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LAZER, TRABALHO E QUALIDADE DE VIDA NA ESCOLA TÉCNICA.

Breno Samuel de Souza1


Rodrigo de Oliveira Gomes 2
Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG)
Congonhas – MG – Brasil

RESUMO: A formação profissional nos Institutos Federais de Ciência e Tecnologia é


uma das possibilidades de educação que tem apresentado contribuições aos brasileiros.
O estudo descreveu a percepção dos alunos dos cursos técnicos integrados sobre a
importância da relação lazer e trabalho (obrigações escolares) na melhoria da qualidade
de vida ao optarem por este tipo de formação. Foram utilizadas as técnicas de
observação participante e entrevista semiestruturada com os alunos do ensino médio
integrado do IFMG Campus Congonhas. Os resultados mostraram que existe, por parte
dos alunos, a necessidade em externalizar que a rotina é cansativa, difícil e que houve
piora da qualidade de vida a partir da entrada no Instituto, porém constatamos que os
afazeres escolares são, em alguns casos, subvertidos através de práticas transgressoras
na busca por momentos de lazer dentro da instituição. Constatamos que a qualidade de
vida dos estudantes perpassa novas formas de organização da rotina e que a conquista
pelo direito ao lazer faz parte de suas exigências dentro e fora do ambiente escolar.

PALAVRAS CHAVE: Lazer, Qualidade de vida e Formação Profissional.

LEISURE AND TRAINING: A STUDY AND BACHELOR DEGREE IN


PHYSICAL EDUCATION

ABSTRACT: Vocational training at the Federal Institutes of Science and Technology


is one of the possibilities for education that has made contributions to Brazilians. The
study described the students' perception of the integrated technical courses on the
importance of the leisure and work relationship (school obligations) in improving the
quality of life when choosing this type of training. Participant observation techniques
and semi-structured interviews were used with IFMG Campus Congonhas students. The
results showed that there is a need on the part of the students to externalize that the
routine is tiring, difficult and that there was worsening of quality of life from the time of
entry to the Institute, but we find that the school tasks are in some cases subverted
through transgressive practices in the search for moments of leisure within the
institution. We find that the students' quality of life permeates new forms of routine
organization and that achievement for the right to leisure is part of their demands within
and outside the school environment.

KEYWORDS: Leisure, Quality of Life and Vocational Training.

1
Bolsista do Programa Institucional de Iniciação Científica (PIBIC Jr - 2014/2015) via IFMG Campus
Congonhas. Aluno do curso técnico integrado em Mineração do IFMG Campus Congonhas.
2
Docente do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais Campus Congonhas. Doutorando
em Educação pela Universidade Nacional do Rosário. Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade
Federal de Minas Gerais. Licenciado em Educação Física. Doutorando em Ciências da Educação pela
Universidade Nacional do Rosário/AR e Universidade Federal de Minas Gerais
INTRODUÇÃO

Partimos do entendimento do conceito de lazer para fundamentar nossas ideias.


Como fenômeno social, o identificamos a partir dos estudos do sociólogo francês Joffre
Dumazeidier em 1973 que definia suas dimensões através de um conjunto de ocupações
em que os indivíduos deveriam entregar-se de livre vontade, seja para repousar ou
divertir, ou ainda desenvolver sua formação desinteressada, sua participação social
voluntária ou sua capacidade criadora após livrar-se de todas as suas obrigações.
Nas décadas de 1980 e 1990 o sociólogo brasileiro Nelson Carvalho Marcellino
avança na compreensão sobre o Lazer evidenciando-o como cultura compreendida em
seu sentido mais amplo – vivenciada (praticada ou fruída) no tempo disponível. O
importante, como traço definidor, é o caráter ‘desinteressado’ dessa vivência. Não se
busca, pelo menos fundamentalmente, outra recompensa além da satisfação provocada
pela situação. Vários outros autores teceram conceituações sobre Lazer nos últimos
anos.
Merece destaque a conceituação da pesquisadora Christianne Luce Gomes
(2004) que define Lazer como dimensão da cultura. Neste sentido, o lazer é
caracterizado pela vivência lúdica de manifestações culturais no tempo/espaço social.
Constituído conforme as peculiaridades do contexto histórico e sociocultural no qual é
desenvolvido. O lazer implica em produção: de cultura, no sentido da reprodução,
construção e transformação de práticas culturais vivenciadas ludicamente por pessoas,
grupos, sociedades e instituições.
Essas ações dialogam e sofrem interferências das demais esferas da vida em
sociedade e nos permitem ressignificar, simbólica e continuamente, a cultura. A
disponibilidade de tempo significa possibilidade de opção pela atividade prática ou
contemplativa. Com isso, e ao refletir sobre a evolução dos conceitos sobre o Lazer
compreendemos que ele não esta deslocado das lógicas do trabalho. Muito menos está
contraposto às obrigações cotidianas. Lazer e trabalho são faces de uma mesma moeda
social e neste sentido trazem diálogos com a vida dos sujeitos em suas lógicas de
produção e reprodução sociais.
Entendemos que o conceito de trabalho possui duas lógicas a serem destacadas.
Uma histórica e outra ontológica que não se contrapõem na práxis do conhecimento.
São lógicas que se complementam. O processo de trabalho é uma condição própria do
ser humano para, ao se relacionar com a natureza, produzir sua existência,
independentemente da forma social (Marx, 2001). Neste ponto, o homem utiliza-se do
domínio de sua corporeidade, para apropriar-se, e assim relacionar-se com a natureza,
criando suas condições de desenvolvimento em qualquer circunstância da vida.
O trabalho, portanto, nasce da necessidade do ser humano desenvolver-se
socialmente conforme os ofícios que lhe são dispostos ou conquistados através das
relações sociais que compõe as lógicas de mercado e desenvolvimento produtivo. Está
intrinsecamente ligado as manifestações de poder e exercício de valores humanos, pois
partimos da compreensão de que como invenção humana, o trabalho é culturalmente
engendrado nas teias cotidianas nos seus diferentes interesses, posição econômica e
status social.
Segundo Melo e Alves Junior (2003), trabalho e lazer não são dimensões opostas
da vida humana, por isso não é difícil observarmos a incorporação (ou a tentativa) de
especificidades de uma à outra, mas que deve ser observado com olhar crítico. Segundo
os autores, é o que chamamos de produtivização do lazer3 e pseudoludicidade do
trabalho4. Para além de suas relações com a dimensão do trabalho, o lazer estabelece
íntimas relações com outras esferas, tais como a saúde, a educação, a religião, a política,
dentre outras.
No que se refere à saúde, existe um tratamento reducionista do termo
relacionado à ausência de doenças e uma compreensão de que as vivências de lazer são
diretamente associadas à produção de saúde. Segundo Carvalho (2008), algumas das
referências que fundamentam os trabalhos de lazer com enfoque na saúde são
excludentes, preconceituosas, discriminatórias e pobres.
O campo da saúde coletiva, que contempla a saúde pública, a medicina
preventiva e a epidemiologia, não aparece nas discussões sobre o lazer. É importante
ressaltar que a saúde e o lazer são aqui compreendidos como fenômenos e necessidades
sociais, bem como direitos sociais de todos os cidadãos. Carvalho (2005) destaca que
na dimensão teórico-conceitual e metodológica, a saúde coletiva incorpora
conhecimento e perspectivas do campo das ciências humanas, chamando a atenção dos
profissionais voltados para a saúde.
Esses profissionais devem compreender a natureza pedagógica da sua
intervenção, considerando fatores culturais, históricos, econômicos e políticos,

3
A produtivização do lazer está relacionada à possibilidade de levarmos a lógica da rotina diária, marcada
pelo trabalho, para os momentos de lazer.
4
Iniciativas desenvolvidas por empresas que permitem a realização de determinadas “vivências lúdicas”
no âmbito do trabalho.
relevando os elementos da cultura corporal como manifestações e expressões humanas
com historicidade e significado para fazer contraponto à visão estritamente orgânica de
corpo. Assim, ao pensar na Escola Técnica/Tecnológica com suas especificidades de
tempo e espaço para formação dos sujeitos deparamo-nos com indagações sobre os usos
e as apropriações desses tempos e desses espaços, analisados aqui como fenômenos de
uma cultura do/para o trabalho.
No caso do Ensino Médio Integrado o tempo da formação é expandido
perfazendo uma carga horária aproximada de 18 horas/aulas por semana em disciplinas
do currículo regular somadas às do currículo da formação técnica. O tempo de
convivência diária no Instituto pelos alunos é de aproximadamente 10 horas. Início das
aulas às 07h30min horas. Intervalo de 20 minutos das 10h00min às 10h20min horas.
Almoço das 12h00min às 14h00min horas. Intervalo de 20 minutos das 15h40min às
16h00min horas. Termino do dia letivo às 17h40min horas.
Como o Instituto localiza-se em uma região afastada do centro urbano os alunos
permanecem na Instituição nos intervalos e horário de almoço. Isso tem gerado novas
formas de apropriação das lógicas de produção e apropriação cultural pelos alunos no
ambiente escolar. Questões como sedentarismo, estresse, má organização do tempo para
as rotinas escolares, dificuldade em aperfeiçoar os estudos, acentuação da evasão
escolar e quebra da qualidade de vida dentro e fora da escola são temáticas que
perpassam o escopo desta investigação, pois emergem das tensões entre as obrigações e
os lazeres nesta nova forma de organização de vida assumida pelos alunos. A seguir,
apresentamos os caminhos metodológicos construídos e executados ao longo da
pesquisa.

METODOLOGIA

Alicerçados em Triviños (1987) optamos por uma pesquisa de caráter qualitativo


na intencionalidade em não apenas descrever a aparência do fenômeno como também
sua essência procurando explicar sua origem, suas relações e suas mudanças no esforço
por intuirmos sobre as diferentes relações estabelecidas pelos alunos em seu universo
escolar.
Diante disso, fizemos a combinação da pesquisa bibliográfica com a de campo.
A revisão literária foi realizada através de materiais públicos como: livros, monografias
e teses. O material bibliográfico coletado passou por temas como: qualidade de vida,
formação profissional técnica/tecnológica, obrigações escolares, lazer, saúde e
qualidade de vida.
Na pesquisa de campo utilizamos duas técnicas: a observação participante e a
entrevista semiestruturada. A observação aconteceu de forma livre e cuidadosa sempre
norteada pelos objetivos do estudo e pelas diretrizes da pesquisa. Acompanhamos o
cotidiano dos alunos de maneira global tentando perceber suas relações com as
obrigações escolares e as apropriações e usos de seus tempos livres no ambiente escolar.
Após isso, foram feitas as entrevistas semiestruturadas com alunos dos cursos do
ensino médio integrado, escolhidos de maneira aleatória e voluntária. A amostra para
análise foi composta por dez alunos. Antes de darmos início às entrevistas foi lido um
termo de consentimento livre/esclarecido e foi coletada a assinatura dos entrevistados.
Foi ressaltada perante o contribuinte a confidencialidade dos dados e o objetivo do
estudo. Para realização das entrevistas foram elaboradas dez perguntas e feitas outras
mais no decorrer da mesma, fato este que a semiestruturarão da entrevista nos permitia.
Na análise dos dados coletados utilizamos os pressupostos de Bardin (2008) em
sua perspectiva da análise de conteúdo que pretende estudar as características de uma
mensagem através da comparação destas mensagens para receptores distintos, ou em
situações diferentes com os mesmos receptores. Além disso, considera o contexto ou o
significado de conceitos sociológicos e outros nas mensagens, bem como caracteriza a
influência social das mesmas.
Para tais ações metodológicas, buscamos alicerçar os procedimentos em
conformidade com as exigências da iniciação científica, principalmente na
integralização dos doze meses para apresentação dos resultados. A triangulação dos
dados trouxe quatro categorias: Os sujeitos e suas percepções sobre o Lazer na Escola
Técnica; As apropriações dos espaços de Lazer no Campus Congonhas; Tempo,
organização e rotina escolar; Qualidade de Vida na escola técnica: entre trabalho e lazer.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Diante dos debates sobre os estudos acerca do lazer e das obrigações escolares
(trabalho) relacionadas à constituição das escolas técnicas brasileiras esta análise tem
como objetivo discutir as relações entre qualidade de vida e universo escolar através do
exercício interpretativo das entrevistas com alunos dos cursos médio integrado do
IFMG Campus Congonhas. Assim, o eixo norteador foi a temática do Lazer nas
interfaces com as obrigações escolares; as apropriações dos espaços institucionais; o
tempo e suas rotinas e as nuances relativas a conquista ou não de qualidade de vida
pelos sujeitos entrevistados.

Os sujeitos e suas percepções sobre o Lazer na Escola técnica

No decorrer das entrevistas e depois nas transcrições/análises das mesmas foi


observada uma frequente associação entre o lazer e a realização de atividades, tais
como: as esportivas (atividades físicas), a música, o teatro, a dança e, até mesmo, o
cinema e a leitura. Decorrente desse fato percebemos relações com os diferentes
interesses culturais do lazer ressaltando que a realização destas atividades, em sua
maioria, demonstra a satisfação dos entrevistados na busca por desprender-se da rotina
cansativa estabelecida pelas relações escolares ajustadas pelo IFMG Campus
Congonhas.
Para os entrevistados a busca por satisfação durante o tempo de permanência no
Instituto ocorre através de atividades que consideram ser lazer (rodas de conversas,
jogos de cartas, jogos eletrônicos, atividades artísticas, interações nas redes sociais
virtuais) e que lhes tragam prazer e bem estar aliviando a rotina maçante de aulas.
Ao longo da análise desta primeira categoria pudemos compreender que essas
práticas ou atividades são variadas e possuem estreita relação com tensões geradas em
torno das proibições, regulamentações e busca por divertimentos que estão impressos na
cultura escolar do Campus Congonhas.
Tendo em mente essas questões, constatamos que as percepções dos
entrevistados sobre o lazer vão de encontro à luta pela legitimidade desse fenômeno
dentro do Campus como direito e como necessidade para que a permanência na
Instituição torne-se mais prazerosa.
Percebemos que ao visualizarem tal expectativa os sujeitos mostram-se atentos
às construções sociais no Campus, bem como interagem com elas. A seguir
discutiremos a segunda categoria que aprofundará um pouco mais as relações do ponto
de vista dos usos e apropriações dos espaços escolares.
Apropriação dos espaços escolares: entre obrigações e o lazer

O conceito de lugar como ambiente cotidiano que sofre diversas influências,


entre elas: sociais, culturais, históricas e simbólicas, poderia possibilitar
inteligivelmente experiências significativas às pessoas, transformando um espaço
inapropriado, comum e sem sentindo em um lugar com amplo significado, a fim de
despertar nos indivíduos, o sentimento de pertencimento, de fazer parte do processo, ou
melhor, de se reconhecer. Essa situação foi vista durante as observações de campo.
Percebemos o envolvimento dos estudantes com os espaços disponíveis para o
lazer no Campus. Apesar da escola não ser considerada um equipamento de lazer, ela
acaba se tornando e traduz esta função. Os alunos participam de atividades como:
gincanas, sábados letivos com atrações culturais diversificadas, torneios, festas, entre
outros. Estas atividades vão além das aulas formais em sala de aula.
Ao compreendermos tal realidade concordamos com Rechia e França (2006,
p.63) sobre a ideia sociológica da categoria espaço. Para os autores, o espaço “passa a
ser importante instrumento analítico e ferramenta interpretativa” tornando-se um meio
de intensas compreensões das relações estabelecidas no interior do ambiente escolar.
Assim, constatamos que mesmo com a generalização dos discursos sobre a
restrição do uso de determinados espaços, os alunos vem traduzindo suas relações
sociais neste ambiente de forma ora agregadora (em atividades ditas permitidas), ora
subversiva (em atividades ditas proibidas). A seguir discutiremos as relações entre
tempo, obrigações escolares e lazer.

Tempo, organização e a rotina escolar.

Em geral toda articulação sobre o aproveitamento do tempo livre dentro ou fora


do ambiente escolar e a realização da prática do lazer, gira em torno do objetivo de
alcançar o prazer. Com o intuito de obter um tempo no qual se tenha a chamada
“válvula de escape” ou alívio da rotina. É o que Gutierrez chama de “prazer
substantivo”, ou seja, um prazer pessoal, independente qual seja, mas que traga
satisfação para o “eu”.
Isto no faz voltar ao início dos estudos para essa análise, quando Gomes,
questiona: O que é que no tempo livre de verdadeiramente libertador? Uma das
sugestões para a resposta desta pergunta, pode ser a busca pelo prazer, a satisfação
pessoal em que fica oprimida muitas vezes quando se está realizando trabalho. No caso
dos estudantes do IFMG quando se estão estudando.
O momento do “não estudo” é dito libertador e leva a busca por atividades que
tragam descontração. Mas como já foi relatado, ficam restritos, pois, muitas vezes
nestes momentos “livres” ainda se restringem as atividades escolares. O tempo de
convivência diária no Instituto dos alunos é de aproximadamente 10 horas por dia e a
localização do mesmo está em uma região afastada do centro urbano. Isto tem
acarretado mudanças na vida dos alunos do IFMG Campus Congonhas no que diz
respeito às suas possibilidades de escolha dos momentos de lazer.
Pudemos perceber que esta realidade gera um ciclo de experiências que torna a
vida destes alunos exclusiva à Instituição de Ensino e assim gera tensões para dentro e
fora do universo escolar. A seguir discutiremos como tais tensões têm influenciado na
qualidade de vida destes sujeitos e quais as relações que se estabelecem neste contexto.

Qualidade de Vida na escola técnica: entre trabalho e lazer

Na busca por uma análise mais aprofundada sobre os conteúdos trazidos pelas
entrevistas, triangulamos os dados tentando responder as perguntas norteadoras deste
estudo. Assim, esteve cada vez mais latente uma categoria voltada para reflexões acerca
do entendimento dos estudantes sobre qualidade de vida e suas relações com o cotidiano
escolar.
De acordo com Minayo; et al (2000, p. 10) qualidade de vida “é uma noção
eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na
vida familiar, amorosa, social, ambiental e também na própria estética existencial”.
A partir deste ponto de vista, verificamos dificuldades nos entrevistados em
relacionar qualidade de vida ao espaço escolar, uma vez que, demonstraram viver uma
rotina cansativa de aulas e obrigações acadêmicas. Deste modo, quando Minayo (2000)
refere-se ao grau de satisfação que é vivenciado em momentos sociais para atingir
qualidade de vida, partimos da compreensão sobre as enunciações dos sujeitos
entrevistados, de que no IFMG Campus Congonhas as experiências ou momentos
cotidianos não são prazerosos.
Ao afirmar esta reflexão entendemos que tal construção da realidade possuiu
inúmeros aspectos que devem ser levados em consideração, tais como: o nível de
consciência dos alunos sobre o que é qualidade de vida; as relações e tensões que os
alunos estabelecem com os estudos; a forma com que a Instituição formaliza suas
propostas curriculares; a noção de cumprir as obrigações versus subverter a ordem
vigente; a tentativa de moldar a realidade para interesses próprios – isto quer dizer que,
muitas vezes e ao longo das demais análises percebemos nos discursos dos alunos a
constante tentativa em afirmar que há um excesso de obrigações, mas ao mesmo tempo
em que vivenciam e desobedecem a regras escolares para conquista de experiências que
lhes são prazerosas: jogar baralho, jogar cota três, acessar jogos virtuais nos laboratórios
de informática, organizar rodas de violão atrás do poliesportivo, entre outros pontos já
destacados.
Mas isto não implica afirmar que eles não compreendam o que é qualidade de
vida, pelo contrário, trazem saberes pertinentes para a análise. Surgem entendimentos
que relacionam qualidade de vida à bem estar, à conquista de hábitos mais saudáveis, ao
equilíbrio entre a rotina de trabalho e possibilidades de lazer.
Diante dos conceitos que os alunos têm, quando questionados sobre a qualidade
de vida em geral, citaram a alimentação e o bom sono como pilares para alcança-la. Já
dentro da instituição as atividades físicas foram citadas como algo primordial, para
adquiri qualidade de vida, uma vez que, o sono e a alimentação se tornam
comprometido diante das obrigações escolares.
Portanto, de acordo com o que foram analisados, obtivemos inúmeros pontos de
vistas referentes ao conceito de qualidade de vida, pois se trata de um termo muito
amplo, e pode variar de indivíduo para indivíduo. Mas, foi possível diagnosticar que,
após o ingresso destes alunos na instituição técnica de ensino médio, eles relataram
obter grandes impactos em seus estilos de vida. Estes impactos foram principalmente
decorrentes da elevada carga horária e obrigações escolares, que tornam á diminuírem o
tempo para a prática de atividades prazerosas e que trazem satisfação, afetando deste
modo a qualidade de vida destes indivíduos. .

CONCLUSÕES

Neste estudo, procuramos discutir os impactos na qualidade de vida dos alunos


do médio integrado ao optarem pela escola técnica buscando compreender as lógicas de
apropriação dos tempos e espaços escolares entre as obrigações e as possibilidades de
lazer. Além disso, analisamos a percepção dos alunos sobre a relação lazer, trabalho e
qualidade de vida. Nossa expectativa foi entender como os alunos, nessa nova fase
acadêmica, se organizam, percebem, constroem e interpretam seu cotidiano em relação
às temáticas propostas.
Pudemos constar que existe uma centralização dos discursos sobre o excesso das
obrigações escolares e a longa duração da rotina de estudos. No decorrer das análises e
categorizações entendemos que a principal justificativa dos entrevistados para tecer
argumentações sobre a relação entre lazer e trabalho foi a grande quantidade de
afazeres, disciplinas e tarefas que sobrecarregam o dia a dia e impedem a melhoria da
qualidade de vida dentro e fora da escola.
Essa lógica colocada pelos alunos é contraditória ao percebemos como eles se
apropriam dos espaços e tempos escolares. Apesar de insistirem na argumentação do
acúmulo de obrigações, mostraram uma série de vivências e atividades que se envolvem
dentro da Instituição na interface entre lazer e trabalho, que vão desde rodas de conversa
nos grupos de convivência, passando por atividades esportivas e artísticas, até na
subversão das regras colocadas pela Escola quanto ao uso dos laboratórios de
informática e da quadra poliesportiva, bem como das práticas com baralho e do uso de
aparelhos eletrônicos para divertimento.
Desta forma, constatamos que mesmo com a generalização dos discursos sobre a
restrição do uso de determinados espaços em determinados horários, os alunos vem
traduzindo suas relações sociais neste ambiente de forma ora agregadora (em atividades
ditas permitidas), ora subversiva (em atividades ditas proibidas) mostrando, portanto
que não há neutralidade nas ações e intenções, muito menos alienação aos processos de
permanência na Instituição. Existe um movimento constante de reflexão por parte dos
alunos sobre o que é permitido e proibido no que tange as práticas recreativas ou de
lazer.
Assim, constatamos que as percepções dos entrevistados sobre o lazer vão de
encontro à luta pela legitimidade desse fenômeno dentro do Campus como direito e
como necessidade para que a permanência na Instituição torne-se mais prazerosa.
Percebemos que ao visualizarem tal expectativa os sujeitos mostram-se atentos às
construções sociais no Campus, bem como interagem com elas.
Na perspectiva de aproveitamento das lógicas de tempo, foi possível perceber
que as obrigações escolares acompanham o aluno até mesmo fora da escola, como nos
finais de semana, feriados e o período noturno. Foi possível observar também, que
muito dos alunos apagam o tempo que seria livre para respeitar as obrigações escolares
fundamentais do Instituto, ficando, por isso, cada vez mais distantes de atividades de
lazer.
Percebemos então, certa contradição já que eles reconhecem a necessidade do
tempo livre para prática do lazer, mas que por motivo de priorização, o deixam de lado e
se debruçam diante das atividades ditas obrigatórias, respeitando a lógica excessiva de
produção e rendimento característica do Instituto.
A articulação presente com relação ao lazer e ao aproveitamento do tempo
dentro e fora do Instituto, está ligado com a prática de atividades no tempo livre que
garantem aos alunos, principalmente, o prazer e o alívio da rotina cansativa sendo visto
como uma válvula de escape. Mas, esse momento de “não estudo”, sendo reconhecido
por eles como libertador, está cada vez mais comprometido e restrito, já que na maioria
das vezes nesse período ainda se restringem às atividades escolares.
Diante das perspectivas de qualidade de vida depois do ingresso no Instituto, fica
claro o discurso de que é algo muito difícil de ser alcançado devido, mais uma vez, às
intensas obrigações escolares. Para eles o IFMG se baseia em atividades estritamente
escolares. A escola passa a se tornar um local totalmente avesso a práticas de atividades
que poderiam de alguma forma, garantir-lhes qualidade de vida. No discurso
apresentado pelos entrevistados foi possível perceber que eles associam a qualidade de
vida principalmente ao bem estar e, portanto, satisfação pessoal apesar da qualidade de
vida ser algo inteiramente pessoal, particular de cada indivíduo.
Por outro lado, pudemos perceber que os estudantes apesar do discurso contrário
a práticas saudáveis, se envolvem nas dependências do Instituto em atividades que
garantem de certa forma a eles qualidade de vida. Mesmo sem perceber tais atividades,
talvez pelo estereótipo estabelecido por grande parte dos alunos como se a escola fosse
um lugar avesso a práticas saudáveis. Muitos deles se envolvem em torneios, festivais,
gincanas, jogam baralho, corta três, acessam internet nos laboratórios além de jogarem
virtualmente, fazem rodas de violão e outras atividades mencionadas durante a pesquisa.
A fim de buscar essas conquistas que são para eles, prazerosas, subvertem algumas
regras escolares contradizendo em partes o discurso apresentado anteriormente.
A quantidade de obrigações contribui notoriamente para a diminuição do acesso
a uma efetiva qualidade de vida. Os horários estabelecidos pelo Instituto dificultam
segundo eles a busca pela qualidade de vida. Salientam que horários vagos, intervalos e
o almoço, poderia ser mais bem aproveitado, mas as intensas obrigações não permite tal
feito objetivando a qualidade de vida.
A pesquisa contribui para ampliar as discussões que permeiam temas como saúde,
formação profissional técnica, evasão escolar e sedentarismo. Colaborou também para a
formação do grupo de pesquisas que efetivará as discussões e possibilitará o constante
estudo de tais temas no Instituto, até então, com pouca visibilidade e discussão.

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