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A INFLUÊNCIA DA MÍDIA COMO FATOR DE PESO NO

CÁLCULO DE DOSIMETRIA DA PENA

Danielly da Silva Moreira


Hélio Estrela da Silva
Nerivaldo de Oliveira Rios

Resumo

(A mídia desempenha um papel importante na sociedade, sendo notório


seu papel formador e modificador de opiniões, o acesso a informação, a
liberdade de expressão, são conquistas vitais para o estado democrático
de direito que dependem indiretamente desta. Juridicamente falando, a
mídia possui poderes persuasivos que repercutem no senso de justiça da
sociedade, quando há determinados casos. A mídia, muitas vezes, pela
falta de informação correta, defende “sentenças” divergentes com a
jurisprudência, esses pré-julgamentos carregados de influência midiática
é um dos pontos chave deste trabalho, analisando este poder e o quanto
ele pode interferir na decisão do juiz ou no andamento de processos,
verificando se nos casos, cujos envolvidos tratavam-se apenas de pessoas
comuns, receberam o mesmo tratamento da mídia, e se a falta de interesse
desta foi decisivo para o cálculo dosimétrico dos casos em questão.)

Palavras-Chave: ( Dosimetria, Influência, Imparcialidade, Mídia )


summary


Graduanda em Direito. Email: danny_abt@hotmail.com


Graduando em Direito.. Email: helio_sb@hotmail.com


Graduanda em Direito.. Email: nerivaldorios@hotmail.com
The media plays an important role in society. Its place as an opinion maker and
modifier, access to information and freedom of expression are notoriously vital
achievements for the democratic state of law that depend indirectly on the media.
Legally speaking, the media has persuasive powers. These powers impact on the
society's sense of justice when there are certain types of cases. Quite often, due
to the lack of correct information, the media defends divergent "judgments" from
the jurisprudence. These pre-judgments filled with media influence is one of the
key points of this paper, which analyzes this power and how much it can interfere
in the judge's decision or in the course of proceedings. This paper also verifies if
in the cases whose subjects were only ordinary people, they received the same
treatment of the media than the renowned people, and if the lack of interest of
the media was decisive for the dosimetric calculation of the cases in question.

Key words: (Dosimetry, Influence, Impartiality, Media)

Abstract

(+ ou _ 150 palavras)
Palavras-Chave: ( 5 palavras-chaves no máximo)

1 Introdução

2
A Dosimetria da Pena ou Cálculo da Pena, constitui na aplicação do poder
punitivo do Estado através do Poder Judiciário, na determinação da sentença
condenatória ao indivíduo delinquente. Conforme o art. 68 do Código Penal a
dosimetria será realizada através de um sistema trifásico composta pelas
seguintes fases: a primeira consiste na fixação da pena-base, devendo atender
ao critérios determinados no art. 59 do CP, na segunda fase o magistrado
analisará as circunstâncias atenuantes e agravantes, conforme arts. 61, 62 e 65
do CP, por fim, analisará as causas de diminuição e aumento da pena,
atendendo aos critérios da terceira fase.
O magistrado ao aplicar a dosimetria deverá atender aos critérios do
sistema trifásico e da pena em abstrato, devendo sempre agir dentro do
Princípios da Imparcialidade. Neste sentido essa pesquisa se baseia, através da
análise de casos concretos, como os caso dos réus Thor Oliveira Fuhrken Batista
(processo nº 0026925-48.2012.8.19.0021), em sentença de 1ª Instância e Sidnei
Isaias da Silva (processo nº 0440277-34.2013.8.19.0001), ambos envolvendo
circunstâncias de atropelamento com morte.
Portanto, este trabalho tem como objetivo principal, analisar a influência da
mídia através do apelo popular na aplicação da dosimetria da pena por meio da
comparação em casos semelhantes, e seus respectivos resultados. Mas
especificamente, a pesquisa visa analisar a aplicação da dosimetria nas
particularidades circunstanciais de cada caso apresentado e relacionando-os
com a vida pública dos autores e das vítimas, a produção de falsas verdades e
especulação e as possíveis influências que o magistrado possa absorver do
ambiente no momento de decidir os parâmetros da dosimetria aplicada.
Justifica-se à necessidade de aprofundar a análise de aplicação da
dosimetria na penalização de crimes cujas circunstâncias foram semelhantes,
porém, de maior ou menor repercussão midiática, bem como, a influência desta
nas decisões do magistrado.
Esse trabalho se configura, como uma pesquisa qualitativa, preocupando-
se com aspectos da realidade que não pode ser quantificado, pois pretende-se
utilizar dados descritivos, fazendo uma comparação entre os processos
apresentados, através de consultas processuais dos casos e pesquisas
jornalísticas, além da análise de bibliografias e publicações voltadas ao tema.

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2 A mídia e suas influências

É notório que a mídia exerce um papel político-social de grande


importância para a sociedade atual, tendo o seu direito de livre expressão
garantido no art. 5º, inciso IX, da Constituição Federal, leva consigo o dever de
propagar notícias, sejam elas verdadeiras, ou não.

Segundo Andrade (apud Santos, 2010)

O termo “mídia” tem origem na língua latina: “media”, plural de


“médium” que tem o significado de “meios”, elemento intermediário. De
acordo com o Manual de Redação da Folha de São Paulo, a
popularização do termo: “Deu origem ao jargão mídia para designar os
meios de comunicação”. Vale consignar que “a forma original foi
suplantada pelo jargão”, admitindo-se, portanto, “o uso das formas
singular (mídia) e plural (mídias)”. (ANDRADE apud SANTOS, 2010, p.
3)

Sendo assim, podemos entender mídia como ferramentas e dispositivos


utilizados para transmissão de mensagens, constituída por inúmeros meios de
comunicação como, jornais, revistas, rádio, televisão e internet. São essas
ferramentas, as responsáveis por espalhar as informações acontecidas ao redor
do mundo ao maior número de cidadãos, em que sua missão não é apenas
transmitir a informação da realidade dos fatos à sociedade, mas principalmente,
formar opiniões.

A mídia televisiva por exemplo, permite ao seu telespectador o poder de


influenciar e ser influenciado, devido aos excessos presentes nas opiniões,
comercializações e notícias, a informação chega ao expectador de forma
corrompida, o que para um leigo, é aceito como verdade.

No entanto, muitas das vezes a imprensa acaba descaracterizando seu


papel diante da sociedade, deixando de lado o seu principal objetivo que é o de
transmitir informação, para atingir a tão desejada audiência, fazendo o uso do

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sensacionalismo, acaba deixando de lado os valores étnicos e morais, com a
intenção apenas de lucrar, mesmo que a versão dos fatos seja falsa ou
exagerada. O que gera diferentes tipos de opiniões.

A imprensa é um conjunto de pessoas e meios que propagam


informações, proporcionando também, momentos de entretenimento e
educação. Para alguns estudiosos a imprensa é denominada como o 4º poder,
como postula Miranda (1995)

Dentro da grei humana, a sua importância é tal que já se lhe atribuiu a


categoria de 4º poder do Estado, em virtude de seu índice de
penetração na massa popular e imensa facilidade em construir ou
destruir reputações, em estruturar ou desintegrar a sociedade, em
edificar ou debilitar os povos, pelo domínio das consciências, através
de noticiários e comentários honestos ou tendenciosos. (MIRANDA,
1995, p. 43).

Destarte, quando nos referimos à processos jurídicos, é notório que a


imprensa midiática excede a comoção popular, e chega a exercer o papel de
juiz, em que faz a condenação do réu, sem respeitar ao processo legal, e de
polícia, em que faz as investigações dos casos. Sendo assim, em muitos casos,
a imprensa exerce o papel de notificar, publicar, investigar e condenar.

3 Analise dos processos

Caso Thor Batista,

Sentença:

O Ministério Público ofereceu denúncia contra THOR DE OLIVEIRA


FUHRKEN BATISTA, qualificado nos autos, dando-o como incurso nas
sanções do artigo 302, caput, da Lei 9.503/97, pela prática dos seguintes fatos:
“No dia 17 de março de 2012, por volta das 19 horas, na altura do KM
101 da BR-040, sentido Petrópolis – Duque de Caxias, Xerém, Duque de Caxias,
o denunciado, na direção de veículo automotor Mercedes-Benz, SLR MacLaren,
placa EIK-0063-RJ, violou o dever objetivo de cuidado cuja observância estava
adstrito e, agindo de forma culposa, atropelou Wanderson Pereira dos Santos,
que efetuava a travessia da referida via em sua bicicleta, causando-lhe a morte.

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[...]

Isto posto, JULGO PROCEDENTE a pretensão punitiva estatal para o fim


de CONDENAR THOR DE OLIVEIRA FUHRKEN BATISTA, como incurso
nas penas do artigo 302, caput, da Lei nº 9.503/97.
Passo, a seguir, a considerar as circunstâncias preconizadas no artigo 59 do
Estatuto Penal, para fixação da pena a ser aplicada:

1) O Réu é primário e possui bons antecedentes, consoante a sua Folha Penal


de fls. 167/169. Verifica-se, porém, que a imprudência determinante para o
evento que resultou na morte da vítima
Wanderson foi o excesso de velocidade, conduta esta praticada reiteradamente
nas Ruas da cidade do Rio de Janeiro, como se demonstra do seu prontuário junto
ao DETRAN de fls. 182/184. Neste documento é possível visualizar nove infrações
de trânsito praticadas pelo Réu, e, dentre elas, sete referentes ao trânsito em
velocidade superior à máxima permitida para a via. Talvez, se tivesse sido
apenado administrativamente à época das infrações, pudesse ter o discernimento
para conduzir o seu veículo dentro da velocidade permitida para o trecho em que
ocorreu o acidente. Como disse em seu interrogatório, as multas de trânsito não
eram problema dele, mas, sim, de alguma secretária. Bastava pagar, e pronto. E,
também, somente soube pela mídia sobre a quantidade de pontos acumulados em
sua carteira de habilitação. Com tamanha blindagem, restou ao Acusado a
melhor parte: dirigir seus carros fora-de-série, aproveitando ao máximo aquilo
que parece ser um dos seus maiores prazeres, a velocidade. E foi assim, livre para
dirigir da forma que desejasse, desrespeitando as normas administrativas e
legais, que o Réu atropelou e matou Wanderson Pereira dos Santos no começo
da noite do dia 17 de março de 2012. Pelo exposto, entendo que a sua pena-base
deve ser fixada acima do patamar mínimo legal, qual seja, em 02 (dois) anos e
06 (seis) meses de detenção e suspensão da habilitação para dirigir veículo por
igual período.
2) Deve incidir a circunstância atenuante genérica prevista no artigo 66, do
Código Penal. O Réu, após os fatos, efetuou pagamento de indenização no valor
de um milhão de reais à tia e à companheira da vítima, minimizando, assim, os
efeitos da perda do ente querido por ambas. Tal conduta, por certo, deve servir à
redução da pena-base fixada, redução esta que deve atingir o patamar de seis
meses de detenção e que deverá refletir no período de suspensão da habilitação.
Assim, feita a redução, tem-se o total de 02 (dois) anos de detenção e suspensão
da habilitação para dirigir veículo por igual período. Não há incidência de
circunstâncias agravantes.
3) Não há incidência de causas especiais de diminuição ou aumento de
pena, em razão do que torno definitivos os limites acima fixados.
O Réu faz jus à concessão do benefício da substituição da pena privativa de
liberdade por duas restritivas de direitos, na forma do artigo 44, § 2º, 2ª parte.
Assim, deverá cumprir uma pena de prestação de serviços comunitários em
entidade a ser indicada pela Central de Penas e Medidas Alternativas desta
Comarca, preferencialmente desenvolvendo atividade voltada para o auxílio na
recuperação de vitimados no trânsito, à razão de uma hora de tarefa por dia de
condenação, conforme preceitua o artigo 46 e parágrafos do Diploma Penal.

Deverá, também, pagar prestação pecuniária no valor de R$1.000.000,00 (um


milhão de reais), valor que deve ser convertido em gêneros de acordo com a
necessidade da entidade beneficiada, preferencialmente de cunho hospitalar ou
de reabilitação de pessoas acidentadas no trânsito, entidade esta que também
deverá ser indicada pela referida Central, na forma do artigo, 45, parágrafo 1º.,
do Código Penal.

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Importante frisar que a multa pecuniária imposta deve atender a um caráter
reparador e preventivo, na forma do artigo 59, do Código Penal, e não deve ser
mínima, que não atinja os efeitos acima elencados, ou tamanha, que não possa
ser suportada pelo Réu.

Veja-se que, no presente caso, a alegação do Acusado de que a sua empresa vem
passando por problemas é estapafúrdia (Foi nomeado diretor estatutário da EBX
Brasil S/A, de seu pai, cujo objeto é o investimento em empresas de capital
fechado ). O Réu é filho de um dos empresários mais ricos do mundo, com fortuna
estimada em $19,4 bilhões de dólares , sendo certo que este é um dos signatários
do milionário acordo de transação civil com a família da vítima. Durante o seu
interrogatório, ao ser formulada pergunta de praxe sobre eventual assistência do
Acusado à vítima, respondeu que teria sido paga uma indenização de
R$300.000,00 reais à sua família, demonstrando, assim, total desconhecimento
acerca da indenização milionária acordada,
circunstância que denota a sua total indiferença e despreocupação em relação
aos seus gastos pessoais.

Nesse sentido, entendo que a pena pecuniária fixada é suficiente ao atendimento


dos critérios reparatório e preventivo preconizados no artigo 59, do CP, bem
como não é tamanha que não possa ser suportada pelo Réu, ante a sua notória
capacidade financeira.

Em caso de descumprimento das medidas concedidas, fixo, desde já, o regime


aberto para o cumprimento da pena prisional do Acusado, na forma do artigo 33,
parágrafo 2º., “c”, do Código Penal.

CONDENO o Réu, outrossim, no pagamento das custas processuais.


Ante as supostas evidências de crimes praticados neste processo, determino:

1) A extração de peças ao Ministério Público para apuração de eventual prática


de crime por parte do perito relator do laudo de fls. 88/110, Rodolfo A. V. De
Moraes;
2) A extração de peças ao Ministério Público para apuração de eventual prática
de crime por ocasião do depoimento da testemunha, o policial rodoviário federal,
João Miguel Resende Ribeiro;
Verifica-se, também, a possibilidade de prática de conduta, em tese criminosa,
por parte do bombeiro militar Márcio Tadeu Rosa da Silva (donatário, um dos
signatários do acordo de fls. 812/820).

Parece estranho que um bombeiro militar receba, a título de “compensação”, a


quantia de R$100.000,00 (cem mil reais) pelo auxílio e consolo à família da
vítima. Entendo que, na verdade, é função do bombeiro militar agir para salvar
vidas, minorar os danos, ser cordial e auxiliar no que for preciso, não tendo o
mesmo praticado atos além daqueles que deveria praticar por dever de ofício.
Nesse sentido, não se compreende indenização tão vultosa pela prática de atos
que deveriam decorrer apenas do exercício da função pública por parte do
donatário.

Necessário, assim, que seja investigada a possível prática de crime envolvendo o


bombeiro militar Marcio Tadeu Rosa da Silva e os demais signatários do referido
acordo.

Assim, determino a extração de peças ao Ministério Público para a apuração de


eventual prática de crime por parte de: Eike Fuhrken Batista, Thor de Oliveira

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Fuhrken Batista, Maria Vicentina Pereira, Cristina dos Santos Gonçalves e
Marcio Tadeu Rosa da Silva.

Entrementes, oficie-se ao Comando Geral do Corpo de Bombeiros do Estado do


Rio de Janeiro para que informe, no prazo de 48h, se o Bombeiro militar Marcio
Tadeu Rosa da Silva estava de serviço no dia dos fatos, bem como o seu local de
atuação.

Transitada em julgado, comunique-se a condenação aos órgãos competentes,


oficie-se, inclusive, na forma do artigo 271, XVII da Consolidação Normativa
CGJ, e aos órgãos referidos no artigo 295, do CTB, lance-se o nome do
sentenciado no rol dos culpados e retornem conclusos para designação de
audiência admonitória.

P.R.I.
Duque de Caxias, 05/06/2013.
Daniela Barbosa Assumpcao de Souza – Juiz Titular

Caso Sidnei Isaias da Silva

Sentença:

SIDNEI ISAÍAS DA SILVA foi denunciado pelo Ministério Público, como incurso
no artigo 302, parágrafo único, incisos I e III e da Lei nº 9.503/97, sob
acusação de que, no dia 23 de dezembro 2013, por volta das 18 horas, na
Estrada do Mato Alto, na calçada de um posto da Comlurb, Campo Grande,
nesta cidade, o denunciado, consciente e voluntariamente, agindo sem o
dever de cuidado, inclusive inabilitado para dirigir veículos automotores,
com manifesta imprudência, na direção do veículo FIAT UNO, cor cinza, placa
LNV-4460, atropelou a vítima Waldiléia Francisco Alves, causando-lhes as
lesões corporais que foram a causa efetiva da sua morte.

O denunciado, ainda, deixou de prestar socorro à vítima, sendo possível fazê-


lo sem risco pessoal, fugindo do local dos fatos. A denúncia foi recebida no
dia 23/01/2014 (fls. 79) e veio instruída com os autos do Inquérito Policial nº
19.852/2013, da 35ª DP, a seu turno iniciado pelo APF de fls. 08. A seguir são
relacionadas as principais peças acostadas aos autos

[...]

Trata-se de ação penal da iniciativa do Ministério Público, em que se atribui


ao acusado a prática de crime contra a vida, na sua modalidade de homicídio
culposo na direção de veículo automotor, majorado pelo fato do acusado não
ter carteira de habilitação, praticá-lo na calçada e pela omissão de socorro à

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vítima. Preambularmente, o Ministério Público, ao elaborar a inicial
acusatória, apesar da narrar que o atropelamento se deu na calçada, na
capitulação da denúncia, não mencionou a referida majorante prevista no
inciso II, do parágrafo único do art. 302 do CTB. Contudo, como é cediço, o
réu se defende dos fatos e não da classificação que lhe é dada na peça
vestibular, devendo ser aplicado o art. 383 do CPP. Assim, estamos diante do
que a doutrina denomina de emendatio libelli, e esta ocorre quando a peça
acusatória, embora descrevendo perfeitamente as condutas criminosas,
qualifica-as incorretamente. Se o fato está narrado na denúncia, a errônea
classificação do delito não será empecilho para a prolação da sentença
condenatória, de sorte que o agente não se defende da capitulação jurídica,
mas sim do fato que se lhe imputa. Desta forma, permite o artigo 383 do
Código de Processo Penal, alterado pela Lei nº. 11.719/08, que o magistrado
dê aos fatos definição jurídica diversa da que constar na denúncia ainda que
venha a aplicar apenamento mais gravoso.

A prova da existência do crime emerge da narrativa das pessoas ouvidas na


polícia e em juízo (relacionadas anteriormente), guia de remoção de
cadáver/requisição de exame (fls. 07), BRAT (fls. 17/18), cópias do RA e RO
(fls. 24/25 e 26), laudo de exame de corpo de delito de necropsia (fls.
133/134), termo de identificação cadavérico (fls. 135/136), laudo de exame
em local de acidente de tráfego (fls. 137/139) e dos demais elementos dos
autos. Na fase inquisitorial, o réu SIDNEI não foi ouvido e, em juízo, narrou
que: estava dirigindo o veículo em uma velocidade de quase 70 km/h, acima
da máxima permitida pela via que era de 60 km/h; que não tinha habilitação
e somente conduziu pois sua esposa estava passando mal; que o carro
pertencia a Antônio; que este tinha deixado o veículo na sua casa pois não
tinha garagem; que na horas dos fatos havia um caminhão na sua frente e
duas senhoras estavam atravessando a rua, mas somente olharam para o
caminhão e não viram o carro que conduzia; que a vítima foi atingida pelo
lado esquerdo do veículo e lançada à calçada; que tudo se deu muito rápido;
que quando viu estava em cima da calçada; que os fatos se deram por volta
das 18 horas; que estava anoitecendo; que os fatos se deram em uma curva;
que havia um sinal a duzentos metros à frente; que não costumava dirigir;
que na hora do acidente sua esposa entrou em pânico e tentou se evadir;

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que então foi atrás dela e a trouxe de volta ao local dos fatos; que populares
tentaram agredi-los pois acreditaram que estavam tentando se evadir do
local do acidente; que ficou sentado aguardando a viatura chegar; que
quando a viatura chegou, se identificou como o autor; que foi algemado; que
nunca foi preso ou processado; que nada tem contra as testemunhas que
foram ouvidas; que sua esposa estava sentindo muita dor no peito; que não
havia bebido nada no dia dos fatos; que sua esposa tentou fugir pois entrou
em pânico; que atropelou a vítima quando esta estava tentando atravessar
a via; que o seu carro foi parar na calçada ao tentar desviar da vítima o que
fez com o que ficasse desgovernado. Ao ser reinterrogado, o acusado
ratificou suas declarações anteriormente prestadas. Por sua vez, a
informante NOEMIA declarou em juízo: que é esposa do acusado; que no dia
dos fatos estava passando mal, sentindo dores do peito e queda de pressão,
ocasião em que pediu ao seu marido que a levasse ao hospital; que o veículo
por eles utilizado pertencia a uma pessoa conhecida como "Tuninho"; que
estavam indo para o hospital, mas antes tinham que passar no seu comércio
para desligar o freezer; que ia ser rápido, pois estavam indo para o Hospital
Rocha Faria; que estava passando mal desde que acordou; que não havia
outra pessoa para socorrê-la; que foram ao hospital somente às 18 horas;
que não foi ao hospital antes pois tinha tomado um medicamento e
melhorou; que o veículo tinha sido deixado pelo seu amigo na sua casa há
dois dias; que "Tuninho" tinha pedido para o seu esposo vender o veículo;
que na delegacia não disse que estava passando mal devido ao susto pelo
acidente; que o seu marido não é habilitado, mas sabe dirigir; que não sabe
como foi o acidente pois não viu como o carro bateu; que saiu do veículo
correndo com medo de ser linchada pelas pessoas que se aglomeravam no
local; que entrou em uma van e o acusado foi atrás dela buscá-la; que não
viu que uma pessoa tinha sido atropelada; que o acusado lhe disse para
voltar pois havia uma vítima; que permaneceram no local até a chegada da
viatura; que o acusado não chegou a entrar na van; que o acusado lhe disse
que tinha subido na calçada, bateu em uma árvore e atropelou uma pessoa;
que o acusado não tinha ingerido bebida alcoólica. A seu turno, pelo policial
militar MICHEL foi informado que: foi solicitado pela sala de operações para
comparecer ao local do acidente; que conduziu o acusado, sua esposa e uma
testemunha, a qual estava junto com a pessoa que faleceu, para a 35ª

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Delegacia Policial; que quando chegou ao local, viu o corpo na calçada; que
as pessoas informaram que a vítima estava tentando atravessar a rua quando
foi atropelada pelo acusado; que isso lhe foi dito pela pessoa que estava com
a vítima; que a rua era de mão única e não havia faixa de pedestres; que não
sabe a velocidade permitida da via; que ouviu falar que o acusado bateu em
uma árvore e foi parar no muro; que a testemunha que estava com a vítima
disse que o acusado e sua esposa tentaram se evadir do

local do acidente, mas não conseguiram pois foram retirados de dentro de


uma Kombi por populares; que o acusado não era habilitado para dirigir o
veículo; que a colega da vítima disse que estavam indo para o shopping e,
quando tentaram atravessar a rua, o acusado a atropelou; que o acusado
nada disse ao ser encaminhado para a delegacia; que não chegou a ver a van
que teria tentado dar fuga ao acusado; que a árvore estava na calçada
próxima ao muro; que, na sua opinião, o local onde a vítima foi atropelada
não é um local para se atravessar. Já pela testemunha de defesa ANTÔNIO
foi dito que: não presenciou o acidente; que chegou após o ocorrido; que o
local dos fatos se trata de uma rua de mão única, em cima de uma curva; que
verificou a existência de marcas de frenagem e o corpo da vítima no chão;
que ouviu dizer que a vítima foi atravessar a rua e olhou para um caminhão
que vinha e não percebeu o veículo do acusado que vinha no sentido
contrário; que o acusado, para evitar o atropelamento, tentou desviar e
subiu em cima da calçada com o carro; que a pessoa que foi atingida usava
uma muleta; que a pessoa que estava com ela conseguiu escapar; que
quando chegou ao local, encontrou o acusado sentado no meio fio; que foi o
seu filho que o avisou do atropelamento; que não foi o acusado quem lhe
chamou; que viu a roda do veículo quebrada; que a única explicação para isso
é que o carro bateu no meio-fio; que a vítima estava caída no muro da
Comlurb; que o acusado estava muito nervoso; que ele não parecia estar
embriagado; que William também não viu o atropelamento. Por fim, pela
testemunha de defesa WILLIAM foi dito que: não presenciou o acidente, mas
estava próximo ao local e ouviu uma freagem brusca; que depois viu o carro
parado e o acusado atravessando a rua para pegar a sua esposa; que a rua
era de mão única; que ouviu dizer que o acusado tentou se evadir do local;
que havia um caminhão e a vítima estava atravessando a rua; que falaram

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que havia uma árvore no local que não existe; que a vítima não foi atropelada
na passagem de pedestre; que o acusado estava no local sentado; que o sinal
de pedestres fica a duzentos metros após o acidente; que a velocidade
permitida no local é de 50km ou 60km no máximo; que falaram que o
acusado tentou se evadir do local o que não é verdade pois ele apenas foi
buscar a sua esposa que tentava sair de lá; que, quando chegou, a vítima
estava caída e não se mexia; que o acusado estava fora do carro e havia
aglomeração de pessoas no local; que o carro estava em cima da calçada;
que a vítima estava ao lado do carro; que não viu a pessoa que acompanhava
a vítima; que as pessoas que estavam no local não lhe narraram como tinha
sido o atropelamento, apenas disseram que o acusado atropelou a vítima
quando estava atravessando a rua. Com efeito, é certo que a vida em
sociedade exige de todos nós um comportamento cauteloso, a fim de
convivermos harmoniosamente e sem causar prejuízo aos demais, assim
como não há dúvidas de que aquele que não observa esses deveres de
cuidado deve responder pelos resultados lesivos que ocasiona. Contudo,
para que a responsabilidade seja atribuída ao autor da conduta é preciso
provar o nexo de causalidade entre a conduta que não observa o necessário
dever de cuidado e o resultado lesivo provocado. Se o autor não tiver dado
causa ao resultado danoso, não há que se cogitar culpa. Como é cediço, o
delito culposo imputado ao réu se caracteriza quando o agente produz
resultado não querido, mas previsível ou previsto, e que poderia ser evitado,
com o devido dever objetivo de cuidado. Na lição de CÉZAR ROBERTO
BITENCOURT: "Culpa é a inobservância do dever objetivo de cuidado
manifestada numa conduta produtora de um resultado não querido,
objetivamente previsível. (...) A tipicidade do crime culposo decorre da
realização de uma conduta não diligente causadora de uma lesão ou de
perigo a um bem jurídico-penalmente protegido. Contudo, a falta do cuidado
objetivo devido, configurador da imprudência, negligência ou imperícia, é de
natureza objetiva. Em outros termos, no plano da tipicidade, trata-se,
apenas, de analisar se o agente agiu

com o cuidado necessário e normalmente exigível" in (BITENCOURT, Cezar


Roberto. Tratado de Direito Penal. 12ª ed. São Paulo: Ed. Saraiva, 2008, vol.1,
p. 279). Como é sabido, a culpa era definida como "imprevisão do previsível".

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Contudo, tal definição excluía outros elementos indispensáveis à
configuração da conduta culposa. Modernamente, para a caracterização do
crime culposo é necessário: a) uma conduta humana; b) prática da conduta
com inobservância do dever objetivo de cuidado, manifestado nas formas de
imperícia, imprudência ou negligência; c) um resultado naturalístico; d) a
existência de nexo causal entre a conduta e o resultado; e) previsibilidade
objetiva do sujeito e; f) previsão legal expressa da conduta culposa.
Caracteriza-se o crime culposo por imprudência, o fato de o agente proceder
sem a necessária cautela, deixando de empregar as precauções indicadas
pela experiência como capazes de prevenir possíveis resultados lesivos. In
casu, fazem-se presentes todos os elementos acima descritos, restando
maculadas as normas objetivas de cuidado preconizadas pelo artigo 28 da Lei
n.º 9.503/97, o qual dispõe: "O condutor deverá, a todo momento, ter
domínio de seu veículo, dirigindo com atenção e cuidados indispensáveis à
segurança do trânsito". Vale aqui relembrar também os ensinamentos de
ZAFFARONI e PIERANGELI: "... não basta que a conduta seja violadora do
dever de cuidado e cause o resultado, mas que, além disto, deve haver uma
relação de determinação entre a violação do dever de cuidado e a causação
do resultado, isto é, que a violação do dever de cuidado deve ser
determinante do resultado. (...) Para estabelecer essa relação de
determinação do dever de cuidado e a produção do resultado, deve-se
recorrer a uma hipótese mental: devemos imaginar a conduta cuidadosa no
caso concreto e, se o resultado não tivesse sobrevindo, haverá uma relação
de determinação entre a violação do dever de cuidado e o resultado; ao
contrário, se, ainda neste caso, o resultado tivesse ocorrido, não haverá
relação de determinação entre a violação do cuidado devido e o resultado.
O fundamento legal para exigir a relação de determinação em nosso direito
é encontrado no art. 18, II (" por imprudência, negligência ou imperícia"), o
que resulta que para nossa lei não basta que o resultado se tenha produzido,
mas contrariamente requer-se ainda que tenha sido causado em razão da
violação do dever de cuidado" in (ZAFFARONI, Eugênio Raúl. PIERANGELI,
José Henrique. Manual de Direito Penal Brasileiro. Parte Geral. 5a edição, São
Paulo, Revista dos Tribunais, 2004, p. 489). É na previsibilidade dos
acontecimentos e na ausência de precaução que reside a conceituação da
culpa penal, pois é a omissão de certos cuidados nos fatos ordinários da vida,

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perceptíveis à atenção comum, que se configuram as modalidades culposas
da imprudência e negligência. Outra não é a hipótese dos autos. Pelas provas
coligidas, restou provado que o réu agiu com imprudência ao deixar de tomar
as devidas cautelas, perdendo o controle do seu veículo, por estar em
velocidade incompatível com a via, vindo então a atropelar a vítima
WALDILÉIA, que estava em cima da calçada, ocasionando o acidente que
ceifou a vida desta, conforme laudo de exame de corpo de delito de
necropsia (fls. 133/134), não havendo que se falar em absolvição, pois ficou
por demais evidente a violação do dever de cuidado objetivo. Cabe ressaltar
que o laudo de fls. 137/138, deixa claro que a morte da vítima se deu por
ação contundente do condutor do veículo que trafegava em velocidade
incompatível com a segurança do local e efetuou brusco desvio direcional da
direita para a esquerda por imperícia e reação retardada veio a impactar
contra a nacional que se encontrava sobre o passeio, corroborando a versão
apresentada pela acompanhante da vítima em sede policial (fls. 03).
Ressalte-se que o próprio acusado, em juízo, declarou que trafegava na
velocidade de quase 70 km/h, ou seja, acima do limite legal que era de 60
km/h e ainda não ser habilitado para conduzir veículo. Em sua defesa, o
acusado alegou que somente conduziu o veículo pois sua esposa estaria
passando mal, porém não logrou comprovar tais alegações trazendo aos
autos documentos que comprovassem o referido estado de saúde, sendo
certo, ainda, que poderiam se valer de outros meios para levá-la a
atendimento médico como pedir que a alguém a levasse ou mesmo pegar
um táxi. A defesa aduziu de que o fato é atípico por ter sido provocado por
exclusiva culpa da vítima que estaria atravessando a via em local impróprio
posto que ficava em uma curva, fora da faixa de pedestres . No entanto, tal
alegação não merece prosperar diante do laudo de exame em local de
acidente de tráfego (fls. 137/139) que corrobora a versão narrada
acompanhante da vítima, CIDCLEIDE, em sede policial (fls. 03), de que a
mesma foi atropelada quando estava na calçada. Assim, da conjugação dos
elementos de convicção constantes dos autos, resta demonstrado o nexo de
causalidade ente da conduta do agente e o resultado, qual seja a morte da
vítima WALDILÉIA conforme previsto no artigo 13 do Código Penal,
concretizado pela infração do dever de cuidado objetivo, alternativa outra
não resta senão a condenação do réu. A causa de aumento de pena prevista

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no inciso I do parágrafo 1º do art. 302 da Lei de Trânsito restou demonstrada,
diante da própria declaração do acusado admitindo não possuir Carteira de
Habilitação. Também restou demonstrada a causa de aumento de pena
prevista no inciso II do parágrafo 1º do art. 302 da Lei de Trânsito, conforme
laudo de exame de local de acidente de tráfego (fls. 137/138) que atestou
que a vítima, no momento do impacto, encontrava-se sobre o passeio. No
entanto, a causa de aumento de pena prevista no inciso III do parágrafo 1º
do art. 302 da Lei de Trânsito não restou seguramente demonstrada, eis que
o réu permaneceu no local do acidente onde inclusive foi preso. Note-se que
nenhuma das testemunhas relatou ter visto o réu evadir-se do local dos
fatos, apenas ouviram dizer, sendo que a testemunha WILLIAM, que estava
próximo ao local do acidente, em juízo, afirmou que o réu se dirigiu à VAN
apenas para buscar sua esposa retornando ao lugar do acidente. Por fim, não
tendo sido demonstrada a existência de causas que pudessem justificar a
conduta do acusado; excluir-lhe a culpabilidade; ou, ainda, isentá-lo da
aplicação de uma pena, impõe-se o acolhimento da pretensão contida na
peça vestibular. Atenta às diretrizes dos artigos 59 e 68, ambos do CP, e
artigo 387, inciso II, do Código de Processo Penal, passo a aplicar e a dosar-
lhe a pena. O acusado, consoante espelha sua FAC, é primário, de bons
antecedentes e regular conduta social, a personalidade do agente é favorável
em virtude da ausência de exames clínicos que necessitam de conhecimento
especifico através de profissional de saúde mental capacitado e as demais
circunstâncias não lhe são prejudiciais. Portanto, a culpabilidade, entendida
como grau de reprovação da conduta face às particularidades do agente e do
caso, destacadas no exame antes feito, não justifica a exasperação da pena-
base, a qual é fixada em 02 (dois) anos de detenção, ausentes atenuantes e
agravantes. Na terceira e última fase, aumento em 1/2 (metade) diante das
majorantes reconhecidas (incisos I e II do parágrafo único do artigo 302 do
CTB), ficando 03 (três) anos de detenção, tornando-se definitiva à míngua de
outras causas especiais ou legais de aumento ou diminuição. O apenado
preenche os requisitos do artigo 44 e seus incisos do CP, sendo aplicada a
SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR UMA RESTRITIVA DE
DIREITOS (ARTIGO 43), NA MODALIDADE DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À
COMUNIDADE (INCISO IV) E MULTA, ESTA FIXADA EM 10 (DEZ) DIAS, NA
FORMA DA 2ª PARTE DO § 2º, DO ARTIGO 44, TODOS DO CP. Em caso de

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eventual cumprimento, o regime inicial de cumprimento da pena é o aberto,
na forma do artigo 33, § 2º, alínea "c" do CP. O valor de cada dia-multa é
fixado em 1/30 (um trigésimo) do salário mínimo vigente à época do fato,
devendo ser atualizado por índice oficial de correção, até o seu efetivo
pagamento. O prazo para proibição de obter permissão para dirigir deve ser
fixado de acordo com as peculiaridades que envolvem o caso concreto, bem
como com a gravidade do delito previsto no tipo penal. A propósito, leciona
ALBERTO SILVA FRANCO: "O art. 293 do CTB estabelece o prazo de duração
da pena cominada no art. 292, fixando-o de dois meses a cinco anos. Não
fornece, contudo, os critérios definidores dessas balizas tão distantes. Por
que a pena deve ser determinada em dois meses? Por que há de ser em cinco
anos? (...) Certo é, no entanto, que qualquer quantum de pena acima do
mínimo de dois meses deve estar devidamente motivada, em respeito ao
princípio do art. 93, IX, da Constituição Federal. E, mais do que isso, conforme
observa Luiz Flávio Gomes (ob. cit.), o julgador não pode perder de vista o
princípio constitucional da proporcionalidade: "Quanto mais grave a
infração, maior o tempo da pena; quanto menos grave o delito, menor o
tempo de sua duração" in (FRANCO, Alberto Silva. Leis Penais Especiais e sua
Interpretação Jurisprudencial, volume 1, 7ª edição, São Paulo: Revista dos
Tribunais, p. 955/956). Neste vértice, a proporcionalidade entre a pena de
proibição ou suspensão e a privativa de liberdade não se resume em mera
regra aritmética, pois a sistemática adotada para aplicação de tal penalidade
deve, sobretudo, atender às circunstâncias do crime no caso concreto. Logo,
considerando que a vítima foi atingida, na calçada, o que ocasionou a sua
morte, por condutor não habilitado que dirigia o veículo em velocidade
acima do permitido para a via, fixo a pena de proibição para obter habilitação
ou permissão para dirigir veículo automotor em 02 (dois) anos. Nos termos
do artigo 387, parágrafo 1º, do Código de Processo Penal, o réu poderá
aguardar em liberdade eventual recurso que venha a interpor desta decisão,
diante do regime de pena fixado.

D I S P O S I T I V O Ex positis, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE o pedido


contido na denúncia e, em sua decorrência, CONDENO SIDNEI ISAÍAS DA
SILVA às penas de 03 (três) anos de detenção, sendo aplicada a
SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR UMA RESTRITIVA DE

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DIREITOS (ARTIGO 43), NA MODALIDADE DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À
COMUNIDADE (INCISO IV) E MULTA, ESTA FIXADA EM 10 (DEZ) DIAS, NA
FORMA DA 2ª PARTE DO § 2º, DO ARTIGO 44, TODOS DO CP, em regime
aberto, em caso de eventual cumprimento, bem como fixo a pena de
proibição para obter habilitação ou permissão para dirigir veículo automotor
em 02 (dois) anos, por ter infringido o comando normativo proibitivo do tipo
penal inserto no artigo 302, parágrafo único, incisos I e II da Lei nº 9.503/97.
Condeno também o apenado ao pagamento da taxa judiciária e das custas
do processo. Ocorrendo a preclusão das vias impugnativas desta decisão: a)
expeçam-se as comunicações de estilo; b) Oficie-se ao DETRAN comunicando
a proibição imposta ao acusado para se obter habilitação para dirigir veículo;
c) calculem-se a taxa judiciária e as custas, d) extraia-se carta desta sentença
e encaminhe-na à VEP, para os fins de execução da pena. P.R.I. Rio de Janeiro,
12 de agosto de 2015.

LÚCIA REGINA ESTEVES DE MAGALHÃES - Juíza de Direito

Passando-se a análise comparativa da dosimetria aplicada conforme descrito


nas sentenças acima, ambos os magistrados condenaram os réus pelos crimes
constantes no Art. 302 - Lei 9.503/97, pela pratica de homicídio culposo na
direção de veículo automotor, sendo os mesmos réus primários e de bons
antecedentes, apesar da informação nos autos de que o condenado Thor Batista
possui mais de 09 infrações administrativas por excesso de velocidade, conduta
esta que guarda relação com o crime cometido. No tocante a culpabilidade na
primeira sentença (caso Thor), verificou-se que a imprudência foi determinante
para o evento que resultou na morte da vítima Wanderson, e também o excesso
de velocidade, sendo agravante; o mesmo ocorreu na segunda (caso Sidnei), a
culpabilidade foi considerada, uma vez que ficou evidente que o denunciado,
consciente e voluntariamente, agindo sem o dever de cuidado, inclusive
inabilitado para dirigir veículos automotores, como agiu com manifesta
imprudência; a respeito da prestação de socorro à vítima, não houve a fuga do
agente no local do caso Thor, diferente do segundo onde o condenado durante
a fase processual alegou ter saído para socorrer a vítima, não ficando provado
a evacuação por omissão de socorro; o primeiro condutor possui habilitação para
condução de veículos conforme determina o Código de Trânsito Brasileiro,

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diferente do segundo que teve sua pena aumentada pela metade, além do fato
de ter ocorrido na calçada, ambas as defesas durante a fase processual
apelaram pela não condenação em virtude do comportamento da vítima, sendo
desconsideradas pelos magistrados, fixando a pena de Thor Batista em 02 (dois)
anos de detenção e suspensão da habilitação para dirigir veículo por igual
período, além de indenização pecuniária no valor de R$ 1.000.000,00 (um milhão
de reais) conforme art. 44 do CP, já no caso de Sidnei Isaias da Silva pena de
03 (três) anos de detenção e a proibição para obter habilitação ou permissão
para dirigir veículo automotor em 02 (dois) anos; ambos os condenados tiveram
suas penas restritivas de liberdades substituídas por penas restritivas de direito,
no caso de Thor por duas, e no caso Sidnei por uma.

4 Considerações finais

Ressalta-se que toda vez que uma pessoa é conhecida da mídia, possui alto poder
aquisitivo e dirigindo um carro de luxo, se envolve em um acidente de trânsito com morte
de pedestre ou ciclista (como nos casos apresentados acima), existe uma enorme
comoção no país através dos meios de comunicação em que se faz um pré-julgamento
em busca dos culpados. São incessantes as matérias jornalísticas veiculadas por causa
do acidente, em que na maioria dos casos, o condutor se apressa a apontar o dedo para
a vítima, alegando que houve imprudência da mesma, por outro lado os familiares da
vítima (pedestre ou ciclista) colocam a culpa no motorista pelo ato praticado. Aí entra
um bombardeio de informações trazidas pela mídia, distorcendo e implantando na
opinião pública um juízo de valor, preocupada em reproduzir declarações, onde
dificilmente é analisada as circunstâncias importantes, tais como: as evidências, os fatos
e as provas técnicas. Afinal, partindo da máxima que todos são inocentes até que se
prove o contrário ninguém pode ser considerado culpado sem o devido processo legal.

Observou-se que durante a fase processual um enorme assédio ocorreu por


parte da imprensa em torno do caso de Thor Batista e durante a fase de
dosimetria da pena essas informações são citadas pelo próprio magistrado, em
virtude do notório conhecimento da vida social, financeira e empresarial do
acusado, citando a ineficácia das multas de trânsito anteriormente aplicadas em
virtude da sua inexpressividade econômica em comparação ao enorme
patrimônio financeiro do mesmo; a pena pecuniária milionária não teria sido
aplica se não fosse o conhecimento da situação financeira vivenciada pela

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família e grupo empresarial do qual o acusado é sócio (uma vez que não houve
a necessidade do magistrado solicitar informações oficiais a respeito do
patrimônio como por exemplo a quebra de sigilo bancário ou fiscal); o mesmo
não acontece com caso do Sidnei onde a vida social é pouco observada,
observa-se também a enorme preocupação do magistrado em fundamentar a
decisão de maneira a não deixar margens de questionamento no caso “Thor”
em uma sentença de mais de 30 páginas, diferente a do texto do caso de Sidnei
que ocupou 08 objetivas laudas no processo. Conclui-se que os processos não
sofreram restrições ou cerceamentos de defesas nem julgamentos antecipados
em virtude da publicidade dos fatos, no entanto a fase de cálculo de dosimetria
sofreu influência no que se refere a condenação pecuniária em virtude das
informações trazidas pela mídia sobre a situação financeira.

Bibliografia

MIRANDA, Darci Arruda. Comentários à lei de imprensa. São Paulo: Revista


dos Tribunais, 1995.

SANTOS, Moisés da Silva. A influência dos órgãos da mídia nos crimes de


grande repercussão social em face da presunção de inocência do acusado.
Disponível em < https://jus.com.br/artigos/23994/a-influencia-dos-orgaos-da-
midia-nos-crimes-de-grande-repercussao-social-em-face-da-presuncao-de-
inocencia-do-acusado> Acesso em 25 dez, 2018.

SENTENÇA CONDENATÒRIA- ATROPELAMENTO COM RESULTADO


MORTE- CASO THOR BATISTA (FILHO DE “EIKE BATISTA”), 0026925-
48.2012.8.19.0021 ( Segunda Vara Criminal de Duque de Caxias 05 de maio
de 2013) Disponível em
<http://www4.tjrj.jus.br/numeracaoUnica/faces/index.jsp?numProcesso=002692
5-48.2012.8.19.0021 >. Acesso em 28 de dez, 2018.

Ação Penal - Procedimento Ordinário - Praticar Homicídio Culposo na Direção de, 0440277-
34.2013.8.19.0001 (Estado do Rio de Janeiro Poder Judiciário 23 de 07 de 2015).
Fonte:

19
http://www1.tjrj.jus.br/gedcacheweb/default.aspx?GEDID=0004E26EBE20768E0BA2C
3F369FD2D39189AC5041A5F3816

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