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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS:

ORIGEM, SIGNIFICADO E IMPACTO

Flávia Piovesan

1. INTRODUÇÃO

Os direitos humanos têm a sua própria história, marcada por lutas

emancipatórias em defesa da dignidade humana. Para Hannah Arendt, a

cidadania não é um dado, mas um construído. Para Norberto Bobbio, os direitos

humanos são reivindicações morais. Nascem quando podem e devem nascer –

não nascem todos de uma vez, nem de uma vez por todas.

O processo de afirmação de direitos humanos não é linear, apresentando

avanços e recuos, tendo como fator impulsionador ações emancipatórias.

Lembra Joaquin Herrera Flores que os direitos humanos traduzem processos

que abrem e consolidam espaços de luta pela dignidade humana. Carlos

Santiago Nino sustenta que os direitos humanos seriam o “melhor invento do

século XX”, sendo direitos morais, embasados nos princípios da autonomia, da

independência, da inviolabilidade e da dignidade da pessoa humana.

Celebram os direitos humanos o idioma da alteridade, isto é, ver no outro

um ser merecedor de igual consideração e profundo respeito, dotado do direito

de desenvolver as potencialidades humanas, de forma livre, autônoma e plena.

É a ética orientada pela salvaguarda da dignidade e pela prevenção ao

sofrimento humano.
Ao longo da história as mais graves violações aos direitos humanos

tiveram como fundamento a dicotomia do "eu versus o outro", em que a

diversidade era captada como elemento para aniquilar direitos. A diferença era

visibilizada para conceber o "outro" como um ser menor em dignidade e direitos,

ou, em situações limites, um ser esvaziado mesmo de qualquer dignidade, um

ser descartável, um ser supérfluo, objeto de compra e venda (como na

escravidão) ou de campos de extermínio (como no nazismo). Nesta direção,

merecem destaque as violações da escravidão, do nazismo, do sexismo, do

racismo, da homofobia, da xenofobia e de outras práticas de intolerância.

Por isto, Para Luigi Ferrajoli, os direitos humanos simbolizam a lei do mais

fraco contra a lei do mais forte, na expressão de um contrapoder em face dos

absolutismos, advindos do Estado, do setor privado ou mesmo da esfera

doméstica. No mesmo sentido, Habermas realça que a origem dos direitos

humanos sempre foi a resistência a toda e qualquer forma de opressão,

hostilidade ou humilhação.

Considerando os direitos humanos como processos caracterizados por

lutas emancipatórias vocacionadas à proteção da dignidade humana e à

prevenção ao sofrimento humano, inspiradas pela ética da alteridade radicada

na ideia de que todo ser humano é merecedor de igual consideração e profundo

respeito, indaga-se: Por que foi adotada a Declaração Universal de 1948? Quais

foram seus precedentes históricos? Qual é o seu alcance, significado e impacto?

2. DECLARAÇÃO UNIVERSAL DE 1948: ORIGEM, SIGNIFICADO E


IMPACTO

A Declaração Universal nasceu como resposta às atrocidades e aos

horrores cometidos durante o nazismo. Apresentando o Estado como o grande

violador de direitos humanos, a era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e

da descartabilidade da pessoa humana, que resultou no envio de 18 milhões de

pessoas a campos de concentração, com a morte de 11 milhões, sendo 6 milhões

de judeus, além de comunistas, homossexuais e ciganos. O legado do nazismo

foi condicionar a titularidade de direitos, ou seja, a condição de sujeito de direito,

ao pertencimento à determinada raça — a raça pura ariana. Para Ignacy Sachs, o

século XX foi marcado por duas guerras mundiais e pelo horror absoluto do

genocídio concebido como projeto político e industrial.

No entender de Celso Lafer, a inexistência de um direito à hospitalidade

universal deu-se no caldo de cultura da difusão ideológica de regimes

totalitários. Estes submeteram o ser humano ao todo. A negação dos direitos

humanos como direitos subjetivos permitiu instaurar uma dominação total

lastreada no arbítrio de um “estado de exceção permanente” – o que teria

culminado com o encaminhamento dos displaced people (pessoas sem lugar no

mundo) para os campos de concentração. Os campos de concentração foram a

base material do crime de genocídio, expressão máxima da intolerância. Este

não é um crime contra um grupo nacional, étnico ou religioso. É um crime

cometido contra a humanidade porque é uma recusa frontal da diversidade e da

pluralidade – características da humanidade na lição de Hannah Arendt, quando


realça sermos todos somos únicos e diversos (dos que existem hoje, dos que

existiram no passado e dos que existirão no futuro).

No momento em que os seres humanos se tornam supérfluos e

descartáveis, no momento em que vige a lógica da destruição, em que

cruelmente se abole o valor da pessoa humana, torna-se necessária a

reconstrução dos direitos humanos, como paradigma ético capaz de restaurar a

lógica do razoável. A barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma

dos direitos humanos, por meio da negação do valor da pessoa humana como

valor fonte do direito. Diante dessa ruptura, emerge a necessidade de reconstruir

os direitos humanos, como referencial e paradigma ético que aproxime o direito

da moral. Nesse cenário, o maior direito passa a ser, adotando a terminologia de

Hannah Arendt, o direito a ter direitos, ou seja, o direito a ser sujeito de direitos.

Desenha-se o esforço de reconstrução dos direitos humanos, como

paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional contemporânea.

Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos, o pós-guerra

deveria significar sua reconstrução.

Nasce ainda a certeza de que a proteção dos direitos humanos não

deveria se reduzir ao âmbito reservado de um Estado, porque revela tema de

legítimo interesse internacional. Sob esse prisma, a violação dos direitos

humanos não pode ser concebida como questão doméstica do Estado, mas

como tema de legítima preocupação da comunidade internacional.

A necessidade de uma ação internacional mais eficaz para a proteção dos


direitos humanos impulsionou o processo de internacionalização desses

direitos, culminando na criação da sistemática normativa de proteção

internacional, que faz possível a responsabilização do Estado no domínio

internacional quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas na

tarefa de proteger os direitos humanos. A verdadeira consolidação do Direito

Internacional dos Direitos Humanos surge em meados do século XX, em

decorrência da Segunda Guerra Mundial. No entender de Thomas Buergenthal,

o moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do pós-

guerra. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de

direitos humanos da era Hitler e à crença de que parte destas violações

poderiam ser prevenidas se um efetivo sistema de proteção internacional de

direitos humanos existisse.

O processo de internacionalização dos direitos humanos passa, assim, a

ser uma importante resposta na busca de reconstrução de um novo paradigma,

diante do repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto.

Explicam Richard Pierre Claude e Burns H. Weston que foi apenas após

a Segunda Guerra Mundial — com a ascensão e a decadência do Nazismo na

Alemanha — que a doutrina da soberania estatal foi dramaticamente alterada. A

doutrina em defesa de uma soberania ilimitada passou a ser crescentemente

atacada, durante o século XX, em especial em face das consequências da

revelação dos horrores e das atrocidades cometidas pelos nazistas contra os

judeus durante a Segunda Guerra, o que fez com que muitos concluíssem que a

soberania estatal não é um princípio absoluto, mas deve estar sujeita a certas
limitações em prol dos direitos humanos. Os direitos humanos tornam-se uma

legítima preocupação internacional com o fim da Segunda Guerra Mundial, com

a criação das Nações Unidas em 1945 e com a adoção da Declaração Universal

dos Direitos Humanos em 1948. Como consequência, passam a ocupar um

espaço central na agenda das instituições internacionais. No período do pós-

guerra, os indivíduos tornam-se foco de atenção internacional. A estrutura do

contemporâneo Direito Internacional dos Direitos Humanos começa a se

consolidar. Não mais poder-se-ia afirmar, no fim do século XX, que o Estado

pode tratar de seus cidadãos da forma que quiser, não sofrendo qualquer

responsabilização na arena internacional.

Prenuncia-se, desse modo, o fim da era em que a forma pela qual o

Estado tratava seus nacionais era concebida como um problema de jurisdição

doméstica, decorrência de sua soberania. Para Andrew Hurrell, o aumento

significativo das ambições normativas da sociedade internacional é

particularmente visível no campo dos direitos humanos e da democracia, com

base na ideia de que as relações entre governantes e governados, Estados e

cidadãos, passam a ser suscetíveis de legítima preocupação da comunidade

internacional; de que os maus-tratos a cidadãos e a inexistência de regimes

democráticos devem demandar ação internacional; e que a legitimidade

internacional de um Estado passa crescentemente a depender do modo pelo

qual as sociedades domésticas são politicamente ordenadas.

É neste contexto que a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi

adotada em 10 de dezembro de 1948, mediante a Resolução 217-A (III) da


Assembléia Geral da ONU, com a aprovação de 48 Estados e 8 abstenções. A

inexistência de qualquer questionamento ou reserva feita pelos Estados aos

princípios da Declaração, bem como de qualquer voto contrário às suas

disposições, confere à Declaração Universal o significado de um código e

plataforma comum de ação. A Declaração consolida a afirmação de uma ética

universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem

seguidos pelos Estados.

Como explica Celso Lafer, a Declaração logrou um surpreendente consenso

inter-estatal sobre a relevância dos direitos humanos, considerando a

diversidade dos regimes políticos, dos sistemas filosóficos e religiosos e das

tradições culturais dos Estados-membros da ONU que a proclamaram na

Resolução 217-A (iii) da Assembléia Geral. Na ocasião, na sessão de aprovação

realizada em 10 de dezembro de 1948, o delegado brasileiro Austregésilo de

Athayde, na condição de orador escolhido por seus pares, ressaltou que a

Declaração era o produto de uma cooperação intelectual e moral das nações.

Não resultou da imposição de “pontos de vista particulares de um povo ou de um

grupo de povos, nem doutrinas políticas ou sistemas de filosofia”. Sublinhou que

“a sua força vem precisamente da diversidade de pensamento, de cultura e de

concepção de vida de cada representante. Unidos, formamos a grande

comunidade do mundo e é exatamente dessa união que decorre a nossa

autoridade moral e política”. Prossegue Celso Lafer a esclarecer que a

Declaração, ao lograr este consenso moral e político, em muito deve a um

reduzido número de personagens decisivos na sua formulação e subseqüente


aprovação. São eles, Eleanor Roosevelt dos EUA; René Cassin da França;

Charles Malik do Líbano; Peng-chan Chung da China, e John P. Humphrey do

secretariado da ONU, cabendo também lembrar Hernán Santa Cruz do Chile.

A Declaração se projeta como um código de atuação e de conduta para os

Estados integrantes da comunidade internacional. Seu principal significado é

consagrar o reconhecimento universal dos direitos humanos pelos Estados,

consolidando um parâmetro internacional para a proteção desses direitos. A

Declaração ainda exerce impacto nas ordens jurídicas nacionais, na medida em

que os direitos nela previstos têm sido incorporados por Constituições nacionais

e, por vezes, servem como fonte para decisões judiciais nacionais.

Internacionalmente, a Declaração tem estimulado a elaboração de instrumentos

voltados à proteção dos direitos humanos e tem sido referência para a adoção de

resoluções no âmbito das Nações Unidas. Como afirma Antonio Cassesse, a

Declaração é um dos parâmetros fundamentais pelos quais a comunidade

internacional ‘deslegitima’ os Estados. Um Estado que sistematicamente viola a

Declaração não é merecedor de aprovação por parte da comunidade mundial.

Desde seu preâmbulo, a Declaração Universal afirma a dignidade

inerente a toda pessoa humana, titular de direitos iguais e inalienáveis, como

fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. Reconhece a

necessidade de proteger as pessoas do temor e da necessidade, aludindo às

graves violações que levaram ao desprezo e ao desrespeito de direitos

resultando em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade.

Reitera o compromisso dos Estados na promoção do respeito universal de


direitos e liberdades fundamentais, considerando a relevância de uma

compreensão comum de direitos e liberdades.

Ao tratar do alcance universal da Declaração de 1948, observa René

Cassin que a Declaração se caracteriza por sua amplitude. Compreende um

conjunto de direitos e faculdades sem as quais um ser humano não pode

desenvolver sua personalidade física, moral e intelectual. Também se

caracteriza por sua universalidade, eis que a Declaração é aplicável a todas as

pessoas de todos os países, raças, religiões e sexos, seja qual for o regime

político dos territórios nos quais incide, assegurando proteção internacional aos

indivíduos.

A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública

mundial fundada no respeito à dignidade humana, ao consagrar valores básicos

universais.

Três são os importantes legados da Declaração Universal de 1948, ao

inaugurar a concepção contemporânea de direitos humanos: a) universalidade

dos direitos humanos; b) a dignidade humana como fundamento ético dos

direitos; e c) a indivisibilidade, a interdependência e a inter-relação de

direitos.

Quanto à universalidade dos direitos humanos, para a Declaração a

condição de pessoa é o requisito único e exclusivo para a titularidade de

direitos, tendo os direitos humanos um alcance universal. A universalidade dos

direitos humanos traduz a absoluta ruptura com o legado nazista, que


condicionava a titularidade de direitos à pertença à determinada raça (a raça

pura ariana), com base em uma doutrina de superioridade baseada em

diferenças raciais. Nos termos do artigo 2º da Declaração Universal: “Toda

pessoa tem capacidade para gozar os direitos e liberdades estabelecidos nesta

Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,

religião, opinião política ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou

social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”.

A dignidade humana surge como fundamento ético dos direitos humanos

e como um valor intrínseco à condição humana. O artigo 1º da Declaração

enuncia que “todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos.

São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras

com espírito de fraternidade”. Há um reencontro com o pensamento kantiano,

com as ideias de moralidade, dignidade, Direito cosmopolita e paz perpétua.

Para Kant as pessoas, e em geral qualquer espécie racional, devem existir como

fim em si mesmo e jamais como meio, a ser arbitrariamente usado para este ou

aquele propósito. Os objetos têm, por sua vez, um valor condicional, por serem

irracionais, por isso são chamados “coisas”, substituíveis que são por outras

equivalentes. Os seres racionais, ao revés, são chamados “pessoas”, porque

constituem um fim em si mesmo, têm um valor intrínseco absoluto, são

insubstituíveis e únicos, não devendo ser tomados meramente como meios. As

pessoas são dotadas de dignidade, na medida em que possuem um valor

intrínseco. Desse modo, ressalta Kant, trate a humanidade, na pessoa de cada

ser, sempre como um fim mesmo, nunca como um meio. Adiciona Kant que a
autonomia é a base da dignidade humana e de qualquer criatura racional.

Lembra que a ideia de liberdade é intimamente conectada com a concepção de

autonomia, por meio do princípio universal da moralidade, que, idealmente, é o

fundamento de todas as ações de seres racionais. Para Kant, o imperativo

categórico universal dispõe: “Aja apenas de forma a que a sua máxima possa

converter-se ao mesmo tempo em uma lei universal”. Na atualidade, as lições de

Kant a respeito da dignidade humana têm demandado um olhar para as

dignidades concretas, buscando-se contextualizar a dignidade, adicionando,

ainda, o seu componente social e comunitário.

No que se refere à indivisibilidade, à interdependência e à inter-relação

de direitos, a Declaração adota uma perspectiva integral de direitos humanos.

Ineditamente conjuga o catálogo dos direitos civis e políticos com o catálogo dos

direitos econômicos, sociais e culturais. Combina, assim, o discurso liberal e o

discurso social da cidadania, aliando o valor da liberdade ao valor da igualdade.

À luz de uma perspectiva histórica, observa-se que, até então, intensa era a

dicotomia entre o direito à liberdade e o direito à igualdade. No final do século

XVIII, as modernas Declarações de Direitos, seja a Declaração Francesa de 1789

(a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão), seja a Declaração

Americana de 1776 (a Declaração do Bom Povo de Virginia), consagravam a ótica

contratualista liberal, pela qual os direitos humanos se reduziam aos direitos à

liberdade, segurança e propriedade (inclusive prevista como um direito sagrado na

Declaração francesa), complementados pela resistência à opressão. O discurso

liberal da cidadania nascia no seio do movimento pelo constitucionalismo e da


emergência do modelo de Estado Liberal, sob a influência das ideias de Locke,

Montesquieu e Rousseau. Diante do Absolutismo, fazia-se necessário evitar os

excessos, o abuso e o arbítrio do poder. Nesse momento histórico, os direitos

humanos surgem como reação e resposta aos excessos do regime absolutista, na

tentativa de impor controle e limites à abusiva atuação do Estado. A solução era

limitar e controlar o poder do Estado, que deveria se pautar na legalidade e

respeitar os direitos fundamentais. A não atuação estatal significava liberdade. Daí

o primado do valor da liberdade, com a supremacia dos direitos civis e políticos e a

ausência de previsão de qualquer direito social, econômico e cultural que

dependesse da intervenção do Estado.

Caminhando na história, verifica-se que, especialmente após a Primeira

Guerra Mundial, ao lado do discurso liberal da cidadania, fortalece-se o

discurso social da cidadania, e, sob as influências da concepção marxista-

leninista, é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e

Explorado da então República Soviética Russa, em 1918. Do primado da

liberdade se transita ao primado do valor da igualdade. O Estado passa a ser

visto como agente de processos transformadores e o direito à abstenção do

Estado, nesse sentido, converte-se em direito à atuação estatal, com a

emergência dos direitos à prestação social. A Declaração dos Direitos do Povo

Trabalhador e Explorado da República Soviética Russa de 1918, bem como as

Constituições sociais do início do século XX (como a Constituição de Weimar de

1919 e a Constituição mexicana de 1917), primaram por conter um discurso

social da cidadania, em que a igualdade era o direito basilar e um extenso


elenco de direitos econômicos, sociais e culturais era previsto. A Declaração

dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado tinha como objetivo maior

combater a exploração econômica e assegurar os meios coletivos de

propriedade e produção, com a abolição da propriedade privada.

Essa breve digressão histórica tem o sentido de demonstrar quão

dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado, direitos civis e

políticos; do outro, direitos sociais, econômicos e culturais. De um lado, o valor

da liberdade; do outro, o valor da igualdade.

Considerando esse contexto, a Declaração de 1948 introduz extraordinária

inovação ao conter uma linguagem de direitos até então inédita. Combinando o

discurso liberal da cidadania com o discurso social, a Declaração passa a

elencar tanto direitos civis e políticos (enunciados nos artigos 3º a 21) como

direitos sociais, econômicos e culturais (enunciados nos artigos!22 a!28).

Dentre os direitos civis e políticos, destaca a Declaração Universal:

- o direito à vida, à liberdade e à segurança (artigo 3º);

- o direito a não ser submetido à escravidão ou servidão (artigo 4º);

- o direito a não ser submetido à tortura (artigo 5º);

- o direito de ser reconhecido como pessoa perante a lei (artigo 6º);

- o direito à igualdade e a proibição da discriminação (artigo 7º);

- o direito à proteção judicial (artigo 8º);

- o direito à liberdade pessoal, sendo vedada a prisão ou detenção

arbitrárias (artigo 9º);


- o direito de acesso à justiça (artigo 10);

- o direito à presunção de inocência, até que a culpabilidade tenha sido

provada (artigo 11);

- o direito à vida privada e familiar (artigo 12);

- o direito à liberdade de locomoção (artigo 13);

- o direito de gozar asilo, em caso de perseguição (artigo 14);

- o direito `a uma nacionalidade (artigo 15);

- o direito a constituir uma família (artigo 16);

- o direito à propriedade (artigo 16);

- o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião (artigo 17);

- o direito à liberdade de opinião e expressão (artigo 18);

- o direito à liberdade de reunião e associação (artigo 20); e

- o direito à participação política (artigo 21).

Dentre os direitos econômicos, sociais e culturais, destaca a Declaração

Universal:

- o direito à segurança social e à realização dos direitos econômicos,

sociais e culturais indispensáveis à dignidade e ao livre desenvolvimento de

sua personalidade (artigo 22);

- o direito ao trabalho e a condições justas e favoráveis de trabalho (artigo

23);
- o direito ao repouso e ao lazer (artigo 24);

- o direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família

saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados

médicos e os serviços sociais indispensáveis (artigo 25);

- o direito à educação orientada no sentido de pleno desenvolvimento da

personalidade humana e do fortalecimento e do respeito pelos direitos humanos

e pelas liberdades fundamentais (artigo 26);

- o direito de participar livremente da vida cultural e de participar do

progresso científico e de seus benefícios (artigo 27);

- o direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e

liberdades possam ser plenamente realizados (artigo 28)

Ao endossar uma visão integral e holística de direitos humanos, duas

extraordinárias inovações são introduzidas pela Declaração:

a) a paridade, em igualdade de importância, de direitos civis e políticos e de

direitos econômicos, sociais e culturais – isto é, para a Declaração tão

grave quanto ter violado o direito à liberdade de expressão ou religião é

ter negado o direito à educação ou à saúde;

b) a inter-relação, a indivisibilidade e interdependência de tais

direitos – isto é, o pleno exercício de direitos civis e políticos requer o

pleno exercício de direitos econômicos, sociais e culturais e vice-versa.

Os direitos humanos passam a ser concebidos como uma unidade


interdependente e indivisível.

Assim, partindo do critério metodológico que classifica os direitos

humanos em gerações (os direitos de 1ª geração seriam os direitos civis e

políticos; os direitos de 2º geração seriam os direitos sociais, econômicos e

culturais; os direitos de 3ª geração seriam os direitos difusos), compartilha-se do

entendimento de que uma geração de direitos não substitui a outra, mas com

ela interage. Afasta-se a equivocada visão da sucessão “geracional” de direitos,

na medida em que se acolhe a ideia da expansão, cumulação e fortalecimento

dos direitos humanos, todos essencialmente complementares e em constante

dinâmica de interação. Logo, apresentando os direitos humanos uma unidade

indivisível, revela-se esvaziado o direito à liberdade quando não assegurado o

direito à igualdade; por sua vez, esvaziado, revela-se o direito à igualdade

quando não assegurada a liberdade.

Ao tratar da indivisibilidade dos direitos humanos, afirma Louis Henkin

que os direitos considerados fundamentais incluem não apenas limitações que

inibem a interferência dos governos nos direitos civis e políticos, mas envolvem

obrigações governamentais de cunho positivo em prol da promoção do bem-

estar econômico e social, pressupondo um Governo que seja ativo, interventor,

planejador e comprometido com os programas econômico-sociais da sociedade

que, por sua vez, os transforma em direitos econômicos e sociais para os

indivíduos.
Sem a efetividade dos direitos econômicos, sociais e culturais, os direitos

civis e políticos se reduzem a meras categorias formais, enquanto, sem a

realização dos direitos civis e políticos, ou seja, sem a efetividade da liberdade

entendida em seu mais amplo sentido, os direitos econômicos, sociais e culturais

carecem de verdadeira significação. Não há mais como cogitar da liberdade

divorciada da justiça social, como também não há como sustentar a justiça social

divorciada da liberdade. Todos os direitos humanos constituem um complexo

integral, único e indivisível, no qual os diferentes direitos estão necessariamente

inter-relacionados e são interdependentes entre si.

Como estabeleceu a Resolução n. 32/130 da Assembleia Geral das

Nações Unidas: “Todos os direitos humanos, qualquer que seja o tipo a que

pertencem, se inter-relacionam necessariamente entre si, e são indivisíveis e

interdependentes”. Essa concepção foi reiterada na Declaração de Direitos

Humanos de Viena de 1993, que afirma, em seu § 5º, que os direitos humanos

são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados.

Nesse cenário, a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948 vem

a introduzir a chamada concepção contemporânea de direitos humanos,

alicerçada na universalidade e na indivisibilidade desses direitos, tendo como

fundamento ético o valor da dignidade humana. Universalidade porque clama

pela extensão universal dos direitos humanos, sob a crença de que a condição

de pessoa é o requisito único para a titularidade de direitos, considerando o ser

humano um ser essencialmente moral, dotado de unicidade existencial e

dignidade, esta como valor intrínseco à condição humana. Indivisibilidade


porque a garantia dos direitos civis e políticos é condição para a observância

dos direitos sociais, econômicos e culturais e vice-versa. Quando um deles é

violado, os demais também o são. Os direitos humanos compõem, assim, uma

unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, capaz de conjugar o

catálogo de direitos civis e políticos com o catálogo de direitos sociais,

econômicos e culturais.

A partir da Declaração de 1948, começa a se desenvolver o Direito

Internacional dos Direitos Humanos, mediante a adoção de diversos

instrumentos internacionais de proteção. A Declaração de 1948 confere lastro

axiológico e unidade valorativa a esse campo do Direito, com ênfase na

universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos,

fundados no valor da dignidade humana.

O processo de universalização dos direitos humanos permitiu a formação

de um sistema internacional de proteção desses direitos. Tal sistema é integrado

por tratados internacionais de proteção que refletem, sobretudo, a consciência

ética contemporânea compartilhada pelos Estados, na medida em que invocam

o consenso internacional acerca de temas centrais aos direitos humanos, na

busca da salvaguarda de parâmetros protetivos mínimos — do “mínimo ético

irredutível”. Nesse sentido, atente-se que, até 2014, o Pacto Internacional dos

Direitos Civis e Políticos contava com 167 Estados-partes; o Pacto Internacional

dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais contava com 161 Estados-partes; a

Convenção contra a Tortura contava com 154 Estados-partes; a Convenção

sobre a Eliminação da Discriminação Racial contava com 176 Estados-partes; a


Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher contava com

187 Estados-partes; e a Convenção sobre os Direitos da Criança apresentava a

mais ampla adesão, com 193 Estados-partes.

Ao lado do sistema normativo global, surgem os sistemas regionais de

proteção, que buscam internacionalizar os direitos humanos nos planos

regionais, particularmente na Europa, América e África. Consolida-se, assim, a

convivência do sistema global da ONU com instrumentos do sistema regional,

por sua vez integrado pelos sistemas interamericano, europeu e africano de

proteção aos direitos humanos.

Os sistemas global e regional não são dicotômicos, mas complementares.

Inspirados pelos valores e princípios da Declaração Universal, compõem o

universo instrumental de proteção dos direitos humanos no plano internacional.

Nessa ótica, os diversos sistemas de proteção de direitos humanos interagem

em benefício dos indivíduos protegidos. Ao adotar o valor da primazia da

pessoa humana, tais sistemas se complementam, somando-se ao sistema

nacional de proteção, a fim de proporcionar a maior efetividade possível na

tutela e promoção de direitos fundamentais. Essa é, aliás, a lógica e a

principiologia próprias do Direito dos Direitos Humanos.

Ressalte-se que a Declaração de Direitos Humanos de Viena, de 1993,

subscrita por 171 Estados, reitera a concepção da Declaração de 1948 quando,

em seu § 5º, consagra: “Todos os direitos humanos são universais,

interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar


os direitos humanos globalmente de forma justa e equitativa, em pé de

igualdade e com a mesma ênfase”. A Declaração de Viena afirma ainda a

interdependência entre os valores dos direitos humanos, democracia e

desenvolvimento.

Não há direitos humanos sem democracia, tampouco democracia sem

direitos humanos. O regime mais compatível com a proteção dos direitos

humanos é o democrático. Atualmente, 140 dos quase 200 Estados que

integram a ordem internacional realizam eleições periódicas. Contudo, apenas

82 Estados (o que representa 57% da população mundial) são considerados

plenamente democráticos. Em 1985, esse percentual era de 38%,

compreendendo 44 Estados. De acordo com o Freedom House, há

aproximadamente 40 anos, mais da metade do mundo era governado por

autocracias e milhões viviam sob a violência do totalitarismo. A maioria do

mundo hoje vive em Estados democráticos. Em 2010, todavia, 47 países ainda

eram considerados não livres (tendo liberdades básicas sistematicamente

violadas), o que abrange 35% da população global. Considerando o critério

regional, na Europa ocidental 96% dos países são considerados livres (com

pluralismo político, respeito às liberdades civis e uma imprensa independente),

enquanto que no norte da África apenas 6% o são. Note-se que o pleno

exercício dos direitos políticos é capaz de implicar o “empoderamento” das

populações mais vulneráveis, o aumento de sua capacidade de pressão,

articulação e mobilização políticas. Para Amartya Sen, os direitos políticos

(incluindo a liberdade de expressão e de discussão) são não apenas


fundamentais para demandar respostas políticas às necessidades econômicas,

mas são centrais para a própria formulação dessas necessidades econômicas.

Já o direito ao desenvolvimento demanda uma globalização ética e

solidária. No entender de Mohammed Bedjaqui, a dimensão internacional do

direito ao desenvolvimento é nada mais que o direito a uma repartição equitativa

concernente ao bem-estar social e econômico mundial. Reflete uma demanda

crucial de nosso tempo, na medida em que os quatro quintos da população

mundial não mais aceitam o fato de um quinto da população mundial continuar a

construir sua riqueza com base em sua pobreza. As assimetrias globais revelam

que a renda dos 1% mais ricos supera a renda dos 57% mais pobres na esfera

mundial. Para a Organização Mundial de Saúde, a pobreza é a maior causa

mortis do mundo. A pobreza dissemina sua influência destrutiva desde os

primeiros estágios da vida humana, do momento da concepção ao momento da

morte.

O desenvolvimento, por sua vez, há de ser concebido como um processo

de expansão das liberdades reais que as pessoas podem usufruir, para adotar a

concepção de Amartya Sen. Ressalte-se que a Declaração de Viena de 1993

consagra ser o direito ao desenvolvimento um direito universal e inalienável,

parte integral dos direitos humanos, endossando a relação indissociável entre

direitos humanos, democracia e desenvolvimento.

3 .D EC LA R A Ç Ã O U N IVER SA L D E 1 9 4 8 : D ESA FIOS E


PERSPECTIVAS

Se os direitos humanos não são um dado, mas um construído, enfatiza-se

que as violações a estes direitos também o são. Isto é, as exclusões, as

discriminações, as desigualdades, as intolerâncias e as injustiças são um

construído histórico, a ser urgentemente desconstruído. Há que se assumir o

risco de romper com a cultura da naturalização, trivialização e banalização das

desigualdades e das exclusões, que, enquanto construídos históricos, não

compõem de forma inexorável o destino da humanidade.

A ética dos direitos humanos é a ética que vê no outro um ser merecedor

de igual consideração e profundo respeito, dotado do direito de desenvolver as

potencialidades humanas, de forma livre, autônoma e plena. É a ética orientada

pela afirmação da dignidade e pela prevenção ao sofrimento humano. Os

direitos humanos constituem uma plataforma emancipatória inspirada no

princípio da esperança, na capacidade criativa e transformadora de realidades.

Vislumbra Hannah Arendt a vida como um milagre, o ser humano como,

ao mesmo tempo, um início e um iniciador, acenando que é possível modificar

pacientemente o deserto com as faculdades da paixão e do agir. Afinal, se todos

vamos morrer, nascemos para começar (“if all human must die; each is born to

begin”). E neste (re)começar, lembrando Habermas, os direitos humanos

simbolizam uma “utopia realista” na busca da construção de uma sociedade

mais justa.