2.
O IIOMEM: CONSTANTES E DUIILIDIIDES 111

>::::!na imagem sen- é que a família não existiria sem o pater. Sabe-se evidentemente
a3 representações que em contextos outros as mulheres tiveram presença política
: erais e imagens (tem sido moela citar tribos onde o conselho das mulheres esco-
seu ~forro" : a noção lhia os chefes, bem como o caso de certos grupos germânicos,
em de fazer parte onde as mulheres faziam parte do conselho de guerra), mas me
ou qual situação refiro ao que ficou como imagem clássica dentro elo legado gre-
~.-õi.L;...,.a- o deste perpe- co-romano e também posterior. O fato é que com sua dupla
presença o elemento masculino teria tido a incumbência do
equilíbrio - mesmo que isso em certos casos tenha sido só
aparência, e as mulheres tenham exercido influência informal
em certas ocasiões.
Os igualitarismos contemporâneos, trazendo consigo o "fe-
minismo" - em alguns casos ligado ao próprio socialismo -,
ensejaram a participação das mulheres no povo e na vida públi-
ca. Só que, de certo modo, a troco da crise da família.
Mas voltemos aos dualismos. Casa e "mundo" são em ver-
dade espaços, são lugares onde se esLá, são p lanos do comprome-
timento do homem consigo mesmo e com seus símbolos. Planos
da ação e da linguagem, embora o termo ação caiba melhor, como
bem viu Hannah Arendt, ao plano público. A linguagem de cada
um nasce na casa, mas a linguagem da casa nasce de uma
situação social: eis uma circularidade que pode ser dialética e
pode ser hermen êutica.
Insistamos na alusão ao mundo clássico. Em Roma a expe-
mregrantes do ser riência dos parques públicos, apesar de certa ambigüidade (eram
e:;ta b1partição- de jardins, mas alguns eram propriedade privada do imperador)
privado e o viver ensejou a consagração de um modelo de."lazer" que se perpetua-
se. .s, como se diz), ria: o dos passeios ao longo de vastos jardins, vastas áreas com
grupos: obviamente edificações características 1 • O conceito de donws como casa par-
_en.s são obra dela ticular, questionado por certos autores, prevaleceu precisamente
em contraste com o sentido público das áreas abertas ao passeio
(certos historiadores citam o gosto de Horácio em deambular
pela Via Sacra?.
Portanto as estampas provindas da antigüidade assinalam
dois componentes característicos: o irredutivelmente privado e
- pensar-se, pelo o necessariamente público.
-sãü romana, sendo
c;::ens, que o lado 1. l .éon Homo, Nome Império,/~ ~t l'urlmnisme rlons l'nntiquité, Paris, AlLiu :\1ichcl, 1071, p. 400.
---~ . mas a verdade 2. Lc.:-ou 1Tomo, op. cit., passim.
112 OJARDJM E A PRAÇ1l
o
Referimos, acima, a possível correlação entre o dualismo
Podemos lemo-
dimensão pública/dimensão privada e a diferença, aliás sempre
igualdade se comp"!'EI
meio imprecisa, entre o "objetivo" e o "subjetivo". Não é uma
contextos históricos
correlação plena, mas os dois dualismos parecem corresponder-
ceituais. Em algun.s 1
se em parte. Toda a extensa região da subjetividade, indefinível
acha ligado à visão _
em suas lindes mas inteligível como alusão, com seu conteúdo de
cita: assim qu ando :..
imagens e de sentimentos, símbolos e representações, pode ser
distinguir ent r e o _
creditada ao lado "privado", se o tomarmos como recinto funda-
na cabeça a conce~
mental das relações que criam a consciência. Há porém que noção laico-mode~
dar-se um desconto, pois essas relações se ligam ao âmbito
Tais problem~
extra-casa, e porque neste âmbito vigoram também símbolos e
O tema veio desde a
representações . Para citar ainda uma vez Platão, aquela corre-
político" e chegou a
lação foi uma das coisas que percebeu o autor do Timeu . Ele quis
onde Marx tiraria ~
cancelar as oscilações da subjetividade (e da opinião, doxa),
segundo a qual o h..
eliminando, para os sábios ao menos, a vida privada. Com isso
verdade o pr oble:ma
resguardava a ciência e a política, resguardando a objetividade
trar as variáveis ~s-
e a coisa pública.
0 que s ignifica q~r
mat erial empírico.
Tudo isso leva a lembrar que, para aludir à "condição" do
Entret anto, a ='
homem não basta mencionar o seu estar no mundo (o sempre
manos, cabe recon}r
citado i'n-der-Welt sein, de Heidegger). É preciso dizer de seus
eis os. Em E l Ho11';
enraizamentos e de suas constantes universais; da ligação dos
homens a contextos e a urdiduras institucionais: família ou clã,
vago permanece, ;.,.
Igreja ou Guilda, partido ou clube, empresa ou o que for. As
dade". Preferiu e:e::
referências que se têm como "valores sociais" c01·respondem sem
lei, estado, a falar de
dúvida à imagem que o homem tem, em cada época ou contexto,
guês (como "people
de si m esmo e da sociedade. Isto é mais ou menos evidente, mas
embora possamos e
há que ser sublinhado. Dir-se-á que aquela imagem depende
diz, toda a gente s
muito do poder, e portanto corre por conta dos homens que
Gabriel Mareei em -
dominam, mas aqui se trata de r epresentações muito genéricas:
"o homem" abrange tais e tais homens, tais e tais situações, tais
isto é, nas coleti·-!
e tais estimações sobre dominação e formação de imagens.
classe, Volksgeisr =-
Há valores sociais cuja variabilidade histórica tem que ver
será sempre o poss~
com as alterações ocorr idas no espaço público, e também com o
definida. P or certo -
sentido das relações entre a vida pessoal e as instituições . Há
válida: não devemcs
períodos históricos em que uma estrutura político-social comple-
sociologias realmen-
xa, mas flexível, propicia uma vida institucional estável: foi o
gir o humano ao qü.e
que ocorreu em Roma nas melhores fases do Império.
no" está também n.os
Ortega exager a-\·a - _
O 110MEM: CONSTANTES E D UALIDADES 113

o dualismo Podemos lembrar que valores como justiça, liberdade e


igualdade se compreendem mais adequadamente olhando-se os
contextos históricos, do que apenas revolvendo suas dobras con-
ceituais. Em alguns momentos, o êxito de certas teorizações se
acha ligado à visão histórico-real das coisas, explícita ou implí-
cita: assim quando Locke, refutando Filmer, teve o cuidado de
~entações, pode ser distinguir entre o poder paterno e o poder político, parecia ter já
- cx:mo recinto funda- na cabeça a concepção racional-burguesa do espaço público, e a
te::::z>"a. Há porém que noção laico-moderna da especificidade da ação política.
se ligam ao âmbito Tais problemas se r eferem ao tema do ser social do homem.
ta .bém símbolos e O tema veio desde a frase famosa de Aristoteles sobre o "animal
político" e chegou à noção hegeliana de sociedade burguesa, de
onde Marx tiraria sua afirmação - aliás inteiramente válida -
segundo a qual o homem é um conjunto de relações sociais. Na
verdade o problema se encontra posto entre a tentação de regis-
trar as vari áveis históricas e a certeza de um núcleo invariável.
O que s ignifica que oscila entre as projeções metafísicas e o
material empírico.
-~ à "condição" do Entretanto, a propósito da condição "social" dos seres hu-
mundo (o sempre manos, cabe reconhecer que certos aspectos permanecem inde-
_:::..so dizer de seus cisos. Em El Hombre y la Gente, Ortega conseguiu, com sua
__ :!.!.3: da ligação dos maneira cheia de zigueza gues e iluminações, demonstrar quão
,___~: família ou clã,
vago permanece, inclusive nos compêndios, o conceito de "socie -
ou o que for. As dade". Preferiu ele fal ar de coisas mais concretas como nação,
- eorrespondem sem lei, estado, a falar de la gente, algo meio intr aduzível em portu-
época ou contexto, guês (como "people" em inglês ou como "Leute" em a lemão),
- uos evidente, mas embora possamos empregar a expressão em certos casos: a gente
:::.:.a rmagem depende diz, toda a gente sabe. Pois Ortega, como aliás ocorreu com
õ.os homens que Gabriel Mareei em Les Hommes contre l'humain, distingue entre
"'j)es muito genéricas: o homem e o humano, achando porém que o humano, em la gente,
e :a.!.s situações, t ais isto é, nas coletividades (algumas consagradas como nação,
- de imagens. classe, Volhsgeist), existe sem o homem. Pois o homem, para ele,
e:--:õrica tem que ver será sempre o possuidor d e uma alma, e de uma concretude vital
_-ro, e também com o definida. Por certo exagerava, mas nos leva a uma advertência
a;; instituições. Há
válida: não devemos aban d onar o problema, pois ele existe (as
":!co-social comple- sociologias r ealmente deformam certos conceitos), nem restrin-
. ::mal estável: foi o
gir o humano ao que está nesta ou naquela dimensão. O "huma-
no" está também nos entes coletivos, e com ele o "homem" - pois
Ortega exagerava -, posto que o homem cria esses entes; como
IH O JARDIM R A PUAÇA

está no indivíduo, cada indivíduo. Está no comício ena imprensa,


nas modas e nas vigências (esta aliás uma expressão orteguia-
na), bem como no homem que almoça em casa, n a mulher que
ouve rádio e no menino que apanhou resfriado.

Ficou dito, acima, que toda forma de vida é um processo de


equilíbrio. Pois será pertinente observar, na larga sucessão das
épocas históricas, uma sucessão de buscas de equilíbrio. Nas
crenças, que mesmo consagrando dominações combinam terras
e céus; nos ritos, nas estruturas, nas formas de enumerar e nas
de julgar, temos sempre o homem n ecessitando encontrar pontos
de apoio, pautas, coordenadas. Equihbrio e desequilíbrio são -
quase diria dialeticamente - componentes do viver humano,
momentos do seu ser: como, no romance famoso de Chesterton,
a esfera e a cruz.
Parece que começa a ficar fora de moda, salvo entr e espe-
cialistas, aludir à história antiga; mas pensemos por um pouco
na enorme .imaginação dos antigos (babilônios, persas, gregos),
dividindo a noite, m edindo o tempo, repartindo o orbe conhecido,
povoando os céus com cavalos e outros animais, e equilibrando
estas figuras todas em uma vasta herm enêutica simbológica.
Neste rico imaginário, que veio até nós dentro de diversos lega-
elos históricos, o equilíbrio das figuras ocorre a troco de deforma- fazem, ou._
ções que confirmam o modelo: desequilíbrios que integram e com indica -
animam o jogo maior. Com estas alusões podemos dizer então Deste modo
que o homem, medida das coisas em algum sentido, vem sendo
medido ora pela regra geral ora pelas exceções, ora por um ora
por outro dos componentes dos dualismos que o compõem; mas
ele deve ser medido pelo conjunLo do que tem inventado, e do que
tem sofrido. Tanto o jardim como a praça, tanto a vida interior estampas -
quanto os espaços externos são medida do humano. fixem os a à.
Aliás as dialéticas modernas têm também um sentido de
equ ilíbrio: a síntese é sempre uma medida, uma convergência, de escuro, r io ~u
onde se parte para outras negações mas como via para novas o seguin te: •..
convergências. Valorizar este aspecto, mesmo sem aderir intei- domin ante_
ramente ao hegelianismo (no qual cabe valorizar sobretudo a
noção de aufheben), será evitar as tendências maniqueístas pmsagem ..
la tentes em certas doutrinas, e impedir que conveniências par- figura s de
tidár io-ideológicas trunquem o processo em determinado pont o. lótus. Nos re.
·co e na imprensa, 16. FUNDO, PLANTA E PEDRA
~-...essão orteguia-
'=O:: na mulher que

é um processo de
~ga sucessão das
- c!.:- equilíbrio. Nas

~ =por um pouco
':: persas, gregos),
_ =~be conhecido, Pensar no "ser humano" não deve ser apenas pensar em sua
~. e equilibrando figura específica, mas também nos complementos e implementes
,.,_~ca simbológica. que, com o passar do tempo, se incorporaram a ela. Eles repre-
de diversos lega- sentam coisas que os homens, em grupo ou individualmente,
irOCO de deforma- fazem, ou coisas em que crêem: pensamos a figura do homem
~ que integram e com indicações referentes ao tempo, às paixões, ao trabalho.
;e::1os dizer então Deste modo pensamo-la com armas e vestes, barcos e casas.
..:a::.::do. vem sendo Pensamo-la sobre paisagens ou entre paredes, com ou sem árvo-
-~. ora por um ora
res, com ou sem instrumentos, inclusive estes instrumentos do
-"e o compõem; mas viver que são os "móveis" da casa .
..::c•en~ado, e do que Mas deixemos de lado por um momento os estereótipos das
-:o a Yida interior estampas - o intelectual com livros, o militar com a espada - , e
fixemos a alusão à paisagem, que aqui vai entendida em sentido
amplo, como o fundo sobre o qual se desenha a imagem: claro ou
escuro, rio ou mar, parede urbana ou bosque rural. Quero dizer
o seguinte: há em cada época uma correlação entre a concepção
dominante a respeito do homem (e do mundo) e a estética de sua
figura, que se representa em ligação com determinado tipo de
paisagem. No caso egípcio todos recordam a combinação entre as
ccn.,.-eniências par- figuras de perfil e as colunas hieráticas, com base em forma de
-=-~ado ponto. lótus. Nos r elevos assírios, a presença ele árvores perto dos heróis
116 OJ,\RDIM E A PRAÇ;\

(Gilgamesh por exemplo), nivelando a solidariedade da natureza Vago porér:.


à imponência do poder. Encontra mos plumas e estrelas na figura bém concluir ::::1
das divindades, tanto no caso de Marduk como no dos deuses te o curso de n
aztecas. Encontramos a terra na representação dos ritos de
fecundidade , e na Índia estátuas que Octávio Paz achou seme-
lhantes a árvores 1 • Na literatura latina diversos autores têm
estudado a variação dos "lugares" utilizados pelos poetas, desde
a paisagem épica e o locus horridus de certas tragédias ao locus
amoenus e à paisagem idílica da poesia bucólica2 •
Em Bizãncio o fundo dos quadros religiosos foi freqüente-
mente dourado, e este uso passou aos ícones russos . Os pintores
do Renascimento colocaram em certos quadros paisagens com-
p let as - embora nem sempre muito verossímeis - , em outros
apenas pedaços destinados a completar o espaço da tela: as
figuras, roliças e com vestes cheias de dobras, se encaixavam
organicamente sobre o fundo. No século XVIII, Watteau e Fra-
gon~ard inventaram arvoredos elegantes, coerentes com esbel- e o
tas mulher es e vagos pares perdidos n as margens dos quadros. combinação re-~
Mas o romantismo revigorou as figuras , com cores fortes: alguns fundamentais -.
pintores apelaram para o exótico (Delacroix por exemplo), colo- (ou o cimento ~
cando nos quadros leões e palmeiras. S eria a percepção da folhas que pree..
expansão do Ocidente- a França com suas colônias-, ou talvez ligível. D entro .....
a antevisão do pluralismo étnico e geográfico que viria com o As folhas con• ·
século XX. O impressionismo, que diluiu as paisagens no reti- espaços (e r es:.a
cente c no indeciso, fez o m esmo com as figuras. O art nouveau, nuídas como o-r::
enchendo as figuras femininas de flores c de ornatos (penso em tal como nas e.s-
Mucha), foi também uma arte de portões de ferro e de escadarias jardins, tal co=.
vertiginosas, sempre com curvas e exotismos: a idéia era conci-
liar a fantasia e o real, as grades das estações ferroviárias e os
florões d os terraços. E por aí segue. Mas, para fazer p r evalecer
o tom pessimista, vale aludir às figuras estáticas de De Chirico,
imóveis sobre espaços desolados: não seria difícil relacioná-las à
lonely crowd de Riesman ou às alusões de Chaplin à d esumani-
. "' zação do mundo industrial. Isto é sempre meio vago, porém
válido e inteligível.

1. Conjunções e Disjunçóes, São Paulo, Pers pectiva, l97!J.


2. Cf. por exemplo Hoss ana Mugcllcsi, l'aesaggi La tini, Plore nçn, Snnsoni, l!J75.
FUNDO, PLANTA E PEDRA 117

Vago porém válido, como forma de interpretar, seria tam -


bém concluir mencionando o esvaziamento da paisagem, duran-
te o curso de nosso século. Falei, em certa parte deste ensaio, do
desaparecimento dos "reinos" animal e vegetal das representa-
ções da coisa pública, após a implantação das repúblicas contem-
porâneas: pois o esvaziamento da paisagem, nas cidades
modernas ("florestas de cimento" etc.), será um correlato do
fenômeno. Vale interrogar se o mal estar do homem neste século
terá ou não relação com isto: o homem desenraizado de seus
fc: freqüente- velhos contactos com a madeira e com o couro, compelido a viajar
"' Js pintores em veículos feitos de matéria estranha e com vestes de plástico,
entre computadores e robôs. Em torno, a ideologia do êxito e o
- - em outros espírito de concorrência anestesiam as mentes, para que a an-
da tela: as gústia não se espalhe e as engrenagens não parem.

Penso entretanto em um trinômio milenar: a pedra, a folha


e o fundo - isto é, o céu remoto ou o espaço implícito. Esta
combinação reúne, sobre um fundo que não interfere, dois dados
fundam entais que são a cultura e a natureza. Ou seja, a pedra
(ou o cimento, a cal, o ângulo pintado), posta pelo homem, e as
folhas que preexistem: a combinação varia, mas é sempre inte-
ligível. Dentro da floresta, ou no vale encurvado, surge a cidade.
As folhas convivem com os muros, ou tentando refa zer seus
espaços (e restaurar a floresta primitiva), ou adaptadas e dimi-
nuídas como ornamento. Assim foi sempre o convívio nas praças,
tal como nas estradas - as grandes vias do passado -, ou nos
jardins, tal como nos canteiros e nos nichos votivos. As folhas
pr eexistem . A não ser no caso das ruínas, e daí o vago constran-
gimento que e las causam: as folhas vêm depois, como no soneto
L'oubli, de Heredia, que assim conclui
L1 !erre m~tcrnelle (...)
fail à chaquc priule111ps (.. .)
au c hapitenu brisC vcrdir une autrc acanthe.

A intimidade do homem com a folha e com a pe dra, isto é,


com as plantas e com os minerais, foi sempre a base da formação
de uma série de conhecimentos e de valores, em termos de
relacionamento com a natureza e consigo mesmo, inclusive ao
1975. ensejar a multiplicação de formas . As formas configuram símbo-
-- -· ....,...

118 Q,JJIRDlM E 11 PRAÇII

los e orientam a articulação do espírito com a vida e com a pendor metafísicc-


realidade. Orientam, isto é, explicitam e tornam inteligível. No toda cosmologia
convívio com vegetais e minerais os homens criaram a medicina daqueles que se ~
e inventara m as armas, vestiram-se e plantaram. Fizeram colu- uma visão essen=.
nas e tetos, mediram a terra, atribuíram sacralidade aos bos- empírica. Com :S.S
ques, levantaram altares, discutiram sobre os deuses, sobre a tivos, de que fal
vida e a morte, o tempo e o espaço, o poder e as guerras. recheada de binô
Fixemo-nos na imagem do beiral de telhado, junto ao qual
oscilam folhas coniventes: a obra humana se "acrescenta" ao
dado natural. Violenta-o, se abre clareiras e monta cidades;
dentro destas, entretanto, recolhe de novo a natureza, reduzida, p lexo, variável. e
em forma de jardim. Fixemo-nos também (de novo) na estrutura consciência filos:)..:
das representaçõs da figura humana e de sua sobreposição ao tivismo e à acei: -
complemento, t a l como aparece nas imagens antigas e nos retra- acabam revelanc
tos modernos (uso estes t ermos reportando-me ao texto de Spen- o pluralismo das -
gler, incluído na Decadência, sobre "o nu e o retrato"). O prctação do hom
complemento, fundo da imagem ou do retrato, se estende, como
espaço aberto (onde pode ocorrer o referimento à transcendên-
cia), ou se fecha, como recinto cerrado. A figura se acha solta corrente, e que ni
sobre o mundo ou ancorada em sua privacidade. Acha-se posta teoria hermenêu ·
contra uma série de casas ou sentada em uma poltrona: dimen- to), teria sido o es:
são pública ou dimensão privada. No Ocidente, depois do essor lidade de divers:.
das Universidades e da imagem do Doutor Fausto em seu entu-
lhado gabinete, começou a fixar-se a moda de se retratarem os
intelectuais contra um fundo de livros, de preferência arrumados
em respeitáveis estantes. co, que é histórico~
A figura humana vem sendo portanto representada em de alguns reducio
conexão com complementos plásticos que expressam sua relação não todos - às s.
com a imagem do mundo vigente em cada contexto. Isto inclui o
velho sábio oriental identificado com árvores e com rios, e tam-
bém o busto clássico correlato de colunas de pedra, o Fausto a u ma teorização
entre reto~tas e pergaminhos, o empertigado estadista do oito- magem do home~
centos, adepto da ordem, ou então o escritor de nossos dias que contradições fec
• oi( se faz retratar d escabelado e "informal".
Permanece todavia, implícita embora, a velha e inegligen-
ciável idéia do homem' como microcosmos, que esteve em tantas mento e a p er s
r eferências antigas e reapareceu em Pascal, reapareceu em
Lotze e em tantos mais. Ela permanece como um dado que requer as essências e as
sempre ver sões doutrinárias novas. E como o pensamento de autoridade podes
FUNDO, PLANTA E PEDRA 119

- a nda e com a pendor metafísico tende sempre aos dualismos, os dualismos que
~ in.t.eligível. No
_:a._.-am a m edicina
....::::.. Fizeram colu-
- toda cosmologia filosófica atribui ao "mundo" são correlatos
daqueles que se podem atribuir a o "homem" quer por conta de
uma visão essencialista quer à b ase de uma reflexão histórica e
.L.idade aos bos - empírica. Com isso reiteramos a a lusão aos dualismos constitu-
3 :!euses, sobre a tivos, de que falamos acima e que integram a imagem do homem,
-E .suerras.
recheada de binômios e atravessada de paradoxos .
~" ;unto ao qual O humano é certamente a lgo unitário, visto no tempo como
se '"acrescenta" ao constante e constatado dentro dos quadrant es do mundo através
e !ronta cidades; de uns tantos "denominador es comuns". E ntretant o ele é com-
- ::?.L~za, reduzida, plexo, variável e formado de ant agonismos. À medida que a
,.. ~o na estru t ura consciência filosófica se convence disso, ela deve tender ao rela-
sobreposição ao tivismo e à aceitação das diversidades, que diferem do uno mas
~- -gas e nos retra- acabam revelando-o: daí que seja perfeitam ente legítimo admitir
a: ~exto de Spen- o pluralismo das interpretações, podendo-se acolher cada inter-
e o retrato"). O pretação do homem (e de sua história) naquilo que enriquecer
Ee est.ende, como coerentemente a compreensão de seu ser. P arece -nos inclusive
- à transcendên · que uma das tarefas da filosofia, neste segundo t om o do século
::1ra se acha solta corrente, e que não foi entretanto cumprida (embora a chamada
· Acha -se posta teoria hermenêutica tenha fornecido alguns elementos para tan-
poh:rona: dimen- to), teria sido o esforço no sentido de ent ender a própria possibi-
depois do essor lidade de diversificação das interpretações como correlato da
,.... ~:o em s eu entu- diversificação real do humano, refratado entre suas finitudes e
3-e retratarem os fragmentado entre pendores opostos.
-~~cia arrumados A reconciliação do "homem moderno" com o homem genéri-
co, que é histórico sendo t rans-histórico, dependerá da superação
re~resentada em de alguns reducionismos, e da recondução de certos dualismos-
:res.5am sua relação não todos - às sínteses positivas que lhes correspondem. As
-.o. Isto inclui o sínteses não fundem: reúnem, mantendo distinções. A diferença
-e cem rios, e tam- en tre as fissuras destrutivas e as cont radições fecundas caberá
:;:-e pedra, o Fausto a uma teorização que não seja unilateral e que ilumine a autoi-
estadista do oito- magem do homem de modo ao mesmo tempo crítico e criador. As
-.: ::::.ossos dias que contradições fecundas são as que cabem dentro do ser do homem
como complementa ridades, e ao compreendê-las veremos que
1relha e inegligen· algumas dualidades se tocam e se completam, conforme o mo-
es:e\·e em tantas mento e a perspectiva : assim se tocam os começos e os fins, as
reapareceu em causas e os efeitos, as teses e as antíteses, o sagrado e o profano,
~dado que r equer as essências e as existên cias . A liberdade pode ser disciplina, a
pensamento de autoridade p ode ser o diálogo, o poder pode ser justiça; o público
120 O Ji\RDJM E A PRAÇA

e o privado se complementam. Deste modo é correto pretender


que no jardim exista algo de praça, e que a praça tenha algo de·
jardim.
\A
O Jardim e a Praça não é um estudo urbanístico como pode sugerir
seu título. Trata-se de um ensaio de antropologia filosófica sobre a
dimensão do público e do privado, em que o jardim e a praça
funcionam como as metáforas centrais, organizadoras do texto. O
autor, Nelson Saldanha, empreende uma viagem através do tempo
e da história, transitando com desenvoltura ora pela Antiguidade
ássica, ora pela Idade Média, ou ainda pelo mundo contemporâ·
neo. As referências sociológicas, lite.rárias 1 filosóficas e até mesmo
cinematográficas ajudam a conduzir o leitor por esta reflexão pouco
comum, cujo estilo fluido e envolvente é- ;nas palavras do próprio
autor - "por vezes disciplinado pelo tratamento histórico".

ISBN 85~31 4 ~ 0 1 63- 1

9 7 88531 4016 33