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09/01/2019 Bolsonaro retira Brasil de Pacto de Migração e ONU teme reviravolta - Internacional - Estadão

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Bolsonaro retira Brasil de Pacto de


Migração e ONU teme reviravolta
Na entidade, a rapidez com que a decisão foi tomada foi interpretada como um sinal de que o novo
governo irá promover uma reviravolta em sua relação com as Nações Unidas

Jamil Chade, Correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo


08 Janeiro 2019 | 17h05

GENEBRA - O governo brasileiro informou nesta terça-feira,8, oficialmente à ONU em Nova Iorque e
em Genebra que o País está se retirando do Pacto Mundial de Migração, assinado em dezembro ainda
pelo governo de Michel Temer. Na entidade, a rapidez pela qual a decisão foi tomada foi interpretada
como um sinal de que o novo governo irá promover uma reviravolta em sua relação com as Nações
Unidas.

Diplomatas brasileiros confirmaram ao Estado que a ONU já foi notificada da decisão do governo de
Jair Bolsonaro de se retirar do acordo. A notícia foi recebida nas Nações Unidas com muita
preocupação, diante do que o gesto poderia significar em termos da posição do Brasil em assuntos como
migração, cooperação internacional e mesmo direitos humanos.

Negociando por quase dois anos, o Pacto era uma resposta internacional à crise que havia atingido
diversos países por conta de um fluxo sem precedentes de migrantes e refugiados. O texto do acordo,
porém, não suspendia a soberania de qualquer país e nem exigia o recebimento de um certo volume de
estrangeiros.

O primeiro anúncio do afastamento do novo governo foi feito ainda em dezembro pelo Twitter pelo
chanceler Ernesto Araújo, no mesmo dia em que o Itamaraty aprovava o acordo, em uma reunião da
ONU no Marrocos. “A imigração não deve ser tratada como questão global, mas sim de acordo com a
realidade e a soberania de cada país”, disse Araujo, chamando o marco de “ferramenta inadequada para
lidar com o problema”.

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“O Brasil buscará um marco regulatório compatível com a realidade nacional e com o bem-estar de
brasileiros e estrangeiros. No caso dos venezuelanos que fogem do regime Maduro, continuaremos a
acolhê-los”, afirmou. O pacto foi aprovado por mais de 160 países na a conferência intergovernamental
da ONU, em Marraquexe.

Naquele momento, a ONU comentou a intenção brasileira. “É sempre lamentável quando um estado se
dissocia de um processo multilateral”, declarou Joel Millman, porta-voz da Organização Internacional
de Migrações.

Agora, a preocupação é ainda maior diante da velocidade da decisão tomada. Num comunicado nesta
terça-feira, a ONU lamentou a decisão do Brasil. “É sempre lamentável quando um país se desengaja do
processo multilateral, em especial de um que respeita tanto as especificidades nacionais”, comentou a
entidade.

Nos bastidores, porém, a alta direção da ONU recebeu com “profunda apreensão” a decisão de
Bolsonaro. Surpreendeu a rapidez pela qual o novo governo agiu, apenas oito dias depois de tomar
posse. Para negociadores, essa velocidade na tomada de decisão deixa claro que o governo quer mandar
um recado de que está disposto a rever de forma profunda sua relação com a instituição.

Também preocupa a ONU a possibilidade de que o gesto desta terça-feira seja apenas o início de uma
série de medidas tomadas pelo Brasil para se afastar de acordos multilaterais, processos de
coordenação e mesmo pactos já consolidados até mesmo nas leis nacionais.

Uma das dúvidas levantadas por diplomatas é a permanência do Brasil em orgãos como o Conselho de
Direitos Humanos, comitês contra a Tortura, além da nomeação de especialistas brasileiros em
entidades de cunho social, indígena, de direitos das mulheres e tantos outros orgãos
especializados. Ainda no ano passado, o governo Bolsonaro desistiu de sediar a reunião sobre o Clima
da ONU, em 2019.

Para a ONU, a redução do papel do Brasil na entidade pode ter um impacto grande, aprofundando a
crise de credibilidade que a instituição enfrenta e a necessidade de contar com grandes países
emergentes como pilar de suas atividades. “A mensagem que o Brasil manda é que, aos países em
desenvolvimento, a ONU pode não ser tão relevante no futuro e isso é de uma enorme gravidade”,
comentou um experiente embaixador, na condição de anonimato.

No comunicado oficial, a ONU lembrou que o texto do pacto foi adotado pela “grande maioria dos
estados, inclusive o Brasil”. Naquele momento, em dezembro, 164 países assinaram o texto. Logo
depois, ele foi endossado pela Assembleia Geral da ONU por consenso.

A entidade também insiste que o texto jamais foi vinculante e que caberia aos estados partes
implementar da forma mais adequada a cooperação internacional. A ONU também insiste que o texto
apenas foi concluído depois de 18 meses de negociações e ampla participação da sociedade civil. 
Para
entidades, porém, a decisão do Brasil em se afastar do mecanismo terá um impacto para emigrantes
nacionais espalhados pelo mundo. “Hoje há muito mais brasileiros vivendo no exterior do que
migrantes aqui no Brasil”, alertou Camila Asano, coordenadora de programas da ONG Conectas.

“São compatriotas que muitas vezes passam por dificuldades seja na Europa, EUA, Japão ou outras
partes do mundo. O Pacto Global de Migração consolida e reforça direitos das pessoas, inclusive os mais
de 3 milhões de brasileiros vivendo fora, de não serem discriminadas por serem migrantes”, completou
Camila Asano.

Paal Nesse, do Conselho Norueguês de Refugiados, também lamenta a decisão de governos de deixar o
esforço e indicou que não existem indicações de que o Pacto mine a soberania de um país. “O Pacto
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prevê um espaço suficiente para que cada governo possa ter sua política”, indicou o representante de
uma das maiores entidades que lidam com refugiados e migrantes. “Não há nada que indique a
soberania seria abandonada ou perdida”, insistiu.

Para ele, a decisão de governos de se distanciar do Pacto “enfraquece o momento politico e mina os
esforços internacionais para ter a migração organizada de forma mais ordenada”. Como exemplo, ele
cita os termos do Pacto que incentivam a cooperação regional. “Vimos na América do Sul, com a crise
na Venezuela, como tal medida é necessária”, indicou.

Ele ainda lembra que, no caso brasileiro, o interesse em fazer parte do Pacto seria a defesa dos
interesses de seus próprios migrantes, espalhados pelo mundo. “O Brasil é um exemplo de um país que
recebe migrantes. Mas que é também fonte de emigração”, comentou. “Cada governo quer que o seu
cidadão seja tratado sem discriminação no exterior e isso exige cooperação”, completou.

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