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A ERA DA ‘INFOPOLÍTICA’ 1

Colin Koopman

Tradução de Luiz Felipe Martins Cândido.

Estamos em meio a uma inundação de revelações alarmantes sobre varreduras de informação


conduzidas por agências do governo e corporações privadas a respeito das atividades e hábitos
dos americanos comuns. Depois do alarme inicial que acompanha cada vazamento e
reportagem, muitos de nós retrocedemos ao status quo, calando-nos com o pensamento que
essas novas estratégias de vigilância não são tão sinistras, especialmente se, como gostamos
de dizer, nós não temos nada para esconder.

Uma razão para nossa complacência é que nos falta o quadro conceitual para abordar os novos
tipos de injustiças políticas características da sociedade de informação de hoje. Todo mundo
entende o que está errado em um governo privar seus cidadãos de liberdade de assembleia ou
de liberdade de consciência. Todo mundo (ou a maioria das pessoas) entende a injustiça da
discriminação racial sancionada pelo governo ou políticas que produzem desigualdade
econômica por razões de cor. Mas apesar de que quase todos de nós temos um senso vago de
que alguma coisa está errada com os novos regimes de vigilância de dados, é difícil para nós
especificarmos exatamente o que está acontecendo e porque isso levanta sérias preocupações,
sem falar no que nós poderíamos fazer sobre isso.

Nossa confusão é um sinal de que nós precisamos de um novo modo de pensar sobre nosso
meio social informacional. O que nós precisamos é de um conceito de infopolítica que nos
ajudaria a entender os vínculos crescentemente densos entre política e informação.
Infopolítica envolve não apenas vigilância estatal tradicional e vigilância de dados, mas
também “análise de dados” [data analytics] (as técnicas que permitem marqueteiros em
companhias como Target detectarem, por exemplo, se você está grávida), movimentos por
direitos digitais (promovidos por organizações como o Eletronic Frontier Foundation),

1
Publicação original: The age of infopolitics. New York Times, 26 jan. 2014. Disponível em:
http://opinionator.blogs.nytimes.com/2014/01/26/the-age-of-infopolitics/?_r=0

1
criptomoedas que existem apenas online [online-only crypto-currencies] (como Bitcoin ou
Litecoin), finança algorítmica (como micronegociações automatizadas [automated micro-
trading]) e disputas sobre propriedade digital (desde compartilhamento de arquivos peer-to-
peer até reivindicações de propriedade no mundo virtual de Second Life). Isso é apenas a
ponta de um enorme iceberg que está à deriva não sabemos onde.

Examinar este iceberg é crucial porque sobre ele assenta um novo tipo de pessoa: a pessoa
informacional. Politicamente e culturalmente nós somos cada vez mais definidos através de
uma série de arquiteturas de informação: ambientes de dados altamente projetados, como
nossos perfis nas mídias sociais, nos quais temos frequentemente que nos espremer. O mesmo
é verdade sobre documentos de identidade como seu passaporte ou dossiês individualizadores
como seus registros escolares. Tais arquiteturas capturam, codificam, ordenam, fixam e
analisam um vertiginoso número de detalhes sobre nós. Nossas mentes são representadas por
avaliações psicológicas, registros educacionais, pontuações de crédito. Nossos corpos são
caracterizados por registros médicos, acompanhamento físico e nutricional, dispositivos de
segurança em aeroportos. Nós nos tornamos o que o teórico da privacidade Daniel Solove
chama “pessoas digitais”. Como tais nós estamos sujeitos à infopolítica (ou o que o filósofo
Gregoire Chamayou chama “datapower”, o teórico político Davide Panagia “datapolitik” e a
pensadora pioneira Donna Haraway “informática da dominação”).

A pessoa informacional de hoje é a culminação de desenvolvimentos que remontam ao final


do século XIX. Foi naquelas décadas que um número de tecnologias incipientes da identidade
informacional foram primeiro estabelecidas. Impressões digitais foram implementadas na
Índia colonial, importadas para a Inglaterra, e então exportadas para o resto do mundo.
Antropometria – a mensuração de pessoas para produzir registros identificáveis – foi
desenvolvida na França de maneira a identificar reincidentes. O registro de nascimentos, que
havia desde então se tornado profundamente importante para iniciar reivindicações de
identificação, se tornou estandardizado em muitos países, com Massachussets abrindo o
caminho nos Estados Unidos antes que um censo inaugurador em 1900 levasse à
estandardização nacional. Na mesma época, burocratas visitando distritos rurais reclamaram
que eles não podiam identificar indivíduos cujos nomes mudavam de contexto para contexto,
o que levou a iniciativas para universalizar nomes padronizados. Uma vez que impressões
digitais, biometria, certidões de nascimento e nomes padronizados eram operacionais, tornou-
se possível implmentar um sistema internacional de passaporte, um número de seguridade

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social e toda a papelada que nos dizem quem alguém é. Quando todo aquele papel finalmente
se tornou digital, as pilhas de dados sobre nós se tornou radicalmente mais acessível e sujeita
a manipulação, o que nos fez ainda mais informacionais.

Gostamos de pensar sobre nós mesmos como alguma coisa fora de toda essa informação. Nós
somos reais – a informação é meramente sobre nós. Mas o que é real? O que sobraria de você
se alguém tomasse todos os seus números, cartões, contas, registros e outras próteses
informacionais? Informação não é só sobre você – ela também constitui quem você é.

Nós compreensivelmente não queremos vermos a nós mesmos como bits e bytes. Mas a
menos que comecemos a conceituarmos nós mesmos dessa forma, nós deixamos isso para
outros fazerem por nós. Muitas agências governamentais e corporações gigantes estão todos
bastante ansiosos para produzir perfis de dados detalhados sobre todos nós. Esses perfis
podem ser produzidos para fins variados (perseguir terroristas não é a mesma coisa que atingir
consumidores), mas todos eles envolvem quadros informacionais de quem nós somos – assim
como sobre quem podemos nos tornar. Essas agências e corporações continuarão produzindo
novas visões de você e de mim, e eles farão isso sem nossa contribuição se permanecermos
teimosamente presos a concepções antiquadas de identidade que nos impedem de admitir
quão informacionais nós já somos.

Nós precisamos de um conceito de infopolítica precisamente porque nós nos tornamos


infopessoas. O que nós deveríamos fazer sobre nossos padrões de internet e telefone sendo
meticulosamente recolhidos e armazenados em bancos de dados remotos onde eles esperam
pela inspeção de algoritmos futuros desenvolvidos na National Security Agency, Facebook,
firmas de avaliação de crédito como Experian e outras novas instituições de informação e
controle que virão à existência nas décadas futuras? Que bits de seu eu informacional será
posto sob escrutínio? Seu eu político? Seu eu sexual? Que McCartismo da próxima geração
aguarda seu eu informacional? E irão esses excessos de supervisão serem encotrados em
algum subcomitê do Senado contra o qual nós, cidadãos democráticos, poderíamos esperar
nos levantarmos em revolta – ou eles vão se esconder entre robôs algorítmicos que
silenciosamente selam nossos destinos em sistemas de arquivos digitais?

Tão logo aprendamos a ver nós mesmos e nossa política como informacional, nós poderemos
começar a ver a importância das reformas de vigilância do tipo proposto pelo Senador Ron

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Wyden, Democrata de Oregon, assim como a sabedoria implícita nas transgressões dos
“hacktivistas” cuja ética reivindica o anonimato e a não rastreabilidade. Apesar de suas
decididamente diferentes sensibilidades políticas, o que liga pessoas como o Senador Wyden
e a rede internacional de hackers conhecida como Anonymous é qu eeles respeitam a
seriedade do que está em jogo em nossa informação. Eles entendem que informação é um
tema para a reivindicação de justiça hoje, ao lado de campos de batalha mais essenciais como
liberdade de pensamento e igualdade de oportunidades. A disposição para nos vermos a nós
mesmos como pessoas informacionais sujeitas a poderes informacionais poderia nos ajudar a
colocar à vista o que será exigido para proteger os muitos direitos individuais e laços sociais
agora inerentes a todos aqueles bits e bytes.

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