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DIREITO

PROCESSUAL CIVIL II

ALEXANDRE DE CASTRO CATHARINA

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2017
Conselho editorial  roberto paes e gisele lima

Autor do original  alexandre de castro catharina

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  gisele lima, paula r. de a. machado e aline karina rabello

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  luís salgueiro

Revisão linguística  marlon magno

Revisão de conteúdo  antonio pereira gaio junior

Imagem de capa  normana karia | shutterstock.com

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

C361d Catharina, Alexandre de Castro


Direito processual civil II / Alexandre de Castro Catharina.
Rio de Janeiro : SESES, 2017.
164 p.
ISBN: 978-85-5548-486-5.

1. Procedimento. 2. Provas. 3. Sentença.


4. Coisa julgada. I. SESES. II. Estácio

CDD 347

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 5

1. Processo de conhecimento e
procedimento comum 7
Introdução 8
Processo de conhecimento. Conceito e natureza jurídica 9
Procedimento. Conceito e classificações 10
Procedimento comum. Disposições gerais 12
Adaptação procedimental 14
Negócio processual 14
Improcedência liminar do pedido 18
Audiência de conciliação e mediação 19
Conclusão 22

2. Da resposta do réu 25
Introdução 26

Respostas do réu. Conceito. Princípios constitucionais e


infraconstitucionais aplicáveis 27
Espécies: contestação e reconvenção. Características 28
Exceção de impedimento e suspeição 39
Revelia 40
Preclusão 43
Conclusão 44

3. Providências preliminares. Saneamento


e julgamento conforme o estado do processo 45
Introdução 46
Providências preliminares: conceito 47
Julgamento conforme estado do processo 53
Saneamento e organização do processo 59
Conclusão 65
4. Direito probatório e audiência de
instrução e julgamento 67
Introdução 68
Teoria geral da prova 68
Produção antecipada de prova 83
Provas em espécie 86
Audiência de instrução e julgamento 108
Conclusão 110

5. Sentença. Coisa julgada. Homologação


de sentença estrangeira e ação rescisória 111
Introdução 112
Sentença: conceito 113
Elementos da sentença 113

Anexo 1 115
Apreciação de novos fatos na decisão e a possibilidade
de modificação da sentença 120
Classificação das sentenças 121
Remessa necessária 128
Homologação de sentença estrangeira 131
Coisa julgada 135
Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

O direito processual é um dos principais ramos do direito. Por se tratar das


regras que determinam como o juiz deve proceder na condução de um processo e,
ainda, definir, de forma objetiva, sobre os atos que as partes podem praticar num
determinado processo, o direito processual, em suas dimensões cível, trabalhista e
penal, possui grande relevância para os alunos do curso de Direito.
Considerando que o direito processual civil é utilizado como método de so-
lução de conflitos que envolvam o universo de matérias que não estejam con-
templadas pelo direito penal e trabalhista, o estudo do procedimento comum se
impõe como conhecimento fundamental para o profissional do direito em geral.
A disciplina Direito Processual Civil II contempla os principais aspectos do pro-
cedimento comum, contribuindo para a formação sólida dos alunos do curso de
Direito da Universidade Estácio de Sá.
Para abordar melhor os conteúdos da disciplina, o presente livro é desenvolvido
em 05 capítulos, que, de uma forma global, abordam os principais atos processuais
do procedimento comum além do estudo acerca da coisa julgada e da ação rescisória
no processo civil brasileiro. Essa distribuição do conteúdo permite ao aluno conhe-
cer, de forma ampla e completa, os principais institutos do Processo Civil disposto
no CPC/2015, conferindo sólida formação ao estudante do curso de Direito.
O primeiro capítulo aborda o conceito de processo e procedimento como
também os primeiros atos processuais do procedimento comum, tais como a im-
procedência liminar do pedido e a audiência de conciliação/mediação. Também
será abordado a adaptação do procedimento e o negócio processual, institutos ju-
rídicos importantes dispostos no CPC/2015. No segundo capítulo, abordaremos,
em sua plenitude, as espécies de respostas do réu e seus desdobramentos no pro-
cesso civil. Trata-se de estudo fundamental em razão do princípio constitucional
do contraditório e da ampla defesa.
O terceiro capítulo trata das providências preliminares. Tal tema é fundamen-
tal por tratar das possíveis soluções a serem propostas pelo juiz após o estabeleci-
mento do contraditório.
No quarto capítulo, abordaremos o direito probatório, cuja ênfase será dada
aos diversos meios de provas que podem ser produzidas pelas partes. Neste capítulo

5
será abordado, também, a audiência de instrução e julgamento e sua dinâmica no
processo civil brasileiro.
Por fim, no quinto e último capítulo, abordaremos a sentença, enquanto ato
fundamental do juiz na primeira instância, a coisa julgada, no processo individual
e coletivo, e, por último, mas não menos importante, as ações rescisória e anu-
latória. Essa estrutura permitirá ao aluno ter uma visão global do procedimento
comum como também da coisa julgada e de suas formas de impugnação.
É nosso desejo, sincero, que esta obra contribua para facilitar seus estudos no âm-
bito do direito processual civil e sirva como um barco seguro que lhe permitirá iniciar
sua navegação pelos mares profundos, porém belos deste ramo encantador do Direito.

Bons estudos!

6
1
Processo de
conhecimento
e procedimento
comum
Processo de conhecimento e
procedimento comum

Introdução

A jurisdição é uma função estatal e deverá ser exercida pelo juiz observando
a natureza da pretensão formulada pelo autor em juízo. Se o autor pretender ver
cumprida a obrigação de pagar contida em um cheque, ou qualquer outro título
executivo extrajudicial, deverá o juiz promover atos executivos (penhora) para sa-
tisfazer o crédito do autor-exequente. Nesse caso, a atividade judicial se limitará a
realizar atos executivos para atingir a satisfação do crédito.
Todavia, se o autor objetivar um provimento jurisdicional urgente, por exem-
plo, uma cirurgia do coração, necessitará de uma tutela provisória através da qual
o juiz, proferindo uma decisão liminar, autorizará, mediante o cumprimento dos
requisitos, a realização da cirurgia, impedindo a irradiação dos males do tempo.
Nesse caso, a atividade cognitiva do juiz será sumária, com base em um juízo
de probabilidade.
Por outro lado, nos casos em que o autor não possui um título executivo extra-
judicial ou não seja a hipótese de tutela de urgência, deverá ajuizar sua demanda e
o juiz, após intenso contraditório e extensa atividade probatória, julgará a deman-
da julgando procedente ou não o pedido formulado. As atividades exercidas pelo
juiz serão voltadas para se verificar quem tem razão, mediante a prova dos autos.
Essa atividade cognitiva ampla é denominada processo de conhecimento.
É a partir do processo de conhecimento que o juiz poderá concluir que o autor
tem razão, e julgará procedente o pedido, ou, se concluir o contrário, julgará im-
procedente o pedido. É nesse contexto que os temas relativos às etapas do processo
de conhecimento e do procedimento comum se constituem como fundamentais
no direito processual civil.
Assim, neste capítulo, abordaremos as principais características do pro-
cesso de conhecimento, bem como os primeiros atos processuais do procedi-
mento comum e sua importância para a solução rápida do conflito levado ao
Poder Judiciário.

capítulo 1 •8
OBJETIVOS
•  Compreender a finalidade do processo de conhecimento e sua natureza jurídica.
•  Conhecer as etapas do procedimento comum e do procedimento especial.
•  Estudar as possibilidades de flexibilização do procedimento e as hipóteses de negócio processual.
•  Analisar a audiência de conciliação e mediação e seus principais atos.

Processo de conhecimento. Conceito e natureza jurídica

O processo judicial é um método de solução de conflito através do qual o


Estado exerce sua função jurisdicional. O Código de Processo Civil de 2015 avan-
çou ao reconhecer expressamente a arbitragem como uma forma não estatal de so-
lução de conflito ampliando o próprio conceito de processo (art. 3º, §1º). Assim,
pode-se compreender o processo como um método, estatal ou não, de solução de
conflitos caracterizado pela relação jurídica estabelecida entre um órgão julgador
e pelas partes.
A tutela dos direitos (MARINONI, 2015) é desenvolvida pelo Estado por
meio do processo de conhecimento, que tem como principal objetivo eliminar
a incerteza acerca de determinada questão jurídica, definindo, no caso concreto,
quem tem direito a ser tutelado. O processo de conhecimento se desenvolve em
pelo menos duas fases, em que prevalecem 1) atos de cognição, onde o juiz aprecia
as alegações e provas produzidas pelas partes, e 2) atos executivos com a finalidade
de se obter o cumprimento do que foi determinado na sentença.
O código também trata do processo de execução (art. 771 e ss), onde a prin-
cipal atividade do juiz é determinar a prática de atos executivos que concretizem a
obrigação fixada em um documento considerado pela lei como um título executi-
vo extrajudicial (art. 784).
O termo processo é muito utilizado tanto no âmbito do direito processual como
em outras áreas do direito. No direito administrativo, denomina-se processo admi-
nistrativo o meio pelo qual determinado servidor público responderá por infrações
disciplinares. O termo processo é também utilizado para denominar o processo de
criação de leis ou processo legislativo. Na esfera privada, há também exemplos de
processo, como ocorre nos casos de exclusão de associado em associações e entidades
da sociedade civil organizada. Todavia, se faz necessário compreender de forma clara
o que diferencia o processo judicial dos demais processos mencionados.

capítulo 1 •9
A principal característica do processo judicial decorre de sua condução, por
um juiz, agente político do Estado, das etapas processuais com estrita obser-
vância da legislação. Além do julgamento por um juiz, o processo judicial deve,
mais que qualquer outro, assegurar o contraditório e a ampla defesa enquanto
garantias constitucionais, ratificadas nas normas fundamentais do Código de
Processo Civil, através do qual as partes participam efetivamente na construção
da decisão judicial.

Procedimento. Conceito e classificações

Um processo consiste numa relação jurídica processual que se materializa a


partir de um procedimento. Este último é, portanto, um conjunto de atos pro-
cessuais que se entrelaçam em cada etapa do processo até a decisão final da causa.
Um exemplo simples pode ilustrar bem o conceito de procedimento. Uma pessoa
que pretende se deslocar de um bairro a outro poderá fazê-lo de diversas formas:
de ônibus, metrô, carro ou até mesmo de helicóptero. Cada meio de transpor-
te seguirá um itinerário ou uma rota própria até chegar ao seu destino. Assim,
cada percurso equipara-se a um procedimento e as etapas do itinerário são os
atos processuais.
Esse exemplo nos mostra que podemos ter um meio de transporte que utilize
um itinerário mais longo e demorado e outro que utilize um percurso mais curto e
célere. O mesmo acontece com o procedimento judicial. Há procedimentos com
mais atos processuais e, portanto, mais longo; e também procedimentos mais cé-
leres, com atos processuais mais concentrados. Assim, um mandado de segurança,
por tutelar direito líquido e certo, não admite produção de provas e requer um
procedimento mais célere, considerando a natureza do direito tutelado. Por outro
lado, uma ação de investigação de paternidade, que tem como um dos principais
meios de prova o exame de DNA, terá um procedimento mais extenso, com pro-
vas técnicas, para se identificar corretamente a paternidade.
Por esse motivo, o Código de Processo Civil dispôs sobre dois tipos de pro-
cedimento: comum e especiais. Diferentemente do CPC/1973, o CPC/2015 eli-
minou a subdivisão do procedimento comum sumário e ordinário, e estabeleceu
um procedimento comum e os procedimentos especiais. Conforme dispõe o art.
318 do Código de Processo Civil, o procedimento comum é aplicável em todas as
causas, constituindo-se num procedimento padrão.

capítulo 1 • 10
Há casos em que o legislador, observando as peculiaridades do direito dedu-
zido em juízo, estabeleceu procedimentos especiais com a finalidade de garantir o
julgamento mais adequado de determinadas causas. Nesses casos, o procedimento
se adapta ao direito material atendendo as suas necessidades para alcançar a efetiva
e tempestiva tutela jurisdicional (MARINONI, 2015, p. 47). A situação a seguir
nos ajudará a compreender melhor o conceito.
Suponhamos que A pretenda se livrar de uma dívida que tem com B, mas este
não quer receber a quantia. O devedor tem o direito de se livrar da dívida e preten-
de depositar em juízo o valor devido. Observe que nessa hipótese o procedimento
comum não é o mais adequado, necessitando o devedor de um procedimento
específico para providenciar o depósito. Assim, ajuizará uma ação de consignação
em pagamento – procedimento especial – para se liberar da dívida.
O mesmo acontece nos casos em que o cidadão pretenda proteger a sua pos-
se perdida em razão de esbulho praticado. A necessidade de se obter a imediata
retomada da posse (direito material) faz com que o legislador coloque à disposi-
ção da parte um procedimento especial (ações possessórias) por meio do qual a
pessoa que a perdeu consiga a retomada de forma liminar. É com tal finalidade
que o código dedica uma parte (Título III) aos procedimentos diferenciados. Os
procedimentos especiais estão elencados entre os arts. 539 e 770 do Código de
Processo Civil.
Os procedimentos especiais têm regras próprias acerca da realização dos atos
processuais. No entanto, as disposições do procedimento comum são aplicáveis
subsidiariamente aos procedimentos especiais quando couber. O procedimento
monitório (art. 700) traz um exemplo que não deixa dúvidas sobre o tema. Nos
casos em que o devedor opuser embargos à ação monitória, poderá se valer de
todas as matérias de defesa elencadas no procedimento comum (art. 702, §1º do
CPC). O embargante poderá arguir quaisquer das matérias processuais (art. 337)
ou de mérito dispostas no procedimento comum. Essa subsidiariedade poderá
ocorrer em quaisquer procedimentos especiais.
Uma observação se faz necessária. Procedimento é matéria de ordem pública,
ou seja, não pode ser objeto de escolha pelas partes. Dessa forma, o procedimento
pertinente será definido por exclusão: se a causa a ser ajuizada tiver procedimento
especial tipificado no CPC, o autor deverá observá-lo; mas, se não tiver procedi-
mento específico, a causa tramitará pelo procedimento comum, que é a regra geral.
Pensemos nas seguintes situações: um cliente procura seu advogado para co-
brar prestação de contas do síndico do seu prédio. O advogado deverá propor ação

capítulo 1 • 11
de exigir contas, procedimento especial regulado no art. 550 do CPC, não haven-
do possibilidade de se ajuizar a pretensão do cliente pelo procedimento comum.
Se o advogado, por equívoco, ajuizar a demanda pelo procedimento comum, o
juiz determinará a emenda da petição inicial para se adequar ao procedimento
correto, sob pena de extinção sem resolução do mérito.
Em outra situação o cliente pretende ajuizar uma ação de cobrança em face
do devedor. Considerando que não há procedimento especial sobre esse direito
material, poderá o advogado ajuizar a ação pelo procedimento comum (padrão).
Assim sendo, o advogado deverá verificar, em primeiro lugar, se há procedimento
especial sobre a pretensão do autor. Não havendo nenhum procedimento especial,
poderá o advogado ajuizar a demanda pelo procedimento comum.

Procedimento comum. Disposições gerais

O procedimento comum é concentrado e possui atos processuais simplifica-


dos. A proposta do código foi estabelecer um procedimento padrão mais célere
com maior concentração das etapas do processo. Assim, o procedimento, em pri-
meira instância, se inicia com o recebimento da petição inicial pelo juiz e se exaure
com a prolatação da sentença de mérito (princípio da primazia do mérito, art. 4º),
através da qual o exercício da jurisdição em primeiro grau se esgota.
A petição inicial dá início ao procedimento comum. Após o seu recebimento,
o réu é citado, para ter ciência do processo, e intimado para comparecer à audiên-
cia preliminar de conciliação ou sessão de mediação1. Caso haja acordo, o juiz
homologará o mesmo por sentença e o processo será extinto, com resolução do
mérito, nos termos do art. 487, III, “b”, do CPC. Nos casos em que não houver
acordo, o prazo para a resposta do réu se iniciará (art. 335). Apresentada a con-
testação pelo réu, o juiz intimará o autor a se manifestar em réplica. Do ponto de
vista técnico, a réplica somente ocorrerá nos casos em que o réu apresente uma
defesa processual (art. 351) ou fatos novos (art. 350). Porém, na praxe forense,
após a juntada da defesa do réu, o autor é intimado para se manifestar, indepen-
dentemente da defesa apontada pelo réu.

1  Segundo o art. 165, §§2º e 3º, do CPC, a conciliação ocorrerá, preferencialmente, nos casos em que não houver
vínculo anterior entre as partes. É o que ocorre, por exemplo, nos casos de relação de consumo. Já a sessão de
mediação ocorrerá nos casos em que há um vínculo anterior entre as partes e suas relações são contínuas. Podemos
citar as ações de família ou conflitos entre condôminos. Esse critério não é absoluto, podendo ser modificado em
razão das características do caso concreto.

capítulo 1 • 12
Estabelecido o contraditório, o processo avançará para etapa saneadora. Nessa
fase, o juiz realizará, conforme o caso, atividades no sentido de preparar o processo
para a fase instrutória, onde prevalece atos probatórios. O magistrado encaminha-
rá as providências preliminares necessárias. Se o réu não apresentou contestação,
o juiz decretará a revelia, se for a hipótese. Poderá extinguir o processo, sem re-
solução do mérito, se verificar, desde logo, que ocorreu uma das hipóteses do art.
485 do CPC. Também poderá fazer isso com resolução do mérito nas hipóteses de
reconhecimento da prescrição e decadência (art. 487, II) ou nos casos em que há
acordo (art. 487, III). Poderá o juiz, além disso, julgar antecipadamente o mérito
nos casos em que não houver necessidade de produção de provas ou nos quais a
questão tratada seja exclusivamente de direito (art. 355, I) ou, ainda, nos casos em
que a revelia aplicada ao réu enseje os efeitos do art. 344.
O juiz poderá, inclusive, julgar antecipadamente parte do mérito deduzido
em juízo. Assim, nos casos em que o autor formula mais de um pedido e um deles
restar incontroverso ou pronto para julgamento, o juiz poderá dar uma sentença
parcial, resolvendo parte da demanda antecipadamente (art. 356).
Não sendo a hipótese de nenhuma das providências preliminares descritas aci-
ma, o juiz organizará o saneamento do processo (art. 357), isto é, verificar a exis-
tência de vícios processuais que possam inviabilizar o julgamento do mérito. Uma
vez realizado, o processo avança para a fase probatória. A prova documental, em
regra, é produzida no momento do ajuizamento da demanda ou da apresentação
da defesa. Nessa fase, o juiz conduzirá a produção da prova pericial, documental
superveniente ou prova oral.
A audiência de instrução e julgamento, enquanto ato processual, somente será
realizada nas circunstâncias em que haja necessidade de produção de prova oral
(testemunhas e depoimento pessoal) ou nos casos em que haja necessidade de se
obter esclarecimentos do perito (art. 477, §3º). Se não ocorrer nenhuma dessas
hipóteses, a audiência não será designada e o juiz julgará desde logo a causa.
Finda a audiência e observado o contraditório, o juiz proferirá sentença, es-
gotando suas atividades no primeiro grau de jurisdição. Essas são as disposições
gerais do procedimento comum, que pode sofrer variações quando o juiz adaptar
o procedimento (art. 139, VI) ou quando as próprias partes realizarem negócio
processual (art. 191).

capítulo 1 • 13
Adaptação procedimental

O Código de Processo Civil estabeleceu como regra geral um procedimento


padrão, denominado procedimento comum. Se a demanda a ser ajuizada pelo
autor não tiver procedimento especial definido, tramitará observando as regras do
procedimento comum mencionadas anteriormente. No entanto, mesmo nos ca-
sos em que a demanda estiver tramitando pelo procedimento comum, estabeleci-
do como regra geral, o juiz poderá, observando as peculiaridades da causa, adaptar
o procedimento para dilatar prazos, alterando a ordem da produção de provas com
o objetivo de dar maior efetividade ao direito tutelado (art. 139, VI). Essa regra,
que trata do princípio da adaptabilidade procedimental, permite ao juiz adequar
o procedimento de acordo com a necessidade do direito discutido em juízo dando
maior efetividade ao processo.
Para compreender melhor esse princípio, basta pensar em uma determinada
demanda, em que o autor, por exemplo, pretende obter a declaração de nulidade
de cláusula contratual de um plano de saúde. Diante da necessidade de um tra-
tamento médico específico, o juiz reduz os prazos processuais e antecipa a pro-
dução de algumas provas para tutelar melhor os interesses do consumidor em
juízo. Assim, embora o código estabeleça um único procedimento, o art. 139, VI,
permite ao juiz, de ofício ou provocado pelas partes, adaptar o procedimento de
acordo com as necessidades da causa.
Essa regra de flexibilização do procedimento se reflete em diversos atos do pro-
cesso e permite ao juiz, no entendimento de Luís Rodrigues Wambier e Eduardo
Talamini (2015, p. 282), observar o princípio da efetividade e da duração razoável
do processo para dar à atividade judicial maior aproveitamento possível.

Negócio processual

Além da adaptação do procedimento, o Código de Processo Civil admite a


realização de um negócio processual entre as partes, de modo a alterar a ordem dos
atos do procedimento comum ou até mesmo excluir alguns, para que o processo
tramite observando os atos processuais previamente definidos pelas partes, confor-
me disposto no art. 190. Trata-se de regra inovadora e sem precedentes em nossa
cultura processual, mas que pode contribuir muito para o bom funcionamento da
administração da Justiça.

capítulo 1 • 14
O negócio processual poderá ser realizado somente por pessoas capazes e
versar sobre direitos que admitam autocomposição. Para evitar desiquilíbrio en-
tre as partes e impedir que uma delas fique vulnerável, se faz necessário que
ambas as partes estejam acompanhadas de seu advogado (Enunciado nº 18 do
FPPC). Essa interpretação está de acordo com o princípio da isonomia proces-
sual (art. 7º do CPC).
Ainda no que diz respeito aos aspectos subjetivos do negócio processual, se
faz premente se posicionar em relação à possibilidade de o negócio processual
envolver a parte processual que não participou do ato. Imagine a hipótese em que
A ajuizou ação em face de B e C, e, após a citação, A e B realizaram um negócio
processual para reduzir todos os prazos processuais. Esse negócio processual vincu-
lará C, que não participou? Nesse caso, o negócio processual somente será válido
se tiver a anuência de C. (Essa interpretação foi levada a efeito pelo Enunciado nº
402 do FPPC.)
Uma interpretação literal do art. 190 do CPC afastaria a possibilidade de
se realizar negócio processual nos casos em que a Fazenda Pública for parte. No
entanto, a doutrina tem se posicionado no sentido de dar à regra uma inter-
pretação extensiva para abarcar, também, os casos em que o Poder Público seja
parte. Os Enunciados nº 253 e 256 do Fórum Permanente de Processualistas
Civis (FPPC) admitem, de maneira expressa, a possibilidade de realização de
negócio processual nos casos em que o Ministério Público e a Fazenda Pública,
respectivamente, são partes2.
O negócio processual constitui, portanto, importante inovação, que permite
ao autor e ao réu decidirem sobre diversos aspectos do procedimento comum,
como: pacto de impenhorabilidade; acordo de ampliação de prazos das partes de
qualquer natureza; acordo de rateio de despesas processuais; dispensa consensual
de assistente técnico; acordo para retirar o efeito suspensivo de recurso; acordo
para não promover execução provisória; pacto de mediação ou conciliação ex-
trajudicial prévia obrigatória, inclusive com a correlata previsão de exclusão da
audiência de conciliação ou de mediação prevista no art. 334; pacto de exclusão
contratual da audiência de conciliação ou de mediação prevista no art. 334; pacto
de disponibilização prévia de documentação (pacto de disclosure), inclusive com
estipulação de sanção negocial, sem prejuízo de medidas coercitivas, mandamen-
tais, sub-rogatórias ou indutivas; previsão de meios alternativos de comunicação
2  Embora os Enunciados do FPPC sejam interpretativos das regras do CPC/2015, não há dúvidas de que se trata
de uma importante fonte de consulta nos primeiros anos do novo código.

capítulo 1 • 15
das partes entre si; acordo de produção antecipada de prova; escolha consensual de
depositário-administrador no caso do art. 866; convenção que permita a presença
da parte contrária no decorrer da colheita de depoimento pessoal; acordo para a
realização de sustentação oral; acordo para ampliação do tempo de sustentação
oral; julgamento antecipado do mérito convencional; convenção sobre prova; re-
dução de prazos processuais (Enunciados nº 19 e 21 do FPPC).
É similar a um self-service procedimental. As partes definem em comum acor-
do como seguirão os atos processuais, podendo excluir a prática de determinados
prazos e reduzir ou ampliar prazos processuais. Ao juiz caberá somente homolo-
gar o negócio processual, assegurando que as garantias processuais constitucionais
sejam preservadas3. Contudo, não se admite a realização do negócio processual
sobre questões de ordem pública ou criação/extinção de recursos. Também não
se admite negócio processual sobre os seguintes assuntos: acordo para modifica-
ção da competência absoluta; acordo para supressão da primeira instância; acordo
para afastar motivos de impedimento do juiz; acordo para criação de novas es-
pécies recursais; acordo para ampliação das hipóteses de cabimento de recursos
(Enunciado nº 20 do FPPC).
Embora o art. 190 limite a realização do negócio processual nas hipóteses de
direitos disponíveis, essencialmente patrimoniais, o FPPC editou enunciado favo-
rável à interpretação no sentido de que a indisponibilidade do direito não impede
a celebração de negócio processual (Enunciado nº 135 do FPPC).
Assim, embora o código o tenha estipulado, o procedimento comum padrão
comporta flexibilização tanto pelo juiz (art. 139, VI) como também pelas próprias
partes através do negócio processual.

Espécies de negócio processual

O negócio processual poderá ser típico e atípico. O código, em seus disposi-


tivos legais, regulamenta alguns negócios processuais em temas específicos, como
suspensão do processo (art. 313, II); saneamento e organização do processo (art.
357, §2º); distribuição dinâmica do ônus da prova (art. 373, §3º); entre outros.
Esses negócios processuais previamente estabelecidos pelo código são denomina-
dos típicos. Entretanto, as partes também podem realizar negócios processuais que

3  Há entendimentos no sentido de que os negócios processuais independem de homologação (Enunciado nº 133


do Fórum Permanente de Processualistas Civis).

capítulo 1 • 16
não tenham sido previstos pelo código, utilizando, para tanto, a regra do art. 190.
São os denominados negócios processuais atípicos.
Portanto, as partes têm à sua disposição duas modalidades de negócio pro-
cessual. Muito embora o negócio processual não esteja no bojo de nossa cultura
jurídica processual, espera-se que os profissionais do direito assimilem bem essa
regra para que se possa aprimorar a administração da Justiça no Brasil. A figura a
seguir ilustra as hipóteses de negócio processual elencados no código.

Calendário processual

O art. 191 do CPC autoriza o juiz e as partes a fixarem um calendário para


a prática de atos processuais. Calendarização significa a definição de prazos
processuais e também a fixação do termo inicial e final desses mesmos prazos,
dispensando a publicação no diário oficial. Pode ser realizada a partir de ne-
gócio processual ou em comum acordo entre as partes, mesmo no âmbito do
procedimento comum.
Uma vez fixado o calendário para a prática dos atos processuais, as partes fi-
cam a ele vinculadas, não se admitindo modificação sem prévia justificativa (art.
191, §1º do CPC). Essa inovação processual trazida pelo CPC/2015 contraria
a cultura processual brasileira, pois dispensa a intimação das partes para os atos
previstos na calendarização (art. 191, §2º do CPC).
Trata-se de interessante forma de administração do tempo do processo pelas
partes que, se utilizada de fato, pelo Poder Judiciário e pelos advogados, muito
contribuirá para a celeridade processual, pois eliminará o chamado tempo morto

capítulo 1 • 17
do processo, ou seja, o tempo, às vezes infindável, que o processo (físico ou eletrô-
nico) permanece à espera da publicação.

Improcedência liminar do pedido

A petição inicial, como instrumento da demanda traz, em regra, um conflito


de interesses para ser solucionado pelo Estado. Toda a atividade judicial se de-
senvolve para que o juiz, após um amplo contraditório, julgue a causa em favor
ou não do autor, eliminando a incerteza sobre determinada questão jurídica. É
nesse contexto que a petição inicial se constitui como um importante tema no
processo civil.
O juiz, ao receber a petição inicial, pode encaminhar pelo menos três atitudes:
1) admitir a inicial e determinar a citação/intimação; 2) determinar a emenda da
petição inicial nos casos em que não foi formulada adequadamente pelo autor; e,
3) por fim, o juiz poderá, mesmo antes de citar o réu, julgar improcedente limi-
narmente a petição inicial.
Trata-se de julgamento de mérito, logo no início do processo e sem a citação
do réu, nas hipóteses elencadas no art. 332 do Código de Processo Civil. A primei-
ra hipótese cuida da improcedência liminar da inicial quando a pretensão do autor
contrariar enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior
Tribunal de Justiça. Por exemplo, a Súmula nº 585 do STJ diz que dívidas rela-
tivas ao IPVA ocorridas após a venda do veículo não obrigam, solidariamente, o
vendedor. Assim, se A vende o carro para B em 2015 e o comprador não paga o
imposto referente aos anos de 2016 e 2017, A não poderá ser cobrado pelo IPVA
devido após a venda. Se alguma ação for ajuizada contra A cobrando os impostos
devidos de 2016 e 2017, o magistrado poderá, liminarmente, julgar improcedente
a demanda sem ao menos citar o réu.
A hipótese do art. 332, II, é mais ampla, pois permite a improcedência liminar
nos casos em que a pretensão autoral for contrária a acórdãos do STF e do STJ.
Em tese, quaisquer decisões colegiadas desses tribunais superiores autorizam o juiz
de primeiro grau a aplicar a sentença liminar.
As hipóteses do art. 332, III e IV, cuidam da improcedência liminar nos casos
em que a pretensão autoral contrariar precedentes judiciais dos tribunais de justiça
dos estados ou tribunais regionais federais, editados a partir do julgamento dos
incidentes de resolução de demandas repetitivas, incidente de assunção de compe-
tência e nas súmulas referentes a direito local.

capítulo 1 • 18
Essa forma de julgamento liminar não é nova. Surgiu no processo civil brasi-
leiro através da sentença liminar disposta no art. 285-A do CPC/734. O Código
de Processo Civil de 2015 ampliou as hipóteses de incidência da improcedência
liminar, autorizando o juiz a julgar liminarmente as pretensões contrárias aos en-
tendimentos dos tribunais superiores. O principal objetivo do legislador é garantir
mais segurança jurídica através do fortalecimento do sistema de precedentes judi-
ciais disposto no CPC/2015.
Julgado improcedente liminarmente o pedido, a parte autora poderá interpor
recurso de apelação (art. 1.009), ocasião em que o juiz poderá se retratar de sua
decisão no prazo de 5 dias (art. 332, §3º). Nesse caso, o juiz determinará o pros-
seguimento do processo com a regular citação do réu. Entretanto, caso o juiz não
exerça o juízo de retratação, deverá citar o réu para que este possa apresentar suas
contrarrazões ao recurso interposto.

Audiência de conciliação e mediação

Um processo judicial, em regra, tem como principal característica um conflito


de interesses. Por esse motivo, alguns autores conceituavam o processo como uma
guerra institucionalizada, onde vence a parte que mais bem utilizou as “armas”
processuais. Essa percepção do processo, como uma estratégia processual, contri-
buiu para a formação de profissionais do direito voltados mais para o litígio do que
para a solução consensual do litígio.
Na década de 1980, diversos autores, como Mauro Cappelletti, atribuíram
especial ênfase aos denominados meios alternativos de solução de conflitos, bus-
cando uma justiça coexistencial, onde as opções de superação da lide são propostas
pelas próprias partes, não por um terceiro equidistante. De fato, alguns conflitos
não são resolvidos por uma sentença judicial.
Imagine a hipótese em que um casal que ainda se ama por algum mal-enten-
dido pretende se divorciar. Nesse caso, independentemente do que o juiz decidir
num litígio sobre divórcio, o conflito social ainda permanecerá entre o casal, que
continuará em conflito sobre a guarda, a visitação do filho, partilha de bens ou
qualquer outra questão que lhe diga respeito.
Significa dizer que, em alguns casos, uma sentença judicial pode resolver um
conflito jurídico, mas não resolverá um conflito social. O conflito permanecerá
4  A inconstitucionalidade do art. 285-A do CPC/1973 está sendo impugnada através da ADI nº 3.695/DF, sob a
relatoria do Ministro Teori Zavascki, que a partir de março de 2017 estará no acervo do ministro Alexandre de Moraes.

capítulo 1 • 19
mesmo após a decisão judicial, acarretando inúmeros recursos ou novas ações,
perpetuando determinado conflito social.
Buscando superar essa cultura litigante, o Código de Processo Civil de
2015 estabeleceu, como etapa anterior ao contraditório, a audiência de conci-
liação ou mediação. A proposta do legislador é permitir que as partes compa-
reçam a uma audiência de conciliação ou sessão de mediação antes mesmo de
o réu apresentar sua defesa.
O art. 334 do CPC diz que o réu será citado e intimado a comparecer à
audiência de conciliação ou mediação. Uma primeira questão se coloca: essa au-
diência é obrigatória? Pela leitura do art. 334, §4º, a audiência de conciliação ou
mediação somente não ocorrerá se tanto o autor como o réu manifestarem expres-
samente o desinteresse em sua realização. Se apenas uma das partes se manifestar
em sentido contrário à realização, ainda assim o procedimento ocorrerá. Caso o
autor não tenha interesse na realização da audiência, deverá se manifestar expressa-
mente na petição inicial. Se o autor elaborar sua petição inicial e não se manifestar
expressamente acerca de seu interesse na realização do ato, o juiz concluirá em sen-
tido positivo. O réu tem o prazo de até 10 dias, antes da audiência designada, para
se manifestar. O silêncio de ambas as partes acarretará manutenção da audiência
designada e a ausência ensejará a aplicação de multa de 2% do valor da causa em
favor do Estado.
Pensemos na seguinte hipótese. O autor ingressa com uma ação indenizatória
em face do réu. Na petição inicial, o autor não se manifesta expressamente sobre a
realização da audiência e o réu se manifesta em sentido contrário à sua realização.
Ao interpretarmos o art. 334, §4º, I, do CPC, concluímos que a audiência de
conciliação ou mediação será designada normalmente e a parte que faltar, injus-
tificadamente, será penalizada com multa de 2% sobre o valor pretendido pelo
autor ou do valor da causa, que será revertida em favor da União ou do Estado
(art. 334, §8º do CPC).
Nos casos em que houver litisconsortes, somente será dispensada a audiência
de mediação se todos manifestarem expressamente seu desinteresse. Se um autor
ajuizou uma ação contra quatro réus, todos, além do próprio autor, devem se
manifestar em sentido contrário à realização da audiência, pois, se assim não for, o
juiz designará a audiência e as partes que faltarem sem a devida justificativa serão
penalizadas com multa já referida aqui.
Essa obrigatoriedade contribui para fragilizar, em alguma medida, o conceito
de solução consensual de conflitos, pois nos casos em que uma das partes não

capítulo 1 • 20
mais suporta ouvir a voz da outra esse ato processual não obterá resultado positivo
algum. Não há dúvidas acerca da intenção do projeto que originou o CPC/2015,
principalmente no que diz respeito ao fortalecimento da solução consensual de
conflitos através da mediação. Entretanto, a sua obrigatoriedade pode ter, como
efeito colateral, certa rejeição do jurisdicionado a essa forma de solução de confli-
tos, esvaziando, assim, seu potencial pacificador das relações sociais. Além da obri-
gatoriedade legislativa, deve-se, também, conscientizar exaustivamente a popula-
ção sobre a importância dessa modalidade de solução de controvérsias de modo a
reduzir na mentalidade dos cidadãos à ideia de que somente o juiz tem condições
de julgar um conflito de forma adequada.
O art. 334, §4º, II, dispõe que a audiência de conciliação/ mediação também
não será realizada se o direito controvertido não admitir autocomposição. São
raras as hipóteses em que não se admite autocomposição. Um exemplo dessas hi-
póteses diz respeito às ações contra a Fazenda Pública. Em tese, o interesse público
discutido em juízo impede que a advocacia pública transija sobre os interesses
públicos. No entanto, a Lei nº 13.140/2015 dispõe sobre autocomposição de con-
flitos no âmbito da administração pública, ampliando as possibilidades de solução
consensual em relação à Fazenda Pública. Assim, a impossibilidade de realização
da audiência de conciliação/mediação tem seu alcance reduzido na praxe forense.
Faz-se necessário, ainda, diferenciar as hipóteses em que haverá audiência de
conciliação das que terão sessões de mediação. O Código de Processo Civil não é
claro nesse aspecto. No entanto, sua interpretação sistemática sugere um entendi-
mento razoável sobre o tema. Segundo o art. 165, §2º, a conciliação será indicada
para os casos em que não existir vínculo anterior entre as partes. Já a mediação será
indicada nos casos em que houver um vínculo anterior entre as partes.
As partes devem comparecer acompanhadas de advogado ou defensor público
(art. 334, §9º do CPC). Essa regra tem como escopo garantir que nenhuma parte
fique vulnerável na provável elaboração do acordo. Nesse sentido, a parte pode-
rá constituir representante com poderes específicos para negociar e transigir (art.
334, §10 do CPC). Essa regra é importante, considerando que há profissionais da
advocacia com expertise em solução consensual de conflitos cuja atuação pode ser
fundamental na solução da lide por essa via. Nada impede, portanto, que, após a
frustração da audiência de conciliação/mediação as partes possam outorgar pode-
res para advogados com mais preparo para o contencioso cível.
O código valoriza a conciliação e mediação como formas consensuais de solu-
ção de conflito (art. 3º, §§2º e 3º do CPC). Por esse motivo, o código estabeleceu

capítulo 1 • 21
como etapa preliminar do procedimento comum com claro objetivo de aprimorar
a prestação da tutela jurisdicional pela autocomposição. Além da audiência de
conciliação e mediação, prevista no art. 334 do CPC, o ordenamento proces-
sual estabelece que a mediação é obrigatória nas ações de família (arts. 694 a
697 do CPC), somente tramitando pelo procedimento comum nos casos em que,
após diversas tentativas, não for possível obter o acordo. Tais dispositivos legais
evidenciam a importância que esses meios de solução de conflito ganharam no
CPC/2015.
Por fim, a audiência de conciliação e mediação poderá ser realizada por meio
eletrônico. Embora essa técnica ainda não tenha plena aplicabilidade em todo o
país, dúvida não há quanto a seu potencial para dinamizar a solução consensual
de conflitos no Brasil.

Conclusão

O principal objetivo do capítulo foi abordar os principais atos processuais do


procedimento comum na fase postulatória. Assim, estudamos o processo de co-
nhecimento, sua natureza jurídica e as principais características dos procedimentos
comum e especial. Além da regra geral sobre o procedimento comum, abordamos
as espécies de negócio processual e sua importância no que tange ao protagonismo
das partes na construção do procedimento através do qual a demanda será julgada.
O negócio processual atípico, pela sua amplitude, pode abordar uma ampla
gama de atos processuais. Por sua vez, o negócio processual típico são os negócios
previstos em diversos dispositivos legais do código e permitem que as partes ajus-
tem o procedimento às peculiaridades da demanda ajuizada.
O estudo das hipóteses de improcedência liminar do pedido, como forma
de julgamento célere de demandas repetitivas ou fortalecimento de precedentes
judiciais dos tribunais, foi ampliada no CPC/2015. Sua compreensão permitirá
maior dinamismo no julgamento de questões idênticas, assegurando a ampla
defesa e o contraditório.
Por fim, a análise da audiência de conciliação e mediação demonstrou que, se
for bem assimilada pela comunidade jurídica e pelos cidadãos, contribuirá para a
construção de um sistema processual em que as partes participem ativamente da
solução de seu conflito, atuando de forma ativa na formação da decisão.

capítulo 1 • 22
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil Salvador: Editora Podivm, 2015. v. 1.
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Curso de processo civil.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. v. 2.
MEDINA, José Miguel. Direito processual civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.
WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2015. v. 1.

capítulo 1 • 23
capítulo 1 • 24
2
Da resposta do réu
Da resposta do réu

Introdução

A Constituição Federal de 1988 (art. 5º, LV) assegura a todos os litigantes o


contraditório e a ampla defesa no processo judicial ou administrativo. No processo
civil, o contraditório e a ampla defesa são exercidos através da resposta do réu. Por
essa razão, compreender as modalidades de resposta do réu e seus desdobramentos
no processo civil é fundamental para entender o alcance das normas fundamentais
do CPC/2015.
Assim, neste capítulo, abordaremos a contestação, principal forma de defesa
do réu, a revelia e a reconvenção, meio processual próprio para que o réu demande
contra o autor no processo por ele mesmo ajuizado.
A parcialidade do juiz deve ser impugnada pela parte interessada através de
exceção de impedimento e suspeição. Compreender a finalidade desse incidente
processual bem como seu procedimento é de grande relevância para o controle
da imparcialidade e da aplicação do princípio do juiz natural no processo civil
brasileiro. Por fim, o estudo da preclusão e seus desdobramentos no processo
encerram o capítulo.
Agora, estudaremos, portanto, todas as possíveis defesas do réu e suas respec-
tivas consequências processuais.

OBJETIVOS
•  Conhecer as espécies de resposta do réu no processo civil.
•  Analisar as defesas que podem ser articuladas pelo réu na contestação.
•  Estudar a reconvenção e suas hipóteses de cabimento.
•  Compreender a exceção de suspeição e impedimento, e seu respectivo procedimento.
•  Conhecer a revelia e seus efeitos.
•  Entender o fenômeno processual da preclusão e as hipóteses em que ocorrem.

capítulo 2 • 26
Respostas do réu. Conceito. Princípios constitucionais e
infraconstitucionais aplicáveis

O processo se inicia com a distribuição da petição inicial. Embora o réu ainda


não figure na relação processual, não há dúvidas acerca da existência do processo.
Entretanto, a citação (art. 238) convocará o réu ou o interessado para integrar a
relação processual. Após o ato citatório, o réu terá ciência da existência de um pro-
cesso contra si e poderá, se assim quiser, apresentar sua resposta ao pedido formu-
lado pelo autor. O termo resposta do réu, na verdade, é um gênero que contempla
algumas espécies de possíveis manifestações do réu em sua defesa.
O réu, após o esgotamento das possibilidades de conciliação/mediação,
pode apresentar contestação, reconvenção ou até mesmo arguir a parcialidade
do juiz através de exceção de impedimento ou suspeição. A apresentação po-
derá ser em conjunto ou individualmente, de acordo com o tipo de defesa que
o réu tenha em mente. Poderá, também, o réu reconhecer o pedido formulado
pelo autor, permitindo o julgamento imediato da lide. A resposta do réu tem
grande importância no procedimento comum, pois assegura o exercício pleno
do contraditório e da ampla defesa.
A Constituição Federal de 1988 assegura aos litigantes, em geral, o contradi-
tório e a ampla defesa (art. 5º, LV), permitindo que as partes e, principalmente, os
réus exerçam sua defesa de forma plena e com amplo contraditório. No processo
civil, a resposta do réu é o instrumento que assegura o pleno exercício dessas ga-
rantias constitucionais processuais. O juiz, ao inviabilizar o exercício do contradi-
tório pelas partes, estará violando, diretamente, o texto constitucional.
O Código de Processo Civil, em sua perspectiva constitucionalizada, incluiu o
princípio do contraditório e da ampla defesa no rol das normas fundamentais do
processo civil (arts. 1º ao 12), reforçando, na legislação infraconstitucional, a im-
portância dessas garantias constitucionais processuais. O art. 7º assegura às partes
o acesso a todos os meios de defesa, devendo o juiz “zelar pelo efetivo contraditó-
rio”. O art. 9º, por sua vez, determina que não se pode proferir decisão contra uma
das partes sem que esta seja previamente ouvida. O art. 10 dispõe que o juiz não
pode decidir, em nenhum grau, com base em fundamento que não tenha dado às
partes a oportunidade de se manifestar, mesmo nos casos que tratem de matéria
de ordem pública1. Por fim, o código dispõe, ainda, que, mesmo nos casos de im-
1  As matérias de ordem pública são aquelas que o juiz deve decidir de ofício, ou seja, sem provocação das partes,
considerando o interesse público envolvido. São exemplos de matéria de ordem pública a ilegitimidade das partes,
vício de citação, ausência de pressupostos processuais, prescrição, entre outras.

capítulo 2 • 27
procedência liminar do pedido, se não houver retratação do juiz, o réu será citado
para apresentar contrarrazões ao recurso interposto pelo autor.
Esses dispositivos legais infraconstitucionais confirmam a importância da ple-
na aplicação dos princípios do contraditório e da ampla defesa em todas as etapas
do processo civil, mas, essencialmente, quando se trata da resposta do réu, por ser
este o momento em que aquele que é demandado pode apresentar toda matéria de
defesa em relação a pretensão do autor.

Espécies: contestação e reconvenção. Características

Conforme já foi mencionado, o réu tem à sua disposição algumas espécies de


respostas possíveis que podem ser apresentadas em juízo, de acordo com o caso.
Antes de abordar cada uma delas em detalhes, é necessário fazer um panorama
geral das modalidades de respostas prevista no CPC.
A contestação é a principal defesa do réu. Nela o réu deve articular todas as de-
fesas possíveis para negar a pretensão do autor. Já a reconvenção tem como objeti-
vo possibilitar um “contra-ataque” do réu em face do autor nas hipóteses previstas
em lei. O réu poderá, também, no prazo da resposta, arguir a parcialidade do juiz
através de exceção de impedimento ou suspeição. No entanto, se a parcialidade
foi verificada após o prazo da resposta, o réu terá o prazo de 15 dias, a contar da
ciência do fato, para apresentar a respectiva exceção.

Contestação

De acordo com o art. 335 do CPC, o réu terá 15 dias para oferecer contesta-
ção escrita2. Por se tratar da principal defesa do réu, essa modalidade de resposta
requer estudo mais detalhado. O Código de Processo Civil de 2015, ao privilegiar
a conciliação ou mediação como a primeira etapa do processo, determina que a
contestação somente poderá ser oferecida após a realização frustrada da audiência
de conciliação/mediação ou nos casos em que seja cancelada por desinteresse das
partes. Tal dispositivo se justifica na medida em que é mais provável que se consi-
ga obter o acordo antes da defesa do réu do que em momento posterior, onde os
ânimos estarão mais acirrados.

2  No procedimento comum, a contestação deverá ser escrita. A contestação poderá ser oral somente nos juizados
especiais cíveis estaduais, conforme art. 30 da Lei nº 9.099/95.

capítulo 2 • 28
Na contestação, o réu deverá apresentar todas as possíveis matérias de defesa.
Poderá apresentar defesa processual (dilatória e peremptória) e/ou defesa de mé-
rito (direta e indireta). Nas defesas processuais, o réu atacará o processo e não o
mérito da demanda. Segundo redação do art. 337, incumbe ao réu alegar antes de
discutir o mérito as matérias ali elencadas. Essas defesas devem ser arguidas como
preliminares da contestação e definem se o juiz apreciará ou não o mérito da de-
manda. Por essa razão, devem ser arguidas como preliminar.
As defesas processuais podem ser classificadas como dilatórias e peremptórias.
As defesas dilatórias são aquelas que, se acolhidas, retardarão a marcha do
processo, mas não provocarão a extinção do processo. São defesas processuais
dilatórias: a inexistência ou nulidade de citação (art. 337, I); a incompetência
relativa ou absoluta (art. 337, II); a incorreção do valor da causa (art. 337, III);
a conexão (art. 337, VIII); e a indevida concessão do benefício da gratuidade de
Justiça (art. 337, XIII).
Já as defesas processuais peremptórias, se acolhidas, acarretarão a extinção do
processo sem resolução do mérito. São exemplos de defesas processuais peremptó-
rias: a inépcia da inicial (art. 337, IV); a perempção (art. 337, V); a litispendência
(art. 337, VI); a coisa julgada (art. 337, VII); entre outras.
Alguns exemplos podem facilitar a compreensão. Pensemos na hipótese em
que o réu alega a incompetência relativa do juízo. A ação deveria ser distribuída no
domicílio do réu, por se tratar de direito pessoal (art. 46 do CPC), mas foi ajuiza-
da erroneamente no domicílio do autor. Se o réu, ao oferecer a contestação, alegar,
em preliminar, a incompetência relativa do juízo, e se esta defesa for acolhida, o
juiz declinará de sua competência para o juízo competente. Nesse caso, o processo
não será extinto, mas encaminhado para o juízo competente. Esse trâmite dilatará
o tempo do processo, mas não acarretará a sua extinção. O mesmo não acontecerá
se o réu alegar como defesa a existência de coisa julgada. Se o juiz reconhecer a
existência de coisa julgada prévia, o processo será extinto sem resolução do mérito.
Por sua vez, as defesas de mérito atacam o objeto da pretensão do autor em si
e podem ser direta e indireta.
Na defesa direta de mérito, o réu nega o fato constitutivo do direito do autor,
ou seja, nega que o autor tenha razão em sua pretensão. Se o autor alega que tem
direito à uma indenização por negativação indevida, o réu nega, afirmando que a
negativação se deu em decorrência do inadimplemento do autor. O autor diz que
tem direito à reintegração de posse; o réu nega, afirmando que o autor nunca teve

capítulo 2 • 29
a posse. A principal característica da defesa direta de mérito é a negativa dos fatos
e consequências jurídicas apontadas pelo autor na petição inicial.
As defesas indiretas de mérito têm como característica principal o fato de que
o réu reconhece o fato articulado pelo autor em sua petição inicial, mas apresenta
um fato novo impeditivo, modificativo ou extintivo do alegado direito do autor.
Importante compreender que o réu reconhece o fato alegado pelo autor, mas lhe
opõe o novo fato, que não foi ainda apresentado em juízo.
Pensemos num caso em que o autor ajuíza uma ação de cobrança em face do
réu. O réu, em sua contestação, reconhece que deve, sim, ao autor, mas já ocor-
reu a prescrição (fato extintivo). O réu poderia também alegar que já efetuou o
pagamento parcial da dívida (fato modificativo) ou que o contrato que ampara a
cobrança é nulo (fato impeditivo). Esses exemplos demonstram que o réu, apesar
de reconhecer os fatos alegados pelo autor, apresenta em sua defesa um novo fato
que fulmina, indiretamente, a pretensão autoral.
Como foi demonstrado, o réu poderá apresentar em sua contestação defe-
sas processuais (dilatória e peremptória) e defesas de mérito (direta e indireta).
Entretanto, considerando que a contestação é a principal espécie de resposta
do réu, este deve apresentar todas as defesas na mesma oportunidade. Trata-se
do princípio da eventualidade ou da concentração da defesa (art. 336), que
estabelece que o réu deve apresentar toda matéria de defesa na contestação sob
pena de preclusão. Se, por algum motivo, o réu deixar de apresentar uma defesa
de mérito em seu favor, não mais poderá fazê-lo, em razão da preclusão. Assim,
caberá ao réu apresentar suas defesas processuais (dilatórias e peremptórias) em
preliminar de contestação e as defesas de mérito (direta e indireta) no capítulo
correspondente ao mérito.
Por seu turno, o código permite ao réu deduzir novas alegações após o ofere-
cimento da contestação nas hipóteses do art. 342. Assim, poderá o réu, em fase
posterior à oferta da contestação, alegar direito ou fato superveniente; matérias
de ordem pública que devem ser reconhecidas de ofício pelo juiz ou quando a lei
autorizar sua alegação em qualquer tempo e grau de jurisdição, como ocorre com
a incompetência absoluta (art. 64, §1º).
Além do princípio da eventualidade, o réu deverá observar também o princí-
pio da impugnação específica (art. 341), que estabelece que o réu deve se mani-
festar precisamente sobre todas as alegações do autor, sob pena de ser presumidas
como verdadeiras as alegações não impugnadas.

capítulo 2 • 30
Vamos entender esse princípio a partir de um caso concreto. Em determi-
nada ação judicial, o autor alega que sofreu dano material e estético. O réu
apresenta contestação e impugna, especificadamente, somente o dano mate-
rial. Assim, as alegações referentes ao dano estético se tornaram incontrover-
sas, por ausência de impugnação do réu, e serão presumidas como verdadeiras,
nos termos do art. 341 do CPC.
As consequências decorrentes da inobservância do princípio da impugnação
específica comportam exceções. São as exceções elencadas nos incisos do art. 341
do CPC. Também não se aplica a confissão ficta ao defensor público, ao advogado
dativo e ao curador especial.

Contestação. Preliminares

O Código de Processo Civil de 2015 teve como premissa maior tornar mais
célere a prestação da tutela jurisdicional, eliminando os diversos incidentes pro-
cessuais característicos do Código de 1973. Algumas defesas processuais, como
a impugnação ao valor da causa, a impugnação à gratuidade de Justiça ou à in-
competência relativa, que anteriormente eram veiculadas através de incidentes
processuais, passaram a ser arguidas na própria contestação, eliminando forma-
lidades desnecessárias. Assim, algumas defesas processuais necessitam de uma
abordagem mais detalhada, em razão mesmo das peculiaridades de sua arguição
em sede de contestação.

Incompetência absoluta e relativa

A incompetência é uma das principais defesas processuais a ser arguidas pelo


réu. A incompetência absoluta, que se caracteriza pelo descumprimento dos crité-
rios de sua fixação (em razão da pessoa, matéria e função), viola o interesse públi-
co, sendo, portanto, insanável. Por se tratar de interesse público, pode ser arguida
em qualquer tempo e grau de jurisdição (art. 64, §1º). A incompetência relativa,
por sua vez, é caracterizada pelo descumprimento de critérios que atendem aos
interesses das partes (em razão do território e do valor da causa), e pode ser sanada
devido ao silêncio da parte ré.
O CPC/1973 determinava que a incompetência absoluta deveria ser arguida
na primeira oportunidade que o réu tivesse para se manifestar nos autos – em
outras palavras, na própria contestação. Entretanto, a incompetência territorial

capítulo 2 • 31
deveria ser arguida através de exceção, em peça autônoma, e incidentalmente apre-
sentada no processo.
O CPC/2015 simplificou a forma de arguição dessa modalidade de defesa
processual, determinando que o réu alegue em sua contestação tanto a incom-
petência absoluta como também a relativa, conforme redação do art. 337, II. O
réu terá o prazo de 15 dias para arguir a incompetência (absoluta e relativa). As
consequências do silêncio do réu, no entanto, serão diferentes para uma e para ou-
tra. Se o réu não arguir a incompetência absoluta no referido prazo, poderá arguir
em outro momento, arcando, no entanto, com as custas processuais em razão da
demora. O mesmo não ocorre na incompetência relativa. Segundo o art. 65 do
CPC, a incompetência relativa será prorrogada se o réu não alegar o vício em pre-
liminar de contestação. Significa dizer que o foro, que até então era incompetente,
passa a ser competente em razão do silêncio do réu.
Suponhamos que o autor, que reside em São Paulo, pretenda ingressar com
uma ação de cobrança no valor de R$ 100.000,00 em face do réu, que reside em
Minas Gerais. Utilizando o critério do art. 46 do CPC, essa demanda, por se
tratar de direito pessoal, deverá ser distribuída na Comarca de Minas Gerais, por
ser o domicílio do réu. Contudo, o autor, por equívoco, ingressou com a referida
demanda em seu domicílio, Comarca de São Paulo. Há, portanto, uma incompe-
tência territorial evidente que deverá ser alegada pelo réu em preliminar de con-
testação. Mas, se o réu não o fizer, dar-se-á o fenômeno processual da prorrogação,
ou seja, a Comarca de São Paulo, que a princípio era relativamente incompetente,
passa a ser competente em razão do silêncio do réu.
Por se tratar de interesse das partes, somente o réu pode alegar a incompe-
tência relativa, sendo vedado ao juiz reconhecer de ofício, conforme verbete
da Súmula nº 33 do Superior Tribunal de Justiça, mantida mesmo na vigência
do CPC/2015.
Oferecida contestação com preliminar de incompetência formulada, o juiz,
após o devido contraditório, apreciará a questão, e, se for acolhida, declinará de
sua competência para o órgão jurisdicional competente3. Trata-se de defesa pro-
cessual dilatória que retardará o processamento da causa, mas não acarretará a
extinção do processo.
O réu poderá oferecer contestação com preliminar de incompetência no foro
de seu domicílio. Cuida-se de hipótese que tem como escopo facilitar a defesa
3  Nos juizados especiais cíveis estaduais, o reconhecimento da incompetência relativa acarreta a extinção do
processo nos termos do art. 51, III, da Lei nº 9.099/95.

capítulo 2 • 32
processual do réu nos casos em que a dificuldade de deslocamento do mesmo
possa impedir-lhe de exercer o contraditório e a ampla defesa (art. 340). Para
compreender melhor a hipótese em estudo, pense no caso de o autor ajuizar, er-
roneamente, a demanda em Manaus, mas o réu residir no Espírito Santo. Nesse
caso, o réu poderá apresentar sua contestação no foro de seu domicílio (Espírito
Santo), não mais necessitando se deslocar para Manaus.
A contestação será distribuída para um dos juízos no foro do domicílio do réu,
e este ficará incumbido de informar o juízo onde a causa tramita (art. 340, §1º).
Caso a incompetência seja reconhecida, o juízo onde a contestação foi distribuída
ficará prevento para julgamento da causa.

Incorreção do valor da causa

A toda e qualquer causa, ainda que não tenha conteúdo econômico direto,
devera ser atribuído um valor (art. 291). Essa exigência legal se justifica na medida
em que o valor da causa é referência imediata para se alcançar a quantia corres-
pondente à taxa judiciária4, como também é referência para fixação de honorários
sucumbenciais nos casos em que não haja proveito econômico em favor do autor
(art. 85, §2º do CPC). O valor da causa também é referência na ação rescisória
para se apurar o valor do depósito de 5% para ajuizamento da respectiva ação (art.
968, II, do CPC).
Em regra, o valor da causa corresponde ao proveito econômico perseguido
pelo autor. Entretanto, quando não se é possível identificar um proveito econômi-
co imediato, o valor da causa deve ser fixado por estimativa (art. 291). É o caso do
divórcio litigioso em que o casal não possui bens a partilhar.
Mas nem sempre é simples fixar o valor da causa. Por esse motivo, o art.
292 do CPC apresenta um rol exemplificativo que auxilia o demandante a fi-
xar, no caso concreto, o valor a ser atribuído à causa. Não obstante, em muitos
casos, esse valor é fixado de forma equivocada, ocasionando contratempos na
relação processual.
A inconsistência do valor da causa, no regime anterior, era arguida em um
incidente próprio denominado impugnação ao valor da causa. No entanto, essa
formalidade, por vezes, acarretava a demora injustificada na solução do conflito
posto em juízo. O CPC/2015 estabeleceu que a indicação equivocada do valor
da causa poderá ser corrigida pelo próprio juiz, de ofício, nos termos do art. 292,
4  No Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, a taxa judiciária corresponde a 2% do valor da causa.

capítulo 2 • 33
§3º, através de impugnação feita pelo réu em preliminar de contestação, conforme
disposto no art. 293.
Dessa forma, caso discorde do valor atribuído à causa pelo autor, o réu deverá,
sob pena de preclusão, impugnar o valor atribuído à causa, de forma adequada e
fundamentada, em preliminar de contestação e o juiz apreciará a preliminar rejei-
tando-a ou acolhendo-a. Se acolher a impugnação, determinará a complementa-
ção das custas judiciais.

Indevida concessão da gratuidade de Justiça

Um processo judicial tem custos e despesas que devem ser arcados pela parte
que deu causa à demanda. No entanto, como apontou Mauro Cappelletti (1988),
o alto valor das custas judiciais no mundo tem sido um sério obstáculo ao amplo
acesso à Justiça. No Brasil, esse obstáculo vem sendo superado com a concessão
da gratuidade de Justiça aos litigantes que não tenham condições de arcar com as
custas e despesas do processo.
A Lei nº 1.060/50, com redação alterada pela Lei nº 7.510/86, foi a primeira
a tratar diretamente do assunto e, por muitos anos, serviu como referência legis-
lativa no que diz respeito à concessão da gratuidade de Justiça. A Constituição
Federal de 1988, em seu art. 5º, LXXIV, assegura aos cidadãos, desprovidos de
recursos, assistência jurídica e integral gratuita. Esses dispositivos legais, consti-
tucionais e infraconstitucionais, contribuíram para a ampliação das defensorias
públicas dos estados e da União, permitindo que um número maior de cidadãos
tivesse acesso ao Poder Judiciário e, como consequência, mais acesso aos direitos.
O CPC/2015 tratou especificadamente da gratuidade de Justiça, dispondo
que esta pode ser concedida a qualquer pessoa natural ou jurídica, brasileira ou
estrangeira, com insuficiência de recursos. O código foi específico ao discriminar
detalhadamente o que compreende a concessão da gratuidade de Justiça (art. 98,
§1º), incluindo, a título de exemplo, as taxas e custas judiciais, honorários advo-
catícios, despesas com exame de DNA, entre outras.
A gratuidade pode ser requerida na petição inicial, na contestação ou na peti-
ção através da qual um terceiro pretende ingressar no processo (art. 99). A simples
afirmação de pobreza feita pela parte gera presunção relativa de veracidade das
alegações (art. 99, §3º). No entanto, se o juiz verificar que existem nos autos

capítulo 2 • 34
elementos que apontem para a falta dos pressupostos legais5 para a concessão da
gratuidade de Justiça, deverá, antes de indeferir o requerimento, dar à parte a
oportunidade de comprovar a existência dos pressupostos legais.
Esse regramento do CPC acerca da gratuidade de Justiça demonstra que
a hipossuficiência econômica é presumida e que o juiz somente pode indefe-
rir quando nos autos houver elementos suficientes que demonstrem o con-
trário. No entanto, a parte contrária pode impugnar a gratuidade requerida,
nos termos do art. 100 do CPC, no prazo de 15 dias. O réu, no entanto, de-
verá impugnar a concessão indevida da gratuidade de Justiça em preliminar
de contestação. O CPC/2015 simplificou a arguição dessa defesa processual
eliminando formalidades desnecessárias.
Assim, o réu que pretender impugnar a gratuidade concedida deverá, nos
termos do art. 337, XIII, do CPC, alegar, em preliminar de contestação, a
indevida concessão juntando as provas suficientes que eliminem a presunção
relativa de insuficiência de recursos do autor. Essa prova pode ser feita atra-
vés de comprovante de rendimentos, fotos de viagens permanentes a passeio
no exterior, entre outras que evidenciam a condição financeira estável da
parte autora.
Caso a preliminar arguida na contestação seja acolhida, o autor deverá
arcar com o pagamento das custas que deixou de adiantar além do paga-
mento de multa, nos casos de litigância de má-fé, que pode alcançar até o
décuplo do valor das custas e despesas processuais, que serão revertidas em
favor do Estado ou da União.

Ilegitimidade e mudança no polo passivo

O réu poderá, ainda, alegar sua ilegitimidade passiva para a causa. Para tanto,
deverá alegar, em preliminar de contestação, que não é parte legítima para a causa
ou que não foi o causador do prejuízo alegado pelo autor. Nesse caso, o juiz ouvirá
o autor sobre a possibilidade de substituição do polo passivo (art. 338). Essa regra
permite ao autor corrigir o polo passivo e prosseguir regularmente com a demanda
em face do verdadeiro réu.

5  A gratuidade de Justiça será deferida quando a parte não possuir recursos financeiros, sendo considerada
hipossuficiente. No entanto, a hipossuficiência não é necessariamente baixos salários ou rendimentos. Significa que
os recursos financeiros da parte são utilizados para a manutenção da própria família. Assim, profissionais de nível
superior, como médicos e professores, podem obter a concessão da gratuidade de Justiça.

capítulo 2 • 35
Há casos em que o autor, ao elaborar sua petição inicial, não conta com in-
formações suficientes quanto ao causador do dano e o réu apontado equivocada-
mente poderá contribuir, ao alegar essa defesa, para que o autor corrija o defeito.
Imagine a seguinte hipótese: o proprietário de um imóvel pretende ingressar
com uma ação para obter reparações dos danos ocasionados pelo vazamento de
água do imóvel vizinho. Sem saber ao certo quem é o verdadeiro proprietário, ajuí-
za ação em face do caseiro ou de qualquer outro prestador de serviços domésticos.
Nesse caso, o meio adequado para que o caseiro alegue sua ilegitimidade é oferecer
contestação arguindo em preliminar sua ilegitimidade.
Do ponto de vista procedimental, a arguição de ilegitimidade passiva poderá
ter dois encaminhamentos possíveis. O primeiro diz respeito à alegação de ilegiti-
midade pelo réu, que indica o verdadeiro sujeito passivo (art. 339). Nessa hipótese,
o autor poderá aceitar a indicação, no prazo de 15 dias, e requisitar a substituição
no polo passivo. Poderá também o autor, em vez de requerer a substituição, optar
pela inclusão do indicado como litisconsorte passivo do réu originário. Se assim
fizer o autor, mesmo nos casos em que o réu alegue em preliminar de contestação
que é parte ilegítima para a causa, o processo prosseguirá com a parte ré originária
acrescida do litisconsorte indicado na defesa.
O código impõe ao réu que alegar a ilegitimidade o dever de indicar o su-
jeito passivo da relação jurídica discutida em juízo, sob pena de arcar com as
custas do processo e ainda indenizar o autor pelos danos decorrentes da falta
de indicação. Contudo, há situações em que o réu não sabe, de fato, quem é o
verdadeiro réu. Para não sofrer as consequências processuais aqui mencionadas,
deverá o réu afirmar expressamente seu desconhecimento, ocasião em que o
juiz facultará ao autor substituir o polo passivo, no prazo de 15 dias. Caso seja
realizada a substituição, o autor reembolsará as despesas pagas pelo réu excluído
e os honorários de seu advogado.

Reconvenção

O réu pode, além de se defender, demandar em face do autor utilizando a


mesma relação processual. Trata-se de um verdadeiro contra-ataque do réu contra
o autor no mesmo processo. No regime anterior (CPC/1973), a reconvenção era
apresentada em uma petição autônoma. O réu que pretendesse reconvir deveria
oferecer contestação juntamente com a reconvenção.

capítulo 2 • 36
O Código de Processo Civil de 2015 simplificou o procedimento da recon-
venção, permitindo que o réu ofereça, na mesma petição, contestação e reconven-
ção conforme dispõe o art. 343. Todavia, a inclusão da reconvenção como um
capítulo da contestação não lhe retira a autonomia, que permanece mesmo no có-
digo vigente. Assim, o réu poderá contestar e reconvir, ou somente reconvir (343,
§6). Essa autonomia é reforçada no art. 343, §2º, ao dispor que a desistência ou
a extinção da ação principal não impede o prosseguimento da reconvenção. São
duas demandas que tramitam no mesmo processo.
A reconvenção tem como fundamento primeiro a economia processual.
Assim, nos casos em que a pretensão do réu tiver conexão com a ação principal
ou com os fundamentos da defesa, este poderá veicular sua demanda no bojo da
contestação, ou em peça autônoma, em face do autor. Para entender melhor, pen-
semos numa situação em que o autor ajuíza uma ação de cobrança, no valor de R$
100.000,00, em face do réu, e este se defende (contestação), dizendo que a divida
já foi paga, e aduz ainda que o autor é o devedor da quantia de R$ 20.000,00.
O réu, portanto, aproveita a própria demanda ajuizada pelo autor e formula sua
pretensão (cobrança dos R$ 20.000,00).
Além desses requisitos, para que a reconvenção seja admitida, se faz necessário
que o juiz seja competente tanto para a ação principal como para a reconvenção.
Será necessário, ainda, que haja a compatibilidade de procedimentos. Não se ad-
mite, por exemplo, que a demanda principal tramite pelo procedimento comum
e a reconvenção tenha uma pretensão que tenha procedimento especial definido
em lei. O último requisito diz respeito ao prazo. O réu deverá reconvir, necessa-
riamente, no prazo de 15 dias. Ultrapassado esse prazo, deverá o réu ajuizar ação
própria, com livre distribuição, em face do autor.
Reconvir é ato processual exclusivo do réu em face do autor. No período ante-
rior ao CPC/2015, havia forte divergência doutrinária e jurisprudencial6 acerca da
possibilidade de se reconvir em face de terceiros que não integrem a relação pro-
cessual. O código superou a divergência, admitindo expressamente a reconvenção
em face de terceiros (art. 343, §3º). Assim, o réu poderá reconvir em face do autor
e de terceiro. Para melhor entendimento dessa hipótese, pense numa situação em
que um dos locadores propõe ação de cobrança de aluguel em face do locatário, e
este contesta e oferece reconvenção, pleiteando a rescisão do contrato de locação
em face do autor e de outro locador que, por algum motivo, não integrou a lide.
6  O REsp 274.763/GO ilustra o cerne da controvérsia estabelecida. Alguns precedentes judiciais inadmitiam a reconvenção
em face de terceiro que não integrava a lide. Havia também julgados que acompanhavam o entendimento contrário, no
sentido de que se o caso tratasse de litisconsórcio necessário admitir-se-ia a reconvenção em face de terceiro.

capítulo 2 • 37
A reconvenção, portanto, permite a ampliação subjetiva da demanda para in-
cluir terceiro, no polo passivo da demanda reconvencional, que até então não
havia sido incluído na relação processual. Trata-se de importante inovação do
CPC/2015, que contribuirá para a adequada solução de diversas situações jurídi-
cas, sobretudo as que versem sobre direito imobiliário.
O código também cuida de uma hipótese sem antecedentes em nosso orde-
namento processual. O art. 343, §5º, regula a reconvenção em face do substituto
processual. Essa hipótese legal diz respeito aos casos em que o réu pretende recon-
vir em face do substituído, mas o código admite que a reconvenção seja redire-
cionada para o substituto processual. Imagine que alguém tenha autorização legal
para estar em juízo defendendo direito alheio. Ainda que o réu queira reconvir
em face do autor, poderá fazê-lo mesmo em face do substituto, se demonstrar que
existe direito que o ampare. Didier Jr. (2015) discorre sobre a possibilidade de o
substituto processual reconvir em face do autor, na condição de réu. Para Didier
Jr., se faz necessário que o substituto, na condição de réu, tenha também legitima-
ção extraordinária para postular em juízo.
A reconvenção é cabível não só no procedimento comum, mas também em
alguns procedimentos especiais. Admite-se, por exemplo, reconvenção no proce-
dimento monitório (art. 702, §6º, do CPC/2015). No entanto, não se admite re-
convenção nas denominadas ações dúplices. As ações dúplices são aquelas em que
o réu pode formular pedido na própria contestação, independentemente de recon-
venção. Nas ações dúplices, o juiz tutelará não o autor, mas a parte que necessitar
da respectiva tutela jurisdicional, dispensando-se a reconvenção. São exemplos de
ações dúplices: as ações possessórias (art. 556) e a ação de consignação em paga-
mento (art. 545, §2º). Em ambos os casos, o autor poderá ser condenado em razão
da contestação oferecida pelo réu.
Por fim, cabe discorrer sobre o procedimento da reconvenção. Uma vez pro-
posta a reconvenção, o autor-reconvindo será intimado, na pessoa de seu advoga-
do (art. 343, § 1º), para apresentar resposta no prazo de 15 dias. A intimação será
feita em nome do advogado, para dinamizar o processamento da demanda. Por
essa razão, o código determina que o advogado inclua na procuração o endereço
eletrônico e não eletrônico. O autor-reconvindo poderá utilizar todas as moda-
lidades de respostas admitidas no Código de Processo Civil. Poderá, inclusive,
apresentar reconvenção da reconvenção.
Caso a reconvenção seja rejeitada liminarmente, o réu-reconvinte poderá in-
terpor recurso de agravo de instrumento nos termos do art. 1.015, II, do CPC.

capítulo 2 • 38
Se, porventura, a ação principal for extinta, por algum fato extintivo, ou o autor
desista, a reconvenção prosseguirá, independentemente da extinção da ação prin-
cipal. Tramitando as duas ações em conjunto (principal e reconvencional), o juiz
deverá julgar as duas conjuntamente.

Exceção de impedimento e suspeição

A exceção de impedimento ou suspeição é um incidente processual que tem


como finalidade impugnar a parcialidade do juiz em determinada demanda ju-
dicial. O art. 5º, XXXVII e LIII, da Constituição Federal de 1988, dispõe sobre
o princípio do juiz natural, e assegura que os litigantes serão julgados por juiz
independente e imparcial. Entretanto, ocorrendo a parcialidade do juiz, caberá ao
interessado apresentar exceção de impedimento ou suspeição, conforme o caso.
Ao contrário da contestação e da reconvenção, a exceção de impedimento e sus-
peição são apresentadas, em regra, no prazo de 15 dias, a contar da ciência do fato
(art. 146). Por esse motivo, a exceção poderá ser apresentada em qualquer tempo
ou grau de jurisdição, observando o prazo para sua apresentação. Contudo, existem
casos em que o réu, ao ser citado, verifica, desde logo, a parcialidade do juiz da causa.
Dessa forma, a exceção de impedimento ou suspeição constitui uma modalidade de
resposta do réu e será apresentada em conjunto com a contestação.
A parcialidade do juiz7 pode ser relativa ou absoluta. A parcialidade relativa
tratará de hipóteses subjetivas de envolvimento do juiz com uma das partes
(suspeição). O art. 145 enumera os fatos que são considerados suspeição8. Por
se tratar de parcialidade relativa, que envolve interesse das partes, a exceção
deverá ser apresentada no prazo de 15 dias, sob pena de preclusão. Transcorrido
esse prazo, o vício da parcialidade estará sanado e o juiz, inicialmente suspeito,
habilitado para julgar a causa.
A parcialidade absoluta (impedimento) é um vício grave e pode ser aferido
de forma objetiva. O art. 144 do CPC enumera as hipóteses de impedimen-
to, tais como atuação prévia do juiz como advogado da parte, membro do
Ministério Público ou perito; que tenha apreciado a causa no primeiro grau
7  A parcialidade não diz respeito somente ao juiz, mas compreende também os integrantes do Ministério Público e
aos auxiliares da Justiça (peritos, contadores, partidores etc.), conforme disposto no art. 148 do CPC.
8  A parcialidade do juiz é aferida, em regra, em relação às partes. No entanto, o CPC/2015 estendeu a suspeição
também para os advogados das partes. Segundo o art. 145, I, do CPC, considera-se suspeição o fato de o juiz ser
amigo íntimo ou inimigo da parte e de seus advogados. Cuida-se de importante inovação, pois impede que haja
arbitrariedades motivadas por sentimentos pessoais contra os profissionais da advocacia. Assim, o juiz não poderá
mais beneficiar ou prejudicar a parte por amizade ou inimizade com seus advogados.

capítulo 2 • 39
de jurisdição; quando seu cônjuge for parte no processo; entre outras. Por se
tratar de vício que viola interesse público, a parte terá 15 dias para apresentar
exceção de impedimento, mas não haverá preclusão, podendo a parte arguir
a parcialidade absoluta após o trânsito julgado através de ação rescisória (art.
966, II, do CPC).
O procedimento da exceção é simplificado (art. 146). A parte excipiente
apresentará a exceção no prazo de 15 dias, apontando os motivos da recusa e as
provas necessárias para demonstração do alegado. O juiz, ao receber a petição,
poderá reconhecer a suspeição ou o impedimento9, e encaminhar os autos ao
substituto legal. A parcialidade é do juiz, não do juízo. Nesse caso, o processo
continuará sua tramitação no juízo competente, mas o juiz substituto oficiará
no processo em substituição do juiz suspeito ou impedido.
Se o juiz não admitir a parcialidade, determinará a autuação do incidente e
terá o prazo de 15 dias para apresentar suas razões. Em seguida, os autos serão
encaminhados ao tribunal competente. Distribuído o incidente no tribunal,
o relator determinará os efeitos em que o mesmo será recebido (com ou sem
efeito suspensivo).
Caso o tribunal verifique que a alegação do excipiente não procede, julgará
improcedente o incidente e o juiz excepto permanecerá na causa. Acolhida a
alegação do excipiente, o juiz excepto será afastado da causa, arcará com as
custas judiciais do incidente e o substituto legal conduzirá o processo. Caso o
juiz excepto discorde da decisão, poderá recorrer.

Revelia

Frustrada a audiência de conciliação/mediação, o réu deverá se manifestar


sobre a pretensão autoral através de uma das modalidades de resposta aqui apre-
sentadas. O réu poderá: a) ficar inerte; b) reconhecer o pedido; c) contestar; e d)
excepcionar (suspeição e impedimento). O réu poderá, também, em atenção ao
princípio da eventualidade, apresentar contestação, reconvenção e exceção de im-
pedimento e suspeição. Contudo, se não oferecer contestação, será declarado revel.
Importante esclarecer que o réu tem ônus de contestar e não dever, ou seja, o
réu não é obrigado a apresentar contestação. No entanto, assumirá as consequên-
cias processuais de sua inércia caracterizada pela revelia, que, no procedimento
9  O juiz tem o dever de se abster quando for apontada a sua parcialidade. Se não o fizer, será condenado a arcar
com as custas judiciais referentes ao incidente (art. 146, §5º, do CPC).

capítulo 2 • 40
comum, é a ausência de contestação do réu. O simples fato de o réu não apresentar
contestação incide a revelia e seus efeitos. Ainda que o réu apresente reconvenção,
a revelia será decretada pelo juiz. Nos juizados especiais cíveis estaduais, diferen-
temente do que ocorre no procedimento comum, a revelia ocorrerá quando o réu
não comparecer à quaisquer das audiências designadas, ainda que a contestação
tenha sido juntada aos autos.
Decretada a revelia pelo juiz, seus efeitos materiais e processuais irradiarão
pelo processo. O efeito material da revelia corresponde à presunção de veracidade
dos fatos articulados pelo autor na petição inicial (art. 344). Significa dizer que
se o autor alegar que o réu lhe causou danos materiais e não houver contestação,
o decreto da revelia tornará tal alegação presumida verdadeira, convertendo-a em
confissão ficta. Essa presunção não é absoluta, podendo ser produzida prova em
contrário. Por exemplo: se em determinada demanda o autor pretende obter re-
paração por danos materiais em face do réu, caso a revelia seja decretada e o autor
não produza provas suficientes do alegado, o juiz julgará improcedente o pedido
do autor, a despeito da revelia decretada.
Os efeitos processuais da revelia são: a) os prazos do revel que não tenha patro-
no nos autos fluirão a partir da data da publicação do ato no Diário Oficial (art.
346) e b) julgamento antecipado do mérito, nos termos do art. 355, II, do CPC.
O primeiro efeito processual da revelia ocorrerá somente nos casos excepcionais,
pois o réu será intimado, primeiramente, a comparecer à audiência de conciliação/
mediação, na qual a presença dos advogados das partes é obrigatória (art. 344,
§9º, do CPC).
Os efeitos da revelia não incidirão nas hipóteses elencadas no art. 345 do
CPC. O art. 345, I, trata da hipótese em que há pluralidade de réus e um deles
contesta a ação. O principal objetivo é impedir que o réu diligente não seja preju-
dicado pela desídia dos demais réus. A exceção aqui referida é dirigida ao litiscon-
sórcio unitário, pois o juiz deverá tratar de forma equânime os réus.
A segunda exceção trata dos direitos indisponíveis (art. 345, II). Os efeitos
da revelia não incidirão nas demandas que tratam de direitos indisponíveis, ainda
que o juiz a decrete. Podemos citar como exemplo as ações de estado (divórcio,
alimentos, guarda etc.). Por se tratar do estado de pessoas, o legislador achou,
por bem, excluir os efeitos da revelia nesses casos. Por exemplo: em uma ação de
divórcio proposta pela esposa, ainda que o marido seja revel, não haverá o efeito
material da presunção de veracidade acerca do alegado na inicial.

capítulo 2 • 41
Não incidirão os efeitos da revelia se o autor não instruir a petição inicial com
documento que a lei considere indispensável à prova do ato jurídico discutido em
juízo. Essa hipótese pode ser mais bem compreendida a partir do seguinte exem-
plo: em um determinado processo, o autor formula uma pretensão reivindicatória
de um imóvel em face do réu, mas não junta nenhuma prova da compra do men-
cionado imóvel. Nesse caso, mesmo o réu sendo revel, o juiz deixará de aplicar os
efeitos em razão do que dispõe o art. 345, III, do CPC.
O juiz não aplicará os efeitos da revelia nos casos em que as alegações do au-
tor não forem verossímeis ou estiverem em contradição com a prova dos autos.
Cuida-se de hipótese que reforça os princípios da boa-fé processual (art. 5º do
CPC) e da cooperação (art. 6º do CPC).
Por fim, se faz necessário abordar acerca da possibilidade de se aplicar a revelia
e seus efeitos em face da Fazenda Pública. O art. 345, II, do CPC dispõe que não
se aplicam os efeitos da revelia quando a demanda tratar de direitos indisponíveis.
Considerando que a Fazenda Pública cuida do interesse público, o juiz, mesmo
nos casos em que esta não apresente a contestação, decretará a revelia, mas não lhe
aplicará seus efeitos.
Assim, não se admite a presunção de veracidade das alegações do autor (con-
fissão ficta) em face da Fazenda Pública. Leonardo Carneiro da Cunha10, ao abor-
dar o tema, sustenta que os atos públicos presumem-se legítimos cabendo ao
autor, portanto, demonstrar e comprovar as alegações formuladas na inicial, de
modo a elidir a presunção de legitimidade dos atos administrativos realizados pela
Fazenda Pública.
Também não se admite o julgamento antecipado do mérito nos termos do art.
355, II, do CPC. Exatamente por não existir presunção de veracidade em face da
Fazenda Pública, o juiz deve permitir às partes uma ampla produção de provas.
Entretanto, conforme sustenta Cunha (2016), é possível que os fatos apontados
na inicial estejam fartamente provados documentalmente nos autos de modo a
autorizar a redução da atividade judicial, não em razão da revelia, mas por não
haver mais necessidade de produção de novas provas.

10  Em seu livro A Fazenda Pública em juízo.

capítulo 2 • 42
Preclusão

Um processo se desenvolve como uma marcha encadeada de atos processuais


rumo à solução do mérito mediante sentença. Por sua vez, o código estabelece
forma e prazo de atos processuais, de modo que as partes consigam alcançar o jul-
gamento de mérito num prazo razoável, conforme inteligência do art. 4º do CPC.
É nesse contexto que se insere o estudo da preclusão.
Preclusão é um conceito do direito processual e pode ser definido como a
perda do direito de se praticar um ato dentro de determinado processo. Tem, por-
tanto, efeitos endoprocessuais, impossibilitando a parte de praticar determinado
ato em razão da preclusão.
A preclusão pode ser temporal, consumativa ou lógica. A preclusão temporal
(art. 223) é a perda do direito de se praticar um ato em razão da perda de um pra-
zo. O réu tem 15 dias para contestar, conforme dispõe o art. 335 do CPC. Se o réu
apresentar sua defesa no 16º dia, o juiz determinará o seu desentranhamento em
razão da preclusão temporal. A preclusão temporal não se aplica aos prazos fixados
para o juiz (art. 226), por se tratar de prazo impróprio.
A preclusão temporal poderá ser elidida se a parte provar que não realizou o
ato no prazo por justa causa. O código conceitua justa causa como evento alheio
à vontade da parte e que a impediu de praticar o ato por si ou por seu mandatário
(art. 223, §1º, do CPC). Assim, se a parte tinha de apresentar um documento no
prazo de 5 dias, mas, por motivo de saúde, da parte ou de seu advogado, ficou
impossibilitada de fazê-lo, o juiz poderá permitir que a parte pratique o ato no
prazo que assinalar.
Denomina-se preclusão consumativa a impossibilidade de se praticar em razão
de tê-lo praticado. A parte não poderá renovar a prática de um ato já praticado. Eis
um exemplo mais simples sobre o tema: considere a hipótese de o réu apresentar
contestação no 10º dia do prazo. Logo após o oferecimento da contestação, 2 dias
depois, o réu percebe que deixou de apresentar uma defesa de mérito importante
e peticiona, ainda dentro do prazo de 15 dias, o complemento de sua defesa. O
juiz rejeitará o complemento da contestação, uma vez que já se operou a preclusão
consumativa. O fato de o réu ter apresentado a contestação no 10º dia caracteriza
a consumação do ato de se defender, que não poderá ser complementado ou refei-
to em razão da preclusão consumativa.

capítulo 2 • 43
Por fim, a preclusão lógica tem como peculiaridade a impossibilidade de a
parte praticar um ato em razão de se ter praticado ato anterior incompatível com
que se pretende praticar. Não se admite que a parte pratique atos processuais in-
compatíveis entre si; por esse motivo, a preclusão lógica impede a prática do ato
incompatível. Pensemos na hipótese em que o réu é condenado a pagar uma de-
terminada quantia. Imediatamente após a publicação da sentença, o réu deposita
o valor da condenação e, ainda no prazo recursal, apresenta recurso de apelação. O
ato de cumprir a obrigação é incompatível com o ato de impugnar a decisão, pois
o simples depósito sugere, em regra, que o réu concordou com a decisão.

Conclusão

A abordagem do presente capítulo teve como principal objetivo estudar as


respostas do réu e sua importância para assegurar a ampla defesa e o contraditório.
A partir da compreensão sobre a finalidade de cada uma das modalidades de res-
posta, poderá o réu exercitar melhor a sua defesa, bem como delimitar os pontos
controversos que serão objetos da atividade instrutória do juiz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAPPELLETTI, Mauro. Acesso à justiça. Porto Alegre. Sergio Antônio Fabris Editor, 1988.
CUNHA, Leonardo Carneiro da. A Fazenda Pública em juízo. Rio de Janeiro: Forense, 2016.
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. Salvador: Podivm, 2015. v. 1.
MEDINA, José Miguel. Direito processual civil moderno. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Curso de processo civil.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. v. 2.
BUENO, Cássio Scarpinella. Manual de direito processual civil. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.
WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2015. v. 1.

capítulo 2 • 44
3
Providências
preliminares.
Saneamento e
julgamento conforme
o estado do processo
Providências preliminares. Saneamento e
julgamento conforme o estado do processo

Introdução

O presente capítulo tem como principal finalidade estudar as principais provi-


dências exercidas pelo juiz após o oferecimento da resposta do réu.
O processo civil pode ser estudado em quatro principais fases: postulatória, sa-
neadora, instrutória e decisória. A fase postulatória compreende os atos postulató-
rios do autor (distribuição da petição inicial) e do réu (oferecimento de resposta).
Exercido o contraditório, o processo avança para a fase saneadora através da
qual o juiz adotará as providências preliminares cabíveis e organizará o processo
para a fase subsequente.
Saneado o processo, o juiz determinará a produção das provas requeridas pelas
partes e que foram deferidas por serem necessárias à solução do mérito, isto é,
trata-se da fase instrutória do processo.
Por fim, amadurecida a questão posta em juízo, o processo ingressará na fase
decisória, através da qual o juiz decidirá a lide, privilegiando a decisão de mérito,
nos termos do art. 4º do CPC.
O estudo das providências preliminares tem como escopo analisar os possíveis
encaminhamentos do juiz após o oferecimento da resposta do réu, que constitui
a fase saneadora do processo. Casos há em que o juiz extinguirá o processo antes
mesmo da fase instrutória. Cuida-se do julgamento conforme estado do processo.
Nessas circunstâncias, o juiz poderá, ainda, julgar antecipado, integral ou parcial-
mente, quando não houver necessidade de produção de novas provas.
A proposta do presente capítulo é analisar as providências preliminares, as pos-
sibilidades de julgamento conforme estado do processo e as formas de saneamento
e organização do processo, possibilitando a correta compreensão destes institutos
processuais e sua importância para a efetiva prestação da tutela jurisdicional.

OBJETIVOS
•  Conhecer as providências preliminares cabíveis no Código de Processo Civil de 2015.
•  Compreender as hipóteses de julgamento conforme estado do processo.
•  Estudar a finalidade do saneamento e organização do processo.

capítulo 3 • 46
•  Conhecer a possibilidade de realização de negócio jurídico típico sobre saneamento e or-
ganização do processo.
•  Analisar as hipóteses de saneamento realizado em audiência em cooperação com as partes.

Providências preliminares: conceito

Após o oferecimento ou não da contestação, o juiz estudará o processo para


verificar as providências cabíveis em cada caso concreto (art. 347). Cuida-se de
importante fase, pois definirá o modo como o juiz apreciará o mérito ou até mes-
mo identificará se o processo tem condições de seguir adiante para uma solução
integral do mérito. O conjunto dessas providências tem como escopo preparar o
processo para a fase instrutória e decisória sem vícios ou irregularidades.
Dessa forma, o Código trata expressamente de algumas providências pre-
liminares, tais como a especificação de provas e a manifestação do autor sobre
questões preliminares e fatos novos (modificativo, extintivo e impeditivo) ar-
guidos pelo réu. Outras providências podem ser determinadas pelo juiz, ainda
que não estejam tipificadas como tais. É a hipótese de se determinar a citação
do autor para responder a reconvenção ou mesmo determinar que seja pro-
movida a citação do denunciado nos casos de denunciação da lide. Por fim, as
providências preliminares são aquelas que surgem em razão das manifestações
do réu ou terceiro interveniente.
Passemos, então, ao estudo detalhado das providências preliminares.

Da não incidência dos efeitos da revelia

No capítulo anterior, estudamos o fenômeno da revelia e seus efeitos no pro-


cesso civil. Entretanto, neste capítulo, abordaremos, do ponto de vista prático, os
casos em que não incidirão dos efeitos da revelia.
O art. 345 do CPC dispõe que a revelia não produzirá seus efeitos se: a) hou-
ver pluralidade de réus e um deles contestar a ação; b) o litígio versar sobre direitos
indisponíveis; c) a petição inicial não estiver acompanhada de instrumento que a
lei considere indispensável à prova do ato; d) se as alegações de fato formuladas
pelo autor forem inverossímeis ou em contradição com a prova produzida nos
autos. A revelia, nesse caso, será irrelevante, pois não produzirá nenhum de seus
efeitos materiais (confissão ficta) ou processuais (dispensa de intimação do réu que
não tiver patrono nos autos e julgamento antecipado do mérito). Nessas hipóteses,
o juiz decretará a revelia, mas ele não terá nenhum efeito para o réu revel.

capítulo 3 • 47
Ocorrendo a revelia irrelevante, o juiz determinará que o autor especifique
eventuais provas que pretenda produzir, além das que já houver produzido. Essa
providência se faz necessária, pois não são raros os casos em que mesmo ocorren-
do a revelia a pretensão do autor é julgada improcedente em razão de não restar
demonstrada a existência do fato constitutivo do direito do autor1.
Para melhor compreensão do tema, pense em determinado caso no qual o autor
pretende obter indenização por danos materiais e estéticos em razão de ferimentos
ocasionados por projétil disparado, acidentalmente, de arma de um policial militar. O
estado não apresentou contestação. Nessa hipótese, embora o juiz tenha de decretar a
revelia, esta não incidirá seus efeitos, devendo prosseguir na instrução da causa, e julgar
improcedente o pedido caso o autor não prove o fato constitutivo de seu direito.
Por esse motivo, o art. 348 determina que o juiz deverá ordenar à parte autora
que especifique as provas que pretenda produzir nos casos em que a revelia decre-
tada não irradie seus efeitos no processo. Cuida-se, nesse particular, de medida que
tenciona garantir o pleno exercício da ampla defesa e do devido processo legal ao
autor e ao réu nos casos de revelia irrelevante. O art. 349 do CPC permite, ainda,
ao réu revel, nos casos em que a revelia não incida seus efeitos, produzir provas
com o intuito de as contrapor às alegações e provas produzidas pelo autor. Não há
dúvidas, no entanto, de que a referida regra tem como escopo garantir o devido
processo legal e a ampla defesa, que não podem ser desconsiderados mesmo nos
casos de revelia. Ainda que o réu seja desidioso em realizar a sua defesa, o sistema
processual lhe garante o pleno exercício da ampla defesa.
Assim, poderá o autor requerer prova documental superveniente, provas peri-
ciais, provas orais (depoimento pessoal e inquirição de testemunhas), enfim, todo
e qualquer meio de prova admitida em direito, mesmo após a decretação da revelia
do réu, com o objetivo de permitir a plena comprovação da existência dos fatos
articulados pelo autor em sua petição inicial.
1  O a ementa do julgado abaixo, proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, bem demonstra
essa hipótese: “APELAÇÃO CÍVEL. RECURSO INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DO NCPC. CONSUMIDOR. AÇÃO
INDENIZATÓRIA. FINANCIAMENTO DE VEÍCULO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E DEVOLUÇÃO DAS
PRESTAÇÕES PAGAS. AUTOR QUE FUNDAMENTA SEUS PEDIDOS NA SUPOSTA OMISSÃO DA FINANCEIRA RÉ
EM FORNECER DOCUMENTAÇÃO APTA A PERMITIR A CIRCULAÇÃO DO BEM. AUSÊNCIA DE PROVA MÍNIMA DAS
ALEGAÇÕES AUTORAIS, A TEOR DO ART. 373, INCISO I DO NCPC, A INDICAR QUALQUER FALHA NA PRESTAÇÃO
DO SERVIÇO POR PARTE DA DEMANDADA. REGULARIZAÇÃO DO BEM QUE É MEDIDA DE RESPONSABILIDADE
DAS PARTES CONTRATANTES. REVELIA QUE NÃO IMPLICA NA PROCEDÊNCIA DO PEDIDO, E SEUS EFEITOS
MATERIAIS NÃO SE VERIFICAM EM HIPÓTESES COMO A PRESENTE, EM QUE A TESE AUTORAL É DESPROVIDA
DE VEROSSIMILHANÇA. INTELIGÊNCIA DO ART. 345, IV DO NCPC. DEMORA DE DOIS ANOS NO AJUIZAMENTO
DA AÇÃO E AUSÊNCIA DE PEDIDO DE CUMPRIMENTO DA OBRIGAÇÃO DE FAZER QUE EVIDENCIAM QUE O
DEMANDANTE NÃO TERIA SE PRIVADO DA UTILIZAÇÃO DO BEM. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA QUE NÃO
MERECE REPARO. RECURSO DESPROVIDO”. (Apelação nº 0008387-39.2014.8.19.0024. Relatora Des. SANDRA
SANTARÉM CARDINALI - Julgamento: 23/02/2017 - VIGÉSIMA SEXTA CÂMARA CÍVEL CONSUMIDOR).

capítulo 3 • 48
A revelia enseja, ainda, uma providência preliminar específica quando o revel
estiver preso ou foi citado por edital. Nesse caso, conforme disposição do art. 72,
II, do CPC, o juiz deverá determinar a nomeação de um curador especial para de-
fender, ainda que por negativa geral, os interesses do demandado. Tal providência
será cabível mesmo nos casos em que a revelia enseja seus regulares efeitos.

Alegações do réu

O réu pode apresentar diversos tipos de defesa, como vimos no capítulo ante-
rior. Pode, por exemplo, negar o fato alegado pelo autor. Nesse caso, estará apre-
sentando uma defesa direta de mérito. Poderá, também, apresentar outras ques-
tões que não tenham a finalidade de impugnar diretamente o mérito, mas sim de
apontar vícios processuais ou fatos novos que não foram abordados pelo autor.
Trata-se das denominadas questões prévias.
Questões prévias, portanto, são aquelas matérias arguidas pelo réu em sua
contestação que devem ser apreciadas pelo juiz antes de se analisar o mérito da
causa. São prévias porque podem interferir no modo como o juiz enfrentará o
mérito ou até mesmo definir se o mérito será ou não analisado.
As questões prévias são classificadas em questões prejudiciais e questões preli-
minares (arts. 503 e 351, respectivamente, ambos do Código de Processo Civil).
As questões prejudiciais são, em regra, defesas indiretas de mérito e definem o
modo como o juiz julgará o mérito da causa. Já as questões preliminares são defesas
processuais e sua solução define se o juiz apreciará ou não o mérito da demanda.
Além das questões prévias, o réu poderá também apresentar fatos novos, ou
seja, reconhecer o fato alegado pelo autor, mas apresentar outro que, indiretamen-
te, fulminará a pretensão autoral.
Marinoni, Arenhart e Mitidiero (2015), ao tratarem do tema, afirmam que:

Ao lado das questões prejudiciais, as questões preliminares são espécie


do gênero questões prévias. A resolução das questões prejudiciais
influencia sobre a decisão a respeito do conteúdo da resolução das
questões subordinadas [...]. O mesmo não se passa com as questões
preliminares. O acolhimento das questões preliminares impede o exame
das questões posteriores. Observe-se que as questões preliminares
concernem ao ser ou não das questões posteriores ao passo que as
prejudiciais dizem respeito ao modo de ser das questões subordinadas.

capítulo 3 • 49
Quando o réu apresenta em sua defesa uma questão prévia ou fatos novos, o
autor será intimado para se manifestar em réplica. A réplica aqui constitui impor-
tante providência preliminar que tem como finalidade maior assegurar um amplo
contraditório na processualística brasileira. Importante registrar que, na prática
forense, o autor será sempre intimado para se manifestar em réplica, independen-
temente da defesa apresentada pelo réu.
Passemos, pois, ao estudo da réplica no processo civil brasileiro.

Alegações do réu: questões preliminares

O art. 337 do Código de Processo Civil dispõe que o réu deverá, antes mes-
mo de discutir o mérito, apresentar todas as defesas processuais cabíveis. Assim,
deverá o réu, em preliminar de contestação, alegar a sua ilegitimidade para a
causa, a incompetência do juízo, a coisa julgada, entre outros temas elencados
no referido artigo.
Como vimos no capítulo anterior, as defesas processuais podem ser dila-
tórias e peremptórias. As dilatórias provocam o retardamento do andamento
processual até a sua solução e as peremptórias, pela sua gravidade, acarretam a
extinção do processo sem resolução do mérito. Independentemente da defesa
processual apresentada na preliminar de contestação, o juiz, em atenção ao prin-
cípio do contraditório, deverá intimar o autor para se manifestar em réplica no
prazo de 15 dias (art. 351).
A réplica, nessa hipótese, permitirá ao autor apresentar argumentos contrários
às defesas processuais veiculados pelo réu, possibilitando ao juiz melhores condi-
ções para apreciar a questão. Nesse sentido, poderá o réu alegar coisa julgada como
defesa processual e o autor, em réplica, demonstrar para o juiz que a causa de pedir
debatida no processo anterior, onde se operou a coisa julgada, foi diversa da causa
de pedir discutida no novo processo. A réplica, nesse caso, proporcionará ao juiz
condições adequadas para afastar a alegação infundada do réu.
Esta é a principal finalidade da réplica no contexto do procedimento comum:
assegurar o debate prévio de questões processuais de modo a evitar que a demanda
se estenda indevidamente com gasto excessivo de tempo e energia. Se a questão
processual alegada pelo réu for procedente, o juiz, após assegurar o contraditório
por meio da réplica, extinguirá o processo sem resolução do mérito (nos casos de
litispendência, por exemplo) ou corrigirá o vício nas hipóteses em que seja acolhi-
da uma defesa processual dilatória (incorreção do valor da causa).

capítulo 3 • 50
Alegações do réu: questões prejudiciais

Questões prejudiciais são aquelas que ampliam o objeto do processo e definem


o modo como o mérito da causa será apreciado. Em outras palavras, a cognição
judicial, que inicialmente se desenvolvia para julgar uma pretensão, é alargada
para se julgar também a questão prejudicial alegada que interferirá diretamente na
solução da pretensão principal.
Um exemplo nos permite explicar melhor o tema. Em uma determinada de-
manda judicial, um menor pede alimentos em face de seu pai. O pai, em sua
contestação, alega que não é pai. Diante dessa alegação do réu, de que não é pai
(questão prejudicial), o juiz deverá, antes mesmo de decidir se cabem alimentos,
apreciar a questão prejudicial para definir se o réu é ou não pai. Nessa hipótese, a
existência ou não da paternidade é uma questão prejudicial de mérito e deverá ser
enfrentada primeiramente pelo juiz.
Se o juiz concluir, ao analisar a prova dos autos, que o réu não é pai, julgará,
como consequência, improcedente o pedido de alimentos. Nesse exemplo, o ob-
jeto do processo foi ampliado pela questão prejudicial alegada, forçando o juiz a
decidir sobre a paternidade e sobre o cabimento de alimentos. É por esse motivo
que a questão prejudicial define o modo como o mérito será julgado.
Passemos a um segundo exemplo. Pense na hipótese de uma ação de despejo
ajuizada com o objetivo de se alcançar a retomada do imóvel. O réu contesta
a demanda afirmando que, na verdade, realizou com autor um comodato, não
um contrato de locação. O réu alegou, em sua defesa, uma questão prejudicial
(existência de comodato) que influenciará na apreciação do mérito da causa
(despejo). O juiz deverá, portanto, apreciar a questão prejudicial para depois
enfrentar o mérito.
Alegada a questão prejudicial pelo réu, o juiz abrirá o prazo de quinze dias
para que o autor se manifeste em réplica, principalmente para que apresente as
provas que pretende produzir. Assegurado o contraditório através da réplica, o
julgamento da questão prejudicial fará coisa julgada, conforme dispõe o art. 503,
§1º, do CPC. A questão prejudicial alegada somente não fará coisa julgada se
houver “restrições probatórias” ou “limitações à cognição” que impeçam a análise
aprofundada no mesmo processo. Nesses casos, o juiz apreciará a questão preju-
dicial para decidir sobre o mérito da demanda, mas esta não fará coisa julgada,
podendo ser rediscutida em outra demanda.

capítulo 3 • 51
A réplica aqui se constitui providência preliminar essencial para que se alcance
a solução adequada da lide.

Alegações do réu: fatos novos

O réu poderá, em sua contestação, apresentar fato impeditivo, fato modifica-


tivo e fato extintivo do direito do autor (art. 350 do CPC). Ou seja, poderá o réu
alegar que a dívida já foi paga ou está prescrita (fato extintivo); que a dívida foi
paga parcialmente (fato modificativo); ou até mesmo que o contrato que originou
a dívida pleiteada em juízo é nulo (fato impeditivo). Em tais hipóteses, a defesa
alegada pelo réu, por estar embasada em fatos novos – isto é, fatos que não foram
alegados pelo autor –, influirá diretamente no modo como o juiz apreciará o mé-
rito. Por esse motivo, tais alegações são apreciadas pelo julgador antes mesmo do
enfrentamento do mérito da causa, considerando que podem inviabilizar, indire-
tamente, o acolhimento do pedido formulado pelo autor.
Para facilitar a compreensão desse tema, pensemos na hipótese em que o
autor ajuíza uma ação indenizatória por inadimplemento contratual. O réu,
antes mesmo de negar o mérito da demanda, alega que o contrato é nulo, razão
pela qual não procede a pretensão do autor quanto ao inadimplemento. Nesse
caso, o juiz deverá analisar o fato novo apresentado pelo réu. Se entender que
assiste razão ao mesmo, julgará improcedente o pedido do autor em razão do
fato impeditivo alegado.
Importante ressaltar que, quando o réu apresenta um fato novo em sua defesa,
o juiz distribui o ônus da prova acerca da existência ou não do fato. Se o réu alegar
que a dívida foi paga parcialmente, deverá fazer prova do alegado sob pena de a
respectiva defesa ser rejeitada pelo juiz.

Citação do autor para responder a reconvenção

Embora o Código não tenha incluído a citação do autor para responder a


reconvenção no capítulo referente às providências preliminares, não há dúvidas
de que se trata de uma providência preliminar. O autor será intimado por meio
de seu advogado e poderá apresentar todas as modalidades de resposta admitidas
no CPC. Poderá contestar a demanda reconvencional, apresentando defesas pro-
cessuais e de mérito, e, ainda, indicar uma nova demanda reconvencional, caso os
pressupostos para tal estejam presentes.

capítulo 3 • 52
O gráfico a seguir demonstra as providências preliminares cabíveis no Código
de Processo Civil de 2015.

Julgamento conforme estado do processo

O juiz, em alguns casos, poderá julgar o processo no estado em que se en-


contra, imediatamente após o estabelecimento do contraditório pleno realizado
através das providências preliminares.

capítulo 3 • 53
Há hipóteses em que ocorrem vícios processuais insanáveis, o que acarretará a
extinção do processo sem resolução do mérito.
Há, também, casos em que parte da pretensão do autor se torna incontroversa,
o que possibilita o julgamento antecipado parcial do mérito.
Há, por fim, casos em que ocorre a revelia ou a questão debatida nos autos não
necessita de produção de provas, o que permite o julgamento antecipado do mérito.
São, portanto, de institutos processuais que têm como escopo reduzir o tempo
desnecessário do processo, garantindo, dessa forma, a duração razoável do processo.
Passemos, pois, ao estudo das hipóteses de julgamento conforme estado
do processo.

Extinção do processo

O art. 354 do Código de Processo Civil dispõe sobre as hipóteses de extinção


do processo na fase saneadora. O processo será extinto sem resolução do mérito
sempre que ocorrer alguma das hipóteses do art. 485 do CPC. Assim, se não es-
tiverem presentes os pressupostos processuais (art. 487, IV) ou se for reconhecida
no processo a coisa julgada (art. 487, V), o juiz extinguirá o processo sem resolu-
ção do mérito, antes mesmo da fase probatória, em razão da constatação de vício
processual insuperável.
Uma observação se faz necessária. O Código optou, de forma expressa, pela
decisão de mérito (art. 6º)2, devendo o juiz, sempre que possível, determinar que
a parte corrija o vício ou, se for insanável, permitir o amplo debate sobre a matéria
antes de extinguir o processo. Não sendo possível a correção, o juiz extinguirá o
processo sem resolução do mérito, podendo a parte autora ajuizar novamente a
demanda, conforme dispõe o art. 486 do CPC. Significa dizer que a extinção do
processo sem resolução do mérito é a exceção em nosso sistema processual.
Para que o autor ajuíze novamente a demanda extinta anteriormente, é ne-
cessário que o vício seja sanado. Segundo o art. 486 , §1º, do CPC, nos casos
de extinção do processo sem resolução de mérito, quando ocorrer litispendência,
indeferimento da petição inicial (art. 485, I), ausência de pressupostos processuais
(art. 485, IV), ausência de legitimidade ou interesse processual (art. 485, VI), ou
mesmo alegação de convenção de arbitragem (art. 485, VII), a parte deverá de-
monstrar, na exordial, que o vício que levou o processo à extinção foi devidamente

2  Didier Jr. (2015) destaca que essa regra dispõe sobre o princípio da primazia do mérito.

capítulo 3 • 54
corrigido. Trata-se de uma condição de procedibilidade de nova demanda que se
não for demonstrada inviabilizará a apreciação do mérito.
O art. 354 do CPC trata, também, de hipóteses de extinção do processo com
resolução do mérito nos casos em que ocorrer a prescrição e decadência ou através
da homologação dos atos de vontade das partes. O Código admite que o juiz reco-
nheça, de ofício, a prescrição e a decadência, independentemente de manifestação
da parte ré. Conforme dispõe o art. 332, §1º, o juiz pode julgar liminarmente o
pedido, antes mesmo da citação do réu, caso verifique que ocorreu a prescrição e
a decadência. Cuida-se de uma hipótese de improcedência liminar, portanto, com
resolução do mérito.
Alguns autores, como Alexandre Câmara (2013), admitem o reconhecimen-
to, de ofício, da decadência, mas não o reconhecimento de ofício da prescrição.
O principal argumento dessa corrente doutrinária é no sentido de que viola o
princípio da liberdade, considerando que caberá ao réu arguir tal defesa indireta
se assim preferir. Levando em conta que a parte tem a opção de pagar uma dívida,
ainda que prescrita, não caberia ao juiz julgar improcedente liminarmente sem
antes ouvir o réu. Embora no campo doutrinário o tema não seja pacífico, fato é
que o Código permite ao juiz reconhecer de ofício a prescrição e a decadência, nos
termos do art. 332, §1º, do CPC3.
Além do possível reconhecimento em improcedência liminar do pedido, po-
derá o juiz, nos casos em que o réu alegue na contestação prescrição e decadência,
extinguir o processo com resolução do mérito, após ouvir o autor em réplica. Em
todo caso, nas hipóteses em que ocorrer a prescrição e a decadência, o processo
será julgado no estado em que se encontra. O principal escopo da norma é assegu-
rar a adequada e célere prestação da tutela jurisdicional.
O juiz poderá, também, extinguir o processo com resolução do mérito nos
casos em que haja ato de disposição de vontade das partes (art. 487, III). Se o réu,
em vez de contestar de forma infundada a pretensão do autor, reconhecer o seu
pedido, o juiz extinguirá imediatamente o processo com resolução do mérito. O
mesmo ocorrerá quando houver acordo entre as partes. Em muitos casos, as partes
realizam acordo na audiência de conciliação/mediação ou até mesmo antes desse
ato processual. Em tais casos, o juiz homologará o acordo e extinguirá o processo
com resolução do mérito.
3  O Código encontrou uma solução interessante que pode contribuir para superar divergências doutrinárias ao determinar,
como norma fundamental, que o juiz ouça as partes antes de decidir sobre qualquer tema, inclusive sobre matéria de ordem
pública. Assim, mesmo que o juiz aplique a regra do art. 332, §1º, do CPC, deverá citar a parte ré para que se manifeste sobre
a ocorrência da prescrição. Essa equação, em nosso entendimento, elimina divergências doutrinárias.

capítulo 3 • 55
Por fim, o juiz extinguirá o processo com resolução do mérito nos casos em
que haja a renúncia ao direito formulado na petição inicial ou na reconvenção.
Ao contrário do que ocorre quando o autor ou reconvinte desiste da demanda,
a renúncia acarreta a extinção do processo com resolução do mérito. Quando o
autor desiste da ação, o juiz extinguirá o processo sem resolução do mérito (art.
485, VIII), podendo o autor renovar a demanda caso entenda adequado, pois o
direito, enquanto questão de fundo, encontra-se preservado. O autor abre mão
do seu exercício do direito de ação. Já nas hipóteses em que o autor ou reconvinte
renuncia ao direito, o próprio direito é fulminado, razão pela qual o processo será
extinto sem resolução do mérito.
Tais circunstâncias aqui mencionadas autorizam o juiz a extinguir o processo
no estado em que se encontra dispensando a fase instrutória. A figura a seguir nos
permite ter uma visão panorâmica das hipóteses de extinção do processo:

Julgamento antecipado do mérito

A regra geral do CPC determina que o juiz profira sentença de mérito


após uma cognição exauriente. Significa dizer que o processo estará pronto
para julgamento após intenso contraditório e exaustiva atividade probatória.
Há casos, porém, em que o juiz terá condições de proferir decisão de mérito
independentemente da produção de provas, desde que tenha assegurado às
partes o pleno exercício.

capítulo 3 • 56
O art. 355 do CPC dispõe acerca de duas hipóteses de julgamento antecipado
de mérito. São contextos processuais em que a solução do mérito independe de
produção de provas. O primeiro inciso do referido dispositivo legal trata da hipó-
tese em que o juiz julgará antecipado o mérito quando não houver necessidade de
produção de mais provas.
Um caso concreto pode nos ajudar a melhor compreender o tema. Suponha
que o autor ajuíza uma ação discutindo a ilegalidade de imposto cobrado por de-
terminado município. O juiz, para julgar essa causa, não necessitará de produção
de mais nenhuma prova e poderá julgar antecipadamente o mérito. O mesmo
ocorrerá em uma ação em que se pretende ver declarada a nulidade de um contra-
to. O juiz cotejará a alegada nulidade à luz das cláusulas contratuais e do direito
discutido no processo, não havendo necessidade de produção de outras provas.
Pense, ainda, no caso em que o autor formule pretensão indenizatória de-
corrente de negativação indevida e junta documentos suficientes do alegado no
momento da distribuição da petição inicial. Se os documentos juntados pelo autor
forem suficientes para convencer o juiz do pagamento e da negativação indevida,
haverá, também nesse caso, o julgamento antecipado do mérito. Entretanto, o juiz
somente poderá julgar antecipadamente da lide, conforme entendimento pacífico
do Superior Tribunal de Justiça, após garantir, às partes, a ampla defesa4. Não se
afigura correto, por exemplo, o juiz indeferir requerimento do autor de produção
de prova testemunhal, por entender desnecessária, e julgar a lide, antecipadamen-
te, improcedente por falta de provas. Essa não é, definitivamente, a adequada
interpretação do art. 355, I do CPC.
A interpretação sistemática do Código sugere que o juiz ouça as partes (art.
10) acerca da possibilidade de julgamento antecipado na forma do art. 355, I, do
CPC. Não havendo manifestação em contrário, ou mesmo no silêncio das partes,
o juiz poderá julgar antecipadamente a lide, evitando, dessa forma, eventuais ale-
gações de cerceamento de defesa.
A segunda hipótese de julgamento antecipado do mérito (art. 355, II) ocorre-
rá nos casos em que a revelia relevante for decretada. Como foi visto no capítulo
anterior, ocorrendo a revelia, esta acarretará a confissão ficta do réu (efeito mate-
rial) e o julgamento antecipado da lide (um dos efeitos processuais da revelia). Faz-
se necessário observar que a revelia, por si só, não enseja o julgamento antecipado
da lide. A interpretação literal do art. 355, II, do CPC, dispõe que o juiz somente

4  Ver EDcl no AgRg no REsp 1415970/MT.

capítulo 3 • 57
pode julgar antecipadamente a lide nos casos de revelia se não houver requerimen-
to de provas do réu revel, nos termos do art. 349.
Percebe-se que a intenção primeira do Código é conciliar os mecanismos pro-
cessuais de aceleração do julgamento do mérito, de um lado, com o exercício da
ampla defesa e do contraditório, de outro.

Julgamento antecipado parcial do mérito

O Código de Processo Civil de 2015 dispôs acerca da sentença parcial no direito


brasileiro. Na vigência do CPC/1973, admitia-se, tão somente, a antecipação da tu-
tela dos pedidos incontroversos (art. 273, §6º), não sendo possível proferir sentença
parcial. O art. 356 trata de duas hipóteses de julgamento parcial do mérito, permi-
tindo ao juiz julgar, de forma definitiva, parte da pretensão autoral.
A primeira hipótese de julgamento antecipado parcial do mérito ocorrerá nos casos
em que o autor formular dois pedidos e o réu negar apenas um (art. 356, I). Haverá,
nessa situação, pedido incontroverso, o que autorizará o juiz a julgar antecipadamente
o referido pedido, viabilizando a execução definitiva dessa pretensão.
Vamos à casuística. Imaginemos a hipótese em que a parte autora formula quatro
pedidos em juízo: a) dano material; b) dano moral; c) dano estético; d) lucros cessan-
tes. Realizada sem êxito a audiência de conciliação, o réu apresenta sua contestação
negando tão somente a pretensão autoral acerca do dano material e do dano moral.
Os pedidos de dano estético e lucro cessante não foram impugnados pelo réu, e serão
presumidos como verdadeiros pelo juiz (art. 341). Com efeito, considerando que os
referidos pedidos não foram negados pelo réu, não haverá necessidade de se realizar
atividades probatórias para apurar se os fatos que lhe dão sustentação são verdadeiros,
tornando-os incontroversos. O processo seguirá para julgar os pedidos controversos ou
contestados pelo réu.
Quando um fato se torna incontroverso num processo, ou seja, foi afirmado por
uma parte e admitido tacitamente pela outra, o juiz poderá proferir sentença parcial de
mérito nos termos do art. 356, I, do CPC. Trata-se de importante forma de cognição
sumária do CPC/2015.
O art. 356, II, do CPC admite o julgamento parcial nos casos em que um ou
mais pedidos do autor estiverem em condições de julgamento antecipado do mérito
nos termos do art. 355. Não há diferença entre a hipótese de julgamento antecipado
e a estudada no item anterior. O julgamento parcial antecipado ocorrerá sempre que

capítulo 3 • 58
o autor formular dois pedidos e um deles dispensar produção de provas autorizando o
juiz, assegurada a ampla defesa, julgamento antecipado parcialmente o mérito.
A sentença parcial poderá ser líquida ou ilíquida (sem valor definido). Se for ilí-
quida, o autor poderá iniciar a fase de liquidação nos termos do art. 509 do CPC. Há
casos em que o juiz, ao julgar a pretensão autoral, não tem condições de fixar, de plano,
o valor a ser pago pelo réu. Nesses casos o autor-credor, antes de promover a execução,
inicia a liquidação para se alcançar o valor devido.
Um exemplo ajudará a compreender melhor. Imagine que o juiz julgue antecipa-
damente de forma parcial um dos pedidos do autor referente à apuração de haveres
de um sócio que pretende sair de uma sociedade empresarial. Numa situação dessas, o
juiz não terá condições de definir com precisão o valor devido e terá de determinar que
o valor correto seja apurado em liquidação por um expert no assunto (liquidação por
arbitramento). Apurado o valor, a sentença parcial poderá ser executada regularmente.
Se a sentença parcial for líquida, o autor poderá promover a execução da de-
cisão, em autos apartados, para não prejudicar o julgamento dos pedidos contro-
vertidos (art. 356, §4º). A execução, nesse caso, será definitiva e o autor poderá
penhorar bens do devedor.
Contra a sentença parcial, caberá recurso de agravo de instrumento (art. 356,
§4º). No entanto, o recurso interposto pelo réu não impede que o autor promova a
execução (provisória) da sentença parcial (art. 356, §2º).

Saneamento e organização do processo

Não ocorrendo nenhuma das hipóteses de extinção do processo ou de julga-


mento antecipado do mérito, o juiz iniciará a fase de saneamento do processo.
Na fase saneadora, o juiz resolverá as questões processuais pendentes (art. 357,
I) e organizará o processo para a fase instrutória. É, sem dúvida, um importante
momento processual, pois delimitará com clareza e precisão o objeto do processo
e os fatos que deverão ser provados. Passemos, então, à análise dos principais atos
processuais da fase saneadora.
Ultrapassada as providências preliminares, o juiz resolverá as questões proces-
suais pendentes (art. 357, I). São exemplos de questões processuais pendentes: a
regularização da representação processual (art. 76); nomeação de curador especial
(art. 72); admissão ou não de terceiro interveniente; resolução de questões proces-
suais dilatórias (art. 337); entre outras. É o momento oportuno para a correção de
vícios para que o processo tenha seu regular desenvolvimento na fase probatória.

capítulo 3 • 59
Além da resolução de pendências processuais (saneamento), o juiz organizará
o processo de modo a evitar atos processuais desnecessários. O juiz delimitará
as questões de fato sobre os quais a atividade probatória recairá e especificará os
meios de provas que serão admitidos (art. 357, II, do CPC). Assim, se num de-
terminado processo o autor alega inadimplemento contratual e indenização por
perdas e danos e o réu admitiu o inadimplemento, o juiz delimitará como fato
controvertido somente a indenização por perdas e danos, e poderá especificar que
o meio de prova adequado para se apurar o alegado fato será prova testemunhal.
Esse recorte da atividade jurisdicional a ser realizada é fundamental para a redução
de tempo inútil do processo.
Em outras palavras, o juiz fixará os pontos controvertidos, ou seja, os fatos
sobre os quais o autor e o réu discordam, e especificará o meio de prova adequado
para esclarecer o respectivo fato. Poderá o juiz, após requerimento da parte, espe-
cificar produção de prova testemunhal para se apurar o período em que determi-
nada união estável ocorreu (fato controvertido).
Na fase saneadora, o juiz deverá delimitar, também, as questões de direito
relevante para o enfrentamento do mérito (art. 357, IV). A regra se faz necessária
em certas hipóteses, pois não são raros os casos em que o autor formula sua pre-
tensão com base em mais de uma questão de direito. Por exemplo, pode o autor
alegar que determinado contrato é nulo e alegar, também, que o mesmo contrato
foi inadimplido. Nesse exemplo, temos duas questões de direito a ser apreciada: se
o contrato é nulo ou se houve o inadimplemento. O juiz deverá delimitar, na fase
de saneamento e organização do processo, qual questão de direito será relevante
para a solução do mérito. Poderá concluir, portanto, que o contrato tem vícios e a
nulidade, no caso, é a questão de direito relevante.
A principal finalidade das regras dos incisos II e IV do art. 357 diz respeito
à delimitação das questões que devem ser consideradas pelo juiz na fase instru-
tória e decisória. A partir da referida delimitação, o juiz indeferirá requerimento
desnecessário de produção de provas, garantindo a solução do mérito num prazo
razoável (art. 6º do CPC).
Na fase saneadora, o juiz também definirá a distribuição do ônus da prova (art.
357, III) e designará audiência de instrução e julgamento, se for ocaso (art. 357,
V). O ônus da prova pode ser distribuído de forma dinâmica e estática. A distri-
buição estática (art. 373) dispõe que incumbe ao autor provar o fato constitutivo
de seu direito e ao réu provar o alegado fato impeditivo, modificativo ou extintivo
do direito do autor. Caso haja mudança na distribuição desse ônus (dinâmica), o

capítulo 3 • 60
juiz definirá na fase de saneamento do processo. A distribuição do ônus da prova
será abordada em detalhes no próximo capítulo, mas a sua definição (estática ou
dinâmica) deverá ser realizada na fase de saneamento de modo a permitir que a
parte que terá o ônus de produzir a prova tenha tempo razoável para produzi-la,
evitando, dessa forma, cerceamento de defesa.
Na fase de saneamento, o juiz designará, se for o caso, data para realização
da audiência de instrução e julgamento. A audiência de instrução e julgamento
somente ocorrerá nas hipóteses em que haja necessidade de produção de pro-
va oral (depoimento pessoal ou inquirição de testemunha) ou as partes requere-
rem esclarecimentos do perito acerca do laudo pericial apresentado. Se não for o
caso, o juiz julgará o mérito dispensando-se a realização da audiência de instrução
e julgamento.
O Código de Processo Civil de 2015 trouxe uma importante inovação em
nossa processualística. Permite que a delimitação das questões de fato e de direito
seja realizada pelas próprias partes (art. 357, §2º) e que o juiz, nos casos em que a
causa apresente certa complexidade, designe audiência própria para que o sanea-
mento seja realizado em cooperação com as partes (art. 357, §3º).
A primeira hipótese trata de um negócio processual típico, ou seja, as partes
podem delimitar as questões de fato sobre as quais recairão a atividade probatória
ou as questões de direito relevante para a decisão de mérito. As próprias partes
delimitam o caminho que a atividade decisória do juiz percorrerá. Apresentada
a petição com saneamento realizado pelas partes, caberá ao juiz homologar o ne-
gócio processual realizado. Caso entenda que o negócio jurídico não delimita de
forma precisa a atividade instrutória e decisória, o juiz deverá, em observância
ao princípio da cooperação, designar audiência própria para que seja realizado o
saneamento conjunto.
A segunda hipótese trata de saneamento feito em cooperação em audiência
designada pelo juiz. Segundo a regra do art. 357, §3º do CPC, se a causa eviden-
ciar complexidade de fato e de direito, o juiz deverá, de ofício ou a requerimento
da parte, designar audiência para realizar o saneamento cooperativo. Essa norma
é cogente e não deixa opção ao juiz nos casos em que a causa apresentar com-
plexidade. A cooperação processual ainda não perfaz a praxe forense brasileira.
Entretanto, a processualística contemporânea exige das partes, dos advogados e
dos juízes uma visão mais coexistencial do processo em detrimento de uma visão
mais adversarial, mais combativa.

capítulo 3 • 61
Segundo José Miguel Medina (2015, p. 574), o saneamento por audiência
será realizado também não hipóteses em que a petição inicial contenha vários
pedidos e, como consequência, um número maior de questões. Para esse autor:

O CPC/2015 estabelece que o saneamento em audiência deve ser


realizado quando ‘a causa apresentar complexidade em matéria de
fato ou de direito’; à ‘complexidade’, aqui, deve-se dar sentido amplo,
não apenas para referir-se a questões intricadas ou sofisticadas, mas
também a causas que envolvam grande número de questões a serem
resolvidas (porque há muitos pedidos, p. ex.).

Conforme dispõe o art. 357, §5º do CPC, as partes devem apresentar na


audiência designada para o saneamento cooperativo o rol das testemunhas que
pretendem inquirir em juízo. O rol não poderá ultrapassar 10 (dez) testemu-
nhas, sendo que podem arrolar, no máximo, 3 (três) testemunhas para cada fato.
Dependendo da complexidade do caso ou da natureza mesmo do fato debatido
em juízo o juiz poderá limitar o número de testemunhas (art. 357, §7º). A me-
dida tem como escopo evitar embaraços e dificuldades para a instrução da causa.
Parece mais adequado que a decisão acerca da limitação seja procedida de diálogo
cooperativo com as partes (art. 10 do CPC).
Nos processos em que não for designada audiência para realização do sanea-
mento, as partes deverão apresentar seu respectivo rol no prazo fixado pelo juiz.
Trata-se de prazo judicial, fixado pelo juiz, que não poderá exceder a 15 dias
(art. 537, §4º).
Como se pôde observar, o saneamento e organização do processo podem ser
realizados de três formas: a) Pelo próprio juiz, como regra geral, através de decisão
interlocutória (art. 357); b) Pelas próprias partes, através de negócio processual
(art. 357, §2º) e c) Pelo juiz, em cooperação com as partes, em audiência desig-
nada para tanto (art. 357, §3º). Entretanto, o saneamento realizado em audiência
com a cooperação das partes parece ser o mais adequado, pois a delimitação de
todas as questões será definida através de um ato dialógico, democrático e coope-
rativo evitando, dessa forma, recursos e arguições de nulidade.
Realizado o saneamento do processo, o juiz iniciará a fase instrutória determi-
nando a produção das provas deferidas na respectiva decisão saneadora. Verifica-se
que a fase saneadora é fundamental para que a atividade judicial seja efetiva e

capítulo 3 • 62
adequada aproveitando-se, de forma útil, o tempo do processo. A decisão sanea-
dora abaixo, embora tenha sido realizada pelo modo tradicional, ou seja, pelo juiz,
evidencia a importância dessa fase processual. Vejamos:

INICIAL DE FLS 2/8 ALEGANDO QUE: 1) JULHO DE 2011. ADQUIRE DA PRIMEIRA


RÉ 24 DOBRADIÇAS MODELO AÇO 3 CR PARA UTILIZAR NAS PORTAS INTERNAS E
EXTERNAS DE UM EMPREENDIMENTO IMOBILIÁRIO. POSTERIORMENTE ADQUIRE
MAIS 552 DOBRADIÇAS PARA DAR ACABAMENTO NOS IMÓVEIS. APÓS 1 ANO DA
INSTALAÇÃO, AS DOBRADIÇAS ESTÃO EM PROCESSO DE FERRUGEM E PERDA DA
CROMAGEM. MANTEVE CONTATO. A SEGUNDA RÉ É A FABRICANTE. 5 ANOS DE
GARANTIA. PÉSSIMA APARÊNCIA DAS DOBRADIÇAS. DEFEITO DE FABRICAÇÃO.
DANOS MATERIAIS; 2) DIREITO; 3) SOLIDARIEDADE PASSIVA; 4) DANOS (MATERIAIS
E IMATERIAIS); 5) TUTELA ESPECÍFICA DOCUMENTOS DE FLS 9/32 DECISÃO DE
FLS 42/43 (CITAÇÃO E LIMINAR: REJEIÇÃO); DEFESA DE FLS 47/59 (INDÚSTRIA
FERRAGENS PAGÉ LTDA) ALEGANDO QUE: 1 ) FATOS NARRADOS NA INICIAL;
2) REALIDADE FÁTICA. MÁ-FÉ. NÃO INFORMOU QUE O EMPREENDIMENTO
ERA À BEIRA-MAR. EMBALAGENS E ANÚNCIOS DA DOBRADIÇA FECHAMATIC.
UTILIZAR SEMPRE PRODUTOS DE LATÃO EM FACE DA MARESIA E NÃO DE AÇO.
DA GARANTIA. INFORMAÇÃO CLARA E OBJETIVA. NÃO HÁ PROVA DE QUE AS
‘VENDAS DOS IMÓVEIS’ RESTAM PREJUDICADAS. RESPONSABILIDADE DA
PARTE AUTORA PELA COMPRA; 3) DESCARACTERIZAÇÃO DO AUTOR COMO
CONSUMIDOR; 4) DA INEXISTÊNCIA DE ILICITUDE E DA CULPA EXCLUSIVA DA
VÍTIMA; 5) INEXISTÊNCIA DE OBRIGAÇÃO DE FAZER SUSCITADA OU DE DANOS
MATERIAIS. FALTA DE PROVAS. DANOS MORAIS. INEXISTÊNCIA DOCUMENTOS DE
FLS 60/72 DEFESA DE FLS 77/99 (NAOR COMÉRCIO ATACADISTA DE MATERIAIS
ELÉTRICOS E FERRAGENS LTDA E OUTROS) ALEGANDO QUE: 1) GRATUIDADE;
2) INÉPCIA; 3) FATOS. POR TELEFONE FEZ UM PEDIDO AO SR NAOR. LEVOU O
MOSTRUÁRIO PARA FAZEREM JUNTOS UM ORÇAMENTO DO MATERIAL. 24
DOBRADIÇAS CROMADAS. PEDIU MATERIAL MAIS BARATO DAS DOBRADIÇAS.
APRESENTADO MATERIAL DE AÇO INOXIDÁVEL ‘MAIS INDICADO’. PRÓXIMO À
PRAIA. TRÊS VEZES MAIS CARO. OPÇÃO PELO MAIS BARATO. NAOR FOI ATÉ A
CONSTRUÇÃO (APÓS 1 ANO E 6 MESES).

capítulo 3 • 63
CONSTATA FERRUGEM. MANTEVE CONTATO PARA FAZER A TROCA. RECUSA.
LOCAL IMPRÓPRIO. NAOR O ACONSELHOU DE FORMA DIVERSA. É APENAS UM
DISTRIBUIDOR DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO. A FÁBRICA DEVE TROCAR O
PRODUTO. MÁ-FÉ. JURISPRUDÊNCIA. DANOS. INEXISTÊNCIA. OBRIGAÇÃO DO
AUTOR. PROVA. DOCUMENTOS DE FLS 100/106. RÉPLICA DE FLS 114/118
IMPUGNAÇÃO À JG DE FLS 119/121. MANIFESTAÇÃO DA PARTE RÉ DE FLS 123
(JULGAMENTO ANTECIPADO). MANIFESTAÇÃO DA PARTE AUTORA DE FLS 124/125
(PROVA ORAL). EMBARGOS DE DECLARAÇÃO DE FLS 126/128 (INTERPOSTOS
PELA RÉ: INDÚSTRIA FERRAGENS PAGÉ). CERTIDÃO DE FLS 129 DECISÃO DE
FLS 130 (EMBARGOS). MANIFESTAÇÃO DO RÉU (INDÚSTRIA) EM 24.02.2015 (FLS
131). MANIFESTAÇÃO DA PARTE RÉ EM 1.6.2015 (NAOR COMÉRCIO ATACADISTA
DE MATERIAIS ELÉTRICOS E FERRAGENS LTDA E OUTROS). CONSIDERANDO-SE A
DOCUMENTAÇÃO CARREADA AOS AUTOS, PARECE QUE SE PODE AFIRMAR QUE A
PARTE RÉ NÃO OSTENTA A ‘QUALIDADE’ DE HIPOSSUFICIENTE ECONOMICAMENTE,
NÃO HAVENDO QUE SE FALAR EM DEFERIMENTO DA GRATUIDADE DE JUSTIÇA
RESPECTIVA, VEZ QUE AUSENTES OS PRESSUPSOTOS DA LEI Nº 1060/50.
REJEITA-SE O PEDIDO DE GRATUIDADE DE JUSTIÇA À PARTE RÉ. A PARTE
AUTORA OSTENTA A ‘QUALIDADE’ DE CONSUMIDORA. A PARTE RÉ OSTENTA A
‘QUALIDADE’ DE FORNECEDORA. APLICAM-SE À ESPÉCIE ÀS REGRAS DA LEI Nº
8078/90. TAL DIPLOMA CONSAGRA A RESPONSABILIDADE OBJETIVA, A TEORIA
DO RISCO DO EMPREENDIMENTO, O DEVER DE INFORMAÇÃO, A BOA-FÉ OBJETIVA,
A SOLIDARIEDADE E OS PRINCÍPIOS DA HIPOSSUFICIÊNCIA E VULNERABILIDADE
DO USUÁRIO, ALÉM DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA (ART. 6º, VIII), EXIGINDO-
SE NESTE CASO NA ESPÉCIE A PROVA DA VEROSSIMILHANÇA DO ALEGADO
OU A HIPOSSUFICIÊNCIA OU USUÁRIO, DESTACANDO-SE QUE À LUZ DO QUE
DOS AUTOS CONSTA ATÉ A PRESENTE DATA, PARECE QUE ESTÁ PRESENTE NA
ESPÉCIE O REQUISITO DA HIPOSSUFICIÊNCIA, PELO QUE DEVEMOS ACOLHER
TAL ARGUMENTO (INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA), CABENDO ENTÃO AO RÉU
PROVAR QUE PRESTOU SERVIÇO DE FORMA EFICIENTE E ADEQUADA, DEVENDO
EXISTIR UMA ‘JUSTA CAUSA’ QUE LEGITIME SEU ATUAR, DESTACANDO-SE QUE, NA
DEFESA ALUDIDA, FAZ ALUSÃO AO TEMA ‘CULPA EXCLUSIVA DO CONSUMIDOR’,
RESSALTANDO-SE O TEMA ‘DEVER DE INFORMAÇÃO’. DEFIRO O PEDIDO DE
PRODUÇÃO DE PROVA ORAL, VEZ QUE TAL DILIGÊNCIA, À LUZ DA INICIAL E DEFESA

capítulo 3 • 64
PARECE SER ÚTIL E NECESSÁRIA AO JULGAMENTO DA LIDE, RESSALTANDO-SE
QUE O PONTO ‘CONTROVERTIDO’ DIZ COM O ‘ALERTA DO ADQUIRENTE’ (PARTE
AUTORA) NO(S) MOMENTO(S) DA AQUISIÇÃO(ÇÕES) DA(S) PEÇA(S) RESPECTIVA(S),
ACERCA DAS CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DO LOCAL ONDE O PRODUTO SERIA
UTILIZADO. DESIGNO O DIA 26/10/2015 ÀS 13:00 HORAS PARA A REALIZAÇÃO DO
ATO (AIJ). INTIMEM-SE.

Embora longa, a transcrição da decisão acima5 permite a adequada com-


preensão da importância de um saneamento e organização do processo realizado
de forma correta. O juiz resolveu questões processuais pendentes, delimitou as
questões de fato e de direito, como também definiu acerca da distribuição do
ônus da prova.
A figura a seguir contribui para melhor visualização das formas de saneamento
e organização do processo.

Conclusão

Os conceitos estudados no capítulo permitem compreender as providências


preliminares admitidas no Código de Processo Civil de 2015 e, principalmente,
em quais circunstâncias elas poderão ser manejadas pelo profissional do direito.
Por outro lado, o estudo satisfatório das hipóteses de julgamento, conforme o
5 Processo nº 0147736-63.2013.8.19.0001 que tramita perante o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

capítulo 3 • 65
estado do processo e das formas de saneamento do processo, possibilita ao juiz e às
partes reduzir o tempo gasto na instrução processual, sem delongas desnecessárias,
assegurando a solução do mérito em tempo razoável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CÂMARA, Alexandre. Lições de direito processual civil. 24. ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2013, p. 363. v. 1.
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. Salvador: Podivm, 2015. v. 1.
MEDINA, José Miguel. Direito processual civil moderno. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Curso de processo civil.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. v. 2.
WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2015. v. 1.

capítulo 3 • 66
4
Direito probatório
e audiência
de instrução e
julgamento
Direito probatório e audiência de
instrução e julgamento

Introdução

Neste capítulo, abordaremos dois importantes institutos do Código de


Processo Civil de 2015: o direito probatório no processo civil e a audiência de ins-
trução e julgamento. Esses institutos processuais compreendem, por conseguinte,
as fases finais de um processo, ou seja, a fase instrutória e decisória. O Código de
Processo Civil de 2015 trouxe importantes inovações no que diz respeito à teoria
geral da prova, como também ampliou o tratamento normativo referente às provas
em espécie. Assim, o principal objetivo do capítulo é analisar a teoria geral da pro-
va e as provas espécies à luz do devido processo legal e das normas fundamentais
do direito processual civil.
Num segundo momento, estudaremos a audiência de instrução e julgamento,
como ato complexo que é, dando ênfase à sua importância na fase decisória e,
principalmente, na sua importância como ato processual em que permite ao juiz
ter um contato mais profundo com as partes e os principais argumentos e provas
produzidas no processo.
O estudo do presente capítulo é fundamental para a correta compreensão des-
ses institutos e de sua importância para a justa e efetiva solução da lide.

OBJETIVOS
•  Estudar a teoria geral da prova no processo civil.
•  Analisar as provas em espécie e suas principais caraterísticas.
•  Compreender a audiência de instrução e julgamento, e os principais atos que a compõem.
•  Identificar as hipóteses em que pode haver dispensa da audiência de instrução e julgamento.

Teoria geral da prova

É o conjunto de conceitos e princípios que norteará o profissional de direito


na interpretação das regras referentes às provas em espécie. Pela importância e
dimensão das provas no Código de Processo Civil, a doutrina intitula suas regras

capítulo 4 • 68
como direito probatório, o que exige a formulação de princípios e normas pró-
prios que possam nortear e orientar o intérprete em sua atividade hermenêutica.
A teoria geral da prova, por conseguinte, nos permite compreender o objeto
da prova, os meios legítimos e ilegítimos utilizados pelas partes para provar deter-
minado fato, prova ilícita, entre outros temas ligados ao direito probatório. Por
essa razão, abordaremos, em primeiro lugar, a teoria geral da prova para depois
avançarmos no estudo da prova em espécie.

Conceito de prova

Em todo processo judicial, em regra geral, há pelo menos uma questão de fato
controvertida. Casos há em que são diversas as questões de fato a serem apreciadas
pelo juiz para que o conflito seja devidamente julgado. O autor apresenta a sua
versão do fato que é contraposta à versão fática apresentada pelo réu, cabendo ao
juiz verificar qual das versões foi devidamente demonstrada em juízo pelas provas
produzidas pelas partes. É nesse sentido que o art. 378 do CPC dispõe que é dever
das partes colaborar para que o juiz possa descobrir a verdade dos fatos debatidos
nos autos dos processos.
A atividade probatória, portanto, é fundamental, pois é através dela que as
partes vão demonstrar a existência, ou não, de determinado fato. Ao ponderar
sobre o tema, José Miguel Medina (2015, p. 581) defende que se faz necessário
existir no processo instrumentos que permitam atestar, com certa segurança, não
apenas a correta compreensão do sistema jurídico, mas também o entendimento
preciso acerca de como surgiu o direito da parte.
Importante considerar, entretanto, que o juiz não buscará a verdade real tal
como um conceito abstrato1, mas verificará se o fato afirmado pela parte encontra
identidade com a prova produzida nos autos. Se o autor alega que determinada
conta foi paga e a negativação é, por esse motivo, indevida, o juiz verificará, dentre
os documentos produzidos pela parte, se tal fato encontra amparo no acervo pro-
batório dos autos. Se há nos autos comprovantes do pagamento e comunicação de

1  A doutrina processual clássica sobre o tema tinha como principal objetivo diferenciar verdade real da verdade
formal. Denominava-se verdade real como verdade absoluta e que deveria ser perseguida pelo juiz incansavelmente,
principalmente nos casos que versassem sobre direitos indisponíveis. A verdade formal seria aquela verdade produzida
num processo, principalmente nos casos em que o objeto da lide versasse sobre direitos disponíveis. Em muitos casos,
o juiz não tinha condições de alcançar a verdade real, por razões muito óbvias, ou seja, não se consegue alcançar tal
verdade em todas as causas. Diante da fragilidade dessa díade (verdade real e verdade formal) na vida moderna, a
doutrina contemporânea vem afastando-a da teoria geral da prova para estabelecer como fio condutor da atividade
probatória a busca pelo convencimento do magistrado acerca da existência dos fatos por meio das provas produzidas.
Não se busca a verdade, pois esta é sempre subjetiva, mas se aproximar, ao máximo, da realidade dos fatos.

capítulo 4 • 69
negativação do nome da parte, em razão do mesmo valor cobrado, resta evidente
que os fatos afirmados são verdadeiros.
Conceituar ou definir prova não é tarefa simples. A dificuldade decorre do
fato de que a prova é tema heterotópico, ou seja, é tratada tanto pelo Código Civil
(art. 212) como pelo Código de Processo Civil. Outra dificuldade decorre da pró-
pria compreensão do que seja a atividade probatória, isto é, se tem como escopo
a busca da verdade ou o convencimento do juiz. A definição de prova depende da
orientação que se tenha a respeito de suas relações com a verdade ou com a reali-
dade (MARINONI; ARENHART; MITIDIERO, 2015, p. 249).
Contudo, considerando os fins didáticos desta obra, se faz necessário elaborar
um conceito que nos permita compreender de forma adequada o estudo do direi-
to probatório. Conceituamos prova, portanto, como um meio idôneo, admitido
em direito, utilizado pelas partes para demonstrar ao juiz a existência de um fato
afirmado em juízo.

Objeto da prova

A atividade probatória se desenvolve com objetivo de se apurar se a afirmação


das partes se confirma ou não. Assim, o principal objeto da prova são os fatos,
afirmados por parte e negados por outra. Realiza-se a prova pericial para verificar
se determinada assinatura é ou não do réu e assim se certificar de que o contrato
é fraudulento ou não. Realiza-se a inquirição de testemunhas para se constatar o
período de certa união estável. O objeto da prova é, portanto, o fato.
A doutrina classifica os fatos em principal (ou jurídico) e secundário (ou indi-
reto, ou indiciário). Fato principal é aquele que uma parte afirma e a outra nega.
Esse fato é considerado jurídico ou principal. Para Marinoni, Arenhart e Mitidiero
(2015, p. 251), o fato indireto, por sua vez, é incapaz de demonstrar a ocorrência
de um fato debatido em juízo, mas pode auxiliar, indiretamente, a convencer o
juiz de que tal fato existiu. Podemos exemplificar a hipótese de fato indireto ou
indiciário num caso em que não há provas diretas acerca de determinado acidente
mas algumas testemunhas ouviram o estrondo da batida (fato indireto ou prova
indiciária). Essas testemunhas podem auxiliar o juiz a reconhecer que houve real-
mente uma batida.
Alguns fatos dispensam provas. O art. 374 do CPC enumera as hipóteses
em que o juiz dispensará a produção de provas acerca de determinados fatos. Os
fatos notórios são aqueles que, pela sua extensão, são do conhecimento de todos.

capítulo 4 • 70
Pense num desastre ambiental, que provocou danos atingindo um grande número
de pessoas, cuja responsabilidade da empresa causadora do dano foi amplamente
divulgada pelos meios de comunicação. O juiz, nesse caso, dispensará a produção
de provas considerando a notoriedade do fato (art. 374, I)2.
O art. 374, II, dispõe sobre a hipótese de confissão. Quando o fato afirmado
em juízo pelo autor é confessado expressamente pela parte, dispensa-se a prova em
razão da certeza que se formou nos autos do processo. A confissão poderá ocorrer
em juízo ou mesmo fora dele. Independentemente da forma como se deu a confis-
são, o fato que a ensejou dispensará a produção de provas, possibilitando ao juiz o
julgamento antecipado do mérito.
Não dependem de provas os fatos incontroversos (art. 374, III). A razão é ób-
via. Se a parte autora afirma a existência de determinado fato e o réu não o nega,
resta evidente que não há controvérsia quanto ao fato. Para compreender melhor
2  Este acórdão evidencia o que STJ compreende como fato notório: PROCESSUAL CIVIL. OFENSA AO ART.
535 DO CPC. INOCORRÊNCIA. VIOLAÇÃO DO ART. 333, INC. I, DO CPC. INEXISTÊNCIA. PROVA DE OMISSÃO.
DIFICULDADE PRÁTICA. FATOS NOTÓRIOS QUE INDEPENDEM DE PROVA.
1. No início, trata-se de ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios em face do
Distrito Federal e outros considerando a ocupação indevida de áreas públicas em quadras da cidade, requerendo,
inclusive, demolição das obras tidas por irregulares.
2. O acórdão recorrido entendeu que o Distrito Federal é solidariamente responsável pelo levantamento das
construções questionadas, seja em razão de conduta comissiva (concessão de alvarás), seja em razão de conduta
omissiva (ausência de fiscalização).
3. Nas razões recursais, sustenta a parte recorrente ter havido violação aos arts. 535 e 333, inc. I, do Código
de Processo Civil, ao argumento de que o acórdão recorrido não apreciou a ofensa ao art. 333, inc. I, do CPC,
considerando a inexistência de provas nos autos que comprovasse a omissão do Distrito Federal. Por este último
motivo, entende, ainda, pela malversação do art. 333, inc. I, do CPC.
4. Os órgãos julgadores não estão obrigados a examinar todas as teses levantadas pelo jurisdicionado durante
um processo judicial, bastando que as decisões proferidas estejam devida e coerentemente fundamentadas em
obediência ao que determina o art. 93, inc. IX, da Constituição da República vigente. Isto não caracteriza ofensa
ao art. 535 do CPC. Precedentes.
5. Também não há se falar em violação ao art. 333, inc. I, do CPC – em razão de suposta inexistência de provas nos
autos que comprovasse a omissão do Distrito Federal –, porque a origem não fez incidir a referida regra por entender
que os fatos relativos à conduta omissiva eram notórios, dispensando provas por parte do Ministério Público autor.
6. No mais, note-se que a origem entendeu que o Distrito Federal teria, com dois tipos de condutas, contribuído para
a ocupação irregular de áreas públicas: uma conduta comissiva, que se constituiu no deferimento de autorizações
com base em lei distrital julgada inconstitucional; outra conduta omissiva, consistente na falha de fiscalização da
ocupação das referidas áreas.
7. Portanto, mesmo que se considerem inexistentes provas relativas à conduta comissiva, a conduta omissiva, por si
só, seria bastante para se chegar à mesma conclusão.
8. Quanto ao ponto, correta a postura adotada no acórdão recorrido quando, à luz das especificidades do caso
concreto, deixa de exigir a prova de conduta omissiva, a conta da verdadeira dificuldade de se provarem fatos
negativos. Mais indelével ainda a postura de julgamento relativa à consagração da notoriedade da conduta omissiva
imputada ao Distrito Federal, pelo que prevê o art. 334, inc. I, do CPC.
9. Recurso especial não provido (REsp 1222033/DF).

capítulo 4 • 71
a hipótese, pense no caso em que o autor formula dois pedidos (lucros cessan-
tes e dano estético) e apresenta as respectivas causas de pedir para cada um dos
danos. O réu, ao contestar, nega a existência de lucros cessantes, mas fica silente
em relação ao dano estético. Nesse caso concreto, houve violação ao princípio da
impugnação específica (art. 341) e a consequência processual será a presunção de
veracidade em relação aos fatos não impugnados (dano estético) pelo réu. O juiz,
nessa circunstância específica, julgará antecipadamente o mérito em razão da con-
fissão ficta (fato incontroverso).
Faz-se necessário, entretanto, elaborar uma interpretação sistemática entre os
incisos II e III do art. 374 do CPC. Parece mais adequado aplicar o art. 374, II,
quando houver confissão expressa (judicial ou extrajudicial) ou reconhecimento
do pedido. Quando houver confissão ficta que decorre da ausência de impugna-
ção específica do réu (fatos incontroversos), aplica-se a regra do art. 374, III. Esse
mesmo entendimento é defendido por José Miguel Medina (2015, p. 596), que
sustenta que há entre essas figuras (confissão e admissão de um fato) uma grada-
ção, pois também o fato confessado é admitido como incontroverso. Mas o fato
pode ser tido como incontroverso sem que haja declaração de que o fato afirmado
pela outra parte é verdadeiro (isto é, sem que isso resulte de confissão, realizada nos
termos do art. 389 do CPC/2015).
O art. 374, IV, dispõe que também não dependem de provas os fatos em
cujo favor milita presunção legal de existência ou validade. São os casos em que o
fato é registrado por escritura pública, como a paternidade atestada em certidão
de nascimento ou uma doação atestada em uma escritura pública. Tais registros
públicos geram presunção legal de veracidade do fato que foi levado a registro. É
evidente que o agente público não atesta a veracidade em si dos fatos, mas a sua
declaração em cartório. Entretanto, se existir em determinado caso a presunção
legal de veracidade, a prova do fato documentado em registro público independe
de prova. A presunção somente será elidida se houver alegação de falsidade do
documento público.
Há casos excepcionais em que ocorre a necessidade de se provar a existência
do direito alegado (art. 376). O juiz deve conhecer o direito posto, razão pela qual
há necessidade de se fazer prova acerca da existência de direitos. Contudo, temos
casos em que se debate em juízo determinado costume praticado em determinada
sociedade. Há também casos em que se discute direito estrangeiro, legislação de
outro estado da Federação ou mesmo de outro município. Em todas essas hipóte-
ses, a parte que alegar esses direitos deverá produzir prova acerca de sua vigência.

capítulo 4 • 72
Destinatário da prova

O destinatário da prova é o juiz. Toda a atividade probatória é realizada para


convencer o juiz acerca da existência do fato afirmado pelas partes. Em verdade,
busca-se, com a atividade probatória, demonstrar para o julgador que o fato afir-
mado ocorreu. Se a causa posta em juízo versar sobre acidente de carro, a parte que
afirma ter sofrido dano deverá convencer o juiz de que a parte contrária lhe causou
o dano, avançando o sinal, por exemplo.
Há casos em que o juiz poderá decidir com base nas regras de experiência co-
mum (art. 375), como ocorre nas circunstâncias em que um pneu estoura e o car-
ro perde a direção, por exemplo. A perda da direção do veículo em razão de pro-
blemas no pneu pode ser compreendida com base nas regras de experiência. Mas,
na regra geral, as partes deverão convencer o juiz da existência do fato afirmado.
O juiz está livre para se convencer, a partir das provas produzidas nos autos,
da existência ou não do fato afirmado, mas deverá indicar na decisão as razões da
formação de seu convencimento. Trata-se do princípio do livre convencimento
motivado disposto no art. 371 do CPC. Tal dispositivo é fundamental, pois,
além de vincular a decisão judicial ao acervo de provas produzidas nos autos,
permite, também, às partes identificar com clareza quais foram os elementos que
convenceram o juiz.
Para compreender como esse princípio opera na prática, imagine que em de-
terminado processo a parte autora produziu prova documental, pericial e testemu-
nhal para demonstrar a existência de determinado fato. O juiz pode se convencer
da existência do dano e da responsabilidade do réu com base no depoimento de
uma única testemunha. No entanto, deverá demonstrar, de forma adequada, por
quais razões foi convencido pelo depoimento da testemunha. Dessa forma, o juiz
não está obrigado a utilizar todas as provas para se convencer, podendo ter como
referência apenas uma delas, desde que apresente as razões em sua decisão.
Considerando que o juiz é o destinatário da prova e deverá decidir tendo como
base o princípio do livre convencimento motivado, o Código ampliou seus pode-
res instrutórios de modo a permitir que sua atuação seja mais ativa na instrução
da causa. Houve, em sede doutrinária, certa polêmica sobre a parcialidade do juiz
quando ao atuar de forma mais ativa na atividade probatória. Estaria o juiz favo-
recendo uma das partes quando determina, de ofício, produção de prova pericial?
Evidentemente que não. Se o juiz é o destinatário da prova, nada impede que de-
termine a realização de determinada prova para esclarecer um fato controvertido.

capítulo 4 • 73
Os poderes instrutórios do juiz estão dispostos no art. 370 do CPC. Segundo
a redação do referido dispositivo, “caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento
da parte, determinar as provas necessárias ao julgamento do mérito”. Essa regra
evidencia a postura ativa do juiz exigida pelo Código. Nos casos em que a parte
não requereu as provas necessárias para o esclarecimento de um aludido fato, o
juiz poderá fazê-lo de ofício. O juiz deverá, também, indeferir provas inúteis ou
meramente protelatórias (art. 370, § único). Tal regra reforça a postura do Código
em ampliar os poderes instrutórios do juiz.
O princípio da comunhão da prova constitui-se, também, como outro impor-
tante princípio que orienta a atividade probatória do juiz e das partes. Segundo
o referido princípio, as provas produzidas por uma parte pertencem ao processo
e podem ser utilizadas, inclusive, pela parte contrária. Por exemplo, se a prova
pericial requerida pelo réu concluir em sentido contrário às suas pretensões ou não
lhe servir, este não poderá requerer a sua exclusão do processo. O laudo pericial
contrário ao réu será utilizado pelo autor, ainda que este não tenha requerido sua
produção. As provas são dos autos do processo, não das partes.

Prova emprestada

A prova produzida num suposto processo pode ser utilizada também em ou-
tro processo, transportando sua força probante. Trata-se da denominada prova
“emprestada”. Esse intercâmbio probatório pode ocorrer nos casos em que a parte
tenha dificuldades de reproduzir determinada prova novamente em outro proces-
so, seja pela deterioração do documento ou falecimento de uma testemunha, seja
para obter maior celeridade na fase instrutória.
Imagine a hipótese em que a falsidade de um documento foi provada no
processo penal e a parte utilize a mesma prova para instruir uma ação civil. A
parte autora reduzirá consideravelmente a produção de prova pericial no proces-
so civil para demonstrar a mesma falsidade que foi provada no processo penal.
Nesse caso, a prova emprestada contribui consideravelmente para a redução do
tempo do processo.
Podemos pensar, ainda, no caso de uma testemunha que depôs em um processo
trabalhista acerca da contratação de uma doméstica por um casal que vivia em união
estável e que o mesmo depoimento possa ser utilizado em uma ação de reconhecimen-
to e dissolução de união estável. Em todos esses casos, uma prova foi utilizada em dois
ou mais processos, contribuindo para a formação da convicção do julgador.

capítulo 4 • 74
O art. 372 do CPC dispõe que caberá ao juiz atribuir valor probante que
entender adequado e observar o contraditório. Observados os requisitos do refe-
rido dispositivo legal, a prova emprestada poderá integrar o acervo probatório de
forma regular.

Dever de colaboração

O dever de cooperação ou colaboração foi estabelecido como norma fun-


damental no CPC/2015. Segundo o art. 6º, todos os sujeitos do processo
devem colaborar para que se obtenha em tempo razoável a decisão de mérito.
Essa regra estimula a construção de uma justiça coexistencial onde as partes
são protagonistas e colaboram entre si para a solução do caso3. É nessa esteira
que o art. 378 do Código dispõe que ninguém pode se eximir de colaborar
para o descobrimento da verdade.
Ao observar o dever de colaborar, as partes produzirão todas as provas
necessárias para provar suas afirmações, e apresentará, quando solicitado, do-
cumentos que sejam essenciais para o esclarecimento da causa, ainda que a
documentação não lhe beneficie. O dever de colaborar pode ser verificado nas
hipóteses em que o suposto pai, mesmo discordando, realize o exame de DNA,
entre outros exemplos.
O art. 379, em alguma medida, apresenta um rol exemplificativo do dever
de colaborar na medida em que dispõe que a parte deve comparecer em juízo e
responder o que for indagado, colaborar com o juízo na realização de inspeção
judicial e praticar todos os atos que lhe for determinado.
Verifica-se, portanto, que o Código repreende qualquer postura contrária
ao bom e adequado andamento da fase instrutória, estabelecendo como vetor
principal a lealdade processual, a boa-fé e o dever de colaboração.
Há, porém, uma ponderação a ser realizada pelo julgador nos casos em
que o dever de colaborar colidir com o direito de não produzir prova contra si
mesmo (art. 379). A regra deve ser aplicada de forma cuidadosa a fim de evitar
que a parte se exima do dever de colaborar alegando que, se assim o fizer, pro-
duzirá prova contra si mesma. A regra deve ser aplicada com ponderação para
que seu conteúdo não seja esvaziado na prática forense.

3  É verdade que a colaboração ainda não faz parte da cultura jurídica processual, ainda baseada na valorização do
melhor litigante, mas o CPC/2015 iniciou a construção de uma contracultura que paulatinamente irá se irradiar no
processo civil brasileiro.

capítulo 4 • 75
Prova ilícita

Este é um dos temas mais polêmicos no âmbito do direito processual e tem


repercussão em diversas áreas do direito. A importância de seu estudo se justifica
na medida em que muitos dos conflitos postos em juízo são resolvidos tendo como
base tão somente um prova ilícita. Por essa razão, é importante compreender ade-
quadamente do que se trata.
Segundo o art. 369 do CPC, “as partes têm o direito de empregar todos os
meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados
neste Código, para provar a verdade dos fatos em que se funda o pedido ou a defe-
sa e influir eficazmente na convicção do juiz”. Significa dizer que o Código admite
os meios legais e moralmente legítimos para se provar as afirmações das partes.
Para Marinoni, Arenhart e Mitidiero (2015), a interpretação do aludido
dispositivo legal autoriza a utilização dos meios de provas não especificados no
Código (meios legais) ou outros meios, ainda que não haja previsão expressa
alguma, mas estão de acordo com ordenamento jurídico (meios moralmente
legítimos). Essa concepção pode ser adequadamente compreendida através da
classificação entre provas típicas (as que estejam previstas em lei) e atípicas (as
provas moralmente legítimas).
A Constituição Federal, em seu art. 5º, LVI, inadmite a prova ilícita no direito
processual brasileiro. Entretanto, a doutrina e a jurisprudência dos tribunais su-
periores, diante da característica do caso concreto, estão admitindo a prova ilícita
como meio de prova, considerando que a restrição constitucional comporta exce-
ções. Os exemplos são vários.
Pensemos numa hipótese em que a única prova de uma dívida ou de um fato
é uma gravação clandestina realizada pelo autor. Não há nenhum outro meio de
prova sobre o fato. Como proceder em casos assim? Desconsiderar a prova ilícita e
julgar improcedente o pedido do autor ou admitir a prova, ainda que constituída
de forma ilícita, e julgar corretamente um conflito? Essa é a ponderação primor-
dial na utilização da prova ilícita. A principal questão posta nessa hipótese é como
obter mecanismos de controle adequados na admissão da prova ilícita.
A ilicitude da prova pode ocorrer tanto no âmbito do direito material como
no âmbito do direito processual. Pode ocorrer, portanto, no momento da cons-
tituição da prova ou no momento da produção da prova. Tal classificação não é
unânime, do ponto de vista doutrinário, mas é a que mais contribui para a com-
preensão do tema.

capítulo 4 • 76
Considera-se prova ilícita, no âmbito do direito material, quando a consti-
tuição da prova é realizada de forma ilícita. Por exemplo, uma gravação através
de celular de uma conversa entre credor e devedor ou mesmo quando o marido
grava a conversa de sua esposa com seu amante. A ilicitude está na constituição
da prova ao violar o direito fundamental ao sigilo na comunicação telefônica, no
segundo caso, e a própria intimidade, no primeiro. A utilização de gravação ilícita
num processo de divórcio, ainda que não seja admitida pelo juiz, pode ensejar a
quebra do sigilo telefônico do cônjuge para apuração do fato verificado na prova
constituída de forma ilícita.
O precedente judicial do Superior Tribunal de Justiça transcrito a seguir cons-
titui importante exemplo de como os tribunais atuam no controle da admissão da
prova ilícita:

DIREITO ADMINISTRATIVO. MONITORAMENTO DE E-MAIL CORPORATIVO DE


SERVIDOR PÚBLICO. As informações obtidas por monitoramento de e-mail corporativo
de servidor público não configuram prova ilícita quando atinentes a aspectos não
pessoais e de interesse da Administração Pública e da própria coletividade, sobretudo
quando exista, nas disposições normativas acerca do seu uso, expressa menção da sua
destinação somente para assuntos e matérias afetas ao serviço, bem como advertência
sobre monitoramento e acesso ao conteúdo das comunicações dos usuários para
cumprir disposições legais ou instruir procedimento administrativo. No que diz respeito à
quebra do sigilo das comunicações telemáticas, saliente-se que os dados são objeto de
proteção jurídica. A quebra do sigilo de dados telemáticos é vista como medida extrema,
pois restritiva de direitos consagrados no art. 5º, X e XII, da CF e nos arts. 11 e 21 do CC.
Não obstante, a intimidade e a privacidade das pessoas, protegidas no que diz respeito
aos dados já transmitidos, não constituem direitos absolutos, podendo sofrer restrições,
assim como quaisquer outros direitos fundamentais, os quais, embora formalmente
ilimitados – isto é, desprovidos de reserva –, podem ser restringidos caso isso se revele
imprescindível à garantia de outros direitos constitucionais. No caso, não há de se falar
em indevida violação de dados telemáticos, tendo em vista o uso de e-mail corporativo
para cometimento de ilícitos. A reserva da intimidade, no âmbito laboral, público ou
privado, limita-se às informações familiares, da vida privada, política, religiosa e sindical,
não servindo para acobertar ilícitos. Ressalte-se que, no âmbito do TST, a temática já
foi inúmeras vezes enfrentada (TST, RR 613/2000-013-10-0, DJe 10/6/2005). RMS
48.665-SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 15/9/2015, DJe 5/2/2016.

capítulo 4 • 77
SIGILO. CORRESPONDÊNCIA. VIOLABILIDADE. A Turma, por maioria, entendeu
que não é absoluto o princípio constitucional da inviolabilidade das comunicações. In
casu, a simples menção, no julgamento plenário, de cartas apreendidas que provaram
o relacionamento extraconjugal entre a paciente e o corréu, acusados do homicídio
da vítima (marido da paciente), não viola o sigilo de correspondência. Nos termos da
jurisprudência do STF, o interesse público, em situações excepcionais, como na hipótese,
pode se sobrepor aos direitos individuais a fim de evitar que os direitos e garantias
fundamentais sejam utilizados para resguardar conduta criminosa. Também já decidiu
a Suprema Corte que a cláusula tutelar da inviolabilidade do sigilo epistolar não pode
constituir instrumento de salvaguarda de práticas ilícitas. Além disso, a apreensão das
cartas é respaldada pelo art. 240, §1º, f, do CPP. Ademais, o juízo condenatório não estava
alicerçado somente nessa prova, obtida na fase inquisitorial, mas em amplo contexto
probatório colhido nas duas fases do procedimento, sendo incabível a pretensão de anular
o julgamento soberano realizado pelo Tribunal do Júri. Precedentes citados do STF: HC
70.814-SP, DJ 24/6/1994, e do STJ: HC 93.874-DF, DJe 2/8/2010. HC 203.371-RJ,
Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 3/5/2012.

A ilicitude da prova no âmbito processual corresponde à sua produção em


juízo. Quando uma testemunha é forçada a depor em juízo acerca de determinado
fato, a ilicitude não está na constituição da prova, mas sim na produção dessa
prova. A ilicitude na produção da prova viola regra do direito probatório e como
tal deve ser controlada pelo juiz no caso concreto.
Há uma importante diferença entre a ilicitude da prova no âmbito do direito
material e no âmbito do direito processual. Quando ocorre a ilicitude na consti-
tuição da prova, viola-se um direito fundamental assegurado constitucionalmente,
o que dificulta o seu saneamento. Já em relação à violação nas regras de direito
probatório, o juiz pode, partindo do princípio do livre convencimento, utilizar, a
partir da ponderação, a prova ilícita em conjunto com as demais provas dos autos.
Marinoni, Arenhart e Mitidiero (2015, p. 318) apresentam uma distinção apro-
priada para a compreensão do tema ao afirmarem que a prova produzida com viola-
ção de direito processual – ou melhor, que não constitui resultado do ilícito, mas sim
o resultado do procedimento em que ocorreu um ilícito – pode ser sanada somente
nas hipóteses em que a regra violada não é essencial à proteção de um direito funda-
mental processual, assim como os direitos ao contraditório e à defesa.
Já nas hipóteses em que ilicitude da prova decorre da violação de um direito
fundamental (direito material), o juiz, no processo civil, fará a ponderação entre

capítulo 4 • 78
o direito fundamental que se busca tutelar no processo e o direito fundamental
violado para aquisição da prova. Por exemplo, uma escuta telefônica adquirida de
forma ilícita mas que evidencia uma prática ilícita de um pai com um menor pode
ser fundamental para se definir quem ficará com a guarda do menor. Mesmo que
a prova tenha sido constituída de forma ilícita, será fundamental para se decidir
observando o melhor interesse do menor. A admissão da prova ilícita nesse caso
foi admitida após intensa ponderação do julgador.
É evidente que essa ponderação depende do bem jurídico tutelado. A pon-
deração acerca da prova ilícita no processo penal diverge, substancialmente, da
ponderação no processo civil. No processo civil, ainda que a descoberta da ver-
dade não seja justificativa da prova ilícita, diante da norma constitucional, nele
não se exclui a possibilidade de ponderação entre o direito afirmado pelo autor
e o direito violado pela prova ilícita. A ponderação aqui não é entre a descoberta
da verdade e o direito violado pela prova, mas sim entre o direito material que se
deseja tutela na forma jurisdicional e o direito material violado pela prova ilícita.
(MARINONI; ARENHART; MITIDIERO, 2015, p. 323)
Percebe-se, portanto, que a inadmissão da prova ilícita pela Constituição
Federal de 1988 comporta exceções que deverão ser apreciadas no caso concreto,
aplicando-se o princípio da ponderação.
A figura a seguir sintetiza o tema abordado neste item:

capítulo 4 • 79
ATIVIDADE
Elabore um texto apresentando os critérios utilizados pelo STF e pelo STJ para admitir a
prova ilícita no processo civil e no processo penal.

Ônus da prova

O ônus da prova corresponde à definição sobre quem deverá produzir provas


em juízo. Não constitui um dever, ou seja, uma conduta imperativa em relação a
terceiros, mas um ônus, que corresponde a uma conduta imperativa em relação a
si mesmo. Quem tem o ônus de produzir determinada prova e não o faz prejudica-
rá a si mesmo, podendo ter sua pretensão julgada improcedente, se for o autor, ou
procedente, se for o réu. Distribuir o ônus da prova, entretanto, significa definir,
em determinado processo, qual a parte que terá o encargo de produzir a prova.
O Código estabeleceu três regras específicas para a definição do ônus da prova,
ampliando consideravelmente o tratamento do tema em relação ao CPC/1973. A
distribuição estática do ônus da prova está definida no art. 373 do CPC. Diz-se
estática por ser a regra geral acerca do ônus da prova.
Segundo o referido dispositivo legal, incumbe ao autor o ônus de provar o
fato constitutivo de seu direito (art. 373, I) e ao réu provar a existência de fato
impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor (art. 373, II). Bem com-
preendida a regra, caberá ao autor provar o fato afirmado, na petição inicial, se
o réu apresentar sua defesa de mérito negando o fato constitutivo o direito do
autor. Se a parte autora alegar a existência de um determinado fato e o réu negar,
caberá ao autor o ônus de provar que o dano existiu. Se não provar, seu pedido
será julgado improcedente. A regra é correta, pois o réu não tem como provar que
um fato não ocorreu. Não se faz prova de fato negativo. Contudo, se o réu alegar
algum fato novo – por exemplo, que já efetuou o pagamento –, o ônus da prova
será transferido para o réu.
O juiz poderá distribuir o ônus da prova de forma dinâmica, diversa da regra
geral, nos casos previstos em lei; diante da impossibilidade ou excessiva dificulda-
de de se cumprir a distribuição dinâmica do ônus da prova; e nos casos em que
uma das partes tenha maior facilidade em sua produção.
Nesses casos, o juiz distribuirá o ônus da prova de acordo com a parte que
terá mais condições de fazê-lo. Importante destacar que o juiz distribuirá de forma

capítulo 4 • 80
dinâmica o ônus nos extamos termos do art. 373, §1º, do CPC. Essa regra, sem
precedentes no CPC/1973, foi amadurecida na jurisprudência4 e na doutrina em
razão das inúmeras dificuldades causadas pela distribuição estática do ônus da pro-
va. Em muitos casos, o autor, embora estivesse com razão, não conseguia ter seu
pedido julgado procedente em razão da total impossibilidade de produzir prova
e o réu, com condições de fazê-lo, era desobrigado, aproveitando-se da hipossufi-
ciência do autor.
Esse desiquilibro, inicialmente, foi superado pela inversão do ônus da prova
no Código de Defesa do Consumidor (art. 6º, VIII, do CDC). A inversão do ônus
da prova significa alterar a ordem na distribuição estática, resolvendo, portanto, a
questão em parte dos conflitos levados ao Poder Judiciário, excluindo os conflitos
que não decorrem da relação de consumo. Por sua vez, o CPC/2015 regulamen-
tou a distribuição dinâmica do ônus da prova, determinando que a prova seja
produzida pela parte que tenha melhores condições de fazê-lo.
A distribuição dinâmica do ônus da prova poderá ser determinada de ofício
pelo juiz, nos casos em que seja identificada impossibilidade ou excessiva difi-
culdade de se distribuir o ônus de forma estática, ou mediante requerimento da
parte. A decisão sobre a distribuição dinâmica deve ser devidamente fundamenta-
da de modo a permitir que a parte compreenda a motivação do julgador e tenha
4  PROCESSO CIVIL. AÇÃO MONITÓRIA. PROCEDIMENTO. ÔNUS DA PROVA. DISTRIBUIÇÃO. REGRA GERAL
DO ART. 333 DO CPC. INCIDÊNCIA. TEORIA DA DISTRIBUIÇÃO DINÂMICA DO ÔNUS DA PROVA. CABIMENTO.
1. O processo monitório divide-se em duas fases distintas – monitória e executiva – apartadas por um segundo processo,
os embargos, de natureza incidental e posto à disposição do réu para, querendo, impugnar as alegações do autor.
2. A fase monitória é de cognição sumária, sempre inaudita altera pars, cabendo ao juiz verificar a regularidade formal
da ação, a presença dos pressupostos para o regular desenvolvimento do processo e, sobretudo, a idoneidade do
documento apresentado como prova da existência do crédito.
3. Opostos os embargos pelo réu, inaugura-se um novo processo que, nos termos do art. 1.102-C, §2º, do CPC,
tramitará pelo rito ordinário, dotado de cognição plena e exauriente, com ampla dilação probatória. Assim, a cognição,
que em princípio é sumária, será dilatada mediante iniciativa do réu em opor embargos, permitindo que se forme um
juízo completo e definitivo sobre a existência ou não do direito do autor.
4. O processo monitório não encerra mudança na regra geral de distribuição do ônus da prova contida no art. 333 do
CPC. O fato de, na ação monitória, a defesa ser oferecida em processo autônomo, não induz a inversão do ônus da
prova, visto que essa inversão se dá apenas em relação à iniciativa do contraditório.
5. O documento que serve de base para a propositura da ação monitória gera apenas a presunção de existência
do débito, a partir de um juízo perfunctório próprio da primeira fase do processo monitório. Trazendo o réu-
embargante elementos suficientes para contrapor a plausibilidade das alegações que levaram à expedição do
mandado de pagamento, demonstrando a existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito invocado
na inicial, caberá ao autor-embargado superar os óbices criados, inclusive com a apresentação de documentação
complementar, se for o caso.
6. Apesar de seguir a regra geral de distribuição do ônus da prova, o processo monitório admite a incidência da teoria
da distribuição dinâmica do ônus da prova.
7. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido.

capítulo 4 • 81
condições de produzir a prova atendendo a distribuição realizada. O art. 373, §2º,
determina que o juiz, ao distribuir de forma dinâmica, não poderá colocar a parte
incumbida em situação de excessiva dificuldade sob o risco de violar os princípios
da ampla defesa e do devido processo legal.
Uma observação se faz necessária. O juiz não pode distribuir o ônus da
prova, nessa modalidade, sem garantir que a parte que ficará com a incum-
bência de produzir a prova tenha tempo razoável de fazê-lo (art. 373). Tal re-
gra é de extrema necessidade, pois já foram observados, na prática forense 5,
diversos casos em que o juiz invertia o ônus da prova ou distribuía de forma
dinâmica no momento de proferir sentença inviabilizando a que a parte de
desincumbir do ônus.
Caso a parte discorde da distribuição diversa do ônus da prova pelo juiz, pela
ausência dos requisitos, poderá interpor recurso de agravo de instrumento, no
prazo de 15 dias, nos termos do art. 1.015, XI, do CPC.
A terceira e última forma de distribuição dinâmica do ônus da prova é atra-
vés de negócio processual (art. 373, §3º). Trata-se de negócio processual típico.
O negócio processual acerca da distribuição dinâmica do ônus da prova pode
ser realizado antes mesmo da propositura da demanda ou no curso do processo
(art. 373, §4º). O Código, contudo, inadmite a realização do negócio nos casos
em que se trata de direito indisponível da parte (art. 373, §3º, I) e nos casos
que torne excessivamente difícil para uma das partes o exercício pleno do direito
(art. 373, §3º, II).

5  RECURSO ESPECIAL. CONSUMIDOR. RESPONSABILIDADE POR VÍCIO NO PRODUTO (ART. 18 DO


CDC). ÔNUS DA PROVA. INVERSÃO 'OPE JUDICIS' (ART. 6º, VIII, DO CDC). MOMENTO DA INVERSÃO.
PREFERENCIALMENTE NA FASE DE SANEAMENTO DO PROCESSO. A inversão do ônus da prova pode decorrer
da lei (ope legis), como na responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço (arts. 12 e 14 do CDC), ou por
determinação judicial (ope judicis), como no caso dos autos, versando acerca da responsabilidade por vício no
produto (art. 18 do CDC). Inteligência das regras dos arts. 12, § 3º, II, e 14, § 3º, I, e 6º, VIII, do CDC.
A distribuição do ônus da prova, além de constituir regra de julgamento dirigida ao juiz (aspecto objetivo), apresenta-
se também como norma de conduta para as partes, pautando, conforme o ônus atribuído a cada uma delas, o
seu comportamento processual (aspecto subjetivo). Doutrina. Se o modo como distribuído o ônus da prova influi
no comportamento processual das partes (aspecto subjetivo), não pode a inversão ope judicis ocorrer quando do
julgamento da causa pelo juiz (sentença) ou pelo tribunal (acórdão). Previsão nesse sentido do art. 262, §1º, do
Projeto de Código de Processo Civil. A inversão 'ope judicis' do ônus probatório deve ocorrer preferencialmente
na fase de saneamento do processo ou, pelo menos, assegurando-se à parte a quem não incumbia inicialmente o
encargo, a reabertura de oportunidade para apresentação de provas. Divergência jurisprudencial entre a Terceira
e a Quarta Turma desta Corte. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. (REsp 802832/MG, RECURSO ESPECIAL
2005/0203865-3).

capítulo 4 • 82
O tema da distribuição do ônus da prova recebeu tratamento amplo no
CPC/2015, tornando mais efetiva a atividade probatória no processo civil.

Produção antecipada de prova

No CPC/1973, a produção antecipada de provas estava inserida no rol das ações


cautelares típicas. Por sua vez, o CPC/2015 tratou da medida na Parte Especial,
Livro I, dedicado ao procedimento comum, o que nos parece mais adequado.
A produção antecipada de prova, em verdade, consiste num procedimento
prévio através do qual a parte produzirá determinada prova, antes mesmo da pro-
positura da ação, nos casos previstos em lei. Há casos em que a espera do momen-
to processual adequado pode inviabilizar a produção de determinada prova em
razão do decurso do tempo.
Para se apurar a causa de um acidente, em muitos casos, se faz necessária a co-
lheita de prova imediatamente após o acidente; caso contrário, não haverá mais a
possibilidade de apurar de forma precisa as possíveis causas do acidente. Também
se faz urgente colher antecipadamente o depoimento de uma testemunha, algo
fundamental para a solução de determinado conflito, que se encontra em estado
terminal em um hospital. A principal característica dessas situações é a necessidade
de se produzir provas antes mesmo do ajuizamento da demanda.

capítulo 4 • 83
O art. 381 do CPC cuida de três hipóteses de produção antecipada de provas.
Nos casos em que: a) haja fundado receio de que venha a tornar-se impossível ou
muito difícil a verificação de certos fatos na pendência da ação (art. 381, I); b) a
prova a ser produzida seja suscetível de viabilizar a autocomposição ou outro meio
adequado de solução de conflito (art. 381, II); ou c) o prévio conhecimento dos
fatos possa justificar ou evitar o ajuizamento da ação (art. 381, III). Passemos,
pois, à análise dessas hipóteses.
A primeira hipótese foi mencionada nos exemplos anteriores. Será realizada a
produção antecipada de provas sempre que haja receio objetivo acerca da perda da
prova em razão do tempo. O requerimento de produção antecipada de prova para
se apurar a extensão de um dano ambiental causado pela atividade industrial pode
servir como um bom exemplo. O principal fundamento será o risco de perda da
prova em razão do tempo.
Em alguns casos, como ocorre na segunda hipótese, a produção antecipada de
provas não tem urgência em sua colheita, mas pode estimular a autocomposição
de conflito. É o que ocorre em muitos casos a partir do termo de ajustamento de
conduta levado a efeito no inquérito civil na ação civil pública (art. 8º, §1º, da Lei
nº 7.347/1985). O próprio fato de se verificar, através de produção antecipada de
prova, possível responsabilidade por danos sofridos pode viabilizar a autocompo-
sição de conflito, pois a parte causadora terá consciência de que não terá êxito em
uma provável ação judicial.
Há, também, casos em que a produção antecipada de provas tem a finalidade
de até mesmo evitar a propositura de uma demanda ou justificá-la. Nessa hipótese,
também não há urgência no requerimento da medida. É o que ocorre na hipótese do
art. 381, III, do CPC. Essa hipótese ocorre quando há dúvida acerca de determina-
do procedimento médico, que acarretou a piora no estado de saúde do paciente. A
produção antecipada da exibição do prontuário (médico) pode confirmar a intuição
do paciente e justificar o ajuizamento da demanda ou mesmo demonstrar que não
houve erro médico algum e, dessa forma, evitar a propositura da demanda.
Compreendidas as circunstâncias em que se admite a produção antecipada de
provas, passemos aos aspectos procedimentais da medida.
O juízo competente para processar o procedimento, em regra, será o juízo
onde a prova deva ser produzida ou domicílio do réu (art. 381, §2º). A finalidade
da norma é garantir que o procedimento seja realizado no juízo que tenha mais
condições de realizar melhor a atividade probatória antecipada.

capítulo 4 • 84
Evidentemente, considerando a excepcionalidade da medida, o Código
relativizou as regras de fixação da competência territorial. Assim, o juízo em
que a produção antecipada de provas foi realizada não ficará prevento para o
julgamento da ação que venha a ser proposta. É o caso da produção de provas
realizado em um município, por ser mais próximo do acidente ocorrido, e a
ação tiver de ser distribuída em outro município em razão das regras de fixação
de competência.
O mesmo ocorre nos casos em que a competência seja da Justiça Federal e na
localidade não tenha sede desse ramo da Justiça. Assim, a produção antecipada de
prova será requerida no juízo estadual. Colhida a prova, a ação será ajuizada regu-
larmente na Justiça Federal. A preocupação principal do legislador foi assegurar a
produção tempestiva da prova.
O procedimento terá início por meio de petição do requerente através da qual
demonstrará a existência dos requisitos fundantes para tal pretensão, destacan-
do, de forma clara, quais são os fatos que pretende provar com o procedimento
da produção antecipada de provas. O requerente poderá formular requerimento
acerca de qualquer modalidade de prova admitida em direito (art. 382, §3º), po-
dendo, entretanto, produzir mais de uma modalidade de prova, desde que, evi-
dentemente, não cause excessiva demora ou seja desnecessária.
Iniciado o procedimento, o juiz, de ofício ou por requerimento, determi-
nará a citação do requerido para se manifestar sobre o fundamento da pro-
dução antecipada de prova (art. 382, §1º). Caso o procedimento não seja
contencioso, o juiz dispensará a citação do requerido. Importante ressaltar que
a atividade judicial se limita à produção da prova requerida, não se admitindo
manifestação do juízo acerca da ocorrência ou não do fato que se pretende
provar (art. 382, §2º).
Considerando o caráter instrutório do procedimento, sem provimento juris-
dicional decisório, o Código não admite interposição de qualquer recurso contra
as decisões nele proferidas. É cabível recurso somente em uma hipótese: nos casos
em que o procedimento é indeferido integralmente (art. 382, §4º).
Por fim, finalizada a atividade probatória antecipadamente, os autos do pro-
cedimento ficarão à disposição da parte requerente pelo prazo de um ano para
extração de cópias ou certidões (art. 383). Finalizado o referido prazo, os autos
serão entregues ao requerente da medida.

capítulo 4 • 85
Provas em espécie

O Código trata, de forma especificada, de algumas espécies de provas. São de-


nominadas provas típicas. Como vimos aqui, o rol não é exaustivo, considerando
que são admitidas, também, as provas moralmente legítimas e os meios de prova
dispostos em outros ordenamentos jurídicos, como o Código Civil. No entanto, o
Código optou por regular de forma ampla alguns meios de provas.
Uma observação se faz importante. Não há nenhuma gradação entre as provas
em espécie. O juiz poderá valer-se de qualquer meio típico de prova, desde que
seja suficiente para formar seu convencimento acerca da existência ou não do fato
afirmado em juízo. Passemos então ao estudo das provas em espécie.

Ata notarial

A ata notarial foi incluída, de forma inédita, no rol das provas típicas no
CPC/2015. Não havia regra similar no CPC/1973. Esse meio de prova possui
grande importância na vida contemporânea, marcada pela velocidade das infor-
mações virtuais e pela dimensão das redes sociais. Através da ata notarial (art.
384), a existência de um fato, ou seu modo de existir, pode ser atestada por um
tabelião, que possui fé pública.
Muitos casos há em que o registro de determinado fato se torna excessiva-
mente difícil ou impossível pela rapidez com que se desfaz. Imagine a hipótese em
que determinado cidadão é agredido em um perfil nas redes sociais ou mesmo em
um áudio ríspido enviado por WhatsApp. Considerando que tal fato pode ser ex-
cluído das redes sociais ou mesmo corrompido, no caso do áudio, a sua existência
poderá ser atestada pelo tabelião, transformando-o em prova documental. Assim,
a ata preservará a documentação sobre a existência de determinado fato mesmo
após sua exclusão das redes sociais. A ata notarial poderá ser utilizada também para
atestar a existência de imagens ou sons.
Bueno (2017) menciona um exemplo interessante ao abordar o tema: uma
propagando enganosa que circula no mundo virtual também poderá ser registrada
através da ata, impedindo que a exclusão da propagando pelo fornecedor de servi-
ços e produtos impeça o consumidor de ajuizar a respectiva demanda.
Importante ressaltar que o tabelião não atestará na ata notarial se determinado
fato é verdadeiro ou falso. Na ata, o tabelião tão somente atestará a existência de

capítulo 4 • 86
um fato ou seu modo de existir transformando-o em prova documental. A valora-
ção de tal prova será realizada pelo juiz na fase instrutória.

Depoimento pessoal

O depoimento pessoal constitui espécie de prova oral a ser produzida em


juízo. Consiste no depoimento de uma parte requerido pela parte contrária6. O
depoimento será, em regra, realizado na audiência de instrução e julgamento. A
principal finalidade do depoimento pessoal é obter esclarecimento sobre fatos
da causa ou mesmo a confissão do depoente. Antes de abordar em detalhes o
depoimento pessoal, é preciso apontar as diferenças entre tal espécie de prova e
o interrogatório.
O interrogatório (art. 139, VIII) ocorrerá sempre que o juiz, a qualquer tem-
po, determinar o comparecimento da parte para inquirir sobre fatos da causa.
Percebe-se, portanto, que se trata de medida cujo escopo principal é propiciar ao
juiz mais informações sobre os fatos debatidos. O depoimento pessoal, por sua
vez, depende de requerimento prévio da parte, é colhido em audiência e constitui
uma espécie de prova através da qual uma parte busca a confissão da outra.
Outra diferença importante diz respeito às consequências processuais. No
interrogatório, não incidirá a pena de confesso. No depoimento pessoal, ao
contrário, incidirá a pena de confesso caso o depoente não compareça à au-
diência de instrução e julgamento ou compareça e se recuse a responder quais-
quer perguntas formuladas.

Produção do depoimento pessoal

A produção do depoimento pessoal é simples. A parte deverá ser intimada


a prestar depoimento pessoal em audiência de instrução e julgamento desig-
nada pelo juízo (art. 385, §1º). Entretanto, a pena de confesso em razão da
ausência da parte intimada somente incidirá se o ato de comunicação tiver
sido realizado pessoalmente e com advertência expressa sobre as consequências
da ausência da parte intimada. Se essa formalidade exigida pela lei não for
devidamente cumprida, a interpretação, contrario sensu, da regra mencionada

6  O depoimento pessoal também poderá ser ordenado de ofício pelo juiz, conforme dispõe o art. 385 do CPC.

capítulo 4 • 87
sugere que o juiz, na ausência da parte sem a respectiva intimação pessoal, não
poderá aplicar a pena de confesso7.
Se o depoente residir em comarca ou subseção judiciária distante do juízo
onde tramita o processo, poderá o depoimento pessoal ser colhido através de
videoconferência ou qualquer outro meio tecnológico. A colheita do depoi-
mento nessas hipóteses será em tempo real, no dia da audiência de instrução
designada ou em outra data agendada previamente, conforme se depreende da
regra do art. 385, §3º, do CPC.
Iniciada a audiência de instrução e julgamento, e se não houver escla-
recimento do perito a ser prestado, o juiz colherá o depoimento pessoal do
autor e depois do réu, caso o requerimento dessa espécie de provas tiver sido
formulado por ambos (art. 361, II). O juiz poderá, antes mesmo dos advoga-
dos, formular perguntas às partes sobre os fatos controversos. Em seguida, o
advogado do réu formulará perguntas ao autor e, ao fim, o advogado do autor
formulará perguntas ao réu. Há três observações importantes sobre a dinâmica
da colheita do depoimento pessoal.
Conforme dispõe art. 385, §2º, do CPC, é vedado à parte que ainda não
depôs ouvir o depoimento da outra. Trata-se, evidentemente, de dispositivo
que tem como escopo assegurar a boa-fé e a lisura na colheita dos depoimentos.
7  O precedente judicial a seguir do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro reforça a interpretação do
referido artigo:
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE COBRANÇA. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO. NÃO
COMPARECIMENTO DA PARTE RÉ. PENA DE CONFESSO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO. SENTENÇA DE
PROCEDÊNCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE. A controvérsia cinge-se em averiguar se ocorreu ou
não cerceamento de defesa decorrente de falta de intimação pessoal da parte ré para prestar depoimento em
audiência de instrução e julgamento, bem como falta de intimação de seu patrono e das testemunhas arroladas pela
mesma. Compulsando os autos, verifica-se no despacho saneador contido à fls. 125 que, no despacho saneador,
o juízo determinou a data de audiência de instrução e julgamento. Contudo, a publicação do referido despacho no
D.O. saiu sem conter o nome do patrono da parte ré, conforme certidão contida à fls. 143. Não obstante, a apelante
deixou de ser intimada pessoalmente da referida audiência, tendo em a declaração do oficial de Justiça (fl. 130
verso) que certificou a mudança de endereço da mesma, motivo que levou o r. Juízo de primeiro grau a aplicar a
pena de confissão na audiência de instrução e julgamento. Nesse ponto, a recorrente logrou êxito em comprovar
à fls. 147 que ainda residia no endereço indicado da intimação. Dessa forma, tem-se que nem o advogado da
apelante foi intimado do despacho de fls. 125 por Diário Oficial, [...] tampouco ocorreu a intimação pessoal da ré
para prestar depoimento sob pena de confesso, conforme determina a legislação vigente. No caso em tela, entendo
que não foi observado o devido processo legal não tendo nem o advogado, nem a apelante sido intimados na forma
dos artigos 234 e 385, §1º, do CPC, devendo ser anulada a sentença, a fim de que seja dado prosseguimento
ao feito com devida instrução processual. - Ademais, verifica-se também a ocorrência de cerceamento de defesa
em relação a não intimação das testemunhas devidamente arroladas pela parte ré, conforme se extrai à fl.125.
Assim, considerando-se a ausência de intimação pessoal da parte ré e das testemunhas, bem como os princípios
da primazia da resolução do mérito e da cooperação, expressamente contidos no novo CPC (arts. 6º e 317), tem-
se que o apelo merece acolhimento. RECURSO AO QUAL SE DÁ PROVIMENTO PARA ANULAR A SENTENÇA
DE PISO. (0021370-75.2013.8.19.0066 – APELAÇÃO – Des(a). FLÁVIA ROMANO DE REZENDE – Julgamento:
15/03/2017 – DÉCIMA SÉTIMA CÂMARA CÍVEL – TJRJ).

capítulo 4 • 88
No entanto, deverá o juiz flexibilizar a regra nos casos em que verificar que em
um dos polos da demanda exista advogado em causa própria. Por exemplo, se
o autor propuser ação indenizatória em face do réu, advogando em causa pró-
pria, e ambos prestarem depoimento pessoal, o juiz deverá alterar a ordem dos
depoimentos. Se assim não proceder, violará o princípio da ampla defesa, uma
vez que determinará que o réu se ausente da sala para não ouvir o depoimento
pessoal do autor, mas a atuação do réu como advogado em causa própria ficará
prejudicada. Nesse caso, deverá o juiz colher, primeiro, o depoimento do réu
e depois o do autor (Cf. CÂMARA, 2013).
A segunda observação concerne à postura evasiva do depoente. Se o depoente,
sem motivo justificado, deixar de responder o que foi perguntado ou agir com eva-
sivas, o juiz poderá declarar na sentença que houve recusa de depor e a consequen-
te pena de confesso (art. 386). Para tanto, o juiz deve considerar as circunstâncias
da causa e o acervo probatório produzido nos autos. A regra é importante, pois
casos há em que a parte não se recusa a depor, para evitar a pena de confesso (art.
385, §1º, do CPC), mas se utiliza de evasivas para evitar o depoimento. Nessas
circunstâncias, o juiz que colheu o depoimento poderá reconhecer como recusa
a postura evasiva da parte. Nada impede, entretanto, que os advogados também
pleiteiem a aplicação da regra do art. 386 do CPC.
Para evitar que o nervosismo inviabilize o depoimento pessoal, o art. 387
autoriza o depoente a consultar notas breves com o objetivo de complementar os
esclarecimentos prestados. Mas a consulta a escritos preparados anteriormente é
expressamente vedada pelo mesmo dispositivo legal, considerando que as pergun-
tas devem ser respondidas pessoalmente pelo depoente, sem o auxílio de consultas
a textos elaborados ou arrazoados.
Por fim, a terceira observação diz respeito à possibilidade de o depoente exer-
cer seu direito ao silêncio (art. 388). As partes não estão obrigadas a depor sobre:
a) fatos criminosos ou torpes que lhe foram imputados; b) pessoas a quem se deve
guardar sigilo em razão do estado ou profissão; c) fatos acerca dos quais não possa
responder sem desonra própria e de sua família e d) fatos que coloquem em risco
a vida do depoente e de sua família.
Nesse caso, a parte deverá, através de petição ou oralmente, no dia da audiên-
cia, informar que exercerá seu direito ao silêncio (Cf. DIDIER JR., 2015) nos
termos do art. 388 do CPC.

capítulo 4 • 89
Confissão

A confissão é o meio de prova através da qual a parte admite a verdade do fato


alegado pela parte contrária (art. 389). Efetivada a confissão, o juiz poderá julgar
antecipadamente o mérito (art. 355, II) ou mesmo julgar antecipadamente de
forma parcial o mérito (art. 356, I), considerando que o fato afirmado em juízo
por uma parte foi confessado por outra.
Entretanto, se faz necessário distinguir confissão de reconhecimento do pedido.
O réu admite o fato e reconhece o pedido formulado pelo autor. Há concordância
com as consequências jurídicas apresentadas pelo autor. Por exemplo, reconhece que
há o dever de indenizar no montante fixado pelo autor. Já a confissão, por sua vez, é a
admissão acerca da ocorrência de um fato e não de suas consequências jurídicas.
É possível que o réu confesse sobre a existência de um acidente, mas não admite
o dever de reparar os danos decorrentes do acidente. A distinção não é meramente
acadêmica, conforme se verifica na regra do art. 90 do CPC, que dispõe que o réu
deve arcar com as despesas e os honorários advocatícios nos casos de reconhecimento
do pedido. Feita essa distinção preliminar, passemos ao estudo da confissão.
Em primeiro lugar, é importante explicitar que nem todos os fatos admitem
confissão. O art. 392 do Código não admite a confissão sobre direitos indisponí-
veis. Nesses casos, embora a parte confesse a existência de determinado fato, a con-
fissão não incidirá e, portanto, não irradiará seus efeitos (presunção de veracidade
dos fatos alegados). Podemos citar como exemplo os casos que tratam de interesses
da Fazenda Pública, direito à saúde, à dignidade da pessoa humana, entre outros.
A confissão pode ser judicial ou extrajudicial (art. 389). A confissão extrajudi-
cial poderá ser escrita ou oral. A confissão, quando feita oralmente, somente terá
efeito nos casos em que a lei não exija prova literal. Um e-mail enviado admitin-
do a existência de um dado fato constitui, por exemplo, confissão extrajudicial.
Poderá também ser admitida como confissão uma gravação ou um áudio em que
a parte ré admite a existência de um fato, podendo a parte promover o registro em
ata notarial ou mesmo juntar a respectiva gravação nos autos do processo.
Além da confissão extrajudicial, o Código dispõe sobre a confissão judicial,
que poderá ser espontânea ou provocada. A confissão espontânea ocorre quando
o réu não impugna especificadamente os fatos articulados pelo autor (art. 341)
ou quando os admite expressamente nos autos. Por sua vez, a confissão provocada
decorre do depoimento pessoal, prestado em audiência de instrução e julgamento,
e será documentada no respectivo termo.

capítulo 4 • 90
Algumas observações se fazem necessárias acerca da confissão judicial. A con-
fissão é ato unilateral e, como tal, não poderá afetar outros litisconsortes. Se o
autor promove ação reivindicatória em face de três réus e um deles confessa em
juízo, essa confissão não prejudicará os demais réus, que deverão atuar em juízo
para negar o fato constitutivo do direito do autor (art. 391).
Por sua vez, se o objeto da demanda versar sobre bens imóveis ou direitos reais
sobre imóveis alheios, a confissão de um cônjuge ou mesmo companheiro so-
mente terá validade se a do outro for levado a efeito também no mesmo processo.
Assim, a confissão judicial, nessa hipótese, somente terá validade se for realizada
pelo casal. O Código admite uma exceção: se o regime de casamento for da sepa-
ração absoluta de bens, a confissão será independente (art. 391, § único).
Na regra geral, a confissão é indivisível. A parte que utilizar a confissão como
prova não poderá aceitar a parte que lhe favorece e desconsiderar a que lhe for
desfavorável. Entretanto, se o confitente agregar à confissão fatos novos, poderá
dividi-la para que utilize como fundamento da defesa ou da reconvenção. Um
exemplo pode ajudar a entender melhor essa hipótese. Suponha que um devedor
confesse a existência de duas dívidas distintas, mas destaque que uma delas já foi
paga parcialmente. A confissão poderá ser dividida e a parte referente ao pagamen-
to utilizada como fundamento da reconvenção.
A confissão, por fim, é irrevogável. No entanto, há casos em que se realiza com
erro de fato ou até mesmo através de coação. Contudo, considerando a extensão da
atividade judicial para se reconhecer a anulabilidade da confissão, a parte que tiver
interesse em anular o ato unilateral deverá promover ação própria para tanto, que
será distribuído por dependência no juízo onde tal meio de prova foi utilizado.
A figura a seguir sintetiza o conteúdo deste item:

capítulo 4 • 91
Exibição de documento ou coisa

A exibição de documentos será cabível sempre que a prova documental essen-


cial para a solução do conflito estiver em poder da parte contrária ou de terceiros
dificultando sua produção pela parte contrária.
Alguns exemplos nos auxiliarão na melhor compreensão do tema. Imaginemos
que os condôminos de um dado condomínio ajuizaram ação de prestação de con-
tas, mas toda a documentação referente às contas encontra-se em poder do ex-sín-
dico. O mesmo ocorre nos casos em que, para se provar a existência de erro no
procedimento médico, se faz necessária a apresentação do prontuário médico pelo
hospital responsável pela cirurgia. Pensemos ainda no caso em que o consumidor
pretende provar que solicitou o cancelamento tempestivo de determinado serviço,
para obter o cancelamento da multa e cobrança indevida, mas a gravação do aten-
dimento encontra-se em poder do prestador de serviços.
Em todos esses casos, os documentos essenciais para o deslinde da causa estão
em poder da parte contrária ou de terceiros. Para possibilitar o ingresso do do-
cumento nos autos, o Código regulou procedimento próprio para a exibição de
documentos no art. 396.
A exibição de documentos não se confunde com a produção antecipada de
provas (art. 381) pelo menos em dois aspectos. O primeiro corresponde à extensão
da produção antecipada de provas. Qualquer meio de prova (documental, teste-
munhal, pericial etc.) poderá ser produzido antecipadamente. Diferentemente, a
exibição de documentos se limita a documento ou à coisa. O segundo aspecto que
diferencia a exibição da produção antecipada de provas diz respeito ao momento
de sua produção. A produção antecipada de provas é sempre prévia, antes mesmo
do ajuizamento da demanda. Entretanto, poderá, inclusive, evitar o ajuizamento,
nos casos de autocomposição ou quando a prova produzida não justificar o ajui-
zamento. A exibição constitui incidente processual8 que ocorrerá, em regra, na
pendência de uma demanda judicial.

Procedimento da exibição de documento ou coisa

O procedimento para exibição de documento será instaurado median-


te requerimento da parte interessada9, que deverá conter, necessariamente: a) a

8  No regime do CPC/1973, a exibição de documentos era regulada no livro das ações cautelares e era disciplinada como uma
ação cautela típica. O CPC/2015 incluiu a exibição de documentos como um meio de prova, que parece ser o mais adequado.
9  Para Bueno (2017, p. 383), a exibição também pode ser determinada de ofício pelo juiz nas hipóteses do art. 420 do CPC.

capítulo 4 • 92
individuação do documento ou coisa, da forma mais completa possível (art. 387,
I); b) a finalidade da prova, indicando os fatos que se relacionam com ela (art.
387, II); e c) as circunstâncias em que se funda o requerente para afirmar que o
documento ou coisa existe e se acha em poder da parte contrária (art. 397, III). Se
o requerente não demonstrar a existência dos pressupostos para a exibição, o juiz
indeferirá a medida através de decisão interlocutória, que poderá ser impugnada
por recurso de agravo de instrumento, nos termos do art. 1.015, VI, do CPC10.
Admitida a exibição, o juiz intimará a parte contrária para responder no prazo
de cinco dias (art. 398). O requerido, após a intimação, poder ter, pelo menos,
três atitudes: a) exibir o documento ou coisa; b) dizer que nunca teve acesso ao
documento ou coisa; e c) se recursar a exibir ou permanecer inerte.
Se o requerido exibir o documento ou coisa, o processo terá seu trâmite nor-
mal. Ocorrendo a segunda hipótese, ou seja, o requerido responder alegando que
não tem o documento, o juiz permitirá que o requerente demonstre que tal alega-
ção não é verdadeira (art. 398, § único). Já se o requerido não exibir o documento,
e não apresentar nenhuma justificativa para tanto, ou se recusar de forma ilegítima
a exibir o documento, o juiz admitirá como verdadeiros os fatos a serem provados
a partir de documento ou coisas (art. 400). O juiz, de ofício ou a requerimento,
poderá, nesses casos, dependendo da hipótese, determinar medidas coercitivas,
mandamentais ou sub-rogatórias para que o documento seja exibido.
O requerido pode se recusar a exibir o documento ou a coisa nas hipóteses
do art. 404 do CPC. A recusa será, então, considerada legítima e não acarretará
presunção de veracidade do fato que seria provado pelo documento ou coisa.

10  O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro reforça esse entendimento em seus precedentes judiciais,
como no julgado a seguir:
AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C INDENIZATÓRIA. ALEGAÇÃO AUTORAL DE SAQUES INDEVIDOS
EM SUA CONTA, MEDIANTE UTILIZAÇÃO NÃO AUTORIZADA DE SEU CARTÃO. DECISÃO QUE INDEFERIU
A EXIBIÇÃO FILMAGENS DO CIRCUITO INTERNO DE CÂMERAS DA AGÊNCIA. INDEFERIMENTO. AGRAVO
DE INSTRUMENTO. 1. Recurso interposto sob a égide do Novo Código de Processo Civil, devendo a análise de
sua admissibilidade ocorrer à luz do novo diploma processual. 2. Decisão atacável por agravo de instrumento nos
termos do VI do artigo 1.015 do novo CPC, que dispõe: "Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões
interlocutórias que versarem sobre: [...] VI - Exibição ou posse de documento ou coisa [...]” 3. Decisão de indeferimento
fundamentada na ausência de controvérsia de fato, considerando que o réu, ora agravado, sequer refutou a alegação
da agravante de que seu cartão foi utilizado por terceiro, limitando-se a alegar a utilização do cartão de forma
equivocada. 4. Aplicação do Verbete Sumular 156 desta Corte: “A decisão que defere ou indefere a produção
de determinada prova só será reformada se teratológica”. 5. Recurso desprovido (0054786-33.2016.8.19.0000
- AGRAVO DE INSTRUMENTO – Des(a). MARIANNA FUX – Julgamento: 05/04/2017 - VIGÉSIMA QUINTA
CÂMARA CÍVEL CONSUMIDOR).
Afasta-se, nesse caso, o verbete da Súmula nº 372 do STJ, que veda a fixação de multa cominatória no procedimento
da exibição de documentos.

capítulo 4 • 93
A exibição de documento ou coisa poderá ser instaurada em face de terceiros. Se o
documento ou coisa estiver em poder de terceiro este será citado para responder no prazo
de 15 dias. O terceiro, efetivada a citação, poderá: a) exibir o documento ou coisa; b)
negar a obrigação de exibir documento ou coisa; c) recursar, sem justo motivo, a exibição.
Exibindo o documento ou coisa, o procedimento será encerrado e o processo
avançará para a fase decisória. Se ocorrer a segunda situação – o terceiro negar a
obrigação de exibir –, o juiz designará uma audiência especial para colher o de-
poimento do terceiro para, na sequência, decidir acerca do dever de exibir docu-
mentos (art. 402). Se o terceiro se negar a exibir sem justificativa, o juiz ordenará
que proceda o depósito em juízo ou em qualquer outro lugar designado, no prazo
de cinco dias, devendo o requerente arcar com as respectivas despesas (art. 403).
Contudo, se intimado para efetuar o depósito e não o fizer, o juiz expedirá
mandado de busca e apreensão, inclusive com auxílio de força policial, se for o
caso, sem prejuízo da responsabilidade penal pelo crime de desobediência, paga-
mento de multas11 ou outras medidas coercitivas fixadas previamente pelo juiz.
Por fim, o terceiro também poderá se recusar a exibir o documento ou coisa
em razão da escusa legal disposta no art. 404 do CPC.
Passemos agora à visualização das espécies de exibição de documentos:

11 Afasta-se, nesse caso, o verbete da Súmula nº 372 do STJ, que veda a fixação de multa cominatória no
procedimento da exibição de documentos.

capítulo 4 • 94
Prova documental

O direito processual civil admite um conceito amplo de documento como


meio de prova. Documento, entretanto, é qualquer material que contenha re-
gistro de um fato. Pode ser uma escritura, uma carta, uma pintura, um registro
em uma pedra, enfim, não se limita ao registro em determinado papel. Por esse
motivo, o Código procurou dar tratamento exaustivo à matéria, considerando
sua dimensão e extensão.
A força probante da prova documental se reveste de importante diversidade
teórica e prática, considerando o potencial probatório de tal meio de prova. Em
sede doutrinária, a força probante da prova documental comporta pelo menos
três classificações, conforme abordagem de Bueno (2017, p. 384), para quem a
força probante do documento pode ser classificada em a) público e particular;
b) autêntico e não autêntico; e c) autoria material e intelectual.
Em relação à produção do documento, poderá ser público ou particular. É
considerado documento público aquele lavrado por tabelião ou outro servidor
com fé pública, que fará prova de sua formação, mas também dos fatos que o ta-
belião ou servidor declarar que ocorreram em sua presença (art. 405). Assim, uma
declaração extrajudicial de união estável lavrada em cartório é considerada docu-
mento público. A escritura pública sobre a propriedade de um imóvel também se
constitui como um documento público nos termos do CPC/2015.
O documento público pode ser utilizado em conjunto com outras provas do-
cumentais. Entretanto, se a lei exigir instrumento público como prova da substân-
cia do ato, nenhuma outra prova pode suprir essa falta (art. 406). É o que ocorre
em alguns casos em que se discute em ação reivindicatória a propriedade de um
imóvel. Como foi dito aqui anteriormente, o documento público tem fé pública
que cessará se a falsidade for declarada judicialmente (art. 427).
O documento particular, por sua vez, é aquele produzido por uma das
partes ou por ambas, e que atesta a existência de determinado ato ou fato
jurídico. Em conformidade com o art. 408 do CPC, as declarações constantes
em documento particular somente presumem-se como verdadeiras em relação
ao signatário da mesma.
Assim, se uma pessoa faz um documento particular declarando a existência de
um fato, tal declaração somente terá efeito de presunção em relação ao declarante,
não alcançando a parte contrária em uma demanda judicial. Serão também consi-
derados documentos particulares aqueles elencados no art. 413 do CPC. A fé do

capítulo 4 • 95
documento particular cessará se a parte contrária impugnar sua autenticidade ou
conteúdo (art. 428).
Outra classificação em relação à força probante do documento concerne à sua
autenticidade. Documento autêntico é aquele que se identifica com clareza quem
o confeccionou. É considerado autêntico, por exemplo, o documento no qual o
tabelião reconhece a firma do signatário (art. 411, I). Por sua vez, a foto com a
respectiva assinatura do fotógrafo ou mesmo o conteúdo de um e-mail, com a
identificação de quem o enviou, configura-se como documento autêntico para
fins probatórios.
O documento não autêntico é aquele que não se pode identificar quem o pro-
duziu. Consideram-se prova não autênticas as fotografias digitais e as extraídas da
rede mundial de computadores, nos termos do art. 422, §1º, do CPC.
A última classificação em relação à força probante dos documentos considera a
distinção entre autoria material e autoria intelectual. Reputa-se autoria material
quando há identidade entre quem confeccionou materialmente o documento e
o autor do conteúdo do mesmo. O art. 410, I, do CPC evidencia de forma con-
tundente essa classificação, pois dispõe que será considerado autor do documento
quem o fez e o assinou. Ao contrário, na prova intelectual, há dissonância entre
quem confeccionou a prova e quem produziu seu conteúdo. Um exemplo que nos
ajuda a pensar é a entrevista numa rádio publicada em uma revista onde o entre-
vistado formula uma declaração em relação a terceiros. O entrevistado é o autor
do conteúdo, mas não confeccionou o documento.
A classificação acerca da força probante dos documentos nos auxilia a or-
ganizar, de forma sistematizada, a diversidade da prova documental disposta
no CPC/2015.

Produção da prova documental

A prova documental, em regra, é produzida na petição inicial pelo autor e na


contestação pelo autor (art. 434). O réu se manifestará sobre os documentos pro-
duzidos pelo autor na contestação e o autor se manifestará sobre os documentos
produzidos pelo réu na réplica (art. 437).
As partes poderão juntar documentos em outras fases do processo, em ho-
menagem ao princípio da ampla defesa e do devido processo legal (art. 435).
Ocorrendo essa hipótese, o juiz deverá assegurar o contraditório, intimando a
parte contrária para se manifestar no prazo de 15 dias, nos termos do art. 437,

capítulo 4 • 96
§1º, do CPC. O referido prazo poderá ser dilatado nos casos em que a parte junte
um número excessivo de documentos – 200 folhas, por exemplo – e com certa
complexidade (art. 437, §2º).
Realizada a juntada de documentos, na fase postulatória ou em qualquer outra
fase, o juiz intimará a parte contrária a se manifestar sobre os mesmos. A parte
poderá, entretanto: a) impugnar a admissibilidade da prova documental (art. 436,
I); b) impugnar sua autenticidade (art. 436, II); suscitar sua falsidade, com ou
sem deflagração do incidente de falsidade (art. 436, III); e, ainda, d) manifestar-se
sobre seu conteúdo (art. 436, IV). Tal regra visa a garantir aos litigantes o exercício
da ampla defesa e do contraditório em relação à prova documental produzida ao
longo da instrução processual.
Dependendo do caso, o juiz, de ofício ou a requerimento, poderá solicitar, às
repartições públicas, documentos necessários à adequada instrução da causa (art.
438). O Código elenca um rol exemplificativo dos documentos que poderão ser
requisitados, de ofício pelo juiz, às repartições públicas. Poderá, portanto, reque-
rer, em qualquer grau de jurisdição, certidões necessárias à prova das alegações
das partes e os procedimentos administrativos nas causas em que estiverem inte-
ressados a União, os estados, o Distrito Federal, os municípios ou as entidades da
administração indireta.

Arguição de falsidade

Conforme foi estudado no item anterior, o documento poderá ser público ou


particular. Independentemente da forma como o documento tenha sido produzi-
do, ele goza de fé no processo judicial e a fé pública somente cessará se a autenti-
cidade do documento for impugnada judicialmente. Segundo o art. 427 do CPC,
a fé do documento público ou particular somente cessará se for declarada judicial-
mente sua falsidade através de incidente denominado arguição de falsidade.
Não são raros, na prática forense, casos em que a parte promove a juntada de
documentos falsos ou com fortes indícios de falsidade. Caberá, portanto, à parte
interessada suscitar a falsidade com o escopo de excluir a prova falsa do acervo
probatório dos autos.
Conforme disposto no art. 430 do CPC, a arguição de falsidade deve ser
suscitada no prazo de 15 dias, contados a partir da intimação da juntada dos
documentos aos autos. Se o autor juntou documentos falsos ou duvidosos com a
petição inicial, o réu, após a efetivação do ato citatório, pode suscitar a falsidade

capítulo 4 • 97
do documento. Se o documento falso foi juntado aos autos pelo réu, o autor, no
prazo da réplica (15 dias), deverá suscitar o incidente de arguição de falsidade.
O arguente deverá expor os motivos em que funda sua pretensão e apontar os
meios de prova que serão utilizados para provar o alegado. O juiz intimará a parte
contrária para se manifestar sobre a arguição de falsidade, no prazo de 15 dias (art.
432), e logo em seguida determinará a realização de exame pericial. Contudo, se
a parte que produziu o documento decidir retirá-lo dos autos, o juiz dispensará o
exame pericial (art. 432, § único). Assim, o julgamento acerca da falsidade ou não
do documento ficará prejudicado e o processo seguirá regularmente.
Quanto ao procedimento da arguição de falsidade, é importante ressalvar que
este dependerá da forma pela qual a parte arguirá a falsidade do documento. Se a
parte arguente suscitar a falsidade como questão prejudicial, o juiz decidirá a mes-
ma antes mesmo de enfrentar o mérito, considerando que uma questão prejudicial
influencia no modo como o mérito é apreciado.
No entanto, se a parte arguir a falsidade e requerer que o juiz aprecie a falsi-
dade como questão principal, através de uma ação declaratória incidental (art. 19,
II), o juiz deverá decidir a questão na parte dispositiva da sentença e incidirá sobre
a mesma a autoridade da coisa julgada material.
Reconhecida a falsidade do documento, como questão prejudicial ou questão
principal, o documento falso será considerado imprestável como prova no proces-
so civil e o juiz poderá determinar extração de cópias para o Ministério Público a
fim de apurar a existência de ilícito penal.

Documento eletrônico

O art. 439 do CPC trata do documento eletrônico utilizado no processo con-


vencional, ou seja, processo físico (papel). Não há nenhum conflito com a Lei nº
11.419/2006, que regulamenta o processo eletrônico.
A referida norma tem prazo de validade, pois em breve não mais haverá pro-
cessos físicos. No entanto, enquanto perdurar o sistema híbrido, o art. 439 regu-
lará o ingresso do documento eletrônico nos autos.
Conforme dispõe o art. 439 do CPC, a admissão do documento eletrônico
somente será permitida no processo físico se for convertido para a forma impressa.
Se isso não ocorrer, o juiz apreciará o seu valor probante, evidentemente assegu-
rando às partes o acesso ao teor do mesmo.

capítulo 4 • 98
A limitação temporal da regra dispensa maiores observações em sede doutri-
nária e até mesmo prática.

Prova testemunhal

A parte poderá valer-se da prova testemunhal para demonstrar a existência dos


fatos afirmados em juízo. No entanto, a prova testemunhal não é tão simples, pois
consiste na percepção de um indivíduo acerca da existência ou não de um fato.
A própria experiência humana mostra que dois indivíduos podem ter percepções
diametralmente opostas acerca da existência de determinado fato. Diversos são os
fatores que podem explicar essa discrepância.
Pode-se dizer que a diferença educacional, cultural ou até mesmo emocional
no momento em que um evento ocorre seja fundamental para justificar distintas
percepções sobre um mesmo fato. Entretanto, não se pode negar que essa dificul-
dade faz parte da experiência humana e se torna evidente, sem sombra de dúvida,
na dinâmica da prova testemunhal. Por essa razão, o Código regula, de forma
detalhada, a admissão e a produção da prova testemunhal.
Antes mesmo de avançar no estudo da prova testemunhal, se faz necessário
identificar quais são os fatos que poderão ser provados por esse meio de prova.
Segundo o art. 442 do CPC, a prova testemunhal é sempre admissível quando a
lei não dispuser de modo diverso. É possível, entretanto, valer-se da prova teste-
munhal para comprovar a existência de toda sorte de fatos.
A prova testemunhal será admitida, também, nos casos em que a lei exigir
prova escrita e houver início de prova escrita emanada da parte contra qual se pre-
tende produzir a prova (art. 444). Nesses casos, mesmo que não haja prova escrita,
a parte poderá produzir prova testemunhal como meio efetivo para demonstrar a
existência do negócio alegado.
Admite-se a prova testemunhal nos casos em que o credor não teve como,
do ponto de vista moral ou material, obter prova escrita da obrigação (art. 445).
Suponha que uma pessoa emprestou dinheiro para um primo mais velho e, em ra-
zão do parentesco, não teve condições morais de exigir prova escrita da obrigação.
Nessa hipótese, o credor poderá provar o crédito através de prova testemunhal.
É possível provar, excepcionalmente, a existência de contratos através de prova
testemunhal nos casos em que houver divergência entre a verdade real e a vontade
declarada nos contratos simulados (art. 446, I) e nos contratos em geral nos casos
de vício de consentimento (art. 446, II).

capítulo 4 • 99
Há, porém, fatos que, por sua natureza ou circunstância, dispensam a pro-
dução de prova testemunhal. É o que ocorre nos fatos que já foram provados
por documentos ou mesmo pela confissão da parte (art. 443, I). Desse modo, a
produção de prova testemunhal violará até mesmo o princípio da duração razoável
do processo (art. 6º), pois se trata de prova desnecessária ao julgamento da causa.
A prova testemunhal será dispensada, também, nos casos em que o fato con-
trovertido somente puder ser provado por documento ou exame pericial (art. 443,
II). Para compreender o dispositivo legal, suponha que o autor alegue em juízo
que não é sócio de determinada empresa e que as assinaturas constantes das alte-
rações contratuais são falsas. Tal fato não tem como ser provado somente com tes-
temunhas, necessitando de prova pericial consubstanciada no exame grafotécnico.
No que tange às pessoas que podem depor em juízo, o Código dispõe que to-
das as pessoas podem ser testemunhas em juízo salvo os incapazes (art. 446, §1º),
os impedidos (art. 447, §2º) e os suspeitos (art. 447, §3º). Não obstante, o juiz
poderá, se necessário for, ouvir testemunhas incapazes (menores), impedidas e sus-
peitas, dispensando-se o compromisso e lhe sendo atribuído o valor probante que
o juiz entender cabível. A regra é importante, pois em muitos casos a parte tem
como testemunha apenas um parente ou amigo íntimo, não tendo outro meio de
prova suficiente para comprovar o alegado em juízo.

Produção da prova testemunhal

A prova testemunhal será produzida, em regra, na audiência de instrução e jul-


gamento (art. 453). O juiz ouvirá em juízo as testemunhas arroladas previamente
pelas partes, nos termos do art. 357, §§4º e 5º do CPC. A testemunha arrolada
previamente poderá ser substituída nas hipóteses elencadas no art. 451, ou seja,
por falecimento, por motivo de enfermidade ou quando, devido à mudança de
endereço, não tenha sido localizada. Ocorrendo uma dessas hipóteses, a parte que
arrolou a testemunha poderá substituí-la.
A testemunha arrolada será intimada pelo advogado da parte. Cuida-se de
uma inovação do CPC/2015 cuja finalidade é propiciar maior dinamismo na efe-
tivação desse ato de comunicação processual. O art. 455 diz que caberá ao advo-
gado da parte que arrolou a testemunha informá-la sobre a data da audiência ou
promover sua intimação.
Nos casos em que houver a intimação, o advogado deverá providenciar a res-
pectiva carta, com aviso de recebimento, devendo juntar aos autos comprovação

capítulo 4 • 100
da intimação e do respectivo recebimento em, pelo menos, três dias antes da au-
diência. Se a providência não for realizada, presumir-se-á que se operou a desistên-
cia da testemunha (art. 455, §3º). Trata-se da liberação de alguns atos processuais
levados a efeito pelo CPC/2015.
A parte poderá dispensar a intimação e se comprometer a levar a testemunha
para depor na audiência designada. Todavia, se a testemunha, por algum motivo,
não comparecer, presumir-se-á que a parte desistiu da mesma.
A intimação da testemunha pelo cartório é exceção no CPC/2015. Segundo
o art. 455, §4º, do CPC, a intimação pela via judicial somente ocorrerá se for
frustrada a intimação promovida pelo advogado da parte; se a necessidade restar
demonstrada pela parte; se a testemunha for servidor público ou militar; se a teste-
munha houver sido arrolada pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública;
e, por fim, se a testemunha tiver foro privilegiado para depor (art. 454).
A testemunha devidamente intimada, pela via judicial ou pelo advogado, de-
verá comparecer para depor na data designada. Com efeito, se a testemunha faltar,
sem motivo justificado, será conduzida por força policial e responderá pelas des-
pesas do adiamento. A regra não se aplica às testemunhas que a parte se compro-
meteu a levar espontaneamente.
No que concerne ao local onde a testemunha realizará o seu depoimento, o
art. 453 dispõe que esta será ouvida na audiência de instrução e julgamento pe-
rante o juiz da causa. O Código, não obstante, comporta exceções: as pessoas que
prestaram depoimento antecipadamente (em produção de provas, por exemplo)
ou as que foram inquiridas por carta, antes mesmo da designação da audiência de
instrução e julgamento, são ouvidas em outro momento processual em razão da
necessidade verificada pelo juiz.
Se a testemunha residir em outra comarca ou seção judiciária, o depoimento
poderá ser realizado através de videoconferência ou outro meio tecnológico (art.
453, §1º). As pessoas que, em razão da função, contarem com foro privilegiado
prestarão depoimento em sua residência (art. 454). É o que ocorrerá nos casos do
presidente da República, dos ministros do Supremo Tribunal Federal, do governa-
dor de estados, de prefeitos, entre outros.
Aberta a audiência de instrução, o juiz, após a colheita do depoimento pessoal,
se for o caso, ouvirá as testemunhas do autor e depois as testemunhas do réu (art.
456). As testemunhas prestarão compromisso de dizer a verdade sobre os fatos. Se
for verificado que a mesma faltou com a verdade, responderá pelo crime de falso

capítulo 4 • 101
testemunho (art. 458, § único). As pessoas impedidas ou suspeitas serão ouvidas
em juízo, mas não prestarão compromisso.
A parte poderá contraditar a testemunha arrolada pela parte contrária, nos
termos do art. 457, §1º do CPC. A finalidade da contradita é provar em juízo
que a testemunha é incapaz, impedida ou mesmo suspeita. Caso se confirme a
incapacidade ou a parcialidade, o juiz dispensará a testemunha. A contradita se
distingue da acareação (art. 461, II) em sua substância. Na acareação se pretende
ouvir, no mesmo ato, depoimento contraditório entre duas testemunhas ou entre
a testemunha e a parte. Na contradita, como foi visto, a parte pretende demons-
trar a incapacidade ou a parcialidade da testemunha.
Iniciada a inquirição da testemunha, os advogados das partes formularão per-
guntas diretamente à testemunha que arrolou (art. 459). Na sequência, o juiz
franqueará ao advogado da parte contrária a oportunidade de fazer perguntas à
testemunha. O juiz também poderá inquirir a testemunha (art. 459, §1º) ou mes-
mo indeferir as perguntas impertinentes ou que não tenham relação com os fatos
da causa, transcrevendo-as no termo se a parte assim requisitar (art. 459, §3º).
O depoimento será tomado a termo e seguirá assinado pelo juiz, pela tes-
temunha e pelos procuradores das partes. O depoimento poderá, inclusive, ser
documentado por meio de gravação, nos termos do art. 460 do CPC.
Levando em conta que o depoimento de uma testemunha é considerado ser-
viço público (art. 463), esta não sofrerá perda de salário nem desconto em folha e
poderá, ainda, se for de seu interesse, ter suas despesas efetuadas para comparecer
em juízo, pagas ou reembolsadas pela parte que a arrolou (art. 462).

Prova pericial

A prova pericial será sempre indicada quando houver necessidade de um co-


nhecimento técnico, especializado, a fim de apurar a alegação das partes. Esse
meio de prova é indicado, por exemplo, nas ações que tenham como objeto a
investigação de paternidade, a ser apurada através de exame de DNA, ou mesmo
para se apurar a gravidade de uma lesão provocada por um acidente de carro.
Assim, quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou científico, o
juiz se valerá do auxílio de um perito nos termos do art. 156 do CPC.
A prova pericial consistirá em exame, vistoria e avaliação (art. 464). O exame
é a inspeção para verificação de fatos ou circunstâncias que interessam à causa; vis-
toria é a inspeção restrita a imóveis; e avaliação é a estimação de valor de algo em

capítulo 4 • 102
moeda corrente (MEDINA, 2015, p. 661). A definição, portanto, não é absoluta,
pois o próprio Código não é rigoroso em sua utilização, mas se faz necessária para
fins didáticos.
Não se admitirá a prova pericial quando a prova do fato não depender de
conhecimento especial de técnico (art. 464, §1º, I), se for desnecessária em vista
de outras provas produzidas (art. 464, §1º, II) ou se a verificação for impraticável
(art. 464, §1º, III). Ocorrendo uma dessas hipóteses, o juiz indeferirá o requeri-
mento da prova pericial considerando que sua produção não contribuirá para a
solução da lide.
O CPC/2015 traz importante inovação ao permitir que o juiz dispense a pro-
va pericial quando as partes apresentarem pareceres técnicos ou documentos elu-
cidativos sobre as questões de fato (art. 472). Desse modo, nas situações em que
o objeto da lide é prática de juros extorsivos e o autor apresentar, em conjunto
com a inicial, um demonstrativo contábil acerca da prática abusiva e o réu juntar
documentos elucidativos em sua contestação, o juiz estará apto a julgar, indepen-
dentemente do auxílio do perito.
Assim, o juiz dispensará a prova pericial nas hipóteses em que for incabível
e nos casos em que as próprias partes apresentarem pareceres técnicos suficientes
para o julgamento da causa (ver figura a seguir).

capítulo 4 • 103
Produção de prova técnica simplificada

A produção da prova pericial é sempre dispendiosa e demorada. Por essa razão,


o Código inovou ao permitir que o juiz, de ofício ou a requerimento das partes,
substitua a perícia por produção de prova técnica simplificada, sempre que a ques-
tão de fato controvertida apresentar menos complexidade (art. 464, §2º).
A produção de prova técnica simplificada consiste, tão somente, na inquirição
de um especialista pelo juiz, através do qual serão esclarecidos os aspectos técnicos
da questão de fato controvertida. O especialista deverá ter formação acadêmica na
área em que irá produzir prova técnica (art. 464, §3º).
Esse meio de prova técnica poderá ser utilizado, por exemplo, para se identi-
ficar a natureza de uma lesão (se permanente ou leve) ou mesmo para verificar a
extensão de um defeito em um produto de consumo. O Código não especifica,
mas o especialista será inquirido em uma audiência especial com a participação
dos advogados das partes.
Esclarecida a questão de fato controvertida pelo especialista, o juiz estará em
condições de julgar a demanda adequadamente.

Nomeação de perito através de negócio processual

As partes podem escolher, em comum acordo, o perito que produzirá a prova


pericial requerida (art. 471). Trata-se de regra sem precedentes no CPC/1973, mas
que, se for bem utilizada, em muito contribuirá para solução do mérito em tempo
razoável. Essa modalidade de negócio processual típico somente poderá ser utili-
zada se as partes forem plenamente capazes e a causa puder ser resolvida através de
autocomposição (art. 471, I e II).
A nomeação de perito através de negócio processual será efetivada mediante
requerimento das partes perante o juiz da causa. No requerimento, as partes de-
verão, também, indicar o perito escolhido, a data e o local da perícia. As partes
deverão, além disso, indicar assistentes técnicos (especialistas contratados pelas
partes para acompanhar a perícia) que possam acompanhar o trabalho do perito.
Realizada a perícia, o laudo do perito bem como os pareceres dos assistentes técni-
cos deverão ser entregues no prazo assinalado pelo juiz.
A regra é importante, pois permite às partes influir na escolha do especialista
que irá atuar em sua causa, evitando conflitos decorrentes da atuação do perito
nomeado pelo juízo.

capítulo 4 • 104
Produção da prova pericial

Não sendo a hipótese de prova técnica simplificada ou de perito indicado


através de negócio processual, o juiz nomeará o perito do juízo. Deferida a prova
pericial, o juiz nomeará perito especializado e fixará, desde logo, prazo para a en-
trega do laudo (art. 465). Se a questão de fato for complexa, o juiz poderá nomear
mais de um perito (art. 475). Importante destacar que o perito não está obrigado
a aceitar o encargo, podendo escusar-se (art. 467). Nomeado o perito, as partes
terão o prazo de 15 dias para arguir o impedimento ou a suspeição do perito, in-
dicar assistente técnico e apresentar quesitos (art. 465, §1º).
Considerando que o perito é um auxiliar do juiz (art. 156), não cabe às partes
impugnar a nomeação do perito. Entretanto, o perito poderá ser substituído se
for parcial (impedido ou suspeito), quando lhe faltar conhecimento técnico ou se
deixar de cumprir o encargo no prazo fixado (art. 468). Se não ocorrer nenhuma
das hipóteses aqui mencionadas, o perito exercerá o trabalho técnico, entregando
o respectivo laudo no prazo fixado.
As partes poderão indicar assistentes técnicos cuja função principal é acom-
panhar o trabalho do perito, podendo, também, oferecer parecer acerca da perícia
realizada (art. 466, §1º). Não é incomum casos em que o parecer do assistente
técnico chega a conclusões diversas do laudo formulado pelo perito. Nesses casos,
caberá ao juiz, com base no princípio do livre convencimento, valorar a prova
técnica produzida ou mesmo determinar que nova perícia seja realizada.
Conforme dispõe o art. 465, §1º, do CPC, as partes terão a incumbência de
apresentar quesitos. Os quesitos são perguntas realizadas pelas partes ao perito
com o objetivo de extrair da prova técnica que será realizada informações necessá-
rias para corroborar suas alegações em juízo. Por exemplo, se o autor pleiteia, em
juízo, alimentos vitalícios em razão de lesão permanente decorrente de acidente,
se faz necessário saber, através do perito, se a lesão é grave ou leve para o correto
julgamento da causa. Assim, o réu poderá formular o seguinte quesito: Diga o Sr.
Perito se a lesão é grave. O perito nomeado será intimado e deverá, no prazo de
cinco dias, apresentar: a) proposta de honorários; b) currículo com comprovação
da especialização; e c) contatos professionais, com endereço eletrônico, a fim de
viabilizar futuras intimações. Apresentados os honorários pelo perito, as partes
poderão se manifestar no prazo de cinco dias (art. 465, §3º). Se o valor indicado
pelo perito for impugnado, o juiz apreciará e decidirá sobre a questão. Sendo

capítulo 4 • 105
impugnado ou não o valor apresentado, o juiz arbitrará o valor e intimará a parte
para adiantar o pagamento (art. 95)12.
Nos casos em que a parte que requereu a prova pericial for beneficiária de
gratuidade de Justiça, o juiz custeará a perícia com recursos do orçamento do ente
público, nomeando, para tanto, servidor público do Poder Judiciário ou de órgão
conveniado. Se a perícia for realizada por profissional particular, será paga com
recursos alocados da União ou dos estados, observando a tabela do respectivo tri-
bunal (art. 95, §3º). Julgada a causa, com o respectivo trânsito em julgado, o juiz
oficiará a Fazenda Pública, que adiantou o pagamento das despesas com o perito,
para que promova a execução do crédito em face da parte que foi condenada ao
pagamento das despesas e custas processuais.
Superada a etapa preliminar, o perito realizará a perícia observando o pra-
zo assinalado pelo juiz. Para o adequado cumprimento do encargo, poderá
o profissional especializado valer-se de todos os meios necessários, inclusive
ouvir testemunhas, solicitar documentos que estejam em poder das partes ou
de terceiros, e tudo mais que seja necessário para a elaboração precisa do laudo
técnico (art. 473, §3º).
Realizada a perícia, o perito deverá entregar o laudo no prazo fixado (art. 477)
observando as exigências do art. 473 do CPC, ou seja, o laudo deve ter a exposição
do objeto da perícia, análise técnica ou científica realizada, indicação do método
utilizado e resposta conclusiva do trabalho. Na conclusão, o perito se limitará à
análise técnica ou à científica, sendo vedado qualquer juízo de valor sobre o objeto
da perícia (art. 473, §2º).
Apresentado o laudo, as partes terão prazo de 15 dias para se manifestar (art.
477, §1º). Na fase da produção da prova pericial, as partes poderão: a) concordar
com o laudo apresentado; b) solicitar esclarecimentos sobre o laudo (art. 477,
§2º); requerer a redução da remuneração se a perícia for inconclusiva ou deficiente
(art. 465, §5º); ou c) requerer a realização de nova perícia quando a matéria não
for suficientemente esclarecida (art. 480).
Finalizada a produção da prova pericial, o juiz a apreciará observando o
princípio do livre convencimento motivado. O juiz, que não tem vínculo com
o resultado da prova pericial, está livre para acolher ou não as suas conclusões
e até mesmo julgar a causa exclusivamente com base na prova testemunhal.

12  O juiz poderá autorizar o adiantamento de 50% do valor arbitrado e os 50% restantes ao final do processo, nos
termos do art. 465, §4º, do CPC.

capítulo 4 • 106
Contudo, deverá explicitar, de forma clara, os motivos que o levaram a decidir
de uma forma ou de outra (art. 479).
A figura a seguir nos permitirá ter uma visão panorâmica da prova pericial:

Inspeção judicial

A inspeção judicial será cabível nos casos em que o juiz, de ofício ou a reque-
rimento da parte, identificar a necessidade de inspecionar, pessoalmente, pessoas
ou coisas, para esclarecer fatos da causa (art. 481).
Há casos em que a simples presença do julgador, in loco, pode esclarecer de
forma célere e eficaz a questão de fato controvertida. É o que pode ocorrer em con-
flitos sobre direito de vizinhança, em que a inspeção poderá concluir pelo abuso
ou não do direito de se construir ou mesmo para verificar a existência da turbação
alegada em ação de manutenção de posse.
Embora não seja muito comum na prática forense brasileira, não há dúvidas
quanto à sua eficácia em alguns casos. O juiz poderá realizar a inspeção assistido
por peritos (art. 482) e acompanhados pelas partes (art. 483, § único).

capítulo 4 • 107
O art. 483 do CPC apresenta um rol exemplificativo dos casos em que a
inspeção será cabível: quando o juiz julgar necessário, para melhor verificação dos
fatos; quando a coisa não puder ser apresentada em juízo em razão de despesas ou
graves dificuldades de locomoção; ou para determinar a reconstituição dos fatos.
Realizada a inspeção, o juiz mandará lavrar auto circunstanciado, mencionan-
do nele tudo que entender necessário para o julgamento da causa (art. 484).

Audiência de instrução e julgamento

Após a realização da fase instrutória, o processo avançará para fase decisória.


É neste contexto que a audiência de instrução e julgamento se constitui como ato
processual relevante13. Trata-se de ato processual complexo onde o juiz, fazendo
uso do poder de polícia que lhe é inerente (art. 360), conduzirá os trabalhos de
colheita de prova oral e debates finais da causa.
Instalada a audiência, o juiz tentará, mais uma vez, conciliar as partes (art.
359). A regra evidencia a aposta do Código nos meios de autocomposição de
conflito. É o momento derradeiro para que as partes, diante do julgador da causa
e após extensa atividade probatória, possam optar por uma forma de autocompo-
sição que atenda melhor os interesses de ambas.
Antes de avançar no estudo desse importante ato processual, se faz necessário re-
gistrar que a principal finalidade da audiência de instrução e julgamento é a colheita
de prova oral (depoimento pessoal e inquirição de testemunhas). Se não houver neces-
sidade de produção de prova oral, a audiência será dispensada (art. 361).

Adiamento da audiência de instrução e julgamento

A audiência poderá ser adiada nas hipóteses elencadas no art. 362 do CPC. O
adiamento poderá ser convencionado pelas próprias partes (art. 361, I). O Código
privilegiou possibilitar às partes mais protagonismo na condução do processo, e tal
regra evidencia essa postura. Nesse caso, as partes devem formular requerimento
em conjunto explicitando os motivos que justificam o adiamento.
A segunda hipótese de adiamento ocorrerá quando a pessoa que deva, necessa-
riamente, participar não puder comparecer (art. 362, II). Essa causa de adiamento
13  As regras referentes à audiência de instrução e julgamento estão dispostas no Código antes do direito
probatório. No entanto, para fins didáticos, optamos por abordar o tema observando a ordem dos atos processuais
tal como se manifesta no processo, com a produção das provas antes da audiência de instrução e julgamento, que
poderá até mesmo ser dispensada nos casos em que não houver produção de prova oral.

capítulo 4 • 108
pode ocorrer quando, por exemplo, a parte intimada a realizar depoimento pes-
soal, ou mesmo uma testemunha, devidamente intimada (art. 455, §§1º e 4º),
estiver impossibilitada de comparecer. Nesse caso específico, a parte deverá com-
provar o impedimento até a abertura da audiência (art. 362, §1º). Se a parte
não informar o impedimento tempestivamente o juiz procederá a instrução sem
a pessoa impedida.
No caso de impedimento do advogado, o juiz dispensará a produção da prova
requerida pela parte. Por exemplo, se a parte autora arrolou seis testemunhas para
ser inquiridas e na semana anterior à data designada para audiência o advogado é
internado e não informa o impedimento até a abertura da audiência, o juiz rea-
lizará a instrução da causa e dispensarão as seis testemunhas presentes (art. 362,
§2º). Não obstante a regra, o juiz poderá reconsiderar a decisão se o advogado
demonstrar que ficou impossibilitado de fazê-lo.
A audiência será adiada, também, se houver atraso injustificado de seu início
por mais de 30 minutos do horário marcado. Para que seja admitido o adiamento
da audiência por tal motivo, se faz necessária a expedição da certidão cartorária
acerca do atraso. Contudo, se o atraso decorrer do número excessivo de depoi-
mentos e testemunhas da audiência anterior, a regra não incidirá.
Independentemente do motivo, a parte que deu causa ao adiamento arcará
com as despesas acrescidas.

Dinâmica da audiência de instrução e julgamento

Aberta a audiência14 e não havendo a hipótese de autocomposição, o juiz de-


terminará a produção de prova oral, ouvindo as partes e testemunhas, observando
a seguinte ordem preferencial: a) esclarecimentos do perito e dos assistentes técni-
cos (art. 361, I); b) depoimento pessoal do autor e do réu; c) testemunhas arrola-
das pelo autor e pelo réu. Nessa etapa da instrução, os advogados poderão indagar,
após suas manifestações, os peritos, as partes e as testemunhas sobre fatos da causa.
A audiência é una e indivisível (art. 365). Significa dizer que não poderá ser
cindida ou fracionada, de modo que haja inquirição das testemunhas do autor
num dia e a do réu em outro. Por ser um ato processual complexo, a audiência
deve ser realizada em um só dia, com a instrução e as alegações finais colhidas
no mesmo dia. Há, todavia, hipóteses em que a audiência poderá ser cindida,
14  A audiência é pública, nos termos do art. 368 do CPC, podendo ser assistida por qualquer pessoa, desde que seja
autorizado pelas partes. No entanto, nos casos em que haja segredo de justiça será vedada participação do público (art. 189).

capítulo 4 • 109
excepcionalmente, nos casos de ausência de perito ou testemunha, desde que haja
justificativa plausível e as partes estejam de acordo.
Finda a colheita da prova oral, o juiz dará a palavra aos advogados do autor
e do réu para se manifestarem em alegações finais, sucessivamente, pelo prazo de
20 minutos, prorrogáveis por mais 10 minutos. Encerrados os debates, o juiz, se
tiver condições de fazê-lo, proferirá sentença em audiência ou no prazo de 30 dias,
conforme dispõe o art. 366 do CPC.
Se a causa apresentar complexidade de fato e de direito, as alegações finais orais po-
derão ser substituídas por memoriais (alegações finais por escrito) em prazos sucessivos de
15 dias (art. 364, §2º). Apresentados os memoriais, o juiz proferirá sentença.
O CPC/2015 trouxe uma importante inovação no que tange ao registro da
audiência. Conforme dispõe o art. 367 do CPC, a audiência poderá ser gravada,
em imagem e áudio, pelo próprio órgão judicial (art. 367, §5º) ou até mesmo
diretamente pelas próprias partes, independentemente de autorização judicial. A
regra é importante pois assegura às parte a gravação desse ato processual, impedin-
do a prática de arbitrariedades levadas a efeito pelo julgador.

Conclusão

O presente capítulo abordou a teoria geral da prova, as provas em espécie e a


audiência de instrução e julgamento. Considerando a importância desses institu-
tos jurídicos para a instrução e julgamento da causa, o capítulo tratou das princi-
pais regras do direito probatório com o objetivo de contribuir para a compreensão
sistemática do tema e sua importância na busca da verdade no processo civil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUENO, Cássio Scarpinella. Manual de direito processual civil. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.
CÂMARA, Alexandre. Lições de direito processual civil. 24. ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2013, p. 363. v. 1.
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. Salvador: Podivm, 2015. v. 1.
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Curso de processo civil.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. v. 2.
MEDINA, José Miguel. Direito processual civil moderno. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.
WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2015. v. 1.

capítulo 4 • 110
5
Sentença.
Coisa julgada.
Homologação de
sentença estrangeira
e ação rescisória
Sentença. Coisa julgada. Homologação de
sentença estrangeira e ação rescisória

Introdução

Ultrapassada a fase instrutória, o processo se encaminhará para a fase final, em


primeira instância, onde o juiz proferirá sentença de mérito, esgotando sua atividade
jurisdicional. É bem verdade que a sentença não põe fim ao processo, considerando
que recursos poderão ser interpostos, mas esgota a atividade jurisdicional em pri-
meiro grau de jurisdição. Por essa razão, o estudo da sentença, enquanto principal
ato do juiz de primeiro grau, se reveste de grande importância, pois a parte somente
poderá recorrer de forma segura se compreender os requisitos da sentença e também
as regras concernentes à obrigatoriedade de fundamentação aprofundada.
Neste último capítulo, abordaremos a sentença em sua extensão, além dos
fenômenos processuais que dela decorrem, tais como a coisa julgada e a ação res-
cisória. São temas fundamentais no processo civil constitucionalizado, abordados
de forma detalhada no CPC/2015.
Abordaremos, ainda, a sentença estrangeira e a possibilidade de sua eficácia no
território nacional. O tema é interessante e integra o denominado direito proces-
sual internacional.

OBJETIVOS
•  Estudar o conceito de sentença e sua classificação no processo civil.
•  Compreender a exigência de fundamentação estruturada da sentença.
•  Analisar as diversas espécies de sentença e sua eficácia.
•  Entender o fenômeno da coisa julgada.
•  Estudar o procedimento da homologação de sentença estrangeira bem como seus requisitos.
•  Estudar as hipóteses de cabimento da ação rescisória e seu respectivo procedimento.

capítulo 5 • 112
Sentença: conceito

O CPC/2015 conceitua sentença como o pronunciamento por meio do qual


o juiz põe fim à fase cognitiva do procedimento comum, com fundamento nos
arts. 485 ou 487, bem como extingue a execução (art. 203, §1º). Embora haja cla-
ra orientação no sentido de que não é aconselhável ao legislador elaborar concei-
tos, não há dúvidas de que a definição de sentença exposto no referido dispositivo
legal muito contribui para a compreensão desse importante ato processual do juiz.
É sabido que a sentença não põe fim ao processo. Publicada a decisão, as par-
tes poderão interpor alguns recursos, o que submeterá a sentença ao duplo grau
de jurisdição, podendo inclusive ser reformada. Todavia, compreender a sentença
como meio através do qual o juiz põe fim à fase cognitiva nos permite apreender
de forma correta sua função na etapa decisória.
Conforme visto anteriormente, a sentença poderá ter como fundamento uma
das hipóteses do art. 485 (sem resolução do mérito) ou uma das hipóteses do art.
487 (com resolução do mérito). A literatura processual denomina como sentença
terminativa (ou processual) aquela que extingue o processo sem resolução de mé-
rito e sentença definitiva, aquela em que o juiz resolve o mérito.
Bem entendido o conceito de sentença, passemos ao estudo de sua estrutura.

Elementos da sentença

São elementos da sentença, de acordo com o art. 489 do CPC, o relatório, os


fundamentos e o dispositivo. No relatório da sentença (art. 489, I), o juiz retratará
tudo que foi realizado no processo. Nele deverá conter o nome das partes, a identi-
ficação do caso, com resumo da pretensão do autor e da defesa do réu, o registro de
eventuais incidentes processuais e dos principais atos ocorridos no processo.
A principal finalidade dessa parte da sentença é permitir ao juiz inventariar
tudo que ocorreu no processo, de modo a evitar que algum detalhe fique fora
de sua apreciação. Embora o seu conteúdo seja meramente descritivo, o relató-
rio é um elemento essencial da sentença e será nula a sentença que não o tiver.
Entretanto, é dispensado em sede de Juizado Especial Cível, conforme se depreen-
de do art. 38 da Lei nº 9.099/1995.
O segundo e principal elemento da sentença são os fundamentos da decisão.
O art. 93, IX, da CF/1988 dispõe que todos os julgamentos do Poder Judiciário
devem ser fundamentados sob pena de nulidade. Trata-se, portanto, do dever de

capítulo 5 • 113
motivar insculpido no texto constitucional. Entretanto, apesar da obrigatoriedade
de fundamentar de forma adequada a decisão judicial, não eram raros os casos
em que o julgador utilizava como fundamento transcrição de julgados do próprio
tribunal ou de tribunais superiores, inviabilizando a adequada compreensão das
partes acerca das razões que o levaram a decidir num sentido ou noutro.
É nesse contexto que o CPC/2015 estabeleceu, de forma peremptória e conclu-
siva, o que será considerado como fundamento adequado de uma decisão. Segundo
a redação do art. 489, §1º, não se considera fundamentada a decisão que:

I – se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar


sua relação com a causa ou a questão decidida;
II – empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de
sua incidência no caso;
III – invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;
IV – não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese,
infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
V – se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus
fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta
àqueles fundamentos;
VI – deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela
parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação
do entendimento.

Assim, o Código exige que o julgador profira decisão com fundamentação es-
truturada, sendo vedado, portanto, reproduzir decisões modelo, transcrever prece-
dentes dos tribunais superiores sem a devida análise qualitativa, deixar de apreciar
todos os argumentos deduzidos no processo ou até mesmo contrariar, sem a devida
justificativa, súmula ou precedente judicial invocado pela parte. O Código especi-
fica, ainda, que nos casos em que houver colisão de normas, o juiz deve justificar os
critérios que utilizou para efetivar a ponderação entre ambas (art. 489, §2º).
É certo que o volume de trabalho do Poder Judiciário, em muitos casos, foi
determinante para que decisões padronizadas ou mesmo com fundamentação es-
correita e simplificada se tornassem rotina, de maneira a permitir que os conflitos
fossem administrados de forma mais célere e racional. Contudo, em nenhuma

capítulo 5 • 114
hipótese, estratégias para administrar melhor a prestação da Justiça podem servir
como justificativa para desconsiderar o dever de fundamentar.
No sistema de precedente judicial organizado pelo CPC/2015, onde as de-
cisões judiciais servirão como parâmetro para a criação de direitos em muitos
casos, a legitimidade do Poder Judiciário, para tanto, se encontra na fundamen-
tação das decisões e na participação dos sujeitos processuais na construção da
decisão. Dessa forma, não há como dar legitimidade a uma decisão judicial,
enquanto precedente judicial, se esta é fundamentada de forma superficial ou
obscura sobre a justificação do julgador acerca dos critérios utilizados para se
alcançar aquele entendimento.
Para compreender melhor essa exigência do Código, suponha que o autor
pretenda obter uma indenização por ato ilícito e o réu alega que tal indenização
é indevida por contrariar texto de lei e precedentes judiciais dos tribunais supe-
riores. O juiz, ao sentenciar, deverá, em sua fundamentação, apontar com clareza
as razões pelas quais acolheu a pretensão do autor, como também apontar quais
foram as razões que motivaram o afastamento da aplicação do texto de lei e dos
precedentes judiciais mencionados pelo réu. Essa é a fundamentação exigida pelo
art. 489, §1º, do CPC. Será nula a decisão que descumprir tal preceito. A juris-
prudência sobre o tema ainda não está uníssona acerca da extensão e alcance da
norma, mas não há duvida de que tal regramento seja digno de aplausos.

Anexo 1

Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO


INDENIZATÓRIA. DEMANDA REPETITIVA. SISTEMA DE PONTUAÇÃO
CREDIT SCORING. LEGALIDADE. PARADIGMAS DO STJ. TEMA 710.
SÚMULA 550. EFEITOS ERGA OMNES. APLICAÇÃO DA TESE. ARTS.
332 E 1.040, III, DO NOVO CPC. LEI DO CADASTRO POSITIVO.
DADOS EXCESSIVOS E/OU SENSÍVEIS. TEMA 915 STJ. EXIBIÇÃO DE
INFORMAÇÕES. INOCUIDADE. CADASTRO. EXCLUSÃO INVIÁVEL.
RECUSA DE CRÉDITO AUSENTE. REQUISITOS CUMULATIVOS.
DANO MORAL NÃO CONFIGURADO. DISTINGUISHING. AUSÊNCIA.
MÉRITO. PREQUESTIONAMENTO. ART. 489, §1º, DO NOVO CPC.
SEMINÁRIO ENFAM. 1. A controvérsia sobre a ferramenta credit scoring, cre-
dit score ou crediscore aporta ao Judiciário às dezenas de milhares, traduzindo
demanda repetitiva, cuja apreciação desafia solução diferente da que é empregada

capítulo 5 • 115
para processos de condão individual. 2. O STJ, nos paradigmas REsp 1.419.697/
RS e REsp 1.457.199/RS (Tema 710), e na Súmula 550, definiu que o método de
avaliação de risco de concessão de crédito foi considerado lícito, autorizado pelos
arts. 5º, IV, e 7º, I, da Lei 12.414/11, desde que respeitados os limites estabele-
cidos pelo sistema de proteção do consumidor. Inaplicáveis o art. 43 do Código
de Defesa do Consumidor e o art. 4º da Lei 12.414/2011, não se tratando de um
banco de dados. O dano moral só é cabível ante recusa de crédito comprovada,
oriunda de baixa pontuação causada por informação excessiva ou sensível, sendo
os requisitos cumulativos. 3. As decisões do STJ valem para todas as empresas que
exploram o método porque os dois precedentes, um deles extraído de demanda
coletiva de consumo, reúnem os dois polos que comercializam a ferramenta. O
Novo CPC, em seus arts. 332 e 1.040, III, determina a aplicação, em primeiro e
segundo graus, das teses firmadas pelos tribunais superiores. 4. Informações sensí-
veis não são aquelas que a parte, subjetivamente, considera. Prendem-se à origem
social e étnica, à saúde, à informação genética, à orientação sexual e às convicções
políticas, religiosas e filosóficas. Informações excessivas são as que não se vinculam
à análise de risco de crédito ao consumidor, como a opção por determinada agre-
miação carnavalesca ou de futebol. Nenhum desses valores foi trazido aos autos
como tendo sido burilado pela ferramenta, menos ainda considerado, para efeito
de aferição negativa de escore e, em especial, como motivador para recusa de crédi-
to. 5. Sem a recusa de crédito comprovada, não há razão para concitar a parte ré a
apresentar documentos, informações ou dados, pelo menos com respeito à preten-
são de reparo moral. Sobre a pretensão pura de exibir, em sentido similar o Tema
915-STJ. 6. A questão posta nos autos é a mesma pacificada pela jurisprudência de
âmbito federal, sem precisar distinção, afastamento, retificação ou complemento.
Para o distinguishing a parte deveria provar que houve recusa de crédito por nota
baixa nascida de uso de dados incorretos. Sem isso, inócuo o pedido de informações
sobre os dados coletados. Não sendo a ferramenta equivalente a banco de dados,
descabe falar-se também em exclusão cadastral. 7. A hipótese é eminentemente de
direito. O que sobejaria para prova, a par de que deveria vir acompanhada com a
inicial, era alegação que tinha como premissa a ilicitude do sistema de pontuação e,
secundariamente, a recusa em fornecer elementos para aferição do escore conferi-
do à parte demandante. Tais pontos foram afastados pelos paradigmas do Superior
Tribunal de Justiça e pela fundamentação. Correta a decisão, ausente cerceamento
de defesa. 8. Mesmo sob a égide do novo texto de processo pátrio, não é preciso
mencionar item por item, ponto por ponto, os tópicos vertidos pelas partes, já que

capítulo 5 • 116
o juiz continua sendo o destinatário da prova, a teor dos arts. 139, e seguintes, c/c
369, e seguintes, do CPC/2015. O art. 489, §1º, do novo digesto processual não
exige que o juiz esmiúce todos os argumentos quando não são eles relevantes para
o deslinde da controvérsia. Nesse sentido Enunciados Aprovados em Seminário
realizado pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados
(ENFAM). APELO DESPROVIDO. (Apelação Cível Nº 70073357790, Sexta
Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Jerson Moacir Gubert, Julgado
em 13/04/2017).

AGRAVO DE INSTRUMENTO. TUTELA DE URGÊNCIA.


INDEFERIMENTO. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA. AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE RECONHECIDA. POSTERIOR
DECISÃO PROFERIDA EM ATENDIMENTO AO DECISUM QUE
DEFERIU EFEITO SUSPENSIVO. PERDA DO OBJETO. RECURSO
PREJUDICADO. 1. No caso dos autos, o Juízo a quo não apresentou fundamen-
tação acerca dos motivos de fato e de direito a justificar o decisum, mormente os
pressupostos legais para o deferimento, ou não, da tutela de urgência pretendida
pela autora, nos termos do artigo 300 do Código de Processo Civil. Doutrina.
2. Lembre-se que com o advento do Novo Código de Processo Civil constatou-
-se que o legislador buscou conferir maior efetividade ao disposto no artigo 93,
inciso IX, da Constituição Federal, segundo o qual todas as decisões dos órgãos
do Poder Judiciário devem ser fundamentadas. 3. Para tanto, dispôs no artigo
489, §1º, do CPC/2015, de forma exemplificativa, situações em que qualquer
decisão judicial não será considerada fundamentada, dentre as quais quando o
julgador "empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo
concreto de sua incidência no caso" (inciso II) ou "invocar motivos que se presta-
riam a justificar qualquer outra decisão" (inciso III). Com isso, o legislador tentou
evitar a indesejada motivação genérica. Doutrina. 4. Dessa forma, analisando a
decisão agravada, constata-se que ao dispor que "não vislumbro a presença dos
requisitos previstos no art. 300, do CPC", o Juízo a quo acabou por indeferir a
tutela de urgência perquirida, mas sem apresentar qualquer fundamentação hábil
a justificar o decisum proferido, violando, assim, os princípios da ampla defesa
e do contraditório. 5. Assim, impõe-se o reconhecimento da nulidade do referi-
do decisum, por ausência de fundamentação, restando prejudicadas as alegações
apresentadas no agravo. Precedentes do TJRJ. 6. Não obstante o acima exposto,
após proferida decisão determinando que outra seja feita, o juízo a quo proferiu

capítulo 5 • 117
decisão suprindo a ausência de fundamentação acima reconhecida e que serviu
de embasamento para a decisão mencionada deste Relator. 7. Dessa forma, ante a
prolação de nova decisão, devidamente fundamentada, resta configurada a perda
superveniente do objeto do agravo de instrumento interposto. 8. Em que pese a
agravante ter apresentado outros fundamentos, a análise resta prejudicada ante a
fundamentação apresentada pela nova decisão do Juízo a quo, salientando-se que
eventual insurgência contra o decisum posteriormente proferido, deverá ser objeto
de novo recurso, com apresentação de "exposição do fato e do direito" bem como
das "razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão e o próprio pedido"
(CPC, art.1016, II e III) a ensejar a sua reforma e/ou invalidação. 9. Ex officio
anula-se a decisão agravada, restando prejudicado o agravo de instrumento por
perda superveniente do objeto. (0057947-51.2016.8.19.0000 - AGRAVO DE
INSTRUMENTO - Des(a). JOSÉ CARLOS PAES – Julgamento: 01/02/2017 –
DÉCIMA QUARTA CÂMARA CÍVEL – TJRJ).

AGRAVO DE INSTRUMENTO. TUTELA DE URGÊNCIA.


INDEFERIMENTO. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA. AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE RECONHECIDA. POSTERIOR
DECISÃO PROFERIDA EM ATENDIMENTO AO DECISUM QUE
DEFERIU EFEITO SUSPENSIVO. PERDA DO OBJETO. RECURSO
PREJUDICADO. 1. No caso dos autos, o Juízo a quo não apresentou fundamen-
tação acerca dos motivos de fato e de direito a justificar o decisum, mormente os
pressupostos legais para o deferimento, ou não, da tutela de urgência pretendida
pela autora, nos termos do artigo 300 do Código de Processo Civil. Doutrina.
2. Lembre-se que com o advento do Novo Código de Processo Civil constatou-
-se que o legislador buscou conferir maior efetividade ao disposto no artigo 93,
inciso IX, da Constituição Federal, segundo o qual todas as decisões dos órgãos
do Poder Judiciário devem ser fundamentadas. 3. Para tanto, dispôs no artigo
489, §1º, do CPC/2015, de forma exemplificativa, situações em que qualquer
decisão judicial não será considerada fundamentada, dentre as quais quando o
julgador "empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo
concreto de sua incidência no caso" (inciso II) ou "invocar motivos que se presta-
riam a justificar qualquer outra decisão" (inciso III). Com isso, o legislador tentou
evitar a indesejada motivação genérica. Doutrina. 4. Dessa forma, analisando a
decisão agravada, constata-se que ao dispor que "não vislumbro a presença dos
requisitos previstos no art. 300, do CPC", o Juízo a quo acabou por indeferir a

capítulo 5 • 118
tutela de urgência perquirida, mas sem apresentar qualquer fundamentação hábil
a justificar o decisum proferido, violando, assim, os princípios da ampla defesa
e do contraditório. 5. Assim, impõe-se o reconhecimento da nulidade do referi-
do decisum, por ausência de fundamentação, restando prejudicadas as alegações
apresentadas no agravo. Precedentes do TJRJ. 6. Não obstante o acima exposto,
após proferida decisão determinando que outra seja feita, o juízo a quo proferiu
decisão suprindo a ausência de fundamentação acima reconhecida e que serviu
de embasamento para a decisão mencionada deste Relator. 7. Dessa forma, ante a
prolação de nova decisão, devidamente fundamentada, resta configurada a perda
superveniente do objeto do agravo de instrumento interposto. 8. Em que pese a
agravante ter apresentado outros fundamentos, a análise resta prejudicada ante a
fundamentação apresentada pela nova decisão do Juízo a quo, salientando-se que
eventual insurgência contra o decisum posteriormente proferido, deverá ser objeto
de novo recurso, com apresentação de "exposição do fato e do direito" bem como
das "razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão e o próprio pedido"
(CPC, art.1016, II e III) a ensejar a sua reforma e/ou invalidação. 9. Ex officio
anula-se a decisão agravada, restando prejudicado o agravo de instrumento por
perda superveniente do objeto. (0057947-51.2016.8.19.0000 - AGRAVO DE
INSTRUMENTO - Des(a). JOSÉ CARLOS PAES - Julgamento: 01/02/2017 -
DÉCIMA QUARTA CÂMARA CÍVEL – TJRJ).

Por fim, na parte dispositiva da sentença, o juiz resolverá a questão principal


submetida para a apreciação. É na parte dispositiva que o juiz determinará, com
todas as especificações, a obrigação que deverá ser cumprida pelo réu, nos casos de
procedência do pedido, ou declarará improcedente o pedido. Trata-se de elemento
de fundamental importância, pois sobre ele incidirá os efeitos da coisa julgada ma-
terial. Por exemplo, se o juiz condenar o réu, na parte dispositiva, a pagar a quantia
de R$ 100.000,00, com atualização desde a citação (mas o correto seria desde a
ocorrência do fato), prevalece o critério fixado pelo juiz se a parte não interpuser
o recurso cabível.
O art. 492 do CPC regulamenta o princípio da adstrição (ou correlação) no
sentido de impedir que o juiz profira sentença diversa da pretensão formulada pelo
autor. Assim, se o autor pretende revisão do auxílio-doença, o juiz não poderá jul-
gar procedente o pedido para determinar a aposentadoria por invalidez. Se assim o
fizer, a sentença será declarada nula em razão da violação do princípio da adstrição.

capítulo 5 • 119
Finalizando, o art. 489, §3º, do CPC determina que a decisão judicial, em-
bora tenha três elementos distintos (relatório, fundamentação e voto), deve ser
interpretada a partir da conjugação entre todos os seus elementos, observando-se
o princípio da boa-fé. A norma não admite incoerência, por exemplo, entre rela-
tório, fundamentação e a parte dispositiva.

Elementos da sentença

Apreciação de novos fatos na decisão e a possibilidade de modificação da sentença

Após a fase saneadora, o processo avança para a fase decisória onde o juiz apre-
ciará o mérito da demanda acolhendo ou rejeitando a pretensão do autor. Nessa
fase, o processo se encontra maduro para julgamento, com os fatos controvertidos
claramente definidos e com as respectivas provas produzidas. Entretanto, há certas
circunstâncias em que, após a propositura da demanda, fatos novos, que influen-
ciarão no julgamento do mérito, surgem (constitutivo, modificativos e extintivos)
antes mesmo de o juiz proferir sentença (art. 493). Nesses casos, caberá ao juiz, de
ofício ou a requerimento das partes, considerá-los antes de proferir sentença. É o

capítulo 5 • 120
que ocorre quando, na fase decisória, o réu consegue juntar aos autos o recibo que
comprova o pagamento da dívida. Cuida-se de regra que atende aos princípios da
economia processual e da solução integral do mérito (art. 4º).
Após a publicação da sentença, esta não mais poderá ser alterada pelo juiz.
Mesmo nos casos em que o julgador perceba, após a publicação, que aplicou mal
o direito ao caso concreto, nada poderá fazer se a parte interessada não interpuser
o recurso cabível. Porém, o juiz poderá alterar a decisão proferida nas hipóteses
mencionadas no art. 494 do CPC.
A sentença poderá ser alterada, de ofício ou a requerimento das partes, nos
casos em que houver necessidade de se corrigir inexatidões materiais ou erro de
cálculo (art. 494, I), ou através de embargos de declaração (art. 1.022).

Classificação das sentenças

O exercício do direito de ação permite ao autor formular em juízo pretensão


que tenha como objetivo: a) eliminar a incerteza sobre determinada relação jurídi-
ca (ação declaratória); b) criar, modificar ou extinguir uma relação jurídica (ação
constitutiva); ou mesmo c) condenar o réu ao cumprimento de determinada obri-
gação (ação condenatória). Como consequência, a sentença que julgar procedente
o pedido formulado pelo autor terá o mesmo conteúdo (art. 490). Considerando
essa premissa, a pretensão declaratória será acolhida por uma sentença declaratória
e assim sucessivamente.
Essa classificação trinária não é unívoca na doutrina. Há setores da doutrina
que defendem a classificação da sentença em cinco espécies: declaratória, consti-
tutiva, condenatória, executiva lato sensu e mandamental. Para essa corrente dou-
trinária, a sentença executiva é aquela que se realiza através dos meios de execução
direitos e adequados à tutela específica. Podemos citar como exemplo as sentenças
que determinam o despejo ou mesmo uma obrigação de fazer. Já a sentença man-
damental é aquela que se caracteriza por uma ordem. O juiz não condena, ordena.
Essa ordem tem como principal escopo coagir o réu (MARINONI, 2015, p. 469).
Podemos citar como exemplo o mandado de reintegração de posse expedido em
favor do demandante.
Embora essa corrente doutrinária tenha sua importância no desenvolvimento
do estudo acerca do conteúdo e da eficácia da sentença, nos parece mais adequa-
do compreender que a eficácia executiva e a mandamental sejam desdobramen-
tos ou varáveis da própria sentença condenatória. Ao se pensar a temática dessa

capítulo 5 • 121
perspectiva, a classificação trinária parece ter maior alcance, do ponto de vista
teórico e prático, na prestação da tutela jurisdicional adequada. Passemos, então,
ao estudo de cada uma delas.

Sentença declaratória

Segundo art. 19, I, do CPC, o interesse do autor pode limitar-se à declaração acerca
da existência ou inexistência de uma relação jurídica. Para tanto, deverá o autor promo-
ver a respectiva ação meramente declaratória nos termos do art. 20 do CPC.
O referido dispositivo legal utiliza a expressão meramente declaratória, pois
toda e qualquer sentença possui sua carga declaratória. Nos casos em que o de-
mandante pleiteia a condenação do réu ao pagamento de determinada quantia, o
juiz ao acolher o pedido, declarará a existência do direito afirmado e, num segun-
do momento, condenará o réu a pagar a referida quantia. Essa foi a intenção do
Código ao utilizar a expressão meramente declaratória, ou seja, o autor pretende
tão somente uma declaração judicial acerca da existência ou inexistência de uma
relação jurídica ou sobre seu modo de ser.
Pelo seu próprio conteúdo, a sentença declaratória terá efeito imediato dis-
pensando procedimento executivo. Suponha que determinado cidadão recebeu
uma fatura de um cartão de crédito que nem ao menos solicitou. Embora tenha
ocorrido ilícito, o cidadão pretende tão somente a declaração judicial acerca da
inexistência de relação jurídica com a administradora de cartão de crédito. Nesse
caso, após o trânsito em julgado da sentença declaratória, não haverá mais dúvida
acerca da inexistência de relação jurídica.
Há uma hipótese em que a sentença declaratória será executada: nos casos
em que o juiz fixar honorários sucumbenciais em favor do advogado autor. Nesse
caso, a sentença declaratória será executada para o cumprimento da obrigação de
pagar (honorários de advogado).

Sentença constitutiva

A sentença constitutiva é aquela que cria, extingue ou modifica uma relação jurí-
dica. O divórcio judicial constitui exemplo claro dessa espécie de sentença. Quando o
juiz decreta o divórcio está extinguindo uma relação jurídica, qual seja o vínculo con-
jugal. A sentença que determina a dissolução de uma sociedade empresária ou mesmo
a sentença de interdição (art. 747) é um exemplo claro de sentença constitutiva.

capítulo 5 • 122
O provimento constitutivo pode ser positivo ou negativo (desconstitutiva).
Para Marinoni, Arenhart e Mitidiero (2015), a sentença que decreta o estado de
interdito é positiva ao “criar” o mencionado estado. Por sua vez, a sentença que
decreta o divórcio seria constitutiva negativa ou desconstitutiva, pois desconstitui
o vínculo conjugal.
Por fim, registra-se que a sentença constitutiva também possui eficácia imediata
dispensando procedimento executivo. Transitado em julgado a sentença que decreta
o divórcio, a parte promoverá de imediato a averbação no respectivo cartório.

Sentença condenatória

A sentença condenatória tem como característica principal a condenação


do réu ao cumprimento de uma obrigação. Através dela, o juiz impõe a referida
obrigação que, no caso de descumprimento, ensejará procedimento executivo
de cumprimento de sentença, com seus atos executivos próprios em razão da
obrigação fixada.
A condenação do réu fixada na sentença poderá determinar variadas espécies
de obrigações em desfavor do réu. Poderá fixar a obrigação de pagar dinheiro,
obrigação de fazer ou não fazer, obrigação de entrega de coisa, ou até mesmo
obrigação de emitir declaração de vontade. Em atenção às características dessas
obrigações, elas serão abordadas separadamente.

Sentença que condena em obrigação de pagar

Quando a pretensão do autor tem como escopo a condenação do réu em uma


obrigação de pagar, o juiz, ao julgá-la procedente, determinará o seu devido pagamen-
to fixando na sentença, de forma precisa, o valor e sua forma de atualização. O art.
491 do CPC dispõe que a sentença, nas obrigações de pagar, definirá, desde logo, a
extensão da obrigação, o índice de correção monetária, a taxa de juros, o termo inicial
de ambos e a periodicidade da capitalização dos juros, se for à hipótese.
Embora não conste na redação do referido dispositivo, o juiz deverá, também,
fixar a condenação ao pagamento das despesas (art. 82, §2º) e honorários advoca-
tícios (art. 85). No que tange aos honorários do advogado, se a sentença for omissa
em relação aos honorários e não forem opostos embargos de declaração para suprir
a referida omissão, o advogado deverá ingressar com uma ação autônoma para que
estes sejam fixados (art. 85, §18º).

capítulo 5 • 123
O Código admite que o autor formule pedido genérico quando não lhe for
possível determinar sua extensão (art. 324, §1º). Entretanto, o juiz, mesmo nesses
casos, deverá sentenciar, observando os critérios do art. 491 do CPC, ou seja,
fixando de forma precisa o seu valor, sendo-lhe vedado proferir sentença ilíquida.
A obrigatoriedade não se aplica, por evidente, nos casos em que: a) não é possível
determinar o montante devido (art. 491, I) ou b) a apuração do valor depende da
produção de prova de realização demorada ou dispendiosa, devendo ser registrado
tal fato na sentença. Nessas hipóteses, o valor devido será apurado em liquidação
de sentença (art. 509).
Dispõe o Código, por fim, que a sentença que condenar o réu a pagar pres-
tação em dinheiro valerá como título constitutivo de hipoteca judiciária (art.
495). O autor poderá apresentar cópia da sentença no respectivo registro de
imóveis, para constituição da garantia, tornando-se credor hipotecário com di-
reito de preferência nos casos de concurso de credores na penhora do imóvel. O
registro poderá ocorrer mesmo antes do trânsito em julgado, conforme disposto
no art. 495, §1º do CPC.
Para se compreender em que consiste essa medida, suponha-se que A ajuizou
uma ação de indenização por ato ilícito em face da Empresa B, pleiteando indeni-
zação pelos danos sofridos e o pagamento de pensão vitalícia em razão da sua in-
capacidade permanente para o trabalho. Os pedidos foram julgados procedentes,
sendo a ré condenada ao pagamento de prestação mensal vitalícia, em dinheiro,
no valor de R$ 3.500,00.
Todavia, inúmeros fatos podem ocorrer ao longo do cumprimento dessa obri-
gação pecuniária mensal, podendo a empresa falir, encerrar irregularmente suas
atividades ou mesmo parar de efetuar o pagamento. Nesses casos, o credor poderá
obter a penhora do imóvel hipotecado como forma de garantia do pagamento da
obrigação. Porém, se sobrevier a reforma ou a invalidação da sentença, o credor
responderá por perdas e danos, independentemente de culpa, nos termos do art.
495, §5º, do CPC.
Por fim, a hipoteca judiciária poderá ser utilizada também nos casos de conversão
de obrigação de fazer ou entrega de coisa em obrigação pecuniária (art. 495).

Sentença que condena em obrigação de fazer ou não fazer

A pretensão autoral poderá limitar-se à condenação do réu em uma obrigação


de fazer ou de não fazer. O juiz, ao sentenciar, nesses casos, concederá a tutela

capítulo 5 • 124
específica para que o réu cumpra a obrigação nos termos formulado pelo autor.
Denomina-se tutela específica porque se buscará, com a sentença, alcançar exata-
mente aquilo que o autor pretende em sua vida de relação.
Assim, se o autor pretende que determinado pedreiro termine a construção
de sua churrasqueira, a tutela específica consistirá exatamente na condenação do
réu em fazê-lo. Por essa razão, o juiz não poderá converter automaticamente, sem
o devido cuidado, a obrigação de fazer em perdas e danos (art. 499). Para a ob-
tenção do cumprimento da tutela específica, o juiz fixará multa (astreintes) como
medida coercitiva cujo principal escopo é forçar o devedor a cumprir a obrigação,
conforme determina o art. 537 do CPC.
O juiz poderá, também, determinar providências que asseguram a obtenção
da tutela pelo resultado prático equivalente. Em alguns casos, o juiz, ao verificar
que a tutela específica pretendida pelo autor não obterá a eficácia necessária, de-
terminará outras providências que possam alcançar o resultado prático equivalente
pretendido pelo autor.
É o que ocorre quando o autor pretende obter tutela específica para que o réu
seja condenado a promover a transferência da propriedade de um veículo junto
ao DETRAN e o juiz, verificando a conduta desidiosa do réu, acolhe o pedido
do autor e determina a expedição de ofício ao DETRAN para que promova a
transferência. Não houve, nesse caso, violação ao princípio da adstrição (art. 492),
mas tão somente aplicação do caput do art. 497 do CPC no sentido de determinar
providências que assegurem o resultado prático equivalente.
O Superior Tribunal de Justiça, ainda na vigência do CPC/1973, reforçou esse
entendimento em diversos precedentes. Os fundamentos determinantes podem
ser extraídos da emanta a seguir:

PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. ADOÇÃO DE MEDIDA


NECESSÁRIA À EFETIVAÇÃO DA TUTELA ESPECÍFICA OU À OBTENÇÃO DO
RESULTADO PRÁTICO EQUIVALENTE. ART. 461, §5º. DO CPC. BLOQUEIO DE
VERBAS PÚBLICAS. POSSIBILIDADE CONFERIDA AO JULGADOR, DE OFÍCIO
OU A REQUERIMENTO DA PARTE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. ACÓRDÃO
SUBMETIDO AO RITO DO ART. 543-C DO CPC E DA RESOLUÇÃO 08/2008 DO STJ.

capítulo 5 • 125
1. Tratando-se de fornecimento de medicamentos, cabe ao Juiz adotar medidas eficazes à
efetivação de suas decisões, podendo, se necessário, determinar até mesmo o sequestro
de valores do devedor (bloqueio), segundo o seu prudente arbítrio, e sempre com
adequada fundamentação.
2. Recurso Especial provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543-C do CPC e da
Resolução 08/2008 do STJ. (REsp 1069810/RS).

A tutela específica poderá ser convertida em perdas e danos nas hipóteses le-
gais. O art. 499 dispõe que a obrigação somente será convertida em perdas e danos
se o autor requerer ou se impossível a concretização da tutela específica ou mesmo
a obtenção do resultado do prático equivalente. A conversão, na segunda hipótese,
somente poderá ser efetivada após a manifestação das partes, em atenção ao prin-
cípio do contraditório qualificado (art. 10). Nessa situação, a conversão não afasta
a incidência da multa fixada até então, que poderá ser executada em conjunto com
a obrigação de pagar.

Sentença que condena em obrigação de entrega de coisa

A obrigação de entrega de coisa não demanda mais detalhamentos. Proferida


a sentença que determina a entrega de determinada coisa, o juiz fixará prazo para
que a obrigação seja cumprida. Considerando que se trata de uma modalidade de
tutela específica, o juiz fixará prazo suficiente para se alcançar o cumprimento da
obrigação (art. 498).
Quando a obrigação tiver como objeto entrega de coisa determinada pelo
gênero (por exemplo, peixes) ou pela quantidade (um caminhão de melancias),
o autor deverá individualizá-la na petição inicial, se a escolha do gênero ou
da quantidade lhe couber. Se a escolha couber ao réu, o juiz fixará prazo para
sua individualização.

capítulo 5 • 126
Caso haja a impossibilidade no cumprimento de entrega da coisa, em razão
do deterioramento ou de força maior, o juiz poderá converter em perdas e danos,
fixando a respectiva obrigação de pagar.

Sentença que condena em obrigação de emitir declaração de vontade

Na vida de relação há situações em que uma pessoa depende de ato de outra


pessoa para concretizar a quitação de determinado negócio jurídico. É o que
ocorre quando um imóvel financiado foi adquirido através de contrato de gaveta
e o adquirente, após a quitação, pretende obter junto ao banco financiador uma
declaração de quitação, para registrar o imóvel em seu nome, mas depende do
comparecimento da pessoa que figura como comprador no contrato de finan-
ciamento originário.
Se o comprador originário comparecer voluntariamente o problema estará
resolvido. Se o comprador se negar a comparecer ou emitir a correspondente de-
claração, o adquirente que quitou o imóvel necessitará de uma tutela específica
para obter judicialmente a emissão da declaração de vontade. É para essa fina-
lidade que o Código dispõe sobre o respectivo pedido de emissão de declaração
de vontade que, se julgado procedente, ensejará uma sentença com o mesmo
conteúdo e eficácia.
Segundo o art. 501 do CPC, na ação que tenha por objeto a emissão
de declaração de vontade, a sentença de procedência transitada em julga-
do produzirá todos os efeitos da declaração não emitida. Essa modalidade
de tutela específica dispensa fixação de multa ou medidas de apoio, pois a
própria sentença teria eficácia plena para se atingir a declaração de vontade
perseguida pelo autor.
Assim, a negativa do comprador originário em nada prejudicará o au-
tor, que obterá a declaração de vontade através da sentença proferida, que
viabilizará a declaração de quitação do crédito e a respectiva averbação no
registro de imóveis.

capítulo 5 • 127
Remessa necessária

Publicada a sentença, a parte sucumbente poderá interpor recurso de apela-


ção, no prazo de quinze dias, objetivando a reapreciação do julgado. O recurso
interposto pela parte, nessa hipótese, será voluntário. Por sua vez, há casos em que
a reapreciação do julgado será obrigatória, independentemente de recurso inter-
posto pela parte. Trata-se da denominada remessa necessária, nos casos em que
a sentença proferida contrariar os interesses da Fazenda Pública1. Essa regra tem

1 O STJ limitou a aplicação da regra em algumas hipóteses em relação ao INSS, conforme ementa: EXECUÇÃO
DE SENTENÇA. DUPLO GRAU OBRIGATÓRIO. AUTARQUIA. DESCABIMENTO. A Corte Especial decidiu, por
maioria, que a sentença que julgar improcedentes os embargos à execução de título judicial opostos pela autarquia,
no caso o INSS, não está sujeita ao reexame necessário (art. 475, II, CPC). EREsp 226.387-RS, Rel. originário Min.
Garcia Vieira, Rel. para acórdão Min. Fontes de Alencar, julgado em 7/3/2001.

capítulo 5 • 128
como escopo garantir mais controle sobre as decisões contrárias à Fazenda Pública
em razão do interesse público envolvido.
Segundo a redação do art. 496, está sujeita à remessa necessária a sentença: a)
proferida contra a União, os estados, o Distrito Federal, os municípios e suas res-
pectivas autarquias e fundações de direito público ou a que b) julgar procedentes,
no todo ou em parte, os embargos à execução fiscal. Em ambos os casos, os interes-
ses da Fazenda Pública foram contrariados e a sentença somente terá eficácia após
a sua revisão em segunda instância.
As providências cabíveis para a remessa necessária terão início após o esgo-
tamento do prazo para interposição voluntária do recurso de apelação (art. 496,
§1º). A regra se justifica à medida que, se a Fazenda Pública recorrer voluntaria-
mente, a remessa necessária será dispensada. Assim, se a Fazenda Pública estadual
for condenada a pagar a quantia de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) e in-
terpor recurso de apelação para apontar o erro de julgamento do juiz, a remessa
necessária será dispensada considerando que o próprio recurso interposto provo-
cará a revisão do julgamento contrário ao ente estadual. Todavia, se a procurador
do estado não interpor recurso de apelação voluntariamente o juiz sentenciante
deverá encaminhar os autos ao respectivo tribunal o qual está vinculado sob pena
de nulidade do próprio julgado (art. 496, §2º).
Nos termos do art. 496, §3º, do CPC, a remessa necessária não será cabível
se a condenação ou proveito econômico perseguido no processo for inferior a: a)
1.000 (mil) salários mínimos para a União e as respectivas autarquias e funda-
ções de direito público; b) 500 (quinhentos) salários mínimos para os Estados,
o Distrito Federal, as respectivas autarquias e fundações de direito público e os
Municípios que constituam capitais dos Estados e c) 100 (cem) salários míni-
mos para todos os demais Municípios e respectivas autarquias e fundações de
direito público2.
A remessa necessária não será cabível, similarmente, se a sentença em desfavor
da Fazenda Pública estiver fundamentada em precedentes judiciais do próprio tri-
bunal ou de tribunais superiores. Nessa hipótese, o critério que excepciona a regra
do caput do art. 496 do CPC independe do valor da condenação. O Código optou
por fortalecer o sistema de precedentes judiciais mesmo quando for contrário aos
interesses da Fazenda Pública.

2  Em conformidade com a Súmula nº 490 do STJ, a referida dispensa não se aplica às sentenças ilíquidas. Embora
a súmula tenha sido editada sob a égide do CPC/1973, sua orientação é perfeitamente aplicável às dispensas do
art. 496 do CPC/2015.

capítulo 5 • 129
Recebida a remessa necessária no respectivo tribunal, o relator poderá julgar
monocraticamente em conformidade com a súmula 253 do STJ. É comum, na
prática forense, a confirmação da sentença em reexame necessário, mas se faz ne-
cessário destacar que o tribunal poderá reapreciar todas as questões de fato e de
direito debatidas na demanda, podendo, inclusive, reformar ou invalidar a deci-
são judicial. Os precedentes judiciais do TJRJ, transcritos a seguir, evidenciam
essa assertiva:

Direito Administrativo. Município de Valença. Pagamento de horas extras. Limite legal.


Repercussão na gratificação natalina. Contribuição previdenciária. Apelação parcialmente
provida, com reforma parcial da sentença no reexame necessário. Correção de ofício. 1.
A Administração Pública está jungida ao princípio da legalidade (art. 37 caput CF). 2.
Se a legislação municipal veda a prestação do serviço por mais de duas horas diárias
além da jornada de trabalho, esse é o limite a ser pago pelo Poder Público. 3. Eventual
excesso, caso, efetivamente, se verifique, deve ser objeto ou de tutela inibitória ou de
outra pretensão de natureza compensatória, mas não cria o direito ao recebimento do
excedente além do limite legal. 4. A legislação municipal é ainda clara no sentido de
que as horas extras integram a remuneração e, portanto, deve o décimo terceiro salário,
correspondente à remuneração de dezembro, ser pago com sua inclusão. 5. Se as horas
extras não irão integrar os proventos, não cabe descontar a contribuição previdenciária.
6. A sucumbência é recíproca. 7. Adequação do dispositivo quanto à correção monetária
e aos juros de mora ao decidido pelo STF no bojo das ADIs 4.357 e 4.425. 8. Apelação
a que se dá parcial provimento, reformando-se ainda em parte a sentença no reexame
necessário e de ofício. (0007157-70.2013.8.19.0064 – APELAÇÃO – Des(a).
HORÁCIO DOS SANTOS RIBEIRO NETO – Julgamento: 18/04/2017 – DÉCIMA
QUINTA CÂMARA CÍVEL).

REEXAME NECESSÁRIO. DIREITO ADMINISTRATIVO. AÇÃO DE COBRANÇA.


POLICIAL MILITAR REFORMADO. FÉRIAS E LICENÇA-PRÊMIO NÃO USUFRUÍDAS
NA ATIVA. INDENIZAÇÃO DEVIDA. ART. 7º, XVII, DA CRFB/88 E ART. 65, DA LEI Nº
443/81. VEDAÇÃO AO ENRIQUECIMENTO ILÍCITO (ART. 884, DO CC). DEVER DE
PAGAMENTO DO TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS (ANO 2012). REFORMA
PARCIAL DA SENTENÇA.

capítulo 5 • 130
A CRFB/88 prevê o direito a férias anuais, com acréscimo de um terço do salário, no art.
7º, XVII; e o art. 65, do Estatuto da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, estabelece
o direito à licença especial, após dez anos de serviço ininterrupto. Réu que não indica
qualquer fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, na forma do art.
375, II, do CPC/2015. Por outro lado, informa que a licença especial não foi contada em
dobro para fins de aposentadoria, hipótese de cabimento da indenização em pecúnia, de
modo a evitar o enriquecimento sem causa do Poder Público. Sentença correta quanto
à fluência da correção monetária a partir da data limite em que poderiam ter sido fruídas
as férias e a licença especial, de modo a compensar a perda inflacionária da moeda, na
forma da Lei nº 9.494/97 (art. 1º-F, com a redação dada pela Lei nº 11.960/09), até que
a Suprema Corte decida, em sede de repercussão geral, acerca do regime de atualização
monetária e juros moratórios incidente sobre dívidas da Fazenda Pública (RE nº 870.947/
SE). Honorários advocatícios que deverão ser fixados quando da liquidação do julgado,
em consonância com a sentença (art. 85, §4º, II, do CPC/2015). Dever de pagamento
pelo Estado réu do terço constitucional de férias relativamente ao ano de 2012.
SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA EM REEXAME NECESSÁRIO. (0097371-
68.2014.8.19.0001 – REMESSA NECESSARIA – Relatora Des(a). MARIA HELENA
PINTO MACHADO MARTINS – Julgamento: 15/03/2017 – QUARTA CÂMARA CÍVEL).

A remessa necessária permite a ampla revisão do julgado, tanto em intensi-


dade quanto em extensão, assegurando uma análise acurada nas causas em que a
Fazenda Pública for condenada.

Homologação de sentença estrangeira

O aumento considerável do número de pessoas circulando pelo mundo, agra-


vado pela ampliação do consumo através da rede mundial de computadores e
pelo próprio aprofundamento da globalização, contribuiu para o estabelecendo de
relações jurídicas para além das fronteiras nacionais. Um cidadão brasileiro pode
contratar um serviço de uma empresa chinesa ou mesmo adquirir um veículo em
uma viagem de turismo em Paris.
Por essa razão, os conflitos decorrentes dessas relações jurídicas podem ser
solucionados tanto pela justiça brasileira ou pela justiça estrangeira, conforme dis-
põe os arts. 22 e 23 do CPC (competência internacional concorrente). Assim, se

capítulo 5 • 131
um consumidor brasileiro sofre um ilícito em determinada relação de consumo
com uma empresa italiana poderá ingressar a respectiva ação na Justiça italiana.
Por outro lado, um menor brasileiro poderá ajuizar uma ação de alimentos, na
Alemanha, em face do seu pai e ter sua pretensão acolhida pelo juízo alemão.
A sentença estrangeira, entretanto, não produz efeitos imediatamente no
Brasil. A sentença italiana que condena a empresa prestadora de serviços ou mes-
mo a sentença condenatória alemã, embora trate de direitos de cidadãos brasileiros
não terá eficácia no território brasileiro. Para que a sentença estrangeira produza
efeitos no Brasil se faz necessário homologar a referida decisão perante o Poder
Judiciário Brasileiro.
Cuida-se, portanto, do procedimento de homologação de sentença estrangei-
ra, que tem como objetivo promover o transporte de sua eficácia para o território
brasileira. Homologada a sentença pelo Superior Tribunal de Justiça esta terá os
mesmos efeitos que a sentença proferida por juiz brasileiro.

Sentença estrangeira passível de homologação no Brasil

Segundo dispõe o art. 961 do CPC, a decisão estrangeira somente terá eficácia
no Brasil após a sua homologação ou a concessão do exequatur às cartas rogatórias.
Neste contexto, a decisão judicial definitiva como também a decisão não judicial,
mas que equivale à decisão judicial no Brasil poderá ser devidamente homologado
através deste procedimento. Assim, tanto a sentença de um juiz norte-americano
como um ato de um rei, em países monárquicos em que o rei possui alguns poderes
jurisdicionais, poderão, por sua natureza jurisdicional, ser homologado no Brasil.
A homologação de sentença estrangeira poderá ser dispensada em alguns casos.
O art. 961, §5º do CPC dispensa a homologação de sentença estrangeira nos casos
de divórcio consensual. Dispensa-se, similarmente, a homologação de sentença ar-
bitral estrangeira quando estiver em conformidade com tratados internacionais com
eficácia no ordenamento interno, de acordo com o art. 34 da Lei nº 9.307/1996. Se
a sentença estrangeira arbitral não estiver em conformidade com a mencionada regra
deverá ser submetida ao procedimento de homologação de sentença estrangeira.
Não se homologará sentença estrangeira nos casos de competência exclusiva do
Brasil (art. 964). A regra, de certo modo, é desnecessária, uma vez que se uma sen-
tença estrangeira tratar de temas cuja competência é exclusiva da Justiça brasileira
(art. 23) haverá incompetência absoluta, que constitui vício insanável.

capítulo 5 • 132
A decisão estrangeira concessiva de tutela de urgência poderá de igual modo, ser
executada no Brasil. O procedimento, nesse caso específico, será realizado mediante
carta rogatória, nos termos do art. 962 do CPC.

Requisitos

No procedimento de homologação de sentença estrangeira o Superior


Tribunal de Justiça não reapreciará o mérito da decisão. A competência deste
tribunal superior consiste, tão somente, no exercício do juízo de delibação, ou
seja, a verificação da existência ou não dos requisitos elencados no art. 15 da Lei de
Introdução às Normas do Direito Brasileiro e no art. 963 do CPC. O art. 963 re-
produz os requisitos o art. 15 da LINDB e amplia, em alguma medida seu alcance.
Segundo o art. 963 do CPC constituem requisitos indispensáveis à homo-
logação: a) ser proferida por autoridade competente; b) ser precedida de citação
regular, ainda que verificada a revelia; c) ser eficaz no país em que foi proferida; d)
não ofender a coisa julgada brasileira; e) estar acompanhada de tradução oficial,
salvo disposição que a dispense prevista em tratado e f ) não conter manifesta
ofensa à ordem pública.
A atividade cognitiva do Superior Tribunal de Justiça se limita, como foi dito,
a verificação da existência dos requisitos acima. Se estiverem presentes os requisi-
tos mencionados a ação de homologação será julgada procedente e passará irradiar
seus efeitos no Brasil, ou improcedente se algum deles não estiver presente.
Por fim, importa destacar a peculiaridade do requisito elencado ano art. 963,
VI, do CPC. Não se homologará a sentença estrangeira se esta contemplar matéria
que ofende a ordem jurídica brasileira. Assim, não se homologa sentença estran-
geira que acolhe pedido do autor no sentido de pôr fim a própria vida, pois não há
legislação compatível com essa pretensão no direito posto.

Procedimento

O procedimento da ação de homologação de sentença estrangeira é regulado


pelo Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, com redação dada pela
Emenda Regimental nº 18 de 17 de dezembro de 2014. A resolução reproduz as
normas do art. 960 e seguintes do CPC, quanto ao cabimento da homologação
de sentença estrangeira, e dispõe sobre o procedimento da ação de homologação.

capítulo 5 • 133
Compete ao presidente do tribunal homologar a sentença estrangeira, confor-
me disposto no art. 216-A do RISTJ. Contudo, se a parte ré contestar a ação de
homologação, a competência será direcionada para um dos órgãos fracionários do
tribunal, em atenção ao disposto no art. 216-K do RISTJ.
Antes de avançarmos no estudo do procedimento, convém analisar quem tem
legitimidade para propor a ação de homologação. A legitimidade para ajuiza-
mento da ação de homologação de sentença estrangeira não guarda relação com a
legitimidade do processo oriundo do Estado estrangeiro.
Para exemplificar, suponha que um laboratório farmacêutico foi condenado
a abster-se de comercializar determinada substância química prejudicial aos pa-
cientes com hipertensão. A ação foi ajuizada na Espanha e o tribunal espanhol
julgou procedente o pedido formulado por um determinado órgão público. Após
ter ciência dessa condenação transitada em julgado na Espanha, a Associação de
Hipertensos Brasileira ingressa com ação de homologação de sentença estrangei-
ra em face da filial do laboratório no Brasil com o objetivo de transpor para o
território nacional os efeitos da sentença europeia. Comprovada a existência dos
requisitos em juízo de delibação, a sentença estrangeira produzirá efeitos no Brasil
para determinar a interrupção da comercialização da mesma substância química.
Assim, a legitimidade decorre do justificado interesse do autor em ver a sentença
estrangeira homologada no Brasil, ainda que não tenha figurado como parte no
Estado estrangeiro.
Após a verificação dos requisitos necessários para a homologação, o presidente
do tribunal admitirá a petição inicial (art. 216-C do RISTJ) e determinará a
citação do interessado para apresentar contestação no prazo de quinze dias. Se a
petição não estiver fundamentada de forma adequada, o presidente determinará,
em prazo previamente assinalado, a emenda da inicial (art. 216-E do RISTJ).
Providenciada a emenda, o procedimento seguirá com a citação do réu. Caso a
irregularidade não seja cumprida no prazo assinalado, a petição será arquivada
pelo presidente (art. 216-E, § único, do RISTJ).
A parte interessada será citada para contestar no prazo de quinze dias (art.
216-H do RISTJ). O réu poderá a) permanecer inerte ou b) contestar a ação.
Permanecendo inerte, o presidente decretará sua revelia, nomeará curador espe-
cial nos termos do art. 216-I do RISTJ e encaminhará os autos para vista do
Ministério Público (art. 216-L RISTJ). Em seguida, os autos serão encaminhados
ao presidente, que proferirá decisão acolhendo o pedido ou rejeitando-o, nos casos
em que os requisitos não estejam presentes.

capítulo 5 • 134
Sendo contestada a ação, serão admitidas réplica e tréplica, no prazo de cin-
co dias, nos termos do art. 216-J do RISTJ, e em seguida o presidente deter-
minará a distribuição do processo para Corte Especial, sendo nomeado relator
para dar andamento ao processo e providenciar a instrução da causa (art. 216-K
do RISTJ). Concluída a fase instrutória, o relator colocará o processo em pauta
para julgamento.
Homologada a sentença estrangeira, pelo presidente ou pela Corte Especial,
a parte interessada poderá interpor recurso de agravo contra a decisão homo-
logatória (art. 216-M do RISTJ). Após o trânsito em julgado, será expedida a
competente carta de sentença para viabilizar sua execução perante o Juízo Federal
competente (art. 216-N do RISTJ).
O procedimento de homologação de sentença estrangeira é cindido, caben-
do ao STJ homologar a sentença alienígena e ao Juízo Federal a execução, inde-
pendentemente da matéria que compõe seu objeto. O procedimento pode ser
visualizado da seguinte forma:

Coisa julgada

A coisa julgada tem como principal finalidade garantir a segurança jurídica


no Estado Democrático de Direito. É nesse contexto que a Constituição Federal
assegura, em seu art. 5º, XXXVI, que a lei, em nenhuma hipótese, prejudicará a
coisa julgada. Não se concebe um Estado em que os conflitos sociais e jurídicos
perdurem infinitamente. Por essa razão, o fenômeno da coisa julgada, enquanto
direito fundamental, tem como foco principal estabilizar a decisão judicial que

capítulo 5 • 135
resolveu determinado conflito, após propiciar o pleno exercício do contraditório e
da ampla defesa no decorrer da atividade judicial.

Coisa julgada formal e material

Em harmonia com art. 502 do CPC, denomina-se coisa julgada material a


autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita
a recurso. O que foi decidido na sentença de mérito, em que se operou a coisa
julgada material, não poderá mais ser discutido no processo em que foi proferida
a decisão nem em qualquer outro processo. Por exemplo, a rescisão contratual
declarada por sentença, após o trânsito em julgado e o estabelecimento da coisa
julgada, não mais poderá ser discutida em nenhum outro processo, salvo nas hi-
póteses de ação rescisória, o que será abordado adiante.
Diversamente, a coisa julgada formal corresponde à impossibilidade de se dis-
cutir a matéria no mesmo processo em que foi proferida, podendo ser discutida
em outro processo. É correto afirmar que, quando o juiz julga o mérito de uma
causa, acolhendo ou não o pedido do autor, ocorrerá a coisa julgada material e
formal. Assim, não mais poderá o autor reabrir a discussão sobre o tema, seja no
mesmo processo, seja em outro processo.
Entretanto, a decisão que extinguir o processo sem resolução do mérito, fun-
damentada em uma das hipóteses do art. 485 do CPC, fará somente coisa julgada
formal, podendo a parte renovar a discussão em outro processo, conforme inter-
pretação literal do art. 486 do CPC. O ajuizamento da nova demanda somente
não será admissível se ocorrer a perempção (art. 486, §3º).

Limites subjetivos e objetivos da coisa julgada

Ocorrendo a coisa julgada, se faz indispensável identificar seus limites. Os


limites subjetivos da coisa julgada estão relacionados com as pessoas que serão
afetadas por ela. Em conformidade com art. 506 do CPC, a sentença faz coisa
julgada entre as partes, não prejudicando terceiros. Assim, se A ingressa com uma
ação em face de B discutindo a propriedade de um veículo, a coisa julgada, nesse
caso, alcançará somente A e B. Entretanto, se C ajuizar uma ação em face de B
discutindo a propriedade do mesmo veículo, este último não poderá alegar como
defesa processual a coisa julgada (art. 337, VII), pois os limites da coisa julgada no
processo anterior não alcançaram C.

capítulo 5 • 136
A regra não se aplica nas hipóteses de alienação de bem litigioso. Segundo
redação do art. 109, §3º, do CPC, os efeitos da sentença proferida entre as partes
originárias se estendem ao adquirente e ao cessionário.
Os limites objetivos da coisa julgada correspondem ao tratamento da questão
principal expressamente decidida na sentença de mérito. É nessa circunstância
que a sentença de mérito tem força de lei, nos termos do art. 503 do CPC. Se
for proposta uma ação pleiteando a rescisão contratual por inadimplemento e o
juiz acolher o pedido do autor, os limites da coisa julgada englobarão a questão
principal debatida (rescisão contratual), não mais podendo ser discutida em outro
processo. Todavia, poderá o autor propor nova demanda para pleitear indenização
pelo inadimplemento, uma vez que tal pretensão não foi alcançada pelos limites
objetivos da coisa julgada. Em outras palavras, o pedido do autor não poderá ser
reformulado em outra demanda.
É na parte dispositiva da sentença, em regra, que se reconhece o limite obje-
tivo da coisa julgada. Por esse motivo, o art. 504 do CPC estatui que não fazem
coisa julgada os motivos, ainda que importantes, para determinar o alcance da
parte dispositiva da sentença (art. 504, I) e a verdade dos fatos, estabelecida como
fundamento da sentença (art. 504, II).

Extensão da coisa julgada às questões prejudiciais

Em alguns casos, a resolução da questão principal dependerá da resolução


da questão prejudicial decidida em juízo. Com efeito, para se decidir sobre se é
cabível a reintegração de posse, o juiz deverá, antes de resolver o mérito, apreciar
a questão prejudicial alegada, caracterizada pela suposta existência de contrato de
locação. A questão principal (reintegração de posse) dependerá da resolução da
questão prejudicial (existência de contrato de locação). Entretanto, na vigência do
CPC/1973, a questão prejudicial decidida não era acobertada pela coisa julgada,
podendo a mesma ser renovada em outro processo, salvo nos casos em que a parte
promovesse ação declaratória incidental.
O Código de Processo Civil avançou consideravelmente neste aspecto ao ad-
mitir a incidência da coisa julgada sobre a questão prejudicial decidida, propician-
do a solução integral do mérito (art. 6º). Consoante dispõe o art. 503, §1º, do
CPC, a questão prejudicial decidida expressamente fará coisa julgada quando: a)
dessa resolução depender o julgamento do mérito; b) a seu respeito tiver havido
contraditório prévio e efetivo, não aplicando no caso de revelia; e c) o juízo tiver

capítulo 5 • 137
competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão prin-
cipal. Preenchidos os requisitos legais, o julgamento da questão prejudicial fará
coisa julgada material.
A questão prejudicial não será acobertada pela coisa julgada nos casos em que
houver restrições probatórias ou limitações à cognição que inviabilizem a análise
aprofundada da questão prejudicial. Em tais casos, a questão prejudicial não fará
coisa julgada, podendo ser discutida em um novo processo (art. 503, §2º).

Preclusão e eficácia preclusiva da coisa julgada

O art. 507 do CPC veda à parte discutir, no curso do processo, as questões já


decididas anteriormente – cuida-se da preclusão (que poderá ser lógica, temporal
ou consumativa). A restrição aplica-se tanto às partes como ao juiz. A preclusão é
a perda do direito de se praticar um ato dentro do processo e poderá ocorrer em
vários momentos do processo. A principal finalidade da preclusão é assegurar a
marcha processual contínua e para a frente, pois, sendo praticado ou não o ato, o
processo avançará para a etapa seguinte.
Diversamente, a coisa julgada é um direito fundamental que tem como obje-
tivo primordial estabilizar as questões principais decididas pelo Poder Judiciário e
garantir a segurança jurídica.
Por outro lado, a eficácia preclusiva da coisa julgada (art. 508) é o fenômeno
processual que consiste em considerar, após o trânsito julgado, deduzida e repelida
toda sorte de alegações que as partes poderiam citar, mas que, por algum motivo,
não citaram. Assim, não poderá a parte autora, que teve sua pretensão indenizató-
ria julgada improcedente, renovar a demanda com novas alegações, que poderiam
ter sido articuladas no processo anterior, para tentar obter resultado positivo.

Relação jurídica de trato sucessivo

O Código deu tratamento diferenciado às relações de trato sucessivo. São as


obrigações que se renovam sucessivamente ao longo do tempo, tal como ocorre
nas prestações alimentícias. O art. 505 do CPC diz que é vedado ao juiz decidir
novamente questões já decididas. Contudo, a regra não se aplicará aos casos que
tenham como objeto relação jurídicas de trato continuado e nos quais sobrevier
modificação no estado de fato e de direito. Nessas hipóteses, a parte poderá pedir
a revisão do que foi estatuído na sentença (art. 505, I).

capítulo 5 • 138
É o que ocorre comumente nas sentenças que fixam alimentos. Havendo au-
mento das necessidades do alimentando ou redução da possibilidade, o interessa-
do poderá pedir a revisão do percentual estabelecido, mesmo após o trânsito em
julgado. É a própria natureza da obrigação, por ser sucessiva, que autoriza o afas-
tamento da incidência da coisa julgada. Enquanto a obrigação perdurar, poderá
ser revista nos termos do art. 505, I, do CPC.

Coisa julgada no processo coletivo

No processo coletivo, a coisa julgada é sensivelmente remodelada. A sentença


coletiva, por vezes, afeta o interesse de diversas pessoas, quer integrem a relação
jurídica processual, quer não. Isso ocorre porque a sentença genérica tem como
objeto os direitos coletivos, difusos ou individuais homogêneos.
A coisa julgada no processo coletivo tem regime próprio e ocorrerá de acordo
com o direito tutelado e com o resultado obtido com o processo. O art. 103 do
Código de Defesa do Consumidor apresenta três regras para a incidência da coisa
julgada. Ocorrerá a coisa julgada: a) erga omnes, nas ações coletivas, exceto se o
pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que
qualquer legitimado poderá intentar outra ação, com idêntico fundamento, va-
lendo-se de nova prova (art. 103, I); b) ultra partes, mas limitadamente ao grupo,
categoria ou classe, salvo improcedência por insuficiência de provas (art. 103, II);
e c) erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar todas as
vítimas e seus sucessores.
Em observância à própria dimensão do processo coletivo e à extensão de pes-
soas afetadas pela sentença coletiva, a coisa julgada, em regra, somente incidirá se
for procedente ou improcedente, com base em provas que não deixam dúvidas so-
bre a questão debatida. Nas demais hipóteses, a ação coletiva poderá ser renovada
por outro legitimado.

Ação rescisória

A coisa julgada torna indiscutível e imutável a questão principal, decidida


na sentença de mérito. Até mesmos os vícios sanáveis são suplantados pela coisa
julgada. Porém, há vícios, considerados insanáveis pelo Código, que permanecem
mesmo após a ocorrência da coisa julgada. Nesses casos, caberá ação rescisória com

capítulo 5 • 139
o objetivo de afastar o manto da coisa julgada e possibilitar o novo julgamento da
causa ou mesmo remover o vício insanável.
A ação rescisória deve ser proposta no prazo de 2 (dois) anos, contados a partir
do trânsito em julgado da última decisão proferida no processo (art. 975). A regra
reproduziu, na integralidade, o verbete da Súmula nº 410 do Superior Tribunal de
Justiça. A definição clara acerca do momento em que o prazo decadencial se iniciará
é relevante, pois eliminou diversas dúvidas práticas sobre o ajuizamento da ação
rescisória. Por exemplo, é cabível ação rescisória contra sentença de primeiro grau?
A resposta positiva se impõe, devendo a parte interessada propor a ação rescisória no
prazo de 2 anos, contados a partir do trânsito em julgado da sentença.

Natureza jurídica

A ação rescisória é uma ação autônoma de impugnação de decisão judicial,


que tem como objeto o afastamento da coisa julgada nos casos em que ocorreu
um dos vícios elencados no art. 966 do CPC. É uma ação originária, que tem seu
início na segunda instância e acarretará reapreciação, em profundidade, da decisão
que se busca rescindir.
A ação rescisória não se confunde com recurso. O recurso é interposto na
mesma relação jurídica processual. Diversamente, a ação rescisória iniciará uma
nova relação processual, não se confundindo com recurso. O recurso é interposto
antes do trânsito em julgado. A ação rescisória terá cabimento no dia seguinte a
trânsito julgado.
Compreendida a finalidade da ação rescisória em nosso ordenamento jurídico,
passemos à análise de seu procedimento.

Ação rescisória e ação anulatória

Antes de analisar o procedimento da ação rescisória, convém diferenciá-la da


ação anulatória.
A ação rescisória será sempre cabível para afastar vício insanável de decisão de
mérito proferida por juiz ou colegiado. A ação anulatória, por sua vez, é cabível
para impugnar vícios decorrentes de atos unilaterais de vontade (confissão, renún-
cia, entre outros), como também sentença homologatória de atos praticados na
fase de conhecimento ou na execução.

capítulo 5 • 140
Embora ambas tenham natureza de ação autônoma de impugnação de decisão
judicial, não há dúvidas acerca do objeto de uma e de outra, conforme disposto
no art. 966, §4º, do CPC.

Cabimento

A coisa julgada é um direito fundamental e seu afastamento somente pode


ser autorizado em hipóteses restritas. Por esse fundamento, é cabível ação resci-
sória, observando o rol taxativo do art. 966 do CPC. Será cabível ação rescisória
quando: a) se verificar que foi proferida por força de prevaricação, concussão ou
corrupção do juiz; b) for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente
incompetente; c) resultar de dolo ou coação da parte vencedora em detrimento da
parte vencida ou, ainda, de simulação ou colusão entre as partes, a fim de fraudar a
lei; d) ofender a coisa julgada; e) violar manifestamente norma jurídica; f ) for fun-
dada em prova cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou venha a
ser demonstrada na própria ação rescisória; g) obtiver o autor, posteriormente ao
trânsito em julgado, prova nova cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer
uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável; e h) for fundada
em erro de fato verificável do exame dos autos.
O art. 966, VII, estatuiu o entendimento consolidado do Superior Tribunal
de Justiça acerca do início da contagem do prazo para ajuizamento da ação resci-
sória nas hipóteses em que a referida ação tenha como objeto a alegação acerca da
existência de prova nova. Nesse caso, o termo inicial do prazo para o ajuizamento
da ação rescisória será a data da descoberta da prova nova, observado o prazo de
cinco anos do trânsito em julgada da decisão rescindente (art. 975, §2º). O trata-
mento legislativo do tema contribuiu para se definir com clareza o termo inicial
do prazo decadencial para ajuizamento da ação rescisória, bem como estabeleceu
um limite temporal para o ajuizamento da ação.
O CPC/2015 trouxe uma inovação sem precedentes no CPC/1973: a possi-
bilidade de se propor ação rescisória contra decisão terminativa ou sem resolução
de mérito. Em verdade, não se admitia ação rescisória contra sentença que não
resolve o mérito, considerando que o autor poderá renovar a demanda nos termos
do art. 486 do CPC.
Entretanto, há contextos em que a parte autora não terá mais condições de
ajuizar nova demanda ou mesmo interpor recurso contra decisão processual pro-
ferida em razão de algum impedimento. Basta pensar na hipótese de ocorrência

capítulo 5 • 141
de prescrição: a parte autora não terá mais condições de ajuizar a nova demanda.
Para esse caso específico, deverá a parte interessada propor ação rescisória, em face
de uma sentença sem resolução do mérito (art. 966, §2º), como única medida
aplicável à hipótese.
Admite a ação rescisória em face de decisão interlocutória quando esta cui-
dar do mérito da demanda. Cuida-se das hipóteses de julgamento antecipado
parcial do mérito, regulado no art. 356 do CPC. Ocorrendo algum dos vícios
do art. 966 do CPC na sentença parcial, a parte interessada poderá ajuizar a
respectiva ação rescisória.
A ação rescisória não é cabível nos juizados especiais cíveis estaduais, confor-
me dispõe o art. 59 da Lei nº 9.099/95. Não se compreende a restrição, pois todas
as hipóteses do art. 966 do CPC são perfeitamente passíveis de ocorrer em sede de
juizado especial. Caso haja a ocorrência de um vício insanável em decisão judicial
proferida em sede de juizados especiais, a parte poderá buscar a declaração da sua
invalidação a partir de ação de nulidade.

Procedimento

O procedimento da ação rescisória, por se tratar de ação autônoma, se aproxi-


ma, sobremaneira, do procedimento comum regulado no art. 318 e nos seguintes
do CPC. Merecerão destaque, todavia, os atos processuais específicos dessa moda-
lidade de ação autônoma de impugnação.

Legitimidade

A ação rescisória poderá ser proposta por quem foi parte no processo que ori-
ginou a decisão que se pretende rescindir ou por seus sucessores (art. 966, I); pelo
terceiro juridicamente interessando (art. 966, II); pelo Ministério Público (art.
966, III); por aquele que não foi ouvido no processo em que era obrigatória a sua
intervenção (art. 966, IV).
O Ministério Público terá legitimidade nos casos específicos definidos pelo
Código. O art. 279 do CPC estatui que o processo é nulo quando o membro do
Ministério Público não for intimado para acompanhar o processo em que deva in-
tervir. Assim, a sentença, transitada em julgado, proferida num processo em que não
houve intervenção ministerial obrigatória, deverá ser rescindida (art. 966, III, “a”).

capítulo 5 • 142
O órgão ministerial será legitimado, ainda, para propor ação rescisória quando
a decisão rescindenda resultar de colusão ou fraude à lei (art. 966, III, “b”). Essa
hipótese ocorre nos casos em que as partes se utilizam do processo para obter
vantagem indevida. É o que ocorre quando A e B litigam sobre a propriedade de
um imóvel que sabidamente pertence a C. As partes, nesse caso, pretendem obter
indevidamente sentença judicial em favor de um dos fraudadores. Ainda que o
Ministério Público não integre a lide, poderá, como fiscal da lei, ajuizar a respecti-
va ação rescisória. Por fim, o órgão ministerial terá legitimidade para ajuizar a ação
rescisória nos casos em que a lei exige sua atuação (art. 966, III, “c”).
O CPC admite a propositura de ação rescisória por terreiros nas situações em
que sua intervenção era obrigatória no processo que originou a decisão que se pre-
tende rescindir. É o que sucede nos casos em que a lei exige a formação de litiscon-
sórcio necessário e um dos litisconsortes não foi incluído na demanda originária.

Petição inicial

A petição inicial (art. 968) da ação rescisória observará os requisitos do art.


319 do CPC. Conquanto, o Código exige requisitos específicos em relação à peti-
ção inicial da ação rescisória. Ao elaborar a petição inicial, o autor deverá cumular
o pedido de rescisão, se for o caso, com o de novo julgamento (art. 968, I) e depo-
sitar a importância de 5% do valor da causa (art. 968, II).
Passemos à análise de cada um desses requisitos específicos.

Pedido rescindente e pedido rescisório

A ação rescisória, por sua natureza, tem dois objetos distintos. O primeiro
pedido formulado pelo autor é a rescisão do julgado. Rescindir, do latim rescin-
dere, significa “rasgar”. Por essa razão, o autor deve formular primeiramente o
pedido de rescisão da coisa julgada estabelecida na decisão que se pretende rever.
O tribunal não poderá reapreciar o julgado sem antes rescindir a coisa julgada
que o acoberta.
O pedido rescisório, referente ao novo julgamento, também deverá ser formu-
lado nos casos em que for cabível. Evidentemente, não são em todas as ações res-
cisórias que o autor deverá formular pedido rescisório. Deverá fazê-lo tão somente
nas hipóteses em que há a necessidade de um novo julgamento da causa.

capítulo 5 • 143
Por exemplo: a ação rescisória proferida contra uma decisão proferida por
juiz incompetente ou impedido. Nesse contexto, o autor da ação rescisória deverá
cumular, obrigatoriamente, pedido rescindente (afastamento da barreira da coisa
julgada) e pedido rescisório (novo julgamento por competente ou imparcial).
O mesmo não ocorre quando a ação rescisória tem como fundamento o art.
966, IV, do CPC. Nessa situação, o autor pretende ver declarada a nulidade da
segunda coisa julgada, considerando que já havia coisa julgada anteriormente so-
bre o mesmo tema. O acolhimento do pedido rescindente, com o afastamento
da segunda coisa julgada, por si só, sanará o vício, assegurando a prevalência da
primeira coisa julgada. Não haverá, portanto, necessidade de novo julgamento, o
que dispensa a cumulação de pedidos.

Depósito

Para evitar que a ação rescisória seja utilizada indevidamente ou mesmo de


forma protelatória, o Código exige que o autor deposite a quantia correspondente
a 5% do valor da causa, devidamente atualizado.
O Código estabeleceu um teto em relação a essa exigência quando o valor
do depósito exceder 1.000 (mil) salários mínimos (art. 968, §2º). A exigência
do depósito também será dispensada quando a parte autora for União, estados,
municípios, Ministério Público, órgãos públicos e nos casos em que o autor for
beneficiário da gratuidade da Justiça (art. 968, §1º).
O depósito tem como função primeira coibir o manejo indevido da ação res-
cisória. Desse modo, se a ação rescisória for inadmitida ou julgada improcedente
por unanimidade, o depósito será convertido em multa (art. 968, II) e revertido
em favor do réu da ação rescisória (art. 974, § único).

Indeferimento da inicial e improcedência liminar do pedido

A petição inicial poderá ser indeferida, nas hipóteses do art. 330 do CPC,
resguardado o direito à emenda da inicial. A segunda causa de indeferimento da
petição inicial da ação rescisória decorre da ausência do depósito mencionado,
conforme disposto no art. 968, §3º, do CPC.
O tribunal poderá também julgar improcedente o pedido via liminar, nos
termos do art. 332 do CPC. A regra do art. 968, §4º, do CPC, dispensa maiores
detalhes, considerando que foi abordada no capítulo 1 desta obra.

capítulo 5 • 144
Competência

Definir a competência para o ajuizamento da ação rescisória nem sempre é


tarefa fácil. Em regra, a ação rescisória será proposta perante os tribunais onde
ocorreu o trânsito em julgado, observando seus respectivos regimentos internos.
Entretanto, em se tratando da competência do STF e do STJ para julgamen-
to da ação rescisória, se faz necessário abordar o tema com maior atenção. Os
tribunais têm competência para julgar ação rescisória proposta contra decisões
monocráticas ou acórdãos que tenham enfrentado o mérito do recurso interposto.
Nos casos em que o recurso não é conhecido (inadmitido), a competência é do
tribunal local.
Para compreender adequadamente a situação exposta, pense na hipótese de
recurso extraordinário interposto contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado
de São Paulo. Se o recurso extraordinário for admitido e o mérito julgado, a com-
petência para julgamento da ação rescisória será do STF. Mas, se o recurso ex-
traordinário não for sequer admitido, a competência para o ajuizamento da ação
rescisória será do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
A Súmula nº 249 do STF serve como orientação segura nesse aspecto: “É
competente o Supremo Tribunal Federal para ação rescisória quando, embora não
tendo conhecido do recurso extraordinário, ou havendo negado provimento ao
agravo, tiver apreciado a questão federal controvertida”.
É nesse contexto que o Código dispôs sobre alguns casos de incompetência
para julgamento da ação rescisória. Assim, segundo o art. 968, §5º, do CPC,
reconhecida a incompetência do tribunal para julgar a ação rescisória, o autor de-
verá ser intimado para emendar a petição inicial. A referida regra será aplicada nos
casos em que a) a decisão rescindenda for sem resolução do mérito e as hipóteses
não se enquadrem nos casos do art. 966, §2º, do CPC ou b) quando tiver sido
substituída por decisão posterior.
Efetuada a emenda e assegurado o direito de complementar os fundamentos
da defesa, os autos da ação rescisória serão encaminhados ao tribunal competente.
Trata-se de regra que valoriza a solução integral do mérito e maior aproveitamento
dos atos processuais.

capítulo 5 • 145
Tutela provisória

A distribuição da ação rescisória não impede a execução da sentença rescin-


denda (art. 969). Por esse motivo, nos casos em que a execução possa acarretar
danos irreparáveis ou de difícil reparação, a parte autora deverá requerer a conces-
são de tutela provisória nos termos do art. 300 do CPC, solicitando ao tribunal a
suspensão da execução da decisão exequenda.
A tutela provisória, nesse caso, terá como foco principal e exclusivo a suspen-
são dos atos executivos.

Resposta do réu

Admitida a petição inicial, o relator determinará a citação do réu (art. 970).


No respectivo mandado de citação o relator fixará o prazo para contestar a deman-
da, que nunca será inferior a 15 dias nem superior a 30 dias. O referido prazo será
fixado em razão da complexidade da causa e do número de réus. Considerando a
discricionariedade na fixação do prazo, não se aplica, em sede de ação rescisória, a
regra de prazo do art. 229 do CPC.
O réu poderá apresentar todas as modalidades de defesa admitida no proce-
dimento comum. Poderá apresentar defesa direta de mérito, defesas indiretas de
mérito (art. 350) ou mesmo defesas processuais (art. 337). Admitem-se, também,
exceção de impedimento e suspeição, e até mesmo reconvir.
A ausência de contestação ensejará a aplicação da revelia, nos termos do art.
344 do CPC.

Julgamento

Aplicar-se-á as regras do procedimento comum no processamento da ação res-


cisória (art. 970). Desse modo, ofertada a contestação, o autor será intimado para
se manifestar em réplica (art. 351). Se os fatos alegados dependerem de produção
de provas, o relator poderá determinar a sua produção ou delegar ao juiz ou órgão
que proferiu a decisão rescidenda sua produção. Ocorrendo a segunda hipótese, o
relator deverá fixar o prazo de um a três meses para a devolução dos autos com a
respectiva prova produzida (art. 972).

capítulo 5 • 146
Concluída a instrução da causa, o relator abrirá prazo para alegações finais, no
prazo de dez dias sucessivos (art. 973), e em seguida solicitará designação de sessão
de julgamento para apreciação da causa pelo colegiado.
O julgamento da ação rescisória é bifásico. Na primeira fase, o tribunal verifi-
cará se há, em verdade, fundamento para rescisão do julgado (juízo rescindente).
Nessa fase, será apreciado se ocorreu uma das hipóteses do art. 966 do CPC.
Sendo reconhecido o direito à rescisão, o tribunal adentrará na segunda fase, ou
seja, o novo julgamento (juízo rescisório), se for o caso, ou determinará o retorno
ao juízo que proferiu a decisão rescidenda para novo julgamento da causa.
Julgado procedente o pedido, o autor levantará o valor depositado previa-
mente. Se o pedido for julgado improcedente, por unanimidade, o depósito será
revertido em favor do réu. Se o pedido for julgado improcedente por maioria, o
autor poderá levantar a quantia depositada.
Publicada a decisão, a parte poderá, se pretender, interpor recurso contra a
decisão proferida.

Recursos cabíveis

A ação rescisória, por se tratar de ação originária, terá seu início no tribunal.
Essa especificidade reduz, consideravelmente, as opções de recursos disponíveis às
partes. Se a petição inicial for indeferida ou a rescisória for julgada improcedente
liminarmente, a parte autora poderá interpor agravo interno, nos termos do art.
1.021 do CPC, que será julgada pelo mesmo órgão competente para apreciar a
ação rescisória.
Contra a decisão que julgar o mérito da ação rescisória, caberão embargos
de declaração (art. 1.022), se for o caso, ou recurso extraordinário, para o STF, e
recurso especial, para o STJ. Se a ação rescisória foi proposta perante o STJ, caberá
tão somente recurso extraordinário.

Rescisória da rescisória

Admite-se ação rescisória proposta contra decisão proferida no julgamento de


ação rescisória. Não se trata de ficção jurídica, podendo ser verificada a hipótese
na prática forense.

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Por exemplo: se advir, do julgamento da ação rescisória, com fundamento na
corrupção do juiz (art. 966, I), um dos vícios do art. 966 do CPC, como a partici-
pação no julgamento de um desembargador impedido, a parte sucumbente poderá
propor nova ação rescisória, com fundamento no art. 966, II, do CPC.

Conclusão

No presente capítulo, estudamos alguns dos principais institutos do direito


processual civil. A sentença, como ato que esgota a atividade do juiz de primeiro
grau, é tema recorrente no direito processual e sua adequada compreensão é im-
prescindível. Por essa razão, buscamos detalhar o tratamento do tema de modo a
possibilitar ao leitor uma visão mais ampla desse importante ato processual.
Num segundo momento, o capítulo abordou a coisa julgada e seus desdobra-
mentos no processo civil. A coisa julgada, enquanto direito fundamental, garante
a sustentabilidade do Estado Democrático de Direito e seu estudo é premissa para
compreensão adequada da tutela jurisdicional prestada pelo Poder Judiciário.
Por fim, estudamos a ação rescisória, como meio correto para afastamento da
coisa julgada eivada de vício insanável. Diante de seu potencial cognitivo, que per-
mite a rescisão da coisa julgada, se faz necessário conhecer sua natureza jurídica,
bem como os principais atos processuais a ela vinculados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUENO, Cássio Scarpinella. Manual de direito processual civil. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.
CÂMARA, Alexandre. Lições de direito processual civil. 24. ed. Rio de Janeiro: Editora Atlas, 2013,
p. 363. v. 1.
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil. Salvador: Podivm, 2015. v. 1.
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Curso de processo civil.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. v. 2.
MEDINA, José Miguel. Direito processual civil moderno. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.
WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2015. v. 1.

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