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Usos e abusos do conceito de arte dentro do campo da produção de vestuário

Heloisa Helena de Oliveira Santos, PUC-Rio, RJ

Resumo

O objetivo deste artigo é compreender como atores e instituições têm trabalhado para
relacionar arte e moda com o fim de aproximar esta última do primeiro.

Palavras-chave: Moda, Arte; Institucionalização

Introdução

muitos dos profissionais que participam desta atividade abordam a Moda não como um dos
ramos da indústria, mas como o desenvolvimento de objetos artísticos. Assim, é bastante
comum que as atividades de alguns dos designers de moda sejam comparadas à produção de
objetos de arte, de maneira que suas criações são percebidas como únicas e inovadoras, sendo
exaltadas as qualidades do estilista como um criador com características especiais e
incomparáveis.

Conhecendo esta ambiguidade classificatória, o objetivo deste artigo é discutir como alguns
atores e instituições têm trabalhado para relacionar arte e moda com o fim de aproximar esta
última da primeira, de modo que possamos compreender que tipos de interesses podem estar
envolvidos na comparação entre moda e arte. Estas aproximações serão analisadas por meio
de três casos que estarão divididos em três seções: uma primeira, introdutória, em que a
Moda e a Arte são relacionadas em .... Em seguida, discutiremos esta aproximação na
concepção de um dos designers de moda dominantes no campo (Bourdieu, 2009)...., em
seguida, abordaremos brevemente a ...

Uma das hipóteses desta análise é a de que a associação entre arte e moda permite que a
segunda perca sua inevitável face mercadológica – afinal de contas, uma nova coleção precisa
ser lançada a cada seis meses –, num esforço que, como consequência, afastaria a moda da
atividade mais tecnicista do designer, profissional que desenvolve produtos para responder às
necessidades do mercado. Permitiria ainda que a moda se reafirmasse por meio de sua face
mais “romântica”, especialmente no que se refere à “liberdade” da criação, ainda que esta
relação seja ela mesma falaciosa (Wolff, 1987). Uma segunda hipótese ...

“artealização” da Moda

Duarte (2010) apresenta cinco movimentos que podem caracterizar a relação entre a Arte e a
Moda que se estabelece em nossa sociedade. Ele afirma que os trânsitos se estruturam em: 1)
quando a arte é empregada pela moda; 2) quando a moda é empregada pela arte; 3) quando a
moda é tomada enquanto arte; 4) quando a moda tem valor artístico e, por fim, 5) quando a
moda, como a arte, se coloca em questão. Nestes trânsitos, observamos que a moda pode ser
empregada pela prática artística através da forma do objeto de vestuário. Este é o caso de
Kusuma, já que é ela quem decide levar sua inspiração para o vestuário e é ela quem é
convidada para produzir roupas. No entanto, verificamos que todos os outros trânsitos
sugeridos pelo autor sinalizam um movimento em que a moda se aproxima da arte, isto é que
entre as práticas artísticas e aquelas da moda, a maioria dos trabalhos realizados na Moda é,
quase sempre, contaminada pela arte e não o oposto.

Assim, o que se revela é uma imersão da Moda dentro da Arte, de forma que a primeira
aparece sempre como um resultado da segunda. A Arte fornece um respaldo às coleções de
moda que bebem nela para se renovar, pois ainda que se fale em casamento, esta união tem
como fundamento uma invasão por uma das partes. Ademais, os objetos do vestuário não são
nunca percebidos como objetos de arte, mas parecem ganhar destaque e reconhecimento por
causa desta relação, ou seja, institucionalizam-se, de acordo com os conceitos de Mainwaring
e Torcal (2005). Duarte (2010) demonstra através de exemplos de produção de alguns
estilistas2 como a moda se institucionaliza através do valor que o emprego de referências
artísticas fornece às produções do vestuário. Também cita alguns outros exemplos de como os
objetos da moda são tomados como arte e, portanto, atribuídos de valor artísticos. Porém, é
necessário esclarecer que, embora possamos identificar estes diferentes trânsitos acerca da
relação entre Arte e Moda, no movimento da primeira para a segunda, geralmente, há a fusão
das diferentes características apresentadas: o emprego de referências artísticas que culmina
na tomada do objeto de moda como arte e na sua valorização dentro do próprio mundo da
moda.

2 Aqui se emprega estilista como sinônimo à expressão “designer de moda”, uma vez que a primeira palavra é mais
usual no mundo da moda para caracterizar os produtores. 6

Uma parte deste movimento é perceptível nas atividades de racionalização que acabamos de
demonstrar nas matérias da Revista Vogue. No entanto, na prática de produção, isto é, dos
criadores, podemos verificar como a Arte é empregada pela Moda e como isto faz com que a
prática de produção de objetos do vestuário seja compreendida como uma prática artística. A
fim de melhor compreender esta passagem, analisaremos, na próxima seção, as noções
apresentadas por Ronaldo Fraga, um dos produtores dominantes dentro do Campo da Moda.

Considerações Finais

A partir das considerações feitas no artigo, podemos perceber que as relações estabelecidas
entre a Moda e a Arte podem envolver interesses diversos que participam, de variadas formas,
para um processo de institucionalização da Moda em nosso país.

Referências Bibliográficas
ANDRADE, Pedro Duarte de. Arte e moda. Rio de Janeiro : SENAI/CETIQT, 2010.