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Bacurau

Bacurau é um filme brasileiro, dos


gêneros drama, faroeste, terror
gore, fantasia e ficção científica, escrito e
dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano
Dornelles. É produzido por Emilie Lesclaux,
Saïd Ben Saïd e Michel Merkt e estrelado
por Sônia Braga, Udo Kier e Bárbara Colen.

O título do filme é o apelido do


último ônibus da madrugada no Recife, e a
origem do nome vem de uma ave de
hábitos noturnos comum nos sertões
brasileiros, que era chamada pelos
povos tupis de wakura'wa.

A produção conquistou o Prêmio do


Júri no Festival de Cannes de 2019,
tornando-se o segundo filme brasileiro da
história a ser laureado no certame geral,
após O Pagador de Promessas (1962)
de Anselmo Duarte.[2][3] Além de ter sido
premiado em diversos festivais de cinema, o
filme foi selecionado para mostras principais
de festivais não competitivos prestigiados
mundialmente, como o Festival de Nova
York (NYFF).[4]

Sinopse
Daqui a alguns anos... Bacurau, uma pequena cidade brasileira no oeste de Pernambuco, lamenta a perda de
sua matriarca, Carmelita (Lia de Itamaracá), que viveu até os 94 anos. Dias depois, seus habitantes percebem
que sua comunidade desapareceu da maioria dos mapas.

Bacurau - A colônia se rebela


por Bruno Carmelo

Como é estranho o filme proposto por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles! Talvez
descrever uma produção como “estranha” soe um tanto superficial, mas o adjetivo se encaixa ao
projeto no sentido mais estrito do termo: Bacurau está o tempo todo se transformando,
apontando novos caminhos, rompendo com expectativas e ressignificando as imagens mostradas
anteriormente. Ao espectador, cabe acompanhar a narrativa como quem tateia um caminho às
escuras: aos poucos, sem certezas, aberto às inevitáveis surpresas que virão. Esta não é uma
dessas produções que busca agradar o espectador a todo custo: ela se move por um caminho
peculiar, ciente de sua heterogeneidade, deixando ao público a tarefa de acatar, ou não, as
subversões propostas.
Tendo isso em mente, vale dizer que este texto busca preservar as diversas surpresas da trama.
Mesmo assim, alguns elementos podem ser adiantados: primeiro, não existe um protagonista
único – a não ser que a cidade inteira seja encaixada nesta categoria. Cerca de vinte
personagens tomam a cena, desempenhando papéis muito específicos, apenas para ceder
espaço a outros na cena seguinte. Talvez se termine a sessão sem lembrar o nome da maioria
destes habitantes, mas pouco importa: o essencial se encontra na função que ocupam. Por isso,
a identificação do espectador se dará menos com a jornada de um herói do que com uma
situação sociopolítica precisa.

Além disso, Bacurau demora bastante a esclarecer seus conflitos principais. Nos trabalhos
anteriores como diretor, Kleber Mendonça Filho propunha narrativas segmentadas em três partes.
Desta vez, embora não haja divisão formal com letreiros em tela, ainda se constata uma divisão
muito precisa em três atos. O primeiro deles corresponde ao realismo social, onde os diversos
moradores de Bacurau são apresentados ao público. Conhecemos o professor, a médica, a
prostituta, o guerrilheiro, o político corrupto. Este segmento se desenvolve em ritmo
contemplativo, mais próximo ao psicologismo dos romances literários do que à média dos roteiros
cinematográficos.

Em paralelo, a estética foge ao que seria considerado “polido” para uma grande obra do circuito
de festivais: a imagem é saturada demais, contrastada em excesso, enquanto a fotografia permite
cenas superexpostas do sertão nordestino e a montagem aposta em recursos de transição
incomuns, para não dizer anacrônicos. O espectador pode levar cerca de uma hora se
questionando onde de fato a trama pretende chegar, até que o roteiro comece a fornecer suas
primeiras resoluções e completar a leitura dos estranhos símbolos propostos. Em outras palavras,
os diretores não facilitam a vida do espectador médio, propondo uma longa introdução hermética
antes de mergulhar nos prazeres das produções B.

Assim, o segundo ato se consagra a um estilo de cinema bastante americano. A narrativa muda
por completo – não apenas a língua majoritária, mas também o ritmo, o estilo de atuações e a
relação com o humor. Se na primeira parte a comicidade provinha de uma relação orgânica com
regionalismos e sugestões de suspense, nesta parte o espectador pode se julgar dentro de uma
produção trash norte-americana, com atuações exageradas, planos maquiavélicos e soluções
gratuitas. Estas escolhas podem ser interpretadas como uma bela paródia do cinema de gênero,
ou então como uma condução artificial por parte dos diretores, dependendo do grau de
consciência e controle que se atribua à dupla.
Bacurau chega, enfim, ao seu terceiro e melhor ato. O filme se transforma novamente, para não
apenas unir as duas esferas em termos de estilo (cinema naturalista e cinema de gênero) mas
também em formas de discurso. Temos então os americanos contra os brasileiros, a lógica do
sertão brasileiro contra o ponto de vista dos snipers gringos, a cidade enquanto lugar de
convivência ou espaço de apropriação. O roteiro une todas as suas pontas soltas, ressignifica
elementos (o estranho produto colocado na boca, os caixões) e se livra à catarse prometida
tacitamente desde as primeiras imagens. Por mais premonitórias que fossem as cenas iniciais –
vide o olhar externo, chegando de fora da Terra, enquanto Gal Costa canta uma “canção de amor
para gravar num disco voador” -, elas só se completam realmente neste segmento final. Os
diretores parecem então mais desenvoltos, mais assertivos, propondo uma estética do gozo
(político e sexual) após a longa exposição conceitual.

Por esta razão, vale a pena enfrentar o trajeto árido do filme para descobrir onde desemboca
tamanho contorcionismo narrativo. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles constroem uma
curiosa fábula social sobre uma cidade que desaparece, uma cidade tomada por inesperados
inimigos munidos de arrogância e um curioso senso de propriedade privada. “Nada justifica
melhor a condição burguesa do que acreditar que se merece ocupá-la”, afirmavam os sociólogos
Pinçon, num raciocínio bem exemplificado pela trama. Enquanto isso, os moradores de Bacurau
vivem numa comunidade solidária, horizontal e progressista, tendo aprendido a desaparecer
quando necessário, a transformar sua invisibilidade em força e estratégia, desde o encontro com
o prefeito até as cenas finais.

A relação deste conto com o cenário brasileiro se faz ao mesmo tempo metafórica e evidente: nos
tempos em que se questiona com frequência porque o povo brasileiro tem aceitado calado
tamanha opressão, sem se unir e se revoltar, o filme propõe uma revolução simbólica da classe
trabalhadora contra as classes dominantes, uma revanche histórica dos brasileiros contra o
colonizador. “Se alguém tem que morrer, que seja para melhorar”, afirma a canção final,
sustentando o preceito revolucionário segundo o qual, para se construir algo, é preciso destruir o
sistema preexistente. A incitação à revolta pode ser apenas alegórica, ou então concreta, de
acordo com o ponto de vista. Mesmo assim, a ideia está lá, clara até demais.

PS: Ao invés de organizar um protesto político no tapete vermelho do Festival de Cannes, como
tinha feito alguns anos anteriormente com Aquarius, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles e
sua equipe deixaram que a obra se tornasse um discurso por si própria. E acrescentaram, nos
letreiros finais, que este projeto gerou mais de 800 empregos, movendo a indústria nacional. Isso
serve de aviso cristalino àqueles que não enxergam o empenho nem o valor (cultural e
econômico) do cinema nacional.
A crítica de Bacurau lembra que os longas anteriores de Kleber Mendonça Filho — O som ao
redor e Aquarius , ambos trabalhando com Dornelles — já tratavam de “sátira política e ficção
popular”, mas que em seu último trabalho essas características se extrapolam, de forma que o filme
“reorienta a energia vingativa e prazerosa do western ao mirar na América do capitalismo devorador
e do fascismo crescente”. O longa, segundo a revista, tem como personagem principal não uma
pessoa, mas uma vila formada por cidadãos à margem, o que garante a ideia de “ser coletivo” que
não tem nada a ver com “democracia racial”, mas representa uma reação. “... Bacurau dá forma a
um ideal que se levanta de maneira impressionante contra a ideologia dos tempos de Bolsonaro ou
de Trump: o ideal democrático de uma sociedade em movimento, construída pelas multiplicidades
e alimentada por uma história de resistência política e cultural”, diz o texto.

O CANGACEIRO ANDRÓGINO DE ‘BACURAU’


A trajetória de Silvero Pereira, o ator que vive o protetor de uma comunidade sertaneja no filme
premiado em Cannes.

Com unhas pintadas, bijuterias, lápis no olho e cabelo descolorido e com aplique, Pereira vive
Lunga, um misto de Robin Hood com Lampião que sai em socorro de uma comunidade rural
ameaçada por estrangeiros. Foto: Divulgação

Tamanho mistério se justifica pelo papel dessa figura de identidade e sexualidade fluidas na trama.
No último terço do filme, ele deixa de ser apenas uma menção na boca dos moradores da
comunidade para ganhar força como ponta de lança no combate aos “invasores estrangeiros” que
ameaçam apagar do mapa a fictícia região no interior do Nordeste.

“As pessoas perguntam muito se Lunga é um bandido ou se é um anti-herói”, disse o ator cearense,
também conhecido como a travesti Elis Miranda da novela da TV Globo A força do querer (2017).
“Para mim, ele é um grande herói. É uma figura que faz parte daquela comunidade, mas que em
determinado momento respeita a decisão dos moradores de afastá-lo. Apesar disso, ele sempre
deixa claro: ‘Se vocês precisarem, eu volto’.”

Lunga, no entanto, não é um herói qualquer. Certamente, não é um herói inspirado nos quadrinhos
da Marvel ou da DC. É, sim, um herói cujo DNA remonta ao ficcional Robin Hood, que tirava dos
ricos para dar aos pobres, e ao mítico e famigerado Lampião, que percorreu o mesmo interior do
Nordeste para fugir das “volantes” que caçavam seu bando. “Como os melhores heróis do cinema,
o Lunga seria um herói não puro”, afirmou Mendonça Filho, poucos dias antes de embarcar para
Toronto, onde apresentaria Bacurau no festival de cinema canadense. “Há uma tendência no
cinema clássico, principalmente o americano, de o herói ser perfeito. Mas, em nossa concepção,
esse personagem nunca seria perfeito. Ele é um herói do povo.”

Pereira gosta da referência do “cangaceiro contemporâneo”, por mais que o rótulo divida opiniões
por rejeitar toda uma carga negativa que vem com o movimento do cangaço. “Eu definiria Lunga
como toda e qualquer pessoa do interior do Nordeste que teve de sair da região para buscar
condições melhores e que retorna para sua cidade trazendo essas opções de mudança.”

Dornelles acrescenta outra camada de referências ao herói de Bacurau , que tem raízes na
obsessão do cineasta por faroestes, o mais americano dos gêneros cinematográficos. Para o
codiretor do longa, que também assinou a direção de arte de Aquarius (2016) e de O som ao
redor (2013), a virilidade e a masculinidade dos caubóis americanos necessitava de um
contraponto. “Lunga tem também um parentesco com os heróis dos faroestes”, lembrou ele. “São
aqueles caras viris e másculos, na tradição cristalizada por atores como Charles Bronson e Clint
Eastwood. Portanto, achamos mais interessante ter nessa função alguém do universo LGBT. Essas
pessoas passam por tanta violência, que precisam ter muita coragem para enfrentar uma ameaça
daquele tamanho.”

No filme, Lunga vive com seu bando em um local afastado, por determinação dos moradores de
Bacurau, que condenam sua violência extrema. Quando uma ameaça externa paira sobre a
comunidade, no entanto, ele é chamado para ajudar a enfrentar os invasores estrangeiros. Sua
primeira aparição na tela causa certo estranhamento, com as unhas pintadas, os anéis nos dedos,
o lápis no olho, o cabelo descolorido. “Lunga é andrógino porque representa a comunidade LGBT”,
disse o ator. “Agora, não tem caricatura. Precisávamos criar uma imagem para ele que não fosse
estereotipada. Às vezes, chamamos de ‘ele’, às vezes, de ‘ela’. Não queríamos imprimir na tela que
identidade era essa, queríamos deixar claro que havia uma diferença ali, e que fosse respeitada.”

Nascido em Mombaça, interior do Ceará, em 20 de junho de 1982, Pereira diz que sempre teve
inclinação para as artes. “Brincava muito, quando criança, de fazer telenovela, que era a única
referência que eu tinha em minha cidade.” Sua carreira no teatro só começou de fato em 2000, aos
17 anos, quando ele se mudou para Fortaleza. Depois de se formar em artes cênicas, encenou,
em 2002, seu primeiro espetáculo solo, Uma flor de dama , que o trazia no papel da travesti Gisele
Almodóvar. Foi a partir dessa montagem que nasceu, em 2004, o coletivo As Travestidas, com o
qual criou vários espetáculos, sempre em torno de travestis e transexuais. “A ideia era questionar
o lugar de fato da artista.”

Pereira contou que, por ser ele mesmo homossexual e admirar a arte transformista, o preconceito
sofrido por travestis e transexuais no meio teatral também o perturbava. “As pessoas do teatro
diziam que elas não eram atrizes, que deviam ir para a carreira de boate e de show de striptease.
Por causa disso, fiquei muito incomodado, achava isso um absurdo.”

Ele disse que a peça foi o primeiro grande momento de sua carreira. Entre outras razões, por
descobrir sua identidade de gênero. “Durante a pesquisa para esse trabalho havia dúvidas, claro,
até porque estamos falando de 2001 e 2002, período em que essas discussões não estavam tão
conceituadas e conscientes. Foi nesse processo que entendi que apenas queria discutir tudo isso
no palco.”

Para Pereira, o segundo grande momento de sua carreira foi BR-Trans , montada pela primeira vez
em 2013, que trazia histórias criadas a partir de relatos de travestis, transformistas e transexuais.
A peça foi o passaporte do ator para seu primeiro longa no cinema, Serra Pelada , de Heitor Dhalia,
sobre o período da explosão do garimpo no Pará, no fim dos anos 70. “Eu fazia uma das ‘Marias’,
que eram as travestis do garimpo.”

O sucesso da primeira temporada carioca de BR-Trans , em 2015, fez com que Gloria Perez
levasse o cearense para a novela A força do querer , em que ele interpretou Nonato, um motorista
de família que à noite se travestia para fazer shows em boates. Dois anos depois, Marcelo Caetano,
diretor de elenco de Bacurau , sugeriu Pereira para o papel de Lunga justamente por ter visto BR-
Trans .

Por causa da popularidade de Lunga, o ator tem recebido desenhos do herói andrógino nas caixas
de mensagens de suas redes sociais. “São pessoas que foram assistir e querem falar comigo,
mostrar suas interpretações. Adotaram o personagem com muito carinho”, disse. Entre os
questionamentos há quem pergunte sobre uma sequência para Bacurau , contando a origem da
cidade ficcional com nome de pássaro noturno e bravio. “A ideia é boa”, disse Kleber Mendonça
Filho. “Faz a gente pensar no assunto.”