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UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS

FACULDADE DE DIREITO
DEPARTAMENTO DE DIREITO PÚBLICO

LEI 11.340/2006 - LEI MARIA DE COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (“LEI


MARIA DA PENHA”)

Trabalho apresentado para obtenção


de nota parcial na disciplina Direito
Penal IV, ministrado nesta
Universidade pela Profª Drª. Mônica
Nazaré Dias Picanço.

Aluno: Thayrone Jefté de Araújo Nery


Matrícula: 21601451
Turma: 5º Período Noturno

MANAUS
2018
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO..................................................................................................................01
1. FUNDAMENTOS DA LEI MARIA DA PENHA.......................................................02
1.1. A natureza constitucional das normas de proteção da mulher contra a violência
doméstica e familiar..............................................................................................................03
2. FORMAS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
2.1. Conceito de violência doméstica....................................................................................03
2.2. Formas de violência contra a mulher..............................................................................04
2.2.1. Violência física...........................................................................................................05
2.2.2. Violência psicológica..................................................................................................05
2.2.3. Violência sexual..........................................................................................................06
2.2.4. Violência patrimonial.................................................................................................07
2.2.5. Violência moral...........................................................................................................07
3. MEDIDAS DE PROTEÇÃO NA LEI MARIA DA PENHA
3.1. Medidas protetivas de urgência.....................................................................................08
3.2. Medidas que obrigam o agressor...................................................................................09
3.3. Medidas que protegem a vítima......................................................................................10
3.4. Medidas de caráter patrimonial......................................................................................10
4. O PAPEL DO PODER JUDICÁRIO NA APLICAÇÃO DA LEI MARIA DA
PENHA E NO COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
4.1. Rito dos JVDFM............................................................................................................11
4.2. Competência dos JVDFM..............................................................................................12
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................................13
INTRODUÇÃO

“Toda mulher gosta de apanhar, as neuróticas é que reclamam”.


Nelson Rodrigues.

Não cabe aqui questionar as razões artísticas que levaram o autor a eternizar a frase
acima em sua obra, todavia, é fato que traz em si a síntese do imaginário popular brasileiro,
alimentado pelo machismo crônico criado pelo sistema patriarcal. A sociedade tem
dificuldade de entender os motivos pelos quais muitas mulheres não se desvencilham da
violência, física, moral e psíquica, que sofrem em seus lares, nem sempre tão doces.
O papel reservado à mulher nas relações sociais, um papel secundário, de
subserviência, garantido pela violência do sistema patriarcal, propicia condições para que o
homem sinta-se legitimado a fazer uso da força e, muitas das vezes, impede a mulher de
tomar atitudes, fazendo-a ficar inerte, impotente diante de um sistema social feito para
marginalizá-la.
Estas mulheres vítimas devem ser ajudadas para refletir melhor sobre sua situação
no mundo e sobre si mesmas. Precisam compreender o processo de violência e, a partir disto,
tomar sua decisão de romper com o ciclo de violência ou afastar-se, definitivamente do
agressor. Contudo, devem tomar tais decisões em condições de segurança física, psíquica
etc. É neste sentido que a Lei Maria da Penha cumpre o seu papel mais relevante:
disponibilizar instrumentos úteis à mulher em situação de violência doméstica e familiar.
A Lei Maria da Penha tem por objetivos coibir e prevenir a violência de gênero, seja
no contexto doméstico, familiar ou de uma relação intima afetiva, este trabalho se propõe a
estudar mais detalhadamente os fundamentos, objetos da lei, as formas de violência contra a
mulher, as medidas de proteção e o papel do Poder Judiciário no âmbito da lei.
1. FUNDAMENTOS DA LEI MARIA DA PENHA

A Constituição Federal de 1988, em seu art. 226 proclama que “a família, base da
sociedade, tem especial proteção do Estado" e garante, no parágrafo 8º do mesmo artigo, que
o “Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram,
criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações".
A Lei Maria da Penha foi criada para atender a este compromisso constitucional e
também compromissos internacionais assumidos pelo Brasil após a redemocratização, como
se pode inferir da menção expressa, na ementa da Lei 11.340/2006, à Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e à Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. O que
demonstra a nova postura do Estado brasileiro frente aos tratados internacionais de proteção
dos direitos humanos, movido pelo consenso de estabelecer padrões protetivos mínimos
relativos aos direitos humanos.
Além dos documentos internacionais já mencionados, também podem ser elencados
como inspiradores da Lei Maria da Penha, bem como fundamentos jurídicos, a Convenção
de Viena de 1993, fruto da Conferência das Nações Unidas sobre Direitos Humanos, que
pela primeira vez definiu formalmente a violência contra a mulher como violação de direitos
humanos, e a Convenção de Belém do Pará - Convenção Interamericana para Prevenir, Punir
e Erradicar a Violência Doméstica.
A Convenção de Belém do Pará se mostrou importante instrumento para consolidar
a proteção à mulher no direito brasileiro ao conceituar a violência contra a mulher como
“qualquer ação ou conduta baseada, no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico,
sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como privado". A ONU adotou esta
convenção em 1994 e seu comitê para o direito das mulheres apresentou recomendações aos
Estados membros de que devem estabelecer legislação especial sobre violência doméstica e
familiar contra a mulher, o que o Brasil cumpriu com a promulgação da lei objeto deste
trabalho, não sem antes sofrer reprimendas de organismos internacionais, como da Comissão
Interamericana de Direitos Humanos no relatório sobre o caso 054/2001, que tinha por objeto
a inércia do Estado brasileiro quanto à violência sofrida por Maria Fernandes da Penha, que
veio a batizar a lei.
1.1. A natureza constitucional das normas de proteção da mulher contra a violência
doméstica e familiar.

A Lei Maria da Penha, editada e promulgada para cumprir com compromisso


internacional assumido pelo Brasil, tem natureza constitucional e faz parte do rol de direitos
e garantias fundamentais, por força do art. 5º, § 2º da Constituição da República, que prevê
que os tratados e normas internacionais de direitos humanos de que o Brasil for signatário
se juntam ao rol de direitos e garantias fundamentais expressos no texto constitucional. Com
isto, o fundamento constitucional da lei, além de provir da conjugação da sistemática
constitucional de proteção aos direitos fundamentais, também se apoia em tratado
internacional com natureza constitucional expressa.
O princípio da dignidade da pessoa humana e da igualdade, fundamentos do Estado
brasileiro, também têm grande importância como fundamentos da referida lei, visto que no
estado democrático de direito, por força do dever de promover a igualdade material entre os
indivíduos, o Estado deixa de ser mínimo e não intervém apenas quando não há consenso
entre os particulares, antes é atuante, garantidor, protetor de liberdades e deve sempre
promover o bem estar social e dos indivíduos.
O Estado não pode apenas aceitar que todos os indivíduos nascem e são iguais entre
si, no sistema constitucional atual, a igualdade não é mais ‘perante’ a lei, mas feita ‘pela’ lei,
‘através’ da lei. Por isto, a persecução da proteção da mulher contra a violência se perfaz em
uma intervenção constitucional do Poder Público na ordem social, com vistas a remover as
mais profundas e perturbadoras injustiças sociais.

2. FORMAS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER.

2.1. Conceito de Violência Doméstica.

A Lei Maria da Penha, em seu art. 5º, define violência doméstica como “qualquer
ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou
psicológico e dano moral ou patrimonial”. Contudo, o conceito deve ser obtido também com
a leitura do art. 7º da mesma lei, que estabelece o campo de abrangência, de forma a evitar
que todo e qualquer delito cometido contra a mulher seja considerado como violência
doméstica. Assim, a violência passa a ser doméstica quando cometida: no âmbito da unidade
doméstica; no âmbito da família ou em qualquer relação íntima de afeto, independentemente
da orientação sexual.
É necessário, portanto, que a ação ou omissão ocorra na unidade doméstica ou
familiar ou em razão de qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha
convivido com a vítima, independentemente de coabitação, de forma que, basta que o
agressor e a agredida mantenham, ou já tenham mantido, um vínculo de natureza familiar.
O sujeito ativo do crime tanto pode ser um homem como uma mulher, sendo
necessária a caracterização do vínculo de relação doméstica, familiar ou de afetividade. A
empregada doméstica, está sujeita à violência doméstica, assim, o patrão ou a patroa podem
ser sujeitos ativos, bem como o neto ou a neta que agridam os avós, os conflitos entre mãe e
filhas, assim como os desentendimentos entre irmãos também estão abarcados pela LMP,
pois todos se desenvolvem em função dos tipos de vínculo motivadores da violência.
No que diz respeito ao sujeito passivo, há exigência de uma qualidade especial: ser
mulher. Neste conceito, estão abarcadas as mulheres heterossexuais, as lésbicas, os
transgêneros e as transexuais, que tenham identidade com o sexo feminino. Não somente as
companheiras ou amantes estão no âmbito de abrangência do delito de violência doméstica
como sujeito passivo, também as filhas e netas do agressor, incluindo sua mãe, sogra, avó
ou qualquer outra parente que mantém vínculo familiar com ele podem integrar o polo
passivo do delito. Contudo, há a possibilidade de o sujeito passivo não ser necessariamente
uma mulher, pois o Código Penal, em seu art. 129, §11, prevê uma majorante ao crime de
lesão corporal em sede de violência doméstica, o fato de ter sido praticada contra pessoa
portadora de deficiência, de ambos os sexos.

2.2. Formas de Violência contra a Mulher.

Por força do princípio da taxatividade e da legalidade que vigoram no Direito Penal,


com o intuito de impedir conceitos vagos, a Lei Maria da Penha também especificou as
formas de violência doméstica em seu art. 7º, em rol não exaustivo. Pode haver o
reconhecimento de outras ações que configurem violência doméstica e familiar contra a
mulher, estas ações fora do elenco legal podem gerar a adoção de medidas protetivas no
âmbito civil, mas não no Direito Penal, por falta de tipicidade. Abaixo serão explanadas as
formas de violência doméstica tipificadas na LMP.
2.2.1. Violência física.

Art. 7º, I da LMP: “a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda
sua integridade ou saúde corporal”.
Ainda que a agressão não deixe marcas aparentes, o uso da força física que ofenda o
corpo ou a saúde da mulher constitui a violência física, ou, vis corporalis. A violência
doméstica já configurava forma qualificada de lesão corporal, pois foi inserida no Código
Penal em 2004, no § 9º do art. 129 do CP. A LMP limitou-se a aumentar a pena deste delito:
de seis meses a um ano, a pena passou para de três meses a três anos.
Não houve mudanças na descrição do tipo penal, mas ocorreu a ampliação do seu
âmbito de abrangência, visto que houve a ampliação do conceito de família, embarcando
também as unidades domésticas e as relações de afeto. Outro fato importante a mencionar é
que não somente a lesão dolosa, mas também a lesão culposa constitui violência física, pois
a lei não faz nenhuma distinção quanto à intenção do agressor.

2.2.2. Violência psicológica.

De acordo com o art. 7º, II da LMP, a violência psicológica é entendida como


“qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe
prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações,
comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação,
manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem,
ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe
cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.
Este conceito foi incorporado ao ordenamento brasileiro antes mesmo da
promulgação da LMP, visto que previsto originalmente na Convenção de Belém do Pará,
visa proteger a autoestima e a saúde psicológica das mulheres contra agressões emocionais
e comportamentos do agente que ameaça, rejeita, humilha ou discrimina a vítima,
demonstrando prazer quando vê o outro se sentir amedrontado, inferiorizado e diminuído,
configurando a vis compulsiva.
Alguns doutrinadores criticam a expressão violência psicológica, já que ela pode ser
aplicada a qualquer crime contra a mulher, vez que todo crime gera dano emocional à vítima,
e aplicar tratamento diferenciado apenas pelo fato de a vítima ser mulher seria discriminação
injustificada de gêneros, contudo, este entendimento, não merece prosperar, pois a violência
contra a mulher tem raízes históricas e culturais, merecendo uma forte reprimenda do estado,
como agente interventor na realidade social para buscar a igualdade material e garantir a
vida humana digna.
A violência psicológica tem uma base sólida na desigualdade das relações de pode
entre os sexos, a vítima, muitas vezes, nem se dá conta que agressões verbais, silêncios
prolongados, tensões, manipulações de atos e desejos, são violência e devem ser
denunciados. Para a configuração do dano psicológico não é preciso a produção de laudo
técnico ou perícia, reconhecida pelo juiz, é cabível a concessão de medidas protetivas de
urgência. Se há delito cometido mediante violência psicológica, a pena deve ser majorada.

2.2.3. Violência sexual.

Toda e qualquer conduta que constranja a presenciar, a manter ou a participar de


relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força, que
induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de
usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou
à prostituição, mediante coação, chantagem, subornou ou manipulação; ou que limite ou
anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos – esta é a definição de violência
sexual do art. 7º, II da LMP.
A Convenção de Belém do Pará já havia reconhecido a violência sexual como forma
de violência contra a mulher, contudo, no âmbito da jurisprudência e na doutrina nacional,
houve certa resistência em admitir a possibilidade de violência sexual no âmbito das relações
familiares, pois havia quem identificasse o exercício da sexualidade como um dos deveres
do casamento. A Lei Maria da Penha veio inserir mais uma hipótese de agravante da pena
no Código Penal, ao modificar a redação do Art. 61, II, f para incluir a violência contra a
mulher na forma da própria LMP.
Os delitos ‘contra os costumes’ e os ‘contra a liberdade sexual’ configuram violência
sexual quando praticados contra a mulher e, se cometidos no âmbito das relações domésticas,
familiares ou de afeto, constituem violência doméstica, submetendo-se o agente à Lei Maria
da Penha, mesmo o assédio sexual, que está ligado às relações de trabalho, pode constituir
violência doméstica, quando, além do vínculo afetivo familiar, a vítima trabalha para o
agressor.
2.2.4. Violência patrimonial.

A violência patrimonial, de acordo com o artigo 7º, IV da LMP, é entendida como


“qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus
objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos
econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades”. O Código Penal
também define a violência patrimonial entre os delitos contra o patrimônio como furto, dano,
apropriação indébita etc.
Dada a sua definição como violência doméstica, não se aplicam as imunidades
absolutas ou relativas dos arts. 181 e 182 do Código Penal quando a vítima é mulher e
mantém com o autor da infração vínculo de natureza familiar. Desta forma, não se pode mais
afastar a pena para o autor que pratica um crime contra seu cônjuge ou companheira, ou,
ainda, parente do sexo feminino.
Novidade trazida pela LMP foi o fato identificar também a subtração de valores,
direitos e recursos econômicos destinados a satisfazer as necessidades da mulher, neste
conceito se encaixa o não pagamento dos alimentos. Portanto, se o alimentante deixar de
atender a obrigação alimentar, ainda que não esteja fixada judicialmente, mesmo durante a
vida em comum, sonegando o homem os meios de assegurar a subsistência da esposa ou da
companheira, que não tem meios de prover a própria subsistência, além de violência
doméstica, tipifica o crime abandono material.

2.2.5. Violência moral.

O art. 7º, V da LMP define violência moral como “qualquer conduta que configure
calúnia, difamação ou injúria”.
A violência moral encontra proteção penal nos delitos contra a honra, quando
cometidos em decorrência de vínculo de natureza familiar ou afetiva. Por isto, se verificada
esta hipótese, devem ser reconhecidos como violência doméstica, impondo-se o
agravamento da pena. São, de um modo geral, concomitantes à violência psicológica.
3. MEDIDAS DE PROTEÇÃO DA LEI MARIA DA PENHA.

A Lei Maria da Penha dispõe de um rol de medidas para dar efetividade ao seu
propósito: assegurar à mulher o direito de uma vida sem violência. São medidas únicas no
Direito Penal brasileiro.
Deter o agressor e garantir a segurança pessoal e patrimonial da vítima e sua prole é
competência tanto da polícia como do juiz e do Ministério Público. Todos precisam agir de
modo imediato e eficiente.

3.1. Medidas protetivas de urgência.

Segundo o art. 10 da LMP, a autoridade policial deve tomar as providencias legais


cabíveis no momento em que tiver conhecimento da violência doméstica. Assim também
deve agir o Ministério Público e requerer a aplicação de medidas protetivas ou a revisão das
que já foram concedidas, para assegurar a proteção da vítima. Entretanto, a adoção de
providências de natureza cautelar está condicionada à vontade da vítima: ainda que a mulher
registre a ocorrência, é dela a iniciativa de pedir proteção em sede de tutela antecipada.
Somente quando a vítima requerer providências é que cabe ao juiz agir de ofício, adotando,
também, outras medidas que entender necessárias para tornar efetiva a proteção que a Lei
requer.
As medidas protetivas em tutela de urgência não cabem apenas no expediente
recebido da autoridade policial. Novas medidas podem ser concedidas, no recebimento do
inquérito ou durante a tramitação da ação penal, podendo ocorrer, ainda, nas denúncias cíveis
intentadas pela vítima ou pelo Ministério Público, que se originam de situação de violência
doméstica. Para garantir efetividade às medidas deferidas, a qualquer momento pode haver
substituição ou até concessão de outras medidas, podendo o juiz requisitar o auxílio da força
policial ou decretar a prisão preventiva do agressor.
A LMP tem um capítulo exclusivo para as medidas protetivas de urgência, este rol
não é exaustivo, podendo ser aplicadas outras medidas, conforme o art. 22, § 1º da LMP.
Como exemplo temos a inclusão da vítima em programas assistenciais, a possibilidade de
assegurar à servidora pública acesso prioritário à remoção, e se trabalhadora da iniciativa
privada, o direito de manter o vínculo empregatício por até seis meses, se necessário o
afastamento do local de trabalho. Há ainda caráter tutelar no direito da vítima de intimação
pessoal dos atos processuais relativos ao agressor, especialmente do seu ingresso e saída da
prisão.
A LMP inovou a permitir que as medidas protetivas de urgência do âmbito de direito
de família sejam requeridas pela vítima perante a autoridade policial. A vítima, ao registrar
a ocorrência de violência doméstica, pode requerer separação de corpos, alimentos, vedação
de o agressor aproximar-se dela e de seus familiares ou que ele seja proibido de frequentar
determinados lugares. Com o requerimento destas medidas, a autoridade policial deve
comunicar ao juiz para concedê-las, entretanto, somente por pedido pessoal da vítima é
possível o pedido, não podendo ser requerido por meio de advogado ou procurador.
As medidas deferidas, em sede de cognição sumária, não têm caráter temporário, ou
seja, a vítima não é obrigada a ingressar com a ação principal no prazo de 30 dias, todas
possuem caráter satisfativo, a limitação temporal existe somente se imposta pelo juiz.
Enquanto não instalados os Juizados da Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher, as medidas protetivas serão enviadas ao juízo criminal, que possuirá competência
inclusive para as medidas de caráter cível. As medidas de trato sucessivo, todavia, são
enviadas ao juízo cível ou de família para executá-las.

3.2. Medidas que obrigam o agressor.

As medidas protetivas que obrigam o agressor estão concentradas no art. 22 da LMP,


apesar de nem todas disporem desta natureza.
A primeira delas é a que obriga o desarmamento no caso de o agressor portar arma
de fogo, admitindo a restrição da posse ou a suspensão do porte de arma de fogo. Somente
podendo ser requeridas por solicitação da vítima.
As medidas protetivas que obrigam o agressor não impedem a aplicação de outras,
sempre que a segurança da ofendida ou as circunstâncias o exigirem. Deve o Ministério
Público ser comunicado das providências tomadas, podendo requerer o que entender cabível
para dar efetividade à tutela deferida. Além da suspensão do porte ou restrição da posse de
arma de fogo, tem-se como medidas que obrigam o agressor:

 afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida;


 proibição de determinadas condutas, entre as quais:
o aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite
mínimo de distância entre estes e o agressor;
o contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de
comunicação;
o frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e
psicológica da ofendida;
o restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de
atendimento multidisciplinar ou serviço similar;
o prestação de alimentos provisionais ou provisórios.

3.3. Medidas que protegem a vítima.

São aquelas previstas no art. 23 da LMP, que prevê:

Art. 23. Poderá o juiz, quando necessário, sem prejuízo de outras medidas:
I - encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou comunitário de proteção ou de atendimento;
II - determinar a recondução da ofendida e a de seus dependentes ao respectivo domicílio, após afastamento do
agressor;
III - determinar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo dos direitos relativos a bens, guarda dos filhos
e alimentos;
IV - determinar a separação de corpos.

O encaminhamento da ofendida e seus dependentes a um programa oficial ou


comunitário de proteção ou atendimento pode ser determinado pelo juiz ou pela autoridade
policial, sendo possível também pelo Ministério Público, por conta de sua competência para
requisitar sérvios públicos de segurança, nesta hipótese a medida seria de cunho
administrativo.
As demais medidas de proteção à vítima são todas do âmbito das relações familiares:
afastamento do agressor do domicílio comum e a possibilidade de a ofendida e seus
dependentes serem reconduzidos ao lar. Essas medidas podem ser requeridas através da
medida cautelar intentada pela vítima perante o JVDFM.

3.4. Medidas de caráter patrimonial.

Prevê a lei a possibilidade de concessão de medidas protetivas de cunho eminentemente


patrimonial:
 Restituição de bens da vítima que lhe foram indevidamente subtraídos pelo agressor;
 Proibição temporária de compra, venda ou locação de bens comuns;
 Suspensão de procuração outorgada pela vítima.

O pressuposto para a concessão dessas medidas é que tenham os bens sido subtraídos
por quem a vítima mantém um vínculo familiar. A previsão de suspensão de procuração é
uma das mais providenciais, pois permite ao Juiz a possibilidade de suspender procurações
outorgados pela vítima ao agressor. no prazo de 48 horas após a denúncia.
Não vendo o magistrado justificativa suficiente para conceder a restituição pela
vítima, tem a faculdade de determinar tão somente o arrolamento dos bens ou o protesto
contra alienação de bens, como forma de assegurar a higidez do patrimônio, evitando a
possibilidade de dano irreparável.

4. O PAPEL DO PODER JUDICIÁRIO NA APLICAÇÃO DA LEI MARIA DA


PENHA E NO COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.

A Lei n. 11.340/2006, Lei Maria da Penha, atribuiu ao Poder Público a


responsabilidade de instituir políticas de combate à violência praticada cotidianamente
contra as mulheres brasileiras, garantindo os direitos dessas mulheres no âmbito das relações
domésticas, familiares e afetivas.
Ao Poder Judiciário coube a especialização no atendimento às mulheres vítimas de
violência a partir da criação de Juizados ou Varas de Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher em todas as Unidades da Federação. Esses órgãos pertencem à justiça comum,
tendo competência cível e criminal para processar, julgar e executar as causas decorrentes
da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, devendo contar com uma equipe
multidisciplinar especializada nas áreas psicossocial, jurídica e de saúde.

4.1. Rito dos JVDFM.

Nos JVDFM a Lei Maria da Penha determinou a aplicação subsidiária não apenas
dos Códigos de Processo Penal e Civil, bem como do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Contudo, o legislador não se preocupou em trazer os procedimentos a serem adotados e nem
o rito a ser adotado pelos incidentes de medidas protetivas de urgência. Ainda que preveja
expressamente a proibição da aplicação do rito dos Juizados Especiais, nada impede que se
copie o rito destes, ao menos aos incidentes das medidas protetivas. Mas, no que for possível,
a oralidade, informalidade, economia processual e celeridade devem dar o tom.
Com relação aos processos, o rito está condicionado à natureza da pena. Tratando-se
de delito apenado com reclusão, o procedimento é comum; o procedimento será sumário
para os crimes com pena de detenção. Os processos com crimes contra a vida dispõem de
rito e juízo próprios, mas devem tramitar perante o JVDFM até a pronúncia.
As ações cíveis propostas pela vítima ou pelo Ministério Público, que trazem por
fundamento a violência doméstica, assumem os ritos do CPC. Demandas especiais, como a
ação de alimentos, por exemplo, preservam o procedimento previsto na lei própria.

4.2. Competência do JVDFM.

Os JVDFM integram a justiça ordinária, tanto a União quanto os Estados podem cria-
los. Até serem implantados, foi atribuída às Varas Criminais competência cível e criminal
para conhecer e julgar a violência doméstica. Antes esses conflitos eram submetidos aos
JECRIM’s, contudo, a alteração da competência é expressa.
Foi delegada aos JVDFM a competência para o processo, julgamento e execução de
ações cíveis e criminais decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a
mulher. Disto decorre a aplicação subsidiária dos Códigos de Processo Penal e Processo
Civil, do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Idoso. A lei uniu as competências em
um só magistrado. Para dar efetividade ao processo, é possível punir o agressor na órbita
criminal, tomando-se medidas de natureza civil.
Cada episódio de violência doméstica pode gerar mais de um processo: incidente de
medida protetiva, ação penal e várias ações cíveis. Se houver mais de um JVDFM na mesma
comarca, o inquérito deve ser distribuído ao juízo que apreciou o procedimento de medida
protetiva, dada a prevenção ocorrida. Pode, ainda, inexistir identidade de comarcas entre o
procedimento de medida protetiva e a ação penal, pois nos incidentes de medida protetiva
de urgência, a vítima tem a prerrogativa de eleger o foro.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS.

A Lei Maria da Penha se revela um importante instrumento no combate à violência


contra a mulher, mas não se limita à violência doméstica, é importante também para
combater a violência de gênero, já que a jurisprudência pátria estendeu seus efeitos também
para indivíduos que não necessariamente nasceram com o sexo feminino, mas se identificam
com ele. Apesar disto, o preconceito e o machismo exacerbado criado pelo patriarcado
brasileiro ainda é dominante na sociedade brasileira.
A promulgação da LMP salda, ainda que não completamente e mais no aspecto
formal que o material, uma dívida do Estado brasileiro para com a luta das mulheres por
mais isonomia e respeito aos seus direitos humanos. Cumpre ao Poder Judiciário e às suas
funções essenciais fazer valer as disposições legais e ao Poder Público como um todo criar
políticas públicas que visem à diminuição significativa dos índices de violência doméstica
contra a mulher, mas cumpre a nós, como cidadãos, agir para que esta mácula seja extinta.