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718 ENEIDA MARIA DE SOUZA

proustiana, pela força mágica de ligar e reativar a memória do intérpre­


te das histórias familiares.
Memória de arquivo, "mal de arquivo" ( 142), como assim se
expressa Jacques Derrida, nostalgia e paixão da origem - são esses os
princípios que norteiam o trabalho infinito de escavação da genealogia
textual. Estar doente, ser possuído pelo "mal de arquivo", é considerá­
lo corno espectro e cadáver, fantasma que possibilita o diálogo incessan­
te da morte com a vida. Compete à escrita memorialística cumprir 0 A HORA DA ESTRELA OU A HORA DO LIXO
papel de suplemento e de simulacro desse diálogo. DE CLARICE LISPECTOR
!talo Moriconil
Bibliografia
Aguiar, Joaquim Alves de. Espaços da memória: Um esludo sobre Pedro Nava. São Paulo:
Edusp/Fapesp, 1998. Escrito em 1976, publicado um mês antes da internação que
Arrlguccl Jr., Davi. "Móbile de memória: Enigma e comentário. Sào Paulo: Companhia levou a autora à morte em dezembro de 1977, A Hora da estrela faz par­
das Letras, 1987. 67-111.
Bueno, Antônio Sérgio. Vísceras da memória. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
te de um grupo de textos de Clarice Lispector que não apenas consti­
Derrida, Jacques. Mal d'archive. Paris: Galiléc, 1995. tuem mas também encenam o final, assim como o final enquanto dis­
Garcia, Celina Fontenele. A escrita frankenslein de Pedro Nava. Fortaleza: UFC, 1997. solução. Final da vida, final da carreira, final da obra. Uma etapa de sua
Nava, Pedro. Baú de ossos. Vol. 1. Memórias. Rio de Janeiro: Sabiá, 1972. escrita que ela mesma chamou de "hora do lixo", ao responder às críti­
__. Balão cativo. Vol 2. Memórias. Rio de Janeiro. José Olympio, 1973. cas feitas ao livro de contos A Via Crucis do Corpo (de 1974).2 Hora da
__. Chdo de ferro. Vol 3: Memórias. Rio de Janeiro. José Olympio, l 976. estrela, hora do lixo. As críticas a Via Crucis diziam respeito ao caráter
__ . Beira-Mar. Vol. 4. Memórias. Rio de Janeiro. José Olympio,;\l 978.
__. Galo-das-Trevas. Vol 5. Memórias. Rio de Janeiro. José Olympio, 1981.
esquemático de suas narrativas e à suposta crueza no tratamento da
__ . O círio perfeito. Vol. 6. Memórias. Rio de Janeiro. José Olympio, 1983. questão sexual. Hora do lixo, hora da morte. Morte de Macabéa, estre­
__. "Cntr1:visto.• Samilli, Maria Aparecida (org.). Seleção de Textos, Notas, Estudo la de cinema ao avesso, personagem não trágica, protagonista de uma
Biográfico, Histórico e Exercícios. Pedro Nava. Literatura comentada. São Paulo: não vida, cujo auge se dá na cena final do atropelamento, sátira de um
Abril Educação, 1983. 105-8.
apocalipse banal. Morte física da autora, que talvez já soubesse de sua
Savieto, Maria do Carmo. Baú de madeleines. Dissertação - Universidade de São Paulo,
! 988.
doença quando começou a escrever A hora da estrela.
A hora do lixo cobre um período relativamente curto na carreira
de Lispector e abrange seus últimos escritos, posteriores a Água viva
( 1973). Representa apenas mais um momento de radicalização numa
trajetória desde o começo classificada de radical ou idiossincrática por
todas as vertentes canônicas da moderna crítica !iterá ria brasileira.

do Rio de Janeiro. Elllre outros,


1 Prulessor de Lireratma Brasileira da Universidade do Estado
de (Rio de Janeiro: Diadorim , 1994). Organizador das antologias Os
auror A provocaçà " pós-mode rna
poemas do século (Rio
cem melhores con/os do século jRio de Janeiro: Objetiva, 2000) e Os cem melhom
de Janeiro : Objetiva . 2001 ).
2 Ver Gotlib 417; Ferreira 268.
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Enquanto inflexao radical, os textos da hora do lixo mantem estreita Ao longo do tempo, a componente experimental acentuou-se,
vinculagao com Agua viva. Fazem parte de um mesmo gesto estetico, sofrendo inflexoes diversas, configurando uma evolugdo que, se por um
desdobrando um jogo, uma dialetica paradoxal ou ambivalencia, entre lado teve a necessaria dimensao linear e previsi'vel, por outro apontou
0 sublime e a dessublima(^ao. Se Agua viva ainda pode ser lido na clave para uma ordem da repetigdo. A repetigao em diferen^a de um mesmo
de um sublime feminino, associado a valoriza(;ao dos atos sublimes de gesto transgressor trazendo mudan(jas progressivas ao discurso. Tal
pintar e/ou escrever, tragos decisivos ja no livro de estrela (Perto do cora- dinamica intensificou-se depois de A magd no escuro (1961), radicalizan-
gao selvagem, 1944), verificamos em A hora da estrela uma inversao total do-se 0 elemento auto-reflexivo, dentro de uma logica textual van-
desse jogo.^ O narrador e/ou protagonista feminino e substitui'do pela guardista. Desta sao exemplos A Paixao Segundo G. H. (1964) e Uma
voz brutal e sadica (apesar de titubeante) de um narrador masculino. 0 aprendizagem, ou 0 livro dos prazeres (1969). O primeiro reescreve em
ato narrativo faz minimas concessoes ao que nao seja sarcastico ou gro- clave feminina o mito kafkiano do homem-barata. Quanto a Uma
tesco. 0 proprio carater de jogo dialetico entre o sublime e o dessubli- aprendizagem, basta lembrar que seu texto se inicia por uma virgula,
me, tao evidente em Agua viva, com seu apelo frequente ao meramen- evocando, de sai'da, seu carater de texto escrevi'vel (o termo de Barthes),
te organico e visceral, e aqui paralisado. A hora do lixo seria a recusa de real^ado por diversos cn'ticos.5
qualquer sublimagao. Nesse sentido, valendo-nos da engenhosa equa- Sob certos aspectos, os textos produzidos no que esta sendo aqui
?ao concretista, Agua viva representa o momento de luxo imprescindivel chamado de hora do lixo encenam os limites, a exaustao de um proje-
a configura^ao do lixo enquanto entidade estetica. lo de progressiva radicaliza^ao da escrita auto-reflexiva. Do ponto de
O diagnostico do "caso Clarice" como radical ou idiossincratico vista estetico, este e o final mais espetacular, que provavelmente deter-
explica-se, num primeiro momento, por sua inadequa^ao a hegemonia mina todos os demais: o fim do modernismo. De um ponto de vista des-
dos valores nacionalistas e sociais, historicos e referencialistas de avalia- critivo, OS textos da hora do lixo, incluindo agora no termo o proprio
qao do literario, dominantes no canone cn'tico modernista. Lispector Agua viva, caracterizam-se por extremo fragmentarismo. Os livros
apareceu no cenario em 1944 com uma ficqao subjetivista e uma reto- tornam-se curtos, os contos esquematicos e nervosos. 0 que chamo
rica nao mimetica, cheia de metaforizagoes insolj^tas, violentos desvios aqui de "livros" sao em ultima instancia assemblages de fragmentos uni-
metom'micos, estranhamentos produzidos por uxh narrar que se deixa- ficados por algum tipo de fio condutor: falo de Agua viva, A hora da estre­
va conduzir por um descrever alusivo, fundado em intensa atengao ao la e do postumamente publicado Um sopro de vida. Esse fragmentarismo
sensi'vel e ao detalhe.^ Entrava na literatura brasileira pela porta de radical interage com uma facejornah'stica. A autora publica trechos de
uma vertente sofisticada, em que a base introspectiva dava margem a seus livros e contos no corpo de suas cronicas para o Jornal do Brasil, de
indagaqao moral e existencial. Um tipo de ficqao ainda hoje pouco leva- que foi colaboradora semanal entre os anos de 1967 e 1973. Por seu
do em conta pelos modelos conceituais dominantes na historiografia turno, as cronicas assumem freqiientemente um torn "literario" e filo-
universitaria, embora seus autores individualmente possam ter conta- sofante, com reflexoes, medita^oes, metaforas e jogos ironicos lipicos
do com alguma aten^ao da cn'tica. Incluem-se aqui os nomes de
de seus textos literarios. Cria-se assim uma porosidade entre os dois
Cornelio Pena, Otavio de Faria, Lucio Cardoso, entre outros. Porem,
generos, um sistema de trocas erraticas, que vem associar-se a perma-
distinguindo-se dos romances produzidos por esses autores, o texto de
nente pratica da reescritura por Clarice.
Clarice foi dado como surpreendente sobretudo por trazer inequi'voca A hora do lixo clariceana envolve pois uma dualidade entre o lite­
componente experimental, ao lado de um exph'cito, embora nao total, rario e o jornah'stico, o erudito-vanguardista e o kitsch, o bom e o mau
engajamento da escrita e da arte em geral com a banda sombria da exis-
gosto, 0 alto e o baixo, a poesia e o cliche, o ironico e o sentimental.
tencia: o mal, o pecado, o crime.
Tradicionalmente, a cronica e um genero para-iiterario brasiieiro, con-

' Sobre o sublime feminino em Lispector, ver Peixolo 68-72.


Ver Santiago, "A Aula inaugural do Clarice". 5 Ver, por exemplo, Santos e Helena.
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cebido, na sua versao dos anos 50/60, como algo enderegado a leitores masculino (chamado Rodrigo S. M.), o leitor e a personagem Macabea,
"sensiveis". O discurso da hora do lixo assume entao, de um lado, sua cuja historia se reduz a minimos acontecimentos biograficos: orfanda-
face popular, dada pela cronica meditativa: amar Clarice tornou-se um de, emprego de datilografa, namoro fracassado, roubo do namorado
mito na cultura brasileira que significa declarar-se sensivel ou mesmo
pela colega de trabalho, Ida a cartomante e a cena final da morte por
sensitive. E de outro lado, a face literaria experimental-vanguardista atropelamento. O efeito de simultaneidade aqui se da na medida em
dada pelos livros, em que o "baixo" do cliche sentimental-existencial se que 0 piano narrativo mais importante no texto e aquele em que o nar­
entrela^a ao estranhamento provocado pela complexidade da lingua- rador comenta com o leitor o seu processo de cria^ao de uma persona­
gem aulo-remissiva propria do alto modernismo. gem ficcional que Ihe e completamente estranha. 0 motivo central de
A hora da estrela e a seqiiencia dos sentimentos conflitivos do narrador

em reIa(jao a personagem que ele quer criar, esfor^o que nunca se afas-
Em Agua viva, A hora da estrela e Um sopro de vida a estrategia dis- ta de um simples esbo^o caricatural. Ja nao se busca mais a simultanei­
cursiva mais marcante e a declara^ao do desejo do narrador de criar dade entre escrita e sensa(;ao e sim entre escrita e leitura. Erigida em
efeitos de simultaneidade com a escrita. Escrita que se propoe como eixo da narrativa, a dimensao auto-reflexiva configura-se como aulo-
inscri^ao simultanea ao efetivar-se de um pensar/sentir, logogrifo ime- reflexao do narrador sobre sua relagao com a personagem. Entre os fas-
diato de um bloco de afecto/percepto (no sentido deleuziano). Para cinantes efeitos produzidos por essa operagao discursiva, destaca-se o
usar a expressao iconica cunhada em Agua viva\ uma escrita do instante- desnudamento do carater de simulacro do proprio leitor. Radicalizando
jd. Tal simultaneismo associa-se ao modo como se apresenta a subjeti- a experiencia feita por Machado de Assis com o Bentinho de Dom
vidade narradora. Se nas obras anteriores a Agua Viva esta e encenada Casmurro, Clarice cria um Rodrigo que e S. M. (sadico e masoquista)
atraves do jogo classico entre enuncia^ao narrativa e personagens, aqui tanto em rela^ao a personagem quanto ao leitor.
0 palco desloca-se integralmente para o espago do foco narrativo. A
filosofia ficcionada.da subjetividade em Clarice passa a concentrar-se •

exclusivamente na figura de um ego que e ego scr^ptor, seja ele na'i'f,


como no caso da pintora que resolve escrever em'Agua viva, seja ele Mas a personagem Macabea nao e qualquer uma, tanto assim que
representado por experientes escritores — masculino em A hora, femi­ praticamente toda a fortuna critica sobre A Hora da Estrela, e tambem o
nino em Um sopro. filme de Suzana Amaral baseado no livro, concentram nela sua aten-
A subjetividade escritora, alem de engendrada, e cindida e desfe- (jao. Macabea e uma caricatura de nordestino. E "nordestino" nao e
re um percurso que vai do dialogico ao diasporico. Em Agua viva, a cisao uma categoria inocente na cultura brasileira. Nordestinos na literatura
se da mediante uma estrategia da intersubjetividade. A narradora pin­ brasileira sao pobres, excluidos, perifericos, seres provenientes de um
tora dirige seu discurso a um destinatario masculino, assumindo assim Brasil arcaico em rela^ao ao pais surgido desde fins do seculo XIX, cul­
0 texto o carater de simulacro de uma carta. A intersubjetividade tural e economicamente dominado pelo poderoso Sudeste. Na ideolo-
define-se ai como dialogica, sendo seu terceiro termo um referente: a gia da ordem do discurso hegemonizada pela civilizagao do Sul, o este-
realidade ou a verdade da pura sensaqao. A busca da simultaneidade reotipo do nordestino e o de "raga subdesenvolvida", "sub-raga" pela
entre escrita e acontecimento mantem um conceito ontoldgico do vivido, falta de recursos. Num paralelo com o discurso racista norte-americano,
tido como substancia a ser alcanqada pela atividade representacional, a talvez Macabea equivalha a white trash, embora ela seja descrita nos ter-
qual, no entanto, como e obvio, sempre fracassa. A narradora de Agua mos de uma ideia muito especificamente brasileira e elastica de "ra^a
viva nao consegue ultrapassar o abismo da differance, figurado no lexto branca", pois sua cor de pele e dita parda.
pelo uso dos espa^amentos grafico e tematico. Um dos aspectos de originalidade de A hora da estrela, no piano
Em A hora da estrela, ja nao se trata mais de atingir uma realidade mimetico-documental, e que Rodrigo S. M. retrata uma nordestina ja
substancial. O triangulo da comunicagao se da agora entre o narrador urbanizada, nao uma nordestina flagrada no seu sertao original, nem a
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nordestina deslocando-se pelo pais como retirante da pobreza de sua


regiao, duas imagens tipicamente modernistas. A nordestina de Rodrigo narrativa. E responde: "Antes de tudo porque captei o espi'rito da lingua
e assim as vezes a forma e que faz o conteudo. Escrevo portanto nao por
S. M. e a imigrante ja estabelecida na periferia das grandes cidades do
causa da nordestina mas por motivo grave de 'for^a maior', como se diz
Sudeste, a nordestina pos-moderna que, no cinema, foi pioneiramente
nos requerimentos oficiais, por 'for^a de lei'".
mostrada em 0 amuleto de ogum, de Nelson Pereira dos Santos (1975).
A partir dai, o leitmotif do narrador sera dado pelos contraditorios
Nesse cenario contemporaneo, posterior aos anos 70, nem mesmo o ser­
tao pode mais ser encenado na linguagem substancialista da origem sentimentos provocados por seu esfor?o herculeo de identificagao com
autentica. Como no recente filme Central do Brasil, de Walter Sales, o Macabea. Rodrigo S.M oscila entre a repugnancia e a empatia, entre a
lugar sertao ja nao e mais um cenario de cactos espinhentos e caveiras indiferen^a cruel e a piedade, reatualizando o jogo entre sadismo e sen-
de vacas e sim, apenas, area periferica suburbana ocupada por um con- timentalismo que Gilberto Freyre detectara, nos anos 30, como consti­
junto habitacional semelhante aos das metropoies do Sudeste. Alem de tutive das rela^oes entre a classe patrimonial branca ou parda e a escra-
nordestina, a Macabea criada por Rodrigo S.M como si'mbolo de pobre­ vidao negra no Brasil. Para ilustrar minimamente meu argumento,
za e a representa^ao grotesca e caricatural de uma subjetividade total- transcrevo a seguir o paragrafo em que Rodrigo S.M. faz uma primeira
apresentagao de Macabea:
mente definida pela faixa mais imediata do consumo: ela se alimenta de
Coca-Cola e seu unico passatempo e ouvir a Radio Relogio.
Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de
Lispector faz Rodrigo S.M. transgredir todas as regras de pieguice
um nao sei que com ar de se desculpar por ocupar espa^o. No espelho
e Utopia sociais que sustentaram o mito literario do nordestino na lite­
distraidamerne examinou de perto as manchas no rosto. Em Aiagoas
ratura modernista. Nesse sentido, a rela^ao entre o narrador e Macabea
chamavam-se "panos", diziam que vinham do figado. Disfar^ava os
e a representa^ao alegorica da relaijao entre o intelectuai modernista e
panos com grossa camada de p6 branco e se ficava meio caiada era
a popula^ao pobre e exclufda. Nas versoes mais populistas desse moder­ melhor que o pardacento. Ela toda era um pouco encardida pois rara-
nismo, OS escritores pensaram redimir-se de sua culpa social atraves da mente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combina-
salva^ao do pobre pelo texto-denuncia. Entre os autores mais consagra- ^ao. Uma colega de quarto nao sabia como avisar-Ihe que seu cheiro era
dos da gera^ao surgida nos anos 20/30, apenas Gracifiano Ramos, em murrinliento (...) Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto
Memdrias do cdrcere, e Carlos Dummond de Andrade, em alguns mo- entre as manciias tivesse um leve brilho de opala. Mas nao importava.
mentos de sua desconstrutiva poesia dita "social", ousaram aludir aqui- Ninguem olhava para ela na rua, era cafe frio. (34)
lo que A hora da estrela apresenta de maneira tao brutal: toda a hipocri-
sia e 0 sadismo inerentes a rela^ao entre o intelectuai e o pobre na tra- Observamos que Rodrigo S.M. repete cliches do discurso do pre-
di^ao cultural brasileira. conceito racial e social contra os nordestinos (sujeira, doen^a, incons-
Rodrigo S.M. busca o que parece impossivel no Brasil: falar de ciencia), levando suas descri^oes ao extremo do clownesco, como par­
exclusao social sem fazer demagogia. 0 texto de Lispector na verdade e te do esfor^o de evitar uma identifica^ao demagogica e artificial com
publicado no momento mesmo em que se inicia profunda transforma- Macabea.No entanto, e impossivel escrever sobre um outro sem o
^ao na cultura polftica brasileira, ocorrida na virada dos anos 70/80; a mi'nimo de empatia, sem o mfnimo de proje^ao subjetiva. Essa empatia,
conquista de voz publica pelos proprios setores exclui'dos, independen- porem, vai aparecer no seu texto tambem de maneira parodica. Eis o
temente da tutela dos velhos partidos, poh'ticos e intelectuais populistas que se le logo em seguida ao trecho acima citado:
de classe media.6 Rodrigo S.M. sabe que sua motiva^ao e completa­
mente exterior ao drama efetivamente vivido pelos modelos inspirado- E assim se passava o tempo para a moga esta. Assoava o nariz na
res de sua Macabea. "For que escrevo?", pergunta ele no inicio de sua barra da combina^ao. Nao tinha aquela coisa delicada que se chama

' Ver Santiago, "Democratiza^ao", ^ Para uma leitura extremamente original e interessanie do clownesco em A hora da estrela.
ver Areas.
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encanio. So eu a vejo encantadora. So eu, seu autor, a amo. Sofro por


Escrevo por nao ter nada a fazer no mundo: sobrei e nao ha luear
ela. E so eu e que posso dizer assim: "que e que voce me pede chorando
para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e
que eu nao Ihe de cantando? (34)
estou cansado, nao suporto mais a rolina de me ser e se nao fosse a sem­
pre novidade que e escrever. eu me morreria simbolicamente todos os
Apenas num aspecto Rodrigo S.M. consegue construir um eixo de dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos
identifica^ao nao parodica com Macabea, embora ainda farsesco devido Experimeniei quase tudo, inclusive a paixao e seu desespero. E agora so
a heterogeneidade radical entre criador e criatura. Trata-se da solidao. quereria ter o que eu tivesse sido e nao fui. (27)
Esse e o unico elo que possibilita a constru^ao de um discurso conec-
tando diferentes tao diferentes. De maneira tambem completamente
exterior e artificial, Rodrigo S.M estabelece um paralelo entre a solidao Bibliografia
irremediavel do ego scriptor e o anonimato mudo de Macabea. A solidao
faz com que o escritor perten^a a uma esfera residual dentro do orde- Antelo, Raiii (org.). Dedimo da arte / Ascenmo da cultura. Florianopolis: Letras Contem-
poraneas.
namento das coisas e e como resi'duo, e pela ideia de resi'duo, que
Areas, Wilma. 0 sexo dos clowns". Revista Tempo Brasiieiro 104 (1991)- I45.53
Rodrigo pode estabelecer um fiapo de identifica^ao com a nordestina.
Identificaijao, porem, que carrega ainda um ouiro elemento crucial de
diferen^a, pois o escritor possui o bem inestimavel da palavra, ao passo Gotlib, Nadia Battella. Clarke — Uma vida que se conta. Sao Paulo Atica 1995
que Macabea dela se encontra desprovida: Helena Lucia, ^em musa, nem Medusa: Itinerdrios da escrita em Clarice 'lispector. Rio de
Janeiro, Ed. Universidade Federal Fluminense, 1997.
Lispector, Clarice, Perto do coragao selvagem. Rio de Janeiro: A Noite, 1944.
(...) Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse:
. A magano escuro. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1961.
— Eu sou sozinha no mundo e nao acredito em ninguem, todos
A Paixao segundo G. H. Rio de Janeiro: Ed. Autor, 1964.
mentem, as vezes ate na hora do amor, eu nao acho que um ser fale com
Uma aprendizagem ou 0 livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Jose Olympio 1969
o outro, a verdade scVme vem quando estou sozinha. . Agua viva. Rio de Janeiro: Artenova, 1973,
Maca, porem, jamais disse frases, em primeiro lifgar por ser de . A Via-crucis do corpo. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.
parca palavra. E acontece que nao linha consciencia de si e nao reclama- A hora da estrela. A" ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1978.
va nada, ate pensava que era feliz (...) (Vejo que tentei dar a Maca uma . Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira 1978
situaqao minha: eu preciso de algumas horas de solidao por dia senao Miranda^ Wander Melo (org.). Narratims da modermdade. Bdo Horizome: Autentica,
"me muero".) (83)
Pelxoto^ Maria. Pa.,io„ale Mctiom: Ccnder. Narrative and Violence in Clarice Lispector.
Minneapolis. University of Minnesota Press 1994
A cena final do atropelamento de Macabea por um carro de mar-
ca Mercedes-Benz, em lugar do noivo louro que a cartomante Ihe tinha ErsP^plpEsTrnf"" """ ~
prometido, acentua a vitoria do artificialismo da escrita sobre a piedade Santiago, Silviano. -Democratiza?ao no Brasil _ 1979-1981 _ Cultura versus arte"
social como movel da cria^ao artfstica. "O final foi bastante grandilo- Declmo da Arte / Ascensdc da Cultura. Raul Antelo (org.). Florianopolis: Letras
Contemporaneas, 1998. 11-23.
quente para a vossa necessidade? (104)", pergunta ao leitor o mais dni-
• 'A a inaugural de Clarice". Narrativas da Modermdade. Wander Melo Miranda
co dos narradores jamais criados por Clarice Lispector. Na sarjeta, a
(org.). Belo Honzonte: Autentica, 1999. 13-20.
cena do corpo morto de Macabea alegoriza nao apenas um certo con­ Santos, Roberto Correa dos. Lendo Clarice. Rio de Janeiro: Atuai, 1986.
ceito de ego scriptor, mas, sobretudo, fornece uma imagem impiedosa de
si mesma feita por Clarice na hora final, pela boca de Rodrigo, seu tra-
vesti sadomaso:
JOAO CEZAR DE CASTRO ROCHA
(organizador)

COM A COLABORAgAO DE
VALDEI LOPES DE ARAUJO

NENHUM BRASIL EXISTE


- PEQUENA ENCICLOPEDIA -

TOPB'OOKS 4 0 01 J * 1• • i 0
Copyright ® Joao Cezar de Castro Rocha e outros, 2003

Revisao
JOAO CEZAR DE CASTRO ROCHA
VALDEI LOPES DE ARAUJO
agradecimentos

Capa
ADRIANA MORENO

Proje,OS como Brasil aiste - de

cirXes. N.0 pode.os deixar de

Sousa, Diretor do deZrmento exclusivamente


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