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Tradição

Diânica










por Nyx



Versão: 26/12/2017



Aviso: Esta apostila foi feita para orientar mulheres falantes da língua
portuguesa que queiram aprender um pouco mais sobre a Tradição
Diânica, uma das várias formas de espiritualidade feminina. Ela se
baseia em alguns textos básicos e - de forma alguma - esgota o
conhecimento sobre o assunto ou está livre de futuras revisões. Esta
apostila contem traduções e adaptações sobre a Tradição Diânica e não
tem fins lucrativos.






2



ÍNDICE
CAPÍTULO I: História da Tradição Diânica e alguns esclarecimentos sobre os termos
utilizados. ....................................................................................................................4
Definição ........................................................................................................................................................................ 4
A Tradição Diânica é uma tradição de Wicca? ............................................................................................ 7
A Tradição Diânica McFarland ............................................................................................................................. 9
Autoras diânicas:........................................................................................................................................................ 9
CAPÍTULO II : Características, crenças e conceitos básicos ..........................................11
A TRADIÇÃO DIÂNICA É UM SISTEMA RELIGIOSO HOLÍSTICO BASEADO EM UMA
COSMOLOGIA CENTRADA NA DEUSA E NA PRIMAZIA DAQUELA QUE É TUDO E COMPLETA
EM SI MESMA. ........................................................................................................................................................... 11
A TRADIÇÃO DIÂNICA BUSCA INSPIRAÇÃO NA DEUSA DIANA......................................................... 13
AS PRÁTICAS DIÂNICAS SÃO INSPIRADAS NA CONSCIÊNCIA DE QUE A DEUSA FOI
CONHECIDA ATRAVÉS DOS TEMPOS POR MUITOS NOMES E POR INÚMERAS CULTURAS
EM TODO O MUNDO. ............................................................................................................................................. 14
OS RITUAIS DIÂNICOS CELEBRAM O CICLO MÍTICO DA DEUSA NOS CICLOS SASONAIS
TERRESTRES DE NASCIMENTO, MORTE E REGENERAÇÃO, E NA FORMA COMO ESSES
CICLOS REFLETEM OS CICLOS DA VIDA DAS PRÓPRIAS MULHERES............................................. 15
A TRADIÇÃO DIÂNICA É UMA TRADIÇÃO DE RITUAIS DE MISTÉRIOS DA MULHER QUE
CELEBRA OS EVENTOS DOS CICLOS DA VIDA DAS MULHERES. ....................................................... 19
A TRADIÇÃO DIÂNICA É CELEBRADA POR CÍRCULOS RESERVADOS APENAS ÀS MULHERES.
......................................................................................................................................................................................... 21
A TRADIÇÃO DIÂNICA HONRA AS VOZES, PENSAMENTOS E IDÉIAS DE NOSSAS
ANCESTRAIS, PRECURSORAS E DAS MULHERES EM GERAL. ........................................................... 22
A TRADIÇÃO DIÂNICA ACREDITA NO PODER VINDO DO ÚTERO. ................................................... 27
A TRADIÇÃO DIÂNICA DÁ ÊNFASE AO CORPO DA MULHER COMO MANIFESTAÇÃO DA
DEUSA.......................................................................................................................................................................... 27
O RITUAL E AS PRÁTICAS MÁGICAS DIÂNICAS HONRAM A CRIATIVIDADE, A INTUIÇÃO E A
CAPACIDADE DE IMPROVISAÇÃO DAS MULHERES................................................................................ 27
AS DIÂNICAS RECONHECEM QUE A MAGIA DAS MULHERES É UMA QUESTÃO DE
CONFIANÇA SAGRADA ENTRE AS MULHERES. DESSA FORMA, AS DIÂNICAS NÃO ENSINAM
OS MISTÉRIOS DA MULHER E SUA MAGIA A HOMENS. ........................................................................ 28
A SEXUALIDADE É SAGRADA. TODAS AS FORMAS DE PRAZER SÃO RITUAIS DA DEUSA. ... 28
O LAZER É SAGRADO E O HUMOR É UMA FORMA DE PRÁTICA ESPIRITUAL. ........................... 29
A TRADIÇÃO DIÂNICA É UMA TRADIÇÃO DE PASSAGEM DE CONHECIMENTO........................ 29
A TRADIÇÃO DIÂNICA ADERE À WICCA REDE. ....................................................................................... 29
O PAPEL DO CLERO E ORGANIZAÇÃO DE GROVES, COVENS E CÍRCULOS:.................................. 33

3
CAPÍTULO I: História da Tradição Diânica e alguns
esclarecimentos sobre os termos utilizados.

Definição

A Tradição Diânica é uma religião neopagã centrada nas mulheres,
praticada especificamente por mulheres, que venera a natureza e os
Mistérios da Mulher manifestados pela Deusa em suas infinitas faces.


A Tradição Diânica – também chamada de Wicca Diânica, Bruxaria
Diânica, Bruxaria Feminista Diânica e Tradição Diânica Feminista -
é uma das várias formas de espiritualidade feminina e um tradição
religiosa neopagã1. Suas bases foram estabelecidas pela autora,
taróloga e ativista política Zsuzsanna Budapest (“Z.Budapest”), em 1971,
com a criação do coven Susan B. Anthony No. 1.

A maior contribuição de Zsuzsanna Budapest para a espiritualidade
feminina, porém, foi o livro The Holy Book of Women’s Mysteries
(originalmente chamado de The Feminist Book of Light and Shadows),
escrito e auto-publicado em dois volumes, em 1973 e 1974. O livro é
baseado na relação de Z. Budapest com sua mãe, sua infância e
adolescência na Hungria, em práticas folclóricas, na bruxaria
tradicional de sua família, no movimento feminista de segunda geração

1 Na Wicca e no neopaganismo em geral, o nome “tradição” é dado a uma estrutura

semelhante ao que se chama comumente de ordem religiosa – um grupo religioso


com organização e práticas próprias que, por vezes, pode ter centenas de membros.
Cada tradição tem suas próprias regras, postulantes, iniciados e sistema de ingresso.

O neogaganismo pode ser praticado solitariamente ou em grupos, ligados ou não a
tradições. Esses grupos são denominados “groves”, “covens” e “círculos”,
dependendo de seu tamanho. No dianismo, aplica-se o termo coven para pequenos
grupos (em torno de três a doze membros) e grove para grandes grupos (que
podem chegar a centenas de membros) . Os termos “círculo” e “círculo de mulheres”
são, porém, cada vez mais utilizados por denotar a maior informalidade e a falta de
hierarquia típicas da Tradição Diânica.

4
(que Z. descobriu como refugiada da Guerra Fria nos Estados Unidos) e
no movimento neopagão americano em geral, particularmente aquele
praticado por feministas como Shekhinah Moutainwater, autora do
livro Ariadne’s Thread.

Nos anos 70 e 80, the Holy Book of Women’s Mysteries – por ser uma
versão impressa e sistematizada das práticas do coven Susan B.
Anthony No.1 - serviu de grande inspiração para mulheres que
procuravam, antes da disseminação da internet, uma forma de
espiritualidade própria – um complemento para a segunda geração do
feminismo que revolucionava, naquele momento, o plano social e
político no Ocidente, mas carecia de uma proposta religiosa e
espiritual para as mulheres. Assim nasceu a Tradição Diânica.

Hoje, mesmo mulheres que não estão diretamente ligadas à Z.
Budapest, mas seguem seus princípios, também se auto-denominam
diânicas, diânicas feministas ou bruxas diânicas feministas. Segundo Z.
Budapest, a Tradição Dianica não é uma tradição baseada em uma
linhagem iniciática2. De fato, a grande maioria das diânicas, hoje,
não possuem linhagem iniciática direta com Z. Budapest (ou seja, não
foram iniciadas por ela, ou por pessoas iniciadas por ela). Muitas
praticam solitariamente, seja por circunstância, seja por escolha.

Outras mulheres preferem não adotar a denominação “diânica”,
afirmando apenas que são vinculadas à “espiritualidade feminina”, ao
“Movimento da Deusa” ou ao “sagrado feminino”. Há também aquelas
que apenas se inspiraram nos trabalhos de Z. Budapest e criaram suas
próprias tradições de culto ao sagrado feminino, como é o caso de
Mirella Faur, autora romena radicada no Brasil.

Como a Tradição Diânica é, essencialmente, uma religião de Mistérios
da Mulher, sua prática é reservada às mulheres.


2 Verifica-se, portanto que o termo “Tradição Diânica” é mais abrangente que a

definição mais formal geralmente utilizada nos livros de Wicca, que costumam a
definir como tradição apenas aquelas que adotam um sistema de linhagem iniciática.
Embora a iniciação e a ordenação na linhagem diânica seja possível, ela não é
necessária. Muitas diânicas preferem a auto-iniciação e a auto-ordenação.

5

Há calorosa discussão sobre a possibilidade de participação de
mulheres trans na Tradição Dianica. A criadora da Tradição, Z.
Budapest, e Ruth Berrett, do Circle of Aradia, negam, até o momento,
essa possibilidade. Já Tinnekke Bebout, da Mystai of the Moon acolhe
mulheres trans em seu grupo. Bendis, da Apple Branch, acolhe
mulheres trans desde que já tenham completado o processo de
transição.

Uma sacerdotisa diânica feminista pode fazer parte de outras
tradições pagãs e neopagãs, mesmo mistas, ou celebrar e realizar
rituais com homens, em pé de igualdade, quando várias tradições se
encontram para festivais, conferências, retiros e workshops. Os rituais
e experiências do dianismo, particularmente dos círculos de mulheres,
são, no entanto, reservados às mulheres.

A Tradição Diânica Feminista de Z. Budapest prevê uma tradição
"irmã", reservada aos homens. Essa tradição chama-se Kouretes.3 As
diânicas apóiam tradições de mistérios masculinos e qualquer busca de
espiritualidade que leve à libertação e à maior harmonia com a
natureza.

Por que Feminista?

A Tradição Diânica é profundamente vinculada ao feminismo de
segunda geração e nasce no âmbito deste4. De forma religiosa,
inspirada na veneração das antigas Deusas pagãs, o dianismo feminista
busca o bem-estar, a auto-estima e o empoderamento da mulher nas
sociedades em que o divino feminino foi reduzido ou completamente
negado. Ao reunirem-se em círculos de mulheres e terem como
referencia deidades e mitos femininos, as diânicas buscam re-significar
o sentido de “mulher”. Em outras palavras, elas buscam paradigmas e

3 Até o presente, há apenas um kourete iniciado em todo o mundo: o brasileiro

Claudiney Prieto, que foi iniciado por Z.Budapest. Sua iniciação, porém, não é
reconhecida por algumas diânicas, como Ruth Berrett, lider do Circle of Aradia.
4 O livro Feminist Spirituality – the Next Generation, editado por Chris Klassen,

discute como a terceira geração do feminismo herda e aprofunda as experiências da


espiritualidade feminina, particularmente no âmbito do Movimento da Deusa.

6
referências identitárias para além do olhar masculino e dos paradigmas
patriarcais de religião. No dianismo, mulheres definem e re-significam
a si mesmas e suas relações interpessoais, colocand0-se como
protagonistas de suas próprias existências, que são consideradas
essencialmente divinas.

O estudo do feminismo e das questões de gênero, assim como a prática
desses aprendizados na busca de uma sociedade baseada na
cooperação em oposição a uma sociedade baseada na dominação, são
parte da formação de uma sacerdotisa da Tradição Diânica.


A Tradição Diânica é uma tradição de Wicca?

Essa é uma questão bastante controversa. Z. Budapest, muitas vezes,
chama sua tradição de Wicca Diânica. Budapest, no entanto, como
várias sacerdotisas de sua geração, usam a palavra “Wicca” como
sinônimo ou eufemismo para “bruxaria”.

Aqueles que defendem que a Tradição Diânica é uma forma de Wicca
apontam que ela tem as características essenciais da Wicca: crença em
deidades pagãs; crença no aspecto imanente da divindade;
comemoração dos ciclos da natureza e dos Sabbats; comemoração das
fases lunares; organização em groves, covens ou círculos; crença na
magia e utilização de instrumentos rituais e vocabulário semelhantes
aos da Wicca.

Aqueles que defendem que a Tradição Diânica não é uma forma de
Wicca, enfatizam características particulares do dianismo feminista: a
participação reservada às mulheres; a veneração reservada às Deusas;
maior informalidade nos rituais; ênfase na oralidade e no improviso;
relações hierárquicas menores, diferentes ou completamente ausentes;
utilização de alguns conceitos wiccanos de forma diferente (como é o
caso dos Sabbats); grande ênfase em movimentos sociais,
particularmente o feminismo e o ambientalismo; adoção de fontes
literárias distintas da Wicca e mesmo veneração de alguns ícones
cristãos, em razão de sua origem pagã (como Nossa Senhora de

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Guadalupe) ou em razão do poder feminino que eles simbolizam
(como Joana D’Arc e Maria Madalena).

Nas palavras de Z. Budapest:

“Será que um grupo de mulheres católicas que se encontram para
venerar a Virgem ou Maria Madalena podem ser chamadas de diânicas?
Eu penso que sim. Essa é apenas uma forma astuta de infiltrar as
religiões patriarcais.” 5

No entanto, é importante ressaltar que quase todas as Deusas
veneradas pelas diânicas feministas são Deusas pagãs, colocando essa
religião definitivamente na categoria de religião neopagã. No Circle of
Aradia, de Ruth Berrett, primeira alto-sacerdotisa ordenada por Z.
Budapest, os termos “bruxa”, “neopagã” e “wiccana” são usados
livremente por suas sacerdotisas conforme sua preferência pessoal, não
havendo regras a respeito.

Este debate tem muito a ver com as origens e a história da Tradição
Diânica. Embora ela tenha sido influenciada pela Wicca, ela cresceu de
forma relativamente isolada nos anos 70 e 80, privilegiando contato
com o movimento feminista em detrimento do contato com o
neopaganismo como um todo. Para Jade River, uma das principais
causas que contribuíram para esse isolamento foi o fato de que a
Tradição Diânica só venera o divino feminino, o que era condenado
pela Wicca mais tradicional, River afirma, ainda, que muitos wiccanos
tradicionais se recusavam a celebrar rituais com diânicas, mesmo em
festivais. Além disso, no início do movimento, era muito grande a
presença de lésbicas, que eram discriminadas mesmo no âmbito das
outras tradições neopagãs.

Segundo Jade River, a maior participação de sacerdotisas diânicas em
festivais e celebrações mistas só vai ocorrer a partir do final dos anos

http://forum.myspace.com/index.cfm?fuseaction=messageboard.viewThread&entr
yID=50275137&categoryID=0&IsSticky=0&groupID=106941770&Mytoken=A83A9
3AE-4148-49B3-91DA03EB321F202B122374032

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80. Apesar dessas dificuldades iniciais, hoje em dia, a Tradição Diânica
interage com outras tradições em clima de harmonia e respeito mútuo.

Por entender que a Wicca tem história própria que não
necessariamente se confunde com a Tradição Diânica, essa apostila
utiliza o termo mais abrangente “Tradição Diânica”, mas existem
autoras – inclusive Z. Budapest - que utilizam o termo “Wicca
Diânica”, entre outros. A Tradição Diânica não é institucionalizada,
não possui liturgia uniforme e está sempre crescendo, expandindo e
ganhando novas formas de se denominar e identificar.


A Tradição Diânica McFarland

O movimento neo-pagão é rico e diversificado. É importante recordar
que existe uma tradição da Wicca chamada Tradição Diânica
McFarland, que inspirou várias tradições wiccanas, inclusive no Brasil.
Apesar da coincidência de utilizarem o mesmo nome escolhido por Z.
Budapest, essas tradições são mistas (participação de homens e
mulheres), cultuam a Deusa e o Deus (com ênfase na Deusa) e não se
confundem com a Tradição Diânica conforme formulada por Z.
Budapest, embora, ocasionalmente, possam lançar mão de seus
conceitos e idéias. A McFarland e as tradições dela derivadas não são
tratadas nessa apostila, havendo material abundante sobre essas
tradições em português. 6


Autoras diânicas:

Zsuzsanna Budapest, Ruth Barret, Jade River e Amber K são as
principais autoras declaradamente diânicas. Além disso, autoras
como Vicki Noble, Shekhinah Moutainwater, J. Lyn Studebaker, entre
muitas outras, se alinham fortemente aos ideais diânicos. A autora
Starhawk, criadora da tradição Reclaiming, também foi influenciada
pela Tradição Diânica de Z. Budapest.

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Resumindo:
• Tradição Diânica, Tradição Diânica Feminista, Wicca Diânica,
Bruxaria Diânica ou Bruxaria Feminista Diânica – tradição
fundada por Z. Budapest e seu coven Susan B. Anthony # 1 no
início dos anos 70. Para ser parte da Tradição Diânica basta ser
mulher, venerar os ciclos da natureza, os mistérios femininos e a
Deusa em suas numerosas faces. Não é uma tradição baseada
na linhagem iniciática, isto é, não é necessária iniciação
feita por Z. Budapest ou alguma mulher iniciada por ela
para fazer parte da Tradição Diânica, embora esse caminho
também seja possível. Mulheres que pertencem à Tradição
Diânica costumam se chamar diânicas, diânicas feministas,
diânicas radicais, bruxas diânicas, etc. Trata-se de uma tradição
livre e informal, que cresce e se diversifica a cada dia.
• McFarland Dianic Tradition (anteriormente conhecida
como Old Dianic) e outras tradições inspiradas nesta:
Tradições wiccanas mistas (participação de homens e mulheres)
sem relação com a Tradição Diânica de Z. Budapest, embora
possam lançar mão de seus conceitos (muitas vezes baseados em
Starhawk, que adotou algumas idéias diânicas em seu famoso
livro A Dança Cósmica das Feiticeiras). Veneram o Deus e a
Deusa. Uma grande parte delas – particularmente no Brasil– são
tradições de linhagem.







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CAPÍTULO II : Características, crenças e conceitos básicos7

A TRADIÇÃO DIÂNICA É UM SISTEMA RELIGIOSO HOLÍSTICO BASEADO EM UMA
COSMOLOGIA CENTRADA NA DEUSA E NA PRIMAZIA DAQUELA QUE É TUDO E
COMPLETA EM SI MESMA.

"Há apenas dois tipos de pessoas no mundo: mães e suas crianças."

(Z Budapest)


A Deusa é a vida - a vida em toda a existência. A Deusa dá, sustenta,
interrompe e transforma a vida, gerando mais vida. A Deusa das
diânicas é a Mãe Natureza.

A espiritualidade diânica reivindica a Deusa como a Fonte da Vida, a
quem todos retornaram após a morte. Os rituais religiosos, a
abordagem da prática de magia, a liturgia, a imagem e a percepção
pessoal das diânicas fazem sempre referência à Deusa. Ao contrário de
outras tradições neopagãs, as diânicas não veneram a dualidade
Deusa/Deus, masculino/feminino em suas práticas. A linguagem e a
referência para a vida é sempre a Mulher - e o masculino, como tudo
na natureza – é parte Dela. Para muitas diânicas, a Deusa é uma
metáfora para a própria teia da vida. Rezar e fazer magia é trazer nossa
consciência para determinados fios dessa teia, é uma forma de
comunicação com a deidade.

A Deusa pode ser um tanto difícil de compreender para mulheres que
estão acostumadas com conceitos patriarcais de deidade e, muitas
vezes, precisamos “desaprender” nossa carga cultural, ética e religiosa
para entender Ela melhor. A Deusa não é um ser distante, observando
a existência. Ela é toda a vida e a própria existência, em todos os seus

7 Trecho baseado na sistematização proposta por Ruth Berrett em seu livro

“Women’s Rtes, Women’s Mysteries” e por mensagens trocadas com Z. Budapest.,


entre outras fontes.

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níveis. Todos os seres são parte dela e inerentemente sagrados. Da
mesma forma, todos os seres são responsáveis pela melhoria do
mundo, não havendo salvação ou redenção: apenas trabalho, alegria,
tristeza, prazer e desafios para cada um de nós. Aos olhos Dela, o ser
humano não é o centro do universo ou uma espécie melhor ou pior
que as outras. Não há uma entidade, como o diabo, que podemos
responsabilizar pelas mazelas do mundo - tudo é a Deusa, e todos os
seres são responsáveis pelas causas e efeitos da grande teia da
existência. A Deusa é o melhor e o pior. Ela é raivosa, gentil, amorosa e
selvagem. Ela é luz e sombra, criação e destruição, vida e morte,
compreensão e incompreensão. Ela é o processo natural de mudança
constante, de permanência e renovação. Ela não transmite
mandamentos ou atribui punições - há apenas leis naturais e as
conseqüências naturais de nossos atos. Todos nós cometemos erros e
sofremos as conseqüências desses erros - quando tocamos uma panela
quente, nos queimados, sem que haja julgamento ou punição para
nossos atos. Às vezes, sofremos por razões que não entendemos, mas
talvez venhamos a entender mais tarde.

A Deusa é, portanto, tão complexa e simples, tão una e diversa quanto
as mulheres, tão infinita quanto a realidade. Ela é a existência, e possui
mais faces do que podemos conhecer.

É claro que todo ser humano tem direito de encarar o divino como
bem entender. Ele pode encarar o divino como uma força masculina,
neutra, ou simplesmente impessoal. Devemos acreditar naquilo que
parece mais real para nós, e que nos traz mais paz, realização e
sentimento de conexão com o divino. A deidade é um conceito
gigantesco, e uma visão não exclui a outra.

As diânicas encaram o divino como uma Mulher porque, para nós, isso
nos faz lembrar que somos divinas e parte da força criadora também, e
só esse fato tem enorme poder de cura para muitas mulheres. Imaginar
que a divindade nos criou sua imagem e semelhança tem significado
extremamente poderoso para qualquer pessoa. E as mulheres não são
exceção à essa regra. Se a Deusa é a mulher, a mulher também pode
pensar em ser a Deusa. Essa imagem da deidade se torna modelo

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inspirador, uma ponte entre nós e a divindade, um exemplo de
excelência em suas inúmeras faces e mitos. Podemos ser aquilo que
escolhemos ser: a sábia Sophia, a criativa Sarasvati, a guerreira Yansã, a
mágica Hecate, a furiosa Sekhmet, a misericordiosa Kwan Yin... Todas
essas faces somos nós, se assim escolhermos.

Assim, nos deleitamos com mitos e todo um mundo que não foi
revelado para nós em nossa educação tradicional - um mundo de arte,
música, poemas, histórias e percepções que são testemunhos da
verdade que a Mulher é sagrada, uma realidade reconhecida por
milênios e milênios em várias culturas. Para nós, a mensagem é a
mesma: Nós somos Deusas.


A TRADIÇÃO DIÂNICA BUSCA INSPIRAÇÃO NA DEUSA DIANA

O termo diânica vem da Deusa romana Diana, com forte influência do
livro Aradia, de Charles Leland. Trata-se de uma referência à
independência e à harmonia com a natureza selvagem representada
por Diana, assim como à coragem e ao poder da irmandade entre as
mulheres. Diana é uma protetora das mulheres e da natureza. Ela é
virgem no sentido antigo da palavra - uma mulher que pertence a si
mesma, e que, mesmo quando ama, não vive sob a sombra de
ninguém.

Ao se inspirarem em Diana, as diânicas se alinham com os valores
feministas: proteção da natureza, luta pelos direitos humanos para
todas as mulheres e crianças e libertação de todos os oprimidos. As
diânicas usam a magia e o ritual como ferramentas de cura e para
combater o patriarcado.8


8 O patriarcado, na Tradição Diânica, é definido como o conjunto de práticas e

ideologias que utilizam o “poder sobre” como forma de opressão, seja no nível
institucional, seja no nível pessoal.

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AS PRÁTICAS DIÂNICAS SÃO INSPIRADAS NA CONSCIÊNCIA DE QUE A DEUSA
FOI CONHECIDA ATRAVÉS DOS TEMPOS POR MUITOS NOMES E POR INÚMERAS
CULTURAS EM TODO O MUNDO.

As diânicas honram a Deusa em todos os seus nomes e faces,
reiterando compromisso de compreensão e respeito quando lançam
mão de conceitos e deidades de outras culturas. Há, portanto, um
compromisso contínuo de análise, valorização respeitosa e combate ao
racismo em todas suas formas.

Nesse sentido, não veneramos só Diana, mas todas as Deusas do
mundo, de todos os panteões que já existiram, sem discriminação
étnica ou geográfica. Ao venerar respeitosamente todas as Deusas do
mundo, valorizados, também, a representatividade.

A importância dos mitos: Foi apenas recentemente, com o
Iluminismo, que mitos e contos de fadas passaram a ser tratados como
coisa de criança. Durante a maior parte da história da humanidade,
mitos foram considerados objetos de profundo estudo, conhecimento,
arte e poder. Foi apenas com o trabalho de Jung, Fraser e Campbell,
entre outros, que os mitos começaram a ser estudados e muitas vezes
relidos com a devida atenção a sua grande influência no nosso mundo
interior e exterior. No entanto, mesmo hoje em dia, muitas pessoas
ainda acreditam que os mitos são apenas meras curiosidades
elaboradas por povos supersticiosos – idéias pueris, fantasiosas ou
mentirosas, o que não poderia estar mais longe da verdade.

A linguagem da mitologia está mais próxima de nós do que sabemos.
É a linguagem dos sonhos e da alma, mas também a linguagem de
soluções práticas para o dia a dia e para a melhor convivência social.
Isso é particularmente verdadeiro para a mulher, a qual é dado tão
pouco espaço – e normalmente um papel subsidiário e dependente –
na mitologia e nas tradições escritas e orais das grandes religiões
monoteístas. No paganismo, encontramo-nos face à face com Deusas e
heroínas poderosas e seus mitos de amor, dor, perda, vingança,
felicidade, ciúme, compaixão, vida, morte, descoberta, caos, cura... E
ao constatar o divino e a força arquetípica desses caminhos,

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encontramos a nós mesmas, nossos papeis e o prazer de nossas vidas,
de acordo com nosso próprio olhar.


OS RITUAIS DIÂNICOS CELEBRAM O CICLO MÍTICO DA DEUSA NOS CICLOS
SASONAIS TERRESTRES DE NASCIMENTO, MORTE E REGENERAÇÃO, E NA
FORMA COMO ESSES CICLOS REFLETEM OS CICLOS DA VIDA DAS PRÓPRIAS
MULHERES.

O dianismo é uma religião da natureza, nos ajudando a descobrir o
mistério e nossas conexões com o mundo natural. Enquanto algumas
versões mercadológicas do neopaganismo acabam por incentivar o
consumismo, desperdício em rituais e abandono de restos não
biodegradáveis nos mares e nas matas, o dianismo - em sua versão
mais atual - procura causar o menor impacto possível à natureza.
Existe, sem dúvida, uma tentativa de "caminhar leve sobre a terra."

As diânicas procuram estar em contato com os ciclos naturais nelas
mesmas e no mundo a sua volta, algo que não é muito incentivando
em nossa sociedade excessivamente mecanizada, em que a mulher é
ensinada a ser “sempre a mesma” e “controlar seus instintos” em
qualquer momento do mês, a agir como adulta quando é criança e a
agir como criança quando é adulta.

As diânicas honram os ciclos da natureza e das mulheres. Comemoram
os Sabbats, mas a ênfase é sempre dada aos acontecimentos
geográficos e sazonais do lugar em que se encontram. É também
tradicional o ritual em dias de lua cheia (Esbats), ou sua celebração
solitária, em que o poder e a magia da lua pode ser compartilhado com
aquelas que a veneram. É também comum encontros e rituais feitos na
lua nova, ou na lua negra (o período de 3 dias antes da lua nova).

Mesmo quando não é possível rituais fora de casa, é possível conectar-
se com o céu, com o vento, com o barulho do mar, com as árvores em
volta dos prédios, ou até mesmo vasos de plantas e jardins internos,
com animais domésticos e os insetos e aracnídeos, com um copo
d'água, ou com o nosso próprio corpo. Dito isso, é sempre

15
recomendado que tenhamos o maior contato com a natureza possível,
visitando áreas verdes com freqüência.

Muitas diânicas desenvolvem dons diretamente ligados à natureza:
herbalismo, adivinhação com conchas, ossos ou pedras, comunicação
com pássaros e outros animais, jardinagem, comunicação com plantas
("dedo verde"), confecção de talismãs, astrologia, magia de clima e
culinária com fins sagrados e mágicos.

Não sendo de forma alguma contra o desenvolvimento tecnológico, as
diânicas procuram fazer escolhas responsáveis para que a natureza seja
conservada. É muito comum sua participação em movimentos
ambientalistas e certamente adotam a idéia de "pense globalmente, aja
localmente ".

É importante notar que o sentido dos Sabbats na Tradição Diânica
é diferente daquele vivenciado por algumas outras tradições
neopagãs – particularmente na Wicca mais tradicional, que enfatiza
as atividades e percepções de Sabbat inspirados naquela dos antigos
povos celtas.

Vejamos alguns princípios básicos para definir o tema de um Sabbat
diânico segundo interpretação da literatura e questionamento direto
feito a sacerdotisas diânicas:

1) O primeiro princípio e a mais importante: colocar a celebração
da NATUREZA LOCAL em primeiro plano. É a natureza local
que dá o sentido para o Sabbat e não vive-versa. Em outras
palavras, embora o Sabbat possa ter um nome vindo das Ilhas
Britânicas e as datas sejam pré-estabelecidas de acordo com a
sazonalidade do Hemisfério Sul, a adaptação do sentido é sempre
feita com a observação do que está acontecendo na natureza
local.

Na Tradição Diânica prevalece a história contada pela natureza
local. A natureza selvagem é a sua principal professora. Cabe a
cada sacerdotisa sair de casa, procurar a Deusa, ouvir sua voz e

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aprender com seus movimentos. Esse talvez seja um dos
trabalhos mais importante de uma sacerdotisa diânica.


2) O segundo princípio é que não há dualidade Deusa/Deus na
história dos Sabbats diânicos. Na Tradição Diânica, os Sabbats
contam a história da Deusa em sua fase donzela, mãe e anciã. “O
ano é uma mulher dançando.” – uma eterna dança de vida-
morte-vida, de transformação. E em cada local, a dança será
diferente, trazendo ensinamentos diferentes a cada ano de
nossas vidas.

3) Em terceiro lugar, utiliza-se o CICLO DAS VIDAS DAS
MULHERES PRESENTES – que estão progressivamente mais e
mais sintonizadas com a natureza local. Quando você renova a
Roda, a Roda renova você. Em um círculo de mulheres, é muito
comum que todas comecem a passar por ciclos de vida juntas, o
que também pode ser celebrado, curado, reconhecido,
reverenciado e trabalhado por meio dos Sabbats.

4) Em quarto lugar, também utiliza-se o FOLCLORE LOCAL E O
FOLCLORE UNIVERSAL para dar embasamento tradicional.

Uma observação importante: não se trata de parodiar
desrespeitosamente os rituais sagrados de culturas vivas e
vibrantes, que por vezes pouco têm a ver com o sagrado
feminino e muitas vezes são reservados especificamente a seus
povos de origem, mas de estudar, através de seus costumes e
mitos, sua profunda relação com a natureza e com a sacralidade
feminina.


É essa conjunção de fatores que dá o sentido do Sabbat diânico,
mesmo quando chamamos freqüentemente Deusas vindas de outras
regiões para criar nossas celebrações e mitos de forma dinâmica,
criativa e diversificada.

17
Cabe, assim, à cada diânica ou círculo diânico construir e reconstruir o
sentido da Roda do Ano ao conectar-se com a natureza a sua volta. Ao
contrário de grande parte da Wicca tradicional, os temas tradicionais
dos Sabbats célticos são usados apenas como pontos de referência e
inspiração. Como me disse Z. Budapest:

“Os Sabbats (diânicos) apenas se referem ao que está acontecendo na
natureza ao seu redor. Você ajusta os temas ao que é real ao seu redor.”

Com base nos Sabbats de inspiração celta, Shekhinah Mountainwater
faz as seguintes sugestões de correspondências9:

Tempo Mistério da Mulher Nome da Deusa (Sugestão)

Ostara Nascimento Kore

Beltane Sangue Diana

Litha Paixão Afrodite

Lammas Leite Habondia

Mabon Menopausa Perséfone

Samhain Morte Hécate

Yule Imortalidade Lucina

Imbolc Inspiração Aradia ou Musa



Da mesma forma, é possível, por exemplo, associar Ostara ao Sangue
ou à Menarca, Beltaine à Paixão, Litha à Inspiração (ou talvez à
maturidade ou à maternidade), Lammas à fase da Rainha, Mabon à
Menopausa, Saimhain à Morte e à fase da Anciã, Yule ao

9 Contribuição de Aphrodisiastes.

18
Nascimento/Imortalidade, etc. Cada mulher ou círculo de mulheres
poderá decidir os temas que lhes parecem mais pertinentes às suas
realidades e à natureza local.

Talvez um bom ponto de partida para esse processo seja aquele
sugerido por um site australiano não diânico, mas que se aplica
perfeitamente aos conselhos das autoras diânicas:

“A melhor forma de entender completamente a Roda do Ano é fazer
observações por 12 meses, percebendo padrões nos insetos e animais, o
crescimento das plantas (se possível, plantas nativas da região), a
altura e a força do Sol e da Lua. Perceba quando e quais plantas e
árvores florescem e o quão vocais ou ocupados os pássaros estão na
primavera e do que as espécies de pássaros se alimentam e onde se
alimentam. Tudo isso vai ajudar você a se sintonizar com seu ambiente
natural melhor do que simplesmente ler páginas de um livro cujo autor
provavelmente vive do outro lado do mundo.” 10

Nessa mesma linha, prática interessante, principalmente no
Hesmifério Sul, é fazer um “fichamento” do Sabbat a cada ano, para
perceber como a Deusa se comunica localmente.

Dito tudo isso, é importante lembrar que a Tradição Diânica valoriza a
criatividade, a espontaneidade e a intuição. Aquilo que é percebido, de
uma forma holística, tem mais validade para um ritual do que estudos
meramente teóricos sobre o assunto.


A TRADIÇÃO DIÂNICA É UMA TRADIÇÃO DE RITUAIS DE MISTÉRIOS DA MULHER
QUE CELEBRA OS EVENTOS DOS CICLOS DA VIDA DAS MULHERES.

As diânicas reconhecem que está nas mãos de nós, mulheres, restaurar
o sentido às nossas vidas, honrando nossos ritos de passagem -
chamados de Mistérios da Mulher - e outras transições em nossas
vidas. Reconhecemos que a nossa experiência humana é filtrada e


10 Temple of the Dark Moon - http://www.templedarkmoon.com/sabbat.htm

19
informada por nossos corpos e espíritos de mulher e por nossa
fisiologia especificamente feminina.

Os Mistérios da Mulher incluem as passagens derivadas do
desenvolvimento físico, emocional e psíquico que as mulheres
compartilham universalmente por ter nascido biologicamente
mulheres. Os cinco mistérios de sangue uterino das mulheres são:
nascimento, menarca, parto / amamentação, menopausa e morte.
Esses mistérios reconhecem e homenageiam a capacidade das
mulheres para criar a vida, sustentar a vida, e retornar os nossos corpos
à Deusa na morte. Independentemente da mulher gerar ou não filhos
biológicos, todas as mulheres são Mães / Criadoras nos atos de criação,
manutenção e proteção.

Os rituais de Ministérios da Mulher apóiam e celebraram a união do
sexo feminino e honram outros importantes marcos pessoais de
transições na vida das mulheres, incluindo rituais de cura dos efeitos
do patriarcado, pessoalmente e no mundo.

Na homenagem aos Mistérios da Mulher também reconhecemos que
"é nossa biologia que nos torna seres humanos do sexo feminino, mas
é nossa cultura que nos torna mulheres". A Tradição Diânica ajuda as
mulheres a desenvolverem sua plena identidade e criar uma nova
cultura em que as definições culturais e os limites do que é ser um ser
humano do sexo feminino, propostos pelo patriarcado, são desafiados
e expandidos para uma maior auto-identificação e uma melhor visão
de totalidade do que somos.

Muitas mulheres querem expressar seu lado espiritual, querem sentir o
contato direto com a fonte divina, mas muitas consideram que as
grandes religiões não atendem suas necessites ou respondem suas
questões, principalmente quando essas colocam a mulher em segundo
plano, ou até percebem sua natureza como maligna ou algo a ser
controlado e dominado. Quando os mitos dessas grandes religiões
diminuem as mulheres, elas podem se sentir desconectadas da
divindade, inferiorizadas, e podem vir a acreditar que as portas do
conhecimento e do crescimento estejam fechadas para elas.

20

A Tradição Diânica é bem diferente das religiões com que estamos
acostumadas, porque as diânicas estão sempre contando histórias
sobre a Deusa, utilizando símbolos da Deusa, vivendo a realidade da
Deusa dentro de si. Elas entendem que são feitas à sua imagem e
semelhança, poderosas, sabias e amorosas. Elas podem ver essa
deidade e outras mulheres como modelos de comportamento,
celebrando os mistérios femininos da menstruação, nascimento,
morte, etc. O dianismo feminista valoriza a mulher, respeita a mulher,
nutre a mulher e celebra a mulher.


O dianismo enfatiza crescimento pessoal das mulheres e na sua
repercussão social. Em seu trabalho e religiosidade, as diânicas
aprendem, entre outras lições:

1) amar-se e respeitar-se melhor;
2) comunicar-se melhor nas suas relações;
3) tornar-se mais confiante em seu trabalho para a sociedade em que
vive;
4) libertar-se de menos antigos que trazem infelicidade;
5) liberar-se de vícios e comportamentos repetitivos pouco saudáveis
para si e para os outros;
6) aperfeiçoar e descobrir novos talentos;
7) exercer sua criatividade de forma intuitiva e amorosa;
8) ser uma pessoa capaz de contribuir enormemente para um mundo
mais justo, seguro, pacífico e igualitário;
9) reencontrar ou reforçar o sentimento de irmandade e união com
outras mulheres.


A TRADIÇÃO DIÂNICA É CELEBRADA POR CÍRCULOS RESERVADOS APENAS ÀS
MULHERES.

Sendo uma tradição de Mistérios da Mulher, a religião diânica é pelas
mulheres, não contra os homens. Ela apóia o direito dos homens às
suas celebrações exclusivas dos Mistérios do Homem, reconhecendo a

21
particularidade de seus ritos de passagem e sua jornada espiritual em
direção ao divino. Muitos círculos diânicos acolhem bebês do sexo
masculino e crianças pequenas com suas mães desde que o ritual em si
seja adequado para a criança participar.

As diânicas apóiam todas as pessoas a encontrar seu caminho
espiritual. No entanto, elas reservam seus círculos às mulheres . Aquilo
que chamamos Mistérios da Mulher não pode ser entendido nem
vivido por homens. Como mulheres, nós honramos os caminhos
intuídos pela nossa fisiologia feminina, memória celular e o poder de
trabalhar a partir de nossas entranhas para fora. Mesmo no caso da
mulher que teve seu útero retirado mais tarde na vida, seu corpo de
sabedoria foi informado por suas experiências fisiológicas de menina a
mulher. Ela continuará a trabalhar seu poder a partir do caldeirão em
seu centro por toda sua vida.

A Tradição Diânica centra-se em rituais para curar as mulheres dos
efeitos da opressão pessoal e global de culturas que historicamente
ensinaram os seres humanos a odiar o “feminino” representado pela
mulher. As diânicas que não aceitam a participação de mulheres trans
em seus círculos acreditam que a profundidade em que o patriarcado
tem moldado e impactado nossas vidas como mulheres não pode ser
inteiramente compreendida a menos que ela tenha sido vivida desde o
nascimento.

A TRADIÇÃO DIÂNICA HONRA AS VOZES, PENSAMENTOS E IDÉIAS DE NOSSAS
ANCESTRAIS, PRECURSORAS E DAS MULHERES EM GERAL.


A Tradição Diânica está empenhada em descobrir, analisar, re-afirmar,
resignificar ou atribuir significados contemporâneos a tradições,
heranças e práticas mágicas de nossas antepassadas, desde os
primórdios da humanidade, recuperando sua história perdida e
esquecida. Nós reconhecemos que as práticas das mulheres do passado
pertencem a épocas e locais específicos, que não se repetem, e que
cabe a nós re-atribuir e reconstruir significados para as práticas
espirituais dentro dos contextos culturais de hoje.

22

Dessa forma, honramos nossas ancestrais, sua religiosidade e mitos, e
os ventres de onde viemos, no entendimento de que, sem honrar o
nosso passado, não temos nenhum presente ou futuro. Honramos
nossas antepassadas cujos corajosos esforços pioneiros traçaram o
caminho para nós e tornaram nossa caminhada mais fácil.


Algumas diânicas acreditam que as culturas matrifocais (não
“matriarcais”) eram a regra no período paleolítico e neolítico, tendo
sido mais tarde derrubadas pelo patriarcado. O trabalho da renomada
arqueólogoa Marija Gimbutas forneceu uma enorme contribuição
para o corpo da sabedoria intuitiva que muitas mulheres guardavam
em seus corações. Embora seu trabalho, particularmente nos dias de
hoje, seja muito controverso nos meios acadêmicos, Gimbutas lançou
perspectivas e questões que serviram para ajudar novas gerações de
arqueólogos – particularmente mulheres – a desvendar o papel da
mulher no paleolítico e no neolítico, que revelaram sociedades muito
mais igualitárias do que as que lhes seguiram. Foi graças a teóricas
como Gimbutas que, pela primeira vez, o “sexo invisível” se tornou
foco de muitos estudos.

De fato, durante a maior parte da história da humanidade, muitas
contribuições da mulher para o mundo nunca haviam sido estudas ou
foram simplesmente ignoradas em razão da mentalidade patriarcal em
que estavam inseridos os estudiosos até a grande onda feminista dos
anos 60 e 70. Hoje, porém, com a lenta, mas segura mudança de
paradigma, a contribuição da mulher para a humanidade está sendo
revelada. Ela deixa, aos poucos, de ser o "sexo invisível" para se tomar o
seu lugar de direito.

Nesse sentido, evidencias mais recentes apontam para uma muito
maior igualdade de status entre os sexos no período paleolítico e
neolítico em comparação com os períodos posteriores - as mulheres,
acreditam os paleontólogos atuais - muito provavelmente foram
responsáveis pela intenção da agricultura, da tecelagem, dos primeiros
calendários, da própria formação social e por um dos talentos mais

23
importantes já utilizados pela humanidade : a linguagem. Mesmo que
muitos teóricos não concordem com a teorias sobre sociedades
matrifocais e sobre a existência de uma Grande Mãe universal,
conforme propostas por Gimbutas, eles não podem refutar a
importância fundamental do papel da mulher na sociedade e na
religiosidade desses períodos.

As praticantes da espiritualidade da Deusa são muito agradecidas ao
trabalho de Gimbutas, independentemente de acreditarem em suas
teses ou não. Mesmo as diânicas que não comcordam com as teses da
autora defendem a importância de haver, hoje, uma religião baseada
no sagrado feminino e acreditam que as divindades femininas da pré-
história e da antiguidade são a melhor inspiração para isso, já que as
grandes religiões progressivamente eliminaram ou reduziram o papel
da mulher e do divino feminino, particularmente no Ocidente.

De fato, comparadas às nossas ancestrais que vieram nos últimos
quatro ou três milênios, somos muito afortunadas. Embora o status
social das mulheres tenha avançado e regredido no tempo e no espaço,
não sendo uma linha retilínea no tempo, não há dúvida de que, no
campo religioso, houve uma contínua supressão, submissão, rejeição
ou anulação do sagrado feminino, que só começou a ser realmente
revisada, no interior das grandes religiões - particularmente no
cristianismo - a partir das últimas décadas do século XX. Embora essas
religiões tenham trazido ensinamentos e benefícios para humanidade
como um todo, a má aplicação e interpretação de seus textos muitas
vezes levou à alienação da mulher dos símbolos e da liderança
religiosa, para não falar de ondas de misoginia institucionalmente
incentivadas ao longo da história recente.

Talvez o caso mais grave em toda história tenha ocorrido na Idade
Média e no Renascimento, na Europa e nas Américas. A caça às bruxas,
ocorrida entre os anos 1480 e 1700 – às portas da Era das Luzes - é um
dos maiores “generocídios” já perpetrados pela humanidade, e
comparativamente pouco estudado. Nesse período, teóricos estimam
que aproximadamente 40.000 a 100.000 de pessoas foram mortas
(algumas estimativas chegam a 9 milhões) e muito mais foram

24
torturadas ou perderam seus direitos, famílias e bens. A maioria
esmagadora dessas pessoas eram mulheres (80 a 85%) de todas as
idades e classes sociais. No auge da caça às bruxas, algumas vilas
ficaram completamente desprovidas de população feminina. Na
verdade, nas próprias palavras dos inquisidores, o maior pecado
cometido pelas “bruxas” era exatamente o de ser mulher:

“Se hoje queimamos as bruxas, é por causa de seu sexo feminino”.
Malleus Maleficarum


O discurso humanista e intelectual que se segue também acaba por
aviltar a mulher, angariando justificavas “racionais” ou “biológicas”
para sua inferioridade.

Mesmo nos dias de hoje, em certas localidades, mulheres são
linchadas, apedrejadas, queimadas, torturadas ou simplesmente
excluídas socialmente pela suspeita da prática de bruxaria.

É em honra a essas mulheres que muitas diânicas adotam o título de
“bruxas”. 11

Por traz dessas práticas de repressão violenta à mulher há, claramente,


11 Z. Budapest é uma delas e explica suas razões dessa forma:


“Muitas pessoas me perguntam por que eu uso o termo “bruxa” tantas vezes no The
Holy Book. Por que eu não posso chamar isso de “womanspirit” ou “guia interior da
Deusa”? Termos seguros e New Age que não incomodam ninguém? Minha resposta
é: eu gosto da palavra “bruxa” . É a única palavra do inglês que denota “mulher com
poder espiritual”. Eu sei que as propagandas negativas de Hollywood e do
cristianismo fizeram as pessoas pensarem que as bruxas são completamente
maléficas (...) Nós encontramos a mulher espiritualizada relegada ao ramo do
negativo, mas isso não quer dizer que você não pode reivindicar/recuperar essa
palavra. (...) Eu explico que essa palavra significa “sacerdotisa”, que ela sofreu muita
detração e propaganda negativa, e que nós estamos procurando recuperar a
dignidade das bruxas e educar o mundo sobre a bruxaria. Se você insiste em
reeducar as pessoas sobre uma palavra, você pode até demorar vinte anos, mas você
vai conseguir.”

25
grande temor e incompreensão em relação ao poder feminino,
manifestado pela sabedoria medicinal, pela posse de bens, pela união
da irmandade entre mulheres, pela beleza, pela feiúra, pela
inconformidade com os padrões estabelecidos, pela liderança social,
pela liberdade sexual, pela intuição, pela capacidade de amar e odiar
além das convenções sociais, pelos sonhos maiores que o mundo... O
patriarcado teme, e sempre temeu, mulheres poderosas, e essas sempre
foram suas principais vítimas.

A Tradição Diânica - assim como outros movimentos de
espiritualidade feminina - vem contrabalançar esse processo, na esteira
da defesa das mulheres por igualdade e liberdade - que é considerada,
por alguns, a revolução mais bem-sucedida do século XX. Ela oferece
ao chamado "sexo invisível" ou "segundo sexo" um local e honra - um
terreno fértil para cada uma de nos explorar nossa espiritualidade e
grandeza.

Para a Tradição Diânica, a bruxaria é uma prática filosófica, espiritual e
social presentes em vários povos. O dianismo tem se inspirado,
particularmente, na bruxaria praticada na Europa e no Oriente Médio
antes da chegada das grandes religiões, e na sua recapitulação e
adaptação feita pelo neopaganismo. Porém, na medida que encontra
praticantes de outras origens, ela vai também absorvendo práticas de
outras culturas e etnias, em um esforço por maior representatividade
das mulheres que dela participam. As práticas da Tradição Diânica são
bem diferentes das religiões com que a maior parte de nós estamos
familiarizadas - não há livro sagrado, dogmas, hierarquia ou controle
social.

Os conceitos de pecado original ou qualquer forma de pecado,
expiação, redenção, confissão, a divindade exclusiva de Jesus, o sexo
como atividade pecaminosa, o julgamento divino, o céu e o inferno, a
subordinação ou a natureza pecaminosa da mulher, a ressurreição da
carne e a Bíblia como fonte única ou exclusiva de revelação divina não
fazem parte da Tradição Diânica, que ressalta não ser uma religião
revelada, mas baseada nos ciclos naturais. Da mesma forma,
tampouco são parte da Tradição Diânica o satanismo, a missa negra, a

26
idéia de magia negra ou branca, a depredação de cemitérios, o
sacrifício animal, ou qualquer idéia de adoração ao diabo.

A TRADIÇÃO DIÂNICA ACREDITA NO PODER VINDO DO ÚTERO.

Nossos ventres são simbolicamente e literalmente nossos caldeirões de
criação, os nossos centros. O poder (a capacidade de fazer) vem de
dentro de nós e das nossas ações em conjunto, não do domínio sobre
o outro. Mesmo mulheres que tiveram seus úteros removidos
preservam completamente essa sacralidade, essa energia do útero que
continua a se desenvolver e transmutar por toda sua vida.

A TRADIÇÃO DIÂNICA DÁ ÊNFASE AO CORPO DA MULHER COMO
MANIFESTAÇÃO DA DEUSA.


As diânicas acreditam que ter uma experiência pessoal e direta de si
mesmas como sagradas (e não apenas intelectualmente, mas em um
nível de êxtase celular), reconhecendo a si mesmas como manifestação
da Deusa, é fonte de cura e alegria para as mulheres

A Tradição Diânica promove o uso espiritual, religioso e festivo do
imaginário da Mulher como uma das muitas manifestações da Deusa,
reconhecendo Ela em nós mesmas e em todas nossas crianças,
nascidas em Sua imagem divina.

O RITUAL E AS PRÁTICAS MÁGICAS DIÂNICAS HONRAM A CRIATIVIDADE, A
INTUIÇÃO E A CAPACIDADE DE IMPROVISAÇÃO DAS MULHERES.


Ao invés de basearem-se em um roteiro ou definirem uma liturgia
fechada e estática como norma, diânicas incentivam a expressão
criativa da fé nas artes, dança, escrita, fala e música durante a criação
do ritual e durante o ritual propriamente dito. Músicas, poesias e
invocações muito queridas tornam-se freqüentemente o “costume” de
um círculo ou uma praticante solitária, quando repetidas ao longo do

27
tempo e enquanto continuem a proporcionar significado para os
rituais realizados.

AS DIÂNICAS RECONHECEM QUE A MAGIA DAS MULHERES É UMA QUESTÃO DE
CONFIANÇA SAGRADA ENTRE AS MULHERES. DESSA FORMA, AS DIÂNICAS NÃO
ENSINAM OS MISTÉRIOS DA MULHER E SUA MAGIA A HOMENS.

Diânicas não ensinam a magia das mulheres para os homens. ".. Até
que a igualdade entre os sexos torne-se uma realidade". *

No entanto, a maioria das diânicas tem prazer em discutir a Deusa
com homens interessados, ou indicar aos homens livros ou outras
tradições que incentivaram seu próprio contato com o divino e/ou a
descoberta de formas de lidar com suas próprias experiências de vida e
questões ligadas a sexo e gênero. Algumas mulheres que praticam a
Tradição Diânica também realizam rituais mistos com seus parceiros,
familiares, amigos ou filhos, além de ser permitida a participação delas
em outras tradições pagãs.

Os rituais, mistérios e experiências da Tradição Diânica, porém, são
reservados às mulheres.

A SEXUALIDADE É SAGRADA. TODAS AS FORMAS DE PRAZER SÃO RITUAIS DA
DEUSA.

Qualquer forma de sexualidade e/ou amor entre adultos que agem de
livre e espontânea vontade, confiando e respeitando um ao outro, é
manifestação da Deusa, não cabendo julgamento por ninguém além
das partes envolvidas. Algumas diânicas, porém, como Ruth Berrett,
são contra formas de sexualidade onde há relação de hierarquia,
mesmo que sejam consensuais.

É importantíssimo ressaltar que a Tradição Diânica, pela sua
própria definição e natureza, não pode admitir qualquer forma
de violação física, psicológica ou espiritual de suas participantes
– ou de qualquer outra pessoa, seja homem ou mulher – ou
chancelar práticas de grupos que impõem a aceitação desta

28
violação a seus membros. Em outras palavras, para o dianismo,
não é admissível que pessoas sejam obrigadas a praticar ritos de
natureza sexual ou que violem seu senso mais profundo de
certo/errado para serem aceitas em um grupo religioso ou
ascenderem em sua hierarquia. Isso é especialmente relevante
no que se refere aos chamados “ritos sexuais” que são exigidos
em algumas tradições como condição para a iniciação,
completamente em desacordo com a filosofia e a razão de ser do
dianismo. Para as diânicas, estupro começa no momento em
que o consenso entre as partes envolvidas é quebrado,
independente de qualquer acordo prévio, sistema ou contexto
religioso.


O LAZER É SAGRADO E O HUMOR É UMA FORMA DE PRÁTICA ESPIRITUAL.

Encontrar maneiras de desfrutar e apreciar os presentes da vida
oferecidos diariamente é uma maneira de venerar a Deusa.
Compartilhar o prazer que temos em viver combate a tristeza, o
desânimo e nos torna mais fortes para lutar pelos nossos direitos e
bem-estar.

A TRADIÇÃO DIÂNICA É UMA TRADIÇÃO DE PASSAGEM DE CONHECIMENTO.

Mulheres que ensinam, partilham, e repassam conhecimento estão
compartilhando poder. Ensinar a próxima geração irá ajudar a garantir
que a tradição perdure e a sabedoria das mulheres sobreviva.
Infelizmente, as mulheres de hoje não foram criadas em um mundo
em que a sacralidade feminina é valorizada. É preciso estudar muito e
estar em permanente contato com a natureza, com outras mulheres e
consigo mesma para “desaprender” paradigmas danosos.

A TRADIÇÃO DIÂNICA ADERE À WICCA REDE.

A ética da Tradição Diânica é neopagã e, portanto, pode diferir da ética
do cristianismo. Talvez a principal diferença seja sua completa

29
liberdade baseada na responsabilidade: uma diânica pode ser e fazer o
que desejar, mas sempre será responsável por suas decisões
conscientes. Não existem “dogmas” ou “mandamentos”, mas conselhos
de como se comportar.

Em outras palavras, na moral neopagã, existe uma substituição do
modelo dicotômico entre o bem e o mal e a noção de pecado pela
noção de responsabilidade e causa e conseqüência. (A Deusa é
todas as coisas). Essa moral leva à adoção de conceitos psicológicos
sofisticados e à não rejeição ou anulação das emoções
consideradas “negativas” ou daquilo que os jungianos chamam
de “Sombra”. A diânica se aceita como um todo e procura uma
aplicação e expressão responsável de todas suas emoções.

Não há ameaças. Não há inferno ou outros métodos de coerção. Não
interessa se uma pessoa que você conhece acredita em Jesus, na Deusa
ou em alienígenas - cada um segue o caminho que é mais apropriado
para si. Assim, não há necessidade de proselitismo. Por não haver um
pecado original, não é necessário redentor ou messias. Ninguém é
perfeito, mas cada mulher é capaz, com a ajuda de suas irmãs, de
encontrar seu caminho, seu crescimento e sua cura pessoais, de acordo
com seus próprios parâmetros conscientes do que vem a ser seu melhor
pessoal.

Existe, porém, a crença de que vivemos na grande teia da existência,
completamente conectados uns aos outros. A Tradição Diânica
concorda com a crença popular de que recebemos o que enviamos –
por exemplo, atos injustos retornam como injustiça contra nós e atos
justos retornam como justiça a nosso favor. Algumas diânicas –
particularmente sacerdotisas iniciadas - acreditam que estão
submetidas à lei tríplice: o retorno triplicado do efeito que causamos à
grande teia, seja por ação ou inação. 12

12 Algumas mulheres têm uma concepção literal da Lei Tríplice: o retorno triplo de

tudo o que fazemos. Outras acreditam que essa lei é mais simbólica: um retorno que
ocorre nos três níveis da existência (alto, centro e submundo) ou em todo o ser
(corpo, mente e espírito). Algumas mulheres acreditam que a Lei Tríplice se aplica
apenas a atos mágicos. Outras acreditam que ela é aplicada a qualquer ato
consciente.

30

A Wicca Rede: o principal conselho diânico é “Faça o que quiser; não
prejudique ninguém.” No entanto, como muitos neopagãos já
apontaram, se levarmos essa frase ao pé da letra, verificaríamos que é
impossível não prejudicarmos ninguém. Pisamos em formigas,
comemos animais e plantas, passamos em concursos (o que significa
que alguém não passou), recebemos aumentos salariais (o que quer
dizer que os recursos que poderiam estar sendo dirigidos para outras
áreas da sociedade estão sendo dirigidos para o nosso conforto e o
conforto de nossa família). Todo dia, prejudicamos alguém pelo
simples fato de existirmos.

Z.Budapest procura resolver esse dilema afirmando que a Wicca Rede
ou o conselho wiccano, como é chamado, só se aplica estritamente a
rituais e atos mágicos. Além de discordar dessa posição, pois somos as
mesmas mulheres dentro e fora do nosso círculo mágico, acredito que
isso não resolva o problema, pois mesmo se restringirmos a Wicca
Rede aos atos de magia, inevitavelmente prejudicaremos alguém pela
mesma lógica exposta acima, seja por ação ou inação.

De novo, acho que a solução é não tratar a Wicca Rede como
mandamento, mas conselho como o próprio nome já diz. Na minha
opinião, esse conselho não tem o objetivo de nos fazer morrer de
culpa, ficar paranóicas ou viver uma vida de miséria – afinal, o
“ninguém”da frase também inclui nós mesmas! - mas de fazer com que
nós estejamos mais atentas para nossa inevitável influência na grande
teia da existência e procurar não ferir alguém por descaso, por ficarmos
paradas quando deveríamos agir ou em um momento de raiva. Em
outras palavras, a Wicca Rede nos aconselha a “caminhar leve sobre a
terra”. Trata-se de um conselho para atingirmos o nosso melhor
pessoal13 e examinarmos criticamente nossa ação e inação, com toda a
paciência com os nossos erros.

Os outros “conselhos” do dianismo são, de modo geral, expressos de
forma direta e informal. Nada mais são do que conselhos de bom senso

13 Cada mulher define qual é o seu melhor pessoal. Não existem fôrmas ou modelos

pré-estabelecidos de “boa moça”.

31
que poderíamos ouvir de nossas mães, avós, tias, amigas, irmãs e filhas.
Alguns exemplos: “Não pense que você é onipotente. Não perca tempo
com presunção, culpa, paranóia, e mantenha o senso de humor.”; “Não
lance um feitiço em um momento de raiva.”; “Erga o templo interior
(seu corpo), que é portável e tudo o que você tem.”; e “Uma bruxa não
se humilha para nenhum homem.” 14

A Ética das Maldições e dos Feitiços de Manipulação: Algumas diânicas
são completamente contra a realização maldições ou feitiços de
manipulação do livre-arbítrio de outras pessoas. Elas acham que
qualquer feitiço nesse sentido viola a Wicca Rede, a Lei Tríplice e o
valor que o dianismo atribui ao livre-arbítrio.

Outras diânicas feministas acreditam que a possibilidade de lançar
maldições e feitiços de manipulação varia de caso a caso, e acham justo
usar esses meios para combater a opressão dos mais fracos –
particularmente mulheres e crianças - no contexto do patriarcado.
Para estas diânicas, seria perfeitamente legítimo, por exemplo,
amaldiçoar um estuprador para que ele seja pego pela policia, ou
enfeitiçar um chefe para que ele pare de assediar subordinadas no
ambiente de trabalho, ou um filho ou uma filha para que ele ou ela se
livre das drogas.

Jade River chama o primeiro grupo de “praticantes positivas” (positive
practitioners) e o segundo grupo de “aradianas”, em referencia à Deusa
Arádia, nas quais essas mulheres se inspirariam. 15

Na verdade, a grande maioria das diânicas fica entre um grupo e outro.
Como tudo na ética neopagã, essa é uma questão de escolha
pessoal e relação entre a mulher e sua própria consciência. A
ética neopagã é mais individual e aberta do que a de outras
crenças religiosas e talvez esteja nisso sua grande diferença em
relação a estas. Somos responsáveis por nossos atos e não atos.


14 The Holy Book of Women’s Mysteries.
15 Jade River, To Know: A Guide to Women’s Magic and Spirituality.

32
Mas mesmo Z. Budapest - que é provavelmente uma das diânicas mais
liberais no que se refere a maldições e aos chamados “feitiços de
manipulação”16 - aconselha que não se diga o nome de um “culpado”
específico durante a maldição, para evitar injustiças. Por exemplo, em
uma maldição contra um estuprador, diz-se “Eu amaldiçôo aquele me
estuprou.” (a Deusa sabe perfeitamente quem foi mesmo que você
esteja enganada). A mesma Z. Budapest recomenda:

“Não cause nenhum mal, mas aja para garantir sua auto-defesa e auto-
estima.”

Essa frase deriva da idéia de que todas nós somos sagradas perante a
Deusa, inclusive nós mesmas. A maldição feita por gurpos de
mulheres a estupradores ou qualquer um que faça mal a crianças,
mulheres e outras pessoas em situação vulnerável é uma prática muito
antiga que é adotada por alguns grupos diânicos. Elas consideram essa
prática pode mesmo contribuir para a cura psicológica da vítima, que
vê suas irmãs simpatizarem com sua situação e se unirem em sua
defesa.

Muitas diânicas são radicalmente contra – ou evitam ao máximo -
amaldiçoar outras mulheres em razão do efeito sobre a irmandade.

O PAPEL DO CLERO E ORGANIZAÇÃO DE GROVES, COVENS E CÍRCULOS:

O papel do clero na Tradição Diânica é bastante diversificado. A
liderança pode variar entre estruturas totalmente não-hierárquicas e
grupos com Altas-Sacerdotisas permanentes. Todos esses modelos de
organização são aceitáveis na Tradição Diânica. Seja qual for o modelo
escolhido, as diânicas sempre procuram encarar suas relações em um
quadro de irmandade, respeito e honra mútuos, onde a pareceria
substitui a dominação.

16 A principal idealizadora da Tradição Diânica afirma que maldições têm sido

lançadas por mulheres desde tempos antigos, até como uma forma de “poder de
polícia” contra aqueles que fazem mal à mulheres e a crianças. Ela acredita que a
atual condenação moral às maldições foi uma forma de as grandes religiões
patriarcais vilanizar e restringir o poder espiritual, social e mágico das mulheres.

33

A Tradição Diânica pode apresentar níveis de aprendizagem e serviço
espiritual, assim como muitas outras tradições neopagãs: aprendiz,
iniciada, sacerdotisa e alta-sacerdotisa. No entanto, a Tradição Diânica
não tem uma hierarquia religiosa, no sentido tradicional de um "líder
religioso" ou Papa. Pelo contrário, sacerdotisas ordenadas ou auto-
ordenadas devem ganhar o respeito de sua comunidade espiritual
através dos serviços que prestam, e por aquilo que encarnam através de
suas palavras e atos. Além disso, as sacerdotisas são encorajadas a
escolher uma ou mais especializações, como ensino, adivinhação e
cura, que se traduzam em serviço à sociedade.

A Tradição Diânica procura se diferenciar das formas patriarcais de
hierarquia baseada em valores de dominação (patriarcado ou
androcracia), adotando o modelo de parceria (ou gilania) proposto
pela autora Riane Eisler.

Riane Eisler propõe uma “actualization hierarchy” (algo como
“hierarquia de realização”), baseada não na dominação, mas em um
sistema de respeito e benefício mutuo, carinho e responsabilidade. A
“actualization hierarchy” é flexível e permite que cada uma tenha
oportunidade de ser líder (rotatividade do poder), dependendo do
contexto. Ela permite que todos dêem sua opinião e tenham a
comunicação sempre aberta. Não se trata de poder sobre, mas poder
com.

Para Z.Budapest, o modelo dos groves e covens diânicos reflete uma
estrutura familiar, com a alta-sacerdotisa no papel de mãe e mestra.
Para ela, algumas mulheres são alta-sacerdotisas naturais. O título de
alta-sacerdotisa é raramente atribuído na Tradição que, em 2009,
contava apenas com 13 alto-sacerdotisas iniciadas em linhagem direta
com Z.Budapest.

O modelo de organização “familiar”, porém, é fortemente criticado por
diânicas que chegaram à religião da Deusa pelo feminismo,
principalmente o feminismo de terceira geração. Elas vêem nesses
níveis de experiência uma forma de opressão hierárquica muito

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semelhante a do patriarcado. Recentemente, o Circle of Aradia, de
Ruth Berrett reestruturou sua organização para minimizar padrões
hierárquicos.

Mulheres rejeitam esses modelos preferem atuar em completo pé de
igualdade dentro do grupo, onde o que existe são relações de honra e
irmandade entre as participantes. Elas preferem criar covens e círculos
de mulheres com liderança rotativa, ou por decisão tomada por
unanimidade ou grande maioria, onde a solução em conjunto é
valorizada, umas ensinam às outras e todas são chamadas a treinar e
aperfeiçoar seus dons de liderança. 17

Diversas instituições e grupos diânicos treinam sacerdotisas diânicas
para o serviço de clero. A mais antiga delas é a Women's Thealogical
Institute (WTI), fundada em 1984.





Resumindo


Principais Características do Dianismo:

1. Veneração à Deusa e às Deusas. Prática reservada às mulheres.

2. Crença de que a Deusa é tudo e contem todas as coisas.

3. Veneração à Deusa em todas suas faces. A Tradição Diânica é, ao
mesmo tempo, monoteísta, politeísta e animista - a ênfase depende de
cada praticante.


17 Para esse tipo de organização completamente não hierárquica, o termo “círculo” é

mais frequentemente utilizado que o termo “coven”.

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4. Possibilidade da diânica feminista – se assim o desejar - praticar ou
ser membro de outras tradições pagãs (inclusive tradições mistas e que
veneram o Deus).

5. Veneração aos ciclos naturais/ciclos das mulheres.

6. Consciência ambiental

7. Defesa da emancipação e empoderamento da mulher (não é a
dominação da mulher sobre o homem!). O ativismo político é muito
importante para muitas diânicas. O empoderamente pessoal é
importante para todas.

8. Substituição de um modelo de dominação social (a que
geralmente chamamos de patriarcado ou androcracia ) por um
modelo de cooperação social (ou gylania ). Substituição de
hierarquia por parceria, particularmente nas relações religiosas.

9. Valorização da mulher e da natureza. Inclusive o lado “feminino”
dos homens.

10. Crença e prática da magia.

11. Moral neopagã – substituição de um modelo dicotômico entre o
bem e o mal e a noção de pecado pela noção de responsabilidade e
causa e conseqüência. Não rejeição das emoções consideradas
“negativas” ou da Sombra, mas aplicação e expressão responsável
destas. Crença da Wicca Rede.

12. Valorização da diversidade e da tolerância.

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