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15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria

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POLÍTICA

Não foi o PT quem tirou 36 milhões de pessoas da Bolsonaro e Bolsa Família: muitos
anos de ódio, alguns meses de amor

miséria 15/10/2018

Por Pedro Menezes @P_droMenezes · Em 08/06/2015


Editorial: em defesa da Constituição,
do Estado de Direito e da
Democracia
Curtir 51 mil Tweetar
07/10/2018

Ao m do último mês de março, quando pesquisas de opinião apontavam que 3 Paulo Guedes quer aumentar
dentre 4 brasileiros já não con avam na presidente Dilma, e a rejeição ao seu impostos dos mais ricos
partido parecia difícil de esconder, os diretórios estaduais do PT lançaram um 21/09/2018
manifesto o cial, onde se lê:

“Condenam-nos não por nossos erros, que certamente ocorrem numa O “PL do veneno” não é tão
organização que reúne milhares de liados. Perseguem-nos pelas nossas venenoso assim
virtudes. Não suportam que o PT, em tão pouco tempo, tenha retirado da 09/08/2018

miséria extrema 36 milhões de brasileiros e brasileiras.”

É importante notar que não se diz que o partido contribuiu decisivamente para a Posição de Marina sobre células-
redução da miséria extrema no país, mas que foi o PT, enquanto organização, tronco é menos condenável do que
parece
quem diminuiu em 36 milhões o número de brasileiros miseráveis, sendo o
02/08/2018
responsável único e exclusivo por este acontecimento. O mesmo discurso é
repetido com frequência por quase todas lideranças do partido ou simpáticas a
ele nas campanhas eleitorais de 2006, 2010 e 2014, e constituiu-se como a Por que Marta ganha menos que
principal força aglutinadora da militância partidária desde então. Neymar?
10/07/2018

Quase toda a metafísica que inspira corações e mentes petistas nos dias de hoje
passa, necessariamente, pela narrativa que dá ao PT o mérito por um combate à
miséria de sucesso extraordinário, inquestionável e “nunca antes visto na Manuela no Roda Viva:
Manterrupting ou Jornalismo?
história deste país”, como dizia o ex-presidente Lula. Como consequência lógica
28/06/2018
deste discurso, tudo o que é externo ao petismo é imediatamente retratado
como favorecimento a elites que não suportam a ascensão social de quem
ontem era pobre “e hoje anda de avião”.
Entenda por que a recuperação pós-
crise está tão lenta
Digo isso, inclusive, com base na minha experiência pessoal: como lho de um 04/06/2018
ex-petista outrora orgulhoso (e, por alguns anos, desgostoso pela minha
“conversão reacionária”), cresci nos mais diversos círculos militantes, assistindo a
comícios e comemorando apurações na rua, e até hoje tenho no armário Manual para não-economistas:
camisetas brancas com uma estrela vermelha no peito. Durante todos esses entenda a crise dos combustíveis

http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 1/12
15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria
anos, nenhum argumento foi mais importante para rati car internamente o meu 30/05/2018

petismo do que as estatísticas de redução da miséria e desigualdade durante o


governo Lula, assim como minha futura rejeição ao partido passou
A análise econômica do direito é “de
necessariamente pela desmisti cação deste discurso.
direita”?
16/05/2018
Deixei de ser petista, dentre outros motivos, justamente depois de me convencer
sobre o que escrevo neste artigo: o Partido dos Trabalhadores NÃO foi
responsável, nem exclusivo e nem majoritário, pelos 36 milhões de brasileiros e
Há 6 milhões de famílias sem casa
brasileiras que deixaram a miséria extrema. no Brasil? Veja os dados e entenda.
16/05/2018

A desigualdade começou a cair em 2001, antes da eleição de Lula


Em maio do ano passado, técnicos do governo federal lançaram o documento Para os brasileiros, como foi 2017
em termos de renda, pobreza e
“Sobre o processo de desenvolvimento inclusivo no Brasil da última década”. O
desigualdade?
mais famoso dos autores é Ricardo Paes de Barros, um economista 23/04/2018
reconhecido por sua contribuição para a criação do Programa Bolsa Família e
que, durante o primeiro mandato de Dilma, foi subsecretário de Ações
Estratégicas da Presidência da República. Dentre os grá cos, há um que merece O m do século democrático
23/04/2018
especial atenção:

Em 5 minutos e sem juridiquês:


entenda a confusão sobre o
julgamento de Lula no STF
09/04/2018

Estudo expõe machismo nos


Supremos – o mesmo que vimos no
julgamento de Lula
06/04/2018

A derrocada do Rock in uenciou a


venda de guitarras do Brasil? Veja
os dados.
24/03/2018

Mais armas, mais crimes: por que


mudamos de ideia. Veja os dados.
20/03/2018
O grá co acima mostra a evolução da desigualdade de renda no Brasil desde
1976. A medida adotada é o Coe ciente de GINI, tido como padrão internacional
para mensurar a desigualdade de renda. Um coe ciente de 0.5 signi ca que, Como melhorar FIES, ProUNI e
naquele país, a distância média entre a renda de duas pessoas de um país é igual acesso dos mais pobres à
universidade
a 50% da renda média da população. A de nição pode ser complicada para os
17/03/2018
não-iniciados em economês (ou mais especi camente, em estatistiquês), mas o
essencial é notar que, quanto menor o Coe ciente de GINI, menor é a
desigualdade de renda dentro de um país. Por que exportamos mais soja do
que navios, apesar de BNDES e
FIESP
Reproduzi o grá co da forma como ele foi elaborado pelos técnicos do próprio
12/03/2018
governo, adicionando uma barra vermelha no ano de 2001, quando a
desigualdade começa a cair no Brasil. E em 2001 e 2002, como se sabe, Lula
ainda não havia vencido as eleições para presidente do Brasil. Não me parece O Brasil está mais corrupto? Não é
que, fora do governo, Lula ou o PT tenham exercido alguma in uência mágica bem assim
22/02/2018
para reduzir a desigualdade por aqui. Além disso, a queda veri cada nos
primeiros anos de governo di cilmente pode ser vista como mérito do
presidente, já que não faz sentido imaginar que as políticas de Lula tenham
Saneamento básico: A agenda do
surtido efeito imediato a partir do momento em que o ex-presidente chegou ao
século 19 que o Brasil ainda não
poder. enfrentou
17/02/2018

Questão de educação
Reforma da Previdência: Um Guia
Mostrar que a redução da desigualdade começou antes da chegada do PT ao para Não-Economistas
poder, porém, não é su ciente para explicar por que todo esse processo de 07/02/2018

inclusão social e redução da miséria aconteceu no Brasil. A resposta a esta


pergunta é aquela que, com frequência, decepciona os discursos simplistas: os
pesquisadores que estudaram a questão quase sempre atribuem a uma As manchetes sobre o relatório da
Oxfam são con áveis? Veja os
conjunção de fatores. Alguns têm relação com coisas que aconteceram dentro
dados.
do Brasil (ou seja, que podem ser in uenciadas por um presidente) e outras
22/01/2018
entram na conta dos acontecimentos internacionais, que não guardam a menor
relação com o fato de o PT ter chegado ao poder.
O gás subiu, a in ação está baixa e
não há indício de manipulação
http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 2/12
15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria
ç
Dentre os acontecimentos internos que foram decisivos para este processo de 16/01/2018

redução da miséria e desigualdade, o próprio Paes de Barros (que, repetindo, foi


o assessor da Presidente Dilma sobre o assunto) reconhece que o maior deles
antecede e muito o ano de 2002. Ele poderia atribuir tudo à expansão do O que o negacionismo climático
Programa Bolsa Família (elogiado neste site em diversas oportunidades), o que ensina sobre reforma da previdência
13/01/2018
até lhe afagaria o ego, já que foi ele o responsável técnico pelo programa em seu
início, mas Paes de Barros considera que o Bolsa Família funcionou “mais como
aditivo, contudo, do que como causa principal”.
Quatro passos para se des liar de
um partido político
O Bolsa Família teria sido responsável por entre 10 e 15% do processo de
07/01/2018
inclusão social. É natural: o que aconteceu no Brasil foi profundamente
estrutural – ou seja, mexeu com as dinâmicas mais profundas da economia
brasileira. Apesar de suas inegáveis qualidades, a atuação do Bolsa Família é A crise brasileira não foi causada
emergencial e pontual. Em uma analogia simples, é como se o programa atuasse por austeridade
retirando as famílias que estão rodeadas por um incêndio num barraco de 04/01/2018
madeira. O que aconteceu no Brasil, porém, é muito maior: as famílias não
apenas saíram do incêndio, mas passaram a ter uma nova casa de material não-
in amável e instalaram alarmes para evitar que desastres voltassem a acontecer E os melhores amigos da
no futuro. desigualdade em 2017 foram…
03/01/2018

O grá co abaixo, elaborado pelo Centro de Políticas Públicas do Insper, ilustra


aquela que, para Paes de Barros, foi a mudança interna mais decisiva para a
redução da miséria e desigualdade no Brasil – e que, como se pode ver, Em busca de cliques, imprensa
desinforma sobre desemprego em
começou antes da eleição de Lula:
novembro
28/12/2017

A “verdade politicamente incorreta”


publicada no Mises Brasil era só
incorreta
26/12/2017

Ele mostra que, durante os últimos 20 anos, cada vez mais crianças
brasileiras passaram a ter acesso à escola, fazendo crescer signi cativamente a
escolaridade média da população brasileira. Entre 1992 e 2013, o número de
adultos brasileiros com 4 anos de estudo ou menos caiu pela metade, enquanto
o grupo com mais de 9 anos de estudo dobrou em tamanho. O grá co abaixo,
embora seja mais complicado, mostra o fenômeno de forma um pouco mais
detalhada:

http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 3/12
15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria

Ele retrata a porcentagem de crianças e jovens matriculados em algum curso


regular, dividindo-os por idade e tipo de curso. Em 1983, o grá co se parece com
uma montanha: à esquerda, vemos que a educação básica era um privilégio de
poucas crianças com menos de 7 anos; à direita, o ensino superior aparece
também como privilégio. Ao longo do tempo, o pico da montanha se alarga e vai
para cima, mostrando que mais jovens passaram a ter acesso à escola por um
período maior. Em 2003, a situação já era muito melhor do que em 1983: a área
cinza (representando os jovens com acesso à faculdade) aumenta
consideravelmente; o acesso à pré-escola, abaixo dos 30% em 1983, já chegava a
70% das crianças de 2003; o acesso ao ensino fundamental já era realidade para
quase todos os jovens brasileiros; entre as crianças de 7 e 13 anos, mais de
95% tinham acesso à escola em 2003. Uma melhora signi cativa e histórica,
mesmo quando consideramos a péssima qualidade da educação pública no país.

As crianças e jovens que puderam estudar pela primeira vez não fazem parte da


elite econômica do país. Os lhos de famílias ricas sempre tiveram alguma
escolaridade, assim como seus pais. Quem sentiu a diferença neste processo
foram os lhos de famílias pobres. Em resumo, com o intenso aumento do
acesso à escola no Brasil, o que caiu foi a desigualdade de escolaridade – ou
desigualdade educacional. O abismo na formação dos lhos de famílias ricas e
pobres diminuiu consideravelmente. Ou, como ca claro em reportagem da
revista piauí:

“Entre 1996 e 2009, a escolaridade média de quem procurava emprego passou


de 5,4 anos de estudo para 7,3 – um aumento, em 13 anos, de 35% na
quali cação dos trabalhadores. Investimentos decorrentes de exigências da
Constituição de 88 e da ampliação de verbas para o ensino fundamental no
governo Fernando Henrique zeram com que a desigualdade educacional, que
antes crescia, começasse a nal a cair, no início dos anos 2000.”

Como todos sabem, as mães estão certas quando dizem aos lhos que quem
estuda terá um salário melhor no futuro. Após algum tempo, quando os jovens e
crianças envelhecem e saem da escola rumo ao mercado de trabalho, era natural
imaginar que a redução na desigualdade educacional levaria a alguma redução
da desigualdade de renda e da miséria com o passar dos anos. Antes, o lho do
pobre nem entrava na escola, enquanto o lho do rico estudava nas melhores
instituições de ensino do país. Isso mudou – e não foi por causa do PT.

[Nota: Um leitor enviou o paper de Naércio Aquino Menezes e Alison Pablo


de Oliveira, que utilizou técnicas de economia e estatística para medir a
in uência da educação na queda da desigualdade durante a década
passada. O resultado? Entre 25 e 40% da redução na desigualdade de renda
pode ser atribuída à redução na desigualdade de escolaridade. O estudo,
que pode ser lido aqui, se soma às outras evidências cientí cas que dão
força ao que escrevi.]

Crescimento econômico e cenário favorável


Só há um jeito de combater miséria e desigualdade: crescimento econômico.
Para que as pessoas melhorem de vida, e o abismo entre ricos e pobres diminua,

http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 4/12
15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria
a renda das famílias mais pobres precisa crescer – e crescer mais do que a renda
das famílias mais ricas. Mas nada disso é possível se a economia brasileira não
crescer como um todo. O economista Ricardo Paes de Barros, já citado neste
texto, a rma que o crescimento econômico explica mais do que a metade deste
processo de inclusão social. E, de fato, durante o governo Lula a economia
brasileira cresceu mais do que antes de sua chegada ao poder. Mas por que?

Antes de entrar no assunto, vale um parênteses: certamente não foi por causa
do petismo, enquanto conjunto de ideias econômicas. Como é de conhecimento
geral, Lula começou o seu governo admitindo que, no campo da economia, ele
se limitaria a fazer rodar o software econômico vindo do governo anterior.

Lula começou o governo indicando Henrique Meirelles para a presidência do


Banco Central, um ex-banqueiro que havia acabado de eleger-se deputado
federal pelo PSDB. Um tucano legítimo. Já no Ministério da Fazenda, o titular era
Antônio Palocci, conhecido dentro do PT como um rebelde quando o assunto é
economia, pois discordava de quase todos os seus colegas de partido e elogiava
abertamente a política econômica tucana, chegando a declarar publicamente
que “A mais importante reforma dessas quatro décadas foi a adoção do regime
de metas para in ação, quando aqui esteve Armínio Fraga e, na Fazenda, o
colega Pedro Malan”. Armínio Fraga, neste caso, é aquele mesmo que foi
escolhido por Aécio Neves como ministro da fazenda em um eventual governo.
Quanto a isso, não há prova maior do que o fato de Palocci ter escolhido Marcos
Lisboa e Joaquim Levy (ele mesmo), dois economistas ideologicamente distantes
do partido, para ocupar as duas das secretarias mais importantes do ministério,
respectivamente as secretarias de Política Econômica e do Tesouro.

A política econômica do governo Lula, ao menos até 2008, pode ser acusada de
tudo, menos de petista. Desta forma, o crescimento econômico no Brasil
certamente não ocorreu pela adoção de políticas inovadoras após 2003, mas
justamente pela repetição do que havia sido feito durante o governo FHC.

Ainda assim, isso não é su ciente para explicar por que o Brasil cresceu.
Analisando comparativamente, a situação dos dois governos é bem parecida:
tanto com Lula quanto com FHC, a economia brasileira cresceu pouco mais do
que a média dos vizinhos latinoamericanos. A diferença é que, durante o
governo Lula, a taxa de crescimento dos países da América Latina foi 72%
maior do que durante o governo tucano. Não é que Lula tenha inventado a roda
com políticas públicas geniais que bene ciaram os trabalhadores. O motivo é
mais simples: no início da década passada, o mundo se tornou um lugar muito
mais agradável para países como o Brasil.

Um dos motivos certamente foi a subida nos preços internacionais nas


commodities, mercadorias primárias como comida e minérios. Para um país
como o Brasil, muito forte em setores como a agricultura, isso basicamente
signi ca que as coisas que são produzidas aqui caram cada vez mais
caras quando comparadas com o que é produzido fora daqui. O cenário perfeito
para uma economia que precisa crescer.

O grá co abaixo representa, em economês, o índice dos termos de troca da


economia brasileira. Em português, trata-se do preço internacional de tudo o
que os brasileiros vendem para outros países, dividido pelo preço internacional
de tudo o que os brasileiros compram de outros países
(exportações/importações). Não é razoável imaginar que Lula ou o PT tenham
exercido qualquer in uência nos preços internacionais e os números são claros
ao demonstrar que as condições externas melhoraram muito durante o início do
governo Lula. O fenômeno demonstrado no grá co abaixo só pode ser explicado
pela pura e simples sorte.

http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 5/12
15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria

Os termos de troca internacionais da economia brasileira, que estavam piorando


consistentemente, começaram a melhorar no início do governo do PT

Para mostrar quão relevante foi a melhora, basta dizer que, em 2011, os termos
de troca do Brasil chegaram ao seu melhor nível em mais de 50 anos.

Além do crescimento ter se acelerado de forma generalizada em toda a América


Latina, desde a Colômbia governada pela direita à Venezuela bolivariana, e dos
termos de troca terem melhorado consistentemente, há ainda um último fato
que explica o crescimento econômico e a redução da miséria e desigualdade no
Brasil. De acordo com os dados disponíveis, nunca antes na história humana
tantas pessoas saíram da pobreza em tão pouco tempo ao redor do mundo. Em
20 anos, 1 bilhão de pessoas saíram da pobreza. No Brasil o mesmo aconteceu,
mas não por causa de uma mudança repentina nos governantes brasileiros, mas
porque a mesmíssima coisa aconteceu em todos os países emergentes do
mundo. O grá co abaixo, elaborado pela revista The Economist com dados do
Banco Mundial mostra o que digo: apenas entre 2005 e 2008, 111 milhões de
pessoas saíram da pobreza ao redor do globo:

A década perdida entre 2003 e 2012


O erro mais comum de quem trata a inclusão econômica e social dos últimos
anos como obra exclusiva do PT é antigo. Trata-se de uma velha falácia lógica
conhecida como post hoc ergo propter hoc – em português, seria algo como
“depois disso, logo, por causa disso”. Quase todo o processo aconteceu depois
da eleição de Lula, logo, simpatizantes do ex-presidente tendem a deduzir que
ela aconteceu por causa da eleição de Lula.

Como vimos, não foi bem assim. Acontecimentos internacionais, que o ex-


presidente não poderia controlar, assim como dinâmicas internas anteriores à
sua chegada ao poder foram mais in uentes do que qualquer medida tomada
por ele durante a presidência. Claro que há algum mérito a ser reconhecido. A
expansão do Bolsa Família, já citada, deve ser considerada. O estudo que citarei
a seguir reconhece ainda outras contribuições importantes do governo Lula,
como as reformas microeconômicas do primeiro mandato, em especial a Lei de
Falências.

http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 6/12
15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria
Ao reivindicar o mérito exclusivo por tudo o que aconteceu no Brasil, Lula está
agindo como qualquer outro político o faria em seu lugar. Quem deve estudar
economia são os economistas. Os políticos agem de outra forma, tentando
acumular poder a partir dos fatos do dia. E Lula, com sua habilidade política
e personalidade carismática, soube capitalizar como poucos a imagem de
combatente incansável contra a pobreza. Ninguém jamais chegará ao poder
mostrando grá cos complicados, discutindo dinâmicas que reduziram a
desigualdade de escolaridade ou explicando o que são termos de troca. A
política já era assim antes de Lula e continuará sendo assim depois dele.

Existe, porém, uma forma mais sóbria de avaliar o desempenho das políticas
públicas do presidente: comparar, com os melhores controles estatísticos
possíveis, os avanços no Brasil com o que aconteceu em países parecidos com o
Brasil, durante o mesmo período. Foi o que zeram os economistas João Manoel
Pinho de Mello (professor do Insper, Ph.D pela Stanford University), Vinicius
Carrasco (professor da PUC Rio e Ph.D pela Stanford University) e Isabela Duarte
(mestre pela PUC Rio) em um estudo publicado recentemente.

O método foi simples: para que a conclusão do estudo fosse mais precisa, em


cada quesito foi feita uma comparação entre o Brasil e o que se chama de “grupo
de controle sintético” – um grupo de países que pode ser tomado como o melhor
possível para uma comparação justa. A conclusão foi assustadora: o Brasil
“cresceu, investiu e poupou menos; recebeu menos investimento estrangeiro
direto e adicionou menos valor na indústria; teve mais in ação; perdeu
competitividade e produtividade, avançou menos em Pesquisa e
Desenvolvimento e piorou a qualidade regulatória; foi pior ou igual em quase
todos os setores importantes; a distribuição de renda, a fração de pobres, e a
subnutrição caíram em linha ou um pouco menos; a escolaridade avançou
menos, a despeito de maiores gastos; a saúde andou em linha, sem grandes
diferenças”. O único critério em que avançamos mais do que os países de
comparação foi no mercado de trabalho, mas mesmo nele os pesquisadores
julgaram que apenas “avançamos na margem mais fácil: colocar as pessoas para
trabalhar”. Em tarefas mais difíceis, como a já citada produtividade – que seria
capaz de garantir empregos de melhor qualidade e com salários maiores -, o
Brasil foi pior.

Há algo ainda mais grave: em muitos aspectos, o Brasil tinha uma tarefa mais
fácil do que os países comparados. Nossa sorte foi tamanha que, mesmo dentre
os emergentes, tivemos termos de troca muito mais favoráveis no período
analisado e mais disponibilidade para investir a renda externa. Ainda assim,
nossos resultados foram quase todos piores. Por isso, o estudo foi chamado de
“A década perdida: 2003-2012”. Os leitores mais curiosos (ou mesmo que
duvidem da conclusão, que é muito diferente do senso comum criado sobre o
tema), podem acessa-lo aqui e conferir com os próprios olhos. A linguagem, em
geral, é amigável para leigos em economia e estatística.

O povo brasileiro discorda de você e demonstrou isso em 3 eleições!


É verdade: os eleitores brasileiros demonstraram, desde 2006, sua satisfação
com o governo do PT, o que alguns enxergam (com boa dose de razão) como
“retribuição” por todo esse fantástico processo de redução da miséria. O que
precisamos lembrar é que eleitores não estão certos por de nição. Na verdade,
muitos economistas e cientistas políticos dizem que, em democracias, temos
ótimos incentivos para não estudar a realidade antes de votar: ninguém jamais
será capaz de distinguir perfeitamente quem merece levar o capital (ou o ônus)
político por um episódio histórico e estudar o que os pesquisadores mais
reputados dizem sobre o assunto envolve um custo imenso sem benefício claro,
já que di cilmente um eleitor sozinho de nirá as eleições, não importa quão
consciente seja o seu voto.

Uma pesquisa do King’s College de Londres e da Royal Statistical Society é


esclarecedora nesse sentido: ela nos mostra que a população do Reino Unido
está errada em quase tudo o que diz. O povo britânico errou clamorosamente
alguns fatos básicos em perguntas sobre imigração, criminalidade, programas
sociais e gravidez na adolescência. Até mesmo num país onde o acesso a
educação de qualidade e informação é muito superior ao do Brasil, a opinião
pública é formada através aparências e impressões gerais que podem
estar simplesmente erradas. Por que seria diferente no Brasil? Será que nós
somos melhores e mais inteligentes do que os britânicos?

Apoio popular e razão nem sempre andam juntos. A aprovação de Lula durante


o seu período na presidência é compreensível, assim como suas vitórias
http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 7/12
15/10/2018 Não foi o PT quem tirou 36 milhões de brasileiros da miséria
eleitorais de 2002. Lula provavelmente seria igualmente popular em qualquer
outro país do mundo que passasse por tudo o que o Brasil nos últimos anos,
mas a voz do povo não é a voz de Deus. Dar ao povo a razão em tudo o que diz
não é nada inteligente, ainda mais num país como o Brasil, onde desde Floriano
Peixoto nada é impossível quando o assunto é populismo. Conceder tons divinos
ao voto popular é, também, conceder uma aura divina a nossa larga tradição de
políticos autoritários.

Comentários

174 comentários Classificar por Principais

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Paulo Gebrim
Um sonho: que todo sonhador do PT leia esse texto. Mesmo que relutante,
mesmo que contrariado, mesmo que por curiosidade. LEIAM!!!
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Tiago de Abreu
Petista não conseguirá interpretar ou entender um texto deste por
mais que se esforce.
Curtir · Responder · 82 · 3 a

Luiz Cesar Leite


Foda-se vc e seu preconceito.

Por outro lado, eu não tenho nenhum, sei que vc entendeu a frase
acima hahahahah Tosco ...
Curtir · Responder · 6·3a

Luiz Cesar Leite


Tatiana Jun Mendes , fiz o básico: desci ao nível do vivente para
que ele possa entender.

Bateu ? Levou !
Curtir · Responder · 1·3a

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Luiz Cesar Leite


Depois de ler com muita atenção, noto três erros fundamentais no discurso e
que deixam os eixos de argumentação do texto completamente tortos:

1) Assume que o aumento de escolaridade está diretamente ligada à renda


nas camadas inferiores da pirâmide de rendimentos antes de 2002. Basta
cruzar os números da atividade industrial e serviços do período, mais a
participação dos salários no PIB para ver que essa conta não fecha.

2) Assume que o "software econômico" foi exatamente o mesmo, o que é


uma inverdade (pra falar o mínimo). Após Lula, o Estado passou a ser
agente protagonista do crescimento… Ver mais
Curtir · Responder · 59 · 3 a · Editado

Carlos Góes
"Após Lula, o Estado passou a ser agente protagonista do
crescimento"

Isso só é verdade para a segunda metade do segundo governo


Lula. Ha' um artigo sobre isso aqui, mostrando como Lula foi o
presidente mais neoliberal da historia brasileira:
http://mercadopopular.org/.../se-o-tripe-e-neoliberal.../
Curtir · Responder · 13 · 3 a · Editado

Luiz Cesar Leite


Guilherme Rodrigues a frase "aumento da escolaridade traduz-se
em futura queda da pobreza" é incerta pois a qualidade dessa
educação é a variável principal e nela vc nem resvalou. Além disso,
não existe nexo causal entre elas em economias deprimidadas,
http://mercadopopular.org/2015/06/nao-foi-o-pt-quem-tirou-36-milhoes-de-pessoas-da-miseria/ 8/12