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A Pós-Graduação em Biologia Molecular

na Universidade de Brasília
Lauro Morhy (*)
Resumo da palestra proferida pelo Prof. Lauro Morhy na abertura do “Simpósio
em Biologia Molecular e Biotecnologia” do Programa de Pós-Graduação em
Biologia Molecular, Instituto de Ciências Biológicas (IB), Universidade de
Brasília (UnB). Em 1º de setembro de 2011.

A história das universidades no mundo registra, entre outros avanços


importantes que formaram a própria universidade moderna, a introdução da
pesquisa científica, geradora de conhecimentos novos a serem ensinados e
utilizados. Isso aconteceu por volta de 1809 na Alemanha e, em 1875, nos
Estados Unidos. Foi então criada a Pós-Graduação (1).

A Pós-Graduação está basicamente associada:

► ao desenvolvimento científico e tecnológico, que sempre requer


inovação;

►à capacitação profissional (docente ou não); e

►à continuidade da carreira acadêmica (ensino e pesquisa).

Considera-se que, no Brasil, a fase atual da Pós-Graduação começou


com o Parecer N°977/1965 do CES (Conselho de Educação Superior). Mas
na verdade já havia essa atividade antes, como mostraremos a seguir.

A criação da Fundação Universidade de Brasília (FUB) pela Lei


N°3.998 de 15 de dezembro de 1961, com o objetivo de criar e manter a
Universidade de Brasília (UnB), instituída pelo Decreto N° 500 de 15 de
janeiro de 1962, foi um dos capítulos mais importantes da história da
educação superior brasileira (2,3).
Um dos pontos altos da criação da UnB foi que ela já nasceu com a
pesquisa científica e a pós-graduação impregnadas em suas bases legais
e estatutárias, fato até então inédito em nossa história.
Determinavam a Lei de criação da FUB, o Estatuto da FUB e o Estatuto
da UnB:
Lei N°3.998 15/dez/61 art.9º e Decreto Nº500 de 15/1/1962-Estatuto da FUB
art.26-

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“A Universidade será uma unidade orgânica integrada por Institutos Centrais de
Ensino e Pesquisa e por Faculdades destinadas à formação de profissionais,
cabendo:
I. Aos Institutos Centrais, na sua esfera de competência:
(A) ministrar cursos básicos de ciências, letras e artes;
b) formar pesquisadores e especialistas; e
(c) dar cursos de pós-graduação e realizar pesquisas e estudos nas
respectivas especialidades.
II. Às Faculdades, na sua esfera de competência:
(A) ministrar cursos de graduação para formação profissional e técnica;
(b) ministrar cursos de especialização e de pós-graduação;
c) realizar pesquisas e estudos nos respectivos campos de aplicação
científica, tecnológica e cultural.”
Estatuto da UnB (1962):
Art.6º. As Unidades Universitárias poderão manter Centros de pesquisa,
estudo, experimentação, assessoria e documentação, com funções específicas
dentro dos respectivos campos e gozando de autonomia administrativa e
financeira nos termos dos respectivos Regimentos, aprovados pelo Conselho
Diretor da Fundação Universidade de Brasília.
Art.9º. Aos Institutos Centrais cabe ministrar, integradamente com suas
atividades de estudo e pesquisa:
III. Programas de Mestrado e Doutorado.
Art.62. A universidade ministrará curso de:
II. pós-graduação, abertos à matrícula de candidatos que hajam concluído
o curso de graduação e obtido o respectivo diploma;
III. especialização, aperfeiçoamento e extensão a quaisquer outros, a juízo
do respectivo instituto de ensino, aberto à matrícula de candidato com o
preparo e os requisitos que vierem a ser exigidos.
No curto período em que a UnB teve autonomia universitária e apesar
dos acontecimentos e percalços que se seguiram ao 31 de março de 1964, a
Pós-Graduação stricto sensu funcionou nessa universidade. Foram formados
então 81 Mestres e 24 Doutores, nos 21 Mestrados e 10 Doutorados, antes da
vigência do Parecer N°977/69 do CES, considerado como o marco inicial
da Pós-Graduação que hoje se pratica no Brasil.

Ainda em sua fase inicial, em 1964, a UnB mergulhou em grande crise,


que levou à perda de muitos professores. Mas, a partir de novembro de 1967, o
2
Reitor Caio Benjamin Dias, que dirigiu a UnB de 3/11/67 a 25/3/71, encetou um
grande esforço para soerguer a instituição, trazendo cientistas e docentes de
reconhecida competência. Para o Instituto de Ciências Biológicas, vieram
Wladimir Lobato Paraense (parasitologista, malacologista), Manuel Mateus
Ventura (bioquímico/ biofísico) e Luiz Fernando Gouvêa Labouriau (botânico e
fisiologista de plantas).

Considera-se que na década de 1970 houve o renascimento do IB (4) e


da UnB. O IB foi reorganizado compondo-se de quatro departamentos:

Departamento de Biologia Celular (CEL)

Departamento de Biologia Animal (ANI)

Departamento de Biologia Vegetal (VEG)

Departamento de Psicologia (IP) (que saiu do IB formando o Instituto


de Psicologia).

A parte biológica do IB era dirigida pelos Profs. Manuel Mateus Ventura


(CEL), Wladimir Lobato Paraense (ANI) e Luiz F.G. Labouriau (VEG). O CEL
era o Departamento mais importante e passou a sediar o primeiro curso de
Pós-Graduação da área de ciências Biológicas da UnB: o Mestrado em
Biologia Molecular.

O atual Programa de Pós-Graduação em Biologia Molecular


começou assim com o Mestrado em 1972, sendo depois criado o Doutorado
em 1991, conforme mostra a Tabela a seguir:

Pós-Graduação no Instituto de Ciências Biológicas (IB/UnB)


Mestrado e Doutorado
Curso Início do Curso N°Alunos - 2007 Conceito
Mestrado Doutorado Mestrado Doutorado ∑ CAPES
2006
Biologia 1998 1998 93 69 162 5
Animal
Biologia 1972 1991 80 117 197 6
Molecular
Botânica 1993 2007 70 7 77 4
Ecologia 1976 1993 78 87 165 5
Fitopatologia 1976 1991 45 41 86 4
∑ 366 321 687
Tabela construída por L.Morhy com dados do Anuário Estatístico da UnB de 2008

Após a reestruturação de 1989, o IB passou a ser composto de 7


Departamentos como a seguir, composição que ainda se mantém:
3
Departamento de Biologia Celular
Departamento de Ecologia
Departamento de Fitopatologia

Departamento de Botânica

Departamento de Zoologia

Departamento de Genética e Morfologia

Departamento de Ciências Fisiológicas

O Departamento de Biologia Celular (CEL) compõe-se de 34


docentes (33 doutores) e possui os seguintes Laboratórios:

Laboratório de Biofísica
Laboratório de Biologia Molecular
Laboratório de Bioquímica e Química de Proteínas
Laboratório de Enzimologia
Laboratório de Microbiologia e Biologia do Gene
Laboratório de Microscopia Eletrônica e Virologia
Laboratório de Biologia Teórica

Os laboratórios do CEL apresentam excelente infra-estrutura e seus


pesquisadores desenvolvem estudos multidisciplinares em proteômica,
genômica funcional, enzimologia, estrutura e função de biomoléculas e ultra-
estruturas celular aplicadas a diversos sistemas biológicos e têm resultado em
publicações em periódicos com alto índice de impacto, além de patentes
depositadas no Brasil e no exterior.

A coleta de dados de 2010 mostrou que o Programa de Pós-Graduação


em Biologia Molecular atuou com 39 docentes sendo 24 permanentes e 15
colaboradores de outras instituições. Todos os docentes do quadro têm
projetos permanentes em andamento e muitos participam de outros projetos.
Mais de 80% dos projetos são financiados. Em 2010 foram defendidas 17
dissertações de Mestrado e 7 teses de doutorado.

Listamos a seguir algumas atividades dos Laboratórios (Vide o Portal do


IB na Internet):
4
Laboratório de Biofísica, Área de Bioquímica Nutricional

Pesquisa alimentos fontes de minerais e vitamina A quanto à sua


biodisponibilidade e inter-relações no metabolismo e homeostase in vivo.

Laboratório de Biologia Molecular

Este laboratório está envolvido com pesquisa básica e aplicada nas áreas de
Biologia Molecular de Fungos Filamentosos e Dimórficos, Imunologia
Molecular, Biotecnologia Molecular e Bioquímica do Estresse Oxidativo. O
Laboratório abriga um grupo de cerca de 60 pessoas entre professores,
pesquisadores, alunos e corpo técnico.

Laboratório de Bioquímica/ Química de Proteínas

O LBQP desenvolve diversos projetos em bioquímica e química de proteínas.


Dentre suas linhas de pesquisa mais tradicionais destaca-se o estudo da
estrutura e função da proteína cito lítica enterolobina. O
LBQP participou pioneiramente na introdução e consolidação da pesquisa
proteômica no país. Assim, os pesquisadores do LBQP desenvolvem
pesquisas de cunho proteômico aplicadas a temas de saúde e biotecnologia
usando diferentes modelos biológicos tais como Trypanosoma cruzi, cérebro de
abelhas, venenos animais, neutrófilos humanos, células vegetais e fungos.

Laboratório de Enzimologia

Compõem este laboratório 02 professores doutores, 2 técnicos de nível


médio e um bolsista do programa PRODOC da CAPES, 4 estudantes de
doutorado, 2 estudantes de mestrado, 2 bolsistas de iniciação científica e 09
estagiários da graduação. Realiza pesquisas que envolvem crescimento de
microorganismos sob condições aeróbicas e anaeróbicas, purificação e
caracterização de enzimas hidrolíticas de interesse biotecnológico (xilanases,
celulases, mananases, pectinases, glucanases, queratinases, quitinases,
rafinases e amilases).

Laboratório de Microbiologia e Biologia do Gene

Área: Biologia do Gene

Pesquisa a regulação da expressão gênica em organismos eucariontes e a


biologia de Tripanosomatídeos. Procura-se entender os circuitos regulatórios
envolvidos na biossíntese e degradação de proteínas em cultura de células e
durante a infecção destas com os protozoários parasitas humanos tais como o
Trypanosoma cruzi (doença de Chagas) e o Plasmodium falciparum (malária).

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Três fatores sabidamente implicados nesses processos são modelo de
estudos: O complexo formado entre a cauda poliadenilada dos RNAs
mensageiros e sua proteína ligante, a PABP; o fator de transcrição NF-kB e o
Proteassoma – uma partícula com atividade proteásica multicatalítica - que
degrada proteínas ubiquitinadas. Funções de Proteassoma e seus substratos
também são estudados durante a dormência e germinação de sementes de
girassol.

Área: Epidemiologia e virulência de enteropatôgenos - O leite materno e a


proteção as infecções entéricas

Epidemiologia molecular das infecções entéricas. Determinação dos


marcadores de virulência e categorização das linhagens de Escherichia coli.
Estudo da patogenia das E.coli diarreiogênicas. Determinação dos
componentes do leite humano capazes de conferir proteção contra as
infecções entéricas causadas por E.coli, Shigella e Salmonella. Estudo dos
mecanismos de ação dos compostos ativos do leite frente às diversas bactérias
enteropatogênicas.

Laboratório de Microscopia Eletrônica e Virologia

O grupo de Biologia Estrutural do laboratório de Microscopia Eletrônica e


Virologia desenvolve estudos estruturais e ultra-estruturais de células
germinativas (espermatozóides e folículos ovarianos), utilizando microscopia de
luz e eletrônicas de transmissão e varredura. Aspectos de diferenciação celular
e levantamento de caracteres morfológicos para estudos filogenéticos,
taxômicos e evolutivos são os focos da pesquisa. O grupo desenvolve ainda,
estudos envolvendo os processos de interação baculovírus-células de inseto.
Além, do baculovírus tipo selvagem AgMNPV, são utilizados vírus mutantes,
causadores de apoptose celular, no estudo dos processos de infecção.
O Laboratório de Microscopia Eletrônica e Virologia está dotado de infra-
estrutura para desenvolver trabalhos em:

(1)Microscopia de luz:- 01 microscópio Axiophot Zeiss equipado com


acessórios fotográficos, campo claro, contraste interferência, contraste de fase,
fluorescência e polarização, 01 microscópio invertido Zeiss com acessóro
fotográfico, 01 microscópio estereoscópio (lupa) Zeiss com acessórios
fotográficos e 01 microscópio estereoscópio (lupa) Leica com acessório para
fluorescência.

2)Microscopia Eletrônica de Varredura:- equipamentos acessórios (ponto crítico


e "sputter coated") para preparo de amostras -microscópio eletrônico de
varredura Jeol 840ª.

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3)Microscopia Eletrônica de Transmissão: - equipamentos acessórios
(ultramicrótomos) para preparo de amostras -microscópio eletrônico de
transmissão Jeol 100 C-microscópio eletrônico de transmissão Jeol 1011.

4)Virologia -03 fluxos laminares para cultura de células de inseto e bactérias -


01 sistema de foto-documentação de gel- Incubadores diversos para
crescimento de células de inseto e bactérias- Cubas de eletroforese para
proteínas e ácidos nucléicos

Laboratório de Biologia Teórica

O Laboratório de Biologia teórica desenvolve pesquisa em teoria e simulação


computacional do enovelamento de proteinas. O trabalha atualmente com dois
tipos básicos de modelos proteicos que se complementam na busca de uma
solução para problema do enovelamento das proteínas. Simulacões de
modelos minimalistas em redes bidimensionais e tridimensionais pretendem
contribuir para o entendimento geral do processo físico de auto-organização
que ocorre durante o enovelamento protéico. Modelos contínuos mais
realísticos, onde todos os átomos pesados da proteína são representados
explicitamente, combinados com princípios gerais sugeridos pelos modelos
minimalistas, visam, eventualmente, a simulação do enovelamento de
proteínas reais a partir da informação contida na seqüência de aminoácidos.

Pesquisa e Pós-Graduação em Biologia Molecular - CEL/IB/UnB

Alguns Marcos Históricos

 Produção de Hormônios de crescimento Humano (hGH) a partir de


hipófises humanas, através de hibridomas, no período de 1975-1982, no
Laboratório de Bioquímica. O produto chegou a ser distribuído nacionalmente
pela Central de Medicamentos.

 Produção de Hemoderivados (albumina humana e fatores de coagulação


sanguínea). Este projeto que gerou a planta de hemoderivados atual do
Hemocentro de Brasília foi desenvolvido nos Laboratórios de Biofísica e
Bioquímica.

 Determinação da primeira seqüência completa de aminoácidos de uma


proteína no Brasil. Este trabalho foi o embrião do atual Laboratório de
Bioquímica e Química de Proteínas (LBQP) e do Centro Brasileiro de
Seqüenciamento de Proteínas. Trabalho concluído em 1985.
.
 Desenvolvimento de tecnologia de produção de insulina humana por
Engenharia Genética no Laboratório de Biologia Molecular em Parceria com a
Biobrás, nas décadas de 1980 e 1990.

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 Introdução do microssequenciamento automático e análise de proteínas,
peptídeos e aminoácidos no Centro Brasileiro de Seqüenciamento de
Proteínas, com implantação da linha de serviços para atendimento a
pesquisadores e indústrias. Implantou-se, assim, o primeiro “Core Facility” no
país, na área de proteínas, em1991.

 Implantação de espectrometria de massa de proteínas e análise


proteômica no Laboratório de Bioquímica e Química de Proteínas de forma
pioneira no país, na década de 1990.

 Importantes estudos de regulação da expressão gênica envolvendo o


complexo formado entre a cauda poliadenilada dos RNAs mensageiros, sua
proteína ligante PABP e o proteossoma desde a década de 1990. Laboratório
de Microbiologia.

 Participação no primeiro consórcio nacional de seqüenciamento


genômico (bactéria Chromobacterium violaceum) através do Laboratório de
Biologia Molecular no início dos anos 2.000.

 Seqüenciamento de dois genomas completos de bactérias


lignocelulolíticas em seqüenciador de alto desempenho pelo Laboratório de
Enzimologia em 2010 em apenas 10 horas e de forma pioneira no DF e no
Brasil.

 Novas instalações físicas do IB. Não poderíamos deixar de incluir nesta lista
as novas instalações do Instituto de Ciências Biológicas como um importante
marco na história da UnB , do IB , dos seus Departamentos e de todos os seus
docentes, discentes, servidores técnico-administrativos e colaboradores.

Referências Bibliográficas
(1) Teixeira,A. (1998) Educação e Universidade, 187p.,Editora UFRJ, Rio de
Janeiro, Brasil.

(2) Morhy,L. (2000) A ciência no Brasil. UnB-Revista: Número Especial, Jul.


p.36-38.

(3) Morhy,L.(2009) Universidade e Desenvolvimento Científico e


Tecnológico no Brasil, p.340-362 in Lamarra,N.F.-Universidad, Sociedad
e Innovación [uma perspectiva internacional], 511p., Eduntref,
Universidad Nacional de Tres de Febrero, B.Aires, Argentina.

8
(4) Roitman,I. (2001) Biologia na Universidade de Brasília, Humanidades,
N°48, 181-195

(*) Lauro Morhy é Dr. e Mestre em Biologia Molecular (Química de Proteínas).


É Professor Emérito da Universidade de Brasília. Foi Reitor e Decano de
Pesquisa e Pós-Graduação da UnB; foi Vice-Presidente do CNPq (vide
Curriculos no Site WWW.lauromorhy.com.br).