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Ana Maria Carvalho dos Santos Oliveira

&
Isabel Cristina Ferreira dos Reis
(Organizadoras)

HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL


Discussões e Práticas

D I T O R A

Salvador-2010
perdido muito do brilho dos primeiros anos. Havia motivações políticas
para tentarem relegar ao esquecimento aquela data e os acontecimentos Q/ftemâ?<ia e Aióútoia: itftfe#a<xU2áfioóá6u4Í&
que culminaram na abolição. Uma delas tinha intenção de censurar algo
que era identificado como a grande realização da monarquia. A outra, Sara Oliveira Farias
talvez mais velada, tinha por objetivo silenciar conflitos e demandas dos
ex-escravos por cidadania.

Q/Vo mundo contemporâneo, é praticamente impossível pen-


sar o presente e o futuro.Vlissociado da memória. E pensar a História
não é diferente. Nesse sentido, é significativo ressaltar que os estudos e
as pesquisas que utilizam a metodologia da história oral se ampliaram,
inserindo-se em uma perspectiva teórica já consolidada, desde a década
de 1970, quando a metodologia da história oral ainda era uma novidade
entre os historiadores.
Muitos são os estudos sobre memória. Entre eles, podem-se
destacar os de Michel Halbwachs que discute, entre outras questões, a
memória como um fenómeno coletivo e social, e afirma tratar-se de um
fenómeno construído coletivamente e submetido a modificações, sempre
em profunda interaçáo com a memória individual. 1 Para Halbwachs,
a memória é sobretudo uma (re)construção do passado no presente.
Contribuiu também com o debate que distingue Memória e História.
Outra contribuição importante para a discussão foi a de Pierre Nora
que elaborou o conceito "lugares de memória" e iniciou uma discussão
nos seus estudos sobre como os grupos sociais e os países na atualidade
mudaram sua relação com o passado.2 Na acepção de Nora, esses lugares
são construções históricas, onde a memória se ancora, se cristaliza e se
refugia. Michel Polack enriqueceu ainda mais o debate com as discussões
teóricas sobre a memória, 3 sobretudo quando identificou o que nomeou
como os elementos constitutivos da memória, individual ou coletiva:

1 H A L B W A C H S , Maurice. A memória coletiva. S ã o Paulo: Vértice, 1990.


2 N O R A , Pierre. Entre M e m ó r i a e História. A problemática dos lugares. Proj. História, São
Paulo.(IO), dez. 1993. p.7-28.
5 P O L L A C K , Michel. M e m ó r i a c identidade social. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.
5, n. 10, 1992, p. 202.

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1 Discussões e Práticas babel Cristina Ferreira dos Reis (Organizadoras)
Sara Oliveira Farias I 61
E m primeiro lugar, são os acontecimentos vividos pessoalmente. ultrapassada e já foi amplamente debatida em seminários, congressos e
E m segundo lugar, são os acontecimentos que eu chamaria de
simpósios de história nos últimos trinta anos.
"vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo gru-
po ou pela coletividadc à qual a pessoa se sente pertencer. São Atualmente, a história nomeada como oral não está restrita a ser
acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou, mas uma "outra" história, mais verdadeira, autêntica, porque estava tratando,
que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das como se dizia anteriormente, com a "história viva". O debate que se pro-
contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou
duz hoje sobre a história oral ultrapassou essa perspectiva. Cada vez mais
não. Se formos mais longe, a esses acontecimentos vividos por
tabela vêm se juntar todos os eventos que não se situam dentro o que se percebe nestes trabalhos é o uso das fontes orais na produção da
do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo. 4 escrita da história, discutindo os aspectos teóricos e metodológicos das
abordagens. O caminho foi longo e muitos contribuíram para o trabalho
A pesquisa e o debate sobre a memória foi se consolidando de
com as fontes orais.
maneira significativa, alicerçando suas bases teóricas. Assim, a influência
desses autores ajudou a formar gerações e gerações de historiadores no E fundamental elencar algumas obras de historiadores que come-
Brasil, contribuindo para os estudos e as pesquisas de fontes orais e para çavam a militar a favor da história oral e que lentamente começavam a
a criação de programas de História Oral, como o Centro de Pesquisa demarcar o território no campo da história, contribuindo para a visibili-
Documental de História Contemporânea - C P D O C , da Fundação Ge- dade dessa nova metodologia, já amplamente utilizada por antropólogos
túlio Vargas, na cidade do Rio de Janeiro, criado na década de 70, com e educadores, mas que era vista com certa restrição entre os historiadores.
base em experiências internacionais já bastante consolidadas. Foi assim que trabalhos como o de Paul Thompson, 5 nos anos de 1960 e
1970, provocaram o debate académico, ao afirmar que a história oral não era
As pesquisas e os estudos com testemunhos de homens e mulheres
ganharam nas últimas décadas do século XX, no Brasil, uma maior visi- algo recente, era "tão antigo quanto a própria história". 6 Seu foco central é
bilidade, depois da criação dos programas em História Oral que, de certa a discussão e análise do uso de fontes orais pelo historiador, demonstrando
forma, ajudaram na consolidação de estudos que explorassem as múltiplas que este procedimento poderia ser perfeitamente compatível com o padrão
dimensões da memória, alicerçados em bases teóricas e metodológicas académico. Seus estudos foram considerados importantes, principalmente,
que a associam ao resultado das experiências vivenciadas de homens e por sua contribuição ao método e à teoria da história oral.
mulheres, cabendo ao pesquisador analisar e, se possível, compreender No cenário internacional, muitos foram os autores que contri-
o caminho de construção das memórias dos sujeitos. buíram, construindo conceitos para tentar explicar o complexo processo
Os estudos e as pesquisas em história que têm como ponto de da memória como também métodos de pesquisa para a história oral.
partida os trabalhos com a memória, especialmente aqueles que utilizam Podem-se destacar os estudos de Alessandro Portelli que defendem e
as fontes orais, quase sempre enfatizam o processo complexo de cons- apresentam o conceito de "memória dividida", 7 discutindo a memória
trução da memória. Analisar/investigar as múltiplas possibilidades deste
processo parece fundamental, sobretudo se levarmos em consideração
THOMPSON, Paul. A voz do passado: hisrória oral. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
que a discussão, anterior aos anos de 1970, sobre a veracidade ou como
5

1992.
queriam os mais ortodoxos sobre a cientificidade da História Oral está 6 T H O M P S O N , op. cit, p. 104.
7 P O R T E L L I , Alessandro. O massacre de Civitella Val di Chiana (Toscana, 29 de junho de
1944): mito, política, luto e senso comum. I n : F E R R E I R A , Marieta de Moraes; A M A D O ,
* Idem, ibidem. Janaina (org). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: F G V , 1996.

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HISTÓRIA R E G I O N A L E L O C A L
Discussões e Práticas
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Memória e história: interações possíveis
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coletiva como um campo de disputa e que, ao estudarmos essa memória, José Carlos Sebe Bom Mehy com seus estudos sobre a sistematização da
estaríamos lidando com "uma multiplicidade de memórias fragmentadas metodologia utilizada, os significados da pesquisa em história oral, além
e internamente divididas... além de culturalmente mediadas". 8 A expe- de ter ampliado os debates sobre como abordar a memória. 1 2 Em outra
riência internacional, no uso de fontes orais, foi fundamental para que vertente teórica, merecem registro os estudos de Antonio Montenegro
outros continentes, a exemplo da América Latina, se beneficiassem dos que compreende e analisa o uso das fontes orais apenas como uma forma
estudos em curso. Merecem destaque os estudos de Eugenia Meyer 9 que de produzir uma fonte para o trabalho do historiador, centralizando so-
trabalha permanentemente o uso de novas fontes para uma nova histó- bretudo as implicações teóricas e metodológicas da escrita da história. 1 3
ria, com destaque para os métodos de pesquisa para a história oral. Para Estes e muitos outros contribuíram e continuam contribuindo para a
Meyer, desde a segunda metade do século passado, "um bom número consolidação e divulgação das pesquisas em história com o uso das fontes
de aventureiros da história, de forma pontual, gradual, mas nem por orais no Brasil. Os trabalhos mais recentes em história oral, pelo menos
isso menos apaixonada e arriscada, se lançaram à conquista da memória, em sua maioria, consolidam a posição de que esta é uma metodologia
com o objetivo de abater o esquecimento [...] E o combate pela história de trabalho bastante utilizada e respeitada e não "outra" história, mais
obrigou-nos a reconhecer na memória um verdadeiro desafio". 1 0 Histo- verdadeira, mais viva. O historiador cada vez mais procura trabalhar com
riadores como Meyer, Portelli, Pollack e Paul Thompson, entre outros, os mais variados tipos de fontes, procurando entrecruzá-las c tecendo as
influenciaram estudiosos de vários países da América Latina. tramas das narrativas que constrói.
No Brasil, deve-se registrar, entre outros, os trabalhos de Marieta
de Moraes Ferreira, Janaina Amado, Verena Alberti, 1 1 pesquisadoras de Histórias possíveis
um dos principais centros de documentação do país que trabalha com
a metodologia da história oral, C P D O C , contribuindo de modo sig- Durante o período de 2003 a 2007, desenvolvi um projeto de
nificativo para o desenvolvimento e a difusão de pesquisas com fontes pesquisa que tinha entre outros objetivos analisar os variados signifi-
orais, alicerçando as questões sobre memória e história oral com den- cados das relações entre trabalhadores e uma empresa multinacional,
sidade teórica. Também não se pode deixar de registrar os trabalhos de a Jacobina Mineração e Comércio S/A (anteriormente nomeada como
Morro Velho), durante o período de 1980 a 1998, na cidade de Jacobina,
• P O R T E L L I , op. cit, p.106. município do estado da Bahia. 1 4
9 Eugenia Meyer é professora do Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de
Filosofia e Letras da Universidade Nacional A u t ó n o m a do México. Foi uma das pioneiras Os fios que engendraram esta história me conduziram a inves-
no desenvolvimento da história oral no continente americano. A contribuição de Eugenia tigar como foram construídas essas relações, focalizando, sobretudo, os
Meyer está registrada pelos editores da revista do C P D O C Estudos Flistóticos. Ver o artigo
significados da prática do trabalho de perfurar rochas para extração do
M E Y E R , Eugenia. O fim da memória. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 22, n ° 43,
janeiro junlio de 2009, p. 31-44.
10 M E Y E R . op. cit.33. 12 Ver B O M M E I H Y , J. C . S., Manual de história oral. 5. ed.. São Paulo: Loyola, 2005; B O M
11 Esses s ã o alguns dos nomes sclecionados entre muitos historiadores e estudiosos que contri- M E I H Y , José Carlos Sebe; H O L A N D A . Fabíola. História oral. S ã o Paulo: Contexto, 2007.
b u í r a m para a difusão de programas, pesquisas e estudos com a metodologia da história oral. , J M O N T E N E G R O , Antonio Torres. História oral e memória: a cultura popular revisitada. 3.
Devido aos limites do artigo restringimos nossa análise nos autores citados. Ver F E R R E I R A , ed., S ã o Paulo: Contexto, 2001. Ver t a m b é m M O N T E N E G R O , Antonio. História, método-
Marieta de Moraes; A M A D O , Janaina (org) Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: logia. memória. São Paulo: Contexto, 2010.
F G V , 1996. A L B E R T I , Verena. História oral: a experiência do C P D O C . R i o de Janeiro, 14 F A R I A S , Sara Oliveira. Enredos e tramas nas minas de ouro de Jacobina. Recife: E d . Universitária
FGV, 1990. U F P E , 2008.

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minério e as relações de força construídas pela mineradora. Destas rela- As narrativas construídas, tomando por base as práticas cotidia-
ções, pode-se tentar compreender como muitos trabalhadores contraíram nas dos trabalhadores, revelaram múltiplos sentimentos, muitas vezes
uma doença letal e sem cura: a silicose. Classificada pela Organização contraditórios, mas vivenciados em um período crucial de suas vidas,
Internacional do Trabalho ( O I T ) como doença ocupacional, adquirida marcadas por ambiguidades e tensões nas relações construídas entre os
no ambiente de trabalho, decorrente da exposição agressiva a agentes portadores de silicose, suas famílias, o sindicato e a empresa. Os atores
químicos como gases e poeira. Cientificamente é uma fibrose pulmonar sociais, que vivenciaram a experiência de ter contraído silicose no am-
produzida pela inalação de poeira. É uma das pneumoconioses de maior biente laborativo, instituem uma história para explicar seu passado e
prevalência no Brasil. Em 1971, passa a ser definida como acúmulo de seu presente. A temporalidade revelada nas narrativas de memória dos
poeiras nos pulmões e a reação tecidual à sua presença. mineiros foi marcada pelos significados que atribuem a determinadas ex-
Na pesquisa, os relatos orais de memória foram fundamentais para periências e não por um tempo linear, cronológico. O tempo reconstruído
analisar as variadas experiências desses indivíduos com o trabalho que con- foi compreendido como tempo humano, com base nas experiências de
duzia à doença. A temática dessa pesquisa associava trabalho, saúde, direito trabalhadores que viveram intensamente o trabalho na lavoura em áreas
e memória, fabricando uma narrativa histórica envolvente e dolorosa. rurais de Jacobina e também em outras localidades da Bahia e do Brasil.
Buscaram e acreditaram numa vida melhor, construíram e perseguiram
O convívio com a silicose afetou de muitas maneiras a vida dos
o ideal de um outro tipo de trabalho, talvez menos árduo e associado a
trabalhadores das minas e suas famílias. Em um primeiro momento, a
algum tipo de reconhecimento social. O emprego na mineração Morro
desconfiança e, posteriormente, a confirmação da doença significaram
Velho poderia significar em parte a conquista de um sonho, a realização de
modificações, muitas vezes abruptas no curso da vida, promovendo
um projeto de vida. Acostumados com o trabalho da roça, não hesitaram
também alterações no cotidiano daquelas famílias. "Ao se tornar incapaz
em aceitar a missão de furar rochas abaixo do solo. Nessa perspectiva,
para a atividade laborativa, o mineiro, portador de silicose, muitas vezes
estas histórias permitem compreender alguns traços da dimensão "da
desenvolveu u m sentimento de impotência diante da vida, tomando
invenção da experiência humana" dos trabalhadores da mineração. 1 6
consciência de que o trabalho realizado, durante longos anos na empresa
Morro Velho, o expulsara do mundo nomeado produtivo". 1 Nessa perspectiva, percebe-se que u m dos caminhos possíveis
Os relatos orais de memória permeados de emoção, dor e tam- para a escrita dessa história foi a análise das práticas culturais de homens
bém sentimento de impotência diante da nova condição de doente e mulheres que vivenciaram a experiência da silicose, mas este trato
foram significativos. Através deles foi possível reconstruir esse passado, metodológico só foi possível "quando as memórias se constituíram em
compreendendo através dos variados discursos produzidos, como se re- elementos para a construção de narrativas, para isso foi preciso compre-
conheceram nessas relações laborativas, como tomaram conhecimento ender seus caminhos percorridos, seu lugar de produção". 1 7
sobre a silicose e suas reações, como registraram na memória esse período O trabalho de fabricação de narrativas é fundamental no ofício
de suas vidas, como apreenderam e instalaram os sentidos do histórico e do historiador, por isso é preciso traçar seus percursos, seguir a trilha
do social construídos nas práticas cotidianas, principalmente, como os
revelaram nas suas narrativas, nas suas histórias. 16 R I C O E U R , Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994, p. 15, (t. 1); G U I M A R Ã E S
N E T O , Regina B. Cidades da mineração: memória e práticas culturais. Mato Grosso na pri-
meira metade do século X X . C u i a b á . Carlini &Caniato. E d U F M T , 2006, p. 56.
1 5 F A R I A S , O p . cir, p. 179. 17 F A R I A S , op. cit, p. 21.

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de muitos atalhos, permeados de bifurcações, obstáculos como a lacuna entre ambos e um desejo profundo de narrar aquelas histórias é que foi
das fontes, a experiência cotidiana da pesquisa muitas vezes diferente da possível traçar um verdadeiro mosaico das relações entre trabalhadores/
forma como esta foi concebida, enfim, uma longa trajetória que precisa viúvas (mulheres dos mineiros), a empresa multinacional e outros atores
ser o tempo todo redimensionada. sociais envolvidos nos enredos que teciam aquela história.
O trabalho com as fontes orais requer também procedimentos que
são fundamentais na operação historiográfica. Em Jacobina, deparei-me
História e trabalho em Jacobina: uma história regional?
com narrativas fascinantes daquelas pessoas que contavam suas experi-
ências vivenciadas. Isto foi fundamental porque permitiu:
A pesquisa que selecionou os acontecimentos, as fontes escri-
1) analisar a condição de produção dos relatos. Saber quem é seu tas, orais e os procedimentos teóricos metodológicos tramou uma das
depoente. De onde ele fala. E u m dos aspectos metodológicos que se histórias possíveis sobre trabalhadores, mineração e doença na cidade
deve levar em consideração. Não se pode ir a campo de forma ingénua, de Jacobina. Alguns nomeiam tais histórias que não se desenrolam nos
acreditando que aquele relato é a verdade única, mas lembrando que o centros metropolitanos do Brasil de história regional. Diferente deles,
relato é a "verdade" do depoente; prefiro compreender a história sobre trabalho e mineração como mais
2) compreender os múltiplos caminhos trilhados pelo depoente, uma das histórias possíveis sobre esta temática. Prefiro o termo história,
suas escolhas para interpretar a própria vida e a dos outros. Porque narra porque o que se produz nos mais variados estados da federação, nos mais
daquela forma, os silêncios contidos na narrativa, os receios de falar, a es- diversos lugares, são histórias.
colha do léxico, as emoções que quase sempre vem à tona. Enfim, captar
A nomeação de uma História Regional está circunscrita ao perí-
os variados aspectos de como os indivíduos vivenciaram determinadas
odo dos anos de 1960 e 1970, a partir da crise dos paradigmas. Anterior
situações.
a esse período, sobretudo nos anos de 1950, havia os grupos de trabalho
Nessa perspectiva, o relato oral pode ser considerado "um texto do Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek que era o Grupo de
onde se inscrevem desejos, reproduzem-se modelos, apreendem-se fugas Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste - G T D N , com enfoque
[...] u m texto articulador de discursos". 18 Na pesquisa sobre as práticas no regional (Nordeste aí incluído).
do trabalho nas minas de ouro de Jacobina, esses relatos (re)significam
Analisando a formação deste conceito, percebem-se as redes de
constantemente o passado no presente e apontaram a construção da tensa
interesses políticos, as estratégias discursivas de pensar a região como algo
e desigual relação social entre os trabalhadores e a mineradora.
natural, dado. A região é um discurso da geografia como nos lembrou
A temática da pesquisa que focalizava esta relação social do Michel Foucault. Segundo ele, o conceito de região muito se aproxima do
trabalho conduzia a um campo minado. Como tratar de questões que discurso estratégico (militar). Antes de remeter à geografia, encaminharia
produziam uma memória permeada de muita dor? Como fazer o depo- para uma noção fiscal, administrativa, militar. 1 9
ente reatualizar seu passado naquele presente? Questões fundamentais no
trato com fontes orais que abordam uma temática delicada e complexa.
Foi preciso um esforço constante, além de uma interação profunda
entre entrevistadora/ entrevistado. Só a partir da confiança estabelecida
19 F O U C A U L T , Michel. Sobre a geografia. In: Microfisica do poder. 16. ed., Rio de Janeiro:
" G U I M A R Ã E S N E T O , Regina Beatriz. O p . cit, p. 47. Edições Graal, 1979. p. 157.

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Nessa linha teórica de inspiração, segue o historiador Durval espaciais maiores para revelar as conexões entre comunidades de
Muniz Albuquerque Jr. afirmando que a região é uma construção. 2 0 uma região, regiões de um país e assim por diante". 2 2

Esta tese é a que melhor traduz as opções teóricas e metodológicas E preciso reconhecer que uma realidade social não é a mesma,
que inspiram as pesquisas que realizo. Pensar um determinado lugar e depende sempre de como o historiador analisa ou, como afirma Jacques
um determinado objeto de história é pensar, sobretudo, que estes são Revel, depende "da escala de observação em que escolhemos nos situar". 2 3
resultados de interesses, de relações de força, de jogos. Os historiadores Escolhendo trilhar os caminhos das microanálises como "as estratégias
deveriam, portanto, questionar o próprio conceito de região "e a teia de individuais, as trajetórias biográficas [...] nem por isso se tornam menos
poder que a instituiu", 2 1 tentando compreender historicamente como importantes", 2 4 mas, simplesmente, construídos e pensados de maneira
foram elaborados os discursos sobre este ou aquele conceito. Interessa- diferente. Sempre é interessante lembrar que a história é incompleta e
nos saber como a história regional se constituiu, só desta forma estaremos parcial e que lançamos apenas um foco de luz sobre determinado acon-
próximos de compreender a escrita da história. Segundo Albuquerque, tecimento, sobre determinado lugar. A escrita da história é realizada por
a história regional "não faz o questionamento do lugar de produção do operações complexas que requerem por parte do historiador, compe-
saber historiográfico. Os historiadores que aceitam participar da divisão tência analítica das fontes e sua hábil capacidade de transformar maços
entre história nacional (História do Brasil) e história regional (História de documentos, relatos e discursos em narrativas repletas de tramas, de
do Nordeste)", 2 1 estabelecendo lugares hierarquizados, reproduzem artimanhas e de estratégias dos mais variados atores-personagens.
as relações desiguais de poder entre as diferentes áreas do país. Ao se
N o que diz respeito às múltiplas histórias sobre trabalho, mine-
colocarem como historiadores regionais, reconhecem sua incapacidade
ração e doença nas minas de ouro da cidade de Jacobina, o enfoque foi
de fazer História do Brasil. Nesse sentido, as histórias sobre as cidades e
construído a partir das práticas cotidianas dos indivíduos que vivenciaram
localidades do estado da Bahia e do Brasil são sobretudo histórias. O que
a experiência da silicose, fazendo emergir depoimentos "que compõem
nós, historiadores, temos como dever de ofício é analisar historicamente
o enredo da história, repleto de imbricações, ligações e armações. Dessa
como se constitui nosso objeto de estudo. Talvez um caminho metodo-
forma, procurou-se percorrer algumas das linhas que engendram a trama
lógico pertinente seja o de realizar uma microanálise, que se fundamente
histórica sobre a mineração em Jacobina, encontrando nesse caminho,
na redução da escala de observação,
diferentes trilhas e muitos atalhos". 2 5 É através desse fazer histórico que
[...] procedimento analítico aplicável em qualquer lugar, in- se pode construir múltiplas formas de compreensão não somente sobre
dependentemente das dimensões do objeto investigado e na silicose, trabalho, mas, sobretudo, sobre os mais variados temas que
microanálise, com estudo intensivo das fontes, fundamentando-
despertem a atenção e o interesse do historiador.
se no princípio de que a observação microscópica pode revelar
fãtores não observados previamente em outras proporções. Tal A reflexão constante e incessante do historiador em relação ao
procedimento propõe o estudo de comunidades locais como seu ofício e à sua prática, vinculada às necessidades e às inquietações do
objetos de sistemas de pequena escala, podendo usar as categorias
2 2 A L B U Q U E R Q U E , op cit. p. 29.
2 3 N E V E S , Erivaldo Fagundes. História regionale locai fragmentação e recomposição da histó-
ria na crise da modernidade. Feira de Santana: U E F S , Salvador Arcádia, 2002, p. 47.
2 0 A L B U Q U E R Q U E Jr. Durval Muniz dc. A invenção do nordeste e outras artes. Recife: F J N / 24 R E V E L , Jacques (org). Jogos de escalar, a experiência da microanálise. Rio dc Janeiro: F G V ,
Massangana. S ã o Paulo: Cortez, 1999, p. 25. 1998. p. 13.
21 A L B U Q U E R Q U E , op. cit, p. 28. 2 5 F A R I A S , op. cit. p. 257.

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presente que constroem a história, vinculada aos diálogos e às interações
^nfov o tocai' e a i^eaiovia/: foaj^fâvia e fóvideMJÚaá da,
possíveis que a operação historiográfica exige. No diálogo e nas interações
possíveis entre memória e história, entre métodos e fontes, é possível /iMfoia AocieUna *Jjva&il.
pensar sobre o fazer histórico na contemporaneidade e refletir sobre qual
ou quais histórias se pretende produzir. Wellington Castellucci Júnior

Um início de conversa

0m 1989/90, a Revista Brasileira de História publicou um


importante artigo do gabaritado historiador britânico Raphael Samuel,
intitulado "História local e história oral". 1 Vinte anos nos separam
dessa importante publicação e nos mostra a pertinência desse simpósio
que ora realizamos no Campus V, da Universidade do Estado da Bahia,
promovido pelo Programa de Pós Graduação em História Regional e
Local. Creio que hoje estamos afinados com as bases lançadas pela Nova
Esquerda Britânica, a qual apontava, já nos anos cinquenta, uma nova
perspectiva historiográfica, valorizando, sobretudo, as açóes humanas
como o principal objeto de análise do historiador.
Quero, inicialmente, começar por dizer que não foi fácil a incor-
poração das novas influências advindas de escolas europeias, a exemplo
não só das contribuições da Nova Esquerda Britânica, como também
a dos annales e a da Micro-história italiana nos meios universitários
brasileiros. Lembro-me que, na época da minha graduação, por volta

dos anos 1990, alguns professores utilizavam um livro publicado - de
maneira muito apressada, pelo conceituado historiador Ciro Flamarion

Cardoso, denominado Ensaios racionalistas, como suporte "teórico-
científico-metodológico" (perdoem-me pelo excesso de adjetivos!) para se
contrapor ao que eles qualificavam de "novas tendências irracionalistas,

1 S A M U E L , Raphael. História locale história oral. In: Revista Brasileira de História, ANPUH,
S ã o Paulo, Vol. 9, n» 19, p. 219-243, Setembro de 1989/Feverciro dc 1990.

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1 HISTÓRIA R E G I O N A L E L O C A L
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