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Introdução

Aprendendo a Calcular (I)

Um bom cálculo de variantes é a principal qualidade necessária para o desenvolvimento de


um enxadrista intermediário. Neste nível de jogo, apesar das eventuais deficiências posicionais, o
que decide a partida é o cálculo bruto. A imensa maioria dos jogadores simplesmente não
consegue aprofundar-se na posição e efetuar um cálculo preciso, seja por certa “preguiça mental”,
por não conseguirem visualizar várias jogadas na frente – o que se resolve a partir de um
treinamento específico -, ou por simplesmente não avaliarem corretamente a importância de uma
decisão baseada além de uma idéia superficial da posição. Os russos sabem disso há muitos
anos: é preciso ser concreto. Se você quiser efetuar um plano, é preciso analisar concretamente se
ele é realizável. Para arrematar uma partida, é preciso calcular corretamente para não dar chances
ao adversário. Enfim, em todos os momentos críticos de uma partida, o cálculo é parte obrigatória.
Analise suas partidas recentes e veja quantas delas você perdeu por um deslize tático ou por um
cálculo impreciso. Muitas, não? A grande maioria, provavelmente. Esta é a apostila ideal para
você.
Nos meus primeiros anos de desenvolvimento como enxadrista, a parte tática do jogo foi a
que mais trabalhei. Todo dia, invariavelmente, reservava parte do meu treinamento para exercícios
de cálculo. Leia bem: todos os dias! Obviamente, é necessário trabalhar nos outros aspectos de
uma partida de xadrez, seja montando um repertório de aberturas, conhecendo os finais
indispensáveis e idéias posicionais freqüentes, mas o que vai fazer você subir de nível será o
cálculo, pois a maioria dos seus adversários simplesmente não sabe calcular. Iniciantes sobem de
nível porque param de entregar peças e passam a recolher as que seus oponentes presenteiam.
Intermediários ganham mais partidas, pois aprendem a arrematar as posições em que tem
vantagem e conseguem criar mais problemas táticos quando dominados posicionalmente. Mestres
e grandes mestres simplesmente calculam melhor nos momentos críticos. Como se vê, o cálculo é
importante em todos os níveis de jogo.
Muitas vezes venci partidas com posições de clara desvantagem, graças à tática. Este é
um recurso muito utilizado por jogadores avançados: criar problemas táticos para o adversário
quando se tem uma posição inferior. Repito: a grande maioria dos enxadristas não sabe calcular
corretamente, e eles falharão ante a primeira complicação tática. Mas para utilizar este recurso,
você precisa aprender a guiar-se corretamente nos diversos ramos da análise de uma posição e
treinar a imaginação para encontrar recursos escondidos.
Por isso, digo sempre para os meus alunos: antes de pretender ser um expert em uma
abertura, aprenda a calcular. Muitos se preocupam apenas em decorar o livro mais recente de sua
defesa predileta, ou estudar as novidades mais importantes do último Informador. Mas de que
adiantará todo este conhecimento teórico se você não conseguir analisar sequer uma variante com
precisão?
A conseqüência de um erro de cálculo pode ser fatal. Uma abertura equivocada ou um
plano infeliz em geral levam apenas a uma posição difícil, mas deixar de ver um recurso tático do
adversário pode significar a derrota imediata. Vejamos o seguinte exemplo:

Ostos,J − Leitão,R
Merida ,2000

XIIIIIIIIY
9-+r+r+k+0
9+-wq-+pzp-0
9-+-+-+-zp0
9tR-+-zP-+-0
9Q+-+-+-+0
9+P+-+-zP-0
9-mKPtR-+-zP0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

As brancas têm dois peões de vantagem, mas a posição insegura do seu rei garante às
pretas certa compensação. No momento existe um problema concreto a resolver, pois as pretas
ameaçam o peão de e5, assim como um xeque desagradável em c3. É hora de calcular algumas
variantes. 32.Te2? Uma jogada indiferente. O mestre venezuelano prende-se à defesa do peão,
quando deveria ter analisado as variantes com mais cuidado. As brancas tinham duas formas de
evitar a penetração em c3: [32.Db4 Txe5 33.Txe5 Dxe5+ 34.Dd4 Da5, mas aqui as pretas têm boa
compensação e podem confiar em salvar a partida.; 32.c4! Seria a jogada correta. Após 32...Txe5
As brancas teriam duas opções: 33.Ta7 (33.Ta8 simplificando e garantindo a vantagem também é
suficiente) 33...Dc5 34.Dd7 e as brancas conseguem ativar-se, com boas chances de vitória.]
32...Dc3+ 33.Ra2? [33.Rc1 Seria a única jogada, mas aqui o preto já tem ótimo contra-jogo.]
33...Ted8! Ameaçando Td1, seguido de mate. Simplesmente não há defesa. 34.e6 fxe6 0–1
O exemplo acima representa um caso drástico de análise superficial. As jogadas brancas
pareciam naturais, mas resultaram em uma rápida derrota. Note que o cálculo de variantes é muito
mais do que ver duas ou três jogadas adiante, ou resolver algumas combinações básicas. É
preciso estar alerta durante toda a partida, é preciso calcular variantes e saber avaliar se o
resultado de uma combinação foi favorável ou não. Ao resolvermos exemplos de alguns livros de
tática, o resultado é mais ou menos matemático, no formato “jogam as brancas e ganham”, mas a
verdade é que no mundo real as coisas não são tão simples. Primeiro, não haverá ninguém para
alertá-lo com um “ei, concentre-se, aqui você tem uma combinação que ganha a dama” e segundo,
na grande maioria dos casos o cálculo de variantes não é tão matemático. Você precisa analisar
não só para dar mate ou ganhar material, mas também para conquistar vantagens posicionais. Por
essas e outras que costuma se afirmar que a tática anda lado a lado com a estratégia.
Os softwares de análise de certa forma revolucionaram a forma de se trabalhar o estudo de
uma posição. Eles representam uma poderosa ferramenta de auxílio para aqueles que pretendem
aprimorar-se no cálculo. Mas também têm ajudado a fomentar alguns hábitos preguiçosos de
enxadristas que colocam qualquer posição no Fritz, sem sequer haver analisado qualquer variante.
Portanto, use esta ferramenta de forma inteligente e você perceberá seus benefícios. Nos capítulos
seguintes darei alguns conselhos que o ajudarão a utilizar estes softwares como treinadores.
A principal qualidade para um bom cálculo é a confiança. Jogadores que estão sempre em
dúvida, repassando a análise inúmeras vezes, achando que cometeram algum erro de análise,
tendem a apurar-se por tempo, além de atraírem os erros que tanto temem. Mas claro que
confiança adquire-se com treinamento. Portanto, discipline-se para treinar o cálculo diariamente.
Se para um atleta correr 10km é necessário para manter a forma física, para um enxadrista é
necessário resolver exercícios de tática para manter a “forma mental”. Assim você estará alerta,
treinado e confiante para a competição.
A seguir um breve roteiro dos tópicos tratados nesta apostila:

- Como Treinar o Cálculo?

Nesta seção indicarei algumas regras gerais para o treinamento de cálculo, abordando
questões genéricas como quantas horas dedicar-se, que livros estudar, que softwares
utilizar e como resolver exercícios de análise. Após estudar este capítulo, o leitor terá uma
boa idéia do trabalho necessário para aprimorar-se na área mais importante para um
enxadrista moderno.

- Quando Calcular?

Não somos computadores, capazes de calcular milhões de jogadas por segundo.


Devemos, portanto, ser seletivos em nosso esforço. O cálculo desordenado, além de
desnecessário, pode causar apuro de tempo e cansaço. Uma habilidade muito importante é saber
reconhecer os momentos em que é realmente necessário aprofundar-se no cálculo de variantes.
Neste capítulo ajudaremos a reconhecer quais são estes momentos.

- Temas Táticos

Parte importante de uma visão combinatória aguçada é reconhecer os temas táticos


presentes em uma posição. Esta habilidade desenvolve-se resolvendo exercícios destes principais
temas. Aqui abordaremos temas táticos recorrentes, mostrando como o treinamento pode ajudá-lo
a utilizar a visão combinatória para vencer partidas.

- Imaginação

Encontrar recursos táticos escondidos é uma das tarefas mais importantes para acumular
vitórias. Para tanto, é fundamental desenvolver a imaginação. Veremos a importância de resolver
composições e como este trabalho pode ajudá-lo na prática.

- Lances Candidatos

Na minha opinião, este é o tema mais importante para aprimorar o cálculo de variantes.
Muitos jogadores calculam de maneira desorganizada, sem dar atenção para seus recursos ou os
do adversário. Elaborar uma lista de lances candidatos o ajudará a descobrir a essência da
posição, tornando seu cálculo mais preciso. Acima de tudo, o leitor atento encontrará aqui uma
nova forma de pensar durante as partidas. Este pode ser o capítulo mais importante para sua
carreira enxadrística.

- Intuição

Algumas posições são impossíveis de calcular precisamente. São as que chamamos


irracionais. Neste tipo de jogo, somente enxadristas com uma intuição apurada sobrevivem. Mas
será a intuição algo que pode ser treinado? Tentarei responder a esta pergunta, além de oferecer
alguns exercícios para ajudá-lo a avaliar a força de sua intuição.

- Conclusões

Aqui faremos um breve resumo dos principais tópicos abordados nesta apostila.
II - Como Treinar o Cálculo?

Nesta seção, indicarei algumas regras gerais para o treinamento de cálculo, abordando
questões genéricas como quanto tempo dedicar-se, quais livros estudar, quais os principais
métodos de treinamento e como utilizar os softwares de análise. Após estudar este capítulo, o
leitor terá uma boa idéia do trabalho necessário para aprimorar-se na área mais importante para
um enxadrista moderno.
Conforme já escrevi por diversas vezes, o cálculo de variantes incorreto é a principal
deficiência dos enxadristas medianos, juntamente com o desconhecimento dos clássicos. Sobre
como sanar a segunda fraqueza, os leitores deverão investigar a apostila sobre jogo posicional.
Mas, se o seu maior problema for o cálculo de variantes fraco, espero que este material ofereça um
guia completo para corrigi-lo.
Desde já, adianto que a apostila, infelizmente, não contém uma poção mágica que fará
com que o leitor fiel saia por aí analisando variantes de dez lances na frente, sem cometer
deslizes. O xadrez é um jogo difícil, e você já deve saber disso. O sucesso vem para aqueles que
gostam do jogo e se dedicam. Neste capítulo, mostrarei o caminho que tracei para conseguir um
nível de grande-mestre no cálculo, assim como algumas sugestões para que você possa conseguir
o mesmo. Porém, o trabalho será árduo e você deverá esforçar-se para adquirir essa maestria.
Mas podemos chamar a análise de belas partidas de xadrez, de posições com inúmeros mistérios,
de trabalho árduo? Para mim isso mais se assemelha a uma grande diversão!

Treinando a habilidade tática

Revelo ao leitor um pequeno “segredo” do meu treinamento. Desde bem jovem, até
finalmente obter o título de grande-mestre, não houve sequer um dia de treinamento sem que eu
reservasse uma parte do tempo para o cálculo de variantes. De forma semelhante ao alongamento
para um atleta, iniciar o estudo com a resolução de problemas de cálculo, ajuda-o a “esquentar” a
mente, a entrar em um estado de disposição para o trabalho, além de melhorar imensamente suas
análises. Imagine isso repetido por anos e anos? Portanto, eis aqui minha primeira sugestão: toda
vez, ao iniciar a sessão de treinamento, comece com a resolução de combinações,
independentemente do que virá depois. Repita este processo até transformá-lo em uma rotina
indispensável.
Mas quais tipos de exercícios devem ser resolvidos? Esta é uma indagação importante e
aqui começarei a fazer algumas sugestões bibliográficas (a lista completa estará ao final da
apostila). Antes de tudo, é preciso saber que existe uma progressão a ser feita para se atingir o
domínio do cálculo. A fase inicial é a obtenção de uma boa visão combinatória e saber reconhecer
os principais temas táticos com rapidez. Para isso é preciso resolver combinações relativamente
simples, divididas por temas, para que você comece a aumentar seu arsenal de padrões táticos e
seja capaz de reconhecer os elementos da posição instantaneamente. Vejamos duas posições em
um mesmo tema, mostrando como é importante reconhecer as nuances táticas.

Pinski,J- Leitão,R
Guarapuava, 1995

XIIIIIIIIY
9-+rtr-+k+0
9zpp+-vlp+-0
9-+-+p+pzp0
9+-+lzP-+-0
9n+q+NvL-+0
9zP-zP-+Q+-0
9-+R+-zPPzP0
9+L+-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas e ganham

Não existe qualquer dúvida em relação à vantagem preta, mas uma rápida percepção dos
temas táticos pode fazer a tarefa de arrematar a partida bem mais fácil. Um jogador bem treinado
deve ser capaz de encontrar a seguinte combinação em menos de 10 segundos... 25...¥xe4
26.¦xe4 £xe4! Utilizando o tema de mate na primeira fila, que de agora em diante chamarei de
"mate da gaveta" – afinal, veja só se o rei branco não está engavetado!- as pretas decidem a
partida imediatamente. 0–1

Claro que este é um exemplo bem simples. Ainda assim a partida tinha imensa importância
(foi disputada em um Campeonato Mundial sub-16) e uma habilidade tática bem treinada fez a
diferença. Toda vez que estudarmos um tema, devemos começar pelos exemplos mais simples e
gradualmente aumentar a dificuldade. Aqui vale a pena ter um bom livro, repleto de exercícios.
Continuemos com outra posição de mate da gaveta. Qualquer livro de tática está repleto de
exemplos neste tema, em ordem crescente de dificuldade. Pode começar com um exercício fácil,
como seria o caso da partida acima, até evoluir a uma posição bem mais complexa, que exija um
cálculo de várias jogadas à frente e muita atenção aos recursos adversários, ainda que o tema
central seja o mesmo.

Adams,E − Torre,C
Nova Orleans, 1920

XIIIIIIIIY
9-+r+r+k+0
9+p+qvlpzpp0
9-+-zp-sn-+0
9zp-+P+-vL-0
9-+-wQ-+-+0
9+-+-+N+-0
9PzP-+RzPPzP0
9+-+-tR-mK-0
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Jogam as brancas

Este é um exemplo clássico, vastamente publicado. A posição parece bem calma e seria
esperado que nas próximas jogadas todas as torres fossem trocadas na coluna "e", com um
empate rápido. Entretanto, graças à percepção de um tema tático, o mate da gaveta, Adams
encontrou uma combinação que garantiu sua imortalidade no xadrez.
1.¥xf6 ¥xf6 2.£g4!
O primeiro de uma série de golpes táticos. A dama branca é invulnerável graças à
fraqueza da oitava fila, mas, por enquanto, as pretas conseguem manter a defesa da casa e8.
2...£b5
Nos próximos laces as brancas tentam desviar a dama preta da diagonal a4-e8.
3.£c4!!
Não satisfeito em colocar a dama no raio de ação de uma peça preta, Adams faz melhor e
a oferece a duas peças! Novamente as pretas são forçadas a fugir com sua dama.
3...£d7 4.£c7!
A perseguição continua!
4...£b5

XIIIIIIIIY
9-+r+r+k+0
9+pwQ-+pzpp0
9-+-zp-vl-+0
9zpq+P+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+N+-0
9PzP-+RzPPzP0
9+-+-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Até aqui os lances brancos não foram difíceis de encontrar e são óbvios para um
enxadrista de razoável domínio tático. Mas agora as brancas devem prosseguir com cuidado. Uma
habilidade fundamental para o domínio do cálculo é ver os recursos do adversário. Perdi as contas
de quantas vezes mostrei esta posição para alunos que me sugeriram 21.£xb7?? como solução.
Para vencer, o branco deve ver o contra-jogo das pretas e utilizar a tática para evitá-lo.
5.a4!
5.£xb7?? £xe2! 6.¦xe2 (6.£xc8 £xe1+ 7.¤xe1 ¦xc8) 6...¦c1+ e as brancas
experimentariam uma dose do seu próprio veneno.
5...£xa4 6.¦e4!
Este é o lance mais difícil da combinação. Ele é muito difícil de ver, pois parece que o
branco não tem ameaças. Mas um olhar mais atento mostra que a idéia não é capturar a dama
preta imediatamente, mas sim jogar 7.£xc8. E após 6...£b5, é possível explorar a sutil diferença
entre a torre em e2 e a em e4.
6...£b5 7.£xb7!
Agora as pretas não podem jogar £xe2 e perdem material.
1-0
Um exemplo brilhante. Com o treinamento adequado, esse tipo de combinação não
apresenta grandes dificuldades, mas ainda assim produz um imenso prazer estético e mostra a
importância de estar atento aos recursos do adversário.

Exercícios de aquecimento mental

Exercícios simples de tática também servem para preparar a mente para o trabalho, antes
de uma árdua sessão de treinamento. Recomendo a todos que comecem o estudo com pelo
menos uma hora de exercícios simples de cálculo. Livros para isso não faltam. Recomendo o “Test
Your Chess IQ”, do Livshitz, e problemas do Informador. Da mesma forma, esse tipo de
treinamento é benéfico imediatamente antes de uma partida, para aquecer a mente. Geralmente
iniciamos nossas partidas com um estado de ânimo relativamente preguiçoso (principalmente
quando temos que jogar em horários matinais bizarros!). Ao resolver alguns exercícios de tática
simples, entramos em um estado de alerta que pode ser útil para um jogo mais enérgico desde a
abertura. Mas vale a ênfase que estes devem ser exercícios simples. Não vá tentar resolver
problemas complexos, que podem deixá-lo frustrado e cansado.

Finais de rei e peões


Uma forma de treinamento de cálculo bastante interessante e desprezada consiste na
utilização de finais de rei e peões. Nesse tipo de final não é possível fazer uma avaliação do tipo:
“as brancas têm leve vantagem”. Finais de peões são matemáticos, e temos que avaliar como
vitória, empate ou derrota, sem meio termo. Ao resolvermos esse tipo de exercício, treinamos uma
qualidade fundamental para o cálculo, que é a precisão em variantes longas. Mas em alguns
desses finais outras qualidades também são exercitadas:

Laveryd − Wikstrom
Umea, 1997
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+pzpp0
9-+-+p+-+0
9+-mk-zP-+-0
9-zpP+p+-+0
9+K+-zP-+-0
9-+-+-zPPzP0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas. Como deve terminar esta partida?

Não é difícil de ver que esta será uma luta por tempos. À primeira vista, aquele que ficar
sem lances de peão primeiro, perderá. Portanto, a resposta correta - que a posição é empatada -
parece paradoxal. A primeira pergunta é: como as pretas evitam a derrota imediata? 1...f6? (ou
1...f5?) é sem esperança, devido a 2.exf6 gxf6 3.g4!
1...h5!
Ocorre que após o natural 2.h4? o branco é colocado em zugzwang de forma inusitada:
2...g5! 3.hxg5 h4–+. Curiosamente, a partida seguiu: 1...h6?? 2.h3?? (2.g4! g6 3.h4+-, ou 2...f5
3.exf6 gxf6 4.h4+-) 2...h5!–+ 3.h4 g5! 4.g3 g4 e as brancas abandonaram.
2.h3!
Lance único! Já sabemos que 2.h4? não funciona. 2.f4? exf3 3.gxf3 h4 4.h3 f6–+ e 2.g3?
f6–+ também não serviriam. Mas agora as pretas novamente têm uma difícil tarefa. 2...g5? perde
imediatamente para 3.g3 e 2...f5? para 3.h4+-; 2...h4? 3.g3! hxg3 (3...g5 4.g4) 4.fxg3 f5 5.exf6 gxf6
6.h4+- e 2...g6? é elegantemente refutado após 3.g4! (3.h4? g5!) 3...hxg4 4.h4!+-. Portanto, só
resta uma jogada.
2...f6! 3.h4!
Claro que não 3.exf6? gxf6–+. Mas agora o que as pretas podem fazer?

XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-zp-0
9-+-+pzp-+0
9+-mk-zP-+p0
9-zpP+p+-zP0
9+K+-zP-+-0
9-+-+-zPP+0
9+-+-+-+-0
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Jogam as pretas

3...fxe5 é respondido com 3.g4!; e se 3...f5, então 4.f4! exf3 5.gxf3 g5 (5...f4 6.exf4 g6 7.f5)
6.hxg5 h4 7.g6 h3 8.g7 h2 9.g8£ h1£ 10.£f8+ ¢c6 11.£d6++-, com um final de damas facilmente
ganho. É preciso um talento especial para encontrar a idéia de afogado no meio do tabuleiro!
3...fxe5! 4.g4! g6
[4...hxg4? 5.h5+-]
5.g5 ¢b6!
[5...¢d6!]
6.¢xb4 ¢c6 7.c5 ¢d5!! 8.¢b5

XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-+-+p+p+0
9+KzPkzp-zPp0
9-+-+p+-zP0
9+-+-zP-+-0
9-+-+-zP-+0
9+-+-+-+-0
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Afogado

Neste exemplo pudemos praticar a precisão na análise de uma variante longa, a atenção
aos recursos do adversário e a imaginação para encontrar o tema do “afogado”.
Estes finais também são excelentes para o treino de visualização, conforme veremos mais
tarde.
Para bons exemplos de finais de rei e peões e também para exercícios de cálculo em
outros finais, recomendo o excelente livro “Test Your Endgame Ability”, de Livshits e Speelman.

Treinando a imaginação
O desenvolvimento da imaginação é fundamental para calcular variantes corretamente. Em
muitas posições, a solução correta será uma idéia escondida, um tema paradoxal, que só será
encontrado por quem estiver muito bem treinado nesta busca. Calcular variantes diretas com
precisão fará do leitor um analista mediano. Mas encontrar lances espetaculares e calculá-los até
sua conclusão o levará a uma outra categoria.
Mas como treinar a imaginação? Aqui entra a importância da resolução de composições.
Este tema merecerá uma atenção especial e um capítulo próprio nesta apostila, mas desde já
adianto que este é um dos segredos da escola russa. Muitos enxadristas não têm em conta a
importância deste trabalho na prática. Mais tarde explicarei com mais detalhes como você pode
utilizar o desenvolvimento da imaginação para conseguir pontos nos torneios, mas aproveito a
ocasião para estimular a vontade do leitor, que provavelmente já teve seu senso estético aguçado
pelo final de peões visto acima.

Gurvich 1927
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9mK-+-+-+N0
9-+-+-+-+0
9+-sN-+-+-0
9-sn-+-+-+0
9+-+-+-wQ-0
9-+-+-+psn0
9+-+-+-+k0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

Parece que o branco não poderá evitar a coroação do peão de “g”. Entretanto...
1.¤e4!
Com a idéia de responder 1...g1£ com 2.¤f2+, ganhando a dama. Mas as pretas
encontram uma defesa melhor.
1...¤d3!
Agora 2.£xd3 g1£+ deixa as brancas com material insuficiente para a vitória. O caminho
para a vitória é inacreditável:
2.£f2!! ¤xf2 3.¤g3+!! ¢g1 4.¤g5
Um zugzwang fenomenal. A posição final deixa uma impressão de encantamento difícil de
esquecer.
Não é difícil encontrar livros com diversas composições a serem resolvidas. A obra com as
principais pérolas de Kasparian é sugestão obrigatória, mas existe um livro bem menos conhecido
e que é uma verdadeira jóia: “Secrets of Spectacular Chess”, de Levitt e Friedgood, que traça a
semelhança entre belíssimas composições e exemplos práticos. Nas edições mais recentes do
Informador pode ser encontrada, ao final, uma seção reservada a estudos e composições, que
também servem como exercícios. Material para trabalho não falta. O importante é que o leitor
reconheça a importância deste esforço e incorpore-o à programação de treinamento.

Analisando partidas

A análise de partidas, sejam próprias ou de outros enxadristas, é parte fundamental de


qualquer treinamento. Mas muitos pecam pela superficialidade com que abordam esta tarefa. Em
relação às nossas partidas, é importante analisar as complicações táticas com grande
profundidade e tirar conclusões dos erros mais freqüentes e deficiências que devem ser
trabalhadas. Digamos que você perceba, através das análises de suas partidas nas três últimas
competições, que está omitindo importantes recursos táticos do adversário. Apenas por este
diagnóstico, já valeu a pena todo o tempo gasto com a análise de suas partidas. Então o passo
seguinte é montar uma rotina de treinamento específica para sanar essa deficiência, resolvendo
inúmeros exercícios de cálculo em que se deve estar atento aos lances candidatos do adversário
(novamente composições servem muito bem a este propósito). Gradualmente, suas principais
deficiências serão reduzidas. Vale lembrar que a análise de suas partidas servirá não apenas para
diagnosticar erros de cálculo, mas também para melhorar deficiências em outras áreas. Mas
inicialmente os erros de cálculo serão os mais transparentes e você ficará chocado com a
quantidade de imprecisões táticas que descobrirá em uma análise mais profunda de suas partidas.
A superficialidade também é o principal erro ao analisar partidas de outros enxadristas.
Não podemos simplesmente olhar partidas e aceitar as análises do comentarista. É preciso pensar
ativamente para melhorar. Para melhorar o cálculo é preciso escolher um livro com partidas bem
comentadas (isso é o que não falta – para uma pequena lista, basta ler a bibliografia sugerida, ao
final da apostila) e parar em todas as posições críticas, que serão facilmente reconhecíveis, pois
provavelmente estarão antecedidas por um diagrama. Então feche o livro, coloque um tempo no
relógio (em média uns vinte minutos) e comece a calcular a posição, como se fosse sua própria
partida. Ao final anote suas conclusões e tenha bem claro qual lance considera o melhor. Ás vezes
o tempo não será suficiente para uma análise precisa da posição, mas tudo bem, neste caso você
terá treinado a intuição. Em seguida, compare suas análises com as do livro e cheque-as também
com os programas de análise. Este trabalho é igualmente prazeroso e benéfico. E mais uma vez
repito: leitura passiva não funciona no treinamento enxadrístico. Seja crítico e sempre faça suas
próprias análises.

Melhorando a visualização
Muitos enxadristas têm grande dificuldade em visualizar algumas jogadas adiante. Isto
ocorre por falta de prática, pois é preciso estar constantemente calculando variantes para adquirir a
maestria nessa área. A conseqüência disso é catastrófica, gerando um cálculo impreciso e
insegurança. E, como já sabemos, mesmo se tivermos uma compreensão de jogo superior a do
adversário, sem o cálculo preciso – que implica uma boa visualização -, os resultados ficarão
aquém do esperado.
O primeiro passo é reconhecer se você realmente tem esta deficiência e quão problemática
ela realmente é. Se você não consegue ser preciso em variantes de cinco ou mais jogadas na
frente, tudo bem, não se desespere, não existe nada de grave aqui. Mas, caro leitor, responda a
seguinte pergunta: você consegue visualizar o tabuleiro de xadrez nitidamente, ao ponto de saber
dizer imediatamente qual a cor de cada uma de suas casas com os olhos vendados? Se alguém
lhe perguntar qual a cor da casa f5 e você precisar de mais de cinco segundos para responder
“que pergunta é essa, claro que a casa f5 é branca!”, então você está com problemas de
visualização (vamos ignorar o fato de você pensar quinze segundos e responder que a casa f5 é
preta, pois espero que o diagnóstico seja óbvio neste caso).
Pois bem, suponhamos que você não consiga visualizar bem o tabuleiro, o que fazer? Tive
um aluno que criou uma fórmula matemática para saber rapidamente a cor de cada casa. Tive
alguma dificuldade em explicar-lhe a inutilidade deste sistema. Estamos treinando visualização,
não álgebra!
Primeiro, reitero: trabalho árduo. Você terá que resolver inúmeros exercícios diariamente,
até melhorar gradualmente. Nada de novo por aqui. Mas tenho algumas sugestões extras a fazer.
Jamais, em hipótese alguma, mova as peças quando estiver fazendo um exercício de
cálculo. Parece óbvio, mas muitos enxadristas, quando não conseguem ver a solução, começam a
mexer as peças. Não cometa este erro. Tente o seu máximo para visualizar toda a variante. Se não
conseguir dentro de um tempo estipulado, confira a solução do autor. Somente depois de ter
visualizado e entendido toda a solução, você deve mexer as peças e conferir se está tudo certo.
Existe um treinamento de análise em que é recomendável que você mexa as peças. Mas este
sistema só é recomendado para jogadores avançados, que não tenham qualquer problema em
enxergar várias jogadas à frente. Se você não tem boa visualização, nunca analise movendo as
peças.
Um método efetivo para quem já tem certa noção do tabuleiro, mas ainda derrapa em
variantes longas, é resolver alguns exercícios às cegas. Você pode adicionar esse sistema à sua
programação de treinamento e os resultados não tardarão a aparecer. Evidentemente, ao menos
em um primeiro momento, as posições não podem ser muito complexas. Exemplos com poucas
peças e com uma solução curta são os mais recomendados. Em geral um livro de tática com
poucas peças é o mais adequado (mais uma vez recomendo o “Test Your Endgame Ability”). A
posição seguinte é o tipo de exercício ideal para ser resolvido sem olhar para o tabuleiro:
Otten,H
1892
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-vl-0
9-+-+-mk-+0
9+-+-+-+-0
9P+-+K+P+0
9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
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Jogam as brancas e ganham

1.a5 ¥f8 2.¢d5 ¥h6 3.g5+! ¥xg5 4.¢e4 ¥h4 5.¢f3+−

Poucas peças, uma solução curta e simples, com um detalhe tático sutil (3.g5+!). Tudo o
que procuramos na fase inicial do treinamento de visualização.
Em um segundo momento, quando já tivermos resolvido um grande número de exemplos
dessa forma, vale a pena tentar algo um pouco mais ousado. Por que não jogar algumas partidas
de treinamento às cegas? Pergunte a um enxadrista mais ou menos da sua força se ele não aceita
o desafio (se você tiver um treinador, melhor ainda) e joguem uma vez por semana, por exemplo.
No início será uma experiência difícil, mas em pouco tempo você terá um excelente domínio do
tabuleiro, sem vacilar quando tiver que calcular várias jogadas à frente.

Como utilizar os programas de análise

A utilização de computadores revolucionou a forma de se estudar xadrez. Hoje em dia não


existe um estudante sério do jogo que não conte com os principais softwares de análise
disponíveis. Entretanto, a imensa maioria utiliza esta ferramenta de forma equivocada, muitas
vezes analisando de forma preguiçosa, apenas deixando a máquina fazer todo o trabalho, o que,
além de não contribuir para uma melhora no seu jogo, geralmente culmina em análises no mínimo
imprecisas. O fato é que não haverá um computador para ajudá-lo durante a partida, portanto
aprenda a confiar em você mesmo e na qualidade de suas análises. Além do mais, a máquina não
entende e não avalia corretamente muitas posições, precisando de interferência humana para
produzir análises de qualidade.
A verdade é que este é um tema bastante complexo e merece uma atenção especial.
Provavelmente aprofundarei mais no assunto em um futuro artigo ou na próxima apostila de
cálculo, mas no momento é preciso ao menos apresentar alguns pontos importantes.
Existem muitos benefícios em utilizar as engines. Em um país como o Brasil, onde temos
grande dificuldade em encontrar parceiros de estudo, os computadores podem auxiliá-lo
imensamente, principalmente em análises de aberturas. Além do mais, a prática de jogar contra os
programas, apesar de um tanto masoquista, pode ser útil. Mas abusar da ajuda da máquina pode
ser muito prejudicial. Não se torne um escravo do computador. Aprenda a usá-lo como um
parceiro, não como um mestre infalível. Muitos enxadristas da nova geração vêm abusando das
análises com o Fritz e programas semelhantes, e começam a absorver alguns dos aspectos
negativos do jogo da máquina, principalmente avaliações totalmente incorretas. E nem é preciso
dizer que não chegam nem perto do seu ponto forte, que são as análises perfeitas de posições
matemáticas.
Há pouco tempo enfrentei um jovem e promissor MI brasileiro. Venci uma partida que me
pareceu bem complicada e interessante, inclusive com valor teórico. Mas a partida foi decidida
basicamente por um erro de cálculo do meu adversário, em uma posição complexa, mas que eu
julgava um pouco superior para mim. Qual não foi minha surpresa quando no dia seguinte o jovem
mestre me disse que teria vantagem decisiva se não houvesse errado no momento decisivo. Já
sabia que toda sua avaliação havia sido baseada na idéia do computador sobre a posição, que,
aliás, muito contrariava a avaliação de vários grandes-mestres, aos quais eu havia mostrado a
partida. Alguns meses depois, analisei a posição crítica, também com computadores, e análises
cuidadosas mostraram que a avaliação humana era a correta. Portanto, não deixe a máquina
dominar sua mente. Confie em suas análises e avaliações e saiba utilizar esta ferramenta de forma
equilibrada.
Minha recomendação é sempre reservar algum tempo para analisar sozinho uma
determinada posição. Reserve ao menos meia hora para esta tarefa. Faça uma avaliação de quem
está melhor. Formule planos, analise algumas jogadas na frente, conclua como jogaria. Apenas
depois deste trabalho inicial, coloque a posição no computador, de preferência utilizando várias
engines simultaneamente (eu costumo utilizar três). Muitas idéias novas aparecerão neste
momento. Compare sua avaliação com a das engines, separe suas principais sugestões e depois
volte a analisar a posição sozinho, acrescentando as idéias do computador. Repita este processo
até sentir que as análises estão bem feitas. É um processo demorado, mas assim você terá
análises mais precisas, terá progredido como jogador e utilizado o computador da forma mais
efetiva possível.
Mesmo alguns dos mais fortes enxadristas do mundo cometem sérios deslizes nessa área.
Este erro quase custou o título mundial a Kramnik recentemente.

Kramnik,V− Leko,P
Brissago (m/8), 2004

1.e4 e5 2.¤f3 ¤c6 3.¥b5 a6 4.¥a4 ¤f6 5.0-0 ¥e7 6.¦e1 b5 7.¥b3 0-0 8.c3 d5 9.exd5
¤xd5 10.¤xe5 ¤xe5 11.¦xe5 c6 12.d4 ¥d6 13.¦e1 £h4 14.g3 £h3 15.¦e4 g5 16.£f1 £h5
17.¤d2 ¥f5 18.f3 ¤f6 19.¦e1 ¦ae8 20.¦xe8 ¦xe8 21.a4
Um método típico para neutralizar a vantagem de desenvolvimento das pretas. As brancas
ativam sua torre através da coluna "a".
21...£g6 22.axb5
Em uma entrevista após o match, Kramnik criticou este lance e revelou que sua intenção
inicial era seguir com 22.¤e4, devolvendo material para completar o desenvolvimento. Este é um
tratamento bem “humano” e correto da posição. Entretanto, logo sua equipe de analistas descobriu
que as pretas teriam boas chances de se defender. As seguintes análises comprovam este ponto
de vista: 22...¤xe4 23.fxe4 ¥xe4 24.¥xg5! (24.axb5? permite que as pretas comecem um ataque
decisivo após 24...¥d3 25.¥xf7+ £xf7 26.£xd3 ¦e1+ 27.¢g2 £d5+ 28.¢h3 ¦g1–+) 24...bxa4!
25.¥c4 (25.¦xa4? enfraquece a primeira fila, permitindo 25...¦b8 com forte ataque) 25...¥d5
(25...¦b8!? é uma sugestão do Leko e leva a uma posição complicada após 26.¦e1 ¥d5 27.¥xd5
cxd5 28.¥c1 h5) e após 26.¥xd5 cxd5 a atividade das peças pretas compensam sua debilidade
estrutural, mas ainda existe muita luta na posição.
22...¥d3

XIIIIIIIIY
9-+-+r+k+0
9+-+-+p+p0
9p+pvl-snq+0
9+P+-+-zp-0
9-+-zP-+-+0
9+LzPl+PzP-0
9-zP-sN-+-zP0
9tR-vL-+QmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Existe uma diferença significativa na forma em que os dois grandes-mestres encaravam


esta posição. Kramnik a havia estudado com seus segundos e principalmente com o computador,
enquanto para Leko a posição era desconhecida de longa data, tanto que ele já se encontrava em
apuro de tempo. Seria de se esperar que as pretas perdessem sem luta, mas surpreendentemente
este era o destino reservado para Kramnik...
23.£f2?
Com esta jogada as brancas sacrificam a dama, acreditando na força do seu peão de "a",
mas o contra-jogo no flanco dama não chega a tempo. Apesar do lance do texto ainda ser parte da
preparação do Kramnik, ele leva à derrota. Neste caso o computador, ao invés de ser usado como
uma ferramenta de auxílio nas análises, convenceu toda uma equipe de grandes-mestres de que
seu lance era vencedor, o que quase custou o título mundial a Kramnik. 23.£d1 ainda teria salvado
a partida. 23...¥e2! (no caso de 23...axb5 24.¦a7 a torre branca entra em jogo, reduzindo o
potencial do ataque preto.) 24.£c2 (24.¥c2? £h5 25.£e1 ¥xf3 e as pretas teriam um ataque
decisivo.) 24...¥d3 (24...£h5? 25.£f5!) 25.£d1 com empate.
23...¦e2
As pretas conseguiram caçar a dama branca, mas a situação não é tão clara, pois após
bxa6 o peão de “a” torna-se muito perigoso.
24.£xe2
Em seu excelente livro “Secrets of Attacking Chess”, Marin comenta de forma muito
interessante este momento da partida, tentando entender o motivo pelo qual os analistas de
Kramnik foram ofuscados pelas conclusões do computador. Reproduzo as palavras de Marin:
“Tive a curiosidade de repetir o que pode ter sido o ´processo de pesquisa´ de Kramnik e
cia. Funcionando em um computador razoavelmente potente (Pentium Centrino de 1.8 GHz), a
opinião inicial do Fritz sobre a posição do texto é que 24. £xe2 seguido de 25.bxa6 leva a uma
clara vantagem. Em seguida, começa a gostar ainda mais desta opção. Geralmente essa
crescente na avaliação da máquina é considerada convincente, mas este é precisamente o
problema: tendemos a esquecer que jogamos xadrez principalmente para testar nossa força
mental e que o processo de análise deve ter um propósito similar. Acredito que se os segundos do
Kramnik tivessem estudado a posição com um pouco mais de cuidado no tabuleiro, teriam sentido
que as coisas não eram tão claras. Ironicamente, após 3-4 minutos a avaliação do computador
repentinamente muda de “quase ganha” para “perdida”.
Há alguns anos, li em algum lugar que Kramnik antes de perguntar a opinião do
computador sobre uma certa posição, ou mesmo antes de olhar as partidas críticas em uma
variante que esteja interessado, sempre tentava formar opinião sobre o que estava acontecendo
no tabuleiro. Entretanto, parece que ele parcialmente perdeu este hábito”.
Uma excelente descrição do provável erro dos analistas. Muito cuidado com essas
avaliações rápidas do computador. Nas posições críticas, deixe-o analisando ao menos uma hora
antes de tentar sacar qualquer conclusão. A máquina avalia muito mal as posições de desequilíbrio
material, como a deste exemplo. Para avaliar corretamente alguns sacrifícios a longo prazo, você
deverá confiar no velho e bom cérebro humano.
24.bxa6 era uma opção crítica, mas tampouco salvaria as brancas. 24...¦xf2 25.¢xf2.
Agora as pretas têm duas formas de continuar, igualmente efetivas. 25...£h5 sugestão do Leko.
(25...£h6 sugestão do Marin. 26.¢e3. As opções são igualmente perdedoras:
a) 26.¢g2 g4! 27.fxg4 £e3–+;
b) 26.¢g1 g4 (26...¥xg3–+) 27.¤e4 (27.f4 ¥xf4! 28.gxf4 g3! 29.hxg3 ¤g4–+) 27...£h3–+;

26...¥b5 27.c4 (27.a7 ¥f4+! 28.gxf4 gxf4+ 29.¢f2 £xh2+ 30.¢e1 £e2#; 27.¥c4 g4+
28.¢d3 £g6+ 29.¢e3 ¥xc4 30.¤xc4 ¥b8–+) 27...¤d5+! 28.cxd5 (28.¢d3 ¥xa6–+) 28...g4+ 29.f4
£xh2 30.¥c4 £xg3+ 31.¢e2 ¥xc4+ 32.¤xc4 £f3+ 33.¢d2 ¥xf4+ 34.¢c2 £xd5 35.a7 (35.¢b3
¥b8–+) 35...£xc4+ 36.¢b1 £xc1+ 37.¢a2 £c4+ 38.¢b1 £d3+ 39.¢a2 £a6+ 40.¢b1 £xa7
41.¦xa7 g3–+)
26.¢e3
a) 26.¢g2 g4–+;
b) 26.¤f1 ¤e4+! 27.¢e3 ¥xf1 28.a7 £xh2 29.a8£+ ¢g7–+;
c) 26.¢g1 ¥xg3! 27.hxg3 £h3 28.a7 £xg3+ 29.¢h1 g4!! 30.a8£+ ¢g7 31.£b7 (31.¦a7
£e1+ 32.¢g2 gxf3+–+) 31...£e1+ 32.¢g2 gxf3+ 33.¤xf3 (33.¢xf3 £e2+ 34.¢g3 ¤h5+ 35.¢h4
£h2+ 36.¢g4 £g3+ 37.¢xh5 ¥g6#) 33...£f1+ 34.¢g3 ¤h5+ 35.¢h4 £h1+ 36.¢g4 £g2+ 37.¢xh5
£h3+ 38.¤h4 (38.¢g5 £g3+ 39.¢h5 ¥g6#) 38...¥e2+ 39.¢g5 £g4#;
26...¥xa6 27.¦xa6 £xh2 28.¦xc6 £xg3–+]

24...¥xe2 25.bxa6 £d3!-+


O computador começa avaliando essa posição como vantagem decisiva branca, mas
gradualmente vai mudando de opinião. Repito: muito cuidado com avaliações rápidas. Deixe o
computador analisando e dê uma olhada na posição no tabuleiro por alguns minutos. Na maioria
das vezes você terá uma avaliação mais precisa depois disso.
26.¢f2
O computador demora um certo tempo para entender que as brancas tomam mate depois
de 26.a7 £e3+ 27.¢g2 ¥xf3+! 28.¤xf3 £e2+ 29.¢g1 ¤g4! 30.a8£+ ¢g7.

XIIIIIIIIY
9-+-+-+k+0
9+-+-+p+p0
9P+pvl-sn-+0
9+-+-+-zp-0
9-+-zP-+-+0
9+LzPq+PzP-0
9-zP-sNlmK-zP0
9tR-vL-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas e ganham

26...¥xf3! 27.¤xf3 ¤e4+ 28.¢e1 ¤xc3! 29.bxc3 £xc3+ 30.¢f2 £xa1 31.a7 h6! 32.h4 g4 0-1

Uma dura derrota para Kramnik, mas provavelmente ele aprendeu uma lição que jamais
esquecerá.

Uma forma muito interessante de se treinar a utilização do computador é jogar partidas por
correspondência. Há alguns anos, fiquei fascinado por esta prática. No meu caso, tecnicamente,
não se tratava de xadrez por correspondência, mas passei a jogar partidas em alguns sites, com o
tempo de reflexão de três dias por jogada. O grande valor desta prática é que seu adversário, por
mais fraco que seja, fará uso dos principais programas de análise, portanto você não vencerá se
simplesmente jogar as sugestões da máquina. Será preciso interagir e descobrir idéias “humanas”.
Recomendo jogar em sites desse tipo para qualquer jogador que queira desenvolver sua análise e
aprimorar-se no uso do computador. Eis um exemplo interessante da época em que eu disputava
várias partidas pela internet:

Rafpig − Chess−Star
Gameknot, 2004

Antes, uma pequena explicação. Rafpig era o meu nickname no site (por que será?),
Chess-Star era o nick do meu adversário. Gameknot é um dos sites que promove esse tipo de
partida. O tempo de reflexão era 3 dias por lance.

1.e4 c5 2.¤f3 d6 3.d4 cxd4 4.¤xd4 ¤f6 5.¤c3 g6 6.¥e3 ¥g7 7.f3 ¤c6 8.£d2 ¥d7 9.¥c4
¦c8 10.¥b3 a5 11.a4 0-0 12.0-0-0 ¤e5 13.g4 ¤c4 14.¥xc4 ¦xc4 15.b3 ¦c8 16.h4 h5 17.gxh5
¤xh5 18.¦hg1 ¦e8 19.¢b1 ¢h7 20.f4 e6
Meu adversário jogou a abertura de forma imprecisa e não há dúvida a respeito da
vantagem branca. Entretanto, é preciso jogar corretamente para não dar chances ao meu
adversário, que iria se defender com lances de computador. As sugestões do Fritz não me
pareciam convincentes aqui, Então, decidi olhar a posição com olhos humanos por algum tempo.

XIIIIIIIIY
9-+rwqr+-+0
9+p+l+pvlk0
9-+-zpp+p+0
9zp-+-+-+n0
9P+-sNPzP-zP0
9+PsN-vL-+-0
9-+PwQ-+-+0
9+K+R+-tR-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

As engines recomendavam três lances: 21.f5 ou um salto de cavalo a b5, seja com o de d4
ou com o de c3. Após 21.f5, concluí que as pretas não teriam problemas: 21...exf5 22.exf5 ¥xf5
23.¤xf5 ¥xc3 24.£d5 £f6. Os saltos a b5 pareciam mais interessantes. Mesmo assim, sentia que
poderia encontrar uma solução talvez mais precisa, ou no mínimo mais original. Afinal, não queria
simplesmente reproduzir as conclusões da máquina. E encontrei uma jogada muito interessante.

21.¦g5!
Uma idéia bastante direta, mas impossível de ser encontrada pelo computador. O plano
branco é sacrificar a qualidade em h5 no momento oportuno, abrindo linhas de ataque ao rei preto.
Como escrevi anteriormente, as engines têm muita dificuldade em avaliar corretamente sacrifícios
posicionais. Não é surpresa que nenhum dos programas entendeu minha jogada, sugerindo às
pretas 21... ¥f6 ou 21... ¥h6, “forçando” a torre intrusa a retroceder. Era justamente com isso que
eu contava.

21...¥f6?

Meu adversário confia cegamente nessa sugestão, mas este lance permite o sacrifício
decisivo. O mesmo resultado ocorreria após 21...¥h6: 22.¦xh5! gxh5 23.e5!
O computador a partir deste momento começa a reconhecer o perigo e vai mudando a
avaliação, se bem que continua a gostar da posição preta.
23...f5
Uma tentativa desesperada, mas as opções não são melhores. (23...¥c6 24.¤xc6 ¦xc6
25.¤e4+-; 23...¦xc3 24.£xc3 £xh4 25.£c7 £d8 26.£xb7+-; 23...d5 24.£d3+ ¢h8 25.f5+-)
24.exf6!
O computador tem dificuldade para encontrar este lance.
24...£xf6 25.£d3
(25.¤e4 £e7 26.£d3 também daria um ataque decisivo às brancas)
25...¢h8
(25...£g6 26.¤e4+-)
26.¤e4 £f8 27.¤f3 com ataque decisivo.

A única forma de complicar a partida seria 21...e5! Agora as brancas teriam duas opções:
A) 22.fxe5 escolha mais posicional. 22...dxe5 (22...¦xe5 23.¤f3±) 23.¤f3 com vantagem.
B) 22.¤f5!? que leva a grandes complicações onde o preto está à beira do precipício, mas
ainda não vi como arrematar a partida contra a melhor defesa.
22...exf4!
(22...¥xf5 23.exf5 ¥f6 (23...¥h6 24.fxe5 ¥xg5 25.¥xg5±; 23...exf4 24.¥d4±) 24.¦xh5+
gxh5 25.£e2 ¦xc3 26.¦g1 ¢h6 27.fxe5+ ¦xe3 28.£xe3+ ¢h7 29.£e2! ¢h6 30.£d2+
¢h7 31.£d1! com esta manobra as brancas protegem a primeira fila, preparando o
arremate. 31...¢h6 32.exf6 £xf6 33.¦g5+-)
23.¥d4 ¥xd4 24.£xd4 f6
A posição parece horrível para as pretas, mas elas escapam por um fio nas variantes
que seguem.
25.¦xh5+
(25.¦xg6!? ¢xg6 26.¦g1+ ¤g3 (26...¢h7? 27.£d1+-) 27.¤xg3 fxg3 28.¦xg3+ ¢h7
(28...¢f7 29.£d5+ ¥e6 30.£h5++-) 29.£d5 ¢h6 com empate)
25...gxh5 26.¤d5 ¦e5 27.¤xd6 ¥g4! 28.¤xc8 ¥xd1 com boas chances de salvar a
partida, por exemplo: 29.¤ce7 ¢g7 30.¤f5+ ¦xf5 31.exf5 ¥g4 32.¤xf4 £xd4 33.¤e6+
¢f7 34.¤xd4 ¢e7 com contra-jogo suficiente para o empate.

22.¦xh5+!
O sacrifício que eu havia preparado descaradamente e que foi subestimado por meu
adversário. O ataque branco é demolidor.
22...gxh5 23.£e2 ¦h8
23...¢g8 perderia para 24.£xh5 ¥g7 25.¦g1+-
O arremate mais bonito ocorreria após 23...¦xc3 24.¦g1 ¢h6 25.¥d2! ¥xd4 26.f5+ ¥e3
27.¥xe3+ ¦xe3 28.£xe3+ ¢h7 29.¦g5 £f6 30.¦xh5+ ¢g8 31.£g3+ ¢f8 32.£xd6+ £e7 (32... ¦e7
33.e5+-)

XIIIIIIIIY
9-+-+rmk-+0
9+p+lwqp+-0
9-+-wQp+-+0
9zp-+-+P+R0
9P+-+P+-zP0
9+P+-+-+-0
9-+P+-+-+0
9+K+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

33.f6! £xd6 34.¦h8#

24.¦g1 ¥g7

XIIIIIIIIY
9-+rwq-+-tr0
9+p+l+pvlk0
9-+-zpp+-+0
9zp-+-+-+p0
9P+-sNPzP-zP0
9+PsN-vL-+-0
9-+P+Q+-+0
9+K+-+-tR-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham
25.¤f5!

Este elegante sacrifício decide a partida.

25...exf5 26.¥d4 £xh4

26...f6 27.£g2 £f8 28.£g6+ ¢g8 29.¤d5+-

27.¦xg7+ ¢h6 28.£g2 1-0

As pretas não têm defesa satisfatória contra a ameaça 29. £g5. Acredito que nesta partida
consegui mesclar as análises humanas com as de computador de forma quase ideal.

Esta introdução mostrou a importância de dedicar várias horas diárias ao aperfeiçoamento


do cálculo, assim como os principais métodos de treinamento. Nos capítulos seguintes, veremos
temas mais específicos.

“O cálculo de variantes é o maior defeito de 90% dos enxadristas. Nesta apostila você tem
um guia completo do que fazer para superá-los. Mas não se esqueça, o cálculo é como manter a
forma física. Você deve praticá-lo continuamente”.

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Rafael Leitão