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GRAMSCI C.Nelson 13.01.2003

(O professor passa à turma um texto intitulado O CONCEITO DE POLÍTICA NOS


CADERNOS DO CÁRCERE informado que ele vai constar do livro coletivo do
SEMINÁRIO de 91, explicando que na verdade inclui uma parte muito parecida com
o seu livro sobre o G mas que há adendos).

Como dissemos a Política tem um posto absolutamente central na obra de G.


Não se pode entender os Cadernos do Cárcere, e nem mesmo os trabalhos da
juventude, sem imaginar que a grande preocupação de G é sem dúvida uma reflexão
sobre a política. Não é que G seja um politólogo ...Marx não era um economista nem
G um politicista. Mas o foco, o ponto central da reflexão dos Cadernos é a reflexão
sobre a práxis política.

Questão: o que o conceito de POLÍTICA em G ? Entender como um marxista


dá destaque na sua reflexão a fenômeno em princípio superestrutural.
Não é que G subordine a economia à política. G dá uma maior autonomia à política
do que a maioria dos marxistas. Mas o faz claramente no quadro de um
relacionamento da Política com a totalidade social e reconhecendo evidentemente
que a esfera das relações sociais de produção ... é o momento determinante, ou
predominante, da totalidade social.
Uma coisa curiosa que demanda uma certa investigação preliminar é o fato de que
G, que eu me lembre , que fala positivamente de Ciência da Política. Ele é muito
duro com a Sociologia, seja com a sociologia clássica italiana, seja com a sociologia
que ele vê na obra de Boukharin, o marxista soviético que escreveu o TRATADO
DE MATERIALISMO HISTÓRICO ... No Caderno 11 ele critica duramente
Boukharin por ter reduzido o marxismo a uma sociologia. Ele vê a sociologia como
L também vê , como alguma coisa formalista que esvazia a reflexão sobre o social da
sua dimensão histórica, sobretudo, e também da sua dimensão conflitiva e da
importância que tem a economia na explicação da totalidade social. Tanto L como
parcialmente G tem uma atitude eu diria cética em relação às chamadas ciências
particulares.
Voltando um pouco atrás é interessante observar o seguinte: a partir de um certo
momento a reflexão sobre o social estilhaçou-se (a palavra é um pouco forte mas ...)
em inúmeros saberes particulares. Vamos separar assim de Hegel para trás, incluindo
aí Platão, Aristóteles, etc. O que eram eles ? Platão era um filósofo, mas um filósofo
pensava sobre tudo, sobre a lógica, sobre o início da sociedade, não se furtava de
falar de economia ... Aristóteles tem um livro chamado ECONOMIA, ... enfim , na
sua reflexão política ele fala permanentemente de economia . Então é um ... de dois
mil anos. Machiavel era o que ? Era um politólogo ? Machiavel concentrou a sua
reflexão mais sobre a Política, mas certamente está lá a sua preocupação com o
econômico. E por aí vai ... Montesquieu o que é ? É um sociólogo, um politólogo ?
Ou seja, é a partir do que L chamaria decadência do pensamento burguês, a partir do
momento em que o proletariado surgiu na história como um sujeito autônomo
revelando que a burguesia não é uma classe particular, se cia esse processo de
ocultamento das contradições que leva à formação das ciências sociais particulares.
Eu não seria assim tão radical quanto L que trata elas praticamente como ideologia e
nada mais, ideologia no sentido epistemológico da palavra, como falsa consciência,
eu acho que há evidentemente reflexões feitas por esses autores que podem ser
utilizadas num tratamento marxista das mesmas.
Evidentemente por exemplo Marx parte das categorias econômicas elaboradas por
Ricardo, sobretudo por ele, mas dá a essas categorias um tratamento historicista e
totalizante que caracteriza precisamente o ponto de vista da totalidade que marca o
pensamento social marxista. Mas isso não quer dizer que tudo aquilo que Ricardo e
Smith disseram é de se jogar fora. Pelo contrário. Estamos observando que as
categorias centrais do CAPITAL, ainda que corrigidas, são as categorias centrais
tanto da PESQUISA SOBRE A NATUREZA E AS CAUSAS DA RIQUEZA DAS
NAÇÕES, de Smith, quanto dos PRINCÍPIOS DA ECONOMIA POLÍTICA de
Ricardo. É “mercadoria”, “valor” , “queda tendencial da taxa de lucro “ (isto está
em Ricardo), “renda da terra”.
Mas parte destas categorias, corrige-as em função da sua melhor adequação ao real
e sobretudo trabalha com elas historicamente e relacionando-as às totalidade social.
Mas ele não descarta o fato de que pensadores que refletem aspectos parciais da
totalidade parcial podem contribuir para um pensamento mais abrangente. Notem:
não vamos confundir refletismo com apropriação de formulações de outros autores
dentro da nossa perspectiva teórica. Refletismo é quando você junta duas coisas .
Agora, se submetemos ... por exemplo, um caso muito interessante é o seguinte: há
uma teoria das formas legítimas de dominação em Weber (legal, formal e carismática
e tradicional) que certamente apreendem fenômeno reais das formas de legitimidade
historicamente surgidas. E qual é o limite de Weber ? Ver isso a-historicamente e de
um ponto de vista puramente formal. Qual é o conteúdo de classe, por exemplo,
dessas formas de legitimação ? O Weber trabalha com três tipos ideais que segundo
ele nunca ocorrem daquele jeito na realidade, ocorrem sempre combinadamente,
mas não dá a esses três tipos de legitimação nem um tratamento histórico nem um
tratamento que incorpore essas categorias na totalidade social. Um marxista pode
perfeitamente trabalhar com essas categorias sem com isso conciliar ecleticamente
com Weber e elas serem úteis para o entendimento de alguns fenômenos sociais.
Durkheim eu acho que tem menos coisas interessantes a dizer. Mas seguramente até
Durkheim , provavelmente, .... você pode recolher na obra de Durkheim elementos
importantes para reconstruir um pensamento que se aproprie da totalidade social.
Então, feita essa abertura, eu diria que sempre me surpreendeu o fato de que a única
disciplina particular de que G fala positivamente é a ciência da política. Porquê ? ...
Ele chega a falar da Ciência da Política da Filosofia da Práxis, ou seja, a Teoria
Política do Marxismo. ...
Eu acho que há várias razões para isso: 1º) a convicção correta de G de que a grande
contribuição de Lenin, a quem ele chama o maior teórico do ... da filosofia da práxis,
para o marxismo é a reflexão sobre a política; 2º) eu acho que exatamente por G não
ser um economicista, por se preocupar fortemente por mostrar a relativa autonomia e
a importânica do fator político na Histórica, G fala da ciência política como uma
coisa positiva. Finalmente, não se deve esquecer que a maior contribuição do
pensamento italiano para a filosofia moderna e, contemporânea foi a reflexão sobre a
política. De Machiavel a Mosca, de Vico a Croce, certamente houve uma reflexão
focada sobre a política e G malgrado toda a sua universalidade certamente é um
pensador impelida pela cultura do seu país.
Então, isso tudo nos poderia levar a dizer que se G disse que a Ciência Política é
uma coisa positiva, então ele cai no politicismo. Não, isso não é verdade. Eu diria
apenas que ele viu que o marxismo tem uma teoria da política. Notem: não é que o
marxismo tenha uma sociologia, uma economia ... Não, o marxismo é um
pensamento ontológico que capta a totalidade social, mas o ângulo, a dimensão da
política merece um tratamento específico, e eu diria, até com ... o G ao se referir à
ciência da política está pensando nessa forma de tratamento.
E aqui nós vemos uma coisa curiosa: há um momento na sua produção teórica nos
Cadernos do Cárcere que G diz assim ... Há um pequeno capítulo que está no nosso
volume 3 dos Cadernos 5 e 7 ... que se chama ELEMENTOS DE POLÍGICA. E G
diz assim: o primeiro elemento da política é que existem GOVERNANTES E
GOVERNADOS. Notem: eu acho claramente aqui que ele está recolhendo a
tradição da ciência da política. Se você pegar de Machiavel, que foi o primeiro
teórico que vê a autonomia relativa da política até Gaetano Mosca, elitista, bem mais
velho que G, que teve um papel na cultura italiana enquanto G ainda era vivo (e G
frequentemente refere-se a Mosca na sua obra) tem essa idéia de que a política nessa
disjunção entre governantes e governados o seu ponto de partida. Vejam bem: a
ciência da política, entendida como disciplina social particular, para nisso. Há uma
relação entre governantes e governados eterna, para Mosca isso não muda nunca.
Qualquer sociedade que você considere terá governantes e governados e vai se
preocupar em indagar : porque é que o governante governa ? Porque as elites – quem
governa na verdade são as elites segundo Mosca, as minorias, e Mosca vai-se
preocupar em estabelecer quais são, primeiro, os recursos de poder que fazem com
que um grupo social seja uma elite. E vai responder: a força - elite militar; o saber –
elite intelectual, e o dinheiro – elite econômica. Então a preocupação dele é com a
elite, para que haja um equilíbrio entre as três, não haja uma única dominante. Ele
então fala numa coisa chamada “fórmula jurídica”, que é o modo de equilibrar o
poder das elites entre si, ... não em relação ao povo. Vai falar também numa coisa
chamada “fórmula política”, ou seja, toda elite tem um discurso (visivelmente há
uma influência de Marx nesse momento sobre Mosca) que legitima o seu poder. São
fórmulas políticas, diz Mosca, tanto a Teoria do Direito Divino (quer dizer, o Rei
manda porque é o representante de Deus na Terra) como é uma fórmula política a
idéia da Soberania Popular quando uma elite governa dizendo que governa em nome
do povo, foi eleita pelo povo etc. mas na verdade isso é uma mera forma política.
Eu até diria, no caso de Mosca, que fórmula política é um engodo. Já vimos que
ideologia não é necessariamente um engodo, é um ponto de vista parcial que é na
sociedade contraditória de classes necessariamente parcial . Então a pessoa pode
acreditar sinceramente, o formulador será um economista marginalista, que é verdade
que o valor se estabelece na margem ... aquela utilidade, marginal e tal ... Ou seja, a
pessoa não está criando aquela teoria para esconder o fato de que o valor surge na
produção, ocultar aquela estória de mais-valia . Então para o marxismo a ideologia
não é necessariamente engodo. Até pode ser. No caso de Mosca é sempre. Ele tem
um livro – TEORIA DA CLASSE DIRIGENTE, um livro muito interessante do
ponto de vista ... é um livro caótico (inclusive G vê nele um livro onde tudo está
misturado), é um livro muito grande, cheio de reflexões, errado, mas brilhante.
Mas é errado porquê ? Notem: esse é um ponto importante para entendermos a
relação de G com a chamada ciência política. Como dissemos, é verdade que
qualquer sociedade que nós conhecemos até hoje, salvo as mais primitivas (o
chamado Comunismo Primitivo), é verdade que há governantes e governados, que a
essência em última instância da política é explicar como o governante governa ,
porque o governado obedece, quais são as formas de governo possíveis. Então, é
verdade que existe esta (eu vou usar um termo de Marx) essa célula básica da
política. No caso de Marx essa célula da sua reflexão sobre o movimento do capital
é a MERCADORIA. Lembrem-se de que O CAPITAL começa , no primeiro
capítulo, tratando da mercadoria, de onde Marx retira a teoria do valor, o trabalho, o
dinheiro, e lá vai ele explicitando as várias categorias, indo, portanto, do abstrato ao
concreto, quer dizer, a mercadoria para ele, a célula abstrata do capital onde estão
contidas em gérmen todas as determinações do capital.
Eu diria que quando G diz que o ponto de partida da política é a relação
governantes/governados ele está dando a essa relação o mesmo sentido que Marx deu
à mercadoria, estivesse ou não consciente disso. Eu diria que G (essa é uma
observação interessante de ser feita) não leu muito. Ou melhor, leu muito mas como
um bom autodidata que era ... (me parece por exemplo que o estudo ... ele não leu
todo Marx, provavelmente leu O CAPITAL) , mas há limites, inclusive ele não leu
várias coisas que na época dele ainda não haviam sido publicadas, inclusive a
IDEOLOGIA ALEMÃ. Ele é preso em 1926 e a IDEOLOGIA ALEMÃ é publicada
em 27, os MANUSCRITOS são publicados em 32 ou 34, os GRUNDRISSE em 50.
E eu fico pensando : eu não sei se isso foi bom. De repente isso soltou mais a
cabeça dele. Ele tem uma nota ... que se chama HEGEL O ASSOCIATIVISMO ...
onde ele seguramente erra sobre Hegel . Ele diz que Hegel afirma que o Estado se
funda no privado. Ou seja, ele trata o conceito de sociedade civil de Hegel (ele ainda
não usa a expressão “sociedade civil”) tal como ele mesmo vai criar depois o
conceito de sociedade civil. Ele atribui a Hegel uma coisa que em Hegel é só parcial.
A sociedade civil em Hegel se compõe de vários momentos, o momento da
economia, o sistema de necessidades, como diz Hegel; o momento da corporação – é
esse o momento que G recolhe; mas também há a administração da justiça, que para
o marxismo é sociedade política, é Estado estrito senso; e o que Hegel chama de
Polícia, que é isso que nós entendemos mas é também aquilo que os americanos, os
ingleses entendem por Policy, ou seja, políticas públicas de prevenção das
contradições sociais. Eu até brinco sempre dizendo que Hegel, é o primeiro grande
pensador que reservou um espaço para as Assistentes Sociais, porque para ele a
Política não é exercida somente pelos policiais mas também por aqueles que
previnem o conflito, introduzem um anteparo ao conflito social.
Mas eu dizia isso para chegar no seguinte: G frequentemente não está muito
preocupado com a fidelidade do que ele está dizendo ao texto que ele está
comantando. Não é que G seja um ignorante, por favor. Ele leu muito. Mas é que
ele tem uma formação, como de todo o autodidata, meio lacunosa. Há momentos em
que sentimos que ele está falando do que conhece melhor, do que ele conhece pior.
Mas eu quero chegar no seguinte: ao trabalhar com a célula governantes/governados
G repete o que Marx fez na mercadoria, mas eu não sei se ele tinha consciência do
que fazia.
Agora, o que é que, portanto, o distingue radicalmente de Mosca cuidando da ciência
política do seu tempo ? Muita coisa. Evidentemente a diferença está em várias
questões de conteúdo, o tratamento que ele dá à relação governantes/governados não
é a mesma que Mosca dá, mas fundamentalmente, metodologicamente, o fato de tão
logo diz isso ... G faz duas perguntas às quais ele responde implicitamente de uma
maneira negativa . Essa distinção governantes/governados sempre existiu ? Ela é
eterna ? Resposta: não. Então eu diria que isso aqui revela muito claramente que G ,
como Marx em relação à economia, não é um cientista político, ele é um crítico da
política. Em que sentido Marx é um crítico da economia ? Vocês sabem que não só
o subtítulo do capital como também várias obras de economia (Contribuição para a
Crítica da Economia Política) Marx empregava, gostava, da expressão “crítica”.
CRÍTICA DA CRÍTICA CRÍTICA é o subtítulo da SAGRADA FAMÍLIA, um
subtítulo irônico mas está lá a palavra “crítica”. CRÍTICA DA FILOSOFIA DO
DIREITO PÚBLICO DE HEGEL. O que é que Marx entende por crítica ? Eu acho é
uma coisa muito importante. Ele entende precisamente isso: submeter um setor do
pensamento social, consequentemente a realidade que esse pensamento reproduz, a
um tratamento histórico e ontológico, visando localizar esse setor do ser social na
totalidade social. Isso faz com que Marx não seja uma economista. Marx tem sim
uma teoria econômica, uma teoria que explica as crises, que explica o movimento do
capital , portanto, ele pode competir, e ao meu ver com vantagem, com outras
concepções econômicas que existentes por aí, não só as clássicas como as chamadas
neoclássicas, utilitarismo, marginalismo etc. Assim como G pode competir com
qualquer teórico político, G. é mais limpo que Mosca, é melhor do que Weber
quando fala em política. Weber é brilhante mas G é mais. Mas o que distingue
efetivamente Marx e G dos outros teóricos não marxistas econômicos e políticos é
que os primeiros não são teóricos da economia e da política , não são economistas e
politólogos mas eles são críticos.
E aqui a crítica deve Ter um duplo sentido: crítica teórica nesse sentido teórico a que
eu me referi, ou seja, os resultados parciais desses elementos do ser social são
submetidos a um tratamento histórico e ontológico; mas críticos também no sentido
de que tanto a economia para Marx quanto a política para G nesse sentido são
alguma coisa que pode ser historicamente superado. A grande idéia do comunismo,
seja em Marx seja em G, é a idéia de que a humanidade, agora construindo
conscientemente a sua própria história, como que supera a autonomia relativa da
economia e da política. Qual é a idéia de Marx ? Com o comunismo ... O Estado
que é um instrumento de dominação de classe ... Marx vai dizer que as tarefas do
Estado serão absorvidas pela sociedade. G vai dizer mais ou menos a mesma coisa
quando ele fala de “sociedade regulada”, que é o bonito pseudônimo que ele
encontrou para o comunismo e diz que nela os elementos de sociedade político,
Estado estrito senso, ou seja, a coerção, será absorvida pelos mecanismos
consensuais da sociedade civil. Isso implica que os homens vão fazer a sua história .
Então, nesse sentido, tanto a economia, entendida como uma forma de interação
social que os homens não dominam, pelo contrário, eles são por essas formas
dominados (essa é a grande idéia do mercado, porque o mercado é algo que se impõe
aos homens malgrado sua consciência), este tipo de autonomia que forma a
específica esfera da economia, na idéia de Marx, será superada no futuro. Não será
superado, notem, o metabolismo do homem com a natureza que é base ontológica
eterna da sua reprodução eterna enquanto existir o homem . Os homens têm de
dominar a natureza porque se não o fizerem eles morrem de fome. Então, esse
intercâmbio com a natureza , que o momento fundamental da economia, isso persiste.
Mas a economia entendida como o conjunto de leis que operam por cima da cabeça,
da consciência e da vontade dos homens, segundo Marx, vai desaparecer. Eu diria
que para G também a política entendida enquanto relação de governantes e
governados também essa forma do ser social tende a desaparecer. Isso aqui é uma
questão complicada.
Socialismo e Mercado. Hoje sabemos que há várias pessoas, eu até diria que
infelizmente a maioria, que acham que o socialismo é compatível com o mercado,
que é possível um socialismo de mercado ... Há um pensador inglês chamado
Alex ... que escreveu recentemente um livro sobre socialismo que insiste nisso, que
o mercado vai existir . Eu diria que é verdade que durante muito tempo o mercado
vai existir. Ninguém imagina que estabelecido o comunismo, no décimo nono ano
do governo do PT , não, no 35º, ou 72º, no caminho que vai daqui a 100 anos, que,
imediatamente, serão extintas todas as relações mercantis. Aliás uma coisa que
sempre me impressionou em Cuba é que lá se fez um pouco isso. O boteco da
esquina foi estatizado, o motel foi estatizado ... Eu acho que evidentemente durante
muito tempo, se você controla conscientemente, através do planejamento ... Porque a
grande idéia do planejamento de Marx , da planificação, do planejamento, é
exatamente a idéia de que no comunismo os homens submetem as regras da
economia ao seu próprio projeto. Vamos fabricar o quê ? Armas ou flor? Comida ou
o 18º tipo de televisão ? Ou seja, o planejamento é exatamente a submissão a um
projeto humano, coletivo, do que deve ser feito na economia. Então, nesse sentido é
realmente uma eliminação da relativa autonomia da economia. Mas você pode
imaginar que vão existir relações de mercado durante alguns séculos, contanto que as
relações de mercado não envolvam o momento central do capitalismo, que é a
transformação da força de trabalho em mercadoria, e no momento em que você tenha
um controle público que submeta o mercado aos seus interesses.
Uma outra questão importante é a questão do FIM DO ESTADO. Há um brilhante
pensados marxista italiano que escreveu um livro muito bonito sobre G, que chama-
se Domenico ??? ..., nisso seguido pelo nosso conterrâneo Jacó Gorender ... que
publicou recentemente um livro chamado MARXISMO SEM UTOPIA , muito
interessante, um homem que tem 80 anos, que fez autocrítica de alguns elementos do
marxismo. Seu livro contém besteiras no livro . Uma, por exemplo, me parece
bastante enfática “o proletariado é ontologicamente reformista”. Ora, o proletariado
nem é ontologicamente reformista nem revolucionário, ele depende das condições
de escolha revolucionária, no momento não é revolucionário, pode voltar a ser. Mas
dizer que ontologicamente, ou seja, sem apelação, o proletariado é reformista é um
pouco forte. Para ele o sujeito revolucionário são os intelectuais. O que é uma forma
de voltar ao leninismo radical, o Partido faz a revolução, e o proletariado só atrapalha
(risos). Certamente ele deveestá pensando que o governo Lula vai ser reformista
porque um operário é ontologicamente reformista.
Mas ao lado disso, dizia eu, tanto ... há essa idéia de que o fim do Estado é uma
utopia. Marx conciliou com o Anarquismo quando falou do fim do Estado. E o
Domenico, inclusive, mostra em vários momentos onde se percebe que Marx não
imaginava que fosse desaparecer completamente isso que nós chamamos de Estado.
Ele diz assim: desaparecerão os momentos coercitivos do Estado, desparecerá o
caráter de classe do Estado. E há momentos em que ele diz que desaparecerá o
Estado, enquanto algo separado da sociedade, as funções do Estado vão ser
absorvidas pela sociedade. Mas eu diria que há aí uma zona meio indeterminada que
levar .... a dizer o seguinte: deu no que deu, ou seja, como os bolcheviques achavam
que o Estado ia acabar (quem lê o ESTADO E A REVOLUÇÃO lembra que para
Lenin a grande tarefa é a extinção do Estado, o Estado vai se extinguir naturalmente,
dizia ele), para que pensar na forma de Estado adequada ao socialimo ? É uma forma
transitória, ditadura do proletriado (...) então a questão de estruturar o regime
político do Estado Socialista ficou um pouco abandonada. Eu acho que essa
observação tanto de .... quanto de ... tem algum sentido. Stalin chegou a criar uma
teoria louca: para o Estado se extinguir ele tem de se fortalecer ao máximo porque
dialéticamente quanto mais ele se fortalece mais ele está perto do seu fim. E
evidentemente deu no que deu, deu no fim, mas não foi o fim do Estado, mas o fim
da sociedade que ele contribui para criar.
Então, levando em conta as dificuldade de pensar enuma sociedade inteiramente sem
mercado e inteiramente sem Estado, certamente em Marx e em G há a idéia de que ,
ainda que como idéia reguladora (essa é uma expressão kantiana: são coisas que você
percebe com a certeza de que nunca obterá inteiramente mas que você busca na linha
do horizonte) , a idéia de que a sociedade comunista ou , em G, a sociedade regulada,
eliminam pelo menos o elemento coercitivo do Estado.
Como em G (nós veremos isso melhor) é síntese de sociedade política mais
sociedade civil ..., é coerção mais consenso, em G só desaparece uma parte do
Estado, que é a parte da coerção. Eu sempre brinco com a expressão de Freud que
diz assim: “onde está o id deve-se por o ego”, onde está o inconsciente deve-se por a
consciência racional. Em G é assim: onde está a coerção deve-se por o consenso.
Isso vale para o mercado e vale também para o Estado.
Notem : já há aqui uma grande diferença entre G e os marxistas e Habermas.
Habermas é um brilhante pensador, é um aliado .... está contra o pós-moderno, contra
o irracionalismo, foi marxista , certamente o peso do marxismo é grande mesmo em
suas reflexões para além do marxismo, mas para Habermas Estado e Mercado, o que
ele chama Poder e Dinheiro, são formas de interação social próprias da modernidade
e que não vão desaparecer. Ele acha são conquistas da modernidade que automatizam
determinados tipos de interação nas sociedades bastardas ...eu acho que ao contrário
de Habermas .. E qual é a de Habermas ? É que o mundo da vida, que o mundo da
esfera da comunicação, não pode ser colonizado pelo Poder e pelo Dinheiro. O
Poder e o Dinheiro operam com uma racionalidade estratégica , portanto de tipo
weberiana, essa racionalidade segundo fim. O que se quer saber é o seguinte: tal
fim assim assim ... qual são os meios para se chegar lá ? Então, essa é a esfera da
reificação da alienação para Habermas, teoria que ele recolhe do marxismo, mas são
momentos necessários. O problema é que esse tipo de racionalidade não pode
colonizar o mundo da vida, que é o mundo da esfera da espontaneidade, da
interação, da comunicação etc. etc. Como evitar isso ? ... ele aposta muito nos
movimentos sociais, feministas, pacifistas etc. e tal, são formas de impedir essa
colonização. Mas eu estou chamando a atenção para o seguinte: em G e mais ou
menos para os marxistas em geral, mercado e estado, ainda que se possa imaginar
que formas de mercado e estado ainda vão permanecer mesmo quando já a
humanidade avançar na construção do socialismo, é tarefa histórica suprimir essas
duas formas porque elas operam pelas costas dos homens impedindo que eles façam
plenamente a sua própria história.
Em Marx é muito clara a idéia de que a pré-história é todo esse período no qual os
homens fizeram história mas em condições que eles não escolheram. Comunismo
para Marx não é o fim da História, como o é para Fukuyama, que vê o fim da história
agora, mas o comunismo para Marx é o fim da pré-história. No comunismo os
homens fariam a sua própria história a partir exatamente desse controle consensual
de mecanismos que outrora eram coercitivos seja no sentido político , de Estado,
seja no sentido do mercado, que é também coercitivo, porque impõe as suas leis
independentemente da nossa vontade.
Então, é interessante observar isso: G é crítico da política como Marx é crítico da
economia nesse duplo sentido (verdade é o mesmo), no sentido digamos que
historicizam os resultados das disciplinas particulares da economia e da política,
incluem isso na totalidade social, e que acham que essas esferas do ser social
perderão na sociedade sem classes o grau de relativa autonomia que eles possuem no
capitalismo.
Pois bem, dito isso é interessante observar que há em G um outro conceito de
política. Esse aqui seguramente é o que eu chamaria de um conceito ( para usar ... )
um conceito restrito de política, é política tout court. Como é que governante
governa ? Pela coerção e pelo consenso. Porque é que o governado obedece ?
Também porque há a hegemonia de um grupo sobre o outro, os valores são
passados ... de modo que toda a obra dele é uma tentativa de entender isso. Qual é a
relação por exemplo entre vanguarda e massa dentro de um partido político ? Que
papel tem o partido político na relação vanguarda/massa ? Pode-se imaginar que a
teoria política de G é um desdobramento rico, fecundo até chegar à teoria do Estado,
do Estado ampliado, que eu diria que é o mais concreto do percurso gramsciano. Se
a relação governantes/governados é um momento abstrato do qual parte a exposição
de G, certamente a teoria do Estado ampliado, isto é, Estado como síntese de
sociedade política e sociedade civil, coerção mais consenso (tema que trataremos
depois), é o mais concreto, é o momento onde G apreende, digamos assim, a
totalidade das determinações que operam na esfera política. Quer dizer, quem lê O
CAPITAL sabe que o momento mais concreto do CAPITAL é certamente o Livro III,
que é onde Marx reintroduz a concorrência , que não está nem no Livro I nem no
Livro II, e com isso os fenômenos sociais aparecem, ele mesmo diz isso, de uma
maneira mais próxima à sua aparência imediata. As mercadorias não são vendidas
pelo valor mas pelo preço de produção, que é o resultado do fato de que a
concorrência estabelece uma taxa média de lucro que independentemente da
produtividade de cada ramo da economia a taxa média de lucro se impõe ao conjunto
do sistema produtivo por causa ...as mercadorias são vendidas não pelo seu valor
mas pelo seu preço de produção. Só que para calcular o preço de produção é
imprescindível que se entenda que o que está na base dele é o valor. Mas a forma
concreta pela qual o capitalismo aparece no Livro III é aquela mais próxima da
totalidade e, eu diria, da superfície da realidade.
Então a categoria de Estado ampliado em G é a máxima categoria, digamos assim,
que G elabora no nível da teoria política.
Dito assim, G trabalhou uma esfera do ser social, dedicou-se a ela talvez mais do que
nenhum outro pensador marxista. Lênin pensou, mas Lênin fez mais política do que
pensou sobre política. G por esse fato concreto, para nós muito bom, para ele
péssimo de ter sido preso ... O que aconteceria com G se ele não houvesse sido
preso ? Fugiria para a URSS ? Se ele se exilasse lá como Togliatti ? Ou ele se
acanalhava (em plena época dos Processos de Moscou) ou morreria. Então, foi bom.
Mussolini é tão cínico que quando G morreu ele escreveu um artigo dizendo o
seguinte: eu salvei , o fascismo salvou G da morte violenta, porque ... Em 37 na
URSS estavam sendo condenados Zinoviev, Kamenev, Boukharin , todo mundo se
confessando espião. Então, nesse sentido, para nós foi bom. Ele foi tirado da prática
política imediata, permitiu a ele dedicar-se exclusivamente à redação daqueles
materiais, e fez com que ele fosse um marxista, nos Cadernos do Cárcere,
extremamente original.
Coisa curiosa: enquanto a III Internacional, com a crise de 29, dizia que o colapso, a
crise geral do capitalismo era iminente ... G e L diziam que não. Diziam: está
surgindo um fenômeno novo, o americanismo, com alta capacidade de expansão,
que vai dominar a Europa. Isso foi uma coisa que ele viu e que ninguém na época
viu. Os marxistas da III Internacional estavam certos de que o capitalismo iria entrar
em colapso. E ele não estava falando do fascismo. Ele dizia: o fascismo não é
expansivo , ele é uma resposta à Revolução Bolchevique, ele é uma forma de
revolução passiva mas ele não tem a expansividade que tem o americanismo. Então
o americanismo vai triunfar até pelo menos os anos 70, haverá uma generalização,
uma universalização dessa forma específica de capitalismo (consumo de massas
etc.).
O conceito de CATARSE de G. G chama de catarse um fenômeno que, eu diria, é
para ele a política em sentido amplo. É o fenômeno pelo qual se passa do particular
ao universal. (o professor busca uma citação de G no artigo entregue).
Voltando um pouco atrás ... Depois de G falar do primeiro elemento da política –
governantes/governados, ele pergunta assim: “Pretende-se que sempre existam
governantes e governados ou pretende-se criar as condições nas quais a necessidade
dessa divisão desapareça ? Isto é, parte-se da premissa da divisão perpétua do gênero
humano ou crê-se que ela é apenas um fato histórico correspondente a certas
condições ? É claro que não. Está aqui implícita a resposta positiva à segunda
hipótese nos dois casos. É um fenômeno histórico.
Aluna: Eu queria indagar se G leu Hegel, porque há Rosdolsky chama a atenção para
essa questão central que é o método. E quando a gente vai a Lukács ele diz que o ato
revolucionário de Hegel foi haver captado a questão das determinações reflexivas.
E isso que o senhor está falando : governantes/governados na esfera da política em
paralelo com valor/valor de uso na esfera da economia são precisamente as
determinações reflexivas.
Professor: O conceito de determinações reflexivas é o seguinte: uma coisa só existe
em relação a outra, forma e conteúdo. Por exemplo: sociedade civil e estado. A idéia
de Marx é que desaparecendo a sociedade civil desaparece o Estado, eles são
conceitos... essência e aparência.
Aluna: Portanto, na relação burguesia/proletariado, desaparecendo a burguesia
desaparece o proletariado.
Professor: Isso. Desaparecendo a sociedade civil no sentido de Marx ...
Aluna: Solucionada essa contradição seria re-posta uma nova contradição e esta
seria entre administradores e administrados.
Professor: Não, é Engels quem fala isso. Ao invés da administração dos homens, que
é o caso de quando há estado, haverá no comunismo uma administração das coisas,
mas não há distinção entre administradores e administrados, ou todos podem ser
administradores das coisas.

Há um pensador grego, Aristóteles, que foi o primeiro a dizer que cidadão é aquele
que governa e é governado. Ou seja, é aquele que tem, ao mesmo tempo ...
(interrupção da fita)
... a necessidade e a liberdade. Nós estamos aqui lidando com categorias muito
próximas com as quais Lukács trabalha não só na ESTÉTICA como na
ONTOLOGIA, ou seja, com a categoria da interação entre necessidade e liberdade.
Não é que a necessidade não exista. Nós só conseguimos passar para o ético-
político, superando o econômico-corporativo, porque ele existe. G. vai falar assim
claramente na elaboração superior da estrutura em superestrutura.
Vamos lembrar aqui do texto de Marx (tirando as Teses de Feuerbach) com o qual
G mais trabalha: é o Prefácio à CONTRIBUIÇÃO PARA A CRÍTICA DA
ECONOMIA POLÍTICA escrito em 1859 (não confundir com a Introdução, que
aparentemente G não conhecia, que é um texto mais denso) . Marx diz: “ ... Em uma
certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade
entram em contradição com as relações de produção existentes ou, ...” . É um texto
pequeno que G gosta muito. E lê esse texto evitando qualquer tentação de reduzi-lo
ao economicismo . ... Mas nesse texto há uma colocação, com a qual G mais
trabalha, onde está dito: “Na consideração de tais transformações é necessário
distinguir entre a transformação material das condições econômicas de produção,
que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas
jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas
ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o conduzem
até o fim”, ou seja, os movimentos da infra-estrutura, ou seja, as contradições que se
estabelecem nesse nível, podem ser fixadas com métodos de ciência natural, eu diria,
estatisticamente (eu posso estabelecer quantos trabalhadores assalariados existem etc.
etc. ), mas a solução dessas contradições , diz Marx, se dá no nível da superestrutura,
no nível do que ele chama de formas ideológicas, ou seja, os homens só operam no
sentido de superar suas contradições ... se eles tomarem consciência dessas
contradições, seja através da arte, da religião, da filosofia, do ... política, no nível das
formas de pensamento social ou (e Marx é claro) das formas ideológicas. E aí eles
travam os seus conflitos e os levam até o fim.
Eu diria que essa frase é extremamente emblemática para mostrar que Marx não era
um economicista. A dinâmica da sociedade passa pela tomada de consciência dos
conflitos. E é nesse nível que realmente a história se move, embora, é claro, ela só se
mova porque tem um nível material. Não é pelo fato de que a política ganha, nesse
texto de Marx e na obra de G em geral, uma enorme dimensão ... Eu não hesitaria em
dizer que para G a política é criativa, como Machiavel é criativo. Lênin tem uma
expressão muito bonita: “a política é economia concentrada” . Não, a política tem a
sua autonomia, não é absoluta ..., Machiavel já tinha visto que virtud , o talento, a
habilidade do político , do Príncipe, tem um limite, que é o que Machiavel chama de
fortuna, que aquilo que ele não pode controlar. É evidente que também em G e no
marxismo em geral a política é criativa dentro de alguns limites: “ a humanidade só
se propõe problemas que pode resolver”, “uma formação social nunca perece antes
que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas para as quais ela é
suficientemente desenvolvida” , há limites objetivo que, digamos assim, limitam a
ação humana. Mas a ação humana é criativa. Sem ela , sem a política, e mais
precisamente sem a CATARSE, as contradições se produzem ( pode-se dizer que
chegamos à barbárie, vide Rosa Luxemburgo “socialismo ou barbárie”) mas para se
chegar ao socialismo certamente os homens têm de tomar consciência.
Então, por exemplo, o conceito de CATARSE concebido nessa última frase de G ,
torna-se a fixação do momento catártico em que os homens tomam consciência da
sua inserção na realidade e atuam no sentido de superar essa realidade, esse
momento catártico torna-se assim, diz G, o ponto de partida de toda a filosofia da
práxis. Portanto a teoria do social marxista tem nesse momento central o momento
que L chamaria a passagem da causalidade à teleologia. Não é que L pense que nós
somos apenas animais teleológicos, não. A nossa teleologia parte da idéia de que há
uma causalidade . Eu não posso atuar e ser exitoso na minha ação se eu não levar
em conta que a minha ação é determinada causalmente. E mais do que isso, o ato
teleológico que eu crio, singular ou coletivamente, cria novas cadeias causais que
passam a independer da minha vontade. Eu faço uma revolução e de repente a
revolução nos desfaz, isto é, tem uma dinâmica tal que escapa ao projeto teleológico
inicial.
Eu diria que Catarse em G é o momento onde a causalidade transmuta-se em
teleologia, ou se quisermos, transmuta-se de necessidade em liberdade. Ora, essa
dimensão da práxis humana é eterna. Eu não gosto da palavra eterna, ela dá idéia de
que sempre existirá e evidentemente a humanidade nem sempre existiu ... e tudo
indica que vai desaparecer um dia. ... ( 1.Eu estava num boteco e alguém disse: a
humanidade vai acabar daqui a um milhão de anos; Aí o outro disse: Um milhão de
anos ? Só isso ? Aí o primeiro disse: Não não . Daqui a bilhão de anos. E o outro:
Ah” Bom ! Um bilhão. Quer dizer, como se isso fizesse diferença relevante para
nós). Então quando digo é eterna, é eterna no sentido de que enquanto existir social,
assim como é um momento permanente ontológico da reprodução social o
intercâmbio com a natureza, eu diria que também o momento catártico está presente,
essa tendência de ir ao particular ao universal, da necessidade à liberdade, é uma
tendência que em maior ou menor medida atravessa a história.
Então, neste sentido, neste específico conceito de política como catarse G faz da
política (vejam bem: eu aqui estou chamando de política alguma coisa que eu
poderia chamar de interação) ... O fato é que ele dá sempre exemplos, quando ele fala
de catarse, do movimento das classes sociais. Quer dizer, o que é o momento
catártico ? É o momento em que o proletariado, pensa G, supera os seus interesses
puramente corporativos e atua numa dimensão ético-política que é a dimensão
universal da hegemonia. É aquele momento em que a classe pensa não só o seu
interesse mas pensa o seu interesse articulado com o conjunto da nação. É o
momento onde uma classe se torna, na expressão de G, uma classe nacional e,
portanto , uma classe hegemônica.
Agora, esse conceito tem outras aplicações. Por exemplo: a passagem do senso-
comum para o bom senso e para o que ele chama de filosofia dos filósofos é um
momento catártico. O indivíduo tomando consciência da sua inserção na sociedade
supera o seu particularismo e se encaminha para o sentido de uma visão mais
universal, ou seja, para a noção de que os indivíduos são blocos históricos. G gosta
dessa expressão. Ele a usa para várias coisas, para a aliança de classes subalternas,
para a articulação entre superestrutura e infraestrutura. Ele chega a dizer o seguinte:
nós somos atravessados por relações sociais, a essência do homem é o conjunto das
relações sociais, quer dizer, nós somos o que somos porque estamos inseridos em
diferentes tipos de relações sociais e somos determinados pelas relações em que
...claro, cada um de nós por sua especificidade. Eu não sou igual a Fernando, mas
somos determinados igualmente, eu e Fernando por essa nossa inserção social na
sociedade .
Então G diz o seguinte: o indivíduo é um bloco histórico. Eu estou prestando mais
atenção ao indivíduo porque eu acho que tanto em Marx quanto em G a idéia não é a
constituição de uma comunidade que negue o indivíduo. O que é aliás uma
acusação permanente contra o marxismo: o coletivismo nega o indivíduo, não leva o
indivíduo em conta. Não. Há em Marx, e embora não haja com o mesmo tom em
G, há em G, a idéia de que a meta da construção de uma nova sociedade é a criação
de indivíduo social, ou seja, nós recolhemos a herança do individualismo burguês,
que dá autonomia ao indivíduo, mas ao mesmo tempo queremos que o indivíduo se
alimente e se enriqueça desse conjunto social em que ele está inserido. Mesmo o
individualista burguês está inserido, está sem consciência de que está inserido.
Então, há dois sentidos de política na obra de G. Um não é contraditório com o outro.
Política como catarse é o conceito mais amplo. Eu diria que é o conceito
propriamente ontológico de G no sentido de que ele diz que na interação social,
particularmente na política, há um movimento pelo qual os indivíduos elaboram na
consciência as suas determinações objetivas e isso gera, isso é fonte de novas
iniciativas . É quando o indivíduo realmente começa a atuar sobre o real e dominar
o real, o real social. Então, política nesse sentido, catarse, é constitutiva do ser social
...
Lukács na ONTOLOGIA, num texto em que ele não elabora muito, e a respeito do
qual Sérgio Lessa pela primeira vez se coloca contra L. (num caso em que,
interessante, eu estou com Lukács), porque LUKÁCS DIZ QUE A POLÍTICA É
UMA COMPONENTE ETERNA DO SER SOCIAL. L. diz até que o Direito é uma
componente eterna do ser social. Aí o Sérgio tem razão. Direito, não. Eu tenho a
impressão de que formas jurídicas continuarão a existir mas poderão ser dissolvidas
na própria dinâmica da sociedade. Mas a política entendida como essa esfera onde
os indivíduos interagem e se elevam ao consenso universal é um momento, diz
Lukács, eterno do ser social, ontológico. Sérgio Lessa não gosta, ele leu o texto de
Marx O REI DA PRÚSSIA, onde Marx diz que a política é uma falsa mediação, ou
seja, Marx diz que a política é alienação sempre. Eu acho que no jovem Marx está
muito presente a idéia de que a esfera da política é uma esfera alienada por si. E no
final da vida ele já estava mais cauteloso. Mas o velho Lukács diz isso com todas as
letras e eu diria que L ... no final de uma página e esse é o caroço da reflexão de G
sobre ... Política nesse sentido é um componente do ser social. Política no outro
sentido, no sentido da relação governantes/governados, da relação de poder, a política
é historicamente condicionada. Nesse sentido ela pode desaparecer porque se
desaparecer a relação governantes/governados desaparecerá o elemento fundante da
política.
Aluno: Essa questão da política não teria origem no fato de o homem não ter um
sistema de necessidades fixas. A política teria a função de desenvolver meios
intencionais de atendimento de necessidades ...
Professor: Aí é preciso ver o que é a necessidade. O Marx chega a dizer que a maior
necessidade do homem é o outro homem, naturalmente o homem genérico.
Aluno: Essa problemática do sistema não fixo de necessidades nos foi trazida pelo
Prof. José Paulo precisamente quando se discutia a questão da necessidade e da
liberdade, ou seja, a intencionalidade vai estar sempre demandada no sentido do
atendimento de necessidades sempre novas.
Professor: Isso aí é uma coisa que Rousseau já tinha visto, ou seja, que o homem é
plástico no sentido de que ele não tem uma natureza fixa. Então para Marx as
necessidades se enriquecem, ele tem a necessidade, claro, imediata, de comer, beber,
subsistir, mas ele chega a dizer isto que é muito bonito, que para o homem – o
homem é um ser social, a maior necessidade é o outro homem. Ele diz assim: o modo
pelo qual se dá a relação entre homens e mulheres numa sociedade define o grau de
civilização a que chegou essa sociedade.
Eu concordo com você. Política, enquanto catarse, é a forma de encaminhar a
liberação ?? social no sentido de superar a particularidade do indivíduo, sem anula-
la, evidentemente, e encontrar uma interação livre, consensual e comunitária.
Notem no MANIFESTO COMUNISTA há uma frase muito interessante. Marx diz
assim: o comunismo é uma livre associação de produtores na qual o livre
desenvolvimento de cada um é condição do livre desenvolvimento de todos. Vejam
bem: ele não disse ao contrário, ele não disse que o livre desenvolvimento de todos é
condição do livre desenvolvimento de cada um. Não. Cada um se desenvolvendo
livremente, sem as coerções impostas pela sociedade de classes (uma pessoa que
nasce proletário ..., ou seja, o indivíduo não consegue se desenvolver livremente, e
por isso termina sendo um indivíduo individualista) . No comunismo é o livre
desenvolvimento do indivíduo que é condição do livre desenvolvimento de todos.
Claro, um indivíduo articulado com os outros.
Eu diria que política como catarse em G é o modo pelo qual essas coisas são
resolvidas no sentido que os indivíduos terão seu livre desenvolvimento como
indivíduos, sociais, mas como indivíduos, e o modo pelo qual articulará essa
liberdade individual com a liberdade de todos, elevando o particular ao universal.
Está claro, portanto , que G tem dois conceitos de política. Não são contraditórios
mas, eu diria, enquanto relação de governantes e governados é o modo pelo qual a
política em geral se dá em sociedades de classe.
O Lukács por exemplo tem aquela idéia de que toda a ação humana é objetivadora,
no sentido de que ela cria uma coisa fora do sujeito e essa coisa também retroage
sobre o sujeito. Nem toda a objetivação é alienação. Há formas de objetivação que
se voltam contra o próprio sujeito que as criou, isso é o que Marx chamava e L
repetiu de ALIENAÇÃO. A expressão em alemão é ......, enquanto .... esse é o
momento em que o indivíduo se objetiva, se realiza criando objetivações fora dele
que ele reconhece ou não. Quando ele reconhece não há alienação. Eu diria, do
mesmo modo, que formas de política são alienadas. Sérgio Lessa estaria certo se
dissesse que há manifestações políticas que são falsas mediações, mas nem toda
interação de natureza política é alienada em si. ...
(A citada afirmação de Lukács sobre a política como uma componente eterna do ser
social está na ONTOLOGIA, nas 40 páginas dentro do capítulo de Ideologia).
Agora uma coisa engraçada: Lukács não falou de política e G falou pouco de
economia. Dizer que ele não falou de economia é bobagem porque o Caderno sobre
Americanismo não é um caderno escrito por um economista mas é um Caderno
escrito por um marxista que está preocupado com os fenômenos da estrutura
material, mas você pode juntar-se por exemplo a um autor que diz que G contribuiu
em todos os terrenos, menos na economia. É meio radical, ele também tem discussão
sobre marginalismo, economia crítica, mas não é o terreno, digamos, prioritário da
sua reflexão. Em grande parte, eu acho que ele deu por suposto que a crítica da
economia política já tinha sendo feita por Marx, que Lênin tinha desenvolvido com a
Teoria do Imperialismo, e ele ia trabalhar num outro nível social menos desenvolvido
que era a crítica da política.
Inversamente eu diria que L fez o mesmo com o Lênin. Lukács tinha uma adoração
pelo Lênin. Lênin era assim a figura central para L no terreno da política. Então
Lênin já tinha feito as coisas, então ele iria fazer uma ontologia, ia trabalhar com
outros níveis do ser social e não especificamente como G. Isso é tão curioso que ele
escreveu um livro que só foi publicado postumamente porque ele entregou ao Partido
e o Partido pediu dez anos para publicar e ... que se chama DEMOCRATIZAÇÃO
HOJE E AMANHÃ ... que é um livro muito interessante porque é um Gorbachov
avant la lettre; é aquela idéia : o socialismo tem que se renovar, tem que se
democratizar e tal, mas a proposta é sempre voltar a Lênin. O mal da URSS é que
descarrilou em dado momento porque abandonou-se Lênin e Stalin criou alguma
coisa fingindo que era leninismo e não era mais. Então tem que voltar a Lênin, o que,
evidentemente, é ingênuo, você imaginar que aquela zorra poderia ser consertada se
se voltasse a Lênin. Os problemas se colocavam ...
Eu diria que curiosamente nós poderíamos dizer assim: porque G aceitou a crítica
da economia política de Marx e de Lenin tratou menos de economia; porque Lukács
aceitou a formulação dos bolcheviques de Lênin como a formulação adequada à
economia marxista ele descuidou, não entrou nesse terreno. Lukács até conta. Ele
fez política em algum momento da vida. Entre o momento em que ele entrou no
Partido até final dos anos 30 ele foi um dirigente político importante do PC da
Hungria, na esquerda. Há um período até em que Lênin faz uma repreensão a ele
apontando-o como esquerdista. Mas em dado momento ele escreve um texto
chamado TESES DE BLUM que era um texto politicamente muito interessante mas
ele perdeu a briga interna no Partido, não foi aceita a idéia dele. Ele então teria dito
que percebeu que não dava para a política e desistiu de fazer política, política estrito
senso. Lukács é muito racionalizador. Ele sempre encontra post festum uma
explicação para tudo o que ele fez. No PENSAMENTO VIVIDO não há nenhum
momento em que ele diga: eu errei. O erro se torna fecundo porque ele estava certo,
mas o partido não viu que ele estava certo, então ele aproveitou e largou ... Apoiou
Stalin ... Sobre as autocríticas: tirando a HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA DE
CLASSE, que eu acho que foi uma autocrítica séria, ele acreditou que estava errado,
mudou, as outras eles fazia mesmo para constar, e mais do que isso, para sobreviver.
Ele sempre justificou a sua opção pelo estalinismo, ter aceito aquilo que estava
acontecendo, porque a grande batalha era entre o socialismo e o fascismo e se ele
rompesse com aquilo ele não poderia ser combatente do fascismo. Ora, os trotskistas
não combateram o fascismo ? Leiam O PENSAMENTO VIVIDO. É uma longa
entrevista que ele deu antes de morrer, pouquíssimo antes de morrer. Ele até tentou
começar a fazer uma biografia, mas estava muito mal, aí os discípulos dele, hoje
renegados, insistiram para que ele desse uma longa entrevista que é essa que forma o
O PENSAMENTO VIVIDO . É difícil um homem de 86 anos fazer uma autocrítica
séria da sua vida. Então ele tenta ... qualquer um de nós faz isso. Nossas antigas
mulheres são sempre muito boas, não é ? Você não pode ter casado com uma mulher
que não é uma pessoa bonita. A gente racionaliza as coisas, limpa o feio que
ocorreu.Eu acho que G e Lukács foram grandes figuras humanas. ... Agora, todos
nós fazemos isso. Você quando pensa o passado não limpa um pouco passado ?
Porque a análise .... quando você chega lá a coisa é mais complicada. Ou você
engana o analista, perdendo o seu tempo e o seu dinheiro, ou é obrigada a realmente
fazer uma ... da sua vida. Mas no dia a dia a nossa tendência é ... E L não gostava de
Freud, nem G, nenhum dos dois. G dá uma quatro ou cinco porradas em Freud ao
longo da obra dele e L também. Ambos o criticam, e ao meu ver sem o conhecer
bem. G até se explica, ele estava na cadeia, Freud ainda vivo e tal, L não. Bem, isso
são nota de rodapé.
Pois bem, no sentido de política que eu chamaria estrito senso o G faz uma excelente
distinção entre o que ele chama de GRANDE POLÍTICA e PEQUENA POLÍTICA.
Notem que a grande política não é a política como catarse. Ou melhor, ela se
aproxima da política como catarse. Então ela diz respeito à esfera da relação
governantes/governados. O que é a grande política ? É a política que visa mudança
ou conservação de estruturas. Notem bem que G diz que grande política não é só
política revolucionária. Essa também é uma grande política. ... Mas a conservação da
ordem social pensada como conjunto é também para G grande política. Pequena
política, é engraçado o que ele fala (o professor busca a citação no texto entregue) é a
política do corredor, do acordinho. E vejam bem, ele diz que ela tem que ser feita.
Eu vou dar um exemplo meio doido. O PT no governo não vai deixar de fazer
pequena política, vai fazer, tem de controlar o Michel Temer, conversar com o
Sarney, ou seja, tem pequena política mesmo numa política que não é reduzida à
pequena política. A idéia do G é o seguinte: não se pode só fazer pequena política.
Vejam, claro que ele não disso isso mas vamos pensar uma coisa curiosa aqui. O que
é que caracteriza o neoliberalismo ? É a redução da política à pequena política. Você
deixa de discutir as grandes questões. O mercado é eterno, é nervoso, nós temos que
nos adequar, isto é, em vez que a gente adequar o mercado à gente, a gente é que tem
que se adequa ao mercado, e vamos fazer política pequena. Eleger um presidente,
mudar de presidente, sim, mas sem colocar em discussão as grandes estruturas. Meu
grande temor é que o PT não passe da pequena política. Se não passar, como diria
Chico de Oliveira, será mais um momento da era FHC (Vocês leram o artigo do
Chico Oliveira na Folha ? Muito bom. Achei pessimista de mais até. Ou o PT muda
ou não será uma nova era pós FHC ou será mais um momento da era aberta por
FHC).
Então, essa distinção entre grande e pequena política é muito interessante . ... Eu
diria que a pequena política não faz catarse. A catarse só ocorre efetivamente, se
catarse é passar do particular para o universal, no nível da grande política. A
pequena política exatamente manipula o real, e não o coloca em discussão.
Dito isso tudo eu acho que é importante observar o seguinte: embora com centros de
interesses na esfera da política, na política como catarse, e na política como relação
governantes/governados , G , em nenhum momento, nega o fato de que a base, o
momento determinante da vida social é o que ele chama de relações sociais de
produção ...É bom eu lembrar isso porque a partir de Bobbio ... criou-se uma leitura
de G muito complicada. G tem um conceito de sociedade civil diferente de Marx
(vamos ver isso mais adiante). Marx reduz a sociedade civil ao mundo das relações
econômicas. G, ao contrário, faz da sociedade civil o mundo das organizações, que
ele chama de aparelhos privados de hegemonia. Ora, como a sociedade civil em
Marx era o teatro da história (a expressão é de Marx), ou seja, o local onde as coisas
ocorriam ... o Bobbio leu G como se G estivesse transferindo o papel de teatro da
história da sociedade civil entendida como mundo da economia para a sociedade civil
enquanto momento da superestrutura. Eu não se você leram aquele livrinho dele –
CONCEITO DA SOCIEDADE CIVIL EM GRAMSCI.... É uma leitura interessante.
Ele faz um belo retrospecto dos conceitos de sociedade civil, até recomendo para
quem está interessado em saber o que é sociedade civil em Marx e em G. Mas o fato
é que tudo isso o leva a uma interpretação extremamente equivocada do movimento
de reflexão de G.
O que é que G faz? G enriquece a superestrutura. Mas a superestrutura não apenas o
momento coercitivo mas na superestrutura também se incluem os momentos de
organizações voluntárias, sindicatos, partidos, faz parte da esfera do poder, faz parte
do Estado. Isso é uma descoberta de G (nós vamos ver isso mais adiante). Ou seja,
as pessoas viram que existia uma coisa acontecendo por aí, mas ter dado um nome a
essa nova esfera do ser social, que não existe por exemplo plenamente desenvolvida
no século XVIII nem no início do século XIX, é uma coisa que cresce realmente
quando os sindicatos operários se organizam fortemente, quando surgem partidos de
massa, quando há uma socialização da política surgiu uma sociedade civil com uma
autonomia relativa e G foi o primeiro a ... uma coisa nova. Usou um termo velho
para designar uma coisa nova. Mas ele mesmo diz nos Cadernos que sempre
acontece assim . Em geral chama-se uma coisa nova com um nome antigo, o que
freqüentemente atrapalha a compreensão plena de alguns pensadores. No caso de G
dá essa problema.
Então, dizia eu: não é verdade que G afaste esse caroço do marxismo quando o
marxismo diz que em última instância os fenômenos sociais são determinados pelo
nível econômico. Eu até diria que não é bem assim. Essa é uma leitura equivocada.
Eu diria que Marx disse, está na Introdução da CONTRIBUIÇÃO ... que nas
totalidades sociais há um momento predominante (em alemão .... moment). Na
totalidade social o momento predominante , o momento que arrasta é o momento da
economia, mas não é que existe uma economia fora da sociedade, ... A economia é
fator determinante (fator é até um termo rui). É um conjunto de relações que é
determinante na medida em que ele estabelece a pré-condição eterna da reprodução
social, o metabolismo do homem com a natureza. Isso até Santo Agostinho sabia:
primeiro come-se, depois filosofa-se. Então, é condição básica de reprodução. E
mais: é aí nessa esfera onde surgem as classes sociais. É no terreno das relações de
produção, que é o modo pelo qual os homens se organizam entre si para dominar a
natureza - forças produtivas, é no terreno das relações de produção que surgem as
classes sociais que são, o Marx disse isso várias vezes, o motor da história. Mas
vimos também ao falar de G que evidentemente a história se resolve no terreno da
política ou mais precisamente da ideologia, ideologia no sentido que vimos antes.
Há um momento interessante que ele diz, criticando Boukharin, porque este último
reduz as forças produtivas ao que ele chama “instrumento técnico”, que é uma leitura
errada do marxismo. Forças produtivas é não só a técnica mas é também a
capacidade que o homem elabora não só de criar o instrumento técnico mas de usar o
instrumento técnico . Força produtiva não é apenas o computador mas o conjunto de
conhecimentos que leva você a criar o computador, os programas de computador.
Então ciência é uma força produtiva. ... Então a ciência é neutra, não tem ciência
física burguesa e ciência física proletária. ... É um atraso, um besteirol. Quando
apareceu a cibernética foi tida como ciência burguesa. Então eles demoraram muito
tempo para desenvolver as tecnologias que levavam ao computador porque eles
achavam que aquilo era maluquice . Então vejam bem: combatendo essa posição do
Boukharin G diz assim: “a concepção do instrumento técnico é inteiramente errônea
no ENSAIO POPULAR de Boukharin. Parece que foi precisamente Loria , um
italiano, o primeiro a substituir arbitrariamente a expressão forças materiais de
produção e conjunto das relações sociais pela expressão “instrumento técnico”. Ou
seja, a economia é o momento predominante”. Vamos entender o que é economia.
Economia não é técnica, economia não é forças produtivas apenas, é conjunto das
relações sociais e portanto implica as forças produtivas e conjunto das relações
sociais de produção. Mais adiante ele diz o seguinte: “a estrutura e a superestrutura
formam um bloco histórico, ou seja, o conjunto complexo contraditório da
superestrutura é um reflexo do conjunto das relações sociais de produção” . Eu acho
que mais claro do que isso é impossível. Então chamar G de idealista depois de ler
isso aqui ...
O que é que ele está percebendo ? Primeiro: que as superestruturas se
complexificaram muito. Tanto mais se desenvolve o capitalismo, tanto mais
complexas são as superestruturas. Mas isso não anula o fato de que elas, em última
instância, são determinadas pelo .... Ou seja, infraestrutura e superestrutura foram um
bloco histórico, ou seja, uma totalidade. BLOCO HISTÓRICO em G é uma
expressão que pode ser lida certamente como totalidade.
Porque ele sabe que a superestrutura não é um mero epifenômeno, alguma coisa que
não tem ... no real, fica claro na teoria dele de que a ideologia é uma verdade prática
(como vimos antes), ou seja, universalmente intersubjetiva, vira objetivo no terreno
social. Então ele não está evidentemente reduzindo a infraestrutura a alguma coisa
que não tem um peso ontológico. Tem um peso ontológico, mas o momento
determinante é o momento das relações sociais de produção.
Um outro ponto extremamente importante ... o lugar onde G aplica com grande
competência suas teorias sobre a política é a análise da CORRELAÇÃO DE
FORÇAS. A realidade social para G é em grande parte é Correlação de forças. Há
um critério interessante ... qual é o conceito mais importante da ontologia social
política de G. Vários são importantes : política como catarse ... Mas há um muito
importante de que a sociedade é relação de forças. É outra maneira de dizer LUTA
DE CLASSES. Mas eu acho que ao dizer relação de forças eu acho que ele mostra ...
Como é que a história se move ? Através da mudança da correlação de forças. Uma
grande preocupação dele é exatamente como é que as classes subalternas operarão no
sentido de mudar a correlação de forças e tornar essa correlação mais favorável.
Mas no parágrafo 17 do Caderno 13 (volume 3) que se chama precisamente
ANÁLISE DAS SITUAÇÕES COMO CORRELAÇÃO DE FORÇAS ele vai dizer
como analisar uma correlação de forças. Até o Betinho escreveu um artigo pequeno
inspirado nisso. Então ele vai falar de 3 níveis de análise de correlação de forças . O
1° é o nível é um nível objetivo, e ele volta a falar naquela coisa de Marx de mera
ciência natural, ou seja, como é a estrutura econômica do país, como é que as classes
são distribuídas na população economicamente ativa, qual é a relação entre
população urbana e população rural. Vejam bem: a análise dessa conjuntura
econômica é fundamental para desenvolver uma análise da correlação de forças. Eu
não posso propor que o proletariado faça uma revolução se eu chego à conclusão de
que o proletariado na população economicamente ativa do país corresponde a 1%.
Eu não posso propor a ação central da política de esquerda a reforma agrária num
país onde só 18% da população vive no campo (caso brasileiro) . É importantíssima a
reforma agrária, mas ela não é o centro, hoje, não é mais, embora tenha sido no
passado.
Então, essa análise objetiva é condição para o segundo e terceiro momentos da
análise que são especificamente políticos. Primeiro é ... da correlação de forças
política que eu farei como ? – diz G. Vendo por exemplo o nível de consciência que
os grupos sociais obtiveram. Eles já chegaram ao ético-político ? Já operaram a
catarse ? Ou ainda estão no econômico-corporativo ? Estão se organizando
adequadamente ? Como é que se distribuem nessa sociedade a organização social ?
Eu diria que é a análise mais precisamente da sociedade civil. Se a primeira análise é
a análise ... sociedade econômica, ou seja, o mundo das relações sociais de
produção, o segundo momento é uma análise de como essas forças estão alinhadas
nisso que ele chamou de sociedade civil.
Então vejam: sociedade civil (voltaremos a isso posteriormente) é terreno de conflito.
Não é essa coisa boazinha de terceiro setor, do voluntariado, que está para além do
Estado e do mercado. ...é expressão da luta de classes (portanto tem um vínculo
com o mercado) e é o momento do Estado, não é um terceiro setor. E a análise da
correlação de forças no quadro da sociedade civil vai mostrar isso: como está a
correlação de forças ?
E, finalmente, um terceiro nível, que é o que ele chama de CORRELAÇÃO DE
FORÇAS POLÍTICO-MILITAR. Onde conta já a análise do embate de classe em
torno do estado e os momentos de ruptura militar que isso provoca. Claro que G vê a
possibilidade do uso de violência no processo político, embora ele proponha uma
transformação ... ou seja de uma conquista, ...., ele não nega a possibilidade de um
enfrentamento de tipo militar. Aqui ele insiste claramente que o militar está
subordinado ao político e não o político ao militar. O uso dos recursos militares é
determinado por uma análise política da situação e não ao contrário. Recomendo a
vocês porque é um texto muito rico, e que eu não vou conseguir resumi-lo com toda
a riqueza de G. Chamo a atenção para o seguinte: 1°) é um dos momentos mais
fundamentais dos Cadernos do Cárcere , um dos momentos mais brilhantes; 2º) o
conceito de correlação de forças é um conceito que atravessa os Cadernos, é o modo
com o qual G trabalha com a idéia de luta de classes. Como é que isso se expressa ?
Através da correlação de forças. O texto está na velha edição está em MACHIAVEL
– ANÁLISE DA SITUAÇÃO DA CORRELAÇÃO DE FORÇAS. Na nova edição
(Record) ele é o parágrafo 17 do Caderno 13.
(interrupção da fita)