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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ-UFPI

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO-PRPPG


CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS-CCHL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA DO BRASIL-PPGHB
MESTRADO EM HISTÓRIA DO BRASIL-MHB

João Paulo Peixoto Costa

DISCIPLINA E INVENÇÃO: civilização e cotidiano indígena


no Ceará (1812-1820)

Teresina (PI)
2012
1

JOÃO PAULO PEIXOTO COSTA

DISCIPLINA E INVENÇÃO: civilização e cotidiano indígena


no Ceará (1812-1820)

Dissertação apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em História do Brasil, do
Centro de Ciências Humanas e Letras da
Universidade Federal do Piauí como requisito
à obtenção do título de Mestre em História do
Brasil. Linha de Pesquisa: História, Cidade,
Memória e Trabalho.
Orientadora: Profa. Dra. Juliana Lopes Aragão

Teresina (PI)
2012
2

FICHA CATALOGRÁFICA
Universidade Federal do Piauí
Biblioteca Comunitária Jornalista Carlos Castello Branco
Serviço de Processamento Técnico
3

JOÃO PAULO PEIXOTO COSTA

DISCIPLINA E INVENÇÃO: civilização e cotidiano indígena


no Ceará (1812-1820)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação em História do Brasil, do Centro de
Ciências Humanas e Letras da Universidade
Federal do Piauí como requisito à obtenção do
título de Mestre em História do Brasil. Linha de
Pesquisa: História, Cidade, Memória e Trabalho.
Área de Concentração: História do Brasil

Avaliada em: ______ de ______________ de 2012

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________
Profª Dra. Juliana Lopes Aragão (Orientadora) - UFPI
Presidente

_________________________________________________
Prof. Dr. John Manuel Monteiro - UNICAMP
Examinador

_________________________________________________
Prof. Dr. Johny Santana de Araújo - UFPI
Examinador

_________________________________________________
Profª. Dra. Áurea da Paz Pinheiro - UFPI
Suplente
4

A todos os índios e índias que


viveram, morreram e inventaram no
Ceará.

A José Pinheiro Peixoto e José


Athaide Torres Costa (in
memoriam), os pais das mais
lindas famílias.
5

Sei que traçar no papel


é mais fácil que na vida.
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.
O mundo não é uma folha
de papel receptiva:
o mundo tem vida autônoma,
é de alma inquieta e explosiva.

João Cabral de Melo Neto

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos


Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

Caetano Veloso
6

AGRADECIMENTOS

A caminhada que deu origem a este trabalho foi longa, e contou com o inestimável
apoio de muitos aliados e amigos: por isso, a lista de agradecimentos merece ser extensa.
À minha estimada orientadora Juliana Lopes Aragão. Além de ter curado meu medo
de orientação, por toda a atenção, cuidado, paciência e disponibilidade nas leituras dos
textos e pelo muito que me ensinou sobre a escrita da história.
Aos professores Almir de Oliveira, Clóvis Jucá (pelo aprendizado sobre o período
Sampaio); a Gerson Galo Menezes, e, especialmente, ao meu desorientador Carlo Romani
(General Will), do curso de História da Universidade Federal do Ceará, por acreditarem
neste projeto.
A todos os que fazem a Associação Missão Tremembé (AMIT), e que tive a
oportunidade de conviver: Edite, Florêncio, Fernando Tremembé (por me receber em sua
casa na aldeia da Varjota) e Maria Amélia Leite, pela experiência e aprendizado sobre os
índios no Ceará.
A Jóina Freitas Borges, não só pelas “conversas agradáveis sobre os índios do
Ceará”, mas por ter sido fundamental no meu ingresso nesta Universidade.
Aos professores Francisco Alcides Nascimento, Denilson Botelho e Áurea Paz
Pinheiro, do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil, pelas oportunidades e
ensinamentos sobre o que é ser historiador.
Ao Francisco Nascimento e todos os colegas professores e alunos do Campus
Helvídio Nunes de Barros, em Picos, onde tive minhas primeiras e agradáveis experiências
docentes em um curso universitário.
Aos professores Jhony Santana e John Monteiro, pela gentileza de sempre, e zelo
nas leituras deste pequeno trabalho.
A todos os colegas e amigos do Mestrado em História do Brasil, especialmente
Ozael Costa (companheiro de viagens), Thiago Brito (conterrâneo de meus antepassados) e
ao amigo cinematográfico – e de todas as horas – Aristides Oliveira, por terem sido
fundamentais na minha nova vida em Teresina.
De volta a Fortaleza, agradeço ao amigo/irmão Caio Castelo, pelas correções
daqueles primeiros textos estranhos.
Aos inesquecíveis colegas de trabalho Márcio Porto, Joãozinho, Etevaldo, Seu
Osmar, Jota, Paulo Cardoso, Jorismar, Liduína, e muitos outros do Arquivo Público do
Estado do Ceará, pelos bons momentos entre ácaros, poeira e boas histórias.
Aos eternos e queridos amigos Valderiza Menezes, Pedro de Mesquita, Hévila
Martins, Amanda Queiroz, João Paulo Có e todos os outros companheiros do curso de
História da UFC, pelas angústias, alegrias (mais alegrias que angústias) e por essa amizade
tão querida.
Aos meus tios Carlos, José Ataide e Vânia, e a todos os meus familiares piauienses,
por todo o apoio nessa minha nova fase da vida, e pelos almoços nos fins de semana!
Às “princesas lá de casa”, Lia e Bia, e aos meus pais, Antônio Francisco e Jane (a
quem mais agradeço), pelo eterno incentivo, pelo indescritível amor e por serem tudo pra
mim. Este trabalho também é dedicado a vocês.
À Jordana, que foi meu real motivo de vir a Teresina, por ser o amor da minha vida.
Independentemente de onde você morasse, seria lá que este trabalho seria feito. Te amo!
7

RESUMO

O presente estudo discorre sobre os povos indígenas no Ceará e a complexa


relação frente à política indigenista adotada pela coroa por meio do Diretório
Pombalino, tendo como gestor destas práticas o governador Manuel Ignácio de
Sampaio. Este trabalho segue por duas trajetórias que, ao longo de suas histórias,
conviveram e deram sentido uma a outra. Por um lado, analisa a política indigenista
do militar ilustrado Manuel Ignácio de Sampaio, que governou o Ceará entre 1812 e
1820. Estigmatizada como uma das regiões mais “periféricas” do Império português,
Sampaio teve como projeto desenvolver a capitania, especialmente no que dizia
respeito ao âmbito populacional. Por dar destaque aos grupos indígenas em seus
planos civilizatórios, buscamos discutir as práticas disciplinares voltadas a esta
população. Por outro lado, são analisados os próprios índios na condição de
protagonistas de suas histórias. Em constante relação com essas mesmas políticas
normativas, o estudo focou as leituras e apropriações executadas pelos indígenas
com base em elementos constituintes deste mundo que se modificava ao seu redor,
cerceando sua liberdade, mas não impedindo suas inúmeras maneiras de inventar
seus cotidianos.

Palavras-chaves: Indígenas. Política indigenista. Ceará. Disciplina. Civilização.


Cotidiano.
8

RÉSUMÉ

Cette étude porte sur les peuples Indigènes de Ceará et les complexes relations en
face la politique indigéniste adoptée par la Couronne par l’intermédiaire du Diretório
Pombalino, avec le gestionnaire de ces pratiques, le gouverneur Manuel Ignacio de
Sampaio. Ce travaille fait en suite à deux voies qui, le longe de leur histoires, ont
vécu et ont donné un sens à l’autre. D’une coté, analyse la politique indigéniste du
militaire illustrée Manuel Ignacio de Sampaio, qui a dirigé le Ceará entre 1812 et
1820. Stigmatisé comme l’un des plus « péripherique » de l’empire portugais,
Sampaio a été comme projet développer la capitanierie, d’autant plus préoccupé par
la porte de la population. En mettant en avant des groupes Indigènes dans leur plans
de civilisation, nous discutons des pratiques disciplinaires visée à cette population.
D’autre coté, les Indiens eux-mêmes sont analysées sous la condition de
protagoniste de leur histoires. En permanent relation avec ces politiques normatives,
l’étude a porté sur les lectures et les appropriations reportés par les Indiens sur la
base d’éléments constitutifs de ce monde qui se modifiait autour d’eux, en limitant
leur liberté, mais n’empêchant pas ses nombreuses façons d’inventer leur vie
quotidienne.

Mots-clés: Indiens. Politique indigéniste. Ceará. Discipline. Civilization. Cotidienne.


9

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – PAULET, Antônio Joze da Silva. CARTA da Capitania do Ceará


levantada por ordem do Governador Manuel Ignacio de
Sampaio, por seu Ajudante de Ordens Antonio José da Silva
23
Paulet, 1818................................................................................
35
Figura 2 – Vilas e povoações de índio no Ceará – século XIX.......................
Figura 3 – Manuel Ignácio de Sampaio e Pina Freire.................................... 48
Figura 4 – Rua Governador Sampaio, no centro de Fortaleza, com vista
para a Catedral da Sé.............................................................. 49
Figura 5 – PAULET, Antônio Jozé da Silva. “Planta do Porto, e Villa da
Fortaleza”, 1813............................................................................ 51
Figura 6 – PAULET, Antônio José da Silva. CARTA Maritima, e
Geographica da capitania do Ceará. Levantada por ordem do
Gov. Manuel Ign. De Sampayo, por seu ajudante d’ordens
Antonio Joze da S.a Paulet, 1817................................................. 52
Figura 7 – CARTA da Capitania do Ceará levantada por ordem do
Governador Manoel Ignácio de Sampaio por seu ajudante e
ordens Antonio José da S. Paulet. (com detalhes do relevo),
1818............................................................................................... 53
Figura 8 – PLANTA da Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção da
Capitania do Ceará Grande [s.d.]................................................. 70
Figura 9 – Lápide comemorativa da Fortaleza de Nossa Senhora da
Assunção, 1817; Tradução produzida pelo Museu Histórico do
Ceará, 1934; e Lápides nos muros da Fortaleza de Nossa
Senhora da Assunção................................................................... 71
Figura 10 – Vista aérea da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, com
destaque para o muro em que estão fixadas as lápides.
Extraído do sítio on-line do Comando da 10ª Região Militar......... 72
Figura 11 – Caboclo Trambambes................................................................... 143
Figura 12 – Rota da tropa de índios do Ceará na Revolução Pernambucana
de 1817.......................................................................................... 156
165
Figura 13 – Localização das agências do Correio do Norte do Brasil..............
Figura 14 – CARTA topográfica dos termos da vila do Crato, e S. Antonio do
Jardim, capitania do Ceará, levantada por Antonio Joze da Silva
Paulet,Tenente Coronel Engenheiro, 1814................................... 245
Figura 15 – Região de atuação dos “gentios do Pajahú” – Cariri / CE............. 245
10

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................. 12

2 CONFIM: OS ESTIGMAS DO CEARÁ............................................. 21


2.1 Terra em ruínas: o Ceará nos relatos do início do século XIX.... 21
2.1.1 Seca, miséria e morte........................................................................ 25
2.1.2 Um poder distante............................................................................. 28
2.2 A população indígena no Ceará (1812-1820)................................ 33
2.2.1 Distribuição geográfica...................................................................... 33
2.2.2 Um olhar sobre as vilas e povoações de índios no Ceará................ 36
2.2.3 Relatos do cotidiano a partir da visão de Henry Koster..................... 38
2.2.4 A lei do trabalho: o Diretório dos Índios no Ceará do século XIX...... 43

3 CIVILIZAÇÃO: MANUEL IGNÁCIO DE SAMPAIO E UM


PROJETO DE ORDENAÇÃO DO CEARÁ................................. 48
3.1 A disciplina nos sertões................................................................. 48
3.1.1 Controle populacional........................................................................ 54
3.1.2 Centralização das decisões e o controle das punições..................... 58
3.2 “Somos todos portugueses”.......................................................... 63
3.2.1 A busca por uma afetividade patriótica.............................................. 65
3.3 Civilização no “novo mundo”: a política indigenista de
Sampaio............................................................................................ 77
3.3.1 Controle do cotidiano e a mudança nos costumes............................ 79
3.4 O equilíbrio da dominação.............................................................. 88
3.4.1 Controle, vigilância e repressão........................................................ 90
3.4.2 A questão dos bons tratos................................................................. 92
3.5 Os usos da fé................................................................................... 100
3.5.1 A exigência do bom tratamento......................................................... 103
3.5.2 Os índios e suas Igrejas.................................................................... 107

4 DISCIPLINA: O GOVERNO SAMPAIO E OS MECANISMOS DE


CONTROLE SOBRE OS ÍNDIOS NO CEARÁ................................. 113
4.1 Pela boa ordem e sossego da capitania: política de
passaportes e a “caça aos vadios”............................................... 113
4.1.1 Discurso e território............................................................................ 115
4.2 Um celeiro de mão de obra: trabalho indígena............................. 122
4.2.1 Discussão historiográfica: o trabalho indígena no século XIX........... 123
4.2.2 O incentivo ao trabalho como combate à vadiagem.......................... 126
4.3 Como nunca se viu nestes sertões: recrutamento indígena....... 132
4.3.1 Conjuntura militar portuguesa (fins do séc. XVIII e início do séc.
11

XIX)....................................................................................................
135
4.3.2 Recrutamento indígena..................................................................... 138
4.3.3 Os comandantes índios e o papel das autoridades nas tropas......... 141
4.3.4 A flexibilidade da legislação............................................................... 146
4.4 Ordem e disciplina: a formação de tropas indígenas na
Revolução Pernambucana de 1817................................................ 151
4.4.1 A formação das tropas indígenas...................................................... 153
4.5 Os “filhinhos” do governador: o Correio do Norte do Brasil e
os “índios correio”.......................................................................... 160
4.5.1 O Correio do Norte do Brasil............................................................. 163
4.5.2 Índios correios e os limites da disciplina............................................ 173

5 INVENÇÃO: COTIDIANO INDÍGENA SOB O GOVERNO


SAMPAIO NO CEARÁ...................................................................... 182
5.1 A seara ainda é indígena? O Ceará enquanto um não-lugar
para os índios.................................................................................. 182
5.1.1 Fugas do sistema.............................................................................. 186
5.1.2 Inventando a vida num novo mundo.................................................. 191
5.2 O “entusiasmo” dos índios............................................................ 195
5.2.1 Estratégias discursivas do poder....................................................... 198
5.2.2 “Atiravam flechas, mediante alguns vinténs”..................................... 203
5.3 Eles dizem que não são índios....................................................... 208
5.3.1 Olhares da civilização: relatos de João da Silva Feijó e Henry
Koster................................................................................................ 211
5.3.2 Vadios de honrado e nobre sangue................................................... 214
5.3.3 Saída das vilas.................................................................................. 219
5.3.4 Do Ceará ao Piauí: o índio Antônio de Verçosa................................ 222
5.3.5 Negações identitárias........................................................................ 226
5.4 Requerimentos indígenas............................................................... 230
5.4.1 A produção de requerimentos........................................................... 232
5.4.2 Pedidos comunitários e o “prêmio da revolução de 17”.................... 236
5.5 Atrevidos gentios do Pajahú.......................................................... 243
5.5.1 A política indigenista aos índios “bravios” no século XIX e o
aldeamento da Cachorra Morta......................................................... 247
5.5.2 Os “atrevidos” gentios do Pajahú...................................................... 249
5.5.3 “Céu” e “liberdade”............................................................................. 255

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................. 257


REFERÊNCIAS................................................................................. 260
ANEXOS............................................................................................ 267
12

1 INTRODUÇÃO
Os moralistas não deixam de transparecer um
ódio à selva virgem e aos trópicos? E também lhes é
necessário desacreditar a qualquer preço o “homem
tropical”, quer como manifestação de doença e
degenerescência do homem, quer como seu próprio
inferno e seu próprio suplício? Mas por quê? A favor das
“zonas temperadas”? A favor dos homens moderados?
Daqueles que “têm moral”? Dos medíocres?

Friedrich Nietzsche

Por haver nascido e crescido em um Estado de inegável presença indígena,


mas que se manifesta de forma bastante peculiar, esta imagem se me apresenta em
muitos aspectos e searas distintas, de caráter mais ou menos “científico”. O Ceará
conta hoje com aproximadamente quatorze etnias indígenas, número que cresce
desde 1988, e que pode ser maior, haja vista a disparidade estatística entre os
dados coletados pelos órgãos oficiais, pelas organizações indígenas e indigenistas,
e pelas várias comunidades espalhadas pelo território que estão iniciando seus
processos de afirmação étnica.
Aliadas a essas constatações, outras observações são igualmente
importantes, como, por exemplo, a facilidade de se perceber a significativa
quantidade de pessoas com feições indígenas pelas ruas da capital, que vivem em
bairros como Mucuripe, Cocó, Sapiranga, Sabiaguaba, Curió, Papicu, Ancuri,
Cambeba, Porangabussu, Itaoca, Itaperi, e muitos outros com nomenclaturas de
origem tupi-guarani. Fortaleza – que em seu território abriga duas antigas vilas de
índios, Parangaba e Mecejana – também é rodeada por aldeias, localizadas nos
municípios vizinhos de Aquiraz, Caucaia e Maracanaú – também com nomes
indígenas. Desde criança, via e convivia com essa realidade, como quando ia – e
vou até hoje – à praia do Icaraí, por uma estrada que corta uma aldeia da etnia
tapeba, às margens do rio Ceará.
Esta forte presença luta cotidianamente com variados setores da sociedade –
da academia ao senso comum – que a quer imperceptível ou, pelo menos,
desacreditada. Enquanto os índios encontram resistências de membros do setor
privado, e mesmo dos governos municipal e estadual, não é difícil encontrar-se
alguém que duvide que aquelas comunidades sejam realmente indígenas. Em meio
a provocações e acusações de oportunismo e teatralização, esses povos são
questionados em sua autenticidade étnica. ‒ Como podem ser índios, se usam
13

roupas, moram em casas e assistem à televisão? Como pode um índio de nariz e


lábios grossos? Como pode o cacique anacé ostentar um bigode? ‒ Se o número de
pessoas que se assumem índias vem crescendo nos últimos anos, bem maior é a
quantidade daqueles que, mesmo tendo “cara de índio”, não se identificam como tal.
Mas se tais “negações identitárias” são comuns, também é frequente
encontrar entre boa parte da população dizeres em relação a uma ancestralidade
indígena, quando muitos lembram que seus avós ou bisavós foram índios, “pegos a
dente de cachorro”. De onde vem tamanha disparidade? Como se configurou tal
formação social caracterizada pelo convívio muitas vezes conflituoso entre o
esquecimento e uma incômoda e persistente presença indígena?
Em meio a esses questionamentos, despertou-me, ao longo da graduação em
História na Universidade Federal do Ceará, o desejo de ingressar nesse campo que,
até o momento, não havia produzido mais do que três dissertações naquele
departamento1 – todas de grande relevância para os estudos indigenistas no Estado
e para este trabalho. Deste modo, iniciei uma pesquisa a partir de documentos
encontrados no livro Documentos para a História Indígena no Nordeste,2 organizado
por Maria Sylvia Porto Alegre, que faziam referência a algo até então desconhecido
por mim: uma tropa de trezentos índios foi recrutada no Ceará para combater
insurgentes pernambucanos e seus aliados em 1817, nas fronteiras da Capitania.
Animado pela descoberta e instigado pela curiosidade, tratei de pedir auxílio aos
professores que, para minha surpresa, também desconheciam esse evento. Havia,
enfim, encontrado um tema a ser pesquisado!
Toda essa situação – que me possibilitou explorar um contexto histórico, e,
por ser novidade até para o meio acadêmico e não havia sido considerada relevante
até então – se nos apresentou como mais um exemplo do processo de
esquecimento e negligência que a cultura, memória e tradição indígena vêm
sofrendo ao longo dos anos no Ceará. O período em que se deu o recrutamento da
tropa, que correspondeu ao governo de Manuel Ignácio de Sampaio, também não

1
São elas: ALBUQUERQUE, Manuel Coelho. Seara indígena: deslocamentos e dimensões
identitárias. Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2002; SOUSA, Mônica Hellen
Mesquita de. Missão na Ibiapaba: estratégias e táticas na Colônia nos séculos XVII e XVIII.
Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2003; MAIA, Lígio José de Oliveira.
Cultores da vinha sagrada: missão e tradução nas Serras de Ibiapaba (século XVII). Dissertação
(Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2005.
2
ALEGRE, Maria Sylvia Porto; MARIZ, Marlene da Silva; DANTAS, Beatriz Góis. Documentos para
a História Indígena no Nordeste. São Paulo: FAPESP, 1994.
14

havia sido explorado de forma significativa, principalmente quando relacionado ao


universo indígena.
Na busca de elaborar um projeto a ser desenvolvido no Mestrado em História
do Brasil da Universidade Federal do Piauí, procuramos ampliar a pesquisa, ou seja,
além de indícios dos “300 do Ceará” de 1817, também visamos analisar a
documentação referente à relação entre o governo Sampaio e os índios desta
capitania. Desde o início, apropriamo-nos dos indígenas, não na condição de objeto
analítico pronto, acabado, homogêneo nem de forma definida, mas como sujeitos
diversos em constante construção, cuja percepção era resultado dos choques e
convívios entre as políticas disciplinares do Estado português e suas apropriações e
invenções cotidianas.
Diante dessa proposta inicial, nossa principal fonte empírica se concentrou no
acervo do Arquivo Público do Estado do Ceará (APEC). A maior parte dos
documentos coletados encontra-se no fundo “Governo da Capitania”, distribuídos em
várias séries de ofícios e manuscritos de outras naturezas, além de um registro do
fundo “Câmaras Municipais”. Outro motivo de admiração durante a pesquisa foi
perceber o enorme volume documental referente a este governo, cuja quantidade de
registros se destaca em comparação a de outros mandatos. O recorte cronológico
da maioria das séries aqui mencionadas se estende exatamente durante o período
em que Sampaio esteve no Ceará, de 1812 a 1820. Tais minúcias, expressas
também na vasta documentação e cujos resquícios sobreviveram até hoje, são um
dos exemplos da disciplina característica deste governo e de sua tentativa em
estabelecer um controle panóptico nessa região.
Simultaneamente à surpresa de nos depararmos com tantos registros, nos
chamou a atenção o fato de que, mesmo rico, ainda são poucas as pesquisas
acerca deste período e que trabalham com esta documentação. Sem negar a
importância de grandes arquivos de renome e reconhecimento nacional, tal situação
pode nos alertar para a pouca importância que ainda hoje é dispensada aos
arquivos públicos estaduais, inclusive pela comunidade científica. Por meio deste
extenso acervo, pudemos coletar informações diversas tanto das práticas políticas
deste governador como também do cotidiano indígena na Capitania, além dos
conflitos gerados por estas relações.
Pudemos estabelecer contrastes e complementações a estes documentos por
meio dos relatos de cronistas e viajantes que estiveram no Ceará no início do século
15

XIX, como João da Silva Feijó, Silva Paulet, Barba Alardo de Menezes, Almeida
Machado e Henry Koster, ou que pelos menos nos deram alguma informação sobre
aquela região, como Tolenare e Muniz Tavares. Assim como o acervo
governamental, procuramos analisá-los não como relatos fidedignos daquela
realidade, mas enquanto discursos carregados de sua própria historicidade,
produzidos pelas especificidades de cada lugar social. Também contribuíram para
escrita deste trabalho algumas informações presentes nas revistas do Instituto do
Ceará, na coleção do Correio Brasiliense, de Hipólito José da Costa, e na análise do
próprio Diretório dos Índios – legislação indigenista do século XVIII e vigente no
Ceará até meados do XIX.
Em relação à grafia dos documentos oitocentistas e aos textos do início do
século XX, decidimos, também por conta da flexibilidade das normas da ABNT sobre
a questão, mantê-las tal como encontramos nos registros. Acreditamos ser este
procedimento o mais coerente, já que não nos cabe alterar as particularidades da
escrita deste período. Além de termos tido todo um esforço técnico e paleográfico na
transcrição das fontes, entendemos que o próprio sentido de determinadas palavras
e expressões são particulares do momento histórico em que era produzido, o que
nos levou, quando necessário, a esclarecer ao leitor acerca de mudanças para os
dias atuais.
Esta pesquisa teve como mote, ao longo de sua trajetória, dois aspectos que
fizeram parte da história dos índios no Ceará, no início do século XIX. De um lado,
focalizamos na prática política do militar ilustrado Manuel Ignácio de Sampaio,
principalmente no que dizia respeito a seu trato com a população indígena da região.
Imbuído de seu projeto de civilização e normatização daquela “precária periferia” do
Império lusitano, o governador procurou promover um mundo disciplinar naquela
sociedade, com forte direcionamento para os indígenas, fundamentais para seus
planos de desenvolvimento. Neste aspecto, as leituras das obras de João Leite
Neto, Francisco José Pinheiro, José Eudes Gomes e Maico Oliveira Xavier3 foram de

3
LEITE NETO, João. A participação do trabalho indígena no contexto da produção algodoeira
da capitania do Ceará (1780 – 1822). Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal de
Pernambuco, 1997. LEITE NETO, João. Índios e Terras: Ceará: 1850 – 1880. Tese de doutorado,
Universidade Federal de Pernambuco, 2006. PINHEIRO, Francisco José. Notas sobre a formação
social do Ceará: 1680-1820. Fortaleza: Fundação Ana Lima, 2008. GOMES, José Eudes Arrais
Barroso. Um escandaloso theatro de horrores: a capitania do Ceará sob o espectro da violência
(século XVIII). Monografia (Bacharelado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2006. GOMES, José
Eudes Arrais Barroso. As milícias d’El Rey: tropas militares e poder no Ceará setecentista.
Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal Fluminense, 2009. XAVIER, Maico Oliveira.
16

crucial importância no diálogo acerca do contexto que abrange os finais do século


XVIII e início do XIX, tempos de transformações das práticas políticas –
principalmente populacionais – naquelas ermas paragens.
Na margem oposta, encaramos homens, mulheres e comunidades indígenas
que, nas últimas décadas, vêm sendo percebidos na comunidade acadêmica cada
vez mais na condição de agentes ativos de suas histórias. Longe da passividade ou
inocência que lhes eram atribuídos pela historiografia tradicional, ao vê-los enquanto
povos “sem história e sem futuro”, os nativos que vivenciaram esse tempo de
disciplina desempenharam “um papel ativo e criativo” no mundo colonial e joanino.
Em seus cotidianos, “dialogavam abertamente com os novos tempos, seja para
assimilar ou para rejeitar” os diversos elementos impostos pelo universo normativo
ocidental4. Autores como Maria Regina Celestino de Almeida, Almir Diniz de
Carvalho Junior e Elisa Frühauf Garcia,5 ao trabalhar com políticas indigenistas, em
diferentes regiões e com as inserções dos índios em meio ao mundo em que viviam,
foram essenciais como referências que nos ajudaram a analisar as ações, leituras e
apropriações dos grupos indígenas.
Para alguns, corre-se o risco de cair em contradição, ao “misturar” em um
mesmo trabalho perspectivas e autores aparentemente tão distintos – como
Foucault e Certeau – especialmente quando se trata de história indígena. Todavia, a
vida humana, inclusive aquela protagonizada pelos índios em um pretenso mundo
civilizado, é resultado e constituída por searas das mais diversas. Segundo Roger
Chartier, é necessário que se estabeleça “um contraste entre disciplina e invenção,
apresentando essas categorias não como antagônicas, mas como um par inter-
relacionado”. Para o autor, qualquer tentativa de “criar mecanismos de controle e
coerção sempre segrega táticas que o subjugam ou subvertem”; por outro lado, “não
existe produção ou prática cultural que não se fundamente em materiais impostos

“Cabôcullos são os brancos”: dinâmicas das relações socioculturais dos índios do Termo da Vila
Viçosa Real – século XIX. Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2010.
4
MONTEIRO, John. Tupis, tapuias e historiadores: estudos de história indígena e do indigenismo.
Tese (Livre docência) ‒ UNICAMP, 2001.
5
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Os índios aldeados no Rio de Janeiro colonial: novos
súditos cristãos do Império português. Tese (Doutorado) ‒ UNICAMP, 2003. CARVALHO JÚNIOR,
Almir Diniz de. Índios cristãos: a conversão dos gentios na Amazônia portuguesa (1653-1769). Tese
(Doutorado) ‒ UNICAMP, 2005. GARCIA, Elisa Frühauf. As diversas formas de ser índio: políticas
indigenistas e políticas indígenas no extremo Sul da América portuguesa. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2009.
17

[...], e que não esteja à supervisão e à censura por parte daqueles que detêm o
poder”.6 A disciplina e a invenção, mais do que contraditórias, são categorias que
convivem, ou melhor, se completam, dão sentido uma a outra.
Mais do que enxergar estas duas margens da pesquisa como lados opostos,
separados por alguma linha que as segregue, acreditamos que as ações,
percepções e vivências daqueles que pertenciam a estratos inferiores da sociedade
colonial/joanina estavam em constante interação com as elites políticas e
econômicas. Para Peter Burke, a “fronteira entre as várias culturas do povo e as
culturas das elites é vaga e por isso a atenção dos estudiosos do assunto deveria
concentrar-se na interação e não na divisão entre elas”. 7 A constituição daquela
sociedade não se deu por meio de trajetórias distintas, mas pelos choques e
interpelações entre duas esferas: a disciplina governamental e a invenção cotidiana
dos índios.
Além desses dois grandes aspectos que compuseram essas histórias, se faz
necessário esclarecer que tanto as ações do governo quanto os próprios indígenas
não eram de grupos uniformes. Ao contrário da maioria dos mais recentes trabalhos
sobre história indígena no Ceará, que se debruçaram sobre análises mais
localizadas – como as aldeias da Ibiapaba ou os grupos que enfrentaram os
holandeses8 – tivemos como recorte espacial toda a capitania. Na busca de evitar
uma “falsa impressão de homogeneidade”,9 focamos nossa narrativa na variedade
de personagens, ambientes e ações protagonizadas pelos diversos grupos nativos
habitantes deste território. Mesmo um grupo que habitou a mesma aldeia ou vila de
índios não estava isento de divisões e estratificações internas – conforme
apresentam as dissertações aqui citadas – de tal forma que tal característica se
acentua quando abordamos toda uma capitania.
Em sua análise acerca da cultura popular europeia na Idade Moderna, Peter
Burke alertou para a grande dificuldade que tal análise poderia gerar, tendo-se em
vista que mesmo os povos rurais de uma determinada região tinham costumes
variados, dependendo, por exemplo, de seus ofícios. Para ele, a “cultura popular não
6
CHARTIER, Roger. Textos, impressão, leituras. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural. São
Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 236. (Grifo nosso).
7
BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p.
16-17.
8
Sobre os índios no Ceará Holandês, vide: MARTINS, Guilherme Saraiva. Entre o forte e a aldeia:
mediadores culturais e estratégias de contato no Ceará Holandês (1630-1654). Dissertação
(Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2010.
9
BURKE, 1989, p. 16.
18

era monolítica nem homogênea”, e, por isso, “extremamente variada”.10 Da mesma


forma, quando tratamos dos índios do Ceará oitocentista, apontamos para grupos
que não só estavam separados geograficamente, mas também abarcavam vasta
quantidade de tradições, heranças e culturas diferentes, cujas leituras do mundo que
os cercava também não eram as mesmas. Das fugas de uma propriedade aos
requerimentos enviados à corte portuguesa, todas essas ações foram
protagonizadas por índios e índias que, das mais variadas maneiras, eram leitores
atentos e agentes transformadores desta sociedade.
A forma como distribuímos a análise do tema no decorrer dos capítulos
procurou dar conta dessa complexa tarefa: mesmo apontando universos diferentes,
ter sempre em vista o fato de que não estavam isolados, ao contrário, interagiam e
davam forma um ao outro. Se o mundo indígena era tão diverso, igualmente
heterogêneas eram as ações governamentais frente a essas populações, cujos
direcionamentos se configuravam com base nas especificidades de cada situação.
Tecer uma leitura dessa sociedade, bem como de sua configuração histórica é ter
em mente que todas essas múltiplas particularidades, constantemente descontínuas,
constituíram os grupos e sujeitos que, por meio de suas trocas e interações, forjaram
esse mesmo meio social.
A presente dissertação compõe-se das seguintes partes: Confim: os estigmas
do Ceará, que caracteriza esse mundo tido como periférico para os historiadores
tradicionais que escolhemos como foco. Inicialmente, buscamos analisar a
construção discursiva deste objeto pré-construído nos relatos oitocentistas: uma
capitania “arruinada” e decadente. Em seguida, também através de cronistas da
época, esboçamos um quadro social e geográfico da população indígena no Ceará,
sobre sua distribuição espacial, condições das vilas e povoações, os olhares
estrangeiros acerca de seus costumes e o conjunto de leis sob o qual estavam
submetidos: o Diretório dos Índios.
Em Civilização: Manuel Ignácio de Sampaio e um projeto de ordenação no
Ceará, nosso objetivo foi analisar a figura desse governador, principalmente a partir
do caráter civilizatório de sua prática política, na qual os índios ocupavam um lugar
central. Embasado nos ideais iluministas e na disciplina militar, este líder agiu em
diversas frentes à busca de uma transformação radical daqueles sertões, cujas

10
BURKE, 1989, p. 49.
19

particularidades serão aqui estudadas. Através do diálogo com a obra de Norbert


Elias, será aqui destacado o papel dos grupos indígenas nesse projeto, ao
enfatizarmos o funcionamento e oscilações desse “processo civilizador”, a presença
do Diretório no Ceará – última capitania a abandoná-la enquanto legislação
indigenista – e a atuação dos índios como agentes transformadores desse mesmo
projeto.
Em Disciplina: o governo Sampaio e os mecanismos de controle sobre os
índios no Ceará, discutimos, mais detalhadamente, a política indigenista deste
governador, analisando especificamente suas principais práticas. Por meio de um
controle populacional vigilante e minucioso, do forte incentivo ao trabalho normativo
e da punição corretiva para aqueles que se desviavam destes planos, Sampaio
procurou disciplinar aquela população indígena principalmente por meio da produção
agrícola e da obediência. Com base nas orientações legais do Império, pretendia
fabricar, através daqueles “bárbaros incivilizados”, súditos fieis à coroa portuguesa e
que estivessem comprometidos com o desenvolvimento da Capitania.
Por fim, em Invenção: o cotidiano indígena sob o governo Sampaio no Ceará,
nosso propósito foi apresentar os índios na condição de protagonistas de suas
próprias histórias. Habitando um ambiente onde, diferentemente de seus ancestrais,
perdiam gradualmente o domínio e a autonomia, entendemos que este Ceará no
início dos oitocentos se apresentava cada vez mais para estes grupos como um
espaço que os cerceava e submetia. Todavia, tal configuração geográfica não os
impossibilitava de agir: ao contrário, era sob esta conjuntura específica que os
indígenas se apropriavam dos elementos – novos e antigos – que compunham este
universo imperial. Através das mais variadas formas e com diferentes oportunidades,
os índios exerciam uma leitura rebelde e delinquente deste mundo, cujo consumo,
negação e inserção se orientavam a partir da busca de seus interesses.
O sujeito indígena que aqui interpretamos e buscamos reproduzir na escrita
não se nos apresentou como uma entidade fixa e homogênea. Ao contrário, nossa
procura se deu em compreender sua construção, suas oscilações e transformações.
Essa categoria identitária, criada pelo europeu e apropriada pelos povos assim
nomeados, não se limitou em uma única conjuntura histórica e muito menos se
isolou em suas diferenças no meio social. As diversas formas de ser índio estiveram
sempre conectadas com o caráter mestiço de sua própria condição, como nos
explica Boccara. Em meio a ações, reações e negociações, a formação social do
20

que conhecemos como Ceará esteve impregnada de todas essas complexas


condições, nas quais uma população, mesmo que pretensamente disciplinada e
coagida a abandonar seus costumes e tradições, buscou inventar incontáveis artes
de fazer e viver na relação com esta mesma realidade.
A história que aqui queremos contar, dos rigores deste governo oitocentista e
dos protagonismos dos índios que viveram esse período, pode nos ajudar a
enxergar o atual contexto indígena no Ceará, rapidamente descrito no início desta
introdução. Observamos uma sociedade também fruto desses dois – ou muito mais
– movimentos criadores, de um povo que, usando as palavras de Albuquerque
Junior, era rio quando “fundado por uma sociedade, por uma cultura, por formações
discursivas, por práticas de poder e linguagem”, mas que sorria porque, apesar de
tudo, era ativo nas invenções que fazia na sua sociedade e na sua cultura. Era
“disciplina e antidisciplina, determinação e liberdade, estratégia e tática, astúcia e
angústia”.11 Escrevemos sobre sujeitos indígenas produzidos por uma sociedade
disciplinar que os atingia através de práticas e discursos, fabricados pela história;
mas esta história – sua história – também era lida, apropriada e inventada por eles.

11
ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. História: a arte de inventar o passado. Ensaios de
teoria da história. Bauru: Edusc, 2007. p. 35-36.
21

2 CONFIM: OS ESTIGMAS DO CEARÁ

2.1 Terra em ruínas: o Ceará nos relatos do início do século XIX

Despontam vivendas pobres;


algumas desertas pela retirada dos
vaqueiros que a seca espavoriu; em
ruínas, outras; agravando todas, no
aspecto paupérrimo, o traço melancólico
das paisagens...
Euclides da Cunha

Somente após mais de cem anos do início da colonização portuguesa no


continente americano é que as terras que hoje compreendem o Ceará começaram a
ser ocupadas pelos europeus. Mesmo assim, a instalação do poderio do Império de
Portugal se deu de forma bastante irregular, tanto pelas condições naturais e
climáticas como pelos obstáculos impostos pelos povos que aqui habitavam. Foi
apenas na segunda metade do século XVII que as primeiras vilas foram fundadas na
Capitania e, mesmo assim, pouco povoadas. Esse quadro de isolamento do Ceará
em relação aos centros mais desenvolvidos – como Rio de Janeiro, Recife e até
mesmo a metrópole europeia – manteve-se durante praticamente todo o período
colonial e joanino, sendo comum nos registros dos homens que aqui estiveram o
retrato de uma região como um confim arruinado, miserável, perigoso e empestado
de índios e criminosos.
Nas palavras de Manuel Coelho de Albuquerque, o Ceará durante muito
tempo constituiu uma verdadeira Seara indígena, onde os povos nativos – gentios e
aldeados – ainda exerciam domínio sobre boa parte daquele território.1 Ainda assim,
a violência sobre essas populações crescia de forma constante, muito por conta dos
colonos2 que os enfrentavam e os recrutavam como força de trabalho, de forma tal
que fugiam, inclusive, da legislação imperial que estabelecia certa proteção para os
índios. De acordo com José Eudes Gomes, esses mesmos proprietários passaram a

1
ALBUQUERQUE, Manuel Coelho. Seara indígena: deslocamentos e dimensões identitárias.
Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2002.
2
Proprietários de terra, em sua maioria, brancos, que povoaram o território cearense, principalmente
a partir da segunda metade do século XVII.
22

se configurar como poderosos potentados locais que acumularam uma incontestável


autoridade sobre a maioria da população.3
Nos discursos dos representantes do governo na Capitania, era gritante o
caráter belicoso e violento da população em geral – desde os estratos sociais mais
inferiores até àqueles mais poderosos – bem como do número de criminosos que
aqui encontravam refúgio e “recebiam acobertamento de fazendeiros poderosos”,4
que usavam de seus serviços para reforçar seu poder. O Ceará era visto, de
maneira geral, pela elite política do Império como um “imenso ‘certão’ de muitas
léguas, território de crimes eivado de delinquentes e criminosos refugiados, palco de
roubos e mortes no qual a impunidade grassaria devido às dificuldades de efetuação
de prisões e aplicação das justiças reais”.5
A esse quadro somava-se, na visão dos cronistas coloniais, a situação
lastimosa em que vivia sua população mais pobre. Predominantemente rurais e
sobrevivendo da agricultura, da pesca e da pecuária, os habitantes do Ceará seriam
acometidos por condições climáticas e de solo bastante cruéis, além de uma
situação de extrema miséria. Para os autores da época, índios, negros, mestiços,
brancos pobres e boa parte da elite econômica conviviam constantemente com o
isolamento da região, com a falta de recursos naturais e com a violência.
Mas, a partir da segunda metade do século XVIII, os governantes da
Capitania, um após o outro, passaram a aplicar numerosas práticas em diversas
frentes com o objetivo de destruir esse estigma de terra sem lei, tanto no âmbito
econômico como no populacional. Tais intentos se inseriram em um contexto de
transformação imperial, encabeçado pelo Marquês de Pombal, que, no reinado de D.
José I, procurou promover reformas em diversos setores do reino, tanto na
metrópole como nos domínio d’além-mar. Diversas “medidas administrativas,
tomadas especialmente a partir da década de 1760, tentavam regulamentar o
controle social sobre a população”, como o impulso da política de “alistamentos
militares, a confecção de mapas populacionais e a imposição do uso de passaportes
pelos seus moradores”.6 Em relação ao desenvolvimento econômico, segundo
Pinheiro, podemos ver naquele período um forte “processo de incorporação da

3
Indígenas, mestiços e brancos pobres.
4
GOMES, José Eudes Arrais Barroso. Um escandaloso theatro de horrores: a Capitania do Ceará
sob o espectro da violência (século XVIII). Monografia (Bacharelado) ‒ Universidade Federal do
Ceará, 2006. p. 49.
5
Ibid. p. 48.
6
Ibid., p. 113.
23

população pobre-livre, como produtora de mercadoria”, especialmente nas lavouras


de algodão.7 O governo de Manuel Ignácio de Sampaio, cujo mandato foi de 1812
até 1820,8 teve provavelmente o caráter mais endurecido de todos dessa época,
uma vez que reforçou políticas de monitoramento dos habitantes e punição daqueles
considerados delinquentes e vadios,9 além do considerável crescimento econômico
com a produção algodoeira.10 Nas análises dos relatos de viajantes e de outras
autoridades que escreveram sobre o Ceará, naquele início do século XIX,
percebemos que, na virada para os oitocentos, a situação decadente da capitania
permanecia muito semelhante, mesmo com todas essas ações governamentais
supracitadas. Observe-se a Figura 1, a seguir.

Figura 1 - PAULET, Antônio Joze da Silva. CARTA da Capitania do


Ceará levantada por ordem do Governador Manuel Ignacio de
Sampaio, por seu Ajudante de Ordens Antonio José da Silva
Paulet, 1818.

Fonte: Fundação Biblioteca Nacional, acervo cartográfico do Arquivo Real Militar.

7
PINHEIRO, Francisco José. Notas sobre a formação social do Ceará: 1680-1820. Fortaleza:
Fundação Ana Lima, 2008. p. 189.
8
A ortografia, ou seja, a forma como se escrevia no período em estudo (1812-1820) será mantida
nesta Dissertação.
9
Todos aqueles que não estivessem habitando suas localidades de origem sem a autorização do
governo, e que não exercessem trabalho com produção de exedentes, eram enquadrados por esse
governo de vadios.
10
COSTA, João Paulo Peixoto. A disciplina nos sertões: Manuel Ignácio de Sampaio e um projeto de
civilização no Ceará (1812-1820). Revista História. Rio de Janeiro: [s.n.], 2011.
24

Três escritos compõem nosso estudo, e foram desenvolvidos a partir de


observações feitas durante ou poucos anos antes do governo de Sampaio – um
marco nas investidas disciplinares sobre a economia e a população do Ceará. Os
autores são de diferentes origens e setores sociais, e, consequentemente, os
objetivos de cada um – bem como o direcionamento de seus olhares sobre essa
Capitania – eram bastantes variados. São eles: Luiz Barba Alardo de Menezes, que
antecedeu Sampaio no governo e escreveu a Memória sobre a Capitania
independente do Ceará em 1814;11 Antônio José da Silva Paulet, engenheiro militar
do governo Sampaio e autor da Descripção geografica abreviada da Capitania do
Ceará;12 e, por fim, Henry Koster, comerciante anglo-lusitano que viajou pelo
nordeste da Colônia portuguesa na América, esteve no Ceará em 1810, e produziu a
obra Viagens ao nordeste do Brasil.13
Como dissemos, as diferenças são muitas entre esses textos, mas as
semelhanças também são visíveis. Com todos esses elementos, que se unem e se
chocam, se distanciam e se aproximam, foi possível identificar uma pequena parte
do emaranhado de pontos distintos que compunham esse estigma que ainda
persistia no Ceará por parte das lideranças – autoridades governamentais – e dos
intelectuais – principalmente viajantes. Mesmo com fins e perspectivas tão variados,
cada um daqueles homens pretendeu elaborar, a sua maneira, um retrato e um
diagnóstico próprio para aquele grande sertão. Através do estudo dessas produções,
tomaremos por objeto de nossa análise a construção simbólica e discursiva deste
Ceará estigmatizado como objeto pré-construído, cuja imagem de ruína e
decadência aparentava evidente e perfeitamente natural.14
Tais discursos se entrelaçavam também com as visões construídas pelo
governo de Portugal ao longo daqueles anos e, juntos, todos esses elementos
estiveram diretamente relacionados com a construção da imagem de confim daquela
região, bem como com as ações dos governos da Capitania, na passagem do século

11
MENEZES, Luiz Barba Alardo de. “Memória sobre a Capitania independente do Ceará grande
escripta em 18 de abril de 1814 pelo governador da mesma, Luiz Barba Alardo de Menezes”. In:
Documentação Primordial sobre a Capitania autônoma do Ceará. Fortaleza: Fundação Waldemar
Alcântara, 1997. (Coleção Biblioteca Básica Cearense).
12
PAULET, Antonio Jozé da Silva. Descrição Geográfica Abreviada da Capitania do Ceará. In:
Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, ano 12, p. 5-33, 1898.
13
KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro / São Paulo / Fortaleza: ABC,
2003. Retomaremos a análise dos escritos de Koster nos capítulos 02 – tópico 2.2 – e 05 – tópico 5.3.
14
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p. 28; 49.
25

XVIII para o XIX, que tentaram modificar aquilo que, para eles, seria uma terra em
ruínas.

2.1.1 Seca, miséria e morte

Ajusta-se sobre os sertões o


catitério das secas; esterelizam-se os
ares urentes; empedra-se o chão,
gretando, recrestado; ruge o Nordeste nos
ermos...
Euclides da Cunha

As causas associadas à ruína em que vivia a Capitania foram bastantes


variadas em todos os autores aqui analisados – Koster, Paulet e Barba Alardo. Cada
um listou e enfatizou fatores mais próximos de suas pretensões ao escrever.
Todavia, era constante em todos esses textos a imagem de um lugar que, tendo ou
não potencial para um grande desenvolvimento, era acometido por diversas
desgraças que iam desde aspectos naturais mal trabalhados – como as
características específicas do solo e da pluviometria – ou de sua complexa
organização política e populacional. As suas duras condições climáticas são
constantes em todos os relatos, e foram associadas ao fracasso de sua economia e
de seu povo. Passam, ainda, a imagem de uma população paupérrima que padecia
também por conta das secas violentas que assolaram a região, impedindo
igualmente que se desenvolvesse de forma expressiva a produção econômica.
Os trechos do relato de Silva Paulet que tratam de eventos que viu ou ouviu
15
sobre “os habitantes dos sertões flagelados de continuas sêccas” revelaram a
dureza e o alto índice de mortalidade daquela região. Sobre as secas de 1809 e
1810, e outra em 1814 (durante o governo Sampaio), muitas “fazendas ficaram
inteiramente dezertas de gados”, e em “tal extremo os habitantes do sertão morrem
à míngua por falta total de mantimentos, e até dos meios de os ir buscar aos portos
de mar, donde sempre os ha, vindos de Pernambuco”. Acerca da “espantoza” seca
de 1790-1792 se via, segundo o autor, “trocar um meio de sóla por uma bolaxa”,
tamanha era a miséria em que se encontrava essa população sertaneja.
Prosseguindo sua descrição sobre este quadro de penúria, Paulet acrescentou que
era “espectaculo lastimozo em taes annos encontrar pelas estradas a poucos

15
PAULET, 1898, p. 6.
26

passos corpos mortos de pessoas, que do interior fogem para a beira mar; retirada
em que perecem em caminho exhaustos de força, pela falta de matimentos”.16
Tal miséria da população proveniente das rigorosas condições climáticas se
agravava, segundo o autor, pelo “mal entendido sistema de agricultura” que era
utilizado comumente nestes sertões. Talvez por uma falta de assistência ou
vigilância do poder público, Paulet afirmou que era uma prática dos sertanejos
“derrubar todas as matas para semearem novos terrenos, aonde ha lavouras”, além
do “abuso de lançar por terra as arvores so para colher os favos de mel, que as
abelhas n’ellas fabricam”. Essas ações depredatórias e sem monitoramento teriam,
segundo ele, “dissipado muitos principios de humidade e acarretado uma quazi não
interrompida series de annos secos”.17
O conteúdo do registro deixado pelo inglês Henry Koster não diferia muito das
posições de Paulet. Durante sua passagem pela Vila da Fortaleza observou que,
mesmo tendo o lugar edifícios públicos “limpos e caiados”, sendo “perfeitamente
adaptados aos fins que se propõem”, a “pobreza do solo em que esta Vila está
situada” e as “terríveis secas” afastavam “algumas ousadas esperanças no
desenvolvimento de sua prosperidade”.18 O comerciante também registrou em seus
escritos os graves danos que o clima causava na capitania e em sua população.
Para ele, o “aspecto geral das terras derredor do Ceará é árido”, e a seca que a
região enfrentara anos antes da passagem de Koster “fora tamanha que a fome já
ameaçava, e a miséria seria excessiva se não houvesse chegado um navio do sul
carregado com farinha de mandioca [...]. O fato demonstra que a escassez era
verdadeiramente angustiosa”.19 Ainda sobre as devastadoras estiagens que
assolavam a região, o autor registrou a “situação péssima” em que se encontravam
Pernambuco e suas capitanias anexas20 (como a do Ceará):

[...] por uma estação sem chuvas, mas a extrema penúria é


produzida por dois anos sucessivos de estio. Durante o segundo ano,
os moradores morriam ao longo das estradas. Famílias inteiras se
extinguiram. Vários distritos se despovoaram. A região esteve neste
estado terrível em 1791, 1792 e 1793, pois esses anos passaram

16
PAULET, 1898, p. 10.
17
Ibid., p. 9-10.
18
KOSTER, 2003, p. 173.
19
Ibid., p. 182.
20
Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte eram capitanias anexas a Pernambuco até a segunda
metade do século XVIII.
27

sem que as chuvas fossem suficientes. Em 1810, podia-se procurar


víveres, embora por preços exorbitantes [...].21

Vemos que a passagem acima confirma o que registrou Silva Paulet em sua
Descripção acerca dos aspectos assustadores relativos àquele período, como os
corpos de retirantes que padeciam nas estradas em busca do litoral. Todavia, para
Koster, não somente pessoas, mas até “famílias inteiras” perdiam as vidas por falta
de chuvas e da inevitável miséria. Em outra passagem, quando relatou a sua saída
do Ceará, encontrou já próximo ao Aracati uma choupana onde habitava dois
meninos de “aparência lastimosa”, e que lhe mostraram um pouco de massa de
miolo de carnaúba que seus pais tinham ido procurar: era “essa substância a que
esse povo paupérrimo está reduzido como meio de alimento, ajuntando,
ocasionalmente, um pouco de carne ou de peixe fresco”. Em seguida, contou que
Feliciano, um índio que o acompanhava como ajudante, havia escondido os
suprimentos da tropa com couros, “dizendo que, se continuássemos viajando sem
ocultar-lhes o conteúdo, podíamos ser obrigados, em qualquer povoação, a
satisfazer o povo, repartindo entre os necessitados. Ele [Feliciano] não sabia [...] que
esta região estava em tal estado de penúria”.22
Diferindo bastante das duas descrições apresentadas acima, sob o ponto de
vista de Luiz Barba Alardo de Menezes, em relação aos aspectos naturais da
Capitania, o Ceará, mesmo caracterizado por uma terra seca, possuía muitas
vantagens e grande potencial produtivo. Ex-governador, o autor escreveu sua
Memória ao próprio rei de Portugal em 1814, e admitiu que até o final do século
XVIII aquela região era “desconhecida e considerada árida e estéril”. Essa
impressão esconderia, segundo ele, uma região possuidora de “infinitas ribeiras, e
immensas serras de prodigiosa producção de todos os generos, especialmente de
algodões, excellentes aguas, saborosos fructos, e os seus ares talvez sejão os
melhores deste continente”, tendo como prova de sua opinião o “grande numero de
pessoas, que tem avançada idade”.
Mas essa suposta “riqueza” natural que se via na Capitania não foi suficiente
para fazê-la crescer economicamente, mesmo tendo tido, no início do século XIX,
um aumento na sua agricultura, e “muito mais ainda o seu commercio”.23 Para Barba

21
KOSTER, 2003, p. 188-189.
22
Ibid., p. 193-194.
23
MENEZES, 1997, p. 39-40.
28

Alardo de Menezes, o motivo da ruína desses sertões não estava nas suas
condições climáticas, por mais duras que fossem. O real motivo era, para ele, algo
que também estava presente nos outros relatos analisados: a situação de extremo
abandono em relação ao poder central em distintos aspectos, expressos nas
péssimas condições dos prédios públicos, na produção econômica insignificante, na
falta de controle populacional, nos poucos funcionários do judiciário e no alto número
de criminosos a vagar e aterrorizar pelo território.

2.1.2 Um poder distante

A imagem de decadência expressa nos relatos desses homens que viajaram


pelos sertões do Ceará muito se explicava pelas duras condições a que foram
obrigados a submeter-se, além da imagem arruinada dos prédios públicos,
habitações e outras construções nas vilas e povoações. Ao chegar em Fortaleza,
Koster registrou a simplicidade das construções e do lugar, cujas “casas têm apenas
o pavimento térreo” e com ruas que não possuíam calçamento. A fortaleza que deu
nome à vila consistia “num baluarte de areia ou terra, do lado do mar, e uma
paliçada, enterrada no solo, para o lado da Vila”, e o porto era “exposto e mau”.24
Mas na condição de engenheiro militar, as observações de Silva Paulet sobre
os aspectos das edificações do Ceará eram mais precisas e bem mais rigorosas.
Tendo percorrido boa parte do território, e num período de seca, pôde afirmar como
era “penozo viajar no verão: não se conhecem estalagens em todo esse paiz, e os
25
viajantes ordinariamente se agazalham no mato” . Em relação especificamente às
vilas, os dados apresentados pelo autor revelavam uma imagem de ruína ainda mais
devastada. No caso de Aracati, talvez a mais bem equipada da Capitania, tinha a
vila um porto “mui mesquinho”, formado “por bancos de areia movediça”;
dependências forenses tão escassas “que não dão para sustentar um advogado”. Já
Aquiraz, a vila mais antiga, estaria “inteiramente arruinada e sem commercio”, além
de não ter “caza de camara nem cadeia”. Sobre a Vila da Fortaleza, capital do
Ceará, o autor registrou que havia “uma caza de camara arruinada”, além de ser
pobre, ter um “commercio de pouco vulto” e um porto sofrível, assim como observou
Henry Koster.26

24
KOSTER, 2003, p. 172-173.
25
PAULET, 1898, p. 7.
26
Ibid., p. 14-16.
29

Na conclusão que Paulet fez em sua Descripção foi possível relacionar certos
apontamentos com outros que vimos anteriormente, acerca do potencial que teria
esta região, escritos pelo antigo governador Luiz Barba Alardo de Menezes.
Segundo o engenheiro, havia quem dissesse que o Ceará teria alguma “riqueza
ponderavel”, fato explicado pela natureza de certos homens “dados ao maravilhozo”,
querendo “sempre achar o grande, no terreno em que habitão, por estabelecimento,
ou em que são empregados”, como era o caso de Menezes. Para o autor, esta
Capitania se encontrava em tal ruína precisamente pela soma das “cauzas fisicas
que dificultão o adiantamento d’este terreno” como a sua má distribuição
administrativa27, que contava com “uma só comarca” – escondendo uma situação de
“pouca importância em relação á sua extensão e quantidade de villas” – além de um
“mal entendido sistema de distrito”.28
Mesmo tendo amenizado a precária situação em que vivia a região, as
observações acerca da desorganização político-administrativa do Ceará também
estavam presentes na Memória do ex-governador. Um dos grandes problemas
enfrentados pela Capitania, e que apareceu insistentemente em sua obra, foi o
insuficiente número de autoridades do judiciário na região. Para ele, o “termo da
Fortaleza só por si não é sufficiente para a necessaria subsistencia do juiz de fora
d’aquella villa”, e por outro lado, era “urgente a necessidade” da “capitania de mais
juizes de fora”.29 De acordo com Menezes, a violência e a impunidade que
grassavam estes sertões eram reflexos da má distribuição do poder imperial pelo
território:
[...] dando as justiças mutuamente as mãos e da mesma sorte a
tropa serião inviolavelmente observadas as leis, as autoridades
conservariam todas o seu devido decoro e respeito, os delinquentes
não ficariam impunes, os facinorosos que infestão as
desamparariam, desvaneciam-se as intrigas, e até os povos com
mais socego e tranquilidade, animariam a sua abandonada
agricultura e seu commercio amortecido. Finalmente multiplicar-se-
hião as villas á imitação das parochias, como é indispensavel em tão
vasta capitania para a civilização dos seus habitantes, aonde não
convem estejam dispersos, sem educação, nem religião, e do
mesmo modo [...] não devem estar apinhoadas em um tão pequeno
numero de villas, aonde se forjão, de ordinario, as maiores cabalas, e

27
PAULET, 1898, p. 30.
28
Ibid., p. 5-6.
29
MENEZES, 1997, p. 36-37.
30

escandalosos monopolios de refinado egoísmo, que só desejam para


si os empregos e as riquesas, e pisar os indigentes.30

Neste trecho do relato de Luiz Barba Alardo de Menezes, podemos visualizar


o grande número de males provindos do pouco alcance que tinha o poder real
naquelas paragens. O alto grau de delinquência e violência, a agricultura e o
comércio abandonados e amortecidos (mesmo com aumento em 1808, indicado
pelo mesmo autor), a dispersão e pouca civilização dos habitantes e, por fim, os
“escandalosos monopólios” dos potentados locais que “pisavam os indigentes”:
todos, frutos de uma presença que se fazia pouca – ou não se fazia – da justiça e do
próprio nome do rei de Portugal nos sertões do Ceará.
No entender de Silva Paulet, cujo relato também abordava questões ligadas à
criminalidade, tida como crônica no Ceará, esses problemas estariam ligados
também a uma característica dos costumes dos habitantes. Para o engenheiro, a
população da Capitania não poderia fazer grandes progressos pela soma de vários
fatores: por um lado, motivos ligados aos aspectos naturais da região, como as
“emigrações continuas, ocurrencia de sêcas” e o “padecimento de moléstias dahi
provindas”. Mas, além disso, era preciso levar-se em conta “a preguiça, [...] a
facilidade de se manter de furto de gados, a frequencia dos crimes de morte” e a
impunidade, causada também “pela indiferença com que os habitantes olham para
os crimes de morte e a prontidão com que acoitam e dão passagem aos
criminozos”.31 As fazendas, por exemplo, serviam apenas como “valhacouto a
vadios, que a título de criação de gados vivem sendo damninhos, e ladrões nas
fazendas vizinhas”.32
Em outro momento de seu texto, Paulet argumentou que era difícil superar os
desafios da natureza da região por conta das “circunstâncias moraes” de seus
habitantes, “dada a péssima educação popular que recebem, pouco amor ao luxo
bem entendido, nenhum horror ao crime, com que tanto se tem familiarizado, que é
ponto de honra e caprixo defender e acoitar o homicida”.33 Dessa forma, o autor
pinta um quadro daquele Ceará oitocentista, marcado não só pela violência, mas
também pela impunidade em que viviam os criminosos, somada também à “boa
convivência” que tinha com a população. Esse povo “pouco civilizado”, assim

30
MENEZES, 1997, p. 38.
31
PAULET, 1898, p. 13.
32
Ibid., p. 9.
33
Ibid., p. 30.
31

caracterizado por sua “indiferença ao crime”, por sua “preguiça” típica e pelo “pouco
amor ao luxo bem entendido”; ou seja, aos bens materiais, era acometido, na
verdade, por uma “péssima educação”. Mesmo levando seu argumento
principalmente para o aspecto “natural” do povo e do território cearense, o
engenheiro também percebe uma ausência do poder imperial, seja no âmbito da
permissividade – como revelava, segundo ele, a impunidade e a ascensão de
potentados nos sertões – como na falta de assistência à formação “moral” da
população.
Essa associação era ainda mais explícita no texto de Henry Koster, que, no
seu entender, era a desorganização no âmbito Judiciário a grande causadora dos
males ligados à violência da região. Para o autor, a administração da justiça no
sertão era “geralmente falando, muito mal distribuída”:

Muitos crimes obtêm impunidade mediante pagamento de uma soma


de dinheiro. Um inocente é punido se interessar a um rico fazendeiro
enquanto o assassino escapará se tiver a proteção de um patrão
poderoso. Essa situação é mais devida ao estado feudal nessas
paragens que à corrupção dos magistrados, muito inclinados a
cumprir seu dever, mas vêem a inutilidade dos esforços e a possível
gravidade para eles mesmos.34

Segundo Koster, a situação era tão grave que, mesmo os poucos


profissionais que trabalhavam como representantes do poder real tinham suas ações
limitadas pelo medo, causado pela presença incontestável dos poderosos donos
deste quase “estado feudal”. A verdadeira lei que existia era a que provinha dos
donos dessas terras, que estendiam seu poder até aos homens e inclusive aos
35
representantes da coroa.
Um dos exemplos relatados por Koster, e talvez um dos mais significativos do
“poder paralelo” de famílias dessa região, foi o dos Feitozas, donos de vastas terras
no sertão dos Inhamuns e também no Piauí. De acordo com o autor, um de seus
representantes, João Carlos Feitoza, acreditava estar

[...] inteiramente fora do alcance de qualquer castigo, recusando


obediência às leis, tanto civis como criminais, fossem quais fossem.
Vingavam pessoalmente as ofensas. Os indivíduos acusados eram
assassinados publicamente nas aldeias do interior. O pobre homem

34
KOSTER, 2003, p. 177.
35
O caráter centralizador e vigilante do governo Sampaio, que tentou combater fortemente o poder
dos potentados do sertão, será analisado nos capítulos 03 – tópico 3.1, p. 48 – e 04 – tópico 4.1, p.
113.
32

que recusasse obediência às suas ordens estava destinado ao


sacrifício e os ricos, que não pertencessem ao seu partido, eram
obrigados a tolerar em silêncio os fatos que desaprovavam. [...] Os
desertores eram bem recebidos por ele e os assassinos que haviam
cometido o crime vingando injúrias.36

Na ausência de algo que impedisse suas ações, João Carlos Feitoza, assim
como muitos outros poderosos nos sertões do Ceará, agia impunemente, impondo
sua própria vontade e inclusive punindo a seu modo àqueles que os
desobedecessem. Com o fortalecimento do poderio desses homens, e de igual
forma com o distanciamento do alcance do poder monárquico, surgiam formas de
fazer justiça que não se alinhavam com o que ordenava o Estado monárquico. Os
assassinatos, as brigas por poder e a cooptação de matadores protegidos por
grandes fazendeiros compunham, na visão dos cronistas que passaram pelo Ceará
do início do século XIX, um mosaico de ruína e decadência, juntamente com uma
economia insignificante e com uma crescente miséria em meio à maior parte da
população.
Ao analisar essas obras oitocentistas, foi possível visualizar uma região tão
grandemente desolada, em tantos aspectos, que se torna difícil o trabalho de
caracterizar as formas com que cada grupo social convivia com esses cotidianos de
penúria, seca, violência e morte. Até o estado de abandono das construções nas
vilas aqui trabalhadas – e de muitas outras não apresentadas neste trabalho –
também formam a imagem de um Ceará que, mesmo tendo passado por diversas
mudanças em suas práticas governamentais, ainda permanecia à margem do
Império. Na visão desses cronistas, as ruínas daquela terra, que vinham desde os
setecentos, ainda perduravam no século XIX.
Mesmo com tantos testemunhos de desolação, pudemos concluir que as
obras aqui analisadas não visaram apenas acentuar o estado calamitoso que, para
eles, vivia aquela periferia de Portugal. Ao registrar seus testemunhos do que viram,
com tão diferentes objetivos e pontos de vista, os autores estavam, acima de tudo,
também construindo diagnósticos próprios para as causas de tantas desordens
políticas, econômicas e sociais “nestas incivilizadas regiões.”37 Se, de acordo com
os cronistas, o Ceará estava indubitavelmente arruinado em tantos aspectos, uma

36
KOSTER, 2003, p. 184.
37
Ibid., p. 188.
33

entre tantas causas e explicações era de fato a mais fundamental: o abandono do


poder monárquico naqueles sertões, ou ainda, a ausência do próprio rei.
A falta sentida por esses autores não era a da presença física do monarca,
mas principalmente do exercício do poderio imperial representado por uma
administração organizada, por uma justiça vigilante e rigorosa, e de um governo que
desse uma real assistência tanto à produção econômica quanto ao povo que
padecia com a miséria e a fome. Tantos outros possíveis motivos também são
levantados nos textos que estudamos aqui, como as condições extremas da
natureza e a “falta de educação” daquele povo “incivilizado”. Todavia, os novos
rumos tomados pelos governos do Ceará desde o final do século XVIII – reflexo de
redirecionamentos a nível imperial – e que tiveram grande impulso no período em
que estas obras foram produzidas – no governo de Manuel Ignácio de Sampaio –
buscavam gerenciar de forma mais eficiente aqueles variados setores considerados
desassistidos. O próprio poderio dos potentados locais se explicava pela falta de um
governo que impusesse sua vontade e limitasse suas ações.
Esses novos direcionamentos governamentais para esta periferia portuguesa
apontam para uma situação em que, mesmo fazendo parte do Império lusitano e
estando dentro de seu território, não havia um governo de fato. Na visão da elite
político-intelectual, os danos avassaladores da seca e a “incivilidade” de sua
população não eram as verdadeiras explicações da situação calamitosa de violência,
impunidade, improdutividade e miséria. Ao contrário, esses elementos faziam parte
desta conjuntura de ruína em que vivia o sertão, justamente por ser tão distante –
não só geograficamente – do rei e de sua justiça.

2.2 A população indígena (1812 – 1820)

“[...] por natureza Indio por obrigação fiel Vaçallo de sua Alteza [...]”
Índio Pedro Gonçalo da Costa e Vasconcelos

2.2.1 Distribuição geográfica

A dispersão populacional entre os índios no Ceará da passagem do século


XVIII para o XIX, provocada pela institucionalização do Diretório dos Índios, tornou
bem difícil identificar, em termos quantitativos e geográficos, os grupos indígenas
que lá habitavam. Além disso, o fato de a documentação oitocentista ter deixado de
34

utilizar os etnônimos ancestrais dos grupos nativos constituiu-se como um obstáculo


a mais ao trabalho do pesquisador que visa analisar esses povos a partir de suas
organizações étnicas.38 Mas as aparentes obscuridades relativas a esta
documentação relevam a vasta quantidade de referências acerca da importância da
participação dos índios na formação social e econômica do Ceará.
De maneira geral, as principais localidades no início do século XIX com
significativa porcentagem dessa população eram os antigos aldeamentos religiosos
que, com a instituição do Diretório, passaram a ser comandados por leigos.
Formavam, ao todo, cinco vilas e três povoações de índios: Vila Viçosa Real (antiga
aldeia da Ibiapaba, atual município de Viçosa do Ceará), e povoação de Baepina
(atual município de Ibiapina), localizadas na Serra da Ibiapaba; Vila de Soure (antiga
aldeia da Caucaia e atual município de Caucaia), Vila de Arronches (antiga aldeia da
Parangaba e atual Bairro da Parangaba, em Fortaleza), Vila de Mecejana (antiga
aldeia da Paupina e atualmente bairro em Fortaleza), Vila de Monte-mor o Novo da
América (antiga aldeia da Palma e atual município de Baturité) e a povoação Monte-
mor o Velho da América (antiga aldeia do Paiacu e atual município de Pacajus),
todos estes localizados dentro ou próximo da atual região metropolitana de
Fortaleza; por fim, a povoação de Almofala (atual aldeia da etnia tremembé, no
município de Itarema), localizada no litoral Norte da Capitania.39 Observe-se a Figura
2, a seguir.

38
As atuais análises indigenistas a partir das etnias e troncos linguísticos têm como influência a
sistematização proposta por NIMUENDAJÚ, Curt. Mapa étno-histórico de Curt Nimuendajú. Rio de
Janeiro: IBGE / Fundação Cultural Pró-Memória, 1982.
39
Cf. MACHADO, José de Almeida. Notícia das freguesias do Ceará visitadas pelo P. e José de
Almeida Machado no annos de 1805 e 1806, extrahida d’um livro de Devassa que serviu na Visita. In:
Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza: tomo XVI, p. 191-205, 1902.
35

Figura 2 - Vilas e povoações de índio no Ceará – século XIX.

Fonte: Acervo do Autor.

Notemos que a maior parte destas localidades se encontrava nos arredores


da capital, a vila da Fortaleza. Tal observação é um dos indicadores que mostram a
grande necessidade desta mão de obra nativa para a economia da região,
principalmente com trabalhos de aluguel em propriedades agrícolas. Além dos
lugares que listamos, havia outras vilas e povoações com significativa presença
indígena, como Aquiraz, Maranguape, Santa Cruz de Uruburetama (atual município
de Itapajé), Parasinho (atualmente distrito de Granja) etc. Somava-se ainda a essa
população os grupos de “gentios” (índios não aldeados) que vagavam na região do
Cariri, nas fronteiras entre as capitanias da Paraíba e de Pernambuco, próximo às
36

vilas do Crato, Missão Velha e Jardim40, e o grande número de índios dispersos, ou


seja, que se encontravam fora de suas vilas de nascimento e, por isso, fora da
contabilidade populacional e de um controle mais minucioso por parte do governo.

2.2.2 Um olhar sobre as vilas e povoações de índios no Ceará

Se a imagem da Capitania, como vimos anteriormente, era de ruína, aos


olhos de viajantes e intelectuais, em se tratando das vilas de índios a situação
parecia ser ainda mais lastimosa. Além de pobres, tinham esses lugares, segundo o
engenheiro militar Silva Paulet, as piores condições em termos de edificações, e
suas economias eram tão insignificantes que seria melhor, para este autor, extingui-
las. Autores como o antigo governador Barba Alardo de Menezes e o padre José de
Almeida Machado, em seu relatório sobre as freguesias do Ceará em 1805 e 1806,
também confirmaram a extrema pobreza em que se encontravam essas localidades.
Descrevendo cada uma das vilas desta Capitania, Paulet também produziu
alguns comentários sobre as de índios. A Vila de Mecejana, segundo o autor, era tão
carente que “o escrivão serve quazi por favor, não tirando provisão do governo,
porque os emolumentos não lhe dão para pagar”. Das cinquenta e nove casas do
lugar, dezessete não tinham portas e quinze estavam “arruinadas”. Para ele “seria
melhor extinguir a denominação de villa e unir a povoação à villa da Fortaleza”.41 A
de Arronches tinha situação semelhante, já que a casa de câmara de cadeia não
tinha patrimônio, e o escrivão “corre a sorte do de Mecejana, porque o fôro é igual”.
E concluiu: a “villa está arruinada”, contendo vinte e cinco casas, e apenas treze “em
estado de habitação [...]. Seria melhor unil-a com a villa de Fortaleza”. Em Soure, a
situação se repetia, pois o “escrivão e o foro estão nas mesmas circunstâncias das
duas antecedentes, e a villa seria melhor extinguil-a”.42
Já Vila Viçosa Real não tinha nem “caza de camara, nem cadeia, nem
patrimônio o conselho, e nem se póde imaginar principios de que provenha, porque
não tem commercio algum”. Das cento e quarenta e oito casas da vila “a maior parte
estão arruinadas”, e os “negócios forenses n’esta villa, e o escrivão, pouca diferença
tem das outras villas de Indios”.43 E, por fim, Monte-mor o Novo, que à época era

40
Sobre os grupos de gentios que vagavam no sul da capitania, vide capítulo 05 – tópico 5.5, p. 243.
41
PAULET, 1898, p. 16.
42
Ibid., p. 18.
43
Ibid., p. 20-21.
37

“quazi toda habitada de extra-naturaes, nome que se dá a todo o que não é Indio”.
Mesmo assim, não tinha “caza de camara, nem cadeia, nem o conselho patrimônio”,
contendo “84 cazas muito arruinadas, muitas cobertas de palha, e muito
insignificantes”.44
Como vimos, era impossível à elite político-intelectual do Império pensar em
desenvolvimento para lugares como estes, onde nem mesmo equipamentos e renda
tinham para se manter e gerir. A situação das casas dos moradores era uma mostra
da grande necessidade na qual viviam os índios e outros habitantes dessas
povoações, cuja situação era bem pior que a de outras vilas. Além disso, suas
economias pareciam ser insignificantes e os rendimentos que possuíam mal davam
(ou não davam) para suprir as atividades de funcionários e do próprio funcionamento
das câmaras.
Sobre as vilas e povoações de índios, o ex-governador Barba Alardo de
Menezes também traçou algumas considerações, cujo teor não diferia muito da
Descripção de Paulet. Em Soure, disse que seus índios eram “muito pobres”;
Arronches tinha uma “soffrivel casa de camara”; e Mecejana se assemelharia a
essas outras em termos de precariedade, tendo em vista que as “rendas dos
conselhos destas trez villas são de pouca entidade”.45 Acerca desta última, o padre
José de Almeida Machado fez questão de frisar, em seu sucinto relatório produzido
a partir de suas visitas feitas às freguesias da Capitania, que a sua “Matriz situada
no meio da villa [...] está de todo arruinada em servidão”.46 O relato de Menezes
ainda continuou, e sobre Monte-mor o Novo falou de sua organização militar, tendo
“duas companhias de ordenanças a Cavallo tão somente, o que prova ainda a sua
decandencia”.47
Além das precárias situações de seus prédios públicos de governo, essas
últimas considerações acrescentam mais dados a esse quadro decadente de “ruína”
das vilas de índios. Os nativos, muito pobres, eram senhores de espaços tão
miseráveis e carentes que já nesse período estavam ameaçados de perderem sua
autonomia, com rendas de “pouca entidade”, igrejas “arruinadas” e companhias de
ordenanças “decadentes”.

44
PAULET, 1898, p. 29.
45
MENEZES, 1997, p. 42-43.
46
MACHADO, 1907, p. 199.
47
MENEZES, 1997, p. 45.
38

Nessas localidades, onde nem mesmo havia casa de câmara, cadeia pública
ou patrimônio que as sustentasse, imperava de forma mais acentuada, em
comparação com as outras vilas analisadas no início deste capítulo, os atos
arbitrários, o ingerenciamento político e a falta de execução das leis, já que não
possuíam sequer os equipamentos institucionais para tal. No entanto, os anseios
relativos ao desenvolvimento – que só seria possível, segundo os autores aqui
estudados, por meio de uma radical reforma administrativa – não partiam dos índios,
seus principais habitantes, e sim do português. Ao mesmo tempo, o próprio governo,
que percebia e nomeava essa “decadência”, não fornecia todos esses elementos
que possibilitariam a esperada renovação. Conforme mostra a historiografia que
trabalha a realidade indígena no Ceará do século XIX,48 a tendência em relação aos
projetos políticos indigenistas era, ao invés de executar uma reforma institucional
nas vilas de índios, extingui-las e vincular esses espaços a Fortaleza, como já havia
proposto Paulet no início dos oitocentos. Tais direcionamentos possibilitaram uma
crescente ocupação destas terras por parte da elite fundiária cearense e uma
consequente desapropriação, expulsão e perda dos grupos indígenas de seus
lugares ancestrais.

2.2.3 Relatos do cotidiano a partir da visão de Henry Koster

O comerciante anglo-lusitano Henry Koster produziu um dos mais ricos


relatos sobre os índios no Ceará do início do século XIX, com detalhes sobre seus
hábitos, costumes e cotidianos, a partir daquilo que viu ou ouviu falar sobre eles.
Mesmo sem uma cientificidade exacerbada, o texto do viajante partiu de um lugar
social específico,49 ao produzir uma imagem do índio que, como coloca Diego Paiva,
foi “construída a partir de referências que lhes são estrangeiros”, advindos de uma
Europa oitocentista e “vinculados a opiniões e interesses específicos”.50 Muitas (ou
todas) situações descritas partiram de uma ótica europeizada e profundamente

48
LEITE NETO, João. Índios e terras: Ceará: 1850 – 1880. Tese (Doutorado) ‒ Universidade
Federal de Pernambuco, Recife, 2006; VALLE, Carlos Guilherme Octaviano do. Aldeamentos
indígenas no Ceará do século XIX: revendo argumentos históricos sobre desaparecimento étnico. In:
PALITOT, Estevão Martins (Org.). Na mata do sabiá: contribuições sobre a presença indígena no
Ceará. Fortaleza: Secult / Museu do Ceará / Imopec, 2009; XAVIER, Maico Oliveira. “Cabôcullos
são os brancos”: dinâmicas das relações socioculturais dos índios do Termo da Vila Viçosa Real –
século XIX. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Ceará, 2010.
49
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 66.
50
PAIVA, Diego de Souza. Um espelho em construção: o índio na crônica de Jean de Léry (século
XVI). Natal: Sebo Vermelho, 2008. p. 95.
39

carregada de juízos negativos ou excêntricos, e nunca de uma visão de respeito


àqueles grupos ditos periféricos, mesmo quando o autor se esforçou em cobrir-se de
51
certa compreensão ou proximidade.
Passando pelas vilas de Arronches, Mecejana e “uma terceira outra, nas
vizinhanças, da qual esqueci o nome [provavelmnete, Soure]”,52 o viajante registrou
o dia a dia de uma população que, mesmo com algumas prerrogativas, vivia em uma
escala bastante inferior nesta sociedade. Desprezados até pelos afro-descendentes,
os mulatos se consideravam “superiores aos indígenas, e mesmo os negro-crioulos
os olham de alto a baixo”.53
Em se tratando da organização administrativa, Koster anotou que em cada
vila havia “dois Juízes Ordinários, com função anual. Um Juiz é branco 54 e o outro é
indígena, e é lógico supor que o primeiro tem, realmente, o comando”.55 Ou seja,
mesmo tendo direito a ocupar tal cargo, os índios ainda assim ficavam submetidos à
diferença social dos brancos.
Sobre os hábitos alimentares e familiares dos índios, os pontos descritos por
Koster mostram detalhes de um cotidiano ainda distante do ideal civilizado que a
elite política e intelectual almejava para aquela região. Percebemos que, em
diversos aspectos, os índios viviam com suas regras e práticas distintas do mundo
ocidental disciplinado, economicamente produtivo e com seus hábitos e
comportamentos sociais definidos. Em relação aos trabalhos agrícolas, por exemplo,
o autor colocou que o “indígena raramente planta para si, e, quando o faz,
dificilmente espera a colheita, vendendo o milho ou a mandioca pela metade do
preço”,56 revelando quão distinto era a visão de mundo destes povos quando

51
Retomaremos o estudo dos escritos de Koster para uma análise comparativa dos discursos sobre a
população indígena no Ceará no capítulo 05 – tópico 5.3, 208.
52
KOSTER, 2003, p. 175-176.
53
Ibid., p. 178.
54
Tal dado é contestável, já que a quantindade de brancos étnicos nesses sertões, cuja
ancestralidade não havia passado por misturas com elementos afrodescendentes e indígenas era
escassa. Como conta o próprio relato de Koster, os brancos eram, muitas vezes, mestiços –
geralmente pardos, ou recebendo qualquer outra denominação – que havia ascendido socialmente
pela posse de algum título político ou militar: “conversando numa ocasião com um homem de cor que
estava ao meu serviço, perguntei-lhe se certo capitão-mor era mulato. Respondeu-me: era, porém já
não é! E como lhe pedisse eu uma explicação, concluiu: pois senhor, um capitão-mor pode ser
mulato?”. Cf. Ibid., p. 598. Pelas próprias exigências legais do Império português, que “fixavam as
condições do homem branco”, criava-se o artifício que possibilitava o recrutamento de mestiços.
Logo, mais que um traço étnico, o branco era, muitas vezes, um identificador social. Cf. ELIAS,
Juliana Lopes. Militarização indígena na capitania de Pernambuco no século XVII: caso
Camarão. Tese (Doutorado) ‒ Universidade Federal de Pernambuco, 2005, p. 128.
55
KOSTER, 2003, p. 177.
56
Ibid., p. 177-178.
40

comparado com o europeu. Enquanto este mobilizava todo seu cabedal para gerar
riqueza e lucro, para o índio a riqueza não se relacionava com o valor pecuniário,
mas a outros elementos que significavam valores importantes a serem considerados
e buscados. “As ocupações favoritas são a caça e a pesca. Um largo rio pode
induzi-lo a ficar por mais tempo”,57 observação de um cotidiano em que o tempo era
percebido de maneira bastante diferenciada no mundo normativo, que entendia
esses costumes como característicos de vadiagem.
As diferenças também faziam parte de outros aspectos da vida dos índios,
como nos hábitos familiares e na alimentação, mostrando, da mesma forma, grande
incompreensão por parte do observador, fruto desta mesma perplexidade e
negação:
São vilmente impassíveis quanto à conduta de suas mulheres e
filhas. Parecem ter mediocrilmente os sentimentos afetivos, tendo
menos ânsia pela vida e bem-estar dos filhos que qualquer outro
homem morador nessa região. As mulheres, mesmo vivendo com
homens semibárbaros, não fazem trabalhos pesados. Enquanto a
mulher está em casa, ele busca água no rio e lenha no mato,
construindo sua cabana, ficando a esposa num refugio pelas
redondezas. Viajando, ela carrega os filhos pequeninos, o pote, o
cesto, as cabaças, enquanto o marido leva o saco de pele de cabra,
sua rede enrolada nos ombros, seu aparelho de pesca, suas armas,
e caminha atrás. A criança é banhada, no mesmo dia do nascimento,
no riacho ou no poço mais próximo. Homem e mulher são asseados
em muito de seus hábitos e, particularmente opostos. Não rejeitam
espécie alguma de alimento, devorando a maior parte sem cozinhar,
ratos, vermes, cobras, jacarés, tudo é bem vindo.58

Os pontos descritos por Koster, acerca da relação de um pai indígena com


suas famílias, são exemplares nessa falta de entendimento. Interesses, costumes e
prioridades diferentes eram tidos pelo autor como vil impassividade em relação à
conduta das mulheres (que não tinham o mesmo recato das ocidentais),
mediocridade afetiva ou até falta de ânsia pelo “bem estar dos filhos”. Porém,
mesmo admitindo um estado “semibárbaro” entre eles, percebeu uma diferenciação
em relação às tarefas diárias, nas quais a mulher não fazia “trabalhos pesados”.
Outro ponto importante deste trecho é em relação à higiene dos índios, que, mesmo
sendo “asseados em muito de seus hábitos”, não rejeitavam “espécie alguma de
alimento, devorando a maior parte sem cozinhar”.

57
KOSTER, 2003, p. 178.
58
Ibid., p. 178-179.
41

De acordo com o que foi descrito pelo viajante, tais costumes poderiam ser
interpretados pelos ocidentais desse período como frutos de uma índole inconstante.
Remetiam, porém, a práticas culturais anteriores aos contatos, em um universo
distante dos meios urbanos, das doenças europeias e com outras maneiras de gerir
os elementos que os rodeavam. Uma visão europeia, de um ocidente cujas
concepções de mundo estavam fortemente ligadas à disciplina cotidiana e à
civilização dos costumes, de cunho científico ou não – como era a de Koster – que
percebia estas ações e relações indígenas como um estado de “barbárie”, de um
povo que, mesmo colonizado havia séculos, não teria o seu processo civilizatório
concluído. Tal choque cultural expresso no relato, carregado de diferenças e
incompreensões, resultava daquilo que Norbert Elias caracterizou como uma
inferiorização do outro, por não conceber ou compreender as suas atitudes e
manifestações, e que, por isso, justificava a dominação ocidental sobre estes grupos
ameríndios, em sua missão de transformar estes povos, refinar suas maneiras e,
consequentemente, pacificar o Império.59
Os índios desse Ceará oitocentista, por outro lado, não eram a decorrência de
um processo civilizador mal-sucedido ou incompleto, mas agentes mestiços cujas
leituras do mundo lhes possibilitavam, de forma persistente, resistir culturalmente em
um mundo que lhes demandava mudanças cotidianas radicais, através da
permanência de hábitos cuja lógica remetia a tempos e vivências ancestrais. Não se
trata de defender uma utópica dicotomia entre um estado aculturado e uma pureza
original (já que esta não existia, nem mesmo no período pré-cabralino). Para
Boccara, é preciso analisar estes grupos enquanto protagonistas de uma lógica
mestiça que se inseria, a seu modo, no universo colonial – ao apropriar-se de seus
elementos, ao mesmo tempo em que resistia em suas próprias práticas cotidianas –
e que nunca se “civilizou” ou “disciplinou” da forma idealizada pelo colonizador.60
Em relação às características físicas dos índios, o autor traçou diversos
comentários relativos à estatura, cor de pele e cabelos, formato de membros etc.
Eram fortes, mas sem “muita robustez”,61 e possuidores de extrema destreza, “acima
dos outros viventes, para encontrar seu caminho através da floresta e chegar a lugar

59
ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1994. p. 62.
60
BOCCARA, Guillaume. Antropologia diacrónica. In: Nuevo Mundo Mundos Nuevos, 2005, p. 2.
Disponível em: <http://nuevomundo.revues.org>, p. 7.
61
KOSTER, 2003, p. 181.
42

certo sem marcas e estradas [...]. Encontram pegadas impressas nas folhas
murchas, tombadas das árvores”. Por conta dessas habilidades, os indígenas eram
requisitados em uma série de serviços pelas autoridades, como no caso da busca de
algum criminoso, quando os índios eram “enviados em sua perseguição como um
último recurso”.62
Outras atividades para as quais os nativos eram recrutados eram as de guias
e carregadores, pois estariam “exelentemente adaptados, pelos seus hábitos de vida
errante que essas ocupações exigiem”. Todavia, estavam, segundo o autor,

[...] comumente inclinados a trapaçar [...]. Jamais pude confiar por


muito tempo em sua presença no trabalho. [...] Quando tinha algum
serviço com tempo marcado para terminar, o meu feitor contava
sempre com os negros e mulatos, não incluindo na relação os índios
que serviam comigo, e quando lhes observava, respondiam: caboclo
é só para hoje, mostrando que não é possível ter-se confiança.63

Por mais que o contato e a dominação europeia já se fizessem havia mais de


150 anos no Ceará, a população indígena de então continuava a praticar e a manter
certas características do modo de vida de seus ancestrais. Mesmo que requisitados
a exercerem serviços dentro de uma lógica completamente diferente do universo
anterior à chegada dos portugueses, as noções relativas ao tempo e à urgência do
trabalho por parte dos índios ainda não estava dentro do idealizado pelo projeto
civilizador do Império. Este aparente “marasmo”, “indisciplina” ou “falta de
compromisso” por parte dos índios vinha de sua própria capacidade de resistir ao
mundo normativo onde eram forçados a viver. A sociedade disciplinar, que a elite
política portuguesa pretendia instalar no Ceará oitocentista, convivia constantemente
com a invenção cotidiana dos índios – e existia por conta dela – que se apropriavam
deste universo e resistiam a ele de diversas maneiras.
Por conta desse contexto, a população indígena no Ceará se encontrava no
centro dos dilemas em torno dos projetos de desenvolvimento da Capitania. Se, por
um lado, era – ou poderia ser – a maior força de trabalho dentre os grupos sociais
dessa região, estava longe de estar plenamente controlada e disciplinada pelo
governo. Por essa situação, a Capitania do Ceará foi a que por mais tempo se
utilizou do Diretório dos Índios como legislação base para gerenciar e controlar os
índios de seu território.

62
KOSTER, 2003, p. 179.
63
Ibid., p. 180-181.
43

2.2.4 A lei do trabalho: o Diretório dos Índios no Ceará do século XIX

Instituído por iniciativa do Marquês de Pombal em maio de 1757, o Diretório


marcou o fim do poder temporal dos religiosos – em sua maioria jesuítas – sobre os
índios no Brasil.64 Ao abolir e substituir o chamado Regimento das Missões, essa
nova legislação pretendeu agir de forma mais intensa na civilização dos povos
nativos e na sua consequente integração na sociedade portuguesa. Na busca de
acentuar as transformações culturais já intentadas pelos jesuítas, os novos
direcionamentos indigenistas entendiam que era preciso uma interação mais
profunda dos povos indígenas no meio social ocidental, algo que não seria possível
com o isolamento dos nativos nas aldeias e com o “monopólio” dos religiosos. Não
só o contato com brancos foi estimulado, como também os casamentos
interétnicos,65 além da obrigatoriedade da mudança dos nomes dos indivíduos e dos
grupos para o português.66
A determinação legal de ocidentalização das nomenclaturas estava
diretamente relacionada à negação cultural e identitária dos grupos indígenas por
parte do governo. Segundo Marcus Carvalho, o “interesse em distinguir as nações
por suas raízes étnicas perdera-se na primeira metade do século dezenove”, quando
os índios “passaram a ser identificados apenas pelo local onde estavam aldeados”. 67
Os nomes dos indivíduos, ao serem batizados em português, também eram
utilizados com o objetivo de diluir etnicamente esses povos, na busca de desvinculá-
los cada vez mais intensamente de suas manifestações e tradições ancestrais. Com
estas ações, se intentava sistematicamente absorvê-los enquanto súditos da coroa
lusitana, com o fim de misturá-los com a “massa geral da população”, mesmo que
em longo prazo. Do início ao fim do século XIX, podemos constatar alguns

64
Voltaremos a uma análise do Diretório, e do seu papel na política indigenista do governo Sampaio,
no capítulo 03 – tópico 3.3, p. 77.
65
Cf. DIRECTORIO, que se deve observar nas povoações dos indios do Pará, e Maranhão, Em
quanto sua Magestade naõ mandar o contrario. In: BEOZZO, José Oscar. Leis e regimentos das
missões: política indigenista no Brasil. São Paulo: Loyola, 1983, §80 e §88, p. 34-36.
66
Isso é claramente notado nos documentos oficiais do início do século XIX, onde os etnônimos
tribais desaparecem – como potiguaras ou paiacús – dando lugar às referências ligadas às vilas. Por
exemplo: “o índio de Soure”, “os índios de Monte-mor o Velho” etc. Cf. Ibid., §6, p. 3-4.
67
CARVALHO, Marcus J. M. de. Os índios e o Ciclo das Insurreições Liberais em Pernambuco (1817-
1848): Ideologias e Resistências. In: ALMEIDA, Luiz Sávio de. GALINDO, Marcos. Índios do
Nordeste: temas e problemas – III. Maceió: EDUFAL, 2002. p. 76.
44

resultados, mesmo que arbitrários e imprecisos, destas ações populacionais:


enquanto na contabilização de Barba Alardo de Menezes, de 1814, os índios
representariam menos 10% da população na Capitania cearense,68 os registros
eclesiásticos das localidades indígenas na Ibiapaba deixaram de referenciar a
denominação nativa em 1888.69
No campo administrativo, as aldeias foram elevadas a vilas – mesmo sem as
necessárias condições populacionais ou comerciais – e, no lugar da administração
dos missionários, surgiu a figura do diretor, responsável pelo controle dos
habitantes, pela boa convivência, pela prática dos “bons costumes” e da moral, e,
não menos importante, pelo incentivo ao trabalho e ao comércio.70
Desde a instituição do Diretório dos Índios, e o processo de laicização dos
espaços indígenas, o governo procurou, de forma mais intensa, regular a utilização
dessa população como mão de obra em diversos setores de produção e serviço. De
acordo com Koster, por mais que um diretor “possa dar, ocasionalmente, maus-
tratos ao indígena, essa raça não está escravizada. O índio não é obrigado a
trabalhar, para qualquer pessoa, sem o querer, como também não pode ser
vendido”.71 De fato, essa legislação reforçou a interdição da escravidão indígena –
inclusive proibindo a utilização do termo “negro” para referir-se a eles – e o incentivo
ao trabalho livre.72 Na análise de Beozzo, a partir do Diretório, o comércio seria o
“instrumento fundamental” da política portuguesa, com a contribuição da “expansão
agrícola para garanti-lo e municiá-lo”.73 Para Silva, trabalho e comércio eram
“matérias centrais” dessa legislação, na qual os “princípios do liberalismo comercial
estão explicitados, e é a partir deles que são estabelecidas as normas para o
desenvolvimento da atividade comercial”.74
Podemos concluir que, no entender do governo português, a atividade
comercial, baseada nos trabalhos agrícolas, agiria como um bem ao Império de duas
maneiras: desenvolveria a sua Colônia americana e traria a civilização aos índios.

68
MENEZES, 1997.
69
XAVIER, Maico Oliveira. Cabôcullos são os brancos: dinâmicas das relações socioculturais dos
índios do Termo da Vila Viçosa Real – século XIX. Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do
Ceará, 2010. p. 221.
70
Cf. DIRECTORIO, 1983, §02 e §01, p. 1-2.
71
KOSTER, 2003, p. 181.
72
Cf. DIRECTORIO, 1983, §10, p. 5.
73
BEOZZO, 1983, p. 126.
74
SILVA, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de Índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o
Diretório Pombalino. Campinas: Pontes, 2005. p. 82.
45

Seria pelo trabalho, com a devida remuneração e disciplina, que os nativos poderiam
sair definitivamente do gentilismo e ingressar no mundo ocidental como vassalos
dignos e fiéis. A história da política indigenista no Ceará colonial e joanino é um
exemplo da intensa associação do Diretório com o comércio, a agricultura, e a
tentativa de transformação dos nativos em mão de obra; isto é, ao tempo em que
estava “arruinada” em diversos aspectos – inclusive econômicos – esta Capitania
tinha forte presença de índios em sua composição social. Ou seja, a questão do
trabalho indígena era tão latente em território cearense que o Diretório foi utilizado
até meados do século XIX, enquanto, em nível imperial, foi revogado em 1798.
Por conta dessas necessidades comerciais e civilizatórias, este “liberalismo”
presente nos artigos desta legislação não instituiu plena liberdade para os índios.
Mesmo não podendo ser vendidos e tratados como escravos, os índios não estavam
isentos de coerção e maus-tratos por parte de diretores e proprietários. O Ceará do
início do século XIX continuou a usar da coerção sobre a força de trabalho indígena
para continuar sustentando sua incipiente economia através do aval do Diretório.
Mais do que um “vazio de legislação”,75 a aplicação das leis pombalinas nesta
Capitania se deu muito mais pela continuação da importância e necessidade da mão
de obra indígena. Para Patrícia Melo Sampaio, a extinção do Diretório nos possibilita
“observar a emergência de soluções alternativas (ou mais adequadas) às diferentes
realidades locais”, ao contrário de “reforçar a ideia de um ‘vácuo legal’”.76
Como desdobramento, a reação por parte dos índios também prosseguiu,
com as contínuas fugas e tentativas de saída das vilas e dos olhares dos diretores.
Tendo sido “prática bastante comum durante o período em que estiveram vigorando
as Leis do Diretório”, segundo João Leite Neto, a chamada “dispersão populacional”
pelo território representou, para muitos nativos, um dos meios de “livrarem-se da
submissão ao trabalho compulsório e ao cruel jugo das leis”, tidos pela elite política
do Império como “caminhos mais indicados para a consolidação do processo de
civilização entre esses povos”.77

75
CUNHA, Maria Manuela Ligeti Carneiro da. Política indigenista no século XIX. In: CUNHA, Maria
Manuela Ligeti Carneiro da (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1998,
p. 138; LEITE NETO, 2006, p. 99.
76
SAMPAIO, Patrícia Melo. Política indigenista no Brasil imperial. In: GRINBERG, Keila. SALLES,
Ricardo (Org.). O Brasil imperial, volume I: 1808-1831. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009,
p. 182-184.
77
LEITE NETO, 2006, p. 101.
46

Diante desse quadro geo-populacional, é complexo avaliar, mesmo que de


forma aproximada, qual seria a porcentagem de índios na população do Ceará
desse período. O mapa produzido por Lígio Maia, a partir dos apontamentos
presentes no relato de Barba Alardo de Menezes,78 por exemplo, mostra que a
população indígena no Ceará era de apenas 9,77% do total, bem inferior a
quantidade de pretos (18,62%) e mulatos (37,01%),79 em uma capitania onde a
“utilização do trabalho escravo [...] foi historicamente insignificante”.80
O cenário de enfraquecimento econômico, decadência em diversos outros
aspectos, necessidade de mão de obra, urgência em civilizar a população,
encaminharam os governadores do Ceará do início do século XIX – principalmente
Manuel Ignácio de Sampaio – a agir de forma intensiva com políticas de controle e
monitoramento dos habitantes, especialmente sobre os índios.81 Com grande e
imprecisa quantidade de nativos habitando fora de suas vilas e circulando pelos
sertões – com destaque para os grupos de “gentios” que vagavam nas fronteiras
com Pernambuco e Paraíba – as lideranças políticas procuraram, com fortes
influências das ideias iluministas, transformar este inóspito rincão do Império
português em um local adequado ao projeto explorador metropolitano.
Nestes projetos, a importância da população indígena foi marcante, e a
documentação oficial revela esse fato. A análise destes registros tornou possível
tecer a complexa rede que se entrançou durante o governo Sampaio no Ceará por
meio da política indigenista, em busca de fazer dos índios que lá habitavam súditos
disciplinados, que pudessem servir ao rei e desenvolver a Capitania por meio de sua
força de trabalho. Por outro lado, mesmo sendo diretamente afetados por este
tecido, os índios também foram seus artesãos, manipulando os elementos – novos e
antigos – que se desenhavam ao seu redor. Para Boccara, ainda que não pudessem
eleger livremente os elementos formadores de suas culturas e cotidianos, os grupos
nativos se utilizaram destes mesmos elementos, frutos da coerção legal e política,
para criarem espaços de negocição e reivindicação.82 As investidas do governo, em
suas idas e vindas, dependeram e se comportaram a partir das ações indígenas,
78
MENEZES, 1997.
79
Cf. MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba. De aldeia à vila de índios: vassalagem e
identidade no Ceará colonial – século XVIII. Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense,
2010. p. 385.
80
PINHEIRO, 2008, p. 200.
81
Uma análise mais detida sobre as práticas de monitoramento populacional, com destaque para os
índios, será feita no capítulo 04 – tópico 4.1, 113.
82
BOCCARA, 2005.
47

que manipularam, ao seu modo, aquilo que lhes era imposto em prol de seus
próprios interesses.83 Esta complexa história, de disciplina e invenções, foi feita
pelos choques, convivências e agregações de todos os lados, tanto do governo
quanto dos índios.

83
Sobre as leituras e inveções cotidianas dos índios, vide capítulo 05, 182.
48

3 CIVILIZAÇÃO: MANUEL IGNÁCIO DE SAMPAIO E UM PROJETO DE


ORDENAÇÃO DO CEARÁ

3.1 A disciplina nos sertões

Se a importância de uma pessoa para a história se revelasse com base em


uma rua homônima, poderíamos concluir que a passagem de Manuel Ignácio de
Sampaio pelo Ceará teria sido, se não irrelevante, quase imperceptível. Localizada
no Centro de Fortaleza, a Rua Governador Sampaio se esconde em meio a nomes
bem mais conhecidos, tais como: Floriano Peixoto, Conde D’Eu, Pinto Madeira ou
até mesmo Santos Dumont.

Figura 3 - Manuel Ignácio de Sampaio e Pina Freire.

Fonte: In: CHAGAS, Manuel Pinheiro. História de Portugal.


Popular e ilustrada. Lisboa: Empresa da História de Portugal
– Sociedade Editora. 1901. p. 281. v. 8.

Uma provável explicação para esse fato é que aquele militar português, que
governou o Ceará entre os anos de 1812 e 1820, foi uma das grandes forças que
49

contribuíram para o fim da chamada Revolução Pernambucana de 1817. Logo, para


a memória daqueles que pretendiam construir a história de um Brasil independente,
era muito mais edificante lembrar-se de nomes como Tristão Gonçalves ou Bárbara
de Alencar (que além de terem sido protagonistas dos movimentos de
independência no Ceará, no século XIX, deram nome a vias importantes da capital
cearense). Observe-se a Figura 4, a seguir.

Figura 4 - Rua Governador Sampaio, no centro de Fortaleza, com vista para


a Catedral da Sé.

Fonte: Disponível em: <www.tintaaoleo.wordpress.br>. Acesso em 21 jan. 2012.

Por sua vez, a memória do governador em questão permanece ainda hoje


desconhecida por muitos, e o esforço para o seu esquecimento vem de muito tempo.
Exemplo disso é o relato do então monsenhor Francisco Muniz Tavares, participante
dos conflitos em Pernambuco de 1817, e que, anos depois, escreveu a história
daquela revolução. Partidário das causas pela independência da região, lutou ao
lado dos revolucionários, e, posteriormente, dedicou-se a narrar a “sanguinolenta
luta” que, segundo ele, Pernambuco “sustentara contra huma das mais poderosas
nações maritimas da Europa, defendendo sua honra, seu território”.1 Em sua obra,
cita os embates que ocorreram no Ceará, e a forma como foi sufocado o movimento

1
TAVARES, Francisco Muniz. História da revolução de Pernambuco em 1817. 3. ed. ed. Recife:
Imprensa Industrial, 1917. p. 76.
50

pela independência que teve lugar na vila do Crato. Liderando o governo cearense
naquele momento, Tavares coloca-o como o grande responsável pela derrota, cuja
atividade teria redobrado “com a noticia da visinha conflagração”. De acordo com o
autor, mesmo sabendo que de nada precisava temer do povo desta capitania:

[...] seu espirito era sempre agitado, como são os que não obrão
rectamente. Hum pequeno traficante da Capital, só por ser
Pernambucano, era hum súbdito tão perigoso, quanto o ouvidor da
Commarca João Antônio de Carvalho [...]. Não tendo a sua
disposição força sufficiente para marchar contra as Provincias
insurgidas contentou-se de assegurar a que governava, exercitando
os poucos soldados, prescrevendo ordens severas a todos os
capitães mores, e desfigurando com as mais negras cores os actos
praticados em Pernambuco.2

Diferente do que pensava Francisco Muniz Tavares, supracitado, o autor


português Manuel Pinheiro Chagas caracterizou Manuel Ignácio de Sampaio em sua
História de Portugal como um “valente militar que tanto figurou nas luctas civis dos
primeiros annos do seculo passado”.3 Para Hugo Victor, em seu artigo sobre a
instalação de uma agência do Correio do Ceará – criado por Sampaio, cuja análise
será feita no capítulo 04, tópico 4.5 – em Parnaíba, no Piauí, o governador seria
possuidor de “larga visão de administrador” e de uma “rara operosidade”.4 Não é
nossa intenção confirmar as palavras de Tavares, para quem o governador em
questão teria sido uma espécie de tirano, muito menos colocá-lo na posição de herói
injustiçado pela historiografia. Para além da legitimidade de suas ações,
percebemos que, através da análise do extenso acervo documental deixado por ele
e presente no Arquivo Público do Estado do Ceará, Manuel Ignácio de Sampaio e
Pina Freire, futuro visconde de Lançada,5 teve participação fundamental no
desenvolvimento econômico e no ordenamento populacional desta capitania,
considerado, à época, um dos confins mais precários do Império português. Nas
palavras de João Alfredo Montenegro, Sampaio seria uma “pessoa de profundas
convicções absolutistas/monárquicas. Desde jovem já se apresentava austero,
amante da disciplina e da ordem”, características que ficaram marcadas tanto em

2
TAVARES, 1917, p. 141-142.
3
CHAGAS, Manuel Pinheiro. História de Portugal. Popular e ilustrada. Lisboa: Empresa da
História de Portugal – Sociedade Editora. 1901. p. 593. 8 v.
4
VICTOR, Hugo. O Correio em Parnaíba. In: Almanaque da Parnaíba. Parnaíba: 1947. p. 317.
5
ADMINISTRAÇÃO Manuel Ignácio de Sampaio (1º visconde de Lançada), Revista do Instituto do
Ceará, ano 30, Fortaleza, 1916. p. 201.
51

sua luta contra os revolucionários em 1817, como no seu projeto de civilizar o povo
do Ceará.6
São exemplos de realizações do governador as obras de engenharia
importantes lideradas pelo engenheiro Silva Paulet, como a construção do Mercado
Público e a reforma da Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção,7 que, até então,
era apenas uma paliçada de madeira, enquanto as outras fortificações nas capitais
no Nordeste do Brasil já eram de pedra e cal. Também por iniciativa do engenheiro,
foi produzido um extenso acervo cartográfico durante esse mandato, como as
plantas da Vila da Fortaleza – com o esquadrinhamento das ruas – e da topografia
da capitania do Ceará. Observe-se a Figura 5, a seguir.

Figura 5 - PAULET, Antônio Jozé da Silva. “Planta do Porto, e Villa da


Fortaleza”. Detalhe da Carta da Capitania do Ceará e costa
correspondente levantada por ordem do Governador Manoel Ignácio de
Sampaio; pelo seu ajudante de ordens Antonio José da Silva Paulet no
anno de 1813.

Fonte: Mapoteca do Itamarati. Apud. NETO, Clóvis Ramiro Jucá. A urbanização do


Ceará Setecentista. As vilas de Nossa Senhora da Expectação do Icó e de Santa
Cruz do Aracati. Tese (doutorado) – Universidade Federal da Bahia, 2007.

Silva Paulet deu continuidade à criação de instrumentos cartográficos que


poderiam contribuir para ampliar o acervo geopolítico de Sampaio com o
6
MONTENEGRO, João Alfredo de Souza. O trono e o altar: as vicissitudes do tradicionalismo no
Ceará (1817-1978). Fortaleza: BNB, 1992. p. 22.
7
ADMINISTRAÇÃO Manuel Ignácio de Sampaio, 1916, p. 202.
52

levantamento da carta marítima e geográfica da capitania do Ceará (Figura 6), bem


como de uma ampla carta sobre o mesmo território, com detalhes do relevo (Figura
7).

Figura 6 - PAULET, Antônio José da Silva. CARTA Maritima, e Geographica da


capitania do Ceará. Levantada por ordem do Gov. Manuel Ign. De Sampayo, por seu
ajudante d’ordens Antonio Joze da S.a Paulet, 1817.

Fonte: Gabinete de Estudos Arqueológicos e de Engenharia Militar, 4578 1A-10A-


53. Apud. GOMES, José Eudes Arrais Barroso. As milícias d’El Rey: tropas
militares e poder no Ceará setecentista. Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade
Federal Fluminense, 2009.

Segundo Pinheiro, no âmbito econômico, o governo Sampaio teria sido


“aquele em que a economia algodoeira atingiu seu auge”, acompanhado de forma
inseparável “por um forte processo repressivo, principalmente sobre os povos
53

indígenas”.8 Foi possível perceber que, juntamente com seu projeto que visava
impulsionar a produção, foi traçado pelo governador um plano de controle,
disciplinamento e civilização da população do Ceará, que, além de manter hábitos
“bárbaros” para os conceitos ocidentais – como a dispersão populacional – seria
extremamente violenta, praticamente independente do gerenciamento real e a causa
do atraso desta capitania.

Figura 7 - CARTA da Capitania do Ceará levantada por ordem do Governador Manoel


Ignácio de Sampaio por seu ajudante e ordens Antonio José da S. Paulet (com
detalhes do relevo), 1818.

Fonte: Fundação Biblioteca Nacional, acervo cartográfico do Arquivo Real Militar.

8
PINHEIRO, Francisco José. Notas sobre a formação social do Ceará: 1680-1820. Fortaleza:
Fundação Ana Lima, 2008. p. 319.
54

Por meio da análise da documentação produzida por Sampaio, objetivamos


mapear as áreas de atuação dessa política civilizatória desenvolvida pelo
governador, e perceber de que maneira se construíram tais práticas disciplinares no
Ceará, considerado pela elite política um dos confins mais periféricos do Império
português.

3.1.1 Controle populacional

Um lugar sem lei, sem marcos no chão. Terra de vagabundos e ladrões,


tendo uma sociedade marcada pela constante presença da violência convivendo
com a debilidade das instituições policiais e judiciárias. Esse pareceu ser o quadro
social do Ceará que Manoel Ignácio de Sampaio visualizou em 1812, quando
assumiu o governo da Capitania. Além dele próprio, os viajantes que aí estiveram na
primeira metade do século XIX expressaram comumente em seus relatos
impressões como essas diante da situação social que encontravam: um sertão
“brabo” em pleno solo do reino de Portugal, e que, por isso mesmo, precisava ser
transformado. Como exemplo, basta lembrarmo-nos da “Memória sobre a Capitania
do Ceará”, de João da Silva Feijó, em que procurou passar de modo detalhado suas
principais observações sobre diversos aspectos – naturais e sociais – da referida
capitania. De acordo com o autor, a terra em si seria bastante promissora, sendo
“necessario ter muito pouco conhecimento do fizico da Capitania do Ceará para
duvidar das immensas vantagens que Ella pode produzir” 9; logo, o problema estaria
na sua composição social. Formada de uma “desfalecida população”, era “de maior
parte de pessima qualidade”, 10 inviabilizando seu desenvolvimento.
Na visão desses membros das elites políticas e intelectuais, o povo desses
sertões do Brasil estaria completamente fora de seus ideais civilizatórios,
imprescindíveis para a glória do Império. Logo, a construção dessa imagem do
Ceará, enquanto um lugar ermo, violento e habitado por uma gente “bárbara”,
nasceu do discurso fruto de uma concepção ocidental disciplinar, na qual boa parte
da população da capitania – índios, negros, mestiços e até mesmo as elites brancas
locais – não estava enquadrada.

9
FEIJÓ, João da Silva. Memória escrita sobre a capitania do Ceará. In: Revista do Instituto do
Ceará. Fortaleza, tomo III, p. 3-27, 1889, p. 3.
10
Ibid., p. 22.
55

Percebemos que a população da capitania, “hum Povo ainda pouco civilisado”


nas palavras de Sampaio,11 passou a ser motivo de forte preocupação do governo. A
confecção de mapas populacionais em cada vila, a renovação da “política de
passaportes” – que permitia o deslocamento de um indivíduo para fora da capitania,
ou mesmo de sua vila, somente através de autorização, em cuja análise nos
concentraremos no capítulo 04, tópico 4.1 – o crescimento dos recrutamentos em
companhias locais de ordenanças12 e a chamada “caça à vadiagem” são exemplos
de ações governamentais desenvolvidas naquele período que tinham como objetivo
acabar com o já citado problema da dispersão populacional. Aquela situação
combatida pelos governantes teria como decorrência não só o atraso econômico,
mas também a proliferação de costumes tidos como bárbaros e poucos civilizados.
Ou seja, era somente por meio de uma constante vigilância, e do recrudescimento
das práticas disciplinares, que a população poderia ser gerida, controlada e
civilizada. Em um ofício dirigido ao comandante do destacamento de Sobral em abril
de 1814, por exemplo, o governador ordenou que se em sua “ronda tornar a prender
alguns pretos q’ estejão em batuques, será bom insinuar a os Senhores q’ lhes dem
algum castigo publico”,13 demonstrando a sua preocupação em acabar com certos
costumes “bárbaros”, como os batuques, e ainda em expor as punições dos
culpados, com o objetivo de servir de exemplo a outras pessoas.
Os choques entre as pretensões do governo e as reações da população
diante de seus projetos se deram em vários setores da sociedade, inclusive com a
elite econômica. Pudemos encontrar alguns registros nos documentos relativos à
instalação do chamado Correio do Norte do Brasil. 14 Esta “ferramenta sistemática de
comunicação”, “fundamental para a fluidez de relações comerciais entre as vilas do
Ceará e mesmo entre outras capitanias”,15 não teria sido bem recebida inicialmente
por eles. Em carta encaminhada ao Chanceler do Maranhão, acerca da criação de
uma agência dos Correios nesta capitania, Sampaio o alertava, dizendo estar certo

11
Abril 15. Registro de hum officio dirigido ao Ex. mo Sn’ Dom Miguel Pereira Forjaz [...] pedindo-lhe
socorros. In: Livro 23, p. 124v.
12
Sobre recrutamento indígena, vide capítulo 04 – tópico 4.3.
13
Abril 30. Rego do officio ao Teme Comde do destacamto do Sobral, dando varias ordens sobre o mmo
destacamto. In: Livro 34, p. 183. Grifo nosso.
14
Vide capítulo 04 – tópico 4.5, p. 160.
15
COSTA, João Paulo Peixoto. Os filhinhos do governador: o “Correio do Norte do Brasil” e os índios
correio no Ceará (1812-1820), Anais do Congresso internacional de história e patrimônio cultural /
Encontro regional de história do Piauí, Simpósio 16: “Memória, sociedade e movimentos sociais”,
Teresina, Educar: Artes e Ofícios, 2010. p. 1.
56

de que, nos “primeiros seis ou oito meses”, o funcionamento dos Correios “poderá
ter algûas irregularidades, porque os Povos do sertão não gostam de novidades,
como succedeo daqui até Pernambuco”.16 Percebemos não só a dificuldade da
população sertaneja em aderir a certos projetos modernizadores, como também uma
visão de menosprezo do governador perante dos habitantes do Ceará.
Diante dessa situação de atraso social no olhar do governador Sampaio, as
atitudes relativas ao controle e monitoramento da população passaram a ter uma
preocupação especial, não somente em relação aos habitantes que pretendiam
circular dentro ou fora do território, mas também àqueles que chegavam de outros
lugares. Isso ficou marcante durante os conflitos em Pernambuco de 1817, já que o
medo de que aquele povo “pouco civilizado” aderisse às ideias revolucionárias fez
com que o monitoramento recrudescesse ainda mais, como nos diz os escritos já
citados de Muniz Tavares. Outro exemplo daquele controle minucioso em relação às
pessoas que circulavam no Ceará – sejam eles viajantes, mercadores, sejam de
qualquer outra atividade – e do receio em relação às suas ações, está registrado no
ofício expedido ao escrivão de Granja em setembro de 1818, sobre a chegada de
um frei franciscano na capitania:

Na Sumaca Estrella do Norte foi para essa Villa hum Religioso da Ordem de
Sto Antonio por nome Fr. Alexandre dotado de grandes talentos e que
apesar de trazer todos os seus papeis Correntes, e mui claros he de grande
disconfiança. Ordeno portanto a vme que com o seu Costumado Criterio
haja de Observar attentamente todas as acções do dito Religioso assim
como tambem as opiniões, e ideias que elle publicar dando-me de tudo
parte a fim de eu poder providenciar, e evitar a tempo qualquer funesto
acontecimento.17

Observemos que, mesmo portando os documentos necessários em ordem, e


de forma clara, esse frade despertou grande desconfiança por parte do governador,
ainda mais por ser “dotado de grandes talentos”, cuja natureza é difícil saber.
Podemos supor que, pela proximidade temporal dos conflitos em Pernambuco – que
ocorreram um ano antes e com fortes envolvimentos de religiosos 18 – sua presença
tenha provocado em Sampaio a preocupação em se monitorar não só suas ações,
16
Setembro 17. Registo de hûa carta dirigida ao Chanceller do Maranhão, agradecendo-lhe ter
concorrido pa o =convenio= do General, em quanto a ampliação do Correio, e sobre mais objectos do
mesmo Correio. In: Livro 23, p. 63V.
17 mor a
Setembro 15. Officio ao Escr da Granja Jose de Almeida Fortuna p Observar os passos de 1
Frade q’ ahi chegou. In: Livro 28, p. 103. Grifos nossos.
18
Acerca da participação de religiosos durante a Insurreição Pernambucana de 1817, vide:
SIQUEIRA, Antonio Jorge de. Os Padres e a Teologia da Ilustração: Pernambuco – 1817. Recife:
Ed. Universitária da UFPE, 2009.
57

mas também opiniões e ideias, que, dependendo do conteúdo, poderiam causar


algum “funesto acontecimento”, como, por exemplo, a renovação dos ideais
revolucionários.
Conforme expusemos anteriormente, essas práticas de controle populacional,
tanto em seus deslocamentos como em seus cotidianos, sempre estiveram
acompanhadas de intenções relativas ao crescimento econômico e à civilização dos
habitantes. Para ilustrar este quadro, apresentamos como exemplo a ordenação das
atividades de pesca marítima na Prainha, em Fortaleza, que mandou executar logo
no seu primeiro ano de governo, em 1812. Para tanto, além de instituir uma
autoridade militar sob a qual os pescadores deveriam obediência, tratou no seu
ofício de abril daquele ano, enviado ao ajudante de milícias da capital, sobre
questões relativas ao comércio de pescados. Colocou Agostinho Cardozo Batalha
como comandante e Antonio Raimundo no posto de cabo, cujas obrigações seriam a
de “vigiar sobre o trabalho de todos os Pescadores da Prainha, e obrigalos a ir ao
mar todos os dias que o tempo permitir”, atividade esta que seria “em utilidade, tanto
dos habitantes desta Villa como dos mesmos Pescadores”. Caso houvesse
desobediência ou desrespeito por parte dos pescadores, estes deveriam ser
severamente castigados, já que as ordens do comandante e do cabo deveriam ser
executadas “como se ellas emanassem propriamente da minha boca”.
Por fim, disse ainda que criaria uma casa que serviria de praça para a venda
e compra dos peixes, tentando por essa maneira deixar os trabalhadores “livres dos
atravessadores que se locupletão [enriquecem] a custa do suor, e fadiga dos
mesmos Pescadores”, como também de “roubos, e desordens a que estavão
sujeitos vendendo o peixe em confuzão no meio da Praia”.
Pudemos observar, nessa ocasião, que interesses econômicos estavam
vinculados ao ordenamento do trabalho e dos costumes daqueles pescadores. Se
antigamente vendiam seus peixes de forma desordenada, na praia, agora passariam
a trabalhar em uma casa adequada à atividade, livres de atravessadores e roubos.
Para que isso acontecesse, a vigilância constante se fazia necessária, não só para
que trabalhassem de forma regular e disciplinada, mas também para garantir o
abastecimento de Fortaleza e dos próprios pescadores. No entender de Sampaio, o
controle das autoridades, a obediência desses subordinados, e as ameaças de
castigos para os rebeldes, agindo de forma combinada, seriam atitudes
extremamente vantajosas até para os pescadores. Tanto que, para o governador,
58

aqueles que infringissem a lei estariam “esquecidos dos seus próprios interesses”.19
A disciplina, e todas as práticas relacionadas a essa forma de governo e poder
seriam o caminho para a civilização do Ceará, e isso é visível neste exemplo de
ordenamento do trabalho.

3.1.2 Centralização das decisões e o controle das punições

A centralização das decisões políticas e a retomada do poder sobre o


gerenciamento populacional foram ações fundamentais e constantes para a política
de Sampaio no controle dos habitantes. De acordo com José Eudes Gomes, os
potentados nos sertões acabaram se desenvolvendo praticamente independentes
dos governos da capitania, seja em termos de decisões seja no sentido da
subordinação às ordens superiores.20 Ao confrontar essa realidade, encontramos
nas fontes registros variados de repreensões do governador dirigidas a autoridades
locais que não respeitavam tal hierarquia, ou agiam de forma autônoma. Em julho de
1813, Sampaio escreveu ao capitão-mor do Icó, recriminando a atitude do tenente
Ferreira, que “Seguindo talves hum Antigo costume que aqui havia de todos darem
Ordens com nome do Governador lembrouse de escrever a VMe como se fosse meu
Ajudante d’Ordens”, indo dessa maneira “contra o Sistema geral do meu Governo”.21
Em um ambiente onde seria costumeiro produzir documentos oficiais sem a
autorização devida, e ainda usando o nome do governador, pode-se deduzir a falta
de controle político e o pouco alcance de certas decisões centrais. Era impossível
administrar de forma satisfatória o povo sem que houvesse a subordinação das
autoridades locais em relação à hierarquia e às ordens governamentais. De acordo
com os registros, observamos que essa situação foi atacada firmemente pela ação
de Sampaio. Em dezembro de 1813, o governador recriminou o coronel de Cavalaria
Miliciana de Sobral por este não ter obedecido a sua ordem sobre o “fornecimento
de Soldados para guarnecerem os quatro Presidios da Costa do Termo dessa Villa”
nos meses de fevereiro, maio, agosto e novembro em todos os anos, e ainda
mandou castigar outros militares culpados pela ausência de homens nas guarnições
19
Abril 27. Registo de hûa Ordem dirigida ao Ajudante de Milicias Francisco Xavier da Camera para a
fazer publicar aos Pescadores da Prainha desta Villa. In: Livro 26, p. 6.
20
GOMES, José Eudes Arrais Barroso. Um escandaloso theatro de horrores: a capitania do Ceará
sob o espectro da violência (século XVIII). Monografia (Bacharelado) ‒ Universidade Federal do
Ceará, 2006, p. 29 e 30.
21
Julho 6. Registo de hum Officio ao Capmor do Ico com Resposta ao seu Offo de 26 de Março sobre o
castigo q’ deu ao preso Escro de Joaqm Jose de Carvalho. In: Livro 17, p. 102.
59

de Itapajé e Almofala “cada hum conforme a sua graduação e a proporção de sua


culpa de que me dará parte”.22
No caso das decisões que demonstrassem fidelidade e respeito à ordem
central, elas não deixavam de ser parabenizadas pelo governador. No mês de julho
do ano anterior, Sampaio escreveu ao agente do recém-criado Correio do Norte do
Brasil no Aracati, dizendo-lhe que fazia “muito bem em não alterar em coisa algûa o
arranjo do estabelecimento do Correio, só pelo dito de algûas pessoas”.23 No mesmo
mês, com conteúdo semelhante, expediu ofício ao agente do Icó, insistindo-lhe que,
“apesar do melindre do seu Capitam Mor não deve VMce por motivo nenhum alterar
o que determinão as instruções que lhe tenho dado para o arranjo do Correio”.24
Notemos a difícil situação em que se encontrava o responsável pelo correio: se de
um lado tinha uma instrução do governador, do outro havia as sugestões da
autoridade local, mostrando o quanto era comum o poder de mando desses militares
espalhados pelo sertão.
A força desses capitães-mores em suas vilas também se expressava na sua
liberdade em punir, da forma que bem entendessem, qualquer pessoa que
infringisse suas próprias leis, sem que, para isso, precisassem pedir autorização do
governador. Esse costume também foi combatido por Sampaio, que pretendia
centralizar todas as decisões nesse sentido, fosse do âmbito militar ou não. Em
novembro de 1813, escreveu ao diretor da vila de índios de Monte-Mor Velho,
dizendo-lhe que “fes muito bem em não mandar castigar com palmatoada os tres
Indios Pai, filho, e genro que maltrataram outro Indio tambem dessa Direcção”.25 No
mês seguinte, mandou ao comandante de Sobral que repreendesse “mui
Asperamente” ao comandante da Barra do Acaracu (atual Acaraú) “por ter
levantando tronco sem Ordem minha”, e disse ainda que “não deve por motivo
nenhum Conservar presos no tronco [...] mas unicamente mandalos para Cadeia
dessa Villa”.26

22
Dezembro 29. Rego do Officio ao Corel de Cavallaria do Sobral a respto dos Presidios no mmo
espreçados. In: Livro 34, p. 130V.
23
Julho 16. Rego de hum Officio dirigido ao Agente do Aracati Manoel Joze Rebello. In: Livro 26, p.
84.
24
Julho 27. Registo de hum Officio dirigido a Manoel do Espirito Santo da Paz, Agente do Correio da
Villa do Icó. In: Ibid., p. 88V.
25
Novembro 16. Registo de hum Officio ao Director de Monte Mor o Velho p a remetter huns Indios
presos pa esta Capal. In: Livro 18, p. 6V. Grifos nossos.
26
Desembro 15. Registo de hum Officio ao mmo Sargmor Commde Sobre Varios Objectos. In: Ibid., p.
29. Grifo nosso.
60

Já em janeiro do ano posterior, compondo suas ações que buscavam impor


entre as autoridades locais o respeito à hierarquia e aos deveres militares, Sampaio
agiu em defesa de um soldado, Manuel Joaquim Estremos, que havia se queixado
do capitão-mor Antônio Francisco da Silva. Para isso, escreveu um ofício ao coronel
do Regimento da Infantaria Miliciana do Ceará e Jaguaribe, Pedro José da Costa
Barros, e relatou que, além do dito capitão ter passado uma ordem ao soldado que
estava fora de sua escala de serviços, teria o “ultrajado [...] com palavras picantes e
desattenciozas improprias do capricho e honra Militar”, como também tentado “dar
no Supe com hum pau (tendo previamte pa este fim fechado a porta da sua Caza)”, e
ainda tê-lo “prendido a minha ordem não contente com aquelles desatinos”. Diante
disso, o governador passou ao coronel Costa Barros as seguintes instruções:

Ordeno a VSa, que [...] na prezença de todos reprehenda o sobredito


Capm Antonio Franco da Silva pr tudo quanto praticou com o
mencionado Soldado Manoel Joaq m Estremos, [...] fazendo ver ao
mmo Capm ter faltado essencialmte á disciplina Militar, q’ assim como
estabelece a mais rigorosa subordinação aos Superiores, prohibe
igualmte a estes o uso de palavras injuriozas, e de todo o procedim to
q’ for indecorozo aos inferiores, e q’ só tenderia a diminuir [?] o brio e
capricho Militar [...]. O m mo Sargto Mór fará conhecer ao mencionado
Capmor, assim como tambem aos outros Officiaes [...] q’ [...] nenhum
Official de Milicias desta Capitania poderá castigar os off es de
Patente, offes Inferiores e Soldados que lhes forem subordinados se
não fazendo-os recolher as Cadeias publicas presos a minha Ordem,
ou do seu respectivo Coronel, e dando immediatam te parte desta
prizão...27

Em nome desse brio e capricho militar, Sampaio expediu essa ordem que nos
ofereceu muitos elementos para a análise de sua política de controle e
disciplinamento da população e dos variados setores desta sociedade. Percebemos
que estas ações autoritárias do capitão-mor – assim como a do comandante da
Barra do Acaracu, citado anteriormente – espelharam algo que deveria ser tendência
na região: a liberdade de ação dessas lideranças e a forma truculenta de lidar com
seus subordinados. Ao reforçar mais uma vez suas tentativas de centralizar as
decisões, o governador ordenou que a punição não fosse feita com agressão física –
tanto através de uma paulada ou com a utilização do tronco – mas apenas com a
prisão, e somente com a sua ordem. Podemos ver que, dessa forma, a punição “não

27
Janro 5. Rego do Offo ao Coronel de Infanta Miliciana do Ceará e Jagoaribe sobre serto objecto
relativo ao Capm Anto Franco da Sa. In: Livro 34, p. 142. Grifos nossos.
61

visa [...] exatamente a repressão”;28 o castigo que devia ser imposto “tem a função
de reduzir os desvios. Deve, portanto, ser essencialmente corretivo”.29
Já que a punição continha um intuito disciplinar, que visava a formação do
desviante, e não apenas o castigo por ele mesmo, as atitudes de Sampaio neste
sentido tinham também certa flexibilidade, dependendo da situação. Exemplo disso
está registrado em ofício dirigido ao capitão-mor do Icó, por ocasião da seca que
assolava o Ceará em 1816. Segundo o governador, pelos estragos que as
condições climáticas tinham causado, “tanto no termo dessa Villa como em todo o
resto da Capitania”, os furtos seriam “huma consequencia necessaria desta
Calamidade publica”. Por isso, “á vista das Circunstancias do Certão”, não seria
“possivel reprimilos nesta estação se não em mui pequena parte, alias correr-se-hia
o risco de augmentar a Calamidade em lugar de diminuir”. Dessa forma, só se
poderia “punir esses crimes com a moderação e prudencia necessarias”, mas em
relação a qualquer indivíduo que se aproveitasse da “presente Calamidade publica
para dar livre exercicio ao Antigo e arreigado vicio de se appropriar os bens alheios,
o mandará prender”.30 Encontramos um bom exemplo de exceção, em que a
punição a um crime evidente, que era o furto, deveria ser avaliada pela autoridade
por conta da situação calamitosa na qual se encontrava o Ceará. Era preciso, na
opinião do governador, moderação e bom senso no tratamento desses episódios,
além de discernimento para concluir se se tratava de uma consequência do
desespero diante da seca ou de mais um caso do que ele chama de “antigo e
arraigado vício” da população, que era a prática do roubo (outro costume dos
sertões que, para a elite político-intelectual da época, precisava ser combatido).
Mesmo assim, a busca de Sampaio em ir de encontro aos autoritarismos dos
potentados locais continuou até o fim de seu mandato, e já em fevereiro de 1819,
escreveu um ofício a Jerônimo José Figueira de Melo, condenando suas
irregularidades. Diz que, se o antigo governador João Carlos Augusto de Oyenhasen
o tivesse castigado como deveria, ele não teria “a ousadia de pertender desacretidar
as authoridades constituídas”, além de ter sido, segundo consta em documentos
antigos, “hum dos maiores Regulos no Certão comettendo delitos sobre delitos e
abusando constantemente da authoridade temporária dos empregos que exerceo”.

28
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão, 34. ed. Petrópolis, Vozes, 2007. p. 152.
29
Ibid., p. 150.
30
Outubro 9. Officio ao Capmor do Ico accuzando huns Officios, e Outros Objectos. In: Livro 21, p.
42V.
62

Nesse momento, o seu crime teria sido conseguir ser eleito como juiz de órfãos de
sua vila “tão somente por suborno, e outros indignos meios”, e diante desta situação,
o governador o ameaçou: “eu jamais deixarei de faser punir com a justa e rigorosa
severidade das Leis se VMce não deixar de dar uso ao seu genio revoltoso”. 31
Ao buscar subordinar esses potentados locais à hierarquia instituída no reino,
Sampaio não pretendeu apenas centralizar o poder por si só, mas fazer com que ele
funcionasse de forma mais ordenada e regular nos variados setores desta
sociedade, ou seja, construir uma “vigilância penal mais atenta do corpo social”.32
Somente submetendo essas autoridades, o governador teria condições de gerir a
população de forma mais eficaz, pois, caso contrário, seria impossível que suas
ações tivessem o alcance desejado, e muito menos que a tão necessária civilização
do povo fosse realizada, já que este estaria submisso diante das vontades de
capitães-mores e de outros poderosos, que nem sempre estavam engajados nesse
projeto.
Quando pensamos nas práticas punitivas, elas se mostravam como
exemplares para pensarmos nesse sentido: práticas como pauladas e açoite público
no tronco pareciam ser, de certa forma, comuns naquela região, e feitas de formas
independentes e arbitrárias. A disciplina pretendida por Sampaio também
encontrava lugar em uma “nova ‘economia política’ do poder de punir”, que buscava
“assegurar uma melhor distribuição dele”, fazendo com que não ficasse
“concentrado demais em alguns pontos privilegiados”, e sim executado de forma
mais inteligente e homogênea. Essa nova tomada de rumo se configurou como um
“remanejamento do poder de punir, mais eficaz, mais constante e mais bem
detalhado em seus efeitos”,33 onde o que se buscava não era apenas a criação de
autoridades locais cada vez mais independentes e fortes, mas sim o
estabelecimento de um poder disciplinar nestes sertões, cujo objetivo estava no
ordenamento social, no controle cotidiano dos povos, dos poderes e, sobretudo, na
civilização deste vasto confim do Império português.

31
Fevro 13. Offo a Jeronimo Joze Figueira de Mello sobre a sua irregular conduta. In: Livro 28, p.
149V.
32
FOUCAULT, 2007, p. 66.
33
Ibid., p. 68-69.
63

3.2 “Somos todos portugueses”


A pátria que quisera ter era um mito...
Lima Barreto

Ao chegar à Capitania do Ceará, em 1812, o militar ilustrado português


Manuel Ignácio de Sampaio viu diante de si um grande desafio: inserir aquela região
do Império português, tida como atrasada e periférica – juntamente com seus
habitantes – no chamado “mundo civilizado”. Os variados setores que compunham a
sua população, desde sua elite local até os grupos mais marginalizados, viviam em
uma lógica social que estava longe daquilo que era idealizado pela Coroa lusitana.
Apesar de a colonização lusa na América já ter se iniciado havia mais de trezentos
anos, as terras cearenses permaneciam à margem do ideal de desenvolvimento
pretendido pelos intelectuais e políticos portugueses e pela elite local. Composto de
vilas decadentes em termos econômicos e físicos – por estarem fora dos padrões
aceitos pelos europeus – e com uma população dispersa e formada, em sua maioria,
por índios, mestiços e senhores de terra com amplos poderes locais, o projeto
civilizatório de Sampaio passou a agir em diversos setores que pretendiam
transformar as feições “bárbaras” daquele lugar em um território “digno” de pertencer
ao reino lusitano.
Importantes medidas foram executadas na área econômica, como o estímulo
à produção algodoeira34 e o incentivo ao trabalho indígena, por meio de políticas que
visavam normatizar a mais importante fonte de força de trabalho dessa região. 35
Obras importantes foram executadas durante seu governo, com a reforma e
construção de diversas edificações, necessárias à renovação dessa capitania, como
foi o caso da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, que deu o nome da capital
do Ceará.36 Durante seu governo também tiveram lugar eventos de destaque
nacional, como a criação do Banco do Brasil e a explosão da Revolução
Pernambucana de 1817, bem como o casamento de dom Pedro I e o nascimento da
princesa.

34
PINHEIRO, 2008; LEITE NETO, João. A participação do trabalho indígena no contexto da
produção algodoeira da capitania do Ceará (1780-1822). Dissertação (Mestrado) – Universidade
Federal de Pernambuco, 1997.
35
COSTA, João Paulo Peixoto. Um celeiro de mão de obra: trabalho indígena e o processo de
civilização no Ceará (1812-1820). In: Cadernos do CEOM. Chapecó: UNOESC, 2010. p. 183-202. v.
32.
36
ADMINISTRAÇÃO Manuel Ignácio de Sampaio, 1916.
64

Além de todas essas reformas de relevo nas áreas econômicas,


populacionais e de engenharia, também tiveram destaque ações que passavam por
todos esses acontecimentos, e que, certamente, tinham um caráter prioritário para
Sampaio. Através da análise de seu discurso presente nos documentos oficiais
produzidos por ele em todos esses episódios, foi possível detectar a tentativa de
produção em meio às elites do Ceará de um sentimento mais forte e aproximado em
relação à Coroa de Portugal. Para o governo, a constituição de um patriotismo
imperial português mais fiel e enaltecido também era fundamental para o processo
de civilização daquela população.
Porém, antes de tudo, é preciso que pelo menos três questões sejam
esclarecidas. Primeiramente, quando tratamos de patriotismo, nos referimos ao
contexto específico do período joanino no Brasil, onde “havia um sentimento de
pertencimento que ligava o homem à terra onde nasceu”. De acordo com Iara
Schiavinatto, o sentido de “pátria”, ao mesmo tempo em que “enlaçava o homem à
localidade”, também o fazia em relação ao Império português. Conectando o local ao
imperial, a “configuração identitária desse lugar poderia corresponder ao Império
luso tanto quanto à localidade”. No domínio ultramarino português oitocentista,
imenso e composto de regiões com realidades e conjunturas variadas, a “localidade
é categoria social e política importante, porque, nela, em regra, constituiu-se a
experiência de pertencer ao Império e à localidade específica”. Nela, “as dimensões
do Império e da Corte estavam presentes e pulsavam”: ou seja, o “Império
entremeava-se à localidade”. O “ser patriota”, que era incentivado pelo governo e
praticado pelos habitantes de diferentes regiões e estratos sociais, significava ser fiel
tanto ao lugar de nascimento como ao rei lusitano. Era através desse patriotismo
imperial que se buscava unir os diferentes domínios americanos e argamassar o
“pacto que assegurava a monarquia”.37
Em segundo lugar, acerca do alcance das ideias de civilização e patriotismo:
ambos os sentimentos eram instigados de modo a estendê-los a todos os
segmentos sociais. Desde os líderes políticos e econômicos até os estratos mais
baixos da sociedade precisavam ser civilizados, como era o caso dos índios. Mas o
direcionamento variava bastante para cada setor, e as diversas políticas

37
SCHIAVINATTO, Iara Lis. Entre histórias e historiografia: algumas tramas do governo joanino. In:
GRINBERG, Keila. SALLES, Ricardo (Org.). O Brasil imperial: 1808-1831. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2009. p. 61-63. v.1.
65

empreendidas pelo governo neste sentido tinham objetivos distintos dependendo do


alvo. Para Pierre Bourdieu, a cultura que une – nesse caso, aquela promovida pelo
Império português na América – “é também a cultura que separa [...] e que legitima
as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas)
definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante”.38
No caso da elite política dessa região, a necessidade de estimular-lhes o
patriotismo perante o rei consistia na falta de controle por parte do poder central do
Império, e o grande abismo que havia entre as determinações reais e aquilo que era
executado nos sertões do Ceará. Para Portugal, era urgente acabar com a quase
“independência” com que agiam os potentados nesse dilatados rincões.39
Por fim, ao pretender caracterizar tal prática, não queremos inferir que não
havia uma inserção de qualquer sentimento de fidelidade ao rei por parte dessas
lideranças locais, mas sempre havia o risco de ebulições sociais que perturbassem a
ordem e a obediência impostas. Além disso, é visível pela análise documental a
incessante busca que havia por parte do governo pela reprodução e efervescência
cotidiana de rituais e sentimentos afetivos. Buscava-se exercer um poder simbólico
que permitisse não somente construir, mas também manter uma realidade – um
“consensus acerca do mundo” – utilizando-se de símbolos – como imagens e
comemorações – que serviriam como “instrumentos de integração social”, como diz
Bourdieu.40 Sampaio pretendia fortalecer a ligação entre essa população do Ceará a
Portugal, que, mesmo afastados por uma enorme distância geográfica, era o local de
onde emergiam seus antepassados – pelo menos dos grandes líderes políticos e
econômicos – e era em nome dessa Coroa que o governo pretendia uni-los em uma
mesma família.

3.2.1. A busca por uma afetividade patriótica

A proximidade que se pretendia, entre essa população e o reino português,


tornou-se forjada por meio de uma constante lembrança de acontecimentos
significativos que despertassem entre os que habitavam a Colônia, o orgulho e a
felicidade de pertencer ao Império lusitano. Para José Eudes Gomes, as festas em
comemoração às figuras da Corte, por exemplo, constituíam-se “em um expressivo

38
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p. 11.
39
GOMES, 2006.
40
BOURDIEU, 1998, p. 9-10.
66

canal de mediação entre o monarca distante e seus súditos sertanejos, capaz de


realizar a comunicação entre os interesses representados localmente e as esferas
mais amplas do poder imperial”.41 Segundo Schiavinatto, a Corte e outras regiões do
Brasil, como foi o caso do Ceará, viveram um “intenso tempo festivo durante o
governo joanino”, no qual d. João VI se converteu no “‘verdadeiro pai da América’ e
no ‘fundador da Monarquia na América’”.42
Durante o governo Sampaio, encontramos registros de três comemorações
que fizeram referências a fatos importantes ligados à Coroa, onde visualizamos os
cuidados em torno dos detalhes que compunham esses festejos e as intenções
sempre presentes de incentivar devoção a Portugal. O primeiro relato abordou a
festa que se deu por ocasião do aniversário de dom João VI, em outubro de 1817,
em um momento no qual, poucos meses antes, as revoltas liberais em Pernambuco
tinham sido abafadas pelas forças do governo. Organizados pelo Corpo de
Comércio de Fortaleza, “os festejos duraram nove dias, durante os quais luminárias
foram acesas e disparadas salvas de tiros”,43 contando também com a exposição do
retrato do rei, de uma missa, além da execução de músicas e encenações. Chama-
nos a atenção o fato de que, em meio a esses atos devocionais, as atenções da
população presente se voltaram muito mais para Sampaio do que para o rei
aniversariante. Sendo carregado em procissão pelo povo ao final da festa – segundo
o relato – o governador se destacou a tal ponto, nesse evento, que, pela leitura do
registro, “é possível até mesmo esquecer de que se trata da celebração dos anos do
monarca”,44 talvez por ter sido o grande responsável pelo fim das ações
revolucionárias neste ano da capitania, bem como uma figura bem mais presente
fisicamente do que o rei nesse ambiente.
Para os nossos intentos, o trecho mais significativo do documento foi o
discurso proferido por Sampaio na ocasião, onde as atenções pareciam ter se
desviado do foco. Tirando de si os direcionamentos dessas glorificações festivas, o
governador, sem deixar de agradecer o reconhecimento pelo seu trabalho, não
deixou de destacar qual era – ou deveria ser – a figura central dessa devoção
popular:

41
GOMES, José Eudes Arrais Barroso. Quando o sertão faz a festa, a monarquia se faz presente:
festas e representações monárquicas na capitania do Ceará (1757-1817). In: Cantareira. Niterói:
UFF, v. 13, p. 31, 2008.
42
SCHIAVINATTO, 2009, p. 76.
43
GOMES, 2008, p. 26.
44
Ibid., p. 27.
67

Sou por extremo sensível e muito reconhecido as reiteradas provas


de effusão, que tenho recebido do corpo do Commercio dessa
Capital, e em Geral dos povos de toda a Capitania. Não cessarei de
repetir: nada mais tenho feito do que exforçar-me para dar perfeito
cumprimento ás Reaes Ordens de Sua Magestade. Felis, se o tiver
conseguido. He a Sua Magestade que todos devemos dirigir os
nossos agradecimentos: he a seu paternal amor que os vassallos do
Reino Unido são devedores da felicidade, de que actualmente gozão,
cuja continuação pende unicamente de que todos nos continuemos a
mostrar dignos deste nome – Viva El-Rei Nosso Senhor – Viva a
Familia Real.45

Este discurso de Sampaio, tido pelo autor do relato como uma vã “modéstia”
que procurava fugir dos “excessos lisongeiros, mas nascidos da mais pura affeição”
da população presente,46 mostrava, por outro lado, o verdadeiro direcionamento
deste governo. Em última instância, o real objetivo de todas as ações de sua política
era o constante revigoramento da fidelidade ao rei de Portugal. Não se trata aqui de
saber se tal descrição da festa, que vimos acima, e a tal modéstia de Sampaio eram
verídicas, mas visualizar o caráter civilizatório dessas ações em prol do patriotismo
real que compunham as práticas deste governo, que, como ele próprio disse, não
fazia nada mais do que dar “perfeito cumprimento ás Reaes Ordens de Sua
Magestade”.
Destacamos também a presença do retrato real, cuja importância estava no
fato de ocupar o “lugar do próprio governante”. Nessa “ordem discursiva visual”,
carregada de simbologia,47 a figura de d. João se apresentava como um signo que,
segundo Bakhtin, não era apenas um “reflexo, uma sombra da realidade, mas
também um fragmento material dessa realidade”.48 Nesses eventos, a simbologia
material buscava trazer o próprio rei para o cotidiano dos habitantes daquele sertão.
O risco de que esta presença monárquica não fosse sentida pelos habitantes do
Ceará, em seu cotidiano, era real, e foi representado nesse fato supramencionado,
em que as atenções dadas pela população seguiram, pelo menos inicialmente, um
caminho contrário do pretendido, ao se dirigirem ao governador, e não ao
aniversariante da noite – o rei.

45
UMA FESTA em Fortaleza no tempo do governador Sampaio. In: Revista do Instituto do Ceará, t.
XIV, p. 273, 1900.
46
Id. ibid.
47
SCHIAVINATTO, 2009, p. 76.
48
BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas
fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 33.
68

De acordo com as palavras de Sampaio, a felicidade do povo do Ceará, como


de toda a América portuguesa, dependia da obediência que prestasse ao rei, e só
continuaria se permanecessem “dignos” de receberem o nome de vassalos. Essa
posição do governador se confirmou no ano seguinte a esses festejos, por ocasião
do casamento do então príncipe dom Pedro de Alcântara com a arquiduquesa
Leopoldina da Áustria, em 1818. Para celebrar esse honroso fato ordenou ao
intendente interino da marinha que “os Edificios publicos se hajão de illuminar”, além
de que fossem fornecidas as “polveras necessarias para as Salvas do estillo em
Semilhantes Occasiões”. Nessa comunicação, Sampaio também explicou a
importância dessa união para os súditos da Coroa portuguesa.

El Rey Nosso Senhor não Perdendo jamais de Vista tudo quanto


pode felicitar os seus Fieis e Venturosos Vassalos acaba com
grandissimas vantagens de todo o Reino Unido de Portugal, e do
Brasil e Algarves de estreitar as suas relações de Amisade com o
muito alto, e Muito Poderoso Principe Francisco 1º Imperador
d’Austria, Rey da Hungria e de Bolunia, ajustando e concluindo
felismente o Cazamento de S. A. R. [sua alteza real] o Principe Real
do Reino Unido o Sr. Dom Pedro d’Alcantara com a S. A. R. Imperial
a Serenissima Snrª Archiduqueza de Austria Carolina Jose
Leopoldina [...].49

Percebemos por que, para Sampaio, era tão importante festejar tais eventos
da Corte: eles viriam necessariamente para a felicidade dos súditos, originados da
bondade do monarca. E mesmo tendo este casamento acontecido a uma enorme
distância dos sertões do Ceará, a presença de luminárias e dos tiros de canhão
visava aproximar de forma simbólica a Corte real do cotidiano desta periferia
imperial.
No ano seguinte, em 1819, o governador passou novas ordens para outra
comemoração em torno da união do príncipe dom Pedro, dessa vez por conta do
nascimento de sua filha com a princesa austríaca. Considerada por Sampaio como a
consolidação da “prosperidade do Reino Unido”, essa “venturosa noticia” não
poderia “deixar de ser appreciada por todo o fiel Povo da Capitania do Ceará”, e
disse estar certo de que “em toda a Capitania se darão não só aquellas
demonstraçoens de jubilo que são de costume em simelhantes occazioens, mas
todas as mais que estiverem ao alcance dos seus habitantes”. De acordo com o

49
Fevereiro 14. Porta ao Inte Intro da Mara pa q’ os Edificios publicos botem luminarias pela occasião
do Principe Sr. Dom Pedro ter Cazado. In: Livro 28, p. 79V. Arquivo Público do Estado do Ceará
(APEC).
69

governador, o nascimento da princesa firmaria a união da Corte de Bragança, de


quem dependeria “a felicidade de todos os Portugueses seus Fieis e Leais
Vassalos”.50
Novamente houve tentativa de uma aproximação afetiva entre os cotidianos
da Corte portuguesa, dos sertões do Ceará, e da prosperidade que viria
necessariamente com essa ligação. Sampaio colocou ainda o resultado prático e
sentimental dessa conexão, ao denominar todos os “fiéis e leais” vassalos do rei de
Bragança de “portugueses”. Estando debaixo de uma mesma denominação, era
possível se estabelecer a união de todos os súditos deste Império, não importando
se eram originados da Europa, da então capital Rio de Janeiro, ou dos sertões
cearenses. Somadas às festas e rituais, o discurso do governador agia com as
mesmas intenções e intentava os mesmos efeitos de desenvolver o patriotismo
nestes povos periféricos, que, mesmo ainda distantes em muitos sentidos do ideal
civilizado que pretendia o governo, precisavam sentir-se não somente súditos de
Portugal, mas legitimamente “portugueses”.
Para que todas essas distâncias fossem diminuídas, Sampaio também
procurou aliar as grandes obras de seu governo com um discurso que estimulava
esses sentimentos nos habitantes, especialmente na elite político-econômica da
região, que participavam e eram atingidas diretamente dessas ações. No caso das
reformas da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, muitos donativos de
particulares foram recebidos pelo governo para ajudar na execução das obras, e as
palavras do governador para aqueles que contribuíam era uma mostra desta busca
de inserção desta população – mais especificamente, de sua elite – em projetos que
tinham como fim o bem de Portugal. Em ofício de setembro de 1813 dirigido ao
capitão-mor do Icó, Sampaio agradeceu as doações desta autoridade, dizendo-lhe
ter certeza de que o capitão-mor “não deixaria de concorrer com algum donativo,
para a Construção da Fortalesa que se acha erigida nesta Villa mostrando por esta
forma que rivaliza em Patriotismo com varios outros habitantes desta Capitania”.
Acrescentou ainda que iria em tempo competente “faser conhecer o nome de todos

50
Junho 4. Porta ao Escrao Deputado da Junta da Real Fasenda sobre o feliz Nascimto de huma
Princesa. In: Livro 28, p. 164V. APEC.
70

aquelles que generosamte tem concorrido para a dita Obra” ao próprio rei.51
Observe-se a Figura 8, a seguir.
Sampaio procurou aproximar, mais uma vez, as ações da população do
Ceará à Corte portuguesa, quando prometeu levar ao conhecimento do monarca as
contribuições da elite para a construção dessa grande obra. Nessa comunicação,
pudemos ver que ter o nome conhecido pelo rei como alguém que participou de tal
ação constituía-se grande honra; nesse simbolismo de devoção ao Império que o
governador pretendia insuflar, ser chamado de patriota – ou alguém cujo patriotismo
se destaca dentre os demais – era um dos mais nobres e significativos elogios.
Nesse universo, era mais valorizado e reconhecido aquele que mais se mostrasse
súdito fiel e leal a Portugal.

Figura 8 - PLANTA da Fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção da Capitania do


Ceará Grande, [18--].

Fonte: Gabinete de Estudos Arqueológicos e de Engenharia Militar, 5479-1A-10A-53.


Apud. GOMES, 2009.

51
Septembro 9. Registo de hum Officio ao Cap. m Manoel da Cunha Freire Pedrosa agradecendo-lhe
o Donativo que deo para a Fortalesa. In: Livro 17, p. 143. APEC.
71

Ao final das obras da Fortaleza, em 1817 (Figura 09), foi afixada em seu muro
voltado para o mar, pelo militar Pedro José da Costa Barros, uma grande lápide,
com o seguinte texto em latim, cuja tradução, presente em outra lápide próxima, foi
produzida pelo Museu Histórico do Ceará em 1934:

Anno 1817. Informem Montem me derisere Carinae: Nunc Arcem


magnum respectu longe pavescunt: Hic, me Sampayus, Sexto
Regnante Joanne, Fundavit pulchram: Pauleti cura refulget. Muris me
fortem reddunt civilia dona, Armis me fortem faciunt dispendia Regis.
Costa Barros fecit. [Ano 1817. Outrora monte informe, de mim
zombavam as naus; hoje que sou grande fortaleza, de longe, lhes
infundo respeito. Bela, reinando João VI, aqui me fundou Sampaio, e
o engenho de Paulet em mim refulge. Pelas muralhas e pelas armas
me tornam forte os donativos particulares e os gastos reais. Costa
Barros, fez. M. H. C – 1934].

Figura 9 - Lápide comemorativa da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, 1817;


Tradução produzida pelo Museu Histórico do Ceará, 1934; e Lápides nos muros da
Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.

Fonte: Acervo do autor.

O texto presente nos muros da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção,


cuja lápide por si só já é um símbolo da pretendida grandeza das obras dos vassalos
reais, enaltece as figuras-chaves para o fortalecimento das relações entre o Ceará e
72

o rei. A ação de Costa Barros, a obra de Sampaio, o engenho de Paulet, o reinado e


os gastos de d. João VI se somavam às “indispensáveis” presenças dos “donativos
particulares”, registradas nessas inscrições que realçavam a grandeza desse
poderoso símbolo da “glória” e união do Império. Fazendo parte de um período que,
de acordo com Schiavinatto, assistiu a um “investimento simbólico amplo e forte”, a
Fortaleza e a lápide eram signos cuja dimensão simbólica era capaz de “se
comunicar com os vassalos no maior espectro possível [desde os proprietários que
contribuíram com doações financeiras, até os índios e outros grupos socialmente
inferiores que trabalharam na reforma], bem como de angariar de modos distintos
suas obediências”.52

Figura 10 - Vista aérea da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, com destaque para
o muro em que estão fixadas as lápides. Extraído do sítio on-line do Comando da 10ª
Região Militar:

Fonte: Disponível em: <www.10rm.eb.mil.br>. Acesso em 21 jan. de 2012.

Esse incentivo ao sentimento patriótico também poderia, no discurso de


Sampaio, extrapolar as fronteiras do Ceará, como pode ser visto por suas palavras
sobre o estabelecimento do Banco do Brasil no Ceará. Projeto de âmbito nacional,
52
SCHIAVINATTO, 2009, p. 77.
73

idealizado por dom João VI, esta instituição seria “a base da prosperidade do
Commercio, e da Nação principio de que ninguem poderá duvidar”. Em circular a
todos os capitães-mores e comandantes de ordenanças da capitania de janeiro de
1813, o governador ordenou a estas autoridades que incitassem à população, que
mostrassem “aos Habitanttes do Brasil que os Povos do Ceará Rivalizão em
Patriotismo com os da Corte do Rio de Janeiro”.53
Vemos nesse exemplo como a questão do desenvolvimento econômico
estava intimamente ligada ao patriotismo daqueles que colaboravam nesse
crescimento. Todos esses aspectos se aliavam a um projeto bem mais amplo, que
era a consolidação do processo civilizatório ideal que precisava ser levado até aos
sertões de uma periferia como a do Ceará. Com a criação do chamado Correio do
Norte do Brasil, essa conexão também era marcante no discurso de Sampaio, que
criou essa ferramenta de transporte de correspondências com o objetivo de
incrementar as relações comerciais da capitania e incentivar os “patriotas” a
54
aceitarem esse novo sistema.
Em ofício endereçado à câmara da vila de Parnaíba, no Piauí, em novembro
de 1815, o governador do Ceará tentava convencê-los da importância de expandir
esta instituição até aquela região, explicando-lhes que “a falta de comunicação era
hua das principaes cauzas do atrasamento destes Certões”. Mas para melhor
persuadi-los, desfez logo no início dessa correspondência a distância que poderia
haver entre ele – um europeu que governava na Colônia – e esta elite local
brasileira:

Posto que nascido e creado na Europa nem por isso me interesso


menos na prosperidade dos meus compatriotas residentes nestes
Estados do Brazil. A distancia de alguns centos de Legoas não pode
por modo algum embaraçar que como taes se devão reputar todos
os que tem a fortuna de ser Vassalos do Nosso Augusto Soberano
qual quer que seja o lugar do seu nascimento, e rezidencia.55

Mais uma vez nos deparamos com uma nova tentativa de superar as
distâncias geográficas pelas proximidades patrióticas. Acima do lugar físico do
nascimento, o importante para Sampaio era a união de todos os portugueses – que
53
Janeiro 9. Registo de hum Officio Circular dirigido aos Capes Mores e Comd es de Ordas remettendo
to
lhe a Copia da Carta Regia Sobre o estabelecim do Banco do Brasil. In: Livro 16, p. 11V. APEC.
54
Vide capítulo 04 – tópico 4.5, p. 160.
55
Novembro 29. Registo de hum officio dirigido ao Juiz Prezidente, e mais officiaes da Camara da
Villa da Parnaiba em resposta ao seu officio de 25 de Outubro sobre o estabelecimento do Correio e
a creação da Agencia na dita Villa. In: Livro 23, p. 99. APEC.
74

não se constituíam somente pelos naturais de Portugal – em prol da glória e


crescimento de todos os lugares deste grande Império. Ao assumir-se um europeu
que trabalhava pelo bem dos “Estados do Brasil”, buscava mostrar que, acima de
todas as diferenças, o que deveria uni-los era a devoção ao soberano lusitano.
Prosseguindo seu argumento, o governador tentava explicar às autoridades de
Parnaíba que, já tendo chegado a São Luiz, nesta ampliação do Correio até essa
região teriam “sem duvida mais interesse os povos do Maranhão e do Piauhi que os
do Ceará”. Mesmo assim, Sampaio buscou diluir todos esses diferentes objetivos de
cada lugar com o seguinte questionamento: “Que importa? todos são Portugueses,
assim como eu me vangloreio de o ser, e o bem real, e verdadeiro de huns he o bem
de todos”.56 Para este governador, a prosperidade só haveria de se instalar
plenamente nestes sertões se todos os seus habitantes se portassem unidos, fieis e
obedientes como uma só família portuguesa.
Essa paz que seria resultado da união dessa grande família portuguesa
sofreu uma séria ameaça durante a Revolução de 1817, quando os insurgentes
pernambucanos desafiaram a autoridade da coroa e reclamavam por maior
independência. Sempre fiel ao rei, e cauteloso para que tais ideais não entrassem
nas fronteiras cearenses, Sampaio reforçou mais uma vez, em ofício ao novo
administrador geral dos Correios em Pernambuco, que, mesmo tendo nascido na
Europa, era sua intenção trabalhar para o bem geral do Império, inclusive nos
sertões do Brasil, mostrando por essa maneira os equívocos que haveria nos
embates entre europeus e brasileiros:

Neste lamentavel e desgraçado choque, entre Brazileiros, e


Europeos, resta-me o maior praser sendo Europeo de haver com o
estabelecimento desse Correio feito este serviço aos Brazileiros que
depois da publicação do Alvará de 16 de Desembro de 1815 reputo
em tudo iguaes aos Europeos para ao Ceo que todos assim
pensassem.57

Citando o alvará que instaurou o Reino Unido, relembrou a igualdade que


havia entre Brasil e Portugal, que agora era institucional, e que, por isso, não era
possível que as diferentes partes agissem ou lutassem uma contra as outras. Dessa

56
Novembro 29. Registo de hum officio dirigido ao Juiz Prezidente, e mais officiaes da Camara da
Villa da Parnaiba em resposta ao seu officio de 25 de Outubro sobre o estabelecimento do Correio e
a creação da Agencia na dita Villa. In: Livro 23, p. 99. APEC.
57
Novembro 26. Offo ao Adminor Geral do Corro de Pernambuco agradecendo-lhe a protecção sobre o
Corro do Ceará. In: Livro 28, p. 70. APEC.
75

forma, colocou-se como um exemplo a ser seguido: um europeu que trabalhava para
o desenvolvimento econômico do Brasil, já que tudo isso era um só Império e uma
só família.
Em outra ocasião, ordenou em comunicação ao tenente da Armada Real que
este procurasse “infundir nos Povos o respeito, fidelidade, e amor que, por tantos, e
tão exorbitantes direitos são devidos a Augusta Pessoa de El Rey Nosso Senhor, e
a toda á Familia e Casa de Bragança”. Explicou-lhe ainda que por não observarem
estes preceitos “sagrados” é que “sofrem actualmente os Povos de Pernambuco”,
sendo este o “triste e horrível fim que sempre no mundo tem tido taes perturbadores
do Socego publico”.58
Outro conflito que acompanhava esses embates em Pernambuco eram os
choques entre europeus e brasileiros, representados pelos insurgentes. Concluindo
que esta separação era uma das causas da revolução e do que seria a “ruína” desse
grupo, podendo fazer estragos ainda maiores no reino, Sampaio fez uma última
recomendação ao tenente da Armada Real, na tentativa de fortalecer a ameaçada
união entre os súditos do Império lusitano:

Tenho por ultimo a recomendar a Vmce que trate de persuadir os


Povos que os Portugueses nascidos tanto em Portugal quanto no
Brazil não fazem presentemente mais do que huma só, e mesma
familia cujos interesses são todos promíscuos, e communs evitando-
se toda e qualquer alteração por mais leve que seja motivada pela
diferença de Europeo (ou de Marinheiro na expressão vulgar) a
Brazileiros alteração essa que tem sido a Origem de tantas
desordens.59

Os sentimentos patrióticos das elites nesses sertões do Brasil não estavam


bem resolvidos, ou pelo menos livres de alterações e contestações. A própria
citação do termo “marinheiro”, como eram chamados pejorativamente os que
nasceram em Portugal, é um exemplo dessa apartação. Sem fazer referência às
causas dos insurgentes, sob o ponto de vista do governador do Ceará, a mínima
tribulação que por ventura sofresse a união entre os diversos súditos de dom João
VI era a verdadeira causa da guerra e das desordens por que passavam esses
sertões do Brasil. Os acontecimentos que marcaram a Revolução de 1817, sem
dúvida, culminaram como o momento mais delicado enfrentado por Sampaio no

58
Abril 2. Offo ao 2º Teme d’Armada Real Encarregando-o do Commando dos Presidios daCosta do
Termo da Va do Aracati. In: Livro 37. APEC.
59
Ibid. Grifos nossos.
76

Ceará em relação a essa estabilidade imperial. Por isso, o estudo dessa


documentação permitiu visualizar a compreensão do que correspondia civilizar
aquela população.
Por outro lado, também por meio dessa insurreição em Pernambuco, foi
possível refletir que, mesmo insistindo nessa única e unida família lusitana, não era
intenção do governo instituir a igualdade entre os súditos. Além das evidências nas
desigualdades sociais – ou, mais do que isso, legais – que configuravam essa
sociedade do Antigo Regime, havia diferenças evidentes em termos de direitos entre
aqueles ligados mais diretamente à Corte e os potentados locais no interior desses
sertões. Quando pensamos nos motivos que levaram os pernambucanos a se
rebelar, percebemos que essas disparidades eram evidentes a tal ponto que a
sonhada harmonia entre os súditos da Coroa de Bragança não estava livre de sofrer
ameaças.
Nesses conflitos regionais do período joanino, no qual os embates
pernambucanos de 1817 se destacaram, as lutas que vieram à tona também
implicavam choques étnicos e identitários. Em meio a manifestações de divisões
entre portugueses brasileiros e marinheiros, Sampaio buscou valer-se de seu poder
simbólico, como representante da Coroa, para garantir seu monopólio no Ceará,
sobre uma visão específica do mundo, na qual tanto europeus como americanos
participavam da mesma família lusitana. Por meio desse poder de representação,
procurava estabelecer o consenso acerca do sentido, a identidade e a unidade dos
súditos portugueses, ao impor uma legítima definição das divisões daquele mundo
social.60 Mas a força de efetividade desse poder não se encontrava apenas nas
palavras de incentivo à unidade entre brasileiros e europeus ou ao patriotismo dos
súditos do rei. A prática discursiva do governador procurou gerar um ambiente de
legitimidade em relação à sua pessoa, ao seu discurso e, principalmente, ao
monarca. Ou seja, como explica Bourdieu, mais importante que a palavra era a
“crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia”,61 que se buscava
promover por meio do fortalecimento da relação entre os habitantes do Ceará e a
coroa portuguesa.
Para Sampaio, insistir na devoção implicava também promover a obediência
que todos deveriam ter em relação a esta Corte sagrada. Consciente não só dessas

60
BOURDIEU, 1998, p. 113.
61
Ibid., p. 14 e 15.
77

diferenças, mas da própria distância geográfica e legal que separava o lugar que
governava e o poder central do Império, a constituição de um patriotismo imperial
neste Ceará periférico e atrasado era prioritário para os planos de desenvolvimento,
ordenamento e civilização dessa região. Quando unimos as variadas questões que
apresentamos, indo desde as festas para a Corte, passando pelas colaborações
com as obras de reforma da Fortaleza, até o apelo ao apoio necessário com os
projetos de desenvolvimento econômico, concluímos que, para este governo, a
única maneira de que tudo isso se transformasse em um pleno estado de civilização
era fazendo com que todos os habitantes do Império – nascidos na Europa ou no
sertão do Ceará – se sentissem uma só e fiel família portuguesa. Os seus súditos,
porém, deveriam ser irmãos unidos não em prerrogativas, mas na devoção e na
obediência.

3.3 Civilização no “novo mundo”: a política indigenista de Sampaio

Após a virada para os oitocentos, a capitania do Ceará continuou a apoiar-se


no Diretório dos Índios como a legislação responsável por orientar a política
indigenista dessa região. Criada e extinta na segunda metade do século XVIII, esse
conjunto de leis teve forte impacto na América portuguesa não só por ter sido o
marco da expulsão dos jesuítas do Brasil – e da consequente mudança do poder
temporal sobre os índios – mas pela magnitude de seus efeitos sobre a população
nativa. O seu objetivo, mais do que nunca havia sido feito, era, segundo Elisa
Garcia, “inserir as populações indígenas da América na sociedade colonial
portuguesa”.62
Pela condição sociocultural de seu povo, o Ceará prosseguiu em usar o
Diretório como base legislativa, mesmo após a sua revogação na instância imperial.
Nessa região periférica do Império português, a população indígena reunia as
características de ser, simultaneamente, a mais importante força de trabalho em
potencial, e também a parcela mais “distante” dos pretensos costumes europeus e
civilizados. Imbuídos naquele projeto civilizatório, os governantes da capitania
lançaram mão dos preceitos pombalinos desde o século XVIII até o início do XIX,
com destaque para Manuel Ignácio de Sampaio.

62
GARCIA, Elisa Frühauf. As diversas formas de ser índio: políticas indígenas e políticas
indigenistas no extremo sul da América portuguesa. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2009. p. 75.
78

Para o governador, somente com a completa inserção dos índios em uma


sociedade disciplinada, moderna e cristã seria possível desenvolver a capitania, e,
por isso, pôs em prática, como nenhum outro, diversas políticas que objetivavam a
plena normatização dos cotidianos e mão de obra indígena. Esse “processo
civilizador”, ao ser levar para a Colônia, baseado nas leis assimilacionistas do
Diretório, fazia parte das ações prioritárias de Sampaio, mas de modo diferente da
que aparece na obra de Norbert Elias, quando fala da Corte francesa do século
XVIII. Nesse contexto, o termo “civilisation” expressava a “autoimagem da classe alta
europeia em comparação com outros, que seus membros consideravam mais
simples ou mais primitivos”, e, ao mesmo, tempo caracterizava “o tipo específico de
comportamento através do qual essa classe se sentia diferente de todos aqueles
que julgavam mais simples e mais primitivos”.63
Da mesma maneira, “civilização” na conjuntura imperial portuguesa também
denotou a relação entre os europeus – superiores – e os povos cujos costumes
estavam à margem dessa realidade – dentre eles, e de forma especial, os índios.
Porém, neste universo no qual fizemos nossas análises, além de representar uma
inferioridade, o termo está acompanhado do “ato de civilizar”. Para as nações
europeias do final do século XVIII e início do XIX, o “processo de civilização” interno
em suas sociedades já havia sido concluído; por isso se viam como “transmissoras a
outrem de uma civilização existente ou acabada, as porta-estandartes da civilização
em marcha”.64 Por sua condição de metrópole dependente da população colonial,
Portugal necessitava levar sua condição cultural e intelectual aos índios – mesmo
que isso fosse encarado como política de longo prazo.
Por meio da análise da política indigenista do governador Sampaio no Ceará,
percebemos, pela leitura documental, forte caráter civilizatório, revestido em práticas
populacionais baseadas no Diretório dos Índios. Dessa forma, pretendemos
interpretar as dinâmicas dessas ações governamentais dirigidas aos índios do Ceará
oitocentista, analisando especialmente a pretendida transformação dos costumes e
a esperada civilização dos povos indígenas da América portuguesa.

63
ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1994. p. 54. v.1.
64
Ibid., p. 64.
79

3.3.1 Controle do cotidiano e a mudança nos costumes

De acordo com Elias, o conceito de civilização nasceu na Europa a partir de


duas ideias que se aliavam: uma que expressava uma oposição, ao colocar em
lados opostos a “pacificação interna do país” e aquilo que “ainda é ‘bárbaro’”. Outra
de que a civilização não era “apenas um estado, mas um processo que deve
prosseguir”. Logo, para o pleno desenvolvimento de uma nação, era urgente que se
executasse a “eliminação de tudo o que era ainda bárbaro ou irracional nas
condições vigentes”. Ou seja, o “processo civilizador devia seguir-se ao refinamento
de maneiras e à pacificação interna do país”: 65 um dava sentido ao outro. No
contexto do Império de Portugal, percebemos que o atraso de determinadas regiões
era visceralmente associado à barbárie em que vivia a sua população. No caso do
Ceará, tal realidade era bastante evidente, já que abrigava em seu território uma
grande população indígena, que, mesmo sendo a força motriz de sua economia,
ainda vivia dispersa pelo território e bastante ligada a antigos costumes tradicionais.
Nesse sentido, o foco de ação de Sampaio em seu trato com os índios na
capitania estava justamente no monitoramento de seu cotidiano e na insistente
transformação de seus costumes. Um caso que ocorreu em Monte-Mor Velho (atual
Pacajus) é exemplar neste sentido: em agosto de 1813 os índios João Francisco
Ferreira, José Francisco, Ignácio Francisco, Agostinho de Barros, João Francisco da
Silva, Elias Dias Monteiro e Antonio Bezerra teriam “raptado, e frexado alguns
Gados dos moradores vizinhos”. Em resposta, Sampaio ordenou ao sargento-mor da
vila que intimasse os acusados um a um a abdicarem “de seus roubos e malefícios
declarando-lhes a pena de serem por mim rigorosamte Castigados”.66
Nesse episódio, observamos uma situação recorrente na história da
colonização: o choque entre a tradição – tida como barbárie – e a “civilização”. No
contexto oitocentista, os índios ainda tinham fortes ligações com seus costumes
ancestrais – como o uso de flechas na captura de um animal – mesmo sendo em um
período bem posterior aos primeiro contatos e onde a sociedade colonial já estava
estabelecida. Por conseguinte, a manifestação deste tipo de atitude, e que ainda
viesse a atrapalhar a produção da capitania – como, por exemplo, uma criação de
gado – era danosa demais para os planos governamentais. A civilização dos índios

65
ELIAS, 1994, p. 61-62.
66
Agosto 30. Registo de hum Officio dirigido ao Sarg mor de Monte mor o Velho pa reprehender huns
Indios q’ andão atirando frexas aos Gados. In: Livro 17. APEC.
80

estava diretamente associada ao desenvolvimento da região, e, para isso, o controle


cotidiano e, se possível, individual era frequentemente recomendado.
Além do monitoramento da população, a punição aos culpados de cometerem
atos criminosos também fazia parte dessa política, servindo como exemplo para os
outros e correção para os delinquentes. A pena a que ficaram submetidos os índios
Pedro Fernandes e Antonio Francisco Peixoto foi um exemplo disso: mesmo sem
deixar claro no documento o motivo dessa punição, Sampaio ordenou em setembro
de 1812 que fossem dadas “quatro duzias de palmatoadas” em cada um. Mas antes
67
de serem recolhidos à cadeia, era preciso “publicar os crimes” pelos quais foram
castigados.
Mas justamente pelo caráter corretivo – e, por isso, civilizatório – que
deveriam ter essas punições é que os castigos não poderiam ser dados sem a
devida avaliação e autorização do governador. Evitando esse tipo de arbitrariedade,
o comandante de São Cosme (atual Pereiro) foi recriminado pelo governador por ter
prendido o índio Luis “só pela simples queixa do Velho Manoel Gomes que podia
muito bem faltar á Verdade”. Em seu ofício de junho de 1813, Sampaio disse que o
procedimento correto deveria ter sido o exame preliminar “de pessoa fidedigna” que
pudesse confirmar o ocorrido. Só assim, o caso seria comunicado ao governo na
capital, para que então as penas cabíveis fossem aplicadas. Para o governador, a
atitude do comandante de São Cosme “foi hum aggregado de irregularidades” e, por
fim, acrescentou: “nenhuma auctoridade tem VMce [...] de ir faser huma prisão” 68 sem
uma autorização superior. Percebemos, no registro, que as punições promovidas por
Sampaio procuravam desvincular a coerção das vaidades e dos poderes individuais
locais que muitas autoridades acabavam acumulando pelos sertões.
As ações punitivas deste governo também procuravam chegar ao fundo das
práticas cotidianas, na busca de transformá-las inclusive nas intimidades de seus
habitantes. Na política indigenista não foi diferente, e percebendo a forte ligação que
havia dos índios com práticas familiares e afetivas diferentes do modelo ocidental
“civilizado”, as prisões empreendidas pelo governador agiam constantemente com o
objetivo de coibir atitudes “escandalosas” que atentassem à moral e à lei.

67
Setembro 2. Portaria ao Comd e da Guarnição, sobre o castigo dos dois Indios Pedro Fernandes, e
Antonio Franco Peixoto. In: Livro 33, p. 101. APEC.
68
Junho 22. Registo de hum Officio ao Commd e de S. Cosme estranhando a ter prendido hum
homem individamente. In: Livro 17, p. 65. APEC.
81

O estabelecimento da política de passaportes na capitania – que restringia o


trânsito de pessoas apenas com autorização do governador – surgiu com o objetivo
de intensificar o monitoramento populacional, voltado principalmente ao incentivo do
trabalho disciplinado. Mas além do âmbito econômico, “havia da mesma forma uma
motivação civilizatória na política de passaportes [...] algo que não poderia ser gerido
com a dispersão populacional” tão característica daquela região.69 Os registros
documentais revelaram como esta política agiu também no combate a práticas
familiares e afetivas “incivilizadas” – que estariam associadas à dispersão –
juntamente com as prisões relegadas aos culpados. Em 1812, o índio Manoel dos
Santos Severino foi preso na cadeia da capital, pois, além de “andar disperso de sua
Villa”, era também “desinquietador de mulheres casadas”!70 Em outra ocasião,
mandou-se prender a índia “com quem se acha escandalosamente amancebado
Francisco Antonio de Vasconcellos” e remetê-la à sua vila natal. Neste caso,
prevendo alguma resistência da índia em ceder às ordens do governo, por conta de
sua relação amorosa, o governador ainda advertiu: “se ella não quiser declarar a que
direcção pertence VMce a remetterá presa a esta Capital”.71
Este tipo de relação ilícita mantida entre a índia e Francisco de Vasconcelos
ia de encontro à moral cristã e, principalmente, às diretrizes do Diretório. Porém,
muito além de serem religiosamente oficializadas, as convivências afetivas dos
índios necessitavam estar de acordo com o controle da lei, para que pudessem ter
garantias da civilidade imposta. Em janeiro de 1813, por exemplo, foram enviadas
ordens para que fosse preso o índio Felix Jose Martins, natural de Mecejana, mas
que estava “deserto á annos e presentemente mora no lugar do Acarape [atual
Redenção] aonde casou”.72 Ou seja, para Sampaio, estar casado não bastava: era
preciso que este mesmo casamento – e a vida conjugal – estivesse sob os olhos da
lei e do monitoramento do Estado, algo que não seria plenamente feito com um dos
membros do casal estando em condições irregulares.

69
COSTA, João Paulo Peixoto. Pela boa ordem e sossego da capitania: política de passaportes e a
“caça aos vadios” no Ceará (1812 – 1820). In: Anais do XII Encontro estadual de história do Ceará
(ANPUH). História: políticas públicas e práticas sociais. Crato: Anpuh-CE, 2010. p. 5-6.
70
Dezembro 17. Ordem de soltura a favor de varios individuos, como abaixo se declara. In: Livro 33,
p. 177. APEC.
71
Desembro 1. Registo de hum Officio dirigido ao Capmor do Sobral Ordenando-lhe a prisão de huma
India. In: Livro 16, p. 49. APEC.
72
Janeiro 18. Registo de hum Off o dirigido ao Sargento-mor de Monte mor o Novo Ordenando-lhe
huma prisão. In: Ibid., p. 122V. APEC.
82

As leis pombalinas também tratavam de forma específica como deveria ser a


vida familiar dos índios. Preocupada com antigas práticas, que, ao olhar civilizado,
demonstrava apenas vícios e imoralidades, o Diretório procurou regular o cotidiano
até no interior das casas, para que seguissem o exemplo dos europeus. Sobre a
atenção que os diretores deveriam ter neste sentido, eis o que dizia o §12:

Sendo também indubitável, que para a incivilizdade, e abatimento


dos Indios, tem concorrido muito a indecência, com que se trataõ em
suas casas, assistindo diversas Familias em huma só, na qual vivem
como brutos; faltando áquellas Leis da honestidade, que se deve á
diversidade dos sexos; do que necessariamente há de resultar maior
relaxação nos vícios; sendo talvez o exercício delles, especialmente
o da tropeza [sic], os primeiros elementos com que os Pais de
Familia educam seus filhos: Cuidaraõ muito os Directores em
Desterrar das Povoações este prejudicialissimo abuso, persuadindo
aos Indios que fabriquem as suas casas á imitação dos Brancos;
fazendo nellas diversos repartimentos, onde vivendo as Familias com
separação, possaõ guardar, como Racionaes, as Leis da
honestidade, e policia.73

Além da questão da divisão de compartimentos de uma casa, assunto mais


abordado, a lei também toca na questão de que, para não viverem como “brutos”,
que os levaria à indecência e incivilidade, era preciso que os índios estivessem
atentos às “leis da honestidade” e da “política”, ou seja, da autorregulação. E para
que tudo isso fosse possível, era preciso que vivessem “à imitação dos brancos”,
seguindo os preceitos dos costumes europeus. Também foi levantado outro aspecto
que, segundo o governo, era fundamental para o bom funcionamento dessa
realidade: a forma como os pais educavam seus filhos. Para evitar que esses
“primeiros elementos” da educação familiar fossem os da “torpeza”, Sampaio
também agiu nesse âmbito, como pudemos analisar em uma comunicação de junho
de 1819, com o diretor de Mecejana: “he necessário estar muito cego da mais
sordida avaresa, e ser muito rabula para pertender dar o nome de cabeça de casal
aquelles Indios que estão em casa de seus Pais, e debaixo do Patrio poder”.74
Não sabemos o contexto em que foi escrito este ofício, mas nele pode ser
vista a preocupação em relação à organização interna de uma família, na qual a sua
liderança – o nome de “cabeça de casal” – não poderia ser colocada a alguém que

73
DIRECTORIO, que se deve observar nas povoações dos indios do Pará, e Maranhão, Em quanto
sua Magestade naõ mandar o contrario. In: BEOZZO, José Oscar. Leis e regimentos das missões:
política indigenista no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1983, p. 6. Grifo nosso.
74
Junho 14. Officio dirigido ao Director de Mecejana sobre o que ordena o Directorio a resp to da
venda do vinho e outras bebidas nas Villas de Indio. In: Livro 22, p. 30. APEC.
83

não o pai. Entretanto, a continuação deste documento ainda fala mais longamente
de outros assuntos acerca do cotidiano dentro das vilas de índios, especificamente
sobre o uso e a comercialização de bebidas alcoólicas. Sobre a venda de vinho,
Sampaio citou o §54 do Diretório, que, segundo ele, aconselhava aos diretores das
vilas que não consentissem que os índios vendessem “os seus gêneros a trôco de
fasendas que lhes não sejão uteis, e precisamente necessarias pa o seu descente
vestuario, e principalmente a trôco de agoardente e de outras bebidas superfluas ao
seu uso”.75 Na verdade, o parágrafo citado é o §40, que diz o seguinte:

Ficando pois na liberdade dos Indios ou vender seus fructos por


dinheiro, ou commutallos por fazendas, na fórma que costumaõ as
mais Nações do Mundo; sendo innegavelmente certo, que entre as
mesmas fazendas, humas taõ nocivas aos Indios, como he a
aguardente, e outra qualquer bebida forte; e outras se devem reputar
superfluas, attendendo ao miseravel estado a que se achaõ
reduzidos; naõ consentiraõ os Directores, que elles commutem os
seus generos por fazendas, que lhe naõ sejaõ uteis, e precisamente
necessarias para o seu decente vestido, e das suas familias, e muito
menos por aguardente que neste Estado he o fiminario das maiores
iniquidades, perturbações, e desordens.76

Nesta passagem estão interligados dois elementos da política civilizatória


voltada para os índios. Além da questão do comércio ilícito de bebidas, vemos
também que se queria evitar que os nativos se privassem de suas “vestimentas”
para conseguir essas mercadorias, algo fundamental para a formação de um
cotidiano civilizado. Nesse contexto, o que era exigido para a civilização dos
indígenas não era a indumentária ancestral dessas populações, mas roupas que
imitassem o estilo europeu de se vestir. O comércio em si era admitido, mas não era
adequado que, por causa dele, os nativos se privassem de seu vestuário. As trocas
comerciais eram não só permitidas, mas também estimuladas, seguindo os
costumes das “mais nações do mundo” civilizado. O problema é que os diretores das
vilas deveriam estar atentos às trocas feitas pelos índios, para que estas fossem
úteis à sua decência – a partir de um conceito de utilidade que vinha do universo
europeu.
Seguindo na leitura do ofício do governador, este ainda acrescentou o §55,
que “prohibe expressamente a introducção de agoardente nas Povoaçoes de Indios,

75
Junho 14. Officio dirigido ao Director de Mecejana sobre o que ordena o Directorio a resp to da
venda do vinho e outras bebidas nas Villas de Indio. In: Livro 22, p. 30. APEC.
76
DIRECTORIO, 1983, p. 18.
84

e se determinão as penas em que incorrem os que a introdusirem”. Enganando-se


novamente, o parágrafo a que Sampaio se referia era, na verdade, o §41, que visava
77
“extinguir totalmente o injusto, e prejudicial commercio da aguardente” entre os
indígenas. Lembrou ainda “a boa policia” que era preciso ter na vila; e como os
citados parágrafos só proibiam a venda da aguardente, e não do vinho, ordenou ao
diretor de Mecejana que fizesse uma intimação ao fornecedor das bebidas Antonio
Cavalcante, para que

[...] na venda do seu vinho proceda com a maior parcimônia, evitando


que os Indios possaõ embriagar-se, sendo-me o dito Cavalcante
responsavel por todas as desordens que hûa tal venda venha a
occasionar, e ficando na intelligencia de que logo que sobrevenha
alguma desordem se lhe prohibirá immediatamente a continuação da
venda.78

Pelo fato de a produção do vinho ser algo tradicional da cultura portuguesa, a


sua comercialização não podia ser proibida, mas isso não eliminava a preocupação
sobre as possíveis “desordens” que esta venda poderia provocar. E, caso o
processo civilizatório por que passavam os índios fosse atrapalhado pelos excessos
desse comércio, o próprio vendedor seria responsabilizado.
Essa atenção dada ao cotidiano dos índios em relação ao consumo de
bebidas não constituiu fato isolado: sete anos antes, em agosto de 1812, o diretor de
Monte-Mor Novo impediu a venda de cachaça nessa vila. Em resposta, o
governador Sampaio não só parabenizou a atitude, como também reforçou a
posição de sua política, citando inclusive a legislação pombalina:

Approvo o procedimento que vmce teve com Venancio Ferreira Lima


e Manuel Felipe de Castello Branco embarasando-os que
introdusicem agoardente nessa Villa como Ordena o Directorio. Nisto
não fez Vmce nem mais nem menos do que Sua Obrigação e se
assim não fisesse seria por mim asperamente Reprehendido. Vm ce
os advertirá de que por esta vez poderão fazer retirar para onde bem
lhe parecer a dita agoardente com tanto que seja para fora de todo o
termo dessa Villa.79

Nestes dois registros, identificamos dois elementos em comum: ao mesmo


tempo em que há uma preocupação acerca da entrada de bebidas alcoólicas nas
vilas de índios, a sua venda não é destruída por completo. O comércio e
77
DIRECTORIO, 1983, p. 18.
78
Junho 14. Officio dirigido ao Director de Mecejana... In: Livro 22, p. 30. APEC.
79
Agosto 9. Registo de hum Officio dirigido ao Sargmor e Diror dos Indios de Monte mor o Novo. In:
Livro 15, p. 103V. APEC.
85

desenvolvimento econômico deveriam aliar-se a um cotidiano civilizado, e, por isso,


a vigilância em cada local era detalhada e reforçada, para que uma coisa não
interferisse no aperfeiçoamento da outra. Contudo, o primeiro documento contém
algo a mais, que nos ajuda a perceber o quanto o consumo desses produtos poderia
ser danoso à “civilização” dos índios: havia o temor por parte do governo de que
estes trocassem suas roupas por cachaça ou vinho.
A questão do vestuário para os indígenas não era apenas um detalhe, mas
algo destacadamente presente nas recomendações pombalinas e nas políticas
locais. Assinale-se que o trabalho de Elisa Garcia fala das providências dos
governos do Rio Grande e do Rio de Janeiro em prover os guaranis que foram
estudar na capital brasileira, no final do século XVIII, de vestimentas adequadas,
demonstrando a importância desses itens para aquela sociedade do Antigo
Regime.80
Sampaio teve preocupação semelhante em relação às tropas indígenas
vindas do Ceará que lutaram contra os insurgentes pernambucanos em 1817. 81 No
mês de agosto, quando a revolução já havia sido derrotada e os índios retornavam
para suas vilas, o governador ordenou ao Intendente da Marinha por meio de uma
portaria que distribuísse pano de algodão para os soldados indígenas:

O Senhor Inte da Marinha [...] tome as medidas necessarias para que


com a possivel brevidade se distribua a pano de Algudão necessario
para uma Camiza, e humas Seroulas a cada hum dos Indios que
acabão de chegar das Fronteiras da Capitania, e que ha tempos se
empregão na defesa da Capitania sem estipendio algum.82

Mais de um mês após o envio dessa portaria, no dia 24 de setembro,


Sampaio enviou outro ofício sobre o mesmo assunto, agora para o capitão-mor de
Monte-Mor Novo. Dessa vez reclamava da demora do envio dos ditos panos de
algodão para os índios, que até esta data não haviam sido mandados:

Ainda ategora nenhuma solução me tem vm e dado sobre o pano de


algudão que lhe encommendei para dar aos Indios, que muito lhe
estranho, e por que este negocio não deve admittir demora alguma
Ordeno a vm e que quanto antes compre, e faça remetter para esta
Capital todo o panno de algudão que ahi houver [...] no que espero

80
GARCIA, 2009, p. 158.
81
Sobre a participação de tropas indígenas do Ceará na Revolução Pernambucana de 1817, vide
capítulo 04 – tópico 4.4, p. 151 – e capítulo 05 – tópico 5.2, p. 195.
82
Agosto 4. Portª ao Inte da Marinha pª q’ se distribua o pano de Algudão pelo Indios q’ forão á
Campanha. In: Livro 28, p. 58. APEC.
86

que vme não tenha descuido algum por que ja a demora que tem
havido me tem desgostado muito.83

Pela leitura dos documentos, somos tentados a pensar que a presença


desses tecidos e roupas seria um benefício àqueles soldados que, como disse o
governador, lutavam havia tempo sem pagamento. Porém, essa urgência vinha
muito mais do governo do que dos próprios índios – já que, como sabemos, havia o
receio nesse período de que esses artigos pudessem ser cambiados por
mercadorias tidas como supérfluas. De fato, a vestimenta era artigo essencial para
um povo que se pretendia em vias de civilização, ainda mais quando se tratava de
uniformes para homens que defendiam o nome do rei de Portugal.
Outra manifestação de Sampaio em que vemos sua priorização no que se
refere às vestimentas foi acerca do uniforme dos chamados “índios correios”, que
trabalhavam no serviço de entrega de correspondências entre as vilas do Ceará e
outras capitanias.84 Em dezembro de 1819, já próximo do fim de seu mandato, o
governador se comunicou com o administrador geral do “Correio do Norte do Brasil”
em Pernambuco, agradecendo as “attensiosas expressoens” de sua “estimadissima
carta”, como também o “agasalho que se tem dignado prestar aos Indios Correios
desta Capitania”.85 Neste caso, esse uniforme se destinava a índios que eram
funcionários de um estabelecimento que se voltava tanto para o progresso
econômico como também para a civilização do Ceará. Pela magnitude e razão deste
projeto, a vestimenta também se colocava como um importante quesito.
Esse âmbito da política indigenista do governo Sampaio se embasava da
mesma forma nas leis do Diretório dos Índios, que, em seu §15, ressaltava como era
“lastimoso o desprezo, e tão escandalosa a miséria, com que os Indios” costumavam
se trajar, e, por isso, era preciso instituir ações que os conduzissem a “hum virtuoso,
e moderado desejo de usarem de vestidos decorósos, e decentes”. Para os autores
dessa legislação, a “nudez” dos indígenas era efeito da rusticidade em que viviam –
situação oposta a da civilização – reduzindo dessa maneira “toda esta Corporaçaõ
de gente á mais lamentavel miséria”. Por isso, era ordenado aos diretores das vilas
que persuadissem os índios a “adquirirem pelo seu trabalho com que se possaõ

83 o mor a
Setembro 24. Off ao Cap de Monte mor o Novo Sobre o Algudão q’ se lhe encomendou p os
Indios q’ marcharão pa as Fronteiras. In: Livro 21, p. 178. APEC.
84
Sobre os “índios correios”, vide capítulo 04 – tópico 4.5, 160.
85
Dezbro 15. Carta ao Administrador Geral do Correio de Pernambuco tendo presente hûa Carta
tendente ao agasalho do Indios Correios. In: Livro 29, p. 13. APEC.
87

vestir á proporçaõ da qualidade de suas Pessoas, e das graduações de seus


póstos”.86 Eis uma das razões da necessidade de terem sido providenciadas as
vestimentas adequadas aos nativos que colaboravam para o desenvolvimento
econômico do Império – como os índios correio – e com aqueles que lutaram em
defesa do monarca em 1817.
Por sua vez, roupas, bebidas alcoólicas, vida familiar e até mesmo a relação
com os vizinhos: a política civilizatória de Sampaio, embasada no Diretório,
pretendia chegar às maneiras e aos costumes mais minuciosos e cotidianos da
população indígena. Por outro lado, tais setores aqui abordados não se isolavam no
universo das ações governamentais voltadas para os índios, pois, ao contrário, se
conectavam com outras realidades, como o desenvolvimento econômico da
capitania, o aumento do corpo de fiéis da Igreja e súditos do rei, e, finalmente, a
“glória” do Império de Portugal. Todos esses elementos dependiam um do outro, se
complementavam e se alimentavam.
Expandidas até o continente americano, e dominando seus povos nativos, as
grandes nações conquistadoras europeias como Portugal se colocavam na condição
de “missionárias” da civilização, tanto para a “salvação” dos conquistados quanto
para o engrandecimento de seus países. Seja como for, a “consciência de sua
própria superioridade, dessa ‘civilização’”, serviu às nações conquistadoras desse
período como “justificativa de seu domínio”.87 Porém, mais do que uma justificativa,
era objetivo desse governo e da política pombalina instalar a “paz interna do país” –
como disse Elias – e que, nesse contexto, foi representada pelo sucesso da
economia, da religião e do próprio reino. Para tanto, era preciso que fossem
extirpados por completo os costumes ainda “bárbaros” dos índios.
Por outro lado, a “civilização” dos índios no Ceará agia como algo que ia bem
além de uma política de pacificação interna. O que estava em jogo aqui era o próprio
domínio em relação a seu povo, que, nesse período, vivia às margens do Império
em uma região tida como atrasada, isolada e mal estruturada. Não que houvesse
ameaças de revoltas separatistas, mas a imposição do poder metropolitano era frágil
nessa capitania e em sua população, tida como bárbara, violenta, e dominada por
potentados locais que se desenvolveram praticamente “independentes” do governo
regional e central. Por isso, o processo de civilização dos povos indígenas no Ceará

86
DIRECTORIO, 1983, p. 7.
87
ELIAS, 1994, p. 64.
88

– que aí se configuravam como os mais “bárbaros” e a força motriz de sua economia


– era fundamental para a “paz interna do país” – com a plena integração de seus
povos e domínios – e, consequentemente, para a glória de Portugal.

3.4 O equilíbrio da dominação

Na história que queremos construir, o vetor para onde apontava o poder não
era uniforme nem se dirigia em apenas um sentido. A relação que Portugal
sustentava com os povos indígenas de sua Colônia americana não se resumia
somente pelo uso da força e da violência, e nem podia ser assim. A dependência
que a metrópole mantinha em relação à população “incivilizada” era considerável
para os planos que estabeleceu para esta região. A civilização levada ao Ceará não
se configurava somente como justificativa para a dominação, muito menos como
aval para o massacre ou a usurpação. Se por “governo” entendemos o
gerenciamento da relação de um povo com seu território, é possível deduzir que
este se dava de maneira bastante limitada nesta periferia do Império português.
Entre habitantes nativos tidos como extremamente violentos e potentados locais
semi-independentes das autoridades centrais, os índios, maior grupo “étnico” da
capitania e pouco afeitos a receber ordens, eram conhecidos por sua liberdade de
trânsito, também chamada na época de dispersão ou “vadiagem”.
As intenções do governo português com os indígenas não foi simplesmente
forçá-los ao trabalho disciplinado, mas a algo bem mais profundo, aparentemente
subjetivo, porém com foco muito claro. Os grupos tecnicamente desenvolvidos,
pretensos da instalação dos valores civilizados, agiam de maneira praticamente
missionária, no sentido de que era necessário levar esses indivíduos, ainda
bárbaros, a mudar essa identidade, transformá-los em súditos fiéis e produtivos,
mostrar-lhes a glória de pertencer ao mundo civilizado. Por isso, não era concebível
que tal relação se caracterizasse apenas por um confronto, já que, nesse jogo,
índios e governo não estavam necessariamente em lados opostos. Por parte dos
líderes políticos, o grande desafio, ou dilema, era justamente encontrar um equilíbrio
entre o rigor que exigia a disciplina e a “benevolência” de proteger ou premiar
aqueles povos que precisavam de tutela, de serem conduzidos a um estado que
superasse por completo a gentilidade.
89

A historiografia tradicional, ao tratar do governo de Manoel Ignácio de


Sampaio no Ceará, costuma caracterizá-lo como “marcado por um forte processo
repressivo, principalmente sobre os povos indígenas”. 88 Sendo intransigente com
qualquer desvio ao seu projeto de fazer do Ceará uma sociedade disciplinada e fiel
ao rei de Portugal, o dito governador, segundo Raimundo Girão, acabou levando a
fama de tirano por muitos pesquisadores,89 que encontravam embasamento nos
diversos documentos do período relativos às várias prisões executadas durante o
seu mandato.
Um olhar descuidado pode concluir que a violência do Estado contra os índios
deste período se explicava por si só, ao analisar, por exemplo, a ordem passada em
setembro de 1812 ao comandante do Aracati, para “prender, e recolher á Cadeia
dessa V.a huma India Cega e Velha q’ mora no largo do Retiro em comp. a dela as
filhas e duas netas menores e depois de presa huma e outras me dará p. te”.90 Pelo
fato de o registro não esclarecer o motivo da prisão, torna-se difícil de imaginar qual
seria a grande ameaça que poderia oferecer uma índia idosa e deficiente,
juntamente com suas filhas e netas, mas é possível imaginar o nível de rigor desse
governo em relação à população.
Por conseguinte, além de toda essa rigidez, as atitudes governamentais
voltadas aos povos indígenas no Ceará tinham direcionamentos bastante precisos,
inclusive quando punia. O controle, a vigilância e a repressão que faziam parte do
plano político de Sampaio não tornavam os “bons tratos” do governo para com os
índios – cujos registros não são poucos nas fontes documentais – ações
“paradoxais”, mas agiam com estes de forma conjunta. Adjetivar de tirânico este
governo não o define, seja por suas limitações seja por conta de seus objetivos.
Conforme dissemos, não era possível aos líderes estatais simplesmente massacrar
ou eliminar essa população; e, mesmo assim, não eram esses os objetivos. Dessa
forma, pretendemos neste trabalho, através da análise documental, compreender a
lógica deste equilíbrio da política indigenista no Ceará do século XIX.

88
PINHEIRO, 2008. p. 319.
89
GIRÃO, Raimundo. Pequena história do Ceará. Fortaleza: UFC, 1984. p. 121.
90
Septembro 15. Registo de hum Offo dirigido ao Cel. Commde da V.a do Aracati Ordenando-lhe huma
prisão. In: Livro 15, p. 142. APEC.
90

3.4.1 Controle, vigilância e repressão

Um dos grandes problemas enfrentados pelo governo consistia na dificuldade


em controlar o cotidiano da população indígena, tão importante a seus planos de
desenvolvimento da região. Pela significativa dispersão em que se encontravam –
dado que neste período grande contingente de índios que se encontravam fora de
suas vilas de origem sem a autorização devida e que por esse motivo diminuía a
disponibilidade de mão de obra e tornava mais difícil impulsionar um processo de
“civilização” dos costumes – uma das primeiras ações de Sampaio no Ceará foi
instituir políticas de mapeamento e controle populacional. Para este governador, era
fundamental ter o exato registro de todos os indivíduos indígenas em cada vila,
tendo conhecimento de sua localização e situação perante o Estado e a sociedade.
Com isso, era possível punir adequadamente aqueles que se rebelassem.
No primeiro ano de seu governo, Sampaio enviou diversos ofícios para os
diretores das vilas de índio exigindo a confecção de mapas da população, tratando
da prisão dos que estavam dispersos e mostrando, com tudo isso, em que sentido e
com que objetivos se dirigia todo esse controle.91 Comunicando-se com o diretor de
Soure em setembro de 1812, Sampaio avisava que lhe havia ficado “entregue do
Mappa dos Indios da sua direcçaõ”, além do castigo dado ao índio Francisco
Quaresma e das “palmatoadas” que ordenou contra a índia Quitéria.92 Já no mês de
dezembro enviou circular a cada diretor das vilas de índio do Ceará, ordenando que
em janeiro do ano seguinte passassem:

[...] mostra aos Indios de sua Direcção remettendo-me depois huns


ou mais Mappas na forma do q’ agora lhe envio para modello que
Vmce me tornará a remetter depois de o faser copiar afim de que eu
possa fazer recrutar o grande numero de Indios que andão
dispersos. Semilhantemente e para o mesmo fim me remetterá Vm ce

91
De acordo com Michel Foucault, desde pelo menos o século XVIII, governar um Estado significava
“estabelecer a economia em nível geral do Estado, isto é, ter em relação aos habitantes [...] uma
forma de vigilância de controle tão atenta quanto a do pai de uma família”. Para o autor, a partir deste
período, a população passa a aparecer “como um dado, como um campo de intervenção, como o
objeto da técnica de governo”. “Gerir a população significa geri-la em profundidade, minuciosamente,
no detalhe”. Cf. FOUCAULT, Michel. A governamentalidade: curso do Collège de France, 1 de
fevereiro de 1978. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p. 281;
291.
92
Septembro 30. Registo de hum Officio dirigido ao Director dos Indios de Soure sobre varios
Objectos. In: Livro 15, p. 161V. APEC.
91

huma Relação das Indias da sua Direcção que andão dispersos com
a declaração do lugar em q’ tiver noticia que ellas se achão.93

Entre ordens e castigos, as ações do governo caminhavam no estreitamento


do espaço imposto à liberdade cotidiana dos índios. Como ficou registrada no
documento supracitado, a dispersão era a grande vilã dos planos civilizatórios, e o
monitoramento individual se fazia necessário para melhor disciplinar e punir. Tal
controle, longe de ser aleatório ou geral, era feito em nível local, e cada vila deveria
ter o registro exato de sua população indígena, fazendo chegar ao conhecimento do
governo central da capitania quais eram os que estavam à margem da ordem.
A comunicação de Sampaio para combater essa realidade também era feita
com as autoridades dos lugares onde abrigavam esses índios que se encontravam
ilegalmente fora de suas vilas de origem. Com isso, era possível não apenas
identificá-los como também prendê-los e remetê-los de volta. A intenção dessa
política era tanto suprir a necessidade de mão de obra da capitania – que tinham as
vilas de índios como verdadeiros “celeiros” de trabalhadores94 – como do mesmo
modo evitar os “distúrbios” que eram atribuídos a estas pessoas. A falta de um
controle minucioso por parte do governo geraria, na perspectiva do Estado, uma
situação de “caos” social; ainda mais quando se tratava de índios, povos que
estariam em um processo ainda incompleto de civilização. Estando dispersos – ou
seja, fora de suas vilas – não poderiam ser obrigados a trabalhar e a reprimir seus
hábitos ancestrais, afastando-se assim das diretrizes do Diretório dos Índios. Logo, a
dominação agia nesses casos como um inibidor da liberdade “desenfreada” e
danosa dos indígenas, executando prisões e punições para trazer de volta os índios
às suas vilas e para corrigir-lhes o “vício”.
Os castigos, todavia, também precisavam ser monitorados e gerenciados, e
tinham um caráter educativo para a lei. Por esse motivo, o ato de punir não pode ser
definido como uma marca da suposta truculência desmedida de um governo
violento, correndo o risco de, com isso, passarmos por cima de razões, interesses e
objetivos bem mais complexos. A preocupação por parte de Sampaio sobre o
tratamento dado pelas autoridades locais com aqueles que cometiam ações ilícitas
nos mostra esse direcionamento político. Em novembro de 1813, por exemplo, o

93
Desembro 16. Registo de hum Officio Circular dirigido aos Directores dos Indios desta Cap ia para
passarem mostra a todos os Indios das suas Direcções remetendo Mappas dellas. In: Livro 16, p. 70.
APEC.
94
Sobre trabalho indígena, vide capítulo 04 – tópico 4.2, p. 122.
92

governador parabenizou o diretor de Monte-mor Velho pela sua cautela em relação a


alguns índios agressores, dizendo-lhe que:

[...] fes muito bem em não mandar castigar com palmatoadas os tres
Indios Pai, filho, e genro que maltratarão outro Indio tambem dessa
Direcção. He pois necessario que VMce remetta para esta Capital
com a devida segurança aquelles aggressores afim de serem aqui
competentemente castigados.95

Bem além de agressões cegas, o governo queria era corrigir as atitudes


“bárbaras” dessa população, fazendo valer o que prescrevia a lei imperial. Porém,
sabendo que a realidade entre as autoridades locais era bem diferente do que
pretendia o poder central, Sampaio acompanhava de perto cada ação diante desses
acontecimentos. O que se queria de fato, ao tentar transformar esses homens em
súditos fiéis e disciplinados, não era apenas sua submissão, mas a inserção sincera
dessa população no mundo civilizado. Por isso, rotular esse governo de
marcadamente violento esconde não só esse caráter subjetivo, que vimos acima,
mas também, além dele, o seu lado “protetor”, ao cuidar dos índios diante de
injustiças cometidas contra eles.

3.4.2 A questão dos bons tratos

O equilíbrio que pretendia manter o governo em relação ao tratamento com os


indígenas da capitania revela uma complexidade bem maior do que a simples
truculência. Conforme vimos, a repressão que ocasionalmente era executada atingia
objetivos bem precisos, e aliava-se também com o combate aos maus-tratamentos
que eram dirigidos a esta população e a favor de sua integridade física. Assinale-se
que Sampaio moveu o poder público, inclusive, em relação ao tratamento de índios
atingidos por moléstias, como aconteceu em 1814, durante um surto de varíola –
conhecida à época como “bexiga” – na capitania. Em maio deste ano, o governador
mandou tratar “e assistir pelo Hospital Real Militar, o Indio q’ se acha com bexigas e
que acaba de chegar a este Porto em hûa balsa vinda de Pernambuco”.96 No mês
seguinte, nova ameaça: Sampaio ordenou que o Hospital Real Militar de Fortaleza
recebesse “o Indio Pedro Dias famullo [criado; serviçal] de Clemente Tavares da

95
Novembro 16. Registo de hum Officio ao Director de Monte mor o Velho p a remetter huns Indios
presos pa esta Capal. In: Livro 18, p. 6V. APEC.
96
Maio 11. Rego da Portaria ao Intendente enterino da Marinha p a mandar tratar a hum Indio q’ esta
com bexiga. In: Livro 27. APEC.
93

Luz, que se acha doente de bexigas”, e que “no seu curativo e assistência se
guardem as devidas cautelas a fim de que esta molestia se não torne contagioza”. 97
A necessidade da cura física dos índios no Hospital Militar se soma também
ao perigo que a varíola poderia causar ao restante da capitania, transformando-se
em epidemia. Desde o século XVIII, o ambiente hospitalar, especialmente o marítimo
e o militar – como o que recebeu os índios doentes – passou por uma transformação
em que deixou de ser somente uma instituição de assistência, mas também de
separação e exclusão. Adquirindo essas características, o “indivíduo e a população”
passam a ser “dados simultaneamente como objetos de saber e alvos de
intervenção da medicina”. O saber médico que se formou no Ocidente desde os
setecentos era “tanto uma medicina do indivíduo quanto da população”.98 Ou seja, a
atenção curativa, detalhista e minuciosa que se dava ao indivíduo no hospital estava
estritamente conectada com as consequências que isso poderia gerar à população,
como o risco de uma epidemia.
Contudo, a morte ou o dano físico em um índio na sociedade do Ceará
oitocentista estava atrelado também aos prejuízos econômicos e sociais que esta
perda poderia causar: um indígena a menos significava um soldado, um trabalhador,
um fiel católico e um súdito do rei a menos. Foi por esta condição que se explicou o
tratamento prestado ao índio Ignácio Francisco, que foi encaminhado ao Hospital
Real Militar em julho de 1816 por ter sido “gravemente ferido e maltratado pelo
Soldado desta Guarnição Manoel Correia do Espirito Santo”.99
Nesse caso, a pesquisa documental não conseguiu revelar os motivos do
desentendimento, o desfecho da saúde de Ignácio Francisco e o destino ou a pena
posta contra soldado Manoel do Espírito Santo – se realmente alguma pena foi
infringida sobre ele. Mas a impunidade contra quem maltratava os índios não era
regra, sendo prioridade de Sampaio não só o combate aos maus-tratamentos, mas
também a busca e a condenação aos culpados. O caso da morte de um índio em
abril de 1815 foi um exemplo: depois de terem sido presos os acusados Pedro
Marques e Manoel Joaquim de Santa Anna, “que assassinarão tão cruelmente
Fidellis Domingues em Sua propria Casa”, o governador ordenou ao capitão-mor de

97 o a
Maio 28. Reg da Portaria ao Intendente da Marinha p mandar tratar ao Indio Pedro Dias. In: Livro
27, p. 88. APEC.
98
FOUCAULT, Michel. O nascimento do Hospital. In: FOUCAULT, 2007. p. 111.
99
Julho 1. Portaria ao Inte Intro da Marinha pa mandar tratar hum doente pelo Hosp al Rl Militar. In:
Livro 28, p. 10V. APEC.
94

Sobral que fizesse possíveis “diligencias para ser igualmente preso o terceiro Socio
no mesmo assacinio cujo nome eu ignoro”.100
Mesmo fazendo parte de um estrato inferior desta sociedade colonial, o
assassinato de um índio – e em sua própria residência – não passava despercebido
pelo governo nem era considerado um evento irrelevante. Além de ser uma atitude
hedionda, que negava completamente os planos civilizatórios de Portugal, a perda
de um índio representava um grave prejuízo, fato já citado anteriormente. Esta
dependência que o governo imperial tinha dos índios – bem como de sua perfeita
saúde e condições para trabalhar e fazer parte do reino enquanto um súdito
civilizado – gerava uma ligação que refletia diretamente no posicionamento das
autoridades frente esta população.
Por meio da análise da conflitante relação entre nobreza e burguesia das
sociedades absolutistas europeias, Norbert Elias concluiu que, por conta do “alto
grau de interdependência e tensão” entre esses dois setores, o refinamento dos
costumes aristocratas tendeu a aumentar. Para o autor, a constante pressão vinda
dos estratos mais baixos – os burgueses – foi uma das “mais fortes forças
propulsoras [...] do refinamento especificamente civilizado que distinguiu os
membros dessa classe superior das outras”. Ou seja, o objetivo último dessa
intensificação e aprimoramento de hábitos corteses era “exatamente distinguir-se,
conservar-se como uma formação social à parte, um contrapeso à burguesia”.101
Porém, a verdadeira e clara intenção do Império português com os índios na
América, presente no Diretório dos Índios, não era estabelecer uma separação entre
eles: ao contrário, o que se queria de fato era a total integração dos indígenas na
sociedade ocidental. Por isso, essa necessidade de inserção destes povos – através
da civilização de seu cotidiano e da consequente extinção das diferenças entre
índios e brancos – somada à dependência econômica que a metrópole lhes tinha,
provocava o combate à repressão e à violência contra os índios por parte dos
poderes locais ou de outros grupos que habitavam os sertões do Ceará. Para o
governo – representando o rei português – era preciso colocar-se diante dos
indígenas como uma entidade protetora e benevolente, mesmo com todo o rigor. Só

100
Abril 29. Offo ao Capmor do Sobral accusando hum Offo e pa prender o q’ acompanhou a matar o
Indio Fidelis. In: Livro 20, p. 9V. APEC.
101
ELIAS, 1993. p. 250 e 251. v. 2.
95

assim seria possível convencer os nativos a fazerem parte do corpo de súditos da


Coroa portuguesa.
Todavia, esse projeto de ocidentalização, pretendido pelo governo de
Portugal, não visava estabelecer uma igualdade entre os diferentes setores da
sociedade colonial. Naquele universo, a grande maioria dos índios era excluída de
diversas formas do poder, seja por não pertencerem à metrópole, por não serem
brancos ou por não fazerem, muitas vezes, parte da elite (nem mesmo local). Até
mesmo as lideranças civis e militares indígenas, que em séculos passados
adquiriram bastante prestígio e poder por seus serviços à Coroa, no século XIX não
tinham a mesma importância para o governo. Neste contexto do Antigo Regime, a
plena integração dos índios significava, ao mesmo tempo, manter as diferenças em
relação aos outros estratos sociais e civilizar; ou seja, fazer com que eles
absorvessem os costumes do mundo europeu. Ao buscar uma igualdade – mesmo
que a longo prazo – entre brancos e índios, o Diretório não queria de igual forma a
paridade entre ricos e pobres ou a Corte e o Sertão, por exemplo.
Mas mesmo com todas essas divergências, até mesmo a periferia deveria ser
integrada ao Império como um todo, e, para que isso fosse possível, também era
preciso civilizar a sua população. Desta forma, ao tratar do processo civilizador nas
colônias europeias, Norbert Elias concluiu que a necessidade dos impérios
metropolitanos não era apenas de terras, “mas também de pessoas. Elas têm que
ser integradas, seja como trabalhadores seja como consumidores”. Isso significaria,
para o autor, “‘civilizar’ os colonizados”, e esse processo não poderia ocorrer
“exclusivamente pela força e ameaças físicas”, mas também pelo que chamou de
“modelação de seu superego”. Elias também notava naquelas relações coloniais
uma “forma primitiva de ascensão, não ainda do grupo nativo como um todo, mas de
alguns de seus membros”, que absorviam o “código dos grupos superiores” e
passavam “por um processo de assimilação”.102
Quando analisamos o contato dos povos indígenas com o governo europeu,
ou com o que o autor chamou de “grupos superiores”, identificamos uma série de
divergências com o trecho por nós extraído da reflexão de Elias. Em primeiro lugar,
ao invés de “assimilação”, talvez seja mais apropriado falar em “apropriação” dos
códigos do colonizador, que era feita conscientemente pelos índios. Em seguida,

102
ELIAS, 1993, p. 259.
96

esta mesma apropriação não era praticada apenas por “alguns membros” da
Colônia, mas por todos os setores sociais atingidos e geridos pelo Império
português. Por fim, o “processo civilizador” levado para as colônias americanas não
era direcionado somente para sua elite ou para os setores em “ascensão” social; e
estes não eram da mesma forma os únicos a conhecer os elementos desse universo
nem a usá-lo em benefício próprio. Mesmo constituindo estratos inferiores nesse
mundo, os índios também eram atingidos por essa “civilização”, tinham consciência
de suas contradições e dependências e sabiam se utilizar dela, a pesar do pouco
espaço que dispunham.
Os índios, cientes dessa condição, aprenderam a transitar nesse universo
aparentemente contraditório – mas repleto de intenções – e souberam usar os
trâmites legais para realizar seus próprios interesses – que nem sempre se
contradiziam com os do governo – e se protegerem de agressões e injustiças que
eram cometidas contra eles. Ainda no primeiro ano de seu mandato, no mês de abril
de 1812, Sampaio ordenou ao comandante de Santa Cruz de Uruburetama (atual
Itapajé) para que tomasse providências a favor do índio Alexandre Lourenço, que,
por meio de um requerimento, reclamou da dívida que Jose Bernardo Uchoa tinha
com ele.103 No mês seguinte, o problema parece não ter sido resolvido, e, diante
dessa situação, o governador foi rigoroso com o devedor, ao ordenar que este fosse
notificado para comparecer à presença do mesmo comandante. Caso não
obedecesse, Jose Bernardo deveria ser preso “no tronco por espasso de 8 dias
findos os quaes o deverá Soltar huma ves que elle tenha Satisfeito o que deve ao
Indio Alexe Lourenço”.104
Dois elementos desse episódio nos chamaram a atenção: primeiramente, a
atitude do índio em produzir um requerimento encaminhado às autoridades,
reclamando dos danos que lhes causavam, foi uma mostra de como essa
população, mesmo sendo dominada pelos ocidentais, sabia utilizar os elementos
deste universo colonial105. A dominação buscava constantemente um equilíbrio
justamente pelo fato de que os índios não eram pacificamente submetidos, e mesmo
fazendo parte de uma conjuntura onde não poderiam ir abertamente de encontro,

103 m o e a
Outubro 8. Registo de hum Officio dirigido ao Cap Franc de Salles Gomes Comd de St Cruz da
Uruburetama Sobre Varios Objectos. In: Livro 15, p. 172. APEC.
104
Novembro 13. Reggisto de hum Officio dirigido ao Comd e de Sta Cruz Franco de Salles Gomes
Sobre Varios Objectos. In: Livro 16, p. 32. APEC.
105
Para uma análise sobre requerimentos indígenas, vide capítulo 05 – tópico 5.4, p. 230.
97

encontravam meios para utilizar as situações em seu favor. Em segundo lugar, o


devedor não levou vantagem no conflito por estar contra um indígena; muito pelo
contrário, a pena a que estava submetido, caso não saldasse a dívida, seria
impiedosa, sendo colocado no tronco por mais de uma semana. Sampaio,
conhecedor deste contexto e do lugar dos índios nesta sociedade, agia a favor deles
nesses momentos, buscando configurar uma situação na qual, mesmo com toda a
disciplina, controle e vigilância, os nativos pudessem visualizar no reino português a
nação da qual deveriam fazer parte.
Mesmo na questão do trabalho em que os indígenas estavam submetidos,
fazendo serviços de aluguel a proprietários, o governo da capitania também se
impunha em sua defesa contra possíveis irregularidades. Ou seja, o ambiente onde
era mais visível a imposição do controle e da disciplina não poderia se transformar
em lugar de suplício para os índios, e muito menos que lá fossem tratados como
escravos. Um caso que nos chamou a atenção pelo tamanho da ação movida pelo
governador aconteceu por conta da denúncia de maus-tratos ocorridos na casa de
um morador da Vila do Aquiraz. Em resposta, Sampaio expediu, além de um ofício
ao diretor de Monte-Mor Velho, uma circular aos diretores de Arronches, Soure e
Mecejana, exigindo a prisão do proprietário, caso ele continuasse a contratar
indígenas:

Tendo-me constado o mau tratamento que Antonio da Silveira


morador na Villa do Aquiraz tem dado á India menor de nome Joana
que por Ordem minha Vmce lhe deo a Salario. Constando-me mais
que he desta maneira que elle costuma tratar todos os Indios, e
Indias que tem em sua Casa de Jornal, ou Salario, e sendo tão
recomendado no Directorio, e em outras muitas Ordens Regias [...]
deverem evitar-se por todos os modos possiveis semilhantes abusos,
e Opressoes dos Pobres Indios. Ordeno a vmce [...] que de forma
alguma de mais Indio ou India alguma a Salario ou de Jornal ao dito
Antonio da Silveira [...] e logo que a vmce Conste que o sobredito
Antonio da Silveira tem em seu poder algum Indio ou India
pertencente a essa direcção o deverá vm ce mandar recrutar
remettendo preso á Cadeia desta Fortalesa a minha Ordem o dito
Antonio da Silveira fasendo para tudo uso se necessario for da minha
Ordem geral.106

O governador foi claro em citar o Diretório e as ordens régias que tratavam do


trabalho obrigatório dos índios. Para a lei, essa população não era escrava, e a

106
Maio 30. Officio director de Monte-mor o Velho pª não dar mais Indio algum a Antº da Silveira pelo
mal tratamto que lhes dá; Maio 30. Officio Circular aos Directores de Arronches, Soure e Mecejana
Sobre o mmo Objecto do Officio Supra. In: Livro 20, p. 164 e 164V. APEC. Grifo nosso.
98

obrigatoriedade desses serviços servia, além do desenvolvimento econômico da


capitania, para a sua civilização, que sofreria grave dano caso fosse somada a
violências e injustiças. Compadecendo-se com as opressões sobre os “pobres
índios”, Sampaio impõe o seu rigor contra o proprietário, ameaçando-lhe inclusive de
prisão. Ou seja, mesmo fazendo parte de um grupo social superior – seja em termos
“étnicos” como monetários – ele não estava livre de punições caso agisse de forma
agressiva com os índios.
Como pudemos ver acima, a grande disparidade social que havia nos sertões
do Ceará, somada aos grandes poderes acumulados pelos potentados locais,
poderia provocar relações hostis entre índios e brancos. Nessa sociedade escravista
do Antigo Regime, havia o risco de os indígenas, por constituírem uma comunidade
“inferior” e pelos frequentes serviços que prestavam, serem tratados sem a devida
“benevolência”, prescrita pela lei pombalina ou até de forma semelhante que se
dirigia a um escravo. Além das agressões presentes no documento analisado,
também era possível que se desenvolvessem sentimentos de posse por parte dos
contratantes, não “devolvendo” às suas vilas natais os trabalhadores alugados. Em
fevereiro de 1818, por exemplo, Sampaio passou ordem para que não fosse dada a
licença pretendida pelo cabo de milícias Antonio Pereira Ferreira sem que ele
mostrasse “ter entregue ao Director de Mecejana o Indio que lhe fora dado por
Despacho meu”.107
Essas atitudes possessivas por parte dos empregadores diante dos índios,
juntamente com outras formas de violência, eram combatidas pelas autoridades
portuguesas, que buscavam em suas legislações e políticas indigenistas estabelecer
um equilíbrio na dominação que exerciam. Na parte que trata da força de trabalho
indígena, mais especificamente da sua distribuição entre os proprietários, o Diretório
aconselhava aos diretores das vilas no seu §67 que não consentissem

[...] que os dito Moradores retenhaõ em casa os referidos Indios além


do tempo, por que lhe forem concedidos: O qual se declarará nas
mesmas Licenças, e tambem nos recibos, que os Moradores devem
passar aos Principaes, quando lhes entregarem os Indios. E como a
escandalosa negligencia, que tem havido na observancia desta Lei,
que se declara no parágrafo 5 tem sido a origem de se acharem
quasi desertas as Povoações, seraõ obrigados os Directores, e
Principaes a remetter todos os annos ao Governador do Estado

107
Fevereiro 23. Offo ao Sargmor Ferra accusando huns Offos e Ordenando huma Soltura. In: Livro 38,
p. 49. APEC.
99

huma Lista dos transgressores para se proceder contra elles,


impondo-se-lhes aquellas penas, que determina a sobredita Lei no
referido paragrafo.108

No parágrafo supracitado, podemos ver que as deserções que tinham lugar


nas povoações por parte dos índios estavam diretamente associadas aos maus-
tratamentos que recebiam dos proprietários para quem trabalhavam,
especificamente quando estes os retinham em suas casas durante um tempo maior
do que lhes era concedido. Quanto ao §5, este era direto e objetivo em afirmar que a
civilidade dos indígenas era “a principal obrigaçaõ dos Directores, por ser propria do
seu ministerio”.109 Ou seja, as agressões, injustiças e violências cometidas contra os
índios iam abertamente de encontro ao projeto de civilizar aquela população. Além
disso, o Estado era rígido com aqueles moradores, que fossem considerados
transgressores, ao atrapalhar esse processo, impondo sobre eles as devidas penas.
A importância dos bons tratamentos que eram recomendados pelo
governador consistia no fato de que, além do controle e racionalização, era preciso
criar naqueles indivíduos novos sentimentos e atitudes. Ou seja, o objetivo era fazer
com que aqueles índios, antes bárbaros, quisessem fazer parte do corpo de súditos
portugueses, e, para isso, se fazia necessário protegê-los de ameaças, e conceder
vantagens para os que estivessem realmente alinhados com os planos reais.
Presente em várias legislações desde o período jesuítico, quando se pregava que o
“tratamento preferencial” era “recomendado para trazer os índios à conversão e
aldeamento, e para garantir alianças”, o combate aos maus-tratos praticados contra
os índios também fazia parte da política do governador. Segundo Perrone-Moisés,
se acreditava que “violência e desrespeito” podiam “resultar no abandono das
aldeias”.110
Para o Diretório, em seu §68, era preciso que a distribuição dos nativos entre
os particulares fosse observada “com reciproca conveniencia dos moradores, e dos
Indios, e estes se possão empregar sem violencia nas utilidades daquelles”.111 A
disciplina que era imposta aos índios através do trabalho e obediência ao rei não
deveria estar atrelada a maus-tratamentos, pois estes atrapalhariam a

108
DIRECTORIO, 1983. p. 28-29.
109
Ibid., p. 3.
110
PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação
indigenista do período colonial (século XVI a XVIII). In: CUNHA, Maria Manuela Ligeti Carneiro da.
História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 122.
111
DIRECTORIO, 1983, p. 29.
100

transformação que se pretendia em curso. Concluímos que um dos grandes desafios


de Portugal em estabelecer uma dominação vitoriosa sobre os povos indígenas
estava no fato de que ela não se definia pela tentativa de submeter essa população
a partir de um regime de escravidão. Além de trabalhadores, os nativos deveriam ser
transformados em súditos fiéis, católicos e civilizados, através de um processo que
os livrasse da barbárie dos antigos costumes.
O equilíbrio que o governo lusitano buscava instalar em sua Colônia
americana estava representado nos dilemas que envolviam a urgência em disciplinar
e o cuidado em não tiranizar: a civilização condensava o rigor e a “proteção”. Mas
todo esse esquema poderia ser quebrado na medida em que os índios não
suportassem a violência a eles submetida ou não enxergassem vantagens em
participar do Império português. A falácia da tese de que o mundo colonial se
constituiria como uma página em branco, no qual o querer do civilizador era escrito
livremente, se explicava justamente quando os índios também impunham – da forma
que podiam – o seu próprio querer.

3.5 Os usos da fé
[...] os Indos com o trabalho
das suas pessoas estão com grande
animo de trabalharem na Igreja [...].
Índio Pedro G. da Costa e Vasconcelos (1814).

Com a abolição do poder temporal dos jesuítas sobre os indígenas no século


XVIII, a intenção de levar esses povos à civilização intensificou-se e foi aprimorada.
O Diretório dos Índios, mais do que qualquer legislação anterior à sua criação, agiu
em diversos aspectos, seja na questão do ordenamento do trabalho, na vivência
familiar, como também na prática religiosa. Na verdade, a laicização dos espaços
coloniais promovida pelo Diretório não desvinculou a fé cristã da missão civilizatória
dos europeus na América.

[...] se uma das intenções do Estado português com o Diretório


pombalino era instituir a separação entre os poderes temporal e
espiritual das aldeias, isso não significava que o segundo, pelo
menos em tese, teria menor ingerência estatal, pelo contrário, seria
também diretamente controlado pela Coroa.112

112
GARCIA, 2009, p. 131.
101

No seu último parágrafo, observamos que uns dos principais fins listados
desta prática político-legislativa eram a “dilataçaõ da Fé; a extincçaõ do Gentilismo”
e a “propagação do Evangelho”, juntamente com a “civilidade dos Indios”, 113
estavam, portanto, associadas. Ou seja, apesar de os religiosos (especialmente os
jesuítas) terem perdido bastante força e poder na Colônia, esta classe e suas
freguesias espalhadas pelas vilas de índios ainda exerciam um papel significativo
naquela composição social, já que era fundamental que os nativos abraçassem a fé
cristã para que se tornassem súditos plenos.
Com a virada para o século XIX, especialmente durante o governo de Manuel
Ignácio de Sampaio (1812-1820), o Ceará continuou a aplicar o Diretório como
legislação indigenista em seu território, mesmo já tendo sido abolido na instância
imperial. Por terem diante de si uma capitania bastante periférica dentro do Império
português, e por sua população composta majoritariamente por índios, os
governantes do século XIX viam nestes últimos uma força de trabalho essencial para
o desenvolvimento da economia cearense. Para que isso fosse possível, era preciso
civilizar adequadamente este povo ainda “bárbaro”, e as leis pombalinas eram arma
poderosa nesta empreitada.
Mas a plena inserção dos índios neste mundo ocidental ideal ainda estava
longe de acontecer no início dos oitocentos. Neste período, mesmo depois de todo o
processo que trabalhava no apagamento de seus traços culturais tradicionais e em
sua inserção num mundo civilizado e disciplinado, muitos índios no Ceará ainda
guardavam diversas práticas que remetiam a seu modo de vida ancestral, indo
desde os deslocamentos geográficos, ou à falta de apego a atividades
economicamente produtivas, até a manutenção de suas línguas antigas, mesmo que
de forma restrita.
Em relação à religiosidade, percebemos esta mesma restrição, não nos tendo
sido possível observar na documentação analisada muitas informações a respeito de
ritos e celebrações originais dos indígenas que fugissem dos preceitos católicos e
obrigatórios do período. Temos até o momento poucas informações neste sentido: ‒
uma delas é do relato do viajante inglês Henry Koster. De passagem pelas vilas de
índio, fez algumas observações sobre as práticas religiosas dos nativos:

113
DIRECTORIO, 1983, p. 38.
102

Os indígenas dessas aldeias, e de quantas passei, são cristãos,


embora se diga que alguns entre eles conservam em segredo seus
ritos bárbaros, prestando adoração ao maracá, e praticando todas as
cerimônias de sua religião, se posso usar essa palavra... Mesmo que
a religião Católica Romana possa ter raízes nos seus espíritos,
necessariamente degenera na mais abjeta superstição. Sua adesão
aos ritos supersticiosos, sejam ordenados pela Católica Romana ou
prescritos pela sua antiga crença, é a única manifestação que
denuncia esta constância.114

Pelo menos dois aspectos dessa passagem nos chamam a atenção. Em


primeiro lugar, mesmo sendo o catolicismo majoritariamente praticado pelos índios
das vilas do Ceará, ele foi envolto do que o autor chama de “ritos supersticiosos”, ou
seja, ainda guardando ligações com crenças ancestrais e afastado, de certa forma,
da ortodoxia de Roma. Eram cristãos, sem dúvida, mas a sua maneira. Trabalhar
com a categoria social de índios cristãos, de acordo com Almir de Carvalho Jr., é ter
em conta a relação nada passiva entre dois universos culturais e religiosos que
formaram um novo mundo no qual os indígenas foram obrigados a viver, mas que
também dele se apropriaram:

O novo panorama político e social no qual [os índios] iam aos poucos
se inserindo obrigava-os a uma apropriação dos códigos e do modus
vivendi do mundo cristão e europeu. Formas tradicionais alimentadas
por suas cosmologias entravam em embate com o novo universo
simbólico e político que deveriam adotar. Esse embate de
significados [...] foi [...] o motor que possibilitou a constituição desses
índios cristãos.115

Mas o outro aspecto relevante do texto de Koster é que, ao mesmo tempo em


que grande parte dessa população era cristã – mesmo que supersticiosa – alguns
índios ainda mantinham, de forma clandestina, “seus ritos bárbaros, prestando
adoração ao maracá, e praticando todas as cerimônias de sua religião”. Apesar de o
século XIX ser posterior à criação do Diretório dos Índios, nossa pesquisa nos levou
à conclusão de que “o cotidiano indígena ainda guardava muitas práticas
recriminadas pelas intenções modernizadoras do governo”.116 Os índios João Duarte
e Agostinho da Costa, por exemplo, se achavam presos em 1812 por “impotação

114
KOSTER, 2003, p. 176.
115
CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz de. Índios cristãos: a conversão dos gentios na Amazônia
portuguesa (1653-1769). Tese (Doutorado) ‒ UNICAMP, 2005, p. 55.
116
COSTA, João Paulo Peixoto. O governo Sampaio e os índios no Ceará: políticas de controle e
civilização (1812 – 1820). In: Anais do II Simpósio de história / I Semana de história da UESPI
(Campus Clóvis Moura): história, memória e cultura popular. Teresina: Universidade Estadual do
Piauí, 2010. p. 4.
103

[imputação] dizem lhe fizerão de feitiçarias que praticavam”.117 Mesmo sem saber
dos detalhes acerca dessa prisão, ou mesmo das feitiçarias, vemos que era por
conta dessa realidade que “a política indigenista também estava voltada [...] contra
aqueles que continuassem a exercer os antigos rituais”.118 Todos esses elementos
nos ajudam a concluir que os povos indígenas naquele Ceará que se pretendia
civilizar estavam longe de viver de acordo com o que era prescrito pelo governo
português.
Partindo especificamente para análise do período de Sampaio, tema de nosso
estudo, observamos que mesmo não tendo o mesmo poder de outrora, a presença
da Igreja no cotidiano dos índios era extremamente importante para este
governante. Baseado nos parágrafos do Diretório, observamos que o bom contato
do catolicismo com os nativos era entendido pelo governo como fundamental para o
pleno processo de sua civilização. Dessa forma, é nossa intenção analisar a
importância da Igreja e da religiosidade católica dentro da política indigenista do
governo de Manuel Ignácio de Sampaio no Ceará, e de que maneira eram
encarados e utilizados como ferramentas que agiam em prol da civilização e
transformação dos índios em súditos cristãos e fiéis ao rei. Aliado a isso,
entendemos que “no processo de controle e representação que o poder forjou” no
período colonial, “sempre houve lugar para as apropriações”,119 já que aqueles
índios cristãos também enxergavam o cristianismo como um lugar a ser ocupado e
utilizado em prol de seus interesses. Logo, também é nosso objetivo caracterizar a
ação dos indígenas enquanto inseridos e, consequentemente, atuantes nesse
universo.

3.5.1 A exigência do bom tratamento

Temos poucos registros acerca da relação que as freguesias e os vigários


das vilas de índio mantinham com sua população; e os detalhes são mais escassos
ainda. Mas algo que aparece recorrentemente na documentação do período
Sampaio é a preocupação deste governador com o tratamento dado aos nativos
pelos religiosos. Para além da noção que geralmente se tem de que as políticas
coloniais voltadas aos povos indígenas eram compostas unicamente por práticas

117
Maio 8. Registo de hum Officio dirigido ao Capitão Jose Agostinho Pinheiro. In: Livro 95, p. 25.
118
COSTA, 2010, p. 4.
119
CARVALHO JUNIOR, 2005, p. 12.
104

repressivas, os bons tratos eram vistos como fundamentais pelos representantes


metropolitanos para que os índios se mantivessem longe da “gentilidade”. O próprio
Diretório, em seu parágrafo quatorze, alertava para a grande dificuldade de se
conseguir a “reforma dos costumes” indígenas “pelos meios da violência, e do rigor”,
e fazia a seguinte recomendação às autoridades:

Advirto aos Directores, que para desterrar nos Indios as ebriedades,


e os mais abusos ponderados, usem dos meios da suavidade, e da
brandura; para que não succeda, que degenerando a reforma em
desesperação, se retirem do Gremio da Igreja, a que naturalmente os
convidará de huma parte o horror do castigo, e de outra a congenita
inclinação aos bárbaros costumes, que seus Pais lhes ensináraõ com
a instrucçaõ, e com o exemplo.120

Percebemos que a religiosidade católica estava associada à manutenção dos


nativos dentro da nascente civilização que se construía no continente americano.
Porém, tudo poderia vir abaixo se isto estivesse vinculado a um tratamento violento,
pois faria com que a reforma pretendida se transformasse em desespero dos índios;
estes, por sua vez, se “retirariam do grêmio da Igreja”, e voltariam a se inclinar aos
antigos “costumes bárbaros” de seus antepassados.
As exigências aos bons tratos não era uma exclusividade da questão religiosa
na Colônia; na verdade, elas estão presentes em todas as formações político-
legislativas que pensaram o contato do Império português com os povos indígenas e
a sua completa inserção naquele sistema. Conforme mostrou o trabalho de Elisa
Garcia acerca das relações estabelecidas nas fronteiras do extremo sul do Brasil no
século XIX, “a política de ‘bom tratamento’ em relação aos índios e as tentativas de
atraí-los para os domínios de Portugal faziam parte de um projeto político”.121 Ou
seja, o projeto de civilização dos índios na América, pensado por Pombal, dependia
das boas relações que se mantinham com eles. 122
A política indigenista de Sampaio seguia rigorosamente estes preceitos, e os
poucos registros relativos às vigarias de índios são um exemplo disso. Em
comunicação com o diretor de Baepina, no ano de 1816, o governador pediu-lhe
informações sobre os vigários dessa localidade por conta de vantagens que

120
DIRECTORIO, 1983, p. 7.
121
GARCIA, 2009, p. 33.
122
Outubro 1. Officio ao Diror de Baepina accusando huns officios, e Outros objectos. In: Livro 21, p.
40V.
105

conseguiram para o “pagamento dos seus benezes”. Vigilante em relação às


atitudes dos religiosos, Sampaio ordenou ao diretor que lhe desse parte

[...] de toda e qualquer novidade que haja a este respeito pois que
aos Vigarios dos Indios toca unicamente por anno 320r s por Cada
Casal de Indios, incluindo-se nestes trezentos e vinte rs, todas as
Conhecencas mortuarios, baptizados, e casamentos sem que possão
exigir dos mesmos Indios mais Coiza alguma.123

Podemos observar que, mesmo vivendo em um período posterior ao jesuítico,


e consequentemente não sendo mais as autoridades maiores dos lugares indígenas,
os religiosos continuaram a ter suas vantagens e até receber impostos dos índios.
Talvez por isso, o governador estivesse atento à possibilidade de abusos, como, por
exemplo, exigir dos fiéis uma quantia a mais do que já lhes pagavam. Se isso
ocorresse, a religião católica, que deveria ser um caminho de acolhimento e
transformação aos nativos, passaria a constituir-se um fardo a mais em seu
cotidiano.
Outro caso de preocupação do governador com o tratamento dado aos índios
por seus vigários ocorreu em agosto de 1817, quando elogiou o diretor de Mecejana,
por ter falado ao “Vigario dessa Freguezia sobre os excessos que esta praticando
com esses Indios”.124 Não nos foi possível, todavia, saber quais eram esses
excessos – tratamentos rigorosos, extorsão de dinheiro etc. – ou que desfecho teve
esse caso.
Mas o evento melhor documentado neste sentido foi o dos problemas
envolvendo o religioso da vila de Arronches em 1819. Em comunicação com o
bispado de Olinda, no mês de julho deste ano, o governador do Ceará falou de
medidas já tomadas no ano anterior, que agiram na intenção de “cohibir os exessos
do Vigario daquella Freguesia”, mas que até o momento não tiveram o “resultado
que se devia esperar”. Por isso, Sampaio novamente pediu às autoridades eclesiais
para que tomassem “medidas mais vigorosas, e capases de restabelecer naquella
Freguesia a paz espiritual, e temporal que tanto hé para desejar”.125
Esta pequena passagem já nos dá uma indicação da importância do trabalho
da Igreja naquelas vilas, mesmo no período pombalino. A paz, não só espiritual, mas

123
Agosto 18. Officio ao Director de Mecejana sobre os excessos do Vigario com os Indios. In: Livro
21, p. 173.
124
Julho 28. Officio dirigido aos Govres do Bispado para providenciarem sobre os procedimentos do
Vigario de Arronches. In: Livro 30, p. 90.
125
Este ofício do diretor de Arronches não se encontra registrado no livro por nós analisado.
106

também temporal – ou seja, a estabilidade social daquele universo – dependia do


trabalho honesto e competente dos religiosos, na visão das autoridades
metropolitanas. Mas parece que não era essa a forma de trabalhar do vigário de
Arronches; no mês de agosto, Sampaio voltou a escrever ao bispado de Olinda,
mandando em anexo uma cópia de um ofício e de uma relação do diretor desta vila.
Neles estariam registradas as “exorbitantes quantias que o vigário daquela
Freguesia tem exigido dos Indios seus Fregueses, contra o que se acha
determinados pelos Exmos Remos Senhores Bispos desta Diocese”. Por fim, pediu-
lhes ainda “que á este respeito Vs Sras se sirvão tomar as precisas medidas”. 126
Se a intenção do governo era incentivar os índios a participarem fielmente do
mundo civilizado, este tipo de atitude do vigário de Arronches – a mesma que
levantou suspeita de Sampaio sobre os de Baepina em 1816 – fazia este plano ruir.
Provavelmente, a exigência do religioso de “quantias exorbitantes” tiradas dos
nativos deixaria o seu cotidiano, que já era de miséria e bastante vigilância,
praticamente insuportável. Dessa forma, qualquer tipo de paz – temporal ou
espiritual – seria inviável de se conseguir com essa relação. Atentas a isso, as
autoridades eclesiais do bispado de Olinda atenderam ao pedido do governador, que
lhes agradeceu em dezembro deste mesmo ano “as providencias dadas a favor dos
Indios da Villa d’Arronches”.127
A priori, poderíamos pensar que este tipo de conflito, que atingiria
principalmente aos índios, não demandaria muitos esforços por parte do governo, e
que, se houvesse alguma troca de correspondências, essas seriam apenas
burocráticas ou para cumprir o protocolo de alguma lei que, por mais que protegesse
os indígenas de alguma maneira, seria apenas figurativa. Mas neste caso,
observamos que aconteceu justamente o contrário; as reclamações do governador
não foram de forma alguma alegóricas, mas tiveram um resultado, com a ação das
autoridades eclesiais sobre o vigário.
Tal direcionamento político não era exclusivo do governo de Sampaio, mas
aplicado em outras regiões do País. O já citado trabalho de Elisa Garcia fala de
casos em que os maus-tratos dados aos índios eram não só combatidos, como

126
Agosto 13. Officio dirigido aos Governadores do Bispado em ampliação de outro dirigido aos
mesmos Governadores em 28 de Julho, e que está regdo ap. 90 deste mmo livro. In: Livro 30, p. 93.
127
Desembro 4. Officio dirigido ao Vigario Capitular do Bispado accusando-lhe a recepção de officios.
In: Ibid., p. 107V.
107

também eram punidos os colonos detratores.128 Isso nos mostra que o poder
imperial português, com a presença inseparável da fé cristã – mesmo no período da
laicização dos espaços indígenas – não era – e não podia ser – baseado somente
na repressão sobre os nativos. Um poder somente repressivo jamais seria
obedecido,129 e na sua intenção de ser aceito e abraçado pelos índios, muitas
autoridades buscaram criar ambientes que juntavam um rigor vigilante com defesa e
bons tratamentos, como foi o caso de Sampaio.
A fé católica, fazendo parte de todo o plano civilizatório criado por Pombal,
tinha um papel fundamental na transformação que se pretendia para aqueles índios.
E, se ainda estivessem ligados aos ritos antigos, como o culto ao maracá citado por
Koster, e outras manifestações consideradas pagãs, seria impossível a formação de
súditos ideais para a Coroa portuguesa. Por essa razão, precisava que se
mantivesse uma boa relação entre os vigários e os índios, para que eles próprios
quisessem participar daquele universo, afastando-se de vez de suas tradições
bárbaras.
Em fevereiro de 1820, já após o término do mandato de Sampaio, o então
governo interino do Ceará escreveu a um visitador, enviado pelo bispado para a
capitania, dando mais um detalhe sobre este problema, envolvendo o antigo vigário
de Arronches. Revelou seu nome: padre Amaro Joaquim Pereira de Moraes e
Castro, chamando-o de criminoso.130

3.5.2 Os índios e suas Igrejas

Mesmo fazendo parte da política indigenista do Império, a propagação da fé


católica entre os povos nativos não se realizava apenas de cima. Ao contrário, a
cristandade também era abraçada pelos índios, assim como mostrou o relato de
Henry Koster, ao dizer que eram cristãos, mesmo sem excluir por completo dentre
eles algumas manifestações tradicionais. A “iniciativa estatal de utilizar o
cristianismo” como uma ferramenta civilizatória para “transformá-los em súditos
iguais aos demais parece ter sido apropriada pelos aldeados”. 131 Longe de serem

128
GARCIA, 2009, p. 82; 89.
129
FOUCAULT, 2007, p. 8.
130
Fevereiro 12. Offo ao Vistad. desta Capnia Antº Gomes Coelho sobre as 4 Freg as de Indios de
Monte mor o Velho Mecejana Arronches, e Soure e participando-lhe as Ordens mas sobre os mmos. In:
Livro 30, p. 110V.
131
GARCIA, 2009, p. 132.
108

passivos em sua história, os povos indígenas, mesmo na categoria de cristãos, se


utilizaram desse lugar social para sobreviver e transitar dentro do universo colonial.
A importância da manutenção de uma capela em suas povoações, por
exemplo, era de extrema importância para os nativos, representando que a sua
inserção dentro do mundo ocidental cristão, a partir da apropriação de seus
elementos, foi um processo em que também eles atuaram conscientemente.
Mostrar-se um súdito fiel e, obviamente, cristão, era fundamental para sua
sobrevivência nesse sistema e para que conseguissem realizar seus objetivos. Um
exemplo desse interesse por parte dos índios aconteceu em Baepina, em novembro
de 1814, quando o governador Sampaio recebeu ofício do Marques de Aguiar em
nome do Príncipe Regente, acerca de um requerimento dos índios daquela
freguesia, onde pediam materiais “para as duas Capellas que erigirão”.132
A leitura do requerimento, que aparece registrado em anexo ao ofício, nos
mostra não só o estado de penúria ou pobreza dos índios, mas principalmente como
essa situação, combinada com amostras de fidelidade ao rei, foi usada pelos
requerentes como meio de conseguirem receber o que queriam:

[...] Pedro Gonçalo da Costa e Vasconcellos por natureza Indio por


obrigação fiel Vaçallo de sua Alteza [...] e os mais Indios de sua
Povoação de São Pedro de Baepina com o trabalho pessoal fizerão
Erigir huma Igreja muito bastante de pedra e barro coberta de thelha
dedicada ao Glorioso Apostolo São Pedro, que dista de sua Villa
doze Legoas, e outra Capella ao Glorioso Padre São Benedito a Seis
Legoas que malmente acabarão a Capella Mor falta o corpo da
Igreja, e não podem fazer mais pela suma pobresa e da sua Matriz
não terem Auxilio de concorrer com o sustento necessario [...], e nem
dinheiro ao menos para orçamentos necessarios, sendo estas duas
Capellas filial, pois parece tem lugar que Nossa Senhora devera
suprir Como Oragullo, ou os seus administradores dar ao menos[?] o
sustento por estas não terem Patrimonio, e serem os Indios huns
pobres [...] como sua Alteza ver a que ponto oferece a Copia dada
para Se tirar para a fabrica da Igreja, pois os Indos com o trabalho
das suas pessoas estão com grande animo de trabalharem na Igreja,
aSim como fizeram Erigir a de São Pedro, afim de terem Caza do
Senhor onde haja Sacerdotes para lhes administrarem, como na sua
Matriz os Sacramentos da Igreja, e por que fizeram o que podião,
que hera o trabalho das suas manos[sic], e nada podem fazer pela
Suma pobresa, pede em nome de todos a Sua Alteza Real estenda
os seos Benignos olhos sobre esta pobre caza do Senhor lhe de para
o unico altar, que tem cada huma, que he o da Capella Mor, quatro
Casullas das quatro cores, que usa a Igreja com todos seus
aseçorios [...etc.] e dinheiro para acabarem a Igreja de São
Benedicto e dois Sacerdotes para as ditas Capellas [...], mais hindo

132
Ofício de 25/11/1814. In: Livro 93, n.p.
109

Ordem Regia de Sua Alteza Real para o Reverendo Vigario aSeitar


os Sacerdotes nomeados tudo para sossego dos pobres Indios, e
Rogarão a Deos pela preciosa Vida de Sua Alteza Real e por toda
família Real por tanto = Pede a Sua Alteza Real pelas Armas das
cindo chagas de Nosso Senhor Jesus Christo, e pureza de Maria
Sanctissima aSim fazerlhes a graça da esmolla que emplora.133

É notória a habilidade com que Pedro Gonçalo se posicionou, e, por essa


maneira, transitou entre duas categorias que, mesmo sendo distintas, poderiam
caminhar juntas: ainda que de natureza indígena, se declarou como um fiel vassalo
por obrigação. Com essas palavras logo na introdução do documento, cumpriu seu
dever como súdito perante o rei, e, assim, pôde estabelecer um contato e chances
reais de conseguir a ajuda que precisavam. E o motivo de seu pedido era
extremamente pertinente para o governo imperial, já que se tratava das obras de um
templo onde se renovaria a fé ocidental em meio aos ameríndios convertidos. Já os
índios, cientes dessa realidade e dos caminhos a percorrer no sistema colonial,
usaram-se fartamente de imagens que revelassem sua devoção ao cristianismo, ao
falarem dos “gloriosos santos”, da “casa do Senhor”, das chagas de Jesus, da
pureza de Maria e, principalmente, ao rogarem a Deus pela “preciosa vida de Sua
Alteza” e por sua família.
Juntamente com essa demonstração de fidelidade ao rei de Portugal e fé no
Deus cristão, Pedro Gonçalo e seus companheiros índios ainda ressaltaram
insistentemente a “suma pobreza” em que se encontravam, e que obviamente
inviabilizava a conclusão de tão importante obra. Além disso, seria impossível
naquela situação que tivessem em sua povoação a presença de sacerdotes que lhes
ministrassem os sacramentos. Porém, mesmo com todas essas dificuldades, aliada
à enorme falta de recurso, os índios fizeram questão de deixar claro que tudo o que
fora feito até então era resultado da ação de suas próprias mãos, e que ainda
mantinham o “grande ânimo de trabalharem na Igreja”.
Logo, é engano pensar que a população indígena, naquele período, era
apenas engolida passivamente pela poderosa corrente civilizatória que vinha do
ocidente, da Igreja Católica e do Império português. Ao contrário, a sua inserção no
mundo colonial foi feita de maneira ativa e consciente, até pela conjuntura de
dominação em que se encontravam. Justamente por serem dominados é que se
viram obrigados a aprender e assumir os signos ocidentais e cristãos. Por outro

133
Requerimento anexo ao ofício de 25/11/1814. In: Livro 93, [s.p].
110

lado, se faziam isso, suas ações “não significavam, no entanto, uma total submissão
às regras de domínio dos brancos”,134 e a própria produção do requerimento de
Baepina, contendo todos aqueles elementos analisados acima, são uma prova da
posição atuante e mobilizada para conseguirem melhorias para suas comunidades.
Somente sendo um súdito fiel e cristão é que se poderia conseguir vantagens e
benefícios.
A ação dos índios da Vila Viçosa feita no mês anterior à produção do
documento de Baepina, em outubro de 1814, foi um exemplo de quão engajados e
conhecedores do mundo dos brancos eram os indígenas coloniais. Por conhecerem
tão bem os trâmites legais para poderem lutar por melhores condições em sua vila,
esses índios produziram um extenso requerimento – bem maior que o de Baepina –
em que relataram às péssimas condições em que viviam sob o governo das
autoridades, e pediram, entre outras coisas, providências neste sentido. Dirigindo-se
diretamente ao rei, os indígenas detalharam as atitudes truculentas de todos os
diretores que os governaram desde a elevação da aldeia – chamada Ibiapaba – a
vila.135
Dentre todo o farto conteúdo, para este tema em especial nos chamou a
atenção o que disseram os índios acerca do quinto diretor que os comandou:
Bonifácio Manoel Antônio Lelou, vigário daquela vila. De acordo com o documento,
os indígenas receberam o novo líder “logo no primeiro dia da intrega da Directoria”
com “grande alegria”, pois acreditavam que assim haveria “sossego aos Indios”, já
que ele, por ser um representante da Igreja, não iria “contrariar as ordens de sua
Magestade como fiserão os seus Antecessores”. Porém, segundo os nativos,
“somente dois annos viveram com sussego”, e logo os maus tratos do novo diretor
vieram à tona:

[...] dahi em diante comessou o mesmo beneficio dos seus


Antecessores, e foi de tal modos que auzentou o povo todo, e ja esta
pobre Villa feita hua Tapera, huns por respeito dos seus filhos, e
outros por seus parentes órfãos e orfans tanto de pai como de mai
pois os mandava buscar com tropas como a gentios, os pais e
parentes que os não intregava herão presos, e castigados
cruelmente, e foi tanto os vexames, e por este motivo se auzentarão
muitos com desgosto destes vexames, basta que seja que as
proprias mulheres fazião o destacamento carregando agoas para as
senhoras brancas como Escravas ainda contrariou mais as ordens

134
CARVALHO JUNIOR, 2005, p. 186.
135
Retomaremos a análise deste requerimento no capítulo 5 – tópico 5.4, p. 230.
111

que os seus Antecessores; por que the o Capitam Mor, e Sargento


Mor Juízes e os mais officiaes da Camara vivião orpimidos deste
Director, e derão graças a Deos quando elle faleceo; por que o temor
hera muito como Ministro da Igreja ninguém lhe podia fazer mal e
assim fasia toda injustiça contra os miseraveis Indios.136

Vexames e castigos cruéis: a lista das injúrias sobre os índios é significativa,


para percebermos a triste realidade em que viviam. Muitos “se ausentaram com
desgosto destes vexames”, confirmando o relato de Luiz Barba Alardo de Menezes –
escrito neste mesmo ano de 1814 – acerca das “continuas deserções” de indígenas
de Viçosa ocasionadas pelas “continuas violencias” sofridas dos brancos e dos
líderes locais.137 Mas a forma como tudo isso foi detalhado nos faz atentar para o
grau de conhecimento que os nativos tinham do funcionamento do mundo colonial e,
principalmente, daquilo que lhes dizia respeito enquanto súditos.
Primeiramente, repudiavam o tratamento recebido, pois era comparado ao
dado aos gentios, como eram chamados os índios arredios aos aldeamentos e à
civilização. Essa atitude não significou necessariamente um abandono completo de
suas tradições ou de suas relações identitárias enquanto comunidade; antes
representou a intenção desse grupo de postar-se como vassalos fiéis ao rei, mas
enquanto tais mereciam o respeito e o tratamento devido. Em segundo lugar,
destacaram a forma como as mulheres eram vistas e utilizadas pelos poderosos,
“carregando águas para as senhoras brancas como escravas”, contrariando ainda
mais as ordens reais que os antigos diretores. Essa passagem revelou a
proximidade que os índios tinham da legislação que lhes geria, ao lembrar a
obrigação, prevista por lei, de não serem escravizados. Esse conhecimento dos
nativos remetia, inclusive, ao que dizia o Diretório dos Índios, que, de acordo com o
seu §92, recomendava aos diretores das vilas que tivessem em conta

[...] a prudencia, a suavidade, e a brandura, com que devem executar


as sobreditas ordens, especialmente as que disserem respeito á
refórma dos abusos, dos vicios, e dos costumes destes Póvos, para

136
Requerimento anexo ao ofício de 20/10/1814. In: Livro 93.
137
MENEZES, Luiz Barba Alardo de. “Memória sobre a capitania independente do Ceará grande
escripta em 18 de abril de 1814 pelo governador da mesma, Luiz Barba Alardo de Menezes.” Edição
fac-similar de separata da Revista do Instituto do Ceará. In: Documentação Primordial sobre a
capitania autônoma do Ceará. Coleção Biblioteca Básica Cearense. Fortaleza: Fundação Waldemar
Alcântara, 1997, p. 51.
112

que não succeda que, estimulados da violencia, tornem a buscar nos


centros dos Mattos torpes, e abominaveis erros do Paganismo.138

Finalmente, foi bastante preciso o modo como se expressaram acerca do


vigário Bonifácio Lelou. Em um primeiro momento, bastante alegria por ter um
religioso no comando da vila, revelando a esperança naquele representante de
Cristo e a vinda de dias melhores para os índios. Depois, a grande tristeza,
decepção, e, pior, a impotência de não poderem “lhe fazer nenhum mal” justamente
por ser um ministro da Igreja, ou seja, alguém cuja autoridade vinha do próprio
Deus. Por outro lado, mesmo com toda essa situação desvantajosa, os índios não
se puseram submissos nem calaram, escrevendo esse requerimento ao rei, no qual
expuseram suas reclamações, e ainda tendo a coragem de assumir seu
contentamento com a morte do vigário.
Vemos que por meio desse documento, mesmo em meio a tantas outras
reclamações, os índios de Viçosa fizeram questão de expressar a sua fé e respeito
pela Igreja, mas era justamente por isso que podiam ter o espaço necessário para
elaborar todas essas reclamações e exigências. Dentro desse universo, “ser cristão
[...] poderia permitir aliar-se a esse poderoso Deus, possibilitando sua introdução
num mundo novo que se constituía a sua revelia, mas do qual eram também
artífices”.139 A religiosidade cristã, usada como uma estratégia política do período
pombalino de atração dos índios à civilidade, também foi apropriada pelos povos
nativos como uma ferramenta que lhes possibilitava transitar e buscar vantagens
nesse mundo onde eram os dominados, mas de maneira nenhuma passivos.

138
DIRECTORIO, 1983, p. 38.
139
CARVALHO JUNIOR, 2005, p. 189.
113

4 DISCIPLINA: O GOVERNO SAMPAIO E OS MECANISMOS DE CONTROLE


SOBRE OS ÍNDIOS NO CEARÁ

4.1 Pela boa ordem e sossego da capitania: política de passaporte e a “caça


aos vadios”
Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Por no llevar papel
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Yo soy el quiebra ley
Manu Chao, 1998

Um dos pontos que caracterizam a ascensão do ideal iluminista e do poder


disciplinar no Ocidente é sua relação com o espaço, cuja “conquista e organização
racional” tornaram-se “parte integrante do projeto modernizador”.1 Seguindo nessa
mesma corrente, os governantes que lideraram o Ceará, no período colonial desde o
final do século XVIII, buscaram racionalizar caminhos, limites, fronteiras e percursos
nessa região periférica do Império português. De acordo com a historiografia
recente, a constatação da “vadiagem” crônica que marcava a população não só
desta capitania, mas também de outros lugares do Brasil regeu as práticas
governamentais de desenvolvimento econômico e controle de povos e regiões. Em
uma tentativa de ordenar a Colônia, seguido de certo atraso daquilo que já vinha
sendo praticado em outros países da Europa, a Coroa portuguesa buscou com
afinco disciplinar e “adestrar” os povos que aí viviam, organizando o que, para ela,
seriam “multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças”, transformando-as
em “multiplicidades de elementos individuais”,2 podendo, dessa forma, servir aos
ideais civilizatórios.
Segundo Gomes, as criações de vilas, entre elas de índios (nas últimas
décadas dos setecentos), fizeram parte das várias ações dos governantes que
queriam estabelecer lugares precisos para pacificar a multidão de “vagabundos” que

1
HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural.
São Paulo: Loyola, 1998. p. 227.
2
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 143.
114

“infestavam” os sertões cearenses.3 Já no início do século XIX, as políticas


disciplinadoras visaram continuar na tentativa de civilização e reestruturação da
capitania, acentuando o combate às constantes migrações do povo e o incentivo ao
trabalho regular e normativo.4 O período em que tais procedimentos tiveram um
crescimento notório foi durante a gestão de Manuel Ignácio de Sampaio.
A política de passaporte teve uma forte atuação, buscando resolver o grave
problema de dispersão populacional na região e, em meio à população atingida por
essas restrições, os índios foram marcados de forma especial. Por se constituírem
parcela significativa dos habitantes, e uma enorme força de trabalho, acabaram
sendo diagnosticados como uma das causas do atraso da capitania, por conta de
seus costumes “bárbaros” que, além de estarem distantes do ideal de “civilização”,
em nada contribuíam no crescimento econômico. Por isso, além do mecanismo já
citado, o recrutamento militar indígena e a coerção ao trabalho – cujas análises
serão feitas neste capítulo – foram usados com o objetivo de transformá-los em
súditos úteis e fiéis do Império português.
Juntamente com tais práticas, o discurso contra a “vadiagem característica”
tornou-se constante na tentativa de marginalizar os que se opusessem aos planos
do governador Sampaio. Seus registros foram encontrados facilmente na
documentação produzida pelo gestor, de modo que vimos uma nova configuração
espacial no Ceará, cuja elite política objetivou racionalizar e traçar os devidos
caminhos e ambientes onde os diversos indivíduos deveriam estar; podendo, dessa
maneira, produzir e praticar modos de vida “civilizados”.
Com base no entendimento do conceito de território como “espaço definido e
delimitado por e a partir de relações de poder”,5 e tendo em conta que o ideal
iluminista percebia “o ‘outro’ como tendo necessariamente (e às vezes ‘restringindo-
se a’) um lugar específico numa ordem espacial concebida”6 – onde o índio deveria
estar necessariamente na vila – tentaremos, neste capítulo, visualizar a formação de
uma nova reconfiguração territorial nesta capitania, na qual os espaços de

3
GOMES, José Eudes Arrais Barroso. Um escandaloso theatro de horrores: a capitania do Ceará
sob o espectro da violência (século XVIII). Monografia (Bacharelado) ‒ Universidade Federal do
Ceará, 2006, p. 105.
4
PINHEIRO, Francisco José. Notas sobre a formação social do Ceará: 1680-1820. Fortaleza:
Fundação Ana Lima, 2008. p. 310 e 311.
5
SOUZA, Marcelo José Lopes de. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento.
In: CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo Cesar da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato. Geografia:
conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 78.
6
HARVEY, 1998, p. 228.
115

convivência e deslocamentos foram mapeados e controlados, ao mesmo tempo em


que se constituiu um discurso que buscou marginalizar aqueles não estivessem de
acordo com tais premissas, no intuito de inseri-los neste sistema e reconfigurá-los
enquanto sujeitos.

4.1.1 Discurso e território

Visando controlar os constantes deslocamentos e impedir a grande dispersão


dos habitantes que caracterizou a região, a política de passaportes foi um
mecanismo que, desde o século XVIII, impôs a necessidade de uma autorização do
governo, através de um documento, para todo aquele que quisesse sair de sua vila
de origem. A importância da “imposição do uso de passaportes como estratégia de
controle sobre a circulação da população” se deu, segundo Gomes, “por conta da
movimentação populacional característica dos sertões cearenses”,7 extremamente
danosa para a economia, além de dificultar bastante o controle do cotidiano daquele
povo que se queria gerir e civilizar. É possível visualizar de forma mais clara as
intenções do governo Sampaio por meio de uma circular dirigida aos coronéis e
comandantes dos regimentos da capitania – contendo um mapa de controle em
anexo – em 23 de fevereiro de 1813, na qual lhes apresentava a nova “polícia dos
passaportes”:

Pelo Mapa incluso que junto vai por Copia dirigido pelo Secretario
deste Governo conhecerá VMce a Polícia dos Passaportes que de
hoje em diante se deve por em pratica em toda esta Capitania do
Ceará afim de se diminuir o numero dos vadios, e Vagabundos que
sem se empregarem em coisa alguma se sustentão unicamente de
faserem furtos já neste já naquelle lugar illudindo por esta forma os
procedimentos das Justiças e a vigilancia dos mesmos
Commandantes de Districtos.
O dito mappa fará Vmce ver as pessoas a quem vmce pode
legitimammente passar Passaporte assim como tambem aquellas
que as podem obter dos Commandantes de Districtos.
Pelo mesmo mappa conhecerá tambem que devem ser presos á
minha Ordem e conduzidos á Cadeia dessa Villa todos aquelles que
forem encontrados em qualquer estrada ou Vereda sem o
competente Passaporte da forma que declara o mappa o que tudo

7
GOMES, 2006, p. 122.
116

vmce fará constar aos Commandantes de Districtos do termo dessa


Villa para que assim o executem.8

Sampaio foi claro ao reforçar estes direcionamentos que, desde o século


anterior, pretendiam controlar o trânsito dessa população, como também o seu
cotidiano. A instituição deste documento, o passaporte, foi uma tentativa enérgica de
mapear aqueles que transitavam pela capitania, e as penas para os desavisados
eram duras e intransigentes. Ao estabelecer a busca por aqueles que, por não terem
a autorização do governo de circularem, estavam fora da lei, Sampaio também dizia,
ao mesmo tempo, que esses mesmos “infratores” eram também vadios e
vagabundos autores de furtos. Era decretada a “caça aos vadios”.
Esse poder conferido ao governador, e que se manifestou por meio de seus
discursos, ordens e determinações, modificou de forma decisiva o meio social da
Capitania do Ceará e a caracterização de seu território. Tal poder simbólico, por
meio da categorização da “vadiagem”, transformou aquela realidade “através da
objetivação no discurso”.9 Ao “constituir o dado pela enunciação” – denominando os
que não produziam excedentes e estavam fora de suas vilas sem autorização de
“vadios” – reforçou uma visão normativa sobre o mundo a partir de direcionamentos
legais anteriores – como o Diretório e a própria polícia de passaportes – “e, deste
modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo”. Um novo Ceará – cada vez mais
cerceado – se constituía para diversas famílias e indivíduos indígenas que
habitavam esse território, por meio dos mecanismos de repressão e fiscalização do
governo, mas também, fundamentalmente, pelo “efeito específico de mobilização”, 10
que agia através de ofícios, circulares e ordens dirigidas por Sampaio para diversas
autoridades da capitania.
No mapa anexo à circular apresentada acima podemos ver com detalhes o
minucioso plano de organização, arquitetado pelo governador, de distribuição de
passaportes, situando aqueles que poderiam passar essas autorizações, quem teria
o direito de receber e sob que condições, frisando que todos os documentos “serão
dados grátis”. Todavia, reforçava, ao final do mapa, o rigor de tal “polícia”: aqueles
que fossem encontrados nas “estradas desta Capitania sem Passaporte” seriam
presos até que suas situações estivessem legitimadas. Ou seja, segundo o

8
Fevereiro 23. Registo de hum Officio Circular dirigido aos Capes Mores e Commd es de Ordas
remettendo o modello pa que devem passar Passaportes. In: Livro 16, p. 155.
9
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p. 116.
10
Ibid., p. 14.
117

documento, estariam sujeitos à mesma pena todos aqueles que, “vindos de


Capitanias diferentes não trouxerem Passaporte ligitimamente passado pelas
autoridades competentes”.11
Tais ordens ganharam um reforço dois dias depois, em 25 de fevereiro de
1813, ao serem encaminhadas também a outros militares de patentes mais
elevadas:
Pelo Mappa que junto vai por copia assinada pelo Secretario deste
Governo, conhecera VSa a Policia dos Passaportes que de hoje em
diante se deve por em pratica em toda essa Capitania do Ceará; a
fim de se diminuir o numero dos Vadios e Vagabundos, que sem se
empregarem em coisa alguã, se sustentão únicamente de fazerem
furtos [...].12

Dessa forma, vimos que o objetivo principal dessa dita “polícia” foi combater a
“vadiagem” que havia na região, e muitos foram os documentos que trataram acerca
dessas “caças” a “vadios” ou pessoas “dispersas” (que se encontravam fora de suas
vilas e sem passaporte), especialmente nos primeiros anos desse governo –
inclusive antes da institucionalização da “política de passaportes”. Em 17 de
novembro de 1812, por exemplo, duas ordens foram expedidas nesse sentido: uma,
ao diretor de Soure, mandava-o buscar os índios Filipe Tavares e Miguel Barbosa
que se achavam dispersos em Fortaleza;13 a outra, ao comandante de Cascavel,
ordenava-lhe que prendesse os índios dispersos naquele distrito, e lhe recomendava
que “aquelles que por zello não quiserem declarar a Villa d’onde são naturaes vmce
os remetterá presos a ma presença”.14 No mês seguinte, foi passado ofício ao diretor
de Mecejana, para que mandasse “a esta Capital huã escolta buscar varias Indias e
Indios da sua Direcção que andavão dispersos e que aqui se achão Recrutados”. 15
Já em julho de 1814, o governador ordenava ao comandante do Siupé que
prendesse os índios naturais de Arronches “João Ferreira, Jose Leandro, e
Francisco Roiz que se achão sem passaporte nesse seu Districto, ou no do

11
Fevereiro 23. Registo de hum Officio Circular dirigido aos Cap es Mores e Commd es de Ordas
remettendo o modello pa que devem passar Passaportes. In: Livro 16, p. 157-157V.
12
Fevereiro 25. Rego do Officio circular aos Coroneis, e comdês dos regimtos respetivel a Passaportes.
In. Livro 34, p. 24V.
13
Novembro 17. Portaria ao Diretor de Soure pa mandar buscar huns Indios de sua Villa que se achão
presos. In: Livro 16, p. 37V.
14
Novembro 17. Registo de hum Officio dirigido ao Commd e do Cascavel Ordenando-lhe huãs
prisões de Indios dispersos. In: Id. ibid.
15
Desembro 12. Registo de hum Officio dirigido ao Dir or de Mecejana dando-lhe Ordens sobre huns
Indios da sua Direcção. In: Ibid., p. 67V.
118

Parasinho”.16 Tais perseguições, apesar de terem se concentrado nos anos iniciais


da presença de Sampaio no Ceará, continuaram durante todo seu governo, e, em
dezembro de 1819, já próximo do fim de seu mandato, foi expedida uma
correspondência ao comandante dos presídios da costa do Aracati, no qual dizia
achar “muito acertado a Captura dos Vadios que houverem pelas praias para
sentarem praça na tropa de Linha os quaes devem vir remettidos na primeira
occasião”.17
Neste mesmo ano de 1819, no mês de outubro, o governador ordenou ao
sargento-mor interino da capital que partisse em busca do “grumete [aprendiz de
marinheiro] Francisco de Paula com casta de Indio, estatura menos que ordinaria
cheio do corpo, olhos pequenos, cabello anellado”, desertor da escuna Velha do Rio,
ancorada na Prainha de Fortaleza, e que estaria desertado no “Acaracusinho em
casa da India Brigida que parece ser sua parenta”.18 Neste caso, mesmo que
aparentemente não estivesse oferecendo riscos à ordem pública, encontrando-se
com familiares, a fuga de Francisco se agravou por ter se configurado
insubordinação militar, cuja disciplina era ainda mais rigorosa.
De acordo com Pinheiro, configurou-se pouco a pouco no poder político do
período um “pensamento que passava a defender o desenvolvimento econômico e o
combate à vadiagem como irmãos siameses”, já que ter uma população que não
fosse afeita ao trabalho “inviabilizaria a economia da capitania, impossibilitando
geração de lucro para a metrópole”.19 Ou seja, a meta central da instituição dos
passaportes e dessa verdadeira “caça” aos vadios era o crescimento econômico,
que, neste contexto, estava fortemente ligado à agricultura. Exemplo disso pôde ser
visto no ofício dirigido ao comandante de Granja, em setembro de 1812, onde
afirmou que era preferível “mandar assentar praça aos vadios antes do que tirar
d’agricultura aquelles que nella se empregão”.20 Muitos são os registros que,
seguindo a mesma linha, foram insistentes em invocar que a obrigatoriedade das
pessoas (especialmente os índios) a trabalhar em suas plantações, como foi o caso
da ordem passada ao comandante do Aracati, no mesmo ano, na qual ordenou que,
16
Julho 23. Rego de hum Off o ao Commde do Siupe Ordenando huma prisão. In: Livro 19, p. 39V.
17
Dezbro 18. Offo ao Alfes Chaves sobre os presidios da Costa e p a capturar os vadios das Praias pa
sentarem praça na tropa de Linha. In: Livro 39, p. S/N.
18 mor e o as
Outubro 27. Officio dirigido ao Sarg Command int das Ordm desta Capital para fazer prender
Francisco de Paula grumete, q’ acaba de desertar da Escuna Velha do Rio. In: Livro 22, p. 100.
19
PINHEIRO, 2008, p. 265.
20
Septembro 16. Registo de hum Officio dirigido ao Coronel Comd e da Granja Franco de Corra Motta
sobre vários objectos. In: Livro 15, p. 143.
119

pela “manutenção da boa Ordem e do Socego publico”, obrigasse “os Povos a que
fação Rossados e plantaçoes”, com pena de prisão para aqueles que “continuarem a
ser vadios”.21
Porém, as práticas estatais não se resumiam apenas ao seu caráter
repressor, e, dependendo de cada situação, o governo poderia agir com
flexibilidade. Em novembro de 1816, por exemplo, por meio de um requerimento do
índio Francisco Alvez Pereira, foi-lhe concedido que se desmembrasse das
ordenanças de Mecejana e passasse para a de Aquiraz, pois de acordo com
Sampaio, se empregava “assíduo, e constantemente na agricultura”.22
Além do âmbito econômico, havia também um caráter civilizatório nessa
política de controle, voltada para uma transformação nos costumes ainda “bárbaros”
daquele povo. Desse modo, agregar mão de obra e bons modos foi tarefa difícil de
ser executada, contudo, também foi alvo perseguido por Sampaio. Para materializar
tal objetivo, foi necessário conter a dispersão populacional, dado que a evasão
dessas populações acarretaria no afrouxamento das leis e colocaria em questão o
foco de ação frente aos povos indígenas. E na opinião do próprio governador, “quasi
todos os açasinios que sucedem na Capitania são perpetrados por Indios que andão
dispersos ou por motivos de Indias disperssas que pela maior parte são
prostitutas”.23 Ou seja, a dispersão contribuiria para que tais atos ocorressem.
Outro motivo de preocupação de Sampaio com a dispersão populacional era
a formação de “bandos” particulares nas propriedades, algo bastante corriqueiro ao
longo da história do Ceará. A reclamação contra o acobertamento de homens
considerados criminosos nas grandes fazendas pelos homens ricos do sertão
tornou-se frequente no discurso dos administradores coloniais.24 Desde o século
XVIII, era comum “a formação de milícias particulares para defender os interesses
privados dos proprietários nos embates com seus desafetos”,25 constituindo-se tal
“proteção dada aos ‘vadios’” como o “crime mais grave cometido pelos
proprietários”.26 Muitas foram as prisões que, no sentido coibir tais tendências, foram

21
Septembro 23. Registo de hum Officio dirigido ao Cap mor da Va do Aracati sobre Commd es de
Districto. In: Livro 15, p. 153.
22
Fevereiro 9. Officio ao Dir.or de Mecejana pa fazer passagem de hum Indio pa as Ordas brancas do
Aquiraz. In: Livro 20, p. 138V.
23
Outubro 9. Registro de hum Officio dirigido ao Coronel Comandte do Aracati Pedro Joze da Costa
sobre varios Objectos. In: Livro 15, p. 179.
24
GOMES, 2006, p. 49.
25
PINHEIRO, 2008, p. 250.
26
Ibid., p. 258.
120

realizadas contra pessoas que se encontravam em residências particulares, como foi


o caso dos índios que, em dezembro de 1812, se achavam “dispersos, moradores,
ou agregados em casa do do Antonio Frs Lopes”.27 Foram presos também, em
março de 1813, pai e “dois Irmão do Indio Antonio Duarte”, por se encontrarem “em
casa de Joze Pacheco Spinoza”.28 No mês de maio deste mesmo ano Sampaio
tomou atitude bem mais rigorosa, ao mandar prender “Simplicio da Silva Miz e toda
a sua família, e Indios seus aggregados, os quaes se acham desertores de suas
villas morando no citio Caxoeira”,29 em São José de Uruburetama. Neste caso mais
extremo, nem mesmo o proprietário escapou de punição, sendo bastante suspeito
ter índios morando em suas terras sem autorização, seja de formação de bandos ou
mesmo de exploração de mão de obra.
Diante desse plano geopolítico, aqueles que não se enquadrassem seriam
considerados vadios. Indo além do pensamento de Pinheiro, para quem a
“construção de um discurso” contra a vadiagem serviu apenas para “justificar a
coerção exercida pelo Estado na subordinação da população pobre-livre”,30
acreditamos que o seu sentido estava ligado à criação de novas subjetividades nos
habitantes. Entendemos que a importância discursiva está nos “efeitos de poder
próprios” desse “jogo enunciativo”31 relativo àqueles que eram considerados
desviantes da norma, delinquentes, vadios. Ou seja, ao tentar rotular a população
indígena a partir de suas práticas culturais, buscava-se simultaneamente: esvaziar o
cotidiano desses povos, desqualificando seus atos como anticivilizados, apartados
da noção de civilidade, e, em última instância, buscavam a reordenação, adequação
ou mesmo negação de seu passado para, a partir daquele momento, constituírem
superficialmente novos sujeitos.
O governo tinha como objetivo transformar aqueles antigos “bárbaros” em
novos “súditos civilizados”, e isso passava pela nova constituição territorial imposta e
pelas novas categorias, nas quais as pessoas eram obrigadas a encaixar-se. Dessa
forma, “o desvio, e os outsiders”, os próprios desviantes (no nosso caso, os
“vadios”), são consequência das ações dos que, “a serviço de seus próprios
27
Desembro 2. Registo de hum Off o dirigido ao Referido Director pa prender huns Indios dispersos. In:
Livro 16, p. 53V.
28
Março 13. Registo de hum Officio dirigido ao Dir or de Arronches Ordenando-lhe huã prisão. In: Ibid.,
p. 176.
29
Maio 29. Registo de hum Officio dirigido ao Comd e de S. Joze da Uruburetama Ordenando huma
prisão. In: Livro 17.
30
PINHEIRO, 2008, p. 248.
31
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2007ª. p. 4.
121

interesses, fazem e impõem regras”,32 e tendo em conta que o território se define


como um “campo de forças, uma teia ou rede de relações sociais”, ele estabelece
uma diferenciação, ou “uma alteridade” entre aqueles estão dentro da comunidade e
“os de fora, os estranhos, os outsiders”.33
Mas a “missão” de Sampaio não se resumia somente a isolar àqueles
considerados vadios, mas também “adestrá-los” para uma nova vida disciplinada.
Ou seja, o objetivo do governador, antes de simplesmente eliminar, era “inserir” os
delinquentes, e todos os homens “pouco civilizados”, dentro de uma nova dinâmica
socioeconômica que se queria construir. Observamos tal posição em trecho de um
ofício dirigido ao coronel da milícia dos homens pardos do Icó, em que diz que “a
primeira obrigação de quem governa povos he castigar os delinquentes para
exemplo dos outros”. 34 Por isso a afirmação de que o governo de Sampaio foi
“marcado por um forte processo repressivo, principalmente sobre os povos
35
indígenas, tendo como argumento ou álibi o combate à dispersão” tornou-se
insuficiente para entendermos a complexidade dessa conjuntura social. Segundo
Howard Becker, no objetivo de criar e impor regras e modos de vida, muitos
acabaram assumindo o papel de fazer aquilo que ele chama de “cruzada moral”, e
cremos que esse teria sido o caso do governador Sampaio. Acreditando que “sua
missão é sagrada”, o cruzado moral confia firmemente na importância do seu dever
em transformar a realidade de uma determinada sociedade,36 fazendo com que,
consequentemente, “a noção de repressão” se torne “totalmente inadequada para
dar conta do que existe justamente de produtor no poder”.37
Mais do que somente reprimir ou coagir os habitantes ao trabalho forçado,
com o fim de desenvolver a economia, a característica central desse modelo de
governamentalidade está na sua procura em “gerir a população”, ou seja, “geri-la em
profundidade, minuciosamente, no detalhe”,38 algo que não poderia ser feito com um
povo disperso, improdutivo e não mapeado. Com a política de passaportes, que

32
BECKER, Howard Saul. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2008. p. 168.
33
SOUZA, 1995, p. 86.
34
Julho 9. Officio dirigido ao Coronel do Regimento d’homens pardos da V a do Icó, ordenando-lhe
que escute a ordem de 20 de Março, e que deve evitar o sistema que ategora tinha, q’ era de quase
o
nunca cumprir as ordens do Gov . In: Livro 33, p. 73V.
35
PINHEIRO, 2008, p. 319.
36
BECKER, 2008, p. 153.
37
FOUCAULT, 2007, p. 7.
38
Ibid., p. 291.
122

limitava o transito de pessoas, juntamente com um discurso que enquadrava como


“vadios” aqueles que não se alinhavam às diretrizes reais, tentou-se controlar a
relação da população com seu território e, assim, estabelecer um governo efetivo
numa das mais precárias periferias do Império português.
A instituição dos passaportes e a “caça aos vadios”, juntamente com o
mapeamento da população consistiram nas primeiras ações desse governo, já que
era fundamental gerir a relação que os habitantes mantinham com o seu território, e,
assim, estabelecer um controle efetivo na região. Além de servir como ferramenta de
coerção ao trabalho produtivo, como bem mostrou a historiografia,39 muitas foram as
metas dessas políticas, como a civilização dos costumes e a tentativa de coibir a
formação de bandos armados nas grandes propriedades. Mais do que somente
estar voltado para a repressão, as práticas desse poder político eram bem mais
flexíveis, e, além disso, visavam não só destruir, mas construir novas sociabilidades.
O discurso, mais do que somente falar sobre uma realidade, também a molda;
constitui seus limites, e, no caso do Ceará, fundou uma nova caracterização
geopolítica em que os índios e todos os outros pobres livres, em um processo tenso
e conflituoso, lançariam suas táticas de sobrevivência e inventariam outra via que
configuraria seu cotidiano.

4.2 Um celeiro de mão de obra: trabalho indígena

Isto é terra livre, capitão. O povo


destas bandas não tem marcos na terra.
José Lins do Rego

Conforme visto anteriormente, a pretensão do governo imperial português e


das lideranças políticas nos confins da América era transformar a vida dos nativos,
combatendo a dispersão, a vadiagem e impulsionando-os ao trabalho e à
incorporação de costumes mais civilizados, assim como pretendeu Pombal já no
século XVIII. Para tanto, lançou mão de diversos mecanismos de controle dessa
população, como, por exemplo, o aumento da militarização e a já citada “política de
passaporte”. Aqui focaremos a questão da força de trabalho indígena, para entender
como o impulso ao trabalho, com vigilância cerrada e a punição àqueles que

39
PINHEIRO, 2008.
123

tentavam escapar foi uma importante arma no combate à dispersão populacional,


configurando-se como baluarte do chamado “combate à vadiagem”.
Dessa forma, pretendemos, inicialmente, rediscutir a questão da força-de-
trabalho indígena no século XIX, ao mostrar que, pelo menos no caso do Ceará, ela
chegou a ter status de prioridade para a ação do Estado. Por fim, visamos
compreender de que maneira se estruturou esse mecanismo de coerção e produção
de subjetividades que agiu sobre os pobres livres nos espaços da capitania do
Ceará.

4.2.1 Discussão historiográfica: o trabalho indígena no século XIX

No Brasil, a complexidade da questão da terra no século XIX, tanto para as


populações indígenas como para os grupos que estavam no poder, teve uma
importância inegável. A famosa Lei de Terras de 1850 e o crescimento vertiginoso
das grandes propriedades atingiam diretamente os espaços habitados pelos índios.
No Ceará, estes acontecimentos foram especialmente relevantes, tendo em vista o
fato de que foi aí onde primeiro se anunciou no Brasil a extinção dos índios em seu
território. Mas tal conjuntura levou alguns pesquisadores a superestimarem ou
generalizarem o seu papel. De acordo com Manuela Carneiro da Cunha, no século
XIX, “a questão indígena deixou de ser essencialmente uma questão de mão de
obra para se tornar uma questão de terras”, posto que, naquele período, a “mão de
obra indígena só é fundamental como uma alternativa local e transitória diante de
novas oportunidades”.40
Expor a problemática oitocentista desta forma pode ser um tanto
problemático, já que foi a própria autora supracitada quem caracterizou o referido
século como “heterogêneo”, tendo sido o único a ter conhecido os três regimes
políticos: Colônia, Império e República. Ora, se o período em questão revela a
disparidade, em um país também diverso, pensar que a questão indígena no século
XIX está fundamentalmente na terra é deixar de lado uma variedade importante de
elementos. De acordo com Carlos Guilherme do Valle, falar de terra também é lidar
com o uso da força de trabalho. Segundo o autor, mais conveniente seria mudarmos
nossa compreensão acerca da mão de obra, “que seria descaracterizada de seus

40
CUNHA, Maria Manuela Ligeti Carneiro da. Política indigenista no século XIX. In: ______ (Org.).
História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 133.
124

atributos étnicos, enquanto indígena, para ser generalizada como ‘livre’ [...] e
passível de ser aproveitada em termos econômicos”.41
A análise da documentação revela que havia constante necessidade do
trabalho dos índios em diversos setores para o funcionamento da Capitania.
Exemplo disso está em um ofício remetido aos diretores de Mecejana e Soure em
1816, no qual o governador ordenou que colocassem os nativos nas plantações e
que vendessem suas colheitas em Fortaleza, por conta de possíveis alterações
climáticas que viriam e das que já se sentiam:

[...] deverá vmce em meu nome intimar a todos os Indios seus


dirigidos que visto o grande preço aque tem chegado a farinha de
Mandioca, e ser de recear que para o anno de 1818 haja alguma
falta deste genero de primeira necessidade principalmente se não
sobrevierem Copiosas Chuvas se torna absolutamente necessario
que todos passem quanto antes a plantar os alagadiços do Commum
desta Villa, e dos seus arredores assim como tambem todo o mais
terreno que for proprio para esta plantação, na certeza de que
acharão prompta venda os produtos de suas plantações tanto no
Mercado publico desta Capital como nos Armazens Reaes [...].42

Um registro do recorrente uso da força de trabalho indígena está no relato


que Silva Paulet faz em relação ao Ceará. Sobre as vilas de índios, fez registros
sobre o trabalho dos nativos na Capitania: em Mecejana, os “Indios se empregam
pela maior parte em servir os habitantes da vila da Fortaleza”; em Arronches, os
indígenas “tem a faculdade de plantarem na serra de Maranguape”. 43
Outro exemplo do uso da força de trabalho indígena no Brasil foi abordado
por Denise Rodrigues em seu artigo sobre o “processo de pacificação” imposto aos
rebeldes da Cabanagem na região Amazônica. A autora desenvolveu a ideia de que
a incorporação dos rebeldes derrotados nos corpos de trabalhadores, compostos em
grande parte por índios, teve o intuito de “domá-los, civilizá-los, pacificá-los; torná-
los mansos, obedientes e produtivos”,44 sendo por isso um dos poucos trabalhos a

41
VALLE, Carlos Guilherme Octaviano do. Aldeamentos indígenas no Ceará do século XIX: revendo
argumentos históricos sobre desaparecimento étnico. In: PALITOT, Estevão Martins (Org.). Na mata
do sabiá: contribuições sobre a presença indígena no Ceará. Fortaleza: Secult / Museu do Ceará /
Imopec, 2009, p. 112.
42
Julho 5. Offo aos Directores de Mecejana e Soure para Obrigarem os Indios a plantarem Mandioca
vista a grande falta que se tem sentido. In: Livro 21.
43
PAULET, Antonio Jozé da Silva. Descrição Geográfica Abreviada da Capitania do Ceará. In:
Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza: ano 12, p. 5-33, 1898, p. 16-18.
44
RODRIGUES, Denise Simões. A Servidão pelo Trabalho: “Pacificando” Rebeldes na Amazônia do
séc. XIX. In: BARREIRA, César (Org.). Poder e disciplina: Diálogos com Hannah Arendt e Michel
Foucault. Fortaleza: UFC, 2000, p. 150.
125

tratar da questão da chegada do poder disciplinar, nesse período do Brasil, e


principalmente olhando do ponto de vista do trabalho e militarização indígena. As
ações realizadas pelas políticas do Estado após os conflitos insurrecionais visaram
resolver basicamente dois problemas que atingiram a região, que foram: o “controle
de suas atividades diárias e a possibilidade de obtenção de sua força de trabalho tão
necessária à debilitada economia”.45
Assim como ocorreu no Norte do Brasil, os agentes do Estado no Ceará
enxergavam na força de trabalho indígena uma solução para os problemas de
dispersão populacional e uma ferramenta necessária no desenvolvimento produtivo
da Capitania, além de ter um importante aspecto tutelar, revelando que, além do
caráter repressor da política indigenista no século XIX, havia também um lado
construtor, que visava produzir novas individualidades através da “imposição da
‘norma’ via disciplina do trabalho”. 46 De acordo com Francisco José Pinheiro, com a
criação do Diretório dos Índios e a expansão algodoeira no Ceará no final do século
XVIII, “a população indígena vai se transformando em um dos principais grupos
sociais a ser cooptado como força de trabalho”.47 Isto se deu tanto pela questão da
necessidade econômica quanto pelos objetivos presentes nas leis pombalinas já nos
setecentos: controlar e civilizar a população nativa. Segundo João Leite Neto, com o
estabelecimento da legislação indigenista do Marquês de Pombal, as vilas de índio
passam a se constituir como verdadeiros “celeiros de mão de obra”,48 ao funcionar
como uma espécie de “fábrica-escola”, que visou transformar vadios em homens
civilizados e capacitados para o trabalho.
Foi nesse ambiente disciplinar, desse “novo regime do trabalho” que se tentou
instalar no Ceará o controle da mobilidade populacional nos sertões. Buscaremos,
nesse sentido, apreender “o poder em suas extremidades, em seus últimos
lineamentos, [...] em suas instituições mais locais, mais regionais”,49 como foi o caso
do incentivo e usufruto do trabalho indígena no governo de Manoel Ignácio de
Sampaio, conhecendo, assim, um aspecto que, juntamente com a questão da terra,

45
RODRIGUES, 2000, p. 159.
46
Ibid., p. 156.
47
PINHEIRO, 2008, p. 200.
48
LEITE NETO, Índios e terras: Ceará: 1850-1880. Tese (Doutorado) ‒ Universidade Federal de
Pernambuco, 2006, p. 106.
49
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São
Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 32.
126

foi de suma importância para o combate à dispersão e à vadiagem para a


legitimação do discurso da extinção dos povos indígenas no Ceará.

4.2.2 O incentivo ao trabalho como combate à vadiagem

Já nos primeiros anos da administração do governador Sampaio no Ceará,


percebemos as principais metas de sua política em relação aos pobres livres e
índios da Capitania: combater a vadiagem e civilizar o povo. De acordo com
Pinheiro,50 a dispersão foi um dos graves problemas a ser enfrentado pelo referido
ilustrado português que, para efetivar seus planos, montou uma minuciosa estrutura
de vigilância nas vilas para constranger os indivíduos ao trabalho e punir àqueles
que se negassem a obedecer às determinações reais. Um bom exemplo de como
Sampaio encarou a população dispersa e de que maneira visou discipliná-la esteve
presente em um ofício encaminhado ao capitão-mor das Ordenanças da Capital,
onde ordenou prisões de indígenas que estivessem fora de suas direções sem a
devida documentação:

Constame que por todo termo desta villa se achão dispersos hum
grande numero de Indios aldeados que pela maior parte são vadios,
se sustentão do trabalho dos outros e se occupão unicamente em
fazer desordens de todos os generos contra o que determina o
Diretorio e todas as Ordens Regias. [...] Ordeno a vm ce que passe as
ordens necessarias a todos os Comandes de Distrito seus
subordinados para q’ sem excepção de pessoa prendão, e remettão
á Cadeia desta villa todos os Indios e Indias que se acham nos seus
respectivos Distritos sem o Competente Passaporte [...].51

Estando fora de sua localidade de origem sem a devida autorização, e ainda


sem estar envolvido em alguma atividade produtiva, desrespeitando dessa maneira
as determinações do Diretório de Pombal, o índio era colocado na categoria de
“vadio”, se configurando necessariamente como um “desordeiro” que precisava ser
preso. Foram estas as questões significativas que nortearam a política sobre os
pobres livres e índios no Ceará na época de Sampaio. Seu objetivo, além de
controlar os passos da população, foi também inseri-la à produção de excedentes, 52
seguindo dessa maneira os preceitos da legislação pombalina, que tinha por meta a
integração dos índios à sociedade colonial. De acordo com Isabelle da Silva, a

50
PINHEIRO, 2008, p. 319.
51
Fevereiro 5. Registro de hum Officio dirigido ao Cap.mor desta Villa pa Relutar todos os Indios
dispersos e sem Passaporte. In: Livro 16, p. 136V.
52
PINHEIRO, 2008, p. 322.
127

instituição de impostos, o comércio e o trabalho indígena foram centrais para o


Diretório, distribuindo os nativos nas propriedades dos colonos e facilitando a
hegemonização do sistema mercantil.53 Podemos observar um bom exemplo, ou
seja, de que forma tais procedimentos se executaram nas vilas através de um ofício
expedido pelo governo da capitania ao sargento mor de Monte-mor Novo já em
1812:
Em tempo competente recebi hum Offc. de seu Cap. mor datado de 20
de Maio que acompanhava o Mapa da População desse termo o qual
lhe torno a remetter por não estar em termos: 1º pº nelle não incluir
os Indios: 2º por claramente se conhecer q’ foi arbitrariamente feito.
Por tanto ordeno a vm e [...] com a brevidade possivel me remetta
outro mais correto...
Vmce me Informará se será necessario crear algum outro Commd e de
Destricto de novo a fim de se conseguirem os dois fins principaes do
estabelecimto dos Commdes a saber: a manutenção da boa ordem e
do socego publico e o adiantamento da Agricultura no que os ditos
Commdes devem tambem ter a maior vigilancia persuadindo e
Obrigando os Povos a que fação rosados, e plantações
principalmente de mandioca e remettendo presos a esta Villa os que
despresando estes Avizos continuarem a ser vadios ficando-me
responsaveis pela falta de execução a esta mª Ordem.54

Em um só documento estão juntos diversos elementos característicos do


novo plano que se queria montar para o Ceará. Em primeiro lugar, vimos a questão
do mapeamento e gerência que se pretendeu executar em cada localidade. E
podemos notar algo que, apesar de ser prioridade para o governador, ainda não
parecia estar claro para as autoridades locais: a urgência para que se registrasse a
população indígena em detalhes, já que seria, segundo as elites político-intelectuais,
a verdadeira causadora da má fama da capitania. E, em segundo lugar, observamos
que foi preciso que uma autoridade – o comandante de distrito – estivesse presente
para assegurar sossego e ordem à comunidade, e o adiantamento das atividades
produtivas, por meio da vigilância entre os trabalhadores e da punição para aqueles
que não quisessem se submeter ao sistema. Neste pretenso “exercício da
disciplina”, observamos como se queriam construir dispositivos que obrigassem, pelo
“jogo do olhar”, os índios a se inserirem em um universo regido pela norma; bem
como se queriam consolidar práticas nas quais técnicas induzissem a efeitos de

53
SILVA, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o
Diretório Pombalino. Campinas: Pontes, 2005, p. 82-83.
54
Junho 22. Registro de hum Officio dirigido ao Sarg to mor de Monte mor Novo sobre os Commd es de
Districto. Livro 15.
128

poder, contribuindo dessa maneira para a consolidação de novas individualidades.55


Por outro lado, notamos que neste contexto a punição também possuiu um papel
educativo, não tendo como razão de ser a pura repressão contra aqueles que eram
rebeldes. Antes, visa trabalhá-los, moldá-los, torná-los produtivos sem ter que
necessariamente eliminá-los: enfim, “ela normaliza”.56 A definição de panoptismo
descrita por Foucault, instrumento de vigilância, separação e subjetivação que se
projetou nas instituições basilares do “poder disciplinar desde o começo do século
XIX”,57 representou bem as pretensas ideias que a elite política, baseada na
legislação pombalina, sonhou para aquele Ceará “infestado” de vadios.
Seguindo, dessa forma, as diretrizes do Diretório, os índios foram recrutados
ao trabalho em diversas modalidades, algumas já tradicionais, como no serviço
militar, outras criadas pelo governo de Sampaio, como foi o caso dos serviços
executados pelos chamados “índios-correio”, como veremos ainda neste capítulo.
Entre outras atividades possíveis para as quais os nativos eram recrutados está
também a construção civil, como nas reformas da mais significativa edificação da
capital, a Fortaleza de Nossa Senhora d’Assunção. Em abril de 1814, por exemplo, o
índio José Gomes recebeu tratamento no Hospital Real Militar por ter ficado “mal
tratado nos trabalhos da Fortaleza”.58 Outra obra onde foi utilizada a mão de obra
indígena foi a reforma da matriz de Arronches em 1814:

O Diretor da Villa de Arronches forneça ao Vig o da mesma Villa


Amaro Joaqum Pera de Mores e Castro doze Indios por Semana que o
mesmo Rev o Vigo me tem requerido para os trabalhos da
Reedificação da Igreja Matriz da mesma V a cujo fornecimento será
feito por detalhe em todas as Companhias dos Indios da quella
direcção pagos na forma Directorial.59

Notemos que, além do serviço em si, ficou destacada também a


obrigatoriedade de se fazer o pagamento aos recrutados de acordo com o que diz o
Diretório. Dessa maneira, os nativos se inseriam em um novo sistema que, além de
ter como estrutura o disciplinamento diário de suas vidas, por meio do trabalho, era
baseado no capital. Todavia, tal direcionamento não era uma regra que sempre foi
cumprida, e um dos desafios do governo de Sampaio sobre o trabalho dos índios
55
FOUCAULT, 2007, p. 143.
56
Ibid., p. 153.
57
Ibid., p. 165.
58
Abril 30. In: Livro 27, p. 83.
59
Julho 12. Portaria ao Diror d’Arres pa fornecer ao Revdo Vigº daquella Va 12 Indios pª a reedificação
da Igreja. In: Livro 19.
129

era, além do que já foi dito, combater os abusos, inclusive sobre a questão dos
pagamentos. De acordo com Koster, o antigo governador Barba Alardo de Menezes
construíra a “parte central do palácio [sede do governo da capitania], empregando
trabalhadores indígenas aos quais pagava a metade do preço habitual do serviço”.60
Ou seja, o costume de se utilizar o trabalho dos nativos era antigo e crucial na
região, mas nem sempre seguindo à risca as orientações de remunerações justas do
Diretório.
Os índios também podiam ser movidos para vender alguns produtos
excedentes de seus trabalhos em Fortaleza, sejam agrícolas – como já foi exposto
anteriormente – ou vindos do extrativismo – como frutos do mar – atividade
registrada em circular dirigida aos Diretores de Soure, Arronches e Mecejana nos
anos de 1815 e 1816:

[...] passe as Ordens necessarias para que todos os dias venhão seis
Indios da sua direção vender ao mercado publico desta Capital,
Caranguejos, Cadelinhas, Oustras ou outro qlquer marisco devendo
logo que chegarem apresentarem-se ao Almotace.61

O trabalho mais frequente para o qual foram recrutados os índios eram os


serviços agrícolas, seja em suas vilas, como também em propriedades particulares,
sempre com a devida autorização governamental. Desde o século XVIII, os
indígenas já eram requisitados na agricultura, por conta do advento da produção
algodoeira, na conjuntura da revolução industrial que movimentou a Europa.62 Foi
neste contexto que as vilas se constituíram como verdadeiros “espaços de
preparação e fornecimento de mão de obra, visando atender à demanda dos setores
público e privado”.63 Assim, os índios se tornaram fundamentais para a economia no
Ceará, trabalhando tanto em suas próprias localidades como também (e de forma
recorrente) em sítios e fazendas de terceiros. E se, segundo Leite Neto, as leis do
Diretório tiveram como efeito a dispersão dos índios pelo território, representando
uma fuga diante da submissão ao trabalho compulsório,64 o governo Sampaio usou

60
KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro; São Paulo; Fortaleza: ABC,
2003, p. 175.
61
Fevereiro 13. Portaria aos Directores das 3 Vas de Indios pa obrigarem os Indios a virem á Praça
Vender Marisco. In: Livro 19, p. 178. De Igual conteúdo in: Março 21. Circular aos Directores de
te
Arronches, Soure e Mecejana pª mandarem 6 Indios diariam com mariscos a vender na feira. In:
Livro 20.
62
PINHEIRO, 2008, p. 201.
63
LEITE NETO, 2006, p. 105.
64
Ibid., p. 101.
130

justamente o impulso à utilização da força de trabalho nativa como arma para


combatê-la. Assim, tentou resolver vários problemas com uma única ferramenta, já
que serviu tanto como engrenagem motora da economia, como também exerceu o
seu objetivo legal, que foi o de inserir essa população na sociedade colonial e nas
relações de produção do período.
Temos alguns registros de pedidos de índios por proprietários, que mostram
como era comum e crucial para o funcionamento daquele cotidiano o trabalho dos
nativos. No mês de abril de 1812, Vitorino Bastos e Manoel Joaquim, de Fortaleza,
requereram “hum Idio[sic] rapaz dos da Va de Arronches”,65 e Francisco Martins, de
Cascavel, pediu “da Va de Arronches hum Indio e hua India de menor idade”, cujo
pedido só seria concedio após de ser conferida a “idunidade do Sup l”.66 O Ceará
chegou inclusive a exportar mão de obra para o Piauí, a partir do requerimento do
coronel Simplício Dias da Silva, morador de Parnaíba, que pediu, ao diretor de Vila
Viçosa Real, índios “para suas lavouras ou outros quaesquer misteres na forma
ategora praticada e seguindo em tudo o que determina o Directorio”.67 Não temos
registros suficientes para afirmar se tal prática de envio de trabalhadores para o
coronel – ou a outras autoridades fora do território cearense – era comum, mas tal
documento revela, pelo menos, a significação que esta população possuía para a
capitania em comparação com outras regiões próximas.
Na maior parte das fontes relativas ao trabalho indígena, pudemos observar
que, constantemente, ordens eram expedidas às autoridades locais intimando-as
que combatessem a dispersão e a vadiagem, como vimos anteriormente. Mas
dentro dos planos de concentrar o povo na terra e desenvolver a agricultura,
exceções podiam ser feitas, já que não era só pelo fato de estarem fora de suas
vilas natais que os índios seriam considerados vadios. Em 1813, o governador
explicava ao capitão-mor das Ordenanças da Capital que o objetivo do
“Recrutamento dos Indios he o augmento d’agricultura”, e que, por isso, os nativos
que se encontravam no Parasinho, por terem “avultadas plantações”, não deveriam
ser recrutados, e assim não seria preciso atrapalhar a produção e nem colocar um
obstáculo à fixação “civilizada” dos indígenas. Porém, mesmo assim, o governador

65
Abril 27. Registo de hum Offo dirigido ao Sargto Mor das Ordenanças desta Va Antonio Je Moreira.
In: Livro 95, p. 18V.
66
Abril 27. Registo de hum Officio ao Commde e do Districto do Cascavel o Capm Anastacio Lopes
Ferra do Valle. In: Ibid., p. 19.
67
Agosto 16. Registo da Portaria ao Dir or de Va Viçosa pa das todos os Indios q’ o Cor el Simplicio
pedir. In: Livro 17, p. 129.
131

ordenou ao Capitão-mor: deveriam ser “presos aquelles não lhe apresentarem


licença minha para ali continuarem as plantações”.68 Podemos ver que as ações
governamentais no Ceará estavam sempre tentando combinar o controle minucioso
da população, a sua fixação na terra e o desenvolvimento econômico da Capitania,
que serviria também para a formação moral do povo, em especial dos índios.
Os recrutamentos em massa, que se acentuaram em 1812 com a chegada de
Sampaio, continuaram crescendo durante todo o seu governo, recolhendo os nativos
obrigatoriamente para as suas vilas de origem, forçando-os ao trabalho e
controlando seus passos, assim como mandava o Diretório. Queria-se construir nos
índios um renovado sentimento de fidelidade ao rei, e apego aos preceitos da
civilização, bem como o de transformar aquela cena de decadência das vilas de
índios descritas por Silva Paulet ainda em 1812: “são insignificantes e vão acabar”.69
Com esse desenvolvimento das práticas coercitivas que agiam sobre os
pobres livres no Ceará, observamos que a intensidade da política de impulso ao
trabalho indígena fez com esses mesmos nativos perdessem ainda mais espaço
naquele universo colonial. Ou seja, as vilas de índio eram cada vez menos dos
índios, e as suas vidas estavam cada dia mais sendo controladas, vigiadas e
forçosamente transformadas.
A terra teve um peso importantíssimo naquele período, e diversos autores
foram unânimes em afirmar o quanto ela foi crucial para índios e elite fundiária no
Brasil, sendo peça-chave na construção do discurso do desaparecimento étnico.70
Entretanto, o exagero e o simplismo podem esconder elementos fundamentais,
como é o caso da questão do trabalho. Pelo menos aqui no Ceará do período de
Manuel Ignácio de Sampaio, a força de trabalho nativa foi central na discussão
política, tendo sido a principal ferramenta de concretização da política
governamental de controle populacional, crescimento econômico e civilização do
povo. Essa última, que por sinal era prioridade da política indigenista do Diretório,
pretendeu agir verdadeiramente como aquilo que Denise Rodrigues chamou de
“fabricação de indivíduos úteis”,71 ao querer transformar vadios em súditos fiéis do
Rei de Portugal, e compulsoriamente em homens civilizados.

68 mor
Março 20. Registro de hum Officio dirigido ao Cap das Ordenanças desta Villa para responder o
Recrutamto d’aquelles Indios q’ tiverem rossados. In: Livro 17.
69
PAULET, 1898, p. 6.
70
CUNHA, 1998; LEITE NETO, 2006; VALE, 2009.
71
RODRIGUES, 2000, p. 159.
132

4.3 Como nunca se viu nestes sertões: recrutamento indígena

[...] me consta [...] o bom arranjo e


disciplina em que vme sempre
conteve os Indios do seu Commando
como ainda ategora não tinha visto
nestes Certões [...].
(Ofício de Manuel Ignácio de
Sampaio ao Sargento mor José
Agostinho Pinheiro, 4 de outubro 1817)

Iniciamos este item contando uma pequena história que, para alguns, pode
parecer bastante inusitada. Aconteceu que, em 1812, a índia Ana Francisca, natural
de Soure, fugiu da casa de uma proprietária onde estava trabalhando de aluguel.
Para sua infelicidade, foi presa no dia 21 de maio do mesmo ano acusada de estar
“vagando escandalozamte”72 e, na mesma data, mandada à sala do governador do
Ceará e autor da ordem de prisão, Manuel Ignácio de Sampaio.73 Quatro dias
depois, o então diretor dos índios de Soure, José Agostinho Pinheiro, recebeu
ordens para que “castigue a India Anna Francisca como julgar que ella merece”.74
Tal caso não seria diferente de nenhuma das várias outras fugas e prisões de índios
que aconteceram no período se não fosse por um detalhe: a pessoa que executou a
dita prisão foi o cabo André Gomes, também índio.
Com esse relato típico e ao mesmo tempo surpreendente, diversas questões
podem emergir acerca da complexa condição indígena da época. Este período foi
marcado por diversas mudanças que tiveram objetivo de potencializar a civilização
da Capitania, que, durante praticamente todo o período colonial, foi vista um dos
confins mais inacessíveis e mal estruturados do Império português,75 considerada
por alguns um verdadeiro teatro de horrores.76 Em relação à política populacional, o
caráter disciplinar estava presente em diversas ações executadas pelas autoridades

72
Maio 21. Registro de hum Officio dirigido ao Director dos Indios da Villa de Soure Je. Agostinho
Pinheiro. In: Livro 15, p. 25.
73
Maio 21. Portaria a Francisco Xer. Torres Commd e da Guarnição desta Va. pa. mandar soltar a India
Anna Francisca. In: Livro 33, p. 04V.
74
Maio 25. Registro de hum Officio dirigido ao Director dos Indios de Soure Joze Agostinho Pinheiro
sobre huã prizão. In: Livro 15, p. 34.
75
ELIAS, Juliana Lopes. Militarização indígena na Capitania de Pernambuco no século XVII: caso
Camarão. Tese (Doutorado) ‒ Universidade Federal de Pernambuco, 2005.
76
GOMES, 2006, p. 1.
133

reais, visando inserir aquele “povo desfalecido” 77 em uma dinâmica de mercado


produtiva78 e, consequentemente, levando-o para “luz” dos costumes “civilizados”.
No caso da pequena história narrada acima, podemos levantar várias
questões que compunham este contexto, como, por exemplo, o combate à dispersão
populacional, o incentivo ao ritmo de vida disciplinar de trabalho e, finalmente, o
recrutamento militar de índios. Partindo desses fragmentos, e procurando multiplicá-
los em muitos outros, nosso objetivo aqui é entender o funcionamento dessa
complexa situação de militarização indígena, com seus diversos objetivos,
estratégias, recuos e oscilações.
O estudo da documentação nos revela que este mecanismo fora crucial na
política de disciplinamento populacional utilizada pelas autoridades reais. Já desde o
final do século XVIII, o recrutamento e o recenseamento das tropas pretendiam
alcançar todos os habitantes da Capitania,79 estendendo-se inclusive para a
população indígena. Porém, os índios não eram, na verdade, propriamente militares,
cabendo-lhes somente serem movidos para as tropas de Ordenanças.80 Mas de
qualquer maneira, mesmo não exigindo responsabilidades militares diárias, esse
novo impulso da política de alistamento e organização das tropas teve papel
significativo para as políticas indigenistas do governo. Dentre as funções mais
importantes, a militarização indígena pretendeu acabar com a desenfreada
dispersão populacional que tanto preocupava as autoridades desde o século XVIII, 81
tendo sido inclusive a causa da prisão da nossa já conhecida índia Ana Francisca. O
motivo desse vigoroso combate, dito anteriormente, estava no fato de que os
frequentes deslocamentos impediam que essa população, constantemente migrante,
fosse controlada e monitorada, desfalcando consideravelmente a economia e caindo
no risco das já citadas formações de bandos armados, compostos de pobres livres,
submetidos aos potentados rurais da região.82 Além disso, outro objetivo estava
ligado ao forte impulso à inserção da população no mundo civilizado e produtivo,

77
FEIJÓ, João da Silva. Memória escrita sobre a Capitania do Ceará. In: Revista do Instituto do
Ceará. Fortaleza: ano 3, p. 3; 22-27, 1889.
78
PINHEIRO, 2008.
79
GOMES, 2006, p. 120.
80
SILVA, Kalina Vanderlei. O miserável soldo & a boa ordem da sociedade colonial: militarização
e marginalidade na Capitania de Pernambuco dos século XVII e XVIII. Recife: Fundação de Cultura
do Recife, 2001.
81
GOMES, 2006, p. 121-122.
82
GOMES, José Eudes Arrais Barroso. As milícias d’El Rey: tropas militares e poder no Ceará
setecentista. Dissertação de mestrado, Universidade Federal Fluminense, 2009. p. 92-93.
134

algo que para os índios da capitania tinha um papel especial. Conforme mostram os
trabalhos de Gomes83 e Pinheiro,84 desde a criação do Diretório dos Índios, a força
de trabalho indígena vinha sendo usada prioritariamente por diversos fatores, mas
ao longo de todo o período colonial, o choque entre tal demanda de mão de obra e a
insubordinação por parte dos índios era constante. Dessa forma, a inserção de um
modo de vida disciplinado e militarizado dentro do cotidiano indígena visava mudar
essa realidade.
A partir daí é que podemos compreender a política indigenista da época e a
prática do recrutamento militar indígena. Apesar do evidente caráter violento dos
alistamentos que ocorriam no período, em diversas partes do Brasil, como nos
mostra o trabalho de Vânia Moreira sobre esta realidade no Espírito Santo,85 e da
extrema pobreza em que viviam as tropas nas periferias do Império português,86 a
questão dos “bons-tratos”, como abordou Beatriz Perrone-Moisés,87 e como era
prescrita nas legislações indigenistas da época, estava também presente nas
práticas dirigidas aos índios, inclusive dentro da esfera militar. Na verdade, segundo
o trabalho de Lígio Maia,88 a condolência no tratamento com os nativos já era prática
obrigatória desde os tempos dos aldeamentos jesuítas, e, neste novo contexto dos
oitocentos, tal preceito continua com o Diretório.
Acrescente-se a isto que, no contexto cearense, por mais que houvesse um
caráter repressor, as práticas políticas da época visavam não somente controlar os
índios, mas também fazer com que estes quisessem fazer parte do corpo de súditos
da Coroa portuguesa. Logo, a análise da documentação nos fez perceber que as
práticas governamentais relativas à militarização indígena, assim como o cotidiano
dos índios, também não eram homogêneas. O que de fato era proposto, e se
tentava executar, era fazer com que os índios, através da disciplina, deixassem seus
antigos hábitos e se tornassem súditos fiéis e civilizados, como previa o Diretório.

83
GOMES, 2009, p. 159-160.
84
PINHEIRO, 2008, p. 200.
85
MOREIRA, Vânia Maria Lousada. Guerra e paz no Espírito Santo: caboclismo, vadiagem e
recrutamento militar das populações indígenas provinciais (1822 – 1875). In: XXIII Simpósio
Nacional de História. Simpósio: Guerras e Alianças na História dos Índios: Perspectivas
Interdisciplinares. 2005.
86
SILVA, 2001.
87
PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista
do período colonial (século XVI a XVIII). In: CUNHA, Maria Manuela Ligeti Carneiro da. História dos
índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
88
MAIA, Lígio José de Oliveira. Cultores da vinha sagrada: missão e tradução nas Serras de
Ibiapaba (século XVII). Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2005, p. 60-61.
135

Nosso primeiro objetivo é fazer um estudo genealógico, da maneira proposta


por Foucault, do funcionamento do poder real que se exercia numa zona periférica
do Império português, através de um “mecanismo infinitesimal” 89 daquela sociedade
– o recrutamento militar indígena – que buscava fabricar, a partir daqueles índios
ditos “bárbaros” e “delinquentes”, homens civilizados e fiéis à Coroa portuguesa.

4.3.1 Conjuntura militar portuguesa (fins do séc. XVIII e início do séc. XIX)

O desenvolvimento das táticas disciplinares no âmbito militar chegou


relativamente tarde em Portugal. De acordo com Kalina Silva, a ascensão dos
Estados Modernos viu surgir também, já no século XVII, uma nova racionalização de
seus exércitos, saindo de um modelo primitivo de organização de tropas, no qual
apenas valia o heroísmo, entrando em um sistema focado no adestramento de seus
soldados e companhias. Deixando a indisciplina da guerra medieval, em que “cada
guerreiro escolhia um oponente entre as hostes inimigas e o confrontava de forma
particular, fazendo da batalha algo pessoal”,90 a modernidade militar primava pela
eficiência da tropa, “que deve – que precisa – agir com uniformidade, com coesão, e
não como uma horda de indivíduos particulares e dispersos”. 91 Na segunda metade
do século XVIII, com o desenvolvimento de métodos e táticas disciplinares nos
exércitos de Estados como a França e a Holanda, a figura do soldado já se
configurava como algo passível de ser fabricado: “de uma massa informe, de um
corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa”. 92 Mas em Portugal, até metade
dos setecentos, a força militar ainda era desorganizada e miserável.93
Mesmo sem ter tido total sucesso, foi o Marquês de Pombal, ainda como
Conde de Oeiras, quem tentou executar uma das mais fortes reorganizações
militares em Portugal, por conta da ameaça da invasão espanhola durante o reinado
de Dom José I.94 De forma lenta, e com muita resistência tanto por parte do povo
quanto das autoridades, a disciplina militar foi, aos poucos, fazendo parte da
formação bélica da metrópole e, por extensão, de sua Colônia na América. Mas até
que isso se concretizasse, podemos observar que a ocupação portuguesa no Brasil

89
FOUCAULT, 2007, p. 184.
90
SILVA, 2001, p. 31.
91
Ibid., p. 33.
92
FOUCAULT, 2007, p. 117.
93
SILVA, 2001, p. 61.
94
Ibid., p. 56-57.
136

ocorreu a partir da máxima “cada colono é um homem de guerra”.95 Baseando-se


em um esquema de títulos e remunerações por serviços militares aos seus súditos,
que acabou por facilitar a colonização, além de deixá-la mais rentável, a Coroa
lusitana viu se consolidar nos sertões brasileiros a formação dos grandes potentados
locais, que, ao longo do tempo, agiam de certa maneira “independentes” da
administração real.96
De todo modo, podemos ver que, no século XVIII, a organização militar em
Portugal continuou sendo marcada pela penúria e desorganização, com tropas mal
supridas e soldados miseráveis.97 Quando partimos para a realidade de zonas mais
periféricas do Império, como era o caso do Ceará, esse quadro se acentuou ainda
mais. O estudo de José Eudes Gomes sobre as tropas militares na Capitania
cearense setecentista mostrou como, ao longo desse período, aquele sertão “brabo”
em pleno território lusitano se configurou cada vez mais como um lugar militarmente
abandonado.98 Este aspecto somava-se a muitos outros que fizeram com que se
desenvolvesse no Ceará, desde a sua criação, o estigma da “terra de ninguém”,
dominada por grandes potentados rurais que ascenderam, entre outros fatores,
pelas patentes militares cedidas pelo governo real 99 e considerada pela Coroa
portuguesa “uma área explosiva, em razão do grande contingente de índios que lá
residiam e para lá fugiam”.100
Mas a partir da segunda metade do século XVIII, especialmente com as já
citadas investidas de Pombal, parece ter ocorrido uma espécie de “virada militar” no
Império, com tentativas de renovação da organização bélica na metrópole e colônias
através da entrada do método disciplinar na formação dos comandos e tropas.
Partindo para o contexto das sociedades indígenas, a criação do Diretório dos Índios
pautou o recrutamento militar como um dos aspectos necessários para a bem
sucedida inserção dos índios na sociedade civilizada.
Já no século XIX, vimos que tais tentativas de reformulação da estrutura
bélica no Brasil pareceram ganhar novo fôlego. No Ceará, o período que foi do final
dos setecentos até meados dos oitocentos viu surgir diversos mecanismos que
visaram estabelecer um rígido controle da população e uma minuciosa

95
SILVA, 2001, p. 71.
96
GOMES, 2009.
97
SILVA, 2001, p. 66-67.
98
GOMES, 2009, p. 173.
99
Ibid., p. 131.
100
ELIAS, 2005, p. 104.
137

reorganização das estruturas militares, como é o caso da já trabalhada política de


passaportes e os mapas de recenseamento das tropas.101 Mas a chegada do militar
português Manoel Ignácio de Sampaio em terras cearenses fez com que tais
investidas ganhassem proporções jamais vistas.
Reativando antigas políticas e criando novas estratégias, o governo Sampaio
desenvolveu dispositivos que interferiram na organização militar das tropas do
Ceará. Uma de suas primeiras medidas neste sentido foi o ofício circular expedido
em 20 de março de 1812, ano de sua chegada em território cearense, a todos os
coronéis e comandantes de regimentos milicianos da Capitania. Nela, o governador,
em cumprimento das “Reaes Ordens do Principe Regente Nosso Senhor”, ordenou,
entre diversas outras coisas, que

[...] com a maior brevidade possivel me remetta hum Mappa mto


circunstanciado do estado actual do Regimento do seu Commando
declarando [...] Os Nomes dos Officiaes, Officiaes Inferiores e
Soldados licenciados, [...] assim também dos que se acharem
Dezertores do Regimento [...].102

Podemos observar que esta medida não partiu de uma ação particular de
Sampaio, mas era fruto de uma política de reestruturação que vinha do próprio rei
Dom João VI. Seguindo esta corrente, o governador buscou renovar e reordenar a
formação militar na Capitania em diversos aspectos e em variados estratos, seja em
tropas regulares, como também naquelas mais locais e, aparentemente, mais
“secundárias”, como foi o caso das ordenanças de índios.
No contexto indígena, Sampaio reforçou as políticas de controle como
nenhum outro governador havia feito, e a militarização nativa também teve status de
prioridade. Como vimos anteriormente, por corresponder à boa parte da população
no Ceará, os índios acabaram por se tornar a principal mão de obra na Capitania,
mas eram também os pivôs do grave problema da dispersão populacional.103 Por
conta da complexidade social da região, associadas a mudanças estruturais que
ocorriam em nível imperial, o recrutamento dos índios sofreu um crescimento
vertiginoso, passando por uma renovação disciplinar que jamais fora realizada nesta
região. Dito isso, procuramos mostrar, por meio do trabalho com a documentação,

101
GOMES, 2006, p. 121-122; GOMES, 2009, p. 242.
102
Registro de hum Officio Circular, dirigido aos Coroneis, e Command es dos Regimentos Miliciannos
desta Capitania, em que lhe ordena Remettão os Mappas do estado actual dos Regimtos dos seus
Commandos, e da mesma sorte em todos os trimestres. In: Livro 33, p. 1.
103
ELIAS, 2005, p. 99.
138

os diversos mecanismos, jogos políticos e estratégias que fizeram parte do


complexo, rigoroso e, ao mesmo tempo, flexível esquema político de alistamento
militar de índios no Ceará no início do século XIX.

4.3.2 Recrutamento indígena

A estrutura militar portuguesa na Capitania de Pernambuco, desde o século


XVII, era dividida da seguinte maneira: tropas de linha, que seriam o exército
regular, profissional e permanente; milícias, tropas auxiliares remuneradas apenas
em serviço ativo; e, por fim, as ordenanças, formadas por “toda população masculina
livre não recrutada pela tropa de linha, nem pertencente às milícias”.104 Estas
últimas, em particular, tinham papel fundamental na tentativa de controle
populacional na Colônia. Sua grande importância consistia no fato de que ela
enquadrava toda a “população livre das povoações não apenas militarmente, mas
dentro dos padrões da Coroa”, permitindo que “os braços do Estado alcancem até
as povoações mais distantes”.105
Podemos ver que, graças às companhias de ordenanças, a administração
metropolitana fez com que quase a totalidade dos habitantes livres da Colônia fosse
enquadrada na hierarquia militar. Consistindo a grande maioria da população, eram
forças de caráter estritamente local, que restringiam sua atuação somente aos
limites das vilas ou termos onde eram formadas.106 E dentre os variados estratos
sociais que faziam parte desses corpos auxiliares estavam os índios das vilas
pombalinas.
Desde a criação do Diretório dos Índios no século XVIII, que previu a
transformação das antigas aldeias jesuíticas em vilas comandadas por um diretor, as
chamadas “ordenanças de índios” também foram utilizadas para a defesa da Colônia
portuguesa, além de ser um dos principais mecanismos que agiam a favor da
“‘civilização’ e transformação dos índios americanos em vassalos do rei”. 107 Durante
o governo Sampaio, o recrutamento de índios, como também dos pobres livres em
geral, teve um objetivo primordial no sentido de combater a “vadiagem” e coagir o

104
SILVA, 2001, p. 77-78.
105
Ibid., p. 79.
106
GOMES, 2009, p. 89.
107
Ibid., p. 91.
139

povo ao trabalho vigiado e disciplinar.108 Tal política de alistamento dos pobres livres
com caráter civilizatório parece ter existido também em outras partes do Brasil, como
mostra o trabalho de Vânia Moreira. De acordo com a autora, o recrutamento no
Espírito Santo oitocentista tinha como finalidade “exercer o controle social, punindo
supostos desordeiros, homens pouco obedientes às hierarquias sociais ou aqueles
recalcitrantes ao trabalho”, além de inserir estes mesmos homens “ao mundo do
trabalho e da produção”.109 No caso da Capitania de Pernambuco de fins do século
XVIII, segundo Kalina Silva, não acontecia diferente, pois, segundo ela, os soldados
eram tirados justamente “de dentro das camadas mais marginais da sociedade”, 110
resolvendo, dessa maneira, “o excesso de vagabundos nas vilas e a falta de
soldados nas tropas”.111 Foi através dessa linha que Sampaio conduziu durante todo
o seu governo o recrutamento dos chamados vadios no Ceará, como podemos
observar em ofício dirigido ao comandante dos presídios da costa do Aracati, em
1819:
[...] com o reforço que daqui lhe foi expedido se acha vm ce em
circunstancias de dar perfeita execução a minha ordem de 10 do
corrente sem diminuição a guarnição dos presidios da Costa.
Acho muito acertado a Captura dos Vadios que houverem pelas
praias para sentarem praça na tropa de Linha os quaes devem vir
remettidos na primeira ocasião.112

Também são muitos os registros na documentação que revelam essa


preocupação do governo em alistar a população indígena, e, em especial, o grande
contingente dos que andavam vagando pela Capitania, ou os que simplesmente
estavam fora de suas vilas de origem. Em 1819, foi passada ordem do governador
ao sargento-mor de Infantaria das Marinhas do Ceará e Jaguaribe para que
prendesse o índio André de Lima, e seu filho Braz de Lima, que eram da direção de
Mecejana, mas se encontravam no Pecém.113
Como podemos observar, era grande a preocupação em livrar o Ceará do
estigma de ser um lugar onde tradicionalmente servia de esconderijo para vadios e

108
PINHEIRO, 2008, p. 343.
109
MOREIRA, 2005, p. 2-5.
110
SILVA, 2001, p. 99.
111
Ibid., p. 105
112
Dezbro 18. Offo ao Alfes Chaves sobre os presidios da Costa e p a capturar os vadios das Praias pa
sentarem praça na tropa de Linha. In: Livro 39, p. s/n.
113
Abril 3. Offo ao Sargmor Joze Felix mandando prender o Indio Andre de Lima e seu filho Braz de
Lima. In: Ibid., p. 63.
140

ladrões,114 e, por isso, era imprescindível que todos os habitantes andassem sob o
controle do governo. Encontramos um exemplo dessa urgência e da inquietação em
relação à dispersão populacional no oficio de 5 de fevereiro do ano seguinte,
encaminhado ao capitão-mor das ordenanças da capital, onde diz o seguinte:

Constame que por todo termo desta Villa se achão disperssos hum
grande numero de Indios aldeados que pela maior parte são vadios,
se sustentão do trabalho dos outros e se ocupão unicamente em
fazer desordens de todos os generos contra o que determina o
Directorio, e todas as Ordens Regias. [...] Ordeno a vm e que passe
as ordens necessarias a todos os Commd es de Districtos seus
subordinados para q’ sem excepção de pessoas prendão, e remettão
á Cadeia desta Villa todos os Indios e Indias que se acharem nos
seus respectivos Districtos sem o Competente Passaporte [...].115

Outro exemplo dessa urgência está em ofício dirigido ao sargento-mor de


Monte-Mor o Novo, no dia 18 de janeiro do mesmo ano, por meio do qual o
governador mandou prender o índio Felix José Martins, da Direção de Mecejana,
que, mesmo morando há anos “no lugar de Acarape” (atual Redenção), teve que
voltar à vila que pertencia.116 Entretanto, o mais impressionante é que além de
habitar havia muito tempo fora de Mecejana, o índio também era casado no lugar
onde vivia, e mesmo assim foi obrigado a cumprir as ordens reais. Notemos que a
preocupação era tanta que, mesmo tendo há muito tempo uma vida estável em outro
lugar, isso não era suficiente para que continuasse habitando fora de sua localidade.
Mas em alguns casos, encontramos certas concessões do governador em
relação ao requerimento de alguns índios, como aconteceu com Theodosio dos
Santos Cruz, também de Mecejana, em fevereiro de 1813. Em resposta, Sampaio
ordenou ao Diretor da vila de Mecejana que lhe desse “baixa na Companhia em que
se acha alistado” e que não o “embarasse para elle poder fazer o seu
estabelecimento, e morada aonde lhe convier”.117 É possível compreender o motivo
dessas exceções quando percebemos que o verdadeiro objetivo de toda essa
política de impulsionar o recrutamento no Ceará era combater a vadiagem e – tão
importante quanto – “obrigar a população a se submeter a trabalho agrícola na nova

114
GOMES, 2005.
115
Fevereiro 5. Registo de hum Officio dirigido ao Cap mor das Ord as desta Villa pa reclutar todos os
Indios disperssos e sem Passaporte. In: Livro 16, p. 136V.
116
Janeiro 18. Registo de hum Offo ao Sargento mor de Monte mor o Novo Ordenando-lhe huma
prisão. In: Ibid., p. 122V.
117
Fevereiro 20. Registro de hum Officio dirigido ao Dir or de Mecejana pa dar baixa a hum Indio para
não ficar sugeito a Va alguma. In: Ibid., p. 153.
141

modalidade que estava sendo exigida no período”, ou seja, passar de uma


“agricultura de autoconsumo (subsistência) para outra produtora de excedentes”.118
Exemplo disso está no ofício dirigido ao coronel comandante de Granja, em 16 de
setembro de 1812:

Fico sciente da prisão a que VS. mandou proceder de Malaquias de


Souza como vadio e ratoneiro e com brevid e o mandarei buscar ao
Sobral pa lhe assentar Praça na Guarnição desta V a. Semilhantmte
deve VS. continuar a prender os vadios que houver nessa villa por q’
devendo fazer hum recrutam to prefiro mandar assentar Praça aos
Vadios antes do que tirar d’agricultura aquelles que nella se
empregão.119

Podemos observar que, antes de locarem os índios nas suas respectivas


vilas, o real objetivo do governo era desenvolver economicamente a Capitania e,
para que isso fosse possível, fixar a população e torná-la produtiva. Quando se
tratava dos índios, tal necessidade tornava-se ainda mais evidente, haja vista que,
além de se constituírem força de trabalho da região, seriam os mais carentes da
“civilização”. Por conta disso, já no primeiro ano de Sampaio no Ceará, o trabalho
com a militarização indígena atingiu proporções que, provavelmente, nunca foram
vistas anteriormente. O crescimento das vilas de índio foi tal que, em março 1814,
por conta da “avançada idade e grande molestia” do então diretor dos índios de
Mecejana, este se encontrava impossibilitado de permanecer no cargo e de exercer
todas as tarefas exigidas pelo governo, “em razão do grande augmento que tem tido
a Villa em consequencia do recrutamento a que tenho mandado proceder”, tendo
sido substituído pelo de Soure.120

4.3.3 Os comandantes índios e o papel das autoridades nas tropas

Além dos nativos que eram recrutados para sentarem praça nas ordenanças,
outro personagem importante dessa política de recrutamento era o comandante
índio. Segundo Henry Koster, mesmo tendo “algum poder sobre os seus
companheiros”, os capitães-mores indígenas eram “ridicularizados pelos brancos”.121
Mas apesar das considerações do viajante inglês, as lideranças indígenas foram
118
PINHEIRO, 2008, p. 343.
119 e o o
Septembro 16. Registo de hum Officio dirigido ao Coronel Comd da Granja Franc de Care Motta
sobre varios objectos. In: Livro 15, p. 143.
120
Março 22. Registo de hum Officio ao Dir or de Soure, encarregando-o da Direcção dos Indios de
Mecejana visto á avançada idade do actual Dir or. In: Livro 18, p. 115.
121
KOSTER, 2003, p. 177.
142

uma importante ponte entre o poder real e os nativos, sendo provavelmente


indispensável para Coroa o papel dessas autoridades locais para o controle da
população e o seu incentivo ao trabalho, como vimos no item anterior. Em Viçosa
Real, no mês de dezembro de 1812, Sampaio ordenou ao capitão-mor dos índios
daquela vila que fizesse junto à Câmara a “proposta dos postos vagos que se
acharem no corpo das ordenanças dos Indios do seu commando, seguindo em tudo
o q’ se acha determinado pelo regimto das ordas e Directorio a qual me dirigiraõ”. 122
Vemos aqui o peso dessas lideranças em decisões locais importantes, como na
indicação dos comandos nas ordenanças, mesmo que “tudo passasse pelo crivo da
Câmara, que podia acatar ou não”, já que “nenhuma ação” dependia
“exclusivamente dos nativos”.123
Porém, apesar de não mais terem a mesma visibilidade que tinha uma figura
como Camarão no século XVII, pois, segundo Juliana Elias, “era evidente para
Portugal a necessidade da boa relação” 124 com esse líder, os comandantes ainda
apresentavam certo destaque no esquema de recrutamento e disciplina dos índios
dentro das vilas. Segundo a documentação, a sintonia entre as ordens reais e
aceitação dos indígenas era fundamental para o sucesso dessa política, como revela
o ofício de 1813, dirigido do governador ao diretor de Arronches, onde lhe ordenou
que escolhesse entre os índios de Maranguape “aquelle que julgar mais Capas para
nomear Commde dos mesmos Indios Segundo o costume”.125 Notamos aqui um
curioso espaço de negociação entre o governo e os índios: a escolha do
comandante vinha de dentro da comunidade, fazendo com que esta figura se
constituísse como a ligação entre os interesses dos nativos e da Coroa. Por outro
lado, aquele que faria a tal escolha era selecionado pelo diretor da vila, ou seja, o
mais apto para saber quais eram os “vadios” e quais seriam os mais adequados a
seguirem a vontade do governo.
Essa suposta ligação entre o comandante escolhido e a comunidade não
excluía a possibilidade de que aparecessem choques entre as autoridades índias e
seus subordinados, acentuando para nós quão complexa e oscilante era a realidade
122
Desembro 2. Registo de hum Officio dirigido ao Cap mor dos Indios de Va Viçosa para faser a
Proposta dos Postos Vagos. In: Livro 16, p. 54.
123
XAVIER, Maico Oliveira. Cabôcullos são os brancos: dinâmicas das relações socioculturais dos
índios do Termo da Vila Viçosa Real – século XIX. Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do
Ceará, 2010, p. 77.
124
ELIAS, 2005, p. 131.
125
Julho 19. Registo de hum Officio ao Dir or de Arronches respondendo a huns Off os pa nomear hum
Indio pa Commde delles. In: Livro 17, p. 109V.
143

cotidiana indígena naquele período. Além do caso da índia Ana Francisca, presa
pelo índio André Gomes, citamos aqui uma contenda acontecida na Vila de
Almofala. No dia 15 de fevereiro de 1816, foi expedido um ofício de Sampaio ao
capitão-mor das ordenanças de Sobral, para que este passasse ordens:

[...] ao Diror de Almofala que mande recolher á Cadeia dessa Villa á


minha Ordem o Cabo d’Esquadra dos Indios Gonçallo Joze Dias que
desobedeceu, e injuriou ao seu Cap mor também Indio Luis Frz’ da
Silva e no fim de 5 dias de prizão vm e o mandará soltar.126

Além de ser um espaço de possíveis conflitos, o meio militar possibilitava a


alguns índios poderem ascender socialmente em suas comunidades, tendo que ter,
para isso, pulso forte e estar aliado aos interesses do governo. Era também do meio
dos índios que se retiravam aqueles que os controlariam, disciplinariam e imporiam
a fidelidade à Coroa portuguesa. Na Figura 11, a seguir, temos uma representação
pictórica do século XVIII de um “caboclo trambambes” portando uma arma,
provavelmente descendente dos tremembés que, no início dos setecentos, foram
aldeados em Almofala:127

Figura 11 - Caboclo Trambambes

Fonte: Museu Histórico Nacional, Coleção


Figurinos Militares (Século XVIII).

126
Fevereiro 15. Officio ao Capmor de Sobral Sobre diferentes Objetos. In: Livro 20, p. 139V.
127
Cf. BORGES, Jóina Freitas. Os senhores das dunas e os adventícios d’além-mar: primeiros
contatos, tentativas de colonização e autonomia tremembé na costa leste-oeste (séculos XVI e XVII).
Tese (Doutorado) ‒ Universidade Federal Fluminense, 2010.
144

O papel da autoridade local (indígena ou não), dentro das tropas de índios, foi
destacado no governo Sampaio, sendo fundamental para a política de controle
populacional que diretores e capitães-mores impusessem a ordem e a disciplina a
seus subordinados. Durante os acontecimentos relativos à Insurreição
Pernambucana de 1817, onde foram movidos trezentos índios do Ceará em direção
às fronteiras da capitania,128 foi recomendado ao sargento-mor Comandante das
tropas indígenas, José Agostinho Pinheiro, para que este conservasse “os Indios do
seu commando na melhor Ordem e disciplina procurando incommodar o menos que
for possivel os moradores dos lugares por onde tranzitar”.129 E já depois do fim do
conflito, Sampaio parabenizou o então sargento-mor Pinheiro no dia da retomada de
seu cargo como comandante das Ordenanças de Fortaleza e diretor da Vila de
Arronches, em ofício de outubro de 1817:

[...] me consta o grande zelo, actividade, honra e fidelidade


reconhecidamente Portugueza com que vm e se honra
constantemente nesta Comissão tendo a todos causado grande
gosto o bom arranjo e disciplina em que vm e sempre conteve os
Indios do seu Commando como ainda ategora não tinha visto nestes
Certões, restando-me o maior prazer de que se verificassem todas
as Ideias que eu fazia a seu respeito, e que me determinarão a dar-
lhe o Commando dos Indios [...].130

Observamos nesse registro o valor que se estimava como essencial para que
se pudesse mostrar quais seriam os verdadeiros súditos zelosos, ativos, honrados e
fiéis de Portugal: o cuidado com a disciplina. No caso do sargento-mor Pinheiro, seu
mérito esteve justamente no arranjo disciplinado que pôs em prática entre os índios,
de uma forma que, provavelmente, jamais fora vista nos sertões do Ceará. Esta
“virtude” parece ter faltado ao diretor de Arronches em 1814, que em ofício dirigido
ao governador, reclamava da “falta de axecução que os Officiaes de Ordenanças
Indios” davam “às suas Ordens”. Sem meias palavras, Sampaio lhe respondeu que
“elles não Obrariam desta sorte se vme pela sua Conduta se tivesse feito respeitar
tanto aos Indios como aos brancos”.131

128
Vide tópico 4.4 e capítulo 05 – tópico 5.2, p. 195.
129
Maio 23. Offo ao Sargmor Jose Agostinho Pinheiro Diror de Soure e Arronches pa ter promptos no
dia 26 do Correte 200 Indios das suas Directorias pa se ajuntarem aqui com 100 Indios de Arr es, e
a a
marchar com elles p as Fronteiras desta Cap . In: Livro 21, p. 136V.
130
Outubro 4. Off ao Sarg Pinheiro p tomar posse das Commd as das Ordas desta Va e de Director
o mor a

dos Indios de Arres disto ter-se-lhe acabado a licença, e louvando o bom Serviço q’ fez na Commissão
de q’ foi encarregado. In: Ibid., p. 182.
131
Outubro 26. Rego de hum Officio ao Diror d’Arronches sobre varios Objectos. In: Livro 19, p. 108.
145

Esta preocupação no adestramento dos nativos estava presente também no


dia a dia das vilas; e não nos faltam relatos que lembraram de que a disciplina era
fundamental para que se estabelecesse a boa ordem no cotidiano da Capitania. Era
imprescindível, para Sampaio, que os índios se mantivessem dóceis às ordens reais
e obedientes com suas autoridades, e qualquer ato rebelde não podia escapar de
punição. Em dezembro de 1813, foi mandado um regimento de Sobral até a
povoação de Almofala para que fossem presos o índio Jacinto Tavares e outros,
que, como ele, “duvidarão executar a ordem do seu Capmor quando foram chamados
para hûa deligencia do Real Serviço”. Por isso, foram “conduzidos prezos e com a
devida segurança a esta Capital, para serem castigados como merecerem”.132
Mas para além da repressão às resistências abertas, como esse caso que
ocorreu em Almofala, a disciplina militar tinha também uma utilidade cotidiana. As
revistas, feitas constantemente, forçavam os índios a praticarem suas obrigações na
“boa ordem” da norma, e ainda serviam para controlar individualmente a população,
bem como para corrigir atos “delinquentes” que porventura aconteciam no dia a dia.
Um relato interessante que ilustra bem esses casos aconteceu na Serra Pitaguari
(atual terra indígena da etnia pitaguary, em Maracanaú) onde, em junho de 1813,
por conta do requerimento de Jose Cavalcante, proprietário do “Citio Maracanãu”
(provavelmente, atual município de Maracanaú), Sampaio ordenou ao Diretor de
Arronches que:

[...] na primeira Revista que fizer aos Indios seus dirigidos advirta em
meu nome aos Residentes na Serra Pitaguari que se abstenhão dos
prejuisos que estão causando ao d o Joze Cavalcante assim na
creação de seus Gados como nas plantações que o mesmo Cav e
tem no Citio Maracanãu e que no caso de Reincidirem serão por mim
asperamente castigados.133

Por meio da revista, era estabelecido o contato permanente entre as


autoridades e os índios. No caso dos de Pitaguari, a urgência em impor-lhes a
disciplina era maior, pois, por mais que parecesse algo isolado, eles estavam sendo
um entrave naquilo que era a “mina de ouro” de Sampaio: a produção agrícola.
A plena execução das ordens governamentais por parte das lideranças locais
era fundamental para o bom funcionamento dos projetos de avanço econômico e
132
Dezembro 28. Rego do Officio ao Coronel de Cavallaria do Sobral pa mandar hum destacamto do
seu Regimto a conduzir huns prezos de Almofala pa esta Capal. In: Livro 34, p. 130.
133
Junho 12. Registo de hum Officio ao Dir or de Arronches pa reprender os Indios de Pitaguari pa não
incomodarem os seus Visinhos. In: Livro 17, p. 62V.
146

boa ordem no cotidiano das vilas. A reação de Sampaio a partir de um caso de


insubordinação de comandantes índios em Mecejana, ocorrido em janeiro de 1816,
nos possibilita estabelecer de forma mais clara a relação entre as autoridades
nativas e institucionais. Dois deles foram presos por não terem apresentado “como
deviam os soldados de suas Companhias necessarios para a distribuição” entre os
proprietários da região. A ordem do governador enviada ao diretor desta vila era que
ele soltasse os dois infratores [...]:

[...] na Occasião da revista, fasendo conhecer a todos os Outros


Commdes de Companhias, que aquelles Officiaes foram castigados
pela falta que commetterão de não apromptarem a gente das suas
Companhias necessaria para a distribuição pelos moradores como
prescreve o Directorio.134

Este caso dos presos de Mecejana se assemelha com o dos “delinquentes”


de Pitaguari, supracitados, em pelo menos dois aspectos: seja por conta da conexão
direta que havia entre as companhias militares indígenas com a imposição da
disciplina aos índios enquanto mão de obra, seja pela importância da revista.
Todavia, nesse último caso, esse momento de vigilância e normatização atingiu
diretamente as autoridades locais indígenas: eram eles os responsáveis pelo
controle e obediência dentre os demais. Cabia aos comandantes gerenciar e manter
a força de trabalho nativa funcionando adequadamente, fiscalizando os índios em
suas obrigações e também na sua distribuição pelos proprietários, sendo tudo isso
previsto por lei. Na verdade, como sabemos, era o fim último do Diretório dos Índios
atrelar a civilização dos indígenas com o desenvolvimento econômico, para a “glória”
e crescimento do Império. Logo, a libertação dos dois prisioneiros no momento da
revista teve um caráter altamente educativo, ao reforçar a estas lideranças a urgente
necessidade de sua fidelidade e competência para a boa ordem do cotidiano e o
pleno desenvolvimento da região.

4.3.4 A flexibilidade da legislação

Um dos aspectos que faz com que toda essa política e legislação indigenistas
sejam, para alguns, tão contraditórias ou oscilantes 135 é que elas não se resumiam

134
Janeiro 23. Officio ao Diror de Mecejana pa mandar Soltar no dia 28 do Corr e a 2 Capes Indios q’
elle prendeo. In: Livro 20, p. 134.
135
PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 115.
147

somente a repressão. A sofisticação do Diretório dos Índios estava, também, nos


chamados “bons-tratos”, ou melhor, nas maneiras recomendadas de tratamento com
os indígenas que se queria civilizar. Longe de se constituírem como maneiras
realmente “bondosas” de se tratar, eram mais espaços legais que tinham como
objetivo impedir desde uma revolta aberta e declarada contra o sistema até as
menores delinquências, buscando fazer com que os índios, nos mínimos atos
cotidianos, seguissem a risca as ordens reais.
Os maus-tratos praticados contra os índios foram uma das principais causas
das deserções que havia nas tropas, como nos mostra os relatos de Barba Alardo
de Menezes, que antecedeu Sampaio no governo do Ceará. De acordo com suas
memórias, a população da Vila de índios de Viçosa seria muito maior se não fosse
pelas deserções ocasionadas pelas “continuas violências” praticadas contra os
índios, como já vimos no capítulo anterior.136 Sampaio procurou combater essa
prática ao repreender Florencio Jose de Freitas, então diretor de Mecejana, em
março de 1816:

[...] já ha tempos eu tenho certeza da grande dezerção dos Indios


dessa Villa [...] em razão do grande desgosto geral de todos esses
Indios pelos procedimentos que vm e com elles pratica como ja por
varias vezes me tem representado. Os factos de que elles se queixão
são absolutamente os mesmos de que se queixarão os Indios de
Arronches quando vm e os dirigio de que vm e com effeito algum tanto
se corrigio quando passou para essa Directoria, mas que nestes
ultimos tempos tem novamente Continuado a praticar... E sem
duvida: se vm e não tiver prompta emenda serei com muita brevidade
Obrigado a nomear lhe sucessor.137

Nesta passagem, o governador evidenciou o que, para ele, era a causa das
deserções que estavam ocorrendo em Mecejana: a violência, que por ter sido feita
de forma desmedida, provocava o “grande desgosto de todos esses Indios”. E
podemos observar que a queixa de maus-tratos por parte deste diretor não era
novidade, mas vinha desde quando comandava os índios de Arronches, e apesar de
tê-los cessado (...vme com effeito algum tanto se corrigio quando passou para essa
Directoria...), parece ter voltado a cometê-los (...mas que neste ultimos tempos tem
136
MENEZES, Luiz Barba Alardo de. “Memória sobre a capitania independente do Ceará grande
escripta em 18 de abril de 1814 pelo governador da mesma, Luiz Barba Alardo de Menezes.” Edição
fac-similar de separata da Revista do Instituto do Ceará. In: Documentação Primordial sobre a
capitania autônoma do Ceará. Coleção Biblioteca Básica Cearense. Fortaleza: Fundação Waldemar
Alcântara, 1997, p. 51.
137
Março 5. Offo ao Director de Mecejana estranhando lhe a maneira por q’ se tem conduzido tão mal
há tempos a nesta parte. In: Livro 21, p. 98.
148

novamente Continuado a praticar...), revelando que ele já teria sido admoestado


uma vez.
Mas o projeto do governo era bem maior do que somente evitar deserções. O
que Sampaio queria era realmente transformar aqueles índios, antes considerados o
entrave no desenvolvimento da capitania, em súditos fiéis e honrados da coroa
portuguesa. Ou seja, juntamente com todo o controle e disciplina que fazia parte do
cotidiano daqueles indígenas, havia uma boa dose “vantagens” para aqueles que
cumprissem o que era exigido do governo, conforme podemos ver em ofício circular
de julho de 1813, dirigido aos diretores de Almofala, Monte-Mor Novo, Monte-mor
Velho, Vila Viçosa e Baiapina:

[...] desejando em tudo ser util aos Indios seus dirigidos autoriso a
vmce para passar Passaporte tanto para o interior como para o
exterior da Capitania a todos os Indios seus dirigidos tanto Soldados
de Ordenança como Officiaes Inferiores como Officiaes de Patente a
excepção unicamente dos Capes Mores e Sargentos Mores. No caso
que vmce os conheça como manços, pacificos e de bons costumes
pode vme também dispensar lhe a Obrigação de ajuntar folha corrida
ficando vm e em todo o caso responsavel por aquelles Indios a quem
passar Passaporte.138

Logo de início, Sampaio revelou que era desejo seu “em tudo ser util aos
Indios”, e, por isso, autorizou que passassem passaporte para aqueles soldados. Tal
decisão era tão significativa para época por, pelo menos, duas razões:
primeiramente, já percebemos pela bibliografia aqui apresentada quão miserável e
penosa era a vida dos soldados coloniais, ainda mais se fossem índios, e qualquer
vantagem que lhes fosse oferecida não seria pouca coisa. Em segundo lugar, e
talvez mais importante, sabemos qual era a posição do governo no período em
relação à movimentação de pessoas na Capitania: com a política de passaporte, que
tinha como objetivo combater a dispersão populacional, o menor deslocamento só
acontecia com autorização do governador. Dessa forma, eram poucos aqueles que
podiam sair pelo menos de suas vilas, e ainda mais sem correr o risco de serem
presas.
Notemos também que Sampaio dispensou da folha corrida aqueles que os
diretores de cada vila conhecessem como mansos, pacíficos e de bons costumes,
virtudes tão almejadas para o povo daqueles sertões que se queria civilizar. Além

138
Julho 17. Registo de huma Circular aos Diretores de Va Viçosa, Baiapina, Almofala, Monte Mor o
Novo, Monte Mor o Velho pa poderem passar passaporte aos seus Indios. In: Livro 17, p. 108V.
149

disso, os diretores estavam responsáveis por todos aqueles índios a quem eram
passados passaportes, e, por conta disso, as autorizações não seriam dadas para
os que fossem desordeiros, vadios ou delinquentes. Com isso, podemos observar
que essas vantagens não vinham de graça, visto que somente aqueles que
estivessem alinhados com as vontades do governo as poderia conseguir, além do
fato de terem um forte cunho educativo: ou seja, só ganhava passaporte quem fosse
“civilizado”.
Além dos bons costumes, também se queria ver nesses índios a “nobre e
honrada” fidelidade ao rei de Portugal. Como mostraremos mais a frente, foi exigido
dos nativos, durante os conflitos em 1817, um comportamento ordenado e
disciplinado, e o relatado “entusiasmo” da tropa em lutar em nome da coroa 139 lhes
possibilitou conseguir algumas benesses.140 Mas a maior delas veio dois anos
depois, e das mãos do próprio rei do Império português, Dom João VI. A partir do
decreto de 25 de fevereiro de 1819, o soberano do Reino Unido do Brasil, Portugal e
Algarves premiou todos os índios aldeados do Ceará, Pernambuco e Paraíba pela
sua participação a favor do rei nos conflitos de 1817:

Tendo consideração á fidelidade e amor á minha Real Pessoa com


que os Indios habitantes nas diversas villas do Ceará Grande,
Pernambuco e Parahiba, marcharam contra os revoltosos [...]:
querendo mostrar quanto o seu fiel comportamento me foi agradavel,
e folgando de lhes fazer mercê: hei por bem que todas as villas e
povoações de Indios nas sobreditas províncias fiquem izentas de
pagarem mais o subsidio militar [...]. Que as patentes dos mesmos
Indios, que são por graça isentas de todos os emolumentos, o sejam
também do direito do sello [...]. E que não sejam obrigados a pagar
quotas partes de seis por cento ou semelhantes aos seus diretores
[...].141

Pelo “fiel comportamento” dos índios durante a guerra, todas essas vantagens
foram cedidas pelo rei e conseguidas pelos nativos. E notemos que, além da
isenção de pagamento dos seis por cento aos diretores das vilas, dois impostos, que
para nós aqui são especialmente relevantes, não mais existiriam: o subsídio militar e
o direito de selo das patentes. Mas da mesma forma que aconteceu com os
passaportes dados aos índios em 1813, todos esses benefícios vinham somente

139
COSTA, João Paulo Peixoto. O “entusiasmo” dos índios: discutindo a participação dos indígenas
do Ceará na Revolução Pernambucana de 1817. In: Embornal, revista eletrônica da Anpuh-CE,
Ano I, 2010. Disponível em <http://ce.anpuh.org/embornalinicio.htm>, p. 2.
140
Ibid., p. 10-11.
141
COSTA, 2002, p. 353.
150

com algo extremamente importante em troca: a “fidelidade e amor” a “real pessoa”


de Dom João VI.
O objetivo do governo Sampaio no Ceará era civilizar o povo da capitania,
tentando tirá-la do estigma de “sertão brabo” do Império português, e fazendo-a
entrar em uma nova modernização socioeconômica. Por se constituírem como a
principal força de trabalho disponível, e ainda serem pivôs do grave problema de
dispersão populacional, os índios tiveram um “tratamento especial” por parte do
governador, e o seu alistamento militar foi uma das prioridades de Sampaio e uma
importante ferramenta de disciplinamento e controle dessa população. Mas além de
toda a vigilância e repressão, pretendia-se fazer daqueles índios mais do que
trabalhadores obedientes, mas também fiéis súditos do Rei de Portugal. Logo, a
fluidez dessa legislação indigenista estava justamente no fato de que, além das
ações coercitivas, havia toda uma política de bons tratos, que, longe de serem
somente formas de tratamento realmente bondosas, visavam constituir naqueles
sujeitos novas individualidades, para que abandonassem seus antigos costumes,
considerados “vadios”, e passassem a fazer parte do corpo de súditos da coroa
portuguesa.
Com isso, não estamos afirmando que esses mesmos índios eram simples
peças de barro moldadas ao bel prazer do governo. Os indígenas foram ativos na
constituição de suas próprias individualidades; e é por meio da própria
documentação que podemos observar uma gama variada de registros que mostram
resistências, fugas, delinquências, mas também aceitações, adequações e
negociações – como veremos no capítulo seguinte. Dessa forma, concordamos com
Foucault, e acreditamos que uma sociedade pretensamente disciplinar não é
necessariamente disciplinada.142 Prova disso foi a advertência, já citada
anteriormente, dada ao diretor de Mecejana em 1816, que iniciou com a reclamação
dirigida a Sampaio dos próprios índios que sofriam com seus atos violentos. Além
disso, a própria existência das recomendações de bons tratamentos, presentes nas
legislações, desde o período jesuítico, mostra que, para que a política indigenista
tivesse sucesso, era preciso que se estabelecesse um mínimo de negociação com
os índios.

142
FOUCAULT, Michel. La pussière et le nuage. In: PERROT, Michelle. L’impossible prison:
recherches sur le système pénitentiaire au XIXe Siècle. Paris: Seuil, 1980. p. 35.
151

Não afirmamos, por outro lado, que a vida dos índios era fácil. Na verdade,
percebemos que, durante o governo de Sampaio, as vilas, antigos lugares de índios,
estavam se tornando cada vez menos dos índios, e a política de recrutamento foi
uma das grandes responsáveis dessa transformação. Passaportes, revistas
individuais e todo o planejamento de combate à dispersão podaram de forma
vertiginosa a liberdade dos nativos, buscando disciplinar e normatizar seus
cotidianos. Por conta disso, resolvemos priorizar a complexa história desse
143
“mecanismo infinitesimal” do poder real que era o alistamento militar indígena na
primeira metade do século XIX no Ceará, procurando não perder de vista o quão
oscilante ele poderia ser, e que, durante o governo de Sampaio, atingiu um nível
que, provavelmente, jamais havia se visto neste sertões.

4.4 Ordem e disciplina: a formação de tropas indígenas na Revolução


Pernambucana de 1817

Nunca esperei mesmo que hum Povo


ainda pouco civilizado podesse tão
evidentemente mostrar a sua fidelidade para com
a Augusta Pessoa de Sua Magestade, e para
com toda a Real Familia.
Manuel Ignacio de Sampaio

“Contraditória, oscilante e hipócrita” são os adjetivos que, segundo Beatriz


Perrone-Moisés, utiliza-se unanimemente para qualificar a posição da Coroa
portuguesa frente aos índios do Brasil.144 Cheia de idas e vindas, e dividida entre
interesses diversos, como os dos jesuítas e dos colonos, torna-se complicado
entender a lógica de uma legislação que uma hora declarava a liberdade dos povos
nativos, mas em seguida autoriza a escravização; benevolente de um lado, severa e
perseguidora de outro. Mas a autora afirma que tais confusões de direcionamento
político-legislativo se tornam bem mais claras quando entendemos que, na verdade,
existiam dois grandes grupos de povos indígenas na Colônia a quem Portugal se
dirigia: os índios aldeados (aliados) e o “gentio bravo” (inimigos).
Com base nessa divisão, podemos entender que tal diferença correspondia a
um verdadeiro “corte na legislação e política indigenista”, onde havia “uma linha de

143
FOUCAULT, 2007, p. 184.
144
PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 115.
152

política indigenista que se aplica aos índios aldeados e aliados, e outra, relativa aos
inimigos, cujos princípios se mantêm ao longo da colonização”. 145
Dessa forma, segundo Perrone-Moisés, seria mais fácil acompanhar o
desenvolvimento da legislação indigenista no Brasil colonial se enxergássemos esse
duplo caminho por onde ela transitava. Em relação aos chamados “tapuias”, ou
índios bravios, fica atestada nos documentos oficiais sua repugnância e instinto de
perseguição, declarando guerras tanto de capturas como de extermínio; já no caso
dos índios das vilas e aldeias, sua atitude é aparentemente protetora e amorosa,
com o intuito de que os índios fizessem parte do grande corpo de súditos do rei de
Portugal. Olhando para cada linha, o quadro se simplifica de maneira significativa, e
as grandes oscilações e contradições tornam-se menos frequentes.
Houve uma diferenciação bastante visível entre as posições tomadas frentes
aos povos inimigos ou aliados, e entender este “corte na legislação e política
indigenistas” iluminou acentuadamente as pesquisas acerca da história dos índios
na Colônia. Porém, acreditamos que isso não significou que a complexidade
existente na história da relação entre elite política e os índios foi minimizada.
Tomemos como exemplo uma frase do governador do Ceará, Manuel Ignácio de
Sampaio, em 1817, ano da Revolução Pernambucana, extraída de um ofício
expedido a D. Miguel Pereira Forjaz: “Nunca esperei mesmo que hum Povo ainda
pouco civilisado podesse tão evidentemente mostrar a sua fidelidade para com a
Augusta Pessoa de Sua Magestade, e para com toda a Real Familia”.146
O próprio governador Sampaio expôs claramente uma grande contradição
que havia no olhar dos membros da Coroa portuguesa frente ao povo da Capitania
do Ceará, entre eles índios em grande parte: uma população que, a seu ver,
necessitava ainda de ser “levada à luz da civilização”, mas mesmo estando em tal
estado de “miséria”, era fiel ao Rei, e, por isso nobre e gloriosa. Na verdade, as
recomendações de brandura e docilidade no trato com os índios conviveram com
ordens de vigilância, rigorosidade e punição para aqueles que fugissem da disciplina
imposta pelo Estado. Ou seja, os índios “nobres e gloriosos”, “dignos filhos dos
antigos Indios do Ceara, a quem ha dois séculos foi devida a formoza restauração

145
PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 117.
146
Abril 15. Registro de hum officio dirigido ao Ex. mo Sn’ Dom Miguel Pereira Forjaz [...] pedindo-lhe
socorros. In: Livro 23, p. 124V.
153

de Pernambuco da mão dos holandeses”,147 são os mesmos vadios, preguiçosos e


dissolutos, nas palavras de João Batista Feijó,148 que esteve no Ceará no início dos
oitocentos.
Um dos grandes desafios de estudar a história dos índios no Brasil, na
primeira metade do século XIX, particularmente no Ceará, é entender qual o sentido
e como funcionava este misto de “bons-tratos”149 e coerção ao trabalho, à ordem e à
disciplina. Nesse sentido, através deste e de outros questionamentos, encontra-se a
formação de tropas de índios no Ceará, a fim de combater os rebeldes
pernambucanos e seus aliados em 1817. Recrutados de vilas próximas a Fortaleza,
os indígenas enviados às fronteiras da Capitania foram submetidos a uma das
diversas formas de controle social, postas em prática no mundo colonial, desde o
século XVIII, que, semelhante às táticas disciplinares na França deste período,
estudado por Foucault, visava “não unicamente [...] aprofundar sua sujeição, mas a
formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente
quanto é mais útil, e inversamente”.150
Como temos estudado neste capítulo, a população pobre-livre do Ceará,
durante o governo de Sampaio, foi submetida a diversas práticas que tinham por
objetivo controlá-la, moralizá-la e discipliná-la. Mas aqui pensaremos novamente
acerca da disciplina militar, partindo de um evento mais pontual: de que maneira a
formação de tropas indígenas no Ceará, em meio aos conflitos insurrecionais de
1817, foi mais um mecanismo não só de controle social, mas também que objetivava
a inserção de uma população “ainda pouco civilizada” no mundo ordenado e
capitalista, fazendo parte de uma estrutura de poder que não se reduzia a práticas
coercitivas e destruidoras, mas que era também construtora, sempre com o “intuito
de obter a formação de ‘cidadãos úteis e disciplinados’”.151

4.4.1 A formação das tropas indígenas

Em meados de março de 1817, teve início a revolta de parte da elite


pernambucana contra a Coroa portuguesa, que conseguiu juntar aliados na Paraíba,

147
Maio 24. Off° ao Cap.mor de Monte mor Novo pª ter todos os Indios promptos no dia 29 do Corr. e pª
mor
se unirem aos 300 Indios q’ o Sarg. Pinheiro leva pª as Fronteiras. In: Livro 21, p. 140.
148
FEIJÓ, 1889.
149
PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 122.
150
FOUCAULT, 2007, p. 119.
151
RODRIGUES, 2000, p. 147.
154

Rio Grande, Bahia e Sul do Ceará. Ainda no mesmo mês, chegaram as notícias da
tomada da cidade do Recife ao então governador do Ceará Manoel Ignácio de
Sampaio. Por isso, procurou mobilizar todas as forças possíveis da Capitania, para
combater os “infelizes rebeldes” e defenderem os “Augustos Direitos de S. Mag.e, e
a manutenção do socego e boa Ordem da Capitania”. 152 E a partir do mês de maio,
enviou ofícios aos diretores de vilas de Monte-mor Novo,153 Soure, Arronches e
Mecejana ordenando o recrutamento dos índios de suas direções para seguirem
rumo às fronteiras da Capitania, com o objetivo de capturar alguns rebeldes que
estivessem dispersos nos matos e, posteriormente, seguir para o Recife concretizar
sua restauração.
A partir daqui, poderemos analisar mais profundamente, através da
documentação produzida pelo próprio governador Sampaio, alguns detalhes da
formação dessas tropas juntamente com as instruções dadas às autoridades
militares que as comandavam. Tal conjunto de ofícios revelou diversos aspectos
característicos da nova política de controle disciplinar que apareceu nesse período
da história ocidental.
Primeiramente, em correspondência com os diretores de Mecejana, Soure e
Arronches, Sampaio mobilizou um conjunto de trezentos homens, todos armados
com arco e flecha, para juntos se reunirem em Fortaleza:

Quanto antes deve Vm.e tomar as medidas necessarias pª que no dia


26 do Corrente pela manhã se achem nesta Capital 100 Indios com
os seus competentes Officiaes todos armados de Arco e Frecha, e
Surrão...154
Ordeno a vm.e que no dia 26 do Corrente mez faça reunir nessa
Capital 200 Indios das Villas de Arronches e Soure de que vm. e he
Diretor para que depois de bem municiados juntamente com Outros
100 Indios que aqui se deve achar da Vª de Mecejana formem todos
um Corpo de 300 homens [...].155

152
Off° aos Directores de Arronches, Soure e Mecejana pª terem promptos em estado de defesa
todos os Indios daquella direcção pª qualquer operação. In: Livro 21, p. 132V.
153
Os índios de Monte-mor Novo, inicialmente mobilizados para se incorporarem à tropa do sargento-
mor Pinheiro, seguiram em direção ao termo de Campo Maior (atual Quixeramobim). Cf. Maio 19.
Officio ao mesmo Coronel Leite sobre varios objectos relativos á revolução do Crato. In: Livro 24, p.
5.
154
Maio 23. Off° ao Director de Mecejana pª q.e no dia 26 do Corr.e mez se deve achar nesta Cap.al
com 100 Indios armados de Arco e Frecha pª marcharem pª as Fronteiras. In: Livro 21, p. 136.
155
Maio 23. Off° ao Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro Dir.or de Soure e Arronches pª ter promptos no
dia 26 do Corre.te 200 Indios das suas Directorias pª se ajuntarem aqui com 100 Indios de Arr. es, e
marchar com elles pª as Fronteiras desta Capª. In: Ibid., p. 136V.
155

Observemos determinados detalhes destas primeiras instruções. O número


exato de homens, trezentos, demonstrando aquilo que já com o aparecimento da
política do passaporte se deixava transparecer do governo de Manuel Ignácio de
Sampaio: “o combate à dispersão, que era também um dos problemas graves a ser
enfrentado por seu governo”.156 Mais do que isso, podemos inferir que aí se observa
uma tentativa de controle não somente sobre o grupo, mas sobre cada indivíduo,
mesmo que não tão eficaz, pelo menos não tão sofisticada quanto se fazia na
Europa. Ou seja, não foram recrutados alguns homens, mas trezentos, e cada um
deles fazendo parte dessa tropa, da qual não deveriam se dispersar, sendo
uniformes, rígidos e obedientes, dentro do que podemos incluir de obediência para
os padrões nativos:

O espaço disciplinar tende a se dividir em tantas parcelas quando


corpos ou elementos há a repartir. É preciso anular os efeitos das
repartições indecisas, o desaparecimento descontrolado dos
indivíduos, sua circulação difusa, sua coagulação inutilizável e
perigosa; [...] A primeira das grandes operações da disciplina é então
a constituição de “quadros vivos” que transformam as multidões
confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas. [...]
Ela permite ao mesmo tempo a caracterização do indivíduo como
indivíduo, e a colocação em ordem de uma multiplicidade dada.157

Outro exemplo claro de tal preocupação no que se refere a não dispersão dos
índios está presente no ofício expedido ao comandante das tropas, José Agostinho
Pinheiro, no dia 1º de junho, não tendo as tropas chegado ainda às fronteiras. A
ordem dada foi que seguisse pela “estrada de Monte-Mor Novo, que pelo Riacho do
Sangue se dirige à [...] Villa do Icó”,158 para lá encontrar-se com o Coronel Alexandre
Jose Leite de Chaves e Mello, que comandava as milícias da Fronteira. Em seguida,
que, de lá, se juntasse com o coronel Leite e marchassem para restaurar e capturar
revoltosos que estivessem na região do Rio do Peixe, especificamente nas vilas de
Portalegre, no Rio Grande do Norte, e Pombal e Souza, na Paraíba.159 Caso não o
achasse no Icó, devia encontrá-lo imediatamente já na Paraíba, “sem que para isto
espere Ordem do mesmo Cor.el Leite por que não convem por maneira alguma que

156
PINHEIRO, 2008, p. 319.
157
FOUCAULT, 2007, p. 123; 126-127.
158 mor or
Maio 23. Off° ao Sarg. Jose Agostinho Pinheiro Dir. de Soure e Arronches... In: Livro 21, p.
136V.
159
Maio 24. Officio ao mesmo Coronel Leite, confirmando o conteúdo do off° de 23, de que vai 2ª Via,
insinuando-lhe que vá restaurar as Villas de Portalegre, de Souza, e do Pombal, e depois marchar em
direitura no Recife. In: Livro 24, p. 9.
156

os Indios estejam parados em distrito algum desta Capitania”,160 evitando com isso
uma “circulação difusa e perigosa” dos indígenas, além de assegurar que aquela
“multiplicidade organizada” não caísse na ociosidade inútil, perigosa e
dispendiosa,161 conforme revela o mapa (Figura 12) a seguir, acerca da descida da
tropa rumo a Pernambuco:

Figura 12 - Rota da tropa de índios do Ceará na Revolução


Pernambucana de 1817.

Fonte: Acervo do Autor.

Seguindo ainda a observação de detalhes das primeiras instruções, notamos


claramente que o governador Sampaio definiu bem qual o armamento perfeito para
a tropa: dentre tantas outras armas de fogo adquiridas pelo governador,162 os índios
foram municiados de arcos e flechas, seus equipamentos ancestrais, os quais eram
hábeis. Ou seja, fazia parte da estratégia do líder da Capitania do Ceará que se
160
Junho 1. Off° ao Sarg.mor Jose Agostinho Pinh. Ordenando lhe q’ se não achar no Ico o C. el Leite,
marcha com os Indios ate se incorporar com elle. In: Livro 24, p. 153V.
161
Sobre a rota da tropa de índios, vide mapa 2, p. 00.
162
“Venho por tanto pedir a V. Exª que me mande os mantimentos que poder de qualquer naturesa
que sejão, assim com tão bem, petrechos de muniçoens de guerra quaes quer que sejão com
especialidade, balas de 24, e de 10, alguas pessoas de campanha muito ligeiras com balas
competentes, espingardas, e polvora.” Cf. Abril 15. Registro de hum officio dirigido ao Ex. mo Sn’ Dom
Miguel Pereira Forjaz [...] pedindo-lhe socorros. In: Livro 23, p. 124V.
157

aproveitasse, ao máximo, a capacidade dos nativos; potencializou-se a articulação


entre os soldados e suas armas, entre os índios e suas flechas, entre corpo e objeto,
em que a “disciplina define cada uma das relações que o corpo deve manter com o
objeto que manipula. Ela estabelece cuidadosa engrenagem entre um e outro”.163
Em outras instruções passadas ao comandante da tropa, observamos essa
mesma busca pelo máximo aproveitamento da capacidade dos indígenas. O que
percebemos é que a busca por sua obediência em relação às autoridades andava
de braços dados com o impulso à otimização de suas aptidões; ou seja, a disciplina
que fabrica “corpos submissos exercitados, corpos ‘dóceis’”, também procura
aumentar “as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade)”.164 A
documentação revela que os principais objetivos do envio das tropas de índios não
estavam somente em “libertar” Recife, mas sim capturar fugitivos no interior do
sertão e enfrentar o chamado “gentio Pajaú”, 165 aliados dos rebeldes
pernambucanos:

[...] reiterando unicamente [...] dissipar hum pequeníssimo numero de


Rebeldes que se achão dispersos em varios pontos dos Certões da
Paraiba para o que são mais próprios as Tropas dos Indios de que os
Soldados de Linha.166
Ocorreu-me que os generais traidores da corôa do Rio do Peixe
procurão salvar-se entre o Gentio Pajaú. Os Indios que ora lhe envio
[...] são muito próprios para atacar o Gentio, e tirar do meio delles os
taes corôas.167

Apesar da integração dos povos nativos à sociedade nacional, e a destruição


de seus antigos costumes terem sido os objetivos da legislação e da política
indigenista, vemos aqui que seus instrumentos e o campo de batalha fizeram parte
de sua cultura, de seu ambiente originário. Era preferência do governador que eles
trabalhassem com aquilo que lhes conferisse mais eficiência, mesmo que lhes
remetesse a algo ancestral: estavam a caminho de se tornar homens “civilizados”,
mas ainda não eram. E esse caminho que os levaria ao modo de vida “civilizado”,
além de eficiente, precisava ser também econômico: arcos e flechas eram bem

163
FOUCAULT, 2007, p. 130.
164
Ibid., p. 119.
165
Vide capítulo 05 – tópico 5.5, p. 243.
166
Maio 23. Off° ao Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro Dir.or de Soure e Arronches... In: Livro 21, p.
136V.
167
Maio 27. Offício ao mesmo Coronel Leite, remetendo-lhe 2ª Via de offício de 26, e tornando a
insinuar-lhe a sua marcha ate o Recife. In: Livro 24, p. 11V.
158

menos dispendiosos que armas de fogo, e se acertavam melhor na mão dos índios,
além de evitar o risco de uma reviravolta. Já indígenas com armas não era a mesma
situação que indígenas com arco e flecha. De acordo com Foucault, aquilo que é
próprio das disciplinas:

[...] é que elas tentam definir em relação às multiplicidades uma tática


de poder que responde a três critérios: tornar o exercício do poder o
menos custoso possível (economicamente, pela parca despesa que
acarreta; politicamente, por sua descrição, sua fraca exteriorização,
sua relativa invisibilidade, o pouco de resistência que suscita); fazer
com que os efeitos desse poder social sejam levados a seu máximo
de intensidade e estendidos tão longe quanto possível, sem fracasso,
nem lacunas; ligar enfim esse crescimento “econômico” do poder e o
rendimento dos aparelhos no interior dos quais e exerce (sejam
aparelhos pedagógicos, militares, industriais, médicos), em suma
fazer crescer ao mesmo tempo a docilidade e a utilidade de todos os
elementos do sistema.168

Dessa forma, já observamos dois pontos principais em relação ao corpo de


índios que foi enviado para lutar contra os rebeldes pernambucanos em 1817: era
economicamente pouco custoso, devido aos instrumentos que manuseavam; era
colocado sobre esses índios a busca pela otimização de suas forças e de sua
utilidade. Mas ainda é preciso assinalar outras características da formação dessa
tropa, que se relacionaram com aquilo que Foucault denominou de “politicamente
menos custoso possível”. Em primeiro lugar, buscou-se discrição, sua “relativa
invisibilidade”, que aqui poderemos visualizar em um documento já citado
anteriormente, enviado ao Sargento-mor José Agostinho Pinheiro, apontando, entre
outras instruções, a necessidade de conservar “sempre os Indios do seu commando
na melhor Ordem e disciplina procurando incommodar o menos que for possivel os
moradores dos lugares por onde tranzitar”.169 É preciso lembrar que o poder
disciplinar, em sua procura pela discrição, encontra no trânsito de exércitos em
guerra um momento de tensão, em razão do risco de “pilhagem e violências”, na
busca de “acalmar os habitantes que suportam mal as tropas de passagem”,170 para
que se mantenha tal “invisibilidade” desejada. Talvez por isso o governador tenha
ordenado ao sargento-mor Pinheiro que, ao acabar o municiamento de carne que
levavam, servirem-se “das rezes que encontrar pelos caminhos”, mas com o cuidado

168
FOUCAULT, 2007, p. 179-180.
169
Maio 23. Off° ao Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro Dir.or de Soure e Arronches... In: Livro 21, p.
136V.
170
FOUCAULT, 2007, p. 122.
159

de ir “tomando nota dos ferros para serem a todo o tempo pagos a seus donos”,171
tentando evitar dessa forma qualquer manifestação contrária aos índios que
passavam.
Contudo, para que todos esses objetivos fossem conquistados com sucesso,
ou seja, para que se estabelecesse um rígido controle sobre a tropa e que seus
índios-soldados conseguissem agir da forma mais barata, discreta, produtiva e
eficiente possível, era fundamental que se seguisse à risca a ordem dada pelo
governador Sampaio ao sargento-mor Pinheiro presente no documento há pouco
citado: conservar os índios de seu comando sempre “na melhor Ordem e disciplina”.
É por conta disso que constantemente se percebeu na documentação analisada a
necessidade de que os indígenas fossem dóceis, sempre obedientes ao seu
comandante, e somente aí se completaria aquilo que Foucault chamou de
“disciplina”: “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo,
que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de
docilidade-utilidade”.172 Em raro documento no qual Manuel Ignácio de Sampaio se
dirigiu diretamente aos índios, escreveu acerca do comandante da tropa:

Tenho escolhido para vosso Chefe o Sargento mor Jose Agost.


Pinheiro que vós todos mui bem conheceis estimais e respeitaes.
Sede-lhe fieies e Subordinados para mais facilmente vos conduzir á
gloria que vos espera. Elle he valorozo assim os Officiaes que o
acompanhão.173

Foi por meio da subordinação que os índios encontraram a “glória”. A


docilidade, além de ser fundamental para a eficácia de suas forças produtivas, seria
a porta de entrada para a inserção dos nativos nessa sociedade. Somente por meio
de sua obediência, ordem e disciplina é que estes conseguiram deixar o seu estado
de “miséria”. O que ocorreu aqui é semelhante ao que estudou Vânia Maria Lousada
Moreira, no Espírito Santo do século XIX, onde o “recrutamento militar entre os
indígenas da província também funcionou como um mecanismo de integração [...] à
ordem social dominante”.174 Aqueles antigos indígenas “vadios, dissolutos,

171
Maio 23. Off° ao Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro Dir.or de Soure e Arronches... In: Livro 21, p.
136V.
172
FOUCAULT, 2007, p. 118.
173
Maio 26. Proclamação aos Indios do Ceara q. do partiraõ para o attaque das Capit. as Sublevadas.
In: Livro 28, p. 45V.
174
MOREIRA, 2005, p. 1.
160

indolentes e preguiçosos” poderiam se tornar “fieis, nobres e honrados” súditos de


Sua Majestade, El Rei de Portugal.

4.5 Os “filhinhos” do governador: o Correio do Norte do Brasil e os “índios


correios”
Sei que traçar no papel
é mais fácil que na vida.
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.
João Cabral de Melo Neto

Esta é a história de um dos filhos mais estimados de Manuel Ignácio de


Sampaio e de sua relação com os índios desta Capitania. É preciso dizer
primeiramente que este filho não se trata de um homem, e sim de uma das mais
complexas criações de seu mandato: o chamado “Correio do Norte do Brasil”, ou
simplesmente Correio do Ceará. Um exemplo do tamanho de tal carinho está
expresso em carta dirigida a Maximiano Francisco Duarte, em maio de 1812, sobre
sua colaboração dada à criação dos Correios em Recife, onde o governador lhe diz
que fazia “grande serviço ao publico, e não menos a mim que tenho tido com o
estabelecimento grande trabalho, e que por isso o conto como hum filhinho meu”.175
Este mecanismo de comunicação visou atender àquelas que, para a elite político-
intelectual da época, eram as maiores necessidades da região: desenvolver as
frágeis condições econômicas e estruturais e promover a civilização de seus
habitantes. De um lado, a criação dessa ferramenta sistemática de comunicação era
fundamental para a fluidez de relações comerciais entre as vilas do Ceará e mesmo
entre outras capitanias (inicialmente Pernambuco, depois Paraíba, Rio Grande do
Norte, Piauí e Maranhão), pois, segundo o próprio Sampaio, “a falta de comunicação
era hua das principais cauzas do atrasamento destes Certões”.176 Por outro, serviu
como mais um elemento de controle e disciplinamento populacional, especialmente
daqueles que foram recrutados para exercer o trabalho mais duro, e, ao mesmo
tempo mais fundamental, que era o de transporte das correspondências: os
chamados “índios correios”.

175
Maio 1. Registo de hua Carta Rogatoria dirigida á Maximiano Francisco Duarte sobre o
estabelecimento do Correio desta Capitania. In: Livro 26, p. 49V.
176
Novembro 29. Registo de hum officio dirigido ao Juiz Prezidente, e maes officiaes da Camara da
Villa da Parnaiba em resposta ao seu officio de 25 de Outubro sobre o estabelecimento do Correio e
a creação da agencia na dita Villa. In: Livro 23, p. 99.
161

Essa não foi a primeira vez que os indígenas fizeram este tipo de função. O
viajante inglês Henry Koster falou em seu relato, escrito em 1810, sobre a
resistência dos índios em andar grandes distâncias trabalhando na comunicação das
diversas vilas da região:

Os mensageiros, de uma para outra província, são, em maioria


indígenas e pelo hábito que os faz resistir às grandes fadigas, são
capazes de andar, dia após dia quase um mês, com pequenos
repousos. Tenho-os encontrado, com sua sacola de pele de cabra ao
ombro, pisando com passo rítmico, nada o detendo do que poderia
embaraçar o caminho. Mesmo que um cavalo possa adiantar-se
sobre esses homens nos primeiros dias, se a viagem for prolongada,
o indígena, no fim, chegará primeiro.177

Ao descrever essas figuras que se tornaram comuns nesse período, com


suas sacolas de pele e seus passos ritmados, vemos que Koster também nos
ajudou a refletir acerca da busca dos governos anteriores a Sampaio, pelo máximo
aproveitamento da capacidade dos indígenas, pautado por um método disciplinar
que procurou potencializar “as forças do corpo” de quem foi dominado em “termos
econômicos de utilidade”.178 Com a fundação do Correio do Norte do Brasil, houve a
tentativa de inserir os índios em um sistema de trabalho ordenado e rentável para os
dois lados, servindo tanto para o controle desses homens e na sua inserção na
sociedade colonial quanto para a criação de uma ferramenta de comunicação mais
rápida e efetiva, utilizando-se para tanto dos hábitos ancestrais desses nativos que,
ao costumar andar grandes distâncias em tão pouco tempo, seriam, segundo Koster,
mais eficientes inclusive que cavalos!
O trabalho dos índios correios também teve uma importância estratégica
durante a insurreição pernambucana de 1817. Sendo fundamentalmente
“transportadores de mensagens a serviço do governo da província”, foram
possivelmente mais cruciais que isso durante os conflitos, na medida em que nos foi
possível visualizar nos documentos “evidências de que transportavam informações
de suma importância do lado inimigo”.179 Nos primeiros meses da insurreição, alguns
ofícios foram endereçados ao sargento-mor José Agostinho Pinheiro com ordens

177
KOSTER, 2003, p. 179.
178
FOUCAULT, 2007, p. 119.
179
COSTA, João Paulo Peixoto. De arco, frecha e currão: o índio do Ceará na Revolução
Pernambucana de 1817. In: Anais do II encontro internacional de história colonial / Mneme – revista
de humanidades da UFRN, v. 9, n. 24, 2008, p. 5.
162

para que interrogasse os índios correios que vinham das regiões sublevadas,
buscando qualquer novidade acerca do que se passava por lá:

[...] passa quanto antes a examinar os dois Indios Correios


ultimamente vindo de Pernambuco perguntado-lhes e indagando
delles mui cincurnstanciadamente tudo o que se passaram na sua
viagem, e com particularidade as perguntas que lhes fez Domingos
Jose Miz [Muniz] hum dos membros da Junta Revolucionaria, sobre
minha pessoa [...].180
[...] perguntando-lhes [...] o que descobrirão nos habitantes das
Capitanias de Pernambuco, Paraíba e Rio Gre Do Norte relativamente
ao levantamento de Pernambuco, e tudo mais que julgar necessário
para perfeito conhecimento das tramas que estariam armados [...].181

Outro uso estratégico dos índios correios ocorreu em agosto de 1814, quando
ancorou na “enseada de Jaraquaquara” (Jericocoara, no município de Jijoca) a
sumaca “Piquete do Maranhão”, trazendo diversos presos. Em meio a várias
instruções passadas ao ajudante de Infantaria de Itapajé, ordenou-lhe que de “tudo
me dará parte pr hum Correio Indio q’ pa este fim pedirá ao Director de Almofala”, 182
que de lá recrutaria algum nativo para fazer este serviço.
Por suas múltiplas funcionalidades, e pelo tamanho deste empreendimento, o
estudo do funcionamento do Correio do Ceará foi fundamental para o entendimento
de diversos aspectos da história da região, quer seja econômica quer seja também
sociocultural. Para a análise da condição indígena, este foi certamente um dos
mecanismos de controle e disciplinamento que mais deixou registros acerca de
detalhes de sua criação, do seu dia a dia e das minúcias relativas ao tratamento
dado aos índios e a ordenação do seu ritmo de trabalho e de vida, ao estabelecer
normas sobre tratamentos, salários, caminhos a percorrer e a forma de gerir o
tempo. Por outro lado, é também inegável e explícita a intenção de Sampaio,
registrada na documentação, de desenvolver economicamente a capitania. Segundo
ele, “sempre foi e será sempre minha opinião facilitar, e animar o comércio por todos

180
Porta ao Sargto [sargento] mor Diro [diretor] de Arronches pa examinar 2 Indios Corre.os [correios]
vindos de Pernambuco sobre os objectivos abaixo declarados. Livro 21, p. 114V.
181
Portaria ao Diretor de Arronches para examinar de 2 indios de Pernambuco objectivos abaixo
declarados. Ibid., p. 121.
182
Agosto 29. Rego [registro] de officio ao Ajude [ajudante] Miguel Joaqm da Fonceca com novas
ordens pa a condução dos prezos pa o porto do Itapajé. In: Livro 35, p. 51V.
163

os meios possíveis”,183 e um deles foi certamente a criação dessa ferramenta de


comunicação naqueles sertões.
Por isso, tentaremos aqui primeiramente apresentar de que maneira se
construiu a máquina administrativa do Correio do Norte do Brasil, com suas regras
de trabalho, os detalhes sobre os envios das cartas, sua distribuição geográfica, e,
principalmente, de que maneira estes aspectos se relacionavam com o controle e a
pretensa disciplina dos índios correios.

4.5.1 O Correio do Norte do Brasil

Extremamente metódico, Manuel Ignácio de Sampaio talvez tenha sido uma


das autoridades que mais tenha deixado registros documentais sobre seu governo
nessa Capitania e tão bem organizados. Das séries de livros do Arquivo Público do
Estado do Ceará relativas ao seu mandato, uma delas particularmente nos
interessa: “Registro de ofícios ao escrivão deputado, intendente da marinha, juiz da
alfândega, agentes de correios e pessoas particulares da capitania”,
compreendendo os livros 26 ao 29. Juntamente com os ofícios dirigidos a
autoridades em outras capitanias, é neles que concentramos nossa pesquisa, e
pudemos encontrar o maior e mais importante volume de fontes relativas a essa
temática, produzidas “pelo interesse que tenho na conclusão do estabelecimento do
Correio do Norte do Brasil”. 184 E logo no início do livro 26 (1812 a 1813), nos
deparamos com um registro, datado de 1º de maio de 1812, da cópia do projeto de
criação dos Correios no Ceará, escrito pelo próprio governador, e encaminhado à
Junta da Real Fazenda daquela Capitania em nove de abril desse mesmo ano.185
São quatro capítulos (“Providencias Geraes”, “Despeza do estabelecimento”, “Porte
das Cartas” e “Cartas que devem ser franqueadas”) e um termo, que compreendem
treze páginas e tratam de detalhes minuciosos sobre as vilas que terão postos de
envio e recebimento de cartas – as chamadas “agências”, as rotas, os horários de

183
Dezembro 15. Registo de hua carta ao Coronel Bento Joze da Costa, de Pernambuco, em
resposta as suas duas cartas de 22 de Setembro, e 23 de Novembro de 1814. In: Livro 23.
184
Março 1. Registo de hua Carta dirigida ao Chanceller da Relação do Maranhão pedindo lhe que
concorra quanto puder para a ampliação do Correio do Ceará até a dita Cidade do Maranhão In:
Livro 23, p. 44V.
185 to
Maio 1. Registo da Representação e Projecto para o Estabelecim do Correio desta Capitania com
mo r or
a de Pernambuco que o Ill S Gov [ilustríssimo senhor governador] Manoel Ignacio de Sampaio fez
pessoalmente ver á Junta da Real Fazenda desta Cap ia [capitania] e que a mesma Junta aprovou
mandando lavrar o Termo de aprovação que ao diante vai copiado datado de 9 de abril de 1812. In:
Livro 26, p. 8.
164

partida e chegada em cada vila, os valores que serão gastos, os portes das
correspondências e as cartas franqueadas.
Já no início do documento, Sampaio colocou que os principais objetivos do
correio eram “1º Facilitar a Comunicação entre Pernambuco entre as Villas mais
Comerciantes da Capitania do Ceará” e “2º Facilitar a Comunicação reciproca entre
estas mesmas Villas do Ceará”.186 No primeiro capítulo, denominado “Providencias
Gerães”, fica estabelecido quais são as vilas que terão agências dos correios:
“Granja, Sobral, Villa da Fortaleza, Aracati, S. Bernardo [atual Russas], e Icó”, além
da agência na vila do Recife, em Pernambuco.187 A partir daí começaram as
minúcias relativos aos envios: de cada agência “deverá partir o Correio duas vezes
por mez”, como também nos postos que estão no caminho para Recife, que são
“Goyanna na Paraíba e no Rio Grande do Norte”, porém aí “nunca o Correio se deve
demorar por motivo algum”.188 As cartas enviadas para o Rio Grande do Norte “se
entregarão em Jundiahy [provavelmente, atual Macaíba] 5 legoas distantes da
Cidade do Natal”, e para Paraíba “deverão da mesma forma ser entregues no
Engenho do Espírito Santo [atual Cruz do Espírito Santo] ao Capmor João de
Albuquerque”.189
Em relação aos horários, os detalhamentos pareciam ser ainda maiores. Os
índios correios deveriam sair daquelas vilas e de Pernambuco às três horas da
tarde, e só enviariam cartas recebidas até “huma hora depois do meio dia, ficando
essas duas horas destinadas para marcar as cartas e fazer os maços”. 190 O mapa a
seguir (Figura 13) assinala a localização das agências do Correio do Norte do Brasil.

186
Maio 1. Registo da Representação e Projecto para o Estabelecimto do Correio desta Capitania com
a de Pernambuco que o Ill mo Sr Govor [ilustríssimo senhor governador] Manoel Ignacio de Sampaio fez
pessoalmente ver á Junta da Real Fazenda desta Capia [capitania] e que a mesma Junta aprovou
mandando lavrar o Termo de aprovação que ao diante vai copiado datado de 9 de abril de 1812. In:
Livro 26, p. 8., p. 8V.
187
Ibid., p. 9.
188
Id. ibid.
189
Ibid., p. 10V.
190
Ibid., p. 9.
165

Figura 13 - Localização das agências do Correio do Norte do Brasil.

Fonte: Acervo do Autor.

Do Aracati deve sair para São Bernardo às três horas da tarde, mas do
Aracati para Pernambuco deve partir assim que chegar de Fortaleza, e, da mesma
forma, “para Villa da Fortaleza deve partir logo que chegar de Pernambuco”,
devendo estar previamente prontos os maços tanto no primeiro como no segundo
caso. Todas essas ordens deveriam ser executadas aos índios, que culturalmente
não tinham uma noção cronometrada nem sistematizada do tempo como os
ocidentais. Por isso, percebemos que essa forma de controle temporal dos
indígenas pretendia penetrar nos corpos dos indivíduos, e, juntamente com ela
“todos os controles minuciosos do poder”.191 Por menor que fosse, esse foi um dos
aspectos mais representativos que caracterizavam as tentativas de o governo
disciplinar e civilizar os nativos da região, por meio do trabalho nos correios, ao fixar
datas e horários precisos de chegada e saída de cada vila.
No segundo capítulo, que tratou da “Despesa do estabelecimento”, Sampaio
se referiu sobre a quantidade de índios correios envolvidos, dos seus salários e das
rotas que inicialmente fariam. De Fortaleza para Pernambuco iriam dois índios,

191
FOUCAULT, 2007, p. 129.
166

fazendo os trechos de ida e volta por 20$000rs; do Aracati para o Icó a ida e volta
ficava a “2560rs por ir hum Indio só”; e de Fortaleza para Granja, ida e volta custava
4000rs também indo somente um índio.192 Duas coisas em especial nos chamaram
a atenção nesta parte do projeto: apesar de não haver capítulo, parágrafo ou
passagem alguma que estabeleça que os índios fossem os únicos a fazerem esse
tipo de serviço, foi aqui onde concluímos pela primeira vez que os correios eram, se
não exclusivamente, pelo menos majoritariamente indígenas. Não encontramos em
nenhum outro documento registro de algum correio que pertencesse a outro grupo
social – seja branco, mameluco ou cabra – e nesse trecho, a associação entre um
“correio” e o “índio” aparece de forma direta.
Em segundo lugar, observamos detalhes acerca dos pagamentos, e aí vemos
se casarem dois elementos, fortemente presentes na política indigenista deste
governo; ao mesmo tempo em que se buscou usufruir, ao máximo, os elementos da
cultura nativa, com objetivos práticos e econômicos, foi também através deles que
se tentou fazer a sua inserção na civilização: utilizando-se do costume do índio de
fazer longas caminhadas, organizavam-se sistematicamente horários, rotas e,
principalmente, as rendas fruto deste trabalho.
Sampaio também teve o cuidado de, no mesmo dia da cópia do projeto,
remeter para cada um dos agentes empossados nas vilas algumas recomendações,
ainda mais minuciosas, tratando de pontos mais precisos do trabalho de
recebimento e envio de correspondências. Por exemplo, para o responsável pela
agência da vila da Fortaleza, Joze Alexandre D’Amorim Garcia, o governador
colocou diversas observações acerca de assuntos variados e em seus mínimos
detalhes, como uma tabela com a relação de pesos e portes das cartas para cada
destino, sobre cartas franqueadas, formas de como proceder no envio para cada
destino (como fica o maço, o que devem escrever etc.), o tempo exato para a
preparação dos maços, a quantidade de maços que deve ter uma mala, entre outras
coisas.193
Algumas recomendações envolviam diretamente os índios, que eram as
relacionadas ao envio propriamente dito e ao transporte das cartas de uma agência
para outra. Eis um exemplo: após a conferência de que a mala tivesse [...].

192
Maio 1. Registo da Representação e Projecto para o Estabelecimto do Correio desta Capitania com
a de Pernambuco... In: Livro 26, p. 11.
193
Maio 1. Registo de hum Officio dirigido Joze Alexandre D’Amorim Garcia, nomeando-o Agente do
Correio desta Villa. In: Ibid., p. 16.
167

[...] vinte e hum maços se feixará a chave, e se entregará aos


Correios com a Guia em hûa meia folha de papel, a qual deve dizer =
Fortaleza tantos de tal mez e anno, vão os correios N. N. por tanto
para irem a Pernambuco, e voltarem, os quaes devem dirigir-se ao
Agente do Correio no Aracati, e entregar lhe a malla, hum quarto
d’hora depois da chegada, tornarão a recebe-la do mesmo Agente
com os maços que elle lhe entregar, e seguir as instruções que elle
lhe der. Recebeo tanto adiantado; esta porção de dinheiro será
lançada no Quaderno da Despeza.194

Esta descrição serviu tanto para a rota de Fortaleza para Pernambuco, como
também para todas as outras, e tais recomendações foram expedidas para todos os
agentes, mas, evidentemente, cada uma tratando de suas rotas específicas. Com as
leituras desses detalhes, que adentravam em cada um dos pormenores dos envios,
percebemos a profundidade do projeto de disciplinamento daquela região que era
pretendido pelo governo do Ceará, onde tais rigores eram distantes, talvez inéditos e
até inimagináveis para alguns. Mas atentemos também para o tratamento dado aos
índios correios: além da mala, levavam também um bilhete com seus nomes, que
era conferido pelo agente da vila seguinte; tinham suas ajudas de custo
cuidadosamente anotadas em um quadro de despesas; por fim, e não menos
importante, estavam sujeitos a uma contagem do tempo rigorosamente controlada,
já que deviam partir do Aracati, por exemplo, exatamente quinze minuto após terem
chegado de sua viagem de Fortaleza. Somados aos horários delimitados de
chegada e saída das vilas, bem como ao tempo estipulado para preparação dos
maços, percebemos aqui uma forma de controle temporal sobre os indígenas que,
através de um olhar constantemente vigilante, trabalhavam com base no “princípio
da não-ociosidade”, em que o “horário devia conjurar o perigo de desperdiçar tempo
– erro moral e desonestidade econômica”.195
Dois anos depois da criação do projeto, iniciou-se uma expansão geográfica
do Correio do Ceará. Ainda em 1812, em ofício encaminhado ao governador de
Pernambuco, Sampaio falava da facilidade de que tinha de levar o correio de Granja
até o “presidio d’Amarração [atual Luiz Correia, no Piauí] na boca do Rio Parnaiba,
aonde os governadores de Piauhy e Maranhão podem mandar os Officios que
dirigirem para a Corte”.196 No mês de fevereiro do ano seguinte, Sampaio respondeu

194
Maio 1. Registo de hum Officio dirigido Joze Alexandre D’Amorim Garcia, nomeando-o Agente do
Correio desta Villa. In: Livro 26, p. 16.
195
FOUCAULT, 2007, p. 131.
196
Maio 1. Registo de hum Officio dirigido ao Exmo Snr. [excelentíssimo senhor] Governador e
Capitam General de Pernambuco, implorando a sua protecção a favor do estabelecimento do Correio
168

ofício do governador do Maranhão sobre sua intenção em estabelecer um correio de


comunicação entre esta Capitania do Ceará e “também para a do Pará”, e falou de
sua mudança entre fundar uma agência no presídio da Amarração para uma na Vila
de Parnaíba. Entre várias instruções sobre os envios de correspondências, fixou
precisamente os dias de chegada e partida dos correios: sairiam da Vila da Granja
nos dias 3 e 18 de cada mês, findando suas jornadas em Parnaíba nos dias 14 e 29,
e voltando nos dias 15 e 30, exceto nos meses de fevereiro e março. Por fim, ainda
ressaltou que a “partida dos Correios será inalteravelmente nestes dias as tres horas
da tarde”,197 dando mais um exemplo da tentativa do rigor disciplinar que pretendia
pôr no funcionamento desta instituição e no trabalho dos índios.
Segundo Hugo Victor, em artigo publicado no Almanaque da Parnaíba de
1947, a comunicação postal no litoral piauiense era de tal forma precária que “as
cartas e mais documentos oficiais aguardavam transporte, por via marítima,
demorando, não raro, mezes e mezes à espera de veleiros que os levassem ao
destino. Antes, isto era feito, tambem pelo interior, via Maranhão”. Com a expansão
do correio do Ceará para fora de suas fronteiras, “no espaço de apenas quatro anos,
estavam ligadas por linhas regulares, rigorosamente sistematizadas [...] o
intercâmbio entre seis Capitanias nordestinas”. Por meio de ofício de agosto de
1815, dirigido ao agente nomeado em Parnaíba, Sampaio enviou as recomendações
pormenorizadas acerca do funcionamento da instituição. De acordo com Hugo
Victor, as “instruções do plano são de admiráveis clareza e minúcia”: eram, “de ida e
volta, quatro viagens por mêz, com escala dos estafetas (dois índios) por Sobral e
Granja, pagando as cartas 80 reis por porte até o pezo de 4 oitavas”, e “80 reis por
oito oitavas” quaisquer outros documentos.198
No dia seguinte ao ofício dirigido ao governador do Maranhão, em 27 de
fevereiro de 1813, Sampaio também criou uma nova agência na vila de índios de
Monte-Mor Novo, nomeando Joze Severino de Vasconcellos como agente e lhe
enviando instruções detalhadas sobre o funcionamento da agência.199 As
recomendações foram bem semelhantes àquelas passadas ao agente de Fortaleza,

pa comunicação das principais Villas desta Cap nia [capitania] com Perco [Pernambuco]. In: Livro 23, p.
4V.
197
Fevereiro 26. Registo de hum officio dirigido ao Governador e Capitam General de Maranhão
a
sobre a correspondencia do Correio do Ceará com o do Maranhão, e remettendo-lhe as instruções p
a mesma correspondencia. In: Ibid., p. 24.
198
VICTOR, Hugo. O Correio em Parnaíba. In: Almanaque da Parnaíba. Parnaíba: 1947, p. 317-319.
199
Fevereiro 27. Registo de hum offo [ofício] dirigido ao Sargmor [sargento mor] Joze Severino de
Vasconcellos nomeando-o Agente do Correio da Va [vila] de Monte Mor o Novo. In: Livro 26, p. 160V.
169

inclusive sobre os bilhetes que os correios deveriam levar em cada partida, porém
vindas com este reforço:

A partida dos correios deve ser sempre no dia, e hora notado no


mappa, e por motivo nenhum de qualquer natureza que seja poderá
o Correio partir antes do referido dia, e hora, o que seria faltar a fé
publica, e desarranjaria todo o plano do estabelecimento.
Succedendo por doença do Indio Correio, ou por qualquer causa que
elle não possa partir no dia marcado no mappa deverá partir o mais
depressa que for possivel a fim de se restabelecer tambem com
maior promptidão a boa ordem do estabelecimento. Succedendo que
morra o Indio Correio, ou que adoeça gravemente, o Agente supprirá
esta falta, expedindo outro, ou como melhor que parecer, a fim de
que ainda neste caso infausto o arranjo do estabelecimento de altere
o menos possível.200

Para Sampaio, a disciplina e rigidez de datas e horários, de acordo com o


mapa já prontamente anotado, eram essenciais para o sucesso e “boa ordem do
estabelecimento”, e não só os agentes, como também os índios correios deveriam
estar atentos a tais arranjos. Além disso, percebemos que estes últimos foram
também fundamentais para a instituição, e por isso deveriam estar saudáveis e
dispostos para enfrentar a viagem; e os agentes preparados para qualquer
imprevisto de doença ou mesmo morte de um índio, para que “o arranjo do
estabelecimento altere o menos possivel”. Prezou-se a utilização de um método
disciplinar que visou à fabricação de corpos tanto submissos quanto exercitados, ou
seja, “corpos ‘dóceis’” à dominação.201 Ao final das recomendações, o governador
ressaltou ainda mais o rigor sobre o qual deveriam ser mantidos, vigiados e
controlados os indígenas: “Quando se expedir qualquer correio deve o Agente
explicar bem ao Indio o dia em que deve chegar a Villa seguinte, intimando-lhe que
não o cumprindo por negligencia será por mim castigado”.202 Deles dependia o bom
funcionamento dos correios, e, por esse motivo, foi necessário que os indígenas,
além de eficientes na caminhada, fossem também dóceis, obedientes e precisos no
cumprimento das ordens com extrema exatidão, e a ameaça de castigos agia nesse
sentido.

200 o mor
Fevereiro 27. Registo de hum off [ofício] dirigido ao Sarg [sargento mor] Joze Severino de
Vasconcellos nomeando-o Agente do Correio da V a [vila] de Monte Mor o Novo. In: Livro 26, p. 160V,
p. 168V.
201
FOUCAULT, 2007, p. 119.
202
Ibid., p. 169.
170

Somado ao rigor, foi também preciso o cuidado com os nativos ao longo de


suas caminhadas. Durante todo o seu governo, Sampaio expediu diversos ofícios às
autoridades de outras capitanias acerca do auxílio que deveria ser dado aos índios
correios, especialmente para aqueles que fizessem as rotas do Ceará até o
Maranhão, passando por Parnaíba. Em março de 1814, pediu ao governador
general do Maranhão que:

[...] ordene ao Commandantes dos distritos das passagens da Tutoia,


dos Rios das Preguissas, Alegre, e Paço do Lumiar, que prestem aos
Correios aquelles auxilios, que as circunstancias permittirem, afim de
que os mesmos Correios se não retardem na sua viagem.203

Não era sem motivo a preocupação do governador em relação ao tratamento


dado aos índios pelos comandantes dos distritos que realizavam caminho. Em
fevereiro de 1818, Sampaio dirigiu ao sargento-mor Francisco Ferreira, do Aracati,
uma reclamação feita pelos próprios índios da rota de Pernambuco, que lhe tem:

[...] constantemente queixado das dificuldades que sempre achão na


passagem do Mossoro, e do mau tratamento que lhe da o
Commandante daquele Presídio Felix Antonio. He portanto
necessario q’ Vm e estranhe ao dito Commandante estas
irregularidades, e que lhe advirta que he do seu dever dar aos d os
Correios todo o Auxilio q’ por elles lhe for requerido na intelligencia
de que se assim o não praticar Serei obrigado a fazello Castigar.204

Outras recomendações neste sentido foram sendo enviadas ao longo do


tempo, inclusive para os agentes de vilas próximas ao Piauí e que mandavam
correspondências com destino a São Luiz. Em ofício ao agente de Granja, de
outubro de 1814, o governador lhe fez várias recomendações sobre a comunicação
recentemente criada com a Capitania do Maranhão. Além das usuais observações
sobre os índios correios, relativamente a horários de saída, pedidos de dinheiro
adiantado e imprevistos como morte ou doença, pediu ainda que colhessem
informações deles sobre sua travessia feita nesta nova rota:

De todos os Corros q’ vierem do Maranhão deverá VSa indagar tudo


oq’ lhes sucedeu em caminho, se forão demorados nas passagens

203
Março 2. Registo de hum officio dirigido ao Exmo [excelentíssimo] General do Maranhão sobre a
a
creação de hum correio de comunicação regular entre esta e a Capitania da d [dita] Cidade do
Maranhão, q’ se faz absolutamente necessário por cauza da Relação; e remettendo o Projeto pa o
mmo [mesmo] estabelecimento. In: Livro 23, p. 45V.
204
Fevereiro 14. Offo [ofício] ao Sargmor [sargento mor] Ferra [Ferreira] Sobre diferenttes objectos. In:
Livro 38, p. 43.
171

d’ágoa, e pr qm [por quem], se os Com des lhes derão os auxilios


necessários pa a continuação de sua viagem, se forão bem tratados
pelos moradores, se no caminho ha algua V a [vila] de Indios, e todas
as mais circunstancias q’ julgar necessarias p a o perfeito conhecim to
desta estrada, de q’ tudo me dará VSa progressivam te pte pa as
providencias oq’ for nrs afim de q’ não hajão faltas no
estabelecimento.205

Por meio de tal passagem, vimos mais uma vez que todas essas
preocupações sobre os imprevistos ao longo da estrada, relativas ao tratamento
dado aos indígenas, serviam para que não houvesse “faltas no estabelecimento”. Ou
seja, muito mais que um gesto de solidariedade, a preocupação com a integridade
dos índios estava associada à boa regularidade do serviço, e em última instância à
manutenção da instituição.
Documentos que trataram da segurança dos índios ao longo de suas viagens
continuaram com o processo de instalação da agência na vila de Parnaíba, no Piauí,
que ficava a meio caminho até São Luiz. Por se localizar próximo ao delta do rio de
mesmo nome, pudemos observar nas fontes que os próprios índios, acostumados
com essas longas travessias, também relatavam e reclamavam dos obstáculos
naturais desta rota. Em carta de janeiro do ano seguinte, dirigida ao juiz de fora de
Parnaíba, Sampaio lhe pediu para que, “com a sua authoridade”, interviesse:

[...] pelos meios que julgar mais convenientes afim de que os Indios
Correios encontrem nas passagens dos differentes rios que tem a
atravessar desde essa Villa athe o Maranham aquelles socorros que
as circunstancias permitirem afim de que possão chegar tanto ao
Maranham como aessa Villa nos competente dias do que depende
essencialmente a regularidade do estabelecimento.206

Mais uma vez, podemos ver que a razão principal da proteção dada aos
índios estava muito mais na “regularidade do estabelecimento”; e quando se tratava
do caminho até o Maranhão, os obstáculos pareciam ser ainda maiores. Três meses
depois, escrevendo ao mesmo juiz de fora, o governador do Ceará lhe agradeceu
pelas providências que havia tomado para “aliviar a todas as dificuldades que athe

205
8bro [outubro] 1º. Regto de offo ao Agte da Granja sobre o corro do Maranhão com as circunstancias
mo
q’ do m [mesmo] [ilegível]. In: Livro 27, p. 101.
206
Janeiro 16. Registo de hua carta dirigida ao Juiz de Fora de Parnaíba Ouv or [ouvidor] pela Ley do
Piahi, pedindo lhe queira com a sua authoridade fazer com que nas passagens dos Rios the o Mar am
[Maranhão] encontrem os Correios todos os socorros que as circunstancias permitirem afim de não
serem demorados. In: Livro 23, p. 75V.
172

agora os Indios Correios tem em contrado, que sendo como elles contão parecem
quazi invenciveis”.207
Mas para que houvesse essa regularidade desejada, era preciso que os
próprios indígenas fossem competentes no seu serviço, ou mais ainda, que se
interessassem e se dedicassem a ele. Dessa forma, de acordo com certas
passagens dos documentos, pudemos observar que a preocupação com o bom
tratamento, os auxílios, e as boas condições de viagem também agia no sentido de
criar uma situação que motivasse os nativos a se envolverem de modo responsável
nos trabalhos para o Correio do Ceará. No mês de outubro, em nova carta
encaminhada ao general do Maranhão, Sampaio mencionou mais uma vez a
questão do tratamento dado aos índios pelos comandantes no caminho, aliado ao
auxílio que deveria ser dados pelos diretores de vilas de índio. Como já recomendou
a outras autoridades, falou dos casos de doença ou morte dos correios e da
consequente necessidade de substituição por outro indígena do lugar, e disse que
no Rio Grande do Norte tais conselhos tiveram resultado, onde o “Diretor de S. Joze
do Mipibu supprio esta falta de modo que não houve desarranjo algum”. Para
completar o seu argumento, ainda concluiu:

[...] os índios costumam prestar-se voluntariamente a este serviço


porque são pagos com promptualidade, e quazi sempre como elles
querem, o que neste caso he mui necessario, afim de que no serviço
publico não haja jamais a mais pequena falta, ainda mesmo quando
sobrevem algum incidente mui extraordinário.208

Não obstante o relato de que os índios costumavam “prestar-se


voluntariamente a este serviço”, ter sido meramente um elemento de convencimento
para a colaboração dos diretores, observamos que, para o governo, esses tipos de
ações – pagamentos precisos e feitos quase sempre como os indígenas queriam –
eram extremamente necessários para que “no serviço publico não haja jamais a
mais pequena falta”.

207
Abril 15. Registo de hua carta dirigida ao Juiz de Fora da Parnaiba Ouvidor pela Lei do Piauhi em
que se lhe participa a creação de hum Agente na V a da Parnaiba hua vez q’ o Govor do Piauhi
convenha. In: Livro 23, p. 85V.
208 mo
Outubro 16, Registo de hum officio dirigido ao Ex [excelentíssimo] General do Maranhão,
remettendo-lhe o mappa geral de todas as partidas e chegadas do Correio do Ceará nas suas
Agencias, e a lista dos donativos que offereceram os Negociantes e outras pessoas desta Cap nia
[capitania] para supprir as faltas no estabelecimto, no caso de as haver, e sobre outros objectos
relativos ao mesmo estabelecimento do Correio. In: Ibid., p. 66.
173

Com isso, percebemos que as ações rigorosas, controladoras e


disciplinadoras que agiam sobre os índios encontravam seus limites justamente
nesses mesmos índios. Para o bem do desenvolvimento da instituição, necessitava-
se do bom serviço desses nativos, e, para tanto, o governo se viu obrigado, ao longo
da história do Correio do Norte do Brasil, a tecer complexas redes de ações,
relações e recomendações para moldar uma forma de trato mais eficiente com esses
“bárbaros” trabalhadores. Foi preciso descobrir de que maneira poderiam criar uma
situação na qual, unindo rigor e bons tratamentos, pudessem aproveitar-se ao
máximo dessa capacidade dos indígenas e transformá-los em corpos dóceis e
obedientes, conseguindo assim o sucesso esperado desse projeto que, para
Sampaio, foi essencial para o crescimento da região. Mas, de modo geral, o
planejado esbarrou nos limites das estratégias disciplinares, ou seja, naqueles que
foram seus próprios objetos de civilização: os índios.

4.5.2 Índios correios e os limites da disciplina

Eis o dilema do governo da Capitania: vários mecanismos – como, por


exemplo, o Correio do Ceará – foram criados ou desenvolvidos com o objetivo de
crescimento econômico e estrutural da região, e para a civilização da população,
especialmente a indígena, que representou sua maior parcela e a mais considerável
em termos de força de trabalho. Dessa forma, ao tempo em que estas instituições
agiam sobre os índios, também dependiam deles para seu sucesso. De modo que o
poderio da elite tinha seu limite, ou seja, apesar de sua condição de vantagem, ela
precisou adaptar-se às reações desses nativos frente a esse poder disciplinar.
Então, como diz Chartier, falar de um “período em que a disciplina entrou em prática
no espaço social não significa que realmente ela se efetivou e que as pessoas eram
obedientes”, e por isso é “preciso captar os ilegalismos, os desvios, as práticas
rebeldes”209 dos índios correios frente a essa instituição. Não pretendemos aqui
afirmar que os índios dominaram no cenário sociopolítico desse período, ou ainda
que eram autônomos nesse lugar. Antes, percebemos por meio dos registros
documentais, compostos de correspondências de Sampaio, dirigidas a autoridades
de dentro e fora do Ceará, que sempre foi preciso ter algum tipo de atenção especial

209
CHARTIER, Roger. À Beira da Falésia: a história entre certezas e inquietudes. Porto Alegre:
Universitária / UFRGS, 2002, p. 144.
174

em relação a essa peça fundamental para o bom funcionamento do filhinho do


governador.
De acordo com Hugo Victor, eram apenas quatro patacas o salário que um
índio correio “ganhava por viagem, a pé, mala nas costas, de inverno e verão, e
ainda sujeito a castigo se não chegasse no dia determinado”.210 Mesmo tratando de
um rigor que era efetivamente executado sobre os nativos em seu dia a dia, tal
descrição do autor pode passar uma falsa imagem de submissão passiva dos
trabalhadores indígenas em relação à crueldade estatal. Apesar de todas as
dificuldades no cotidiano desses homens, a realidade dos índios correios era muito
mais complexa, pois, somada à coerção do governo, havia também os ilegalismos,
as resistências e, consequentemente, a busca por vantagens e criação de espaços
de negociação.
Ainda no primeiro ano da instituição, e na primeira viagem feita pelos
indígenas em direção a Pernambuco, encontramos reclamações feitas contra eles.
Em trecho presente no ofício encaminhado ao agente do Aracati (que fica a meio
caminho de Fortaleza para Recife), de maio de 1812, o governador falou da
necessidade de uma investigação acerca do atraso: “A demora que tiveram os
Indios no primeiro Correio foi extraordinaria, He necessário averiguar se foi por
cauza das cheias ou por mora culpavel delles, em cujo caso sera necessario que eu
os castigue para exemplo dos outros”.211
Além da possível causa climática, Sampaio não excluiu as chances de que o
atraso tenha sido provocado pela “mora culpável” dos índios; e, se fosse o caso, o
castigo era preciso como um recurso disciplinar, tanto para “exemplo dos outros”
como também no sentido de uma punição corretiva para os faltosos. No mês
seguinte, por meio de ofício ao agente de Granja, vimos que os indígenas que
trabalhavam em outra rota também desobedeceram ao arranjo preestabelecido:

Como o correio que para ai partiu no 1º do mez passado ainda aqui


não chegou, devendo, segundo o plano, ter chegado aqui em 29 ha
tres dias, o que naturalmente procede de indolencia do Indio Correio,
que por isso há de ser aqui castigado, ordeno a V.S. que quando o
Correio ahi chegar depois do dia determinado no mappa, V.S. note

210
VICTOR, 1947, p. 319.
211
Maio 20. Registo de hum Officio dirigido o Agente da Villa do Aracati Manoel Joze Rebello de
Moraes. In: Livro 26.
175

na guia que elle daqui leva o dia em que chegou, e o dia em que
parte para cá, afim de receber aqui o castigo que merecer.212

Percebamos certos detalhes: o tempo deveria ser minuciosamente controlado


– algo ainda distante da prática cotidiana destes índios – e um atraso de três dias,
em uma viagem a pé de Fortaleza para Granja, era sinal certo de “indolência do
índio correio”, por isso teria o castigo que merecia. Mas ao longo do tempo, foi
possível observar que, por um lado, a atenção dada aos índios e às suas
delinquências nunca cessou. Por outro lado, foi preciso muito mais que castigos
para lidar de forma vantajosa com esses nativos.
No segundo ano de criação da rota até o Maranhão, vimos registros de
correspondências que falaram de formas para melhor conseguir que os indígenas
tivessem responsabilidade e disciplina no seu trabalho. Em janeiro de 1815,
Sampaio escreveu ao chanceler do Maranhão acerca da aprovação obtida, deste,
aos seus “trabalhos Rellativos ao estabelecimento do Correio do Norte do Brasil”, e
tratou de diversos assuntos, inclusive da rota que os correios fizeram até São Luiz,
onde passaram “pellas Villas de Indio de Tutoia, e Paço do Lumiar, e pellas
Povoaçoes tão bem de Indios denominada o Preá e S. Joze”. Como de costume,
falou da necessidade que teriam os diretores das vilas e povoações “para que no
caso que algum dos Correios ali chegue doente, mande um Indio seu dirigido em
Lugar”. Em seguida, acrescentou sugestões para os diretores no trato com esses
possíveis substitutos:

A principio será talves necessario obrigalos a este serviço; mas logo


que tenhão a certeza de que tanto nessa Cidade como na vila da
Granja desta Capitania são promptamente pagos de seu serviço, e
sem mesquinharia, conforme as ordens que tem os Agentes, estou
certo que todos se prestarão de muito boa vontade a este serviço
como sucede no caminho para Pernambuco, ate por que em geral os
Indios estão sempre mais promptos para fazer hua viagem do que
para cultivar a terra.213

Mais uma vez, ficou claro que, para o governador, os índios eram os mais
aptos a exercer este tipo de serviço, já que lhes era preferível “fazer hua viagem do
que cultivar a terra”. Sabia também que isto não era garantia de que tudo seria posto

212
Junho 1. Rego [registro] de hum Offo [ofício] dirigido ao Agente do Cor o [correio] da Granja
Francisco Carvo [Carvalho] Motta. In: Livro 26, p. 62.
213
Janeiro 16. Rego de Officio dirigido ao Chanceller do Maranhão sobre o Correio, pedindo-lhe q’
auxilie qto [quanto] estiver de sua parte o estabelecimto do mmo [mesmo]. In: Livro 23, p. 72V.
176

em prática facilmente e sem resistências; e, mesmo levando isto em conta, acreditou


que, com o tempo, os próprios indígenas prestariam “de muita boa vontade este
serviço”, mas somente com a garantia da remuneração – como já havia escrito em
outra ocasião. Neste trecho, vimos que, além de atitudes mais rígidas, Sampaio fez
questão de que o pagamento aos correios fosse feito prontamente e “sem
mesquinharia”.
Neste mesmo dia, o governador enviou outro ofício, agora para o
desembargador João Rodrigues Brito, como alguns outros detalhes acerca dos
índios correios, de seu serviço e dos limites impostos à disciplina pelos próprios
nativos:

Os Indios ao menos os desta Capitania estão habituados a andar


duas Legoas por dia ao que elles dão nome de viagem regular, e so
com o interesse de grandes ganhos he que alterão esta sua marcha
de que resulta que seria extremamente difficil obrigalos a encurtar de
dois dias as suas viagens no mes de Fevereiro, o que mesmo seria
impossivel quando as distancias são piquenas, por que já mais se
poderá obrigar hum Indio a andar seis ou oito Legoas em tres dias, e
ainda quando se pertende-se obrigalos a fazerem estas viagens tão
apressadas, necessariamente haveriam faltas, e desarranjos que
seria impraticavel remediar, e seguia-se immediatamente não se
poder responder as cartas de hum correio se não pello correio
immediacto.214

Novamente foi colocada a questão da remuneração, já que a “viagem regular”


só poderia ser apressada pelos índios com a promessa de “grandes ganhos”. Mas
quando Sampaio disse que nunca “se poderá obrigar hum Indio a andar seis ou oito
Legoas em tres dias”, observamos de forma mais clara que a dominação colonial, e
sua intenção em fabricar corpos dóceis e obedientes, jamais conseguia um êxito
total.
Ao perceber que suas exigências com os índios só poderiam ir até certo
ponto, vimos que o próprio governo tinha a percepção de que, mesmo em vantagem,
o seu poder tinha limites, e somente poderia “dominar”, ou chegar onde queria,
sabendo criar um espaço que possibilitasse algum ganho para os seus “dominados”.
Contudo, estes espaços não constituíam apenas concessões de uma elite política
detentora de um poder completo e absoluto, mas sim como conquistas/frutos de

214
Janeiro 16. Registo de hua carta dirigida ao Dezembargador João Rodrigues Brito sobre o
estabelecimento do correio. In: Livro 23, p. 76V.
177

resistências, adequações, negociações e modificações provocadas pelos indígenas


nesses planos idealizados.
E mesmo com todas essas garantias e proteções, percebemos que, ao longo
do tempo, o serviço dos índios não foi feito constantemente da forma pretendida
pelo governo. E foi justamente em torno da questão da remuneração dada aos
correios, durante suas viagens, que alguns problemas apareceram meses depois.
Ainda no ano das recomendações dadas ao chanceler do Maranhão e ao
desembargador Brito, alguns ofícios foram registrados, relatando usos indevidos que
os indígenas fizeram do dinheiro que recebiam adiantado nas agências, ou outras
acusações. No dia 12 de agosto, foi passada uma circular aos diretores de três vilas
de índios próximas à capital, Arronches, Soure e Mecejana, em relação às faltas
cometidas pelos correios:

Tendo nestes ultimos tempos os Indios Correios dado occasião a


varios transtornos pelo pouco cuidado que tem nos seus deveres
humas vezes gastando nas suas viagens mais do que o tempo que
lhes esta determinado. Outras vezes fingindo doenças no meio do
Caminho afim de ficarem com o dinheiro que tens recebido
adiantado, outras vezes embriagando se e deixando ao abandono as
malas em que alias devem ter o maior cuidado, e sendo
absolutamente indispensavel evitar os grandes inconvenientes que
destes abusos se podem seguir. Ordeno a Vmce que de hoje remetta
preso á Cadeia da Fortalesa desta Capital todo aquelle Indio Correio
que se apresentar nessa Villa sem hum bilhete do Agente desta Villa
da Fortalesa em que se declare ter elle Satisfeito ao seu dever.215

Desfazendo as previsões feitas àquelas autoridades de fora do Ceará, os


índios criaram maneiras burlar os planos, desfazendo o previsto e usando de suas
próprias maneiras o tempo e o dinheiro que recebiam. Para combater este tipo de
atitude, novamente restou ao governador ordenar ações mais rigorosas, como a
prisão e a observância nos bilhetes dos agentes. Neste mesmo dia, um ofício foi
encaminhado ao administrador geral do Correio do Norte do Brasil, dando instruções
bem semelhantes às presentes no ofício supracitado, comunicando ter neste mesmo
dia “ordenado aos Directores das tres Villas de Soure, Arronches e Mecejana, q’
remettão prezos a Cadeia da Fortaleza desta Capital” os infratores. Por fim, falou da
obrigação dos agentes em observar os bilhetes que os índios traziam, e ainda
acrescentou:

215
Agosto 12. Circular aos Directores de Arr es [Arronches] Soure, e Mecejana Sobre os Indios Corr os
que comettem faltas qdo [quando] vão de Viagem. In: Livro 20, p. 60.
178

Ao mesmo Agente deve VSa ordenar que tome as competentes notas


dos Indios, que tendo recebido algum dinheiro adiantado não
completarem as suas viagens, p r qualquer motivo que for, afim de
que nas futuras viagens se lhes fação os competentes descontos
avista das circunstancias de cada hum deles.216

Mais uma vez, Sampaio foi exigente e lançou mão de outra ferramenta
coercitiva, tentando pôr fim, por meio da vigilância, dos castigos e da disciplina, aos
“abusos” cometidos pelos correios. Ainda nesse mês, o governador enviou ofício ao
agente de Sobral, parabenizando-o por seus atos frente aos indígenas que não
observavam minuciosamente o tempo de chegada na vila:

Não posso deixar de aprovar o modo p r que vmce tem obrado a


respeito dos Indios Correios que não tem chegado nos tempos
competentes, e recomendo-lhe que continue d acordo com o Cap mor,
e sempre com o mesmo espirito e fim.217

A história do Correio do Ceará foi marcada por este constante convívio entre
as medidas coercitivas do governo e as práticas delinquentes dos índios correios,
que nunca deixaram de escapar, na medida do possível, aos planos
preestabelecidos e milimetricamente determinados. A instituição se expandiu,
alcançou outras capitanias e agências, mas mesmo com esse desenvolvimento, ela
não conseguiu extinguir por completo a indisciplina de seus subordinados. Em julho
do ano seguinte, Sampaio escreveu ao agente em Recife, parabenizando-lhe o zelo
que teve no seu trabalho. Falou também do sucesso do Correio, mesmo com as
atitudes ilícitas dos índios:

O estabelecimento continua a prosperar inalteravelmente apesar de


algumas pequenas irregularidades dos Indios Correios que espero
contudo que não hajão de Continuar em razão do Castigo de prizão
que tenho mandado dar aos principaes transgressores, e algumas
Outras providencias [...].218

Apesar da inegável prosperidade dos Correios, essas “pequenas


irregularidades” dos índios pareciam constantes a cada ano. As medidas punitivas,
tomadas desde o início da instituição, ainda não conseguiam transformar os nativos

216
Agosto 12. Rego [registro] de offo [ofício] ao Administrador Geral do Corr o sobre os Indios Correios,
com as providencias que seguem. In: Livro 27, p. 152V.
217
Agosto 31. Rego [registro] de offo [ofício] ao Agente do Sobral sobre a nova Agencia, e outros
objectos do Correio. In: Ibid., p. 156V.
218
Julho 1. Carta ao Age [agente] do Corro [correio] do Ceará em Pernambuco agradecendo-lhe varios
Obsequios. In: Livro 28, p. 10V.
179

em trabalhadores disciplinados da forma idealizada pelo governo, e novamente, sem


perder as esperanças, Sampaio disse acreditar que elas diminuiriam com as prisões
que tinha mandado executar.
Entretanto, ainda nesse mesmo mês, viu-se obrigado a mais uma vez tomar
providências, e, de novo, em relação ao “mau uso” do dinheiro recebido pelos
indígenas que iam para Pernambuco. Em ofício ao administrador geral, disse que os
“abusos e fraudes praticados nestes ultimos tempos” têm se dado por conta de
ganharem “metade do seu Salario antes de sua partida” de Fortaleza, além de
“receberem na Agencia do Aracati o dinheiro que pedião”. Por conta disso, ordenou
que passassem diversas restrições nas agências dessa rota: na capital, apenas
seria dada aos índios “se não a quantia de 3$000r s”, e no Aracati, somente “aquella
quantia que faltar para prefazer a soma de 5$000r s”. Para o correio que adoecesse
antes de chegar ao Aracati, além de não receber salário, deveria “repor toda a
quantia que tiver recebido na Agencia desta Capital”. O que ficasse enfermo entre
Aracati e São José de Mipibu deveria receber “somente o Sallario de 2$000r s”, e
entre esta vila e Pernambuco, “tão somente o Sallario de 7$000r s”, todos eles
“devendo repor o resto do que tiver recebido”. Finalmente, disse que aquele que se
fingisse de doente seria “asperamente castigado alem de repor todo o dinheiro que
tiver recebido”. Esperançoso com tais medidas, o governador concluiu dizendo
acreditar que, dessa maneira, “cessarão por hua vez todas as fraudes praticadas
nestes ultimos tempos pelos Correios de Pernambuco”.219
Controle e fuga, rigidez e delinquência, disciplina e invenção: com esses
constantes paradoxos, construiu-se a história desse estimado filho de Manuel
Ignácio de Sampaio. Até o final de seu mandato no Ceará, o Correio do Norte do
Brasil obteve sucesso e, não obstante as dificuldades, conseguiu se estabelecer em
diversas capitanias e facilitar o desenvolvimento comercial nessa região. Mas em
relação a sua segunda missão, seu êxito foi parcial. A tão esperada docilidade dos
índios por meio desse trabalho não foi realizada, e muito menos a sua “entrega
voluntária” a este serviço. Como aconteceu desde o início desta história, medidas
restritivas – nesse último caso, em relação à remuneração – foram instituídas em
uma tentativa de domar o espírito bárbaro e incivilizado desses nativos. Mas
observamos também que a disciplina controladora, apesar de poderosa, sempre

219
Julho 12. Offo [ofício] ao Administrador Gl. [geral] do Corr o [correio] dando-lhe varias Ordens Sobre
os abusos dos Indios Correios. In: Livro 28, p. 11V.
180

teve seus limites; por outro lado, a capacidade de invenção do cotidiano indígena
não, tendo em vista que era justamente por meio da apropriação de elementos que
lhes eram impostos (regras, condições e limites), “criando para si um espaço de jogo
para maneiras de utilizar a ordem”,220 que os índios buscavam a realização de seus
próprios interesses.
Sampaio terminou o seu governo no Ceará em janeiro de 1820, e, segundo
suas próprias palavras, orgulhoso de sua obra. Em carta ao desembargador Joze
Francisco Silva Costa Furtado de maio de 1819, anunciou sua partida desta
Capitania para a de Goiás, e falou que, neste momento, o correio tem conseguido a
“necessaria estabilidade, e ordem desde essa Capitania até a de Pern co, tendo até ja
alguns pequenos filhinhos em outras Capitanias”,221 como no Maranhão e no Piauí.
Em dezembro deste mesmo ano, escreveu ao agente de Parnaíba, ressaltando o
“credito publico [...] a que tem chegado o nosso Correio do Ceará”, e mostrando-se
satisfeito de ter conseguido resolver “o grande problema que tantos tempos se
julgou impossivel a saber huma Comunicação facil, regular, e prompta entre as
Capitanias de Sotavento”. 222 Percebemos ao longo deste trabalho que os interesses
dos que representavam a Coroa em solo cearense encontraram entraves que, se
não impediram, deram muito trabalho para a construção do projeto de poder do
Império e das elites locais. E como exemplo desses percalços, conto uma última
história.
Depois de cerca de oito anos no governo Sampaio de medidas que
mesclavam proteção e rigor, com o objetivo de controlar e disciplinar os
trabalhadores indígenas, o governo interino do Ceará, a partir de 1820, assumiu o
controle do Correio do Norte do Brasil e a missão de comandar os índios correios.
Porém, a documentação nos mostrou que o comportamento dos nativos, mesmo
depois de todas as tentativas, não se transformou da forma desejada pela elite
política. No dia oito de janeiro deste ano, dois ofícios foram produzidos por conta do
sumiço de um correio. O primeiro foi enviado ao diretor de Arronches, à procura do
índio Felipe da Silva, natural dessa vila, e que ainda não havia chegado ao Aracati.
Caso fosse encontrado, deveria ser preso “imediatamte a nossa ordem” e remetido

220
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 93.
221
Maio 15. Officio dirigido ao Dezor [desembargador] Joze Francisco Silva Costa Furtado em
resposta a carta do dito Dezor de 11 de Março de 1816. In: Livro 30, p. 64V.
222
Dezembro 15. Carta ao Agente do Correio da Parnaiba sobre cousas tendentes a d a [dita]
Agencia. In: Livro 29, p. 13V.
181

“ás Cadeias desta Capital, sendo o seu maior cuidado arrecadar a malla do correio,
o que muito e muito lhe recomendâmos”.223 O segundo ofício foi encaminhado ao
capitão-mor das ordenanças do Aquiraz, também em busca de Felipe da Silva, e lhe
ordenou que tomasse as devidas “providencias pa descobrir se por ai passou o dito
corro e existirá pr ai escondido ou se lhe aconteceria algûa desgraça”.224
Ainda neste mesmo mês, encontramos outra reclamação. No dia 24 foi
encaminhado um ofício do governo interino ao administrador geral dos Correios,
relatando-lhe alguns extravios que, segundo os governantes, “julgamos ter-se
verificado com as malas dos Correios de 24 de Janeiro e de 9 no corrente [mês]” –
este último, provavelmente, envolvendo o índio Felipe da Silva. Temendo que a
continuação desses sumiços fizesse “diminuir o credito de hum tão util
estabelecimento”, algumas novas medidas foram criadas com o objetivo de
aumentar ainda mais o controle dos correios:

[...] Ordenamos a VMce que determine aos Indios q’ são despachados


pela Administração Geral do correio desta Capital para que de hoje
em diante devão apresentar-se os que são despaxados para as
Villas do Sul ao Director da Villa de Mecejana ao Cap mor da Villa do
Aquirás e ao Commandante da Povoação do Cascavel, e aos
despaxados para as Villas do Norte o que seguir p a Campo Maior
[atual Quixeramobim] se apresente ao Director de Arronches e o que
seguir para Sobral ao Director de Soure [...].225

Vimos novamente o exemplo de um fato que marcou a história do Correio do


Ceará: a sua complexa e conflituosa relação com os índios. Compondo de maneira
destacada a política indigenista do governo de Manuel Ignácio de Sampaio, essa
instituição foi mais uma das várias ferramentas que agiram neste período com a
missão de controlar, disciplinar e civilizar essa população nativa. Mas como
acontecia em outros âmbitos, a relação dos correios com os indígenas não foi
somente de dominação, mas também de dependência, já que eram fundamentais
para o seu bom funcionamento e para o crescimento comercial da região. Como
tentamos revelar neste trabalho, o Correio do Norte do Brasil foi um elemento
exemplar na missão dos ilustrados europeus, nestes confins da Colônia portuguesa:

223
Fevereiro 8. Officio dirigido ao Director de Arronches para a prizão do Indio Correio Felippe da
Silva. In: Livro 22, p. 174V.
224
Fevereiro 8. Officio dirigido ao Cap mor das Ordenanças do Aquiraz para a prizão do Indio Corr o
Felippe da Silva”. In: Ibid., p. 175.
225
Fevro [fevereiro] 24. Offo [ofício] ao Admor [administrador] Geral do Corro [correio] [...] Sobre o
extravio dos Corros e dando as Ordens sobre os mmos [mesmos]. In: Livro 29, p. 25V.
182

levar a luz da civilização ao povo, por meio do desenvolvimento econômico da


região e da transformação dos hábitos e costumes dessas populações tão
“bárbaras”. Porém, foi justamente nessa relação de dependência que os nativos
encontraram suas maneiras de negociar, delinquir, burlar o sistema, modificá-lo a
seu modo, e, assim, inventar seu próprio cotidiano. Graças aos índios correios foi
que o “filhinho” do governador conseguiu ter esse grande crescimento, como
também os limites e insucessos do poder disciplinar, que seguiram eternos.
182

5 INVENÇÃO: COTIDIANO INDÍGENA SOB O GOVERNO SAMPAIO NO CEARÁ

5.1 A seara ainda é indígena? O Ceará enquanto um não-lugar para os índios

O mundo não é uma folha de papel


receptiva: o mundo tem vida autônoma, é de
alma inquieta e explosiva.
João Cabral de Melo Neto

A chegada do europeu nas terras em que hoje se situa a América fez nascer
um “novo mundo”, a partir de práticas, lugares sociais e sujeitos novos. A partir do
contato, brancos, negros e índios reconfiguraram os significados daqueles espaços,
assim como as posições que passariam a ocupar naquela sociedade nascente. Mas,
diferente do que a historiografia tradicional enfaticamente afirmou, ao celebrar o
protagonismo do homem ocidental, novas pesquisas mostraram a relevância da
presença indígena na construção do Brasil e no funcionamento da colônia. Por meio
da leitura das fontes, bem como a descoberta de novos acervos documentais,
percebemos que a atuação dos índios no cotidiano colonial não se deu apenas de
maneira figurativa ou coadjuvante. Por outro lado, observamos que nem só de
massacre viveu a política indigenista de Portugal, e que a dominação dependia do
índio muito mais do que se pensava. Se a Coroa necessitava de súditos, a Igreja de
fiéis, e os colonos de mão de obra, é possível compreender que a presença e
participação nativa naquele universo era, na verdade, fundamental. E semelhante ao
contexto do Correio do Norte do Brasil, que vimos no capítulo anterior, os indígenas
percebiam com acuidade tal dependência e, a partir dela, manipularam os elementos
desse novo mundo e criaram para si espaços de sobrevivência.
Contudo, não é possível, a partir do que foi exposto, imaginar que a relação
entre brancos e índios se deu de forma igualitária, ou que a dominação não tenha
sido tão devastadora para aquelas sociedades tradicionais. Muito pelo contrário, o
massacre de fato aconteceu, não sendo intenção de essa nova historiografia
esconder a destruição nem as mortes de uma infinidade de pessoas, grupos e
culturas. Para Maria Regina de Almeida, não é possível “desconsiderar a violência e
a opressão da conquista”, mesmo percebendo que “as atitudes dos índios em
relação aos colonizadores não se reduziam, absolutamente, à resistência armada e
183

à submissão passiva”.1 O que observamos foi que todas essas formas de relação –
da total negação à inserção voluntária – mesmo sendo contraditórias, conviviam e
formavam esse mundo em construção. Além disso, as “perdas culturais e étnicas”,
mesmo sendo inevitáveis, não impediram que os índios aldeados – que nesse
momento, não foram mais os mesmo grupos que viveram nestas terras antes da
colonização – pudessem “aprender ali novas práticas culturais e políticas que lhe
permitiam colaborar e negociar com a sociedade colonial”. 2 Dessa forma, o cotidiano
na Colônia, sobretudo até a primeira metade do século XVIII, foi composto e
pertenceu também ao elemento nativo, apesar de os espaços e as identidades
geridas nesse ambiente não serem mais os mesmos, anterior ao contato.
No Ceará, colonizado apenas em meados dos setecentos, essa situação
parecia ser ainda mais evidente. Além de ser uma capitania considerada, à época,
um lugar “acolhedor e concentrador de povos aflitos e fugitivos, fustigados, expulsos
de seus antigos territórios [como foi o caso de muitos grupos indígenas vindos das
capitanias anexas a Pernambuco]”, era marcada pelo fraco alcance do poder
administrativo e político da Coroa, como já vimos em outros momentos deste
trabalho. Apesar de ser “domínio da majestade de Portugal [...] era também, e,
sobretudo, um Seara Indígena”, como coloca Manuel Albuquerque:3 ou seja, o
território cearense – até, pelo menos, a segunda metade dos setecentos – talvez
fosse muito mais dos índios do que do rei português. Os próprios aldeamentos
jesuíticos, ainda que tivessem um evidente caráter integracionista e controlador, e se
configurassem “um espaço de dominação e exploração dos colonizadores”, eram
muito mais “espaços de índios, pois assim foram por eles considerados, como
sugerem as lutas que empreenderam por sua manutenção, até o final do século
XVIII”.4
Com a instalação do Diretório dos Índios, acompanhado da execução de
diversas práticas modernizadoras idealizadas pelo Marquês de Pombal, foi
provocada uma mudança significativa nesse quadro social. Com a intenção explícita

1
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Os índios aldeados no Rio de Janeiro colonial: novos
súditos cristãos do Império português. Tese (Doutorado) ‒ UNICAMP, 2003, p. 11.
2
Ibid., p. 12.
3
ALBUQUERQUE, Manuel Coelho. Seara indígena: deslocamentos e dimensões identitárias.
Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2002. p. 68. O autor trabalha na p. 21 com
o termo “seara”, que significa espaço, campo ou território, mas também remete à antiga grafia da
Capitania do Ceará até a primeira metade do século XVIII – Siará ou Seará – além de ser ela própria
uma palavra de origem indígena.
4
ALMEIDA, 2003, p. 116.
184

de inserir o elemento indígena no mundo civilizado, este conjunto de leis possibilitou


o desenvolvimento de medidas que impulsionavam o controle sobre aquela
população, bem como um maior usufruto de sua força de trabalho. Segundo Leite
Neto, com a transformação das antigas aldeias jesuíticas em vilas, esses espaços
passaram a “se constituir [...] num importante instrumento de formação da mão de
obra indígena para o sistema mercantil”,5 além de agir de forma mais rigorosa na
aglutinação desses povos espalhados pelo sertão. Desde o final do século XVIII, e
também no início do XIX, diversas políticas normativas foram aplicadas com o
objetivo de combater a dispersão populacional e promover a civilização entre os
habitantes, por meio de um controle mais organizado e com maior aproveitamento
de pessoas para o trabalho. Dessa maneira, de forma gradual, a Capitania do
Ceará, antiga seara indígena, passava a ser cada vez menos dos índios que lá
habitavam.
Mas o enrijecimento dessas práticas normativas nos oitocentos não foram
suficientes para retirar esta capitania do antigo estigma de ser um confim precário e
atrasado. Deste modo, a chegada de Manuel Ignácio de Sampaio no Ceará, como já
observamos, pode ser interpretada como um marco em termos de aperfeiçoamento
das políticas populacionais, que tiveram atuações significativas sobre os índios. No
capítulo anterior, vimos os principais setores que agiram com a intenção de
controlar, disciplinar e transformar aqueles homens “ainda bárbaros” em súditos
civilizados. Com sua efetivação, não somente os espaços da região, como também
o cotidiano dos grupos nativos passaram a ser cada vez mais monitorados e
geridos, no sentido de trazer a civilização para a população e desenvolver
economicamente a capitania, num projeto em que estes dois planos de ação
estariam juntos.
Para os índios no Ceará, que viveram durante o período do governador
Sampaio, parecia não haver escolha. Com a renovação da política de passaportes, o
forte incentivo ao trabalho e o acelerado desenvolvimento do recrutamento indígena
em companhias de ordenanças, os espaços dos nativos, para sobreviverem neste
mundo encontravam-se ainda mais reduzidos. Como vimos anteriormente, as vilas
tiveram relativo crescimento, tornando-se verdadeiros celeiros de trabalhadores, e o

5
LEITE NETO, João. A participação do trabalho indígena no contexto da produção algodoeira
da capitania do Ceará (1780-1822). Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal de Pernambuco,
1997, p. 115.
185

controle sobre a vida dos indivíduos pretendia ser total, através da vigilância de seus
passos e do serviço de sua força de trabalho. O Ceará, que, durante quase todo
período colonial (inclusive após a instalação do Diretório), se configurou um lugar de
índios – uma seara indígena – passaria a se constituir para eles como um não-lugar.
Ao desenvolver os conceitos de estratégia e tática, Michel de Certeau
buscava traçar uma diferença entre aqueles grupos ou indivíduos que, em uma
determinada sociedade, são possuidores de um “lugar capaz de ser circunscrito
como um próprio” e outros que só podem lançar mão de ações cujo cálculo “não
pode contar com um próprio”. Enquanto quem domina lança mão de estratégias,
postulando a “vitória do lugar sobre o tempo”, os dominados, por outro lado, têm
para si apenas o “não-lugar”, ou seja, suas táticas “só tem por lugar o outro”, sendo
justamente aí onde se insinua, jogando “com os acontecimentos para os transformar
em ‘ocasiões’”, “tirando partido de forças que lhe são estranhas”.6
Pensar no conceito de não-lugar, com base em Certeau, para analisar a
relação dos índios deste período com o Ceará em que viviam – mesmo admitindo a
perda de certa “autonomia” que antigamente teriam – não anula a possibilidade de
essas pessoas terem se posicionado nesse espaço de forma atuante e em busca de
seus interesses. Entender o cotidiano desses homens a partir desse referencial é
permitir visualizar uma multiplicidade de ações que, de maneira heterogênea, se
realizaram com feições bem diferentes do que acontecia, por exemplo, no contexto
das aldeias jesuíticas.
A análise documental, mesmo de forma indireta, nos permitiu perceber as
diversas possibilidades de ações perpetradas por índios que partiram de situações e
condições bem diferentes, e buscaram sobreviver nesse mundo novo que se
constituía no “novo mundo”. Da “aceitação” à fuga, todas essas ações registradas
nos documentos oficiais mostraram a inventividade dos povos indígenas que, não
sendo passivos a esta realidade, criaram uma grande multiplicidade de táticas para
sobreviver neste universo. As fontes governamentais, nascidas nos planos
normativos e designadas para agirem como tal, puderam ser lidas também como
efeitos das reações dos índios diante destas políticas disciplinares. Foi nelas que
percebemos, mesmo no ambiente mais próprio do mundo disciplinar, as diversas
formas de invenção de cotidianos, ainda que vivendo em um não-lugar.

6
CERTEAU, A invenção do cotidiano – I: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 46-47.
186

5.1.1 Fugas do sistema

O enrijecimento das políticas de controle e incentivo à produção é algo


identificado pela leitura de registros escritos no Ceará, desde o final do século XVIII.
É possível perceber que, progressivamente, instala-se nesta capitania uma
sociedade pretensamente disciplinar, na qual as práticas normativas visavam o
máximo controle dos corpos e, consequentemente, o seu maior usufruto. Porém,
convivendo lado a lado com coerção, estava a invenção, revelando que tal realidade
em estudo se tratava de uma sociedade disciplinar, e não disciplinada; ou seja, é
preciso estar atento ao que Foucault chamou de “insucessos perpétuos” desses
sistemas.7 Neles, inclusive no Ceará, diversas formas de movimentação, negação e
sobrevivência são visíveis na documentação por nós analisada, sendo possível
observar as diversas maneiras pelas quais os índios agiam frente aos mecanismos
criados ou incentivados pela ação do Estado.
Mesmo com toda a rigidez da hierarquia social deste período, que relegava
aos índios posições inferiores – tanto política como juridicamente – em relação aos
brancos e outros homens livres, esses povos não se posicionavam neste mundo de
forma submissa. De acordo com o viajante Henry Koster, os indígenas seriam
homens de espírito livre, que, mesmo tendo consciência de suas posições, agiam
altivamente inclusive perante os proprietários que alugavam seus serviços. Um índio
seria homem de

[...] temperamento independente, detestando tudo o que possa


deprimir e reter sua ação. Submete-se ao diretor por não ter
elementos de resistir-lhe. Um indígena nunca está disposto a chamar
o patrão, que o haja alugado, por senhor, embora de uso comum dos
brancos entre si quando falam, e por todos os homens livres da
região. O que os negros usam falando com seus senhores, os
indígenas não o fazem. Dirigem-se ao seu senhor temporário pelos
termos de amo ou patrão. A repugnância do uso do vocábulo senhor
pode ter começado nos imediatos descendentes dos indígenas
escravos e se haja perpetuado essa repulsa na tradição. Recusam
dar por cortesia o que outrora lhe seria exigido pela lei. Sendo esta a
origem do hábito, ele não continua pela mesma razão, porque os

7
“Quand je parle societé ‘disciplinaire’, elle ne faut pas entendre ‘societé disciplinée’” [Quando eu digo
sociedade “disciplinar”, ela não quer dizer sociedade “disciplinada”]. In: FOUCAULT, Michel. La
pussière et le nuage. In: PERROT, Michelle. L’impossible prison: recherches sur le système
pénitentiaire au XIXe Siècle. Paris: Editions du Seuil, 1980. p. 35.
187

indígenas com quem tenho conversado, e tenho visto muitos,


parecem saber que seus ancestrais trabalhavam como escravos.8

Por meio dos relatos de Koster, os índios acabaram desenvolvendo o


costume de negarem abertamente o tratamento “senhor”, não sendo esta atitude
apenas um detalhe. Como observamos nesta literatura, a submissão só existia
porque não havia o que fazer para reverter completamente esta situação. Porém,
talvez por conta deste “temperamento independente”, que detestava “tudo o que
possa deprimir e reter sua ação”, os nativos souberam posicionar-se diante das
autoridades e deste poder que cada vez mais limitava seu cotidiano. Sabendo da
escravidão que muitos dos seus sofreram, estes homens tentavam negar em sua
rotina diária, prática similar ao experimentado por seus antepassados.
E já que, segundo Koster, os índios não teriam “fidelidade aos seus amos”,9
nos foi possível notar a recorrência de várias referências a fugas de indígenas nas
fontes governamentais. Percebemos que esta tendência de evasão das vilas, ou de
propriedades onde os nativos trabalhavam por aluguel atravessou a passagem dos
setecentos para o século XIX, e continuou com o governo Sampaio. Mesmo com
toda a insistência da política de passaportes – e da verdadeira “caça aos vadios”
que se efetivou na capitania – trabalhada no capítulo anterior, estas ações não
foram suficientes para extinguirem com a busca de muitas pessoas de sair da
situação em que se encontravam e ir para outros lugares. De acordo com Almeida,
já no período jesuítico, a “fuga e o abandono das aldeias foram sempre uma
10
realidade” nesse contexto, e podiam ser notadas também nas vilas do período
pombalino. Sem demandar maiores comentários, as atitudes desses índios fugitivos
são uma das mais abertas manifestações de resistência às políticas disciplinares
desse período.
Logo no primeiro ano do governador no Ceará, apareceu o primeiro registro
desse tipo de ação, presente em um ofício encaminhado ao comandante das
ordenanças do Aquiraz, no mês de outubro. Nele, Sampaio ordenava que se fizesse
a prisão de um índio que, “tendo sido alugado ao Boticario desta Villa Bernardo Joze
Teixeira ausentou-se no fim de 25 dias, e consta agora que esta morando [...]

8
KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro; São Paulo; Fortaleza: ABC,
2003, p. 178. Grifo nosso.
9
Ibid., p. 177.
10
ALMEIDA, 2003, p. 82.
188

juntamte com o Pai”.11 Em outro ofício do mesmo mês, enviado ao diretor de


Arronches, o governador ordenava que se castigasse “como achar justo a India
Joana de tal que fugio da Casa de Belchior da Silva Loureiro aonde se achava
alugada”.12 Observamos que estas fugas ocorreram em contextos bem específicos:
não eram somente de seus lugares de origem, mas de propriedades onde exerciam
trabalhos compulsoriamente. Previstos já no Diretório, os serviços de aluguel tinham
destaque no projeto indigenista pelos fatores civilizatórios e econômicos já
abordados, e seu crescimento foi detectado na documentação à época. Mas
juntamente com essa situação, as tentativas de os índios escaparem dessas
coerções apareciam, reinventavam-se e conviviam insistentemente com as
tentativas de ordenar essa população nativa.
Encontramos outros registros de problemas de índios com proprietários, para
quem provavelmente trabalhavam de aluguel, no livro do secretário do governo. No
mês de julho de 1816, alguns ofícios foram enviados a autoridades locais, com o
intuito de organizar e recolher à sede da Secretaria os requerimentos a eles
remetidos em anos anteriores, quando exerciam outros cargos em vilas diferentes.
Entre a lista de requerimentos pertencentes ao então diretor de Mecejana, estava o
de Luduvina Beserra, datado de janeiro de 1815, que tratava de um pedido de prisão
do índio Felisardo das Neves.13 Apesar de não deixar claro o motivo, é possível
imaginar que a razão dessa contenda esteja relacionada a algum tipo de
insubordinação do indígena em seus serviços com a requerente. Já no ofício
encaminhado ao sargento-mor José Agostinho Pinheiro – o mesmo que comandou a
tropa de índios que lutou nas fronteiras em 1817 – nos deparamos com a petição de
Maria Francisca da Conceição. Nesta solicitação, de março de 1814, quando
Pinheiro “interinamte Servia de Diror de Mecejana”, era-lhe solicitado “pa fazer
recrutar hum Indio que tinha fugido da Casa do Suppe [suplente]”.14 Observemos o
grau de interesse que tinham as proprietárias em resolver estes problemas com
seus empregados índios – mobilizando inclusive uma captura quando preciso –
revelando o quão fundamental era esse tipo de mão de obra para tal sociedade.

11
Outubro 1. Registro de hum Officio dirigido ao Comd e Intº das Ordas do Aquiraz para prender hum
Indio. In: Livro 15, p. 163.
12 or
Outubro 5. Registo de hum Officio dirigido ao Dir de Arronches Ordenando-lhe huma prisão. In:
Ibid., p. 166.
13
Julho 24. Officio ao Diror de Mecejana Sobre o mesmo objecto. In: Livro 95, n.p.
14
24. Offo Sargmor Joze Agosto Pinheiro Sobre huns requeremtos q’ se achão em Seu poder. In: Ibid.,
n.p.
189

Para livrar-se dessa situação de coerção ao trabalho em propriedades


particulares, muitos indígenas procuraram sair de forma legal de suas vilas,
adquirindo terras para plantio em outros lugares e se alistando em companhias de
ordenanças de brancos, como veremos mais a frente 15. Dessa maneira, muitos
conseguiram não mais ser obrigados a prestar serviços aos moradores de suas
regiões. Entretanto, temos registro de um caso incomum, ocorrido com o índio
Gonsalo Ferreira Asevedo: se geralmente a fuga – ou mesmo a saída legalizada –
se dava de dentro para fora das vilas de índio, com ele aconteceu o contrário. Em
abril de 1813, Sampaio ordenou sua prisão na própria Vila de Arronches, “d’onde
anda diserso á onze para doze annos”, já que ele mesmo se dizia “alistado na
Companhia de Ordenansas de homens brancos” de Fortaleza.16 Ou seja,
provavelmente, em algum momento, Gonsalo requereu sua saída de seu lugar de
origem, e foi tentar uma vida melhor junto à companhia de brancos da capital.
Porém, por algum motivo, mudou de ideia, e, de maneira insubordinada, resolveu
fugir e voltar à sua terra natal junto com os seus.
As fugas também aconteceram em conjunto, sendo praticadas por mais de
um indígena. Por elas, podemos perceber que, em determinados momentos, o
desejo de muitos nativos de se retirar daquele mundo – do qual era impossível negá-
lo ou enfrentá-lo abertamente – permitia a possibilidade de colaboração entre essas
pessoas, mesmo que fossem apenas duas. No início do governo de Sampaio, em
fevereiro de 1813, uma índia ajudou na fuga do índio André Ferreira. Encontramos
referência a esse caso em um ofício encaminhado ao comandante de Cascavel, de
quem o governador reclama de ainda não ter remetido presa a dita criminosa à
capital.17 No mesmo dia, outro ofício foi dirigido ao comandante de Cherabicu (que
teria capturado a índia), dizendo-lhe que o dito André Ferreira já estaria “carregado
de ferros na Cadeia”, juntamente com outros dois índios que também eram
acusados de tentar fugir. Por fim, disse ainda que escreveu ao capitão-mor
Anastácio Lopes Ferreira, “para que me dê a razão por que me não tem remettido
presa a India que lhe cortou as Cordas e que vme lhe remetteo presa”.18

15
Vide tópico 5.3, p. 208.
16
Abril 26. Registo de hum Officio dirigido ao Cap mor das Ordenanças desta Va ordenando lhe hua
prisão. In: Livro 17.
17
Fevereiro 16. Registo de hum Officio dirigido ao Comde de Cascavel accusando a recepção de hum
Officio e Sobre humas prisoes. In: Livro 16, p. 150.
18
Fevereiro 16. Registo de hum Officio dirigido ao Commad e de Cherabicu accusando a recepção de
huns Officios, e Sobre huas prisoes que elle fes. In: Id. ibid.
190

No mês seguinte, Sampaio tornou a escrever ao comandante de Cascavel,


tratando de alguns índios dispersos que foram enviados desta vila à prisão da
capital. Entre eles estava Francisca, que supostamente seria aquela que colaborou
na soltura do índio fugitivo. Porém, de acordo com o governador, esta índia “era de
menor idade e [...] por tanto não pode ser a que [...] soltou o preso André Ferreira.
He pois necessario que vmce passe a saber com toda a Certeza quem cometteo este
delito”.19 Dessa forma, o caso que parecia já estar resolvido encontrou-se sem
solução, e a índia “criminosa”, que ajudou André a fugir, tinha ela própria sumido do
monitoramento do governo. Não pudemos encontrar nos registros documentais o
seu verdadeiro nome, mas justamente por isso, e por ter “desaparecido” das fontes,
imaginamos que, pelo menos neste momento, uma burla ao sistema se deu de
forma bem-sucedida.
Outra fuga que parece não ter tido solução foi o caso do sumiço do índio João
da Roxa, da Vila de Monte-Mor Velho, em novembro de 1815. De acordo com
Sampaio, escrevendo ao diretor de Mecejana, o índio fora recrutado e alistado nas
companhias de ordenanças pelo diretor daquela vila. Certa vez, tendo sido

[...] mandado com certa quantia de dinheiro a entregar a Manoel


Nunes Ferreira não só não deo conta do dinheiro mas d’ali desertara.
He por tanto necessário que vm e me diga o que Souber e tiver
praticado a respeito do dito Indio João da Roxa.20

Assim como os casos de que tratamos anteriormente, João da Roxa tentou


fugir do olhar disciplinar do comando militar de sua vila. Mesmo não sabendo o
desfecho desta pequena história de indisciplina, foi possível compreender algo a
mais em relação às outras fugas que apresentamos; ou seja, o indígena não só fugiu
como também se apoderou do bem pelo qual ficou responsável. O exemplo de João
nos ajuda a compreender que, ao contrário do que tradicionalmente se dizia, aquela
população não foi passiva diante da política, da repressão e do controle. Além disso,
ele não somente escapou, mas levou consigo algo que, pelo menos
tradicionalmente, não fazia parte da cultura de seu povo: o dinheiro. Juntamente
com a resistência, percebemos que a apropriação dos elementos do mundo
“civilizado”, com fins bem diferentes daqueles pensados pelos brancos, era

19
Março 12. Registo de hum Officio dirigido ao Commd e do Cascavel participando-lhe ter entregado
ao Director os Indios dispersos q’ lhes tem recrutado. In: Livro 16, p. 175V.
20
Novembro 20. Officio ao Director de Mecejana Sobre differentes objectos. In: Livro 20, p. 90V.
191

constante no cotidiano daqueles nativos inseridos no “novo mundo”. Fugindo e


roubando dinheiro, observamos que João da Rocha usou algo próprio do sistema
onde era obrigado a habitar para a ele resistir, e assim reinventar outra forma para
viver.

5.1.2 Inventando a vida num novo mundo

Para além do enfrentamento aberto ao sistema, percebemos que a vivência


cotidiana dos índios naqueles espaços projetados para discipliná-los era também
composta de diversas maneiras de negociações, manipulações ou silenciamentos.
Uma vez inseridos naquele mundo, que se tornava cada vez mais limitado, era
preciso jogar com as regras do sistema, e por meio delas, conseguir melhores
condições de vida. E se dentro das vilas a situação parecia insustentável – seja pela
precariedade física, seja pela necessidade de exercer serviços a particulares – a
solução muitas vezes era encontrar algum meio para ir embora. Além dos relatos já
citados de Silva Paulet, pudemos concluir, pelas fontes estudadas, que os antigos
lugares de índio adquiriram um formato cada vez mais semelhante a um misto de
escola, fábrica, quartel e prisão. Como bem observou Koster, a “vida não é passada
certamente de maneira agradável sob o olhar de um diretor e tratado
imperiosamente”. Logo, segundo o autor, não seria “surpresa, logicamente, que
esteja em sua vontade [do índio] abandonar as aldeias, tornar-se livre”.21 Por esse
anseio de liberdade, muitos nativos optaram por se mudar para outros espaços e
fazerem parte de companhias de ordenanças de brancos, deixando para trás seus
lugares e povos ancestrais em busca de uma vida mais estável.
Mas ao contrário do que disse o viajante, para quem os índios, uma vez
fugindo do “férreo domínio do diretor, jamais se fixam num lugar”, 22 muitos índios, a
partir de um processo que teria se iniciado desde a criação do Diretório dos Índios,
passaram a se estabelecer em terras próprias fora de suas vilas (como veremos
mais adiante). Durante o governo Sampaio, devido o rigor de seus planos de
controle populacional, muitos passaram a produzir requerimentos para conseguir
passaportes. Com a doação dessa autorização por parte do governo, eles se
integraram junto às ordenanças de homens brancos e, enfim, regularizaram a

21
KOSTER, 2003, p. 177.
22
Id. ibid.
192

condição de ilícito. Para que a doação do passaporte fosse autorizada, era preciso
que se constasse que o requerente era assíduo na agricultura e estivesse de acordo
com a moral e os bons costumes da civilização.
Um exemplo significativo deste tipo de ação, cuja trajetória conhecemos
melhor, talvez seja o caso do índio Duarte Jose Gonçalves, pescador e morador da
praia do Riacho, em Aquiraz. Foi preso em outubro de 1812, por suspeita de
dispersão e vadiagem através de um mandado dirigido ao Diretor de Mecejana.23
Como sabemos, a busca por índios que vivessem fora de sua vila de origem era
intensa, para que se pudesse de maneira mais efetiva monitorar o cotidiano dessas
pessoas e obrigá-las ao trabalho produtivo. Porém, já observamos também as
exceções que poderiam acontecer, e vendo que o dito índio não era vadio e se
ocupava de seu ofício, o governador autorizou sua soltura no dia 16 do mês
seguinte,24 e expediu esta ordem no dia posterior:

Tendo o Indio Duarte Jose Glz mostrado perante mim que não he
vadio antes se ocupa inteiramente na cultura do seu rossado vivendo
em boa Pás e armonia com os seus visinhos deve vm ce passar-lhe
Passaporte para poder continuar a empregar-se nos dos seus
Rossados juntamente com a sua família por espaço de hum anno
findo o qual deverá ir tirar outro simelhante Passaporte que vm ce lhe
continuará a passar todos os annos [...] Logo porem que elle esteja
sem Passaporte isso deve vmce participar para eu o castigar.25

Vemos aqui novamente os principais objetivos do governo: desenvolver a


agricultura e controlar a população. O índio, estando em dia com suas obrigações de
trabalhador e em boa convivência com sua comunidade, recebe autorização de
Sampaio para permanecer com seus serviços. Apesar disso, o governador exigiu
que ele estivesse em dia com sua documentação, sob pena de ser castigado,
mostrando que crescimento econômico e vigilância não podiam estar separados.
Sabendo que esse era o caminho para uma vida mais estável, Duarte Gonçalves,
assim como muitos outros, decidiu sucumbir dos hábitos da vida ocidental, tão caros
para a cultura “civilizada” – como a assiduidade no trabalho – afastando-se de certa
forma de seus costumes e ambiente tradicionais.

23
Outubro 1. Registro de hum Officio dirigido ao Comd e Intº das Ordas do Aquiraz para prender hum
Indio. In: Livro 15, p. 163.
24
Desembro 12. Registo de hum Officio dirigido ao Cap mor Comde das Ordas do Aquiras Ordenando-
lhe varias [ilegível] e acusando a recepção de huns Officios. In: Livro 16, p. 67.
25
Novembro 17. Registro de hum Officio dirigido ao Dir or de Mecejana pa dar Passaporte a hum Indio
que não he vadio. Ibid., p. 38.
193

Dois anos depois, em outubro de 1815, dois ofícios foram expedidos pelo
Governador tratando do índio pescador. O primeiro, enviado ao capitão-mor do
Aquiraz, comunica-o do alistamento na companhia de ordenanças da dita vila de
Duarte Jose Gonçalves, e da concessão de baixa da companhia dos índios de
Mecejana.26 Já o segundo ofício, dirigido ao diretor de Mecejana, informou o motivo
de sua decisão e como deveria proceder:

[...] Duarte Jose Glz se emprega assidua e constantemente na


agricultura e na Pescaria na Praia do Riacho termo da Villa do
Aquiraz. Ordeno a vm e que de hoje em diante considere
desmembrado da Corporação dos Indios dessa Villa o d o Duarte
Jose Glz e sua familia [...] para poderem livremente residirem no
termo da Va do Aquiraz onde ficarão Sujeitos ao Serviço das
Ordenanças dos homens brancos.27

E assim, o índio pescador legalizou o afastamento de seu lugar de origem,


sendo assíduo em seu trabalho e, agora, fazendo parte de uma companhia militar de
brancos. Ele, e muitos outros, escolheram se distanciar de suas comunidades, e
tendo em vista que casos desse tipo não foram raros (como veremos mais a diante),
percebemos que o catalisador para tais decisões era a procura de melhores
condições de vida. Absorvendo com dificuldade as práticas da cultura ocidental –
que era o caso de seu trabalho ordenado e produtivo, de pescador e agricultor, em
uma propriedade própria – Duarte Gonçalves não só evitou sua permanência na
prisão – onde passou cerca de um mês – mas também concluiu seu processo de
mudança – de uma vila indígena para uma de brancos – que provavelmente já teria
se principiado havia mais tempo. Por iniciativa própria, o índio foi em busca de outro
lugar onde pudesse trabalhar, e, dessa forma, ficar longe daquele espaço que um
dia pertenceu a seus antepassados, e que, neste momento, não mais era seu.
Mas as formas que muitos índios aprenderam a lidar com o trabalho não
funcionaram como estímulo para saírem de suas vilas. Mesmo quando isto
acontecia, não era sinal de uma rendição “natural” a “superioridade” da dominação
colonial, mas maneiras que os próprios índios encontravam para sobreviver de
forma mais estável. Porém, outros exemplos revelam de forma mais clara que,
muitas vezes, as relações que os nativos mantinham com o trabalho não ocorriam

26
Outubro 23. Offo ao Capmor do Aquiraz para assentar praça a hum Indio a quem se desalistou das
Ordas Indias. In: Livro 20, p. 83.
27
Outubro 23. Officio ao Diror de Mecejana pa entregar ao Capmor Supra o Indio Duarte pa assentar
Praça nas Ordas do Aquiraz. In: Id. ibid.
194

apenas pacificamente. Ao contrário, os serviços, as remunerações e a dependência


que os proprietários tinham de sua mão de obra se constituíam como elementos a
serem utilizados pelos índios em busca de seus interesses. Por mais que fizessem
parte do mundo branco, constituíam o novo universo de onde os indígenas faziam
parte, e, se não poderiam negá-los, era possível apropriá-los, e com eles reinventar
seus cotidianos (como aconteceu com o dinheiro roubado pelo índio João da
Rocha).
Um interessante exemplo das formas pelas quais os índios manipulavam as
condições que lhes eram impostas pode ser visto em um mandado de prisão
expedido ao diretor de Arronches em setembro de 1812, por conta de um índio que
se encontrava trabalhando de forma irregular para um proprietário:

Vmce mandará prender á minha Ordem o Indio Felipe, filho de Felipe


Nogueira que se acha no Socó em Caza de Jose Tavarez da Luz
alugado por seu Pai sem Ordem ou Despacho deste Governo, e
mesmo sem concenço de vm e como seu diretor.28

Aqui percebemos que não há propriamente uma negação da cultura ocidental


que era imposta aos povos indígenas. Muito pelo contrário, o índio Felipe e seu pai
estavam envolvidos em uma forma de trabalho prevista nas leis e que era cada vez
mais incentivada neste período. Porém, isso é feito sem o consentimento do
governo, cuja preocupação em monitorar as ações da população era prioridade,
ainda mais com a grande recorrência de formação de grupos armados que se
formavam em propriedades particulares. Tentando alterar a própria lógica deste
sistema, Felipe Nogueira não somente inseriu seu filho neste mundo do trabalho
como também foi ele próprio o intermediário. Logo, criou para si o direito de
empregar um parente e apropriar-se do lucro que isto gerava. Sem negar a condição
de incentivo ao trabalho nem a obrigatoriedade dos índios de prestarem serviço por
salário em propriedades particulares, o pai se aproveitou da situação, modificando o
objetivo original dessas práticas e recebendo ele próprio o dinheiro por meio do filho.
Aqui encontramos um exemplo de como estes povos, impossibilitados de resistir a
este universo que se consolidava na colônia, inseriam-se ali de forma que pudessem
tirar o máximo de proveito de seus elementos. Uma vez transformados, não sendo

28
Septembro 25. Registro de hum Officio dirigido ao Director d’Arronches Ordenando-lhe huma
prisão. In: Livro 15, p. 153.
195

os nativos que residiam em períodos anteriores, reconfiguraram os sentidos, as


práticas e os lugares sociais que passaram a ocupar.
Apesar do acirramento das políticas de controle, os índios não agiram
unilateralmente submissos. Mesmo em momentos nos quais pareciam render-se às
práticas governamentais, estavam muitas vezes buscando espaços próprios para
conseguirem alcançar seus interesses. Os indígenas adequavam ao seu modo a
ordem dominante, mesmo sem sair dela. E assim como fez o índio Felipe Nogueira
supramencionado, faziam das “leis que lhes eram impostas outra coisa que não
aquela que o conquistador julgava obter por elas”.29 Da fuga ao roubo, da saída da
vila à apropriação ilegal do lucro do trabalho, da resistência à inserção no mundo
colonial, percebemos que foram inúmeras as maneiras pelas quais os índios
reinventaram seus cotidianos neste novo não-lugar que se formava no Ceará. Se
esta seara já não mais era indígena, os povos nativos aprenderam a lidar com uma
geografia que não mais lhes pertencia, criando de forma inventiva situações que
fossem favoráveis.

5.2 O “entusiasmo” dos índios

Em carta enviada a Antônio Felipe Camarão no século XVII, o também índio


Pedro Poti proclamava claramente, referindo-se às lideranças portuguesas:
“Continuo a assegurar que permanecerei um soldado leal aos meus chefes até a
morte”!30 Um legítimo representante de um povo nativo da América, declarando
indubitável fidelidade não somente à Coroa de Portugal, mas da mesma forma ao
projeto do colonizador. Tal demonstração de lealdade aos líderes europeus pode
gerar pelo menos duas reações imediatas aos olhares mais descuidados:
primeiramente a confirmação daquelas teorias que insistem em delegar aos “mais
fracos”, aos “anônimos” (em especial os índios), a figura de folha em branco passível
de absorver qualquer coisa que lhes é imposta. Lembra a ilusão de Américo
Vespúcio diante da América Índia, descrita por Certeau, que acreditava poder
escrever no seu corpo e traçar sua própria história: “Isto será a América ‘Latina’”,31
ou a visão de Freud em relação à multidão “ordinária”, “cujo destino comum consiste

29
CERTEAU, 2008. p. 39.
30
Carta de Pedro Poti a Antônio Felipe Camarão, apud. LOPES, Fátima Martins. Índios, colonos e
missionários na colonização da Capitania do Rio Grande do Norte. Mossoró: Fundação Vingt-um
Rosado, Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, 2003. p. 81.
31
CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. p. 9.
196

em ser ludibriada, frustrada, forçada ao trabalho cansativo, submetida, portanto, à lei


da mentira e ao tormento da morte”. 32 Em segundo lugar, o enunciado do índio traria
no mínimo confusão àqueles que pensam a condição indígena no período colonial
apenas do ponto de vista da repressão ou da violência, seja por parte da coerção
colonizadora, seja pela resistência nativa.
A ênfase no “entusiasmo” dos índios do Ceará, que participaram dos conflitos
em Pernambuco em 1817, relatada pelo governo da Capitania – e que ocorreu num
período bem posterior ao de Pedro Poti – poderia trazer esses mesmos tipos de
reações supracitados. Na documentação analisada referente às tropas
antirrevolucionárias que partiram do território cearense, não encontramos qualquer
registro de resistência ao recrutamento por parte dos índios. Não existem
reclamações relativas à dispersão, má conduta, preguiça ou algazarra; tampouco é
relatado conflito algum envolvendo os indígenas, seja com o seu comandante seja
com homens de outras tropas que o acompanharam. Mais do que isso, não há
relatos de que foi recomendado aos líderes da tropa ação coercitiva ou violenta,
tanto no momento do recrutamento quanto na condução dos índios às fronteiras. As
desordens causadas por índios, relatadas por Tollenare, foram na verdade
ocasionadas por tropas irregulares; ou seja, recrutadas ao longo do caminho de
Alagoas até o Recife.33
Tal cenário é bem diferente do que observamos em outros trabalhos relativos
ao recrutamento de indígenas ou à participação destes em conflitos, na primeira
metade dos oitocentos em outros lugares do Brasil. Segundo Vânia Maria Lousada
Moreira, o “caráter forçado do recrutamento e do serviço militar era evidente” no
Espírito Santo do século XIX, onde havia “toda sorte de violências e coerções nos
processos de recrutamento” dos nativos.34 Na chamada região do rio da Prata, Elisa
Frühauf Garcia nos fala dos efeitos devastadores das guerras de independência,
acarretando possivelmente “a inclusão dos índios, algumas vezes

32
CERTEAU, 2008, p. 61.
33
“Mandam voltar aos seus lugares os índios e os recrutas apanhados pelo caminho de Alagoas até
aqui. Estas tropas irregulares haviam cometido desordens nos engenhos”. Cf. TOLENARE, Louis
François de. Notas Dominicais. Recife: Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e
Cultura do Estado de Pernambuco, 1978. p. 180.
34
MOREIRA, Vânia Maria Lousada. Guerra e paz no Espírito Santo: caboclismo, vadiagem e
recrutamento militar das populações indígenas provinciais (1822 – 1875). In: XXIII Simpósio
Nacional de História. Simpósio: Guerras e Alianças na História dos Índios: perspectivas
interdisciplinares. 2005, p. 1.
197

compulsoriamente, nas forças de combate”.35 Na região amazônica, nos anos


seguintes à Revolução Cabana, Denise Simões Rodrigues reproduz o pensamento
da elite política da região: “sem o uso da força, não haveria como obter a tão
necessária força de trabalho”. 36
Toda a documentação estudada mostra uma situação bem diferente do que
pudemos ver acima. Tal conjuntura é facilmente identificável quando analisamos
certos ofícios do governador Manoel Ignácio de Sampaio que relataram acerca do
sargento-mor José Agostinho Pinheiro, comandante das tropas, que aparentemente
mantinha uma “ótima relação” com os indígenas seus dirigidos, “de quem hé por
extremo amado e respeitado”.37 Em outros documentos dirigidos ao coronel
Alexandre Leite, Sampaio foi claro ao dizer que “Pinheiro, e os Indios vão com hum
animo extraordinário”,38 ou quando relatou acerca do “enthusiasmo com que vão os
Indios do Pinheiro”39 em direção aos inimigos do rei de Portugal. A análise dessa
documentação nos levou a confrontar tais relatos de uma aparente relação de amor,
respeito, ânimo e entusiasmo com certos estudos que abordam questões relativas
ao período Sampaio de maneira contrária. É o caso da obra de Francisco José
Pinheiro, na qual, segundo o autor, a violência seria um dos elementos marcantes
da subordinação da população pobre-livre do Ceará, onde o recrutamento seria um
dos mecanismos mais utilizados.40
Partindo do que foi exposto anteriormente, eis o nosso objetivo: compreender
os significados desse suposto “ânimo” presente na tropa de índios do Ceará
liderados pelo capitão-mor José Agostinho Pinheiro, seguindo basicamente duas
linhas de análise: o “entusiasmo” como estratégia discursiva do poder real na busca
da imposição de seu “regime de verdade”; e as táticas desses índios que, mesmo
35
GARCIA, Elisa Frühauf. Dimensões da igualdade: os significados da condição indígena no
processo de independência no rio da Prata. In: XIX Encontro Regional de História (ANPUH-SP).
Seminário Temático 33: Repensando a resistência indígena: História e Historiografia. 2008, p. 1.
36
RODRIGUES, Denise Simões. A servidão pelo trabalho: “pacificando” rebeldes na Amazônia do
século XIX. In: BARREIRA, César (Org.). Poder e disciplina: diálogos com Hannah Arendt e Michel
Foucault. Fortaleza: UFC, 2000. p. 155.
37
Registro de hú officio do Ill.mº Ex.mº Sen’r Gov.or dirigido a esta Camara acompanhado de huma
parte condesendente ao mesmo officio que tudo He do theor seguinte. Câmaras municipais:
Fortaleza, Caixa 37, Livro s/nº (1813-1818), n.p. Registro de ofício datado de 28/05/1817.
38
Maio 24. Officio ao mesmo Coronel Leite, confirmando o conteúdo do off° de 23, de que vai 2ª Via,
insinuando-lhe que vá restaurar as Villas de Portalegre, de Souza, e do Pombal, e depois marchar em
direitura no Recife. In: Livro 24, p. 9.
39
Maio 31. Officio ao mesmo Coronel leite participando a chegada dos presos do Crato á esta
Capital, e ordenando-lhe que vá atacar o Rio do Peixe, e Pombal, e seguir para o Recife dê pª onde
der. In: Ibid., p. 13.
40
PINHEIRO, Francisco José. Notas sobre a formação social do Ceará: 1680-1820. Fortaleza:
Fundação Ana Lima, 2008. p. 343.
198

não tendo domínio da situação, buscaram reger suas ações de acordo com seus
próprios interesses, não apenas ligando-as às determinações coloniais. Seguindo o
pensamento de Certeau, a tática, mesmo só tendo por lugar o outro, “aí se insinua,
fragmentariamente”, transformando os acontecimentos em ocasiões,41 ou guerras
em oportunidades de obter benefícios, como foi o caso da participação indígena na
Revolução de 1817. Embora já não mais fazendo parte das antigas comunidades
tribais, mas inseridos no contexto da sociedade colonial, era justamente aí que o
“índio forjava espaços de sobrevivência no interior de sua nova realidade social”,42 e
tal enunciado foi latente nas vivências de índios que lutaram em conflitos a favor da
Coroa portuguesa, como nos mostra Maria Regina de Almeida:

Defender fronteiras do reino luso podia significar para os índios


aldeados ato heróico perante as autoridades coloniais e digno de ser
ressaltado, pois, sem dúvida, lhes garantia maiores vantagens do
que [por exemplo] o tão caro e tradicional ritual antropofágico.43

Por mais que estivessem sujeitos a um sistema de dominação, que visava à


fabricação de vassalos fiéis e produtivos, através da destruição de seus modos
tradicionais de vida, os nativos encontravam maneiras de sobreviver, mesmo que
muitas vezes silenciosamente.

5.2.1. Estratégias discursivas do poder

É bastante simplista a afirmação de que a legislação indigenista do século


XIX se resumia à “lei do mais forte, a lei do lobo sobre o cordeiro”, em que “o lobo da
fábula se via compelido a expor suas justas razões de comer o cordeiro”, e a este
caberia somente “invocar, por sua vez, as regras violadas”.44 Entender o poder
unicamente como força repressora é totalmente inadequado, como nos mostra
Foucault;45 tão insuficiente quanto querer enxergar as ações dos mais fracos apenas
do ponto de vista da revolta e da resistência. Dessa forma, é preciso estar atento a
novas possibilidades de análise da situação político-social indígena no século XIX.
41
CERTEAU, 2008, p. 46-47.
42
MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas Origens de São Paulo. São
Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 174.
43
ALMEIDA, Maria Celestino de. Os índios aldeados: histórias e identidades em construção. Revista
Tempo, Rio de Janeiro, v. 16, p. 67, 2001.
44
CUNHA, Maria Manuela Ligeti Carneiro da. Política indigenista no século XIX. In: CUNHA, Maria
Manuela Ligeti Carneiro da (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
p. 152.
45
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p. 7.
199

Fazia parte da estratégia de conversão tanto do Diretório Pombalino quanto


de outros conjuntos de leis o tratamento pacífico, que dizia não ser viável levar os
índios à civilidade com violência e maus-tratos. Com essa relação, era possível fazer
com que os nativos sentissem-se seguros, confiantes e obedecessem mais
facilmente às ordens, ou seja, se tornassem mais dóceis e úteis. Segundo Beatriz
Perrone-Moisés, essas formas de trato benevolentes eram recomendadas para que
os indígenas se juntassem aos aldeamentos, de modo a garantir alianças. As razões
apontadas para justificar os bons tratos seriam variadas:

[...] indo desde os mais básicos princípios de direito até uma alegada
inconstância dos índios, que pode levá-los a retornar aos matos e à
“gentilidade”, se forem maltratados. [...] A partir do século XVIII, além
da civilização dos índios serão invocados os interesses econômicos
da colônia sempre que se trata de recomendar brandura no
tratamento com os índios [...].46

Com maus-tratos, os índios não se motivariam a participar da vida “civilizada”,


trazida pelos europeus, e se revoltariam, provocando, entre outros problemas, um
grande entrave econômico causado pela fuga de vilas e aldeias, pela recusa ao
trabalho e pela consequente estagnação da produção. Em uma capitania como o
Ceará, com grande porcentagem de população indígena, o desfalque desta mão de
obra impossibilitaria sua inserção no mundo capitalista; mão de obra esta que era
requisitada não apenas para a produção agrícola, mas também como força militar.
Por sua vez, o Exército tinha papel fundamental, nesse processo imposto pela
sociedade disciplinar, de transformar o simples cidadão em indivíduo útil e
obediente,47 ou o índio em súdito fiel. Lembrando as palavras de Marcus Carvalho, a
“militarização da população aldeada vinha de longe no tempo, avançando
paralelamente ao esforço de colonização que buscava integrar o índio a sociedade
como mão de obra barata”.48 Tal política foi particularmente importante durante os
conflitos em 1817, tendo sido fortemente impulsionada de modo perceptível pelo
governo Sampaio. Assim como afirma Carlos Guilherme Mota, acerca das reações
da Coroa “de natureza militar” e “estreitamente recolonizadoras” aos “antagonismos

46
PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista
do Período Colonial (século XVI a XVIII). In: CUNHA, Maria Manuela Ligeti Carneiro da. História dos
Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 122.
47
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: Nascimento da Prisão. Petrópolis: Vozes, 2007.
48
CARVALHO, Marcus J. M. de. Os índios e o Ciclo das Insurreições Liberais em Pernambuco (1817-
1848): ideologias e resistências. In: ALMEIDA, Luiz Sávio de. GALINDO, Marcos. Índios do
Nordeste: Temas e Problemas – III. Maceió: EDUFAL, 2002. p. 71.
200

emergentes no processo de descolonização”,49 é preciso levar em conta o


importante “papel desempenhado pelos ‘caboclos’” nas atividades produtivas da
região, e da necessidade de as partes envolvidas no conflito “reduzir” essas
camadas de homens pobres, das quais faziam parte os grupos indígenas:50

[...] não será sem importância ressaltar que a contrarrevolução


frequentemente soube engrenar o elemento indígena em suas
articulações. [...] pode-se indicar as significativas tentativas dos
zeladores do regime no esforço de canalizar para a restauração os
índios até então marginalizados.51

“Absolutismo de direito divino [...] e um refôrço no plano militar” seriam “os


ingredientes básicos da reorganização do sistema” 52 e estratégia principal de
“integração dessa população por assim dizer marginalizada” que não foram de forma
alguma “sem importância, na perspectiva da contrarrevolução”.53 Inserido nesta
estratégia militar, podemos observar na documentação analisada também o discurso
como incentivador ao patriotismo e enaltecedor daqueles que defendiam as causas
reais. Com base em um trecho presente em ofício do governador Sampaio, dirigido
ao sargento-mor Pinheiro, comandante das tropas indígenas do Ceará, observamos
como as práticas militares poderiam ser, ao mesmo tempo, além de propagadoras
da disciplina, promovedoras da fidelidade ao Rei:

A hum official como vm.e cuja actividade e cujos sentimentos de


puríssima honra, e fidelidade me são perfeitamente conhecidos nada
tenho a recomendar se não continue a fazer dezenvolver nos seus
súbditos sentimentos iguaes aos seus afim de que todos se facão
dignos do honroso nome de vassalos do milhor dos Soberanos o Sr.
D. João 6º.54

Fato semelhante ocorreu em Pernambuco no período da Guerra do Paraguai,


com o recrutamento de índios da Aldeia de Cimbres (atualmente os xukurus do
Ororubá) estudado por Edson Silva, onde os antes “considerados indolentes e

49
MOTA, Carlos Guilherme. Nordeste 1817: Estruturas e Argumentos. São Paulo: Perspectiva /
Editora da Universidade de São Paulo, 1972. p. 98.
50
Ibid., p. 69.
51
Ibid., p. 182.
52
Ibid., p. 173.
53
Ibid., p. 174.
54
Maio 23. Off° ao Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro Dir.or de Soure e Arronches pª ter promptos no
dia 26 do Corre.te 200 Indios das suas Directorias pª se ajuntarem aqui com 100 Indios de Arr. es, e
marchar com elles pª as Fronteiras desta Capª.” In: Livro 21, p. 136V.
201

perturbadores da ordem pública” foram transformados pela imprensa pernambucana


em

“bravos de Urubá”, aclamados antecipadamente como heróis da


Pátria [...] considerados da mesma linhagem dos participantes da
rememorada Restauração Pernambucana, na qual os índios,
liderados por Felipe Camarão, combateram nas guerras para a
expulsão os holandeses.55

As mesmas lembranças em relação aos combatentes em terras


pernambucanas, no século XVII, também estão presentes na documentação
produzida pelo governador do Ceará em 1817. Dirigindo-se aos índios de sua
capitania, lembrava-os de que nas suas veias ainda corria “o Sangue dos Augudões
dos Camarões dos Pinheiros dos Tavares e dos Capelins e de outros m. tos heroes
que se distinguirão [...] na primeira restauração de Pernambuco”.56 Podemos ver,
nesse documento, a “importância da situação presente para a reconstrução de um
passado histórico compatível com as necessidades e as expectativas dos povos”, 57
semelhante ao que aconteceu com os índios coloniais do Rio de Janeiro, estudados
por Maria Regina Celestino de Almeida; mas aqui, a lembrança de um passado
glorioso não foi feita na documentação pelos índios, mas sim pelo próprio Manuel
Ignácio de Sampaio. Revela-se então a importância do discurso, bem como a de sua
posse, e como ele

[...] não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é,


também, aquilo que é o objeto do desejo; e visto que - isto a história
não cessa de nos ensinar - o discurso não é simplesmente aquilo
que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por
que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.58

O discurso político do governador visava verdadeiramente moldar nas


comunidades indígenas um regime de verdade, voltado para a fidelidade ao rei e à
Coroa portuguesa. Segundo Michel Foucault, por mais que “o discurso seja
aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo,

55
SILVA, Edson Hely. Xucuru: memórias e história dos índios da Serra do Ororubá (Pesqueira/PE),
1959-1988. Tese (Doutorado) ‒ UNICAMP, 2008. p. 89.
56
Maio 26. Proclamação aos Indios do Ceara q.do partiraõ para o attaque das Capit.as Sublevadas.
In: Livro 28, p. 45V.
57
ALMEIDA, 2001, p. 67.
58
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em
2 de dezembro de 1970. São Paulo: Loyola, 1996. p. 5.
202

rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder”.59 As práticas discursivas são
tão valiosas, justamente pelo poder que tem de instaurar nos homens e nas
sociedades um novo sistema ou uma nova verdade. O que Sampaio quis, e que foi
questão central em todo seu governo, foi tirar o Ceará do estigma de lugar atrasado;
e, para que isso fosse possível, tornou-se fundamental transformar aqueles índios
“bárbaros”, e afastados da civilização, em súditos fiéis dignos da “glória” de
pertencerem ao reino de Portugal, e uma das ferramentas utilizadas foi o poder do
discurso. Mas para que esse poder pudesse ser plenamente estabelecido e
obedecido, deveria funcionar não apenas como uma máquina de repressão, mas
também como uma força reprodutora desse mesmo discurso (no caso, voltado ao
patriotismo). Sobre o poder como exercício puro de repressão, Foucault nos advertiu
que deveríamos considerá-lo muito mais como uma rede produtiva que atravessa
todo corpo social do que uma instância negativa que tem por função reprimir:

Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a


não ser dizer não você acredita que seria obedecido? O que faz com
que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele
não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele
permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz
discurso.60

Logo, voltamos à questão da discussão historiográfica relativa ao início do


século. Diferente da forma como apontou boa parte dos autores que estudaram a
política indigenista desse período, não podemos agir de forma generalista, deixando
de lado uma série de elementos muito mais relacionados à construção do que à
repressão, como, por exemplo, os bons-tratos e as palavras glorificantes dirigidas
aos índios que lutaram em Pernambuco no ano de 1817. Porém, se entendemos
que tais estratégias discursivas deste poder real postulavam “um lugar suscetível de
ser circunscrito com algo próprio e ser a base de onde podem gerir as relações com
uma exterioridade de alvo”,61 seria ingênuo pensar as comunidades indígenas como
“‘desertos’ onde parece não haver nada de tão articulado”. 62 Tão importante quanto
perceber as estratégias da elite político/militar do Ceará no trato à tropa, é também
analisar as táticas utilizadas pelos próprios índios que participaram do recrutamento

59
FOUCAULT, 1996, p. 5.
60
FOUCAULT, 2007, p. 8.
61
CERTEAU, 2008, p. 99.
62
Ibid., p. 95.
203

e dos conflitos; ou seja, compreender os motivos que levaram os nativos a se


revelarem tão “fiéis” e “entusiasmados” com as causas da Coroa.

5.2.2 “Atiravam flechas, mediante alguns vinténs”

Por meio da análise documental, nos foi possível observar diversas vantagens
que os índios provavelmente enxergaram como motivações, não somente para
participarem da guerra, mas também para se declararem fiéis súditos do rei de
Portugal. Segundo afirma Evaldo Cabral de Melo, em “1817, os índios haviam
massacrado quem quer não se dispusesse a gritar ‘Viva El Rei’”, 63 revelando que,
desde longa data, a Coroa portuguesa representou muitas vezes uma proteção e
fonte de vantagens para as populações indígenas. No caso dos índios aqui
estudados, não aconteceu diferente por uma série de fatores.
Primeiramente, o risco de serem presos caso resistissem. Não havia muita
escolha, já que se havia posto na legislação portuguesa a obrigatoriedade de os
índios das aldeias e vilas servirem como força militar para a Coroa. Tal afirmação
não significa, de forma alguma, assumir uma posição “freudiana” em relação às
ações dos índios do Ceará no momento da guerra, como tradicionalmente a
historiografia referente à Revolução de 1817 tem colocado, segundo a qual as
classes pobres sempre aparecem “manipuladas” pelas lideranças envolvidas nos
combates.64 Diferente do que colocou João Alfredo Montenegro, segundo o qual os
“costumes primitivos, um estado de barbárie” do povo da capitania eram campos
férteis para que o tradicionalismo pudesse potencializar “valores multisseculares de
fidelidade, de lealdade ao Rei”,65 é preciso lembrar de que, assim como disse
Certeau, é justamente na sociedade colonial e em seus diversos ambientes que o
índio criava para si “um espaço de jogo para maneiras de utilizar a ordem imposta
[...]. Sem sair do lugar onde tem que viver e que lhe impõe uma lei, ele aí instaura
pluralidade e criatividade”.66 Aquilo que vinha de cima, ou de todos os lados, não era
algo que fazia dos índios meras peças da manipulação real, mas antes
transformavam-se em oportunidade de vantagens para esses mesmos

63
MELLO, Evaldo Cabral de. A outra independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824.
São Paulo: 34, 2004. p. 63.
64
Como aparece constantemente em MOTA, 1972, p. 88; 144-189.
65
MONTENEGRO, João Alfredo de Sousa. O trono e o altar: as vicissitudes do tradicionalismo no
Ceará, 1817-1978. Fortaleza: BNB, 1992. p. 24.
66
CERTEAU, 2008, p. 93.
204

subordinados. Haja vista que não poderiam sair ou rejeitar esse esquema, faziam da
lealdade ao rei a sua própria sobrevivência.
Em segundo lugar, é preciso estar atento à situação de miséria na qual se
encontravam os nativos: o período era de seca e as vilas de onde foram recrutados
eram extremamente pobres. Diante de tal quadro de fome e pobreza, não é
espantoso pensar no apoio indígena às causas reais, posto que, desde muito tempo,
era ao soberano português que os índios procuravam socorro nas brigas com os
senhores de terra, pois era a própria legislação indigenista da época que os
amparava neste sentido. De acordo com Marcus Carvalho, o “Rei era a última
instância a que poderiam recorrer os camponeses contra as invasões de terra feitas
pela aristocracia agrária. Ruim com D. João VI, pior sem ele”, 67 explicando assim o
porquê do notório “fanatismo monárquico” citado por Evaldo Cabral de Mello.68
Dessa maneira, mostrando fidelidade à causa da Coroa, eles puderam ter certa
garantia de abastecimento enquanto estiveram servindo como soldados na guerra,
tanto de alimentos como de vestimentas. Além disso, por ordem do próprio
governador Sampaio, todos os habitantes do Ceará foram obrigados a prestar
auxílio aos índios, de acordo com esta portaria escrita em maio de 1817, quando
iniciaram sua marcha:

Todas as autoridades Civis, Militares, de Milicia, ou Ordenanças, e


em geral todos os habitantes desta Capitania, deverão prestar ao
Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro Commd.e do Corpo de Indios, que
marcha para as Fronteiras todo o auxilio de qualquer natureza que
seja que por elle for requerido a bem da importante Comissão de que
vai encarregado ficando-me especialmente responsável aquelle que
assim a não praticar.69

No mesmo dia, em ofício expedido ao coronel Alexandre Leite, responsável


pelas tropas das fronteiras, o mesmo governador comunica-o sobre o sustento do
corpo de índios conduzidos pelo então sargento mor José Agostinho Pinheiro: “O
mesmo Sargento-mor Pinheiro leva hum conto der. s para parte do sustento dos
mesmos Indios devendo tambem servir-se para este fim das rezes que encontrar”.70

67
CARVALHO, 2002, p. 88.
68
“A população do centro [de Pernambuco], indígena ou mestiçada, era notória pelo fanatismo
monárquico”, o qual é atribuído pelo autor ao descaso com que eram tratados pelo governo
revolucionário de Recife. Cf. MELLO, 2004, p. 63.
69
Maio 26. Portaria Geral a favor do Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro”. In: Livro 21, p. 143V.
70
Maio 26. Officio ao mesmo Coronel Leite, ratificando o conteúdo do officio de 24 e participando a
partida do Sarg.mor Pinheiro com os 300 Indios já annunciados. In: Livro 24, p. 10.
205

Tendo sua alimentação garantida, e ainda servindo-se de todo o auxílio


possível das autoridades civis e militares, bem como de todos os habitantes, é clara
a vantagem que havia não somente em participar dos combates, mas de se
portarem como soldados disciplinados e fiéis. Em um período de seca, vivendo em
vilas paupérrimas e dentro de uma conjuntura em que a política de Estado era
muitas vezes repressora e violenta, mostrar-se como um firme vassalo do rei
significava garantia de melhoria significativa na qualidade de vida desses homens,
tanto adquirindo alimentos, como outras vantagens vindas anos depois.
Como vimos no capítulo anterior, no dia 25 de fevereiro de 1819, o próprio
soberano do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves, Dom João VI, premiou por
meio de decreto todos os índios aldeados do Ceará, Pernambuco e Paraíba pela
sua participação a favor do rei nos conflitos de 1817.71
Mesmo servindo em meio a um conflito favorável a um rei que os submetia,
sob uma legislação que tinha por objetivo a diluição de sua cultura, os índios
encontraram, por esse meio, formas para continuarem existindo, seja
individualmente seja como grupo social. Edson Silva, em seu estudo sobre
envolvimento dos índios de Pernambuco e de Alagoas na Guerra do Paraguai, fala
das lembranças que os atuais indígenas da região têm das recompensas que seus
antepassados conseguiram de Dom Pedro II pela contribuição que deram às tropas
brasileiras. Participando da guerra, vários povos da região tiveram possibilidades de
garantir determinadas vantagens para suas comunidades; no caso, garantia de
posse de suas terras,72 semelhante ao que aconteceu com os índios no Ceará em
1817. Por meio de seu envolvimento nos conflitos de Pernambuco, puderam não só
conseguir diversas vantagens individuais (alimentos e dinheiro) como também
melhorias para suas comunidades, como aconteceu no caso da isenção dos
impostos supracitada.
Na opinião de Fátima Martins Lopes, as posições dos indígenas diante de
eventos como estes não fazem sentido apenas em relação às determinações
coloniais, mas assumiam uma forma de sobrevivência à conquista.73 Apreendendo
um discurso cristão e fiel à Coroa portuguesa, conseguiram obter vantagens valiosas

71
COSTA, Hipólito José da. Correio brasiliense ou Armazém literário, vol. XXIII. São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado: Brasília: Correio Brasiliense, 2002. p. 353.
72
S I L V A , Edson Hely. Os índios wassú e a guerra do Paraguai: história, Memória e Leituras
Indígenas sobre o Conflito. In. Revista Cabanos, Maceió: FUNESA, n. 1, p. 93-109, 2006.
73
LOPES, 2003, p. 82.
206

naqueles tempos difíceis. Portando-se como índios dóceis ao aldeamento, e


dispostos a servirem à causa da religião cristã e de Portugal, adquiriram garantias
de proteção e sobrevivência, mesmo privando-se de diversos elementos de suas
culturas e modos de vida ancestrais. Para Mônica Sousa, em sua pesquisa sobre os
índios na missão da Ibiapaba, as circunstâncias exigiam decisões das quais
dependia a continuidade dos nativos enquanto grupo social. Em posse do
conhecimento prévio de vários aspectos do mundo colonial (legislação e vias de
acesso a benefícios):

[...] os índios lançaram mão de táticas que tinham como pontos


fundamentais sua adesão à conversão e à fé católica, além do
reconhecimento do rei de Portugal como seu soberano, prestando-
lhe obediência e serviços, principalmente de natureza militar.74

Foi de natureza semelhante ao exposto acima o comportamento dos índios


que chegaram a Recife em junho de 1817, descrito nos relatos de Louis François de
Tollenare, francês, testemunha ocular dos embates em Pernambuco. Naquele mês,
os conflitos haviam terminado, e a “tranquilidade” já estaria “perfeitamente
estabelecida”. Segundo o autor, os “índios mostram muita dedicação pelo rei; não
querem vender as suas flechas porque, dizem, guardam-nas para sua defesa.
Mostram-nos a sua habilidade ao atirá-las, mediante alguns vinténs”.75 Aqueles
arcos e flechas seriam a garantia de seus serviços à Coroa portuguesa: eram sua
“defesa” contra a violência do Estado e a oportunidade de obterem recursos que
melhorem a qualidade de suas vidas, já que a pobreza era tanta que até buscavam
obter algum pouco dinheiro fazendo demonstrações com estes mesmos
instrumentos de guerra.
A pobreza destes povos não se constituiu fator de fácil condutibilidade dos
mesmos, algo que os tornou passíveis de serem moldados, escritos de acordo com
o querer ocidental. Em algumas passagens de sua obra Nordeste 1817, Carlos
Guilherme Mota caracteriza a grande maioria da população que esteve envolvida
nos embates como desprovida de “recursos suficientes – intelectuais e materiais –
para entender e participar de maneira consciente” dos acontecimentos,76 sendo por
isso apenas arrastada pelos eventos insurrecionais. Mas o próprio fato de ter havido

74
SOUSA, Mônica H. Mesquita de. Missão na Ibiapaba: estratégias e táticas na Colônia nos séculos
XVII e XVIII. Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2003. p. 81.
75
TOLLENARE, 1978, p. 178.
76
MOTA, 1972, p. 71.
207

populares nos dois lados do conflito contraria tal enunciado – os próprios grupos
indígenas não foram uniformes nas suas adesões 77 – revelando diferentes tomadas
de posição que não se configuraram simplesmente manipulação. Além disso, assim
como muitos desertavam pelas péssimas condições em que se encontravam as
tropas,78 vários outros se mantiveram fiéis.
Ao contrário do que diz a historiografia tradicional, tal estado de miséria
constituiu-se motivador que determinou as escolhas que os índios tomaram diante
dos fatos: no caso de o índio do Ceará ser um “entusiasmado” súdito do rei
significava sobreviver. Lembrando as palavras de Marcus Carvalho em seu estudo
sobre os índios que participaram das insurreições pernambucanas:

As ideologias trazidas pelo homem branco eram remanejadas pelos


nativos dentro de um conjunto de estratégias de sobrevivência
possíveis para as comunidades. [...] Os nativos não eram meros
peões na política local, mas agentes históricos com interesses
próprios.79

Porém, é preciso discutir sobre esse mesmo espaço de escolha que tinham
os índios. Será mesmo que aqueles homens paupérrimos, famintos em uma seca,
sem poderio bélico e vivendo em vilas arruinadas, sob um regime de vigilância e
disciplina intensa, tinham tanto poder de escolher se iriam ou não para a guerra? É
justamente aqui que entra o conceito de tática trabalhado por Certeau, que se define
por uma “ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio. [...] A
tática não tem por lugar senão o do outro”. 80 É bastante provável que as
possibilidades de decisão dos indígenas ‒ frente ao recrutamento ‒ eram pequenas,
senão únicas; deveriam compor o corpo de vassalos do soberano de Portugal. Mas,
uma vez dentro dessa configuração, dela conseguiram tirar vantagens, ou seja,
permanecerem vivos. Michel de Certeau enxergava no seio dos grupos nativos das
Américas sua capacidade de alterar o “espetacular sucesso da colonização” pelo
uso que faziam dela, usando leis, práticas e representações que lhes eram impostas
para outros fins que não os dos conquistadores. Delas faziam outras coisas:

[...] subvertiam-nas a partir de dentro – não rejeitando-as ou


transformando-as (isto acontecia também), mas por cem maneiras de

77
Como mostra o trabalho de CARVALHO, 2002.
78
As tropas de Jerônimo Coelho da Silva ameaçavam deserção por falta de pólvora, balas e
alimentos. Cf. MOTA, 1972, p. 178.
79
CARVALHO, 2002, p. 93.
80
CERTEAU, 2008, p. 100.
208

empregá-las a serviço de regras, costumes ou convicções estranhas


à colonização da qual não podiam fugir. Eles metaforizavam a ordem
dominante: faziam-na funcionar em outro registro. Permaneciam
outros, no interior do sistema que assimilavam e que os assimilava
exteriormente. Modificavam-no sem deixá-lo.81

Foi nesse sistema do mundo colonial que esses nativos passaram a ser
súditos “honrados e nobres”, e, posteriormente, “desapareceram” na visão da elite
político-econômica do Ceará. Graças ao seu silêncio (que não foi de forma alguma
constante), transformando-se em “homens ordinários” e caindo no anonimato,
sobreviveram e puderam esperar, fazendo de suas diversas táticas de sobrevivência
“procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo”.82 Índios que lutaram,
índios gloriosos, índios que “desapareceram”: sobreviveram, esperaram, e hoje
teimam em quebrar o silêncio.

5.3 Eles dizem que não são índios

Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio


do rio uma cova cheia d’água. [...] Quando o herói saiu
do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos,
água lavara o pretume dele. E ninguém mais seria
capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos
Tapanhumas.
Mário de Andrade

Como vimos nos capítulos anteriores, a Capitania do Ceará, durante todo o


século XVIII e início do XIX, estava longe de ser, ao olhar do colonizador europeu,
um lugar próximo ao que era considerado civilizado para a cultura ocidental, e
menos ainda, uma possessão do Império português onde este pudesse estabelecer
um gerenciamento efetivo sobre o território e sua população. Muitos são os relatos
de pessoas que, tendo observado hábitos de negros, índios, mestiços e inclusive
dos brancos, atestaram o que, para eles, representava o que havia de mais
“bárbaro” naqueles domínios americanos. Por conta disso, diversas foram as ações
que, desde as décadas finais dos setecentos, tentaram agir no sentido de formar
uma nova constituição social naquela região, bem como para todo o Brasil. No
âmbito da política indigenista, o Diretório foi o foco de todo um projeto imperial de
disciplinamento dos costumes e transformação dos nativos em súditos fiéis e

81
CERTEAU, 2008, p. 94-95.
82
Ibid., p. 102.
209

produtivos da Coroa lusitana; ou seja, visava a “integração destes à sociedade


colonial”.83
Durante o governo de Manuel Ignácio de Sampaio, pudemos perceber um
recrudescimento de várias ações normativas que tiveram início nos anos anteriores,
bem como a criação de outras, que tinham o objetivo de subjugar a população pobre
livre e desenvolver o Ceará em âmbitos econômicos, políticos e sociais, conforme
vimos no capítulo anterior. Aqui, pretendemos analisar uma das práticas mais
importantes dos planos indigenistas de integração daquele período: o discurso do
Estado. Partindo do princípio de que mais do que falar acerca do real, ele também o
constituía,84 as complexas práticas discursivas de Sampaio, presentes na extensa
documentação por ele produzida, estiveram fortemente envolvidas na formação e
transformação de identidades indígenas, além de possuírem peculiaridades que
saltam aos olhos do leitor atento. Indo da forte repressão aos “vadios” até a
glorificação dos defensores das causas do rei, tais fragmentos se configuram como
uma peça chave para entendermos o funcionamento desta política que proibia os
índios de praticarem modos de vida tradicionais e premiava aqueles que se
enquadravam no modelo europeu. Entendendo os discursos como “lugar de
produção social do sentido”,85 percebemos que tais práticas perpetradas por
Sampaio agiram fortemente na formação de novos sujeitos e identidades no Ceará,
ao mesmo tempo em que revelavam práticas e identidades anteriores ao contato
que eram intensamente combatidas. Nessa ordem, o discurso que buscou regular e
criar novos hábitos, e com isso transformar um nativo em um homem ocidental do
início do século XIX, foi o mesmo que assinalou a existência do contrário.
Por meio do método analítico proposto por Eliseo Verón, que trabalha com a
comparação sistemática de textos “que foram produzidos por ocasião de um
‘mesmo’ acontecimento ‘real’, mas que obedecem a condições que definem
processos de produção diferentes”, 86 dialogaremos com a documentação produzida
por Sampaio os relatos escritos pelo viajante Henry Koster,87 e pelo naturalista João

83
SILVA, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o
Diretório Pombalino. Campinas: Pontes, 2005. p. 80.
84
ARAÚJO, Inesita. A reconversão do olhar: prática discursiva e produção dos sentidos na
intervenção social. São Leopoldo: UNISINOS, 2000. p. 122.
85
Ibid., p. 128.
86
VERÓN, Eliseo. Fragmentos de um tecido. São Leopoldo: UNISINOS, 2004. p. 89.
87
KOSTER, 2003.
210

da Silva Feijó, cuja Memória sobre a Capitania do Ceará,88 escrita em 1814, talvez
tenha sido a primeira obra fruto de um trabalho científico sobre os aspectos naturais
e sociais da região.
Por outro lado, os nativos, alvos de tais práticas discursivas, não agiram de
forma passiva nem estática diante do governo que os nomeava e enquadrava em
lugares sociais e geográficos específicos. Mesmo sem poder ignorar as relações,
representações e até mesmo as identidades que lhes eram impostas, os índios as
exerciam de acordo com seus interesses e possibilidades.89 Sem ter a pretensão de
tentar enxergar naquele Ceará um lugar onde tivessem plena autonomia,
percebemos que, dentre os vários caminhos escolhidos pelos indígenas, um deles
estava relacionado com o abandono ou a desistência de costumes e comunidades
tradicionais e do autorreconhecimento nativo.
Concordamos com Stuart Hall, para quem as identidades nacionais, inclusive
as que tiveram lugar nas Américas do século XIX, eram “formadas e transformadas
no interior da representação”.90 Ou seja, o sentimento de pertencimento a uma
nação, segundo o autor, “é um discurso – um modo de construir sentidos que
influencia e organiza”, tanto as “ações quanto a concepção” que uma pessoa – ou
uma comunidade – pode ter de si mesma.91 Por isso, tais práticas representativas,
cujos efeitos não podemos desprezar, não dizem tudo acerca daquela complexa
realidade a qual se dirigem e nem têm o poder de constituí-la com pleno sucesso.
Longe de serem completamente indefesos às coerções, tais povos também
agiram como sujeitos que negociavam na produção de novos lugares e situações
sociais. Tendo em conta que os sentidos e as identidades são frutos das relações
entre produção e consumo de discursos,92 entendemos que as atitudes de suposta
aderência ao sistema também eram resultados de ações conscientes dos índios,
que muitas vezes usaram do silêncio ou da aceitação para poderem sobreviver.

88
FEIJÓ, João da Silva. Memória escrita sobre a capitania do Ceará. In. Revista do Instituto do
Ceará, Fortaleza: ano 3, p. 3-27, 1889.
89
PINTO, Milton José. Comunicação e discurso: introdução à análise de discursos. São Paulo:
Hacker, 2002. p. 44.
90
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997. p. 53.
91
Ibid., p. 55.
92
Ibid., p. 47.
211

5.3.1 Olhares da civilização: relatos de João da Silva Feijó e Henry Koster

Para executar uma análise do discurso de Sampaio, passaremos antes pelos


textos de dois viajantes que estiveram no Ceará, durante esses anos, e produziram
relatos que resultaram de suas observações sobre essa capitania e o seu povo, nos
interessando, aqui, particularmente os índios. Pela comparação e confronto de tais
escritos com a documentação do governador, utilizaremos uma metodologia também
proposta por Inesita Araújo, que trabalha com o “sentido diferencial dos discursos”,
visto que, segundo a autora, um texto se caracteriza “por aquilo que o diferencia de
outros textos ou discursos que disputam o mesmo mercado simbólico”. 93
Percebemos que, justamente por compartilharem o mesmo espaço geográfico e
simbólico, muitos elementos presentes, tanto no relato do comerciante inglês quanto
no do naturalista, são confirmados ou diretamente negados nas fontes
governamentais. Menos importante do que saber se cada um dos autores leu em
algum momento o escrito do outro,94 entendemos que tais ideias se configuravam
como práticas discursivas que circulavam no período, já que eram partes integrantes
de um mesmo “contexto sócio-histórico”95 e provocavam múltiplos efeitos nesta
sociedade da qual falavam.
Primeiramente, trataremos da Memória sobre a capitania do Ceará, escrita
por João da Silva Feijó. Nomeado sargento-mor de Milícias em 1799,96 esteve no
Ceará durante o mandato de Sampaio, tendo sido encarregado da “observação [...]
sobre o seu fizico e moral por espaço de onze anos”. 97 Fora procurado pelo
governador em questão, “afim de se conhecer se nesta Capitania ha algûa mina de
carvão, cuja extracção possa ser vantajosa”, já que, para Sampaio, “ninguem milhor
do que VMce conhece esta Capitania”.98 Já no início de sua Memória afirmou que
seu fim principal era “apontar uma sabida verdade, para suscitar uma efficaz
emulação a emprehender-se tudo quanto fôr para augmento e prosperidade desta

93
ARAÚJO, 2000, p. 138.
94
Provavelmente, Sampaio teve contato com a obra de Feijó, escrita durante o mandato deste
governador, em 1814.
95
PINTO, 2002, p. 28.
96
PINHEIRO, 2008, p. 274
97
FEIJÓ, 1898, p. 3.
98
Agosto 17. Officio dirigido ao Naturalista João da Silva Feijo p a informar se nesta Capnia ha algûa
mina de carvão. In: Livro 33, p. 88V.
212

Capitania”,99 ou seja, possibilitar um conhecimento sistemático que viabilizasse o


desenvolvimento socioeconômico do Ceará.
Para Feijó, era preciso que se incentivasse a “agricultura do paiz”, e que,
“sem hesitação”, deveria “merecer o primeiro dos cuidados políticos”, com o objetivo
de inserir o Ceará em um mercado produtivo. Segundo o naturalista, os trabalhos
agrícolas seriam a “mãe do genero humano, e a origem primaria e inesgotavel de
toda a prosperidade publica”, pelo fato de contribuir “tanto ao augmento da
população, quanto a um vantajoso activo commercio”.100 Percebemos que, para o
autor da Memória, a agricultura seria crucial para que se modernizasse tanto a
produção econômica como também a caracterização do povo, e, no caso do Ceará,
tal projeto seria facilitado pelas características naturais da região, já que seria
necessário “muito pouco conhecimento do fizico da Capitania [...] para duvidar das
immensas vantagens que ella pode produzir” para o “augmento do seu commercio e
prosperidade geral do Estado”. 101 O grande problema estaria em sua “diminuta
população”, da “maior parte de pessima qualidade”. Os índios, conforme dissemos
anteriormente, seriam a maior força de trabalho em potencial; eram para Feijó “em
extrema vadios, dissolutos nos costumes e cheios de vícios que pode produzir no
coração humano uma vida licenciosa no centro da mais crassa ignorância”, e tal
“falta de sentimentos e de virtudes moraes” eram consequentemente “estranhados
contra todos o direitos da natureza e da sociedade”.102
Divergindo em muitos aspectos da narrativa de Feijó, o relato do comerciante
de ascendência inglesa Henry Koster, autor de Viagens pelo Nordeste do Brasil, 103
nos traz diversas imagens diferentes acerca daquela mesma população indígena.
Apesar de não ter tido o mesmo rigor científico que o naturalista em seus escritos,
Koster revelou uma aproximação muito maior com a cultura e aspectos mais
detalhados do cotidiano dos povos que encontrou em sua viagem.104 Por isso, há
muitas minúcias interessantes acerca dos modos de vida e de outras ideias que se
teriam acerca dos índios no Ceará nessa época. Primeiramente, observamos que,
segundo o inglês, haveria “muito que dizer” em favor dos índios, pois seriam “uma
99
FEIJÓ, 1898, p. 3.
100
Ibid., p. 25.
101
Ibid., p. 3.
102
Ibid., p. 22.
103
KOSTER, 2003.
104
GOMES, José Eudes Arrais Barroso. Um escandaloso theatro de horrores: a capitania do Ceará
sob o espectro da violência (século XVIII). Monografia (Bacharelado) ‒ Universidade Federal do
Ceará, 2006, p. 32.
213

raça de seres sensíveis, capazes de energia, de interessar-se em todos os


assuntos”.105 Eram “geralmente um povo inofensivo e tranquilo”, 106 e os “crimes de
morte, cometido por indígenas, são raros”107, contrastando abertamente com as
palavras de Sampaio já citadas no capítulo anterior.108
Por outro lado, os nativos das vilas cearenses ainda guardavam muitos
hábitos tradicionais, condenados pela legislação vigente. Além de se dizer que
“alguns entre eles conservam em segredo seus ritos bárbaros, prestando adoração
ao maracá”,109 seriam “muito amigos de bebidas e danças de roda, cantando
canções monótonas em seu próprio idioma, bebendo, dia e noite, sem pausa”. 110
Notemos que, juntamente com as práticas antigas que eram abominadas pela
cultura “civilizada”, como os ritos religiosos e as bebedeiras,111 as línguas indígenas
ainda eram faladas nesse período.112 Tal observação é confirmada em outra
passagem do Viagens, no qual diz que todos os “indígenas em Pernambuco falam o
português, mas raros o pronunciam bem. [...] Raramente um indígena fala o
português tão corretamente como a generalidade dos negros crioulos”.113 Além
disso, o autor discorreu sobre alguma espécie de falta de moral ou discernimento
que a sociedade da época atribuía ao índio, que pareceria “estar sem energia e
ação, desprovido do bem e do mal”, bem como de sua inconstância e
insensibilidade, que os fazia ser “indiferentes nos assuntos de importância”.114
Pudemos observar nestes dois relatos diversas características conferidas aos
nativos no Ceará desse período, e as variadas posições sociais que assumiam. Ao
mesmo tempo em que eram a principal força de trabalho disponível, fundamental
para o desenvolvimento socioeconômico da capitania, também adotavam o papel de
“bárbaros incivilizados”. Eram sensíveis e tranquilos, inconstantes e incultos.
Notamos que, em meio a essas falas, o papel social do índio se modifica, assim

105
KOSTER, 2003, p. 180.
106
Ibid., p. 177.
107
Ibid., p. 178.
108
“[...] quasi todos os açasinios que sucedem na Capitania são perpetrados por Indios que andão
dispersos ou por motivos de Indias disperssas que pela maior parte são prostitutas”. Cf. Outubro 9.
Registro de hum Officio dirigido ao Coronel Comandte do Aracati Pedro Joze da Costa sobre varios
Objectos. In: Livro 15, p. 179.
109
KOSTER, 2003, p. 176.
110
Ibid., p. 178.
111
Na nota 26 do Viagens, o autor fala de informações que recebeu acerca de dois índios que foram
ordenados padres, mas abandonaram o sacerdócio por problemas com bebidas. Cf. Ibid., p. 180.
112
O único resquício que se tem notícia, de língua indígena falada atualmente no Ceará é da etnia
tremembé, presente nos rituais do torém.
113
KOSTER, 2003, p. 181.
114
Ibid., p. 180.
214

como os significados que o representam, não tendo sido nunca “algo pronto,
cristalizado, e imanente”. Nos discursos indigenistas do século XIX, frutos de
“condições históricas, culturais e políticas” específicas, a figura do índio acabava
sendo dotada de extraordinária pluralidade e dinamismo,115 e as práticas discursivas
de Sampaio revelam tal heterogeneidade. Dessa maneira, pelo fato de um texto ser
um tecido de outros textos, e de que “toda a produção discursiva é um
reconhecimento de outros discursos”,116 passaremos agora a analisar os escritos do
governador do Ceará, procurando percebê-los como prática social atravessada por
outras falas e produtora de novos sentidos e relações.

5.3.2 Vadios de honrado e nobre sangue

Desde o início de seu mandato, Sampaio assumiu uma posição em relação


aos índios que, em muitos aspectos, se assemelhou com os dizeres de Feijó em sua
Memória. Pelas práticas do governador, percebemos que lhe foi urgente fazer
crescer a produção econômica ao mesmo tempo em que civilizaria a população,
especialmente os indígenas. Como já vimos, os índios, possuidores de “hábitos de
vida errante”,117 protagonizaram o grave problema de dispersão populacional na
capitania, que dificultou o controle sobre as pessoas e o incentivo ao trabalho
regular que produzisse excedentes. Por conta disso, vemos que, pelas palavras de
Sampaio, constituiu-se verdadeira “caça aos vadios”, ou seja, àqueles que não se
adequaram aos projetos de desenvolvimento.
Os hábitos vividos pela maioria dos índios que vagavam pela capitania, ou
que pelo menos estivessem fora de suas vilas – desobedecendo dessa maneira às
ordens da “política de passaportes” 118 – eram vistos pelos olhos do governador de
forma preocupante. Este, por sua vez, construiu uma imagem desses povos que, por
tal condição de quase independência em relação ao poder,119 seriam avessos à
civilização e causadores de “desordens de todos os gêneros”. Juntamente com
práticas visivelmente repressivas, que cerceavam a movimentação dos sujeitos,
115
ARAÚJO, 2000, p. 120.
116
VERÓN, 2004, p. 83.
117
KOSTER, 2003, p. 180.
118
A importância da “imposição do uso de passaportes como estratégia de controle sobre a
circulação da população” se dava justamente “por conta da movimentação populacional característica
dos sertões cearenses”. Cf. GOMES, 2006, p. 122.
119
De acordo com a visão de Koster (op. Cit.), o índio no Ceará teria “um temperamento
independente, detestando tudo que o possa deprimir e reter sua ação. Submete-se ao diretor por não
ter elementos para resistir-lhe”, p. 178.
215

racionalizavam suas ações e castigavam os desobedientes, os discursos de


Sampaio dirigidos a autoridades locais no Ceará, e que pudemos analisar, com base
no que encontramos na documentação, também agiram no sentido produzir novas
individualidades. Apontando quais tipos de atitudes eram condenadas pelo projeto
de desenvolvimento do Estado, bem como aqueles que estariam à margem de tal
esquema – os chamados “vadios” – eram desenhados pelo governante os novos
limites onde os índios deveriam viver e, dessa forma, reproduzir os novos sentidos
que eram impostos nessa sociedade.
Mas na medida em que eram nomeados os delinquentes, também era
construída uma imagem de “glória” e “nobreza” para todos aqueles que se
enquadravam nos planos do governo; e os registros mais significativos que temos
nesse sentido foram escritos em ocasião da Revolução Pernambucana de 1817. Em
diversos trechos das fontes pesquisadas, relativas ao recrutamento das tropas,
percebemos um claro contraste em relação aos adjetivos depreciativos atribuídos
aos nativos, como os que estão presentes nos escritos de Feijó ou do próprio
governador. Com um discurso político que “visava verdadeiramente moldar nas
comunidades indígenas um regime de verdade voltado para a fidelidade ao rei e a
coroa portuguesa”,120 Sampaio ordenou ao capitão-mor de Monte-Mor Novo que
arregimentasse índios armados para se juntarem à tropa já formada, para, dessa
maneira,

[...] completar a restauração da Capitania de Pernambuco,


mostrando-se por esta maneira dignos filhos dos antigos Indios do
Ceara a quem ha dois seculos foi devida a famosa restauração de
Pernambuco da mão dos Holandeses, e cujo honrado e nobre
sangue ainda corre nas veas dos actuaes Indios desta Capitania.121

Em outra ocasião, escrevendo ao mesmo capitão-mor, Sampaio previu que


“todos os Indios”, que naquele momento partiriam para as fronteiras, se mostrariam
“dignos Filhos dos Antigos Restauradores de Pernambuco, e voltarão as suas
direcções cobertos de Glória”.122 Além de relembrar a descendência que os índios
tinham daqueles que fizeram “a famosa restauração de Pernambuco”, ressaltou
120
COSTA, João Paulo Peixoto. O “entusiasmo” dos índios: discutindo a participação dos indígenas
do Ceará na Revolução Pernambucana de 1817. In: Embornal, revista eletrônica da Anpuh-CE,
Ano I, 2010. URL: Disponível em: <http://ce.anpuh.org/embornalinicio.htm>, p. 9.
121
Maio 24. Offo ao Capmor de Monte mor Novo pa ter todos os Indios promptos no dia 29 do Corr e pa
se unirem aos 300 Indios q’ o Sargmor Pinheiro leva pa as Fronteiras. In: Livro 21, p. 140.
122
Maio 26. Offo ao Capmor de Monte mor o Novo pa entregar ao Sargmor Pinheiro os Indios q’ se lhe
Ordenou tivesse promptos. In: Ibid., p. 142V.
216

também a glória que eles teriam ao defender as causas do rei: os mesmos que,
agora “gloriosos”, eram anos antes depreciados por Feijó por sua “falta de
sentimentos e de virtudes moraes”. Percebemos, mais uma vez, que o objetivo do
governador “era tirar o Ceará do estigma de lugar atrasado. E, para que isso fosse
possível, seria fundamental transformar aqueles índios bárbaros e afastados da
civilização em súditos fiéis, dignos da ‘glória’ de pertencerem ao reino de
Portugal”;123 e sua prática discursiva tinha um papel fundamental nesse sentido.
Mas o ápice de tal posicionamento do governador, no sentido de enaltecer os
índios que lutavam em nome do rei, está presente no documento intitulado
“Proclamação aos Indios do Ceara q.do partiraõ para o attaque das Capit.as
Sublevadas”, do dia 26 de maio de 1817. Utilizando-se de palavras que
engrandeciam a participação daqueles índios na guerra, Sampaio dirigiu-se
diretamente aos “Leáes, e Valorozos Indios do Ceara” e os incentivava a lutar contra
aqueles que feriam os direitos divinos do rei lusitano:

Indios do Ceará he necessário cortar de huã vez esta Serie de


desgraças que não pode deixar de ser Organizada pela ignorância
que tais traidores disfarçados inimigos da Fé Christaã tem ou affeitão
ter dos heróicos factos praticados na Glorioza restauração de
Pernambuco da mão dos Holandeses e Flamengos pelos habitantes
dessas Capitanias principalmente pelos Indios, e mais que tudo pelos
Indios do Ceara. He necessário que tão infames traidores paguem
mui caro com esta afectada ignorância dos heróicos feitos dos
Vossos Pais, e Avos. [...] tendo os vossos maiores sido os que mais
se distinguiram na primeira restauracção de Pernambuco vós não
deveis ceder presentemente huma igual Victoria dos Indios da
Paraiba. Indios do Ceara nas vossas veias corre ainda o Sangue dos
Algudões dos Camarões dos Pinheiros dos Tavares dos Capelins e
de outros m.tos heroes que se distinguirão assim nos attaques sobre
o gentio como na primeira restauração de Pernambuco. Mostrai a
todos que sois dignos Filhos. [...] Vós Sois valorozos. Nada vos
resistirá. Invejo-vos a Gloria de que todos vos ides cobrir. = Viva a
nossa Santa Religião = Viva o nosso Rey o Senr. Dom João 6º e
Toda Real Familia = Vivão os Intrepidos, e valorozos Indios do Ceara
[...].124

Neste trecho impressionante, o governador não só incentiva os índios a


combaterem os inimigos da Coroa como também, mais uma vez, fez menção aos
seus antepassados, ao citar inclusive os nomes de importantes linhagens, como, por
exemplo, os Camarões, Pinheiros, Tavares e Capelins. Disse que a principal

123
COSTA, 2010, p. 9.
124
In: Livro 28, p. 45V.
217

participação na referida guerra foi protagonizada pelos antigos índios do Ceará, e


que, por conta disso, os atuais não deveriam ser passados pelos de outras
capitanias. Com tais palavras de motivação, que mencionava a “invejada glória” que
teriam esses “intrépidos e valorosos” homens, Sampaio completou sua estratégia de
produção de uma nova realidade para que, dessa maneira, pudesse constituir novos
sujeitos. Sentimentos como esses aqui forjados nos soldados, de amor e fidelidade
ao rei, foram cruciais para a compreensão da formação dessa e de muitas outras
identidades nacionais que nasceram na modernidade, que consistiram de “culturas
separadas que só foram unificadas por um longo processo de conquista violenta –
isto é, pela supressão forçada da diferença cultural”. Além disso, os “começos
violentos que se colocam nas origens das nações modernas têm, primeiro, que ser
‘esquecidos’”,125 e isto está presente também na tentativa de Sampaio de lembrar-se
da suposta “lealdade indiscutível” dos antigos índios no Ceará.
Outros silêncios e esquecimentos também são possíveis de ser encontrados
na prática discursiva de Sampaio, entendidos aqui como ferramentas significantes
do discurso, “na medida em que todo dizer é também um silenciar”. 126 Meses depois
dos conflitos pernambucanos, o governador expediu ofício ao diretor de Arronches,
por ter chegado aos seus conhecimentos que os índios se haviam entregues à
“mandriice, e embriguez” ou a “divertimentos de toda a qualidade”. Por isso, ordenou
ao diretor “correr os rossados de huns e Outros, e fazer-me conhecer os nomes dos
rebeldes negligentes, e preguiçosos, afim de eu os mandar Capturar para serem
sumariados pela Policia como vadios e membros podres da sociedade”,127 fazendo
desaparecer imediatamente a honra e glória que foi imputada aos índios meses
antes.
Mas em janeiro de 1820, o tom das palavras de Sampaio voltou a mudar.
Anunciando o fim de seu mandato como governador, e sua saída do Ceará para
Goiás, escreveu para várias autoridades espalhadas pela capitania, inclusive aos
diretores das vilas de índios. Após mencionar a sua “certeza do progressivo
aumento de prosperide dos Cearenses”, de quem teria tido “irrefragaveis provas de
adhesão, e amor”, disse a cada diretor que “haja em meu nome de fazer constar a

125
HALL, 1997, p. 66.
126
ARAÚJO, 2000, p. 162.
127
Outubro 16. Offo ao Director de Arronches pa fazer com que os Indios abrão Rossados p r causa do
gd numero de Vadios que andão espalhados, e Outras provid as Sobre o mesmo fim. In: Livro 21, p.
e

184V.
218

todos os Indios seus dirigidos servindo-lhes este como de penhor da minha gratidão
e reconhecimto”.128 Podemos observar, com essas palavras, a tentativa de enaltecer
sua própria gestão, na medida em que mencionava a certeza do aumento de
prosperidade dos cearenses, que teria ocorrido somente após seu mandato. Foi uma
forma de valorizar seu trabalho, ao mesmo tempo em que influenciou respeito junto
aos seus novos companheiros no governo de Goiás.
Em constante mutação nas diversas fontes aqui analisadas, as palavras
referentes aos índios no Ceará do início do século XIX se adequavam às diversas
representações e situações vivenciadas por esses povos nativos. Para Bakhtin, a
palavra, socialmente ubíqua, penetra, serve de trama para todas as relações sociais
entre grupos e indivíduos em todos os domínios. De bárbaros a nobres, todos esses
termos e textos são indicadores das contínuas transformações sociais vivenciadas
pelos indígenas nos mais variados contextos.129
Por mais que parecesse contraditória, tal prática discursiva tinha um claro
objetivo de imprimir uma nova realidade na capitania e civilizar os seus nativos,
disciplinando suas ações, limitando seus espaços e impondo novos modos de vida.
Punindo delinquentes e glorificando os que estivessem alinhados aos seus planos, o
governador não só delimitou espaços, mas procurou aproximar os índios aliados ao
resto da sociedade, completando assim os objetivos integracionistas da legislação
indigenista vigente. Na medida em que “é pela negação ou afirmação da diferença
com o Outro que se constitui a própria identidade”, 130 vemos que, nessa lógica, os
indígenas eram cada vez mais obrigados a deixar hábitos antigos, e a abandonar
costumes tradicionais, a trabalhar de maneira produtiva, e, defendendo as causas do
rei, deveriam a igualar o seu jeito de viver com o da sociedade que os cercava:
enfim, a deixarem de ser índios.
Se existir é ser reconhecido como legitimamente diferente, e a existência real
supõe a possibilidade real de afirmar a diferença, “qualquer unificação, que assimile
aquilo que é diferente, encerra o princípio da dominação de uma identidade sobre
outra, da negação de uma identidade por outra”, como coloca Bourdieu.131 Ao
inserir, por meio de suas práticas discursivas, os índios como partícipes do corpo de

128
Janeiro 12. Circular dirigido aos Dir es dos Indios desta Capnia participando-lhes a entrega do Govo
res
della aos Govern interinos. In: Livro 22, p. 164V.
129
BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas
fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 41.
130
ARAÚJO, 2000, p. 158.
131
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p. 129.
219

súditos do rei português, Sampaio buscava, mesmo que fosse um projeto a médio
ou longo prazo, cumprir as diretrizes pombalinas e afastar definitivamente os índios
de suas culturas, tradições e identidades.
O discurso, além de funcionar como uma pista sobre práticas que existiam e
se quis combater – como foi o caso do livre acesso que os índios tinham de uma vila
para outra – ele também pode ser percebido a partir de seus efeitos. Os sentidos
produzidos por ele estão intimamente ligados às definições das identidades sociais
assumidas por seus usuários e consumidores.132 Pensando nos múltiplos efeitos que
um discurso pode produzir,133 percebemos que várias reações indígenas vindas
dessas práticas indigenistas – de imposição de regras e limites civilizadores –
estiveram ligadas à questão da identidade, mais exatamente à aparente negação
por parte dos índios de modos de vida tradicionais e a sua autoinserção no modelo
imposto pelo poder estatal.

5.3.3 Saída das vilas

Desde o início dos contatos no continente americano, os povos que aí


habitavam já eram nomeados e enquadrados pelos europeus em seus próprios
conceitos. O próprio termo “índio” foi criado pelo colonizador, numa tentativa de
representar – e até diluir – a enorme multiplicidade de povos que havia nessas
terras. Além da função de identificação, o objetivo em nomear os nativos aliados de
“índios” – em contraste aos “gentios bravos” – e reafirmar essa aliança – ressaltando
sua glória e a “gratidão” para com eles – era inseri-los numa lógica modernizadora,
chamando-os para o seio da sociedade civilizada e tornando-os “vassalos cristãos e
úteis”. Porém, segundo Carvalho Jr, por mais arbitrário que seja este termo, não
significou que seus efeitos tenham sido insignificantes ou ilusórios: muito pelo
contrário, em meio às novas relações estabelecidas na sociedade colonial, foram
obrigados “a se enquadrar nesta nova categoria e se apropriar dela de forma
particular”.134
Por outro lado, seguindo um caminho inverso, a denominação imposta
também foi assumida pelos índios como identidade própria, afirmando, deste modo,

132
PINTO, 2002, p. 46-47.
133
VERÓN, 2004, p. 83.
134
CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz de. Índios cristãos: a conversão dos gentios na Amazônia
portuguesa (1653 – 1769). Tese (Doutorado) ‒ UNICAMP, 2005, p. 1.
220

a “sua diferença por contraste àqueles com quem foram forçados a conviver”.135
Para Boccara, a produção do próprio “ser” indígena se constituía por meio da
constante mestiçagem e contato com o elemento externo, o “outro”, seja ele o setor
dominante ou não. A máquina social indígena necessitava da mescla, ou melhor, da
mestiçagem: nutria-se do outro para elaborar seu “ser”. Os indivíduos e grupos
resultantes dessas relações e situações de contato – mestiços – eram os mesmos
indígenas que, diante das particularidades de cada momento, transformavam e
ressignificavam suas identidades, lugares sociais e autoidentificações, a partir de
suas próprias reações frente ao que era imposto.136
Mesmo as várias saídas de índios do seu habitat e seu alistamento às
companhias de ordenanças de brancos – que ocorreram durante todo mandato de
Sampaio – ou até as negações abertas da identidade indígena não revelam simples
atitudes inertes frente ao processo de disciplinamento da população. Entendemos
que tais atos representaram ações conscientes de homens e mulheres que, frente a
determinadas situações, lançaram mão do abandono de suas comunidades de
origem, ou mesmo do silêncio, para continuarem sobrevivendo em uma sociedade
que cerceava cada vez mais os limites impostos.
Vários são os exemplos na documentação em que percebemos as tentativas
de muitas pessoas para saírem das vilas de índio onde, por lei, seriam obrigadas a
residir, como foi o caso de Miguel Baptista dos Santos. Identificado como “homem
pardo”, enviou requerimento em 1812 ao secretário do governo da capitania,
queixando-se que o diretor de Monte-Mor Velho estava obrigando-o “a viver de baixo
de sua direcção pelo motivo de ser Cazado com uma India que foi sua dirigida”. 137
Em relação a pedidos de índios para se desprenderem da obrigação de
permanecer em suas vilas, um dos casos mais antigos, já citado no capítulo anterior,
é o de Theodosio dos Santos Cruz, que, por meio de um requerimento de fevereiro
de 1813, conseguiu que o governador ordenasse ao diretor de Mecejana que lhe
desse “baixa na Companhia em que se acha alistado” e que não o “embarace para
elle poder fazer o seu estabelecimento, e morada aonde lhe convir”.138 No mês

135
CARVALHO, 2005, p. 1.
136
BOCCARA, Guillaume. Antropologia diacrónica. In: Nuevo mundo mundos nuevos. 2005.
Disponível em: <http://nuevomundo.revues.org>, p. 5.
137
Maio 21. Registo de hum Officio dirigido ao Director dos Indios de Monte Mor o Velho. In: Livro 95,
p. 34.
138
Fevereiro 20. Registo de hum Officio dirigido ao Diror de Mecejana pa dar baixa a hum Indio para
não ficar Sugeito a Va alguma. In: Livro 16, p. 153.
221

seguinte, atendendo à representação de Cosme José da Costa e Antônio da Costa,


Sampaio autorizou que estes fossem desmembrados da corporação dos índios de
Baiapina, vila de onde pertenciam, para serem “sugeitados a servir nas Ordenanças
dos homens brancos” de Vila Nova d’El Rei, podendo “livremente residir nas terras
de sua propriedade”.139 Já em novembro no mesmo ano, o índio Floriano Gomes, da
direção de Mecejana, conseguiu autorização para permanecer no Parasinho, pois se
ocupou “com a sua familia no Serviço da Agricultura merecendo pelo seu bom
comportamento a estimação publica”. Junto a este documento, em uma pequena
nota próxima ao título, pudemos visualizar que outra autorização de mesmo “theor
se escreveo ao [diretor] de Arres [Arronches] Sobre o Indio Ignco Pera [Ignácio
Pereira]”.140 No mesmo mês, por meio de requerimento do índio Paulo Pereira Lima,
e de seus filhos Antonio Vitorino Lima, Comes Pereira Lima e Marcelino Pereira
Lima, o governador lhes concederam baixa das ordenanças de Soure, para poderem
residir em suas propriedades na Serra de Uruburetama e ficarem “Sugeitos ao
Serviço das Ordenas dos homens brancos”.141
Em novembro de 1814, o índio Ignácio José de Oliveira, através de um
requerimento seu, conseguiu desmembramento das ordenanças de Arronches por
conta de sua “capacidade, e estabelecimento, e bom viver no Districto do Rio Curu
onde tem suas plantações”. 142 Por fim, em outubro de 1819, em atendimento aos
requerimentos dos índios Felix dos Santos Cardoso e Antonio Lopes de Moraes, o
governador concedeu suas baixas das ordenanças de Mecejana, para que junto com
“suas mulheres e filhos” pudessem “livremente residir no termo da V a do Aquiraz”.143
Na grande maioria desses pedidos, vimos que se tratava da busca pela
regularização, uma saída que já havia sido feita há muito tempo, pois boa parte
desses índios possuía propriedades em outros lugares. Tais retiradas se deram,
provavelmente, desde a época da instituição do Diretório dos Índios em 1759,
quando foi feita a substituição das antigas aldeias jesuíticas por vilas, e houve maior

139
Abril 22. Registo de hum Officio ao Dir or de S. Pedro de Baiapina pa dar baixa a 2 Indios da sua
Direcção q’ se passarão pa Va Nova d’El Rey. In: Livro 17, p. 25.
140
Novembro 2. Registro de hum Officio dirigido ao Dir or de Mecejana pª dar Passapte a hum Indio q’
tem rossados no Parasinho. In: Ibid., p. 176V.
141
Novembro 20. Registo de hum Officio ao Director de Soure p a desalistar huns Indios da sua
Direcção. In: Livro 18, p. 10V.
142
Novembro 23. Offo ao Diror d Arres pa desmembrar das Ordas Indias, hum Indio q’ esta estabelecido
no Curú. In: Livro 19, p. 123V.
143
Outubro 23. Officio dirigido ao Dir or de Mecejana para desaldear Felix dos Santos Cardoso e
outros. In: Livro 22, p. 97V.
222

coerção dos indígenas ao trabalho, passando a prestar serviços ao Estado ou a


proprietários. Tentando conseguir uma exceção à obrigação de permanência em
suas vilas natais, os nativos buscavam maior estabilidade social, ao provar que já
estavam mantendo um trabalho produtivo e uma vida minimamente “civilizada”, e
dessa maneira “distante” de antigos costumes indígenas.

5.3.4 Do Ceará ao Piauí: o índio Antônio de Verçosa

Dentre os vários registros analisados ‒ de tentativa de saída de índios de


suas vilas, durante o governo Sampaio ‒ temos o caso de Antônio de Verçosa, que
não se tratou da busca pela regularização de uma antiga mudança. A sua procura
em sair de sua vila expressava um desejo de melhoria de vida, que só poderia se
realizar por meio de uma promoção em seu ofício concedida pelo rei. Natural da Vila
Viçosa Real, supostamente soldado da Companhia de Ordenanças dessa vila,
pretendia ascender em seu título militar, trabalhando em uma propriedade da
Capitania do Piauí. O processo movido por esse nativo chama a atenção pela
documentação resultante, maior e mais rica que a de outros casos. Destacam-se
também para os nossos objetivos, neste trabalho, os recursos discursivos utilizados
pelo índio para conseguir realizar seus interesses.
Encontramos quatros registros no Arquivo Público do Estado do Ceará para
compor nossa análise acerca do caso de Antônio. O primeiro, de 14 de janeiro de
1815, é um ofício do marquês de Aguiar, ministro de dom João VI, ao governador
Sampaio, o qual remete em anexo o “requerimento incluso de Miguel Archanjo de
Vercoza”,144 irmão e procurador de Antônio. Na petição, Miguel solicitou a promoção
de seu irmão para capitão, já que servia como “Soldado e Cabo da Companhia da
Ordenança do dito Regimento a doze annos Sem Soldo”. Um elemento essencial na
composição de seu pedido, posto ainda no início do documento, foi a referência feita
ao antepassado do suplicante, bem como aos seus serviços para o reino português:
“Consta Ser o Supplicante descendente de Lopo Tavares da Silva, que ajudou a seu
Chefe Dom Felipe Camarão a restaurar Pernambuco da usurpação dos Olandeses
Sendo este Capitão do Regimento pago da Referida Villa Viçosa”.145

144
Ofício de 14/01/1815. In: Livro 93, n.p.
145
Requerimento anexo ao ofício de 14/01/1815. In: Ibid., n.p.
223

A memória da participação dos índios na expulsão neerlandesa, ocorrida na


primeira metade do século XVII, parecia ser recorrente e ainda viva nesse período
para os povos que viviam no Ceará. De acordo com Almeida, era “bastante
frequente” no período colonial “encontrar-se nas petições por cargos e títulos
alusões não só aos serviços militares prestados como também aos postos ocupados
desde gerações anteriores”. No caso por nós analisado, isso “constituiu, sem dúvida,
função enobrecedora”,146 e ser descendente de um militar que serviu a Felipe
Camarão, líder indígena que comandou os nativos aliados aos portugueses, era uma
qualificação valiosa que certamente colaboraria com as intenções pretendidas. E
lembremos: o antepassado de Antônio e Miguel, Lopo Tavares da Silva, fazia parte
de uma das linhagens glorificadas por Sampaio como heróis na proclamação que
enviaria aos indígenas dois anos depois, em 1817.147
No mesmo dia do primeiro documento supracitado, o marquês de Aguiar
enviou outro ofício, desta vez trazendo o “requerimento incluso” do próprio Antônio
de Verçosa.148 Encontramos algumas diferenças entre as duas petições: o tempo de
serviço sem pagamento, que antes era de doze anos, vemos agora que era de
quatorze, e o cargo pretendido, que no primeiro registro estava como de “capitão”,
no segundo é “alferes”, uma patente mais baixa, e por isso mais facilmente
alcançável. Podemos ver que as mudanças encontradas – sejam elas correções de
erros ou simplesmente oportunismo do suplicante – reforçavam o pedido de
promoção. Outro dado novo é que Antônio pediu que a mudança de patente viesse
acompanhada do “exercicio de Creador ou Vaqueiro Vitalicio da Fazenda Careta ou
de outra qualquer” que pertencesse ao rei, desde que ficasse entre “as cabeceras do
Rio Piauhy, ate as margens do Rio Parnahyba do Norte”. Mas da mesma forma
como o documento produzido por seu irmão, Antônio fez novamente referência ao
seu antepassado, Lopo Tavares da Silva, e aos serviços prestados a Felipe
Camarão na expulsão dos holandeses.149
Três meses depois desses primeiro pedidos, em abril de 1815, tendo em
mãos os ofício do marquês de Aguiar, o governador Sampaio se comunicou com o

146
ALMEIDA, 2003, p. 153.
147
“Indios do Ceara nas vossas veias corre ainda o Sangue dos Algudões dos Camarões dos
Pinheiros dos Tavares dos Capelins e de outros m.tos heroes que se distinguirão assim nos attaques
sobre o gentio como na primeira restauração de Pernambuco”. Cf. Proclamação aos Indios do Ceara
q.do partiraõ para o attaque das Capit.as Sublevadas. In: Livro 28, p. 45V. APEC. Grifo nosso.
148
Ofício de 14/01/1815. In: Livro 93, n.p.
149
Requerimento anexo ao ofício de 14/01/1815. In: Ibid., n.p.
224

sargento-mor das ordenanças de Vila Viçosa na busca de informações acerca do


“requerimento de Antonio de Vis[danificado] [...] no qual pertende o Posto de Alferes
Graduado com exercicio de Creador ou Vaqueiro de huma das Fazendas de S A R
[Sua Alteza Real] na Capitania do Piauhi”. Questionou à autoridade local se o
suplicante se achava “alistado nas Ordenanças dos Indios ou nas Ordenanças
Montadas [...], e em qual das Corporações he que o mesmo Suppe pertende ser
empregado”. Sampaio quis saber também “sobre a Conducta e mais circunstancias
do mesmo Suppe”,150 mostrando o rigor deste governo no controle do cotidiano dos
índios, sendo requisito obrigatório a um requerente estar aliado aos planos
civilizatórios.
No mês seguinte, em maio de 1815, foi produzido o último documento que
encontramos relativo à tentativa de Antônio de sair de sua vila. Trata-se de outro
ofício do marquês de Aguiar,151 trazendo em anexo, novamente, um requerimento
deste soldado indígena para sair de sua vila, aumentar sua patente e ser vaqueiro
no Piauí. Por fazer referência aos mesmos dados e ter praticamente o mesmo
conteúdo da petição anterior de janeiro deste ano, é possível que a demora de
providências ou respostas tenha sido motivadora para este novo pedido. Notamos
apenas uma mudança em relação ao primeiro documento: nesta, Antônio se disse
“neto do falecido Lopo Tavares Capmor do Regimento pago da referida Villa
Viçosa”,152 deixando ainda mais exata a descendência que se queria pôr em relevo.
Mas as referências ao caso de Antônio não finalizam com os registros
guardados no APEC. Em pesquisa realizada no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro,
Lígio Maia também se deparou com documentos relativos a esse caso. Além de
também ter entrado em contato com o requerimento do índio, o autor encontrou
ainda a reposta dada pelo diretor de Vila Viçosa ao governador Sampaio, com
informações que diferiam daquilo apresentado pelo suplicante. Segundo ele, Antônio
havia desertado do corpo de ordenanças havia cinco ou seis anos para trabalhar em
uma fazenda de gado; e não fazia parte de nenhum setor ou linhagem privilegiada
na localidade, vivendo junto com os demais índios da vila. Dessa forma, este índio

150
Abril 28. Offo ao Sargmor das Ordas da Va Visa Rl Sobre hum Indio q’ pertende ser Vaqueiro das
Fazas [danificado] Gados. In: Livro 20, p. 8V.
151
Ofício de 20/05/1815. In: Livro 93, n.p.
152
Requerimento anexo ao ofício de 20/05/1815. In: Ibid., n.p. Grifo nosso.
225

buscou, “dentro de suas possibilidades”, recorrer a um “artifício de promoção social


que julgava estar sobre seu alcance” para melhorar de vida.153
Mesmo que registros documentais nos impeçam de conhecer melhor o
desfecho dessa história – como, por exemplo, se Antônio conseguiu de fato o que
queria – as informações que coletamos nos levam a algumas conclusões.
Primeiramente, temos aqui mais um exemplo de tentativa de ascensão social por
parte de um índio, através de sua retirada de seu lugar ancestral, exercendo uma
atividade que não era tradicional de sua cultura, como o trabalho de vaqueiro. Para
Maia, “Antônio queria mesmo era sair de sua condição pouco afortunada”,
mostrando que “a ocupação dos postos de oficiais militares [...] constituía uma
possibilidade real de distinção social, quer material quer simbólica”, dentre os índios,
“embora bastante restrita ao reduzido número de oficiais nas ordenanças”.154
Mas impressiona o fato de que, para conseguir tudo que queria, este índio,
assim como seu irmão, adquiriu grande conhecimento dos trâmites necessários para
mover uma ação desse tipo, entrando em comunicação inclusive com o rei de
Portugal. Um desses elementos que teve de dominar foi, primeiramente, a própria
escrita do português, confirmando que, desde muito tempo, “havia também interesse
dos índios no uso [ou melhor, na apropriação] desta língua, sobretudo, na defesa de
seus interesses”.155 Todavia, não se resumindo a capacidade de saber escrever, a
habilidade discursiva necessária também foi fundamental, ao construir uma suposta
história de seu antepassado que confirmasse a lealdade de sua linhagem às causas
da coroa lusitana.
Ao rechaçar as perspectivas que acreditam nos Estados de pureza original de
um povo, Boccara entende as culturas enquanto objetos de reelaboração
permanente. Seus elementos são constantemente ressignificados a partir de cada
nova relação ou situação de contato, cujas trocas daí decorrentes não são resultado
necessariamente de uma aculturação imposta, de uma contaminação ou de uma
recepção passiva.156 De maneira semelhante, o universo no qual Antônio transitou
na busca por melhoria de vida, possibilitou-lhe apropriar-se de diversos elementos,
através dos quais conseguiu mover sua ação. Por meio de um necessário
153
MAIA, José Lígio de Oliveira. Serras de Ibiapaba. De aldeia à vila de índios: vassalagem e
identidade no Ceará colonial – século XVIII. Tese (Doutorado) ‒ Universidade Federal Fluminense,
2010, p. 281.
154
Ibid., p. 281-282.
155
Ibid., p. 257.
156
BOCCARA, 2005, p. 9.
226

conhecimento desse contexto, pôde forjar, transformar e reinventar sua cultura e


identidade na busca pelo que queria.
De acordo com Juliana Elias, “era evidente para Portugal a necessidade da
boa relação com Camarão”,157 líder indígena de forte representatividade em seu
povo. Para o Império, durante toda sua história de relações com os índios, a doação
de títulos e palavras enobrecedoras – como as que encontramos nos documentos
de 1817 – era de extrema importância para a manutenção de alianças e da própria
estabilidade da dominação. Apropriando-se desses elementos característicos da
cultura dominante, e também da memória sobre sua família, o índio protagonista de
nossa história afastou-se de certa forma dos ambientes característicos de seu povo,
para que assim pudesse viver de maneira mais estável. Neste episódio, Antônio foi
protagonista de uma luta política na qual o que estava em jogo era o “poder de
conservar ou de transformar o mundo social conservando ou transformando as
categorias de percepção desse mundo”.158 Para conseguir melhorar de vida, Antônio
soube negociar com o poder e usar do passado para alterar o seu presente, assim
como também o seu próprio “ser índio”.

5.3.5 Negações identitárias

Também encontramos evidências de que houve manifestações mais abertas


e declaradas de um distanciamento ou mesmo negação da autoidentificação
enquanto índio, revelando que, naquela sociedade disciplinar que se formava no
Ceará, a vida daqueles que se encontravam nessa posição social era
significativamente mais difícil. Prova dessa situação foi o caso de Antonio José de
Oliveira, ocorrido em outubro de 1812, que, apesar de uma ordem dada pelo
governador, deixou de ser condenado à prisão justamente por ele “não ser Indio
posto que sua mulher o seja”.159 Outro exemplo que revela a desvantagem em que
se encontravam os índios nesta sociedade aconteceu em fevereiro de 1813, quando
Sampaio ordenou ao comandante de Aquiraz que recrutasse em sua vila os vários
“Indios aldeados com manifesta transgressão das Reaes Ordens” por estarem “sem
o competente Passaporte”. Por fim, acrescentou que aquelas pessoas “cujos Pais ou

157
ELIAS, Juliana Lopes. Militarização indígena na Capitania de Pernambuco no século XVII:
caso Camarão. Tese (Doutorado) ‒ Universidade Federal de Pernambuco, 2005, p. 131.
158
BOURDIEU, 1998, p. 142.
159
Outubro 28. Registo de hum Officio dirigido ao Commnd e do Cascavel participando lhe ter
reprehendido hum Sugeito. In: Livro 16, p. 11.
227

Mães não tiverem sido Indios não estão no caso” de serem recrutados, abrindo
exceção para os que tivessem outras origens além da indígena.160 Observamos com
isso que, nesse período, a condição nativa, além de ser inferior, era ainda mais
monitorada e sofria mais coerções do que as outras categorias de homens livres.
O exemplo mais representativo de negação da identidade indígena está
registrado em ofício de dezembro do mesmo ano, dirigido ao capitão-mor do
Aquiraz, onde lhe escreveu acerca de alguns nativos que se encontravam dispersos
(fora de suas vilas e sem a documentação exigida):

Entre os Indios que andavão dispersos no termo dessa Villa, e que


VMe agora me remette vem Theodosio Pereira dos Santos e seu filho
Estevão Lopes de Amorim ambos moradores no lucas[?], e Antonio
José Francisco Pescador que negão ser Indios. O mesmo dizem
Anna Fereira, e Maria Andresa e sua filha Margarida. He pois
necessario que VMe tome a este respeito ulteriores Informações para
eu saber o q’ hei de decidir.161

Na tentativa de evitar suas prisões, negaram abertamente suas identidades


tradicionais. Tendo em vista que estavam sendo presos por serem índios, a saída
era justamente se fazerem de outra coisa, modificarem a seu modo a realidade
imposta, afastar aquilo que os estigmatizava, e entrar, por essa maneira, de forma
mais estável naquela sociedade disciplinar: enfim, dizer que não eram índios.
Percebemos, dessa maneira, que nos foi possível identificar e analisar a prática
discursiva do governo do Ceará, naquele início do século XIX, por meio de um de
seus efeitos mais proximamente relacionados aos objetivos primordiais da política e
legislação indigenista daquela época. O estabelecimento de diversas famílias em
propriedades economicamente produtivas e, inclusive, a negação da identidade
indígena, se constituíram como a realização daquilo que vinha sendo tentado, de
forma sempre impetuosa, desde o período dos aldeamentos jesuíticos, e que se
intensificou com a chegada do poder disciplinar na colônia portuguesa.
O império português, na busca de integrar os índios no seio da sociedade
civilizada, era constituinte de um “dispositivo discursivo que representa a diferença
como unidade ou identidade”. Abrigando vasta multiplicidade étnica e cultural,
conseguia abafá-la “apenas através do exercício de diferentes formas de poder

160
Fevereiro 4. Registo de hum Officio dirigido ao Comde das Ordas do Aquiras pa remetter presos a
esta Va todos os Indios q’ andarem dispersos, e sem Passaporte. In: Livro 16, p. 136.
161
Desembro 12. Registo de hum Officio dirigido ao Cap mor Comde das Ordas do Aquiras Ordenando-
lhe varias [ilegível] e acusando a recepção de huns Officios. In: Ibid., p. 67. Grifo nosso.
228

cultural”162 como, por exemplo, um discurso político integracionista, que condenava


os modos de vida nativos e premiava aqueles que se adequavam.
É engano propor que os índios foram passivos a esses processos culturais de
unificação. Se aparentemente “abandonavam” ou “negavam” uma identidade
tradicional, estavam se inserindo ou se adaptando a outra de modo consciente. Tal
tipo de reação, além de ser um efeito do discurso político, significava uma “resposta
inovadora que as populações ameríndias, subjugadas e integradas, deram ao
projeto civilizador. Era uma forma de se apropriarem de seu destino. [...] era uma
decisão – era fruto de uma ação, mesmo que muitas vezes, forçada”.163 Adequando-
se a tais destinos, lugares e nomes, os povos indígenas construíram – sempre de
forma conflituosa e negociada com o poder instituído – espaços próprios de
sobrevivência, consumindo, usando e modificando a realidade construída e que lhes
era imposta pelo discurso.
A prática discursiva do governo Sampaio, por ter diante de si um povo ainda
ligado a costumes tradicionais, e com a necessidade de desenvolver econômica e
culturalmente a capitania, operou na formação de um estigma contra aquilo que era
considerado “vadiagem”, excluindo dessa maneira os que tentassem delinquir tal
esquema. Juntamente com a perseguição aos rotulados “vadios”, as palavras de
gratidão e de glorificação à “honra” e “nobreza” dos índios que defendessem as
causas do rei completaram uma formação discursiva que, na busca de continuar as
intenções da legislação indigenista que agia desde a segunda metade do século
XVIII, visava à inserção dos povos indígenas no mundo civilizado. Dessa forma, foi
produzida uma realidade social em que os modos de vida nativos encontravam-se
cada vez mais sufocados, e mais fortemente obrigavam os índios a abandonar
antigos hábitos, a servir ao rei e a viver de maneira produtiva.
Por outro lado, as atitudes desses mesmos nativos não foram passivas frente
ao que lhes era imposto. Mesmo quando escolhiam agir de maneira que, aos olhos
do governo, era considerada civilizada, tais atos constituíam, além de efeitos do
discurso do poder, escolhas reais de pessoas que inventaram, de modo criativo,
suas próprias formas de viver o seu cotidiano, ainda que, para isso, tivessem de
calar-se. No entender de Boccara, os grupos indígenas, na condição de dominados
e conscientes do mundo em que viviam, souberam utilizar os significantes culturais e

162
HALL, 1997, p. 67.
163
CARVALHO JUNIOR, 2005, p. 6.
229

identitários dos dominadores para produzirem outros significados, que lhes


possibilitassem criar espaços de negociação e sobrevivência. Por isso, é equivocado
conceber as transformações pelas quais passaram esses povos a partir da
perspectiva da contaminação, da decadência ou da extinção.164 As negações de
identidade que marcaram a história dos índios no Ceará, bem como em todo o
continente americano eram muito mais do que o resultado de um convencimento
bem sucedido. Antes, foram sempre marcadas pela inventividade de povos que,
reagindo a uma coerção da qual não podiam escapar, se modificavam, se
transfiguravam, se faziam de outra coisa, usando a seu modo os nomes e as
posições sociais que cada situação lhes obrigava a viver.
Os efeitos das práticas indigenistas, discursivas e não discursivas, que
tiveram lugar no Ceará colonial não podem ser desprezados. Leis, políticas e
discursos tiveram como resultado a destruição física e simbólica de uma imensa
multiplicidade de línguas, cultos, costumes e identidades milenares que habitavam
nestas terras. Como consequência mais marcante, o século XIX viu ser relatada
uma suposta extinção de índios no território cearense, que estariam finalmente
integrados, misturados ou diluídos em meio à sociedade.
Mas por meio de diversos povos e comunidades que, retornando do silêncio,
assumiam sua autoidentificação nativa, podemos ver que o sucesso daquela prática
discursa indigenista não se completou. Apoiados por uma conjuntura em que podem
mais livremente reproduzir antigos hábitos e crenças, as diversas etnias indígenas
que hoje vivem e lutam no Ceará165 fazem cair por terra os discursos de sua
passividade, da fragilidade de suas culturas e de seus desaparecimentos. Este
suposto “desaparecimento” também foi fruto de ações conscientes dos
antepassados dos que atualmente se identificam como indígenas no Estado do
Ceará, cujo “dizer-se índio” hoje é a sua maior prova.

164
BOCCARA, 2005, p. 10.
165
Os povos são anacé, gavião, jenipapo-kanindé, kalabaça, kanindé, kariri, pitaguari, potiguara,
tabajara, tapeba, tapuia-kariri, tremembé, tubiba-tapuia e tupinambá. Cf. PALITOT, Estevão Martins.
Introdução. In: PALITOT, Estevão Martins (Org.). Na mata do sabiá: contribuições sobre a presença
indígena no Ceará. Fortaleza: Secult / Museu do Ceará / Imopec, 2009.
230

5.4 Requerimentos indígenas

[...] que os senhores brancos, e outras


qualidade de pessoas que residem nas
terras dos Indios cada hum procure as suas
Patrias [...]
Índios da Vila Viçosa Real (1814)

[...] os Indios por serem Indios não


deixão de ser Vassallos de S. Magestade [..].
Manuel Ignácio de Sampaio (1819)

Era frequente na historiografia tradicional uma abordagem superficial acerca


da participação indígena nos variados momentos da história do Ceará. Quando
muito, os índios eram tratados como um dos setores mais atrasados da população,
arrastados pelo processo civilizador e apenas relevantes enquanto partícipes dos
eventos protagonizados essencialmente pelos brancos. Para Manuel Albuquerque, a
população indígena era estudada “sempre na perspectiva de ser percebida como
primitiva e inferior, quando comparada à sociedade europeia, avançada e
civilizada”.166 Seriam fatalmente – como diriam os românticos – engolidos pela
sociedade, e enfim, misturados à massa geral do povo (como ficou registrado no
relatório do presidente daquela província, em 1863). Uma “orquestração de
discursos dava ênfase à ideia da não mais existência de índios no Ceará”, onde o
“romance literário, a produção historiográfica e os pronunciamentos de autoridades
governamentais decretavam a morte” desses povos nativos.167
Porém, a recente historiografia vem combatendo este tipo de visão,
impulsionados pelo contexto atual, em que diversas comunidades espalhadas pelo
território cearense declaram suas identidades indígenas, negando a concepção de
extinção dos índios no Ceará. Rechaçam também a tese que prega uma suposta
inércia e passividade dos nativos diante dos variados momentos da história. De
acordo com John Monteiro, é missão atual dos historiadores “recuperar o papel
histórico dos atores nativos na formação das sociedades e culturas do continente”
americano, revertendo uma bibliografia marcada, se não pela omissão, “por uma

166
ALBUQUERQUE, 2002, p. 20.
167
Ibid., p. 19.
231

visão simpática aos índios, mas que os enquadra como vítimas de poderosos
processos externos à sua realidade”.168
Inseridos nesta nova historiografia, tentaremos mostrar que os índios no
Ceará colonial não foram simplesmente “arrastados pela história”, mas também
tiveram e foram artífices de sua própria. Para Boccara, longe de serem meros
espectadores da história, o dinamismo e a abertura cultural dos índios lhes
permitiam tirar proveito do próprio sistema colonial, possibilitando manejar a seu
favor os elementos do dominador.169 Acompanhando esse pensamento, nosso
objetivo aqui é perceber, por meio de requerimentos registrados na documentação
do governo de Manuel Ignácio de Sampaio, de que maneira os indígenas,
conscientes de suas posições sociais, usavam, de maneiras diversas, “regras [...] do
mundo branco para poder sobreviver e construir espaços de liberdade”. 170
Outra corrente de pensamento, que também pretendemos ir de encontro, é
aquela que imagina as atitudes dos nativos, frente à colonização, apenas no sentido
de reações abertas, como deserção ou guerra. Para além deste simplismo,
observamos que os índios, por questões de necessidade, aprenderam a inserir-se
naquele universo que os dominou, e souberam ocupar determinados lugares,
apropriaram-se de diversos elementos, caminhos e táticas para conseguirem
alcançar seus interesses. Se alguns traçaram como caminho a resistência armada,
outros fizeram nascer novas formações sociais, ou ainda passaram a ser
intermediadores imprescindíveis ao sistema colonial, ou mesmo se valeram das vias
legais em busca de seus direitos.171 Para além de identificar apenas registros de
choques e negações indígenas diante da colonização, nossa análise se debruça em
casos nos quais os índios se apropriaram, por meio das vias legais, desse mesmo
sistema colonizador para realizarem seus objetivos.
Os nativos não foram constantemente “obstinados e redutíveis opositores do
projeto colonial”, já que “ao utilizarem mecanismos próprios da cultura” europeia
estavam “defendendo perspectivas de ação e reação ou (re)criação de seu próprio
mundo”.172 De pedidos individuais até requerimentos comunitários relativos a tributos

168
MONTEIRO, John Manuel. O desafio da história indígena no Brasil. In: SILVA, Aracy Lopes da.
GRUPIONI, Luís Donizete Benzi. A temática indígena na escola: novos subsídios para professores
de 1º e 2º graus. São Paulo: Global, 2004. p. 227.
169
BOCCARA, 2005, p. 6.
170
CARVALHO JÚNIOR, 2005. p. 323.
171
BOCCARA, 2005, p. 06.
172
ALBUQUERQUE, 2002, p. 51.
232

e legislações, os indígenas não se encontravam alheios àquela realidade, mas antes


conscientes do pouco espaço que dispunham, e da habilidade que precisavam ter
para manipulá-los de acordo com seus objetivos.

5.4.1 A produção de requerimentos

A procura de pistas nos arquivos do governo Sampaio que nos remetessem a


esse tipo de realidade foi farta, e nos fez perceber o quanto os índios não se
colocaram apenas na condição de vítimas desafortunadas diante de uma política
que, como nunca havia sido feita antes, buscava discipliná-los e impulsioná-los a
uma vida produtiva e “civilizada”. Mesmo cercados em meio a essas práticas
normativas, foi possível aos indígenas conseguirem encontrar meios em que
pudessem construir espaços próprios, mesmo que para isso tivessem que partilhar,
de certa forma, os planos do governo. Se já não mais era possível, desde a
instituição do Diretório, levar uma vida mais autônoma e com menos rigor, muitas
vezes o melhor caminho era inserir-se naquela sociedade, e, a partir daí, manipular
quando necessário os benefícios que lhes eram oferecidos. Ao se tornarem súditos,
além das obrigações, os nativos passavam a ter também uma série de direitos,
“dentre os quais os de pedir e obter mercês e justiça do seu Rei”,173 ou mesmo o de
produzir um simples requerimento acerca de uma necessidade cotidiana.
É possível caracterizar melhor esta realidade quando analisamos as ações de
índios que, diante do olhar do governo, mantinham um estilo de vida condizente com
o que exigia a lei: trabalhando em sua terra de forma disciplinar e produtiva. Estes
indígenas, aparentemente “afastados” de antigos costumes tradicionais e
condenáveis pelos padrões de civilidade, apoiavam-se justamente nas intenções do
poder real e, a partir delas, produziam requerimentos (como os que discutimos no
item anterior), na maioria das vezes ao próprio governador Sampaio, com conteúdos
diversos. Tampouco tinham a mesma origem, e dependendo da situação, ou do
lugar social do(s) requerente(s), poderiam ser de cunho comunitário ou partir de um
interesse individual.
Logo no primeiro ano de Sampaio no Ceará, encontramos dois pedidos desse
último tipo: o primeiro, de maio de 1812, está registrado em ofício do secretário do
governo que, por ordem do governador, escreveu ao juiz ordinário da Vila de

173
ALMEIDA, 2003, p. 92.
233

Mecejana, sobre o “Requerimto incluzo de João Correia Indio dos da direcção dessa
Villa”. Manda-o ainda que compareça à sala do governo, “em execução do
Despacho nelle proferido”, para que dê explicações pelo não cumprimento da “Carta
precatoria do Dezembargador Juiz de Fora desta Villa da Fortaleza”, 174 revelando o
nível de envolvimento que poderia ter um índio em questões jurídicas ou de natureza
semelhante.
O segundo requerimento, expedido no mês seguinte, foi produzido pelo índio
Egidio Dias de Moraes da vila de Arronches, e registrado em ofício do mesmo
secretário dirigido à câmara desta vila, no qual reclama dos danos causados em sua
propriedade:

O Illmo Sr Govor manda remeter a esse Senado o Requerim to incluzo


de Egidio Dias de Moraes Indio da Direcção dessa Villa [Arronches]
que se queixa do dano que lhe Causão na sua lavoura os Bois de Mel
[Manuel] Caetano de Azevedo e de outros cujo nome ignoro e he
servido na Conformidade do seu Despacho de 27 de Maio proferido
no mesmo Requerimento q’ esse Senado de as Providencias na
forma da Ley.175

Notemos que aquilo que o índio requerente queria defender era algo vital para
o governador: a sua lavoura, que não só era prova de seu trabalho como também
algo de extremo valor aos planos do poder real de desenvolvimento econômico e
civilização da população. A plantação de Egídio, provável fonte de seu sustento,
passava a ser garantia de que fosse pelo menos despertado no governo algum
interesse em atender seu pedido. Percebemos que ser um índio nessa sociedade
não significava que ele estivesse fadado a ocupar um lugar completamente
marginal, desprezível e sem representatividade. Por mais que pertencesse a uma
“casta” que, em âmbitos sociais e políticos, era inferior aos brancos, a ponto de
“demandar” cuidados especiais das autoridades, Egídio soube somar seus
interesses com os do governo – que era o de manter-se em uma terra produtiva de
forma adequada – e, assim, ocupar uma condição social que lhe possibilitava lutar
por seus interesses.
Mesmo em posições desfavoráveis, os índios souberam muitas vezes
movimentar-se nessa sociedade de forma surpreendente, a ponto de terem
conseguido realizar certas ações que desconcertariam os mais conservadores.

174
Maio 23. Registo de hum Officio dirigido ao Juiz Ordinario da Villa de Mecejana. In: Livro 95, p. 35.
175
3 de Junho. Registo de hum Offo dirigido a Camara da V a de Arronches. In: Ibid., p. 40.
234

Exemplo disso está em ofício do governador, encaminhado ao comandante das


ordenanças de Aquiraz, de dezembro de 1812, acerca das reclamações do índio
Vicente Ferreira Ramos sobre um gado do vizinho Jose Vitorino Dantas Correia, que
estaria causando estragos nos “Rossados do do Indio e a outros moradores”. Em
resposta, Sampaio ordenou que o proprietário do animal fosse intimado a “vender ou
mattar a res damninha”.176 O que impressiona nesta atitude do governo foi o fato de
ter se dado em uma região na qual a pecuária tinha enorme valor econômico e
histórico, e a perda de um animal de criação era considerada um dano gravíssimo.
Mesmo assim, o índio Vicente levou vantagem nesse evento por ter posto em
questão o bom funcionamento de sua produção agrícola e dos demais moradores da
região.
Outro registro que comprova a força que poderiam ter as ações movidas por
indígenas aconteceu em março de 1813, quando o governador ordenou ao sargento-
mor de Vila Viçosa Real que prendesse Gregorio Ferreira de Castro, “contra quem
em 28 de Janeiro deste anno me requereo o Indio Joze da Costa Passos”, e que
fosse remetido à “Cadeia da Va do Sobral á minha Ordem”. 177 Mesmo não revelando
o motivo da prisão, o documento nos permite perceber, mais uma vez, que estes
requerimentos não eram somente recursos alegóricos daquele aparelho jurídico do
mundo colonial, mas possibilidades reais que os nativos tinham de realizar seus
objetivos, como foi o caso da prisão do desafeto do índio Joze.
Além desses pedidos que, como dissemos, eram originados de pessoas que
aparentemente mantinham um estilo de vida similar ao que era desejado pelo
governador, alguns requerimentos indígenas desagradavam os planos de Sampaio,
tendo inclusive certo tom de “atrevimento”. No dia 8 de março de 1817, os índios
Antônio da Costa e Antônio Francisco Ferreira, da Vila de Mecejana, mandaram um
requerimento ao governador da capitania, que os respondeu negativamente no dia
seguinte, “ficando os suplentes presos á Ordem do Juiz Ordo de Mecejana”.178
Apesar de o documento, que está registrado no livro de ofícios do secretário do
governo, não deixar claro o conteúdo do requerimento nem o motivo da prisão,

176 o e as a
Desembro 4. Registo de hum Officio dirigido ao d Comd das Ord de Aquiraz p fazer q’ sugeito
mate huma Vaca q’ destroe os rossados visinhos. In: Livro 16, p. 56.
177
Março 1. Registo de hum Officio dirigido ao Sarg mor das Ordas de Va Viçosa Real Ordenando huma
prisão. In: Ibid., p. 160.
178
Março 10. Officio ao Juis Ordino de Mecejana. In: Livro 95.
235

supomos que, pela resposta de Sampaio, os índios suplentes estariam reclamando


sua liberdade.
Em outra ocasião, no mês de outubro de 1814, o governador do Ceará
também negou o pedido dos oficiais de Ordenanças índios de Arronches, que
pretendiam ser “isentos de todo Serviço das suas Companhias em quanto occupão
algum lugar na Camara dessa Villa”. Em resposta, Sampaio disse:

[...] Semilhante pertenção não tem fundamento algum nem entre os


Indios, nem mesmo entre os brancos, por quanto nenhum Capitão de
Ordenanças branco deixa de Commandar a sua Companhia nem de
executar todas as Ordens relativas ao Serviço das Ordenanças em
Quanto Ocupa algum lugar de Vereador, O que VMce da minha parte
lhes fará constar afim de que assim o fiquem entendendo [...].179

Por esses dois exemplos, percebemos que os requerimentos dos índios iam
muito além de uma busca para agradar ao governador ou uma tentativa de provar
que estavam agindo da forma desejada pelo poder político, partindo inclusive de
pessoas que estavam presas. E nesse caso de 1814, Sampaio registrou mais uma
vez o que já dissemos anteriormente: os indígenas não estavam em pé de igualdade
com os brancos, como é deixado bem claro no documento. Mesmo assim, essa
situação não era inibidora da ação e articulação dos nativos em prol de seus
objetivos, estando eles ou não de acordo com o governo. Observamos também a
considerável variedade de intenções associadas a essas petições, sugerindo a
múltipla situação social dos índios. Mais do que um grupo coeso e uniforme, a
população indígena no Ceará era heterogênea, composta de individualidades e
setores diferentes, com histórias, conjunturas e possibilidades particulares. A própria
existência de requerimentos tão diversos – indo do pedido de soltura até a isenção
de funções da elite indígena local – é uma prova nesse sentido. Porém, mesmo com
toda essa diversidade, pudemos observar que essa condição não barrou a
organização de certos grupos – como foi o caso dos oficiais índios de Arronches –
que, a partir das demandas de determinados momentos, se uniram e agiram, de
acordo com o que lhes era possível, para conseguir aquilo que queriam.

179
Outubro 26. Rego de hum Officio ao Diror d’Arronches sobre varios objectos. In: Livro 19, p. 108.
236

5.4.2 Pedidos comunitários e o “prêmio da revolução de 17”

Além dos requerimentos individuais, também nos deparamos na


documentação com algumas representações de natureza comunitária, por parte dos
indígenas, na qual agiam juntos pelo bem do interesse comum. Em abril de 1812,
Sampaio expediu ofício ao diretor de Mecejana sobre uma solicitação feita pelos
índios desta vila para que protegessem as suas lavouras contra o avanço de
algumas rezes:
Os Indios da sua Direcção me representarão que elles virão
constantemente os seus roçados, e plantações destituídas pelos
Gados de Alguns Vizinhos que abusando da licença que lhes
Concedia para fazerem algumas plantações passarão a criar gado
com manifesto prejuizo dos Indios dessa Direcção. Vm ce me
Informara sobre o contheudo nesta Representação.180

Assim como aconteceu com o índio Egídio, de quem falamos anteriormente,


em Mecejana o problema apareceu de maneira semelhante: as lavouras dos
indígenas foram danificadas pela negligência dos não índios. E como já dissemos
antes, situações desse tipo não eram ignoradas pelo governador, por ser de extrema
importância que todos os setores da população mantivessem suas próprias terras de
forma ordenada e produtiva. Mas aqui há o diferencial de que, indo além de algum
interesse particular, a comunidade desta vila se organizou para conseguir proteger
os seus bens. Indo de encontro à ameaça externa, os índios de Mecejana se uniram
e buscaram apoio na política e na legislação que lhes garantisse proteção,
fortalecendo-se como um grupo que, por não estar em situação de igualdade com os
demais, possuía direitos especiais e possibilidade de lutar por eles. Ou seja, mesmo
sendo dominados pelo rei de Portugal, era justamente na inserção dessa sociedade
e nos seus elementos jurídicos que conseguiram o apoio em suas ações contra
aqueles que os agrediam.
Como podemos perceber, os índios não estavam alheios a esta sociedade
que os cercava, e nela conseguiram sobreviver pelo domínio em várias questões
específicas que lhes atingiam diretamente, tanto em termos jurídicos quanto
políticos. Conhecendo as leis a que estavam submetidos, era possível inclusive
tentar alterá-la, com objetivos diversos e de acordo com a conveniência. No Ceará
desse período não aconteceu diferente: já que aí ainda era aplicado o Diretório dos

180
14 de Abril. Registo de hum Officio dirigido ao Director dos Indios da Villa de Mecejana. In: Livro
15, p. 4V.
237

Índios (mesmo depois de sua extinção), pudemos coletar registros de tentativas por
parte de lideranças indígenas que, agindo em grupo, buscaram anular este conjunto
de leis.
Durante o mandato de Sampaio, a questão legislativa sobre os índios esteve
algumas vezes em evidência, por tentarem abolir, eles próprios, esta lei que, desde
o século anterior, fazia diminuir sua representatividade e seu direito a terra.
Aumentava o poder leigo sobre eles e, consequentemente, recrudescia a violência a
que estavam submetidos. As ações dos índios neste governo tiveram início em
1814, quando os nativos de Vila Viçosa Real elaboraram um enorme
requerimento181 dirigido à Dona Maria I, pedindo a abolição da legislação pombalina,
“justamente para quem outrora havia declarado extinto o Diretório” 182 em 1798.
Trabalhado por Maico Xavier, o autor desenvolveu uma análise detalhada e
profunda sobre este requerimento, reservando-o um capítulo inteiro de sua
dissertação. Neste documento, os indígenas “narraram sobre a dinâmica entre eles
e diretores evocando acontecimentos que se deram desde a elevação da Aldeia da
Ibiapaba” à categoria de vila, “citando o nome de cada um e descrevendo, segundo
eles, os males que aqueles haviam praticado”.183
Apresentando detalhes de seus cotidianos, bem como dos sofrimentos e
injúrias que padeciam diante de cada diretor, os nativos se colocaram diante das
autoridades na busca de alterar o plano legislativo sob o qual viviam. Pediam, ao
final das trágicas descrições, que “Vossa Magestade Fidellicima mande recolher o
Directorio por hum Decreto para que os senhores brancos, e outras qualidade de
pessoas que residem nas terras dos Indios cada hum procure as suas Patrias”. 184
Mais do que a extinção da lei, a vontade dos nativos foi além, propondo inclusive o
fim do poder dos diretores, a saída dos “extra-naturais” e, enfim, o estabelecimento
definitivo de sua própria autonomia em suas terras. Ao ratificar uma “ancestralidade,
citando nomes de Principais e destacando a participação nas guerras e serviços dos
brancos”,185 podemos ver, pela dimensão dessa ação, a enorme capacidade dos
índios de transitar entre os elementos do Império, a quem estavam submetidos.

181
Parte deste requerimento foi trabalhada no capítulo 3, item 3.4, vide p. 88.
182
XAVIER, Maico Oliveira. Cabôcullos são os brancos: dinâmicas das relações socioculturais dos
índios do Termo da Vila Viçosa Real – século XIX. Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do
Ceará, 2010, p. 81.
183
Ibid., p. 84
184
Requerimento anexo ao ofício de 20/10/1814. In: Livro 93, n.p.
185
XAVIER, 2010, p. 108.
238

Percebemos também que essa vontade de que os brancos saíssem da vila se


assemelha ao que encontramos na maioria dos requerimentos aqui analisados, no
sentido de que boa parte das reclamações dos nativos tinha como motivo os danos
causados pelos vizinhos brancos que habitavam suas terras. Além disso, tal pedido
se configurou como uma manifestação identitária dos indígenas, ao irem à
contramão das diretrizes pombalinas de inserção dos índios na sociedade lusitana,
por meio da busca de existirem socialmente e serem percebidos como distintos.186
Todavia, a resposta do governo imperial foi negativa. Em ofício de outubro
deste ano, dirigido a Sampaio, o ministro do reino Marques de Aguiar colocou que o
“Principe Regente Meu Senhor” mandou informar que “sobre as pertenções dos
supplicantes [...] o Mesmo Senhor as não Resolve”.187 Mas mesmo expressando o
“não comprometimento do Estado com os interesses indígenas naquele insejo”, 188
tal tentativa dos índios de Viçosa Real mostrou que estes “não ficaram inertes ante a
nova situação que se configurava”, sendo fruto da “compreensão indígena em
relação às mudanças ocorridas ao longo dos anos e sobre a realidade na qual se
inseriam naquele momento”.189
Não obstante o pedido dos índios de Viçosa não ter sido atendido por Dom
João IV, as questões acerca das tentativas de mudanças na legislação continuaram
a aparecer na documentação de datas posteriores. No mês de maio de 1815,
Sampaio enviou ofício ao diretor e ao sargento-mor da Vila Viçosa Real, pedindo
suas opiniões em relação ao pedido feito pelas autoridades índias da capitania. De
acordo com o governador, um requerimento produzido pelos “principaes Indios das
Villas de Arronches, Soure, Mecejana, e Villa Viçosa” foi levado por eles “no anno de
1790 aos pes do Throno dos nossos Augustos Soberanos pedindo que se alterem
alguns dos artigos do Directorio por que se governão”.190 Apesar do pedido ter sido
feito 25 anos antes deste ofício, o reaparecimento do assunto se somou a ação
movida pelos nativos da Ibiapaba no ano anterior, sugerindo que ele não havia sido
esquecido pelos indígenas requerentes, mesmo depois da negativa da corte. Tal
situação levou inclusive o governador a consultar o pensamento dessas autoridades

186
BOURDIEU, 1998, p. 118.
187
Ofício de 20/10/1814. In: Livro 93, n.p.
188
XAVIER, 2010, p. 109.
189
Ibid., p. 108.
190
Maio 12. Offo ao Sargmor e Diror de [?] Villa Visa pa dar a sua Informação sobre 1 requerimento q’ os
Indios levarão ao Throno do Principe pedindo abolição d’alguns artigos do Directorio. In: Livro 20, p.
19.
239

em Viçosa: justamente àqueles que faziam parte do grupo social denunciado pelos
requerentes.
Já em agosto de 1816, o tema voltou a aparecer na documentação, desta vez
em um ofício dirigido ao governador do Maranhão, no qual foram tratados assuntos
diversos. Em certa parte do documento, Sampaio pediu ao líder do governo
maranhense uma cópia do Regimento das Missões contido no “Directorio dos Indios
de 1757 de que prezentemente muito necessito” para que, com isso, pudesse dar
seu parecer à Mesa de Desembargo do Paço “sobre hum requerimento dos Indios
desta Capitania em que pedem que se revogue ou annulle o dito directorio”,191 em
referência ao documento de 1814 por nós analisado anteriormente. Este trecho
novamente nos sugere o que já dissemos: passados quase dois anos, esta polêmica
questão continuou insolúvel, já que Sampaio ainda haveria de dar seu parecer sobre
ela. Além disso, os índios não deixaram de lado o desejo de alterar as leis que os
comandavam, mostrando que não eram passivos neste universo em que viviam.
Mesmo inseridos em ambiente no qual não mais tinham nenhuma liberdade de
manifestar seus costumes e cotidianos próprios, isso não os impediu de agir. Foi
justamente neste “novo” mundo e com a apropriação de seus elementos – inclusive
das leis e dos recursos jurídicos – que tentaram realizar os seus objetivos.
Este não foi o único evento em que os nativos procuraram alterar a legislação
que lhes regia na busca de concretizar seus interesses. Num momento de
importante contribuição a serviço da Coroa, os índios foram premiados, em 1819,
pelo rei Dom João VI, por conta de sua participação na Revolução Pernambucana
de 1817. Conforme dissemos anteriormente, a inserção destes nativos na guerra,
demonstrando lealdade ao monarca, possibilitou-lhes “conseguir diversas vantagens
individuais”, além de “melhorias para suas comunidades, como aconteceu no caso
da isenção dos impostos”.192 No mês de fevereiro de 1819, o soberano do Império
português expediu um decreto “isentando os indios do Ceará, Pernambuco e
Parahyba de pagarem o subsidio militar, e porcentagens aos Directores das aldeias”.
De acordo com o texto do Instituto do Ceará sobre a administração de Manuel
Ignácio de Sampaio, os nativos que lutaram nos conflitos foram premiados

191
Agosto 31. Registo de hum officio dirigido ao Exmo Governador do Maranhão [...] sobre a copia do
Regimto das Antigas Missoens dos Indios. In: Livro 23, p. 111V.
192
COSTA, 2010, p. 12.
240

[...] por sua fidelidade á Coroa com isental-os do pagamento do


Subsidio militar... O dito Dec. estatuiu mais que as patentes dos
mesmos Indios sejam isentas do direito de sello [...] e que elles não
sejam mais obrigados a pagar quotas partes aos ditos directores aos
quaes dora em diante se estabelecerá o que for devido.193

Por obediência a essa ordem régia, Sampaio expediu em setembro deste ano
uma circular a todos os diretores de vilas de índios no Ceará, onde os ordenou que

[...] de ora em diante não deve Vm ce mais receber dos Indios dessa
Direcção os 6 por cento que ategora lhe tocavão do producto das
culturas dos mesmo Indios mas tambem que no fim de cada quartel
mandará receber na Thesouraria Geral do Real Erario desta
Capitania o ordenado que a Junta da Real Fazenda lhe arbitrou na
forma das Ordens de S. Magestade.194

Constatamos que a participação dos índios não se deu de maneira inocente.


Além de terem sido obrigados a lutar nos conflitos, os nativos recrutados agiram
também de forma pensada, e o seu suposto entusiasmo, registrado na
documentação, pode ser interpretado como sinal de discernimento frente à situação
que estavam envolvidos, bem como da busca intencional de benefícios.195 Dessa
forma, todos esses “prêmios” ligados aos impostos que recebiam não significaram
pura “bondade” dos governantes, mas principalmente de conquistas de indígenas
que conheciam bem a realidade em que viviam.
Porém, as ações dos índios em busca de mais vantagens para si e suas
comunidades não pararam por aí. Agindo em conjunto, os nativos não só mostraram
fidelidade ao rei, como também buscaram conseguir benefícios além daqueles já
adquiridos. Pelo que observamos na documentação, os indígenas da Vila de Monte-
Mor Novo tentaram, através de requerimento dirigido ao governador da Capitania do
Ceará, em dezembro de 1819 – três meses depois da circular encaminhada aos
diretores de índios – conseguir o abatimento de outro imposto, desta vez daquele
relativo à manutenção dos prédios públicos. Por conta deste pedido, Sampaio
enviou ofício ao capitão-mor desta vila tratando de diversos assuntos, e entre eles,
disse-lhe que ficasse

193
ADMINISTRAÇÃO Manuel Ignácio de Sampaio (1º visconde de Lançada), Revista do Instituto do
Ceará, Fortaleza, ano 30, p. 240, 1916.
194
Setembro 16. Circular dirigido aos Directores de Indios desta Capitania para não perceberem mais
os 6% que ategora cobravam das culturas dos d os Indios. In: Livro 22, p. 86.
195
COSTA, 2010.
241

[...] na inteligencia de que os Indios por serem Indios não deixão de


ser Vassallos de S. Magestade, e como taes sugeitos a todos os
tributos da mesma forma que os outros Vassallos excepto áquelles
tributos de q’ S. Magestade os tem expressamente aliviado, em cujo
caso naõ está á Decima dos Predios Urbanos. Mas sobre tal objecto
podem os mesmo Indios requer á Junta da Real Fazenda desta
Capitania a quem exclusivamente toca a decisão de similhantes
requerimentos.196

Ao negar o pedido dos nativos, Sampaio ordenou ao capitão-mor que fosse


deixado bem claro aos índios que, apesar de terem uma condição social específica
naquele universo, segundo vimos em outros momentos do texto, não seria por isso
que deixariam de ter as mesmas obrigações dos outros súditos do Império
português, inclusive tributárias. Na verdade, era justamente essa a intenção da
política indigenista de Portugal em todo o Brasil: a transformação daqueles antigos
“bárbaros” silvícolas em “vassalos” fiéis, cristãos e civilizados. A própria cobrança de
impostos e o seu recrutamento em conflitos que ameaçavam a autoridade do poder
real podem ser compreendidos como estratégias de controle, disciplinamento e
inserção dos indígenas na sociedade colonial. Até a premiação dada a esses índios
foi uma ação governamental que agiu com o objetivo de incentivar o amor desses
povos à coroa lusitana.
Mas como foi possível constatar, os nativos não se comportaram de maneira
inerte frente às práticas governamentais, como se tais acontecimentos os
arrastassem de forma irresistível e sem deixar-lhes espaços para movimentação,
resistências ou negociações. Mesmo sem poder negar o recrutamento, o evento de
1817 serviu como oportunidade para que os indígenas obtivessem ganhos, dos
quais possuíam suficiente conhecimento. Inclusive, a consciência que tinham da
realidade em que viviam foi tal que lhes permitiu requerer o abatimento de mais
impostos, contrariando por isso o governador da capitania e fazendo-os lembrar de
suas condições, mas ainda, assim, não descartando a possibilidade que tinham de
recorrer à Junta da Real Fazenda. Percebemos que não só os índios conheciam os
aspectos legais e tributários daquele mundo – os tipos de impostos que lhes eram
cobrados – como também as formas de agir para conseguirem isenções. A produção
de um requerimento que pedia a ampliação dos benefícios adquiridos foi mais um
exemplo das constantes táticas de índios que, ao contrário do que sugeriu o silêncio

196
Desembro 16. Officio dirigido ao Cap mor de Monte Mor o Novo em resposta á Officios do dito
Capitão Mor. In: Livro 22, p. 126V. Grifo nosso.
242

da historiografia tradicional, buscaram frequentemente manipular os elementos


desse universo onde eram obrigados a viver.
Nesses embates travados entre os grupos indígenas e governo, por meio dos
requerimentos, se configurava uma disputa pelo “poder de reger as fronteiras” entre
o que era ou não permitido a esses “vassalos de Sua Majestade”, ou mesmo o que
os definia enquanto tais. Por meio dessas ações legais, os nativos travaram lutas
pelo poder de nomear e definir sua própria “visão do mundo” e suas identidades, 197
nascidas dos constantes conflitos simbólicos entre as imposições governamentais e
as resistências das comunidades e indivíduos indígenas.
A documentação colonial, referente a requerimentos de índios, nos
possibilitou, através de uma análise acerca da realidade daquele período, rediscutir
certas “verdades” construídas ao longo do tempo sobre essas populações. Ou seja,
o silêncio que havia sobre o passado dessas pessoas não se explica a partir da
carência de vestígios ou de uma suposta “inércia histórica” que os revestiria, mas
sim de escolhas e interesses bem precisos. Se ainda hoje alguns setores da
academia encaram os indígenas na condição de massa amorfa e inerte, acometida
passivamente pela dominação colonial, trabalhos recentes trazem à tona as criativas
e inovadores capacidades de resistência nativa ao longo da história.198 O que a
historiografia atual revela é que o interesse faz parte da condição humana, e, como
tal, ainda que os nativos não fossem reconhecidos dessa forma, eles possuíam
desejos, que dialogaram, e muitas vezes digladiaram com os governantes para
assim construírem a história do Ceará.
Isso não quer dizer que as populações nativas dominavam a situação, ou que
a colonização não teria sido tão agressiva para eles. Muito pelo contrário,
percebemos que, com o passar do tempo, a vida desses povos tendia a ficar cada
vez mais difícil, e sua liberdade ainda mais cerceada. Não é possível que haja
dúvida: no mundo colonial, os índios eram os dominados, e todo o projeto
colonizador dirigido para eles tinha como propósito a destruição de suas práticas
culturais e sua consequente inserção no mundo civilizado. Nesse sistema, o fato de
“ser um súdito cristão [como eram os índios das vilas pombalinas] não implicava
absolutamente numa condição de igualdade”.199

197
BOURDIEU, 1998, p. 123.
198
BOCCARA, 2005, p. 7.
199
ALMEIDA, 2003, p. 92.
243

Porém, uma vez dentro desse universo, as populações indígenas nunca se


colocaram de forma passiva diante dos acontecimentos; ao contrário, lutaram com
os recursos que lhes eram disponíveis em prol de seus objetivos. Até mesmo a
“assimilação” do modo de vida ocidental, longe de ser resultado de uma suposta
fraqueza diante de uma cultura mais forte, se configurava ação diante de uma
conjuntura de onde não era possível fugir. A partir daí, percebemos que assimilar
algo passa a significar apropriar-se de determinado elemento com um fim específico.
As “políticas indigenistas desenvolvidas por membros do Império português”, seja
em termos mais amplos, como foi o caso do Diretório, ou em âmbito mais local,
como o que acontecia na capitania cearense, “adquiriram uma dimensão
fundamental, pois era em relação às mesmas que os índios se autodefiniam,
individual e coletivamente, e projetavam as suas ações”. 200 Se os índios do Ceará
colonial pediram, lutaram e agiram – nos campos políticos, jurídicos e legislativos –
em prol de seus interesses, como os requerentes que apresentamos, isso significou
que sua história, longe de materializar a lenda do “papel em branco”, foi feita
também, e efetivamente, por eles.

5.5 Atrevidos gentios do Pajahú

[...] pra gente ver o que sobrou do céu.


O Rappa

Havia ainda uma última fronteira a ser conquistada. Não no sentido


quinhentista das grandes navegações e explorações, mas por meio de uma
racionalização bem mais minuciosa, que prometia transformar profundamente a
realidade socioeconômica do Ceará. Conforme vimos, ao longo deste trabalho,
políticas de passaporte, que limitavam o trânsito de pessoas pelo território,
recenseamentos e mapas estatísticos das vilas e companhias militares, bem como
reformas de prédios e edificações públicas foram alguns exemplos de práticas que,
da mesma forma que se fazia na Europa desde o século anterior, tentavam
esquadrinhar, dividir, ordenar e controlar terras, pessoas e cotidianos nessa periferia
imperial.

200
GARCIA, Elisa Frühauf. As diversas formas de ser índio: políticas indigenistas e políticas
indígenas no extremo sul da América portuguesa. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2009. p. 304-305.
244

O povo, especialmente os índios espalhados pelas praias e sertões, seria


monitorado, recrutado e forçado a exercer trabalhos – principalmente agrícolas –
para finalmente inserir a capitania em uma dinâmica de mercado produtiva. Todos
aqueles que se opusessem ao sistema, quer seja com fugas, assaltos a plantações
quer seja com a recusa aberta, seriam sumariamente presos e punidos,
constituindo-se, dessa maneira, alvos principais da chamada “caça aos vadios” ‒
declarados durante aqueles primeiros anos dos oitocentos.
Entretanto, ainda havia um pedaço do Ceará que necessitava ser
conquistado. Não que todo seu povo estivesse sob controle, mas ainda restava um
lugar a ser monitorado; a morada de um povo ainda solto, errante, “bárbaro”, que
ameaçava roças, plantações e o desenvolvimento que se queria instalar. Esta terra
era a região do Cariri, mais precisamente nos arredores das vilas do Crato, Jardim e
Missão Velha (conforme as Figuras 14 e 15, a seguir). Por lá andavam “gentios
indômitos”, acusados de atentarem contra criações de gados na região de fronteira,
entre as capitanias da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Chamados de humões, oés
ou xocós, seus nomes aparecem pela primeira vez na documentação de Sampaio
em dezembro de 1813, em ofício dirigido ao governador de Pernambuco:

Os povos da Ribeira do Riacho dos porcos Freguesia da Missão


Velha termo do Crato, e mais circunvizinhanças se me tem queixado
dos roubos e outros insultos que por vezes tem sofrido, e sofrem dos
gentios Human, Oé, e Xocó, que vagueam nas extremas desta com
esta Capitania, e com a da Paraiba; e segundo as informações, o
que mandei proceder, parece que estes insultos augmentão quando
V.Ex.cia manda nessa Capitania perseguir o dito gentio indomito, ou,
como dizem, lançar bandeira contra elle, como com effeito he natural,
porque perseguidos de hûa parte vem naturalmente abrigar-se em
outra. Nestes termos parecia-me justo que quando V.Ex.cia houvesse
de os mandar perseguir, e expulsar dessa Capitania, eu desse
iguáes providencias nos confins desta.201

201
Dezembro 1. Registo de hum officio dirigido ao Governador e Capitam General de Pernambuco
pedindo-lhe que na ocasião de mandar perseguir os Gentios indomitos, q.’ vagueão nas extremas
desta com as Cap.nias de Pernambuco e Paraiba, participe a este governo p. a se darem iguáes
providencias. In: Livro 23, p. 37.
245

Figura 14 - CARTA topográfica dos termos da vila do Crato, e S. Antonio do Jardim, capitania
do Ceará, levantada por Antonio Joze da Silva Paulet,Tenente Coronel Engenheiro, 1814.

Fonte: Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, Setor de manuscritos, Diversos


Códices – SDH, cód. 807, vol. 7, fl. 86 (apud GOMES, 2009).

Figura 15 - Região de atuação dos “gentios do Pajahú” – Cariri / CE.

Fonte: Acervo do Autor.


246

Perseguidos em uma parte, logo se tornavam fugitivos em outra. Vagando


entre as fronteiras destas capitanias, tentavam sobreviver das investidas dos
colonos e dos exércitos. Tratava-se dos prováveis últimos índios não aldeados
daquela região, os últimos índios “livres” no Ceará. Dizemos “livres“, entre aspas
mesmo, porque, apesar de não terem sido recrutados para aldeias ou vilas
pombalinas até aquele momento, viviam nos limites do Império de Portugal,
espremidos entre ataques de proprietários e as investidas do poder real. Por outro
lado, ainda conheciam certa liberdade que os nativos aliados não podiam viver, sem
serem ainda recrutados ao trabalho de aluguel em casas de particulares, sem
poderem sentar praça em tropas de Ordenanças, sem serem obrigados a largar
suas crenças nem poderem rezar para o Deus cristão, sem conhecerem, de certa
forma, o “inferno” do mundo da disciplina. Conseguiam sua liberdade, entendida aqui
como um conceito que, segundo Elias, “adquire sua razão de ser por meio dos
embates pela sobrevivência”,202 por meio da contínua resistência ao sistema
indigenista colonial.
Nos anos finais de seu governo, Sampaio entrou em conflito com esses
“gentios”, denominados por ele de “flagelos” e que davam enorme prejuízo ao seu
plano de crescimento econômico. Na verdade, como poderia ser admissível ainda
manter soltos tais grupos, quando se tentava montar um mundo totalmente novo na
capitania, no qual as pessoas deveriam estar em seus devidos lugares e produzindo
de forma regular? É a rede deste complexo cotidiano que procuraremos tecer aqui.
Com base em registro de ofícios do governo dirigidos a autoridades de dentro e fora
da capitania, foi possível observar as oscilações e flexibilidades que fizeram parte
tanto da política indigenista de Sampaio quanto das atitudes dos próprios índios,
bem como os dilemas contidos em todos os agentes envolvidos: no caso do
governo, se os atacavam de vez ou se buscariam recrutá-los para as vilas, e, no
lado dos chamados “gentio do Pajahú”, havia a opção de rendição ou resistência,
mas tentando, de uma maneira ou de outra, inventar suas próprias vidas e serem
“livres” no seu próprio lugar.

202
ELIAS, 2005, p. 88.
247

5.5.1 A política indigenista aos índios “bravios” no século XIX e o aldeamento da


Cachorra Morta

A constante heterogeneidade que caracterizou o século XIX no Brasil 203 está


presente em diversos aspectos que fizeram parte da história deste país, tanto na
questão política – já que, em apenas um século, conheceu quatro regimes diferentes
– quanto no âmbito social. De proporções continentais, suas diversas regiões
abrigavam vasta complexidade de povos, e a análise específica de cada grupo não
tornou o trabalho do historiador mais simples. No caso da população indígena, por
exemplo, um dos sinais de tamanha contradição está na política e legislação voltada
para eles. Como já vimos anteriormente, de acordo com Perrone-Moisés, as
oscilações características de tal quadro legal podem ser reduzidas, se atentarmos
para as especificidades de cada caso e região, além de ser necessário fazer um
corte básico na população indígena da época: de um lado os índios aliados, que
habitavam vilas e aldeias; e do outro, o chamado “gentio brabo”, como eram
conhecidos os índios não aldeados. Com isso, a legislação e política indigenista “já
não parecem como uma linha tortuosa crivada de contradições, e sim duas, com
contradições menos fundamentais”,204 tendo tratamentos bem diferentes,
dependendo de qual dos dois grandes grupos elas se relacionassem. Dessa forma,
a “existência de duas linhas de política indigenista está provavelmente relacionada a
duas reações básicas à dominação colonial portuguesa: a aceitação do sistema”,
que não significava, necessariamente, passividade, “ou a resistência”,205 que
também não queria dizer, sempre, combatê-la abertamente sem negociações.
Com isso, podemos observar que os chamados índios bravios, tema deste
estudo, eram compostos pelos “grupos que vão sendo progressivamente
encontrados e guerreados nas fronteiras do Império”, 206 como foi o caso dos nativos
que habitavam a região fronteiriça entre Ceará, Paraíba e Pernambuco. Eram
comumente repudiados pela sociedade e pelo governo, pois se por um lado
atrapalhavam consideravelmente a produção econômica, com assaltos a plantações
e criações de gado, eram retratos de um povo completamente distante do ideal de
disciplina e modernidade que se queria implantar nas terras de Portugal, recebendo

203
CUNHA, 1998, p. 133.
204
PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 117.
205
Ibid., p. 129.
206
CUNHA, 1998, p. 136.
248

por excelência a reputação de serem possuidores de “indomável ferocidade”.207 Mas


mesmo que o corte analítico de Perrone-Moisés facilite muito o trabalho do
pesquisador, ele não exclui a complexidade dos vários episódios de contato entre o
poder real e os povos silvícolas, muito menos das diversas reações desses lados.
Ou seja, a relação entre governos e proprietários rurais com esses povos, por mais
violenta que fosse, não estava isenta de exceções, flexibilidades e negociações.
Segundo afirma Cunha, ideias que pregavam o ataque aberto conviviam, ao longo
do século XIX, com políticas “complacentes” que pretendiam inseri-los, de maneira
“amistosa”, no seio da sociedade e do mundo produtivo.208 O mesmo contexto
poderia ser repleto de oscilações, fazendo com que a atitude das autoridades
pendesse para um lado ou para outro, dependendo da situação, como foi o caso da
história dos índios do Pajahú. Mesmo assim, aquele antigo lugar de índios se
constituía cada vez mais como um “não-lugar”, onde não mais o dominava ou tinha
nele autonomia,209 e, no seio destes contatos, a “força aplicada para a realização do
projeto colonial fazia a balança pender indiscutivelmente para o lado europeu”.210
Mas essa complexidade não foi reveladora de uma suposta passividade dos
nativos diante dos acontecimentos, antes se constituindo como consequência de
seus papéis como ativos “atores da colonização”.211 Na verdade, a história dos
índios no Brasil foi marcada pelo constante choque entre as estratégias do poder e
as táticas indígenas que agiam justamente dentro desses sistemas, subvertendo-os
“a partir de dentro”, não necessariamente rejeitando-os, “(isto acontecia também),
mas por cem maneiras” de empregá-los, usá-los e deformá-los “a serviço de regras,
costumes ou convicções estranhas à colonização da qual não podiam fugir”. Ou
seja, os índios buscavam realizar seus interesses também por meio de negociação
com as autoridades, mesmo sem poder livrar-se delas.212
A complexidade dessa rede de impasses que constituíam os contatos entre o
Império português e os chamados “índios bravios” também fez parte da história dos
silvícolas que vagavam pelas fronteiras ao sul do Ceará no século XIX. Como nos
conta Guilherme do Valle, esses povos que habitavam “lugares como Jardim, Pajeú
e Carnaúba”, e identificados como “Xocós, Humões e Quipapazes”, foram

207
CUNHA, 1998, p. 136.
208
Ibid., p. 136-137.
209
CERTEAU, 2008, p. 46-47.
210
PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 129.
211
Id. ibid.
212
CERTEAU, 2008, p. 94-95.
249

contatados por autoridades pernambucanas e cidadãos cearenses na primeira


década dos oitocentos, com a intenção de os aldearem, oferecendo-lhes terra para
cultivo, mas aparentemente sem sucesso.213 Quase cinquenta anos depois, os
chamados índios xocós, que viviam na região de Milagres, comarca de Jardim,
sofreram uma drástica redução demográfica, “quando de 300 pessoas sobravam
apenas 30”, por conta de constantes choques entre eles e sertanejos criadores de
gado.214 Por conta disso, autoridades e intelectuais como Antônio Gonçalves Dias,
Pedro Theberge e Manoel José de Souza, presidente da província, resolvem buscar
alternativas para protegê-los, e, em 1860, foi criado o aldeamento da Cachorra
Morta, sob a direção de Manoel de Souza. A partir daí, os relatos na documentação
sobre o que sobrou dos últimos índios aldeados no Ceará parece ter se tornado
cada vez mais escasso.215
Por sua vez, o relato de Valle contém uma lacuna de trinta anos, que vai de
1809, quando houve a tentativa de contato dos pernambucanos, até 1839, quando
se reacendeu a discussão provocada pelos danos causados por esses nativos a
proprietários e viajantes que atravessavam aquela região. É justamente nesse
intervalo de tempo que se encontram o governo de Sampaio e os registros dos
choques que ocorreram entre essa autoridade, que pretendia levar a “modernização”
e disciplina ao povo do Ceará, e os “gentios do Pajahú”, que ainda resistiam à
redução em vilas pombalinas, constituindo-se como os que mais haviam conseguido
guardar aquilo que sobrou de antigos costumes de antes da chegada da “civilização”
trazida pelos europeus.

5.5.2 Os “atrevidos” gentios do Pajahú

Depois dos problemas envolvendo levas de índios não aldeados, que


vagavam na região de Missão Velha em 1813, já citados anteriormente, os registros
na documentação sobre esses grupos só reaparecem em 1817, curiosamente
durante os conflitos da Revolução Pernambucana. Segundo as fontes, os
insurgentes fugitivos acabavam se escondendo pelo sertão, e encontrando abrigo

213
VALLE, Carlos Guilherme Octaviano do. Aldeamentos indígenas no Ceará do século XIX: revendo
argumentos históricos sobre desaparecimento étnico. In: PALITOT, Estevão Martins (Org.). Na mata
do sabiá: contribuições sobre a presença indígena no Ceará. Fortaleza: Secult / Museu do Ceará /
Imopec, 2009. p. 130.
214
Ibid., p. 131.
215
Ibid., p. 131-132.
250

em meio aos gentios. De acordo com Sampaio, em ofício do dia 27 de maio, dirigido
ao Coronel Alexandre Leite, comandante das tropas das fronteiras, os “generais
traidores da corôa do Rio do Peixe procurão salvar-se entre o Gentio Pajaú”. Em
seguida, revelou uma das razões pelas quais enviou uma tropa de trezentos índios
recrutados de vilas próximas a Fortaleza: “Os Indios que ora lhe envio [...] são muito
próprios para atacar o Gentio, e tirar do meio delles os taes coroas”216, como já
vimos no capítulo anterior. Mas parece que tal missão de ataque ao gentio não teve
o sucesso esperado, pois, no dia 18 do mês seguinte, Sampaio lamentava-se ao
mesmo Coronel por não ter iniciado a investida das tropas para o Recife em uma
data anterior, lembrando-lhe de o quanto “teria sido util esta marcha se pudesse já
ter tido lugar, o que evitaria a fuga dos taes rebeldes de Pernambuco para o Gentio
de Pajaú”.217
Conforme podemos observar, os relatos acerca do contato destes povos com
os insurgentes pernambucanos não dão esclarecimentos dos acordos acertados,
dos interesses em jogo, ou de mais detalhes sobre o envolvimento desses índios
nos conflitos, bem como sobre o desenrolar dessa história; porém podemos
compreender, com base nesses registros, que diferentemente do que apresenta a
historiografia tradicional relativa à Revolução Pernambucana de 1817, segundo a
qual os agentes sociais periféricos sempre aparecem na condição de “manipulados”
pelas lideranças envolvidas nos combates,218 as participações de indígenas nesses
conflitos indicaram sua capacidade de negociação com as diversas partes
envolvidas e a busca pela realização de seus próprios interesses. De acordo com
Marcus Carvalho, em muitos casos, os indígenas saíam fortalecidos e com mais
poder de barganha das alianças que faziam com os proprietários, revelando que “as
comunidades tinham interpretações próprias daqueles acontecimentos e agiam de
acordo com elas”.219 A aliança dos gentios do Pajahú com os insurgentes “não era
algo que fazia dos índios meras peças da manipulação”, mas antes se constituíam
“oportunidade de vantagens” para eles.220 Além disso, como mostra a própria

216
Maio 27. Offício ao mesmo Coronel Leite, remetendo-lhe 2ª Via de offício de 26, e tornando a
insinuar-lhe a sua marcha ate o Recife. In: Livro 24, p. 11V.
217
Junho 18. Officio ao mesmo Coronel Leite em resposta ao seu officio de 7 do corr e., e ordenando-
lhe que faça immediatam.te recolher-se ao respectivo districto o Cap.mor João de Araujo Chaves com o
seu destacamento, e sobre varios outros objetos relativos a revolução, e a entrada das tropas desta
Cap.nia na da Paraiba. In: Ibid., p. 22V.
218
Como vemos constantemente em MOTA, 1972, p. 88, 144 e 189.
219
CARVALHO, 2002, p. 67.
220
COSTA, 2010, p. 11.
251

historiografia aqui referida, o fato de ter havido participação indígena dos dois lados
revela também a variedade de modos de vida e interesses entre as comunidades
nativas.
Mas 1819 parece ter se constituído como o período crucial na história desse
grupo. Na última fronteira a ser conquistada pelas mãos disciplinadoras do governo,
explodiu o conflito entre os “gentios do Pajahú” e os proprietários rurais. Notemos
que, até então, as referências documentais sobre eles são escassas, mas aqui o
fato de ter havido interferência no plano de desenvolvimento agrícola fez com que
eles ressurgissem nos registros do governador. O motivo para tanto movimento foi
que, nesse ano, Sampaio recebeu informações de moradores dos arredores da Vila
Crato que reclamavam os prejuízos agrícolas que lhes tinham causado os índios
bravios da região – os mesmo que, dois anos antes, abrigaram os revolucionários
pernambucanos. Por conta disso, formou-se uma Comissão para realizar o ataque
àquele grupo “indômito”, e diversos documentos foram expedidos da sala do
governador no dia primeiro de março, sendo o primeiro deles uma portaria a favor de
Gregório do Espírito Santo, morador de Jardim, e que viria a ser o líder dessa
investida:
Qualquer Official Militar de Milicias ou Ordenanças e em geral todos
os Habitantes desta Capitania a quem for apresentada esta minha
Portaria deverão prestar a Gregorio do Espirito Santo todo o auxilio
que por elle lhes for pedido a bem da importante Comissão de que
está encarregado do ataque do Gentio de Pajahú ficando-me
especialmente responsavel todo aquelle que assim o não praticar
tendo esta Portaria vigor tão somente por espaço de seis mezes.221

Após mobilizar todas as autoridades da Capitania, especialmente os militares,


para o auxílio da Comissão de ataque, Sampaio enviou ofício ao próprio Gregório,
relatando-lhe as reclamações dos moradores dos “Certoens limitrofes das
Capitanias de Pernabuco e Paraiba” acerca dos “grandes prejuizos que nestes
últimos tempos lhe tem causado o Gentio do Pajahu”:

[...] devastando-lhes atrevidamente parte das plantaçoens e


commettendo repetidos roubos de gados. Desejando pois evitar a
continuação de taes depredaçoens Ordeno a Vm e que [...] haja de
convocar os moradores desses arredores, armando-os como lhe for
possivel forme huma bandeira e passe a atacar o referido Gentio
aprizionando os que poder e afugentando o resto a fim de por esses
povos a salvo de taes insultos, e roubos. Ao Capitan Mor Joze
Pereira Filgueiras tenho em data de hoje ordenado que preste a Vm e
221
Março 1. Porta a favor de Gregorio do Espirito Santo. In: Livro 28, p. 151.
252

todos os auxilios que Vm e houver de requerer e que forem


necessarios para o perfeito cumprimento dessa Comissão. [...] Todos
os gentios que Vm e aprizionar deverão ser entregues ao mesmo
Capitan Mor Joze Pereira Filgueiras para elle os remetter para esta
Capital, e serem distribuídos pelas Viillas dos Indios que ficam
visinhas.222

Sampaio mandou armar todos os “moradores desses arredores”; formou-se a


“bandeira” de ataque ao gentio do Pajahú. Notemos que o grande motivo de tal
mobilização social contra esse grupo ficou explícito nesse trecho: o “atrevido” ataque
às plantações e os roubos de gado dos proprietários da região. Tais “atrevimentos”
feriram profundamente tanto os colonos quanto os planos do governo de
desenvolvimento econômico; por isso não mais se poderia tolerar. Para tamanha
ofensa, foi convocada uma autoridade militar – o capitão-mor José Pereira Filgueiras
– para colaborar na campanha, estando à disposição para prestar auxílio em tudo
que o líder da comissão “houver de requerer e que forem necessarios” para o seu
“perfeito cumprimento”. Contudo, podemos observar que o objetivo não era
simplesmente aniquilar todos os gentios: antes, o que realmente se queria era, se
conseguissem, aprisioná-los, para que fossem entregues ao capitão-mor Filgueira,
e, em seguida, “serem distribuídos pelas Villas dos Indios que ficam visinhas”. Com
isso, podemos notar o grande potencial de força de trabalho que tinham os gentios,
não podendo, por isso, ser desperdiçado. Além do mais, observamos o forte caráter
subjetivista das vilas de índio; estas funcionavam como uma espécie de “fábrica-
escola”; constituíam-se ideais para transformar aqueles “atrevidos bárbaros” em
verdadeiros homens civilizados e produtivos.
Mas a mobilização não se direcionou somente aos moradores do Ceará.
Neste mesmo dia, foram expedidos ofícios aos governadores de Pernambuco e
Paraíba, para colaborar com o cerco, enviando também oficiais de seus regimentos,
evitando dessa maneira que se repetisse o problema apresentado no já citado
documento de 1813. Os dois ofícios, de conteúdos semelhantes, relatam acerca do
requerimento de vários “moradores do termo da Villa do Crato”, comprovado pelo
ouvidor da comarca, pedindo para que se expulsassem os gentios:

Por falta de registos antigos nada consta nesta secretaria a respeito


do que em outras similhantes occasioens se tem praticado para
expulsar o gentio de quem se queixão, mas a tradição geral combina

222
Março 1. Offo a Gregorio do Espirito Santo morador no Jardim para formar huma Bandr a e hir
atacar o Gentio de Pajahú. In: Livro 28, p. 152.
253

exactamente com o que propôe o Ouvidor da Comarca na sua


informação. Tenho por tanto ordenado a Gregorio do Espirito Santo
que passe a perseguir aquelle gentio... Dignando-se V.Ex.a querer
concorrer p.a o socego dos povos limitrofes das trez Capitanias [...]
seria para desejar que V.Ex. a ordenasse ao Official encarregado por
V.Ex.a desta Comissão que se entendesse com o sobredicto
Gregorio do Espirito Santo, assim como tambem com o Official que
da parte da Capitania de Pern.co tiver huma semelhante ordem.223

Logo no início do documento, o governador falou da falta nos registros antigos


sobre qualquer coisa a respeito das atitudes tomadas em ocasiões semelhantes,
revelando que, possivelmente, essa foi a primeira vez que se fez um plano
sistemático de ataque contra esses grupos, apesar de que o formato da investida –
armando os moradores em uma “bandeira” – já estava presente na “tradição geral”.
Concluindo a formação da Comissão com o apoio de oficiais das capitanias da
Paraíba e de Pernambuco, Sampaio pretendeu fechar o cerco, acabando finalmente
com o “atrevimento” daqueles gentios. Entretanto, a ofensiva parece não ter
alcançado o sucesso inicial esperado, pois, no dia 28 do mesmo mês, o governador
emitiu uma nova portaria a favor de Gregório do Espírito Santo, com o mesmo teor
da primeira, mas dessa vez estabelecendo que permanecesse em vigor “por espaço
de hum anno”,224 e não mais os seis meses que foram instituídos anteriormente.
Depois desta data, passaram-se vários meses sem que aparecesse na
documentação qualquer detalhe sobre os conflitos nas fronteiras. Só em dezembro
de 1819, em uma véspera de Natal, os registros reapareceram, e, em ofício
expedido ao líder da Comissão, o governador relatou os resultados da campanha de
ataque ao gentio:

Acabo de receber o seu officio de 7 de 9bro [novembro] em que vmce.


me expõe os motivos que o embaraçarão de atacar o Gentio de
Pajahú como eu lhe havia ordenado. Estimo que o resultado desta
medida fosse a oferta q’ elles vieram fazer para se aldiarem fim
principal a que se dirigem todas as Bandeiras, e mais operaçoens de
semelhante natureza. E posto que Vmce. pela tão antiga prática de
muitos annos afiança pouco a conservação do Indios na dita nova
Aldeia (em cuja opnião eu tambem não terei duvida de concordar)
contudo pede a prudencia que se não despresem já mais similhantes
offertas, ou suplicas, e a todo o tempo que elles tornem aos seus

223
Março 1. Officio dirigido ao Ill.mo e Ex.mo Senh Governador da Paraiba sobre a expulsão do Gentio
que ficão nas fronteiras das Capitanias de Pern co Paraiba e Ceará; Março 1. Officio dirigido ao Ill. mo e
Ex.mo General de Pernambuco sobre a expulsão do Gentio. In: Livro 30, p. 47V e 48.
224
Março 28. Porta a favor de Gregorio do Espirito Santo. In: Livro 28, p. 162.
254

antigos costumes se lhes repetirá tambem o competente ataque com


as medidas de rigor que forem necessárias [...].225

Após nove meses do início dos conflitos, os indígenas resolveram entrar em


negociação com a Comissão, e, para pôr fim aos ataques contra eles, concordaram
em aldear-se. Gregório do Espírito Santo aceitou a proposta, e mesmo não tendo
seguido à risca as ordens de Sampaio, este apoiou a decisão do proprietário,
afirmando que o aldeamento dos índios foi o “fim principal a que se dirigem todas as
Bandeiras, e mais operaçoens de semelhante natureza”. Pudemos observar que a
necessidade de conseguir transformá-los em força de trabalho útil foi tanta que,
mesmo não tendo total fé, tanto ele quanto o líder da Comissão, no verdadeiro
estabelecimento dos nativos em uma nova tentativa de adestramento – “posto que
Vmce. pela tão antiga prática de muitos annos afiança pouco a conservação do
Indios na dita nova Aldeia (em cuja opnião eu tambem não terei duvida de
concordar)” – foi mais prudente, segundo seu ponto de vista, que “se não despresem
já mais similhantes offertas”. Mais um detalhe da fala do governador nos chamou a
atenção: pela primeira vez nos registros documentais, Sampaio nomeou o grupo do
Pajahú de “índios”. Por mais irrelevante que pareça, tal aparecimento revelou
significativa mudança qualitativa: deixando de ser “gentios”, passaram a fazer parte
do grupo dos aliados da Coroa portuguesa, mesmo que ainda houvesse o risco de
que “elles tornem aos seus antigos costumes”. Tal mudança de categoria instituiu
nova “realidade usando do poder [...] de construção, exercido pela objetivação no
discurso”. Não se tratava de uma “ficção sem eficácia”:226 para o governo, esse foi o
primeiro passo para que deixassem de ser os “atrevidos gentios do Pajahú” de
antigamente, e se tornassem novos “índios” disciplinados, produtivos e fiéis ao reino
de Portugal.
Por outro lado, as atitudes tomadas por esse grupo, antes de se revelarem
como fraqueza ou rendimento à suposta “superioridade” das autoridades, mostraram
mais uma vez a capacidade que os índios têm de negociar e se utilizar de variados
mecanismos para a realização de seus interesses. As táticas indígenas de
resistência e antidisciplina não se resumiam a um enfrentamento total e aberto
contra o governo colonial, mas também de suas lutas faziam parte o uso de

225
Dezbro 24. Offo a Gregorio do Espirito Santo morador no Jardim agradecendo-lhe a prompta
execução q’ dada as ordens deq’ he encarregado. In: Livro 29, p. 16.
226
BOURDIEU, 1998, p. 116.
255

elementos do próprio sistema no qual estavam inseridos. Sem muitas vezes poder
livrar-se dele, subvertiam-no “a partir de dentro”, usando e deformando suas regras
para conseguirem aquilo que queriam.227 Da mesma forma aconteceu com os agora
“índios do Pajahú”, que naquele momento concordaram em se aldear para que
cessassem as investidas contra eles. Mas pelo visto, de acordo com o que conta a
historiografia,228 sua esperada redução não foi definitiva, e a história desse contato,
repleta de choques, delinquências, negociações e “atrevimentos”, estava longe de
chegar a um fim.

5.5.3 “Céu” e “liberdade”

O uso da palavra “céu”, presente na epígrafe deste item, não pretendeu


remeter a um suposto estado “paradisíaco” em que se encontravam os índios antes
da colonização. A história dos povos nativos que habitavam Pindorama, terras onde
hoje é o Brasil, também possuía choques, conflitos e guerras entre as diversas
nações tribais, não tendo sido situações inauguradas somente com a chegada dos
europeus. Porém, uma infinidade de hábitos, tradições e modos de vida foi
combatida e violentada pela mão “civilizatória” vinda da Europa. Por mais que os
nativos não habitassem um paraíso terrestre, esse mundo ainda era seu, lugar onde
eram autônomos e tinham liberdade para gerir seus próprios costumes, crenças e
relações.
O projeto de transformar e civilizar os índios sempre teve o elemento da
destruição cultural como meio fundamental para que tais planos fossem possíveis.
Para trazer os povos bárbaros da América para o “céu” da civilização, onde se
tornariam homens produtivos, disciplinados, e dotados de bons costumes cristãos,
era preciso exterminar completamente todos os seus antigos hábitos incultos e
diabólicos, que faziam daquelas regiões o verdadeiro “inferno”.
Entretanto, por mais que todas as investidas normativas tivessem tido seus
efeitos, não foram suficientes para que se aniquilasse a capacidade dos índios de se
portarem e se reinventarem enquanto agentes que buscavam efetivamente a
realização de seus interesses. O próprio “ser” indígena se constituiu com base nas
relações que mantinha com o “outro”, que podia ser ele, o governo, os colonos, a

227
CERTEAU, 2008.
228
VALLE, 2009.
256

Igreja etc. A identidade se dava e se produzia em relação ao outro. As dinâmicas


das relações, com todas as constantes trocas de elementos, produziram as
identidades e o próprio ser. Para Boccara, a máquina social indígena – como
também a de qualquer outro povo ou grupo – nutria-se do outro para elaborar seu
ser.229 De maneira semelhante, os grupos indígenas do Pajahú também se
posicionaram; se recriaram e se constituíram a partir de cada nova situação de
contato com os agentes externos, quer seja daquelas que resultaram em conflitos
armados quer seja das que abriram espaço para a negociação.
Para Maia, as identidades e os modos de vida que se chocaram nas diversas
situações de contato “modificavam-se, complementavam-se, e até resultavam numa
outra realidade absolutamente nova”.230 Como afirma Certeau, “cada individualidade
é o lugar onde atua uma pluralidade incoerente – e muitas vezes contraditória – de
suas determinações relacionais”,231 e os sujeitos frutos dessas relações não
nasceram somente de práticas vindas dos estratos mais altos da sociedade, como o
Estado, Igreja e as elites, mas também a partir das mais variadas táticas,
negociações e antidisciplinas dos índios que também construíram seu próprio
cotidiano no sistema colonial.
Além disso, a constituição da liberdade aqui entendida configurou-se a partir
da luta pela sobrevivência, não sendo esses dois conceitos peças únicas, mas se
construindo “de diversas maneiras, com pesos variáveis em cada experiência”, tanto
no momento das lutas quanto na proposta de se aldear. Assim como Elias,
compreendemos que as “práticas de liberdade entre os povos indígenas, no período
colonial”, também “passaram por fugas, guerra e assimilação”, definindo-se “no
decorrer da iniciativa e da inventividade humanas, sempre situadas e sitiadas”.232 Da
mesma forma, aconteceu com os “atrevidos gentios do Pajahú” que, em uma
véspera de Natal, negociaram para conseguir fugir do “inferno” da civilização, e
durante muito tempo ainda pudessem continuar a ser livres.

229
BOCCARA, 2005, p. 05.
230
MAIA, Lígio José de Oliveira. Cultores da vinha sagrada: missão e tradução nas Serras de
Ibiapaba (século XVII). Dissertação (Mestrado) ‒ Universidade Federal do Ceará, 2005. p. 189.
231
CERTEAU, 2008, p. 38.
232
ELIAS, 2005, p. 88.
257

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entre disciplina e invenções, discursos e práticas, diálogos e rebeldias, os


índios deste Ceará em transformação não foram apenas coadjuvantes, muito menos
personagens passivos de uma história traçada pela norma ocidental. Longe da
unicidade da aceitação ou da aberta revolta contra os agentes externos, a população
nativa não se posicionou afastada da sociedade da qual fazia parte, ou somente
assistiu de longe aos eventos em que era “forçada” a participar.
As respostas dos grupos indígenas, habitantes destes sertões, frente à
civilização que chegava a este mundo, foram múltiplas, assim como suas histórias,
seus costumes e tradições. Diante das tentativas de apagamento dessas culturas,
por meio de uma homogeneização forçada, da simbologia patriótica e de um
universo pautado pelo trabalho disciplinar, o cotidiano dos índios se lhes apresentou,
não obstante suas variadas reações, como sempre, atento aos detalhes e nuances
particulares da política que os regia.
Assinale-se que, ao final destas reflexões, encaramos um governo que,
inserido em um projeto bem maior do que sua vontade individual, seguia
direcionamentos característicos de sua época, cujos traços iluministas deram forma
ao processo civilizador que pretendia alterar os estigmas por eles construídos sobre
aquela região. Todavia, não deixamos de destacar as particularidades inerentes à
figura de Sampaio, que, para além dos tradicionais discursos de enaltecimento ou
reprovação, teve uma presença incontestavelmente importante para a história desta
capitania e de sua população. Quando se trata de sua política indigenista, Manuel
Ignácio de Sampaio pode ser apresentado, se não como marco, pelo menos
enquanto referência de um governo que alterou significativamente a vida dos grupos
nativos espalhados pelo território cearense. Não buscamos ver na imagem deste
líder um tirano repressor, muito menos um protetor benevolente, mas sim um
homem decidido a fazer daqueles que considerava “bárbaros” fiéis súditos do rei de
Portugal, cujo projeto de civilização se pautava em uma disciplina não excludente,
mas que inseria e transformava sujeitos.
Acreditamos que ainda persiste uma série de aspectos que a presente
pesquisa, por conta de suas limitações, não pôde dar conta, principalmente pelo
extenso volume documental que ainda espera análises mais cuidadosas – presentes
258

não só no Arquivo Público do Estado do Ceará, como em outras instituições. O êxito


que almejamos em nosso trabalho também está nas várias possibilidades de
reflexão sobre o período, como em relação aos impactos além-fronteiras do Correio
do Norte do Brasil, dos povos indígenas envolvidos nos conflitos de 1817, ou mesmo
relativos às questões internas do governo Sampaio, e outros do início dos
oitocentos, como a reforma militar da capitania ou as freguesias e câmaras
municipais nas vilas de índios.
Longe de esperarmos ser possuidores de um olhar panóptico sobre o tema,
ansiamos por novas produções que permitam diversificar o olhar sobre as fontes e
reflexões aqui apresentadas. Esperamos ainda que esta pesquisa seja mais uma
contribuição para o diálogo da recente historiografia indígena no Ceará, que já conta
com importantes leituras acerca do passado dos índios, e que cada vez mais se
enriquece com novas perspectivas e outras possibilidades de análise.
O nosso principal resultado, todavia, foi o meio como índios e índias se nos
apresentaram em diversos registros da época que pudemos analisar. Aquilo que nos
chamou a atenção, desde o início, foi a ampla capacidade de invenção cotidiana dos
elementos que os cercavam. Eram, definitivamente, leitores do mundo, apropriando-
se daquilo que podiam para realizar seus interesses. De aspectos legislativos aos
identitários, o que esperamos ter mostrado foi uma população que, assim como hoje,
mas de maneiras bem diferentes, respondia conscientemente às coerções que a
eles se apresentavam. Bem longe de isolamentos ou de um utópico purismo, os
grupos indígenas que viveram neste Ceará disciplinar se inseriram nessa sociedade
a partir das particularidades deste lugar social específico em que viviam.
Os sujeitos cujas histórias aqui contamos não eram autoexplicáveis, muito
menos estáticos, rígidos nem monolíticos. Em constantes relações, choques e
negociações com as coerções do Império que os submetia, os índios também foram
agentes dos processos que lhes transformaram. Suas identidades, culturas e
tradições se adaptaram às novas situações, seja por conta da negação seja por
conta da aceitação, mas sempre de formas transformadoras e delinquentes. Suas
práticas, fugas, mutações, petições, reclamações, alterações, indisciplinas,
assimilações, vidas e histórias foram fundamentalmente transformadoras da
sociedade em que viviam. Consistiram em provas de suas capacidades de
percepção e ação daquilo que liam, e também construtores da formação do Ceará
259

que vemos hoje, que, ao contrário do que tradicionalmente se acreditava, ainda é


uma Seara indígena, uma Seara dos índios.
260

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– 1813), 27 (1813 – 1816), 28 (1816 – 1819) e 29 (1819 – 1820).

Série “Registro de ofícios do governo do Ceará aos militares desta capitania”. Livros:
33 (1812), 34 (1813 – 1814), 35 (1814 – 1815), 37 (1817), 38 (1817 – 1818) e 39
(1818 – 1820).

Livro 93: Secretaria de estado dos negócios estrangeiros e da guerra ao governador


da capitania do Ceará (1812 – 1815).
266

Livro 95: Correspondência do secretário do governo (1812-1822).

Fundo “Câmaras Municipais”

Câmara Municipal de Fortaleza: Livro s/nº (1813 – 1818) Caixa 37.

Fontes impressas

Revistas do Instituto do Ceará

FEIJÓ, João da Silva. Memória escrita sobre a capitania do Ceará. In: Revista do
Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo III, p. 3-27, 1889.

MACHADO, José de Almeida. Noticia das freguesias do Ceará visitadas pelo P. e


José de Almeida Machado no annos de 1805 e 1806, extrahida d’um livro de
Devassa que serviu na Visita. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo
XVI, p. 191-205, 1902.

PAULET, Antonio Jozé da Silva. Descrição geográfica abreviada da capitania do


Ceará. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo XII, p. 5-33, 1898.

UMA FESTA em Fortaleza no tempo do governador Sampaio. In: Revista do


Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo XIV, p. 271-274, 1900.

Crônicas e memórias

KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro; São Paulo;


Fortaleza: ABC, 2003.

MENEZES, Luiz Barba Alardo de. “Memória sobre a capitania independente do


Ceará grande escripta em 18 de abril de 1814 pelo governador da mesma, Luiz
Barba Alardo de Menezes.” In: Documentação Primordial sobre a capitania
autônoma do Ceará. Fortaleza: Fundação Waldemar Alcântara, 1997. (Coleção
Biblioteca Básica Cearense).

TAVARES, Francisco Muniz. História da revolução de Pernambuco em 1817. 3.


Ed. Recife, Imprensa Industrial, 1917.

TOLENARE, Louis François de. Notas dominicais. Recife: Departamento de


Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, 1978.

Coletâneas e documentos avulsos

COSTA, Hipólito José da. Correio brasiliense ou Armazém literário, vol. XXIII.
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Brasília: Correio Brasiliense, 2002.

DIRECTORIO, que se deve observar nas povoações dos indios do Pará, e


Maranhão, Em quanto sua Magestade naõ mandar o contrario. In: BEOZZO, José
Oscar. Leis e regimentos das missões: política indigenista no Brasil. São Paulo:
Edições Loyola, 1983.
267
268

LISTA DE DOCUMENTOS – ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ

CÂMARAS MUNICIPAIS – FORTALEZA

Registro de hú officio do Ill.mº Ex.mº Sen’r Gov.or dirigido a esta Camara


acompanhado de huma parte condesendente ao mesmo officio que tudo He do theor
seguinte. Câmaras Municipais: Fortaleza, Caixa 37, Livro s/nº (1813 – 1818), s/pág.
Registro de ofício datado de 28/05/1817.

GOVERNO DA CAPITANIA

REGISTRO DE OFÍCIO AOS CAPITÃES MORES, COMANDANTES DE DISTRITO


E DIRETORES DE ÍNDIOS

Livro 15
14 de Abril. Registo de hum Officio dirigido ao Director dos Indios da Villa de
Mecejana, p. 04V.
Maio 21. Registro de hum Officio dirigido ao Director dos Indios da Villa de Soure J e.
Agostinho Pinheiro, p. 25.
Maio 25. Registro de hum Officio dirigido ao Director dos Indios de Soure Joze
Agostinho Pinheiro sobre huã prizão, p. 34.
Junho 22. Registro de hum Officio dirigido ao Sargto mor de Monte mor Novo sobre
os Commdes de Districto.
Agosto 9. Registo de hum Officio dirigido ao Sargmor e Diror dos Indios de Monte mor
o Novo, p. 103V.
Septembro 15. Registo de hum Offo dirigido ao Cel. Commde da V.a do Aracati
Ordenando-lhe huma prisão, pág. 142.
Septembro 16. Registo de hum Officio dirigido ao Coronel Comde da Granja Franco
de Careo Motta sobre varios objectos, p. 143.
Septembro 25. Registro de hum Officio dirigido ao Director d’Arronches Ordenando-
lhe huma prisão, p. 153.
Septembro 23. Registo de hum Officio dirigido ao Capmor da Va do Aracati sobre
Commdes de Districto, pág. 153.
269

Septembro 30. Registo de hum Officio dirigido ao Director dos Indios de Soure sobre
varios Objectos, p. 161V.
Outubro 1. Registro de hum Officio dirigido ao Comde Intº das Ordas do Aquiraz para
prender hum Indio, p. 163.
Outubro 5. Registo de hum Officio dirigido ao Diror de Arronches Ordenando-lhe
huma prisão, p. 166.
Outubro 8. Registo de hum Officio dirigido ao Capm Franco de Salles Gomes Comde
de Sta Cruz da Uruburetama Sobre Varios Objectos, p. 172.
Outubro 9. Registro de hum Officio dirigido ao Coronel Comandte do Aracati Pedro
Joze da Costa sobre varios Objectos, pág. 179.

Livro 16
Outubro 28. Registo de hum Officio dirigido ao Commnde do Cascavel participando
lhe ter reprehendido hum Sugeito, p. 11.
Janeiro 9. Registo de hum Officio Circular dirigido aos Capes Mores e Comdes de
Ordas remettendo lhe a Copia da Carta Regia Sobre o estabelecimto do Banco do
Brasil, p. 11V.
Novembro 13. Reggisto de hum Officio dirigido ao Comd e de Sta Cruz Franco de
Salles Gomes Sobre Varios Objectos, p. 32.
Novembro 17. Portaria ao Diretor de Soure p a mandar buscar huns Indios de sua
Villa que se achão presos, pág. 37V.
Novembro 17. Registo de hum Officio dirigido ao Commd e do Cascavel Ordenando-
lhe huãs prisões de Indios dispersos, p. 37V.
Novembro 17. Registro de hum Officio dirigido ao Dir or de Mecejana pa dar
Passaporte a hum Indio que não he vadio, pág. 38.
Desembro 1. Registo de hum Officio dirigido ao Capmor do Sobral Ordenando-lhe a
prisão de huma India, p. 49.
Desembro 2. Registo de hum Offo dirigido ao Referido Director pa prender huns
Indios dispersos, p. 53V.
Desembro 4. Registo de hum Officio dirigido ao d o Comde das Ordas de Aquiraz pa
fazer q’ sugeito mate huma Vaca q’ destroe os rossados visinhos, p. 56.
Desembro 12. Registo de hum Officio dirigido ao Capmor Comde das Ordas do Aquiras
Ordenando-lhe varias [ilegível] e acusando a recepção de huns Officios, p. 67
270

Desembro 12. Registo de hum Officio dirigido ao Dir or de Mecejana dando-lhe


Ordens sobre huns Indios da sua Direcção, pág. 67V.
Desembro 16. Registo de hum Officio Circular dirigido aos Directores dos Indios
desta Capia para passarem mostra a todos os Indios das suas Direcções remetendo
Mappas dellas, p. 70.
Fevereiro 5. Registo de hum Officio dirigido ao Capmor das Ordas desta Villa pa
reclutar todos os Indios disperssos e sem Passaporte, p. 136V.
Janeiro 18. Registo de hum Offo dirigido ao Sargento-mor de Monte mor o Novo
Ordenando-lhe huma prisão, p. 122V.
Fevereiro 4. Registo de hum Officio dirigido ao Comde das Ordas do Aquiras pa
remetter presos a esta Va todos os Indios q’ andarem dispersos, e sem Passaporte,
p. 136.
Fevereiro 5. Registro de hum Officio dirigido ao Cap. mor desta Villa pa recrutar todos
os Indios dispersos e sem Passaporte, p. 136V.
Fevereiro 16. Registo de hum Officio dirigido ao Comde de Cascavel accusando a
recepção de hum Officio e Sobre humas prisoes, p. 150.
Fevereiro 16. Registo de hum Officio dirigido ao Commade de Cherabicu accusando
a recepção de huns Officios, e Sobre huas prisoes que elle fes.
Fevereiro 20. Registro de hum Officio dirigido ao Diror de Mecejana pa dar baixa a
hum Indio para não ficar sugeito a Va alguma, p. 153.
Fevereiro 23. Registo de hum Officio Circular dirigido aos Capes Mores e Commdes
de Ordas remettendo o modello pa que devem passar Passaportes, p. 155.
Março 1. Registo de hum Officio dirigido ao Sargmor das Ordas de Va Viçosa Real
Ordenando huma prisão, p. 160.
Março 12. Registo de hum Officio dirigido ao Commde do Cascavel participando-lhe
ter entregado ao Director os Indios dispersos q’ lhes tem recrutado, p. 175V.
Março 13. Registo de hum Officio dirigido ao Diror de Arronches Ordenando-lhe huã
prisão, pág. 176.
Livro 17
Março 20. Registro de hum Officio dirigido ao Capmor das Ordenanças desta Villa
para responder o Recrutamto d’aquelles Indios q’ tiverem rossados.
Maio 29. Registo de hum Officio dirigido ao Comde de S. Joze da Uruburetama
Ordenando huma prisão.
271

Abril 22. Registo de hum Officio ao Diror de S. Pedro de Baiapina pa dar baixa a 2
Indios da sua Direcção q’ se passarão pa Va Nova d’El Rey, p. 25.
Abril 26. Registo de hum Officio dirigido ao Capmor das Ordenanças desta Va
ordenando lhe hua prisão.
Junho 12. Registo de hum Officio ao Diror de Arronches pa reprender os Indios de
Pitaguari pa não incomodarem os seus Visinhos, p. 62V.
Junho 22. Registo de hum Officio ao Commde de S. Cosme estranhando a ter
prendido hum homem individamente, p. 65.
Julho 6. Registo de hum Officio ao Capmor do Ico com Resposta ao seu Offo de 26 de
Março sobre o castigo q’ deu ao preso Escro de Joaqm Jose de Carvalho, p. 102.
Julho 17. Registo de huma Circular aos Diretores de Va Viçosa, Baiapina, Almofala,
Monte Mor o Novo, Monte Mor o Velho pa poderem passar passaporte aos seus
Indios, p. 108V.
Julho 19. Registo de hum Officio ao Diror de Arronches respondendo a huns Offos pa
nomear hum Indio pa Commde delles, p. 109V.
Agosto 16. Registo da Portaria ao Dir or de Va Viçosa pa das todos os Indios q’ o Corel
Simplicio pedir, p. 129.
Agosto 30. Registo de hum Officio dirigido ao Sargmor de Monte mor o Velho pa
reprehender huns Indios q’ andão atirando frexas aos Gados.
Septembro 9. Registo de hum Officio ao Cap.m Manoel da Cunha Freire Pedrosa
agradecendo-lhe o Donativo que deo para a Fortalesa, p. 143.
Novembro 2. Registro de hum Officio dirigido ao Dir or de Mecejana pª dar Passapte a
hum Indio q’ tem rossados no Parasinho, p. 176V.

Livro 18
Novembro 16. Registo de hum Officio ao Director de Monte mor o Velho p a remetter
huns Indios presos pa esta Capal, p. 06V.
Novembro 20. Registo de hum Officio ao Director de Soure pa desalistar huns Indios
da sua Direcção, p. 10V.
Desembro 15. Registo de hum Officio ao mmo Sargmor Commde Sobre Varios
Objectos, p. 29.
Março 22. Registo de hum Officio ao Diror de Soure, encarregando-o da Direcção
dos Indios de Mecejana visto á avançada idade do actual Diror, p. 115.
272

Livro 19
Julho 12. Portaria ao Diror d’Arres pa fornecer ao Revdo Vigº daquella Va 12 Indios pª a
reedificação da Igreja.
Julho 23. Rego de hum Offo ao Commde do Siupe Ordenando huma prisão, p. 39V.
Outubro 26. Rego de hum Officio ao Diror d’Arronches sobre varios Objectos, p. 108.
Novembro 23. Offo ao Diror d Arres pa desmembrar das Ordas Indias, hum Indio q’ esta
estabelecido no Curú, p. 123V.
Fevereiro 13. Portaria aos Directores das 3 Vas de Indios pa obrigarem os Indios a
virem á Praça Vender Marisco, p. 178.

Livro 20
Abril 28. Offo ao Sargmor das Ordas da Va Visa Rl Sobre hum Indio q’ pertende ser
Vaqueiro das Fazas [danificado] Gados, p. 08V.
Abril 29. Offo ao Capmor do Sobral accusando hum Offo e pa prender o q’
acompanhou a matar o Indio Fidelis, p. 09V.
Maio 12. Offo ao Sargmor e Diror de [?] Villa Visa pa dar a sua Informação sobre 1
requerimento q’ os Indios levarão ao Throno do Principe pedindo abolição d’alguns
artigos do Directorio, p. 19.
Agosto 12. Circular aos Directores de Arres [Arronches] Soure, e Mecejana Sobre os
Indios Corros que comettem faltas qdo [quando] vão de Viagem, p. 60.
Outubro 23. Offo ao Capmor do Aquiraz para assentar praça a hum Indio a quem se
desalistou das Ordas Indias, p. 83.
Outubro 23. Officio ao Diror de Mecejana pa entregar ao Capmor Supra o Indio Duarte
pa assentar Praça nas Ordas do Aquiraz.
Novembro 20. Officio ao Director de Mecejana Sobre differentes objectos, p. 90V.
Janeiro 23. Officio ao Diror de Mecejana pa mandar Soltar no dia 28 do Corre a 2
Capes Indios q’ elle prendeo, p. 134.
Fevereiro 9. Officio ao Dir.or de Mecejana pa fazer passagem de hum Indio pa as
Ordas brancas do Aquiraz, p. 138V.
Março 21. Circular aos Directores de Arronches, Soure e Mecejana pª mandarem 6
Indios diariamte com mariscos a vender na feira.
Fevereiro 15. Officio ao Capmor de Sobral Sobre diferentes Objetos, p. 139V.
Maio 30. Officio director de Monte-mor o Velho pª não dar mais Indio algum a Antº
da Silveira pelo mal tratamto que lhes dá, p. 164.
273

Maio 30. Officio Circular aos Directores de Arronches, Soure e Mecejana Sobre o
mmo Objecto do Officio Supra, p. 164V.

Livro 21
Outubro 1. Officio ao Dir or de Baepina accusando huns officios, e Outros objectos, p.
40V.
Outubro 9. Officio ao Capmor do Ico accuzando huns Officios, e Outros Objectos, p.
42V.
Março 5. Offo ao Director de Mecejana estranhando lhe a maneira por q’ se tem
conduzido tão mal há tempos a nesta parte, p. 98.
Porta ao Sargto [sargento] mor Diro [diretor] de Arronches pa examinar 2 Indios
Corre.os [correios] vindos de Pernambuco sobre os objectivos abaixo declarados, p.
114V.
Portaria ao Diretor de Arronches para examinar de 2 indios de Pernambuco
objectivos abaixo declarados, p. 121
Off° aos Directores de Arronches, Soure e Mecejana pª terem promptos em estado
de defesa todos os Indios daquella direcção pª qualquer operação, p. 132V.
Maio 23. Off° ao Director de Mecejana pª q.e no dia 26 do Corr.e mez se deve achar
nesta Cap.al com 100 Indios armados de Arco e Frecha pª marcharem pª as
Fronteiras, p. 136.
Maio 23. Offo ao Sargmor Jose Agostinho Pinheiro Diror de Soure e Arronches pa ter
promptos no dia 26 do Correte 200 Indios das suas Directorias pa se ajuntarem aqui
com 100 Indios de Arres, e marchar com elles pa as Fronteiras desta Capa, p. 136V.
Maio 24. Off° ao Cap.mor de Monte mor Novo pª ter todos os Indios promptos no dia
29 do Corr.e pª se unirem aos 300 Indios q’ o Sarg.mor Pinheiro leva pª as Fronteiras,
p. 140.
Maio 26. Offo ao Capmor de Monte mor o Novo pa entregar ao Sargmor Pinheiro os
Indios q’ se lhe Ordenou tivesse promptos, p. 142V.
Maio 26. Portaria Geral a favor do Sarg.mor Jose Agostinho Pinheiro, p. 143V.
Junho 1. Off° ao Sarg.mor Jose Agostinho Pinh. Ordenando lhe q’ se não achar no Ico
o C.el Leite, marcha com os Indios ate se incorporar com elle, p. 153V.
Julho 5. Offo aos Directores de Mecejana e Soure para Obrigarem os Indios a
plantarem Mandioca vista a grande falta que se tem sentido.
274

Agosto 18. Officio ao Director de Mecejana sobre os excessos do Vigario com os


Indios, p. 173.
Fevereiro 8. Officio dirigido ao Capmor das Ordenanças do Aquiraz para a prizão do
Indio Corro Felippe da Silva, p. 175.
Setembro 24. Offo ao Capmor de Monte mor o Novo Sobre o Algudão q’ se lhe
encomendou pa os Indios q’ marcharão pa as Fronteiras, p. 178.
Outubro 4. Offo ao Sargmor Pinheiro pa tomar posse das Commdas das Ordas desta Va
e de Director dos Indios de Arres disto ter-se-lhe acabado a licença, e louvando o
bom Serviço q’ fez na Commissão de q’ foi encarregado, p. 182.
Outubro 16. Offo ao Director de Arronches pa fazer com que os Indios abrão
Rossados pr causa do gde numero de Vadios que andão espalhados, e Outras
providas Sobre o mesmo fim, p. 184V.

Livro 22
Junho 14. Officio dirigido ao Director de Mecejana sobre o que ordena o Directorio a
respto da venda do vinho e outras bebidas nas Villas de Indio, p. 30.
Setembro 16. Circular dirigido aos Directores de Indios desta Capitania para não
perceberem mais os 6% que ategora cobravam das culturas dos dos Indios, p. 86.
Outubro 23. Officio dirigido ao Diror de Mecejana para desaldear Felix dos Santos
Cardoso e outros, p. 97V.
Outubro 27. Officio dirigido ao Sargmor Commande into das Ordmas desta Capital para
fazer prender Francisco de Paula grumete, q’ acaba de desertar da Escuna Velha do
Rio, p. 100.
Desembro 16. Officio dirigido ao Capmor de Monte Mor o Novo em resposta á Officios
do dito Capitão-Mor, p. 126V.
Janeiro 12. Circular dirigido aos Dires dos Indios desta Capnia participando-lhes a
entrega do Govo della aos Governres interinos, p. 164V.
Fevereiro 8. Officio dirigido ao Director de Arronches para a prizão do Indio Correio
Felippe da Silva, p. 174V.
275

REGISTRO DE OFÍCIOS ÀS AUTORIDADES FORA DA CAPITANIA

Livro 23
Maio 1. Registo de hum Officio dirigido ao Exmo Snr. [excelentíssimo senhor]
Governador e Capitam General de Pernambuco, implorando a sua protecção a favor
do estabelecimento do Correio pa comunicação das principais Villas desta Cap nia
[capitania] com Perco [Pernambuco], p. 04V.
Fevereiro 26. Registo de hum officio dirigido ao Governador e Capitam General de
Maranhão sobre a correspondencia do Correio do Ceará com o do Maranhão, e
remettendo-lhe as instruções pa a mesma correspondencia, p. 24.
Dezembro 1. Registo de hum officio dirigido ao Governador e Capitam General de
Pernambuco pedindo-lhe que na ocasião de mandar perseguir os Gentios indomitos,
q.’ vagueão nas extremas desta com as Cap. nias de Pernambuco e Paraiba, participe
a este governo p.a se darem iguáes providencias, pág. 37.
Março 1. Registo de hua Carta dirigida ao Chanceller da Relação do Maranhão
pedindo lhe que concorra quanto puder para a ampliação do Correio do Ceará até a
dita Cidade do Maranhão, p. 44V.
Março 2. Registo de hum officio dirigido ao Exmo [excelentíssimo] General do
Maranhão sobre a creação de hum correio de comunicação regular entre esta e a
Capitania da da [dita] Cidade do Maranhão, q’ se faz absolutamente necessário por
cauza da Relação; e remettendo o Projeto pa o mmo [mesmo] estabelecimento, p.
45V.
Setembro 17. Registo de hûa carta dirigida ao Chanceller do Maranhão,
agradecendo-lhe ter concorrido pa o =convenio= do General, em quanto a ampliação
do Correio, e sobre mais objectos do mesmo Correio, p. 63V.
Outubro 16, Registo de hum officio dirigido ao Exmo [excelentíssimo] General do
Maranhão, remettendo-lhe o mappa geral de todas as partidas e chegadas do
Correio do Ceará nas suas Agencias, e a lista dos donativos que offereceram os
Negociantes e outras pessoas desta Capnia [capitania] para supprir as faltas no
estabelecimto, no caso de as haver, e sobre outros objectos relativos ao mesmo
estabelecimento do Correio, p. 66.
Dezembro 15. Registo de hua carta ao Coronel Bento Joze da Costa, de
Pernambuco, em resposta as suas duas cartas de 22 de Setembro, e 23 de
Novembro de 1814.
276

Janeiro 16. Rego de Officio dirigido ao Chanceller do Maranhão sobre o Correio,


pedindo-lhe q’ auxilie qto [quanto] estiver de sua parte o estabelecimto do mmo
[mesmo], p. 72V.
Janeiro 16. Registo de hua carta dirigida ao Juiz de Fora de Parnaíba Ouvor [ouvidor]
pela Ley do Piahi, pedindo lhe queira com a sua authoridade fazer com que nas
passagens dos Rios the o Maram [Maranhão] encontrem os Correios todos os
socorros que as circunstancias permitirem afim de não serem demorados, p. 75V.
Janeiro 16. Registo de hua carta dirigida ao Dezembargador João Rodrigues Brito
sobre o estabelecimento do correio, p. 76V.
Abril 15. Registo de hua carta dirigida ao Juiz de Fora da Parnaiba Ouvidor pela Lei
do Piauhi em que se lhe participa a creação de hum Agente na Va da Parnaiba hua
vez q’ o Govor do Piauhi convenha, p. 85V.
Novembro 29. Registo de hum officio dirigido ao Juiz Prezidente, e mais officiaes da
Camara da Villa da Parnaiba em resposta ao seu officio de 25 de Outubro sobre o
estabelecimento do Correio e a creação da Agencia na dita Villa, p. 99.
Agosto 31. Registo de hum officio dirigido ao Exmo Governador do Maranhão [...]
sobre a copia do Regimto das Antigas Missoens dos Indios, p. 111V.
Abril 15. Registro de hum officio dirigido ao Ex.mo Sn’ Dom Miguel Pereira Forjaz [...]
pedindo-lhe socorros, p. 124V.

Livro 24
Maio 19. Officio ao mesmo Coronel Leite sobre varios objectos relativos á revolução
do Crato, p. 05.
Maio 24. Officio ao mesmo Coronel Leite, confirmando o conteúdo do off° de 23, de
que vai 2ª Via, insinuando-lhe que vá restaurar as Villas de Portalegre, de Souza, e
do Pombal, e depois marchar em direitura no Recife, p. 09.
Maio 26. Officio ao mesmo Coronel Leite, ratificando o conteúdo do officio de 24 e
participando a partida do Sarg.mor Pinheiro com os 300 Indios já annunciados, p. 10.
Maio 27. Offício ao mesmo Coronel Leite, remetendo-lhe 2ª Via de offício de 26, e
tornando a insinuar-lhe a sua marcha ate o Recife, p. 11V.
Maio 31. Officio ao mesmo Coronel leite participando a chegada dos presos do Crato
á esta Capital, e ordenando-lhe que vá atacar o Rio do Peixe, e Pombal, e seguir
para o Recife dê pª onde der, p. 13.
277

Junho 18. Officio ao mesmo Coronel Leite em resposta ao seu officio de 7 do corr e.,
e ordenando-lhe que faça immediatam.te recolher-se ao respectivo districto o Cap.mor
João de Araujo Chaves com o seu destacamento, e sobre varios outros objetos
relativos a revolução, e a entrada das tropas desta Cap. nia na da Paraiba, p. 22V.
Livro 30
Março 1. Officio dirigido ao Ill.mo e Ex.mo Senh Governador da Paraiba sobre a
expulsão do Gentio que ficão nas fronteiras das Capitanias de Pernco Paraiba e
Ceará; Março 1. Officio dirigido ao Ill.mo e Ex.mo General de Pernambuco sobre a
expulsão do Gentio, p. 47V e 48.
Maio 15. Officio dirigido ao Dezor [desembargador] Joze Francisco Silva Costa
Furtado em resposta a carta do dito Dezor de 11 de Março de 1816, p. 64V.
Julho 28. Officio dirigido aos Gov res do Bispado para providenciarem sobre os
procedimentos do Vigario de Arronches, p. 90.
Agosto 13. Officio dirigido aos Governadores do Bispado em ampliação de outro
dirigido aos mesmos Governadores em 28 de Julho, e que está regdo ap. 90 deste
mmo livro, p. 93.
Desembro 4. Officio dirigido ao Vigario Capitular do Bispado accusando-lhe a
recepção de officios, p. 107V.
Fevereiro 12. Offo ao Vistad. desta Capnia Antº Gomes Coelho sobre as 4 Fregas de
Indios de Monte mor o Velho Mecejana Arronches, e Soure e participando-lhe as
Ordens mas sobre os mmos, p. 110V.

REGISTRO DE OFÍCIOS AO ESCRIVÃO DEPUTADO, INTENDENTE DA


MARINHA, JUIZ DA ALFÂNDEGA, AGENTES DE CORREIOS E PESSOAS
PARTICULARES DA CAPITANIA

Livro 26
Abril 27. Registo de hûa Ordem dirigida ao Ajudante de Milicias Francisco Xavier da
Camera para a fazer publicar aos Pescadores da Prainha desta Villa, p. 06.
Maio 1. Registo da Representação e Projecto para o Estabelecimto do Correio desta
Capitania com a de Pernambuco que o Illmo Sr Govor [ilustríssimo senhor governador]
Manoel Ignacio de Sampaio fez pessoalmente ver á Junta da Real Fazenda desta
Capia [capitania] e que a mesma Junta aprovou mandando lavrar o Termo de
aprovação que ao diante vai copiado datado de 9 de abril de 1812, p. 08.
278

Maio 1. Registo de hum Officio dirigido Joze Alexandre D’Amorim Garcia,


nomeando-o Agente do Correio desta Villa, p. 16.
Maio 1. Registo de hua Carta Rogatoria dirigida á Maximiano Francisco Duarte sobre
o estabelecimento do Correio desta Capitania, p. 49V.
Maio 20. Registo de hum Officio dirigido o Agente da Villa do Aracati Manoel Joze
Rebello de Moraes.
Junho 1. Rego [registro] de hum Offo [ofício] dirigido ao Agente do Coro [correio] da
Granja Francisco Carvo [Carvalho] Motta, p. 62.
Julho 16. Rego de hum Officio dirigido ao Agente do Aracati Manoel Joze Rebello, p.
84.
Julho 27. Registo de hum Officio dirigido a Manoel do Espirito Santo da Paz, Agente
do Correio da Villa do Icó, p. 88V.
Fevereiro 27. Registo de hum offo [ofício] dirigido ao Sargmor [sargento mor] Joze
Severino de Vasconcellos nomeando-o Agente do Correio da Va [vila] de Monte Mor
o Novo, p. 160V.

Livro 27
Abril 30. In: Livro 27, p. 83.
Maio 11. Rego da Portaria ao Intendente enterino da Marinha pa mandar tratar a hum
Indio q’ esta com bexiga.
Maio 28. Rego da Portaria ao Intendente da Marinha pa mandar tratar ao Indio Pedro
Dias, p. 88.
8bro [outubro] 1º. Regto de offo ao Agte da Granja sobre o corro do Maranhão com as
circunstancias q’ do mmo [mesmo] [ilegível], p. 101.
Agosto 12. Rego [registro] de offo [ofício] ao Administrador Geral do Corro sobre os
Indios Correios, com as providencias que seguem, p. 152V.
Agosto 31. Rego [registro] de offo [ofício] ao Agente do Sobral sobre a nova Agencia,
e outros objectos do Correio, p. 156V.

Livro 28
Julho 1. Portaria ao Inte Intro da Marinha pa mandar tratar hum doente pelo Hospal Rl
Militar, p. 10V.
Julho 1. Carta ao Age [agente] do Corro [correio] do Ceará em Pernambuco
agradecendo-lhe varios Obsequios, p. 10V.
279

Julho 12. Offo [ofício] ao Administrador Gl. [geral] do Corro [correio] dando-lhe varias
Ordens Sobre os abusos dos Indios Correios, p. 11V.
Maio 26. Proclamação aos Indios do Ceara q.do partiraõ para o attaque das Capit.as
Sublevadas, p. 45V.
Agosto 4. Portª ao Inte da Marinha pª q’ se distribua o pano de Algudão pelo Indios q’
forão á Campanha, p. 58.
Novembro 26. Offo ao Adminor Geral do Corro de Pernambuco agradecendo-lhe a
protecção sobre o Corro do Ceará, p. 70.
Fevereiro 14. Porta ao Inte Intro da Mara pa q’ os Edificios publicos botem luminarias
pela occasião do Principe Sr. Dom Pedro ter Cazado, p. 79V.
Setembro 15. Officio ao Escrmor da Granja Jose de Almeida Fortuna pa Observar os
passos de 1 Frade q’ ahi chegou, p. 103.
Fevro 13. Offo a Jeronimo Joze Figueira de Mello sobre a sua irregular conduta, p.
149V.
Março 1. Porta a favor de Gregorio do Espirito Santo, p. 151.
Março 1. Offo a Gregorio do Espirito Santo morador no Jardim para formar huma
Bandra e hir atacar o Gentio de Pajahú, p. 152.
Março 28. Porta a favor de Gregorio do Espirito Santo, p. 162.
Junho 4. Porta ao Escrao Deputado da Junta da Real Fasenda sobre o feliz Nascimto
de huma Princesa, p. 164V.

Livro 29
Dezbro 15. Carta ao Administrador Geral do Correio de Pernambuco tendo presente
hûa Carta tendente ao agasalho do Indios Correios, p. 13.
Dezembro 15. Carta ao Agente do Correio da Parnaiba sobre cousas tendentes a da
[dita] Agencia, p. 13V.
Dezbro 24. Offo a Gregorio do Espirito Santo morador no Jardim agradecendo-lhe a
prompta execução q’ dada as ordens deq’ he encarregado, p. 16.
Fevro [fevereiro] 24. Offo [ofício] ao Admor [administrador] Geral do Corr o [correio] [...]
Sobre o extravio dos Corros e dando as Ordens sobre os mmos [mesmos], p. 25V.
280

REGISTRO DE OFÍCIOS DO GOVERNO DO CEARÁ AOS MILITARES DESTA


CAPITANIA

Livro 33
Registro de hum Officio Circular, dirigido aos Coroneis, e Commandes dos
Regimentos Miliciannos desta Capitania, em que lhe ordena Remettão os Mappas
do estado actual dos Regimtos dos seus Commandos, e da mesma sorte em todos
os trimestres, pág. 01.
Maio 21. Portaria a Francisco Xer. Torres Commde da Guarnição desta Va. pa.
mandar soltar a India Anna Francisca, p. 04V.
Julho 9. Officio dirigido ao Coronel do Regimento d’homens pardos da V a do Icó,
ordenando-lhe que escute a ordem de 20 de Março, e que deve evitar o sistema que
ategora tinha, q’ era de quase nunca cumprir as ordens do Govo, pág. 73V.
Agosto 17. Officio dirigido ao Naturalista João da Silva Feijo pa informar se nesta
Capnia ha algûa mina de carvão, p. 88V.
Setembro 2. Portaria ao Comde da Guarnição, sobre o castigo dos dois Indios Pedro
Fernandes, e Antonio Franco Peixoto, p. 101.
Dezembro 17. Ordem de soltura a favor de varios individuos, como abaixo se
declara, p. 177.

Livro 34
Fevereiro 25. Rego do Officio circular aos Coroneis, e comdês dos regimtos respetivel
a Passaportes, pág. 24V.
Dezembro 28. Rego do Officio ao Coronel de Cavallaria do Sobral pa mandar hum
destacamto do seu Regimto a conduzir huns prezos de Almofala pa esta Capal, p. 130.
Dezembro 29. Rego do Officio ao Corel de Cavallaria do Sobral a respto dos Presidios
no mmo espreçados, p. 130V.
Janro 5. Rego do Offo ao Coronel de Infanta Miliciana do Ceará e Jagoaribe sobre
serto objecto relativo ao Capm Anto Franco da Sa, p. 142.
Abril 30. Rego do officio ao Teme Comde do destacamto do Sobral, dando varias
ordens sobre o mmo destacamto, p. 183.
281

Livro 35
Agosto 29. Rego [registro] de officio ao Ajude [ajudante] Miguel Joaqm da Fonceca
com novas ordens pa a condução dos prezos pa o porto do Itapajé, p. 51V.

Livro 37
Abril 2. Offo ao 2º Teme d’Armada Real Encarregando-o do Commando dos Presidios
daCosta do Termo da Va do Aracati.

Livro 38
Fevereiro 14. Offo [ofício] ao Sargmor [sargento mor] Ferra [Ferreira] Sobre diferenttes
objectos, p. 43.
Fevereiro 23. Offo ao Sargmor Ferra accusando huns Offos e Ordenando huma Soltura,
p. 49.

Livro 39
Dezbro 18. Offo ao Alfes Chaves sobre os presidios da Costa e pa capturar os vadios
das Praias pa sentarem praça na tropa de Linha. In: Livro 39, p. s/n.
Abril 3. Offo ao Sargmor Joze Felix mandando prender o Indio Andre de Lima e seu
filho Braz de Lima, p. 63.

LIVRO 93: SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS E DA


GUERRA AO GOVERNADOR DA CAPITANIA DO CEARÁ

Ofício de 20/10/1814, p. s/n.


Requerimento anexo ao ofício de 20/10/1814, p. s/n.
Ofício de 25/11/1814, p. s/n.
Requerimento anexo ao ofício de 25/11/1814, p. s/n.
Ofício de 14/01/1815, p. s/n.
Requerimento anexo ao ofício de 14/01/1815, p. s/n.
Ofício de 20/05/1815, p. s/n.
Requerimento anexo ao ofício de 20/05/1815, p. s/n.
282

LIVRO 95: CORRESPONDÊNCIA DO SECRETÁRIO DO GOVERNO

Abril 27. Registo de hum Offo dirigido ao Sargto Mor das Ordenanças desta Va
Antonio Je Moreira, p. 18V.
Abril 27. Registo de hum Officio ao Commdee do Districto do Cascavel o Capm
Anastacio Lopes Ferra do Valle, p. 19.
Março 10. Officio ao Juis Ordino de Mecejana.
24. Offo Sargmor Joze Agosto Pinheiro Sobre huns requeremtos q’ se achão em Seu
poder, p. s/n.
Maio 8. Registo de hum Officio dirigido ao Capitão Jose Agostinho Pinheiro, p. 25.
Maio 21. Registo de hum Officio dirigido ao Director dos Indios de Monte Mor o
Velho, p. 34.
Maio 23. Registo de hum Officio dirigido ao Juiz Ordinario da Villa de Mecejana, p.
35.
3 de Junho. Registo de hum Offo dirigido a Camara da Va de Arronches, p. 40.
Julho 24. Officio ao Diror de Mecejana Sobre o mesmo objecto, p. s/n.