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UMA IGREJA PARA 2017 

 
* Ajudem a sua juventude a ser mais crítica e colaborativa com a cidade. Repensem 
esses congressos de adoração que acabam sendo inúteis e improdutivos. Superem 
esses encontros em que a energia da juventude é gasta e neutralizada num fantástico 
mundo igrejeiro, ou massageando o ego em elocubrações intelecto-teológicas que não 
se conectam em nada com o mundo real. 
 
* Façam diferente em 2016. Ao invés de acusar o movimento gay de destruir o projeto 
de "família de Deus", tentem ouvir o que um casal gay que adotou uma criança tem a 
dizer; peça aquela irmã (ou não irmã) feminista pra explicar um pouco o que é isso e 
porque ela acha que não contradiz a bíblia. Não seja reativa, pense; se acha que toda 
mulher que fala de descriminalização do aborto é uma abortista ou infanticida em 
potencial, reúna a igreja para ouvir as adolescentes e/ou mulheres que tenham 
abortado. Conheça a história delas.  
 
* Ouça o que os movimentos sociais tem a dizer, colaborem. Parem com a síndrome 
salvacionista de quem só faz se for sozinho. As lutas da vida não cabe numa 
missiologia. 
 
* Experimente dialogar com outras religiões. Gestos de aproximação também 
demonstram amor. Convide uma mãe de santo, um padre, um imã, um lider budista, 
espírita, para dividir experiências com a igreja. Leiam um texto em comum, abracem. 
Quem sabe um café da manhã inter-religioso? Faz bem e é um santo remédio contra a 
intolerância religiosa e a favor da demonstração de respeito. 
 
* Todas as ações sociais que sua igreja pratica certamente fazem diferença. Mas tente 
denunciar as estruturas. Se visita presidios e acolhe os detentos, denuncie também o 
encarceramento em massa, os maus tratos, a superlotação, os ja julgados que 
poderiam estar em liberdade; Se cuida de dependentes químicos, veja o estrago que a 
política de guerra ás drogas faz sobretudo nas favelas, ineficiente na captura dos 
verdadeiros traficantes e sem ajudar em nada na recuperação de vidas; Se doa roupa e 
comida para comunidades pobres e lixões, proteste contra a falta de saneamento 
básico, ocupe a câmara e exija que todos os vereadores conheçam a realidade 
constrangedora do povo. E assim por diante. 
 
* Ao menos uma vez, experimente conceber a possibilidade de Deus ser mulher, 
negro, índio, gay. Convenhamos que a gente aprende que somos à imagem e 
semelhança de Deus, mas quando essa semelhança é minimamente "materializada" 
ela invariavelmente é homem, inconscientemente é branco, em hipótese alguma 
índígena e, nem que nos matem, gay. Mas o exercício é bom pra gente tentar pensar 
como Deus, cuja identidade real é amor, pensaria e agiria a partir de outro lugar. 
 
* Questionem, duvidem, perguntem, estranhem de vez em quando. Encarem o fato de 
que, num sermão/pregagação, há mais do que o pregador acredita e interpreta do que 
revelação de Deus. E não há nada de errado nisso, desde que ele reconheça. Há irmãs 
e irmãos nossos que estão justificando o ódio e o preconceito com um discurso de 
defesa do "verdadeiro" evangelho. Infelizmente estão é tolerando indiretamente 
sustentando o machismo, o preconceito, o sofrimento e a exclusão/reprovação social 
de gays e lésbicas, a morte de presos, desistindo da recuperação de bandidos e 
desejando a morte deles, desistindo de adolescentes e desejando a prisão deles pra 
sempre e a tortura. Saiam disso. 
 
* Ah, não esqueçam. Não relaxem com o racismo. Reparem e perguntem na sua 
Primeira Igreja Batista, na sua referencial Presbiteriana, sua histórica Luterana, 
Congregacional, e tantas outras, quantos pastores negros existem. Quantos estão em 
lugar de "poder", quantos negros presidentes, titulares. Pergunta no seu seminário 
quantos teólogos (e teólogas também) negros tem na bibliografia dada. Bem, então 
conversem sobre isso. 
 
Eu espero, de coração, que sua igreja seja mais evangélica em 2017. Também espero 
que a sociedade, que a comunidade local, os pobres e ofendidos da cidade (e fora das 
cidades) se orgulhem mais dela. Todas e todos nós estamos no limite com a Igreja que 
em 2016 (mas vindo de tempos imemoriais) ficou entre a omissão/conivência e, 
tristemente, a opressão-perseguição-violência.