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CONCILIAÇÃO E MEDIAÇÃO NA ÓTICA DO NOVO CPC

1. Noções Gerais

Uma das matérias que mais gerou debates, o CPC/2015 inovou ao trazer a
obrigatoriedade da realização da audiência de autocomposição, tal como já
ocorria em procedimentos como o dos Juizados Especiais Cíveis da Lei
9099/1995.

Pode-se dizer que isso decorre da diretriz contida no artigo 2º do novel Estatuto,
que abarcada dentro das normas processuais fundamentais, traz no seu
parágrafo 3º o estímulo ao uso de meios de solução consensual de conflitos.

Tanto é assim, Nas ações envolvendo Direito de Família, por força do art. 695 e
seus parágrafos do novo Código, o mandado de citação conterá apenas os
dados para audiência de conciliação ou mediação e estará
desacompanhado da petição inicial, tudo a propiciar ênfase ao início de
tratativas e não ao exercício de defesa.

E, diferente do que ocorria no Código de 1973, o novo CPC traz uma seção
destinada a tratar sobre os Conciliadores e Mediadores judiciais, bem como traz
no artigo 334 a parte procedimental da audiência de Conciliação ou
Mediação.

2. Conciliação X Mediação

De início vale trazer essa diferenciação, contida inclusive no CPC/2015 em seu


artigo 165.

Segundo o Código, na conciliação, o conciliador, atuará preferencialmente


nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes, poderá sugerir
soluções para o litígio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de
constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem.

Por sua vez, na mediação, o mediador, atuará preferencialmente nos casos em


que houver vínculo anterior entre as partes, auxiliará aos interessados a
compreender as questões e os interesses em conflito, de modo que eles possam,
pelo restabelecimento da comunicação, identificar, por si próprias soluções
consensuais que gerem benefícios mútuos.
De todo modo, tanto a Conciliação quanto a Mediação estão pautadas pelos
seguintes princípios:

Independência: A atuação de mediadores e conciliadores deve se dar de


forma livre e autônoma, sem qualquer forma de subordinação, influência ou
pressão com relação às partes envolvidas na disputa;

Imparcialidade: A atuação de mediadores e conciliadores deve se dar com


ausência de favoritismo, preferência ou preconceito, de maneira que valores
pessoais não interfiram na atividade. Mediadores e conciliadores devem atuar
de maneira equidistante e livre de quaisquer comprometimentos, sejam de que
ordem forem com relação às partes envolvidas na disputa e jamais devem
aceitar qualquer espécie de favor ou presente;

Autonomia da vontade: A atuação de mediadores e conciliadores deve


respeitar os diferentes pontos de vista das partes, permitindo-lhes a liberdade
para chegar a suas próprias decisões, voluntárias e não coercitivas, em todo e
qualquer momento do processo, sendo-lhes facultado, inclusive, a desistência
e a interrupção da mediação e da conciliação a qualquer momento, se assim
lhes aprouver;

Confidencialidade, estendendo-se a todas as informações produzidas no curso


do procedimento, cujo teor não poderá ser utilizado para fim diverso daquele
previsto por expressa deliberação das partes. Além disso, o conciliador e o
mediador, assim como os membros de suas equipes, não poderão divulgar ou
depor acerca de fatos ou elementos oriundos da conciliação ou da mediação;

Oralidade: processo é oral, e a estrutura de comunicação é aberta e flexível. A


preocupação na mediação é a de que as partes compreendam as visões e
perspectivas umas das outras, mesmo sem necessariamente concordar, e que
seus interesses sejam discutidos, para que opções possam ser exploradas sem
comprometimento, até que um acordo seja alcançado;

Informalidade: é um processo informal, construído pelas próprias partes com


ajuda do mediador, em que estas devem focar mais seus interesses e possíveis
soluções para o problema do que em formalmente expor e convencer umas às
outras sobre suas posições jurídicas;

Decisão informada: o jurisdicionado deve estar plenamente informado quanto


aos seus direitos e ao contexto fático no qual está inserido.

Pontua-se ainda que, são admitidas a aplicação de técnicas negociais, com o


objetivo de proporcionar ambiente favorável à autocomposição.
Por fim, é possível afirmar que tanto a mediação quanto a conciliação serão
regidas conforme a livre autonomia dos interessados, inclusive no que diz
respeito à definição das regras procedimentais, ou seja, o conciliador ou o
mediador e as partes definirão a sua estrutura e desenvolvimento, que
dependerá do tipo de disputa, do estilo do mediador e das partes, e do
programa judicial em que o processo está inserido.

3. Dos Conciliadores e Mediadores

Os conciliadores, os mediadores e as câmaras privadas de conciliação e


mediação serão inscritos em cadastro nacional e em cadastro de tribunal de
justiça ou de tribunal regional federal, que manterá registro de profissionais
habilitados, com indicação de sua área profissional.

Por câmaras privadas pode-se entender qualquer empresa ou instituição


privada que desempenhe a atividade de mediação.

Efetivado o registro, que poderá ser precedido de concurso público, o tribunal


remeterá ao diretor do foro da comarca, seção ou subseção judiciária onde
atuará o conciliador ou o mediador os dados necessários para que seu nome
passe a constar da respectiva lista, a ser observada na distribuição alternada e
aleatória, respeitado o princípio da igualdade dentro da mesma área de
atuação profissional.

Além disso, os conciliadores e os mediadores deverão ter uma capacitação


mínima para o desempenho de suas atividades por meio de curso realizado por
entidade credenciada, conforme parâmetro curricular definido pelo Conselho
Nacional de Justiça em conjunto com o Ministério da Justiça, para poder
requerer sua inscrição no cadastro nacional e no cadastro de tribunal de justiça
ou de tribunal regional federal.

No cadastro das câmaras e do cadastro de conciliadores e mediadores


constarão todos os dados relevantes para a sua atuação, tais como o número
de processos de que participou, o sucesso ou insucesso da atividade, a matéria
sobre a qual versou a controvérsia, bem como outros dados que o tribunal julgar
relevantes, sendo tais dados classificados sistematicamente pelo tribunal, que
os publicará, ao menos anualmente, para conhecimento da população e para
fins estatísticos e de avaliação da conciliação, da mediação, das câmaras
privadas de conciliação e de mediação, dos conciliadores e dos mediadores.
O tribunal poderá optar pela criação de quadro próprio de conciliadores e
mediadores, a ser preenchido por concurso público de provas e títulos.

O conciliador e o mediador receberão pelo seu trabalho remuneração prevista


em tabela fixada pelo tribunal, conforme parâmetros estabelecidos pelo
Conselho Nacional de Justiça, salvo se integrante de quadro próprio do tribunal.

Ainda, a mediação e a conciliação podem ser realizadas como trabalho


voluntário, observada a legislação pertinente e a regulamentação do tribunal,
devendo estes determinar o percentual de audiências não remuneradas que
deverão ser suportadas pelas câmaras privadas de conciliação e mediação,
com o fim de atender aos processos em que deferida gratuidade da justiça,
como contrapartida de seu credenciamento.

Uma vez cadastrados, os conciliadores e mediadores judiciais, se advogados,


estarão impedidos de exercer a advocacia nos juízos em que desempenhem
suas funções, tendo tal previsão o escopo de evitar os efeitos colaterais
advindos das vantagens que a proximidade dos mediadores e conciliadores
com o juízo pode lhes trazer, em relação aos demais advogados.

Além disso, o conciliador e o mediador ficam impedidos, pelo prazo de 1 ano,


contado do término da última audiência em que atuaram, de assessorar,
representar ou patrocinar qualquer das partes.

Por serem auxiliares da justiça, nos termos do inciso II do artigo 148 do NCPC, aos
conciliadores e mediadores são aplicáveis as causas de impedimento e
suspeição dispostas nos artigos 144 e 145, respectivamente.

No caso de impedimento, o conciliador ou mediador o comunicará


imediatamente, de preferência por meio eletrônico, e devolverá os autos ao juiz
do processo ou ao coordenador do centro judiciário de solução de conflitos,
devendo este realizar nova distribuição. E se a causa de impedimento for
apurada quando já iniciado o procedimento, a atividade será interrompida,
lavrando-se ata com relatório do ocorrido e solicitação de distribuição para
novo conciliador ou mediador.

Caso haja impossibilidade temporária do exercício da função, o conciliador ou


mediador informará o fato ao centro, preferencialmente por meio eletrônico,
para que, durante o período em que perdurar a impossibilidade, não haja novas
distribuições.

Em regra, caberá às partes escolher o conciliador ou mediador que poderá ou


não estar cadastrado no tribunal, até mesmo em observância ao principio da
autonomia da vontade. Ainda, haverá a designação de mais de um mediador
ou conciliador sempre que recomendável.

Porém inexistindo acordo quanto à escolha do mediador ou conciliador, haverá


distribuição entre aqueles cadastrados no registro do tribunal, observada a
respectiva formação.

O CPC/2015 traz 2 hipóteses de exclusão dos conciliadores e mediadores jamais


aplicada aos demais auxiliares da justiça:

Agir com dolo ou culpa na condução da conciliação ou da mediação sob sua


responsabilidade ou violar qualquer dos deveres de sigilo, divulgando ou
depondo acerca de fatos ou elementos oriundos da conciliação ou mediação;

Atuar em procedimento de mediação ou conciliação, apesar de impedido ou


suspeito.

Tais casos de exclusão serão apurados em processo administrativo.

Por fim, o Código ainda traz que o conciliador ou mediador possa ser afastado
temporariamente de suas funções por até 180 dias caso o juiz do processo ou o
juiz coordenador do centro de conciliação e mediação, verifique atuação
inadequada, devendo o fato imediatamente ao tribunal para instauração do
respectivo processo administrativo.

4. Das Câmaras de Conciliação e Mediação do Poder Público

O CPC/2015 traz que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios


criarão câmaras de mediação e conciliação, com atribuições relacionadas à
solução consensual de conflitos no âmbito administrativo.

Tal matéria não é inciativa legislativa isolada acerca do tema. A Lei nº


13.140/2015 disciplina minuciosamente a mediação (a conciliação é tratada
esparsamente) com sobreposição de muitas normas em relação ao CPC, como
já exposto em outro artigo.

A título exemplificativo, a aludida Lei de Mediação, diferentemente das


previsões do novo CPC, que preservam irrestrito sigilo e confidencialidade na
atuação do conciliador e mediador, e impede expressamente seu depoimento
acerca de fatos ou elementos oriundos da conciliação ou da mediação, a Lei
de Mediação, referindo-se apenas à mediação, excepciona do sigilo as
informações relativas a crime de ação pública e as de interesse da
Administração Tributária.

De todo modo, o novo CPC, traz as seguintes atribuições para tais câmaras:

Dirimir conflitos envolvendo órgãos e entidades da administração pública;

Avaliar a admissibilidade dos pedidos de resolução de conflitos, por meio de


conciliação, no âmbito da administração pública;

Promover, quando couber, a celebração de termo de ajustamento de


conduta.

5. Da Audiência de Conciliação ou Mediação

Tema que abordei recentemente em outro artigo em que trouxe a forma pela
qual o Novel Diploma trata o início do procedimento comum ordinário, a
Audiência de Conciliação ou Mediação está disposta no artigo 334 do NCPC.

Estando a petição inicial apta e não sendo o caso de improcedência liminar do


pedido, o juiz designará audiência de conciliação ou de mediação com
antecedência mínima de 30 (trinta) dias, devendo ser citado o réu com pelo
menos 20 (vinte) dias de antecedência.

O conciliador ou mediador, onde houver, necessariamente atuará na


audiência, se preciso poderá haver mais de uma sessão consensual em, no
máximo, até 2 meses da data de realização da primeira.

A audiência não será realizada se ambas as partes, autor e réu, manifestarem


expressamente desinteresse na composição consensual (ou seja, se apenas
uma das partes exarar seu desinteresse, a audiência será realizada mesmo assim
devido ao silêncio da outra parte) e no caso de que o direito discutido não
permita à auto composição.
Além disso, havendo litisconsórcio, o desinteresse na realização da audiência
deve ser manifestado por todos os litisconsortes.

O momento para que seja indicado o interesse na autocomposição será, para


o autor, na própria petição inicial e para o réu, em petição, apresentada com
10 dias de antecedência com relação à data da audiência.

A audiência de conciliação ou de mediação pode realizar-se por meio


eletrônico, nos termos da lei e a autocomposição obtida será reduzida a termo
e homologada por sentença.

Por fim, parte poderá constituir representante, por meio de procuração


específica, com poderes para negociar e transigir.

Referencias Bibliográficas:

OAB/RS, ESA – Novo Código de Processo Civil Anotado. Porto Alegre. Rio Grande
do Sul, 2015.

OAB/PR, AASP – Código de Processo Civil Anotado. 2015