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RAIMUNDO DE FARIAS

BRITO -Um Filósofo


Brasileiro
Marisa Santos

Discutir sobre o pensamento de Farias de Brito é lembrar que influenciou o Tomismo no


Brasil, é falar sobre anti-modernismo, realismo, tradicionalismo, espiritualismo, senso -
comum, e valorização da religiosidade e do espírito.
O filósofo tinha a intenção de construir uma Filosofia do espírito, no seu sentido e signific
ado
mais profundo.
Falar em espírito para Farias de Brito é lembrar que através da consciência emana o s er,
que surge a energia vital e a capacidade de pensar, sentir e agir.
Portanto, este princípio que exerce o poder de criação, de ação, é ativo e vivo, é obj
eto de
ciência.
E com característica que lhe são peculiares, esta ciência do espírito é real e segue em
frente com seus métodos próprios.

O parágrafo em estudo foi extraído do artigo do prof. Luis Alberto Cerqueira, sob o título:
Maturidade da Filosofia Brasileira-Filosofia e Psicologia.

“Cerqueira discorre sobre o surgimento da filosofia brasileira desde Gonçalves de Magalhã


es
a Farias Brito, e o esforço da afirmação desta, em função do conhecimento decomo
si
problema, a fim de achar as respostas para a explicação sobre o espírito.
O filósofo continua explicando que a filosofia vem de tempos remotos e todos os
pressupostos filosóficos giram em torno da busca pelo conhecimento de si, como o ponto
nevrálgico das indagações.

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Pois antes mesmo de nascer à filosofia, o homem já se voltava as suas buscas intimas,
havia movimentos que evidenciavam uma busca espiritual profunda, por respostas aos
anseios da vida.
Na religiosidade e nas manifestações artísticas já se revelava o desejo latente poruma
introspecção mais íntima do ser.
O existencialismo parece se cruzar entre o ser que pensa o divino, e aquele que pensa o
humano.
O encontro íntimo do ser se volta para si mesmo, e se descobre como ser que interroga, e
busca na subjetividade, o elo que une o Criador e a criatura.
Esta busca depende da vontade livre e da liberdade de pensamento, a fim de poder se
livrar de conceitos pré-concebidos e ouvir a voz que vem da consciência.
Mas apesar do homem saber como elevar-se em espírito, ele não sabia ainda impor uma
disciplina mais rígida, a fim de coordenar e usufruir os resultados a fim de guiá-l o
seguramente na verdade, justiça e beleza.
A relação entre vontade e introspecção é o elemento fundamental da filosofia de Faria s de
Brito”.

LIBERDADE

Liberdade sempre foi um assunto muito discutido e delicado na história do pensamento


humano.
Quer seja uma reflexão mais abrangente sobre o futuro e destino do ser humano, quer seja
sobre as especulações e interpretações no sentido da ação deste ser, tais reflexõespre
semse
fizeram necessárias, o tema sempre foi motivo de especulações a partir da Modernidade.

Provocou e continua ainda a instigar o pensamento das várias áreas do conhecimento ,


incluindo a filosofia.
O ser humano somente pode exercer dinamidade a liberdade, quando realmente se sente
livre.
Pensar filosofia é um esforço do espírito e da mente e o filósofo deve ter a liberdade
de
poder balizar suas idéias sem que seja influenciado por pressupostos pré-concebidos.

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Sua consciência deve ter autonomia em suas ações e quanto mais se amplia e alarga seu
conhecimento, mais nítida fica sua percepção em relação às coisas do espírito, que éa um
força
interna que cresce cada vez mais, uma energia latente, e justa medida da busca de si
mesmo.
Pois é a partir da noção de conhecimento e através do conceito de liberdade, que o ser
humano se torna livre e apto a exercer sua influência nas diversas áreas, e em especia l
na ciência.
Filosofia gera conhecimento e investigação, e por conseguinte, como relata a afirmaçãode
Cerqueira
“A filosofia é anterior à ciência e tem por isso mesmo, um caráter pré-científico”.
Não é somente conhecimento abstrato, mas força e vitalidade que vem de dentro do ser,
exercendo influências, quebrando paradigmas e gerando pressupostos á partir d e
problematizações sobre/dentro da sociedade.
Da filosofia nasce o verdadeiro sentimento moral de um povo e nação.
Lembrando Magalhães ao falar sobre a liberdade, “ó tem liberdade nesse mundo quem é
inteligente, só tem inteligência quem é livre, e obra por si mesmo”, de tal maneiraque
quem tem inteligência e liberdade tem consciência de si mesmo, é de necessidade um
ente moral (MAGALHÃES, 2004, p.355).

FILOSOFIA E CIÊNCIA

De acordo com o grande filósofo Farias de Brito, o ser humano é um ser em constante
processo de se produzir, está sempre tentando se superar em relação a si mesmo, mas a
natureza lhe impõe certas contradições e muitas vezes o que era hoje, já não o será amanhã,
pela própria imprevisibilidade das coisas.

A ciência é bem organizada, catalogada, experimentada e a filosofia se dá pela via do


conhecimento, da especulação e está sempre se formando e transformando cada dia.
Neste sentido, pode-se afirmar que a razão humana também está em processo de formaç ão,
adquiri formas diferentes no correr dos tempos, dependendo de como o homem se
relaciona com o mundo.

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A razão é histórica e aos poucos vai sendo tecida na trama da existência humana.
A razão cuida da apreensão do mundo e a razão processa os dados e faz a pré-reflexãodas
idéias e imagens que foram geradas na mente.
A razão transforma-o em um conceito e à medida que é refletida mais vezes, vaise
tornando cada vez mais complexo geral e abstrato.
A partir desta entrada de assunto, pode-se falar sobre a abordagem do mundo a partir do
homem comum, de maneira casual, baseada no bom senso assim como no caráter
científico.
Estas duas abordagens desafiam a lei da física, e ocupam o mesmo espaço no mesmo temp o
e lugar.
A ciência é o conhecimento organizado e verificado.
A filosofia é o conhecimento em via de formação.
Em outros termos: a filosofia é a organização do conhecimento científico; é a investigaçã
o
do desconhecido; é a atividade mesma do espírito, elaborando o conhecimento e
produzindo a ciência.
É uma atividade permanente, ou seja, é produto dessa mesma atividade.

Todo o conhecimento elaborado é ciência.


Aí descansa o espírito na posse da verdade.
Mas toda ciência é apenas um ponto determinado no seio do desconhecido, o qu e
equivale a dizer, no seio do infinito.
Partindo desse ponto e em torno desse ponto para todos os lados se estende o
desconhecido em proporções infinitas.
De maneira que jamais poderá o conhecimento elaborado ou a ciência esgotar a esfer a
do desconhecido.
Pelo contrário com o desenvolvimento das ciências parece que o desconhecido cresce ;
circunstância que tem a sua explicação neste fato: que o espírito galgando uma posição
mais
eminente descortina horizontes mais largos e deste modo descobre novas e estranhas
perspectivas.
É por isto que toda a vez que o espírito descansa na posse de uma verdade, chega ao pont
o
terminal numa série de investigações; mas este ponto terminal é apenas o ponto de partida

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para uma nova série.
A palavra filosofia significa amor da ciência, ou amor a sabedoria.
E este amor somente pode nascer no espírito.
Portanto, se conclui que a filosofia é uma atividade da mente e do espírito, sendo que a
ciência é o resultado no processo.
Além do que, amor é energia, força, vitalidade.
Logo, se a ciência ama a filosofia, é ela que a nutre a ciência, da força, é princ ípio
gerador. Nosso espírito tem necessidade de questionamentos e buscas, faz parte da querer
saber, conhecer.
A atividade do espírito é buscar conhecer e ao mesmo tempo, elaborar conhecimentos.
O espírito é inquieto e está sempre analisando, investigando, questionando e trazen do
resultados que geraram ciência.
"A filosofia é a concepção do problema científico; a ciência é a sua solução".
A filosofia é uma atividade que tem por função própria produzir a ciência.
É o que se pode chamar a função teórica da filosofia.
A filosofia não é, pois, somente conhecimento abstrato; é também força social, forçaviva,
capaz de exercer influência sobre a sociedade.
Esta influência é real e decisiva, pois é da filosofia que nasce o sentimento moral.
Para Farias de Brito, a filosofia pertencia a uma esfera diversa da esfera das ciências, a
estas cabia o conhecimento das formalidades externas, àquela a busca de um sentido e de
uma regra para a ação humana.
A função prática e ética foi o que primeiramente surgiu espontaneamente no espírito do
homem.
Desta forma, Farias de Brito diz que, sendo assim, logo que o homem começou a pensar, ?
Para ele, a filosofia somente deve ter crédito se puder nortear e regular a ação, estano
sentido ético, é tudo o que o homem faz no exercício de sua atividade e toda delibera?
Já com relação ao Espírito, “o trabalho do espírito é, pois, permanente, contínuo”.
No entender do filosofo “o que é mais importante é que a filosofia, elaborando o
conhecimento, não somente vai fundando as ciências, o que quer dizer, alargando e
consolidando o conhecimento científico (função teórica), como ao mesmo tempo abrange, por
disposição natural, o conjunto da universal existência, e deste modo vai sempre fornecendo

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os elementos necessários para uma concepção do mundo”.
Portanto, “deste modo não somente continuamente se esforça por dar uma explicaçã o da
verdadeira significação racional da existência, como ao mesmo tempo procura definir a
posição do homem no seio do Universo”.
Reunindo seu entendimento ético da filosofia e sua visão naturalista, se prende a um a
perspectiva gniosológica realista e tradicional.

Diz o filósofo:

“Segundo a lógica tradicional e confirmado pelo senso comum e pelo assentimento universal
do espírito, chama-se verdade a perfeita conformidade entre a representação e a coisa".

Para ele os instrumentos fundamentais do conhecimento consideram a funçã o


conceptualizadora da razão, e a analogia.
Como critério de verdade, ele somente aceita os testemunhos da consciência e do sens o-
comum.
Ele afirma: "Nós sabemos que não há outro critério de verdade fora o testemunho normal
e permanente da consciência.
E ainda, o senso comum algumas vezes erra, mas quando as teorias se afastam do senso
comum, são artificiais e falsas”.

CONCLUINDO

É necessário entender o contexto que Farias de Brito vivia na época.


A igreja católica passava por uma fase melindrosa, a crise religiosa tendia a crescer mais, os
católicos procuravam algo mais coerente às circunstâncias de suas vidas e de seus valores.

Havia um confronto entre as normas e dogmas da igreja e os valores liberais da maçonaria.


A religião se misturava à prática da cultura política, e tais acontecimentos conduziamao
desgaste à condição do transcendente divino.
A cultura se impunha, encostando os católicos contra a parede, mudando sua forma de

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comportamento e quebrando paradigmas.
O secularismo avançava de forma vertiginosa, a modernização atraia as pessoas ao
consumismo e ao conforto, não havia ambições em relação a ideologias e nem havia huma nen
novidade nesta área.
Positivismo e tradicionalismo religioso sofriam embates, mas ambos eram de postura
racionalista, que não coincidia com a realidade do momento.
A elite começa a se sobressair, e as diferenças entre dois tipos de Brasil começa a ficarda
ca
vez mais evidentes, ou seja, um ideal e outro real.
Poder temporais e espirituais se digladiava entre si.
Farias de Brito, se opondo ao positivismo, elaborou então sua reflexão que protegeriaa
autonomia da consciência, dando-lhe assim uma autonomia sobre o mundo e a realidade
objetiva.
O cientificismo positivista começou a ser combatido, este estava trazendo desânimo e
inquietação à sociedade da época.
O materialismo continuava a sufocar o lado espiritual e psíquico das pessoas.
Como, do ponto de vista pragmático, a religião coincide com parte das idéias do
positivismo, detentora de uma moral tradicionalista e rígida, por não desejarem serem
vistas como baderneiras, administram o conflito e os conservadores assumem a situação on
país.
É nesse ponto que Farias Brito se fez como igreja, tendo como concepção religiosa a
consciência, o pensamento e a vida em espírito.
A concepção de suas idéias combinava com o momento e procurava se ajustar a ele.
Mas eram tempos difíceis e sua religião era de ordem prática, da ação e da moral.
Raimundo Farias de Brito era um homem notável, inteligente, observador, era um
homem espiritual e se preocupava com a ciência, com o rumo dos pensamentos e com a
consciência.
Resistiu a fome e a peste do sertão cearense, a perda de seu primeiro filho, aos embates de
inteligência, a perda de sua primeira esposa, a perda de seu amigo Euclides da Cunha,
morto em confronto com o amante da esposa e tantos outros infortúnios, que o homem
comum não resistiria.
Mas uma cabeça privilegiada como de Farias conseguiu superar as tormentas da vida, e

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tinha um único pensamento, amar e ajudar o próximo.
Embora tenha vivido varias tragédias, pois era de uma capacidade extrema em sofrer,
reagir e vencer as dificuldades que a vida lhe reservara, ele ainda conseguiu tirar liçõesme
meio as angustias, deixando que formasse uma forragem sólida para a construção deas su
teses e idéias.
Era um homem espiritual e se preocupava com a ciência, com o rumo dos pensamentos e
com a consciência.
Não sei se o prof. Luis Alberto Cerqueira ou outros comentaristas da nossa época julgou- o
digno ou indigno, errado ou correto frente as suas especulações de natureza psíquic a,
espiritual, científicos e de senso comum.
O que sei é que me sinto um tanto pequena perante suas lutas e não me considero apta a
julgá-lo ou não.
Sua capacidade de sofrer era tremenda, ele viveu a escravidão, o império, a República, a
época da rudeza excessiva e dos grandes nomes imortais: Rui Barbosa, Silvio Romero e
tantos outros.
A preocupação dele com a vida de espírito, baseada em uma moral ilibada,ma u
consciência equilibrada, e uma razão que transcende ao nosso tempo, é o suficiente pa ra
mim.

Texto: MARISA SANTOS


Artista Plástica
Bacharel em Teologia
Licenciatura em Filosofia

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Registro: ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jun., Série 07/06, 2011, p.01-07-através d o
site: Para entender a história...

Obra original disponível em:

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