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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE TECNOLOGIA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO

ANA LETÍCIA AVELINO SILVA BARROS

HORTAS URBANAS: EFEITOS E


CONDICIONANTES
ESTUDO DOS EFEITOS E CONDICIONANTES DA IMPLANTAÇÃO DE
HORTAS URBANAS NAS COMUNIDADES EM QUE ESTÃO INSERIDAS:
CASO DE NATAL/RN E REGIÃO METROPOLITANA

NATAL / RN

2018
ANA LETÍCIA AVELINO SILVA BARROS

HORTAS URBANAS: EFEITOS E


CONDICIONANTES
ESTUDO DOS EFEITOS E CONDICIONANTES DA IMPLANTAÇÃO DE HORTAS
URBANAS NAS COMUNIDADES EM QUE ESTÃO INSERIDAS: CASO DE NATAL/RN
E REGIÃO METROPOLITANA

Pesquisa apresentada como parte integrante do


quadro da disciplina Planejamento e Projeto Urbano
e Regional 06

Orientadora: Profª Drª Maria Dulce Picanço Bentes


Sobrinha

NATAL / RN

2018

LISTA DE FIGURAS

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Figura 01 - Museu Câmara Cascudo e área de implantação da horta………………….…..11

Figura 02 - Horta do Museu Câmara Cascudo……………………………………..…..…..12

Figura 03 - Cartazes de eventos relacionados à horta do MCC…………………....…..…..13

Figura 04 - Hotel Imirá Plaza destacado……………………………….…………..……....14

Figura 05 - Horta suspensa do Hotel Imirá Plaza……………………...……….…..……....15

Figura 06 - Região do Gramorezinho……………………………………………....…..…..16

Figura 07 - Horta do Gramorezinho…………………………………………...…..…...…..17

Figura 08 - Cartazes do Projeto Amigo Verde e feira orgânica do SEBRAE………....…...18

Figura 09 - Gráfico de vínculo dos usuários………………………………………......…...23

Figura 10 - Gráfico de produtos das hortas……………………………………....…....…...23

Figura 11 - Gráfico de frequência do consumo……………………………………......…...24

Figura 12 - Gráfico de motivações dos responsáveis………...………………………..…...25

Figura 13 - Gráfico de motivações dos visitantes………....….…………………………....25

Figura 14 - Gráfico de benefícios………………………………………………..…....…...26

Figura 15 - Gráfico de malefícios………………………………………………..…....…...27

Figura 16 - Gráfico de dieta………....………………………………………………..…...28

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO 4

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2- TIPOLOGIAS DE HORTAS URBANAS 9

2.1 - TIPOLOGIA INSTITUCIONAL 10

2.2 - TIPOLOGIA EMPRESARIAL 13

2.3 - TIPOLOGIA DE SUBSISTÊNCIA 15

2.4 - TIPOLOGIA DOMÉSTICA 18

3- CONDICIONANTES E MATERIAIS NECESSÁRIOS 19

3.1- CONDICIONANTES AMBIENTAIS 19

3.2- CONDICIONANTES FUNCIONAIS 19

3.3 - MATERIAIS 20

4- HORTAS NO PLANEJAMENTO URBANO 20

5- EFEITOS DAS HORTAS URBANAS E PERFIL DOS USUÁRIOS 22

6- ANÁLISE CONCLUSIVA 28

REFERÊNCIAS 30

1. INTRODUÇÃO
Um fenômeno em expansão, a implantação de hortas urbanas torna-se mais frequente em
grandes centros urbanos ao redor do mundo. É o que aponta os estudos divulgados pelo
Worldwatch Institute (WWI) em 2011, os quais estimam um total de 800 milhões de pessoas
engajadas em agricultura urbana no mundo, responsáveis pela produção de 15-20% do total
dos produtos agrícolas mundiais.
As hortas urbanas podem apresentar diferentes configurações, servindo diferentes públicos,
dependendo de sua área de inserção, sua escala, e do desejo dos organizadores, donos ou

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proponentes. Os tipos mais comuns são as hortas comunitárias (abertas e fechadas ao
público), com função de agronegócio familiar, institucionais e domésticas.
Em diferentes regiões do mundo a prática assume contextos e objetivos diferentes. O WWI
estima que na África, 35-40 milhões de pessoas dependam dos sistemas de agricultura urbana
a fim de complementar suas dietas. Em regiões mais desenvolvidas, em que a fome não se
apresenta como um problema social, as hortas urbanas costumam assumir papéis de
entretenimento, usadas como hobbies, ou forma de tornar a alimentação mais orgânica e
menos industrializada, além de funcionarem como espaço para relação do usuário com a
natureza.
No Brasil, a presença desse tipo de espaço verde tem se tornado mais constante, e os estudos
realizados relacionados ao tema aumentaram consideravelmente nas últimas décadas.
Entretanto, ainda se trata de uma prática pouco disseminada, não fazendo parte da cultura do
brasileiro, e, em muitas cidades, não está prevista como parte do sistema de planejamento
urbano.
Apesar de defendida por especialistas de diversas áreas do conhecimento, são poucas as
experiências visíveis no âmbito das cidades. No município de Natal, é possível encontrar
algumas hortas exitosas de tipologias diferentes, entretanto, esses espaços não são previstos
como uma possibilidade de estruturação dos espaços verdes pelo mecanismo legal de
orientação do uso e ocupação do solo urbano, o Plano diretor do Município de Natal.
Dessa forma, as hortas urbanas presentes em Natal, assim como a maior parte das hortas
urbanas no Brasil, tiveram a iniciativa de sua implantação advinda de particulares, empresas
ou instituições, os quais, por se identificarem com o tema ou reconhecerem os benefícios
provenientes desse tipo de uso do solo, propuseram, financiaram ou organizaram sua criação.
Mas o que está previsto no Plano Diretor? E qual a importância da inserção de hortas urbanas
como uma possibilidade de uso do solo pelo poder público?
A Lei complementar Nº 082, de 21 de Junho de 2007 do município de Natal/RN, traz
informações acerca do Plano Diretor da cidade, contextualizando, em seu corpo, o Sistema de
áreas verdes e arborização. A lei afirma:
Art. 45 - O Sistema de Áreas Verdes do Município de Natal é composto pelo
conjunto dos espaços livres formados por parques, praças, verdes complementares
ou de acompanhamento viário, espaços destinados a áreas verdes nos planos de
loteamentos e condomínios, jardins públicos e jardins privados com vegetação de
porte arbóreo, áreas verdes situadas ao longo de orlas marítimas, lacustres e fluviais,
áreas de preservação permanente, bem como de unidades de conservação de
proteção integral ou de uso sustentável existentes na malha urbana.
O Plano diretor também prevê, quanto aos espaços verdes, a responsabilidade de execução
dos projetos referentes às áreas verdes, trazendo no Art. 46 da mesma lei a clareza de que se

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trata de “competência exclusiva do Município, projetar e executar a arborização nos
logradouros públicos, sem prejuízo da colaboração que possa ser dada pelos particulares.” A
manutenção dos espaços públicos também é garantida pelo município, e, ainda que o serviço
possa ser encarregado a empresa terceirizada, cabe ao município a função de fiscalizar e
aprovar os projetos e serviços prestados.
Formalizando as hortas urbanas como uma possibilidade de uso do espaço público, com
previsão legal para sua implantação financiada pelo poder público municipal, seria facilitado
às camadas populares mais pobres o acesso a esse tipo de espaço, um uso que tem
apresentado diversos benefícios às comunidades em que foram implantadas, contribuindo
para a melhoria da qualidade de vida de seus usuários.
Por se tratar, atualmente, de um tipo de espaço implantado majoritariamente por particulares,
somente os proponentes, donos ou responsáveis os quais possam financiar, organizar ou
prover os recursos necessários para a implantação das hortas poderão obter sucesso na
criação desses espaços. Isso deixa de fora uma grande parcela da população urbana, a qual
não possui recursos ou estrutura para criar hortas em seus ambientes domésticos ou contribuir
para a criação de hortas urbanas comunitárias.
Uma vez que o Estado tem atribuição legal, possui, além de estrutura, poder e pessoal
especializado em planejamento das cidades, é importante que o poder público assuma a
criação e manutenção de hortas em grandes cidades a fim de oferecer ao público,
especialmente à parcela mais carente da população, a possibilidade de colher todos os
benefícios provenientes de espaços de hortas urbanas.
A industrialização do Brasil, iniciada no século XX, atuou como um dos principais fatores
para o processo de urbanização no país. Também chamado de êxodo rural, o deslocamento
em massa da população rural para o meio urbano reflete diretamente no modo de vida atual
dos habitantes do país. De acordo com o censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, IBGE, cerca de 84% da população brasileira reside em centros urbanos e na
região Sudeste esse valor beira os 93%. Segundo dados do IBGE, mais da metade da
população brasileira vive em apenas 5% das cidades, enquanto 68,4% dos municípios
brasileiros apresentam população de até 20 mil habitantes, o que representa 15,4% da
população. Essa distribuição assimétrica contribui para a configuração demográfica atual, na
qual em um país de dimensões continentais, muitas pessoas moram em poucos centros e
poucas pessoas dividem-se pelo restante do país.
Conforme aumentam o êxodo rural e a população das grandes cidades, aumenta também a
demanda por espaço nos grandes centros e a valorização da terra. Problemas de moradia, tais

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como a favelização dos grandes centros torna-se cada vez mais comum, e população de baixa
renda é o público mais afetado. Com a valorização desenfreada da terra, mora-se em espaços
cada vez mais caros e cada vez menores, tornando maiores as condições de moradia
favelizada e verticalizada, as quais, apesar de atingirem públicos de classes sociais diferentes,
apresentam uma consequência em comum: sem acesso a espaços verdes e/ou livres em suas
habitações, a população distancia-se das condições de vida rural e também da natureza.
Mas qual o impacto disso na vida da população? Qual a importância de convívio com a
natureza? De acordo com o escritor e jornalista americano Richard Louv, esse distanciamento
pode ser chamado ‘Déficit de natureza’, e suas consequências nas crianças criadas em
ambientes primordialmente urbanos podem variar entre transtornos de atenção, perda da
criatividade, depressão, transtornos alimentares, etc. Louv relata também suas experiências
em diversas metrópoles americanas, as estratégias aplicadas por especialistas a fim de
promover melhor qualidade de vida para as crianças das grandes cidades, por exemplo,
receitar às crianças caminhadas em parques, participação em hortinhas e outras atividades
integradas à natureza. Louv acredita que deve ser incentivada a relação entre crianças e
jovens com a natureza a fim de melhorar seu aprendizado, sua qualidade de vida e evitar
problemas de saúde pública.
Em 1984, o entomologista e biólogo americano Edward Wilson, em seu livro Biophilia
apresenta o termo “biofilia” como uma forma de explicar os efeitos positivos do contato com
a natureza. De acordo com Beatriz Fedrizzi, graduada em agronomia e doutora na área de
paisagismo, o conceito de biofilia gira em torno da ideia que durante a evolução da espécie,
os aspectos dos ambientes naturais foram críticos para a sobrevivência e seleção natural da
espécie, e os seres têm sido preparados pelo processo evolutivo para interagir com o meio
ambiente, aprendendo e retendo respostas positivas à natureza. Esse aprendizado se daria por
três frentes: respostas de preferência/aproximação; respostas restaurativas; e respostas sobre a
melhoria do funcionamento cognitivo.
A primeira diz respeito à facilidade dos humanos em adquirir e reter respostas de satisfação e
aproximação aos elementos da natureza que favoreçam a sobrevivência humana, pois estão
associados às suas necessidades básicas de alimentação e segurança. A segunda é referente à
luta pela sobrevivência da espécie humana e ao estresse causado pelas ameaças encontradas.
Evolutivamente, a sensação de tranquilidade associada a estar em um local em contato com a
natureza seria diretamente ligada à satisfação de nossas necessidades de água, alimento e
segurança. Quando imersos em um meio propício à sobrevivência, o corpo tenderia a
descarregar o estresse, recuperar a energia física e diminuir a agressividade, levando o corpo

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a restabelecer o equilíbrio necessário para voltar a enfrentar situações críticas ou de risco
posteriormente.
A terceira frente, referente ao funcionamento cognitivo, remete a cenários físicos que passem
aos seus usuários segurança e bem-estar, podendo influenciar positivamente o estado
emocional dos indivíduos e melhorar suas capacidades cognitivas, aumentando a atenção e
aperfeiçoando o processo criativo.
Espaços de integração com a natureza no meio urbano podem variar muito sua função e
forma. Algumas das formas mais comuns em cidades brasileiras são canteiros verdes, praças
e parques. Contudo, existem diversas estratégias de inserção da natureza na vida moderna nos
centros urbanos que são pouco conhecidas, disseminadas ou exploradas. Uma dessas
estratégias é o uso de hortas urbanas, o qual combina em sua função aspectos de integração
com a natureza, produção de alimento e sustentabilidade ambiental. A inserção desse tipo de
ambiente no meio urbano, apesar de pouco estimulada pelas políticas públicas brasileiras,
pode apresentar diversos benefícios às comunidades nas quais as hortas estejam inseridas.
Este trabalho se propôs a conhecer os efeitos e condicionantes de implantação das hortas
urbanas visando contribuir com o processo de de inserção das hortas urbanas no
planejamento do município de Natal. Dessa forma, a pesquisa se propôs a responder a
seguinte pergunta: “Como se dão os impactos e condicionantes da implantação de hortas
urbanas nas comunidades em que estão inseridas?”
A pesquisa teve como objeto de estudo Hortas urbanas no município e região metropolitana
de Natal relacionadas aos efeitos e condicionantes de sua implantação nas comunidades em
que estão inseridas, visando como objetivo geral compreender os efeitos e condicionantes de
implantação das hortas urbanas, além dos objetivos específicos de: conhecer seus diferentes
tipos e entender como eles funcionam; estudar os efeitos de hortas urbanas em seus
frequentadores; identificar os condicionantes necessários para sua implantação; estudar casos
particulares de hortas urbanas existentes em Natal e região metropolitana; e identificar os
benefícios sociais, individuais e coletivos, advindos das hortas urbanas em geral.
A pesquisa analisou o funcionamento, efeitos e condicionantes relacionados a hortas urbanas
no município de Natal/RN e sua região metropolitana. Este estudo foi desenvolvido
primordialmente por meio de revisão bibliográfica aprofundada sobre o tema e aquilo que
esteja relacionado diretamente a ele. Além disso, a realidade fática atual foi captada por meio
de visitas a algumas hortas urbanas existentes no perímetro delimitado, incluindo a utilização
de entrevistas abertas semi-estruturadas a usuários, responsáveis e gestores de organizações

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relacionadas à criação de hortas, anotações in loco, registros fotográficos e audiovisuais e
aplicação de questionário on-line.

2- TIPOLOGIAS DE HORTAS URBANAS


Ao analisar o referencial bibliográfico relativo ao tema, percebeu-se a necessidade de
categorização das diferentes tipologias de hortas urbanas. A fim de dividi-las em tipologias
diferentes, foram analisados diferentes aspectos de sua constituição, dentre eles sua escala,
seus responsáveis, usuários e beneficiários, sua estruturação física, seu funcionamento básico
e a função daquela horta dentro da comunidade em diferentes aspectos. Também foi crucial
entender como se deu sua criação, analisando os objetivos e motivações de seus donos ou
proponentes. Foram então estabelecidas, com a contribuição de levantamento bibliográfico e
midiático, cinco diferentes tipologias (institucional, empresarial, subsistência, doméstica e
comunitária), quatro delas sendo existentes em Natal.
Devido à impossibilidade de encontrar dentro do perímetro delimitado um exemplo de horta
urbana comunitária, essa tipologia não foi incluída como parte dos estudos de caso.
Para estudo da tipologia de horta institucional foi escolhida a horta urbana do Museu Câmara
Cascudo, órgão suplementar da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O museu,
além de apresentar diferentes exposições, acervo antropológico, arqueológico, geológico e
paleontológico, prestar serviços científico-culturais à comunidade, possui também um parque
o qual atualmente dispõe de uma área de agricultura urbana. Sua manutenção se dá pelos
funcionários do museu, sendo responsabilidade da instituição de ensino federal.
Quanto à tipologia de horta empresarial, o objeto escolhido foi a horta suspensa do hotel
Imirá Plaza, localizado na orla natalense, Via Costeira. O hotel desenvolveu uma horta em
seu teto no qual são cultivados alimentos a fim de abastecer a cozinha do próprio
estabelecimento, caracterizando-se como uma horta empresarial.
Como exemplo da tipologia de horta de subsistência foram escolhidas hortas urbanas na
região do Gramorezinho, constituintes do cinturão agrário na zona norte da cidade de Natal.
Tratam-se de áreas de agricultura predominantemente familiar, as quais contribuem para o
abastecimento alimentar da cidade.
Como exemplos de hortas domésticas foram visitadas algumas hortas localizadas dentro do
perímetro delimitado, com dimensões e tipos de cultivo diferentes, entretanto, não foi
escolhido um único espaço para a representação da tipologia doméstica.

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Os procedimentos adotados para a análise dos espaços foram visitas aos locais, elaboração de
registros fotográficos, conversas com usuários e organizadores dos espaços, além de leitura
de material de mídias digitais acerca dos ambientes em questão.

2.1 - TIPOLOGIA INSTITUCIONAL


Para fins deste trabalho, caracterizou-se como horta institucional aquela vinculada a uma
instituição (particular ou pública) de forma que o cultivo das plantas não se dê pelas questões
financeiras, ou seja, não seja realizado a fim de arrecadação de lucro ou para sanar uma
despesa da instituição. As hortas institucionais são uma tipologia comumente implantada em
centros comunitários, escolas, instituições educacionais, entre outros espaços. Sua função é,
majoritariamente, educativa ou científica-cultural, podendo servir como instrumento para
educação ambiental e alimentar, para ensinamentos acerca de manutenção e cultivo de hortas,
além de seu caráter possivelmente terapêutico para seus usuários. Pode variar em escala e
estrutura física e funcional, a depender, principalmente, do tipo de instituição a que está
vinculada e quem são os usuários e beneficiários.
A horta urbana do Museu Câmara Cascudo, localizado na Zona Leste da cidade de Natal,
apresenta tipologia de horta institucional. Vinculado à Universidade Federal do Rio Grande
do Norte, o museu é o responsável pela manutenção e estrutura do espaço, o qual está
inserido dentro do parque do MCC. Trata-se de uma intervenção recentemente implantada e
aberta ao público.
Figura 01 - Museu Câmara Cascudo e área de implantação da horta

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Fonte: Google Maps (adaptado pela autora)
Foi realizada uma visita ao museu na qual foi realizado levantamento das estruturas físicas do
espaço. O plantio dos vegetais se deu em diferentes configurações, dentre elas hortas verticais
suspensas, roçados, hortas suspensas horizontais e plantio direto no solo. O posicionamento e
distribuição dos vegetais parece seguir ordem lógica, organizando próximo os alimentos
parecidos. A horta dispõe de uma grande variedade de alimentos, dentre eles: ervas, plantas
frutíferas, tubérculos, legumes e plantas alimentares não-convencionais (PANCs).
Toda a estrutura física da horta aparenta ser feita de materiais reaproveitados, dentre eles
garrafas plásticas, pallets, pneus, tijolos e armários velhos, o que contribui para a diminuição
do custo de implantação da horta, e, por ser inserida dentro do parque já existente do MCC,
estruturas básicas de alimentação de água (encanamento e mangueiras), puderam ser
aproveitadas. O local de implantação da horta do MCC se deu em uma região do parque a
qual encontrava-se subutilizada e já dispunha de solo plantável, proveniência de água e
radiação solar.
Figura 02 - Horta do Museu Câmara Cascudo

Fonte: Autora

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A manutenção da horta é realizada pelos funcionários do Museu, o qual dispõe de
profissionais habilitados para contribuir para o funcionamento do parque e também da horta.
O espaço da horta é universo de realização de diversos eventos voltados para diferentes
públicos, e os materiais provenientes da horta podem ser utilizados nos eventos. Na visita
realizada não houve a possibilidade de realização de entrevista com os organizadores
responsáveis pela horta, logo, ainda restam algumas questões não respondidas, por exemplo,
onde ou por quem seriam consumidos os produtos da horta excedentes aos consumidos em
eventos. A fim de sanar as questões ainda em aberto propõe-se visitar novamente o MCC em
horário de disponibilidade dos organizadores.

Figura 03 - Cartazes de eventos relacionados à horta do MCC

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Fonte: Instagram (reprodução)

2.2 - TIPOLOGIA EMPRESARIAL


Caracteriza-se como horta empresarial aquela vinculada a uma empresa cuja função principal
não seja de horta. As hortas empresariais podem ter como objetivo arrecadação de lucro ou
sanar uma despesa da empresa, além de sua possível função terapêutica. Essa tipologia é mais
frequente em restaurantes, cafés e outras empresas que trabalhem com o ramo da
alimentação, entretanto, pode ser implantadas junto a empresas de diferentes áreas.
A horta escolhida para servir como exemplo da tipologia de horta empresarial foi a do Hotel
Imirá Plaza, localizado na orla marítima de Natal. Trata-se de uma horta suspensa implantada
no teto do hotel, em uma área de alta incidência solar. Sua motivação se deu a fim de que os
produtos contribuam para o abastecimento do restaurante do hotel, provendo à cozinha

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principalmente hortaliças, visto que existe a demanda diária de verduras de boa qualidade
para a preparação de alimentos. A horta é completamente orgânica e conta com profissionais
qualificados, dentre eles um especialista em agronomia, o qual projetou a horta e fornece as
mudas utilizadas no espaço, além de um jardineiro, que verifica a existência de folhas
amareladas e secas, e também de ameaças à plantação.
Figura 04 - Hotel Imirá Plaza destacado

Fonte: Google Maps (adaptado pela autora)


A estrutura física é de uma horta suspensa, composta por 20 módulos para o plantio feitos a
partir de material reciclado. A irrigação está em processo de automatização e se dá por vapor
de água, e uso da água é à base de reaproveitamento, minimizando o consumo.

Figura 05 - Horta suspensa do Hotel Imirá Plaza

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Fonte: Alex Régis
De acordo com Durval Paiva, diretor administrativo do hotel, a implementação da horta
contribui pro lucro da empresa, uma vez que o custo final referente a cada pé de hortaliça
chega a ser 85% mais baixo que o adquirido de fora do hotel. Em entrevista à Tribuna do
Norte, Durval explica que os beneficiários dos produtos da horta não são apenas a empresa e
os consumidores do restaurante. Quando existe sobra de produção, é distribuída para os
vários colaboradores do projeto, e, se ainda sobrar, poderá ser comercializada para os
fornecedores da Ceasa.

2.3 - TIPOLOGIA DE SUBSISTÊNCIA


A tipologia de horta de subsistência caracteriza-se como aquela cuja principal função seja a
de prover sobrevivência e sustento aos produtores, suas família e à comunidade envolvida.
Geralmente inserida no meio rural, quando em meio urbano, devido à sua maior escala (em
comparação às outras tipologias estudadas nesta pesquisa), costuma ser implantada em
regiões periféricas da cidade. As hortas de subsistência são feitas, geralmente, em
minifúndios e com poucos recursos tecnológicos. As hortas escolhidas para exemplificar a
tipologia de subsistência foram da região do Gramorezinho, na Zona Norte de Natal.

Figura 06 - Região do Gramorezinho

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Fonte: Google Maps
O Gramorezinho, também conhecido como o “cinturão verde” de Natal, é um dos espaços
mais significativos quanto à produção agrícola na cidade. Formada por diversos pequenos
quintais e terrenos ocupados por agricultura familiar, o cenário quase rural chama a atenção
contrastando com a grande região urbanizada da cidade.
As primeiras hortas na região foram iniciadas a mais de quatro décadas, e a prática é passada
entre gerações. Um exemplo de agricultura familiar, a região agrícola do Gramorezinho
ocupa uma grande área, dividida, principalmente, entre os integrantes de uma mesma família,
os quais compartilham o terreno, dividindo entre si os tipos de cultivo, de forma a não
competirem na venda da produção.
Em visita à área, guiada por uma das moradoras da região e produtora rural, foi realizado
registro fotográfico e levantamento da estrutura física do espaço. Foram observadas
diferentes estruturas para o plantio, a depender do tipo de cultivo e das condições do solo.
Devido à proximidade com o Rio Doce, o qual passa dentro do terreno da horta, determinadas
regiões do solo encontram-se, em grande parte do ano, demasiadamente úmida, dificultando
alguns tipos de cultivo. Por isso, em uma parcela do espaço optou-se pelo cultivo em horta
suspensa, a fim de afastar a área de plantio do solo encharcado. Também ocorre o plantio
diretamente no solo, em pequenos vasos suspensos do chão por grades de madeira, em região

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de plena exposição ao sol e em área coberta por tela de sombreamento. A irrigação em uma
das áreas é feita manualmente por meio de mangueiras, e em outras partes é por meio de
aspersor para jardim. O material utilizado para fazer as estruturas é predominantemente
reciclado ou reusado, diminuindo os custos de manutenção e implantação da horta.
Figura 07 - Horta do Gramorezinho

Fonte: Autora
A agricultura das hortas urbanas do Gramorezinho se dá de forma completamente orgânica.
De acordo com a produtora, um dos aspectos mais importantes para o funcionamento atual da
horta se deu ao apoio fornecido pelo SEBRAE com ajuda da Procuradoria do Meio
Ambiente, oferecendo, além de apoio financeiro, o apoio técnico de especialistas em
agronomia. Segundo a agricultora, os profissionais do SEBRAE ministraram aulas, ensinando
aos produtores aspectos práticos das hortas, além de auxílio na compreensão e administração
de aspectos quantitativos e financeiros da agricultura.

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A Associação dos Moradores e Amigos do Sítio Gramoré e Adjacências, em parceria com a
EMATER, SEBRAE, Ministério Público do Rio Grande do Norte, SEMURB e a UFRN, com
o patrocínio da Petrobrás, realiza o Projeto Amigo Verde, idealizado com o objetivo de
estimular a prática da arquitetura orgânica aos mais de 120 agricultores do “cinturão verde”
na Zona Norte de Natal. O Projeto Amigo Verde também organiza feirinhas de alimentos
orgânicos em alguns pontos da cidade, servindo como uma plataforma para a venda dos
produtos das hortas. De acordo com a produtora entrevistada, outro grupo semelhante ao
Amigo Verde foi criado posteriormente, e alguns produtores se desvincularam do Amigo
Verde migrando para o novo grupo, que também realiza feiras semelhantes.
Figura 08 - Cartazes do Projeto Amigo Verde e feira orgânica do SEBRAE

Fonte: Facebook (reprodução)

2.4 - TIPOLOGIA DOMÉSTICA


A tipologia de horta doméstica caracteriza-se pelo cultivo de plantas alimentares dentro do
ambiente da habitação. Ela pode tomar escalas diferentes, desde pequenos vasos a grandes
áreas de um terreno, entretanto, mantendo-se dentro dos limites do lote. As principais
características dessa tipologia são a configuração de seus usuários, uma vez que, inserida em
ambiente doméstico, não costuma haver grande fluxo de pessoas e grande quantidade de
público externo, e também o local de sua implantação, o ambiente residencial. A horta
doméstica pode ser implementada em casas, apartamentos e outras tipologias edilícias,
fazendo as devidas adaptações para cada tipo de residência.
Assim como as outras tipologias, sua estrutura física pode dispor de configurações diferentes,
a depender do desejo dos responsáveis. O material cultivado também costuma variar em tipo,

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dependendo principalmente do gosto pessoal da família ou núcleo de pessoas que habitam
aquele espaço.
Os produtos oriundos do cultivo nas hortas domésticas costumam servir para o consumo dos
habitantes da residência. Havendo excedentes, são comumente distribuídos entre familiares e
amigos, entretanto, essa prática também varia de acordo com o desejo dos responsáveis.

3- CONDICIONANTES E MATERIAIS NECESSÁRIOS


Após análise das estruturas físicas e funcionais de diferentes tipologias de hortas, foram
elencados os condicionantes e materiais necessários à implantação das hortas. Os
condicionantes, divididos entre condicionantes ambientais e funcionais, diferem um pouco a
depender da tipologia e escala da horta em questão.

3.1- CONDICIONANTES AMBIENTAIS


Os condicionantes ambientais básicos para a implementação de hortas são solo plantável,
acesso a fonte limpa de água e radiação solar. Apesar desses serem elencados como
condicionantes básicos, ainda existe uma certa flexibilidade, uma vez que, a depender da
escala, ainda seria viável o uso de vasos ou hidroponia como substitutos para o solo direto, e
iluminação artificial como alternativa para a radiação solar. Entretanto, na cidade de Natal,
principalmente para as hortas de subsistência e empresariais, o uso de iluminação artificial
trataria-se de uma estratégia pouco viável economicamente, uma vez que é uma prática
custosa, diminuindo o lucro dos produtores os quais aplicassem essa técnica em relação aos
que tivessem acesso a luz solar.

3.2- CONDICIONANTES FUNCIONAIS


Dentre os condicionantes funcionais os mais importantes a serem destacados são a
organização quantitativa e a organização temporal dos produtos, a fim de evitar longos
períodos sem colheita de materiais ou períodos em que a colheita seja muito maior que a
demanda, e também a orientação ou acompanhamento de agrônomos ou outros profissionais
habilitados. A depender da escala da horta, esses condicionantes funcionais são necessários
para garantir o bom funcionamento do espaço e a confiabilidade dos produtos, especialmente
para as hortas empresariais e de subsistência.

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3.3 - MATERIAIS
Os materiais necessários variam de acordo principalmente com o tipo de cultivo a ser
realizado no espaço. Dentre os mais comuns estão mangueiras, aspersores, gotejadores, telas
de sombreamento (tipo Sombrite), vasos, estruturas de suspensão das hortas (comumente
feitas de material reciclado), lona, terra, adubo, fertilizantes e aceleradores (exceto em casos
de hortas orgânicas). Em todos os casos estudados as estruturas de plantio utilizaram material
reciclado ou reaproveitado, diminuindo consideravelmente os custos de implantação das
hortas.

4- HORTAS NO PLANEJAMENTO URBANO


Durante o desenvolvimento desta pesquisa foram consultados os planos diretores de diversas
cidades no país a fim de apresentar exemplos da inserção das hortas como uma possibilidade
do uso do solo urbano, além de incentivar sua implantação. Foram analisados os planos
diretores das cidades de Natal (RN), Campinas (SP), Fortaleza (CE), Recife (PE), São Paulo
(SP), Florianópolis (SC), Teresina (PI) e São Luís (MA).
A Lei complementar Nº 082, de 21 de Junho de 2007 do município de Natal/RN, traz
informações acerca do Plano Diretor da cidade, contextualizando, em seu corpo, o Sistema de
áreas verdes e arborização, entretanto, não cita a agricultura urbana ou hortas como
possibilidades de utilização das áreas verdes.
O plano diretor da cidade de Campinas traz como um de seus objetivos e diretrizes gerais o
“estímulo à agricultura urbana, em especial nas áreas de maior vulnerabilidade social, com
incentivos fiscais e capacitação do produtor agrícola”. Além disso, cita aspectos do incentivo
à agricultura familiar e orgânica, entretanto, esses aspectos são apenas comentados quanto ao
meio rural, portanto, não serão aspectos abarcados nesta pesquisa. Não existe qualquer
menção acerca de hortas de outras tipologias que não a horta de subsistência.
A cidade de Fortaleza não traz, em seu planejamento urbano, qualquer menção a agricultura
urbana, entretanto, cita hortas como uma possibilidade de uso do solo em áreas de
preservação ambiental.
Recife, em seu Plano Diretor, assegura como dever do município observar o
“desenvolvimento de políticas e de convênios que visem ao estímulo do uso dos terrenos
particulares e públicos não utilizados ou subutilizados com o objetivo de combate à fome e à
exclusão social, por meio de atividades de produção agrícola urbana e incentivo à

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organização associativa”. Assim como na cidade de Campinas, não são exploradas hortas de
outras tipologias além da de subsistência.
O Plano Diretor de Florianópolis traz como um de suas diretrizes “o incentivo às atividades
produtivas locais através do apoio ao empreendedorismo e a mecanismos de geração de
emprego e renda, em especial nas áreas de inovação tecnológica, cultura, lazer, pesca,
gastronomia, turismo, artesanato, agropecuária, agricultura urbana e aquicultura”, sem
menções diretas a hortas.
Teresina, que se encontra em processo de desenvolvimento de novo Plano Diretor, possui um
projeto intitulado Teresina Participativa, no qual a população é estimulada a contribuir com
ideias para o novo plano. Dentre algumas ideias selecionadas pelo município a fim de
colaborar com a composição do novo Plano Diretor está o Programa de Hortas Comunitárias
e Campos Agrícolas, o qual sugere a formalização de associações, melhoria na infraestrutura,
acompanhamento técnico, além da criação de 10 hortas e a certificação dos produtos
prevendo a comercialização governamental e implantação de feiras.
O Plano Diretor de São Luís, apesar de apresentar diversos pontos referentes à agricultura,
atém-se ao meio rural, e não aborda a agricultura urbana.
A cidade de São Paulo é, dentre as pesquisadas, a que melhor estrutura sua proposta. O plano
diretor de 2014, durante a gestão do então prefeito Fernando Haddad, apresenta diversos
pontos que dizem respeito à agricultura urbana, dentre eles:

● Traz como um dos objetivos específicos da Macroárea de Redução da


Vulnerabilidade e Recuperação Ambiental o apoio e incentivo à agricultura urbana e
periurbana;
● Atribui à Prefeitura o papel de “garantir assistência técnica, jurídica, urbanística e
social gratuita à população, indivíduos, entidades, grupos comunitários e movimentos
na área de Habitação de Interesse Social e de Agricultura Familiar, buscando
promover a inclusão social, jurídica, ambiental e urbanística da população de baixa
renda à cidade, na garantia da moradia digna e no reconhecimento dos serviços
ambientais e sociais prestados pelos agricultores familiares, particularmente nas ações
visando à regularização fundiária e qualificação dos assentamentos precários
existentes e à regularização fundiária e ambiental dos imóveis rurais” fornecendo
apoio e amparo ao agricultor familiar, não só urbano como rural;

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● Elenca como um dos objetivos da Política Ambiental estimular a agricultura familiar,
urbana e periurbana, incentivando a agricultura orgânica e a diminuição do uso de
agrotóxicos;
● Traz como um dos componentes do Sistema Municipal de Áreas Protegidas, Áreas
Verdes e Espaços Livres apoiar e incentivar a agricultura urbana nos espaços livres;
● Aponta como um dos Objetivos e Diretrizes para a Política de Habitação Social
“incentivar a adoção de tecnologias socioambientais, em especial as relacionadas ao
uso de energia solar, gás natural e ao manejo da água e dos resíduos sólidos e à
agricultura urbana, na produção de Habitação de Interesse Social e na urbanização de
assentamentos precários”;
● Elenca como uma das diretrizes segundo as quais devem ser orientados os programas,
ações e investimentos, públicos e privados, no Sistema de Equipamentos Urbanos e
Sociais a de promover ações de educação voltadas à segurança alimentar e nutricional
por meio de Escolas Estufa em todas as Subprefeituras, fortalecendo e integrando as
iniciativas de hortas comunitárias e urbanas;
● Possibilita ao Plano de Bairro conter propostas para melhorar a implantação de hortas
urbanas;
O Plano Diretor paulista apresenta ainda diversos outros pontos sobre ações relacionadas à
agricultura, entretanto, por serem direcionados à agricultura e aos produtores rurais não foram
levados em consideração para fins desta pesquisa.

5- EFEITOS DAS HORTAS URBANAS E PERFIL DOS USUÁRIOS


A fim de compreender melhor como se dá a relação dos usuários com as hortas e quais são
seus impactos, foram aplicados questionários on-line acerca dos efeitos (positivos e
negativos) das hortas em seus frequentadores e da experiência do público. Foram obtidas 30
respostas de indivíduos com diferentes perspectivas e vínculos com hortas.
Figura 09 - Gráfico de vínculo dos usuários

22
Fonte: Elaborado pela autora

Figura 10 - Gráfico de produtos das hortas

Fonte: Elaborado pela autora


Dentre os entrevistados foi percebida a prevalência de usuários secundários, ou seja, aqueles
que, apesar de usufruírem das hortas, não são os principais responsáveis. A primeira pergunta
do questionário foi utilizada para, além de classificar os vínculos dentre as três alternativas,
também contribuir para melhor direcionamento das questões a seguir. Posteriormente foram
realizados questionamentos específicos para os proponentes originais, para frequentadores de
hortas de terceiros ou instituições e para pessoas que tiveram acesso a hortas domésticas
(como responsável principal ou usuário secundário).
Quanto aos tipos de cultivo, foi identificada maior frequência do cultivo de ervas,
possivelmente devido à facilidade do cultivo e uniformidade da colheita ao longo do ano,
sendo um tipo de plantação adequada para o pequeno consumidor.

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Figura 11 - Gráfico de frequência do consumo

Fonte: Elaborado pela autora


Os usuários os quais tiveram acesso a hortas domésticas (73,3% dos entrevistados), quando
questionados acerca da frequência de consumo, em sua maioria relataram alta frequência,
superior a uma vez por semana, consumindo os produtos da horta diariamente ou
semanalmente.

Figura 12 - Gráfico de motivações dos responsáveis

24
Fonte: Elaborado pela autora

Figura 13 - Gráfico de motivações dos visitantes

Fonte: Elaborado pela autora


Frequentadores os quais tiveram função de responsável pela criação da horta, ou seja, o
proponente original (56,6% dos entrevistados), ao serem questionados sobre suas principais
motivações para tomar a iniciativa, elencaram como fatores mais importantes o desejo de
acesso a alimentos frescos, alimentos orgânicos e de contato com a natureza. Outros motivos
citados foram a função terapêutica das hortas (de jardinagem como entretenimento), o cultivo

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de plantas medicinais, a economia e a demanda gastronômica de ingredientes. Também
alegaram como estímulos, em menor quantidade, a função estética das hortas e querer evitar
desperdício de alimentos que eram comprados e não consumidos.
Já os usuários os quais frequentaram hortas de terceiros ou instituições (40% dos
entrevistados) alegaram diversas motivações, unidas em seis grupos. Os principais motivos
foram o desejo de comprar/consumir alimentos ou ajudar na colheita e ter visitado
conhecendo ou frequentando residências de pessoas as quais possuíam hortas domésticas.
Também foram causas o desejo de acesso a alimentos frescos e/ou orgânicos, de aprender
sobre funcionamento e configuração das hortas, desejo de incentivar a economia local e a
iniciativa de hortas urbanas, e busca por variedade de alimentos.
Quanto aos efeitos das hortas em seus usuários, foram realizadas perguntas aplicáveis a todos
os tipos de frequentadores, questionando-os quanto aos possíveis benefícios e malefícios
provenientes de seu contato com as hortas.
Figura 14 - Gráfico de benefícios

Fonte: Elaborado pela autora


Referente aos benefícios, todos os entrevistados alegaram ter usufruído de algum ganho. A
totalidade das pessoas questionadas alegou ter se favorecido por meio da alimentação.
Desses, 76,6% também desfrutaram de outros benefícios, dentre eles o entretenimento gerado
pelas hortas, suas funções terapêuticas e medicinais, além da economia gerada pelo consumo
de produtos da horta e a educação alimentar ou ambiental proveniente dessa relação.
Figura 15 - Gráfico de malefícios

26
Fonte: Elaborado pela autora
Questionados acerca das possíveis consequências negativas das hortas, 27 respondentes (90%
dos questionados) alegaram não terem sofrido quaisquer consequências negativas e três
(10%) alegaram terem passado por consequências negativas. Ao descrever os malefícios
sofridos, dois dos três alegaram se tratar do tempo de trabalho e cuidado que a horta
demanda, e um relatou ter sido a frustração sentida quando o plantio de um dos vegetais não
era bem sucedido.

Figura 16 - Gráfico de dieta

27
Fonte: Elaborado pela autora
Ainda como uma tentativa de verificar o perfil dos usuários e respondentes, foi inserida uma
questão acerca de seus hábitos alimentares, para a qual a maioria (70%) dos entrevistados
alegou não praticar dietas restritivas, enquanto os 30% restantes se dividiram entre dietas de
base vegetal (vegetarianismo e veganismo) e práticas alimentares menos restritivas,
eliminando alguns tipos de produtos animais ou artificiais.

6- ANÁLISE CONCLUSIVA
A partir da análise de casos particulares de hortas urbanas existentes em Natal e região
metropolitana, assim como de material bibliográfico e midiático relacionado ao tema de
hortas urbanas, agricultura urbana e assuntos relacionados, tornou-se possível a criação e
identificação de tipologias de hortas, bem como a sua caracterização e a categorização das
hortas existentes na cidade dentre as tipologias. Essa criação contribuiu para melhor
compreensão acerca do funcionamento das hortas e como suas diferentes configurações
podem torná-las espaços capazes de cumprir diferentes funções e servir públicos distintos.
Quanto à estrutura física das hortas, foi observada em todos os casos a preferência pelo uso
de materiais reciclados nas estruturas de plantio e pela implantação das hortas em locais de
incidência solar direta. Não existe a necessidade de uma carga substancial de equipamento
adquirido para a construção das hortas, apenas as estruturas acessórias (que não são fixas à
horta, apesar de contribuírem para seu funcionamento) e os sistemas de irrigação. Os
condicionantes principais identificados para a implantação das hortas foram os

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condicionantes ambientais básicos de acesso à água potável e luz solar, insumos
predominantemente disponíveis na cidade de Natal, universo de estudo desta pesquisa. Além
deles, foram identificados condicionantes funcionais, como a educação técnica sobre o
cultivo, a importância da orientação de profissionais da área e os impactos da presença ou não
desses condicionantes no funcionamento dos espaços e na sua implantação e uso bem
sucedidos.
Quanto aos Planos Diretores, observou-se a existência de previsão de incentivos à agricultura
urbana em diversos documentos, entretanto, em sua maioria, voltam-se apenas para as hortas
de subsistência, a fim de garantir segurança alimentar e melhores condições de renda às
famílias dos agricultores. As hortas com função educacional, terapêutica e recreativa ainda
são pouco exploradas no planejamento urbano das cidades, apesar de, ao longo dos anos, elas
terem conquistado cada vez mais visibilidade.
A previsão de implantação de hortas no planejamento urbano das cidades pode também ser
interpretada como um dos condicionantes funcionais a contribuir com a criação e manutenção
das hortas, uma vez que, estimulado pelos órgãos públicos a prática poderia ser mais
facilmente implementada, possivelmente tornando a prática das hortas mais independente de
iniciativas privadas ou individuais.
Os efeitos das hortas nos frequentadores, donos e comunidades pode ser encarado de maneira
individual ou coletiva. As hortas de subsistência podem ser grandes fontes de alimentação
para a população da cidade, possibilitando o abastecimento de alimentos frescos até para
espaços afastados do meio rural. As mesmas hortas, para seus produtores, apresentam
impactos diferentes, servindo como fonte de renda, instrumento para assegurar o sustento da
família.
As hortas empresariais, por sua vez, podem apresentar importantes efeitos dentro da empresa
em que estão inseridas reduzindo o desperdício de materiais, aumentando o lucro, etc.
Entretanto, em casos como o Hotel Imirá Plaza, utilizado como exemplo no estudo de caso da
tipologia, não existem efeitos diretos para a comunidade ou os consumidores finais do
produto, uma vez que os produtos poderiam ser obtidos diretamente dos produtores sem
mudança significante para quem consome os alimentos. Também não existem benefícios
estéticos ou terapêuticos para os hóspedes e frequentadores do hotel, visto que a horta
encontra-se fora do seu campo de visão e alcance, disponível apenas para acesso dos
funcionários.
As tipologias de hortas institucionais e domésticas apresentam maior proximidade com
pessoas as quais não estão envolvidas com hortas por questões estritamente financeiras ou

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profissionais, permitindo maior análise de seus efeitos psicológicos e alimentares em seus
frequentadores. Por meio de entrevistas on-line foi possível identificar as maiores motivações
das pessoas para estabelecer vínculos com hortas, seja como principal responsável ou
visitante, assim como os efeitos provenientes dessa relação.
O principal benefício trazido pelas hortas aos frequentadores entrevistados foi de
alimentação, abrangendo todos os entrevistados. Além disso, a maioria (76,6%) alegou ter
recebido mais benefícios, dentre eles aspectos psicológicos, financeiros, funcionais e
estéticos. Quanto aos pontos negativos trazidos pelas hortas, apenas três dos trinta
entrevistados relataram terem sofrido malefícios, e relataram se tratar de alta demanda de
cuidado e trabalho, a longa espera pelos resultados e ocasional fracasso no plantio.
Foi possibilitado também aos entrevistados a oportunidade de realizar comentários
adicionais, nos quais alguns dos entrevistados discorreram acerca da importância da prática
de hortas urbanas como uma alternativa ao consumo de alimentos transgênicos, de cultivo
industrializado, repletos de insumos químicos e artificiais. Também foi ressaltado pelos
entrevistados a relevância desse tipo de cultivo para diminuir o impacto da cultura de
alimentos no meio ambiente, não só pelos aditivos químicos mas também pela grande
distância existente entre os polos agriculturais e os polos de consumo de alimentos,
aumentando a “pegada de carbono” da alimentação da sociedade. Um dos entrevistados
também citou sua experiência como responsável pela horta, alegando estar em uma
experiência inicial de cultivo e, por não ter conhecimento técnico e não entender do manejo,
tem sua prática dificultada.
Em suma, hortas podem ser apresentadas em diferentes configurações, escalas e divisões
funcionais, servindo funções e públicos distintos e permitindo aos usufrutuários impactos
diversos. Ainda assim, elas são lidas como uma forma de uso do solo majoritariamente
benéfica, colaborando para a sociedade de forma geral e para a sustentabilidade do meio
ambiente.

REFERÊNCIAS
FEDRIZZI, Beatriz. Biofilia e biofobia. In: CAVALCANTE, Sylvia; ELALI, Gleice A.
(Org.). Temas básicos em psicologia ambiental. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.
NATAL (Município). Lei Complementar nº 82, de 21 de junho de 2007. Dispõe sobre o
Plano Diretor do município de Natal. . Natal, RN

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CAMPINAS (Município). Lei Complementar nº 189, de 08 de janeiro de 2018. Dispõe sobre
o Plano Diretor estratégico do município de Campinas. Campinas, SP
RECIFE (Município). Lei Ordinária nº 17.511, de 2018. Promove a revisão do Plano Diretor
do Município do Recife. Recife, PE
FLORIANÓPOLIS (Município). Lei Complementar nº 482, de 17 de janeiro de 2014. Institui
o Plano Diretor de urbanismo do município de Florianópolis que dispõe sobre a política de
desenvolvimento urbano, o plano de uso e ocupação, os instrumentos urbanísticos e o sistema
de gestão E O SISTEMA DE GESTÃO. Florianópolis, SC
SÃO PAULO (Município). Lei Ordinária nº 16.050, de 31 de junho de 2014. Aprova a
Política de Desenvolvimento Urbano e o Plano Diretor Estratégico do Município de São
Paulo e revoga a Lei nº 13.430/2002. São Paulo, SP
TRIBUNA DO NORTE: Hortas urbanas: conheça exemplos em Natal. Natal, 09 set.
2018. Disponível em: <http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/hortas-urbanas-conhea-a-
exemplos-em-natal/423614>. Acesso em: 09 nov. 2018

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