Você está na página 1de 14

LEVANTAMENTO DE DADOS NA PESQUISA EM DIREITO – a técnica da análise

de conteúdo
JULIA MAURMANN XIMENES
Advogada, Mestre em Direito, Doutora em Sociologia Política pela Universidade de Brasília, professora
da graduação, pós-graduação e Mestrado da Escola de Direito de Brasília do Instituto Brasiliense de
Direito Público – IDP, onde também é Diretora-Geral.
juliaximenes@idp.edu.br

RESUMO: Os processos judiciais são interessante fonte de dados para a pesquisa jurídica de
cunho científico, que frequentemente tem sido questionada pela ausência de comprovação
empírica. Neste contexto, a análise de conteúdo como técnica de coleta de dados permite
compreender e evidenciar indicadores não expressos explicitamente na mensagem. Assim, a
análise não se resumiria a descrição (enumeração das características do texto) e nem da
interpretação (a significação concedida a essas características), mas a um procedimento
intermediário que permite a passagem, explícita e controlada em referenciais teóricos, da
descrição à interpretação. Isto porque os elementos de análise representam uma ponte entre a
descrição e as diferentes interpretações possíveis, conforme o marco teórico definido no início
do processo de construção do trabalho científico.
PALAVRAS CHAVE – pesquisa jurídica – análise de conteúdo – processos judiciais – pesquisa
empírica

TITLE: Data Collection in law research – the content analysis technique


ABSTRACT: The judicial process is interesting data source for judicial research with scientific
mark, and frequently has been questioned by the lack of empirical proof. In this context, the
content analysis as a dada collection technique leads to understand and evidence indicators not
cleared expressed in the message. Thus, the analysis is not a mere description (specification of
characteristic of the text) neither interpretation (meaning given to these characteristics), but an
intermediate proceeding that enables the passage, elucidate and control theoretical references,
from description to interpretation. This is because the analysis elements represent a link
between description and different possible interpretations, according to the theory approach
defined in the beginning of the process of scientific work construction.
KEY WORDS – judicial research – content analysis – judicial process – empirical research

SUMÁRIO: Introdução; 1. A pesquisa científica no Direito e suas peculiaridades; 2.


Levantamento de Dados – a análise de conteúdo; 3. A análise de conteúdo na pesquisa em
Direito; Considerações Finais; Referências Bibliográficas.

INTRODUÇÃO
A pesquisa em Direito é frequentemente alvo de críticas no campo científico e de
debate sobre sua cientificidade no próprio campo jurídico. (ex. NOBRE, 2005) Muitas destas
críticas advém do fato de que a pesquisa em Direito se restringe muito a uma abordagem
dogmática, se concentrando demasiadamente na produção da análise da norma, sem
problematizar as diferentes temáticas jurídicas, sem relacioná-la com outras áreas do saber, sem

1
analisar os impactos da norma e o desempenho dos diferentes atores jurídicos, como o Poder
Judiciário, os advogados, o Ministério Público.
Não temos como objeto do presente artigo aprofundar o debate sobre a pesquisa em
Direito per si, mas ele é o pano de fundo para a problemática proposta – em que medida a
técnica de pesquisa “análise de conteúdo” pode contribuir para um processo de coleta de dados
na pesquisa em Direito?
Assim, iniciaremos com uma breve análise das peculiaridades da pesquisa em Direito,
normalmente apontadas como entraves a uma pesquisa strictu sensu. Convém salientar que não
trataremos aqui de questões relacionadas ao conceito de ciência, ao método científico, ou ao
processo de construção do conhecimento científico de forma mais aprofundada. O enfoque aqui
é mais pragmático: trata-se da aplicação de uma determinada técnica de pesquisa na coleta de
dados na pesquisa em Direito.
Em seguida abordaremos a análise de conteúdo. Importante salientar desde já que não
se trata de metodologia, mas sim de técnica de coleta de dados. O processo de construção do
pensamento científico é permeado por diversas fases, dentre elas a definição do problema, a
hipótese, o marco teórico, a metodologia e nesta, a coleta de dados.
A análise de conteúdo se insere neste desdobramento da metodologia, mais
especificamente nas pesquisas de campo. Muito conhecida nas pesquisas feitas na comunicação
social, na propaganda política e na psicologia, trata-se de uma técnica que busca expressar um
significado e um sentido, extravasando a leitura real do texto analisado. Assim, há uma dupla
tentativa de compreensão: compreender o sentido da comunicação (como se fosse o receptor
normal), mas também e principalmente desviar o olhar para outra significação, outra mensagem
entrevista através ou ao lado da primeira mensagem, realçando um sentido que se encontra em
segundo plano, atingindo outros significados, de natureza psicológica, sociológica, política,
histórica, etc. (BARDIN, 1979)
Por fim, proporemos exemplos da aplicação da técnica. Trata-se de uma singela
contribuição para a implementação da proposta, visto que a técnica, conforme destacaremos
pode ser utilizada em corpus de documentos muito mais amplos. Aqui nosso objetivo é apenas
buscar apontar a concretização da implementação da técnica em casos concretos na pesquisa
em Direito, sem qualquer possibilidade de generalização ou conclusões de cunho teórico,
apenas metodológico.
Partimos da premissa de que os processos judiciais podem contribuir como fonte de
dados para a pesquisa jurídica, mas desde que questões como poder e interpretação estejam
envolvidas nas análises do material. A análise de conteúdo, que trabalha com a palavra, seja
2
quantitativa ou quantitativamente, permite produzir inferências do conteúdo da comunicação
deste importante documento da pesquisa jurídica.
1. A pesquisa científica em Direito e suas peculiaridades
A construção do conhecimento científico advém da dúvida, de uma inquietação diante
da realidade, o que metodologicamente denominamos o problema de pesquisa. Conforme
aponta Popper (1996) “nunca começamos por observações, mas sempre por problemas: por
problemas práticos ou por uma teoria que deparou com dificuldades – quer dizer, uma teoria
que criou, e frustrou, certas expectativas” (p. 124)
No processo de construção do problema e do próprio conhecimento científico, esta
inquietação será o “motor” que conduzirá o pesquisador no seu levantamento de dados, na busca
por uma “resposta” - a hipótese - que deverá estar embasada em um marco teórico, em um
quadro de leitura que permita ao leitor relacionar este tripé – problema/hipótese/marco teórico
- de forma coerente e sistematizada.
Entretanto, permeando a relação entre este tripé surge a metodologia:
Contudo, a validade de um conhecimento está na qualidade e detalhamento da
descrição do método, ou seja, com que instrumentos opera, em que fases se exerce,
quais mecanismos dispõe para controle das operações, por meio dos quais se testa, se
mede, se descreve, se explica, se justifica, se fundamenta, se legitima, se constrói, se
produz, se elimina, se aumenta, se diminui, se multiplica, se divide, se participa, se
exclui, se inclui. (MOLL, 2007, p. 161)

É neste momento que a pesquisa em Direito é conclamada a mudanças e adaptações.


O conhecimento científico produzido no Direito tende a “reproduzir” e não “produzir’. O
pesquisador “jurista” se limita a “aprofundar” a leitura já feita pela chamada “doutrina”,
reproduzindo o que a norma diz, e elevando a inquestionáveis dogmas a jurisprudência, em
especial as das Cortes Superiores, esquecendo que o fenômeno jurídico é um fenômeno social,
histórico, econômico, político. Urge uma reflexão sobre esta abordagem de cunho “repetitivo”:
“Isto é, a cientificidade do Direito reside no campo científico do Direito como área de
conhecimento da realidade, trabalha com fatos e sua prática e formula teorias. Trata-se de uma
concepção científica culturalista do Direito” (MOLL, 2007, p. 143)
Podemos apontar três elementos que ratificam a tendência de “reprodução” apontada.
Um deles é a confusão feita entre a pesquisa instrumental, por convicção, típica da construção
profissional dos diferentes atores jurídicos, da pesquisa científica propriamente dita. A primeira
escolhe os argumentos na doutrina já existente e na jurisprudência, combinados com a
interpretação da legislação, com vistas a resolver uma demanda específica. O “pesquisador”,
neste caso, já sabe a resposta, e isto não é pesquisa científica.

3
A pesquisa científica também está próxima da realidade, conforme já apontamos, mas
ela busca solucionar um problema desta realidade a partir da coleta de dados que conduzam a
comprovação de uma hipótese pré-estabelecida, mas não definitiva. A resposta na pesquisa
instrumental no Direito advém da convicção do “jurista” e não na construção e seu processo.1
Outro elemento que conduz o pesquisador em Direito a uma reprodução é o argumento
da autoridade. Oliveira (2003) associa este argumento às ideias de “reverencialismo” e de
“manualismo”, ou seja, uma confusão entre a defesa de uma hipótese e a defesa de uma causa.
O pesquisador se reporta a “doutrina” no estilo jurídico (“como preleciona fulano de tal”),
associando a construção da sua hipótese apena a exposição dos doutrinadores citados, sem
construir o raciocínio propriamente dito, o que implica na mencionada “reprodução” do
pensamento.
Por fim, o último elemento que consideramos importante é a resistência a pesquisa
empírica, o que já aponta para o principal objeto do presente artigo. Não há uma tradição de
pesquisa empírica no campo do Direito e muitas vezes se confunde a pesquisa empírica com a
pesquisa sociológica, com o mero levantamento de dados. (OLIVEIRA, 2003; FRAGALE
FILHO, 2005; NOBRE, 2005). A pesquisa empírica (quantitativa ou qualitativa) não está
dissociada de referenciais teóricos. Pelo contrário, ela só fará sentido quando imersa em um
quadro referencial que sustente as hipóteses suscitadas para responder o problema científico.2
A empiria só se faz necessária quando o pesquisador encontrar uma problemática que permite
uma análise da realidade por intermédio da coleta de dados e a posterior interpretação destes
dados. Ademais, nem todas as técnicas de pesquisa empírica são viáveis na pesquisa em Direito,
e é neste sentido que tentamos apontar uma nova possibilidade.
A resistência a pesquisa empírica decorre também da própria falta de tempo dos
pesquisadores em Direito, que acaba sendo associada à tendência a ampliação exagerada dos
temas, a mega-hipóteses, sem um foco específico de pesquisa, um objeto determinado e um
problema bem elaborado.3 Assim, supre-se este distanciamento do processo de construção do
conhecimento científico com a utilização excessiva da “doutrina”, na linha do “manualismo”

1
Um debate sobre a pesquisa instrumental e a pesquisa científica foi feito no Seminário organizado pela FGV-
EDESP “O que é pesquisa em Direito?” em 2004 e disponível na íntegra em NOBRE, et alii, O que é pesquisa
em Direito? São Paulo: Quartier Latin, 2005.
2
“A pesquisa científica busca ultrapassar o senso comum (que por si é uma reconstrução da realidade) através do
método científico....o método científico permite que a realidade social seja reconstruída enquanto objeto do
conhecimento, através de um processo de categorização (possuidor de características específicas) que une
dialeticamente o teórico e o empírico” (DESLANDES, 2007, p. 34).
3
“A definição do problema ou objeto de pesquisa às vezes é tarefa difícil, mas também é a razão da existência de
um projeto. A construção de um objeto de estudo científico constitui um verdadeiro exercício contra a idéia de que
as coisas estão dadas na realidade e que basta apenas estar atento ao que acontece no cotidiano” (DESLANDES,
2007, p. 39)
4
apontado anteriormente, o que fecha um círculo de vícios que acarretam a “reprodução” e não
a “produção”.
Após estas breves considerações sobre o “estado da arte” da pesquisa em Direito,
adentraremos na técnica da análise de conteúdo propriamente dita.

2. Levantamento de Dados - a Análise de Conteúdo


Conforme já mencionado, na fase de levantamento de dados, o pesquisador pode se
deparar com uma série de documentos cuja análise poderá permitir inferências sobre a sua
problemática.
Ou seja, o material sujeito à análise de conteúdo é concebido como o resultado de
uma rede complexa de condições de produção, cabendo ao analista construir um
modelo capaz de permitir inferências sobre uma ou várias dessas condições de
produção. Trata-se da desmontagem de um discurso e da produção de um novo
discurso através de um processo de localização-atribuição de traços de significação,
resultado de uma relação dinâmica entre as condições de produção do discurso a
analisar e as condições de produção da análise. (VALA, 2003, p. 104)

Bardin (1979) destaca que a análise de conteúdo compreende um conjunto de técnicas


de análise das comunicações, o que permite um amplo campo de aplicação, como discursos
políticos, manuais escolares, entrevistas, novelas, etc... O que aqui propomos é utilizar a técnica
na análise das decisões judiciais, isto porque o domínio de análise de conteúdo é justamente o
material e o conjunto de técnicas que permitam a explicitação e sistematização do conteúdo das
mensagens e da expressão deste conteúdo.

Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por


procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens
indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos
relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
(BARDIN, 1979, p. 44)

Assim, a técnica procura conhecer aquilo que está por trás das palavras sobre as quais
se debruça, e não uma restrita “leitura do real”, que aceita o caráter provisório das hipóteses,
que descreve os conteúdos, mas sim no que estes poderão nos ensinar após serem trabalhados
com o quadro referencial específico do tema. Aqui adentramos um dos principais elementos da
análise de conteúdo quando aplicada qualitativamente nas ciências humanas, a inferência.

... O analista é como um arqueólogo. Trabalha com vestígios. Mas, os vestígios são
as manifestações de estados, de dados e de fenômenos. Há mais alguma coisa a
descobrir por e graças a eles... o analista tira partido do tratamento das mensagens que
manipula, para inferir (de maneira lógica) conhecimentos que extrapolem o conteúdo
5
manifesto nas mensagens e que podem estar associados a outros elementos (como o
emissor, suas condições de produção, seu meio abrangente, etc). Tal como um
detetive, o analista trabalha com índices cuidadosamente postos em evidência por
procedimentos mais ou menos complexos. (FRANCO, 2007, p. 29; grifos no original)

No Direito é comum a análise documental, ou seja, a representação condensada da


informação, para consulta e armazenamento. Assim, trabalha-se com a jurisprudência de forma
que esta corrobore a hipótese defendida. A proposta da análise de conteúdo de um documento
jurisprudencial iria além: ela visa a manipulação da mensagem expressa na decisão (conteúdo
é expressão desse conteúdo) para evidenciar os indicadores que permitam inferir sobre uma
outra realidade que não a da mensagem, podendo responder a perguntas como:
a) o que levou a determinado enunciado? (causas ou antecedentes da mensagem);
b) quais as consequências que determinado enunciado vai provavelmente provocar?
(efeitos das mensagens)

O processo judicial como fonte de dados aqui apontado, pressupõe o posicionamento


dos atores envolvidos – os juízes não são atores neutros, ou mero porta-vozes do discurso oficial
do Estado. Na verdade, a manifestação dos juízes nos processos pode ser compreendida como
reproduzindo o discurso da corporação, ou seja, a ideologia dominante; ou ainda como um
posicionamento do ator no campo jurídico (BOURDIEU, 1989), que luta pela melhor definição
de sua posição neste campo.4

Portanto, a análise não se resumiria a descrição (enumeração das características do


texto) e nem da interpretação (a significação concedida a essas características), mas a um
procedimento intermediário que permite a passagem, explícita e controlada em referenciais
teóricos, da descrição à interpretação. Os elementos da técnica permitem uma ponte entre a
descrição pura (o levantamento de dados propriamente dito) e as diferentes interpretações
possíveis, conforme o marco teórico previamente definido.

Isto porque os elementos de análise representam uma ponte entre a descrição e as


diferentes interpretações possíveis, conforme o marco teórico definido no início do processo de
construção do trabalho científico.
Com vistas a ilustrar as diversas formas como a análise de conteúdo pode ser utilizada,

4
“Pela análise das narrativas dos processos judiciais, pode-se buscar aquilo que é transmitido com a ocorrência de
determinados comportamentos e com o discurso sobre esses comportamentos, ou seja, pode-se apreender a lógica
que informa tais comportamentos e discursos empreendidos pelos grupos sociais estudados” (OLIVEIRA; SILVA,
2005, p. 258). O discurso não necessariamente explica o comportamento, mas a sua análise mais detalhada permite
a percepção do que está informando a ação e o posicionamento das pessoas enfocadas. “A verdade acaba sendo
dada muito mais na compreensão das coisas do que nelas próprias” (OLIVIERA, SILVA, 2005, p. 247).

6
apontamos alguns exemplos explorados por BARDIN (1979) e FRANCO (2007). Mais adiante
retomaremos exemplos parciais de utilização da técnica na pesquisa em Direito.
a) pesquisa educacional: analisando o discurso sobre o papel do educador, o pesquisador
deve ser capaz de poder compatibilizar o conteúdo do discurso (lido ou ouvido) com
alguma, ou algumas teorias, explicativas. Assim, poderá descobrir se está lidando com
abordagens do tipo “construtivista”, “neoliberais”, “behavioristas”, “positivistas”,
“estruturalistas”, “dialéticas”, “críticas”, e outras;
b) pesquisa sociológica: temas abordados e referências à Bíblia nos sermões religiosos,
tendo como hipótese e interpretação a função social da religião como instrumento de
comunicação no seio das igrejas;
c) pesquisa política/comunicação: análise dos símbolos políticos encontrados nas notícias
necrológicas da morte de Mao, do que se inferiu o destaque do apoio dos líderes
militares e civis segundo tendências moderadas ou radicais.

Importante ressaltar ainda os procedimentos apontados para a utilização da técnica.


Bardin (1979, p. 128) destaca as seguintes fases:

7
Tabela 1 - Desenvolvimento de uma análise de conteúdo

PRÉ-ANÁLISE
Leitura «flutuante»

Escolha de documento Formulação das hipóteses Referenciação dos índices


e dos objetivos

Elaboração dos
indicadores

Constituição do corpus Dimensão e direções de


análise

Regras de recorte,
categorização, codificação

Preparação do material Testar as técnicas

EXPLORAÇÃO DO MATERIAL

Administração das
técnicas no corpus

TRATAMENTO DOS RESULTADOS


E INTERPRETAÇÕES

Operações estatísticas

Provas de validação
Síntese e seleção dos
resultados

Interferências

Interpretação

Utilização dos resultados


Outras orientações para de análises com fins
uma nova análise teóricos ou pragmáticos

8
Depreende-se do acima exposto, que as diferentes fases organizam-se em torno de três
momentos distintos: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados
(inferência e interpretação).
Na pré-análise há a fase de organização da pesquisa que será feita, com a escolha dos
documentos que serão submetidos à análise, a formulação das hipóteses e dos objetivos, e a
elaboração dos indicadores que fundamentarão a interpretação final. Trata-se de uma fase em
que é preciso estabelecer contato com os documentos a analisar (a “leitura flutuante”), sem
deixar de fora qualquer um dos elementos por esta ou por aquela razão (dificuldade de acesso,
impressão de não-interesse), que não possa ser justificável no plano do rigor científico.
No segundo momento, de exploração do material, surge a necessidade de codificação
e de categorização – relacionar elementos do conteúdo coletado com os referenciais teóricos,
de forma que inferências e interpretações possam ser feitas na fase seguinte. A codificação
implica em um recorte (escolha das unidades), enumeração (escolha das regras de contagem –
quando a pesquisa for predominantemente quantitativa) e a classificação e agregação (escolha
das categorias).
O recorte deve buscar dois tipos de unidades, de registro e de contexto:
a) a unidade de registro é a unidade de significação a codificar e corresponde ao segmento
de conteúdo a considerar como unidade de base. Pode ser a palavra, o tema5, o objeto
ou referente6, o personagem, o acontecimento, o documento;
b) a unidade de contexto serve de unidade de compreensão para codificar a unidade de
registro e corresponde ao segmento da mensagem, cujas dimensões são utilizadas para
que se possa compreender a significação exata da unidade de registro.
Cumpre salientar que como o presente artigo busca sustentar a técnica da análise de
conteúdo na pesquisa em Direito, não adentraremos detalhes acerca dos procedimentos
relacionados à análise de conteúdo quantitativa, como regras de enumeração, freqüência,
operações estatísticas.7 “A abordagem não quantitativa recorre a indicadores não frequenciais
susceptíveis de permitir inferências; por exemplo, a presença (ou a ausência) pode constituir

5
Conforme apontaremos em seguida, a análise temática, na nossa visão, é uma boa unidade de registro para os
documentos jurídicos propostos aqui, as decisões. Isto porque a análise temática “consiste em descobrir os ‘núcleos
de sentido’ que compõem a comunicação e cuja presença, ou freqüência de aparição podem significar alguma
coisa para o objectivo analítico escolhido” (BARDIN, 1979, p. 131). Aponta-se sua utilidade para estudar
motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências...
6
São temas-eixo, em redor dos quais o discurso se organiza.
7
Outro instrumento que pode ser utilizado mas que também não será objeto de detalhamento é a categorização:
uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação e, seguidamente, por
reagrupamento segundo o gênero, com os critérios previamente definidos. Impõe determinar o que cada uma das
categorias tem em comum com as outras. Maiores informações ver BARDIN (1979) e VALA (2003).
9
um índice tanto (ou mais) frutífero que a frequência de aparição” (BARDIN, 1979, p. 140).
Assim, a ênfase é dada a inferência, em “saber mais”, além do que expressamente encontrado
no texto.
Desta feita, a análise de conteúdo pode realizar-se a partir dos códigos e das
significações que a mensagem fornece. Dois exemplos (BARDIN, 1979, p. 166):
a) Quanto ao código: a pergunta para a mensagem seria como varia o
comprimento das frases, nos discursos políticos? Após o processo de
inferência, passaria a ser, em que medida é que o comprimento das frases de
um discurso político nos informa sobre a segurança do orador?
b) Quanto à significação: quais os conteúdos do discurso publicitário? Isto pode
já ser interessante, mas o conteúdo pode estar ligado a outra coisa, ou seja,
aos códigos que contêm, suportam e estruturam estas significações – que
valores e que ídolos veiculam, apesar de tudo, as mensagens publicitárias?

3. A análise de conteúdo na pesquisa em Direito


Após descrever a análise de conteúdo, suas características, elementos e fases,
passaremos ao principal objetivo do presente artigo – apontar uma possível proximidade entre
a pesquisa em Direito e a técnica da análise de conteúdo, em especial nas análises
jurisprudenciais.
As decisões emitidas pelo Poder Judiciário podem ser uma interessante fonte de dados
para o pesquisador. Isto porque é uma mensagem que além dos significados estritamente
jurídicos, que atendem aos requisitos processuais exigidos para a manifestação do juiz, permite
inferir outros sentidos, como tendências do posicionamento doutrinário, visões de mundo
(ideologias), compreensões quanto a temas complexos como Estado, relação entre poderes,
papel do Poder Judiciário, legitimidade democrática, enfim, temas caros a marco teóricos
científicos no Direito.
Um exemplo sem análise jurisprudencial propriamente dita e de cunho meramente
ilustrativo8: há um grande debate acadêmico e doutrinário quanto ao papel do Poder Judiciário
no controle de políticas públicas quanto à efetivação dos direitos sociais. O debate se insere
justamente na legitimidade que o Poder Judiciário tem de suprir lacunas do Poder Executivo

8
Salientamos que este exemplo não traz reflexões profundas sobre a temática, apenas uma análise superficial sobre
a possibilidade de um levantamento de dados com a análise de conteúdo contribuindo para a comprovação de
determinada hipótese de pesquisa.
10
sendo que não foi eleito para tal e não tem conhecimento e acesso aos principais entraves na
efetivação destes direitos: os de cunho econômico.9
Entretanto, uma abordagem que poderia ser utilizada para analisar as decisões judiciais
sobre o tema é quanto ao papel do Estado. Em que medida a visão do juiz sobre o papel do
Estado influencia sua decisão na implementação de políticas públicas? O objetivo desta
interpretação seria relacionar esta “visão de mundo” com a própria relação com o Poder
Executivo, e consequentemente com o papel do Estado em determinado momento histórico. Se
as visões são totalmente incompatíveis as demandas sociais terão realmente o Poder Judiciário
como última ratio e solução, o que contudo poderá acarretar uma morosidade maior no acesso
a justiça e um descrédito das funções do Poder Executivo.
Neste mesmo exemplo, uma segunda possibilidade é utilizar o ativismo judicial como
marco teórico. Quais unidades de registro podem indicar um perfil “ativista” por parte do Poder
Judiciário? Esta análise corrobora com a abordagem de Bourdieu (1989) sobre as diferentes
lutas simbólicas travadas nos campos, aqui o jurídico10 e o político: os atores se posicionam em
torno de interesses específicos, caracterizados pelas manifestações de relações de poder, e
buscam impor a visão de mundo considerada legítima. A “luta simbólica” entre Executivo,
Legislativo e Judiciário pode ser trabalhada por intermédio da técnica da análise de conteúdo,
que propiciará a conexão entre o discurso jurídico e interpretações sócio-políticas sobre o
posicionamento do Poder Judiciário em determinadas decisões judiciais, considerando o
ativismo judicial como categoria teórica principal.
Com o intuito de ilustrar e detalhar ainda mais a proposta de utilização da técnica na
pesquisa em Direito, elaboramos a tabela abaixo a partir de temas de interesse da autora e/ou
de alunos sob sua orientação ou pesquisas já elaboradas.

9
Aqui surgem expressões como “reserva do possível”. Para maior aprofundamento sobre o tema ver, por exemplo,
Ana Paula de Barcellos, A eficácia jurídica dos princípios constitucionais – o princípio da dignidade da pessoa
humana. 2 ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008.
10
“O campo jurídico é o lugar de concorrência pelo monopólio do direito de dizer o direito, quer dizer, a boa
distribuição (nomos) ou a boa ordem, na qual se defrontam agentes investidos de competência ao mesmo tempo
social e técnica que consiste essencialmente na capacidade reconhecida de interpretar (de maneira mais ou menos
livre ou autorizada) um corpus de textos que consagram a visão legítima, justa, do mundo social.” BOURDIEU,
1990, p. 212, grifos no original). A proposta aqui apresentada é de analisar a “luta simbólica” entre estes
profissionais do campo jurídico e os atores do campo político, Executivo e Legislativo, quando da discussão sobre
a efetivação dos direitos por parte do Poder Judiciário, tendo como premissa teórica o ativismo judicial.
11
Tabela 2 – Propostas de análise de conteúdo na pesquisa em Direito

TEMA UNIDADE DE UNIDADE DE REFERENCIAL


CONTEXTO REGISTRO TEÓRICO/HIPÓTESE
Poder Judiciário e Efetivação dos direitos - “reserva do possível” Processo de judicialização da
implementação de sociais - “mínimo existencial” política e Poder Judiciário mais
políticas públicas - papel do Estado atuante (ativismo judicial)
- dimensão política da
jurisdição
constitucional
- programaticidade das
normas constitucionais
Repercussão Geral e Elementos Decisórios -Questão relevante do Ausência de critérios objetivos
requisitos de ponto de vista para a seleção dos recursos
admissibilidade econômico e jurídico representativos da controvérsia
-O Tribunal, por
ausência de
manifestações
suficientes para a
recusa do recurso
extraordinário (art.
324, parágrafo único,
do RISTF
Jurisdição Concepção - finalista: forma de Explicitar uma das
constitucional, poder e procedimentalista e interpretação funcionalidades do processo
processo concepção finalista adequada, preocupação que não é usualmente
com o resultado e reconhecida pelos juristas – o
duração razoável processo como estratégia de
- valorização da poder, com pretensão de
segurança jurídica e da legitimar a atuação da Corte, a
forma partir dos discursos atuais,
aspirantes à legitimidade,
dentro do campo jurídico,
considerados na perspectiva
dos seus autores.
A constitucionalidade Conceito de Família - referência a gênero no Alterações na forma como se
do conceito de família e conceito define família: hoje não é a
a adoção de crianças por - referência a objetivos família, como valor autônomo
parceiros homoafetivos com a união (proteção fundada no
- tipo de união compromisso do casamento),
(classificação) mas sim as pessoas que a
compõem.

Os exemplos aqui apontados permitem comprovar a principal hipótese levantada no


presente trabalho: a possibilidade da análise de conteúdo como técnica de levantamento de
dados para a pesquisa jurídica. As inferências possíveis permitem conectar temas jurídicos a
problemáticas de cunho sócio-político relevantes para a compreensão do campo jurídico hoje,
cada vez mais complexo e demandado.

12
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após o exposto, torna-se viável, então a proposta ora apresentada – de um liame entre
pesquisa em Direito e pesquisa empírica por intermédio da técnica da análise de conteúdo. Os
exemplos apontados são meramente ilustrativos e não adentram em hipóteses fechadas e de
maior intensidade teórica, mas permitem apontar recortes em pesquisas em andamento.
O contexto da proposta é justamente as freqüentes críticas ao caráter da pesquisa em
Direito efetuada no Brasil, apesar dos avanços já ocorridos. Na última década o ensino de
Direito e a própria pesquisa tem sido alvo de estudos per si, o que já demonstra também esta
inquietação com a qualidade científica dos trabalhos. Este foi o nosso objetivo geral: propor
uma técnica de coleta de dados que proporcione aos pesquisadores uma nova abordagem de
análise do material disponível na pesquisa em Direito e, por conseguinte assentar ainda mais os
critérios científicos no campo de pesquisa jurídica.
A técnica de análise de conteúdo permite um novo olhar na pesquisa empírica efetuada
na pesquisa em Direito, vislumbrando reflexões mais profundas sobre as decisões judiciais,
inferindo como os diferentes atores jurídicos, principalmente o Poder Judiciário, percebem
questões importantes na sua relação com a Sociedade e os demais Poderes do Estado.
Ademais, por intermédio da técnica da análise de conteúdo dos processos judiciais as
hipóteses levantadas nas diferentes pesquisas jurídicas podem ser efetivamente comprovadas
ou não, o que enrique o processo de construção do conhecimento científico, pois ultrapassa a
pesquisa bibliográfica doutrinária. A compreensão sobre o posicionamento dos atores
envolvidos no processo, as diferentes posições ocupadas e os diferentes interesses envolvidos
enriquecem o levantamento de dados sobre temas que buscam problematizar a prestação
jurisdicional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADEODATO, João Maurício. Bases para uma metodologia da pesquisa em Direito. Revista
CEJ. Brasília. n 7. jan/abr. 1999, p. 143-150.
BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Ed. 70, 1979.
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. São Paulo: Edusp, 1989.
DESLANDES, Suely Ferreira. O projeto de pesquisa como exercício científico e artesanato
intelectual. In: MINAYO, Maria Cecília de Sousa (org) Pesquisa Social – teoria, método e
criatividade. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 31-60.
DUARTE, Fernanda; IORIO FILHO, Rafael M.; LUPETTI, Bárbara. Jurisdição
Constitucional, poder e processo: uma proposta de metodologia de análise jurisprudencial. In:
13
XVI Encontro Preparatório para o Congresso Nacional CONPEDI, 2007, Campos. XVI
Encontro Preparatório para o Congresso Nacional CONPEDI, 2007.
FERRAZ JR, Tércio Sampaio. A ciência do Direito. 2 ed. São Paulo: Atlas, 1980.
FRAGALE FILHO, Roberto. In: XIV Congresso Nacional do CONPEDI, 2006, Fortaleza.
Anais do XIV Congresso Nacional do CONPEDI. Florianópolis (SC) : Fundação Boiteux,
2005. p. 323.
FRANCO, Maria Laura P.B. Análise do Conteúdo. Séria Pesquisa. Brasília: Líber Livro, 2007.
GOMES, Romeu. Análise e Interpretação de Dados de Pesquisa Qualitativa. In: MINAYO,
Maria Cecília de Sousa (org) Pesquisa Social – teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes,
2007, p. 79-108.
GUSTIN, Miracy B. de Souza, DIAS, Maria Tereza F. (Re) pensando a pesquisa jurídica:
teoria e prática. 2 ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.
HOFFMANN, Florian F.; BENTES, Fernando R.N.M., A litigância judicial dos direitos sociais
no Brasil: uma abordagem empírica. In: SOUZA NETO, Cláudio Pereira de; SARMENTO,
Daniel (coord) Direitos Sociais – fundamentos, judicialização e direitos sociais em espécie.
Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2008, p. 383-416.
JAPIASSU, Hilton. O mito da neutralidade científica. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
MOLL, Luiza Helena Malta. Projeto de pesquisa em Direito. In: CARRION, Eduardo Kroeff
Machado; MEDINA, Ranier de Souza (org). Reforma Constitucional e Efetividade dos
Direitos. Porto Alegre: UFRGS, 2007, p. 141-176.
NOBRE, Marcos et alii. O que é pesquisa em Direito? São Paulo: Quartier Latin, 2005.
OLIVEIRA, Fabiana Luci de; SILVA, Virgínia Ferreira da. Processos judiciais como fonte de
dados: poder e interpretação. Sociologias, Porto Alegre, ano 7, n. 13, jan/jun 2005, p. 244-59.
OLIVEIRA, Luciano. Não fale do Código de Hamurabi: a pesquisa sócio-jurídica na pós-
graduação em Direito. Anuário dos Cursos de Pós-Graduação em Direito (UFPE), v. 13, p.
299-330, 2003.
POPPER, Karl. O mito do contexto – em defesa da ciência e da racionalidade. Lisboa: Edições
70, 1996.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro:
Graal, 1989.
VALA, Jorge. A Análise de Conteúdo. In: SILVA, Augusto Santos; PINTO, José Madureira
(org). Metodologia das Ciências Sociais. Porto: Afrontamento, 2003, p. 101-128

14