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Diego Rodrigo de Oliveira


Silvio Luiz da Costa

A morfologia urbana
do capital imobiliário
expansão dos loteamentos fechados em Taubaté-SP

Resumo O presente estudo analisa a lógica condicionante dos loteamentos


fechados no município de Taubaté. Nos últimos vinte anos, a lógica
do mercado imobiliário encontrou condições nesse local para sua
inserção no circuito de valorização e reprodução do capital, por meio
de empreendimentos comercialmente definidos como condomínios
fechados. As situações de violência urbana são apresentadas como
motivadoras para a expansão desses empreendimentos, porém não se
observa nesse período um aumento nos índices de violência na mesma
proporção. Sendo o espaço geográfico dialético e os espaços fechados
de habitação portadores de discursos ideológicos, os rebatimentos
espaciais oriundos desses enclaves impactam a vida urbana, sobretudo
a cidadania e o uso do espaço público, revelando a face antidemocrática
desse modelo privativo de habitação.

Capital imobiliário Loteamentos fechados Expansão Taubaté

Abstract The present study analyzes the conditioning logic of closed lots in the
municipality of Taubaté. In the last twenty years, the logic of the real
estate market has found conditions in this place for its insertion in
the circuit of valorization and reproduction of the capital, by means
of enterprises commercially defined as closed condominiums. The
situations of urban violence are presented as motivating factors for the
expansion of these enterprises, but in this period there has not been an
increase in violence rates in the same proportion. Being the dialectical
geographic space and the closed spaces of housing, bearing ideological
discourses, the spatial refutations from these enclaves impact the urban
life, especially the citizenship and the use of the public space, revealing
the antidemocratic face of this private housing model.

Real estate capital Closed lots Expansion Taubaté


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INTRODUÇÃO sobretudo nos últimos vintes anos? Será a violência


ou o medo da violência a causa da fuga para os en-
Taubaté protagonizou um boom na expansão de lo- claves fortificados? É possível explicar a expansão dos
teamentos fechados na virada de século e mais ainda loteamentos fechados por outros elementos se não a
nas décadas de 2000 e 2010. O crescimento dos es- violência urbana? Qual é o impacto dessas formas es-
paços fechados costuma ser apresentado como conse- paciais para a cidade como um todo? Em que medida
quência da violência urbana, no entanto, a dilatação essa lógica de expansão dos espaços fechados com-
desses empreendimentos encontra-se desproporcio- promete a construção de uma cidade mais democráti-
nal à variação das taxas de criminalidade desse perío- ca? Essas perguntas norteiam este estudo na busca de
do. Nesse sentido, observa-se a estratégia do mercado reflexões que, por sua vez, potencializem o entendi-
imobiliário de produzir um discurso, manipulando mento dos elementos que constituem a cidade.
em especial o medo, como forma de alavancar seus
negócios.
O exclusivismo em habitar entre iguais, o status, a A PRODUÇÃO DO ESPAÇO COMO
negação da cidade, as sensações e seduções de perten- LOTEAMENTOS FECHADOS
cimento a um produto imobiliário exitoso são alguns
dos elementos simbólicos e ideológicos que consti- A produção do espaço urbano de Taubaté subordina-
tuem e orientam esse fenômeno urbano, os quais são -se de modo consentido a um específico modelo de
analisados nesse estudo no contexto da produção ca- expansão urbana, também conhecido nas cidades
pitalista do espaço, uma vez que o capital imobiliário médias de Marília, Presidente Prudente e São Carlos
encontra na produção da paisagem urbana condições (SPOSITO, 2013), caracterizado pelo espraiamento
para o constante crescimento da mais-valia fundiária do tecido urbano em direção à periferia mediante a
e, por conseguinte, sua própria valorização e repro- produção de loteamentos fechados. Situado no eixo
dução. Rio-São Paulo, a aproximadamente 150 km da capi-
Seguindo Sposito (2007), essa mutação na produ- tal e com uma população em torno de 300 mil habi-
ção do espaço relaciona-se a uma inflexão no capita- tantes, no município de Taubaté também se observa
lismo internacional ocorrida na década de 1970 mar- esses novos habitats urbanos em emergência.
cada pela transição do modelo fordista de produção Para Sposito (2013, p.62), não se trata de um fe-
para o modelo flexível de produção. Isso significou em nômeno exclusivamente brasileiro, ainda que guarde
algumas cidades um processo de reestruturação urba- suas especificidades, mas sim de um processo urbano
na em função da nova divisão regional do trabalho, global que se realiza localmente. Nessa direção, Sou-
que, no estado de São Paulo, foi expressa, sobretudo, za (2008, p.70) afirma que “a proliferação das gated
pelo crescimento de cidades localizadas no interior. communities é um fenômeno internacional”, mesmo
Ainda nessa década, segundo Lefebvre (1999, p.143) que possuam nomes diferentes, “a essência parece ser
o capitalismo internacional sinaliza seu esgotamento a mesma, ainda que a complexidade que se alcançou
e encontra “um novo alento na conquista do espaço, no Brasil, sobretudo em São Paulo, seja bastante im-
em termos triviais, na especulação imobiliária, nas pressionante”.
grandes obras (dentro e fora das cidades), na compra Segundo a Secretaria de Planejamento Urbano de
e na venda do espaço. E isso à escala mundial”. Taubaté, o município possui 44 loteamentos fecha-
Nesse sentido, a reestruturação urbana experi- dos consolidados a partir da década de 1980. Esse
mentada nessas cidades resulta também na redefi- dado revela o adensamento de um específico modelo
nição da lógica centro-periferia, uma vez que nessas de produção do espaço urbano reflexo de uma espe-
periferias urbanas emergem novas subjetividades e cífica percepção de cidade. Nesse sentido, os enclaves
variabilidades de conteúdos sociais. O mercado imo- fortificados são configurações urbanas de uma fração
biliário, sensível às mudanças nas dinâmicas de estru- de classes de médio e alto poder aquisitivo que os
turação do espaço urbano, insere seus tentáculos no considera alternativa ao medo da violência, portan-
circuito de valorização e reprodução do grande capi- to não são exclusivamente reflexos da violência em
tal por meio da produção de espaços fechados, que si, mas de uma construção no imaginário social. O
não necessariamente responde às demandas urbanas, mapa 1 revela a espacialização dos loteamentos fecha-
e sim aos interesses privados sintonizados com o sis- dos sobre a área urbana de Taubaté.
tema financeiro (BOTELHO, 2007). O arranjo espacial dos loteamentos fechados em
No encontro com essas reflexões questiona-se: a Taubaté aponta sua condição quase restrita e exclu-
violência urbana em Taubaté, por si justifica o nú- sivamente periférica, apesar de alguns deles estarem
mero crescente de loteamentos fechados pela cidade, localizados em raio menor a partir do centro tradi-

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Fonte: Secretaria de Planejamento Urbano de Taubaté, 2017 artigos
Elaboração cartográfica pelos autores..

Mapa 1:
cional ou em função das recentes expansões urbanas Neste caso, os efeitos de lugar podem comprometer Loteamentos
fechados
do setor sul, sudeste e sudoeste (Leis Complementa- o desenvolvimento urbano de Taubaté. na área urbana
res 238/2011 e 20/2017) que deslocaram os lotea- Se os distritos limitam a expansão urbana para do município
mentos que ora localizavam-se no limite urbano para além deles (no setor oeste ainda ocorre a coexistência de Taubaté-SP.

uma posição intermediária, mas ainda contribuindo de loteamentos fechados, de loteamentos populares
para a composição de um semiarco periférico em tor- e de fábricas, diferentemente do setor leste, devido
no do centro tradicional. também ali se situar uma área militar), a região de
Importa ressaltar que Taubaté possui em seus várzea ao norte de Taubaté cria um obstáculo natural
extremos urbanos, leste e oeste, dois distritos in- para o crescimento da malha urbana nesta direção.
dustriais. Os conteúdos sociais desses extremos são Sendo assim, como já citados, os setores que com-
profundamente significados pelas práticas produtivas portam a expansão urbana estão no sudoeste, sul e
que ali se encontram, evidenciando, portanto, que a sudeste do município.
periferia desse município não se deu exclusivamente Taubaté está diante de uma fragilização do mode-
devido à formação de loteamentos populares (regu- lo de cidade compacta e, por outro lado, de recrudes-
lares ou irregulares) ou em função dos novos espaços cimento de uma urbanização dispersa, descontínua,
fechados. em função dos vazios urbanos, e cada vez mais frag-
Como observado por Costa (2005, p.147), os mentada. Ocorre uma desconcentração concentrada
condomínios industriais de Taubaté se instalaram na dos munícipes que decidem participar (ou não) da
década de 1990 ao lado de bairros precários, produ- vida urbana por meio dos loteamentos fechados. Ao
zindo contrastes em uma região semiperiférica. Para mesmo tempo, é patente a emergência de novas sub-
esse autor, são ilhas de excelência justapostas às áreas jetividades na periferia de Taubaté. No limite, é plau-
onde predominam a “violência, a marginalidade e sível afirmar a existência de várias periferias.
a ausência do poder público na garantia de direitos A expansão urbana e, por conseguinte, a produ-
essenciais”. Os loteamentos fechados também repre- ção capitalista do espaço são justificadas pela necessi-
sentam ilhas, ao passo que, na sua condição perifé- dade de oferecer abrigo aos grandes projetos de lote-
rica, são represados por áreas de alta vulnerabilidade amentos fechados. Em que pese a atuação da lógica
social. Portanto, destaca-se a periferia como lugar de do capital imobiliário nessa localidade, a expansão
tensões que se dão de modo discreto, calma e fria- territorial tem suas limitações. Isso significa dizer que
mente, entretanto ainda se desconhece o potencial é sobre os setores sudoeste, sul e sudeste que ainda há
das ilhas de exclusividade como perpetuadoras e re- relativo banco de terras disponível para a expansão
produtoras das desigualdades nessa localidade, uma configurada em espaços fechados de habitação.
vez observada a aproximação geométrica com dis- A lógica de produção e reprodução do capital
tanciamento social entre os diversos sujeitos sociais. imobiliário para além da necessidade de banco de

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Elaboração cartográfica pelos autores.


Fonte: Fundação SEADE, 2017.
Mapa 2:
Índice Paulista de terras supõe a contradição socioeconômica para se mento do mundo condicionado a partir das falas so-
Vulnerabilidade
Social no município
justificar enquanto estrutura. O mapa 2 mostra os lo- bre a violência. Assim, para essa autora, as narrativas
de Taubaté-SP. teamentos fechados de médio e alto poder aquisitivo que tangem ou represem o entendimento de violên-
localizados sobre áreas de alta vulnerabilidade social cia correspondem a processos de produção de práti-
em Taubaté, transformando desigualdade social em cas sociais.
valor de terra, ou melhor, em produtos imobiliários
exitosos. A repetição das histórias, no entanto, só serve para
Se a lógica de expansão dos loteamentos fechados reforçar as sensações de perigo, insegurança e per-
confunde-se com a lógica do capital imobiliário, é turbação das pessoas. Assim, a fala do crime ali-
por meio do uso político do medo que o capital imo- menta um círculo em que o medo é trabalhado e
biliário busca legitimar seu discurso e, consequen- reproduzido, e no qual a violência é a um só tempo
combatida e ampliada.
temente, aprofundar sua atuação sobre os rumos da
cidade.
Dessa forma, é perceptível, nas últimas décadas, a
existência permanente e generalizada do medo, mais
MEDO, VIOLÊNCIA E do que em qualquer outro período histórico. Contri-
PROPAGANDA DA VIOLÊNCIA bui na produção desse medo generalizado a prolife-
ração ideológica da violência vinculada aos grandes
O medo é um afeto indissociável da humanidade des- centros urbanos e não necessariamente na cidade real
de seu aparecimento e sua constante evolução. Como de Taubaté. A contaminação do discurso da violência
dissera Jean Paul Sartre, “todos os homens têm medo. de um território mais violento para outro menos dá-
Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a -se por meio da difusão de notícias sensacionalistas e
ver com a coragem”. Pode-se dizer que no Brasil, a apelativas, que aderem intensivamente à campanha
partir da década de 1970, o medo se intensifica en- de massificação da violência, geometricamente não
tre os componentes da paisagem urbana, em função pertencentes a todos os territórios, entretanto ga-
também do aparecimento de espaços habitacionais nham status de violência real e onipresente, e, por
fechados. Refletindo as proporções inéditas com que consequência, todos vivem em estado de alerta per-
o medo se dissemina e se reproduz no período atual manente e de iminente ameaça, desconsiderando-se
da globalização, Melgaço (2010, p. 105-106) chega as particularidades e condições de cada território.
a afirmar que “o medo passa a fazer parte do imagi- Desse modo, estar em qualquer lugar que não seja o
nário coletivo e isso altera o cotidiano das pessoas e a habitat do cotidiano é estar cercado de insegurança e
maneira como usam o território”. consequentes cuidados. O lugar diferente do meu é
Caldeira (2000, p.27) sugere a ideia de ordena- estranho e causa medo.

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Segundo Bittencourt (2009, p.2) se o sentimen- número crescente de espaços fechados e a variação das
to oriundo do medo é abstrato, sua repercussão na taxas de roubo, furto e homicídios neste município.
paisagem urbana é concreta, visível e palpável. Assim Para sustentar a fuga para os enclaves, os interesses
sendo, a abstração, ou psicoesfera do medo, é “uma privados exploram a cidade construída no imaginá-
justificativa para a instalação de uma tecnosfera de se- rio coletivo por meio da canalização e convergência
gurança. Essa tecnoesfera diz respeito a toda forma de de práticas violentas pertencentes a outras escalas ge-
materialidade técnica em torno do ideal de segurança ográficas. Os meios de comunicação são instrumen-
[...]” (MELGAÇO, 2010, p.106). tos poderosos que, ao apresentarem a violência como
Destarte, é possível reiterar que a psicoesfera do espetáculo, contribuem para a difusão do medo, que
medo procede como mola propulsora da modifica- é rapidamente capitaneado pelo mercado imobiliário
ção da paisagem urbana, podendo essa ser contem- na forma de loteamento fechado.
plada a partir da concepção de violência, já que, na
perspectiva dessa psicoesfera, a violência pode ser
assimilada como uma percepção esquizofrênica da A PRODUÇÃO DO ESPAÇO:
realidade, ou melhor, “isso faz com que a paisagem MERCADORIA E DISTINÇÃO
urbana seja transformada não somente por causa da
violência, mas também em razão do medo da violên- Modelos específicos de produção da paisagem urbana
cia” (Ibid, p.107). Desse modo, as narrativas constru- emergiram nas últimas décadas, mirando a realização
ídas com base no discurso do medo repercutem em do capital na esfera imobiliária, dado que, “um dos
formas de segregações, de distâncias, de proibições e indicadores dessas mudanças está no aumento das
de exclusões na cidade (CALDEIRA, 2000). iniciativas de incorporações imobiliárias muradas,
A violência urbana é tida como expressão concre- de acesso controlado e/ou vigiadas que estabelecem
ta de um arranjo de fatores e variáveis, que, por seu novas formas de segregação socioespacial”
lado, também estão intrinsecamente ligados à urba- (SPOSITO, 2007, s/p). Por isso, Botelho (2005)
nização excludente que marca a sociedade brasileira entende o espaço como meio de produção por se
desde meados do século XX estendendo-se até os dias tratar de condição para a geração de mais-valia, uma
atuais. A produção da paisagem urbana também é mercadoria que pode ser comercializada. Admitindo
condicionada pela violência, e, paradoxalmente, essa a premissa que estipula a privatização dos meios de
mesma paisagem pode ser produtora de violências. produção um dos pilares do capitalismo, o espaço
Parte da expressão dessa violência passa pelos índices caminha também para o seu processo de privatização
de criminalidade. Desse modo, segue os índices de na medida em que o capital se apropria dele como
criminalidade em Taubaté do ano de 1999 até 2015. produto a ser consumido. O espaço, para além
A análise dos gráficos aponta para uma relativa da reprodução da vida, reproduz o capital. No
estabilidade nas curvas de criminalidade em Tauba- caso do loteamento fechado, essa privatização do
té, com algumas variações pontuais. Esse fato leva a espaço atinge o espaço público das ruas e praças,
indicação da desproporcionalidade existente entre o infraestrutura construída com dinheiro público não

Gráfico 1: Loteamentos fechados na área urbana do município de Taubaté-SP.


Organizado pelos autores. Fonte: SSP - SP

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Gráfico 2: Furto por 100 mil habitantes em Taubaté (1999-2015)

Organizado pelos autores. Fonte: SSP - SP


Gráfico 3: Roubo por 100 mil habitantes em Taubaté (1999-2015)

Organizado pelos autores. Fonte: SSP - SP


mais acessível à coletividade. O conjunto desses elementos permite anunciar
Os loteamentos fechados são, por excelência, ni- que a lógica da acumulação capitalista a partir do
chos de mercado que buscam, por meio da mercanti- espaço privatizado assume considerável relevância
lização e hierarquização do espaço urbano, a valoriza- na expansão dos loteamentos fechados, dado que as
ção e acumulação do capital fixo. Carlos (2008, p.83) variáveis estão justapostas de tal modo que objetiva
esclarece que “a reprodução do espaço urbano recria, lograr a geração crescente de excedentes financeiros.
constantemente, as condições gerais a partir das Por outro lado, se não há uma proporção entre o au-
quais se realiza o processo de reprodução do capital”. mento no número de condomínios e os dados sobre
Sposito (2007), ao produzir uma série de pesquisas a violência urbana, o mesmo não se pode dizer das
em municípios médios do interior do estado de São representações dessa violência propagandeada e seus
Paulo, estipulou algumas particularidades relativas à poderosos efeitos na produção do medo.
implantação de loteamentos fechados, sendo elas: i) O capital espacializado em forma de loteamentos
disponibilidade de terras com os preços mais baixos, fechados ao ambicionar contentos financeiros para o
visto que na sua maioria são áreas rurais; ii) distâncias setor imobiliário não poderia fazê-lo por completo,
intraurbanas menores em função do porte médio da solitariamente. Carece de instrumentos outros que
cidade; iii) proximidade entre os sujeitos sociais que corroborem com a reprodução e crescimento do ca-
envolvem os contraditórios interesses que tangem a pital investido. A criação de um discurso hegemônico
produção desse tipo de paisagem urbana. fortemente ancorado em ideais padronizados como

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novos estilos de vida é permanentemente difundida biliária. É a partir da psicoesfera do medo, do status
por meio da publicidade e propaganda, que assu- e da exclusividade, ou seja, da produção de sentido
mem considerável vigor apelativo, ao passo que en- de uma específica fração de classe social, a saber, pro-
saiam em suas publicações o surgimento de paraísos prietária de um copioso capital econômico, portanto
munidos com fortes aparatos de segurança, serviços de poder simbólico, que a tecnoesfera da segurança
variados, lazer entre quatro muros, exclusividade e encontra substrato para a espacialização da lógica do
conservação da intimidade, expressos na forma de capital imobiliário no espaço urbano.
loteamentos fechados. Uma ilusão criada em torno “O consumo mais ou menos ostentatório do es-
de uma tão sonhada ilha de fantasias. “O objetivo paço é uma das formas por excelência de ostentação
das propagandas é seduzir. Os anúncios usam um re- de poder”, logo de status e de diferenciação social
pertório de imagens e valores que fala à sensibilidade (BOURDIEU, 1997, p.160). O consumo assume
e fantasia das pessoas, a fim de atingir seus desejos” quase que uma centralidade no âmbito do mecanis-
(CALDEIRA, 2000, p. 265). mo de distinção social, pois
Segundo essas propagandas, um novo conceito
de moradia surge por meio dos loteamentos fecha- A tarefa dos consumidores, e o principal moti-
dos, articulando cinco elementos básicos: segurança, vo que os estimula a se engajar numa incessante
isolamento, homogeneidade social, equipamentos atividade de consumo, é sair dessa invisibilidade
e serviços. Dessa maneira, esses espaços assumem e imaterialidade cinza e monótona, destacando-se
status de mundos separados, superior ao da cidade. da massa de objetos indistinguíveis “que flutuam
Os “anúncios apresentam a imagem de ilhas às quais com igual gravidade específica” e assim captar o
olhar dos consumidores (BAUMAN, 2008, p.21).
se podem retornar ao fim do dia para encontrar um
mundo exclusivo de prazer entre pares, onde a ‘con-
vivência sem inconveniência’ seria possível” (Ibid., A colonização do imaginário que tende a orientar
1997, p. 160). para o consumo de espaços exclusivos repercute vio-
Como resposta à lógica de acumulação capitalis- lentamente na criação de mecanismos de distinção
ta, o agente modulador da expansão urbana via lo- social, que encaram o território como recurso, logo
teamentos fechados é o próprio capital imobiliário, canalizam as inteligências para o processo de repro-
que se apropria do discurso ideológico e do ideal de dução desse modelo de produção da paisagem. Nesse
um específico segmento da sociedade, que busca nos sentido, é patente o sequestro da alienação dessa fra-
enclaves fortificados um mecanismo que seja capaz ção de classe social em relação à produção do espaço,
de produzir distinção, exclusividade e status. Portan- ou melhor, é no capital imobiliário que se encontra a
to, a expansão desses espaços é alimentada por uma centralidade da lógica de expansão dos loteamentos
condição de caos permanente e de uma perene desi- fechados, que compreende a psicoesfera da camada
gualdade socioeconômica, dado que essa lógica, além de médio e alto poder aquisitivo e em seguida a coop-
de usufruir do uso político do medo da violência, ta. Essa é a própria natureza de ser e agir dos agentes
coopta e canaliza o estilo de vida de um segmento moduladores dessas formas espaciais. E se, do ponto
médio e alto da sociedade para a produção de espaços de vista específico do loteamento fechado, pode ser
privativos e excludentes, longe do ideal de um espaço ele tomado como um empreendimento de sucesso,
para todos, autenticamente democratizado. da perspectiva da vida urbana é um instrumento de
Os enclaves urbanos habitacionais são expressões fabricação de avarias e fragilidades na sociabilidade
espaciais da lógica de atuação do mercado imobiliá- e nos afetos que sustentam o modo urbano de ser,
rio que agem por meio dos agentes moduladores que sentir, ocupar e pensar o espaço.
representam seus interesses, a saber, a própria esfera
imobiliária e o poder público, sendo a primeira o
grande cimento, uma vez que captura as sensações, O DECLÍNIO DO ESPAÇO PÚBLICO
emoções, símbolos, formas de distinções e buscas in-
cansáveis por status de um segmento específico da Não é possível pensar o loteamento fechado somen-
sociedade e as convergem em ilhas de fantasias, ou te entre os quatro muros que o represa, dado que
melhor, em um particular modelo de produção do se comporta como um considerável exportador de
espaço urbano. Essa forma de apropriação do espaço problemas para a cidade, muitos deles com origem
é encarada por essa pesquisa como parte do circuito no próprio enclave. Na vida urbana comum é que
de valorização e reprodução do grande capital, que, são sentidos os efeitos desse lugar, portanto, existe
por conseguinte, não atende às reais demandas urba- certo grau de ganho para aqueles que consomem os
nas, mas responde aos interesses da especulação imo- novos habitats urbanos, todavia, o prejuízo de maior

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intensidade é socializado entre aqueles que não com- da cidadania. O fenômeno urbano dos enclaves for-
partilham dessa estrutura. tificados no “longo prazo colabora para deteriorar
Ao referir-se aos elementos básicos da experiên- a qualidade de vida, a civilidade e as condições de
cia moderna de vida pública urbana, Caldeira (2000, exercício da própria cidadania na cidade, sob deter-
p.302) apresenta as dinâmicas que constituem os minados aspectos” (SOUZA, 2008, p.73). A cidada-
princípios básicos desse novo ideal de espaço público: nia passa obrigatoriamente pela postura ativa frente
i) a primazia e a abertura de ruas; ii) livre circulação àqueles que detêm a oferta de serviços públicos, logo
e, subsequentemente, os encontros impessoais e anô- o Estado.
nimos de pedestres; iii) uso público e espontâneo de Quando é evidenciado o processo inverso, a “so-
ruas e praças; iv) mistura de diferentes grupos sociais. lução individualista e escapista exemplifica a sabedo-
Nessa acepção, verifica-se relativo rompimento ria que reza a maximização de benefícios individuais,
das premissas do ideal moderno de espaço público agregados, não representa, necessariamente, maximi-
que dão fôlego e base para o exercício da liberdade zação de benefícios coletivos” (Ibid., p.78). Àqueles
na cidade. desprivilegiados que se encontram exclusos dessa
ilha de serenidade resta conviverem com os agravan-
Nos enclaves, o objetivo é segregar e mudar o ca- tes típicos da vida urbana acrescidos dos agravantes
ráter da vida pública, transferindo atividades antes produzidos pelo próprio loteamento fechado, dado
realizadas em espaços públicos heterogêneos para que essa forma espacial não é neutra, como muitos
espaços privados que foram construídos como am- fazem acreditar, mas, pelo contrário, são fábricas que
bientes socialmente homogêneos, e destruindo o produzem mais insegurança, além de outros tipos de
potencial das ruas de fornecer espaços para intera- violências, como a intolerância, o preconceito e o dis-
ções anônimas e tolerantes (Ibid., p.313).
tanciamento do outro, corroborando para “dissolver
a imagem da cidade como uma entidade geográfica
Mergulhadas na expansão do consumo de massa e que, apesar da pobreza e da segregação, poderia ser
no processo de redemocratização do país, as questões apresentada sem maiores problemas como uma ‘uni-
de distinção pertencentes ao segmento médio e alto dade de diversidade’” (SOUZA, 2008, p.72).
da sociedade se tornam mais complexas. Esse seg- Vale ressaltar que o loteamento fechado é con-
mento realiza quase que um movimento de merca- traditório. Recebe intencionalidades e oferta de in-
do para encontrar novos espaços para consolidar-se, tencionalidades, um paradoxo. É possível pensar de
dado que não encontra mais substrato para se afirmar modo concreto nessa contradição naquilo que se rela-
em espaços públicos, uma vez que já estão reconfigu- ciona à segurança, ou melhor, à sensação de seguran-
rados pela expansão do consumo e pelo processo de ça. Sendo esse espaço fechado, a tecnosfera resultante
redemocratização, outorgando voz àqueles até então da psicoesfera pautada em uma percepção de cidade
marginalizados, garantindo a esses alguma forma de violenta, ele próprio torna-se produtor de mais vio-
status e retirando, em certa medida, os privilégios e o lência: intolerância, preconceito e negação ou anula-
monopólio da cidadania daqueles que, historicamen- ção do outro, repercutindo desse modo na negação
te, são detentores da palavra, do dinheiro e do poder. do uso de espaços públicos.
A socialização parcial de alguns símbolos de exclusi- Esse descompromisso com a cidade se acentua
vidade em espaços públicos anula a caracterização da quando o condômino utiliza pouco os serviços públi-
distinção social até então existente, pois as condições cos como saúde, educação e mantém relação precá-
de diferenciação estão rompidas ou enfraquecidas. ria com o bairro, praças, igrejas, feiras, tendo super-
Para a reversão do empoderamento desses grupos so- mercados, hipermercados e shoppings como espaços
ciais desfavorecidos é preciso criar novos arranjos no privilegiados de compra e também de lazer. Essa se-
espaço, que por seu turno ofereçam uma nova roupa- gregação e pouca dependência dos serviços públicos
gem à distinção social. É por meio dos loteamentos fazem com que esse cidadão de condição privilegiada
fechados que isso também se efetuará, pois, além de de acesso a informação, locomoção e capital de influ-
eles serem a própria distinção, é possível por meio ência participe pouco dos processos de luta pela me-
deles bloquear qualquer conexão com o outro. “Si- lhoria das políticas públicas que poderiam beneficiar
nais de distância social são substituídos por muros de o conjunto da população.
concreto” (Ibid., p.325). A negação da cidade passa a A prática espacial da autossegregação pode re-
ganhar volume e conteúdo. sultar na nutrição e ampliação de preconceitos, da
Observa-se que por um lado as classes média e intolerância e do medo do outro, dado que a com-
alta buscam sistematicamente amparo e proteção em preensão de mundo daqueles que logram habitar em
soluções escapistas, por outro, é inevitável o declínio espaços fechados é influenciada pelo próprio meio

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que habita. Desse modo, viver entre iguais como cartilha do capital imobiliário, que sequestra para si a
símbolo de status e distinção social pouco contribui demanda por proteção do medo, por status e por dis-
para o exercício da cidadania, para o fortalecimento tinção social, ambicionadas por uma fração de classe,
da democracia e, sobretudo, para o desenvolvimento ávida por conservar as gritantes e diversas formas de
humano. desigualdade em Taubaté.
O loteamento fechado, desde sua concepção, Não obstante não lograr benefício para a vida
é pensado para segregar, conforme indica Melgaço urbana na sua totalidade, os enclaves fortificados
(2012, p.103) e Caldeira (2000, p.313). Nesse cená- impactam negativamente a cidade, por meio do de-
rio de segregação, como é possível pensar nos mes- clínio da cidadania, da democracia, dos obstáculos à
mos direitos para grupos sociais distintos? Como é mobilidade e do aumento da intolerância e do pre-
possível fazê-los acontecer em espaços fragmentados? conceito. No enclave também não é encontrada a
Para onde vai a cidadania? São perguntas que podem solução para a violência, mas, pelo contrário, é por
mover as inteligências para melhor compreender esse meio dele que outras formas de violência simbólica
fenômeno urbano e seus impactos no espaço. se difundem.
Conclui-se que a expansão desenfreada e despro-
vida de contrapartida dos loteamentos fechados na
CONSIDERAÇÕES FINAIS periferia urbana precisa ser repensada e, no limite,
combatida. Ao Plano Diretor cabe normatizar e li-
Sobretudo nas duas últimas décadas, a produção e mitar os rebatimentos espaciais negativos provoca-
apropriação do espaço urbano de Taubaté tornaram- dos por esses espaços fechados, além de criar me-
-se escopo privilegiado para atuação de grandes em- canismos que, ainda com a presença dessas formas
presas imobiliárias e incorporadoras, reafirmando de habitação, encolham os impactos degradantes na
a patente continuação de aproximação entre um paisagem urbana. Criar instrumentos que possam
específico modelo de produção do espaço, esse res- capturar parte da mais-valia fundiária proveniente
pondendo aos interesses privados, com a paisagem desses produtos imobiliários e direcionar para regiões
urbana. Mudam-se as roupagens, todavia permanece com precários equipamentos urbanos poderia ser um
a lógica, uma modernização conservadora sobre o mecanismo recompensador dos agravantes oriundos
destino da cidade. dessa autoritária e segregadora forma geográfica. É
A engenharia por trás da lógica do loteamento fe- urgente pensar em formas espaciais que condicionem
chado revela seu caráter falho ao não corroborar para os encontros, as solidariedades geográficas, o renasci-
tocar os desafiantes problemas urbanos presentes em mento do espaço público, e, sobretudo, a superação
cidades médias e grandes, inclusive no município de identidades de classes, e que encontrem na huma-
de Taubaté. Sendo assim, os loteamentos fechados nidade o verdadeiro sentido do estar no mundo.
enquadram-se nas falsas soluções e em muitos casos
para falsos problemas. O discurso feito pelo capital
imobiliário via marketing sob a égide da mídia pode REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ser encarado como um golpe retórico, dado que, em
municípios como Taubaté, há um descompasso en- BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a trans-
tre a cidade representada pelo capital imobiliário e formação das pessoas em mercadoria. Rio de Ja-
a cidade real que acontece todos os dias. Os dados neiro: Zahar, 2008.
apresentados mostram uma desproporcionalidade BITTENCOURT, Renato Nunes. “O medo na era
entre o crescimento dos condomínios e a evolução da liquidez”. Ciência e Vida Filosofia. Ano III,
dos índices de violência no município. nº36, p. 19-27, 2009.
A desconstrução da narrativa consolidada a partir BOTELHO, Adriano. O financeiro e a financei-
da construção de um imaginário pautado na ideia rização do setor imobiliário: uma análise da
de Taubaté como território do crime e consequente- produção do espaço e da segregação socioespa-
mente a solução na fuga para os enclaves fortificados cial através do estudo do mercado de moradia na
é um dos sentidos deste estudo. Desse ponto de vista, cidade de São Paulo. Tese (Doutorado em Geo-
é possível constatar no capital imobiliário a lógica do grafia Humana) - Faculdade de Filosofia, Letras e
loteamento fechado que se estrutura e se reproduz, Ciências Humanas da Universidade de São Pau-
dado que as evidências reveladas aqui apontam para lo, São Paulo, 2005.
um descompasso entre o número crescente de lote- _____. “A cidade como negócio: produção do
amentos fechados e o crescimento da violência em espaço e acumulação do capital no municí-
Taubaté. Logo, observa-se que essa lógica responde à pio de São Paulo”. Cadernos Metrópoles 18,

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artigos

p.15-38, 2007. (Doutorado em Geografia Humana) - Faculdade


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Diego Rodrigo de Oliveira é graduado em Silvio Luiz da Costa é professor do Instituto de


Geografia pela UNITAU. Pós-graduando em Humanidades da UNITAU. Mestre em Ciências
Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC-SP.​ Sociais – PUC/SP. Doutor em Sociologia da
Educação - FEUSP.

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