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KARL R. POPPER VERSUS THOMAS S.

KUHN

Benedito F. Oliveira,
UFRJ, Doutorando/HCTE
beneditoliveira@uol.com.br

INTRODUÇÃO E RESUMO
A filosofia e a história da Ciência foram e ainda são fortemente influenciadas pelo
pensamento de Popper e Kuhn. Esse brevíssimo trabalho tenta tatear nos tipos de
investigações que poderemos fazer para detectar o que une e o que separa o pensamento de
Popper e Kuhn, quais as influências históricas e pessoais que eles tiveram na vida e de que
maneira essas influências explicam seus posicionamentos bem como as polêmicas e
antagonismos que cada um produziu até os tempos atuais.

Palavras Chave: Kuhn, Popper, História da Ciência, Filosofia da Ciência

QUEM FOI POPPER

Uma Rápida Biografia1


Karl Raimund Popper nasceu em 28 de julho de 1902, em Viena, de uma família de classe
média alta. Foi educado na Universidade de Viena e em 1928 tirou o Doutorado em
psicologia. Em 1934 publicou o seu primeiro e talvez o mais conhecido livro “A Lógica da
Pesquisa Científica”.
Com a ascensão do nazismo e com a anexação da Áustria à Alemanha (Anschluss) Popper
emigrou em 1937 para Nova Zelândia. Lá escreveu outro famoso trabalho “A Sociedade
Aberta e seus Inimigos”. Em 1946 mudou-se para a Inglaterra e em 1949 foi nomeado
professor de Lógica e Método Científico da Universidade de Londres.
Popper ganhou o título de cavaleiro do império britânico concedido pela Rainha Elizabeth II
em 1965. Foi membro da Royal Academy, da Brithish Academy e ao longo de sua vida foi
membro de muitas outras entidades importantes e recebeu inúmeras honrarias e prêmios.

1 Stanford (9) e Wikipedia (1)


Nunca foi um físico, matemático ou historiador, ele era realmente um filósofo. Mas era, antes
de tudo, um europeu tradicional que construiu para a Ciência uma abordagem fortemente
influenciada pela lógica e pelo platonismo.
Sir Karl R. Popper morreu em 17 de setembro de 1994, aos 92 anos, nos arredores de
Londres.

Marcos Importantes em sua Vida2


Foi contemporâneo da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da Revolução Russa (1917)
ainda como criança/adolescente. Assistiu a forte influência do nazismo na Europa após sua
ascensão na Alemanha (1933). Por causa da anexação da Áustria à Alemanha (Anschluss), em
1937, ele emigrou para a Nova. Zelândia
Teve amigos no Círculo de Viena mas combateu suas teses mais importantes. Foi
contemporâneo na Universidade de Viena de Sigmund Freud que também deixou Viena após
o Anschluss, em Junho de 1938.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) viveu na Nova Zelândia, país que não
participou do conflito, e durante os anos da Guerra Fria (1946-1989) viveu na Inglaterra, para
onde se mudou definitivamente e viveu até o fim da vida.

Um Breve Resumo do seu Pensamento

A Tese Central de Popper


Nosso conhecimento progride por meio de antecipações, “palpites”, tentativas de soluções por
meio de conjecturas, enfim, que são controladas pelo espírito crítico, isto é por refutações que
incluem testes rigorosamente críticos. Essas conjecturas podem vencer esses testes mas nunca
são justificadas de modo positivo: não se pode demonstrar que sejam verdades seguras ou
mesmo “prováveis”. A refutação de uma teoria constitui sempre um passo que nos aproxima
da verdade. Dessa forma, aprendemos com os erros.3

Qual a distinção entre a Ciência e a Pseudociência ?


Popper diz que mesmo as teorias científicas são palpites, não podem ser provadas pelas
observações, são apenas conjecturas não refutadas. No entanto, a Ciência, ao contrário da
superstição, é falsificável, poderá ser refutada, mesmo que não possa ser provada.

2 Stanford (9) e Wikpedia (1)


3 Popper (7), Pag.18
O problema da Demarcação.
Popper se propôs a estabelecer uma linha distinguindo as afirmações das Ciências empíricas e
de todas as outras afirmações de caráter religioso, metafísico ou simplesmente
pseudocientífico. A esse desafio ele chamou de problema da demarcação.
Para Popper, o critério da refutação é a solução para o problema da demarcação.

A Lógica da Refutação/Falseabilidade/Falseacionismo
A ciência não precisa da indução. As inferências que interessam para a ciência são refutações,
que tomam uma previsão que falhou como premissa e concluem que a teoria que está por
detrás da previsão é falsa. Só a falsidade de uma teoria pode ser inferida da evidência
empírica, inferência que é puramente dedutiva.4
Um único exemplo contrário é suficiente para uma refutação conclusiva, mas nenhum número
de exemplos favoráveis constituirá uma prova conclusiva.

QUEM FOI KUHN

Uma Rápida Biografia5


Thomas Samuel Kuhn nasceu em 18 de julho de 1922, em Cincinnati, Ohio, USA, filho de
um engenheiro industrial. Ele obteve seu bacharelado em Física pela Universidade de Harvard
em 1943, e os títulos de MSc e PhD, também em Física, respectivamente em 1946 e 1949.
Durante seu período na Universidade de Harvard ele foi gradualmente migrando da Física
para História e Filosofia da Ciência.
Em Harvard foi professor de História da Ciência de 1948 a 1956. Depois ele se voltou para a
história da astronomia e em 1957 publicou seu primeiro livro “A Revolução Copernicana”.
Depois de deixar Harvard foi para Berkeley, Departamentos de Filosofia e História e em 1961
foi efetivado/nomeado como Professor de História da Ciência. Em Berkeley publicou em
1962 seu mais conhecido, prestigiado e, também, polêmico trabalho “A Estrutura das
Revoluções Científicas”. Embora tenha recebido o reconhecimento da importância de suas
ideias, a recepção dos filósofos para esse livro foi francamente hostil. Essa resposta negativa
entre os filósofos foi exacerbada por uma visível tendência naturalista do seu livro, o que era

4 Popper (7), pag, 84


5 Wikpedia (2) e Stanford (10)
incomum até então. Um exemplo significante dessa tendência foi a importância dada por
Kuhn à história da ciência diante da própria filosofia da ciência.
Em 1964 Kuhn deixou Berkeley para assumir uma cadeira na Universidade de Princeton e já
em 1983 foi para o MIT - Massachusetts Institute of Technology.
Ele era um físico por formação que migrou paulatinamente para a História da Ciência. Antes
de tudo ele era um americano o que talvez explique sua abordagem pragmática,
comportamental e antropológica da Ciência.
Em 1994, Kuhn foi diagnosticado com um câncer de pulmão, do qual ele morreu
precocemente, em 17 de Junho de 1996, em Cambridge, Massachusetts, aos 73 anos.

Marcos Importantes na sua Vida6


Foi contemporâneo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) mas, morando nos EEUU, não
viveu diretamente seus horrores. No entanto assistiu de perto os anos da Guerra Fria (1946-
1989) e do Macarthismo (1950-1956).
Foi contemporâneo e espectador (terá sido um participante?) da Revolução Hippie na
Califórnia do início dos anos 60`s quando ensinava em Berkeley. Portanto, assistiu de perto o
desenrolar e os efeitos da Revolta Estudantil de 1968 e das manifestações pacifistas contra a
Guerra do Vietnam no final dos 60´s e início dos 70´s.

Um Breve Resumo de seu Pensamento

A Tese Central de Kuhn7


Para Kuhn a Ciência se desenvolve como uma sequência de períodos de “ciência normal”, em
que comunidade de pesquisadores adere a um “paradigma” interrompido por períodos de
“ciência extraordinária” onde acontecem as “revoluções científicas”.
Os períodos de “ciência extraordinária” são marcados por anomalias na “ciência normal” e
crises no “paradigma” dominante, deflagrando sua ruptura e substituição por um outro que
resolva a crise e as anomalias.

Ciência Normal8
É uma etapa do processo de pesquisa em que o cientista opera buscando testar uma teoria ou
uma hipótese na tentativa de resolver um enigma, uma charada, um problema. Esse tipo de
6 Wikpedia (2) e Stanford (10)
7 Ostermann (5), pag. 184 e 185.
8 Kuhn (3), pag. 9
teste não é dirigido à teoria corrente, pois não é ela que se põe à prova e, sim, o cientista, seu
talento para resolver o enigma, a charada, o problema. Se a teoria não passar pelo teste de
resolver o enigma quem é impugnada é a capacidade do cientista e não a teoria corrente.

Paradigma9
Em um sentido mais amplo esse termo designa todo o conjunto de compromissos de pesquisas
de uma comunidade científica, ou seja, todas as crenças, valores e técnicas compartilhadas
pelos membros dessa comunidade. Em um sentido restrito, paradigma refere-se às soluções
de problemas encontrados nos laboratórios, nos exames, nos manuais científicos, que ensinam
aos estudantes através de exemplos como encarar um novo problema como se fosse um
problema antigo e já resolvido.

Incomensurabilidade
Na transição de um paradigma para outro cada um deles apresenta concepções diferentes do
mundo, assim o novo paradigma deve possibilitar predições, padrões científicos e definições
diferentes daquelas derivadas do seu predecessor. Essas diferenças não deveriam existir se os
dois paradigmas fossem logicamente compatíveis. A essas diferenças Kunh se refere como
incomensurabilidade.

Ciência Extraordinária
Há períodos nos quais a ciência normal fracassa em resolver os enigmas, as charadas e os
problemas gerando os resultados esperados pela teoria. Esses enigmas, charadas e problemas
passam a ser considerados anomalias gerando um estado de crise na área de pesquisa. Esses
períodos são chamados de ciência extraordinária.

Revolução Científica10
É a transição de um paradigma vigente para um novo que o substitui. Decidir rejeitar um
paradigma é sempre decidir simultaneamente aceitar outro.

UM MOMENTO DE EMBATE
No seu artigo “Lógica da Descoberta ou Psicologia da Pesquisa ?”11 Kuhn questiona alguns
dos mais importantes conceitos da teoria de Popper.
9 Osterman (5), pag. 186,187
10 Osterman (5), pag 190 e 191
11 Kuhn (3), pag. 5 a 32
Qual é o melhor critério de demarcação12 ?
Nem a ciência nem o desenvolvimento do conhecimento têm probabilidades de serem
compreendidos se a pesquisa for vista apenas através das revoluções que produz de vez em
quando. É para a prática normal e não para a prática extraordinária que se treinam
profissionais.
É a “ciência normal” e não a “ciência extraordinária” que distingue a ciência de outras
atividades criativas. A existir um critério de demarcação, ele só pode estar na parte que
Popper ignora.

Como se dá a refutabilidade ou o falseacionismo13 ?


Na verdade, nunca se poderá produzir a refutação concludente de uma teoria, o próprio
Popper reconhece. Todas as experiências mal sucedidas podem ser contestadas e todas as
teorias podem ser modificadas de forma ad hoc, sem deixar de ser, em linhas gerais, as
mesmas teorias. Portanto, como supor/provar que as proposições observacionais são
verdadeiras? Conclui então Kuhn: refutar, do jeito que Popper propõe, é muito problemático!

Como a Ciência progride ? O que é o progresso científico e como explicá-lo14 ?


A resposta para “por que e como a Ciência progride” precisa ser psicológica ou sociológica,
precisa se referir a um sistema de valores, a uma ideologia e a uma análise das instituições
através das quais o sistema é transferido e imposto.
Popper rejeitou a “psicologia do conhecimento” ou o “subjetivo” e manifestou seu interesse
mais pelos estímulos lógicos para o conhecimento do que pelos impulsos psicológicos dos
indivíduos.

UMA RÁPIDA REFLEXÃO PESSOAL


Dentro da Filosofia a Epistemologia trata do Conhecimento abordando questões essenciais15
como Possibilidade (é possível conhecer a realidade, o mundo tal qual ele é ?); Método (como
se justifica uma certa pretensão ao conhecimento como legítima?); Instrumentos (os sentidos
e a razão); Objeto (o mundo material ou a ideia/realidade de natureza inteligível).
Onde entra em cena Popper e Kuhn no intenso debate sobre o Conhecimento ?

12 Kuhn (3), pag. 9 e 11


13 Kuhn (3), pag. 20 e 21
14 Kuhn (3), pag. 28, 29, 30, 31
15 Marcondes (4), pag. 50
“A verdade científica foi sustentada pelo racionalismo puro (Descartes) e pelo empirismo
clássico (Locker), abalada pelo ceticismo (Hume) e resgatada pelo racionalismo crítico
(Kant), destronada pela queda da mecânica newtoniana (Einstein) e novamente reabilitada
pelo neo empirismo ou empirismo lógico (Círculo de Viena)16”.
É aqui que surge o falseacionismo de Popper, encarado por alguns com um novo recuo do
pensamento racional. Em seguida Kuhn reforça esse recuo do pensamento racional mas critica
o falseacionismo e afirma a ciência como atividade de um grupo social.
A grande contribuição de Popper é o reconhecimento de que as teorias nascem como
conjecturas, às vezes livres e até mágicas, que são submetidas ao crivo/teste da experiência
empírica para serem refutadas. A grande contribuição de Kuhn é o seu conceito de ciência
normal que genialmente incorpora à epistemologia os efeitos da estabilidade social, histórica
e operacional da ciência. Ao mesmo tempo, tira a Ciência da mão do imponderável e a coloca
na mão dos homens, de seus interesses e história.
Não existe uma correspondência ou uma simetria entre os conceitos de Popper e Kuhn. Por
exemplo, além de não reconhecer a ciência normal Popper não apresenta um conceito
equivalente para as falhas/refutações que acontecem quando o cientista enfrenta os enigmas
ou quebra-cabeças.
Ao colocar a teoria cientifica como um livre produto da mente humana e ao relegar a
experiência e a observação empírica a um lugar secundário concedendo a essas um papel de
instrumento da refutação (Popper) ou da resolução que quebra-cabeças (Kuhn) esses dois
pensadores, a meu ver, deixam um vácuo explicativo sobre a criação científica pelos
humanos.

CONCLUSÃO
O debate sobre as teses de Popper e Kuhn prossegue influenciando os caminhos da ciência, da
tecnologia e dos sistemas de ensino em cada país. O papel da comunidade científica ganha
especial relevo nesse debate bem como das políticas de Ciência e Tecnologia adotadas pelos
estados nacionais. Parece-me que esse é o contexto ideal dentro do qual o pensamento de
Popper e Kuhn deve se discutido e aproveitado.

BIBLIOGRAFIA

http://en.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper

16 Pinguelli Rosa (6), Vol II, pag.232


http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn

Kuhn, Thomas S., Lógica da Descoberta ou Psicologia da Pesquisa ?, In: 4 --Lakatos, I;


Musgrave, A. A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento, São Paulo, Editora Cultrix
Ltda, 1979.

Marcondes, Danilo. Iniciação à História da Filosofia, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,
2004.

Osterman, Fernanda. A Epistemologia de Kuhn. Caderno Catarinense de Ensino de Física,


V.13, nº3, pgs.184-196, dez/1996.

Pinguelli Rosa, Luiz. Tecnociências e Humanidades, Vol. 1 e 2, São Paulo, Paz e Terra, 2005

Popper, Karl R., Conjecturas e Refutações, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1982

Silveira, Fernando L. A Filosofia da Ciência de Karl Popper: O Racionalismo Crítico.


Caderno Catarinense de Ensino de Física, V.13, nº3, pgs.197- 218, dez/1996.

Stanford Encyclopedia of Philosophy. Karl Popper, in


http://plato.stanford.edu/entries/popper/#ProDem

Stanford Encyclopedia of Philosophy. Thomas Kuhn, in


http://plato.stanford.edu/entries/thomas-kuhn/