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Lusotopie

Wanderley Guilherme dos Santos, Razões da desordem,, 1994


Denilde Oliveira Holzhacker

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Oliveira Holzhacker Denilde. Wanderley Guilherme dos Santos, Razões da desordem,, 1994. In: Lusotopie, n°6, 1999.
Dynamiques religieuses en lusophonie contemporaine. pp. 508-509;

http://www.persee.fr/doc/luso_1257-0273_1999_num_6_1_1295_t36_0508_0000_1

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508 La Chronique des livres

Wanderley Guilherme dos SANTOS, grau de institucionalização já alcançado


Razões da desordem, São Paulo, Editora pelas regras da competição política », já
Rocco, 1994, 152 p. participação « refere-se aos direitos e
Quais as razões do sistema político liberdades que são garantidos à popu-
brasileiro ser tão instável ? Como a so- lação » (p. 37).
ciedade brasileira adquiriu em certos Pela teoria de Dahl nas democracias
momentos direitos sociais mais avan- avançadas o processo de liberalização
çados do que alguns países do primeiro iniciou-se antes da participação, ou seja,
mundo ? Essas perguntas são expressas a participação começou quando o pro-
por Santos nesse livro as « razões das cesso de competição política já estava
desordem » do sistema político e social estabilizado nessas democracias. No
brasileiro. caso do Brasil, Santos argumenta que o
Essas questões permeiam a literatura processo ocorreu de maneira contrária,
brasileira sobre o tema. Comparando a houve uma incorporação das massas à
situação brasileira como o de outros dinâmica da competição antes que o
países vários autores tentam entender o processo institucional estivesse estável.
processo de formação institucional, as Com isso, pode-se sugerir que uma
questões de participação política e elei- das razões da instabilidade do processo
toral e de democratização do país. político brasileiro é o tipo de engenharia
O livro « As razões da desordem » tam- política que se formou. A incorporação
bém expressa o intuito de fazer uma de políticas sociais deve ser considerada
leitura do sistema político comparando como um outro possível fator de insta-
com os das democracias avançadas, mas bilidade no sistema político brasileiro.
não criando uma teoria inteiramente Foram incorporadas demandas sociais
nova para o caso brasileiro e sim utili- no processo político antes da liberaliza-
zando os modelos explicativos das de- ção e participação estarem consolidadas.
mocracias mais avançadas. Santos No Brasil, as políticas trabalhistas foram
acredita que as boas teorias são capazes utilizadas para viabilizar a incorporação
de « esclarecer tanto o desenvolvimento da participação em um processo institu-
quanto o não-desenvolvimento », o pre- cional em formação.
ssuposto é que as sociedades modernas Pela análise do relacionamento entre
enfrentam vários problemas comuns : empresários e trabalhadores Santos ex-
como o alargamento da participação e a põe a lógica da ação coletiva no Brasil e
institucionalização da competição polí- como o poder dos diversos grupos po-
tica. tencializam ou não a institucionalização.
No primeiro capítulo, Santos expõe O que se apresenta no caso brasileiro é
como os processos econômicos e institu- um movimento regulatório, ou seja,
cionais no Brasil na década de 30 é quanto menor a institucionalização mais
semelhante ao processo que ocorreu na fraco é o poder dos grupos sociais e
Europa do século XIX. Para reforçar seu maior é a necessidade de intervenção
argumento de que as teorias serve para estatal.
explicar vários problemas Santos com- A intervenção estatal visa diminuir o
para a evolução da participação política risco de instabilidade política, consegue-
na Inglaterra (século XIX) e no Brasil (a se isso reduzindo os conflitos intra
partir da década de 30). classes. A intervenção sempre foi um
Como no caso inglês, as transforma- instrumento do Estado brasileiro para
ções econômicas e sociais que ocorreram regular as disputas entre as classes
no país a partir da década de 30 sociais.
produziram impacto sobre as institui- Um número excessivo de regras é o
ções. No plano das organizações sociais principal efeito que pode-se observar na
redefinem-se as identidades empresa- ação coletiva coordenada pela via de
riais, como o aumento das organizações regulação. No terceiro capítulo, Santos
representativas e reorganiza-se o movi- Parte do princípio de que o governo
mento operário, através dos sindicatos. tende a criar mais leis do que a socie-
Nesse período passa-se a existir uma dade tem demanda e, por isso, provoca
sociedade plural e como grande dinâ- problemas de governabilidade.
mica. Existe um excesso de legislação no
Para explicar essa dinâmica da socie- país que foi inaugurada na era Vargas, a
dade brasileira o modelo teórico escolhi- essa postura legisladora e regulatória se
do por Santos é o de Robert Dahl que tem um « hobesianismo social pré-
compreende a evolução política a partir participatório e estrafóbio » (p. 79). Ou
de dois eixos chamados de liberalização e seja, a situação cria um governo que
participação. Liberalização « refere-se ao governa muito, no entanto, no vazio.
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O autor ressalta que isso não chega a rindo as razões necessárias para um
criar o caos na sociedade brasileira, mas recomeço, através da escolha livre e do
proporciona a existência de várias sobe- processo democrático avançado.
ranias concorrentes. Denilde Oliveira Holzhacker
Para chegar as conclusões sobre a Universidade de São Paulo, Dpt° de Ciência
poliarquia brasileira Santos analisa as política,
formas de organizações sociais e pro- Núcleo de Pesquisa em Relações internacionais,
fissionais que prevalecem no país, como Clodoaldo BUENO & Amado Luiz
se dá o processo de participação CERVO, História da Política externa
eleitoral e também como as demandas brasileira, São Paulo, Editora Ática,
são encaminhadas pelos governos. A 1992, 432 p.
análise dos dados sugere que existe um O livro de Cervo e Bueno tem o
grande número de pessoas que dispensa mérito de resgatar a história da Política
o recurso do voto como mecanismo de externa brasileira desde a independência
participação, que revela-se indiferente a até os dias atuais. Os autores apresen-
participação política de forma geral e tam a atuação externa do país numa
ignora os laços entre políticos e eleitores. perspectiva história e, diferentemente de
Um grande número nega ter participado outros manuais sobre o assunto, não se
de qualquer conflito, ou seja, brigas, concentram em episódios de negocia-
divórcios, assaltos, etc. ções políticas e militares da ação diplo-
Os brasileiros transitam entre um mática e sim nos aspectos mais estru-
sistema poliárquico e não-poliárquico. turais da história externa do Brasil1.
Esse intercâmbio provoca um efeito ma- Consolidar o conhecimento elabora-
léfico na cultura cívica do país e diminui do sobre as relações internacionais no
a probabilidade de sucesso das políticas Brasil e o dar uma nova interpretação
governamentais, já que o governo ela- histórica foram os principais objetivos
bora grande quantidade de regulamen- dos autores nessa obra. Essa nova inter-
tação que não é conhecida nem usu- pretação histórica significa considerar na
fruída por parcela da sociedade. análise dos acontecimentos os aspectos
Um exemplo do tipo de atitude do de natureza histórica e estrutural. Para
brasileiro que transita nos dois sistemas isso, Cervo e Bueno fizeram uma leitura
(poliárquico e não-poliárquico) é o de atenta dos relatórios da chancelaria
votar conforme as regras da cidadania, brasileira.
mas não dar queixa à polícia quando foi A análise dos autores foi divida a
roubado. Indo além, passar a andar partir de três grandes períodos da histó-
armado para se proteger contra outros ria política do País. A primeira parte do
possíveis roubos. livro, de responsabilidade de Amado
Quando votamos estamos dentro Cervo, se refere ao período histórico do
dos limites da poliarquia, mas quando pós independência e da época do im-
somos roubados e não damos queixa pério brasileiro (1822-1889). Nessa pri-
transitamos para o outro extremo. Há o meira parte, a Política externa brasileira
grupo que além de não utilizar as insti- é analisada a partir de quatro variáveis :
tuições, buscando a justiça, despreza o sistema internacional e os objetivos
totalmente o sistema quando decide dos estados dominantes ; a inserção do
proteger-se por conta própria. continente americano nesse sistema ; a
Para que as políticas públicas sejam herança colonial brasileira e as suas
eficientes precisam corresponder os estruturas sociais. As questões que
valores públicos, ou seja, devem repre- envolvem o reconhecimento do país
sentar as expectativas que os indivíduos como nação independente e como a polí-
possuem do governo. tica externa do país se movia entre as
As discussões sobre um modelo de zonas de pressão da Europa e do Prata
representação que garantam a eficácia são tratadas por Cervo. Observa-se que
governamental deve estar associada a no pós-independência a relação dos país
uma discussão sobre a cultura política com as nações mais desenvolvidas se
do país. O processo eleitoral não é o manteve subalterno e que uma série de
único problema do regime político tratados foram considerados prejudiciais
brasileiro, mas deve-se considera a falta para o interesse do País nos documentos
de uma cultura cívica que sustente as da época. A relação com o Prata tevê
políticas governamentais. momentos mais críticos, principalmente
O ingresso do país na modernidade no relacionamento com Buenos Aires.
do século XXI depende de como será 1. Ver P. Almeida ROBERTO, « A nova
resolvido as questões institucionais. história diplomática », Política externa
Com isso, o autor encerra o livro suge- (São Paulo), 1(2), 1992 : 198-206.