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"A chegada" e a difícil comunicação com o Outro

No sensacional filme de ficção científica A chegada, recém-


lançado nos cinemas, doze enormes naves espaciais
invadem a Terra e "estacionam" de forma aparentemente
aleatória em cima de algumas cidades. No entanto, ao
contrário do que ocorre em quase todos os filmes de invasão
alienígena, os ETs não destroem a Terra nem matam os
seres humanos. Suas naves ficam lá paradas e eles não dão
o ar da graça, pelo menos inicialmente. Mas é claro que esta
"chegada" mobiliza rapidamente governos e exércitos de
todo o mundo, que erguem grandes estruturas de
monitoramento nas proximidades das naves. Com tais
estruturas, os governos pretendem não somente agir no caso
de um eventual ataque mas também buscar as respostas para
algumas perguntas inquietantes: o que eles querem? Por que
vieram à Terra? E por que se mantém em silêncio? Em certo
momento, os militares descobrem que durante alguns
instantes do dia a nave se abre e os ETs aparecem atrás de
uma parede transparente. E é logo após esta descoberta que
a linguista Louise Banks é convidada a integrar a equipe
composta por vários cientistas. Sua função específica é
tentar se comunicar com os ETs e entender porque, afinal
de contas, eles vieram à Terra. No entanto, como é de se
imaginar, não se trata de uma comunicação simples - da
mesma forma como não foi simples a comunicação entre
colonizadores e colonizados e como não é simples a
comunicação entre pessoas de diferentes países e entre os
seres humanos em geral. Superar toda essa Torre de Babel
é um desafio de dimensões interplanetárias.
No caso dos ETs, a comunicação é dificultada pelo fato de
haver poucas referências em comum entre nós e eles. No
caso de uma primeira comunicação entre pessoas que falam
línguas distintas é possível buscar elementos no mundo que
favoreçam um entendimento mútuo. Imagine, por exemplo,
que você queira se comunicar com uma pessoa chinesa mas
você não fala ou entende absolutamente nada de chinês.
Como você faria? Aposto que inicialmente apontaria para
si mesmo(a) e diria seu nome, esperando, assim, que a outra
pessoa diga o dela. Em seguida você poderia apontar, por
exemplo, para um livro e dizer "livro", esperando com isso
que a pessoa nomeie o mesmo objeto em sua língua. A
mesma metodologia poderia ser utilizada com diversos
outros objetos ou elementos do mundo, o que permitiria um
diálogo inicial - um diálogo um tanto simplório, certamente,
mas ainda assim um diálogo. Mas como dialogar desta
maneira com um ET? Você pode apontar para si mesmo e
dizer seu nome - como a Dra. Banks faz no filme -, mas
será: 1) que eles conseguem enxergar e escutar? e 2) que
eles possuem nomes? Acho bem possível imaginar uma
sociedade, na Terra ou em outro planeta, na qual cada um
de seus integrantes não possua um nome individual mas
apenas um mesmo nome coletivo, por exemplo (como "os
Negan" da série The Walking Dead). Nossa noção ocidental
moderna - e terráquea - de individualidade não vale
necessariamente para todo o universo, não é mesmo? Da
mesma forma, parecem existir poucos elementos do mundo
em comum entre humanos e ETs. A linguista poderia
apontar para um livro e dizer ou escrever "livro", mas se
eles não possuem objetos semelhantes àqueles que
chamamos de livros nada disto faria sentido - e o mesmo
vale para quase todos os objetos e coisas que pensarmos.
Como então dialogar com tais criaturas?
Pois bem, no filme, a primeira tentativa de diálogo adotada
pela Dra. Banks é justamente escrever o próprio nome em
uma lousa e apontar para si mesma. Curiosamente, isto gera
o efeito desejado e as bizarras criaturas, que se assemelham
a polvos gigantes, esguicham jatos de tinta preta na parede
transparente, formando símbolos arredondados que passam
a ser vistos e entendidos como palavras. Mas se são
palavras, o que significam? E de que forma tais símbolos se
relacionam com os sons emitidos pelas criaturas? A
intuição de Banks sobre os primeiros símbolos esguichados
pelos Heptapods, como eles passam a ser chamados, é que
se refeririam aos nomes dos dois seres que "dialogam" com
a equipe - mas poderia ser também que significassem outra
coisa. Aos poucos, isto é, a cada contato frente a frente e a
cada tentativa de diálogo com os ETs - que parecem
realmente dispostos a "conversar" -, a linguista e sua
equipe, com a ajuda de alguns programas de computador,
acabam por descobrir determinados padrões na linguagem
escrita alienígena e isto faz com que o diálogo avance.
Banks passa em certo momento a se utilizar da própria
linguagem deles para dialogar. Não creio ela tenha se
tornado fluente na língua alienígena, mas é possível
constatar que a linguista aprendeu o suficiente para que um
diálogo de verdade pudesse ocorrer. E com isso ela pôde
finalmente compreender os motivos deles. Não entrarei
aqui nesta questão e nem explorarei o surpreendente ato
final. Gostaria apenas de discutir este complexo processo
de comunicação entre a linguista e os ETs que, de certa
forma, reproduz as dificuldades de comunicação entre os
próprios seres humanos.
Como já comentei em outro post, empatia é a capacidade de
nos imaginar no lugar do Outro. Não podemos, de fato, nos
colocar no lugar deste Outro; o máximo que podemos fazer
é utilizar nossa imaginação para induzir em nossa mente
aquilo que acreditamos que outras pessoas (ou seres)
sentem. E isto, embora seja algo positivo, aponta para um
enorme abismo entre todos nós, pois de fato nunca
saberemos exatamente como as outras pessoas se sentem -
e nem, efetivamente, se sentem. Só o que fazemos e o que
podemos fazer é pressupor, acreditar, imaginar. E nada
mais. Isto significa que a angústia ou a alegria que eu sinto
não necessariamente são iguais às que você sente, embora
nós dois chamemos determinadas sensações mentais e
corporais de angústia e alegria. Jamais saberemos de fato.
Essa visão de que vivemos uma solidão essencial,
caracterizada por este "abismo subjetivo", é chamada pelos
filósofos de solipsismo (do latim solus ipse, que significa
"um ser sozinho"). Os solipsistas acreditam que não é
possível saber se outras pessoas possuem consciência -
talvez elas sejam simplesmente robôs ou zumbis que
simulam estados conscientes. Só o que podemos saber é que
nós próprios somos conscientes e possuímos mentes. A
ideia básica dos solipsistas, como sintetiza Eric Matthews
no livro Mente: conceitos-chave em filosofia, é que "eu
poderia ser o único ser consciente, o único ser com uma
mente em todo o universo". Este pensamento, ainda que
logicamente faça algum sentido, é efetivamente uma
loucura - afinal, quem realmente acredita que nenhuma
outra pessoa no mundo seja consciente? De toda forma, o
solipsismo aponta para uma certa distância subjetiva entre
as pessoas, que seria responsável por muitos dos problemas
de comunicação que enfrentamos em nossas vidas. A ideia
é que somos, de alguma forma, ETs uns para os outros:
nossa forma peculiar de agir, pensar e sentir, ainda que seja
construída coletivamente no mundo social, possui uma
configuração individual única que dificulta sua apreensão
pelas outras pessoas e consequentemente nosso processo de
comunicação. E isto significa que embora compartilhemos
o mesmo mundo físico, possuimos mundos subjetivos
diferentes, o que faz com que passemos grande parte do
tempo aprendendo e reaprendendo a nos comunicar uns
com os outros. Algumas vezes a distância entre estes
mundos diminui e a comunicação ocorre de forma plena;
outras vezes - muitas vezes - a distância aumenta e a
comunicação deixa de fluir. Como bem afirma Eric
Matthews - e como comprova o maravilhoso filme A
chegada - "a comunicação humana, por mais difícil que
seja, é ao menos possível de vez em quando".