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Olhares

das Ciências
sobre as Crianças

Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância


Cadernos Pedagógicos – volume 1

Brasília, janeiro de 2005


Organização: Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar – OMEP, Brasil

Coordenação: Maria Helena Lopes

Elaboração:
Elaine de Menezes Castro, Euclides Redin, Maria Helena Lopes, Marise Campos

Colaboração: Maria da Graça Souza Horn, Vital Didonet

Revisão Técnica:
UNESCO (Alessandra Schneider),
Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (Alceu Terra Nascimento,
Jéferson dos Santos, Márcio Mostardeiro)

Revisão: Ana Maria Marschall, Marise Campos

Capa:
Edson Fogaça

Projeto Gráfico e Edição de Arte:


Estúdio ADULTOS e CRIANÇAS CRIATIVAS®

© UNESCO, 2005

Olhares das Ciências sobre as Crianças. – Brasília: UNESCO,


Banco Mundial, Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, 2005.
62 p. – (Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância:
Cadernos Pedagógicos; 1)

1. Educação Infantil – Ensino de Ciências 2. Ensino de Ciências


3. Educação Pré-escolar – Ensino de Ciências I. UNESCO II. Série
CDD 372

BR/2005/PI/H/2
Cadernos Pedagógicos – volume 1 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

Neste texto, apresentamos uma sínte-


esenvolvimento se relativa ao desenvolvimento e à
Infantil e aprendizagem, abordados sob diversos
aspectos, na perspectiva de alguns auto-
Aprendizagem res, sem a intenção de esgotar as teorias
Elaine de Menezes Castro por eles elaboradas. Nosso objetivo é
fundamentar e ilustrar esses conteúdos.
O desenvolvimento infantil é um
processo dinâmico, vivido aos poucos, A psicologia do desenvolvimento
gradativamente, de modo que a criança infantil é a ciência que estrutura conhe-
acumule experiências e conhecimentos, cimentos relativos à evolução das mu-
inserida e integrada ao meio em que vive danças e à compreensão das seqüências
para que possa despertar e desabrochar do desenvolvimento da criança com a
suas capacidades e, assim, se realizar finalidade de compreender sua essência,
plenamente como pessoa. suas necessidades e suas características
Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

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específicas com vistas ao maior enten- • receber, dos familiares e das


dimento do comportamento infantil e ao pessoas que cuidam dela, tudo aquilo
melhor atendimento da criança. de que necessita quanto à alimenta-
ção, à higiene, à saúde, à segurança e
Condições para o Desenvolvimento ao afeto;
Infantil • ter seu processo de maturação
Para que uma criança se desenvolva psiconeurológico respeitado, porque
adequadamente, é necessário: dele depende o surgimento e o desen-
• ser acolhida em suas características volvimento de suas capacidades moto-
pessoais, aceitando-se o sexo com que ras, intelectuais, sociais, afetivas e
nasceu, e suas características particulares morais;
que, às vezes, incluem deficiências que • ter oportunidades de vivências
podem torná-la uma criança com neces- físicas, psicológicas e sociais para que
sidades especiais; possa exercitar plenamente suas
potencialidades;
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

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• ser estimulada de acordo com o Aspectos Físicos do Desenvolvimento


nível de desenvolvimento em que se Infantil
encontra. As seqüências do desenvolvimento
físico são as mesmas para todos, mesmo
“O período que vai do nascimento até
para as crianças mais incomuns, embora
os oito anos de idade é considerado
o ritmo varie muito de uma para outra.
crucial para a aquisição de
conhecimentos básicos, do Muitas mudanças físicas ocorrem sem
desenvolvimento conceitual e das que o indivíduo precise se esforçar para
habilidades cognitivas, bem como para que elas aconteçam. É o caso, por exem-
o desenvolvimento lingüístico, plo, do crescimento da pele. Outras
ao qual está intimamente vinculado.” mudanças dependem de oportunidades e
Ana Maria Borzone de Manrique de vivências; entre elas, estão a coorde-
nação motora e a fala.
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

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A alimentação é um dos aspectos A influência do ambiente é significati-


mais importantes para o crescimento va: quando a criança é bem nutrida,
físico e para um bom desempenho na adequadamente estimulada, tem liberda-
aprendizagem da criança. É preciso de física e oportunidades para praticar
fornecer alimentos adequados às necessi- habilidades motoras e para brincar, seu
dades de nutrição específica de cada desenvolvimento motor provavelmente
idade em que a criança se encontra. Os será normal.
músculos, os ossos e, em especial, o
sistema nervoso sofrem prejuízos signifi- Vygotsky afirma que, partindo de
cativos se não houver uma boa nutrição. estruturas orgânicas elementares (sistema
nervoso, órgãos dos sentidos), a criança
Quando a criança nasce, as estruturas constrói funções mentais complexas,
nervosas já devem estar formadas sob o
ponto de vista anatômico. É necessária,
ainda, uma evolução funcional que
deverá ocorrer principalmente através da
mielinização (maturação), que possibilita
o aperfeiçoamento do sistema nervoso
central e torna possível o surgimento e o
aprimoramento de diversas capacidades,
como andar, falar e ler. Ao mesmo tempo
em que acontece o processo de
maturação do sistema nervoso, se realiza
o desenvolvimento psicomotor. As habili-
dades motoras são adquiridas em ordem
definida, de simples a complexas,
seguindo os princípios cefalocaudal e
proximodistal. Depois de adquirir o
controle de movimentos separados de
braços, mãos e pés, a criança será capaz
de coordenar esses movimentos para
caminhar. Com esses recursos, as primei-
ras explorações e experimentações tor-
Foto: Sebastião Barbosa

nam-se possíveis. A partir daí, as


vivências deverão aperfeiçoá-los.

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como prestar atenção, memorizar, imagi- tribuirão para formar sua personalidade.
nar, raciocinar, à medida que se apropria
“Quando existe sincronia, ou seja,
de instrumentos simbólicos conhecidos
quando a experiência ou a
nas interações sociais realizadas em seu
aprendizagem acontecem no momento
meio (família, escola). As vivências propício de maturação, tem-se um bom
ocorridas nesses contextos oportunizam ponto de partida para o desabrochar de
que a criança experimente e responda a uma personalidade bem integrada.”
diferentes situações. Dessa forma, poderá J.F. Prieto – Aspectos Intelectuais do Desenvolvimento Infantil
aprender, por exemplo, a maneira de
memorizar e de raciocinar vigente em Piaget afirmou que a atividade inte-
determinada cultura. Essas vivências con- lectual não pode ser separada do funcio-
namento total do organismo. Para que
ocorra o desenvolvimento cognitivo, é
necessário que a criança atue sobre o
meio ambiente. O conhecimento é
resultante das ações da criança. Há três
tipos de conhecimento: o conhecimento
físico, o conhecimento lógico-matemático
e o conhecimento social.
O conhecimento físico abrange as
características físicas dos objetos e dos
fatos: tamanho, forma, textura, movimen-
to, etc. Esse conhecimento é adquirido
através do contato, da observação e da
manipulação dos objetos. Os brinquedos
se tornam conhecidos através do brincar.
O conhecimento lógico-matemático
é estruturado a partir do pensar sobre as
experiências com objetos e eventos. As
ações da criança sobre os objetos é que
vão possibilitar a construção do conheci-
mento lógico-matemático. Esse conheci-
mento é produto das experiências que a
criança faz com os objetos. Muitas
vezes, é resultado de relações e

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comparações entre os brinquedos. comportamento não-intencional para um


Brincar propicia o desenvolvimento do comportamento intencional: ela coorde-
pensamento lógico. na movimentos para um fim. A partir
desse momento, a atividade torna-se
O conhecimento social é realizado exploradora: tem início o uso da inteli-
pela criança a partir de suas ações com gência prática.
outras pessoas. Na interação com outras
crianças e com os adultos, surgem as Período Pré-Operacional
oportunidades para a construção do Seguindo o caminho de sua evolução, a
conhecimento social. criança passa de um nível de inteligência
sensório-motora para a inteligência
Segundo Piaget, entre 0 e 7 anos de representacional. “Isto significa que a
idade, a criança vivencia dois períodos criança torna-se apta a representar inter-
de desenvolvimento: o período sensório- namente (mentalmente) objetos e even-
motor (0 a 2 anos) e o período pré- tos e subseqüentemente torna-se capaz
operacional (2 a 7 anos). de (cognitivamente) resolver problemas
Período Sensório-Motor através da representação”, diz
Ao nascer, um bebê apresenta apenas Wadsworth. Desse momento em diante,
comportamentos com reflexos simples. o desenvolvimento intelectual da criança
O uso dos reflexos pelo bebê é essen- se dá mais na área simbólica do que na
cial para o desenvolvimento do está- área motora.
gio em que se encontra e para o A capacidade de representação de
desenvolvimento das estruturas objetos e eventos é a principal conquis-
cognitivas dos estágios seguintes. ta do estágio pré-operacional. O surgi-
Nenhum conceito é inato. mento da função simbólica possibilita a
Todos os conceitos, incluindo o con- vivência da imitação diferida, do jogo
ceito de objeto, são desenvolvidos. A simbólico, do desenho, das imagens
consciência de que os objetos são mais mentais e da linguagem falada.
ou menos permanentes e que não são A imitação diferida é a imitação de
destruídos, quando desaparecem, é objetos e eventos já distantes há
desenvolvida a partir das experiências algum tempo. Ela só é possível porque
sensório-motoras. a criança desenvolveu a capacidade
Outra característica do período sensó- de representar mentalmente (recor-
rio-motor é o progresso da criança de um dar) o comportamento imitado.

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A criança repete um comportamento sem significado diferente de seu significado


que o modelo esteja presente. real. Ela faz com que um objeto simboli-
ze outro. Uma atividade de cunho
No jogo simbólico, a criança brinca imitativo em que situações são
com os objetos, dando a eles um representadas.
Foto: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

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O desenho realizado pela criança Para Vygotsky, na interação da criança


pré-operacional não inclui, no início, o com as outras pessoas, a linguagem tem
desejo de representar alguma coisa. O especial importância. A fala, entendida
uso precoce do lápis, do giz de cera e do como instrumento ou signo, tem um
pincel resulta nas garatujas. À medida papel fundamental de organizadora da
que se desenvolve, ela se esforça para atividade prática e das funções psicológi-
retratar pessoas, animais e objetos de cas humanas: atenção, memória, imagi-
forma mais realística. nação. Diz ele: “o momento de maior
significado no curso do desenvolvimento
As imagens mentais são representa- intelectual, que dá origem às formas
ções internas (símbolos) de objetos ou de puramente humanas de inteligência
experiências perceptivas passadas. Ima- prática e abstrata, acontece quando a
gens não são cópias de percepções fala e a atividade prática convergem”.
guardadas na mente. Elas são imitações
de percepções e a elas se assemelham.
A linguagem falada é uma forma de
conhecimento social. O desenvolvimento
da linguagem falada proporciona à
criança, além da possibilidade de um
rico intercâmbio sócio-afetivo, a facilita-
ção do desenvolvimento conceitual que
ocorre no estágio pré-operacional.
Piaget classificou as falas das crian-
ças em fala egocêntrica e fala socializa-
da. A fala egocêntrica se caracteriza pela
ausência da verdadeira comunicação:
muitas vezes, a criança fala sem ter a
intenção de se comunicar, mesmo estan-
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

do na presença de outras pessoas – são


os monólogos coletivos. A fala socializa-
da é intercomunicativa: as conversas
infantis incluem troca de idéias e a
intenção da comunicação.

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Segundo Vygotsky, o processo de O pensamento e o comportamento


desenvolvimento do pensamento e da de uma criança pré-operacional são
linguagem segue a mesma trajetória das egocêntricos, isto é, ela vê o mundo
outras funções psicológicas. O percurso apenas de seu ponto de vista, sem ter
é da atividade social, interpsíquica, para consciência de que existem outros
a atividade individualizada, intrapsí- pontos de vista. Ela acredita que todos
quica. A criança primeiramente utiliza a pensam como ela e nunca questiona
fala socializada, com a função de comu- seus próprios pensamentos. O egocen-
nicar, de manter um contato social. trismo está presente em todos os
Mais tarde, ela se torna capaz de comportamentos da criança pré-
utilizar a linguagem como instrumento operacional. A criança de 2 a 4 anos é
de pensamento, com a função de mais egocêntrica do que uma criança
adaptação pessoal. de 6 ou 7 anos.
“‘Cale a boca’, ‘não mexa’, ‘fique
quieto’, injunções contínuas de que
certas crianças são saturadas ao longo
dos dias e que são, além disso, proibições
do desejo que se expressa; proibições à
busca do prazer, essas injunções
constroem, já antes dos dois anos, a base
das personalidades neuróticas.”
Françoise Dolto

Aspectos Sócio-Afetivos do
Desenvolvimento Infantil
Segundo Wallon, o desenvolvimento
humano é um processo de individuação
crescente, que acontece desde o nasci-
mento através da interação social. O
ambiente no qual a criança está inserida
é seu recurso básico de desenvolvimen-
to. A atividade da criança é
oportunizada tanto pelos recursos mate-
riais disponíveis quanto pelas diversas
interações que vivencia com outras
pessoas. O esforço que a criança faz

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para compreender o mundo, atribuindo- da voz em suas diversas modulações.


lhe significados, obriga-a a exercitar Seus gestos são interpretados e respondi-
ações cada vez mais complexas. dos pela mãe. Em torno dos seis meses,
há uma dependência emocional, uma
Na teoria de Wallon, a dimensão simbiose afetiva, em que a mãe compre-
afetiva ocupa lugar central, tanto na ende as manifestações do bebê e este
construção da pessoa quanto na constru- identifica os comportamentos em respos-
ção do conhecimento. ta aos seus. A criança já reconhece as
Durante o estágio impulsivo-emocio- pessoas próximas, sorri ao ouvir uma voz
nal (primeiro ano de vida), o bebê é conhecida, procura a mãe e aponta
totalmente dependente e recebe tudo de objetos. Há necessidade de que alguém
que precisa das outras pessoas (mãe, pai, esteja sempre por perto para apresentar e
babá, educadora). Para obter a satisfação dar significado às coisas e, assim, orien-
de suas necessidades, ele age sobre os tar suas reações diante da realidade.
outros através de suas reações Capaz de explorar visualmente o
emocionais, que são expressas pelo ambiente, de pegar e largar os objetos, a
choro, pelo sorriso, pelos gestos. As criança aprende, então, a andar e a falar.
pessoas próximas interpretam as reações Dos 12 meses até os 3 anos, ela vive o
do bebê e agem de acordo com o período sensório-motor e projetivo.
significado que atribuem a elas: mudam- Interessa-se pela descoberta e manipula-
no de posição, dão-lhe de mamar, aco- ção dos objetos. “Projetivo” equivale a
modam-no para dormir. Assim, em “simbólico”. Tendo adquirido a função
poucas semanas, os movimentos impulsi- simbólica, seus gestos e posturas, agora,
vos que poderiam apenas manifestar traduzem idéias, simbolizam coisas. Ou
desconforto ou bem-estar tornam-se seja, sua forma de pensar o mundo está
movimentos expressivos à medida que projetada em seus atos motores.
são interpretados pelos outros. A princi-
pal relação que o bebê estabelece com o A linguagem é o recurso usado pela
ambiente é de natureza afetiva, é o criança para perguntar e descobrir o
período emocional em que as reações mundo, dando nome às coisas.
são afetivas: alegria, surpresa, medo.
Por volta de 2 a 3 anos, a criança
O bebê mantém com a mãe um constrói seu pensamento e sua identida-
“diálogo único”, ou seja, ele depende de de através de um processo de imitar a
toques, de carícias, de contatos visuais, outra pessoa e opor-se a ela. Jogos de

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alternância nos quais ela é ora o autor, percepção de si se transforma, aos pou-
ora o objeto de um mesmo gesto, auxili- cos, em consciência de si. Centrada em
am-na a diferenciar o eu e o outro. As si mesma, terá dificuldade para empres-
brincadeiras de faz-de-conta são mani- tar ou repartir, tanto os brinquedos como
festações dessas ações imitativas. Através os alimentos, manifestando grande
das atividades motoras e das imitações, a possessividade. Brincar inclui ter os
objetos para si.
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

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Ela sabe que faz parte de uma família e


está orientada quanto à idade, ao
número de irmãos e à ordem de nasci-
mento. Torna-se atenta às suas atitudes,
ao seu comportamento. Surge a necessi-
dade da imitação. Com o eu ainda frágil,
precisa da admiração dos outros para
contemplar seus desempenhos e torna-
se, em algumas ocasiões, “exibida”.
Nesse período, a criança mostrará
interesse por atividades de faz-de-conta
em que irá copiar situações vividas em
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS/Gian Calvi

seu ambiente, experimentando diversos


papéis e personagens. Brincar é, muitas
vezes, imitar. O jogo simbólico possi-
bilita a manifestação de suas fantasias,
de seus desejos, de suas necessidades.
Através das brincadeiras, ela pode reve-
lar seus sentimentos, realizar compensa-
ções, resgatar seu equilíbrio emocional.
Aos 3 anos, a criança manifesta a crise É importante que a criança experi-
de oposição caracterizada pela necessida- mente o revezamento de papéis, isto é,
de de afirmação e independência, inclu- que a ninguém seja permitida a
indo muitas rivalidades. Será a criança exclusividade sobre determinado perso-
“do contra”, que recusa as propostas dos nagem. Deve ser permitido aos meninos
adultos e que freqüentemente tem um e às meninas representar papéis
“não” como resposta. Nas palavras de masculinos e femininos. Nenhum deles
Wallon, esta é a “idade negativista do sofrerá qualquer espécie de prejuízo.
não, do eu, do meu”. Por necessidade de
auto-afirmação, ela tenta impor seu ponto Ao contrário, diferentes papéis possibi-
de vista pessoal, fazer valer seus capri- litam a vivência de diferentes sentimentos.
chos ou sua oposição. Brincar inclui experimentar diversos senti-
mentos e sensações.
Durante o período personalista (dos 3
aos 5 anos), a criança começa a se dar A prática dos jogos de regras dá à
conta de que é uma pessoa particular. criança oportunidades de aprender a

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competir, a esperar sua vez de jogar e a geral, visto que os aspectos afetivos,
lidar com sucessos e frustrações. Estas sociais e cognitivos da conduta são,
são situações lúdicas que devem propor- de fato, indissociáveis”, afirmam
cionar prazer e desenvolvimento. “A Piaget e Inhelder. Brincar proporciona
evolução afetiva e social da criança muitas aprendizagens sociais e cresci-
obedece às leis do mesmo processo mento emocional.
Os jogos coletivos, em
geral, incluem acordos
sobre as regras da brinca-
deira e a distribuição de
papéis. As crianças maio-
res exigem um bom de-
sempenho das menores.
Todas desejam “ganhar”,
mas as crianças de 5 e 6
anos são mais exigentes do
que as de 3 e 4 anos. Brin-
car é interagir, socializar-se,
divertir-se na convivência
com os iguais.
A evolução sócio-afetiva
da criança inclui necessari-
amente o brincar. A esse
respeito, cabe citar
Winnicott: “O brincar é
Esculturas Gustav Vigueland / Museu Vigueland Oslo/ Noruega / Setor das Crianças

fazer. A brincadeira é uni-


versal e é própria da saúde:
o brincar conduz aos
relacionamentos grupais. É
no brincar, e talvez apenas
no brincar, que a criança ou
o adulto fruem sua liberda-
de de criação. É no brincar,
e somente no brincar, que o

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indivíduo, criança ou adulto, pode ser “Eu sou menina”. Esse conhecimento é
criativo e utilizar sua personalidade muito importante para a construção de
integral: e é somente sendo criativo que sua auto-imagem e é determinante em
o indivíduo descobre o eu (self)”. seu comportamento.
“As crianças brincam com mais A evolução da sexualidade infantil
facilidade quando a outra pessoa pode supõe a vivência das etapas designadas
e está livre para ser brincalhona.” por Freud como fase oral, fase anal e
Donald Winnicott fase fálica, assim como a experiência da
situação edipiana e sua resolução.
Aspectos Sexuais
do Desenvolvimento Infantil A fase oral acontece durante o primeiro
Desde muito cedo, a criança tem em ano de vida. O prazer da criança está
si a convicção de “Eu sou menino” ou ligado à ingestão de alimentos, aos atos
de sugar e morder e à excitação da
mucosa dos lábios e da cavidade bucal.
Ela usa a boca para descobrir caracterís-
ticas dos objetos: forma, textura, etc.
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

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A fase anal se estende, aproximada- A angústia de castração o convence a


mente, de 1 a 3 anos. O prazer da renunciar à possessão exclusiva da mãe.
criança está centrado na excitação da Com relação à menina, a evolução em
mucosa anal, na expulsão e na conten- direção ao pai é motivada pelas decep-
ção das fezes. Segundo Freud, é uma ções em suas relações com a mãe, prin-
etapa voltada ao controle e à domi- cipalmente pela ausência do pênis.
nação. Nessa fase, a criança tem maior
clareza sobre o que é interior e o que é As pessoas que lidam com crianças
exterior a ela. Manifesta prazer na devem conhecer essa evolução e suas
manipulação dos objetos. implicações, uma vez que a compreensão
de tais aspectos interfere no modo de agir
A fase fálica abrange o período dos 3
aos 6 anos. A atenção da criança volta-se
para os genitais, principalmente para a
questão “ter ou não ter pênis”.
Os órgãos genitais tornam-se a zona
erógena dominante. Freqüentemente
acontece a masturbação. Nessa fase,
manifesta-se a curiosidade infantil.
Inicialmente a criança supõe que
meninos e meninas são iguais. Mais tarde,
ela toma consciência da diferença
anatômica dos sexos e cria as “teorias
sexuais infantis” relativas às diferenças
sexuais, à fecundação e ao nascimento.
O complexo de Édipo é vivido durante
a fase fálica. Esse complexo é formado
pela união dos desejos amorosos e hostis
da criança por seus pais. Para o menino,
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

ele se apresenta como um conflito exis-


tente entre suas tendências libidinosas,
mais ou menos genitalizadas, de possuir
sua mãe com exclusividade, e a culpabi-
lidade que ele sente por desejar, para
tanto, a desaparição de seu rival, o pai.

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dos adultos que contribuem para formar a


personalidade infantil, influindo significa-
tivamente em sua saúde psicossexual.
Uma conversa com Louisa
(5 anos e 2 meses).
“Você sabe como nascem os
gatinhos e os cachorrinhos?
Em armários embutidos.
Você tem gatinhos em casa?
Não, é a vizinha...
havia quatro vivos e um morto.”
Véronique Jgstaidt

Aspectos Morais
do Desenvolvimento Infantil
Promover o desenvolvimento da
consciência moral nas crianças inte-
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

ressa tanto a elas mesmas quanto a


seus pais e à sociedade. A identificação
com modelos positivos, a internalização
de boas regras e a disposição para segui-
los são determinantes da conduta hu-
mana frente aos outros e diante das leis
e dos costumes vigentes na comunidade.
A criança não dispõe de uma consci-
ência moral ao nascer, nem sabe quais
são os valores cultivados pela comuni- Inicialmente heterônoma, a criança
dade em que está inserida. É pela convi- vincula o poder das regras e normas à
vência com as outras pessoas, pelos presença material da pessoa que as
exemplos que irá presenciar e pelas emitiu. O certo ou errado está predeter-
orientações que deverá receber que ela minado e não sujeito às suas próprias
irá estruturar suas próprias concepções avaliações. Nessa fase da heteronomia, a
morais, as quais se traduzirão em atitude moralidade infantil está determinada
frente às normas vigentes em seu meio. pela obediência – o que Piaget chamou

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Cadernos Pedagógicos – volume 1 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

respeito mútuo é um agente no


desenvolvimento do pensamento
autônomo. O respeito mútuo é o
respeito entre iguais”, diz
Wadsworth.
Referências Bibliográficas

BEE, Helen. A criança em desenvolvimento. Porto


Alegre: Artmed, 1999.
DOLTO, Françoise. As etapas decisivas da infância. São
Paulo: Martins Fontes, 1999.
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Jean Piaget. São Paulo: Pioneira, 1986.
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dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis: Vozes,
1995.
JAGSTAIDT, Véronique. A sexualidade e a criança. São
Paulo: Manole, 1987.
OLIVEIRA, Maria Aparecida D. de. Neurofisiologia do
comportamento. Canoas: ULBRA, 1999.
PIAGET, Jean. A linguagem e o pensamento da criança.
Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1973.
PIAGET, Jean. A representação do mundo na criança.
Rio de Janeiro: Record, s.d.
PIAGET, Jean. O julgamento moral na criança. São
Paulo: Mestre Jou, 1977.
REGO, Teresa Cristina. Vigotsky: uma perspectiva
histórico-cultural da educação. Petrópolis: Vozes, 1995.
VIGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo:
Martins Fontes, 1996.
WADSWORTH, Barry. Inteligência e afetividade da
criança na Teoria de Piaget. São Paulo: Pioneira, 1993.
WALLON, Henry. As origens do pensamento da criança.
São Paulo: Manole, 1989.

de respeito unilateral. Em sua evolução,


porém, a criança encaminha-se para a
autonomia porque, com os progressos que
experimenta na vivência da cooperação
social e das ações, ela começa a ser
capaz de fazer suas próprias avaliações
morais e passa a manifestar considera-
ções sobre o que é ou não é justo. “O

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Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 1

Atividades de Estudo e Aprofundamento


Maria Helena Lopes

• Assista ao filme Uma Tarde no Berçário. Releia no texto o item relativo às


condições para o desenvolvimento infantil. Após, identifique no filme as situações em
que as crianças estão sendo atendidas adequadamente para que tenham um desen-
volvimento sadio.
• Para discutir com os colegas, responder e registrar as respostas.

Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Prodei

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A FESTA depois do parabéns?”. E convida o


Elaine de Menezes Castro amigo para brincar no pátio.

A casa está enfeitada com balões Tia Irene cuida de Leandro (1a8m)
coloridos. Muita gente circulando de um para que não caia da escada. EIe subiu
lado para outro. Crianças de todas as alguns degraus, mas não consegue des-
idades: irmãos, colegas da escola, primos cer sozinho. Diana abraça Luiza (4a3m)
e amiguinhos. Os adultos colaboram e Ihe diz: “Você está linda! Que camiseta
aqui e ali. Sobre a mesa colocam doces, bonita!”. E a mãe da menina responde:
cachorros-quentes e um bolo com cinco “Foi ela que escolheu”.
velinhas. É o aniversário de Mariane. Fernando (2a1m) pega o carrinho com
No quintal, um grupo de meninos que Fábio (1a4m) está brincando e sai
conversa: vão brincar de mocinho e correndo. O menino chora, mas Fernan-
bandido. Sérgio (6a2m) será o mocinho, do diz: “É meu, é meu” e não quer de-
Carlos (5a8m) será um policial e Renato volver o brinquedo.
(5a6m) será um guarda de trânsito. Responda:
Rodrigo (6a1m) será o bandido que eles Como se classifica e como se caracteriza a
deverão perseguir e prender. brincadeira dos meninos no quintal?
Por que Leandro sobe, mas não desce a
Na sala, sobre o tapete, Lúcia (1a4m) escada?
empilha cubos, Júlia (1a3m) manipula O que está sendo proporcionado à Luiza?
um urso de pelúcia e Sofia (1a2m) brinca Por que Daniel não concorda com Eduardo?
com a boneca Emília. Como se classifica a brincadeira de
Mariane e suas companheiras? Como se
Mariane está em seu quarto com caracteriza? Para que serve?
Isabel (4a1m), Ana (5a2m), Laura (4a1m) Como se pode designar
e Flávia (3a8m) brincando de casinha. a atividade das crian-
ças que brincam sobre
Usam potes de iogurte para fazer comida
o tapete?
e dizem que a menina menor e as bone- Explique o compor-
cas são as “filhinhas”. tamento de Fernando
e sugira alternativas de
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

Perto da mesa, Eduardo (5a3m) co- solução para o caso.


chicha com Daniel (5a2m), propondo Em que período de
que peguem uns doces às escondidas. desenvolvimento se
Daniel não concorda e pergunta: “Mas a encontram Lúcia, Júlia
gente não combinou com a tia que é só e Sofia?

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Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 1

Sugestão de leitura • Elabore um quadro-síntese das


Os novos direitos da criança, de etapas do desenvolvimento infantil e da
Luiz Lobo. O autor aborda de modo aprendizagem, pesquise em outros livros
sintético a temática dos direitos, do e ilustre o seu trabalho com gravuras,
cuidado e do desenvolvimento infantil, fotos ou desenhos.
tornando a leitura agradável e compre-
ensível. Destacamos neste espaço
algumas idéias do autor que ilustram os
conteúdos sobre o desenvolvimento
infantil e a aprendizagem.

Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi


Nada teria inventado e muito Criança pequena não é egoísta.
pouco descoberto sem o uso da Ela é egoncêntrica. Isso quer dizer
fantasia. que ela pensa que tudo existe por
causa dela, para ela e por ela. Toda
Imaginar e fantasiar são direi- criança acredita que tudo acontece
tos da criança porque a fazem porque ela existe.
sonhar, criar, duvidar, divergir,
discordar das coisas estabelecidas Só quando ela aprende a con-
e tentar mudá-las. viver com outras pessoas é que
aprende as regras da convivência
Toda criança imagina e e deixa de ser egocêntrica.
fantasia, a não ser que o adulto
abafe sua criatividade. Forçar uma criança pequena,
antes da hora, a deixar de ser
Fantasiar é um direito da egocêntrica é forçar a natureza.
criança e, quando ele não é Reprimida, a criança reage e não
respeitado, a criança fica prejudi- desenvolve normalmente. Aí sim é
cada no seu desenvolvimento que corre o perigo de transformar-
mental e afetivo. se em uma criança egoísta.

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Cadernos Pedagógicos – volume 1 Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância

Os anos mais importantes para o desenvolvimento da criança são os


seis primeiros. Nesses seis anos se forma a estrutura da personalidade e a
base de sua afetividade, em torno da imagem que ela faz de si mesma.
Aos seis anos, a criança já passou por experiências marcantes,
conhecendo o amor ou a rejeição, o carinho ou a violência, a
atenção ou a indiferença, a confiança ou a desconfiança, a alegria
ou a tristeza. E essas experiências são fundamentais para determi-
nar sua própria imagem.
Para ter uma oportunidade justa de desenvolver-se normalmente
e de ser feliz, é preciso que a maior parte das experiências seja
positiva. Principalmente a que teve com os pais.

Quanto mais nova for a crian-


ça, mais desastrosas serão as Toda criança tem o direito de ter
conseqüências da falta de compa- uma boa imagem de si mesma. Para
nhia para ela. Principalmente se isso, ela precisa ser confiante, de-
ela está obrigada a passar longas senvolver sua autonomia e indepen-
horas sem ver a mãe ou o pai. dência.

Acompanhada de outras crian- Quando ela consegue passar


ças ela não se sente abandonada, mais tempo longe dos pais, tranqüi-
só, desamparada e sem apoio. la e fazendos coisas sem precisar de
ajuda, ganha autonomia.
As crianças precisam ter
contato diário com os pais porque E ganha independência à medida
são dependentes afetivas. que vai ficando autônoma. Por isso
mesmo, devemos incentivá-la a fazer
A criança precisa também de as coisas sozinha. Nessa fase do
companhia de outras crianças para aprendizado, a criança não deve ser
socializar-se. Conviver quer dizer ridicularizada pelos seus erros e
exatamente viver com. E é no dificuldades. E é preciso respeitá-la
convívio que as crianças apren- quando ela diz “deixa que eu faço”,
dem as regras sociais. mesmo que não faça muito bem.

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Série Fundo do Milênio para a Primeira Infância Cadernos Pedagógicos – volume 1

Agora é o momento ideal para a


reflexão sobre as características e as
funções do educador que atua com
crianças, responsabilidade esta que deve
ser compartilhada com as políticas de
educação do país e das comunidades
onde se situam as instituições.
Ilustração: Estúdio CRIANÇAS CRIATIVAS / Gian Calvi

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