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Engenharia Civil– 1º.

/2019

Disciplina: Formação Geral – 1º Período

Docente: Prof. Me. Anderson Jacob Rocha

Os textos a seguir compõem o quadro de leituras obrigatórias para a disciplina “Formação Geral”, no
curso de Engenharia Civil, abordando os temas de estudo da ementa. As leituras serão realizadas
mediante orientação do professor para discussão em sala de aula. A partir das leituras serão
estudados também aspectos textuais, gramaticais e semânticos.

Texto 01: Definindo Sociodiversidade –

Sociodiversidade é a posse de recursos sociais próprios, de modelos diferentes de autoridade


política, de acesso à terra ou de padrão habitacional, de hierarquias próprias de valores ou prestígio.
Além de ser um princípio disciplinar da antropologia, a sociodiversidade é um requisito imprescindível
para a reprodução das sociedades indígenas nos nichos espaciais e políticos a elas reservados no
panorama global, e, nesse sentido a reflexão sobre sociodiversidade precisa colocar em discussão
como a sociodiversidade tem sido tematizada no movimento ambientalista e nas políticas públicas,
avaliando-se as implicações destas visões e destas políticas para a sustentabilidade ambiental e para
a continuidade sociocultural e qualidade de vida destas populações.
A Sociodiversidade em saúde desenvolve investigações científicas através de abordagens
sócioepidemiológicas de forma a produzir conhecimentos sobre o processo saúde/doença, bem como
dos significados histórico-culturais desse mesmo processo. Entre os objetivos de seus projetos
principais está:
 Desenvolver análises da relação entre condições de vida e situações de saúde com ênfase
em abordagens sócio-epidemiológicas e ambientais da produção, reprodução e modulação
dos processos de saúde /doença;
 Desenvolver investigações sócio-antropológicas que viabilizem a apreensão dos significados
culturais do processo saúde/doença na Amazônia, promovam a articulação entre ciências
sociais e epidemiologia e possibilitem a construção de objetos interdisciplinares de estudos
em saúde nas populações vulneráveis (indígenas, afro-descendentes, ribeirinhos, moradores
de periferia dos grandes centros).
Para entender a sociodiversidade brasileira é preciso refletir sobre o modo como os povos
indígenas na América Tropical e Subtropical desenvolveram nas suas cosmologias - modos de
objetivação da natureza (outras formas de vida, animais, humanos, astros, etc.) e da sociedade -
avaliando as implicações desses modos de objetivação nas suas práticas de reprodução societária e
ambiental, aprofundado a nossa compreensão desses modos de identificação (Descola, 2000) e
permitindo uma consciência mais profunda de nossos próprios regimes de objetivação e dos
princípios diretores de nossas próprias cosmologias. Com base nesse debate poderemos também
aprofundar a compreensão de nossa forma de conceber natureza e sociedade e suas implicações
nas práticas sociais.
Pode-se dizer que a década de 80 testemunhou uma grande mudança nas abordagens
antropológico-ecológicas na Amazônia. Se, por um lado, os pioneiros concentraram-se sobre fatores
limitantes de larga escala, a geração dos anos 80 investiu exatamente naquilo que a Amazônia tem
de mais importante: na sua extrema heterogeneidade de sistemas naturais e, por conseguinte, na
extrema sociodiversidade apresentada por suas populações nativas e tradicionais, resultado,
obviamente, de respostas adaptativas, de cunho social, a essa miríade de possibilidades de
sustentação material à produção e reprodução das sociedades envolvidas.
Nesse sentido, os estudos da sociodiversidade precisam dar conta de como as distintas
paisagens interferiram na formulação das organizações sociais de suas populações humanas,
organizações sociais aí entendidas como soluções adaptativas para o enfrentamento de questões de
sustentabilidade material (ou seja, questões de adaptação e a adaptabilidade social).
Ao mesmo tempo, os estudos sobre sociodiversidade precisam verificar não somente como
as sociedades humanas são capazes de agir sobre ecossistemas naturais, forjando aquilo que
William Balée denomina "florestas culturais", mas também como determinados compartimentos
reconhecidos pela ecologia ocidental desdobram-se em nuances de diversidade, quando lidos à luz
do conhecimento nativo.
Portanto, a sociodiversidade é inseparável da biodiversidade. E para falar de Sociodiversidade
e Biodiversidade no Brasil é preciso falar de Modos de Vida, Territorialidade e Meio Ambiente,
desenvolvendo uma reflexão conjunta sobre as questões da terra, da diversidade sociocultural e da
sustentabilidade ambiental, a partir da análise da variedade dos modos de vida contemporâneos
historicamente constituídos (populações indígenas, quilombolas, afro-descendentes, ribeirinhos,
seringueiros, caboclos e outros), de suas formas de territorialidade e os correlatos padrões de
ocupação do espaço e uso dos recursos naturais.
Precisamos atentar para a grande sociodiversidade existente no interior do Brasil: grupos
indígenas, pequenos produtores rurais; assentados da reforma agrária, pequenos posseiros
tradicionais; comunidades extrativistas, grupos de “alternativos” migrantes da classe média urbana
em direção ao campo. Desse encontro resulta uma grande diversidade de histórias de vida, origens
geográficas, referências ideológicas e crenças coletivas.
Essas diferenças mostram-se, há um só tempo, potencial e obstáculo na execução de projetos
sociais e ecológicos. Processos associativos e dissociativos sucedem-se naturalmente no ciclo de
um projeto que apresente um grupo muito diverso de atores envolvidos.
Os casos de projetos executados em assentamentos da reforma agrária, que vem sendo
implementada pelo Governo Federal brasileiro, representam um paradigma empírico dessa
contradição. Isso porque um assentamento de reforma agrária, por si só, é um contexto social
bastante complexo, onde já há extraordinária heterogeneidade interna. Tratam-se de famílias e
indivíduos vindos de diferentes regiões do país, inclusive, de zonas urbanas, assentados de forma
relativamente aleatória. A análise de projetos implementados nesses contextos permite aferir
algumas regularidades. Nos assentamentos, por exemplo, com presença expressiva do Movimento
Sem Terra (MST), verifica-se que o movimento ajuda na constituição de um elemento subjetivo de
identificação social, a defesa de um modelo de organização política e social dentro do assentamento,
mas, por vezes, se constitui também em mais uma linha de força nesse cenário, capaz de gerar e
alimentar dissensões.
Por exemplo, um fator de forte constrangimento sobre projetos de produção de alimentos e
fitoterápicos tem sido a ação da Vigilância Sanitáriai, havendo inúmeros casos de interdição das
unidades produtivas, por serem consideradas fora dos padrões recomendados de higiene e saúde.
Há indícios, contudo, de que muitas vezes essa intervenção não se dá unicamente com base em
critérios técnicos, mas que se justificam também por interesses econômicos, especialmente de
grandes indústrias como a farmacêutica. De todo o modo, a legislação sanitária vem sendo
questionada de forma crescente, havendo inclusive experiências de políticas públicas, em níveis
estaduais e municipais, de incentivo à pequena agroindústria e que incluem a adaptação da
legislação, para viabilização desses pequenos empreendimentos. O pressuposto nesse tipo de ação,
é de que as normas sanitárias, sob alguns aspectos, tem sido proibitiva para a consolidação de
pequenas unidades produtivas, refletindo apenas a realidade de grandes e médias indústrias.
(...)
Sociobiodiversidade diz respeito à complementaridade entre diversidade cultural e biológica,
englobando as diversidades cultural, populacional e dos ecossistemas. “Trocando em miúdos”, quer
dizer que cada cultura constrói relações com os ecossistemas de modo a criar nichos de saberes que
lhes possibilita sobrevivência, logo sociobiodiversidade é o conhecimento e a dependência que cada
cultura tem dos ecossistemas, a exemplo dos bosquímanos do deserto do Kalahari e dos pigmeus,
povos que sedimentaram culturas integradas ao ambiente em que vivem.
Há o recente exemplo das seis tribos primitivas indianas do Golfo de Bengala, das ilhas de
Nicobar e Andaman – jawaras, onges, shompenes, sengaleses e grande andamanenses, que datam
de 20 a 60 mil anos, do alto paleolítico e do mesolítico, que detectaram a iminência da catástrofe
observando o canto dos pássaros e a mudança de conduta dos animais. Sobreviveram ao tisunami
em 26/12/2004, graças a conhecimentos ancestrais. Os nicobarenses, residentes em 12 ilhas do
arquipélago indiano, com 30 mil pessoas, até 3 de janeiro de 2005 computaram 656 mortos e 3.000
desaparecidos. Os nicobarenses datam do neolítico (5 a 7 mil anos) e deduz-se que o acúmulo de
saberes é bem menor ou menos consolidado e difundido entre seus membros.
Fonte: http://www.newtonpaiva.br/NP_conteudo/file/Enade/definindo_sociodiversidade.doc

Texto 02: Em artigo, Olívia Santana critica campanha “Somos todos macacos” –

Os recentes casos de racismo no futebol, que resultou na campanha “Somos todos macacos”,
foram analisados pela secretária nacional de Combate ao Racismo do PCdoB, Olívia Santana, que
também preside o Comitê Municipal do Partido em Salvador, em um artigo batizado de “Não me
venham com bananas e macacos!”. No texto, Olívia critica a campanha e os atos racistas, e defende
que a FIFA deve determinar que os clubes de futebol desenvolvam ações para coibir o racismo.
A ideia do artigo surgiu, segundo a secretária, a partir de uma conversa com o integrante do
Comitê Central e ex-deputado constituinte Haroldo Lima. Os dois acreditam que também deve ser de
todo comunista a luta por uma sociedade não-racializada. Confira na íntegra:

Não me venham com bananas e macacos!


Reconheço a intenção antirracista da campanha “Somos todos macacos”, deflagrada após
Daniel Alves ter comido a banana que um torcedor xenófobo lhe atirou em campo, quando ele se
preparava para cobrar um escanteio, no último jogo do Barcelona contra o Villareal. Contudo, tem ela
uma limitação intrínseca. Procura responder ao ultraje, incorporando-o.
É contra negros que se lança o epíteto de “macacos” e o refrão – “somos todos macacos” –
independente das boas intenções, não pode ser assumido pelos negros, porque, se assim o
fizéssemos, estaríamos aceitando o velho preconceito de nos associar ao ser humano incompleto, o
primitivo, o que está mais próximo dos símios na cadeia evolutiva.
É crescente a onda de racismo no futebol. Há um recrudescimento desse sentimento
retrógrado, que se dá em meio à crise econômica que assola o sistema capitalista do mundo,
sobretudo nos países europeus, vergastados pelo desemprego inclemente. Nessa hora, impotentes
ante o descalabro da crise, os setores mais reacionários, soltam seus demônios fascistas, racistas
sobre o que imaginam ser a causa de seus infortúnios, os imigrantes em geral, os africanos e latinos,
em especial. Incapacitados de identificar a natureza econômica e política de seus problemas voltam-
se contra bodes expiatórios e vão buscar em teorias e práticas sepultadas pela história, mas não
mortas, os motes racistas da agressão atual.
Os fatos lamentáveis que se multiplicaram este ano no Brasil, no Peru e na Espanha,
sacodem os que ingenuamente pensam que a ascensão econômica por si só torna iguais negros e
brancos. Os milhões de Neymar e de Daniel Alves catapultaram-nos para o mundo glamoroso dos
muito ricos, quase todos brancos, mas não os blindaram da humilhação racista. À espreita, e
dependendo do momento, alguém sempre estará a dizer: você não é um dos nossos.
Na história do futebol, como de resto na história humana em geral, “o inesperado faz suas
surpresas”. De origem aristocrática, o futebol teve que aceitar o negro, na verdade, teve que se curvar
a ele. O jeito próprio, a graça, a criatividade, a “catimba” fizeram do negro um artífice da arte de
marcar gols.
Foi assim que surgiu a maestria do drible do “Anjo das Pernas Tortas”, do menino pobre que
se fez gigante, ganhando duas Copas do Mundo (1958 e 1962), o imortal Garrincha, um dos maiores
jogadores do século XX. E Thierry Daniel Henry, jogador negro a quem o Arsenal Inglês deve a
conquista do Premier League, de forma invicta e apoteótica na temporada 2003/2004.
A coroa de Rei do Futebol não adorna a cabeça de nenhum inglês, espanhol, francês ou
alemão, mas sim a de um negro brasileiro, nascido em berço pobre, no município de Três Corações,
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Expressão elevada da vitória do negro no futebol, Pelé é isto,
independente do que ele ache a respeito e da sua postura tíbia ante as agruras da sua raça. Instigado
a se posicionar sobre os gritantes casos de racismo, declarou não saber de todos os casos, mas
sobre o de Daniel Alves, considerou ser algo banal, sem importância. Aff...Sabe de nada, inocente!
Como disse Romário, “calado é um poeta”.
Ganhar e perder faz parte de qualquer jogo. O problema é que, quando é nos pés do negro
que a promessa de vitória não se realiza, muitas vezes a indignação do torcedor vira ira racista, posto
que ele a tem latente, como subproduto do lixo que ficou da herança colonialista, escravista e, ainda
por cima, da cultura de inferiorização que se sedimentou sobre os povos não brancos.
A situação exige mais que campanhas pontuais de enfrentamento ao racismo. Nenhuma
instituição de futebol deve tolerar o racismo. A Fifa deve estabelecer regras objetivas e mecanismos
de punição imediata que obriguem os clubes a combater atos racistas por parte de torcedores,
comentaristas ou quem quer que seja. É preciso agir contra o racismo em nome de novos princípios
civilizatórios.
Esse artigo resultou de uma boa prosa que tive com o amigo Haroldo Lima. Pensamos que
deve ser parte da agenda de todo comunista a luta por relações sociais não racializadas. O que nos
movimenta é o ABAIXO O RACISMO. O que nos une é que SOMOS TODOS HUMANOS!
* Olívia Santana é Secretária Nacional do PCdoB de Combate ao Racismo.

Texto 03: Como alcançar a sustentabilidade ambiental? –


* por Mary Lúcia Andrade Correia

Atualmente, muito se tem falado em sustentabilidade ambiental, mas como alcançá-la? De


que forma podemos trabalhar ou desenvolver nossas atividades no dia a dia com sustentabilidade?
O termo sustentabilidade pode ser aplicado em vários setores, tais como: empreendimentos da
construção civil, consumo, setor automobilístico, vestuário, agricultura, indústria, transportes,
educação etc. Neste sentido, a busca de novas tecnologias e estratégias na tentativa da
harmonização de políticas públicas, sociais, econômicas e ambientais tem sido uma preocupação no
desenvolvimento sustentável.
Na realidade, sustentabilidade é um conceito que está relacionado diretamente com a forma
de intervenção do homem no meio ambiente. É um conceito que demonstra que aquele produto foi
produzido ou fabricado respeitando as normas e os princípios ambientais, minimizando ou mitigando
os efeitos dos danos ao meio ambiente, utilizando tecnologias e materiais ecologicamente corretos.
Hodiernamente, uma característica da economia atual é o desperdício mais ou menos acentuado de
água, energia e capital natural. Para alcançar a sustentabilidade, é necessário que se leve em
consideração o meio ambiente e o estoque natural sem comprometer a capacidade de manutenção
desses recursos para as presentes e futuras gerações. É indispensável a racionalidade na utilização
dos recursos naturais e recursos ambientais.
O desenvolvimento sustentável tem se tornado um desafio para toda e qualquer atividade que
tem compromisso socioambiental. A sustentabilidade ambiental consiste em um novo paradigma que
deve ser alcançado, sob pena de os custos ambientais serem tão elevados para a sociedade e muitas
atividades humanas não poderem persistir num futuro muito próximo. Todos nós dependemos dos
recursos naturais e ambientais, e, portanto, nesta perspectiva temos de prolongar a vida útil desses
recursos. Como sociedade, gestores, empresários e pesquisadores, somos todos responsáveis por
nossas ações e omissões com o planeta Terra. Alguns fatores como as mudanças climáticas,
escassez de recursos hídricos, crescimento populacional, perda da biodiversidade, desertificação,
energia, combustíveis e desmatamento são problemas que precisam de ação e planejamento de
estratégias que diminuam os riscos ambientais e aumentem a possibilidade de oportunidades mais
sustentáveis no mundo. Precisamos refletir sobre nossas práticas, atitudes e posturas na sociedade
atual. Essa é uma questão complexa, pois envolve pesquisa, conhecimento, novas tecnologias e
tempo.
Analisando o cenário que temos, eu diria que ainda não estamos preparados para alcançar a
sustentabilidade, pois será necessário um longo processo de educação ambiental, resgate de valores
éticos, morais e culturais. Sabemos que algo já começa a ser feito, mas ainda há muito por fazer,
pois a sustentabilidade ambiental depende de cada um de nós e do nosso compromisso enquanto
passageiros dessa nave chamada Terra. Para tanto, os critérios de sustentabilidade precisam ser
aplicados: sustentabilidade social, cultural, ecológica, econômica e política. Para se alcançar um
desenvolvimento sustentável, esses critérios precisam ser satisfeitos em todas as dimensões. Será
que estamos realmente conscientes e preparados para o desafio dessa nova realidade? Em um
mundo cheio de desemprego e crescimento calcado no quantitativo e não no qualitativo, que pouco
leva em consideração a dimensão ambiental, é possível a mudança de paradigma?
O atual modelo econômico com meios de produção e consumo, maximizando os lucros e com
a compreensão de que o meio ambiente é apenas, ou acima de tudo, fonte fornecedora de matéria-
prima e energia, está com os dias contados. A natureza nos tem enviado inúmeras mensagens
dizendo que esse modelo está ultrapassado. Uma nova visão sistêmica da realidade baseada na
compreensão do universo como um todo, em forma de rede com seus elementos interligados e
interdependentes, constitui uma importante ferramenta de compreensão dos novos tempos. O que
estaríamos dispostos a fazer em nome da sustentabilidade? Esta é uma pergunta que se deve fazer
a si mesmo.
Estamos consumindo 20% a mais do que a Terra consegue suportar. E, detalhe, se toda a
população do planeta consumisse e tivesse o poder aquisitivo como os norte-americanos e europeus,
que possuem padrão alto de consumo, hoje nós precisaríamos de pelo menos quatro planetas Terra
para alimentar toda a população. Uma nova concepção de estilo de vida precisa ser implementada,
e isso requer coragem, mudanças de hábitos, criação de uma nova cultura, gestão de recursos,
implantação de uma economia verde e de políticas públicas dentro dos novos parâmetros de
desenvolvimento. Certamente, a reflexão sobre o assunto já é um começo, um ponto de partida e ao
mesmo tempo um exercício que todos nós devemos começar a fazer para um mundo melhor.

* Mary Lúcia
Andrade Correia é professora e coordenadora do curso de especialização em Direito Ambiental da
Unifor. É mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará,
especialista em Direito Ambiental pela Universidade Estadual do Ceará, especialista em Geografia
pela UFC e graduada em Direito pela Unifor e em Geografia pela UECE.

Texto 04: Meio Ambiente Sustentável –


O ser humano depende diretamente do meio onde vive. Toda e qualquer alteração que o meio
sofra o ser humano sofre também. Isso vem sendo comprovado a cada década. O meio ambiente
está sendo cada vez mais alterado pelo homem. Com os impactos sofridos pelo meio ambiente, o
termo sustentabilidade tem sido foco de discussão em fóruns e encontros de ambientalistas. Será
que é possível conciliar uma vida confortável e tecnológica com a sustentabilidade do meio
ambiente?
A principal característica da sustentabilidade é adequar as tecnologias para um uso racional
e renovável. Produtos recicláveis e de fontes renováveis, reforçam o crescimento da sustentabilidade
do meio ambiente.
Os produtos biodegradáveis estão ganhando força entre as empresas. É mais uma forma de
se preservar o meio ambiente. Resta à sociedade optar por esses produtos e propagar essa ideia de
sustentabilidade. A reciclagem também cumpre um papel de extrema valia para preservação
ambiental. Se cada cidadão cumprir com sua parte para a sustentabilidade do planeta, ficará
mais fácil renovar o quadro do nosso meio ambiente. A utilização de produtos de limpeza e
cosméticos não tóxicos aliviarão a degradação do meio ambiente.
A devastação do meio ambiente começa no meio dele mesmo. A utilização de agrotóxicos
nas lavouras contribui para um enfraquecimento do solo e poluição do ar. Os métodos artesanais de
agricultura são uma ótima prevenção.
O acúmulo de riqueza e a comodidade sempre ficam em primeiro lugar para o ser humano. O
meio ambiente quase sempre fica em segundo plano. Até mesmo as autoridades que deveriam zelar
pelo planeta, se preocupam em se atualizarem com novas tecnologias. Se o meio ambiente não tiver
o cuidado que necessita, o homem não vai ter onde expor seu poder de modificar ou criar. A natureza,
assim como o homem, também é finita.

Fonte: http://www.ecologiaurbana.com.br/sustentabilidade/meio-ambiente-sustentavel/

Texto 05:
Texto 06: A NOVA ORDEM MUNDIAL -
José Willian Vesentini

O que é uma ordem [geopolítica] mundial? Existe atualmente uma nova ordem ou, como
sugerem alguns, uma desordem? Quais são os traços marcantes nesta nova (des)ordem
internacional?
Esse tema é clássico na geografia política, na geopolítica, na ciência política e nos estudos
de relações internacionais. Um dos mais importantes (pelo número de citações que recebeu e ainda
recebe) teóricos a abordar esse tema foi o geógrafo e geopolítico inglês Halford J. MacKinder, que
produziu várias obras sobre o assunto no final do século XIX e no início do século XX. A ideia de uma
ordem mundial pressupõe logicamente um espaço mundial unificado, algo que só ocorreu a partir da
expansão marítimo-comercial europeia (e capitalista) dos séculos XV e XVI. Daí os autores clássicos,
em especial aqueles do século XIX, terem cunhado a expressão "grande potência" ou "potência
mundial", indissociavelmente ligada à ideia de ordem mundial. Esta normalmente é vista como uma
situação de equilíbrio (sempre instável ou provisório) de forças entre os Estados. (Afinal é o Estado
quem atua nas relações internacionais e executa tanto a diplomacia quanto a guerra).
E como esses atores privilegiados no cenário global, os Estados, são equivalentes apenas na
teoria -- pois há alguns fraquíssimos, em termos de economia, de população e de poderio militar, e
alguns poucos extremamente fortes --, o conceito de potências (médias ou regionais e principalmente
grandes ou mundiais) é essencial na medida em que expressa algo que ajuda a definir ou a estabilizar
a (des)ordem mundial. Como assinalaram Norberto BOBBIO e Outros (Dicionário de Política, editora
Universidade de Brasília, 1986, pp.1089-1098), cada Estado possui a sua soberania ou poder
supremo no interior de seu território, não estando, portanto, submetido a nenhuma outra autoridade
supraestatal, o que em tese redundaria numa espécie de "anarquia internacional". Mas, a existência
das grandes potências e a própria hierarquia entre os Estados introduz um elemento estabilizador,
uma "ordem" afinal, nessa situação em que não há um poder global ou universal, isto é, acima das
soberanias estatais.
É exatamente essa hierarquia que vai dos "grandes Estados" -- a(s) grande(s) potência(s) --
até os "pequenos", esse sistema de países onde na prática há o exercício do poder pela diplomacia
(ou, no caso extremo, pela força militar) e pelas relações cotidianas (comerciais, financeiras,
culturais...), o que se convencionou denominar ordem mundial. Por esse motivo, via de regra se
define uma ordem mundial pela presença de uma ou mais, grandes potências mundiais: ordem
monopolar, bipolar, tripolar, pentapolar, multipolar etc. Como podemos perceber, não se avança
muito quando se nega a ideia de uma (nova) ordem e se enfatiza o termo desordem, pois toda ordem
mundial é instável e plena de conflitos e de guerras. Estas normalmente, salvo raras exceções, são
explicáveis pela lógica que preside a ordem mundial e, portanto, não a denegam. Podemos dizer,
assim, que o conceito de ordem mundial não é positivista (no sentido de ordem = ausência de
contestações e de conflitos) e sim, na falta de um conceito melhor, dialético (no sentido de ordem =
algo sempre instável e na qual as disparidades, as tensões e os conflitos são "normais" ou inerentes).
A atual ordem internacional, nascida com a ruína da bipolaridade -- que foi o mundo da guerra
fria e das duas superpotências, que existiu de 1945 até 1989-91--, ainda suscita inúmeras
controvérsias e costuma ser definida ora como multipolar (por alguns, provavelmente a maioria dos
especialistas), ora como monopolar (por outros) ou ainda como uni-multipolar (por
Huntington). Aqueles que advogam a mono ou unipolaridade argumentam que existe uma única
superpotência militar, os Estados Unidos, e que a sua hegemonia planetária é incontestável após o
final da União Soviética. E aqueles que defendem a ideia de uma multipolaridade não enfatizam tanto
o poderio militar e sim o econômico, que consideram como o mais importante nos dias atuais. Eles
sustentam que a União Europeia já é uma potência econômica tão ou até mais importante que os
EUA -- e continua se expandir -- e tanto o Japão (que logo deverá superar a sua crise) quanto a China
(a economia que mais cresce no mundo desde os anos 1990) também são economias
importantíssimas a nível planetário. Além disso, raciocinam, a Rússia ainda é uma superpotência
militar, apesar de sua economia fragilizada; a China vem modernizando rapidamente o seu poderio
militar; e as forças armadas da Europa, em especial as da Alemanha, França, Itália e Reino Unido,
tendem a se unificar com o desenrolar da integração continental.
Até mesmo os momentos de crise (Guerra do Golfo, em 1991, conflitos na Bósnia e no
Kosovo, em 1993 e 1999, a luta contra o terrorismo, em 2001, e a ocupação do Iraque, em 2003) são
vistos sob diferentes perspectivas por ambos os lados. Os que insistem na monopolaridade pensam
que essas crises exemplificam a hegemonia absoluta e sem concorrentes dos Estados Unidos,
enquanto que os que advogam a multipolaridade explicam que essa superpotência em todos esses
momentos críticos necessitou do imprescindível apoio da Europa, em primeiro lugar, e até mesmo da
ONU, além de ter feito inúmeras concessões à Rússia e à China em troca do seu suporte direto ou
indireto nesses bombardeios contra o Iraque, contra a Sérvia e contra o Afeganistão.
Mas, independentemente do fato de ser uni ou multipolar -- ou talvez uni-multipolar, uma
fórmula conciliatória que admite uma monopolaridade militar (mesmo que provisória) e uma
multipolaridade econômica --, a nova ordem mundial possui outros importantes traços característicos:
o avançar da Terceira Revolução Industrial, ou revolução técnico-científica, e de uma globalização
capitalista junto com uma nova regionalização que lhe é complementar, isto é, a formação de "blocos"
ou mercados regionais. A revolução técnico-científica redefine o mercado de trabalho (esvaziando os
setores secundário e primário e ao mesmo tempo exigindo cada vez mais uma mão-de-obra
qualificada e flexível) e reorganiza ou (re)produz o espaço geográfico (com novos fatores sendo
determinante para a alocação de indústrias: não mais matérias primas e sim telecomunicações e/ou
força de trabalho qualificada, dentre outros). Ela é condição indispensável para a globalização na
medida em que esta não existe sem as novas tecnologias de informática e de telecomunicações. Ela
influi até mesmo na guerra, pois permite a construção de armas "inteligentes", que destroem alvos
específicos sem ocasionar matanças indiscriminadas (e são mais precisas que as armas de
destruição em massa, o que significa que não é mais necessário o transporte de grande quantidade
delas) e torna as informações algo estratégico para a supremacia militar. Esta última deixa de ser
ligada ao tamanho da população ou mesmo à quantidade de soldados (existe uma tendência no
sentido de haver menos militares, só que com maior qualificação) e passa a depender da economia
moderna, da tecnologia avançada.

PARA SABER MAIS: Como sugestões de leituras sobre o tema, indicamos os seguintes livros
bastante acessíveis (e que contêm no final uma vasta bibliografia):
- Ascenção e queda das grandes potências, de Paul Kennedy (editora Campus, 1989). Um exaustivo
estudo sobre as "grandes potências mundiais" desde o século XVI até o final dos anos 1980. Ele
procura mostrar como era a ordem mundial em cada período e dá uma ênfase especial à ordem
bipolar de 1945 até 1989-91.
- A nova ordem mundial, de José William Vesentini (editora Ática, 1996). Um sucinto texto
paradidático sobre as razões da crise da bipolaridade e as características da nova ordem mundial
dos anos 1990 e do início do século XXI.
- Novas geopolíticas, de José William Vesentini (editora Contexto, 2000). Uma análise crítica sobre
as principais representações geopolíticas sobre o mundo pós-guerra fria: o conflito de civilizações,
a universalização da democracia liberal, a nova geoestratégia, o mundo visto como caos ou
desordem, etc.
- Nova Ordem, Imperialismo e Geopolítica global, de José William Vesentini (editora Papirus, 2003).
Um estudo sobre a pertinência (ou não) das categorias imperialismo e império para a ordem
internacional do início do século XXI, com novas reflexões sobre as desigualdades internacionais e
sobre a uni-multipolaridade das relações de poder no espaço mundial.

Disponível em: http://www.geocritica.com.br/geopolitica03.htm

Texto 07: Vantagens e desvantagens da Globalização –

Por Me. Rodolfo Alves Pena


Existem vários elementos que podem ser citados como vantagens e desvantagens da
Globalização, a depender da ótica em que se analisa esse fenômeno. O processo de globalização
pode apresentar altos e baixos.
O processo de Globalização encontra-se, a cada dia, mais avançado, intensificando-se e
difundindo-se por todo o mundo. Tal fenômeno representa a integração, em nível mundial, das
diferentes localidades através dos avanços promovidos no campo das comunicações e nos
transportes, proporcionando uma relação global em níveis econômicos, culturais, políticos e,
consequentemente, sociais.
Existem, dessa forma, muitos daqueles que admiram e consideram importante o fenômeno
de mundialização das sociedades, havendo, por outro lado, aqueles críticos que a consideram
prejudicial. Fala-se, portanto, da existência de vantagens e desvantagens da Globalização, embora
a definição do que seria cada um desses “lados” dependa de quem promove a sua análise.
Em um esforço de síntese das várias conclusões já realizadas, destacaremos, então, as
principais vantagens e desvantagens da globalização respectivamente. Vale esclarecer, contudo, que
essa análise não é um consenso geral, podendo haver discordâncias sobre qualquer um dos
elementos apresentados.
Entre as vantagens da Globalização, a primeira e mais óbvia de todas a serem citadas é a
diminuição das distâncias e do tempo, assinalando um fenômeno que David Harvey chamou de
“compressão espaço-tempo”. Isso ocorreu graças aos avanços tecnológicos no campo da
comunicação e dos meios de transporte, cada vez mais rápidos e eficientes, fruto principalmente da
Revolução Técnico-Científica-Informacional. Tal configuração permitiu a difusão de notícias e
conhecimentos de forma mais rápida, transpondo barreiras físicas e políticas em todo o mundo.
Outro aspecto que pode ser considerado positivo da Globalização é a redução do preço médio dos
produtos, embora essa não seja uma característica constante. Através da maior integração política
mundial, entre outros elementos (como a formação dos Blocos Econômicos), muitos produtos
tornaram-se mais baratos e também mais abundantes, sendo largamente difundidos em todo o
planeta. Em muitos casos, produtos industrializados têm seus processos produtivos descentralizados
em várias partes do mundo, o que contribui para a diminuição dos custos.
Os avanços no campo científico e do conhecimento também são notórios. Hoje, por exemplo,
se há uma nova descoberta no campo da medicina realizada em algum país, o restante do mundo
passar a ter conhecimento dessa novidade quase que em tempo real. Informações diversas sobre
dados econômicos, políticos e sociais também se dispersam rapidamente, contribuindo para o
avanço de muitas áreas do saber. Não por acaso, o sociólogo espanhol Manuel Castells afirma que
estamos vivendo na “sociedade do conhecimento”.
No campo financeiro, a Globalização também apresenta aquilo que podemos considerar como
vantagens. Destacam-se, nesse ínterim, os investimentos mais facilitados e que podem difundir-se
por todo o globo; a maior disponibilidade de meios para gerir empresas e governos; a possibilidade
de maiores e mais amplos tipos de financiamentos de dívidas fiscais; a integração do sistema
bancário mundial, entre outros aspectos.
Entre as desvantagens da Globalização, é preciso lembrar que, muitas delas, são creditadas
não tão somente a esse processo em si, mas também e principalmente ao sistema capitalista, ao
qual a Globalização está intrinsecamente ligada. Na verdade, para o mundo, ela é apenas a
mundialização do sistema capitalista e a difusão de valores dominantes para toda a sociedade global,
concepção que fundamenta boa parte das críticas promovidas.
A primeira grande desvantagem do processo de Globalização, na visão de seus críticos, é a
forma desigual com que ela se expande, beneficiando, quase sempre, as localidades
economicamente mais desenvolvidas e chegando “atrasada” ou de forma “incompleta” a outras
regiões, tornando-as dependentes economicamente.
Outra desvantagem, também referente à desigualdade, está no ritmo e no direcionamento dos
fluxos de informações. Algumas regiões, principalmente aquelas pertencentes a países
desenvolvidos, conseguem expandir mais facilmente seus valores e suas informações, algo que não
ocorre com regiões mais periferizadas. Assim, por exemplo, as culturas francesa, americana ou
inglesa são facilmente reconhecidas em todo o planeta, já outras culturas são marginalizadas ou até
relegadas ao ostracismo, porque seus locais de origem não conseguem transmiti-las pelos meios de
expansão da globalização.
No campo econômico, novamente a questão da desigualdade emerge como cerne das críticas
direcionadas à globalização. A expansão das empresas multinacionais – apesar de conseguir
diminuir os preços – é um duro golpe à livre concorrência, haja vista que poucas instituições passam
a controlar boa parte do mercado mundial. Além disso, o deslocamento das fábricas permite a
aquisição de matérias-primas mais baratas e o emprego de mão de obra mais em conta, reduzindo
os salários e contribuindo para a desregulamentação progressiva das leis trabalhistas.
A Globalização também apresenta desvantagens no campo financeiro, principalmente na
forma com que ela consegue disseminar, rapidamente, crises econômicas especulativas. A crise
imobiliária dos Estados Unidos de 2008, por exemplo, foi rapidamente sentida na Europa e, por
extensão, em várias outras partes do mundo, provocando um colapso total dos sistemas de
especulação em todo o planeta, ampliando taxas de desemprego e de dívidas públicas.
Por fim, cita-se também como desvantagem da Globalização a questão ambiental, pois o ritmo
consumista cada vez mais intensificado que se estabeleceu no mundo contribuiu para uma maior
exploração dos recursos naturais, além de uma progressiva aceleração do processo de poluição do
ar, das águas e dos meios produtivos, como o solo. O aquecimento global ou a devastação das
florestas são argumentações constantes quanto a esse fator.
Atualmente, existem muitos movimentos antiglobalização que centram suas críticas a essas
desvantagens apresentadas e também a outros aspectos, como o protecionismo comercial e o
imperialismo político-econômico dos países desenvolvidos. Entre esses movimentos e organizações,
cabe destaque aoOccupy Wall Street e ao Fórum Social Mundial.

Disponível em: http://www.brasilescola.com/geografia/pos-contras.htm

Texto 08: O mito da caverna –

O Mito da Caverna é uma das mais elucidativas imagens da


filosofia para descrever a condição humana. Para Platão, todos nós
estamos condenados a ver cópias irreais e tomá-las como verdadeiras.
Essa crítica, escrita há quase 2500 anos atrás, inspira várias
reflexões acerca da realidade e da possibilidade do conhecimento.
O Mito relata que homens acorrentados desde o nascimento, ao visualizarem sombras no
fundo de uma caverna, as tomam por toda a realidade de fato. Até o dia em que um deles vê o que
existe fora da caverna e compreende que tudo o que conhecia dentro da caverna não passava de
sombras de coisas verdadeiramente reais. A estas coisas reais ele chamou de ideias ou formas.
O Homem liberto volta como filosofo para dentro da caverna, e tenta elucidar seus antigos
companheiros.

Texto 09: Filosofia, Cultura e Arte -

Marilena Chauí

Natureza humana? É muito comum ouvirmos e dizermos frases do tipo: “chorar é próprio da
natureza humana” e “homem não chora”. Ou então: “é da natureza humana ter medo do
desconhecido” e “ela é corajosa, não tem medo de nada”. Também é comum a frase: “as mulheres
são naturalmente frágeis e sensíveis, porque nasceram para a maternidade”, bem como esta outra:
“fulana é uma desnaturada, pois não tem o menor amor aos filhos”.
Com frequência ouvimos dizer: “os homens são fortes e racionais, feitos para o comando e a
vida pública”, donde, como consequência, esta outra frase: “fulana nem parece mulher. Veja como
se veste! Veja o emprego que arranjou!”. Não é raro escutarmos que os negros são indolentes por
natureza, os pobres são naturalmente violentos, os judeus são naturalmente avarentos, os árabes
são naturalmente comerciantes espertos, os franceses são naturalmente interessados em sexo e os
ingleses são, por natureza, fleumáticos.
Frases como essas, e muitas outras, pressupõem, por um lado, que existe uma natureza
humana, a mesma em todos os tempos e lugares e, por outro lado, que existe uma diferença de
natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos, negros, índios, judeus, árabes, franceses ou
ingleses. Haveria, assim, uma natureza humana universal e uma natureza humana diferenciada por
espécies, à maneira da diferença entre várias espécies de plantas ou de animais.
Em outras palavras, a Natureza teria feito o gênero humano universal e as espécies humanas
particulares, de modo que certos sentimentos, comportamentos, idéias e valores são os mesmos
para todo o gênero humano (são naturais para todos os humanos), enquanto outros seriam os
mesmos apenas para cada espécie (ou raça, ou tipo, ou grupo), isto é, para uma espécie
determinada.
Dizer que alguma coisa é natural ou por natureza significa dizer que essa coisa existe
necessária e universalmente como efeito de uma causa necessária e universal. Essa causa é a
Natureza. Significa dizer, portanto, que tal coisa não depende da ação e intenção dos seres humanos.
Assim como é da natureza dos corpos serem governados pela lei natural da gravitação universal,
como é da natureza da água ser composta por H2O, ou como é da natureza da abelha produzir mel
e da roseira produzir rosas, também seria por natureza que os homens sentem, pensam e agem. A
Natureza teria feito a natureza humana como gênero universal e a teria diversificado por espécies
naturais (brancos, negros, índios, pobres, ricos, judeus, árabes, homens, mulheres, alemães,
japoneses, chineses, etc.).
Que aconteceria com as frases que mencionamos acima se mostrássemos que algumas delas
são contraditórias e que outras não correspondem aos fatos da realidade?
Assim, por exemplo, dizer que “é natural chorar na tristeza” entra em contradição com a ideia
de que “homem não chora”, pois, se isso fosse verdade, o homem teria que ser considerado algo que
escapa das leis da Natureza, já que chorar é considerado natural. O mesmo acontece com a frase
sobre o medo e a coragem: nelas é dito que o medo é natural, mas que uma certa pessoa é admirável
porque não tem medo. Aqui, a contradição é ainda maior do que a anterior, uma vez que parecemos
ter admiração por quem, misteriosamente, escapa da lei da Natureza, isto é, do medo.
Em certas sociedades, o sistema de alianças, que fundamenta as relações de parentesco
sobre as quais a comunidade está organizada, exige que a criança seja levada, ao nascer, à irmã do
pai, que deverá responsabilizar-se pela vida e educação da criança. Em outras, o sistema de
parentesco exige que a criança seja entregue à irmã da mãe. Nos dois casos, a relação da criança é
estabelecida com a tia por aliança e não com a mãe biológica. Se assim é, como fica a afirmação de
que as mulheres amam naturalmente os seus filhos e que é desnaturada a mulher que não
demonstrar esse amor?
Em certas sociedades, considera-se que a mulher é impura para lidar com a terra e com os
alimentos. Por esse motivo, o cultivo da terra, a alimentação e a casa ficam sob os cuidados dos
homens, cabendo às mulheres a guerra e o comando da comunidade. Se assim é, como fica a frase
que afirma que o homem foi feito pela Natureza para o que exige força e coragem, para o comando
e a guerra, enquanto a mulher foi feita pela Natureza para a maternidade, a casa, o trabalho
doméstico, as atividades de um ser frágil e sensível?
Os historiadores brasileiros mostram que, por razões econômicas, a elite dominante do século
XIX considerou mais lucrativo realizar a abolição da escravatura e substituir os escravos africanos
pelos imigrantes europeus. Essa decisão fez com que o mercado de trabalho fosse ocupado pelos
trabalhadores brancos imigrantes e que a maioria dos escravos libertados ficasse no desemprego,
sem habitação, sem alimentação e sem qualquer direito social, econômico e político.
Em outras palavras, foram impedidos de trabalhar e foram mantidos sem direitos, tais como
viviam quando estavam no cativeiro. Além disso, sabe-se que quando os colonizadores instituíram a
escravidão e trouxeram os africanos para as terras da América, fizeram tal escolha por considerarem
que os negros possuíam grande força física, grande capacidade de trabalho e muita inteligência para
realizar tarefas com objetos técnicos como o engenho de açúcar. Se assim é, se a escravidão foi
instituída por causa da grande capacidade e inteligência dos africanos para o trabalho da agricultura,
se a abolição foi realizada por ser mais lucrativo o uso da mão-de-obra imigrante para um certo tipo
de agricultura (o café) e para a indústria, como fica a afirmação de que a Natureza fez os africanos
indolentes, preguiçosos e malandros?
Poderíamos examinar cada uma das frases que dizemos ou ouvimos em nosso cotidiano e
que naturalizam os seres humanos, naturalizam comportamentos, ideias, valores, formas de viver e
de agir. Veríamos como, em cada caso, os fatos desmentem tal naturalização. Veríamos como os
seres humanos variam em consequência das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em
que vivem. Veríamos que somos seres cuja ação determina o modo de ser, agir e pensar e que a
ideia de um gênero humano natural e de espécies humanas naturais não possui fundamento na
realidade. Veríamos – graças às ciências humanas e à Filosofia – que a idéia de natureza humana
como algo universal, intemporal e existente em si e por si mesma não se sustenta cientificamente,
filosoficamente e empiricamente. Por quê? Porque os seres humanos são culturais ou históricos.
Fonte: CHAUÍ, m. Convite à Filosofia. São Paulo, Ática, 2000.
Texto 10: O que são políticas públicas –

Políticas públicas são conjuntos de programas, ações e atividades desenvolvidas pelo Estado
diretamente ou indiretamente, com a participação de entes públicos ou privados, que visam assegurar
determinado direito de cidadania, de forma difusa ou para determinado seguimento social, cultural,
étnico ou econômico.
As políticas públicas correspondem a direitos assegurados constitucionalmente ou que se
afirmam graças ao reconhecimento por parte da sociedade e/ou pelos poderes públicos enquanto
novos direitos das pessoas, comunidades, coisas ou outros bens materiais ou imateriais. Exemplos
de Políticas Públicas A educação e a saúde no Brasil são direitos universais de todos os brasileiros.
Assim, para assegurá-los e promovê-los estão instituídas pela própria Constituição Federal
as políticas públicas de educação e saúde. O meio ambiente é também reconhecido como um direito
de todos e a ele corresponde a Política Nacional do Meio Ambiente, instituída pela Lei Federal n.º
6.938. A água é concebida na Carta da República como bem de uso comum. Para proteger este bem
e regulamentar seu uso múltiplo foi instituída a Política Nacional de Recursos Hídrico mediante a Lei
Federal nº 9.433.
Como são formuladas as Políticas Públicas? As políticas públicas podem ser formuladas
principalmente por iniciativa dos poderes executivo, ou legislativo, separada ou conjuntamente, a
partir de demandas e propostas da sociedade, em seus diversos seguimentos. A participação da
sociedade na formulação, acompanhamento e avaliação das políticas públicas em alguns casos é
assegurada na própria lei que as institui.
Assim, no caso da Educação e da Saúde, a sociedade participa ativamente mediante os
Conselhos em nível municipal, estadual e nacional. Audiências públicas, encontros e conferências
setoriais são também instrumentos que vem se afirmando nos últimos anos como forma de envolver
os diversos seguimentos da sociedade em processo de participação e controle social.
A Lei Complementa n.º 131 (Lei da Transparência), de 27 de maio de 2009, quanto à
participação da sociedade, assim determina: “I – incentivo à participação popular e realização de
audiências públicas, durante os processos de elaboração e discussão dos planos, lei de diretrizes
orçamentárias e orçamentos;”“II – liberação ao pleno conhecimento e acompanhamento da
sociedade, em tempo real, de informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e
financeira, em meios eletrônicos de acesso público.”
Assim, de acordo com esta Lei, todos os poderes públicos em todas as esferas e níveis da
administração pública, estão obrigados a assegurar a participação popular. Esta, portanto, não é mais
uma preferência política do gestor, mas uma obrigação do Estado e um direito da população.
Quais os instrumentos que compõem as Políticas Públicas? As políticas públicas
normalmente estão constituídas por instrumentos de planejamento, execução, monitoramente e
avaliação, encadeados de forma integrada e lógica, da seguinte forma: 1. Planos 2. Programas; 3.
Ações 4. Atividades.
Os planos estabelecem diretrizes, prioridades e objetivos gerais a serem alcançados em
períodos relativamente longos. Por exemplo, os planos decenais de educação tem o sentido de
estabelecer objetivos e metas estratégicas a serem alcançados pelos governos e pela sociedade ao
longo de dez anos. Os programas estabelecem, por sua vez, objetivos gerais e específicos focados
em determinado tema, público, conjunto institucional ou área geográfica. O Programa Nacional de
Capacitação de Gestores Ambientais (PNC) é um exemplo temático e de público. Ações visam o
alcance de determinado objetivo estabelecido pelo Programa, e a atividade, por sua vez, visa dar
concretude à ação.

Disponível em: http://www.meioambiente.pr.gov.br/arquivos/File/coea/pncpr/O_que_sao_PoliticasPublicas.pdf

Texto 11: As Redes Sociais devem ter responsabilidade sobre os atos de seus usuários? –

Enviado por Eduardo Moraes em 02/07/2009 às 08:55 AM

Uma questão bastante polêmica envolve as redes sociais. Não é novidade para ninguém que
diversos crimes são cometidos através da internet. A utilização dos sites de relacionamento para
assediar menores, para obter informações a respeito da vida pessoal de usuários entre diversos
outros, é bastante comum em várias partes do mundo.
Isso dá espaço para uma discussão baseada na responsabilidade que o meio tem nas ações
praticadas por seus usuários. Há quem seja muito radical e diga que as redes sociais devem ser
extintas, pois geram muitas possibilidades aos mal intencionados. Outros, até tentam culpar
criminalmente os sites de relacionamento pelos crimes cometidos por usuários!
Nos EUA, há um caso muito recente de brigas judiciais entre pais de usuários e a rede My
Space. A acusação era de que o MySpace não implementou os softwares de verificação de idades
disponíveis nem ajustou o padrão de segurança nos perfis das meninas para "particular". Elas teriam
sido "assediadas" por um outro usuário. Mas o tribunal de Los Angeles considerou que uma seção
da legislação que trata do assunto, chamada Communications Decency Act, deixa os portais de
internet imunes contra as alegações das garotas de negligência e de responsabilidade com o produto.
De fato, as redes sociais dão abertura a esse tipo de comportamento criminoso. É um local
onde qualquer mentira pode ser incorporada e onde há uma vasta lista de informações a respeito de
usuários.
E então, As Redes Sociais devem ter responsabilidade sobre os atos de seus usuários?

Disponível em: http://turmae2009.bligoo.com/content/view/551824/As-Redes-Sociais-devem-ter-


responsabilidade-sobre-os-atos-de-seus-usuarios.html
Para saber mais: http://jus.com.br/artigos/34282/o-exercicio-da-liberdade-de-expressao-nas-redes-sociais
http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/aires_braga.pdf
Texto 12: Redes sociais, transparência e a responsabilidade social de cada um de nós -
(Conteúdo gentilmente cedido pelo SESI – Serviço Social da Indústria)
César Viana*, especial para o SESI

Há um fenômeno que chama a atenção pela quantidade de gente e de marcas envolvidas. As


redes sociais on-line surgiram no início do século e transformaram-se em espaços públicos de
convivência. Já são consideradas assim por alguns autores: como as praças ou as ruas, parte da
esfera pública. Tudo isso tem a ver com as características dos novos meios, que são capazes de
assimilar e redistribuir qualquer coisa em formato digital. Começam a se esfumar muitos tipos de
fronteiras e a transbordar novos métodos e conexões.
As pessoas se identificam com alguns serviços da web social e passam a expandir suas
identidades em ambientes on-line. A expressão pessoal é característica básica dos humanos.
Fossem nos desenhos das cavernas, nos milênios de cultura oral ou nos diários das adolescentes,
que ajudam a explicar o cotidiano do século XIX. Ainda há muito que se registrar.
Ultimamente, uma imensa fonte de etnografia, antropologia, sociologia ou de história se armazena
em relatos voluntários feitos em diversos recantos da internet. Há múltiplos tipos de expressões e
de análise de manifestações culturais.
A quem pertence o conteúdo publicado nas redes sociais e como preservar esse patrimônio
imaterial espontâneo? Quanto geram de renda esses novos fluxos e recursos de comunicação?
Como organizar tanta informação e produzir conhecimento? E, principalmente, como participar
dessas novas indústrias de mídia e de suas interconexões – a chamada transmídia?
Está cada vez mais simples manipular imagem e som. O audiovisual se capta ou se reproduz
a partir de aparelhos portáteis ou inclusive táteis. Transmitir algum evento ao vivo para qualquer parte
do mundo é “praticamente grátis”. Algo impensável há poucos anos. Basta um celular ou qualquer
aparelho que acesse internet e já somos potenciais agentes de mídia. Mas como isso se reverte em
benefícios para as pessoas, empresas ou outras instituições?
Jornalismo cidadão
Apesar de que apenas 25% da população mundial tem acesso à internet, há maior facilidade
de mobilização e de encontro de afinidades e de interesses. As rebeliões e mudanças no mundo
árabe ou os relatos dos moradores durante a retomada do Morro do Alemão ilustram essa realidade.
A partir da união de saberes, o jornalismo reformula-se devido à capacidade de interação e
cooperação com o público. Aliás, a comunicação de massa nunca foi tão apropriada pelas massas.
Como o jornalismo de dados aplica-se a este mundo midiático? Quais as bases para moldar
os parâmetros e as políticas editoriais que representam as comunidades e suas diversidades?
Com igual intensidade e vigor colaborativo, os consumidores também possuem variadas chances de
contato com a rede de clientes de uma determinada marca, empresa ou instituição. Antes de decidir
uma compra, sempre há comentários abertos para qualquer um se certificar se a compra vale a pena
ou não. Daí, a corrida por assimilar novos tipos de relacionamento com o cliente.
Nos últimos anos, pesquisei as redes sociais como reforço para a comunicação comunitária,
cidadã, alternativa, popular, social… Há vários nomes. O resultado é uma tese doutoraldefendida
na Universidade Autônoma de Barcelona. Com a ajuda de Anabel Rami, profissional de pesquisa de
mercado pela UOC, elaboramos um questionário para saber detalhes de usos e tendências. Ao
anunciar em redes sociais o link para a pesquisa, houve certa mobilização nas redes sociais.
Quem respondia, também convidava os amigos e assim chegaram a 779 pessoas de 31
países em duas semanas. Desse total é possível observar – com uma margem de erro de 6% a 8%
– as opiniões do Brasil, México e Espanha, os países que mais participaram. Um indício claro de
cultura de participação e de colaboração.
Pesquisa de opinião
Entre os entrevistados: 97% acessam a internet várias vezes ao dia. Desses, 85% também
verificam várias vezes ao dia as redes sociais que participam. Este número é mais alto no México:
92%, na Espanha vai a 89%, e no Brasil é de 81%.
Quando perguntados se antes de aderir leem as políticas de privacidade, 46% dos brasileiros afirmam
que não. Na Espanha, este número é de 24%, e no México 37%. A privacidade – termo que existe
há poucas décadas em português – não era tema do estudo.
Todo mundo tem algo a dizer em público e este é o principal foco do estudo. Por exemplo, os
alunos de uma escola resolvem publicar um jornalzinho onde mostram as medalhas que os alunos
ganharam no futebol. Num programa de rádio por podcast, talvez a mãe de um desses alunos passe
a receita de um dos salgadinhos que vende na cantina. Isso pode ser veiculado no entorno da escola
ou para o mundo inteiro. Depende da decisão dos alunos, pais e pedagogos.
Cartões de visita
É comum que as pessoas se apresentem espontaneamente por meio da web social. Os
mexicanos são os que mais adicionam desconhecidos às suas redes: 69%. No Brasil, este índice é
de 66% e, na Espanha, ainda cai em dez pontos: 56%. Mesmo assim continuam sendo altas as
margens de aceitação de convites de estranhos.
Como exemplo, imaginemos uma feira de negócios onde as pessoas trocam cartões de visita.
As redes sociais funcionam mais ou menos assim. Facilitam diversos tipos de conexões e
relacionamentos. Mas como as pessoas consideram os seus contatos em redes sociais?
Um total de 59% diz que são amigos e familiares. Outros 58% acham que os “seguidores e seguidos”
são fontes de informação para saber do que acontece. Um dado interessante aparece nesta pergunta,
que contabiliza as três opções mostradas: 46% assimilam os contatos como sendo “meu público e
se interessam pelo que comento ou público”.
Apesar da febre dos Smartphones, no Brasil ainda se usa pouco o celular para acessar a
internet. Apenas 34% afirmam usar este tipo de serviço nos celulares. Os mexicanos são os que mais
usam o telefone para se conectar à rede: 64%, enquanto que na Espanha são 56% com acesso via
telefone móvel. Do total de entrevistados, 8% já usam funções de realidade aumentada em seus
aparelhos. Os dados da ONU indicam que os celulares são parte do caminho mais rápido e mais
aceito pelas pessoas.
Os resultados completos e as análises teóricas da tese são de livre acesso para consulta em
e-book (veja como no fim deste artigo). Demonstram os detalhes da manipulação voluntária de meios
de comunicação e da formação de audiências segmentadas. O sentimento de nação, por exemplo,
reforçou-se quando os primeiros jornais foram lançados. O público-leitor identificava-se e assim se
configuravam conjuntos de opiniões.
O que há de diferente agora é a capacidade de convivência em tempo real entre as pessoas.
São fãs, bloggers, gamers, “prosumidores”, gente comum que se interliga naturalmente umas às
outras. A massa mostra sua cara, enfatiza intenções e compartilha habilidades e saberes.
Os dados e teorias analisadas também indicam o potencial para que se estabeleçam agências
cidadãs de comunicação entre os usuários desses sistemas informáticos. Desde que se considerem
as identidades, as características socioculturais e sejam niveladas as oportunidades de acesso e de
uso dos novos meios, também haverá espaço para a inovação nas indústrias de comunicação.
Ensino de mídia
O ensino de mídia favorece esse intuito. A capacitação para o uso de mídia e para os novos
meios precisa estar ao alcance de todos. A Áustria é um exemplo nesse sentido. Desde 1973, os
alunos da rede pública de ensino aprendem sobre comunicação social. Hoje, 100% das escolas
públicas recebem material didático para ensino de mídia. É o único país com este índice. As crianças
aprendem sobre edição de imagem, texto e vídeo e participam de programas de rádio em rede
nacional.
No Brasil, há exemplos de recuperação de tradições e saberes com vídeos feitos por cineastas
indígenas. Contam mitos e histórias pessoais, além de fazer mobilização e jornalismo entre as
comunidades e o mundo. Os representantes das pequenas e médias empresas juntam forças para
participar do pujante comércio eletrônico brasileiro. Também há fundos especializados no
desenvolvimento de projetos tecnológicos inovadores e apoio à conexão de saberes.
A Espanha, apesar de não haver política pública específica de ensino de mídia regularizada,
possui um exemplo interessante. A Fundação Bip Bip começou reunindo voluntários para ensinar
informática a pessoas em risco de exclusão social. Hoje, a fundação desenvolve projetos que
pretendem mudar o jeito como as empresas investem em publicidade e em responsabilidade social.
Existem outros modelos de união popular organizada como agência de informação baseadas
em plataformas on-line, como Ushahidi, Topobiografies, IndyMedia ou OhMyNews, entre tantos
outros tipos e aplicações – principalmente com o uso de mapas. Somos os responsáveis por criar os
moldes da internet; também está em nossas mãos a administração das cidades inteligentes.
Módulos
A partir das bases teóricas e das análises dos dados da pesquisa de opinião, a sugestão é
criar modelos de agências cidadãs de comunicação que se complementem e se reconheçam em
módulos. Sempre há que se considerar os parâmetros de cada comunidade. Simultaneamente,
formam-se conselhos comunitários especializados para definir as características editoriais, sejam
elas de texto, áudio, audiovisual e/ou animação. Os vizinhos de cada bairro ou comunidade escolhem
as maneiras de se ganhar visibilidade ou de se fazerem representados.
A elaboração de uma agência cidadã de comunicação demandaria espaços e serviços
informáticos específicos para, por exemplo, emular o planeta e fazer funcionar todas as funções
necessárias. É preciso definir, testar e usar serviços de transmissão e reprodução instantâneas. As
características editoriais e informáticas serão decididas melhor em colaboração coletiva. As
experiências bem-sucedidas dos projetos coletivos do BarCamp em vários países servem de norte.
Diversidade cultural
Quando alguém “viajar” pela Terra a partir de mapas livres, também vai conhecer as pessoas
que se apresentam como membros desses esforços cidadãos de comunicação. Imagine navegar
pelo Brasil e ir aos bairros de qualquer cidade e conhecer os moradores para saber das histórias
pessoais, dos costumes, da culinária e de tantas outras coisas que se aprendem uns dos outros!
Temos a liberdade de conversar uns com os outros como um princípio, ainda que seja só para
perguntar onde fica uma rua ou que horas são.
Talvez algum dia as escolas possam marcar aulas conjuntas entre crianças de Minas Gerais
e as do Xingu por videoconferência. Existem os meios e os recursos, falta determinar as formas
cidadãs que melhor representam as comunidades e a diversidade cultural. Há memória
computacional suficiente para registrar e divulgar milhões de horas de vídeo, áudio, texto ou qualquer
outra forma de expressão. Uma época de ouro para a visibilidade, a promoção, a organização de
manifestações e narrativas populares.
A web semântica e a internet das coisas começam a engatinhar e dentro de pouco tempo
usaremos computadores como usamos as mãos, as roupas ou nossos sentidos. Há soluções fáceis
e eficientes para ajudar as pessoas a expressar seus pontos de vista ou a ter acesso aos recursos
para se obter maior participação democrática e direito à informação. Depende de cada um de nós.

Para saber mais: A informação completa com as referências teóricas e a pesquisa de opinião com as
características de uso e tendências das redes sociais no Brasil, México e Espanha estão disponíveis
em e-book em: http://issuu.com/cesarviana/docs/uab_socialmedia.

* César Viana é jornalista formado pela UFJF, mestre e doutor em comunicação audiovisual e publicidade pela
Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha.
Disponível em: http://www.mercadoetico.com.br/arquivo/redes-sociais-transparencia-e-a-responsabilidade-
social-de-cada-um-de-nos/

Texto 13: Justiça Social e Justiça individual -

Um povo só se torna realmente justo quando conhece, de forma clara e objetiva, o real
significado da palavra justiça.

Infelizmente, o princípio de justiça ainda não é muito bem compreendido pelo povo brasileiro.
O problema é que, na Língua Portuguesa, a palavra justiça também é utilizada para referir-se a
órgãos do Setor Judiciário, (Justiça do Trabalho, Justiça Federal, Justiça Internacional, etc...). Essa
duplicidade na linguagem ajuda a confundir os cidadãos menos esclarecidos. Já é hora de os
brasileiros saberem que a palavra justiça refere-se, antes de tudo, a um princípio de equidade, de
igualdade proporcional; um princípio de sabedoria que deveria ser utilizado pelo Governo em todas
as áreas e principalmente pelo Poder Judiciário.
Os brasileiros ainda não entenderam a importância socioeconômica de se levar a sério o
princípio de justiça. A maioria dos cidadãos conhece apenas duas situações: ser beneficiado ou ser
prejudicado. Infelizmente, a Educação brasileira não nos ensinou a discernir estes extremos e a
adotar situações intermediárias. É no ponto médio, entre o benefício e o malefício, que encontramos
o que é justo para todos.
Em linhas gerais, ser justo é não oprimir nem privilegiar, não menosprezar nem endeusar, não
subvalorizar e tampouco supervalorizar. Ser justo é saber dividir corretamente sem subtrair e sem
adicionar (sem roubar ou subornar). Ser justo é não se apropriar de pertences alheios e dar o correto
valor a cada coisa e a cada pessoa. Ser justo é estabelecer regras claras sem dar vantagem para
uns e desvantagem para outros. Ser justo é encontrar o equilíbrio que satisfaz ou sacrifica, por igual,
sem deixar resíduos de insatisfação que possam resultar em desforras posteriores.
A ausência de uma boa educação, nesse sentido, tem propiciado comportamentos
extremistas (ora omisso, ora violento) por parte da maioria dos cidadãos. Observe que até pouco
tempo a maioria dos brasileiros preferia se calar mesmo diante das inúmeras explorações do nosso
dia-a-dia. O maior problema, consequente desse tipo de comportamento surge com o decorrer do
tempo. A falta de diálogo, para se estabelecer o que é justo e correto, faz o cidadão prejudicado se
cansar de ser omisso e partir pra violência (ir direto ao outro extremo). Essas reações têm acontecido
até mesmo entre parentes e vizinhos. Por isso, precisamos nos reeducar. Os cristãos, em especial,
precisam ensinar ao povo o que é justo e correto para que os cidadãos não se tornem omissos e
saibam estabelecer o diálogo ao perceber toda e qualquer injustiça. Se cultivarmos um padrão de
comportamento realmente justo, ninguém acumulará motivos para se tornar infeliz, desleal,
subornável ou violento.
Em todos os casos de injustiças (profissionais, comerciais, de relacionamento etc.) a pessoa
prejudicada deve primeiramente ir até a pessoa injusta lhe pedir que corrija a injustiça. Se não surtir
efeito deve levar pelo menos uma outra pessoa para que também dê testemunho (reclame) daquela
injustiça. Se, apesar disso, a pessoa injusta não se corrigir, aí então deve levar o caso ao
conhecimento das autoridades competentes para que elas determinem a solução. É muito importante
entendermos que primeiramente deve haver duas tentativas de diálogo, só depois destas tentativas
é que o caso deve ser entregue às autoridades.1
Por outro lado, as autoridades precisam agir de maneira totalmente imparcial (sem se inclinar
para nenhum dos lados), em respeito aos ensinamentos bíblicos que ordenam que: nem mesmo para
favorecer ao pobre se distorça o que é justo,2 e que sempre se use o mesmo padrão de peso e de
medida para qualquer pessoa, seja pobre, rico, analfabeto, doutor, mendigo, autoridade, etc... A
sociedade precisa entender que é a prática correta do princípio de justiça que produz a paz social
viabilizando a prosperidade de forma ordeira e bem distribuída.
A esperteza, a exploração e a má fé, são técnicas ilusórias que têm vida curta e acidentada.
As instituições governamentais, empresas privadas e negócios pessoais, estabelecidos com
injustiças, com espertezas, com explorações e má fé, são comparáveis a construções sobre areia
porque desmoronam nos dias de tempestades (crises, pragas, acidentes, novas concorrências, etc.).
Mas, os negócios estabelecidos de forma justa, com justiça nos preços, nos salários, nos serviços e
nos relacionamentos em geral, são comparáveis a construções sobre rocha porque permanecem de
pé mesmo depois de grandes tempestades.
Portanto, precisamos abandonar a mania subdesenvolvida de gostar de levar vantagem em
tudo, e cultivar a mania desenvolvida de gostar de fazer e receber justiça em tudo. Já é hora de
entendermos que a vantagem que se leva hoje se transforma no prejuízo de amanhã, enquanto a
justiça que se pratica hoje se transformará no lucro de amanhã.
Comportar-se de forma realmente justa, tanto na hora de dar ou de vender, quanto na hora
de cobrar ou de receber, é condição primordial para um povo se tornar pacífico e bem-sucedido.

Notas: 1 Ensinamentos de Jesus Cristo em S. Mateus, cap. 18, versículo 15 a 17.


2Bíblia Sagrada, Levítico, cap. 19, versículo 15. (Frase sintetizada).
Valvim M Dutra
Extraído do capítulo 3 do livro Acorda Brasil.

Texto 14: Reflexões sobre o Urbano e o Rural –

Os estudos na área da geografia e da sociologia nos tempos atuais permitem uma pergunta:
onde está o limite entre o urbano e o rural? Talvez espera-se uma única e simplista resposta, mas
percebe-se que a interrogação é muito mais complexa.
Desde a Antiguidade, quando as condições políticas e sociais influenciaram a divisão sócio-espacial
do trabalho, originando o fenômeno rural e o urbano por meio do exercício das diferentes formas de
produção, as quais favoreceram o desenvolvimento do capitalismo, definir os limites, a partir de então,
tornou-se um problema.
Existem algumas concepções em relação à cidade e o campo: a cidade é compreendida como
a sede do trabalho intelectual, de organização das atividades políticas e administrativas, da
elaboração do conhecimento científico, da idéia de civilização, urbanização, de aglomeração
demográfica, onde uma parcela significativa da população está envolvida em atividades secundárias
e terciárias e, da diversidade de ocupação industrial; a cidade representa uma condição social em
que, teoricamente, é possível superar a precariedade, pois considera a conquista de melhores
condições materiais decorrentes de um alto nível de produção e produtividade, técnica e cultural.
Quanto ao campo, o mesmo é visto como sinônimo de atrasado, ultrapassado, imóvel no
tempo, rude, como uma vida de privação, onde a sobrevivência só é possível com muito trabalho, o
qual oferece o mínimo necessário para viver, sendo definido como uma área de dispersão
demográfica, dando lugar às atividades primárias, principalmente agropecuárias.
O conceito de cidade e campo confunde-se com o urbano e o rural. A cidade, vista como área
da centralidade administrativa e territorial, onde se fabrica, origina o conceito de urbano, estende-se
para além dela, não restringindo-se a um território fixo, mas passa s ser visto como um modo de vida,
um estilo de vida, onde se propagam, costumes e hábitos urbanos, os quais influenciam, por meio
dos instrumentos de comunicação e transporte, o meio rural. Dessa forma, o modo de vida urbano
alcança os limites geográficos dos interesses e ações existentes na cidade, dos investimentos
efetuados no campo.
O rural, atualmente desenvolvendo atividades múltiplas além das primárias, passou a ser visto
como uma questão territorial, onde o uso do solo e as atividades da população residente no campo
se vinculam à várias atividades terciárias, sendo compreendido como não-urbano, ou seja, o que não
pertence à cidade.
A discussão em torno desta problemática, evidencia o processo de mecanização e
qualificação do campo, o qual serve e abastece a cidade de seus produtos. Os costumes rurais não
são os mesmos do passado. As mudanças na forma de produção, de vestir, do falar, no administrar
o campo, seguem os ditames da cidade, pois acredita-se que de lá é que vem o conhecimento, como
mencionado anteriormente. O campo está sofrendo um processo de urbanização. Sendo assim, rural
e urbano se confundem, se completam e interdependem-se, pois um não existiria sem o outro.
Ainda na cidade, famílias ou pessoas procuram cultivar hábitos rurais, tidos como mais
saudáveis, de produzir alguns produtos para consumo próprio em jardins, terraços e sacadas. Isso
reflete o desejo de estar próximo da natureza, buscando uma melhora nas condições de vida e de
saúde, ingerindo alimentos sem agrotóxicos.
Mas, com o avanço da urbanização, percebe-se que ela é uma moeda de dois lados: de um
lado vê-se o aprimoramento das técnicas, das condições de vida, dos atrativos culturais; de outro,
vê-se a precariedade das favelas, a chaga do desemprego, da marginalidade. Mas, sabe-se que tudo
tem um preço a ser pago, pois vive-se sobre a certeza de que as pessoas não voltariam para o campo
sem eletricidade e outros confortos.

Referências
ENDLICH, Ângela Maria. Perspectivas sobre o urbano e o rural. In: ENDLICH, Ângela Maria, SPOSITO, Maria
E. B. e WHITACKER, Arthur M. Cidade e Campo: relações entre urbano e rural. São Paulo: Expressão Popular,
2006. pp 11-31.

Texto 15: Avanços tecnológicos e seus impactos na Educação –

A utilização do computador na sociedade contemporânea é imprescindível, pois, fazemos uso


dessa ferramenta praticamente em todas as ações do cotidiano como, por exemplo, as instituições
bancárias usam para consultar extratos, saldos, depósitos, efetuar pagamentos, etc. As relações
pessoais também sofreram grandes impactos com o advento do computador e de tantas outras
tecnologias [1], como a televisão, rádio, tablets, smartfone, iphone, ipod, ipad. Assim, palavras como
Internet, Twitter, Orkut, msn, facebook etc., são termos que incorporamos ao nosso vocabulário do
dia a dia.
Diante tudo isso que foi exposto, é oportuno fazermos algumas reflexões, vejamos: De que
forma as escolas podem fazer uso dessas tecnologias com intuito de qualificar o processo ensino
aprendizagem? Os professores estão dispostos a quebrar paradigmas educacionais? Como está a
formação dos professores para o uso pedagógico das Novas Tecnologias da Informação e
Comunicação – NTICs?
É oportuno destacar que o início da utilização do computador era basicamente para fins
militares, e uso do computador para fins educacionais somente se deu a partir de 1950 com Burrhus
Frederic Skinner. Skinner foi um eminente psicólogo nascido nos Estados Unidos em 1904. Lecionou
nas Universidades de Harvard, Indiana e Minnesota e a partir do estudo do comportamento de
pombos e ratos brancos, desenvolveu uma ferramenta que iria ajudá-lo em seus experimentos. Essa
ferramenta recebeu o nome de máquina de ensinar [2] e tinha por propósito ensinar usando o conceito
de instrução programada.
O conceito de instrução programada consistia em dividir o material a ser ensinado em
pequenos segmentos logicamente encadeados e denominados módulos. Cada módulo terminava
com uma questão que o aluno deveria responder preenchendo espaços em branco ou escolhendo a
resposta certa, entre diversas alternativas apresentadas, para poder passar para o próximo módulo.
Caso contrário, ou seja, o aluno informasse a resposta errada, a resposta certa poderia ser fornecida
pelo programa ou, o aluno seria convidado a rever módulos anteriores (Valente, 1998).
A grande problemática da utilização dessa sistemática de ensino foi à produção do material
que orientava o uso da ferramenta bem como de suas atividades pedagógicas, que não foi possível
produzirem em grande quantidade. No entanto, com o advento do computador, observou-se que os
módulos do material instrucional poderiam ser apresentados com grande flexibilidade. Assim, durante
o início dos anos 60 diversos programas de instrução programada foram desenvolvidos para serem
utilizados no computador.
A evolução recente das tecnologias digitais modifica tanto as relações na sociedade como as
noções de espaço e tempo. Se antes levávamos dias ou até semanas para sermos informados de
eventos distantes, hoje podemos ter a informação de forma quase instantânea. Essa realidade
possibilita a ampliação do conhecimento e, ao mesmo tempo, cria outras preocupações como a
possibilidade da diminuição da privacidade e o excesso de informação. A escola deve levar
professores e alunos a refletir de forma crítica sobre as implicações do avanço da tecnologia digital
sobre a vida das pessoas no mundo contemporâneo.
Nessa perspectiva Kenski (2003:72/93) afirma que: “a opção pelo ensino com o computador
(...) exige alterações significativas em toda a lógica que orienta o ensino e a ação docente em
qualquer nível de escolaridade (...) o ponto fundamental da nova lógica de ensinar (...) é a redefinição
do papel do professor”. Dessa forma ao ter acesso à tecnologia, os professores podem pensar em
como elas aprimoram práticas cotidianas, tais como no uso de vídeos e apresentações para expor
conteúdos. A tecnologia pode ainda ser usada para ampliar as possibilidades educativas, ao permitir
que os alunos explorem fenômenos de forma simulada, pesquisem conteúdo na internet, façam suas
próprias produções etc.

Referências:
KENSKI, Vani Moreira. Tecnologias e ensino presencial e a distância. Campinas, São Paulo: Papirus, 2003.
VALENTE, J.A. Diferentes usos do computador na Educação. In: VALENTE JA. (Org.). Computadores e
conhecimento: repensando a educação. 2ª ed. campinas: Gráfica Central UNICAMP, v. , p. 1-27, 1998

Texto 16: Cidadania –

No decorrer da história da humanidade surgiram diversos entendimentos de cidadania em


diferentes momentos – Grécia e Roma da Idade Antiga e Europa da Idade Média. Contudo, o conceito
de cidadania como conhecemos hoje, insere-se no contexto do surgimento da Modernidade e da
estruturação do Estado-Nação.
O termo cidadania tem origem etimológica no latim civitas, que significa "cidade". Estabelece
um estatuto de pertencimento de um indivíduo a uma comunidade politicamente articulada – um país
– e que lhe atribui um conjunto de direitos e obrigações, sob vigência de uma constituição. Ao
contrário dos direitos humanos – que tendem à universalidade dos direitos do ser humano na sua
dignidade –, a cidadania moderna, embora influenciada por aquelas concepções mais antigas, possui
um caráter próprio e possui duas categorias: formal e substantiva.
A cidadania formal é, conforme o direito internacional, indicativo de nacionalidade, de
pertencimento a um Estado-Nação, por exemplo, uma pessoa portadora da cidadania brasileira. Em
segundo lugar, na ciência política e sociologia o termo adquire sentido mais amplo, a cidadania
substantiva é definida como a posse de direitos civis, políticos e sociais. Essa última forma de
cidadania é a que nos interessa.
A compreensão e ampliação da cidadania substantiva ocorrem a partir do estudo clássico de
T.H. Marshall – Cidadania e classe social, de 1950 – que descreve a extensão dos direitos civis,
políticos e sociais para toda a população de uma nação. Esses direitos tomaram corpo com o fim da
2ª Guerra Mundial, após 1945, com aumento substancial dos direitos sociais – com a criação do
Estado de Bem-Estar Social (Welfare State) – estabelecendo princípios mais coletivistas e
igualitários. Os movimentos sociais e a efetiva participação da população em geral foram
fundamentais para que houvesse uma ampliação significativa dos direitos políticos, sociais e civis
alçando um nível geral suficiente de bem-estar econômico, lazer, educação e político.
A cidadania esteve e está em permanente construção; é um referencial de conquista da
humanidade, através daqueles que sempre buscam mais direitos, maior liberdade, melhores
garantias individuais e coletivas, e não se conformando frente às dominações, seja do próprio Estado
ou de outras instituições.
No Brasil, ainda há muito que fazer em relação à questão da cidadania, apesar das
extraordinárias conquistas dos direitos após o fim do regime militar (1964-1985). Mesmo assim, a
cidadania está muito distante de muitos brasileiros, pois a conquista dos direitos políticos, sociais e
civis não consegue ocultar o drama de milhões de pessoas em situação de miséria, altos índices de
desemprego, da taxa significativa de analfabetos e semianalfabetos, sem falar do drama nacional
das vítimas da violência particular e oficial.
Conforme sustenta o historiador José Murilo de Carvalho, no Brasil a trajetória dos direitos
seguiu lógica inversa daquela descrita por T.H. Marshall. Primeiro “vieram os direitos sociais,
implantados em período de supressão dos direitos políticos e de redução dos direitos civis por um
ditador que se tornou popular (Getúlio Vargas). Depois vieram os direitos políticos... a expansão do
direito do voto deu-se em outro período ditatorial, em que os órgãos de repressão política foram
transformados em peça decorativa do regime [militar]... A pirâmide dos direitos [no Brasil] foi colocada
de cabeça para baixo”.
Nos países ocidentais, a cidadania moderna se constituiu por etapas. T. H. Marshall afirma
que a cidadania só é plena se dotada de todos os três tipos de direito:
1. Civil: direitos inerentes à liberdade individual, liberdade de expressão e de pensamento; direito de
propriedade e de conclusão de contratos; direito à justiça; que foi instituída no século 18;
2. Política: direito de participação no exercício do poder político, como eleito ou eleitor, no conjunto
das instituições de autoridade pública, constituída no século 19;
3. Social: conjunto de direitos relativos ao bem-estar econômico e social, desde a segurança até ao
direito de partilhar do nível de vida, segundo os padrões prevalecentes na sociedade, que são
conquistas do século 20.

Texto 17: Multiculturalismo e Direitos Humanos –


Vera Maria Candau

O atual contexto internacional, a nova configuração que se está afirmando com força
principalmente a partir de setembro deste ano, certamente não constitui um cenário propício à
afirmação de uma cultura dos direitos humanos. O documento final da recente Conferência Regional
sobre Educação em Direitos Humanos na América Latina e Caribe, promovida pelo Alto Comissariado
para os Direitos Humanos da ONU e pela UNESCO, realizada no México de 28 de novembro ao
primeiro do presente mês, afirma:
“Esta Conferência expressa sua preocupação porque no momento presente o exercício dos
Direitos Humanos pode ser subordinado a políticas de segurança nacional, assim como pelo fato de
se ter produzido uma imobilidade em relação a apoiar agendas para avançar nos direitos humanos,
concretamente as relativas às recomendações da Conferência de Durban”.
Globalização, políticas neoliberais, segurança global, estas são realidades que estão
acentuando a exclusão, em suas diferentes formas e manifestações. No entanto, não afetam
igualmente a todos os grupos sociais e culturais, nem a todos os países e, dentro de cada país, às
diferentes regiões e pessoas. São os considerados “diferentes”, aqueles que por suas características
sociais e/ou étnicas, por serem “portadores de necessidades especiais”, por não se adequarem a
uma sociedade cada vez mais marcada pela competitividade e pela lógica do mercado, os
“perdedores”, os “descartáveis”, que vêm cada dia negado o seu “direito a ter direitos” (Hanna
Arendt).
Este é o nosso momento. Nele temos de buscar, no meio de tensões, contradições e conflitos,
caminhos de afirmação de uma cultura dos direitos humanos que penetre todas as práticas sociais e
seja capaz de favorecer processos de democratização, de articular a afirmação dos direitos
fundamentais de cada pessoa e grupo sócio-cultural, de modo especial os direitos sociais e
econômicos, com o reconhecimento dos direitos à diferença.
Articular igualdade e diferença : uma exigência do momento
Esta é uma questão fundamental no momento atual. Para alguns a construção da democracia
tem que colocar a ênfase nas questões relativas á igualdade e, portanto, eliminar ou relativizar as
diferenças. Existem também posições que defendem um multiculturalismo radical, com tal ênfase na
diferença, que a igualdade fica em um segundo plano.
No entanto, na minha opinião, o problema não é afirmar um pólo e negar o outro, mas sim
termos uma visão dialética da relação entre igualdade e diferença. Hoje em dia não se pode falar em
igualdade sem incluir a questão da diversidade, nem se pode abordar a questão da diferença
dissociada da afirmação da igualdade.
Uma frase do sociólogo português Boaventura Souza Santos, sintetiza de maneira
especialmente oportuna esta tensão: "temos direito a reivindicar a igualdade sempre que a diferença
nos inferioriza e temos direito de reivindicar a diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza.”
Neste sentido, não se deve opor igualdade à diferença. De fato, a igualdade não está oposta
à diferença e sim à desigualdade Diferença não se opõe à igualdade e sim à padronização, à
produção em série, a tudo o “mesmo”, à “mesmice”.
O que estamos querendo trabalhar é, ao mesmo tempo, negar a padronização e lutar contra
todas as formas de desigualdade presentes na nossa sociedade. Nem padronização nem
desigualdade. E sim, lutar pela igualdade e pelo reconhecimento das diferenças. A igualdade que
queremos construir assume a promoção dos direitos básicos de todas as pessoas. No entanto, esses
todos não são padronizados, não são os “mesmos”. Têm que ter as suas diferenças reconhecidas
como elemento de construção da igualdade.
Considero que essa temática nos próximos anos vai suscitar uma grande discussão, um debate
difícil, que desperta muitas paixões, mas que é fundamental para se avançar na afirmação da
democracia. Hoje em dia não se pode mais pensar numa igualdade que não incorpore o tema do
reconhecimento das diferenças, o que supõe lutar contra todas as formas de preconceito e
discriminação.
No momento atual, a questão multicultural preocupa muitas sociedades. O debate
multicultural é intenso nos Estados Unidos e também na Europa. No entanto, na América Latina a
questão multicultural tem uma especificidade. Nosso continente é um continente construído com uma
base multicultural muito forte, onde as relações inter-
étnicas têm sido uma constante através de toda sua história, uma história dolorosa e trágica
principalmente no que diz respeito aos indígenas e aos afro-descendentes.
A nossa história está marcada pela eliminação do “outro” ou por sua escravização, que
também é uma forma de negação de sua alteridade. Esses outros que são “eus” na construção da
identidade latino-americana. Neste sentido, o debate multicultural na América Latina nos coloca
diante dessa questão, desses sujeitos, sujeitos históricos que foram massacrados mas que souberam
resistir e hoje continuam afirmando suas identidades fortemente nas nossas sociedades, mas numa
situação de relações de poder assimétricas, de subordinação e exclusão ainda muito acentuadas.
É importante assinalar como fato de especial importância neste momento histórico que a
UNESCO em sua última Conferência Geral, realizada em Paris, nos meses de outubro e novembro
deste ano, com a presença de 185 dos 188 países membros, tenha aprovado por aclamação uma
Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural e que o Diretor Geral, Koïchiro Matsuura, tenha
declarado que esperava que esta declaração chegasse “um dia a adquirir tanta força quanto a
Declaração Universal dos Direitos Humanos”.
A questão das políticas de ação afirmativa. As políticas de ação afirmativa suscitam uma
grande polêmica em todas as sociedades em que se propõem medidas concretas para sua
implementação Entre nós também estão provocando intensos debates. Este fato é em si mesmo
positivo, pois desvela inúmeros aspectos ligados à própria construção histórica da nossa sociedade
e sua forte hierarquização, lógica de privilégios, autoritarismo, apadrinhamento e favor. São debates
marcados pela emoção e a paixão, onde a indignação, a militância e o conservadorismo se fazem
especialmente presentes.
No entanto, para que não se transforme em um debate estéril, é necessário, em primeiro lugar,
que nos situemos diante do reconhecimento desses sujeitos históricos, que muitas vezes foram
relegados e negados ao longo da nossa história, do reconhecimento da sua contribuição para a
construção dos países latino-americanos, do Brasil, para configurar-nos culturalmente.
Este reconhecimento é fundamental mas não basta. Não é suficiente um reconhecimento teórico ou
formal, expresso em declarações meio retóricas. Este reconhecimento tem que ser acompanhado de
políticas de valorização, de políticas de acesso a oportunidades, de políticas de acesso ao poder,
que são fundamentais para que esses sujeitos históricos tenham uma cidadania plena na nossa
sociedade. É neste horizonte que se situam as políticas de ação afirmativa, orientadas a favorecer
determinados grupos que tiveram suas oportunidades de acesso a recursos e bens da sociedade
negadas ou minimizadas ao longo da história.
Um exemplo concreto é a legislação recentemente aprovada no Rio de Janeiro, que está
provocando uma grande polêmica, que obriga as universidades públicas estaduais a reservarem um
porcentual de vagas para alunos oriundos das escolas públicas. Esta medida vai, evidentemente,
ampliar as possibilidades de alunos e alunas oriundos das classes populares, onde o número de afro-
descendentes é elevado, ingressarem no ensino superior, expandindo assim suas oportunidades
educacionais.
As políticas de ação afirmativa estão o voltadas para, numa sociedade marcada pela
desigualdade e fortes mecanismos de exclusão, favorecer o acesso às mulheres, à população
indígena, aos afro-descendentes ou outros grupos excluídos ou objeto de discriminação na nossa
sociedade, a direitos básicos inerentes a todos os seres humanos. Nesta questão o papel da
educação, assim como os meios de comunicação social, é fundamental. Trabalhar a questão do
imaginário coletivo, das representações das identidades sociais e culturais presentes na nossa
sociedade é um aspecto especialmente relevante.
Outra dimensão desta problemática que vem adquirindo ultimamente maior atenção nesta
debate, diz respeito não somente às condições de acesso de determinados grupos a direitos e
recursos disponíveis na sociedade, como também às políticas orientadas a favorecer a permanência
destas pessoas em contextos específicos em que têm de enfrentar muitas dificuldades. Nesta
perspectiva, processos educacionais que visam o empoderamento destes grupos são de especial
importância.
Este nos parece ser o grande desafio do momento atual da humanidade. Um mundo onde
parece que só uns têm lugar. “A Dignidade é um caminho a percorrer. A Dignidade é o amanhã”.

REFERÊNCIAS
CHAUÍ, M. Cidadania Cultural, Novamerica, n.82, junho, 1999
GUIMARÃES, A . S. A . Racismo e Anti-racismo no Brasil S. Paulo, Ed. 34, 1999
MARCOS (sub-comandante) La Marcha del color de la tierra. (comunicados, cartas y mensajes del Ejército
Zapatista de la Liberación Nacional del 2000 al 2 de abril del 2001) México, rizoma, 2001
ONU / UNESCO Declaración de México sobre Educación en Derechos Humanos en América Latina y el Caribe,
Ciudad de México, diciembre 2001
UNESCO Universal Declaration on Cultural Diversity Paris, 2 de novembro de 2001

Texto 18: VIOLÊNCIA 14/06 –

Orson Camargo*
Colaborador Brasil Escola

A violência se manifesta por meio da tirania, da opressão e do abuso da força. Ocorre do


constrangimento exercido sobre alguma pessoa para obrigá-la a fazer ou deixar de fazer um ato
qualquer. Existem diversas formas de violência, tais como as guerras, conflitos étnico-religiosos e
banditismo.
A violência, em seus mais variados contornos, é um fenômeno histórico na constituição da
sociedade brasileira. A escravidão (primeiro com os índios e depois, e especialmente, com a mão de
obra africana), a colonização mercantilista, o coronelismo, as oligarquias antes e depois da
independência, somados a um Estado caracterizado pelo autoritarismo burocrático, contribuíram
enormemente para o aumento da violência que atravessa a história do Brasil.
Diversos fatores colaboram para aumentar a violência, tais como a urbanização acelerada,
que traz um grande fluxo de pessoas para as áreas urbanas e assim contribui para um crescimento
desordenado e desorganizado das cidades. Colaboram também para o aumento da violência as
fortes aspirações de consumo, em parte frustradas pelas dificuldades de inserção no mercado de
trabalho.
Por outro lado, o poder público, especialmente no Brasil, tem se mostrado incapaz de
enfrentar essa calamidade social. Pior que tudo isso é constatar que a violência existe com a
conivência de grupos das polícias, representantes do Legislativo de todos os níveis e, inclusive, de
autoridades do poder judiciário. A corrupção, uma das piores chagas brasileiras, está associada à
violência, uma aumentando a outra, faces da mesma moeda.
As causas da violência são associadas, em parte, a problemas sociais como miséria, fome,
desemprego. Mas nem todos os tipos de criminalidade derivam das condições econômicas. Além
disso, um Estado ineficiente e sem programas de políticas públicas de segurança, contribui para
aumentar a sensação de injustiça e impunidade, que é, talvez, a principal causa da violência.
A violência se apresenta nas mais diversas configurações e pode ser caracterizada como
violência contra a mulher, a criança, o idoso, violência sexual, política, violência psicológica, física,
verbal, dentre outras.
Em um Estado democrático, a repressão controlada e a polícia têm um papel crucial no
controle da criminalidade. Porém, essa repressão controlada deve ser simultaneamente apoiada e
vigiada pela sociedade civil.
Conforme sustenta o antropólogo e ex-Secretário Nacional de Segurança Pública , Luiz
Eduardo Soares: "Temos de conceber, divulgar, defender e implantar uma política de segurança
pública, sem prejuízo da preservação de nossos compromissos históricos com a defesa de políticas
econômico-sociais. Os dois não são contraditórios" .
A solução para a questão da violência no Brasil envolve os mais diversos setores da
sociedade, não só a segurança pública e um judiciário eficiente, mas também demanda com urgência,
profundidade e extensão a melhoria do sistema educacional, saúde, habitacional, oportunidades de
emprego, dentre outros fatores. Requer principalmente uma grande mudança nas políticas públicas
e uma participação maior da sociedade nas discussões e soluções desse problema de abrangência
nacional.

* Graduado em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP
Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Texto 19: Fala

João Anzanello Carrascoza*

A menina estava na escola, aprendendo a ser o que um dia seria plenamente: ela mesma,
maior – e mais sabida. Era tão alegre que até incomodava. Mas a alegria é assim, ruidosa, mesmo
se a cultivamos só dentro de nós, nos abafados do coração.
Então, o susto de uma lição nova. Estava sozinha em casa. A mãe, nas compras. O pai
chegou. Ela correu, feliz, e se pendurou no pescoço dele. Mas, estranhamente, ele não a soltou.
Não. E, depois que o fez, ela se viu como uma boneca quebrada. E aí aprendeu que a dor na
memória arde mais do que no corpo.
A mãe não notou a verdade em seu rosto, nem ninguém na escola, em parte por miopia, em
parte porque a alegria tem muitos disfarces. Achavam que a menina era a mesma. Só andava
menos falante.
Quando o pai chegava em casa sorrindo, ou entre outras pessoas, agia como antes, e ela
emudecia. Era o seu avesso: uma menina na calada do dia! E aí aprendeu que o silêncio era o seu
medo no último volume.
Ele se repetiu outras vezes nela, esmagando, aos poucos, o que restava de sua incômoda
alegria. E já quase sem voz, a menina aprendeu o que era a solidão. Assim estava, tão dolorida,
tão sem esperança... quando, de repente, se inflou de coragem – uma coragem que só uma menina
triste é capaz de ter. E, então, mostrou a todos que reaprendera a primeira e mais difícil lição.
Reaprendera a falar. E falou. Tudo.

* Professor da USP e publicou vários livros para crianças, como Aprendiz de Inventor (Editora Ática) e O
Homem que Lia as Pessoas (SM), entre outros.
_______________________________________________________________________________
Texto 20: TERRORISMO
Leandro Carvalho*

Os atos e ataques terroristas, segundo alguns estudiosos, tiveram início no século I d. C.,
quando um grupo de judeus radicais, chamados de sicários (Homens de punhal), atacava cidadãos
judeus e não judeus que eram considerados a favor do domínio romano. Outros indícios que
confirmam as origens remotas do terrorismo são os registros da existência de uma seita mulçumana
no final do século XI d. C., que se dedicou a exterminar seus inimigos no Oriente Médio. Dessa seita
teria surgido a origem da palavra assassino.
O terrorismo moderno tem sua origem no século XIX no contexto europeu, quando grupos
anarquistas viam no Estado seu principal inimigo. A principal ação terrorista naquele período visava
à luta armada para constituição de uma sociedade sem Estado – para isso, os anarquistas tinham
como principal alvo algum chefe de estado e não seus cidadãos.
Durante a segunda metade do século XIX, as ações terroristas tiveram uma ascensão, porém
foi no século XX que houve uma expansão dos grupos que optaram pelo terrorismo como forma de
luta. Como consequência dessa expansão, o raio de atuação terrorista aumentou, surgindo novos
grupos, como os separatistas bascos na Espanha, os curdos na Turquia e Iraque, os mulçumanos
na Caxemira e as organizações paramilitares racistas de extrema direita nos EUA. Um dos
seguidores dessa última organização foi Timothy James McVeigh, terrorista que assassinou 168
pessoas em 1995, no conhecido atentado de Oklahoma.
Com o desenvolvimento da ciência e tecnologia no século XX, as ações terroristas passaram
a ter um maior alcance e poder, através de conexões globais sofisticadas, uso de tecnologia bélica
de alto poder destrutivo, redes de comunicação (internet) etc.
No início do século XXI, principalmente após os ataques terroristas aos EUA, no ano de 2001,
estudiosos classificaram o terrorismo em quatro formas: o terrorismo revolucionário, que surgiu no
século XX e seus praticantes ficaram conhecidos como guerrilheiros urbanos marxistas (maoístas,
castristas, trotskistas e leninistas). O terrorismo nacionalista, que foi fundado por grupos que
desejavam formar um novo Estado-nação dentro de um Estado já existente (separação territorial),
como no caso do grupo terrorista separatista Eta, na Espanha (o povo Basco não se identifica como
espanhol, mas ocupa o território espanhol e é submetido ao governo da Espanha).
O terrorismo de Estado é praticado pelos Estados nacionais e seus atos integram duas ações.
A primeira seria o terrorismo praticado contra a sua própria população. Foram exemplos dessa forma
de terrorismo: os Estados totalitários Fascistas e Nazistas, a ditadura militar brasileira e a ditadura de
Pinochet no Chile. A segunda forma se constituiu como a luta contra a população estrangeira
(xenofobismo). E o terrorismo de organizações criminosas, que são atos de violência praticados por
fins econômicos e religiosos, como nos casos da máfia italiana, do Cartel de Medellín, da Al Qaeda,
etc.
No mundo contemporâneo, as ameaças terroristas são notícias recorrentes na imprensa,
“para a maior visualização do terrorismo mundial, a mídia exerce um papel fundamental. Mas é
evidente que também cria um sensacionalismo em torno dos terroristas [...] a mídia ajuda a justificar
a legalidade e a necessidade de ações antiterroristas que, muitas vezes, levam adiante banhos de
sangue e violações aos direitos humanos que atingem mais a população civil do que os próprios
terroristas” (SILVA; SILVA, 2005: 398-399).
É importante refletir sobre o terror como prática e o discurso sobre o terror. A separação
dessas ações é fundamental para a compreensão da prática terrorista e para a análise dos discursos
construídos sobre o terrorismo. Feito isso, será possível entender as questões políticas e ideológicas
que estão por trás das práticas e discursos sobre o terror. Assim sendo, estaremos mais aptos a
questionar, lutar e compreender por que tantas pessoas matam e morrem por determinadas causas,
sejam elas políticas, religiosas, econômicas ou culturais.
É mais que necessário a sociedade compreender as ideologias que movem as práticas
terroristas e os discursos construídos sobre essas práticas. A cada ano que passa, a humanidade se
sente mais acuada e receosa, temerosa de ataques com armas de destruição em massa.

* Mestre em História

Texto 21: Tecnologia na Educação


Karen Chaiane Dalapossa

O século XXI está sendo marcado pelo aceleramento da tecnologia eletrônica, com atenção
especial para a informática, o computador e a Internet. Atualmente, o meio em que vivemos está
permeado pelo uso de técnicas e recursos tecnológicos, fazendo do computador uma ferramenta que
vem auxiliar o processo ensino/aprendizagem nas questões do cotidiano trazidas até a sala de aula.
É muito importante o compromisso do docente e a escola deve impor-se de questionar e discutir os
aspectos da informática dentro da evolução da sociedade juntando nesse processo as
transformações às vezes não percebíveis.
Os meios de comunicação são verdadeiras “extensões do homem”, devemos usa-los desde
a infância num sentido construtivo. Desde o pré-escolar até o 2º grau, a matéria da comunicação e
expressão deveria receber uma ênfase maior, promovendo o crescimento integral das pessoas de
todas as classes sociais adotando para tanto varias formas de comunicação, tais como as
alternativas, participatória, militante, popular, de resistência e por que não a folclórica ou tradicional.
Através das relações diárias, o ser universal (o homem) pensa, sente e age a todo instante através
das relações sociais de que fazem parte. É preciso haver uma educação voltada para a cidadania.
As pessoas agem a partir de uma relação de trocas culturais, modificam a si mesmas, aos
outros e à natureza. Interagem o tempo todo.
No mundo inteiro o rádio e a TV e mais recentemente os computadores passaram a formar
parte da bagagem instrumental da chamada Tecnologia Educativa. O desafio da escola hoje é
preparar as crianças para enfrentarem o mundo do trabalho. Mesmo antes de chegarem a escola, as
crianças recebem informações em suas casas. O educador não pode se neutralizar diante da forte
influência lançada pela mídia, é necessário cuidado. Afinal, informação não é sinônimo de
conhecimento.
É importante que educador e educando aprendam a selecionar as informações apropriadas,
verificando e identificando suas proveniências, quem as criou, divulgou-as e qual a intenção das
mesmas. Informação ou consumismo?
Entretanto, torna-se necessário relacionar teoria e prática para que possamos perceber nos
mais diversos meios das tecnologias a importância de avançarmos enquanto educadores e
educandos. Dessa forma, o uso da tecnologia vem proporcionar a todos uma nova forma de pensar
e de transformar diante desse novo mundo globalizado.

Disponível em: http://meuartigo.brasilescola.com/educacao/tecnologia-na-educacao.htm

Texto 22: Tecnologia favorece ou atrapalha a interação?


Paola Gentile

Todos os anos, professores, gestores e entusiastas da tecnologia em Educação voltam seus


olhos para os lançamentos da Bett Show. Realizado num enorme centro de eventos em Londres, na
Grã-Bretanha, o evento é uma das maiores feiras mundiais sobre o tema. Estive por lá entre os dias
11 e 14 de janeiro, acompanhando as últimas novidades da tecnologia em sala de aula.
Não há como não voltar deslumbrada com todos os aplicativos, softwares e hardwares
desenvolvidos com o objetivo de facilitar a aprendizagem. Jogos em todas as disciplinas fazem a
festa das crianças - e também dos professores que acham que esse é o caminho para "motivar" os
alunos. Imagens em 3D revelam o corpo humano e dos animais e a estrutura dos demais seres vivos
e levam as turmas para um estudo de campo de ecossistemas como o fundo do mar e uma caverna
- tudo sem sair da sala de aula. Mas um ponto polêmico - não colocado abertamente durante as
discussões na Bett2
012, mas deixado no ar - diz respeito ao fator interação quando a tecnologia invade a sala de aula.
Alguns professores têm usado a tecnologia para se aproximar das turmas, como Emma
Chandler, professora de Estudos Sociais da Emerson Park School, em Londres. Ela usa o Twitter
para se comunicar com os alunos justamente por ter percebido que era a ferramenta predileta de
comunicação entre eles. Manda de três a quatro mensagens por aula, com o plano de aula do dia,
questões simples para verificar o conhecimento sobre determinado conteúdo e notícias relacionadas
ao tema. "Os mais tímidos passaram a se comunicar mais comigo", afirmou ela, que ainda coordenou
um texto coletivo para o jornal da escola cujos trechos eram enviados pela rede social. O trabalho
em grupo, portanto, foi intermediado pela ferramenta, com pouco contato direto entre os colegas.
O uso de animações em 3D, em que todas as informações são facilmente acessadas e
visualizadas com perfeição e realismo, praticamente prescinde da presença do educador para a
compreensão do conteúdo. Estudo realizado em sete países entre outubro de 2010 e maio de 2011,
por pesquisadores da Universidade de Londres, comparou o rendimento de duas categorias de
estudantes. Os que estavam nas turmas em que o professor usou 3D para ensinar corpo humano
melhoraram suas notas em 86% (contra os 52% registrados no grupo de controle, que só usou
ferramentas em 2D), apreenderam as informações em menos tempo, lembravam de mais detalhes e
davam respostas mais elaboradas em questões abertas. E o papel do professor, nesse caso, foi
apenas disponibilizar o acesso à ferramenta e fazer a avaliação.
Steve Bunce, consultor em tecnologia da Educação do Reino Unido, está convicto de que a
saída para esse dilema é o educador se tornar um questionador: "Em vez de explicar o conteúdo, ele
vai criar as perguntas sobre o mundo real e os problemas globais para serem respondidas pelos
alunos, que, por sua vez, com a tecnologia, podem ir sozinhos atrás das informações e trazer as
soluções. É assim que se educa cidadãos com autonomia para aprender."
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/tecnologia-favorece-ou-atrapalha-interacao-668165.shtml

Texto 23: Evolução das relações trabalhistas

Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, expandiu-se para o


mundo a partir do século XIX, alterando profundamente as relações sociais e econômicas no meio
urbano e as condições de vida dos trabalhadores. A substituição da manufatura pela maquinofatura
provocou um intenso deslocamento rural para a cidade, gerando enormes concentrações
populacionais, excesso de mão-de-obra e desemprego.
Além disso, as condições de trabalho naquele período eram muito precárias. As primeiras
máquinas utilizadas na produção fabril eram experimentais e, em razão disso, os acidentes de
trabalho eram comuns. Os operários, desprovidos de equipamento de segurança, sofriam com
constantes explosões e mutilações e não recebiam nenhum suporte de assistência médica, nem
seguridade social.
Neste contexto, começaram a surgir os primeiros protestos por mudança nas jornadas de
trabalho. Apontada como a primeira lei trabalhista, o Moral and Health Act foi promulgado na
Inglaterra por iniciativa do então primeiro-ministro, de Robert Peel, em 1802. Ele fixou medidas
importantes, mas inadmissíveis hoje em dia: duração máxima da jornada de trabalho infantil em 12
horas, além de proibir o trabalho noturno.
Com as insatisfações dos trabalhadores em ascensão, ganharam força os movimentos
socialistas que pregavam igualdade. Conscientes das condições precárias de trabalho, em 1848, Karl
Marx e Friedrich Engels publicaram o Manifesto Comunista, primeiro documento histórico a discutir
os direitos do trabalhador.
Temendo adesões às causas socialistas, o chanceler alemão Otto von Bismarck impulsionou,
em 1881, a criação de uma legislação social voltada para a segurança do trabalhador. Ele foi o
primeiro a obrigar empresas a subscreverem apólices de seguros contra acidentes de trabalho,
incapacidade, velhice e doenças, além de reconhecer sindicatos. A iniciativa abriu um precedente
para a criação da responsabilidade social de Estado, que foi seguida por muitos países ao longo do
século XX.
Por todo o mundo, a luta pelos direitos sociais começava a dar resultados. Na América, não
foi diferente: a Constituição do México, promulgada em 1917, foi a primeira da História a prever a
limitação da jornada de trabalho para oito horas, a regulamentação do trabalho da mulher e do menor
de idade, férias remuneradas e proteção do direito da maternidade. Logo depois, a partir de 1919, as
Constituições dos países europeus consagravam esses mesmos direitos.
Após a 1ª Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes, que garantiu a criação da Organização
Internacional de Trabalho (OIT), impulsionou a formação de um Direito do Trabalho mundial. Àquela
época, o conflito entre o capital e o trabalho era visto como uma das principais causas dos desajustes
sociais e econômicos que geraram a guerra.
Brasil - O trabalho livre e assalariado ganhou espaço após a abolição da escravidão no Brasil em
1888 e com a vinda dos imigrantes europeus para o País. Mas as condições impostas eram ruins,
gerando no País as primeiras discussões sobre leis trabalhistas. O atraso da sociedade brasileira em
relação a esses direitos impulsionou a organização dos trabalhadores, formando o que viriam a ser
os primeiros sindicatos brasileiros.
As primeiras normas trabalhistas surgiram no País a partir da última década do século XIX,
caso do Decreto nº 1.313, de 1891, que regulamentou o trabalho dos menores de 12 a 18 anos. Em
1912 foi fundada a Confederação Brasileira do Trabalho (CBT), durante o 4º Congresso Operário
Brasileiro. A CTB tinha o objetivo de reunir as reivindicações operárias, tais como: jornada de trabalho
de oito horas, fixação do salário mínimo, indenização para acidentes, contratos coletivos ao invés de
individuais, dentre outros.
A política trabalhista brasileira toma forma após a Revolução de 30, quando Getúlio Vargas
cria o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. A Constituição de 1934 foi a primeira a tratar de
Direito do Trabalho no Brasil, assegurando a liberdade sindical, salário mínimo, jornada de oito horas,
repouso semanal, férias anuais remuneradas, proteção do trabalho feminino e infantil e isonomia
salarial.
O termo “Justiça do Trabalho” também apareceu pela primeira vez na Constituição de 1934,
e foi mantida na Carta de 1937, mas só foi instalada de fato em 1941. A necessidade de reunir as
normas trabalhistas em um único código abriu espaço para Consolidação das Leis do Trabalho (CLT),
criada em 1943. Entre os anos 1940 e 1953, a classe operária duplicou seu contingente. Aos poucos,
também iam nascendo os sindicatos rurais.
O golpe militar de 1964 representou a mais dura repressão enfrentada pela classe
trabalhadora do País. As intervenções atingiram sindicatos em todo o Brasil e o ápice foi o decreto
nº 4.330, conhecido como lei antigreve, que impôs tantas regras para realizar uma greve que, na
prática, elas ficaram proibidas.Depois de anos sofrendo cassações, prisões, torturas e assassinatos,
em 1970 a classe trabalhadora vê surgir um novo sindicalismo, concentrado no ABCD paulista. Com
uma grande greve em 1978, os operários de São Bernardo do Campo (SP) desafiaram o regime
militar e iniciaram uma resistência que se estendeu por todo o País.
Após o fim da ditadura em 1985, as conquistas dos trabalhadores foram restabelecidas. A
Constituição de 1988 instituiu, por exemplo, a Lei nº 7.783/89, que restabelecia o direito de greve e
a livre associação sindical e profissional.

Texto 24: PROPRIEDADE INTELECTUAL

15 de maio de 2012 · por thiagomicelli · em Propriedade Intelectual. ·

Quando agrupamos os conceitos de cada termo em separado – propriedade + intelectual –


conclui-se que propriedade intelectual é o direito de qualquer pessoa que crie uma “obra” derivada
do intelecto, possua sua propriedade, cabendo-lhe decidir de que forma ira utilizá-la, resguardar sua
utilização, reivindicar os direitos que por ventura sejam usurpados por outrem.
Segundo Francisco Teixeira (1997):
“Propriedade Intelectual” é o direito que qualquer cidadão, empresa ou instituição tem sobre
tudo o que resultar de sua inteligência ou criatividade. Esse direito é protegido através de diversos
instrumentos jurídicos que, cada um a sua maneira, servem para proteger os seus titulares (ou
proprietários) contra o uso não-autorizado de sua legítima criação, talento ou inteligência, por
terceiros. [1]
Walter Brasil Mujalli (1997) assim definiu propriedade intelectual:
Esta corresponde ao produto do pensamento e da inteligência humana, que também tornou-
se com o passar dos tempos, objeto da propriedade industrial. A propriedade intelectual é o esforço
dispendido pelo ser humano, voltado à realização de obras literárias, artísticas e científicas, como
também, é o direito autoral. [2]
Segundo a Convenção da OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual), este
conceito é a soma dos direitos relativos às obras literárias, artísticas e científicas, às interpretações
dos artistas intérpretes e às execuções dos artistas executantes, aos fonogramas e às emissões de
radiodifusão, às invenções em todos os domínios da atividade humana, às descobertas científicas,
aos desenhos e modelos industriais, às marcas industriais, comerciais e de serviço, bem como às
firmas comerciais e denominações comerciais, à proteção contra a concorrência desleal e todos os
outros direitos inerentes à atividade intelectual nos domínios industrial, científico, literário e artístico.
Ademais, a Lei n.º 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, prescreve em seu artigo 7.º, caput, o
que são obras intelectuais, in verbis:
Art. 7.º São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio
ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro, tais
como.
Deste modo, deixou patente o legislador brasileiro que a propriedade intelectual refere-se “às
criações do espírito”.
Portanto, a propriedade intelectual diz respeito a um direito pessoal, dado pelo Estado ao
criador da obra derivada do intelecto, sendo inerente ao ser humano, pelo fato de sua capacidade
pensante, estando, desta forma, voltado até mesmo às necessidades espirituais do homem, podendo
este, dispor de seus direitos primários como qualquer outro bem.

[1] TEIXEIRA, Francisco, Tudo o que você queria saber sobre Patentes mas tinha vergonha de perguntar – 1º
Edição, 1.997, p. 29/30
[2] MUJALLI, Walter Brasil. A Propriedade Industrial – Nova Lei de Patentes. Leme: Editora de Direito, 1997, p.
20
Fonte: https://i7autoral.wordpress.com/2012/05/15/conceito-propriedade-intelectual/

Texto 25: A praga do plágio acadêmico

Prof. Dr. Richard Romancini


(...)
O conhecimento humano, em suas produções mais sofisticadas como a ciência (que se
pretende universal), é essencialmente coletivo. É impossível que um aspirante a produtor de
conhecimento não lide com as reflexões, idéias, informações e dados de outros sujeitos, mesmo que
para submeter à crítica algum desses aspectos. Desse modo, a prática da remissão a outros textos
e autores é constitutiva do modo de produção do trabalho intelectual mais elaborado, que o ambiente
universitário procura promover.
A citação a outros autores constitui um dos procedimentos mais característicos do texto crítico.
Ela garante o ingresso do autor na “rede intertextual” relativa a determinado tema ou questão. Por
isso, na produção acadêmica, a citação a idéias de outros autores, relevantes à discussão do
trabalho, deve ser precisa e averiguável. Isso garantirá que o leitor possa – se quiser – checar o
contexto geral da citação e a fidelidade com que a mesma foi feita. Nesse sentido, é que Eco (1992)
vê a citação como uma “testemunha num processo”. Decorrem dessa preocupação, as
recomendações dos diferentes sistemas (ABNT, Vancouver, ISO) quanto ao modo de produzir
Bibliografias e Referências Bibliográficas.
Ressaltado esse caráter coletivo do trabalho intelectual crítico, observa-se que isso não chega
a diluir o conceito da autoria (nem mesmo o de originalidade) de um texto. Ou seja, determinado autor
(ou eventualmente autores) que se utiliza de idéias de diferentes sujeitos produzirá um trabalho cuja
originalidade é garantida pela seleção, modo peculiar de exposição e interpretação dada ao seu
objeto. Isso ocorre igualmente em termos temáticos e das idéias propostas e/ou utilizadas a partir de
outros autores.
Em resumo, a citação, que podemos agora definir como a atribuição da fonte a uma idéia ou
conteúdo, não é um empecilho ao trabalho autoral, nem se confunde com o plágio. A própria Lei de
Direitos Autorais (nº 9.610/98) permite o uso de trechos de qualquer tipo de trabalho desde que seja
indicada a autoria e procedência do mesmo.
Cabe ainda notar que a citação pode ser indicada de duas maneiras. A partir da transcrição
de trechos literais de um texto, geralmente entre aspas ou outro sinal demarcador, como a fonte em
itálico. O segundo método remete às paráfrases, ou seja, quando o autor da citação coloca a idéia
de outrem em suas palavras, sem deixar, contudo, de citar a fonte (exemplos claros podem ser vistos
em Eco, 1992, 128-9).
De outro lado, o plágio caracteriza-se como uma falsa atribuição de autoria, uma apropriação
indevida de trabalho de um autor por outro indivíduo (o plagiário). Em outras palavras, trata-se da
cópia de idéias ou conteúdos de trabalhos de outra pessoa, que são utilizados como se fossem
daquele que finge ser o autor legítimo dos mesmos. É interessante notar que a origem etimológica
da palavra (do grego “plagios” ao latim “plagiu”) carrega acepções que ilustram o conceito: “oblíquo”,
“dissimulado”, “trapaceiro”.
“Nesse sentido”, nota Ferrari (2005), “a etimologia demonstra que plágio está diretamente
ligado ao efeito ético e moral, logo, deve-se entender que não há níveis de interpretação. Incorreto é
o não correto e pronto. Não há interpretações extensivas e paralelas”.
Também é fundamental notar que o plágio resulta numa violação de diretos autorais do autor
plagiado. E esta ação configura, na linguagem jurídica: “Mais do que um ilícito civil, uma vez que
afronta direito de personalidade do autor, constitucionalmente garantido, [...] nos deparamos também
com um ilícito criminal gravíssimo” (Furtado, 2002). Como explica o autor citado, a violação de direito
autoral é um crime previsto no artigo 184 do Código Penal, cuja penalidade envolve detenção e multa.
Tendo explicitado no que consiste o plágio na produção textual, podemos avançar, notando
que o mesmo possui diferentes facetas, no cotidiano acadêmico, como:
- A compra ou furto de um trabalho na íntegra;
- A apropriação (sem citação), em determinado texto, de trecho(s) de certa(s) obra(s);
- A “falsa paráfrase”, ou seja, a cópia de texto de um autor, feita sem a indicação de citação
integral (aspas ou formatação), mesmo que se informe que a idéia ou trecho provém do
autor de que foi feita a cópia.
Sem dúvida, o primeiro caso é o mais grave e irremediável em termos de falha ética. Nos
outros dois casos, em particular no último, pode existir um caráter “involuntário” no plágio. No entanto,
o que é claramente recomendável é que os trabalhos sejam submetidos a análises e revisões (por
seus autores e orientadores), antes de sua finalização, de modo a eliminar a possibilidade de plágio,
pelos motivos apontados.
Concluindo, pode-se dizer que o papel do educador para coibir o plágio, além do
acompanhamento na elaboração dos trabalhos de seus alunos, está ainda relacionado com a
transmissão de informações sobre o plágio. Nesse sentido, é também válido que as instituições de
ensino busquem esclarecer e informar os alunos e docentes sobre esse ilícito e adotem
procedimentos que desestimulem sua prática. Como observa Furtado (2002):
Agir com respeito perante não somente àquilo que se propõe a produzir com seriedade,
mas igualmente em relação às fontes pesquisadas, às idéias consultadas, aos
pensamentos, reflexões, pontos de vista, propostos em estudos e pesquisas já feitas, que
recorrera para melhor ilustrar, fundamentar ou enriquecer o seu trabalho científico, é o
mínimo que podemos esperar de alguém voltado para o conhecimento.

Referências
ECO, Umberto. Como se faz uma tese. São Paulo, Perspectiva, 1992, 9ª edição.
FOLHA de S.Paulo. Oxford alerta para aumento de plágio entre alunos. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 mar.
2006.
FERRARI, Alexandre Coutinho. Plágio de textos e a editora de livros. Doutor D. 17 jun. 2005. FURTADO, José
Augusto Paz Ximenes. Trabalhos acadêmicos em Direito e a violação de direitos autorais através de plágio. Jus
Navigandi, Teresina, ano 7, n. 60, nov. 2002.
GARSCHAGEN, Bruno. Comércio de teses e dissertações atrai pós-graduandos. Folha de S.Paulo, São Paulo,
07 nov. 2005..
______________. Universidade em tempos de plágio. NoMínimo. 29 jan. 2006.
GOULART, Guilherme. O golpe das monografias. Correio Braziliense, Brasília, 28 mar. 2007.
LOURENÇO, Alexandre. Plágio, direito autoral e registro legal de obras. Microbiologia, 2004.
OLIVEIRA, José Palazzo M. de. Plágio eletrônico e ética. Educação, Computação e Web. Dez. 2005.
RABELO, Camila. Idéias roubadas. UNB Agência, Brasília, 14 jul. 2006.
SILVA, Obdália Santana Ferraz. Entre o plágio e a autoria: qual o papel da Universidade? 29ª Reunião Anual
da Anped, Caxambu, 2006.
UNIVERSIA. Como lidar com o plágio em sala de aula. Universia Brasil, 08 mar. 2005.

Publicado originalmente na Revista Científica FAMEC/FAAC/FMI/FABRASP. Ano 6, n. 6, 2007, pp. 44-48.


Disponível em: https://sites.google.com/site/richardromancini/pragaplagio

Texto 26: Os limites da liberdade de expressão


Renato Francisquini* em 19/04/2011 na edição 638

Em sua coluna na Folha de S.Paulo do último dia 7 de abril, Hélio Schwartsman, provocado
pelas lamentáveis declarações do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), abordou um tema controverso,
complexo e, também por isso, muito caro a todos nós. Trata-se da polêmica sempre atual envolvendo
o conteúdo e o alcance do princípio fundamental da liberdade de expressão. Sob o título "Uma defesa
de Bolsonaro", Schwartsman sentencia, já nas primeiras linhas de seu texto, que ele,
"evidentemente", está "entre os que acham que o mandatário tem o direito de dizer o que pensa, por
mais politicamente incorretas, ofensivas ou imorais que sejam suas declarações".
Não tenho qualquer coisa nova que valha a pena dizer sobre as palavras do deputado, que,
de resto, considero abomináveis. Por isso, vou me restringir a uma leitura mais detida sobre o
conceito da liberdade de expressão, procurando refutar o argumento de Schwartsman, utilizando as
declarações de Bolsonaro apenas eventualmente como instrumento para ilustrar o meu próprio ponto
de vista.
Os contendores em um debate se utilizam de estratégias de argumentação diversas para
convencer seus interlocutores e a plateia. A indicação de figuras socialmente reconhecidas como
referências em uma área, para o bem ou para o mal, está entre as mais comuns. Assim, no debate
sobre a liberdade, a de expressão entre elas, citamos frequentemente Hitler e Stalin, de um lado, e
Noam Chomsky e John Stuart Mill, de outro. Mas não nos deixemos enganar, pois os discursos a
respeito de um princípio, especialmente nesse caso, são formas de ação política e remontam ao
debate que, embora perene, tem capítulos bastante distintos. Há um esforço constante para elaborar
argumentos capazes de distinguir entre quais discursos devem e quais não devem ser protegidos de
qualquer interferência do Estado – o que não é e nunca foi objeto de consenso, seja nos meios
jurídicos ou na teoria política. Para notar essas distinções, não precisamos nos remeter às práticas
totalitárias e classificar qualquer opinião que se desvie da compreensão da liberdade de expressão
como uma liberdade negativa, como censura ou restrição à liberdade individual.
Anacronismo perigoso
A liberdade de expressão está comumente associada à busca da verdade, à auto-expressão
individual, ao bom funcionamento da democracia e a um equilíbrio entre estabilidade e mudança
social. Ela não é necessária apenas para que os cidadãos exerçam as suas capacidades morais de
ter um senso de justiça e defender uma concepção do bem. Combinada aos procedimentos políticos
estabelecidos constitucionalmente, a livre expressão de ideias aparece como uma alternativa à
revolução e ao uso da força, que ameaçam sobremaneira as nossas liberdades básicas.
Já no século 17, na Inglaterra, John Milton, no manifesto intitulado Areopagitica, defendia a liberdade
de impressão sem prévia autorização estatal. Como bem lembrou Schwartsman, Mill, dois séculos
depois, também defendeu a livre expressão de ideias. Mas o alvo deste último era outro e por isso
oferecia razões distintas das de Milton. Enquanto este fundamentava a sua defesa na crença de que
as opiniões eram constitutivas dos indivíduos enquanto tais, Mill se baseia na ideia de uma relação
interna entre liberdade e verdade, em que a primeira se define e se limita pela última.
O que quero dizer é que me parece, para dizer o mínimo, um anacronismo perigoso e sem tamanho
buscar em um filósofo inglês novecentista uma discussão sobre a proteção a certos discursos, como
o faz Schwartsman em relação ao de Bolsonaro. Questões como a homofobia, simplesmente não
faziam parte da agenda. Afora isso, não me parece que de nenhum desses casos se depreenda um
argumento a favor do estabelecimento de uma área livre de interferência do Estado e da sociedade
sobre a conduta dos indivíduos – isso é fruto de interpretações, a meu ver equivocadas, da obra de
Mill.
Propagandas falsas ou calúnias
Sabemos que as liberdades políticas em geral, e a liberdade de expressão em particular, têm
tanto uma dimensão defensiva (contra a intervenção indevida do Estado), quanto uma dimensão
protetiva (que requer a intervenção do Estado para ser de fato garantida). A questão que se coloca
é saber em que medida devem ser defendidas ou quais seriam os limites dessas duas dimensões.
Seria possível a restrição de conteúdos específicos, como discursos de incitação ao ódio, de caráter
racista, homofóbico etc., sem se restringir demais a liberdade de expressão? Ou devemos dar
preferência a regulações neutras em relação ao conteúdo?
Precisamos distinguir, antes de mais nada, entre restrição e regulação das liberdades
fundamentais. Autores da tradição liberal, como John Rawls, afirmam que a prioridade dessas
liberdades não é ameaçada quando se estabelecem regras, que se combinam em um sistema, no
intuito de fomentar as condições sociais necessárias ao seu exercício duradouro. Na definição sobre
se e quanto uma determinada política infringe a liberdade de expressão, está certamente incluída,
como vimos, uma discussão sobre o conteúdo e o alcance dessa liberdade e sobre o que implica um
julgamento a respeito disso.
Admitindo-se que as pessoas em geral, e os mais poderosos especialmente, desejam afastar
qualquer crítica e evitar a expressão de posições das quais discordam, podemos ter a impressão de
que a regulação de conteúdos pode se tornar um instrumento eficaz para que se impeçam a
expressão de críticas e posições contrárias a certas opiniões consideradas em um certo momento
politicamente incorretas ou moralmente condenáveis. Uma das presunções contra o controle de
conteúdo afirma que ele traz consigo a possibilidade de que se excluam inteiramente certos pontos
de vista do mercado de ideias: a regulação de conteúdos representaria uma ameaça maior de que
certas ideias sejam impedidas de serem expressas, a despeito do valor que tais ideias possam ter
para os próprios falantes ou para a comunidade em geral. No entanto, embora a impermissibilidade
de certas formas de regulação de conteúdo tenha um papel importante para a liberdade de
expressão, disso não decorre que seja uma questão fundamental e definitiva que qualquer restrição
a conteúdos seja indesejável: não creio que muitos de nós viríamos a nos opor à proibição de
propagandas falsas ou calúnias.
Regulação de conteúdos ofensivos
Uma leitura corrente, e que me parece combinar-se com a posição de Schwartsman no artigo
a que estou me referindo, defende a possibilidade de se usar a própria expressão como forma de
combater os custos envolvidos em expressões ofensivas ou condenáveis. Há a presunção de que, já
que as pessoas têm a capacidade de mudar as suas opiniões quando apresentadas a novas e
distintas razões, basta que sejam formalmente garantidas oportunidades a discursos que se
contraponham às expressões racistas, homofóbicas etc. para que a "verdade" seja restabelecida.
No entanto, há discursos cujo conteúdo é incompatível com o axioma da igualdade moral
humana, não sendo, também por isso, publicamente razoáveis. Devemos nos indagar, nesse sentido,
se seria uma atitude intolerante impedir a expressão de crenças intolerantes. Pelo próprio caráter de
indeterminação do que deve ser o sistema de tolerância, não parece fora de questão, mesmo para
aqueles que advogam a favor da tolerância, reivindicar que algumas formas de conduta e expressão
sejam proibidas no intuito de proteger grupos discriminados.
O professor Joshua Cohen, da Universidade Stanford, argumenta que a regulação em relação
a determinados conteúdos ofensivos não contraria uma proteção rígida à liberdade de expressão,
desde que os discursos regulados sejam: (a) expressões cuja intenção é insultar e cujos insultos são
diretamente endereçados a um indivíduo ou a um pequeno grupo; (b) a ofensa é transmitida através
de expressões que estigmatizam características individuais associadas a gênero, raça, etnia etc., as
quais não seria possível combater com "mais discurso", pois causam danos direta e imediatamente;
e (c) quando as regras destacam uma subcategoria específica e não representam um convite ao
balanço entre custos e benefícios do que deverá ou não ser permitido, sendo atentas, antes, à
vulnerabilidade dos discursos.
Defesa do espancamento
Herbert Marcuse, teórico alemão da Escola de Frankfurt, reforça que os diversos interesses
não se contrabalançam em uma sociedade desigual e na qual a desigualdade permanece e se
perpetua, se as coisas são deixadas a correr o seu curso normal. Um dos defensores mais
conhecidos de intervenções pontuais e incisivas do Estado sobre a expressão política, Marcuse, não
obstante, concorda em grande medida com Mill em relação ao valor epistêmico associado a uma
deliberação pública livre e aberta. Marcuse sustenta também a ideia de que a tolerância, entendida
como uma restrição à interferência de alguém sobre a expressão de ideias das quais discorda
fortemente, é uma das condições que mais favorece a descoberta social da verdade – ainda que uma
verdade inatingível. Contudo, a tolerância, por si mesma, não promove a verdade sem que esteja em
conjunção com outras condições. Se essa tolerância serve principalmente à manutenção de uma
sociedade repressiva, neutraliza-se a oposição e imunizam-se os indivíduos contra outras formas de
vida. Repelido pela solidez de uma sociedade governada, o esforço pela emancipação torna-se
abstrato, reduzindo-se a facilitar o reconhecimento do que já é sustentado.
Basta uma pesquisa rápida nos últimos meses pelos diários brasileiros para que nos
recordemos de escabrosos casos de violência contra negros, homossexuais, nordestinos etc. Não
custa lembrar do que houve logo após o segundo turno da eleição presidencial de 2010. Será que
"direito de dizer o que [se] pensa, por mais politicamente incorretas, ofensivas ou imorais que sejam
as declarações" deve ser estendido a uma Mayara Petruso, ou a quem defenda a ideia subjacente
aos espancamentos de negros e homossexuais por bandos de skinheads?
Preconceitos difundidos
Como o próprio Schwartsman admite, é inexoravelmente controverso definir o que constituiria
um dano causado por um discurso. Parte do debate contemporâneo sobre a liberdade de expressão
vincula-se às interpretações da Suprema Corte norte-americana a respeito da Primeira Emenda à
Constituição. A Primeira Emenda é comumente compreendida como uma postulação clássica dos
limites à interferência do Estado sobre a conduta individual. A Suprema Corte, no entanto, muitas
vezes a tomou menos como uma vedação absoluta à intervenção estatal sobre a liberdade de
discurso do que como um dispositivo para estabelecer as fronteiras móveis da atuação do Estado.
Em alguns casos, foram levados em conta para a ponderação certas categorias de discurso
– hate speech,fighting words etc. – que se permitiria regular sem deixar de proteger a liberdade de
expressão.
Owen Fiss, professor de Direito da Universidade Yale, chamou atenção para o papel
silenciador de algumas formas de expressão, que podem reforçar e ser reforçadas por preconceitos
difundidos na sociedade contra determinados grupos. Dessa forma, quando o Estado adota uma
postura positiva no sentido de impedir que se silencie uma parte dos cidadãos, especialmente de
grupos mais vulneráveis, ele estaria, antes protegendo a liberdade de expressão do que restringindo-
a.
Antes que sejamos acusados de propor ou justificar a censura prévia, cabe um breve
esclarecimento: não se trata aqui de estabelecer uma entidade encarregada de analisar caso a caso
quais formas e conteúdos podem ser expressos publicamente, mas de estabelecer critérios a partir
dos quais possam ser posteriormente julgados e, eventualmente, punidos os responsáveis pela
veiculação de discursos cujo conteúdo seja potencialmente ofensivo e reforce a estigmatização de
determinados grupos sociais. Na minha opinião, expressões como as do referido deputado não são
apenas "politicamente incorretas, ofensivas ou imorais", mas extrapolam o que se pode considerar
publicamente razoável. E isto, exatamente por se referir a preconceitos amplamente difundidos na
sociedade e em relação a grupos, também por isso, flagrantemente vulneráveis.

*Mestre em Ciência Política pela UFMG e doutorando na mesma área pela USP
Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/os-limites-da-liberdade-de-expressao

Texto 27: Tragédia na França intensifica debate sobre limites da liberdade de expressão

Por Luiz Costa Pereira Junior e Camila Ploennes

Jesus sodomiza Deus enquanto é sodomizado pelo Espírito Santo. Maomé salta com tudo
numa bacanal. Rabinos preparam o bote na carteira de um israelita distraído por uma suruba. Nada
é sagrado, mesmo quando não se vê o ar da graça, nas páginas do Charlie Hebdo, o jornal francês
chacinado em 7 de janeiro por fanáticos ligados à Al Qaeda do Iêmen.
As semanas seguintes aos atentados alçaram uma revista demolidora a mártir da democracia.
A comoção se refletiu em chefes de Estado e povos mesmo islamizados, indignados com o ataque a
um desejo humano tão elementar quanto o de expressar o que se pensa.
E então a imensidão nublada tomou conta do cenário. Sinais dissonantes começaram a dar
curto no discurso de fé absoluta na liberdade de expressão. Em questão de dias, a França é acusada
de dois pesos e duas medidas quando o antissemita Dieudonné M'bala M'bala é preso por postar a
mensagem Je suis Charlie Coulibaly, com o sobrenome de um dos terroristas. A opinião pública,
aturdida, se fez a pergunta: se Charlie pode, por que não Dieudonné? A edição pós-atentado do
Charlie Hebdo, com Maomé na capa, voltou a inflamar o mundo islâmico e, dez dias após a tragédia,
o papa Francisco declarou que a liberdade de expressão não dá a ninguém o direito de insultar a
religião alheia.
Limites
Dúvidas sobre os limites de um direito tão fundamental assaltaram posts e celulares de janeiro
e raras vezes se viu tal esforço concentrado para circunscrever um conceito a que, de outro modo,
pouco nos ocupamos em detalhar fraquezas, validade ou fronteiras. A confusão foi tal que o televisivo
Rafinha Bastos, num rasgo de confiança a ser clinicamente estudado, se sentiu à vontade para expor-
se ao sereno: "Você é Charlie? Onde estava quando eu tentava falar sobre liberdade de expressão?",
escreveu rancoroso na Folha de S.Paulo.
O que estaria, afinal, contido no sintagma "liberdade de expressão", usado tantas vezes para
dizer coisas muitas vezes diferentes? Significa que alguém pode dizer o que quer, a qualquer hora e
lugar? Ou sua expressão deve ser limitada pela sociedade?
Segundo Daniel Sarmento, professor de Direito Constitucional da UERJ e autor de Livres e
iguais (Lumen Juris, 2006), a liberdade de expressão é importante porque viabiliza outros direitos.
Com ela, conseguimos reivindicar, protestar, criticar, avaliar relações e garantir um melhor controle
social pela população.
- Há vários tipos de limites, principalmente quando há colisão com outros direitos, como o de
privacidade, a proteção da reputação ou o direito da criança e do adolescente. A questão complicada
é saber até que ponto a liberdade de expressão contempla as manifestações que podem ofender.
Isso é sempre objeto de controvérsia - diz ele.
Num primeiro olhar, a zona limite para a expressão estaria na ofensa. Mas, fosse só isso,
qualquer manifestação de certezas distintas pode facilmente ofender crenças e convicções.
Liberal
Para constitucionalistas como Sarmento, a coisa se complica ainda mais quando atuações do
Estado dão sinais conflitantes ao tratar a questão, e confundem a opinião pública que não tem o
debate sobre o assunto em suas preocupações diárias. Assim pensa Zuenir Ventura, jornalista e
imortal da Academia Brasileira de Letras.
- A liberdade de expressão absoluta talvez seja uma utopia: não existe nem dentro de nossa
casa. Mas numa sociedade democrática, os seus limites só podem ser determinados por leis, pela
Justiça, que é a instância a que se deve recorrer - pondera Zuenir.
É o que diria um espírito aberto como o do inglês Stuart Mill (1806-1873), farol do liberalismo:
a única finalidade que autoriza a humanidade a intervir na liberdade de ação de seus membros é a
proteção de si mesma. O problema de tal raciocínio é quando a lei não responde a todos os casos -
e eles costumam ser muitos e variados. Ou, por outra, a mera existência de leis evita que um princípio
seja reversível, ao considerar intolerável uma declaração que outros na mesma sociedade entendam
ser tolerável?
- Na chacina do Charlie Hebdo, os assassinos não recorreram nem à bárbara Lei de Talião, a
do olho por olho, a da "reciprocidade". Para esses novos bárbaros, o extermínio físico é a única
maneira de revidar uma suposta ofensa - protesta Zuenir.
O autor de Cidade partida (Companhia das Letras, 1994) aqui ecoa um limite à liberdade de
expressão herdado do Iluminismo, cunhado num contexto de redução dos poderes de natureza
religiosa e aumento de uma concepção dirigista do Estado.
Não por acaso, Voltaire prega, em Tratado sobre a tolerância (1763), que os homens devem
começar por não serem fanáticos para merecerem a tolerância. A lei francesa é mergulhada nesse
ideário anticlerical: não pune a blasfêmia, mas veta qualquer apelo ao ódio religioso ou apologia a
crimes contra a humanidade. Daí viria a justificativa para a prisão de Dieudonné.
Brigitte Bardot foi multada por ter escrito, em 2006, que os muçulmanos "estão destruindo
nosso país", enquanto o escritor Michel Houellebecq foi inocentado da acusação de dizer que o Islã
"é a religião estúpida". Segundo Alexander Stille, da revista The New Yorker, Bardot transpirou
hostilidade contra muçulmanos enquanto Houellebecq estava criticando sua religião - o que configura
blasfêmia, mas não crime na França.
Relativismo
O exercício da liberdade de expressão não é absoluto, como lembram Zuenir e Stille. Se um
contexto cultural pode fundar critérios e limites tão distintos daqueles que adotaríamos para a
liberdade de expressão, talvez ele seja um princípio menos universal do que se imaginava.
Para o filósofo Diogo Pires Aurélio, professor da Universidade Nova de Lisboa, por princípio,
a liberdade de expressão só deve ser negada a quem pretenda limitá-la.

- É isso o que distingue a democracia dos outros regimes: não reconhecer nenhuma doutrina
ou opinião como indiscutível, a ponto de não poder ser criticada - diz ele.
Em Um fio de nada: ensaio sobre a tolerância (Martins Fontes, 2010), Diogo Pires lembra, no
entanto, que determinar se uma ação ou declaração é intolerante é uma interpretação, "processo
global" em que entram não só regras de linguagem e lógica, mas crenças e a situação de quem
interpreta. Em consequência, os limites à tolerância não assentam em quaisquer premissas racionais
universalmente significantes e pertinentes.
Paradoxo da tolerância
Nos EUA, a Suprema Corte manteve o direito de manifestação de passeata neonazista que
atravessou um vilarejo de descendentes do holocausto. Mas em nome da segurança nacional, o
Estado persegue Julian Assange, do WikiLeaks, por exercer a liberdade de divulgar documentos que
o governo considera sigilosos. Como os que provaram a espionagem sobre a presidenta Dilma
Rousseff. Os casos francês e norte-americano mostram a dificuldade de determinar quando uma
ofensa deixa de ser ofensa. Quem deve ter direito a tal liberdade? Só quem emite opinião que a
maioria aceita? Ou todos, até os de ideias que a maior parte odeia?
- Democracia não é a prevalência da vontade da maioria, mas a garantia do direito à
discussão, ao acesso à informação antes das decisões, à participação na vida pública e à formação
livre da personalidade - diz o constitucionalista Daniel Sarmento.
Para ele, só a neutralidade do Estado, a partir da inteira liberdade de todos, pode escapar das
armadilhas da mitificação sobre o assunto.
- O direito à liberdade de expressão, para ser válido, deve garantir a manifestação de
pensamentos que até magoem ou ofendam. Críticas duras, sátiras, humor corrosivo e de mau gosto
devem ser simplesmente tolerados.
O que não significa que não se possa criticar o mau gosto.
- Um discurso deve ser combatido com mais discurso. É preciso proteger quem se manifesta.
Proteger mesmo as ideias que consideramos odiosas. A premissa não pode ser que a sociedade não
tem maturidade para avaliar - explica Sarmento.
O filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994) apontava o "paradoxo da tolerância" como o da
vida contemporânea: a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da própria tolerância. Se
ampliamos os limites do que é tolerável àqueles que são intolerantes, a sociedade deve estar
preparada para reagir ao intolerante, caso contrário não vai prevalecer a tolerância.
Seus críticos o acusaram de "ingenuidade semântica", lembra Diogo Pires Aurélio: a condição
para esse preceito ser usado é a aceitação de que há um conjunto de regras inquestionáveis, superior
aos diversos tribalismos. O fato de alguém não aceitá-las coloca a pessoa fora do seu espaço de
aplicação. Mas a se levar ao pé da letra tal ideia, até a organizações e pessoas contrários à sociedade
liberal e democrática, como partidos fascistas ou manifestantes de passeatas pela volta à ditadura
militar no Brasil, como ocorreu em 2014, deveria ser negado o direito à liberdade de expressão, pois
nem fazem segredo de que suprimiriam liberdades caso conquistassem o poder. Tal critério é
insuficiente para sabermos como agir.
- A história da democracia mostrou que pode haver sátira e crítica de qualquer opinião, sem
que daí resultem danos para a pessoa, o bom nome ou os bens de alguma pessoa privada. Permitir
que um grupo, minoritário ou majoritário, defina aquilo que os outros podem dizer sobre as suas
próprias crenças e atitudes, é acabar com a liberdade de expressão. Se as repúblicas holandesas do
século 17 atendessem às exigências de calvinistas, judeus e católicos, as obras de Galileu ou
Espinosa não teriam sido publicadas, por serem ofensivas e faltarem ao respeito a uma ou a várias
dessas confissões religiosas - diz o filósofo.
Ódio
A exceção à regra é o discurso de ódio, a apologia da intolerância política, racial ou religiosa,
que constitua incitamento à discriminação ou hostilidade. Daniel Sarmento diz que a Justiça de vários
países tem entendido que manifestações que incitam ao ódio não devem ser protegidas. Para Renato
Janine Ribeiro, professor titular de ética e filosofia política na USP, a questão central é saber agir em
casos em que há fronteira delicada entre a expressão livre e o crime.
- O grande limite para a liberdade de expressão é o crime, o que inclui a propaganda de ódio.
Isso não pode ser considerado trivial- diz Renato.
Autor de O afeto autoritário (Ateliê Editorial, 2004), Renato considera que o desprezo
doCharlie Hebdo pela falsa altivez não está no mesmo patamar dos incitadores do ódio.
- O jornal ataca a prepotência do poder, o discurso que oprime mulheres, não só por líderes
muçulmanos, mas maridos e pais. Jamais pregou o assassinato ou a exclusão.
Mas essa não é a questão em jogo, diz ele. O ponto é estabelecer um parâmetro estável de
julgamento, saber qual circunstância converte em crime o ato de dizer "O negro é inferior" ou "O judeu
é ladrão". Só é crime quando o dito se converte em ato? Ou mesmo antes do ato?
- É engano acreditar que palavras não causam mal. Elas têm poder. Seja na imprensa, no
sacerdote que diz ter a chave do céu. Falar pode, sim, ser um ato criminoso, pois a distância entre
falar e agir muitas vezes é a de um passo. Cada caso deve ser avaliado. Mas pregar preconceito é
um ato criminoso e isso deve estar claro - explica Renato.
A posteriori
O norte-americano Oliver Wendell Holmes (1809-1894) dizia que a liberdade de expressão
não protege o sujeito que grita "Fogo!" num teatro lotado. Para Carlos Eduardo Sandano, especialista
em epistemologia do jornalismo e professor da Universidade Mackenzie, tudo depende de como se
assume a responsabilidade ao lidar com o ato de expressar-se.
- Não há exatamente uma fronteira, o que pode e não pode. Nem deve existir um Estado ou
instituição dizendo o que pode e não pode, porque aí a gente recai na censura. Quem faz uso da
liberdade de expressão deve assumir a responsabilidade em relação a isso e assumir a
responsabilidade é pensar nas consequências - afirma Sandano, em podcast produzido pela
Universidade Estadual Paulista.
A contestação à liberdade de falar o que quiser deve ser sempre posterior à expressão,
concorda Carlos Alberto di Franco, advogado e doutor em comunicação pela Universidade de
Navarra, colunista de O Estado de S. Paulo atento ao debate sobre o tema.
- A tragédia do Charlie não é um episódio qualquer. Está-se mexendo em área delicada, a
relação com o mundo islâmico de paz e um segmento violento que age em seu nome, e a relação
com uma comunidade marginalizada na França. Mesmo assim, não se deve impedir nenhum tipo de
veiculação ou expressão, até a abusiva. Isso deve ser enfrentado a posteriori e com muita firmeza -
avalia.
Para Carlos Alberto, é preciso cuidado para não se dar ao governo o aval para que ele, a seu
critério, decida o que se pode ou não ser dito. Charges mexendo no miolo de sentimentos religiosos,
como faz o Charlie Hebdo, parecem a ele "mais do que mero exercício da liberdade de expressão",
mas o risco do controle sobre elas seria "infinitamente pior".
- É preciso liberdade ampla de expressão, e medidas judiciais posteriores muito fortes, que
ajudem a sociedade ou a pessoa afetada a penalizar o que julgar excessivo. Toda vez que se cerceia,
ainda que com motivo justo, as consequências serão piores - diz ele.
Diálogo
Há uma tradição internacional de preservação do diálogo como critério. Nos EUA, a Corte
Suprema adotou a doutrina do clear and present danger (perigo claro e imediato), para determinar
em que circunstâncias pode ser colocada em questão a 1ª Emenda constitucional, que protege esse
direito no país.
Sob tal preceito, pode-se restringir a manifestação de pensamento quando há perigo iminente,
em que não há tempo para iniciar o debate. Para haver debate é preciso lacuna de tempo que impeça
a violência. Quem diz "Vamos fazer a revolução pela força" exerce sua liberdade. Mas se, no meio
da multidão, disser "Vamos destruir o prédio", não haveria tempo para iniciar qualquer debate. Do
mesmo modo, deveria ser coibida a pichação anônima em muros, como na Londrina (PR) de 1998,
com os dizeres "Acabe com o problema do menor de rua. Mate um por dia".
Renato Janine Ribeiro contesta a validade de tal critério.
- A lacuna de tempo não basta. Seria pressupor que todos têm o mesmo preparo e acesso
aos meios de comunicação, os mesmos instrumentos para processar as ideias. O pressuposto para
a liberdade de expressão é estar exposto ao diálogo, mas o crime de ódio exclui o ambiente de
diálogo. Em geral, o contato de um grupo com outro é para melhor desqualificá-lo.
No Brasil, o terreno é sinuoso porque os operadores do Direito seguem entendimentos
diversos e a desigualdade da comunicação limita o acesso público ao debate.
- Nossa tradição histórica é de desprezo pela expressão livre. Esse desprezo está lá na
maneira como fomos colonizados, nas nossas ditaduras. A Constituição de 1988 rompeu com esse
passado autoritário. Mas a cultura social e jurídica sobrevive a mudanças do marco normativo. Temos
ainda uma cultura pouco sensível à livre expressão - diz Sarmento.
Vanguarda
Segundo Sarmento, há dúvidas, por exemplo, sobre a constitucionalidade de crimes contra a
honra.
- No Brasil, a acusação de calúnia, difamação e injúria tem sido usada por pessoas poderosas
contra a crítica a suas ações. Há uma maneira assimétrica de manejar o direito à expressão,
geralmente para proteger a reputação de autoridades, governantes e celebridades que querem
escapar de críticas.
A Constituição de 88 e o Supremo Tribunal Federal estabeleceram tradição liberal no quesito.
O STF assegurou a realização de marchas da maconha (2011), afastou a restrição ao humor contra
candidatos em período eleitoral (2010) e tornou inválidas as restrições à expressão da Lei de
Imprensa (2009). Mas, segundo Sarmento, outros juízos e tribunais têm sido indiferentes à
jurisprudência constitucional. São volumosos os casos de censura judicial à imprensa e restrições
desproporcionais às liberdades comunicativas. A justiça eleitoral, por exemplo, ainda retira vídeos da
TV e da internet que considere "propaganda negativa" a candidatos.
- Muita gente no judiciário está alerta para fazer valer algum grau de restrição à liberdade
expressão - diz.
É certo que o Supremo nunca afirmou o caráter absoluto dessas liberdades públicas. A Corte
já admitiu restrições pontuais, como a criminalização de publicações racistas e o veto à divulgação
de nomes e imagens de crianças e adolescentes envolvidos em crimes, duas decisões de 2004.
Contudo, a orientação do STF é de que a liberdade comunicativa desfruta de posição
preferencial na ordem jurídica, o que lhe confere prioridade quando outros direitos fundamentais
colidem com ela.
- Queimar bandeira é uma forma de expressão. No Brasil, havia uma lei dos militares que
proibia isso, que não foi recepcionada pela Constituição de 1988. Ser preso por isso seria hoje
inconstitucional. Mas a incitação ao ódio é punida por ser crime de racismo. Em cada tipo de conflito
com direitos à honra, privacidade e igualdade, à proteção a crianças e adolescentes, a liberdade de
expressão deve receber proteção forte. Não se pode entregá-la de barato - diz Sarmento.
Fissuras
Para Renato Janine Ribeiro, o STF é avançado no melhor sentido da palavra "liberal". Mas
"manco" em direitos democráticos, que não raro envolvem liberdade de expressão.
- O Supremo, por exemplo, já deu posse a concorrentes derrotados quando Jackson Lago
(PDT) e Cássio Cunha Lima (psdb) foram cassados no Maranhão e na Paraíba, sem convocar novas
eleições, o que não é democrático - principia.
Do mesmo modo, diz Renato, o discurso antigay não é punido.
- Se um pastor falar contra a homossexualidade, o Supremo pode considerar que ele está na
esfera da liberdade da expressão. Mas não está dado que tal discurso não alimente e seja a causa
de violências contra gays.
O limite à liberdade de expressão seria, afinal, o dano causado? Se um católico bate boca
com um evangélico, ainda que um deles se sinta ofendido, ambos têm o direito de discutir suas ideias.
Mas se um deles organiza um protesto na porta do outro, a questão muda e vira incitação à
violência, a ser impedida pelo Estado.
- A democracia reconhece quem é contra a democracia. Mas muita coisa é tolerada quando
a democracia não está em risco. Simplesmente se deixa que bandos de malucos falem o que quiser.
Se o bando cresce, e só aí queremos tirar seu direito ao voto, por exemplo, será uma crise. Seria
preciso cortar pela raiz. O que fazer? - pergunta Renato.
Dessa ideia não escaparia nem o preceito segundo o qual onde o direito de um começa o do
outro termina. Um dos limites à expressão livre estaria na preservação da intimidade ou reputação,
por exemplo. Mas nem sempre é claro onde começa um direito e acaba outro.
- Um biógrafo descobre que seu biografado teve um caso extraconjugal, e isso é importante
para seu relato. Defendemos que as biografias devem contar tudo sobre pessoas públicas e os
incomodados que nos processem. Mas essa mulher pode nunca ter tido atuação pública de impacto,
não é persona a ser exposta. Como fica a imagem dela, esteja viva ou morta? - questiona Renato.
Narrado o fato, não há reparação.
- Reputação é como cristal. Se não há como consertar o feito, a punição será em dinheiro,
certo? Libera-se tudo, mas o autor sabe que, se o fizer, perderá as calças na Justiça. É insustentável
a posição do biógrafo que não sabe se pode escrever um texto sem perder fortunas ao fazê-lo. Libera-
se tudo? Omitem-se nomes? O Brasil não chegou a uma conclusão.
O reconhecimento da igualdade das culturas vai contra o princípio liberal da igualdade dos
indivíduos. Mas o fundamentalista jamais aceitará o princípio que sobrepõe a liberdade de expressão
à autoridade religiosa. E seu esforço contra blasfemos nos soará intolerável.
- O critério deveria ser: não se pode ir contra o próprio fundamento da tolerância recíproca -
diz Renato.
Nem a isso os especialistas aderem de forma unânime. Talvez descubramos ao final ser
impossível seguir regras claras. Tudo dependerá de como cada cultura encara a diferença entre as
pessoas. E sobre isso, o Brasil talvez tenha ao menos uma lição a dar aos franceses. Um bispo
neopentecostal já chutou a imagem de Maria via satélite e nem por isso um católico o metralhou.
Qualquer decisão que tomarmos vai denunciar nosso ponto de partida, se o da igualdade de
todas as pessoas ou da igualdade de todas as culturas. Não há um modelo universal de soluções.
Apenas a certeza de que o reconhecimento do indivíduo sem o de suas referências comunitárias (e
vice-versa) degenera em intolerância.

Texto 28: Educação para as Relações Étnico-Raciais

A Educação para as Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afrobrasi-


leira e Africana nas escolas estaduais do estado da Bahia tem intersecção com todos os níveis e
modalidades de ensino. Na Educação Básica, o objetivo é implementar, produzir e divulgar conheci-
mentos, atitudes, posturas e valores que promovam aos gestores/as, professores/as e estudantes
quanto à promoção da igualdade étnico-racial no cotidiano das unidades escolares. Dessa forma,
reafirma-se o compromisso desse órgão governamental com a promoção de uma educação anti-
racista e de valorização e efetivação da história e cultura africana e afro-brasileira em nosso estado.
As práticas discriminatórias, racistas e sexistas bem como as desigualdades econômicas têm
repercussões diretas no fazer pedagógico do cotidiano escolar e no rendimento dos estudantes. Di-
ante desta compreensão, a Secretaria da Educação do Estado, atenta às demandas educacionais
contemporâneas que têm suporte na concepção de igualdade, na multidisciplinaridade e na diversi-
dade étnico-racial, assume como meta prioritária tornar a Bahia referência para a implementação de
políticas públicas educacionais para a inclusão do ensino de história e cultura das populações negras
na educação escolar. Esta implementação exige maior investimento na reorientação curricular, na
formação inicial e continuada de educadoras/es, na revisão das metas orçamentárias e na criação
de uma gestão pública democrática e efetivamente inclusiva.
A Lei nº 9.394/96 dispõe:
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares,
torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
(Incluído pela Lei nº 10.639, de 9.1.2003)
A Lei nº 11.645/08 altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº
10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para
incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-
Brasileira e Indígena”.

Outras referências legais:


 Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989
 Lei nº 10.558, de 13 de novembro de 2002
 Lei nº 10.678, de 23 de maio de 2003
 Decreto nº 4.876, de 12 de novembro de 2003
 Decreto nº 4.886, de 20 de novembro de 2003

Documentos normativos do CNE sobre o assunto:


 Pareceres e Resoluções sobre Educação das Relações Étnico-Raciais

Fonte: http://escolas.educacao.ba.gov.br/etnicoraciais#sthash.XUzwddTO.dpuf

Texto 29: Diretrizes Curriculares Nacionais Para A Educação Das Relações Étnico-Raciais E
Para O Ensino De História E Cultura Afro-Brasileira E Africana

O Conselho Nacional de Educação, pela Resolução CP/CNE nº 1, de 17 de junho de 2004


(DOU nº 118, 22/6/2004, Seção 1, p. 11), instituiu diretrizes curriculares nacionais para a educação
das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, a serem
observadas pelas instituições, em todos os níveis e ensino, em especial, por instituições que
desenvolvem programas de formação inicial e continuada de professores. A resolução tem por base
o Parecer CP/CNE nº 3, de 10 de março de 2004, homologado pelo Ministro da Educação, em 19 de
maio de 2004. As decisões do Conselho Nacional de Educação cumprem a Lei nº 10.639, de 9 de
janeiro de 2003 (DOU nº 8, 10/1/2002, Seção 1, p. 1), que altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro
de 1996 (LDB), para tornar obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira na Educação
Básica. A lei dispõe que o conteúdo programático incluirá o estudo da História da África e dos
Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade
nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes
à História do Brasil. Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no
âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e
História Brasileiras. Estabelece, ainda, o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência
Negra". A resolução determina que as instituições de ensino superior incluirão, nos conteúdos de
disciplinas e atividades curriculares dos cursos que ministram, a educação das relações étnicoraciais,
bem como o tratamento de questões e temáticas que dizem respeito aos afrodescendentes, nos
termos explicitados no citado Parecer CP/CNE 3/2004. O cumprimento das referidas diretrizes
curriculares será considerado na avaliação das condições de ensino e na avaliação institucional,
realizadas em processos de credenciamento e recredenciamento de instituições de ensino superior
e na autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento de cursos superiores. A educação
das relações étnico-raciais tem por objetivo a divulgação e produção de conhecimentos, bem como
de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos quanto à pluralidade étnico-racial, tornando-
os capazes de interagir e de negociar objetivos comuns que garantam, a todos, respeito aos direitos
legais e valorização de identidade, na busca da consolidação da democracia brasileira. O ensino da
história e cultura afro-brasileira e africana tem por objetivo o reconhecimento e valorização da
identidade, história e cultura dos afro-brasileiros, bem como a garantia de reconhecimento e
igualdade de valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado das indígenas, européias,
asiáticas. Nas instituições de ensino superior, a educação das relações étnico-raciais e o estudo de
história e cultura afro-brasileira e história e cultura africana poderão ser desenvolvidos em ƒ
disciplinas curriculares; ƒ atividades complementares; ƒ conteúdos de disciplinas curriculares; ƒ
iniciação científica / práticas investigativas; ƒ extensão (cursos e serviços); ƒ atividades
extracurriculares (por exemplo, no dia 20 de novembro, de cada ano, programar evento que assinale
o Dia Nacional da Consciência Negra). Na organização curricular dos cursos superiores
(licenciaturas) destinados à formação de professores para a Educação Básica, a História e Cultura
Afro-Brasileira deve ser disciplina obrigatória, em especial nas áreas de Educação Artística e de
Literatura e História Brasileiras. As instituições de ensino, em todos os níveis, devem promover ampla
divulgação do Parecer CP/CNE 3/2004 e da Resolução CP/CNE nº 1/2004.