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SUMÁRIO

Agradecimentos

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Resumo

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Introdução

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Objetivos

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Objetivo Geral:

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Objetivos Específicos:

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Método

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Conceitos Fundamentais ao estudo das Estruturas Clínicas

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Constituição do sujeito psíquico

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Definição do conceito de estrutura e conceitos básicos

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As Estruturas Clínicas

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A Neurose

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A Psicose

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A Perversão

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Considerações Finais

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Referências

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RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo aprofundar o estudo das estruturas clínicas proposto

pelas teorias psicanalíticas freudiana e lacaniana. A metodologia escolhida foi a pesquisa

qualitativa sendo realizado uma pesquisa bibliográfica e para análise dos dados utilizou-se

a análise conceitual. Esse modo de análise busca explorar os conceitos para que desses

possam se criar saberes. O percurso escolhido foi buscar na obra de Freud e Lacan os textos que referenciavam a questão das estruturas clínicas. A psicanálise começa seu estudo pela patologia, pois a questão da norma domina a ciência. Entretanto, principalmente, mas não só, a escola francesa vem desconstruindo a nosografia psicopatológica e normativa, para um diagnóstico estrutural. Nessa perspectiva o sujeito é pensado de outra forma, já que a questão da estrutura convoca a pensar o modo que ele, o sujeito, irá se defender das demandas pulsionais. O sujeito em questão é o do inconsciente, que é da ordem do simbólico e, portanto, da linguagem. Desta forma tanto a psicose, como a neurose e a perversão são compreendidas como normais, afinal são faces da subjetividade de cada um. O que está em questão é o interesse de cada estrutura sendo da neurose o Outro, da psicose o corpo e da perversão o falo. A diferença entre cada modo de subjetivação se dá pelo modo de defesa em relação ao significante primordial, a saber, a castração. Se o sujeito recalca ele é neurótico, se forclui é psicótico e se renega esse significante é perverso. O neurótico é referido a um centro, e fica preso a este. Precisa abrir mão de seus desejos incestuoso, entretanto por outro lado ele ganha um lugar subjetivo e pode falar deste lugar. O psicótico fica sem esta referência, podendo ser qualquer um, se por um lado é livre por outro ao contrário do neurótico não possui um lugar subjetivo. Já o perverso reconhece a castração, entretanto insiste em transpor esta. Cada ato perverso é uma tentativa de apagar o significante primordial. Ao final do estudo, conclui-se que o diagnóstico estrutural possibilita a compreensão do paciente enquanto sujeito, para além de uma classificação psicopatológica nosológica, já que este irá direcionar o tratamento.

Palavras chaves: Estruturas clínicas; neurose; psicose; perversão.

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INTRODUÇÃO

A psicanálise, assim como outras áreas do conhecimento, iniciou seus estudos pela

patologia. Quando Freud começou o estudo das histéricas era necessário isolar a doença, pois sua intenção era compreender a origem e a causa desta. Para tal, foi dada importância para os processos psicopatológicos. Então, no princípio, a psicanálise entendia a neurose e a psicose como doenças. Entretanto, com a influência da escola francesa o paradigma psicopatológico e nosológico foi substituído pela noção de estrutura. Sendo assim, compreende-se que a neurose, a psicose e a perversão são nada mais do que faces da estrutura normal, ou seja, são modos de defesa do sujeito contra a angústia de castração

(Hassan, 1992).

A releitura lacaniana de Freud desconstrói o paradigma de normalidade/patologia,

que dominava a ciência até o momento. A partir desta nova concepção das estruturas clínicas, a oposição doença/saúde, que é normativa, deixa lugar para alternativas possíveis de subjetividade. As estruturas clínicas dizem respeito ao modo de expressão do sujeito e, como todos apresentam uma subjetividade, estas não podem ser compreendidas como uma questão de saúde ou doença, mas sim como modos de o sujeito lidar com suas angústias (Oliveira, 1996). É importante considerar que a psicanálise, mesmo dentro do constructo das

estruturas clínicas, realiza estudos sobre a psicopatologia. A psicopatologia psicanalítica tem como fundamento que os sintomas são de origem inconsciente, formação de compromisso entre os dois grandes sistemas, o Inconsciente e o Pré-consciente/Consciente, resultado de conflitos destes. A relação que se estabelece entre a psicopatologia e a estrutura é que o sujeito adoecerá somente de acordo com sua estrutura, ou seja, um sujeito neurótico poderá somente desenvolver uma doença da ordem da neurose, assim como na estrutura psicótica, uma psicose e na perversão, uma patologia desta ordem, pois é a estrutura que estabelece as fragilidades e potencialidades de cada sujeito (Antoszczyszen,

2007).

O estudo das estruturas clínicas torna-se pertinente devido à demanda dos pacientes

que procuram os consultórios psicológicos. Em sua maioria, os pacientes não estão acometidos de transtorno mental, logo não apresentam diagnóstico psicopatológico. O que estes pacientes possuem é um sofrimento, que podemos compreender como algo intrínseco ao ser humano. E é a partir do diagnóstico estrutural que se dará a condução do tratamento destes pacientes.

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Para além de todos os argumentos expostos acima, conhecer a estrutura do sujeito possibilita que se trabalhe preventivamente, atuando adequadamente nas fragilidades de cada estrutura, sem por isso considerá-las doenças. O estudo aprofundado na questão estrutural torna-se necessário para compreender de que sujeito se está falando e como prescrever um tratamento singular para este, considerando sua subjetividade. A direção do tratamento fundamenta-se na estruturação do sujeito, se será ou não indicado divã, a frequência das sessões. Entretanto, não são criados protocolos e proibições, mas a possibilidade que o paciente apresente a sua verdade, a saber, a verdade do ICS(Lacan, 1966/1998). A compreensão do sujeito está baseada em na sua forma de estruturação, qual é a face, qual o mecanismo que este utiliza frente à castração e suas consequências, ou seja, como será a articulação dos significantes.

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Objetivo Geral:

OBJETIVOS

Aprofundar o estudo sobre as estruturas clínicas de Freud e Lacan

Objetivos Específicos:

Delinear os conceitos de recalcamento, forclusão e renegação. Apresentar o conceito de complexo de Édipo, proposto por Lacan Descrever as estruturas clínicas propostas por Freud e Lacan.

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MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, que inclui a integração de fragmentos de um processo em uma nova configuração, a integração da informação obtida na investigação a partir de um conjunto qualitativo, a interpretação como elemento de contato na investigação. Além disso, esta abordagem busca compreender a lógica do que se está pesquisando. Desta forma abre espaço para um novo modo de pensar o sujeito (Neves,

1996).

Optou-se pela pesquisa bibliográfica, pois é aquela que através das teorias publicadas o autor busca explicar, responder um problema. Uma das indicações de utilizar este tipo de pesquisa é com o objetivo de ampliar o conhecimento de uma determinada área

e também de dominar o conhecimento disponível e utilizá-lo como base de fundamentação

na construção de um modelo teórico explicativo (Köche, 1999). Primeiramente, foi escolhido revisar os conceitos que são fundamentais para atingir os objetivos do trabalho, para que posteriormente fosse abordada a questão das estruturas clínicas. Inicialmente, foram buscados os textos originais desta temática encontrados em Freud e Lacan. Além disso, para um maior detalhamento do assunto foram utilizados autores contemporâneos que auxiliam na compreensão destes conceitos. Os textos foram sistematizados em fichas de leitura, que por sua vez foram organizadas de acordo com os

conceitos que apresentavam. Utilizou-se o referencial de analise conceitual no estudo dessas obras. Os conceitos são abstrações da vida real, ou como Freud escreve em, Pulsão

e destinos das pulsões, podem ser uma mitologia algo, que de fato não exista, entretanto é

necessário para construção de uma teoria. A análise conceitual tem o objetivo de esclarecer

sua estrutura interna, suas articulações e identificar seus atributos (Britto, Enders & Monteiro, 2004). Finalmente, este tipo de análise auxilia a explorar os conceitos, para que

a partir destes possam surgir novos saberes.

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CONCEITOS FUNDAMENTAIS AO ESTUDO DAS ESTRUTURAS CLÍNICAS

Constituição do sujeito psíquico

O sujeito em questão é o do inconsciente, que é da ordem do simbólico e, portanto,

da linguagem. Não se trata de indivíduo ou pessoa e sim do que não está dito. Ele é efeito do discurso (Hassan, 1992). Segundo Dor (2003), o sujeito é cindido em sujeito do inconsciente e sujeito do desejo. Esse está oculto de si próprio pela dimensão da linguagem. O desejo do sujeito (S1) só pode se fazer ouvir como um significante de substituição (S2). Entretanto, o desejo do sujeito fala dele em seu discurso, porém sem ele saber disso, já que o que aparece no discurso é o não dito. Podemos afirmar ainda, que o discurso deste é o sonho, o ato falho, o sintoma. Sendo que, por sintoma compreende-se não apenas o da ordem da descrição psicopatológica, mas aquele que Lacan escreve como

Sinthoma, que é a expressão do inconsciente (Dor, 2003, Lacan, 1966/1998). O sintoma é o retorno do recalcado, a subjetividade do sujeito, o que lhe é de singular, por isso que nem sempre será compreendido como patológico (Dor, 2003, Lacan, Garcia-Roza, 2002).

O sujeito é alienado ao significante (S1), e, portanto um sujeito barrado. O sujeito

barrado é efeito da linguagem, de uma máquina de fala e, como já referido, só se reconhece através do discurso (Dor, 2003; Lacan, 1966/1998).

O complexo de Édipo e o estádio do espelho são os principais responsáveis pela

constituição do sujeito. O estádio do espelho é o modo de identificação primordial será ele

que permitirá a integração da criança e sua identificação com o outro e um esboço da constituição de Eu, sendo de fundamental importância para a constituição do sujeito (Hassan, 1992). Cabe resaltar que o eu é diferente de sujeito, pois é da ordem do imaginário, do sentido e sempre é alienado ao outro. Portanto o eu é o outro, daí a identificação. É nesse estádio que a criança integra o corpo em uma única unidade, já que inicialmente, a criança possui a fantasia de corpo despedaçado. Ela irá recorrer a imagem do outro para formulação de seu próprio corpo (Lacan, 1966/1998; Jorge, 2008). O estádio do espelho é o momento em que criança e a mãe são o mesmo ser e o bebê é o falo da mãe, aquele que a completa. Se é no estádio do espelho que é constituído o eu, o autoerotismo é anterior a esse. Sendo que, no autoerotismo a satisfação das pulsões parciais é no próprio corpo da criança. Este é um estado anárquico da sexualidade. Quando o eu é constituído, passa a ser investido libidinalmente, nesse momento é o narcisismo primário (Freud, 1914/2004). O narcisismo secundário é aquele que os objetos são investidos, porém a

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libido volta para o próprio eu, pode-se pensar no seio, por exemplo. Portanto, o estádio do espelho é o momento em que o eu é constituído, então a criança sai do autoerotismo para o narcisismo. Que irá possibilitar a entrada do terceiro. O estádio do espelho é contemporâneo do primeiro tempo do complexo de Édipo (Garcia-Roza, 2002; Jorge,

2008).

O Édipo, para Lacan, é divido em três tempos iniciando antes da proposta freudiana, todavia não é antagônica a Freud, pois o próprio Lacan irá afirmar que faz um retorno a Freud e que ele mesmo é freudiano. O Édipo é um momento de crise que a criança irá lidar com a angústia de castração, que compreendemos como algo que limita o sujeito, como grande exemplo de castração poderia se citar a morte. Desde muito cedo a criança necessita lidar com estas questões do real que são impostas a ela, isso acontece fundamentalmente no Édipo. O destino que ela dará para estas questões determinará a sua estrutura, sendo que esta é constante e não passível de mudança (Dor, 2003). O primeiro tempo é aquele em que a relação é dual entre a mãe e o bebê. A criança ocupa o lugar de falo para esta mãe, ou seja, a criança é quem completa a mãe e desta forma os dois tornam-se seres completos. Ela satisfaz, realiza o desejo da mãe (Lacan, 1957-1959/1999). Neste momento cabe explicar o que é o falo. Segundo Plon e

Roudinesco, “se a palavra pênis fica reservada ao membro real, a palavra falo, deriva do

latim, designa esse órgão mais no sentido simbólico (

investido de suprema potência

)” (

compreende-se que Freud não se referenciou exclusivamente ao órgão real, mas o que este

simbolizava. Portanto, o que está em questão no complexo de castração é o representante do órgão sexual masculino, ou seja, o falo. Já que isto é o que completaria o sujeito, sendo

o que a mãe deseja e aquilo que a criança acredita ser (Nasio, 1995). Em um segundo momento, esta posição de ser o falo é questionada sob a égide da interdição paterna, então a criança fica em uma posição de ser ou não ser o falo da mãe (Lacan, 1957-1958/1999). O pai fica em uma condição de privador, frustrador e interditor

que tende a catalisar a função de castrador. A castração é uma falta simbólica de um objeto imaginário, a privação é uma falta real de um objeto simbólico e a frustração é uma falta imaginária de um objeto real. O pai, enquanto aquele que interdita, irá frustrar a criança. Este é um ato imaginário, mas o objeto é real porque o pai faz-se saber para a criança como aquele que tem direito da mãe. Do ponto de vista da mãe, ela é privada, ou seja, ela é privada de seu filho, porém enquanto objeto simbólico. Essa dupla de frustração e privação fazem com que a criança se questione sobre sua posição de falo. O que entra em questão é

a dialética de ser ou não ser o falo. (Dor, 2003).

)

(p. 221). Na obra freudiana não se encontra o termo falo, apenas pênis. Entretanto,

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O terceiro tempo do Édipo é o que chamamos de “declínio do complexo de Édipo”.

O pai interditará como potente e real, sendo aquele que possui o falo. O pai é internalizado como ideal de eu, afinal é possuidor do objeto que a mãe deseja. Esse tempo é posterior ao período de privação e castração da mãe. O pai aparecerá no seu próprio discurso e não só no discurso da mãe (Lacan, 1957-1958/1999). Freud (1924/s.d.) refere que o declínio do complexo de Édipo no menino se dá pela ameaça de castração, ele irá desistir da mãe e poderá ter o falo. Já na menina, o complexo de Édipo é mais simples, pois o que ela renuncia é o ter o pênis (falo) e desliza para ter um filho. Isso significa que o sujeito se posicionará como tendo ou não o falo. No caso do menino, ele será aquele que possui o falo, agora um falo simbólico que possibilita substitutos, e no caso da menina, ela não terá o falo, mas saberá onde encontrá-lo: no pai. Mais tarde pode-se dizer que encontrará o falo em seu filho. Neste tempo, a lei é simbolizada e, portanto inscrita. A lei paterna é o S1, o significante primordial que sempre remeterá aos significantes que virão posteriormente (Dor, 2003).

Definição do conceito de estrutura e conceitos básicos

A descrição das estruturas clínicas exige uma introdução ao conceito de estrutura.

A atitude estruturalista constitui-se como um novo pensar, no qual os objetos e elementos não apresentam uma relação direta. Para tal, é necessário renunciar certo tipo de descrição de qualidades, de propriedades específicas e da natureza dos objetos, para que possam advir relações, aparentemente dissimuladas, que existem entre eles ou seus elementos (Dor, 2003). Nota-se a relação desta forma de conceber a estrutura com o funcionamento inconsciente, no qual as representações inconscientes se articulam mesmo sendo contraditórias.

A estrutura comporta características como a de totalidade, na qual há independência

dos elementos que compõem uma estrutura e a reunião destes é necessariamente diferente da sua soma. A noção de transformação é outra característica que depende de leis que definem operações que compõe dada estrutura. Desta forma, entende-se que seriam estruturantes de uma realidade já estruturada. Por fim, a auto-regulação, que é fundamental, pois significa que a estrutura se auto-conserva. Em outras palavras pode-se falar em estabilidade do sistema (Dor, 2003). Lacan, em seu retorno a Freud, utilizará as construções teóricas da linguística, sendo que é influenciado, principalmente, por Saussure. Assim, ele se utiliza dos conceitos da linguística para descrever a estrutura do inconsciente. Entretanto, há uma virada

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conceitual, pois o significante passa a ter supremacia em relação ao significado, o que Saussure pensava de forma oposta (Dor, 2003). O significante é a imagem acústica e o significado o que este representa, todavia o significado é secundário e possui menos

importância que o significante, já que são as diferenças entre os significantes que os caracterizam. Um significante só pode existir na condição de se remeter ao outro significante. Então S1 significa um e S2 significa dois, portanto o S1 só terá sentido se este remeter a S2 e a todos os outros significantes, dando a ideia de um contínuo, de uma rede de articulações (Hassan, 1992).

A estrutura clínica pode ser entendida pela forma como o sujeito se organiza, como

defesa contra uma angústia que é inerente a todo ser humano. Para Hassan (1992), a estrutura está inserida na experiência, ela é efeito de linguagem e se inscreve no real. A estrutura psíquica não é algo intermediário à experiência e não pode ser reconhecida fora da clínica, pois é através do discurso que ela se manifesta. A linguagem precede ao homem, portanto é esta que organiza a estrutura. Ainda é necessário descrever minimamente a topologia lacaniana, a saber: o real, o imaginário e o simbólico. O real é o indizível, o impossível, aquilo que não pode ser representado, por isso ele não cessa de não se inscrever (Lacan, 1953-1954/1994). O real é

o registro que não se inscreve no psiquismo, pois está fora deste, ou seja, o corpo enquanto entidade orgânica pode ser compreendido como parte real. Além deste, pode-se ainda deduzir que a própria pulsão é da ordem do real, visto que se trata de um conceito fronteiriço entre o psíquico e o somático (Hassan, 1992). O real é o inconsciente, porque é

inacessível, só se pode saber dele através do simbólico. Segundo Jorge (2008), “(

núcleo do inconsciente é real, é uma falta originária constituída pelo objeto perdido do

o

)

desejo e é em torno dessa falta que o inconsciente se estrutura, no simbólico, como uma linguagem.” (98)

O registro do imaginário é da ordem da imagem. Lacan, no seminário 1 (1953-

1954/1994), irá se utilizar de conceitos da óptica para descrever o imaginário. A construção do estádio do espelho também é da ordem do especular e, portanto do registro imaginário. O pente invertido que Freud irá utilizar para explicar a apreensão das percepções pelo aparelho psíquico e os registros destas como traços mnêmicos, Lacan irá

referir que estes traços são da ordem do registro imaginário. O imaginário é, portanto, onde se encontra o eu com suas ilusões, alienação a identificação com o outro e de fusão com o corpo da mãe (Plon & Roudinesco, 1998).

A linguagem diferencia os seres humanos dos outros animais. Então, é através da

linguagem que identificamos o simbólico (Lacan, 1953-1954/1994), pois a linguagem é o

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modo pelo qual o sujeito se expressa. Neste registro, o sujeito poderá utilizar-se da metáfora, e é onde os significantes estarão em oposição, estando um referenciado ao outro. O simbólico está implicado com outro e com o inconsciente, que é estruturado como uma linguagem (Hassan, 1992). Entretanto, não significa que o inconsciente se reduz ao simbólico ou que o simbólico se reduza ao inconsciente, mas que o inconsciente recalcado que é descrito por Freud, e o retorno deste faz parte do simbólico. O conceito de simbólico fica indissociado aos conceitos de significante, forclusão e nome do pai. Pois o significante é a essência do simbólico, é a articulação de continuo de um significante a outro, que se estabelece a cadeia e, portanto, a possibilidade da linguagem. A forclusão faz com que o simbólico desapareça porque dessa forma não há a inscrição do nome do pai, sendo que é esse o intermediador da lei da ordem do simbólico, a saber, a proibição do incesto (Plon & Roudinesco, 1998). A articulação entre os três registros irá produzir o nó borromeano. Este, refere-se a intersecção dos três registros, é o que ao mesmo tempo unifica e o que particulariza cada registro. Qualquer coisa jamais deixa de existir (imaginário), ou deixa de não se escrever

(real), ou deixa de se representar (simbólico), então é nesta articulação que os três registros se sustentam e se constrangem, é no nó, portanto, que se encontra a realidade psíquica. Então, o nó é um vazado, um buraco onde se instala o objeto a que é causa de desejo (Vorcaro, 2009). Tudo começa pelo real, ele constitui a base estruturante do sujeito, o simbólico, e esse possibilita a constituição de imaginário, originalmente faltoso. Porém, se formos seguir a representação de Lacan Real-Simbólico-Imaginário (R-S-I), como é um

, logo o imaginário também incide

continuo ficaria da seguinte forma

sobre o real. Percebe-se que os três registros estão amarrados entre si, e que o simbólico está sempre entre o real e o imaginário, como se tivesse duas faces, uma para o real e outra para o imaginário (Jorge, 2008). Os três registros se repetem incessantemente e indestrutivelmente fazem coincidir o desejo e a lei paterna. O fantasma e o sintoma que sustentam e constrangem as condições de gozo. O nó borromeano é o pai-vertido, portanto não é a norma de relação entre os três registros. Há um ponto central que é a intersecção entre o real, o simbólico e o imaginário onde se localiza o objeto a. Esse seria o objeto que satisfaria o sujeito, porém ele é perdido e faltoso (Vorcaro, 2009). Cabe-nos pensar um pouco sobre o objeto a. Este é um objeto faltoso, perdido que o sujeito busca sempre reencontrá-lo. Esse objeto se situa no centro do nó borromeano como já citado e é o motor da estrutura, sendo a própria causa da estrutura. Ele participa dos três registros por estar na intersecção, entretanto por se tratar de um objeto inexistente,

R-S-I-R-S-I

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inapreensível o que importa deste é justamente seu registro no real. Pois é um objeto que não possui em si um nome ou imagem, ele é causa de desejo porque opera no furo da estrutura, em um vazio. Para além do registro real do objeto a e o que é apreensível é o que Lacan irá chamar de imagens de a. Essas são as representações de cada sujeito que são construídas pelo simbólico, através dos significantes do Outros, ou seja, o objeto que satisfaz parcialmente a pulsão é justamente as imagens de a, visto que o objeto enquanto tal é perdido. Por isso, que Freud sempre irá referir que o encontro com o objeto sempre é um reencontro (Jorge, 2008). Revisados estes conceitos agora é possível dissertar sobre as grandes estruturas clínicas: a neurose, a psicose e a perversão. Ressaltamos que estas estruturas ainda admitem subdivisões, todavia este trabalho não suportaria tamanha profundidade.

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AS ESTRUTURAS CLÍNICAS

A Neurose

A neurose é a estrutura formada a partir do recalcamento do significante primordial,

a castração. Isso irá trazer consequências para este sujeito, já que nos remete há um

registro de uma proibição. O conceito de castração em psicanálise não refere-se a mutilação dos órgãos sexuais, e sim a uma angústia vivida pela criança ao se deparar com a diferença sexual (Nasio, 1995). O significante da castração representa para a criança que ela não poderá realizar seus desejos incestuosos e que seu corpo tem limites, caindo desta forma da

posição de falo da mãe (Dor, 2003). Entretanto, a castração é um processo que ao longo da vida do sujeito irá demandar uma resposta. A morte pode ser compreendida como algo radical que representa a castração, pois ela nos remete a finitude do sujeito, dando-lhe um limite (Dor, 2003; Lacan, 1999/1957-1958; Nasio, 1995) Freud descreve que a neurose é um conflito entre o Eu e o Id (Freud, 1923/2007). O

Id é a sede das pulsões. Desta forma, seu intuito é a satisfação pulsional, desconsiderando a

realidade. O alvo da pulsão é a satisfação (Freud, 1915/2004b). Nesse texto, Freud

descreve ainda a pulsão em quatro termos. Ele diz que elas possuem uma pressão constante, a sua fonte é no corpo, e o seu objeto é o que há de mais variável.

O Eu estaria a serviço da realidade e entra em conflito com tais exigências do Id. A

solução do conflito é o recalcamento. Entretanto, o recalcamento só é possível, porque o significante primordial foi inscrito no ICS, ou seja, recalcado (Freud, 1924/2007a). O recalcamento (Verdrängung) é o processo que funda o inconsciente (ICS) e também o mecanismo que deixa afastado do sistema pré-consciente/consciente (PCS/CS) os desejos ICS que geram desprazer neste último. Entretanto, temos uma contradição, ou ele funda os sistemas, ou ele faz parte de dos sistemas. Esta contradição é resolvida por Freud quando divide o processo de recalcamento em recalque originário, propriamente dito e retorno do recalcado. Resumidamente, o recalque originário é aquele em que ocorre uma fixação da libido em um determinado representante pulsional e esta é inscrita em um “local” do aparelho psíquico, este “local” será o ICS. Já o recalque propriamente dito é uma pressão posterior. Tudo o que se assemelhar ao recalque originário também sofrerá o mesmo destino. Como a pulsão mantém uma pressão constante, o recalcamento nunca poderá deixar de exercer a contra pressão, pois se isso ocorrer a barreira do recalque se extinguirá, e o conteúdo tornar-se-á consciente. O retorno do recalcado é quando, através

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de modificações, pelo processo de condensação e deslocamento, os representantes pulsionais ICS, encontram um representante no sistema PCS/CS que fale deles (Freud, 1915/2004a; Garcia-Roza, 2002). Garcia-Roza (2002) afirma que o retorno do recalcado se trata de dupla inscrição, posto que o que está ICS jamais deixará de ser ICS. Então, entende-se que o que está no inconsciente é a representação-coisa e no PCS/CS a representação-palavra, já que o que é da ordem do ICS está inscrito em um “idioma” indecifrável, sendo apenas possível saber dele através de um representante que fale dele (Freud, 1923/2007; Garcia-Roza, 2002). O sujeito que irá se estruturar como um neurótico reconhecerá e aceitará a castração, ou seja, reconhecerá que possui limites, que não pode tudo. Abrirá mão dos desejos incestuosos, tento que cair da posição de falo da mãe. O pai interditará o filho, todavia em troca desta proibição, a saber, o incesto, a criança ganhará um nome, um lugar subjetivo e poderá então falar de si enquanto um sujeito único (Lacan, 1957-1958/1999). O falo passará a ser um falo simbólico, porque este admitirá substitutos, sendo que o sujeito castrado é um sujeito faltante, pois o objeto é perdido se tornando causa de desejo. O sujeito troca a relação incestuosa com a mãe por outros relacionamentos. Além desta troca, há outros que buscaram preencher essa falta. O neurótico é um sujeito impedido, porém desejante e situado em um lugar referido a um centro. Outro aspecto importante é que, caso este sujeito venha adoecer, só poderá fazer isto dentro das possibilidades da neurose, porque sua estrutura lhe garante esta possibilidade, lhe deixando preso. Para fazer uma analogia pode-se utilizar o norte, que faz com que as pessoas se guiem, evitando estarem perdidas (Calligaris, 1989). Pode-se observar o impedimento neurótico nos casos que o próprio Freud tratou. Como exemplo para pensar na questão neurótica temos o caso de Elisabeth Von R. Esta paciente apresentava sintomas físicos como dores musculares, porém quando Freud a examinava lhe beliscando a perna sua expressão era de prazer. Freud refere que a origem de seus sintomas estava no desejo pelo cunhado, que lhe era proibido. Porém, quando sua irmã morre tem o pensamento “agora ele está livre para mim”. Este pensamento sofre uma repressão, por ser intolerável, pois revela seu desejo pelo cunhado (Freud, 1893-1895/s.d.). Freud no texto A Perda da Realidade na Neurose e Psicosede 1924, faz referência a este caso. Refere que na neurose há perda da realidade, logo o sujeito irá fantasiar. Freud apresenta dificuldades em estabelecer a diferença entre o delírio e a fantasia, porém o que fica estabelecido é que na fantasia há contato com a realidade (Freud, 1924/2007b). Quando a fantasia sofre o recalcamento secundário, que foi fundamentado pelo recalque primário, sendo que a pulsão não deixa de insistir em seu objetivo que é a

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satisfação, o que sobrevêm é o retorno do recalcado, que é o sintoma. O sintoma é a formação de compromisso entre os dois sistemas ICS e Pcs/Cs. Desta forma, ele é a satisfação pulsional mesmo sendo essa parcial (Jorge, 2010).

Quanto ao desenvolvimento psicossexual e do complexo de Édipo, pode-se afirmar que o sujeito está genitalizado, que sua sexualidade é uma questão edípica, então pode ter relações sexuais por ter avançado até a fase genital. A relação com os objetos é total. O sujeito reconhece e aceita a castração e isso irá posicioná-lo na estrutura neurótica. Lacan (1957-1958/1999), afirmou que primeiramente o pai priva a mãe de seu filho, de seu falo. A privação é uma perda imaginária de um objeto real, a criança também é afetada pela privação e é frustrada, para por fim ser castrada. A castração é simbólica e é ela que permite que o sujeito reconheça seus limites e, portanto, acenda ao simbólico. Logo, isso situa o neurótico na posição de faltante e passa a possuir uma falta, o que o torna um sujeito desejante (Calligaris, 1989; Dor, 1996).

O que lhe faltará é o objeto perdido que Lacan irá denominar de objeto a, que é

causa de desejo. O objeto a é justamente o que o sujeito deseja e não tem acesso por ser irrepresentável (Plon & Roudinesco, 1998). Por conseguinte, é o que preencheria o sujeito. Esse objeto não pode ser acessado, pois de fato pertence ao registro do real, sendo o que

escapa a análise. Na neurose, o sintoma sempre se dá pelo retorno no simbólico, porque existe um registro que situa o sujeito lhe garantido uma filiação. O sintoma é o retorno da fantasia, sendo que o neurótico a recalca e esta sempre retornará (Jorge, 2010).

A grande marca da neurose é a fantasia, que está sob recalque. Segundo Nasio

(1991), a angústia de castração é o núcleo da fantasia neurótica. Como tudo o que está recalcado tende a voltar, é no retorno dessa fantasia que o neurótico poderá dar diferentes destinos para seu sintoma. Esses poderão ser convertidos em sintomas físicos, ou se fixar em um pensamento, ou ideia, ou ainda ser projetados em um objeto externo. A neurose é uma defesa contra a angústia de castração. Então, para o neurótico a construção do Outro é primordial, afinal é isso que lhe importa. O recalque originário do significante primordial

que está ligado a pulsão incestuosa permite que os outros significantes sejam recalcados, ordenando estes de forma organizada em cadeia (Víctora, 2007).

A neurose é a fuga da realidade, entretanto essa fuga é de sua realidade psíquica, ou

seja, das demandas do Id. A realidade elidida continua a se fazer ouvir através do sintoma, que é simbólico. No neurótico o que está em questão é o registro simbólico, isso é possível, pois há o recalque do significante nome-do-pai. O retorno do recalcado é o que aparece, porém este é distorcido pelos processos ICS. Entretanto e diferentemente da psicose o retorno sempre se dá no simbólico (Lacan, 1955-1956/1985).

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O recalque originário do nome do pai substitui o desejo da mãe e impede que o

sujeito possua um gozo absoluto, que é impossível, para que este possa ter um gozo fálico, parcial, que é dito como sexual. O gozo fálico é recortado pelos significantes e emoldurado pela fantasia e o objeto desta é o pequeno a. O desejo é sustentado pela fantasia, pois o objeto é perdido (Jorge, 2010).

Se para o neurótico o que lhe importa é o Outro, ele irá se questionar: o que o outro

deseja de mim? Esta é uma pergunta sem resposta, pois são as fantasias do jogo do falo, imaginário e simbólico que determinaram a formação de compromisso, ou seja, os sintomas neuróticos desse sujeito (Hassan, 1992). Então, o neurótico é o sujeito que aceitou a castração e isso o deixa preso a algo. Todavia, recebe o nome do pai, a consequência disso é que no discurso terá um sujeito, algo que está ausente na psicose. Na neurose, a significação é fálica e, portanto universal, diferentemente da psicose onde as significações são sempre singulares (Calligaris, 1989).

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A Psicose

Na estrutura psicótica o mecanismo utilizado é da forclusão. Este mecanismo faz com que o significante primordial não se inscreva, causando um furo no psiquismo do

) para designar

um mecanismo especifico da psicose, através do qual se produz a rejeição de um

). Não é integrado

no inconsciente, como no recalque, e retorna sob forma alucinatória no real do sujeito.” (p.

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O mecanismo de forclusão (Verwerfung) é uma forma de “negação” especial. É tão

violenta que o sujeito chega a negar o primeiro momento do complexo de castração, que compreende que todos seriam portadores de um pênis (falo), inclusive sua mãe. Não tendo

a percepção que todos possuem um falo, não há porque temer a castração. Este mecanismo

significante fundamental para fora do universo simbólico do sujeito (

sujeito. Segundo Plon e Roudinesco (1998), o conceito de forclusão é “(

faz com que o sujeito fique na posição de falo, desta forma ele acredita ser aquilo que

preenche a falta do outro, e por sua vez também é completo (Nasio, 1995).

A forclusão (Verwerfung), consiste em deixar de fora a representação da castração.

A falta de inscrição no ICS do sujeito deste significante, a castração, faz com que este fique sem um lugar subjetivo. A marca deste mecanismo é deixar a pessoa sem limite, desta forma pode-se tudo, possibilitando em caso de adoecimento as alucinações e delírios. Além disso, este mecanismo se caracteriza por um repúdio a este significante que é

insuportável, pode-se dizer que é a negação da fantasia que todos são possuidores do falo,

é um deixar de fora a igualdade e dessa forma a impossibilidade do sujeito questionar a

completude. Sendo assim, a questão da castração fica totalmente de fora, pois se é “negada” a completude, automaticamente fica impossível a possibilidade da castração (Nasio, 1995). Na psicose, o sujeito fica preso na relação de objeto parcial. O seio para a criança equivale ao significante primordial, porque ele é revestido pela representação do falo. A relação da criança com o seio na verdade é de sua boca com o seio, marca do auto- erotismo. Falta ao psicótico o apoio necessário para que ele possa desinvestir o seio enquanto objeto parcial. Dessa forma, a criança não se coloca como um em relação ao Outro, apenas como partes, não possuindo um corpo integral. Com a impossibilidade de um corpo total, unificado a criança ficará alienada a demanda materna, ficando sem desejo, uma vez que não há falta. A inexistência da falta se dá porque a mãe antecipa sua necessidade não deixando faltar nada a seu bebê. Desta forma, a criança ficará completa, mas alienada ao desejo materno (Aulagnier, 1991). Além disso, o sujeito psicótico é

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compreendido como um sujeito sem desejo, porque o desejo é o enquadramento da pulsão pela fantasia. Ora, se a fantasia é da ordem do simbólico e o psicótico não tem acesso a este, por estar preso no registro do real de seu corpo ou no imaginário, o que lhe sobra é o

discurso delirante. Na neurose a alteração da realidade se dá pela construção da fantasia, já na psicose pelo delírio (Jorge, 2010).

O sujeito estruturado como psicótico ficará preso na relação simbiótica com a mãe.

Não há entrada do terceiro, por isso o sujeito não reconhece a lei, esta fica de fora. Ao

contrário do sujeito neurótico, o psicótico não é barrado, interditado, podendo ser qualquer um. Não podendo ascender ao simbolismo, o que se verifica no discurso deste. Em seu discurso fica evidente a falta de metáfora. (Calligaris, 1989; Dor, 2003)

O psicótico ficará sem um lugar, sem uma filiação. Este sujeito não acreditou na

função paterna, não estando referido a um saber, e, portanto não está orientado a um ponto central, que o referenciaria (Calligaris, 1989). Quando há entrada de um terceiro, no caso da neurose, o sujeito realiza uma troca, aceita a interdição do pai, a saber, a proibição do incesto, e se torna um sujeito interditado. Por outro lado, ganha uma posição subjetiva, ele

é um sujeito, possui um nome, o nome do pai. Outra marca desse mecanismo fundamental da psicose se presentifica em seu discurso. Esse é marcado por neologismos, porque o significante e o significado estão cortados, afastados. Isso ocorre como consequência da não inscrição do nome-do-pai. O

neurótico possui o ponto de capiton, que é o ponto central que amarra a cadeia de significantes, algo que está ausente no psicótico. Portanto, o sujeito na psicose é habitado pela linguagem e pode falar em uma língua exclusivamente sua, que é o delírio. Como pode ser observado na língua fundamental a qual Schreber dizia que se comunicava com Deus (Herrmann, 2004).

O que importa para o psicótico é o corpo. O corpo é o registro do real. Lacan refere

o que não pode ser simbolizado volta sobre o real. Isto pode ser observado no caso homem

dos lobos (Freud, 1918[1914]/s.d.), que o paciente alucina que seu dedo foi cortado. O que podemos observar neste caso é que a castração que não foi inscrita no simbólico apareceu no real, ou seja, no corpo. Os sujeitos estruturados como psicóticos não diferem o corpo e a imagem deste no espelho. É por isso que uma criança pequena quando presencia outra criança rindo ou chorando acaba repetindo o mesmo ato, porque não se diferencia da outra (Hassan, 1992). O corpo é compreendido como aquilo que representa o real, pois não pode em sua totalidade ser refletido no espelho e capturado pelo imaginário. Lacan (1955- 1956/1985), irá referir que a alucinação é algo que não pode ser simbolizado, desta forma voltará sobre o real. O que não pode ser simbolizado no caso da psicose, e portanto foi

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forcluído é a castração. Vejamos que o paciente do homem dos lobos não revela a sua ama, a quem era sua confidente, sobre sua alucinação, porque esta lhe remete diretamente aquilo que é insuportável para ele, então lhe falta a palavra (Lacan, 1953-1956/1985). Outra característica destes sujeitos é o discurso vazio, marcado por neologismos, e por uma verborréia, ou seja, repetem as palavras como papagaios, sendo estas sem significado, por isso podem passar de um assunto a outro. Não há metáfora como referido acima, as palavras possuem apenas um significado, não há espaço para a simbolização (Calligaris, 1989). Algo importante de salientar aqui é que no neurótico há um sujeito suposto saber, ao menos um detém o saber, entretanto este saber comporta erros, pois a um deslizar de significantes. Já no caso do psicótico há apenas um saber, por isso que há impossibilidade da metáfora (Calligaris, 1989). Na psicose há uma certeza e isso que faz o questionamento ser ausente nas alucinações e delírios desses sujeitos. Esses sujeitos tem plena convicção de suas construções, pensamentos, que podem ser percebidos nos relatos do presidente Schreber. Além desses, pode-se observar nos discursos religiosos onde só há espaço para uma verdade e essa é inquestionável (Coriat & Pisani, 2001). A forclusão possibilita que o sujeito não possua interditos internos, porém lhe nega uma filiação. O sujeito sempre estará em busca de algo que possa cobrir o furo deixado por este mecanismo. No sujeito neurótico há uma falta que é origem do desejo, pois lhe falta o falo, ou seja, o que lhe faz completo, já que ele é interditado. Já na psicose o sujeito se posiciona como aquele que preenche a falta e por isso é “completo”, entretanto lhe falta à filiação que lhe garante um lugar, preso a um centro que o direcione (Calligaris, 1989). Como citado acima, a castração volta sobre o real, quando não pode ser simbolizada. Isto ocorre porque a castração demanda o sujeito o tempo todo, pois os limites se apresentam continuamente para todos. Quando o significante primordial é evocado pelo sujeito só há o vazio, então, a realidade é modificada pelo sujeito. Freud (1924/2007b) escreve que o sujeito modifica sua realidade para poder lidar com a angústia de castração. O psicótico poderá encontrar algo que o interdite no externo. O sujeito poderá utilizar o trabalho, a religião, o estudo entre outros, como algo que lhe garanta a filiação. Então, para o psicótico o trabalho falará dele. Como ele não possui o ponto central que amarra todos os demais significantes, pois este foi forcluído, poderá encontrar algo que lhe situe. Pensando clinicamente um exemplo pertinente para visualizar como o sujeito lida com a questão da filiação, é alguém que recebe um diagnóstico e se utiliza deste para falar de si.

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A psicose consiste na falta de um lugar para o sujeito, que impede a simbolização. Tudo está no corpo que lhe falta, continuará alienado na imagem especular, que é a verdade do outro (Hassan, 1992). No caso Schreber, pode-se observar como ele estava alienado na imagem do outro,

a

da mãe, quando, em seu delírio, pensa como seria bom ser uma mulher na hora do coito,

e

também, quando frente ao espelho se vê adornado de colares e adornos femininos, e além

de caracteres femininos secundários. Esta imagem captura-o, transformando-o em mulher, isto é possível pela ausência da inscrição da metáfora paterna, permitindo que ele seja qualquer um, até uma mulher, e mais ainda a mulher de Deus (Freud, 1911/s.d.). Neste caso é possível perceber a relação que os sujeitos estruturados como psicóticos possuem. O presidente Schreber nas suas memórias escreveu que seu esôfago foi cortado em pedaços,

que seu pulmão foi infestado por vermes que fizeram que este encolhesse até quase desaparecer. Conta ainda que deglutiu sua laringe (Freud, 1911/s.d.). Nesses, relatos fica claro que seus delírios estão no real de seu corpo, todavia se referem à castração, a ausência de algo, uma falta no real de seu corpo. Freud (1911/s.d.) refere que a psicose é uma prevalência do narcisismo. O psicótico ficaria preso no investimento libidinal direcionado ao seu próprio eu, não levando em consideração o externo, que por sua vez é o amor objetal, visto que a criança quer ser amada, e ama a si através de sua imagem especular. A imagem especular é o seu reflexo na imagem materna, ou seja, é o retorno que

a mãe dá a seu bebê (Jorge, 2010; Coriat & Pisani, 2001). Lacan (1955-1956/1985) refere

ao presidente Schreber é o alienado, pois o sujeito está preso no real. A função do analista

é dar ouvido ao discurso sendo seu secretario, porque o psicótico mesmo em meio a seus

delírios comunica. Sendo a função do pai real que lhe retorna no delírio de uma forma imaginária. A função de pai real, como aquele que procria, que fecunda. Para concluir, percebe-se que o psicótico é o próprio objeto de desejo do outro, um dejeto, um resto (Hassan, 1992). Qualquer forma de estruturação é uma defesa contra a prisão do real, do corpo. O sujeito necessita ser mais que uns quilos de carne. As questões

que foram apresentadas sobre a estrutura psicótica podem ser percebidas na relação transferêncial. Portanto, na clínica psicanalítica é possível um diagnóstico estrutural da psicose mesmo na ausência de sintomas fenomelógicos de uma crise psicótica como:

alucinações, delírios (Calligaris, 1989).

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A Perversão

A renegação (Verleugnung) é o mecanismo da perversão. Etimologicamente este termo refere-se à negação da negação, então o que é negado duas vezes, se torna presente.

É como uma equação matemática onde negativo com negativo é igual a positivo. O que é

renegado é a castração, portanto o sujeito que se utiliza deste mecanismo pode triunfar sobre a castração. A renegação causa no sujeito uma cisão psíquica, de um lado ele reconhece a castração, recalca, de outro lado ele “nega” este significante. É por isso que o

sujeito consegue transpor a lei (Valas, 1990). Segundo Roudinesco e Plon (1998) este é um mecanismo descrito por Freud que é

caracterizado pela recusa de uma realidade negativa, ou seja, da falta no outro. Neste caso,

o que o sujeito irá negar é a ausência de pênis na mulher, onde havia falta, agora há

presença. Pode-se referir que a marca da renegação é realizar a fantasia que no neurótico está recalcada. Neste sentido, Freud refere que a neurose é o negativo da perversão (Jorge, 2010). Há perda da realidade tanto na psicose como na neurose, entretanto enquanto o psicótico delira, o neurótico fantasia e recalca e o perverso realiza esta fantasia. Falando imaginariamente o perverso é aquele que realiza o incesto (Freud, 1924/2007b; Jorge,

2010).

Freud (1927/2007) faz a diferenciação entre renegação e escotomização. Ele escreve que a segunda refere-se à anulação, ao apagamento da percepção da ausência de pênis na mulher. Já na renegação o sujeito reconhece a falta, entretanto irá negar. O perverso irá cobrir a falta, ou seja, utilizará um objeto que inutilize o registro real da falta. Nesse artigo o fetichismo é apresentado como modelo de estudo das perversões. O vocábulo fetiche vem do latim factitiuns que significa feito com intencionalidade, sendo que em francês é fetiche e para o português feitiço (Hassan, 1992). Portanto, será algo que enfeitiça o sujeito que o seduz de tal maneira que o captura. Então, o fetichismo poderá ser uma saída para os perversos, pois lhe garantem certo triunfo sobre o significante da castração (Valas, 1990). Cabe lembrar que a estrutura perversa é diferente de perversidade. A perversão é como o sujeito irá responder a castração. A perversidade pode estar presente em alguns perversos, mas não é ela que caracteriza a estrutura, já que a perversidade diz respeito à maldade e a crueldade. Este esclarecimento se faz necessário porque a estrutura é o modo como o sujeito se constitui, desta forma não estará enquadrada em questões morais. Entretanto a perversidade é julgada pela moral e condenada por esta (Valas, 1990).

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Se na neurose o sujeito é referido a um centro, e na psicose ele fica sem referência,

então na perversão onde deveria estar o registro da castração está vazado, apagado (Jorge, 2010). Para ficar mais didático pode-se referir da seguinte forma na neurose está escrito, na psicose nada foi escrito e na perversão foi escrito, entretanto está apagado, porém o que fica é a marca desta escrita. A cisão que o sujeito sofre em virtude do mecanismo de renegação é de seu próprio eu. O eu ao mesmo tempo em que irá reconhecer a realidade, irá recusá-la, ou seja, o perverso sabe que a mulher não tem pênis (falo), entretanto negará, recusará esta realidade. Esta realidade convoca sua angústia de castração, pois se alguém não possui o falo ele poderá perder o seu (Dor, 1991). Por isso, que o objeto de fetiche é considerado como substituto do falo. O fetichismo pode ser a direção da cura para o perverso, assim como o delírio é para psicose. Quando o sujeito se depara com a mulher desnuda percebe que há uma falta, dessa forma o fetichista resolve a questão colocando um onde há ausência. No entanto não significa que todo perverso seja fetichista, mas a questão sempre é a mesma, o triunfo sobre a castração (Valas, 1990).

A cisão do eu é um processo de defesa primeiramente descrito por Freud

(1938/2007) como algo referente às psicoses, depois associado ao fetichismo. Todavia, ele percebe que há uma cisão psíquica na neurose, na psicose e no fetichismo. Por fim, chega à conclusão de que se tratava de algo específico da perversão, pois a cisão da neurose é algo intersistêmico, ou seja, entre o eu e o id e na perversão é intrassistêmico, ou seja, dentro do mesmo sistema. Diferentemente do psicótico que nada sabe sobre a castração, que não percebe a diferença sexual, o perverso sabe, mas mesmo assim insiste em “negá-la”. O que ocorre é que o sujeito coloca a representação do pênis (neste caso é o falo que está sendo referido) em outro lugar de seu corpo, dessa forma fica protegido contra a castração. Para tal, é necessário o mecanismo que irá dividir o eu, pois em parte ele percebe a ausência de pênis, a sua questão fica resolvida. Isso tem um custo que é a própria divisão do eu que se torna irrecuperável, além de que o sujeito continuará com o medo da castração, e para

aliviar-se repete seus atos perversos (Dor, 1991; Freud, 1938/2007). Continuando na perspectiva teórica a Verleugnung (renegação) é uma operação no registro do real e volta sobre o imaginário, pois a questão da castração convoca a todos os sujeitos não importando sua estrutura (Anchieta, Coimbra, Lisboa, Mello & Vilela, 2004). Isso significa que perverso afirma a questão do falo. Para ele o que lhe importa é o falo e a castração fica “negada” não causando o mesmo efeito que no neurótico. No caso da neurose, a castração aprisiona o sujeito fazendo com que este ascenda ao simbólico. Na perversão, o falo continuará sendo imaginário, aquele que é imperativo, que preenche a

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falta deixando o sujeito completo imaginariamente. A diferença entre a perversão e a psicose é justamente a tentativa de apagar a castração, que no caso dos psicóticos não há reconhecimento (Freud, 1927/2007; Hassan, 1992; Valas, 1990). Além disso, no exemplo do fetichismo há modificação no real com o objeto fetichista, entretanto o objeto é imaginário, porque a calcinha, a bota, a cinta liga entre outros, ocupam um lugar de poder que de fato eles não possuem. Enquanto no neurótico o sujeito reconhece seu limite, perdendo a possibilidade de gozo total, mas por outro lado ganha um nome e um lugar subjetivo, na perversão pode transpor a lei, mas fica preso na questão de repetir o ato perverso. Isso pode ser observado na questão do fetichismo, ou de outra manifestação perversa. O perverso precisa do objeto de fetiche mesmo que em algum momento queira deixá-lo de lado. É por isso que Hassan (1992), afirma que o perverso é normal, assim como o neurótico e o psicótico, pois o que lhe importa é o falo. O diagnóstico estrutural se dá em outro modo de compreender o sujeito que é para além do normal e patológico. Pode-se observar que há perdas, ou fragilidades em todas as estruturas. Além dos aspectos acima descritos, é necessário pensar sobre a parcialidade da sexualidade na perversão. A pulsão continua sendo parcial para o perverso. Freud (1905/s.d.) escreve que a criança possui uma sexualidade, perverso-polimorfa, ou seja, perversa por não ser genital e visar somente ao prazer e polimorfa, pois há muitas formas de satisfação. A pulsão difere do instinto justamente por apresentar uma pressão constante, seu objetivo ser sempre a satisfação e seu objeto, sendo que é através deste que encontra seu objetivo, é o mais variável possível. Entretanto a pulsão é só satisfeita parcialmente, pois o objeto que a satisfaria por completo é inexistente (Freud, 1915/2004b; Garcia-Roza,

2002).

Na neurose há a fixação em uma ficção ou fantasia, já o perverso fica preso em repetição de seu ato, ou seja, preso no gozo do Outro (Anchieta et al., 2004). Este é correspondente da satisfação plena, onde a tensão cessaria por completo. O sujeito supõe este gozo no outro, sendo que este outro também é suposto (Nasio, 1993). Daí a questão da repetição em ato dos perversos, pois há uma suposição de gozo total, porém este nunca ocorre. Para tanto é preciso que outro ato sobrevenha para que o significante da castração, que é justamente o que lhe angustia, fique apagado. Mas o que seria o gozo do perverso? Antes de responder a essa pergunta é necessário compreender o que é o gozo. Poderia dividir o gozo em três modos de gozar. Sendo o primeiro um gozo fálico e por esse compreende-se um gozo limitado, intermediado pelo falo, ou seja, um gozo parcial. O mais-gozar seria um resto de gozo a

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tensão que sobre no ICS. Já o gozo do Outro seria, por sua vez, um gozo total onde não haveria tensão alguma, que pode ser associado à própria morte, como a ausência de tensão ou ao ato incestuoso. Entretanto, o gozo total, ou gozo do outro não passa de uma ficção algo que não pode ser atingido, de uma miragem (Nasio, 1993). Aparentemente esse, no caso da perversão, é obtido a preço da transgressão. Entretanto o perverso está sempre preso ao gozo do Outro, o que esse sujeito busca incessantemente é tapar o furo do outro, desse modo fica desconstruída por completo a associação de perversão e perversidade já citada acima. O perverso fica preso em suas encenações e descobre com horror o limite de sua montagem imaginária. Essa montagem é a tentativa de provar a não existência da diferença entre os sexos (Dor, 1996). Se a castração remete ao limite, a finitude, então se pode compreender que é isso que o perverso não suporta. Na verdade, a castração é um

significante insuportável para todos os sujeitos, pois ela ataca a onipotência infantil. O ato perverso seja lá qual for é sempre um triunfo sobre este significante. Então, o perverso não se torna autônomo por transpor a lei, mas sim um escravo do gozo do Outro (Dor, 1996; Julien, 2009). O perverso acaba por se identificar imaginariamente com a mãe, por supor que esta possua o falo. Então, ele ultrapassa o primeiro tempo do Édipo onde a dialética é se ser ou não ser o falo, entretanto nega a diferença dos sexos por ter que possuir o falo que

é o desejo de sua mãe (Dor, 1996, Oliveira, 1996). Dor (1996) afirma que o perverso faz

com que a mãe tenha um falo, para que a diferença seja apagada, desta forma tira o pai de cena, pois se a mãe é faltante e deseja um falo, a criança lhe deu um. Pode-se perceber que

é um circuito que a criança coloca um falo na mãe e se identifica com ela. Conforme citado acima, ser o falo da mãe é possuir uma identificação fálica. Para que se possa prosseguir na caracterização da estrutura perversa são necessários alguns esclarecimentos. A criança possui certeza de sua identificação fálica, e para que esta seja questionada é imprescindível que o pai atue como mediador. O pai se presentifica para a criança de três modos o pai real, o pai imaginário e o pai simbólico. O pai real é a pessoa o genitor ou não, é o ser que se coloca. O pai imaginário é o produto de projeções da mãe e

da própria criança, que formarão a imagem paterna, sendo que para a criança é esse que lhe importa, muito mais que o real, pois é esta construção imaginária que configura o pai. Já o pai simbólico é aquele atribuído da função fálica, ou seja, o portador do falo e por sua vez

o detentor da lei. A mãe deixa em suspenso o seu desejo, pois em seu discurso esse devia

remeter ao pai simbólico, com isso o questionamento da identificação fálica da criança fica

em suspenso permitindo desta forma uma identificação perversa em virtude da economia do desejo (Dor, 1991).

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A perversão se ancora na atribuição fálica da mãe, essa é originária da concepção

que alguma coisa deveria estar no lugar onde há falta, pois o que é insuportável para a criança é a percepção da diferença dos sexos, já que esta remete diretamente a castração. No imaginário da criança se há diferença, e essa é pautada na ausência de algo, logo também poderei perder (sempre tendo em vista que o falo (pênis) é imaginário e não real). Nesse ponto a criança possui três saídas à primeira seria aceitar a castração e com isso desenvolver uma inesgotável reação sintomática que chamamos de neurose, ou recusa sob

a égide de transgredi-la, mas o que é a transgressão que o perverso executa? Trata-se da lei paterna, entretanto não se trata de não reconhecer essa lei, pois se fosse de tal forma, o

sujeito teria forcluído, e estaria estruturado como psicótico. Então, possui acesso ao gozo e

a lei, portanto o lugar do gozo será justamente em transpor esta lei que o interdita. Como

consequência dessa saída que o perverso encontra fica cativo ao desafio e transgressão da lei. No caso da neurose o sujeito reconhece e confia na lei paterna e dessa forma renuncia seu desejo primordial, entretanto ascende ao estatuto que lhe autoriza ao desejo, como desejo do desejo do outro, em fim o neurótico pode encontrar objetos substitutivos. Já o perverso se encontra cativo à economia psíquica, que lhe esgota, porque só reconhece a lei de seu desejo. Para tal, fica preso aos ritos esses são os atos perversos a rigidez que se

percebe na repetição que estes sujeitos estão aprisionados (Aulagnier-Spariani, 2003; Dor, 1991; Dor, 1996). Para pensar um pouco na clínica da perversão apresenta-se um caso de Leimoine (1989) O homem da caneta bic. Lemoine (1989) relata um caso em que um jovem de vinte

e

oito anos lhe procura para tratamento porque desejava se livrar de um sintoma incômodo.

O

paciente não conseguia fazer amor com uma mulher se antes não fizesse alguns riscos

em seu peito com uma caneta bic. Ele chama estes riscos de tatuagens. As tatuagens tinham valor de fetiche. Na história do paciente apareceu que certo dia sua mãe referiu que

iria fazer um traço no braço de seus filhos, pois se ela os perdesse na multidão logo reconheceria. Depois, quando maior, se pintou com canetas e foi brincar de Tarzan no

pátio da firma de seu pai, com uma mistura de medo e desejo que o vissem, depois ia ao banheiro e se masturbava sendo que este ato se repetia continuamente. Quando adulto, se aplicou um carimbo de um chefe temido que dizia: “para classificar”, depois ia ao banheiro

se masturbar. Por fim, só poderia entrar em contato com mulheres se realizasse o ritual de escrever sobre seu corpo e depois que gozasse apagava tudo.

O paciente repete a questão de se classificar, de ter uma marca que o diferencie, por

um lado não sendo igual à multidão, entretanto por outro lado o deixava preso à mãe. Também se observa a questão do gozo do Outro, pois procurava ser visto quando marcado

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por tinta. Além da questão ser repetida continuamente sem poder pensar era apenas a

tradução em ato. Um aspecto muito interessante desse caso é a questão de apagar tudo após

o gozo, que se trata de um apagar o que de certa forma era a diferença, pois se a marca de

caneta era para que sua mãe lhe encontrasse na multidão, isso causa a diferença, se apagar

a marca desaparece a diferença. Então, os riscos de tinta possuem uma função dupla,

ambígua que é de servir como fetiche, ou seja, de ocupar o lugar de falo para não ter que se confrontar com a angústia de castração. E também para poder ser apagado simbolizando o

triunfo do perverso sobre a castração. O estudo das estruturas clínicas proporciona que a subjetividade que havia caído em

descaso, seja novamente questão para a psicologia. O conceito de sujeito aparece para se falar dessa subjetividade, que é singular de cada um. Por isso, sujeito e individuo não são o mesmo, sendo que sujeito é uma função que está atrelada ao simbólico, e portanto ao significante. O sujeito é desprovido de substância, pois o mais importante é saber qual o lugar que esse ocupa na estrutura, pois ele ocupa o lugar entre dois, ou seja, entre a pulsão

e

o inconsciente. Se a pulsão é um conceito fronteiriço entre o que é da ordem do orgânico

e

do psíquico, e o inconsciente é da ordem do psíquico, o sujeito é algo que não pode ser

capturado, não pode ser apreendido, a não ser pelo discurso, porque o sujeito é efeito da

linguagem. Entretanto a um paradoxo, pois o inconsciente é um conceito que está para dar conta do que é o sujeito, ou seja, por existir um sujeito é que o inconsciente foi pensado. O sujeito é anunciado por Freud no texto a injeção de Irma, este é um sonho que o próprio Freud teve e nesse podemos perceber que ele anuncia a questão do sujeito. Porque o sujeito

é o entre dois, onde brota o desejo. Se o desejo só pode estar onde há falta, da mesma

forma o sujeito está ali, pois é o sujeito do inconsciente, que é efeito de linguagem e portanto efeito da estrutura, ou seja, o sujeito é reconhecido pela forma que este se estruturou. A questão retorna ao princípio, pois as estruturas são modos de como o sujeito

irá lidar com o significante da castração, que consequentemente determinará a amarragem dos demais significantes, porque o valor do significante não está em seu significado e sim que um sempre irá remeter ao outro dando ideia de um continum. Por fim, cabe o clínico escutar o sujeito através da sua subjetividade, para além de um simples olhar fenomenológico e empírico (Cabas, 2010; Oliveira, 1996; Vorcaro, 2009).

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

O diagnóstico estrutural como é proposto neste trabalho é contemplado na academia apenas de forma introdutória, por se tratar de algo especifico da psicanálise. Todavia, este constructo teórico das estruturas clínicas é mais uma possibilidade para a psicologia desenvolver seu trabalho, pois apresenta outro modo de compreender o sujeito. Aprofundar o estudo das estruturas clínicas é um desafio grande por se tratar de algo extenso, entretanto é possível na medida em que este trabalho não possui o intuito de esgotar com o assunto e sim de proporcionar um inicio a este estudo. Para a expansão das estruturas clínicas foram revisados conceitos básicos como: o de recalcamento, o de forclusão, o de renegação, bem como o conceito de complexo de Édipo descrito por Lacan. Todavia é evidente que estes conceitos ainda podem ser mais detalhados, pois no transcorrer do trabalho pode-se perceber que os conceitos possuem muitos desdobramentos. Na contemporaneidade somos convocados enquanto profissionais da saúde, a construir uma clínica que pense o sujeito fora do contexto da norma dos manuais classificatórios, porque a reforma psiquiátrica, a diretiva do Ministério da Saúde sobre redução de danos exige que o paciente seja compreendido para além de sua patologia. As estruturas clínicas são classificatórias, entretanto de um modo mais dinâmico, em que a neurose, a psicose e a perversão são compreendidas como faces da normalidade e não estão relacionadas às patologias obrigatoriamente. Elas delimitam as possibilidades de adoecimento, pois se o paciente adoecer será de acordo com sua estrutura. Conhecendo a estrutura do sujeito poderá trabalhar-se na prevenção do adoecimento psíquico. Além disso, é a estrutura que irá nortear o tratamento. A técnica psicanalítica em um primeiro momento é desenvolvida para neuróticos, então para que se possa aceitar um sujeito em tratamento que está fora da neurose foi necessário rever a técnica. Isso aconteceu também quando houve uma adaptação da técnica para o tratamento de crianças, pois o brincar equivaleria à associação livre do adulto, sem ser o mesmo. A técnica não foi alvo desse estudo, porém essa fica inseparável da teoria, ou seja, se há uma teoria é para fundamentar uma técnica. As duas formam a práxis clínica, portanto é através do aprofundamento da teoria que a clínica irá se expandir. Como já citado acima a questão da amplitude do tema é algo que dificultou a conclusão dessa pesquisa. Uma das dificuldades foi à falta de tempo para buscar mais leituras e a outra foi o nível de complexidade dos textos, por esses serem herméticos em

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demasia dificultando a compreensão. Então, por mais que o trabalho tenha atingido seus

objetivos a sensação é que sempre está faltando algo, visto que por mais que se aprofunde este assunto ele nunca se esgotará. Portanto é evidente que o trabalho não esgotou o assunto das estruturas clínicas, visto que se pode admitir algumas subdivisões: a neurose pode ser dividida em histeria, obsessão e fobia. Todas estas estão sob recalcamento, porém apresentam particularidades. Na psicose da mesma forma temos a esquizofrenia, a paranoia e a melancolia. Já no caso da perversão fica mais complicado, pois é muito variada apresentando diversos desdobramentos. Entretanto de modo geral pode-se pensar no fetichismo, na homossexualidade, no sadismo, no masoquismo, no voyeurismo, no exibicionismo, faces

da estrutura perversa que estão descritos na literatura desde Freud. Ainda no ponto de vista

teórico o estudo admite aprofundamentos na perspectiva do desenvolvimento libidinal ao longo do ciclo da vida. Nesse sentido a ampliação do estudo das estruturas se da pelos pontos de fixação nas fases oral, anal e fálica, apontando as consequências constitucionais do sujeito. Além disso, poder-se-ia aprofundar sobre a questão da drogadição, se essa

estaria restrita ou não a uma única estrutura. Portanto, há possibilidades de expandir este trabalho, qualificando cada vez mais a formação profissional em psicologia, por ampliar as perspectivas teóricas. Já como trabalhador na saúde mental do município o diagnóstico das estruturas clínicas se faz muito pertinente, pois permite compreender o sujeito na sua subjetividade.

A partir do modo de estruturação do sujeito/usuário/paciente, que está inserido na rede

pública, o projeto terapêutico singular (PTS) tem como objetivo um tratamento direcionado para o sujeito em questão e não apenas para a sua classificação psicopatológica nosológica.

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