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João Carlos Tedesco

do
<pa~aáÍ!Jffla~
OTIDIANO
Introdução à constituição de um
campo de análi~e social
6 João Carlos Tedesco
A epistcrne do campo interacionista 70
Inreração. ocasiões e encontros: o cenário social se fazendo 75
O indivíduo C0l110personagem em representação 79
Críticas ao interacionismo simbólico 81
4 A Etnometodologia 87 APRESENTACÃ() .:>
Fontes-auxílio da corrente etnometodológica 87
Temas fundamentais da etnornctodologia 88
Pressupostos do campo específico da etnornctodologia
A vida cotidiana no campo da ernomctodologia: as noções em
91
./ .' ,I'
ação 96 J ,fies Heller, certa feita, escreveu que a vida cotidia-
Instrumentais metodológicos que dão suporte à corrente li O I
-' na é a vida de todo o homem e é vida do homem :\
Críticas à etnometodologia 115 .inteirof No livro que ora apresentamos, o professor Te-
11
desco, entre outras coisas, cartografa o(s)campo(s) epistemológicots), ':1
5 O prcsentismo [ormista de maffcsoli 119 teóricoís) e metodológicoís)daquilo que podemos denominar de "pres- :i
:[
As suas fontes 119 supostos do cotidiano e da cotidianidade". É um trabalho de fôlego I'
Localizando alguns pressupostos J 21 quanto ao alcance da revisão bibliográfica. Nela, o autor envolve as
A epistemologia do cotidiano J 25 multiplicidades de enfoques e a pluralidade de posturas em dabate.
O auxílio de Lyotard J 36 Neste trabalho fica patente a tese de que o debate sobre o
A crítica ao prescnrisrno tormista 137 cotidiano e suas implicações nasceu no esquadrinhamento dos pró-
prios modernos. Certamente, o catálogo de implicações sobre o
. 6 O cotidiano numa vertente da tradição marxista J 43 terna não consiste apenas em arrolar a possibilidade cognitiva ins-
Os autores, as fontes e alguns pressupostos 143 trumental do conhecimento, mas torna evidente uma pergunta:
Elementos teóricos que caracterizam a vida cotidiana na ótica essas possibilidades são suficientes para reconstituir a vida doho-
marxista mais ampla 149 mem inteiro no sentido da condição humana?
Questões tcórico-mctodológicas apontadas pelo paradigrna Parece que muitos dos autores críticos da modernidade, pe-
111arxIsta 174 las leituras instrumentalizadas dos modernos, não conseguiram
Críticas à corrente marxista do cotidiano 182 "", ati~gir tal objetivo e, talvez, nem fosse e.s,se? o~j~tivo ~e!es.
;"MUltOSdesses autores permaneceram no VIeSsimbólico-estético-
discursivo. Outros, na ânsia de apreender a realidade, fixaram-se
Considerações finais apenas nas estruturas produtivas. A multiplicidade das formas de
a perspectiva de análise crítica 185 racionalidade, cuja complexidade é maior que aquela proposta pelos
conceitos, exige um exame rigoroso dos paradigmas instrumenta-
Referências bibliográficas 193 lizados. Aquilo que era percebido como o irracional passa a ser a
interface dessa complexidade num processo de intermediação en-
tre o todo e a parte. Para alcançar essa identificação torna-se pre-
ciso reconstituir uma rede de comunicação entre os momentos
e~~~cífi~osda razão que são cons~r~ídos at.r~vés da práxis cotidi~-
n~orem, alguns autores, na fúria de criticar os modern~s, cal-
ram no empobrecimento, na fragmentação e na polarizaçãoxlsssa
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João Cartos Tedesco :-Y~radigmas do '(cotidiano 9
........... _ . ... - .
forma autônoma e individualizada de entender o cotidiano está árvore e a orquídea podem formar uma totalidade agregada de mul-
esgotada, pois perdeu a sua capacidade de reencaixamento das tiplicidades relacionais. A imediatez dos olhares polarizados está su-
culturas. O cotidiano pelo cotidiano, quanto muito, consegue ex- perada. Muitas árvores morreram sufocadas por orquídeas, nem
por o sistema imunológico dos modernos, porém uma leitura mais por isso desaparece a floresta, muito menos, as orquídeas.
apurada desses mesmos modernos deixa transparecer, com algu- Portanto, o momento suportável localiza-se entre o diagnós-
ma dificuldade, que resguardam a rede imunológica contra os pos- tico e a autópsia dos modernos. Mesmo vivendo num mundo das
síveis perigos para a sociedade moderna. Com certeza, a estrutu- revoluções frustradas, solo fértil para as compensações simbóli- I
I
ra instrumental da razão moderna já não poderá ser mais a mes- cas do tudo-já-foi, observa-se um vigor criativo das novas sociabi- ,j
ma depois da releitura dos modernos e com a instalação do teore- lidades e das identificações. A racionalidade unívoca criticada cede
ma da heterogeneidade. A absolutização da heterogeneidade em espaços àquilo que o nosso autor propõe: "restabelecer relações
si atribui ênfase imensurável à dominação do discurso, eliminan- dialéticas recíprocas e de implicações entre fatos". Em outras pa-
do-se novamente a possibilidade de intermediação. Cair-se-ia, en- lavras, isso significa tratar o cotidiano com sentido histórico, polí-
tão, tão-somente na formação de linguagens radicais, porém sem tico, cultural e econômico. Dessa forma de entender o cotidiano,
produtividade metodológica na apreensão de experiências. com certeza, podemos esperar pressupostos metodológicos para a
Parece-nos que existe um momento suportável entre o fim reconstrução da existência da sociedade.
traçado pelos iluministas através de concepções de progresso e \l Aliás, existem muitas outras polarizações discursivas que
temporalidade linear e a relatividade e provisoriedade do cotidia- também estão com seus dias contados, tais como região/nacional,
no, sem cair nas aporias de um e outro. Se entendi bem o texto micro/macro, sujeito/objeto, infra/superestrutura, indivíduo/socie-
do professor Tedesco, ele nos leva a esse momento suportável. dade etc. São todas discussões que o autor não deixa escapar no
Várias vezes, o autor leva os modernos ao seu ponto crítico, colo- seu texto, ou, pelo menos, a elas faz referência. Portanto, o cami-
cando-os à exaustão de "cara contra a parede". Simultaneamente nho vislumbrado neste texto é o das múltiplas intermcdiações.
'I
a esse processo, possibilita-nos diagnosticar esses mesmos mo- Dessa forma, supera-se o lamento fácil das'carpideiras/ que cho- ~ I
dernos, através da releitura que faz de suas potencialidades radi- ram a morte dos modernos em detrimento da vitalidade das racio- .<!
cais. O diagnóstico proposto permite-nos compreender os moder- nalidades historicamente varridas para debaixo do tapete pela ver-
nos no horizonte de seu fim. Contudo, podemos dizer que ainda dade absoluta da ciência novecentista. A questão é a seguinte: se
não conseguimos captar os modernos em toda sua complexidade, as racionalidades estão presentes no mundo da vida, c disso não
pois, se assim fosse, teríamos algumas chances de superá-Ios. Pa- podemos escapar, como ampliar nossos horizontes teórico-meto-
rece que esse não é o caso aqui. O autor procura compreender os
modernos, debruçando-se sobre seu significado na medida em que
dológicos para a sua compreensão? Esse parece ser o fio condutor
das preocupações do professor Tedesco em todo o texto. Pela com- I
focaliza sua trajetória epistemológica. Essa trajetória é mapeada plexidade da questão, o caminho encontrado é uma "pedrei-
I
pela releitura que faz dos modernos e pela leitura de seus críticos, ra". É um texto que exige de nós uma força de vontade que supere
aqueles que atestaram sua morte através da autópsia. nossos esquemas a priori concebidos. A densidade, a vasta revisão
Podemos comparar essa situação àquela que encontramos bibliográfica feita pelo autor poderiam tornar o texto de difícil
na natureza. A semente de orquídea normalmente é colocada nos penetração, mas isso ocorre, evidentemente, por conta da com-
troncos e galhos de outras árvores maiores. Ali, alimentando-se, plexidade da temática em questão. Que o leitor tenha uma provei-
cresce e dá flores maravilhosas. Entretanto, a orquídea pode che- tosa leitura!
gar a sufocar a sua própria sorte: a árvore hospedeira, matando-a.
A conseqüência é a sua própria inanição e morte. Aquilo que era
observado tradicionalmente de forma isolada poderia ser uma ár- Astor Antônio Diehl
vore frondosa ou uma orquídea florida. Mas, por outro lado, a Junho de 1999
,...,
INTRODUCAO
-'
Desconfiei do mais rrivini
na aparência singela
E examinei, sobretudo, o que parece habitual.
Suplic.unus expressamente:
não aceitei" o que é de hábito
corno COi"'l natural.
pois em tcmpo de desordem san gren r a,
de confusão organizada,
de arbitr.tric d.idc consciente,
de humanidade dcsumanizada,
na(b deve parecer n.uurnl,
nada deve parecer impossível
de mudar.
B. Brcchr ~ I
,'!to se fala sobre o cotidiano, sobre práticas coti-
dianas, sobre relações cotidianas, sobre rnoderni-
.vdade e cotidiano, sobre história e cotidiano, o coti-
diano aqui, O cotidiano ali ... Mas o que é o cotidiano? É um lugar, é
uma dimensão, é um estado de espírito? Se existe o cotidiano é porque
se pressupõe um não-cotidiano. O que seria esse não-cotidiano? Quan-
do se apresenta? Fala-se em teorias do cotidiano; é possível teorizar as
miriades de situações que se apresentam no cotidiano e/ou cotidiana-
mente? Quando o cotidiano se transforma em cotidianidade? O coti-
diano pode se constituir em campo de análise social? O que ele tem de
específico em relação aos outros campos? Questões e mais questões!
Na presente análise não temos a pretensão nem condições
de dar conta disso. Queremos apenas mapear, levantar pressu-
postos analítico-metodológicos de apreensão de processos que cons-
tituem o cotidiano e que se constituem nele. O presente texto!
1 o texto foi escrito para servir de base para nossa CjILClIUrcaçào de doutoramento em
Ciências Sociais na Unicamp. apresentada em julho ele 1997.
12 João Carlos Tedesco ,f~radigmas do otidiano 13
quer perpassar algumas das abordagens que têm condições de lan- do mercado e de sua unidimensionalidade (neoliberalismo), dos
çar mão de instrumentais analíticos e que formam)~sse campo de metadiscursos totalizantes e fechados abriu horizontes de inter-
aIlfG9P§ã.QgQCeql Cf.Lél.D2-ª.ggçotidianQl9 objetivo é analisar algu- pretação do real e da vida (existência) sob formas muito pouco
mas de suas epistemes, mostrando que ambas buscam dar conta
abordadas pela razão uniformizadora do racionalismo da moder-
de seu objeto e têm muito a dizer sobre os processos que perpas-
nidade. No entanto, a esfera da heterogeneidade, da intercultura-
sam o cotidiano na atualidade, porém nem todas dão ênfase à
lidade, da desconstrução, do dissenso, do plural, do sensível e do
dimensão crítica e aos processos socioistóricos e estruturais que
subjetivo já fazia parte, como contradição, do próprio movimento
constituem e se constroem nele. Queremos, então, insistir numa
modernista, crítico que era dos discursos ,e projetos dogmáticos
abordagem crítica, numa episteme que dê ênfase aos processos
do racionalismo autoritário e totalizanto. E por isso que falar em
colonizadores e cristalizadores do cotidiano e, ao mesmo tempo,
pôs, trans, alta, baixa, anti, fim. da modernidade é complicado e
que apresente situações, canais, necessidades e possibilidades de polêmico; implica garimpar pressupostos, avaliá-Ias com os olhos
transforrná-lo.
da crítica epistêmica e da própria contemporaneidade do real.
~\Há polêmicas sobre a origem desse campo de análise, sua
Gri.tiGar,o.u.so.da"I'llzão..n.ão_signifLC..a_d,e)3k1Jf:.Lª.!l~!I1 rçfQjA-
constituição, seus métodos de apreensão do real, suas epistemo-
lª~Jomp~l-:....ç@lformas dogmátic~as não sig[lifi"º-ª__ <lll~..12ªg.ªE)_gstit_
logias e importância para o conjunto do campo sociolõgícoxàlguns
jam construindo outras, paradoxalmente, pelo viés do relativo, do
identificilm o campo do coli diano corno espaço da pós-modernida~ heterogêneo, do hedonismo e do flexível, as quais, na prática, não
ele, do pllll'a)i§IJ!Q,dQ§J.l}étodQs moles ,como urrm zonadfLflf!§cieZa con~eguem ir muito além da esfera da crítica.
daa.narrativas totalizantes e do pedestal da razão, coment~nclj~ ~ Quem leu Weber sabe que a modernidade é um meio, um
menlº!üfkgg[lcE~ris, dando 11m novo reencantamento.dQillJJndi2~tª- objetivo, como é também um problema, pois apresenta sua face
via da sociabilidade comunal e de matrizes discursivas, Já.ollt..r:o.S
~,_>«.,_.,."._.,_ .•. _ .•...... 0',0.0" .. .. ..•.. .......• __ " "0'_ .• 0.0 _._ .....• __ '0 " _, .. ,_ .. _.00.0 _', 0.0 "0_"_ o', "._ 0.0 .", __ ._~. . .. ,, __
perversara razão instrumental, que é, acima de tudo, burocrática
o tematizampelovi~J2da dialética, dQ,?macroprocessos, da racio- e utilitáriajífiiehl, 1997). É essa concepção de meio que parece ter
nalidade técnica, pragmática, burocrática enleI'çantiL [ocalizan- se esgotado. Temos a impressão de que só restam os fragmentos
do os grandes conflitos sociais (classes, capitais, técnicas,_cultu- mediadores e os lamentos dos pôs; fala-se em pós para tudo: pôs-
ras ...) que perpassam a 9sfGra"do ..cotid,tmlO,'
moderno, pós-história, pós-trabalho, pós-emancipação, pós-indus-
Hª..tel1dênciai';, emalgumas áreas das ciências sociais, de trial, pós-emprego ... O discurso radical dos pós e dos [ins, além de
ignorar a existência de uma base analítica constitutiva do chama- sua irresponsabilidade científico-acadêmica, retira todo o poten-
do C[l',I1P.o Fioc.iol{JgÚ";Q do coiidisusa, QU, então, de querer reduzi-Io
cial de autocrítica e, como conseqüência, a dimensão dialética que
a uma roupagem em direção à crítica dos modernos, da própria
a modernidade ocidental sempre teve.
modernidade e dos frutos históricos da modernização, enfatizan-
Os signos da cultura pós-moderna foram muito bem trata-
do que o mesmo nada mais é de que um locus analítico inconse-
dos e criticados por Baudrillard e Morin; há mais tempo, por Sim-
qüente e reencantado em contraposição às experiências históri-
mel, Weber, Marx, os frankfurtianos etc.; mais recentemente, por
cas frustradas de cunho coletivo e emancipador enquanto finali-
Lyotard, dentre outros, o que demonstra que o pós não é tanto
dade histórico-social, de que é nada mais que um antro de subjeti-
um depois, nem que há tão nitidamente um antes em oposição e
vismo analítico, de descontentes e (re lcontentes com o pouco, com
que nem é possível desconstruir (Lyotard, Feyerabend) e/ou reen-
o banal, com o anódino, com o plural, com o esotérico e com o
caixar tudo (Giddens), muito menos ignorar a existência do contí-
romantismo reencantador do sensível.
nuo e de processos em ruptura/redefinição."?
Acreditamos que reduzir e preconceituar apressadamente
É nesse jogo complexo e ambivalente que os paradigmas da
esse campo não seria um bom exercício de seriedade acadêmica.
sociologia da vida cotidiana se inserem para constituir seu campo.
Não temos dúvida de que o desencanto com a racionalidade obje-
Analisar as motivações, as origens da reação pós-moderna, a ten-
tiva da técnica, do industrialismo, do tempo linear, dos resultados tativa de recuperação de valores modernistas da modernidade, as
14 João Carlos Tedesco
.'Jj~radigmas do Y;'otidiano ......... 15
.. -- -- '-' ....................•....... _' , .
resistências frente ao fugidio e às definições unívocas, a noção e o IjÉ Goffman quem trabalha bem os significados da interação.
conceito, as regras duras e moles, o sujeito e o coletivo, o frag- Veremos que há uma valorização dos significados que mediatizarn
mento e a totalidade, ajaula de ferro e o reencantamento calei- as relações entre pessoas e que seu deciframento não é nada fácil;
doscópico da razão sensível etc. significa não fazer juízo de valor seus procedimentos interpretativos e critérios para seu uso. a sua
apressado, negativo nem positivo; significa um exercício de vigi- simlllação e teatralização construída revelam uma profunda capa-
lância, de lapidação, de abertura epistemológica para as grandes cidade de inventar imaginariamente as circunstâncias e os atos
transformações, rupturas e redefinições que o real nos apresenta sociais na interacão.
e para as quais nos desafia. Jogar fora o que os pós-modernos ~Os etnometodólogos também utilizam recursos fenomenoló-
analisam, preconceituosamente, só porque advogam uma pós-mo- gicos ao dar atribuiçãoao conhecimento cotidiano a partir da pro-
dernidade é, acreditamos, virar as costas para um conjunto de dução de significados partilhados pelos atores. A etnometodologia
processos e relações que perpassam e reconstroem socialmente o esforça-se para romper com os significados previamente definidos
cotidiano e o mundo mais global. O olhar analítico-reflexivo e crítico das acões reinventando-os em correspondência com a normalida-
(plural) tem dificuldade de apossar-se de camisas-de-força, sendo de q~e os próprios indivíduos dão ao social, o que possibilita a
essas, muitas vezes, forçadoras de sínteses e/ou tendentes a cair reprodução social, a constituição da vida cotidiana e de realidades
nas armadilhas dos modismos da flexibilização e do relativismo. múltiplas que se constroem na instabilidade e em descontinuida-
As várias correntes que compõem o campo da sociologia do des de significados e de mundos que nela se produzem (Martins,
cotidiano, como veremos, retomam a noção de senso comum, ob- 1998).
viamente cada uma ao seu modo. Há um revalorizar do interesse .É esse vivido pleno de significados que Lefebvre diz ser, como
sociológico pela vida cotidiana mediado pelo senso comum, talvez, veremos na abordagem marxista, a fonte das contradições da di-
como diz Martins (1998), como forma de resposta, de esperança nâmica colonizadora da cotidianidade, como momento de criação,
no homem e não na história, frente ao potencial de regeneração como resíduo, como possibilidade, como obra, como novo e como
da sociedade capitalista e de suas falsas promessas de redenção, transgressão.
de liberdade e de igualdade nunca realizadas. É sobre um pouco disso tudo que queremos refletir e que
Esse reinventar da sociedade provocou também um reinven-
constitui o campo de a.ná~~Ae~o c..otidiano ..AdEfW:rare~os basica-.
tal' do fazer sociológico, do pensamento e de alguns pressupostos mente em duas matrize~a fenomenologia e 'i1'marxlsmo, bem
da ciência social. Adentrar nas sociologias fenomenológicas, reco- como em suas tradições, vertentes e canais aproximados. Insisti-
nhecer que o senso comum possui sentido, vontades e pode tam- remos na perspectiva crítica do cotidiano, crítica da forma como a
bém se transformar na força da sociedade civil, que pode também
razão e a modernidade e seu projeto de modernização transfor-
revolucionar a vida, implica evitar as recaídas positivistas da so-
maram (colonizaram) esse cotidiano; crítica, também, da razão
ciologiaxComo veremos, a fenomenologia resgata a noção de sen- sensível de exacerbação subjetivista que tende a desfazer o emer-
so comum. gir da história, da consciência emancipadora do indivíduo social e
·~O senso comum é comum não porque seja banal ou mero e exterior de um coletivo dialético e transformador. Insistiremos na impor-
conhecimento. Mas porque é conhecimento compartilhado entre os tância do senso comurn. não como instância fechada, mas como
sujeitos da relação social, o significado a precede, pois é condição um pré-requisito para a análise do vivido, para âmbitos de suspen-
de seu estabelecimento e ocorrência. Sem significado compartilha- são e de análise científica. Queremos resgatar esse âmbito do so-
do não há interação. Além disso, não há possibilidade de que os
cial, romper preconceitos e reducionismos; em síntese, mostrar a
participantes da interação se imponham significados, já que o sig-
importância das várias abordagens que constituem essa nova matriz
nificado é reciprocamente experimentado pelos sujeitos (Martins,
1998, p. 3-4 L de interpretação do social, no sentido de localizá-Ias, de contrapô-
Ias e de agrupá-Ias no formato do campo em questão. Acreditamos
que, no início deste século, quando parece que muitas coisas es-
J
16. . ................ " ............• João Carlos Tedesco
. -- _-.
tão balançando, o cotidiano está se prestando, como laboratório
social, para os pós, para os trans, para a tradição/tradução e, por
que não, também para pensar num espaço/tempo de dialetização
do real.
Construiremos nosso texto em seis capítulos. No primeiro,
discutiremos a constituição do campo sociológicodo cotidiano ten-
tando levantar pressupostos epistemológicos do mesmo, bem como
mostrar a extrema necessidade de uma análise crítica do social
que esse campo poderia proporcionar. No segundo, escavaremos a
sociologia clássica e tradições sociológicas para retirarmos alguns
dos possíveis precursores do campo sociológico do cotidiano. A
análise mostra que muitas correntes tematizaram, de uma forma
ou de outra, a dimensão do cotidiano. No terceiro, quarto e quinto
capítulos, enfocarernos as epistemes decorrentes e/ou em parte
deduzidas e relacionadas à fenomenologia. Nossa preocupação é
com o horizonte da interação social, dos imaginários, do contexto
da ação, da intersubjetividade e do senso comum pela ótica do
interacionismo simbólico,
, da etnometodologia e\jdo presentismo
formista de Maffesolfs Procuraremos mostrar que são correntes
importantes e que tentam dar conta de processos e relações so-
ciais do e no cotidiano, mas que carecem de uma análise mais
estrutural e crítica desse âmbito social. Necessitaremos, então,
adentrar num sexto capítulo, no qual tentaremos resgatar noções,
conceitos e autores marxistas na análise do cotidiano. Nossa inten-
ção é mostrar, sem refutar o subjetivo, que a análise do cotidiano
não pode se debruçar sobre si mesma; precisa problematizar as-
pectos promotores de sua constituição, como é o caso da dimen-
são da técnica, do consumo dirigido, do tempo e do espaço funcio-
nal, do problema da alienação, dos signos e dos simulacros, dos
controles e burocratizações. O intuito é resgatar suspensões; é
dialetizar a práxis cotidiana; é construir um referencial teórico-
metodológico crítico dos processos que perpassam, constituem e
se redefinem no cotidiano.
o CANIP M
CONSTrT r CÃO
j
campo conceitual não pode nascer e se solidificar sem
ornar consciência de sua identidade interna e de sua di-
/',/ferença em relação aos outros campos que o cercam;
por isso, o seu nascimento está atrelado a canais interpretativos
incompletos, o que não significa refutar nem hipostasiar horizon-
tes genéricos já conhecidos e revelados contextualmente. O diálo-
go é parte integrante do confronto, Um campo, tratando-se de um
campo científico, delineia-se definindo-se os embates, ou seja, con-
flitos e interesses específicos, Para que um campo se constitua é
necessário que haja embate (Bourdieu, 1976).
Grande parte das teorias e das fílosofias sociais parece duali-
zar e/ou até dicotomizar as ações individuais e subjetivas e a de-
terminação objetiva das sociedades. A simultaneidade e com-
plementaridadede ambas as epistemoJogias pouco são tratadas.
Para alguns,seria isso impossível. Por um lado, as denominações
de sistêmica, holista, estrutural, substantiva e macroanalítica, por
outro, de atomista, subjetiva, compreensiva, fenomenológica e mi-
croanalítica, refletem modelos ideais e fechados das perspectivas
analíticas. Uma tematiza o papel das estruturas coercitivas e so-
ciais (Durkheim, Parsons, Lubmann ...) na determinação de com-
portamentos coletivos e individual, privilegiando o aspecto con-
ceitual do conhecimento, a externalidade em relação aos indiví-
duos, uma totalidade organizada como estrutura universal etc.,
ao passo que a outra concentra-se nos processos internos de com-
preensão e de significação do comportamento e das ações sociais
delimitadas pela vida cotidiana. Essa última preocupa-se mais com
o caráter contingente da ordem social, privilegiando, fundamen-
> .~radigmaSdo 'V'~tidiano 21
20. ~
........ "-.- ...- .. ..... João Carlos Tedesco
talmente, as negociações nas interações; sua episteme busca re- dispositivos sociais, às classes e aos sistemas. Centralizar o sujei-
futar pretensões totalizantes, centralizadoras, universalizantes e 1..) individual através de suas práticas e representações, pelas quais
uniformizadoras, próprias do racionalismo moderno. No entanto, ;-;('relaciona e negocia com a sociedade, com a cultura e com os
ambas pretendem, sim, a diferenciação, a refutação de modelos, ° .rcontecimentos, significa dizer que o cotidiano não é só vivido'
transitório, o indivíduo como liberdade e criação. A abordagem u.rna-se, sim, objeto de interrogação e de debate, ou seja, é um
pós-moderna é a que está dando, hegemonicamente, identidade .'spaço que, pela doxa (opinião), poderá chegar à reflexão e ser
II 111 a semente promotora de superações e de suspensões.
interna à estruturação do campo da sociologia do cotidiano. Gran-
de parte das análises que tematizam pelo viés do cotidiano de- "\Priorizar o efêmero, o contingente, o fragmento, o relativo,
monstra esse perfil. I) múltiplo, o sujeito etc., em vez do permanente, do coletivo e do
O campo da sociologia da vida cotidiana é fruto de uma cons- conjunto, significa possibilitar substância ao cotidiano e substi-
t.u i r a socialização de um projeto totalizante por um outro de frag-
tituição muito recente, porém sua base e seus pressupostos ad-
vêm do surgimento da chamada sociologia tradicional. O referido mentação, de centralidade e de singularidade subjetiva? Apelando
p.rra a tese da indeterminação, da ambigüidade da realidade da
campo constitui-se comouma espécie depraxeologia (Juan, 1996);
llcxibilização e da desconstrução, não se estaria descriticizando o
contempla o domínio das ações individuais, rotineiras e não orga-
nizadas - como fatos sociais - situando-as em seu ambiente insti- sujeito, jogando-o fora? Em nome do não-aprisionamento esque-
tucional-simbólico e no lugar ocupado pelos atores na estrutura mático da razão instrumental, não se estaria despersonalizando o
social. Não é algo novo para o campo sociológico como um todo próprio sujeito? São questões pouco trabalhadas até então.
essa dimensão de análise, porém ganha maior significação e cons- <~Segundo Balandier (1983), o mérito da constituição do cam-
1 da sociologia do cotidiano está em demonstrar a possibilidade
tituição em razão das especificidades e das variações dos campos, 11)
bem como dos processos multivariados e complexos que o real de estabelecer ligações entre os grandes dispositivos sociais e os
que regulam a vida cotidiana, bem como em resgatar o reapareci-
apresenta e de que as inúmeras abordagens tentam dar conta,
algumas mais aceitas, outras em fase de busca de credibilidade monto do sujeito em face das estruturas, dos sistemas e do insti-
t.uído no vivido.
dentro do campo. r
\]' O campo da sociologia do cotidiano? advém da problemática
Como já mencionamos, malgrado seus precursores, enquan-
to campo, a sociologia elo cotidiano constitui-se no embate entre que assume essa mesma dimensão de análise: aceleraçào do coti-
modernos e pós-modernos, no centro da crise das propostas tota- d 1<1 no (mercantilizaçào do tempo, do espaço, das ações...), da frag-
lizantes e/ou niilistas do pós-histórico, do pós-industrialismo, da niontação dos acontecimentos, da deslocalização (circulação rápi-
pós-tradição, da crise do pós-projeto emancipador da modernida- da dos processos, da imagem, da informação, do símbolo...), ao
de, da crítica à sociedade burocrática, tecnocrática, colonizadora e mesmo tempo, da institucionalização das decisões e dos atos roti-
fragmentadora do social e do humano, tão bem manifesta pelos nuiros, da importância dos sistemas de objetos técnicos e da velo-
críticos modernos da modernidade e também pelos ditos "pós-
modernos". Constitui-se esse processo todo num terreno fértil para
a definição de epistemes que transitam pela postura multidirecio- l)is('\\Unclo sobre o objeto da sociologia da vida cotidiana. .Jeveau (1980) resgata
,(J\I("("I(OS durkheuntntauos ele ICllOS norlllais e [aios patológicos. O autor caracte-
nal, pluralista, pela crítica aos grandes modelos coletivos de so- 1"1'/.;] a noçao de regularidade e a de vnunijestaçào bruta da atividade Iruruana.
ciedade e de formas conceituais. :\lIlh<10 _se ~OnlP?~nl. analtücamente, de urna forma relactoual. carregando consigo
IIlkraçoes uuphcuas Ou exphcítas. expressas eUl vocabulartos. tais corno rito ín-
É por isso que a sociologia do cotidiano está hoje em grande ",r;\~·,io. transação. código. relação face a face. jogo. sociabilidade e afettvídade
expansão. Porém, como nos diz Balandier (1983), seu objeto care- ."q~l1l1do o autor. o coudrauo 11<10 pode ser isolac1o enquant.o categoria distinta do
-,Hei,d. pois no cotidiano se manifestam as tensões. os conflitos'. os desenvolvi-
ce de uma melhor definição e seu campo de intervenção tem limi- "II'ldos ídeotogtcos. as crises. os p r occssos de alienação (burocracia. consumo. os
I'IO"C:-'SOS institltciOnaisl.\o ..
CJue demonstra que a sociologia da vida cotidiana não
tes problemáticos. O sujeito individual, suas relações próximas e
I', JII'('{'ssal·ialllente. uma 1~"'OSSOCiologia.urna pequena história quando compara-
regulares, não está isento de vínculos em relação aos grandes d.• {'(IIII a história.
':'Y~radigmas do 'totidiano ..........
-.,..._.__
.... 23
22 João Carlos Tedesco
...-~ -- --..----
por modernistas. Com isso não queremos dizer que a radicaliza-
cidade e funcionalidade que esses dimensionam etc., quer dizer,
ção crítica dos princípios modernos pela pós-modernidade tenha
de quando esse horizonte do cotidiano apresentou-se profunda-
de ser refutada, que não tenha sentido, ou, então, que o fato de
mente problemático.
reconhecermos a subjetividade, o imaginário, a impressão, a em-
Essa dimensão da problematicidade possui um caráter obje-
patia, o sensorial etc. seja um suposto irracional ou não possa ser
tivo, histórico e social. Acreditamos, fundamentando-nos na crise
alimentado pela via da razão.
de perspectivas paradigmáticas de transformação do mundo, no
, \ ). Lendo Mauss, vemos que os fenômenos coletivos são rea-
aparecer de conflitos estruturais com a crise do industrialismo
grupados em indivíduos, em atos e em idéias. O autor toma ações
do Estado, dos fundamentos da luta de classes, da capacidade de
cotidianas, tais como o jogo, a pesca, a caça etc., como práticas
regulação econômica, da destradicionalização, do desafio da re-
que se movem e que orientam superstições. No Ensaio acerca do
produção do indivíduo, da crise ecológica e de referenciais que
possam ancorar as novas sociabilidades. É por isso que, quando se \ dom (Essai sur le don - 1923), as trocas totais, a circulação de
fala em uida cotidiana não se entende só o vivido no plano do bens, as lógicas de obrigação, a alegria e o crédito que a acompa-
nham tornam-se momentos por excelência do agir cotidiano (Juan,
indivíduo, nem a interação pura e simples, nem só as posições
coletivas e muito menos, a idéia de freqiiência das açães\A vida 1996).
cotidiana é um atributo do ator individual e se realiza sempre Poderemos passar inúmeros autores, talvez mais do campo
da antropologia cultural e social do que da sociologia, e veremos
num quadro socioespacial, ~eja de um modo individualista, seja
de um modo estruturalista.» que todos eles têm algo a contribuir para a constituição do campo
Pelo fato de participar de diversos meios, não significa que da sociologia da vida cotidiana. No entanto, há alguns pressupos-
esse meio faça reduzir a vida cotidiana a suas condições objetivas tos constituidores do campo que o identificam e o especificam.
de existência, nem que o privado seja privilegiado em relação ao
pÚbliCOÁí/A vi.dac~tidiana é, também, manifestação pública (Juan, A/!!tm;';{>Ví.!';~tf,,()çt()S ef'io;.1l!t1w/ógicos dtl
1996). sociologia do trabalho, a sociologia política do Estado, a
sociologia urbana, a mobilidade social (posição, classe, domina- tun:;!i.;e do c at idf:.:UfO
ção, sistemas de desigualdade), a institucionalização de sistemas de Q/" " '
\ ,,'Y E importante que tenhamos presente a relevância para o
T
poder, os movimentos sociais e culturais, dentre inúmeros outros,
formam a trama das dimensões interpretativas da sociologia da ..::.'estudo das ciências humanas; para a análise das ações cotidianas,
vida cotidiana. Não que ela seja um somatório das brechas/falhas dos pequenos episódios, dos/fatos sane prestige que constituem,
das outras, porém os processos sociais perpassam esse horizonte como diz Lefebvre, a substância do cotidiano\Por mais que pare-
de análise e contribuem para cristalizar uma dimensão/esfera do ça óbvio e sem importância, não podemos esquecer que a trajetó-
social em profundo dinamismo (mesmo conservando a aparência ria de nossa vida, do nascimento até a morte, constitui-se numa
/ de rotina, de reprodução, de estagnação, de banalidade ...). cotidianidade. Lukács (1966, p. 11) é claro ao dizer que
< Segundo Crespi (1983), na ausência de perspectivas totali- ~ o primário é a conduta do homem na vida cotidiana , terreno esse ,
zantes, abre-se espaço para o cotidiano. No entanto, o cotidiano em que pese sua importância central para a compreensão dos modos
. mostra um presente contraditório e sem solução. O autor concor- de reação mais elevado\e complicados, continua ainda, em grande
da que é necessário uma transformação concreta das significa- parte, sem ser estudado+O comportamento cotidiano do homem é
ções e das representações coletivas do cotidiano e que isso está começo e final de toda atividade humana'] Se representamos a
inteiramente ligado às transformações das estruturas sociais e cotidianidade como um grande rio, pode dizer-se que dele se des-
das condições materiais. prendem, em formas superiores de recepção e reprodução da reali-
dade, a ciência e a arte, que se diferenciam, se constituem de acordo
A sociologia do cotidiano não surge com a crítica da pós-mo-
com suas finalidades específicas, alcançam sua forma pura nessa
dernidade. Já falamos que muitas de suas críticas já foram feitas
24 - ----.. . -- "'~ ..- João Cartas Tedesco .?/~radigmaS do 't:~tidiano ... 25
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especificidade - que nasce das necessidades da vida social - para, imediato, do pragmático, da reprodução da reprodução (Lefebvre,
em seguida, como conseqüência dos seus efeitos, de sua influência Kosik); reprodução individual e mediação entre o particular e o
na vida dos homens, desembocar de novo na corrente da vida coti-
genérico (Heller); como a própria condição humana fundamental
diana.
(Arendt); como o espaço dos homens históricos reais (Marx).
Não é porque estamos mergulhados numa cotidianidade com Essas noções/conceitos têm uma justificação teórica peculiar:
aparência de uma esfera totali.zante que seja impossível construir independentemente do que pesem essas afirmações e de que fon-
nossa individualidade, nossa espiritualidade e elevação. A cotidiani- te teórica brotam, todos reconhecem que não há uma realidade
dade não nos vitima; ela sela o social e o histórico, ao mesmo tempo humana que não esteja, bem ou mal, imbricada e vinculada à
em que singulariza e define a própria condição humana (Arendt). realidade do concreto cotidiano ou que não esteja inserida numa
-~.A tese de Marx de que se deve partir dos homens, da sua coiidianidade (Reller, 1989).
vida real, vem ao encontro das preocupações do estudo do cotidia- ,,\ Um pressuposto básico, para início de conversa, é que todos
no. Desse ponto de partida, bastante esquecido pela tradição mar- possuem uma vida cotidiana - com suas complexidades, contradito-
xista, surgem correntes teóricas tematizando a linguagem comum riedades, ambigüidades, rotinizações, (prélocupações, conflitos, rup-
(influência de Wittgenstein, de De Certeau, de Chornski), a feno- turas, elevações etc. -, o que não significa dizer que seja um invólu-
menologia (husserliana e weberiana), apontando a importância cro da vida do homem. Alguns a consideram como um subsisterna,
dos valores e do senso comum, ambos como possibilidade de reve- ligado a outros níveis mais globais, porém servindo de base para
lação da estrutura da sociedade, da totalidade do social (Lukács, atividades consideradas superiores. É desse modo que a vida cotidia-
Heller, Kosik), como fonte de um estetismo e de uma nova revo- na torna-se um espaço por excelência de reprodução do indivíduo em
lução política apontada pelos pós-modernos (Maffesoli, Lyotard ...). concomitância à reprodução do complexo social (Azanha, 1992).
Essas tradições, mesmo em suas abordagens diferenciadas e até '-t O importante a reter, preliminarmente, é que a vida cotidia-
excludentes, demonstram que a banalidade do cotidiano não é tão na pode ser, mas não é meramente, nem apressadamente, nem
irrelevante; que o presente não é de todo desinteressado pela lógi- reduzidamente, sinônimo de banalidade, de insignificante, de re-
ca da espera,' coabita, sim, uma lógica da atenção, do vivido, na síduo, de produto, de alienação, de atraso (ou de contraponto à
qualo indeterminado e o socioistórico se revelam (Azanha, 1992). modernidade), de senso comum, de receptáculo, de modelação, de
Desse modo, definir o cotidiano não é algo fácil, nem tão coleta de dados, situações e fatos. É, talvez tudo isso. No entanto,
banal; implica assumir posturas epistêmicas em conflito." a sua complexidade nos desafia a deslizar nos paradigmas que
Muito se fala sobre o cotidiano, tratado em vários textos como buscam retê-Ia. Precisamos analisá-Ia e concebê-Ia despidos de
categoria de análise, como parte de um todo, como uma esfera do preconceitos e de mitos ideologicamente construídos. Isso os pós-
social, como uma dimensão da realidade que carrega característi- modernos nos alertam bem!
cas peculiares: senso comum, alienação, mesmismo, que anda por ~ Defendemos que a vida cotidiana é, antes de tudo, um produto
si etc. Lefebvre diz que o cotidiano é uma soma de insignificân- histórico. Ela se vincula e possui uma relação de estreiteza com os
cias, não de insignificante;:-U cotidiano é visto, também, como o movimentos, as rupturas e as continuidades que as várias modalida-
mundo da vida (Schutz, Haberrnas); como unidade de análise e dei des organizativas e de existência social assumem. É um espaço es-
atividade de tipo relacional (Weber); lugar do homem concreto, dO\ tratégico de usos e táticas, de desvios, de tecnologias disseminadas
(arte de fazer, de falar, de silenciar, de registrar ... diz De Certeau)."
" ·.ri
!~
3 Na tendência teleológica de determmadas frlosotlas da hi stórra. ver Crespí (1983). '-"f) ...,(
J A sociologia do cotidiano esforça-se por adquirtr um estatuto de ciência nonnal. legí-
tímando-se em tomo de três dimensões que lhe servem de suporte: a) o paradigma do
.'>(3 Míchel De Certeau 11994) reflete sobre a produçao secundaria que se esconde no
processo de utilização racionalizada. ceutraltzadn e secularizada da producao. As
sujeito como agente histórico. b) O papel da íntersubjetividade e. como elemento fun-
práticas cotidianas não são só o "fundo noturno", os "pequenos nadas" da atívtda-
damental do conhecimento do Illundo do vida em sua ligação com O universo de com-
de social: são. antes de tudo. estratégias. formas de- saber fazer. mciolloliclndes
preensào da socioJogia do conhecimento e c) da sociologia cltalétíca de base marxista.
internas. muitas vezes não vistas a olho nu.
l,
26 João Carlos Tedesco
.':Y~radigmas do 'rí'otidiano 27
'\;
~,Para compreender a vida cotidiana é necessário restabelecer
relações dialéticas recíprocas e de implicações entre fatos (Azanha, Não cansamos de dizer, pois estamos cada vez mais conven-
1~92). D~sse modo, os fatos não ficam mais pura e simplesmente cidos, que a crise de interpretações mais homogeneizantes do pre-
hierarquizados ou sem relaçãoxA cotidianidade tem uma relação sente (grandes teorias), as incertezas e vulnerabilidades que en-
estreita (encadeamento) com as formas de organização e de exis- gendram e que expõem as sociedades contemporâneas (economias
tência da sociedade;" globalizadas, laicização, flexibilização, desestatização e neolibera-
A crítica da vid~ cotidiana parte daí, ou seja, trata-se de abrir lismo, de um lado, fundamentalismos e messianismos, de outro)
o cotidian? (ou, nesse caso, a cotidianidade) ao histórico, ao políti- abrem espaços para o presentismo, no estilo pós-moderno, bem
co, ao .sOCIaI,promovendo, com isso, uma transformação radical como para o reatar de paradigmas mais universalizantes (macrois-
do cotidiano, Desse modo, a vida cotidiana passa a ser um nível tóricos), não só no pensamento social, mas em inúmeras aborda-
um .nível intermediário, mediador entre as esferas superiores ge~ gens dos campos do conhecimento.
Ao mesmo tempo, percebe-se uma tentativa de resgate do
ne~'lcas (a ~arte, a filosofia, a política etc.) e o mais simples, mais
evidente. E, como diz Lefebvre, um misto de natureza e de cultu- sujeito em meio às estruturas e aos sistemas, rompendo com a
ra, de história e de vazio, de individual e social, de real e irreal linearidade da concepção de história, com o vazio em face do ins-
tituído, do ordinário e da banalidade, priorizando o conhecimento
um lugar de transição e de encontro, de interferências e de confli-
tos, enfim, um nível de realidade. que se funda na interação, pouco ligando para as temporalidades
(lineares e horizontais que se cruzam ... ) e os destinos da história.
Temos a convicção de que, em pleno estágio avançado de
Na direção da subjetividade e de seu contexto-real, um es-
modernização, mesmo que as técnicas tenham avancado e invadi-
forço interdisciplinar (antropologia, história, psicologia) está sen-
do.o cotidiano social, relações tradicionais perma;lecem; conti-
do implementado na tentativa de se reconstituir experiências ex-
nuidades estão presentes em meio a rupturas, apresentando in-
cluídas ou em excludência, as tecnologias miúdas (De Certeau),
c~usive, limit~s.e imbricações na racional idade técnica. A com~le-
xidado do cotidiano não se resume ao fetichismo linear da técni- discursos, histórias de vida e história genealógica, da memória,
ca, fruto de interferências múltiplas (divisão do trabalho, do tem- genealogias de práticas vividas, etnias, classes e gêneros, pode-
po, do espaço, das classes, do saber, do poder ... ), mas, sim, por res, saberes. Enfim, experiências de sujeitos históricos e cultu-
preservar uma ~iqueza imens~ frente a uma realidade pobre, pro- rais cujas identidades eram omitidas ou, no mínimo, não merece-
gramada icolonizadas. Por mais que a modernidade vá promoven- ram a atenção e o espaço devidos (Mello, 1994)."
do aquilo que Lefebvre chama de catástrofe silenciosa, o cotidiano A idéia de um enfoque do mundo da experiência comum (sem
l~ta p0.r·pre~ervar a antiga realidade, as antigas representações ser totalmente empiricista) leva consigo alguns pressupostos epis-
(inclusive pnvadas de reparo), as quais objetivam se perpetuar na tcmológicos e metodológicos fundamentais: o de que a história é
prática social. social, cultural e economicamente construída e constituída; de
que o cotidiano é crivado por tensões e movimentos (permanên-
cia-transformação) como um campo de múltiplas possibilidades e
i 11 terseções que se aproximam, se diluem, se conservam e se ele-
varn (Azanha, 1992).
-1\ O sujeito, o sujeito do cotidiano, é o sujeito total (Azanha,
I !)92), assim como a totalidade dos sujeitos vive inseri da num co-
o estudo do cotidiano tem como ponto de partida o sujeito
tidiano. Da perspectiva do sujeito, o cotidiano é o momento pre-
enqua~lto se~ particular-individual, suas relações próximas, regu-
lares, intensivas, adesivas, fixas e mutáveis. Porém, não signifi-
ca que os grandes dispositivos sociais, as macroteorias (sistemas, II>-dudos nesse sr-ntrdo se mulüphcam. Alguns apenas: PERROT. Michelle. Os ex-
duídos da história. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1988: DE CERTEAU. M. A Ílwcllcào
classes, orgamzações ... ) não possam se apresentar.
do colidicmo. Petrópolis: Vozes. 1993 e 1994. 11 v.: THOMPSON. E. A voz elo pas-
slIdo. Rio ele Janeiro: paz e Terra. 1992.
28 João Carlos Tedesco
;1~radigmas do Y;otidiano 29
sente e, neste tempo presente, o sujeito age, está situado entre o
passado e a situação da ação, indicando a presença do futuro. No
sistema de reprodução de relações sociais de produção em meio à
entanto, o cotidiano ancora a percepção do tempo (e também do reprodução da força de trabalho e de outros meio~ d: (r.e)produçã~.
espaço), fortalecendo a dimensão do eu (Mello, 1994). Essa reprodução, imbricada aos elementos da dinâmica produti-
vista forma a ética tecnocrática que reduz a vida cotidiana a uma
Assim, no cotidiano, o sujeito está dentro e fora da história
(há um interno e um externo), isto é, vive-se num cotidiano, mas emp:esa, a instantes previamente definidos, a programaç~o espa-
isso não significa imersão absoluta nele. Deduz-se, do quejá fala- cial-temporal, a mesmos gestos em torno dos mesmos ob.J~tos.
mos, que estudar o cotidiano é privilegiar a presença histórica, ~Pensando como Lefebvre, o cotidiano deixou de s:1' rICO.em
social e psicológica dos sujeitos; sua ação está aí, orientada pelo subjetividade para se tornar objeto. da or~a~iza~ão s?clal capita-
ausente, por um universo simbólico que ordena o ontem e o ama- lista. Portanto, a compreensão da vida cotidiana implica adentrar
nhã, lembranças ou projetos contidos na evocação do passado ou para o lado sensível e prático dessas relações sociais, d~ vivido e
na percepção do devir (De Certeau, 1994l.7 do concebido, da subjetividade, das representações e das Imagens,
O estudo do cotidiano normalmente define a espacialidade porém sem perder de vista sua criticidade, historicidade e contex-
do sujeito numa localização e numa dimensão. Apequena comuni- tualidade.
"7Apartir das rnicrorrelações podem-se apreender jatos sociais
dade (sem cair na dimensão localista dos estudos originais da so-
ciologia urbana americana) permite uma observação mais deta- i;
ma totalizantes, universo da mercantilização capitalista, por
lhada dos fenômenos, da presença dos atores sociais, de suas exemplo; pode-se descobrir também que o vazio e a banalidade
representações, estratégias, práticas, enfim, de um conjunto de não são expressivos de insignificância, mas de resistência, ruptu-
fatos que denotam uma experiência total (Balandier, 1983) em con- ras em relação às representações da tecnicidade, das segre~aç.ões
traposição às estruturas e ao meio global (Azanha, 1992). socioeconômicas, religiosas c espaciais, da negação do sub]etJ:,o,
Por mais que o cotidiano seja expressivo da banalidade, esta da simples ocupação e funcionalidade do papel na divisão SOCIal
não está sempre presente, ou, se está, não está no vazio; há signi- do trabalho, dentre outras (Azanha, 1992). Ou seja, uma análise
ficados nisso. Além do mais, há graus diferenciados de banalida- crítica do cotidiano poderá revelar limites e contradições da e na
de, bem como há fatos nele que delimitam espaços de resistên- racionalidade tecnológica; revelar riquezas e sutilezas não apa-
cias, de confronto entre atividades regulares e, também, entre a rentes no seio da pobreza do cotidiano.
dimensão do cotidiano e a sociedade global.
É nesse sentido que Lefebvre analisa a vida cotidiana no
mundo moderno da ótica da racionalidade instrumental. O capita-
[) co1Ít_;(i9HO C0l1/fO '{ul'0t1e l:{,9
,( ,9ff{i.I<;e
, ,"' ticn
cri 'J '
lismo colonizou a vida cotidiana; criou uma cotidianidade (conjun- soclai
to de significações, de signos que significam as práticas cotidia-
nas, sobretudo no âmbito do simbólico) sob o signo do consumo Pensamos a abordagem crítica do cotidiano em concordân-
(consumo dirigido), modelado pelo fetiche da produção capitalista cia com Lefebvre quando diz que, em geral, o cotidiano não pode
(publicidade, produtividade, burocratização etc.), racionalizando e ser transformado sem uma transformação das estruturas sociais,
quantificando valores, signos e formas de vida. das representações coletivas (suas significações) e das condições
O cotidiano, ideologizado como insignificante e banal, for- materiais que o condicionam e que o colonizam, as quais o trans-
nece a base e a sustentação da constituição do capitalismo em formam em cotidianidade.
Voltamos a insistir, o estudo crítico do cotidiano comprome-
te-se com a análise do indivíduo histórico, isto é, um sujeito en-
Mat n-íce llalbwacl rs , em A tnenioria coletivn. tem at tza ('0111 profunrltdade a vmcula-
cáo da meuióría. elas trajetórias de viela e sua vi ncu lacao comuuítarta. social. his- volvido num complexo de relações presentes numa realidade his-
tórica e grupal: In051ra ~laraliJ(:~llte COIllO os tempos. os univer-sats concretos, abs- tórica em virtude de suas significações culturais e não da necessi-
tratos e presentes t ernauzum a uu-n tórra eol,,' \'ida 110 cou.trno temporal.
r-- ---
30
João Carlos Tedesco .Y~radigmaS do '6otidiano ....•... - .... - 31
I
dade de produzir identidades em massa H ou coletivos presentistas 11 /I iuersal y, con ella, el entero tema de todas Ias ciencias históri-
e inorgânicos, parecido com o que hoje se convencionou chamar, C;lS y todas Ias filosofias, se desarrolla en este mundo realista-
paradoxalmente (7),de pós-moderno global, em que fluxos de mer- ingenuo, es un argumento del mayor peso también para el trata-
cadorias e identidades a elas agrupadas unificam consumidores e micnto de cuestiones epistemológicas" (Lukács, 1996, p. 491.
partilham identidades, homogeneizando-as (?) globalmente. Concordamos com Sartre (1973) quando afirma que o pensa-
Um estudo crítico da vida cotidiana não se resume ao inte- monto concreto eleve nascer ela prtixis e voltar-se sobre ela; não ao
resse das atividades padronizadas em conformidade com modelos acaso e sem regras, mas, como em todas as ciências e em todas as
que se apresentam na base de culturas ele grupo, aos moldes do técnicas, em conformidade com princípios. Desse modo, a realida-
reencantamento do mundo e da nova tribalização do social. Há de é concreta, histórica, construí da cotidianamente pelos homens
diversidades e especificidades sociais e culturais que dificilmente em suas relações sociais de produção (Azanha, 1992). Para apre-
se enquadram na estandartização, seja ela em nível micro, seja endê-Ia, acreditamos nós, devemos estar envolvidos nos atos, na
no âmbito da chamada "mundialização da cultura". paixão, nas relações de trabalho e, sem dúvida, aprender e inter-
Não se podem, entretanto, deixar de lado as regularidades, pretar a voz do outro; em caso contrário, corre-se o risco eletratar
as atividades de tipo relacional (Weber, Mauss, Durkheim, Balan- de alguém descarnado, sujeito a afirmações absurdas e genéricas,
dier e outros mostraram muito bem isso), apreciadas ou concebi- despojadas de especificidade,reduzindo a diversidade e a uniformida-
das, implícitas ou explícitas nos ritos, nas interações, nos códigos, de. Não podemos imaginar a (re )construção social da realidade (sem
no face-a-face, no jogo, nas socialidades, nas tensões e nas crises cair no institucionolismo de Peter Berger!) sem o conhecimento das
do conjunto social. relações sociais de produção das pessoas nelas envolvidas."
A ciência deve partir, ter como objeto o cotidiano, que se Temos claro que a vida cotidiana constitui-se numa das prin-
apresenta como uma base fundamental para a investigação cien- cipais formas de manifestação e de transformação da realidade
tífica. "Los reflejos científico y estético de Ia realidad objetiva son histórica," porém, na vida cotidiana, o sujeito particular, seu ca-
formas de reflejo que se han constituído y diferenciado cada vez ráter, é multivariado e sua dinâmica está mais presente, aparen-
más finamente, en el curso de Ia evolución histórica, y tienen en temente, na prática reiterativa. No entanto, como nos diz Lefeb-
Ia vida real su fundamento y su consomación ultima [...J. EI fecun- vre (1974), o conhecimento do espaço revela as contradições do
do punto medio entre esos dos polos es el reflejo de Ia realidad espaço. Daí ser o cotidiano um espaço também de síntese do mun-
proprio de Ia vida cotidiana" (Lukács, 1966, p. 34). As duas formas do vivido. Tem-se aí a importância de ter pressupostos para a
de reflexo do real nascem das necessidades da vida cotidiana, da compreensão epistemológica, hoje com mais intensidade, busca-
necessidade de dar respostas a seus problemas e de elevá-Ia a dos nas referências de cunho dialético-hermenêutico (Gadarner,
formas superiores de desenvolvimento. Geertz, Habermas ...).
Isso não significa que a ciência e a arte (o estético), por mais Em síntese, um bom pressuposto é partir da tentativa de
que busquem refletir a interação do homem cotidiano com a natu- apreender o movimento histórico ou a realidade que se desenvol-
reza cotidiana, resolvam os problemas da vida cotidiana. De qual- ve por sucessivas superações, para falar como Lukács (1966), ou
quer forma, a ciência não pode prescindir desse horizonte por mais
espontâneo e débil que seja. "Nunca se insistirá demasiado en
este hecho de que todas nuestras grandes decisiones vitales tie- 'I Marx já dizia que o concreto é concreto porque e a síntese- ele- uuilupln s rle tc rmt-
uacões. portanto. unidade do diverso. Significa dizer que a realídade é coustr nídn
nen lugar en un mundo realista-ingenuo, que Ia entera história pelos homens: é mut avel: é produt.o ele sínteses parciais. geradoras ele novas sín-
teses e de novas contradições no cotidiano e no interior ele todas as estruturas.
10 C01n essas breves colocações. dizemos que lemos a convicção ele qUE' o ser social se
.' 1.5"'\ M. Foucault. prmctpahnente em viqia» e punir. fornece-nos subsídios para enten- taz cotídianamente 110 embate com suas próprias crises e contradições e C01l1 as tarn-
",' der os problemas das ídenuftcações de massa. sua importância. seus métodos e bém presentes no meio social mais amplo. Queremos dizer também que essa relação
sua ideologizaçào. Ver também BEn'ELHEIM O corurao íqjorrnaclo: autonomia da dialéüca homem/sociedade. na lormacáo da consciéncía. não é mero reflexo da matriz
era ela masstücução. Rio ele JaJleiro: Paz e Terra. 1985. econômica. Só quem quer ürar o movimento ela história é que pode pensar assim.
32 João Carlos Tedesco
seja, uma unidade dialética de negação/afirmação, e não na ó~ica
exclusiva de causa/efeito. O real omite vieses que são expressivos
de uma multiplicidade de estruturas conceptual-explicativas da
realidade em criação (Noronha, 1986).
É evidente que os movimentos ou ondas conjunturais (Gra-
msci, 1978) são importantes, pois fornecem a possibilidade de per-
cepção do curso que nos leva ao movimento estrutural (Azanha,
1992). No entanto, precisamos dialetizar o fenômeno, não na ten-
tativa de isolá-lo mas de perceber sua vinculação, articulação e
contradição com o processo global que norteia as relações, princ~-
palmente capitalistas e de mercado e que são negadoras do SUJeI-
to. Porém, é impossível avançarmos mais sem entrar_em f~~tes
que, mesmo aparentemente distantes, dão sustentaçao ~e.anco-
conceitual às epistemes que constituem o campo de análise do
cotidiano.
A Ivadkão dtwf.du iminI9jfa'. 1
J.pI> ..
\j J.)l-"!rkheil1LtillY~~.tenba .sic!ô aJçmt.~Msiçª_ª-_(ü.n§J)irªºªQ.Q.Q.._
campo sociológiç.oelo çotidiflno,'Sl.1apreocupaçãn, é evidente, .uª,o
.eXª-.Jls.sa;..
ao ..c.9ntniriº,-~JJ.ª.$ªbsu::.dªg,em:; ....
b.)J.SJ;-ªy.ªm.smt~n.dgL...Qp
macroprocessos dedutoros das relações cotid!iLDª.s..No.entª:QJQ.,-~
do.paradigma durkbeiminiano (seu institucionalismo) que nascem
°
os debates sobre campo dasociologia da.{lidacotidiQBÇl_nti~iri
é clqro aº.dizJ~.~gu.g_ª.§instªJlci-ª.s.13.ubjetiy.p.,'3 .e.LQ.q~;j.mb.ºli~as,-JllLl1!a
perspectiva antropológica, são produzidas socialmente. A socieda-
.de.moder-na induz, !'i0mesmo tempo, a uma dependência cadavez
mais forte de cada indivíduo em relação ao sistema e a.uma perso-
nalização crescente de .atÍy.ida.desmaiss mais esp_eç!al~~açl.é!-~, ou
seja, os modos de vida se homogeneízam e os estilos de vida tgen-
res de uie) se particularizam; quanto maior a organização global
das funções especializadas (divisão do trabalho), mais o sistema
requer regularidades, produzindo, assim, rotinas e hábitos da vida
cotidiana (Juan, 1996).
Esses processos produzem, segundo Durkheim, efeitos opos-
tos, porém complementares. Em outras palavras, constituem o
sistema e o ator; produzem consciência coletiva, porém deixam
lugar às variações individuais. Para ° autor, a evolução desses
processos atinge todos os aspectos da realidade social. As norma~ .
.sociais tornam-se C<i.QE1.YEêzII1.ªis ªl:Js.tI'ªtªEi.~.!ll.edidªque sE)~§.P§l~
~inli:;::al1J~possibilitªndoªcadil um optar livre~~nte e de maneira
.partjcular por sua adoção CWatier, 1996). I
._ ..... _.__ ..... _--_ .. -.~---
,
'-f)aradigmas ',:
do '(otidiano
João Cartos Tedesco .- ... _ .... -
34_ - .
'.-Em outras palavras sem heci
Durkheim deixa claro que o avanço da particularização ca- ~ue lhe dá especificidade) 'e da C~;~~id:~:~n~o ~as 'r:argens (do
minha junto com a generalização
durkheiminiana
dos atributos. Essa dicotomia
(morfologiaJpsicologia: corpo e simbólico) leva-
nos a deduzir que as ações ordinárias são produtos de ordens com-

mterpretar a vida cotidiana Por mai


~:~~~ti t~lcionaI (com un~tari·ar:~~~ea;
s I e üc urn.a. os indi vídtms so . .
~~~t:r::~
~
e. açao, ~ao podemos
:~ae~~!~:â~~I~
'
plexas de determinação, em que fatores de diferentes escalas (Es- e com histórias incorporadas queCl~~Sc~m~ agent~s em interação
tado, mercado, direito) estão presentes. .: I nos dão mar e d ' nao etermmam, pelo me-
Um seguidor de Durkheim, Halbwachs (1990), já dizia que, ~{_ . \ Na sua ~b~ e ~egurança nos rituais das ações cotidianas
I a-prima sobre As form. len .
atrás das formas materiais, há estados afetivos e psicologia cole- '~.;:.. sepaI.:::'a:-:r::-:e~·"""-·
~-~-~. .. :__ ~_ o;s~ ementares ..., Durkheim
tiva.;Porém, para o autor, as condições de vida econômica tam-
11 io f~~d~!~~~!\v2..ç~g~Q·~·~çll~~!:·~!lçP!tl2~~_~~:-à:a§1ê!:2flilló)-;-ãan----
! -. ----- _~Ilto as a.fQes_~.9-º._ª-lnfluencIa da m I d .'~=.;--" ••-
bém !participam na modelação das mentalidades e nos estilos de ~""d-·-P---:·~
_-:ll.~lZ-ªÇª-º ~m_r!'ll.;:1..Ç-ªº-ª-º_Jllli.udo __.9Lª", __~.ª:!.º-§.t.!tyqO-
vida. Não obstante, os genres de uie articulam fatores morfológi- Ideais e os ritos que os manif~~t~ ~ Q,", .orem, os sen~Imentos, os
cos e psicológicos da vida cotidiana. A preocupação do autor em
mostrar a correspondência entre ações e categorias sociais mani- ~~!!~n:é ~~:~~oa~~~~~~oon:~:~au~:s v;~:liE~~~~I~~~:::i~:ZI~~:~
festa-se também no fato de que-a vida dos diferentes grupos so- Para Du I h . I iana,
ciais é categorizada por estruturas de consumo, das quais não se ções ainda q r ( .eim, os s.í~1bolos são os fundamentos das intera-
ue sejam mamfestados como prod t . di id
podem dissociar seus elementos constitutivos e sua subjetivida- talizados no tempo. Símbolos e e. I u os m IVl uais cris-
de) Desse modo, Halbwachs dá-nos os primeiros fundamentos em- no a . ioti d· . . . . -.8-Jl.tu:nelltQ.s.ganb-lill..Lconcretud
-----grr-<:.Q ..LJ.a.nQLQJIYTQ!3..?:/Qrwer,9 elementar .. ---- .._. __...t?.
pírrcos de sociologia dos estilos de vida cotidiana abertos ao movi- ~. -plos.nesse. sentido.l, ~ - - J.f;.$., ·.RnS;9_~m.~.)iÇ.ê...m-
mento social (Juan, 1996). Porém, a tradição antropológica e so-
E desse horizonte dos símbol (c, .,. .
ciológica é extensa. Membro dessa tradição, Halbwachs deixa cla- elemento institucional) e da di os _caracteIl~bca subjetiva do
ro que os gerires de vie se fundamentam num conjunto de técnicas gular) que sai a b: s ~S~osIçoes (capacidad« do ator sin-
ase para a análise d S· 1 I
e ordens morais objetivadoras de um equilíbrio estável. à tendência de individualização pela;. lI~m;; quando ela defesa],
Para Halbwachs (1990), História e história de vida são indis- renciações de funções diss d rvisao o trabalho e às dife-
o ecorrentes e ta bé d .
sociáveisj há uma ligação entre memória pessoal e memória cole- mento da parte social da personalidade ~ "" en:, o enriqueci-
tiva.A história não é a soma das histórias singulares, contraria- smgular aumenta .. . .' -lJ..'§~Jª,-.~E:l.~~ldaque o
ment'e ao postulado individualista, e as histórias particulares tam- existe senã ' ~.aI~.~ge~erahdade se manifesta (essãl1aÕ··
'.__
'_' ... , o como. parte integrante 9.0 particular). i --'.,
bém não são a determinação espectral da história, diferentemen-
te do que pensavam os estruturalistas.
. Tematizando a questão da memória coletiva e do seu con- AS' tovu1aS' sociai«
junto de determinações sociais, Halbwachs (1990, p. 4) enfoca a O f'vit4r::Jrio ri::} fwhf'::J{'\90
memória autobiográfica. Na sua visão, ela não pode existir e se
Simmel (1987) elabora . ra. t .
dar a entender sem aquela do quadro institucional (relação entre nheiro. O dinheiro com . °bcal er racional e deliberado do di-
, o SIm o o expressa de m . .
História e história). "Nossas vidas são colocadas à superfície dos aspectos variados e contraditó· d I a nerra singular
vai I' d . nos a eu tura moderna (Dodd 1997)·
corpos sociais." I a em e seu conteudo e símbolo de . d . ."
Na visão do autor, o espaço-tempo do cotidiano é indissociá- de intercambialidade do valor 'A . m:I c~ ona,. de mediação e
vel da estrutura de classes e de sua dinâmica; o espaço é forte- lação a outros valores d _ .t/ ,~foLIP?tencla
. .. . esper a sentImentos sicol .,
?O
dmhelro com re-
.'."',
mente estruturado pelos seus custos e pela sua segregação. Por logos .§toda ve.neraçAo a Deus.iDo mesm P .. ogIcame~te.aI1a-
isso, a vocação da sociologia não é mais apenas deduzir o indivi- noção de Deus todas as d ·1: id d o modo que a essencia da
dual do coletivo, mas saber como, em meio à trama institucional ' iversr a es e contradi - d
<IIcançam nele uma unidade (Simmel, 1987). ,;ç,,~;:es:; .~ mundo
da existência, surge e se impõe a individuação (Juan, 1996).
;y) v·
João Carlos Tedesco ~:'.,aradigmas do (footidiano
36 .......... " .....
~.O dinheiro é o símbolo mais forte e mais imediato. O que mentar, não tem significação sociológica além da imediaticidade
I Simmel tenta analisar são as formas sociais; o dinheiro é um ele-
mento indutor de formas de interação social cotidianas, como ca-
das ações recíprocas. As formas participativas
t~n:-se pelo surgimento da objetividade
de viver manifes-
social na stibjetiVidâde-(íõ-
I tegoria abrangente da visão de mundovlsle envolve desejo, frus- VlVld~, na sua i.mediat~~. Das formas participativas é que aparece
tração, experiência de prazer estético, sacrifício (aqui Simmel vai a n?çao de sociedade, que, pata 8immel, é resultado do contrato
ao encontro do teorema da utilidade marginal da teoria clássica),) ~oCLal,que não termina e que permite que o indivíduo exista. As
trocas, riscos, precisão, expectativa racional, otimismo, seguran- for~as de .socialização das contatos sociais caracterizam-se por
ça etc)Em outras palavras.Bimmel relaciona dinheiro com c~!~~: ~e~a~ particulares de orientações recíprocas, segunda as quais as
1'3 moderna, com a volição humana da sociedade moderna, prplcl- ll1dIV~duos estabelecem uma ligação social (Watier, 1996).
pal fonte de fragmentação da vida subjetiva, de poder, de P!.l!'O l-As regras e obrigações dosse contrato social são meios não
instrumento capaz de servir de extensão à vontade humana, em ~ns, 8immel utiliza nações cOI1lOproximidade de experiência: con-
última instância, de fonte de alienação (Dodd, 1997). Porém, con~ fIança. (ess~ altamente explorada hoje pela corrente pós-moderna
traditoriamente, o dinheiro pode ser fonte de liberdade, fa~ parte d.a sociologia), piedade, fé, dentre outras, coma condições necessá-
do gozo estético e é objeto de desejo. O que Simmel faz, com a nas para a compreensão de situações correntes do vivido.
análise das formas sociais que constituem o dinheiro, é demons- - .,,?- realidade social é constituída por processos de iriteração
trar a ambivalência que perpassa a modernidade, suas efêmeras que sao processos de socialização. Os pracessos de socialização
relações sociais na vida moderna, principalmente na urbana, nos abrem sempre novas vias em direção à socialidade. Essas vias são
moldes das redes monetárias e como isso cimenta relações coti- múltiplas; são produto de invenção das indivíduos que as percor-
dianas. rem buscando constantemente novos espaços em via de afirma-
\/'Enfim, o dinheiro possui significações que vão além dos ter- ção ~e ~ua personalidade e de constituição de novos grupos (Mon-
mos econômicos e da alienação na troca, ou de seu valor em si gardini, 1995).
mesmo, como processo técnico. O dinheiro revela o tecido norma- Não é passível estabelecer" a análise da realidade social so-
tivo (formas sociais) da sociedade moderna. Para Simmel, as tro- bre a ~a~e da oposição entre indivíduo e sociedade, pois esta últi-
'cas marcadas pela legalidade racional são insuficientes por si ma nao e senão uma representação na qual o indivíduo vive em
mesmas para estabelecer vínculos duradouros entre os homens, uma rede de processos de interação que o leva à consciência de
até porque as relações entre os homens convertem-se em rela- socializar ou de estar socializado (Mongardiní, 1995). O homem
ções dos objetos. A troca é a conversão em objeto da capacidade de ~ue ~onhece, age e se representa é desenhado por Simrnel no
reciprocidade dos homens (Simrnel, 198:3, apud Cohn, 1998, p. 56). interior dos processos de interação. .
Para Simmel, a sociedade representa, globalmente, a ação ~.NorJ2e.!:t.Q,E.liA§segue pas~os próximos aos de Simmel na in-
recíproca dos indivíduos que a compõem. O homem, em sua for- tE)Epretação da possibilidade da sociedade. O autor anali~~-~ do
ma pessoal, interior, desenvolve-se visivelmente na interação com plano da história da cultura e elo deseIlvolvimento da cultura mo-
sua forma social, que evolui ao seu redor entre o princípio de
individualização e o princípio de socuiçiio (Juan, 1996). O autor
critica o falso individualismo que isola o indivíduo do resto do

derna,seguindo as formas históricas da socialização ao situa-Ias


no contexto histórico cultural específico. Elias transforma'
ção de socialização de Simmel Pela noção de civilização, essa corno .
~~~=
mundo; analisa a prostituição como produto histórico, efeito com- ~ interpretação histórica da socialização (Mongardiní, 1995).No .
binado da constituição social das mulheres, da mobilização da mão- fundo: o que Elias quer é analisar as mecanismos de socialização
de-obra e de instituições monogâmicas do Ocidente, o que mani- atraves de suasrealizações históricas.
festa formas sociais críticas da modernidade. A saciologia histórica d~E'Íia~ não se interessa só pelas for-
~essa idéia do princípio de sociação, surge a noção de orga- mas SOCIal:(nos moldes de Simjnel), mas pelos processos e pelas
nismo impessoal. Simmel diz que a interação, mesmo a mais ele- configuraçoes que a sacialização produz na realidade. Falar em
,!I~radigmas do '6otidiano
João Carlos Tedesco
autor, a constituiçãode uma sociologia vida cotidiana poderá
socialização é atribuir à sociedade sua recorrência a processos de
se constituir quando a ação social se entrelaçªr eomosmeC:ªl1is-
interação. A visão histórica de Elias, bas?ad.a no.s p:o:essos de mos sociais da socialização, na maneira de entrar nos fenômenos
civilização e de realização do humano, atribui ao indivíduo u~a socioculturais. Daí a importância da rotinização (Weber), dap!:.o~
configuração de momento e/ou fragmento. Desse modo, a SOCIe- dução e da reprodução de rotinas e rituais, que conduzem ªº eEta-
dade não é possível senão como conjunto de configurações e de be!ecimento de uma cotidianidade. O processo de rotinização apro-
combinações de elementos que, longe de serem harmoni?s~s e poria cotidianamente o tempo e o espaço; exprime-se por miríadas
coerentes, representam o resultado de um proce~s? .de ~b.JetIva- de atividades cotidianas (Lalive dEpinay, 1983).
ção da vida coletiva c um resultado do processo de civilização (Mon-
As análises dos teóricos dessa corrente buscam ver os meca-
gardini, 1995). A sociedade, então, é possível porque cada repre-
nismos sociais da normalização como os modelos culturais criados.
sentação desse social se adapta ao grupo que a produz. .
Elias deixa claro que a vida cotidiana não pode ser entendida des-
No que diz respeito à vida cotidiana, que é o que nos inte-
vinculada das condições estruturais e institucionais de sua realiza-
ressa, Elias é claro ao demonstrar que a construção dos costumes
ção. O indivíduo tem sua vida regulada e uniformizada; é produto
e ações reflete de maneira exata a estrutura do q~adro en~loban-
de normas sociais. Falando sobre o contágio cultural, Elias diz que
te do conjunto dos indivíduos que o habitam. ~_~~d,lcoletIva dos
a circulação de modelos se realiza em razão da interdependência
homens é um aspecto de sua vida cotidiana. Desse modo, a estru-
progressiva das diferentes camadas sociais, de contatos mais es-
tura da vida cotidiana é parte integrante da estrutura de tal ou
treitos, de tensões mais freqüentes que ocasiona (Juan, 1996). Essa
qual camada social, na medida em que essa camad~ não seja vista
dependência advém da divisão de funções e de trabalhos que acen-
de maneira isolada das estruturas de poder da sociedade global.
tuam a conexão das camadas superiores e desemboca numa ten-
Criticando a concepção de autonomia da esfera da vida coti-
dência de nivelamento dos níveis de vida e de normas de comporta-
diana, Elias (1995) defende a indissociabilidade entre vida cotidia-
mento também cotidianos que provocam desejos de distinção.
na e as mudanças estruturais da sociedade, a divisão do trab.al.h?
e os processos que envolvem as orientações estatais. Em A cLV~lz-
zação dos costumes, coloca em evidência a comparação precisa
entre o comportamento e a experiência dos homens e as fases
diferentes da evolução social. Afirma que as mudanças de per~o- o campo da sociologia da vida cotidiana resgata um campo
nalidade podem ser corre latas às mudanças da estrutura sO~Ial de análise filosófica que tem em Husserl sua fonte principal.'! A
sob seus diversos aspectos, como, por exemplo, a crescente dife- idéia de subetrato de liabitu» que el~ desenvolve é indissoéiável
renciação social, o aumento dos canais de interdependência, a cen- da autoconstituição, da produção de si, da pessoa como partici-
tralização, os controles sociais etc. . , . pante ~a definição de sua situação social, que co-produz objetiva-
Na visão bastante sistêmica de Elias, as condutas ordinárias mente~\A fenomenologia explora a intersubjetividade, a interco-
da existência são produto de convenções sociais e/ou das normas municação face a face, as relações interindividuais, mostrando
culturais. A civilização nada mais é do que uma concomitância do
sistema institucional e das representações dos atores (Juan, 1996).
Elias (1984 e 1995) diz claramente que o cotidiano é um dado 11 Husserl busca adotar U111a met odoloaia qu~. clia ma de [enomenotoqicr; para desc~"e~
---.Y~L_aforma COl110 as coisas se manífestam à couscíencía e que permite alcançar a
societal no qual a análise não pode estar desvinculad~ d~s est~u- essência dos Ienoruenos. incorporando ati _experiencias subjetivas. tentando ir' além
turas societais globais de poder; é um locus por excelência de m- das ímpreasõr-s sensíveis e aparentes elas ciências naturais. Sehutz (ver Feno-
rnenolo[Jin do nULndo social) trapspõe para a sociologia o método husserliano com o
terface da natureza e da cultura] A vida cotidiana dos homens QQjeti\'(~.de. COlllpreender os mecanismos e de idenUflcar as práticas e os signitlca-
continua a ser produzida a partir de dados culturais, como lugar çJQs .S9~~J~Lise subjetivÇ>S que as pessoas marufes tarn nas inLerações cotidianas. As
noções ele contexto. de uç{w. de _corwü~êllcin e ele interClçào pa ssam a ser ímportan-
da produção e da reprodução dos ritmos socioculturais e de sua tesà invesUgaç'ào dos rituais. elos imponderéweis [Malf nowsk í] e das racionaliclaeles
articulacão com os ritmos siderais (Lalive dEpinay, ~983). Para o subjacentes a vida cotldíau., cios indivíduos.
(", .;,
.)/) v..:'
40 - " . João Carlos Tedesco ,'/'aradigmas do Votidiano 41
que a análise da vida cotidiana é indissociável da figura sociológi- nível que 111~servede esquema de interpretação de suas expe-
ca do ator. A tradição fenomenológica (principalmente Berger e riências passadas e presentes e determina também a~t~~ip~çÕes'
Luckmann) defende que a análise da vida cotidiana deve se abster d.q.lLçºisªs futuras" (Schutz, 1987, p. 143)."/···· .. ... ". - .
de toda hipótese causal e genérica. Essa visão dá aos atores o A realidade social é vista por Schutz como produto de intera-
ponto de partida da observação (Juan, 1996). ções, do somatório de objetos e fatos da vida cultural e social que
,\ Garfinkel, o ideólogo da corrente etnometodológica, iria be- o senso comum experiencia nas (inter)ações. A intercomunicação
ber dessa água toda, porém reformularia os processos que ligam o e a linguagem manifestam e exteriorizam esse mundo nos seus
ator e a situação. Segundo ele, a externalidade/internalidade dos fins práticos (Berger e Luckmann, 1985). Os mundos do indivíduo
conteúdos culturais e das regras não exercem determinações na (privado) podem ser intercambiados, devem estar em consonân-
constituição e no conhecimento da ação e da situação que se pro- cia com o mundo dos outros e ser transcendidos a um núcleo co-
duzem no processo de interpretação inter-relacional, em circuns- murrr.As idealizações permitem encontros e manutenção de um
tâncias práticas, nas formas de fazer comuns de que os atores se mundo comum.Hiá um saber social, segundo Schutz, que se çle~.
I servem para melhor desempenhar suas ações cotidianas. Mas é s_envolve nas ações humanas (interações) e que não pode ficar ge .
em Schutz e, indiretamente, em Husserl (ambos seus colegas em fora.Defensor do método compreensivo, Schutz vai ao encontro
I dos estudos fenornenológicos" de Husserl ao enfatizar uma das
Viena) que Garfinkel e seus colaboradores se abastecem.VSchutz
(1987)12 defendia a idéia de que a linguagem cotidiana esconde características importantes da vida cotidiana que é sua interpre-
,[
uma riqueza de visões tipificadas e previamente construídas, já tação pelos homens, dando consistência e coerência ao mundo da
elaboradas nas ações mais ordinárias e que guardam conteúdos vida.
I
1
inexplorados; há uma reciprocidade de perspectivas que estrutura Para Schutz (1987), o saber comum é um social-em-ato; é
I· socialmente o mundo da vida do indivíduo':\ constituído por transferência de geração em geração, por expe-
Schultz não baseia a sociedade no conceito de intersubjetivi- riências e ações que demonstram sua eficácia e validade em sua
dade transcendental, mas contenta-se em fazer dessa intcrsubje- prática. Esse saber comum expressa-se numa forma de existência
tividade o correlato ontológico necessário do mundo da vida (Je- social, em tipificacões que são socializadas cotidianamente como
veau, 1983). Schutz objetiva ver emergir uma sociologia não do forma de experiência do saber cotidiano, como reciprocidade de
sujeito conhecido, mas do sujeito se conhecendo através de suas perspectivas entre indivíduos, como intercambialidade de pontos
condutas e dos modos de legitimação subjetivamente incorpora- de vista, como congruência biográfica e situacional, como explica-
dos de suas condutaaxA idéia central de Schutz é que toda a ação ção/compreensão das ações/situações nas quais os indivíduos se
humana repousa sobre um conjunto de informações que nos são, encontram, sem necessidade de teorização, mas de dar significa-
em seu sentido amplo, fornecidas pelos outros; que são social- ções práticas como conhecimento do mundo real (Juan, 1996).
mente determinadas e se revelam sempre incompletas para in- Para Schutz, o ato de conhecer não prescinde dos construc-
terpretar o mundox N essa ótica, o sujeito pensante opera seus tos do senso comum.
percursos sociais com a ajuda de um estoque de conhecimento O campo de observação do cientista social, quer dizer, a realidade
mais ou menos preciso, mais ou menos aplicável no mundo da social, tem um significado específico e uma estrutura de relevân-
vida onde ele entra em interação com os outros sujeitos, gerando cia para os seres humanos que vivem, agem e pensam dentro des-
seus percursos da mesma maneirax "O homem encontra na sua sa realidade. Fazendo uso de uma série de constructos do senso
vida cotidiana a todomomento um stock de conhecimento dispo- comum, eles selecionam e interpretam previamente este mundo
Li C01110 já enfatlzaruos. a fenomenologja prior lza aspectos subjetivos e conceítuaís
&ara Schutz. o mundo social e o nntural são bem diferentes. A noção de compreen- dos sujeitos em suas íuterações e acontecimentos da vida dtárra no sentido de
são envolve método, eptsteruología e vivtdo expertenclado no corrhcctmcnto coti- perceber os sentidos a esses atrtbuídos e suas mCl-lIifeSlaçôes coruporuuue ntats.
diano. pennitindo cornpreerrdcr as ações do ser humano em correlação e em si- Husserl e Schutz fornecem as bases da sociologio [enotnenoíoqica de que os etno-
função 10 ator e seus problemas) com o mundo social (Juan. 1996). metodólogos se servem.
42 João Cartas Tedesco
,)1) di d V;.'
, Y ara igmas a (('otidiano ~ , ••• ,,_ , ••• " ••••••• 0 43
vivenciado como a realidade de sua vida cotidiana. São estes obje-
tos de pensamento que determinam por motivar o comportamento praticabilidade do senso comum e também de sua naturalidade
deles. Os objetos de pensamento construidos pelo cientista social são qualidades que o próprio bom senso outorga aos objetos e não
com a finalidade de dar conta desta realidade social, têm que es- que os objetos outorgam ao bom senso I...]. O mundo é aquilo que
tar baseados nos objetos de pensamento construídos pelo senso uma pessoa bem desperta e sem muitas complicações acha que é.
comum dos homens que vivem sua vida cotidiana dentro de seu Sobriedade, e não sutileza, realismo e não imaginação são as cha-
mundo social (apud Cicourel , 1990, p. 98). ves para a sabedoria; os fatos que realmente importam na vida
estão espalhados pela superfície, estão escondidos dissimulada-
Na visão de Schutz, esse saber comum estrutura o mundo da
vida e interage com o mundo social como um concebido enquanto
campo de ação e de orientação organizado ao redor de nós mesmos,
a partir de nossos projetos de vida; um mundo cheio de sentidos
'O
mente em suas profundezas.
autor analisa o senso comum como um sistema cultural,
um corpo de crenças e juízos com conexões vagas, porém mais
que, na interação, serve de parâmetro para os outros; um mundo fortes que uma simples relação de pensamentos inevitavelmente
interpretado como um campo possível de ações para o nós; um iguais para todos os membros de um grupo que vive em comuni-
mundo que nos permite identificar o conhecimento produzido em dade. Assim, o senso comum relaciona-se mais com a forma como
comum e reconhecido, servindo como essencial na determinação se lida com um mundo onde determinadas coisas acontecem do
das argumentações e explicações aceitas socialmente (Watier, 1996). que com o mero reconhecimento de que elas acontecem: "O senso
Schutz expressa claramente que a significação não é ineren- comum não é uma faculdade auspiciosa, algo assim como ter bom
te à natureza enquanto tal, mas é o resultado de uma atitude ouvido para a música; é uma disposição de espírito semelhante à
seletiva e interpretativa do homem na natureza. A observação devoção ou legalismo. E, assim como devoção ou legalismo (ou éti-
dos fatos, dos dados e dos acontecimentos, nas suas interações, ca, ou cosmologia), esta disposição difere de um lugar para outro,
adotando, no entanto, uma forma local característica" (Geertz, 1998,
°
vai criando estruturas internas próprias de significação e de perti-
p.21). .
nência para os indivíduos que nesse mundo vivem e pensam.
papel do cientista social está em atribuir significados conceituais Em síntese, os objetos de pensamento construídos pelos so-
àquilo que os indivíduos produzem em sua (inter íação cotidiana. ciólogos referem-se ao mundo construído pelo pensamento ordi-
"I ...J deixado a si mesmo, o senso comum é conservador e pode nário, do homem vivendo sua vida cotidiana entre seus seme-
legitimar prepotências, mas interpenetrado do conhecimento cien- lhantes. As representações comuns e as tipificações estruturam
tífico pode estar na origem de uma nova racionalidade, uma racio- atividades e significações que modelam o mundo do conhecimen-
nalidade feita de racionalidades L... J. ° conhecimento científico to cornum.!'
Ligadas ao senso comum estão as tipificações. Mais bem de-
pós-moderno só se realiza enquanto tal na medida em que se con-
verte em senso comum" (Santos, 1987, p. 56-57). senvolvida por Simmel, a noção de tipificaçõo é um a priori da
É por isso que o espaço de observação da sociologia - o mun- possibilidade da sociedade; o conhecimento que os indivíduos têm
do social - não está desprovido de estruturas internas; há uma e podem ter de uns e outros é uma condição da vida social, mas
estrutura própria de significação e de pertinência para os seres também do saber sociológico.
humanos que aí vivem, pensam e agem. Esse mundo é pré-sele- As tipificações estão ligadas aos atributos do papel. Garfinkel
cionado e pré-interpretado por uma série de construções próprias (1967) utiliza a noção de papel como elemento que orienta as ati-
ao senso comum, portanto sobre uma realidade cotidiana (Juan, vidades cotidianas e que permite ao ator interiorizar os esquemas
1996); são os objetos de pensamento que determinam o comporta- dados, dando sentido à sua conduta, porém interpretável para os
mento, que definem o objeto de ação, enfim, que ajudam a en- outros indivíduos~ignifica que há um conjunto de esquemas men-
contrar o ambiente natural e social. Geertz (1998, p. 135) é con-
tundonto ao afirmar que a
~~)Na vida coí.idiana. o membro apreende as cnracterísücas desse mundo conhecido-
em-comum de UIll :1ngulo pragmáuco (Schntz. 1987).
I I João Carlos Tedesco ;-Y~radigmas do '(i'otidiano ...........45
-. - .._- _- ..•
" ~.
I :
I I
tais (objetivados e objetivadores de ações práticas) que se espa- validades locais, pois as fronteiras de sua aplicação são pouco con-
I
lham na interação e se constituem como domínio comum (Paixão, fiáveis (Durand e Weil, 1989).
1986). O mundo social, para Garfinkel, é uma produção pura da Adeptos do individualismo metodológico defendem a tese das
ação interindividual mediatizada pela linguagem; sua compreen- ações individuais das interações no âmbito micro das relações
são não exige nenhuma maneira de procurar uma causa exterior sociais. As instituições teriam sua originalidade no indivíduo (ao
ou anterior à situação produzida pela interação, nem mesmo de contrário de Durkheim), pela imitação, pelos fenômenos corpo-
se referir aos conceitos sociológicos. A linguagem brota como rais, pelos ritos" e pelo sistema nervoso (modelo biologista da
produto de seus atores individuais\. A sociologia de Garfinkel é, corrente).
também, um acionalismo, como a de Parsons, ou, então, um indi- ) Weber dá base a essa corrente na medida em que diz que ~__
vidualismo compreensivo. I! v~ cotidianayode ser simultane~mente orientada por valor eJ
Em correspondência com Schutz, significa dizer que todo o por filWIi:âade, () ascetIsmo secularizado, segundo Weber, dmxm.i -
conceito que toma lugar num modelo de agir humano deve ser a vida cotidiana num estado natural e espontâneo, ambos de base
construído de tal maneira que uma ação produzida por um indiví- subjetiva, e rompeu com a estrutura discursiva da razão lógica, o
duo, no seio do mundo vivido e de acordo com a construção típica, que nos auxilia na compreensão da gênese de sistemas de usos or-
seja compreensível tão bem para o indivíduo quanto para seus ganizados em modos de ser, características que se fundam em ethos
semelhantes e esteja no quadro do pensado cotidiano (Paixão, 1986). cultural.
Satisfazer esse postulado garante a consistência das construções Mesmo existindo várias correntes da tradição do individua-
do sociólogo em relação às construções formuladas pela realidade lismo metodolôgico, ambas as posturas buscam enfatizar os pro-
social em seu pensar cotidiano. cessos de interação como fenômenos psicossociais, abordando a
emoção, o afeto, os estímulos pulsionais, as posturas do corpo etc.
() gl1tidct{~n-1fiJfÍ-;tHo como linguagens silenciosas que conduzem à ~C0Matfesoli/~
(1fwjividtl{-}a"0HJ f1wfodo!ógico conió veremos adiante.itràbãlhãrã ISSO muito bem .n:essa-l5rC"
cha do indivíduo que a corrente do individualismo metodolôgico
O individualismo metododologico apóia-se em algumas cor- ganha espaço, enquanto oposição ao institucionalismo durkhei-
rentes do pensamento social, dentre as quais o utilitarismo da miniano e aos defensores do approche compreensivo e/ou psicolo-
economia clássica, a sociologia ela ação, o interacionismo e a teo- gista, como alguns o definiram, pelo seu atributo exagerado ao
ria elas ações não-lógicas e dos eleitos perversos. Entre os teóricos vivido em si-mesmo e à interpretação dos fenômenos sociais uni-
que influenciaram essa corrente estão Hayeck, Popper, Pareto, camente pela ótica dos atores. Essa visão é que iria dar base à
Bentham e Weber. hermenêutica do interacionismo simbólico e à etnometodologui.É
A noção individualismo metodolôgico foi utilizada no final do !/ Na questão do individualismo metodolôgico, a discussão está
século passado por Menger (economista marginalista), mas foi re- na relação entre totalidade social e o indivíduo, envolvendo a pro-
centemente que Bouclon (1979), opondo-se ao coletivismo e ao ho- blemática da estrutura, seja a do estruturalismo genético e/ou sis-
lismo, deu concretude à teoria ao afirmar que o fenômeno social
se explica pela agregação de ações individuais. É bom que se res- lS A rotina não é apenas stuónímo de repettcào. luas é também c riacáo. ínvençáo E'
salte aqui que Boudon concebe atores individuais não só como descoberta. "O artista COI110 o cientista. são remarcávets pela construcáo ele rituais
e pelo seu envolvtmento nunucíoso a lodo um conjunto de rotinas necessárias ao
pessoas, mas como unidades coletivas munidas de poder de ação surgimento ele suas descobertas e de suas obras ele arte" (Lalíve dEpínay, 1983.
(firma, nação ...), e que a teoria não prega um atomismo societal, p. 31). A criação corno categoria do acontecimento é impossível sem o suporte da
cotídtanídade. Há uma díaléüca do ritual e do excepcional que constluu o cotidiano.
ou seja, os indivíduos estão inseridos num contexto social. Para o acontectmento e a rotina. Ambas são dnnensões que não se anulam, Para Lalive
Boudon, a sociologia não deve buscar leis, as quais não têm senão dEpmay (1983). a vida cotidiana é muito rica em acontecimentos. bem COIllO manifes-
:1 ta lima dimensão racional na existência para a construoáo sempre renovada ela iníer-
li
face da natureza e da cultura.
46 . João Carlos Tedesco j) d V::
.............. --.........•. -...-----_. , :t 'ara igmas do (( otidiano ·· 47
. - .
temismo, seja a das estratégias dos atores e/ou categorias sociais. O
mas de interação, as lógicas e as decisões individuais para expli-
I problema básico que se colocapara o individualismo metodolôgico é
car as ligações das ações individuais (colocando em segundo pla-
I, saber qual é o lugar que oís) indivíduoís) ocupa(m) no social, função
I
no, ou, então, decorrentes, as noções de classe, estrutura social,
essa central à sociologia."
sistema ...). Reconhecem, porém, que não há um método social,
I Em oposição ao pensamento holista que concebe a sociedade
muito menos que há harmonia social. Ao contrário, os adeptos
I
I, como totalidade transcendente às suas partes, interferindo nos
dessa corrente abordam a contradição e os conflitos sociais como
I comportamentos individuais e fixando nos indivíduos seus objeti-
pontos importantes de reflexão em suas análises. A ação, a reação
vos e intenções (idéia de povo, nação, sociedade), o individualis-
j
e as estratégias dos atores em relação às pressões do sistema, às
mo metodológico, ao rejeitar o essencialismo, quer encontrar as
classes, grupos e nações representam manifestações de sujeitos
explicações comportamentais no nível individual. Acredita que,
ativos no desenrolar dos conflitos.
na esteira de Popper e da escola austríaca do neoliberalismo o
Os adeptos do indioidualismo metodológico, frente à análise
indivíduo, ao ser colocado frente aos problemas de diferentes ~s-
do conflito, interrogam-se sobre sua gênese, tomando como ponto
feras, tende a ser levado a resolvê-los da forma que melhor lhe
de partida o exame dos comportamentos individuais e, por meio
satisfaça. Desse modo, haveria um indeterminismo de solucões,
desse, interrogam o processo que o fez emergir, os tipos de rela-
Os fenômenos sociais, por serem plurais, derivam das cons~iên-
ções e interações em que os atores se engajam e as suas estraté-
cias individuais."
gias no sistema de interação (Ansart, 1990). Desse processo todo,
As noções de papel, de agregação e de ação coletiva ganham
a determinação econômica e de classe pode não ser a causadora
explicações c importâncias diferentes das idéias de pressão, de
da gênese do conflito; em vez da estrutura social, é privilegiado
sistemas funcionais, de normas etc. As noções de estratégia, de
pelos analistas da corrente o sistema de interação ou de interde-
ator e de interaçào (Boudon chama de sistemas de interdependêri-
pendência (dando certa margem de autonomia aos agentes), pos-
cia) servem de instrumento para examinar como os indivíduos
sibilitando agregações de condutas individuais e engendrando fe-
II assumem seus papéis e que implicações têm para a ordem geral:
"l...J a mudança social, mesmo ao nível macrossociológico, não é
nônemos coletivos. IX
A idéia central é o indivíduo, que escolhe e determina sua
I inteligível se a análise não descer ao agente ou ao ator social o
,I mais elementar, como componente do sistema de interdependên-
ação em função dos recursos e das informações de que dispõe,
cujas melhores escolhas possíveis passam pelas suas necessida-
I' cia ao qual ele se interessa" (Boudon, 1979, p. 162),
des e preferências (Boudon, 1979). A idéia de melhor escolha é
, O indioidualismo metodologico aproxima-se muito ao appro-
aquela de que os elementos motivacionais são construidos pelos
1
che inieracionista; ambos buscam colocar como fundamental na
valores da interação, pela emoção e pelos sistemas de conheci-
análise o comportamento dos atores, tendo como objeto os siste-
mento. Isso implica contrastar diversas lógicas dos atores relacio-
nadas a seus projetos e a suas representações, do sistema de in-
IH Raymond BOUDON e Frauçors BOURRICAUD. em Dictiollllaire criiiCJue ele Ia socio- terdependência através do qual os atores se encontram, as espe-
logle. Pans: PUF. 1982. desenvolver» análises e mpmcas e teóríoas íormutando os ranças ficam em ação etc. Boudon (1979) deixa claro que o papel
princípios gen-Lis do illdividu(llismo IHetodológico. Os autores fundamentnrn seus
p~4illCípiOS ::IH W('h~r ~ ~areto. dando a entender que a socíologta não pode prescm- das idéias e dos valores individuais é mais importante do que se
dir das açoes dos indivíduos. Os autores colocam em duvida as teorias globalizan- pode crer, e, ao contrário, por vezes, menos importante do que
_ tes ou os estudos de totalidades históricas que não agregall1 os comportamentos.
I, OS adeptos da corrente em questão tem dificuldades para inserir o indivíduo no
C(~letl\·? .A~tas. servem-se ele análises ele teorias opostas. C0l110a questão do suici-
dw objetioisic: em Dtu-lchcint. para explicar que uào ha causas sociais. Sintetica- 18Nessa questão cios efeitos ele uqreqaçces, Boudon ilustra o pàuíco ünaucetro. prin-
mente. Durkhenn concebe que. em períodos de expansão econóuuca. o clima favo- cípalmente nos anos 30. quando U111rumor de falência. mesmo falso. te111O poder
rece o OtimiSIH~, _os mdívíduos investem. endlvídam-se. há grandes esperanças. de ocasionar o lato real. Esse efeito de elllergêncin provoca conflitos sociais muitas
portanto. c"xp~slçao a riscos" Os adeptos do indipiduCllis11Io metodológico argumen- vezes jamais esperados. O aula]' cita tarubém conflitos ractals e sindicais COlHO
tam que lu, ;11 uma exphc •...rçào mrhvtdualtsta. ou seja. o tenómeno observado como falas que tendem a provocar efeitos emergentes no processo soctal. A situação dos
dado conseqüente do comportamento dos indivíduos. atores. sua motívaçáo. seu grau de descontentamento e suas escolhas racionais
podem também ser explicatfvas da gênese' do conllito social.
;Y~radigmaS do '((:otidiano
48", João Carlos Tedesco
'. '. 0'0 "'. ~""

49
não se crê. O sociólogo deveria ter a ambição de, em vez dos de- teoria da queda tendencial da taxa média de l~c~odo sistema econômi- I
terminismos gerais, descobrir os sistemas de interação subjacen- c~ como um todo. Segundo alguns de seus críticos - Raynaud, Sivré, '
tes ao objeto/fenômeno de estudo, priorizar o singular e colocar Birnbaun -, a utilização dessas fontes chega a ser espantosa. --'-
em evidência a indefinida pluralidade de casos (Ansart, 1990). Uma segunda crítica direcionada se dá no excesso de auto-
! ,~Em síntese, o individualisnw metodologico busca criticar vigo- nomia do indivíduo frente às estruturas. Os indivíduos aparecem
i
e idênticos (ao estilo da teoria dos
I
rosarnente a ambição de toda a tradição sociológica, principalmente na teoria como intercambiáveis
durkheiminiana e marxista, que atribui à sociologia a tarefa de des- jogos). No entanto, a maior crítica advém do excesso de utilitaris-
cobrir/desvendar leis universais de explicações de fatos sociais.-Con- mo, da racionalidade das escolhas, dos cálculos frios dos custos e
,11 ceitos como sociedade, classe social, nação, contratos sociais, mode- benefícios em razão das disposições dos indivíduos. Os utilitaris-
'"1 '
to, estrutura, dentre outros, passam pelo nível epistemológico do tas trabalham com noções de felicidade e de maximização, porém
I1
: individualismo metodologico como decorrentes de noções abstratas, não explicam se esses desejos se encaminham para fatores econô-
!I micos, simbólicos e políticos, nem se têm apoio em representa-
essencialistas, sem dar conta dos aspectos multiformes das ações e
li ções coletivas, o que perverteria o princípio de agregação dos com-
I interações dos processos reais em sua pluralidade de situações.
As inúmeras mudanças econômicas, ligadas tanto às inven- portamentos individuais como explicação dos fenômenos sociais.
ções, às mudanças técnicas, aos fracassos da burocratização e/ou ~ te~tativa de retirar o movimento histórico do efeito de agrega-
à planificação, aos apelos à motivação dos atores econômicos ao çao faz com que o indioidualismn metodolôgico, na nossa maneira
consumo, como à inventividade, às multitendências, às singulari- de ver, não tenha suficiente argumentação para analisar confli-
dades, à diferença, à liberdade de escolha, à descrença ao olhar tos, movimentos de idéias e movimentos sociais com característi-
dos processos coletivos sindicais, ao alargamento dos direitos in- cas mais orgânicas.
dividuais, dentre outras, abrem espaços para outras estratégias
neoliberais e da filosofia individualista; conduzem a uma reconsi-
deração dos comportamentos dos indivíduos, a uma ruptura pos- () Ü(di1Adt(::1tí~t41(J insrit acional
sível dos tempos da tradição para os tempos da escolha. "Sem
lParsons é um dos pais das chamadas teorias do sistema so-
defender um individualismo apolítico, esse approche conduz a le-
cial e da teoria geral da ação. Na sua análise, um sistema de ação
gitimar instituições políticas com respeito às leis de mercado e
tem por finalidade a manutenção de modelos de controle e objeti-
sistematicamente orientadas em direção à defesa dos indivíduos e
va a estabilidade e reprodução dos valores, dos sistemas simbóli-
das margens de liberdade individual" (Ansart, 1990, p. 314).
cos, dos modelos culturais e da ordem normativa. Seu sistema de
\. Os adeptos do individualismo metodológico são criticados pelo
ação social possui uma função agregadora e integradora interna,
fato de se servirem de Weber, Durkheim e Marx no conjunto de seu
a qual coordena as partes constitutivas do sistema de ação, bem
paradigma: o primeiro, em sua sociologia compreensuia (valores e sub- como de adaptação aos condicionantes globais e ambientais e
jetividades);Wo segundo, na interpretação do suicídio; o terceiro, na por último, de realização de objetivos definidos coletivamente (Par-
sons, 1973).
No seu sistema geral de ação (1973) há subsistemas culturais,
19 Raynaud (1996) crilica o falo de o individualismo metodológrco ulilizar Weber. o sociais, de personalidades e comportamentais que promovem a condi-
qual se inscreve l1U111é:1 Irarlicáo que coloca em evidencia a objeüvacáo elas aüvída-
eles llO Inundo. e 11()0somente a rer-onsttuuçào da relação est.ratéatca elos íudtvíduos
ção e o suporte para a ação. Servindo-se da cibernética, Parsons atri-
e o campo pré-consuuudo das relacóes sociais. É claro que Weber nào entendia as
ações individuais como simples expressão das necessidades da estrutura. A sua
preocupaçào não era operar uma dedução da SOCiedade em geral a partir da indi-
vidualidade. mas. sunplesmenre. dar à ctr-ncta a tarefa illfillÚa de explicar a ativi- illdiVidl1;.:i~. os objetivos perseguidos pejos alares. O papel da sociologia é perce-
dade objeuvada nas esl.ruluras coletivas. Em outras palavras. a sociologia webe- ber os eíeuos perversos. o IH(jCl]" dn desordem [Lít ulo ele um livro de Boudon), os
ruura busca rcconst itutr a raríonahdade implicua das at ívtdades humanas A so- eleítos emergentes. as conseqúencías uào previamente eslabelecielas pelas ações
ciologia podera explicar O!-:>b.lO:::; socí.us Ú 11IedicL.'1 que compreender as atividades humanas.
50 .' João Carlos Tedesco
bui hierarquização, sistemas superiores, esses ricos em informação e Para o campo da sociologia ela vida cotidiana essas idéias
I I
que também controlam sistemas inferiores. Os últimos são ricos em
energia e fornecem as condições da ação. Porém, o autor dá maior
rolltribuíram no sentido de mostrar a ligação das interações dos
;!I.ores em contextos relacionais, onde as identidades concretas
I:
'I (i ndivíduos e grupos) interdependem, formando um sistema de
II
I

atribuição ao sistema cultural, que interioriza a personalidade e o


organismo, dando-lhe um papel funcional de adaptação. ;1~:;lO e
estilos de vida através de formas psíquicas e culturais (Juan
1!)96). '
'·t'Para a questão do cotidiano, é interessante ver a preocupa-
,.são de pessoas com a interação social, ou melhor, com a forma Mesmo que a perspectiva do idealismo e da hermenêutica da
como os indivíduos agem entre si. Por isso, noções de modelos antropologia do indivíduo seja bastante forte, a retomada do siste-
culturais, generalização do sistema de valores, comunidade socie- mismo (Elias, Luhmann) e do acionismo (Morin, Giddens, Tourai-
tal, integração coletiva e interiorização (assimilação, institucio- ne, Balandier ...) continua sendo de grande importância para a for- r
nalização ...) são temas preferenciais do seu sistema de ação so- mação do campo da sociologia da vida cotidiana.
cial. No entanto, parecendo meio paradoxal, Parsons, Merton e t:Luhmann, por exemplo, quase no mesmo estilo de Parsons
outros evocam uma espécie de individualismo institucional, li- uti~iz~-~e de e~ementos um pouco distantes do normal do camp~
gando fatos com pessoas, ações com quadros de referência ao meio, sociológico, tais como da cibernética, da teoria dos sistemas da
biologia e da comunicação, para construir o seu sistema teórico
do ator com o mundo exterior - "todo o ator individual é um orga-
nismo biológico agindo em um meio" (Parsons, 1955, p. 27). rO autor refuta toda perspecyva que tenha fundamento ontológi~
Para Parsons," há uma homologia entre a pessoa e o siste- co, tais como a intenção, a *subjetividade, a ação humana e os
ma social. A estrutura do sistema social é produto de relações e valores; enfatiza um conceito fixo e determinado de realidade. j/
interações de atores numa trama ou tecido cotidiano. Ele mesmo Aborda conceitos de auto-referência - identidade que se constrói
diz que uma instituição não é uma coletividade, mas um comple- como u~dade d~ diferenças -, diferenciação, função, obseroação
xo de integração de papéis institucionalizados que têm um signifi- (descrição do objeto pela diferença) e de paradoxo. Seu funciona-
cado estrutural no sistema social. ÜSI1W estrutural, como ele mesmo o diz, reforça a noção de função
Nessa visão, a integração do sistema só é possível quando os em vez de estrutura, ao contrário de Parsons.
atores internalizarem os valores instituídos, possibilitando daí Luhmann busca aplicar ao social os princípios do sistemismo,
(disjposições aos indivíduos. O controle social nada mais é do que ou seja, a noção de sistema dá ênfase à auto-referência, à interpe-
a interdependência, a reciprocidade (como subsistemas do siste- netração (observação mútua), aos subsistemas interligados promo-
ma social) constituindo-se em coletividade. Daí a importância da tores da evolução, à comunicação, promovendo a auto-referência
interação na medida em que os atores se controlam reciproca- social, sendo o meio e o código da interação (Izuzquiza, 1990).
mente através de ritos, de jogos e de tramas sociais." Os indivíduos, na teoria sistêmica de Luhmann, fazem somen-
te parte do ambiente da sociedade; formam um sistema auto-referen-
te (pelo meio consciência); entre homem e sociedade constrói-se uma
relação de interpenetração, porém sem um conter ° outro, aliás, a
20 Parsons desenvolve mais coerentemente a racionalidade paretiano-webcrtana ao sociedade não é composta de indivíduos e, sim, de comunicação.
construir o sistema social sobre a lógica dos papéis sociais. A lógica do conjunto
de relações vividas pelos indivíduos é a lógica da calculabilidade dos meios e dos vlJo seu livro O amor como paixão, Luhmann tende a tratar o
fins. O sistema social é produto dessa lógica do vivido. Cada indivíduo. em sua amor como sentimento numa perspectiva sistêmica; o objeto é
ação individual. constitui um conjunto de papéis sociais; sua lógica é a dos meros-
fins. Há subsistemas que orientam a acáo individual segundo modelos norrnattvos uma semântica amorosa (Juan, 1996), o mais íntimo de uma rela-
(valores. moralidade). A articulação entre a estrutura da sociedade e a teoria da ç~o\O íntimo é definido como o inacessível radical, como a impos-
ação desenvolvida por Parsons, posteriormente. sofreria alterações ao ser introdu-
zida a dícotoruta sistema socíalcíbernéüca. O que. de certa forma. não eltmtnou o
sibilj dada de subtrair isso que é o pessoal no seio da comunica-
modelo que tenta representar uma sociedade sem cont1ito e construtora das ações ção, ou como a possibilidade de imergir no mundo do outro e de
cios indivíduos (Izuzqutza. 1990).
iria retomar isso no seu livro Stigma e também no Rituais de interClçci.o.
agir em conseqüência.
21 Goffrnan .IX
)). .'
,';Yaradlgmas do '('otidiano
João Carlcs Tedesco
de linhagens, as resistências às mudanças de um período de mu-
Luhmann, por ser também um neoclurkheiminiano, interes- tação política, as inúmeras e variadas relações internas e as de-
sa-se por compreender os efeitos sobre as consciências individuais pendências externas; tematiza os dramas e as transformações lo-
da diferenciação funcional do sistema, dos processos gerais que o cais e sociais como reveladores de suas complexidades. O autor
mesmo ocasiona no mundo cotidiano. trabalha muito na ótica do imaginário e dos sistemas simbólicos
Habermas diferencia-se de Luhmann ao analisar as ações dos mitos e das práticas rituais que os exteriorizarn; das religiões:
sociais dos indivíduos como suportes de disposições e representa- dos imaginários que as tornam visíveis; da divisão entre sexos; do
ções simbólicas, como estruturações simbólicas do mundo vivido. dualismo sexual de sociedades primitivas." Balandier, com sua
A experiência cotidiana do indivíduo deve ser levada em conta na reflexão sobre a gênese do imaginário político e seus múltiplos
análise compreensiva dos fatos sociais. Em Habermas, a ação so- jogos nos Estados modernos - sua diversidade e multifuncionali-
cial não se reduz à interação; há um grau de tolerância e de pene-
da~e -, afirma que o poder se legitima e se reforça pela produção
trabilidade entre a instituição e a individuação das pessoas. Os de imagens e dramatizações em contrapartida à dramaturgia reli-
códigos institucionais da comunicação fazem parte dos signos e giosa e à sacralidade dos Estados teocráticos.
dos objetos da experiência. Balandier é o sociólogo da mudança, das mutações sociais;
analisa as sociedades em transformação; preocupa-se muito com
a análise do poder, do sagrado, do político, do social, mas, sobretu-
{tt4fa aJd(,,(}~()Ú'gir.:j do círtídi"lPw do, enfatiza as relações menos aparentes, mais subjetivas, como é
Algumas pesquisas elaboradas nas décadas de 1950 e 1960 o caso da relação entre sexos, dos rituais, das relações de paren-
na chamada Escola de Chicago buscaram operacionalizar quanti- tesco, como expressivos de dinamismos sociais constitutivos da
tativamente as ações que regem as condutas motivacionais dos dimensão cotidiana e cultural (Juan, 1996).
atores sociais e também o modo co~o contribuíram para a repro- A sociologia do dinâmico quer mostrar o profundo conflito e
dução e estabilidade da ordem social~A Escola de Chicago caracte- a dialeticidade da ordem e da desordem social. Defende, ao con-
rizou-se por adotar métodos da ciência experimental tanto no cam- trário de Durkheim, que as sociedades primitivas e/ou tradicio-
po da antropologia quanto da sociologia, em estudos de ação social nais não eram totalmente construídas sob a ordem e a repetição;
com a intenção de quantificar, tipologizar constâncias, presenças, elas comportavam sua desordem e a ameaça permanente de seu
duração e intensidade de comportamentos, considerando-os como desenvolvimento (Ansart, 1990).
produtos sedimentados de estruturas normativas (Juan, 1996). Se- Ordem e desordem constroem os imaginários modernos. Há
gundo pesquisas da Escola de Chicago, a fragmentação do tempo, imprevistos e inéditos na vida cotidiana, como o há em outras
do espaço, das condutas individuais e dos agrupamentos de pes- dimensões da vida (na política, na economia ...). A tarefa do rito e
soas no cotidiano permitiria descrever os atos, perceber como se do mito é de permitir recuperar, pela via do imaginário, a deter-
estruturam as condutas e que importância têm as normas na vida minação social do indeterminado.
diária dos indivíduos. A tentativa era descobrir, na esteira durkhei- Numa dimensão socioantropológica, Balandier (1985) afir-
miniana, o objetivo no subjetivo, a identidade das estruturas nor- ma que a vida cotidiana é o lugar de realização prática de normas
mativas no vivido cotidiano de grupos socioculturais. instituídas e de relações sociais de dominação/submissão. Anali-
Numa visão um pouco diferente da dos autores da escola sando etnias africanas e o domínio do cotidiano desses grupos na
citada, Balandier (1955) busca analisar a constituição dos Estados ótica do religioso, do sagrado e de sua historicidade étnico-cultu-
africanos= anterior à sua independência, observando as mutações, ral, Balandier nos aponta o cotidiano como um espaço-tempo da
os deslocamentos populacionais, a urbanização, as transformações
23 Ver BALANDIER. George. Alllflropo-logiques.PariS: Ed. Biblio-Essais. 1985.
22 Ver BALANDIER. George. Sociologie acluelle de I 'Afi'iCJue noire. Paris: PUF. 1955.
:)/). v:(('otidiano
João Carlos Tedesco
• " aradigrnas do ....55
nem de mera contradição no seu interior; entende, sim, como
ação individual, porém de alguma maneira orientado por lógicas
relações de conflito que se manifestam pelos movimentos sociais
institucionais do passado. Nessa dimensão, o cotidiano é resistên-
que objetivam a mudança no sistema de ação histórica. O autor
cia, mas também é submissão à pressão dos grandes dispositivos
utiliza a noção de classe superior (dirigente e dominante) e classe
sociais (Juan, 1996). Balandier mostra-nos processos dialéticos en-
popular, essa dominada, porém defensiva e contestatória. Tourai-
tre uma dimensão institucionalista e acionista do cotidiano.
ne centra sua análise não no ator individual; o ator concreto é o
movimento social como ação coletiva que objetiva controlar e/ou
transformar o sistema de ação histórica (Durand e Weil, 1989). Os
movimentos sociais são entendidos como condutas coletivas que
Touraine, em seus inúmeros trabalhos sobre sociologia do possuem um princípio de identidade (o conflito constitui e organiza
trabalho e dos movimentos sociais, articula aquilo que se conven- o ator), de oposição (o conflito faz surgir o adversário e forma a
cionou chamar de sociologia da ação, na qual o autor descreve o consciência dos atores) e de totalidade (construção de um contra-
caráter de sujeito histórico (trabalhador coletivo) definido pela projeto societal). A mudança social que o movimento social e o con-
relação com a sociedade e com a ação histórica que seus resulta- flito dele decorrente provocam advém da concepção do campo his-
dos poderão construir. Para Touraine, o trabalho é a condição his- tórico, do sistema político-institucional e da organização social. É
tórica do homem; é uma experiência significativa, não natural, bom não esquecer que Touraine define quatro tipos societais: socie-
nem metassocial, a partir da qual podem se compreender as obras dade agrária, mercantil, industrial e programada ou pós-industrial.
da civilização e as formas de organização social. Para tanto, ad- Touraine (1973) é claro, por exemplo, quando fala que há
verte o sociólogo, e, por conseqüência, a sociologia, ambos preci- uma relação de complexa integração entre ciência-tecnologia e
sam ativar a sociedade, fazer ver seus movimentos, contribuir na mercado. A inovação é produto da divisão do trabalho e da estru-
sua formação, destruir aquilo que impede uma unidade substanti- turação em redes de organização, das estratégias de desenvolvi-
va: valor ou poder, uma coletividade. Touraine prega a sociologia mento e de programação.
do engajamento, a intervenção do sociólogo. Touraine é o sociólogo da ação social e dos movimentos so-
O acionalismo de Touraine orienta-se por conceitos como ciais; sua sociologia é uma tentativa de restituir o sentido visado
historicidade, sistema de ação histórica, relações de classe, siste- pelos atores, ou seja, a associação do objeto à ação e o sentido que
ma institucional, organização social e movimentos sociais. Por o ator dá a esse objeto. Seu acionismo advoga que a realidade
historicidade, o autor entende a produção da sociedade pelo tra- social é um conjunto de sistemas de ações2•1 marcado por decisões
balho humano; é a capacidade que possui a sociedade de se produ- econômicas e políticas, por vontade de organização e pelo esforço
zir ela mesma ao dar um sentido e orientação a suas práticas de diferentes grupos sociais em controlar os instrumentos e pro-
(Durand e Weil, 1989). Para isso, algumas categorias fazem parte dutos do trabalho. Touraine insiste no modelo cultural que dá o
dessa prática: é necessário um modo de conhecimento do homem caráter prático, visível e crítico às sociedades industriais e pós-
com seu meio, a mediação da técnica e as lutas de classe. Essas industriais (Ansart, 1990).
categorias são dimensões essenciais da historicidade das repre- O acionismo tourainiano foi uma primeira tentativa real de fun-
sentações e da capacidade de ação da sociedade sobre ela mesma, darumasociologia não indiuidualistada ação (Juan, 1996,p.137).Na
definindo os campos e o sistema de ação histórica (Touraine, 1973). sua sociologia da ação, Touraine nos diz que não podemos unica-
A atividade social (prática social) gerada pelas relações de mente subordinar os atos individuais a situações coletivas, mesmo
classe dentro de um sistema institucional e de uma organização que toda conduta humana manifeste o efeito de determinismos
social cria um sistema de ação histórica, mobiliza recursos socie- sociais.
tais e políticos, constitutivos de um modelo cultural.
Por luta de classes, Touraine não entende apenas relações
21 Ver TOURAINE. Alam. Produclioll ri" lu sociélé. Paris: Edltíous du Seuil. 1973.
de concorrência ou de sobreposição no interior da ordem social,
56 João Carlos Tedesco ;·Y~radigmas do '(;:~tidiano .57
A sociedade, para Touraine, é um campo de afrontamento de cão-confrontação em relação aos atores sociais do movimento pos-
interesses que objetivam o controle das forças nela. Os movimen- sibilita a produção de significações do movimento social."
tos sociais são as forças dinamizadoras desse processo, desde que Touraine afirma a importância do sociólogo e da sociologia em
possam passar da simples reivindicação de um grupo e/ou classe e modificar o curso de certas ações sociais. O método dessa interven-
colocar em causa a dominação constituída, visando, obviamente, ção consiste em entrar em relação com os membros de um grupo
ao controle do processo em desenvolvimento. Os movimentos so- participante em uma prática coletiva conflitual. O objetivo é ajudar a
ciais, para o autor, são as forças que controlam o movimento, a se definir como movimento social e elevar sua luta ao nível de um
historicidade do social. O papel do sociólogo está em perceber a movimento social, a uma capacidade de ação histórica, como forma
emergência desses movimentos e a consolidação de novos atores de resgatar a dinâmica do desenvolvimento das potencialidades so-
sociais. ciais.
Touraine quer colocar em evidência a dimensão histórica A insistência de Touraine na dimensão da historicidade abre
das organizações sociais (Ansart, 1990); para isso, lança mão da espaço para algumas críticas que lhe são direcionadas na dimen-
noção de conflito como marca da consciência sociológica, como são do historicismo, da capacidade absoluta de dominação do ho-
orientação da ação histórica. Por isso, a noção de historicidade é mem sobre a natureza; ou, então, da capacidade das sociedades de
fundamental na sociologia de Touraine. O conflito vai além da agirem sobre elas mesmas, a ponto de a sociedade pós-industrial
disputa dos confrontos de classe na dimensão econômica. As clas- ser considerada pelo autor como uma sociedade pós-histórica -
ses são atores sociais em relação; essas relações não são de con- não significando com isso que não se transformará mais, mas que
corrência, nem de sobreposição no interior da ordem social, mas essa transformação ocorrerá no interior do campo da historicida-
são as dinâmicas sociais que estruturam as relações de poder, a de. Essa perspectiva abre espaços para críticas de sua concepção
legitimação, as resistências e a historicidade que se (re)constitu i de história hegeliana e/ou de Fukuyama. Outros criticam o acio-
(Touraine, 1973). nismo do autor relacionando-o a uma espécie de filosofia do sujei-
Touraine faz algumas distinções entre sociedade tradicionn I to, a uma concepção de ator como princípio criador (Mellucci, 1975,
industrial e sociedade pós-industrial, apresentando outras confi- apud Durand e Weil, 1989). Outras críticas advêrn de sua concep-
gurações sociais, baseadas na informação, no conhecimento cicn- ção de conflito, e não de contradição, ou,mais exatamente, de sua
tífico, nas relações de classe, nas resistências mais globalizantcs, visão de reforma, e não de transformação societal.
na complexidade dos processos políticos, na mercantilização do Outros autores insistem também na perspectiva eloator. Inú-
social, nas manipulações e pressões mais difusas e diversas, 11;\ meros trabalhos de sociologia da música, do teatro, da literatura,
grande organização moderna, nas novas demandas sociais, o qur: que se complexificam no campo antropológico, como os que abor-
não significa dizer que as lutas de classes acabaram. dam normas socioculturais, o simbólico, as culturas de massa etc.,
A tendêndia neoliberal, tão criticada por Touraine, não abol i 1I buscaram dar uma descrição compreensiva. da vida. cotidiana, uti-
as contradições sociais; ao contrário, a sociedade pós-industrial " lizando-se do método etnográfico, de vocábulos da vida cotidiana,
atravessada por conflitos, por tensões e oposições em busca d(' d,' de ações familiares com o corpo, com a alimentação, com os meios
mocratização, do conhecimento, do bem-estar, da cidadania, da :lJlm de comunicação. Hoggart, Barthes, Lefebvre, mais recentemen-
priação, da satisfação de necessidades, do conhecimento tócn ico t'I.- te, Morin, Giddens, Habermas, De Certeau, dentre outros, mem-
Touraine faz um apelo ao sociólogo para que faça aintx-rv--n bros de várias correntes e com posições divergentes, contribuí-
ção no seio dos atores sociais ao entrar cm relação com () 1110\11 ram para a constituição do campo sociológico de ações e inieracôe»
mento social, não com um discurso militante, 111:18, sim, bVOrt,(·t'll cotidianas fundamentadas na perspectiva do ator.
do a tomada de consciência do movi monto soci;d d(~ qut: oc; ;tI" r r':
participam, do scntido idt'nLid;lCk, do princípio dI' oposi\.:;,,,,. d,<
(Jp
totalidade U\ns:lIt, 1 !)!)()). 1';:-;:-;;\:-;ot"ioloi':i:t
tI;1 ill/I'''PI'II(ÚII ill!I'/"/III"/U
20 Ver TOllRAINI~. Alain. to sociélé [J<is-illd/ls(ridl,'. I'"ris: !>'<II"'·I. 1'1/;'1
58 João Carlos Tedesco ,,y<~radigmasdo ''totidiano 59
Morin, por exemplo, apresenta-nos um universo socioantro- Ampliando teses marxistas da dimensão econômica, Bour-
pológico nas análises que faz do cotidiano. Os seus trabalhos so-
d iou adentra no modelo weberiano analisando a economia dos
bre a morte e o cinema como imaginários modernos, a relação
d()1II inios simbólicos na economia das práticas, o racionalismo nas
feita entre o nascimento da cultura de massa e a sua indissociabi-
rvtrra« ela arte e das estéticas do vivido. Adentrando no universo
lidade com a vida cotidiana, a temática do poder da imagem, da
(I;I~ práticas, Bourdieu familiariza-se com a fenomenologia husse-
difusão das mercadorias culturais, da mundialização da cultura, rinua, construindo, sociologicamente, a noção de habitue. Esse,
dentre outras, demonstram como o autor adentra na esfera do ;1() contrário do interacionismo simbólico e da etnometodologia,
indivíduo e da subjetividade.
11;10dú propriedade universal ao sujeito. "Se o mundo social tende
Segundo Morin, o que é morto, social e historicamente insti-
:I Sl'I' percebido como evidente L... I, é porque as disposições dos
tuído, continua a agir em nós e entre nós, não por inércia, mas
;iI~('ntes, seu habitue, isto é, as estruturas mentais através das
por interiorização simbólica e por fixação material, ambas produ-
1/II;Iis eles apreendem o mundo social, são essencialmente o pro-
tores e opressores (Juan, 1996), ou seja, sem os usos sedimenta- l! Ido da interiorização das estruturas do mundo social" (Bourdieu,
dos pelos mecanismos de ordem social, o ator não teria pontos de I~IS7, apud Durand e Weil, 1989, p. 188).
apoio para se projetar no tempo e no futuro. Morin nos alerta
Através da noção de habitus, Bourdieu tenta resolver a dicoto-
para a necessidade de buscarmos as estruturas simbólicas do
Illi:1 objetivismo/subjetivismo ao defini-lo como estrutura estrutu-
mundo vivido e sua associação às ações, aos sistemas de uso em
I; 11dI' que se historiciza e que funciona como princípio gerador de
correspondência com as dinâmicas sociais.
;1\'O('S,de classificações de práticas (gostos, condutas, distinções ...)
Outro autor que nos dá certa colaboração para o que vimos
'111('S(' constituem em sistemas de signos distintivos (Bourdieu, 1974).
desenvolvendo até aqui é Giddens. O autor amplia o conceito de
A teoria do liabitus tenta trazer os indivíduos à cena social
classes sociais na sociedade moderna ao introduzir a noção de
«luu inada pelos estruturalistas. O processo de incorporação (in-
estilo de vida como elemento cultural que manifesta grupos de
"ld(';lí."IO) das estruturas sociais promove experiências e
status, expressões de desejos e diferenciações. Giddens tematiz.i
I" I;:IposÍçôes que se traduzem em estratégias e jogos por legitima-
a importância da mobilidade social (definição de posição de classe:
'.:«' ('111campos de capitais diferenciados. Bourdieu diferencia vá-
e das trajetórias sociais na distribuição das capacidades e das opor
11:1::lili'lll;IS de capital, reformulando noções ligadas às estruturas
tunidades de vida. Defende que, pela mediação da posição de elas
d(, ('I:ISS('S sociais. O capital econômico, o cultural, o social e o
se, entendem-se as dinâmicas internas à estrutura social (JWII1, '1IIIholi('o, no seu conjunto, reformulam bases institucionais Iiga-
1996, p. 116); em outras palavras, afirma que é do sentido cotidia
,1,1:::«) I" Iradigma da produção, à teoria do valor trabalho, ao siste-
no que o indivíduo faz sua ação no tempo e no espaço e, ao meSIJlO
111.1d(' ('llsi no, ao papel do Estado e da liderança política (legitimi-
tempo, promove a constituição da orientação dos projetos e d():~
";«11" roconhccimcnto, prestígio e ritualização); significa atribuir
processos vitais em suas trajetórias. A análise do cotidiano ('111
,1" ::(1('1;11;1 conjugação de diferentes espécies de jogo, de conflito,
Giddens permite ver a dupla função social de produção/reprod 11
1'..];1:ll'ropl'i;\ç:1o objetiva e subjetiva da distinção de bens nos vá-
cão do indivíduo e do sistema institucional. ,,,':: (,;lIl1pOSSOCIaIS.
Muito próximo a essa linha está Bourdieu, que elabora ('011
1\ 1111;1 pol ítica, simbólica e econômica vai definindo o campo,
>
ceitos, tais como legitimidade, capital, habitus e campo, no S('IIII
",' 10-1'111 i11;urdo regras, construindo estruturas sociais e mentais,
do de tomar distância em relação ao estruturalismo, ao m.ux isiu« I ,'c >Iri lI'('i 1111'11tos e homologias de posição, o que demonstra que a
e à fenomenologia, porém ao mesmo tempo se servindo dI' .u n 1,,1,1 ""l'I;I:~S(':-: possui um caráter multidimensional no espaço so-
bos. Criticando o estruturalismo althuascriano na filosofia, :--;;111:,
, , " ,. '111" luibit u» S(' materializa na esfera cotidiana (Ansart, umo J.
(I
sure na lingüística, Lévi-Strauss na antropologia, Bourdiou d('I',.1
1 l u r.t d;ls <:rllic;ls imputadas ,I Bourdieu é no tocnnto à aborda-
claro que os indivíduos nno o!ll'dl'('('1I1 ;1 l'('gl';IS, c, sim, ('];1!.()j;1111
'" 111::I)C!"I"I'.i(';1d;lllOíJío de/whitus, ou seja, SLl:Idilll('IIS;IO ele- t'('pf'lI
esLr;IU'gi;l:i,
,1,1' 1" ".:11) 1IIl':-:IIIO1,('lIIjlO,d(' invouçao. As duvida« p.u r.u u ::ollrl';1
60 João Carlos Tedesco
,nradigmaS do "éotidiano 61
capacidade mediadora do habitus em explicar a estrutura paradoxal
da relação individuo/sociedade, objetivismo/subjetivismo, racionali- simbólicos, de legitimação, ou melhor, de dominação legítima. Os
dade da estrutura e racionalidade individual (Durand e Weil, 1989). campos promovem a dialetização das distinções no interior deles
Uma outra crítica direcionada é de que, por mais que ele mesmos. A conquista da autoridade, as tentativas de subversão,
identifique várias formas de capital, o econômico é que preponde- as estratégias de distinção asseguram o funcionamento do campo
ra e que está na base da constituição dos outros campos. Os com- e sua vitalidade.
portamentos de maximização cultural e social, sejam eles de lide- Em linhas gerais, percebemos que há muitos interlocutores
rança, sejam de distinção e reconhecimento, estabelecem esferas na constituição do campo da sociologia do cotidiano. Insistimos mais
ele circulação de bens de consumo, o que acaba caindo num utilita- em alguns por serem eles os promotores de epistemes mais em
rismo e num cálculo racional neomarginalista. evidência, principalmente na ótica do sujeito, do senso comum, da
Não obstante, Bourdieu quer restituir o sistema de relações interação, do conflito, do dado societal, da intersubjetividade e do
Como ponto de partida de todas as suas análises e interpretações. mundo da vida. Percebemos, então, que é um campo polêmico, de
Não se trata de restituir fenômenos sociais, mas de descobrir quais fundamentações variadas, mas que manifesta sua riqueza e sua
relações e qual sistema de relações constituem o objeto em questão. luta para tomar consciência de sua identidade interna. É o que
O autor quer romper com aquilo que ele chama de sociologia espon- veremos agora, mais pormenorizadamente, ao retomar esses con-
tãnea; busca fundamentar a análise no sistema de relações internas ceitos anteriores através da análise do interacionismo da etnome-
que socialmente determinam os dados históricos. As estruturas, para todologia, da pós-modernidade e de uma vertente do marxismo.
Bourdieu, são também percepções, julgamentos, comportamentos e
posições; são construções de um sistema de relações. Desse modo, o
trabalho de pesquisa consiste em distinguir os encadeamentos, as
práticas, as simbologias, as ideologias e os comportamentos indivi-
duais que constituem esse sistema de relações (Ansart, 1990).
Os conceitos de habitus (enquanto interiorização da exteriori-
dade e vice-versa, sistema de disposições adquiridas e, simultanea-
tnente, produtor de práticas), de campo, de estratégias, de conflito
simbolico, de distinção e inculcação, dentre outros, complexifícam
éts relações entre estruturas sociais e estruturas simbólicas.
Numa perspectiva menos espontânea e mais objetivista, Bour-
clieu tematiza a distribuição dos individuos em classes sociais, dando
~nfase ao capital econômico, ao capital cultural e ao capital social
<::omocritérios de distinção." Para isso, estuda várias formas de
<::apital promotoras da distinção: capital escolar, capital herdado,
<::apital incorporado, capital econômico, capital simbólico, todas
formas de capital criadoras do espaço social ou do espaço das con-
dições sociais. Esse espaço é construído por conflitos, hierarquias
~ lutas de classe no campo de domínios econômicos, culturais,
~--------------------
~(; Em vários livros, Bourdíeu teIllatiza essa questào. Espt."cificé.lll1cllie, ver Lu dietinctíon:
crttiqu« ~-;{)cia1e du jugelllt'll!. Pui-i-s: Frl , de Mh u nt . ID7D: l c- S('IIS 1)((lliCfut'. Paris: Éd.
cb: Mir urit , I~)K!): Lu /!()/J!es:-;!' d~'Ir'lI. [);lris: [I~d. <1(, Mh uut , l~l~-)q. ch-t tlrr- nul ro«.
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A corrente interacionistnr' teve seu nascedouro nos Estados
Unidos, na década de 1960. Na Universidade de Chicago desen-
volveram-se inúmeros estudos sob a orientação de Goffman, Gar-
finkel, Cicourel e outros, que reorientaram o interacionismo para
"
a etnometodologid; fazendo aumentar o interesse por estudos do
cotidiano e, inclusive, fundamentando uma sociologia do cotidiano.
O interacionismo é considerado uma forma sociológica de
psicologia social, pois a escola interacionista, principalmente ~ de
Chicago, estava muito interessada no estudo do comportamento
coletivo, na natureza da opinião pública (moda, eleições...). Pos-
teriormente, com Goffman e outros, o interacionismo adentrou
para o campo das reformas sociais, em áreas como educação, rela-
ções entre raças, o papel da mulher e.do sindicalismo.
É desse modo que o interacionismo simbólico se caracteriza
pela prioridade dada ao conhecimento prático, ao estudo de campo
e a obseruaçõesdiretas nos espaços de.análise. Essa linha m~tº-!lo~
"() tenno inleracionísrno Sil1llJólico se refere ao caráter distinto da interação entre
urdivicluos. O peculiar é que seres humanos Interpretam as ações reciprocas maís
qllC raciocinar cada uru ante a acào do outro [... }. O comportamento do sujeito não
i' resultado
(j de coisas t.ais como as pressões ambienlais. os estímulos os motivos
(111a s atitudes. seuào que deriva do modo em que ele interpreta e maneja tais
("/)i~~dti na aç-ão que esta construindo. O processo ele interpretação através do qual
<>" :;"-ieilos constroem suas ações mio pode ser compreendido olhando só as con-
dl':"t'" antecedentes do processo mesmo 1,.. /. Desde o ponto de vista do interacio-
Hi:;1I1O srmbohco. a organização socialélima estrutura dentro da qual as unidades
'1'". .uuaui desenvolvem suas ações" {Bfumer s.d .. p. 188).
":Y~radigmaS do ''(;;otidiano
66 ..... ·
João Carlos Tedesco 67
........ ...
,
lógica parte do pressuposto de que os significados sociaissão pro- i~stituciona~, a ca~reira,. as estratégias de negociação, os meca-
duzidos nas circunstâncias interatuantes dos atores. msmos e aço~s e~tIgmatIza~tes, a definição de profissão, as lin-
A grande preocupação de Goffman foi entender o que repre- guagens mstitucionais, os rotulas e suas atribuições, dentre ou-
senta a co-presença física do indivíduo numa interação, ou seja, tros aspec~s da realidade na interação aluno/escola, fazem parte de
essa se dá a partir de que elementos e de que condições? A relação preocupaçoes analíticas da tradição do interacionismo simbólico.
entre presença física constitutiva de interação pressupõe um mí- Pa~'a dar conta disso, a escola popularizou o uso do método
nimo de núcleo social, "a possibilidade reciprocamente concedida e qualitatioo na pesquisa de campo:..Os i!~teracionistasacreditam
reconhecida de dar vida a um encontro social" (Wolf,1979, p. 46). A que. o papel da s~ciologia é perceber a cOl!Cepçá~que~s~tor~~
aceitação de regras, a comunicação, a manifestação visual (a foca- ,c_onstroem_para SI .do mundo social que os cerca. Os adeptos' d~'
lização), a postura e o movimento do corpo (seu simbolismo), o cor~ente nao acreditam no quantitativismo nem no rigor da cau-
salidade dos fatos SOCLQlS. /y. prioridade é opontocle vista elos ato-
interesse sspontâneo'" e a cooperação, segundo Goffman, formam
.!f!.S, ou seja, .ornodo cOI))oeles formamssu ..mundo no social
a ordem estrutural das interações face a face. Existe uma estrutu-
ra que permite que se realizem os fins instrumentais das intera- Estudos do in~ciodeste século, nos Estados Unidos, com b~·~e··
ções, sem o que a sociedade desmoronaria (aí se pode perceber nos atos. ela_.expertencui, nas trocas mercantis ,emanum SI'St de
certa influência parsoniana nos escritos de Goffinan). comumcaça.o mterindividual e na dinâmica das ações sociais en-
Essa espécie de ritualização difuea permite que os indiví- tre pessoas interagindo.ja vinham tematizando os elementos que
duos possam significar-se na interação, possam desvelar as inten- fundamentam a interação reciproca.í''
ções e, ao mesmo tempo, regular, controlar e tornar visíveis as ~s cel'im~nias (e suas regras) são momentos importantes para
i!nplicaçÕes simbólicas da interação: c~r,numcal',na f~rma verbal ou não, juízos sobre os autores, para ma-
mt~star ~ompetênClasde membro ~ocial,?e acessibilidade recíproca,
Onde quer que seja, as sociedades 1 ... 1 devem mobilizar a seus
de adestr amento do orgamsmo SOCIal; enfim, de manifestação das re-
membros, enquanto participantes, que tenham a capacidade de
autocontrolar-se nos encontros sociais. Um modo de mobilizar o gras que gove~'nama comunicaçãodoencontrar-sejuntos (Wolf,1979).
indivíduo com este fim é o respeito ao ritual: se lhe ensina a ser Probabilidades, estratégias, imponderáveis do cotidiano 1'e-
perceptivo, a ter sentimentos coerentes com seu próprio si mesmo, presentações, dentre outras, são noções comuns de uso elosinte-
um si mesmo por sua vez expressado através do rosto; a ter orgu- ~'aclOmstasem suas análises. A probabilidade (não certeza) faz os
lho, honra e dignidade; a ter respeito aos demais, tacto e um certo interatuantes adentrar nas estratégias, as quais se expressam na
autodomínio (Goffman, 1970, p. 49). cap.~cldade .~leest~belecer a credibilidade de suas comunicações.
É por isso que a corrente, desde seu nasce douro e em sua POI em; ?offm~n e claro ao dizer que há limites na capacidade
tradição posterior, vem privilegiando abordagens na área da edu- estrategIc~, pOl.Sh.á,no âmbito social, um mínimo de normas mais
. cação," tematizando questões que envolvem a imposição cultural ou menos interiorizadas, valorizadas e recíprocas, o que demons-
, dos adultos sobre as crianças, as tensões e os controles sociais na tra o componente parcial da estratégia nos encontros comuns e
i adolescência, rituais, cerimônias, conflitos, medos, terror, pres- u~a ~strutura de mteração previamente socializada que ~rden~
, são, regras, fricções e contatos na relação professor/aluno. As ro- l~~mclplOs.de ação. Para ,Goffrnan, quando a estratégia não produz
tinas e o novo, o mundo estudantil e seus referenciais na relação h ut~s, ~ dlficulda.de esta em que o indivíduo precisa requalificar a
1110cencla,a boa fé e a confiança.
,... Estraté~as e reyresentações caminham juntas enquanto pos-
28 "Nesse feuómeno está um dos aspectos fundamentais do controle social da r-ou
sibilidade elemteraçao. A representação sustenta a interação, pro-
versação: o sujeito não só deve maut.er seu próprio interesse, senão também dcv«
atuar de macio que faça que os outros mantenham o seu" (Goffman, 1970. p. 11f\1.
29 Ver em Alam Coulon (1995a) uma análise de algul1las obras da corrente ínterari«
nísta preocupadas em revelar e consUtuição das mteracões humanas no ceuárío '" Ver Coulon , 1992. 1995a, 1995b,
da instituição escolar.
"Y~radigmaS do ''6'otidiano
João Cartas Tedesca
quetíl, na atenção cort~~;.há.uIl1Çld~.satençªocortês q\J.e~llcJI . rna
i move a cooperação, desvela a personalidade com~ natu.ralida~e ª~.situªç.ões e qll~.E!?,pressª._eºIpp()r.tap?:~JltOSt
expectativas e valo-
de quem a representa ..A interação, para Goffman, e mamfestaç:;o. r:.~.§eomo subjetivamente adequados a um deter~in~d~~õ'me;;'tõ ...
li de indivíduos em representação, requer que ~sses se transfo.-
mem em personagens: "A forma e~ que .se realiza o papel pern;l-
Definir as situações, os cenários e a subjetividade é dar cor-
po à interação, é identificar a estrutura necessária à interação.
te transparecer certa expressão da identidade pesso_al,caracte~I~- Nas palavras de Goffman, há na situação certa convenção, estabi-
tica da pessoa e não de seu papel L..J. Há um~ relação en.tre SUJ~I- lidadee acordo afetivo.
tos e papéis. Porém, a relação responde aos SIstemas de mteraçao
Se espera que cada participante reprima seus sentimentos ime-
l... ].Nas interações entre pessoas haverá uma :esposta ao papel
diatos, oferecendo uma interpretação. da situação. que ele conside-
que cada um representa como se fosse seu vestido desse momen-
ra ao.menos mo.mentaneamente corno aceitável por parte dos ou-
to [...j" (1988, p. 112). tros I...[. Em geral existe uma espécie de divisão. do.trabalho. no.
Há uma interação profunda entre caráter e natureza dos momento. das definições. A cada participante está permitido esta-
sujeitos como representação enquanto constru~ores do real, do belecer regras ou, ao menos, intentar fazê-Io, sobre temas que são.
sentido da interação. Há, porém, efeitos de re~hda~e que at~a~ vitais para ele (Goffman, 1989, p. 20).
sobre a natureza dos atores, mostrando que ,~ld~nt:d~de subjeti- Frente aos pressupostos arrolados, não há dúvida de que
va caminha por sutilezas e precarie~ad.es: A _hls~,or~an?s en.s~- elementos de ordem epistemológica, no âmbito da sociologia, te-
na ....", "a crise nos exige ...", "a cmergencia impoe ... sao dISPOS~ltl- nharn também contribuído para a gênese do interacionismo;" en-
vos que atuam e prescrevem a força da ação externa e, tambe~, tre eles,o esgotamento de teorias macroexplicativas (leis sociais),
que demonstram os atores do enunciado d? ~lscurso. O~, entao, asua exaustão metodológica (objetividade, distanciamento, preci-
"os limites às pretensões (doindivíduo) e os h~Ites a~ s~u SImesmo são, verificabilidade ...), as mudanças socioistóricas, tais corno a
estão principalmente determinados pe.lo.sfatos .0bJetlvos de sua relação Estado/sociedade civil, os movimentos sociais, as classes
id
Vl a soc
I' al [ ...J . O si mesmo não está originado sImplesmente t por
sociais, os blocos políticos e econômicos. Não há dúvidas também
um processo de interações significativas entre o eu.e os ou r~s, de que o esgotamento teórico da categoria indivíduo. no sentido
senão também por um tipo de estrutura que se orgamza em torno iluminista-moderno (soberano de desejos, necessidades, cidadão, in-
dele" (Goffman apud Wolf, 1979, p. 78). . ~ serido nas estruturas burocrático-empresariais e mercantis, para não
. ''---"~Segundo Goffman, os imporuleráueis da. oida real (~~s~du~s dizer cartesianasi contribuíram para adubar uma outra análise.
'em Pareto) aparecem, estruturam-se e dll1amlZam-se na situação Esses elementos, somados, abriram espaço para uma reação
~ .: l no ambiente recíproco, na ocasião social. (evento .que se microteórica, assumindo, assim, uma perspectiva fenomenológi-
:>OCLa.,. . . l( '- d ta
'localiza e se temporaliza) e no encontro socuu ocasiao . em er -. ca, com métodos que acentuam a intersubjetividade, sem preten-
ção face a face). Os resíduos cotidianos exigem também u~.t~aba- sões generalizantes, encenados em universos cotidianos, conside-
lho de colaboração para constituir uma esfera ~e cog~osClb~hdade rando o aspecto processual das interações sociais. A preocupação
compartilhada. Porém, segundo Goffman, as situações de mtera- no tocante à interação indivíduo/sociedade permanece, no entan-
ção constituem unidades delimi~a?~s n~m ~emp? e numa rede de to, retendo uma visão interativa de internalização e externaliza-
relações de poder e de formas SOCIaIS ll1s.tItuclO~ahz~dasque trans- ção (Gouldner, 1970).
cendem a contingência das situações interacionais (Wolf, 1979).
O interacionismo tematiza a influência recíproca das p[l!'t~s
Por isso, Goffman insiste na negociação com? modo de. c?nstru- (aquilo que Boudon chama de sistemas de interdependênciai pelo
ção dos pequenos sistemas sociais e d~s reah~ades S.OCIaI~ como , controle, fachada, máscaras e aparências. Goffman utiliza outras
fundamento da interação cotidiana ..~~nteraça.:0 e as Iden~ldades
sociais são permanentemente neg~c~adas. ~á uma pa: socI~1pro-
visória e ofêmera; as situações socIa~scontem.~m seu mtenor~: ;1 Ver ALEXANDf:R. ,J. C. O novo mo\'iIlH'lIto !<'ürico. U,'lIi .•.•
t u Hn4si!cinl di' ('ft'IIdus
Socinis. Anpo.-s. -I. v. ~. p. 5-20. IDH7.
complexo de comportamentos que nao se baseIam apenas na 11.
.J/) ..
. --;aradigmas do '(í"otidiano
70,. João Carlos Tedesco
.......71
-...
noções mais complexas, como repertório de papéis, região do pa- t?nçqoçortês com_Q.ºbYlo,a~ .t~ç_nicªs de encobrimento os jo
pel, territórios do eu, como aparelhagem simbólica em uma re- ª!egul~ç~oº0.c0ti~.iano,
e a matena-pnma
as inv~rsõ~~~d~·papé;;fu;~~;~l-~
da sociologia de Goffman. . .. _.
~;!~~!.
presentação (teatralização) como estruturas dos encontros sociais. Ó, ' /
Os encontros sociais são tematizados na sua obra Ritual de Ia . A.e.piste~e._goiímianª_p-rOCUGLd--ª.r ênfase aos desejos indivi- ,\
interactión, principalmente relacionados às condutas da vida coti- ,:1J~ls.de_mamP-llhn: a apr'esentaçãQdo.eu em relaçãQaospapéi~- ,
diana e às circunstâncias de presença do corpo em adaptação à ~:~ _~oçIa.lmente estru.~u~ados; procura explicar o comportamento ins-
presença do outro. As determinações circunstanciais, para o autor, ''I- tituciona] como ongmado na interação face a face. É desse modo
são sempre contingentes, causais e fatalistas, as quais movimen- <I!!..eo autor. não fo~ muito ortodoxo em suas análises e pesquisas,
tam os corpos e lhe dão atributos de indivíduos em situação de inte- n: as se serviu de etIquetas, de anúncios, de ditados e de manifesta-
ração (Coulon, 1995a). \.., çoes populares para compreender a vida cotidiana (Alexander, 1987).
Goffrnan escreveu a Representação ... , obra que daria surgi- Cer.tamente, sua preocupação foi descrever as regras que cir-
mento às análises sobre as estratégias de interação lace a lace. cunstancwlmente, controlam as interações na vida cotidiana a es-
Posteriormente, em Estigma ... , enfoca grupos desviantes e mar- trutura da l?t~r~ção como unidade fundamental da vida social, os
ginais, ambos esteriotipados pela sociedade. Estudo esse muito aspectos soc10106'1cOSda mteração dos sujeitos para se afastar para
minucioso, realizado a partir de contatos com doentes mentais se adaptar, para se sobrepor e se reconstruir na sua própria identidade.
em hospitais psiquiátricos e asilos, busca compreender os tipos de . A. dOlltr:na .dramatúrgica de Goffman não se preocupa em
relações, os encobrimentos, as técnicas de defesa instauradas na elevar as essencias subJacentes ao processo da interação social.
interação entre os normais e estigmatizados. Outras obras do au- Busca, SIm" exaltar as aparêl1:cias sem absolutizar hierarquias,
tor buscam aprimorar a constituição da corrente interacionista ~endo contrário a~~ moldes do funcLOnalisnw-positivista. Nas aná-
enfocando as estratégias de conversação com ritualização da teatra- lses tantof?m Estz~ct ... quanto nos Rituais de Ia ... , perceb~ ..
lidade cotidiana. Inúmeros estudos sobre delinqüência, morte, orga- .cl~r~mel~te~.como as hierarquias traciiçionais(clllturais e/ou eco-
nização dajustiça inspirados em Goffman tornaram-se famosos. \D.9m~cas) sao subvertidas: psiquiatras, médicos e diretores ~'ã~
De nosso esforço de compreensão de apenas alguns de seus ~laI1lP.ulados por pa,cwntes, a própria delinqüência serve paraca-
trabalhos, podemos dizer que a idéia que perpassa é de q!Je-ª.il.ç_ão racterizar o.respeítavcl e o normal. A contraposição à13. bierargui-
de um ator influencia a definição da situação que outros atores a~ ~ºllvencIQnaIS)lQ. processo de interação social parece ser~ e;~
podem dar. A utilização freqüente de noções comomáscara, inte-
., p~nto qu~ perpassa várias de suas obras; a riqueza dI:)~u~s refle-
ração, rotina e controle do eu dá o sentidoda ação rgcíIJLO~~LÍJ1t~.:_ xoes esta em most~ar as estratégias, os vetores que se ~r·~~~~
.:rindlvidüal em-situação banal e ordinária.', ent!"~ atore~, as ra~IOnahdad.es adaptativasl( .éts ..fº!I!2ªS de operar
QJ3IstElwa nao preVIstas a priori (Pais, 198.6).\
r A SOciol?gi~ de ~offman ,é l~ma análise do desvio, conside-
ando o desvio como fato endêmico nas interações (Pais 1986)
~untamente com o desvio aparece o controle interiorizad; ou ins~
o interacionismo fundou sua epistemologia numa crítica às titucional.
análises que omitiram ou deram pouca importância à interação
social, as quais sempre privilegiaram aspectos das estruturas, das o ~studo de,pequenas formas de desvio, das infrações mínimas, não
organizações, entendendo a ação social e suas interações como per tencem a esfera daquele que está à parte da ordem social, senão
expressão e decorrência delas. Noções como cultura, classe e es- no ~entro da orde~ SOCIal,de seus processos reais, de suas manifas.
tratificação, status e papéis sociais, fatores causais e resultados :~çoes m~ls s~g~lIfIcatIvas'9-ç_o!!!po.rta!1!e.ntº_n()rma1.~.o~e.inJração
s~o asd uas cal as de lJI!!Q...lI.l1Jca.
moeda queé o si mesmo na intera~'
estruturais foram sempre privilegiadas nas análises da sociologia S?OE3 §111le81!lQ_dQ.Índivíduo
em sociedade (Wéilf, 1979, p. 27). ._ ..
tradicional. A água suja da vida social (como Goffman mesmodiz.l.,
sua precariedade, as ocasiões menores davida cotidiana, a desa-
I,II
I
i
:I
Tl João Carlos Tedesco
1) ,
,.jI aradigmas do -Votidiano 73
G'ry
,,\i"
I '~Poderíamos forçar o traço dizendo que o que Goffman nos \ "to que é e se esforça para descobrir a falsa identidade do outro
apresenta é uma socjologia co-presentista, do que se apresenta (Wolf, 1979). Es,s.ailusão de si mesmo refuta os arauétipos morais -
I .Quando as pessoas estão cara a cara, no instante episódico, no .cde.Yer,_Qb.r.i.gaçj~.9),Ilº.sentido em qlt~ é importante internalizar
estreitamento interpessoal, no encontro efêmero. As estruturas as regras convencionais que mantêm a interação emJ()'gô~~GouTd:
sociais definidas (ao contrário de Parsons), com seus papéis cultu- ner (1970) diz que, para Goffrnan .... ()_qy,cS:()!l.ta não{q~e os ho~
ralmente padronizados, têm pouca preponderância no movimento rnens sejam morais, senão que aparentem issoante os'dêiilais.
da ação, portanto, deduz-se daí a precariedade da interação que se Goffman (1970, p. 180) deixa claro isso: '. ~-
fundamenta numa sociabilidade prudente, expressão de um mun-
Em sua condição de atuantes, os indivíduos se preocupam por man-
do precário; não transformado, o qual pode ser rebelado operando ter a impressão ele que se cumprem os muitos padrões aplicados
o sistema interno de relações. para julgá-Ios a eles e a seus produtos 1 ... 1 porém, aos indivíduos,
A relação indivíduo/sociedade, p-ara Goffman, é tematizada como atuantes, não os interessa o problema moral de cumprir esses
na.nersnectíza.dos ajustes secundários, ou ~-ª,,-ªp-resenta um .. padrões, senão aoproblema amoral de fabricar uma impressão
mIUJJio onde os homens buscam se adaptar e estar dentro das convincente 1...1.Nossaatividade, pois, concerne em grande medi-
es.tr.u..tm:.as_llitc.i-ªi!i>-_º--mH~implic~_ªstúciª-,Aesempenho, aparên- da às questões morais, porém como atuantes, não temos interesse
cia,,2~.O universo da aparência (que não objetiva apenas a utilida- moral por elas. Como atuantes, somos mercadores de moralidade.
de das pessoas) é o critério da aceitabilidade em função do desejo Sobre a questão das regras e da moral, voltaremos mais adian-
dos demais (que seja oendáuelu. Gouldner (1970) chamaria a isso te. Ao que parece, os·ãspectos mais amplos da cultura, da dinâmi-
peuma sociologia da venda das almas,:n isto é, Goffman concen- ca das instituiçpes sociais e das estruturas sociais diluem-se no
tra sua análise no universo referencial da utilidade das aparên- interacionismo.'Nesse emaranhado de relações cotidianas, além
cias, na forma de como se dão e se fazem necessários a apresen- de rotineiras, essas são teatralieadas, mascaradas; nelas os indi-
tação e o manejo do si-mesmo. É a necessidade da prova máxim,a víduos se escondem e, escondendo-se, defendem-se, calculam-se,
;de que "não basta ser honesto, é preciso mostrarqJJ~_f. descobrem o outro. Esse processo interacional desinstitucionaliza
\:.;.. A sociologia de Goffman coloca a nu as estratégias lmplemen- as estruturas de poder e de domin~ào. O poder não age só repri-
[tadas pelos homens no sentido de aparentar, persuadir, convencer, mindo, "mas também gerindo a auto-realização dos sujeitos, aju-
. impressionar, proteger e não descuidar para que determinada defi- dando-os a estar de acordo consigo mesmos, oferecendo-lhes uma
~nição da interação/situação possa estar a contento e ser aceita. linguagem com a qual eles mesmos falarão uma voz de autoridade"
Aepistenwlogia do engano de Goffman converte as relações
sociais num conjunto instrumental de regras do jogo (substi.tuin-
-. (Pais, 1986, p. 26l.
As estruturas sociais transformam-se em microestruturas:
io as clássicas obrigações morais), no qual cada um (enta mostrar em intera.ções. Essas exprimem um mínimo de troca social, em
que os comportamentos e ações de um se dão em razão do outro .
.As.-tr.ocas..so.ciais_íint.e.r:açã.oJganbam uma simbologia, uma signi-
ficação ...orientada.para .0 .outro (daí certa influência web:~~i~D.ª~~·.
~12 Poderíamos ir U111 pouco além dizendo que desempenho e aparencía fazem parte.
além do aspecto da comercíallzaçào econômica (produtos. trocas). da comereiali- também de.Schutzj.xtendo presentes as condições particulares -
zação de si mesmo (no politrco. no aspecto do manejameuto de impressões. lia Iíaícas.epsícolõgicas" - da ação, tendo também o outro,normª.J-
ser notado. em ser diferente dos demais. potencíalízando-se mdtvíduahneute [vo-
luntarísmoll, dentro das poderosas estruturas sociais.
. men.t~.,_sgJll..Q.ºpú,b!iç.<?.'~Nesse espírito, toda interação coloca em
3" Goífrnan pretende se contrapor á idéia clássica do lItilitariS/1lO. ou seja. de uma prática umjogo dramático ou representação durante a qual o ator
relaçào direta e mecántca entre a utilidade do homem e sua recompensa. entre
desenvolve um ou mais papéis frente ao público" (Durand e Weil
capacidade e mobilidade social dentro das normas e valores preestabelecídos
(base para a híerarqutzacào do modelo liberal c1ãssico e. de certa forma. neolíbe- 1989, p. 173). É por isso que Goffman entende a interação (face ~
ral). Do que entendemos de suas análises. Goífman não quer apresentar um outro face) como "a influência recíproca que as partes (os indivíduos em
utilitarismo (de certa forma anôrníco. do tudo é permitido. do não dar e não rece-
ber). mas. sim. expressar a patologia. ser um sintoma expressivo do velho utilila- ação) exercem sobre suas ações respectivas quando elas estão em
rismo clássico desencantado. presença física imediata uns dos outros" (1989, p. 28).
74 ..... João Carlas Tedesca
! I
;.}'~radigmaS da Y"otidiano 75
Uma atividade social aparece, portanto, como uma fração
neas, mescladas às atividades que se sobrepõem (escolaridade,
significativa de um conjunto de gestos e de discursos realizando-
se no cenário da existência corrente. profissão, ganhos ...), propiciando ao sujeito a competência e a de-
fesa para atuar nos espaços interativos.
Este conjunto é ele mesmo engendrado por atividades concomitan- À:Rouca importância que Goffman dá às grandes força§.j}j,s.~.
tes realizadas por uma pluralidade de atores que concorrem para
tóricas que, segundo os marxistas, dão os contornos sociais do'
lhe dar um sentido coerente e transmissível. Um tal conjunto será
cotidiano, formando uma cotidianidadej expressa-se na tentativa
chamado situação. Ao seio de cada situação, os atores jogam seus
papéis. Esses papéis fazem o objeto de uma codificação mais ou de suas análises apresentarem o livre arbítrio da subjetividade',
menos colocada no seio dos diversos mundos da vida que perpassa' da espontaneidade e da eventualidade, na tentativa de estabele-
o ator Schutz , 1987, p. 31).
í cer equilíbrios mútuos nas ações (Pais, 1986) como evidências cons-
titutivas do social. No entanto, essa concepção não estaria refu-
li) Não é de estranhar que o papel social, no ato dramatúrgico
tando o macro nem dando ao micro (interações cotidianas em si)
da interação, exerça funções próximas às várias atividades so-
um sentido radical de anornia ou de ausência de conteúdo. Na
ciais no seu sentido mais clássico, sejam elas técnicas, políticas
concepção de Goffrnan, os episódios da vida cotidiana estão imbri-
(ação voltada para ganhos, gratificações, sanções ...), estruturais e
cados num jogo de regras, ritos, mitos, significações, formase ..
culturais (a influência dos valores morais, implícitos nas regras e
conteúdos que se condicionam, constituindo relações sociais no
nas atividades de interação).
ato da interação.'
pe fato, tanto para os interacionistas como para os etnome-
todólogos, os significados subjetivos da intcração social servem de
ponto de referência ao conhecimento científico. As atitudes os fftfCV,gçát), ocasioc« l! C!fCOId('o<;
desejos, as definições dos atores e situações, bem como a percep- () co,/wfo sacia! <:'ef.'q;zi~j1do
ção imediata (antes da racionalização e do conceito) fornecem as
descrições da realidade (Pais, 1986). " Para os interacionistas, a interação social não se define mais
!bf.\.c()mpreensão da realidade só é possível tendo presentes as em termos de reciprocidade dos papéis e de regras corresponden-
experiências vividas pelos indivíduos. A inducão, ao contrário dos tes ou em termos de uma cena onde os atores são manipulados
.estruturalistas, delimita o aspecto daobservaçâo e os referenciais como e por forças cegas. Ao contrário, o conceito de interação
.< teóricos que ajustificarão. Osjnteracionistas priorizam o vivido, social evoca as contingências sociais dos processos subjacentes às
"gando pouca importância ao concebível e ao conceptual. Parecem interpretações e às racionalizações. A tentativa é de estabelecer
seguir à risca a colocação de Lefebvre, que, ao criticar o estrutu- os sistemas de interpretação através dos quais a realidade é tipifi-
ralismo, diz que quem "e~preg-~'~õ~;ceitos, que o faça com luvas. cada (Boudon, 1995a).
de veludo'Tpois o investigador com idéias rígidas acaba por ape-" Blumer (1969) mostra como a socialização é um processo de
nas confirmar hipóteses, ou, então, por ver os fatos que confir- aprendizagem de papéis no qual a criança constrói o mundo social e,
.,mam suas teorias." E sempre bom deixar claro que os excessos, ao mesmo tempo, constitui sua própria identidade. Para os intera-
os dualismos teórico-metodológicos podem levar à reificação de cionistas, o saber comum e as tipificações que lhe são associadas são
conceitos. Os..conceitos precisam levar em conta aspectos da inte- a condição fundamental da existência social. As formas categoriais
g
e
ração e das orientações culturais que contemplem a verdade coti- individuais (Goffman)definem o quadro que demonstra a forma como
diana e o senso comum-que dela se alimenta (Azanha, 1992). os indivíduos agem reciprocamente no interior das formas sociais
O interacionismo interpreta a realidade social atrás dos olhos (Simmelf Tarito os quadros naturais quanto os sociais (Goffrnan)nos I
do ator (Blumer, 1969); realidade essa fundada em ações espontâ- fornecem esquemas interpretativos que servem para identificar e,
portanto, distinguir os acontecimentos uns dos outros.
·;1 Ver SCHllTZ e LlICl\MANN. Lns eSlruClurClS deI mlmeio de l<t nidu. Buenos Aíres: Os encontros são definidos pelos marcos, os quais nos dizem
In77.
/\1I10ITorlll.
os possíveis acordos existentes que poderão governar os aconteci-
76 João Carlos Tedesco
,.Y~radigmas do 'tf'otidiano 77
'". . ~
mentos; permitem definir as situações de interação e a estrutura
ção e à adaptação de suas regras: "Quando as pessoas estão em
da experiência que têm os indivíduos na vida social e suas possí-
presença de outros (as regras) podem funcionar não só como ins-
veis implicações (Wolf, 1979). Os marcos protegem e/ou desvelam
trumentos físicos, senão como instrumentos de comunicação"
cumplicidades ocultas, o que demonstra que, nas interações coti-
(Ooffrnan, 1976, p. 46).
dianas, nem tudo é transparente e nem tudo possui uma significa-
"0 corpo possui toda uma simbologia comunicativa expressi-
ção imediatai Os marcos implicam expectativas normativas ~ es-
va de um acontecimento e conhecimento social (postura, movi- .
quemas interpretati vos adequados aos modos de participar da si-
mento, atitudes ... ). Os encontros cara a cara transformam-se, as-
tuação. Não implica só dar significação a essa, mas estar dentro
sim, em microssistemas sociais que podem especificar fluxos de
dela, apropriar-se dela (ao contexto), suprimir certas "liberdades
atividades comunicativas na interação, tanto em nível de regras
menores" e ter certeza de que todos os participantes da situacão
de ordem social, quanto de representações em nível de staius, de
têm uma relação clara com o marco em questão. >
comportamentos.
A interação é entendida no face-a-face, porém definida como
influência recíproca das part.ea.:" Boudon chamaria isso de siste- Todos os encontros representam ocasiões nas quais o sujeito pode
mas de interdependência, ou, então, estrutura dos reencontros estar espontaneamente comprometido com o que está sucedendo e
entender o sentido da realidade. Quando ocorre um incidente e cai
sociais~Goffman tematiza uma sociologia das circunstânciaf3 (como 'o
em perigo o compromisso espontâneo, a mesma realidade está em
ele .m~s.mo diz em Ritual de la ...), onde os corpos, em situação
perigo l...I. A ilusão da realidade cairá em pedaços 1... 1.Os que
ordinária, adaptam-se à presença do outro: "A idéia irnplicada por participam nele (no incidente) se sentirão privados de regras, anô-
meu propósito é que, acima de suas diferenças culturais, os ho- micos (Goffrnan, 1989, p. 78).
m~ns são sempre parecidos" (Goffman, 1970, p. 86).
Nesse sentido, é importante definir os momentos, as situa-
" ··(\Essa antropologia das circunstâncias interatioas reduz os
ções de interação, pois dessa consciência advém a identificação de
gestos do corpo unicamente aos atributos do indivíduo em situa-
expressões, de comportamentos, de valores e expectativas ade-
ção de interação, bemcorno os determinismos circunstanciais são
quadas comunicativamente aos atores naquele momento. A defi-
sempre contingentes. O acontecimento, o acaso e a fatalidade são
nição do cenário a priori permite evitar infrações, anomias, repa-
suas categorias recorrentes (Pais, 1986), ao passo que a ação (in-
rações, isto é, estipula o significado do encontro: "L... J se trata de
dividual! é sempre referida ao estado afetivo, à exaltação, à emo-
uma operação amplamente convencional L... J, como se houvesse
ção, ao risco ou à atenção como disposições psicológicas. "Eu não
um acordo substancial, efetivo, entre as pessoas que interatuam
me ocupo da estrutura da vida social, mas da estrutura da expe-
L... J. Definir a situação significa identificar cooperativamente qual
riência individual da vida social." Numa outra passagem: "Toda
a estrutura a dar à interação" (Wolf, 1979, p. 36-37). Não significa,
definição de situação é construí da segundo princípios de organiza-
porém, que não haja uma certa cumplicidade oculta, a qual pode-
ção que estruturam os acontecimentos - ao menos aqueles que
rá romper com a cooperação convencional da interacão.
têm um caráter social - e nosso próprio engajamento subjetivo"
É nesse sentido que ~s microssistemas goffmianos são unida-
(Coffman, 1988, p. 208-209).
des que se constroem e se destroem, em cujo interior os atores
A co-presença física de pessoas numa interação fundamenta
lutam e cooperam para definir o sentido da realidade do microssis-
~"~briga~ão de se fazerem mutuamente acessíveis. A presença
tema. Não podemos esquecer, no entanto, que as unidades cons-
física na interação possibilita a abertura dos sujeitos à comunica-
truídas não estão desligadas de outras estruturas e de outras redes
de relações, muitas vezes contingentes e mais além das interações.
J.') Muitas noções que GofTman utiliza já unham sido trabalhadas por outros autores. iJ1'?xit.yQis da_intenl&ª~LC9.t!.ªiª1l-ª.l2:vi<;la social eomorepre-
prmclpahuerue por El ias (Fel' Cahiers l"lemalio"cwx ele Sociologie. n. 99. Juil./
.sentação teatral, a interação como estratégia) fu~~i~~~~1--~9~1Õ-"
dã'~~~i~~'~
Dec. 19~)5). tais COlHO controle. tachada, colisão. mascara e aparéncía. Goffman.
eutretanto. l~l~S dá l11gredienles mais nwderllos. ('01110 repertórto de papéis, regíao cio reguladorea.de interaçào,pn~tiçªe.simbolicamente. Eles
papel. lernlonos elo eu. aparelho snubolíco. signos elo srorus. grupo ele referenda ...
fluidez e segurança à comunicação coticli·al;~-(Wolf,i979).
I
I,
78 João Carlos Tedesco ;,Y~radigmaS do '6:otidiano ...79
11
.......... _ ... _ .. -
I.
I' Sempre que o sujeito está em presença de outros deve manter uma
ordem cerimonial por meio de rituais interpessoais. Mantendo um
o üfdivíduo CO!AI()(Jef"~(}H8gef;ff ('·141I>
II comportamento correto, o indivíduo dá crédito e conteúdo às enti- t 't'~re':'t'-Hjaçà()
I dades interacionais, e se faz a si mesmo acessível e utilizável para
I~
., comunicar 1... 1.Um modo de mobilizar o indivíduo com este fim é o
Quem são os atores da interação? Qual o conteúdo em jogo
na interação? Que papéis assumem os atores nos encontros so-
respeito ao ritual (Goffrnan, 1976, p. 49 e 192).
,I ciais? Goffman (1989, p. 170) nos diz que
O ritual;" nos encontros de interação simbólica e instrumen-
tal, manifesta o compromisso, a imagem e a idéia que se tem do o indivíduo que se apresenta como personagem será considerado o
outro (dos participantes) da interação, bem como define as estra- que é: geralmente, um ator solitário, ocupado em uma frenética
atividade para pôr em cena sua representação. Detrás das múlti-
tégias que irão orientar a situação e os acordos necessários para
plas máscaras e dos distintos personagens, cada ator tende a ter
a aceitação recíproca dos encontros sociais. As estratégias incluem um só aspecto, um aspecto desvelado, não-socializado: o aspecto
o outro, o adversário. A valorização da situação tem como pressu- de alguém que está ocupado em um objetivo difícil e traiçoeiro.
posto a valorização que o outro faz da valorização do adversário.
': Para o. autor, existem representações verdadeiras e repre-,
'<'Noentanto, como diz Goffman, na vida cotidiana, nem sempre os
sentações artificiaisc.Na. vida. cotidiana, as. pessoasassume.m,pa7 .. _
J~g'~;sesiraté-gícoss'áo perfeitos, precoíic~pjªQ.~. "O jogo estràtégi-
péis, representando, assim, a "recíproca acessibilidade regulada.nos,
co da interação, mais que um esquema geral para cada ocasião
encontrossociais para receber e transmitir os fluxos de representa-
social, é um componente parcial de muitos encontros" (Wolf, 1979,
ções e comunicações que descrevem personagens e suas.ações" (Wolf,
p.61).
1979, p. 66). É importante que as representações sejam verdadei-
A vinculação do indivíduo com a sociedade manifesta-se quan-
ras, coerentes, reconhecíveis e que o indivíduo se transforme num
do aquele se apresenta como ator e espectador, criando um con-
personagem forte e reconhecido para poder criar um escopo míni-
texto (o teatro), produzindo uma interação, fazendo o social. Sig-
mo de sociabilidade nas relações cara a cara. Não há dúvidas de
nifica dizer, segundo nossa compreensão, que, para o interacio-
que há também efeitos da realidade sobre os atores, porém a au-
nismo, o macrossocial é regulado e, de certa forma, produzido
todefinição (a representação de si, o si mesmo) se faz através da
pelo microssocial. A interação indivíduo/sociedade processa-se,
natureza regulada pela interação e da comunicação recíproca que
então, através da linguagem do teatro e de suas técnicas. Ou seja,
aí se estabelece. No dizer de Goffman (1976, p. 115):
a realidade social seria o somatório de ações individuais cºns!it~t:.
-cfas'pol" atoá~'s emsituaçõessociaisque eles inte~p~:~t~~n- n~oy'~la r ... 1durante a interação se espera que o sujeito possua certos atri-
cúltm'a. comum e estável, mas o curso do próprio processo deinte- butos, certas capacidades e certas informações que em seu conjun-
I ração, em função do comportamen~?,~e_,0..tl_~~s l:l!ores(Pll_i§.>J~8§).
A sociedade (ã-üraem soclaT)e estável, contingente, produto tem-
to se integram em um si mesmo que forma uma unidade coerente
e adaptada a essa ocasião. Através das consequências expressi-
vas do fluir de sua conduta, o sujeito projeta com eficácia seu si
I poralmente institucionalizado
tensão de revolucioná-Ia.
de interações que não têm a pre- mesmo aceitável na interação; ainda que ele não possa dar-se con-
ta e os outros possam não dar-se conta de que têm interpretado
1 sua conduta neste sentido.
I uc Segundo Gilbert Durancl. em Les slrucll,res Wll.lIropologiCJILes de l'illlagillaire. Paris:
As representações, portanto, fazem parte, como resultado da
natureza, do acordo social que torna possível uma interação. A re-
Bordas. 1969. O rito nào opera transformações essenciais 110 mundo das relações
I sociais. 111asprovoca. sim. mantpulacocs teruporarras de alguns elementr», racio- presentação do conflito na interação, para Goffman, não se dá só na
nais. Os ritos deüneru-se por suas finalidades e mortologtas. porém podem ser
agregaclores (na ótica da reproducao), como também. na ótica do confluo social.
forma institucionalizada (regras, poder, moral, controle das insti-
provocar rupturas em razão das contradições no interior do cenarío ínteranvo. En- tuições ...), mas também no controle informal (castigos, reclusões,
contra-se t'lll Claude Ri\'iere. Por une approche eles riluels sécuuers, um estudo so-
bre os rltuais cio coudrauo. seus aspectos analógíco. sagrado. descrtuvo, estrutural.
desqualificações, estigmas ...). Neste último, nós mesmos somos os
üpologíco e naturul. contrapondo-se. ern alguns aspectos, à rituahzaçào em Goítmau. executores. A sua análise do poder enfoca o mesmo difundido nos
;jf~radigmaS do '6Úidiano
80", ' João Carlos Tedesco 81
•• o, •••••••••••••••••••••• ~ ••••
encontros, nas interações, na persuasão, no entanto sem negar a tam a condição de adaptação convencional dos microacordos so-
primeira forma (Wolf, 1979). As estratégias de poder criam repre- ciais. Segundo Goffman, a moral tem um caráter socialmente difu-
sentações na vida cotidiana que se fundamentan: na ~onfi~nça e na so - somos traficantes da moralidade -, a simples presença física
moral, como elementos fundamentais do intercâmbio social. transmite o reconhecimento recíproco de suas mútuas exigências.
• ? A moral manifesta uma espécie de controle social informal
" É esse processo que, de certa forma, reúne elementos q~e.~~,
se congregam em resistências do eil~f.mEstig:raq,,'t Go_~f:rn~n.J:t~~-' pelo qual se difunde a sociabilidade, que se constitui por regras.
tingue duas identidades sociais: a oirtual e a real! A p~'lmel~'a e a, As regras são a estrutura da linguagem da interação. Descrever
personalidade que vem do exterior, construída a_partir de infor-, as normas que governam uma interação social é descrever sua
~,~~Lde .que dispõem os indivíduos em Il1t~raçao. A s~gunda (a estrutura, diz Goffman.
I A confiança é um instrumento importante/complementar nos mi-
real) é a personalidade do indivíduo, defimda a partir de seus
;I~ I atributos:'De qualquer forma, o estigmatizado ocupa um espaço crocontatos sociais desenvolvidos no cotidiano. Exerce também um pa-
, I
,, , de desviante em face daqueles com quem entra em interação; por pel de controle, como ordem ritual; é o preço exigido para poder atuar.
isso, ele adota estratégias de resistência, técnicas e táticas para
fazer valer sua identidade real. Porém, nessa obra Goffman mos-
tra que não há desuiantes. O normal e o estigmatizado :1},~O""ê.êg
pessoas, mas perspectivas engendradas em situações SOClalS'llm
Inúmeras críticas à corrente interacionista podem ser feitas e
.processo social que implica dois papéis, nos qU~lS, em mom~nt?s
já o foram por vários autores. Abordaremos aqui apenas algumas.
" diferentes , os indivíduos podem participar. Por ISSOo lnteraq01,2}.§·
'\~ ."". '." -. {~
Por mais que a [enomenologia (sua expressão na ~ºçipJ.Qgja c~().r!!I2r~e..:-_
'. mo é considerado uma sociologia da estratégia.' ,
êlsÚ::ªle na antropologia) tenha influenciado o interacionismo, o pri-
O interacionismo simbólico não se furta a tematizar a esfera
vilégio dado à dimensão da compreensão interna dos fenômenos so-
da moralidade. A moralidade recebe uma grande importância na
reflexão goffmaniana, porém não é uma codificação social pelo 5 ciais, à análise in situ, à descrição das práticas, às estratégias dos
atores e ao seu jogo com as normas e as regras sociais, no seu todo,
menos em primeira instância), institucionalizada; é algo difuso,
permanece problemático.
ativo, ali onde a interação põe os indivíduos frente a frente (Wolf,
I É desse quadro que as críticas brotam. Em primeiro lugar; pa-
I
1979). Essa espécie de moralidade laica é o fundamento de tudo o
rece-nos que há uma redução do funcionalismo social parsoniano
I que durante a interação serve para manter íntegros os atores e as aplicado ao processo de interação. Com isso, perdem-se a dimensão
I definições da situação que aqueles projetam. . do poder, os mecanismos institucionais, a objetividade social e as
I A moral envolve obrigações e expectativas, ambas cnando estruturas presentes no complexo social mais amplo. Claro que os
I (situlações, obrigações e expectativas; como compone~tes ~llo~ais, interacionistas poderão nos dizer que há imprecisões na teoria, as-
são cotidianamente negociadas. Para tanto, a comumcaçao e es- sim como as há na sociologia quantitativa, positivista (nas verificações
sencial, pois tanto manifesta as pretensões e promessas implíci-
estatísticas)," que trata os latos sociais como coisa, nos tratados de
tas como a competência da incorporação das normas de. e nas sociologia que suprimem a subjetividade, o espontâneo, em última
interações sociais, ou seja, do vínculo entre o eu e a socledad.e instância, o cotidiano (Pais, 1986).
(Wolf 1979). Promessa e compromisso são duas noções operatí- , No entanto, o mercado de interações e significaçõee (como
vas da moral goffrniana, pois, sendo ambas realizadas, manifes- Goffmann classifica a ação social) faz da análise um mergulho nos
ÔÉ de~se modo que há uma conjunção com a teon'(! dos .~o[Jos. Algl~n~:autor~s de-
moustr.un que a obra A vida colidiwlC! como represenlClçclO. de E. Golfman. e uma
cxpostçáo-trnnsposlcào de certos conceitos da reona cl?s .Jogos na medida el~l que ::",Príncípalmeute em resposta às críticas de metoclólogos cartesíanos atribuindo exa-
põe frente a frente pelo menos dois adversanos. Ver H~JHPEN.Ntcolas. A sacIO/agIU geros subjelivistas e falta de rigor cíenuüco centraclo na observação direta ou par.
tictpante e na insistência de que a verdade ela mteracáo dada nela mesma.
Porto: AfnJlllal1lento. )982.
é
fllJk'rlcCO!(l.
,o:Y~radigmasdo 'Ú'otidiano
82 João CarlosTedesco . ' ~
.. ...........•....
..................
. 83
.
aspectos mais recônditos, nos infinitos detalhes e situações so- . G~ffmá~'A nesse ?oriz?nte espaço-temporal (noção de regio-
ciais do cotidiano, o que torna difícil cimentar uma perspectiva de ,~ahzaçao \~a enfas~ ~s rotmas da vida cotidiana e ao caráter prá-
integração teórica, histórica e institucional (Gouldner, 1970). Sua tico da~ at~vldades diárias em circunstâncias de co-presença para
a constrtuição da conduta social. Não há dúvidas de que Goffman
análise privilegia aspectos mais marginais da vida cotidiana, mais
espontâneos, menos convencionais e controlados institucionalmen- tent~, cont~ap~ndo-~e ao sentido tradicional de tempo-geográfico,
te, porém não deixa de fazer uma sociologia de um controle social dar importância ao Impacto do dia normal da pessoa comum so-
informal (Pais, 1986), na medida em que tematiza os mecanismos br~ a ~r~anização total de sistemas sociais, ou seja, mostrar que
de sociabilidade (interação) e os rnicroespaços de regulação social. os indivíduos são constituídos independentemente de estruturas
Autores contemporâneos a Goffmann e também mais recentes sociais em que passam sua vida cotidiana (Pais, 1986). Os indiví-
o acusam de ser descritivo demais, de não tematizar a sociedade du?s, ao que nos parece, são suas intenções; suas atividades são
envolvente, de exagero de psicossociologia (do aqui e do agora), de guiadas pelos planos que tentam realizar. Porém, Goffman utiliza
ser aistórico, de ausência de regras normatizadoras," de carência muito o termo fachada, noção que ajuda a entender os movimentos
de um referencial analítico que enfoque as diferentes percepções no r:enário, sugerindo que os planos que se pretende realizar são
entre ator e observador e no modo como ambas podem fazer parte em~nenterr:ente inautênticos, que tudo o que é real na interação
analiticamente de um campo de conceituações. "Os homens re- esta num fundo de erro, ou melhor, escondido atrás da fachada.
presentados por Goffman se movem sós, em um mundo desolado, O modelo d~amatúrgico de Goffman nos deixa a impressão
onde o outro homem é um público, onde a única comunicação de que falta um~ interpretação mais geral da motivação das roti-
possível consiste na comum consciência e aceitação deste engano nas da VIda cotidiana, pOIS, se os indivíduos são apenas atores
recíproco. Consciência de enganar e também de que o outro sabe num palco, escondendo-se em seus papéis (fachada, máscara) em
ou pode saber que está sendo enganado" (Maranini, 1972, apud seus eus, atrás da interpretação que adotam para a ocasião, o
mundo sO~lal (enquanto palco/cenário maior) estaria, em grande
Wolf, 1979, p. 98).
Concordamos com Pais (1986) ao levantar a questão sobre se p~rte, vazio de substância (idéia, de certa forma, partilhada tam-
é ou não possível descobrir a estabilidade das convenções que es- bem por Gouldner e Pais). A vida social seria, então, uma busca
truturam de forma decisiva a organização social por detrás da desenfre.a~a para montar operações de segurança que recuperem
precariedade dos resíduos sociocotidianos e da labilidade desses a auter:tIcI~ade, .um sentido de auto-estima na encenação da roti-
fragmentos da vida social. Essa é a grande questão do micro com n~. A~ IrracJ~nahdades modernas do sistema de recompensas, que
o macro, da transposição da vida cotidiana dos limites da micros- nao sao, muitas vezes, produto da racionalidade burocrática da
rnaximização da eficiência (produtividade, controle e gerenciamen-
sociologia.
No tocante ao espaço-tempo das interações, Goffman afirma L?, competências ... ), vêm ao encontro do interesse e das exigên-
que os padrões típicos de indivíduos podem ser representados CIaS d.e uma classe média despojada de valores que se agrupam
como a repetição de atividades de rotina através dos dias ou de lias dImenS?~s da utilidade e da moral burguesa e apegada às
períodos mais longos de tempo-espaço (Giddens, 1989). As intera- normas estéticas e às aparências das coisas (Gouldner, 1970).
ções dos sujeitos, mobilizados no tempo-espaço, formam feixes (em Desse modo, a grande questão que nos parece pouco resolvi-
algumas passagensoGoffman utiliza a noção de ocasiões sociais) d;\ em Goffman, e que parte das críticas enfatiza, é no tocante às
que se agrupam dentro de regiões cincunscritas (casas, ruas, hos- 1'1Iptu~a~, à mudança social. Claro está em suas análises que as
pícios, cidades ... ). CIO' ,..-n.ratégias na interação envolvem comportamentos físicos e ver-
h;\ls. P~ra o autor, há formas de operar o sistema, de agir não
II \'"LIÍ:uclOnalmen~e, de escapar às adaptações secundárias a que o
39 No tocante à última. Goffman responde dizendo que "as regras e a etiqueta de
•.d,(~ma reduz os indivíduos, de escapar às formas de resistências
qualquer jogo podem ser consideradas como um meio através do qual se celebram .I,. SI (os estigmas) e às relações face a face de coalizão, de que há
as regras e a etiqueta do jogo" (1988. p. 14).
:'Y~radigmaS do ''6:otidiano
.. João Carlos Tedesco
84 _ --, -.-- .
. -
í"~,. :1'~ . . . _ , .
I ênvolvernaquiloque ..ele..,chama,de./lJ.Qrte.ClwL:As.Jns.titmço.e.s,J;l.o.líti-
espontaneidades que, de certa forma, ~istematiz~~ renegociações I cas, psiquiátricas, carcerárias, dentre outras; são as que mais redu-
na ordem social específica e estabelecIda no cotidiano. No entan-
to, ao nosso ver, carece de mecanismos mais objetivos, menos I zem os seres humanos a,estados de, dependência in,fan,t,il; Am"bos os,
.autores têm como temas predominantes de suas obras o posiciona-
espontâneos, mais regulares e orgânicos, que possa:r.nde~caI~a~te- L mento e a dis.Ç!J2UD1i.Q9cQrP.QJNão há dúvida, no entanto, de que há
rizar a vida cotidiana (seja em que instância for) da inevitabihda- diferenças em suas concepções, sobretudo em termos de teoria do
de da reprodução. conhecimento, de concepção de história, no manejo de conceitos,
Goffman, como já dissemos, recusa-se a se preocupar com como insanidade, razão, disciplina, vigilância, inclusive na atribui-
questões de organização e história social em gra~de esc~la; bus.ca ção da capacidade de revolta (de operar o sistema) dos agentes envol-
sempre fazer despontar a idéia .de que o ,~s~enclal ~a vl~a"soc~al vidos. Porém, ambos buscam localizar-se em microinstâncias de aná-
encontra-se naquilo que ele designa por mícrossociología (Gl~- lise e, desse espaço analítico, problematizam as relações rotineiras
li I dens, 1989). Desse modo, o autor contribui para que a dimensão que aí se tematizam (Wolf 1979).
micro e macrossociológica fique ainda mais contraposta. Os de- Toda a abordagem profunda e rica em termos de análise e
fensores da última abordagem são propensos a considerar que os empiria de Goffman poderia ter contribuído para amenizar o dua-
I
I, '
I
\,'1':"
estudos da atividade social do cotidiano não são muito mais que l
lismo filosófico e metodológico ainda muito presente na divisão
I '
)
trivialidades de pouca significação. Goffman, com sua microsso-
I "
do trabalho no campo sociológico. Ao que parece, não foi o que
ciologia, deixa transparecer interesse maior por um agente livre aconteceu, nem em relação à tradição interacionista.
(Wolf,1979). .' A • _
\. \ .i Uma outra crítica imputada à análise da vida cotidiana como
(Para Goffman, a realidade social é rmcroexpenencia. Sao a.s representação é a mistura de vocábulos teatrais com categorias
;agregações temporais e espaciais dessa experiência que consti- sociológicas (alienação, estrutura social, integração, motivação,
:tuem o nível macrossociológico de análise. Julgamos, no entanto, consenso, ...) e também da vida cotidiana. A questão é saber de
\que as atividades em microcontextos têm proprie~ades estrutu- que forma se dá essa articulação (Pais, 1986). Os vocábulos e ou
rais muito definidas, seja no universo da temporahdade ou da es- categorias da vida cotidiana explicam-se pelos teatrais? É possí-
pacialidade, seja nos padrões institucionalizados de comportamento vel, enfim, comparar a vida social a um espetáculo? Muitos críti-
\
'(esses deslizam no tempo). cos acreditam ser problemática a defesa de uma recepção da obje-
A própria integração social, que diz respeito à interação de tividade imediata dos processos e dos atos sociais (interação face a
co-presença (face a face), é canalizada por percursos t.e~po-espaç.o face) como sendo constitutiva de uma realidade estrutural. Ao
adotados pelos indivíduos ou pelos grupos em suas atI~ldades ~otI- nosso ver, não rompe com a facticidade empírica da antologia da
dianas. Tais percursos são fortemente influenciados e mfluenc~a~ vida cotidiana (seria um louvor àpseudoc01;creticidade, tão criti-
parâmetros institucionais básicos dos sistemas e formas SOCIaIS cada por Kosik), perde, sim, a perspectiva da totalidade; portan-
em que estão implícitos. O meio rural e a cultura ca~ponesa, n~ to, atrofia a possibilidade de intervenção mais objetiva e coerciti-
atualidade oferecem-nos inúmeros exemplos: o sentido de famí- va dos sujeitos sociais no próprio espaço cotidiano e na constitui-
lia de comunidade, do local, da terra, do patrimônio, etc. Por ção de uma historicidade social transforrnadora.
mais que estejam segmentados, tendem a uma fusão de integra- ~~.( Não obstante essas críticas,a episteme~offmiana deu uma
ções sociais e de sistema. contribuiçãomuito.grande.para a análi~e~de··esfeI'âs.~1nstit{~liÕes",
AlgunsautoresagruparnGoffman comFoucault, principalmente sociais.e interacionais, problematizoueam pliou os acervns refe-
nas.análisesflos.micropoderes.qn.e-seprocessam no tempo e no espa- -rencial-e-lingüísficc.do. campo. da sociologia da ..vida_cQtidianlL..b!
çoinstitucional-cotidiano. Os elementos disciplinªrese.sua§.funçõ_et?~ etnometodologia, irmã gêmea do interacionismo, aprofundaria
ocorpo, o exercício, o controle do tempo e do espaço - sua~ funçoes os referenciais desse no campo de análise cotidiana. É o que vere-
combinatórias -, dentre outros analisadospor Foucault, vem ao.en- mos no próximo capít.ulo.
contro da noção de.instituições totais de Goffinan, que, para e~t~,.
AETNO 'OLOGlA
:PoH1et.;-8u).;ftio dtl corrent e
eiHof;fW1odo!o!!ica
. A corrente etnometodológica começacom algunsartigQILQ(;L_
Garfinkel, em 1949, após estudar com Parsons e ler obras.de Hns-
1 serl, Schutz e Merleau-Ponty, as quais exerceram.influência.em
todo seu trabalho e também na tradição etnometodológica que já
il se constituía comCicourel, Zimmermann, Sudnow, Mehan, ,_o
1 I McRuh, dentre inúmeros outros. '.",
Os.,.p.cimeims.J;.extQs.-da_G~:din.keLsD.bxe.JumJicidiº.sJllteL.e .
\ in tra -r a ciais.e ..sohre.condenaçõas a eles.xelacionados-ÍêllLD4lbje.t:i-
i I vc.de.mostrar.como ..os envolvidos, pelas suas interações, contri- »
I huemnadefinição da situação. A noção de definição de situação é
I muito cara a Garfinkel e está em sua obra-prima iStudies in eth-
nomethodology). Criaria uma polêmica com a sociologia tradicio-
I nal, principalmente Durkheim e Parsons, com suas concepções
I I de preexistência, de externalidade e de lato social como coisa.
I Em seus Studies ... Garfinkel não cansa de reconhecer a in-
I fluência de Parsons, Schutz e Husserl. Cicourel (1959) e Zimmer-
. I rnann (1996), seus discípulos, dentre outros, difundem-no e estru-
I I Luram o campo de análise da corrente etnometodológica através de u
I I pesquisas sobre etnolingüística, administração hospitalar da mor- :'
-::;,~~.~~ __ ""=":"".,,,,,::,".,,:.=.,.,-.-.,.. _.""",,';':',_-.. '.' '.,~. "' •• __._' .• '.".'_"_' ~_,. _'._.~ _o>. , ~.
1
'I
João Carlos Tedesco :nradigmaS do 'f;~tidiano
te, delinqüência juvenil, definição de situação, o mundo cotidiano 's..eiax.e..c.o.ubecidafora dela mesma corno produto.de umaregra ou,
como fenômeno, sobre educação e administração da justiça,"? de um modelo obtido fora .dela, independentemente da si!u~ç~Q .
.,..A_etnometodologia é uma corrente cuja importânciateóriça.. em que a ação é produzidai "Toda propriedade racional da ação,
§__e_pistemológica.e.xpre_ssa-se .no .fato de promover uma ruptura todo o aspecto de sentido de uma atividade de sua factibilidade,
radical com os modos de pensar da sociologia tradicional. Antes .. objetividade, explicabilidade e de sua comunicabilidade, é consi-
.:deseLuma.teoriaconstituída, pode ser considerada umaperspec- derada como uma realização contingente de práticas comuns or-
tioa de pesquisa, uma nova postura intelectual (Garfinkel, 1967)., ganizadas socialmente" (Wolf, 1979, p. 113); 4) considerar cada si-
.A investigação etnometodológicaorienta-se pelaidéiR-s.egundo_ª- t.lla11!Osocial como auto-organiLada em se,Ycar..átgJ:jJ1.t~ligíy.~lçti·
qual nós todos somos sociólogos em estado prático; o real apre- SIJas próprias aparência~. As pessoas, nas ocasiões ordinárias de
senta-se, descrito pelas pessoas; a linguagem cotidiana descreve- suas interações, descobrem, demonstram, persuadem e manifes-
odita-.o e o constitui.; tam as aparências de organizações coordenadas, coerentes, cla-:
"'G~rfí~k~id;fi~i~-a etnollletoqºJ9gÜ~.cpnw a ciência empíri- .. ras, eleitas e projetadas; 5.) demonstrar a indexalidade na lingua-'.
ca do~ métodos graçasaosquais os indivíduos conferem sentido gem.... CllJjQiallª. Em.Iínhas gerais. à etno-.
anaaanzídade . ,'L<iª-.Yi.çla
às suas ações cotidianas. GarfinkeLdeixa claro que não é uma IJ1~todQlºg.La.l2I!;)-º~]J]2ª_-:s.~çQ.m..Qs.müdos..e_o&métQdoRc.om
.ns.quais
moralidadeCsacralizada) que dá. coesão ao social, mas, sim, uma os indivíduos.tornam.racionaise explicáveis suas experiências co-
.'firme estruturacoletiva de entendimentos tácitos e cotidianos - tidianas]
r"aqueles que os homens sabem e sabem que os demais sabem"-, A corrente também se preocupa com o sentido comum utili-
. não muito diferente das regras implícitas que o interacionismo zado nas práticas cotidianas: "Os cenários familiares das ativida-
des de todos os dias, tratados pelos membros como os latos natu-
: tematiza.
1
rais da vida, são os sólidos fatos da existência cotidiana, seja como
c o produto das atividades dos sujeitos num mundo real" (Garfinkel,
reU'8~fUfrdaM,t(~Hj::Ji~da é1fWWé1odofogk-l '~' j 1967, p, 35). 'f.
,', Para Schutz (um dos gurus de Garfink.clLn..a vida QQtidilll1i,~
A reciprocidade da interiorização de códigos e as províncias '<oso.Qjeto.§.,em relacão teóri.co-p....
ni.j;jca entre indivíduos,..§ãQ.Qgue
da realidade são os temas comuns aos etnometodólogos ao anali- a.,pNellt.am ser. Os_indiyí.(b.l~~1lQ.Cm.QtÜ}Q}i.PIJ1Ja11.Qt.i-
sarem as práticas e os modos pelos quais os indivíduos constroem cos.K perspectiva temporal da vida cotidiana comporta o fluxo da
, a estabilidade de seu mundo social (Wolf, 1979). experiência em relação de equivalência temporal, Segundo Brown,
, ',:, Segundo Garfinkel, "a.etnome.tüdolo.güLPreQÇ",1p<l:::§...e_basica- num artigo intitulado "Ordre et revolution dans le formes norma-
~ mente com cinco pontos: 1) analisar a conjuntura social segundo les du discurs et de Ia conduit" (1980), a etnometodologia constrói
~Q ponto I~..:.Y.iSJa:..d<0~.div1duo.;
2) mostrar Que os indiyíduos estão
um modelo paralelo de investigação entre os paradigmas cientifi-
ÇQntlDJ!an.l~.!1.t..~LÇQmP-.mm@JLdQ.§xm_xeç"onh~Ç.~Le~ew-e-\1idellCiaLO cos e os que modelam a ação social. A etnometodologia mostra
canit~LraciQnaLde,_.sua~fQrmacde~gir; ~} refu tal' todo e qualquer uma certa semelhança de processos entre as revoluções científicas
determinismo.du comp.ortamento .prático .ou melhor, que toda.ação e as alterações nos discursos e condutas político-sociais.
No prefácio de seu Studies ... (1967, VIl), Garfinkeljá diz as
confrontações que pretende encarar:
40 o corpus teórico da etnometodologin concentrou-se na Ijutver-stdarle ela Califórnia
e em Nova Yorque. chegando à Inglaterra al~lI11S a110S depois: na França. em pla- Contrariamente a certas formulações de Durkheim, que nos ensi-
cou só a partir ele 1973. na Universidade Paris Vl l l, Em meados ele- 1~)80. a I\1ni- na que a realidade objetiva dos fatos sociais é o princípio funda-
son eles Sciences de L'Hotutne dedicou-se a estudos etnológlcos ligados à educa-
mental da sociologia, iremos postular, a título de programa de
çào sob o referencíal etnogràfico e etnornetodológtco (ver Herpin, 1973). No entan-
to. ao que sabemos. a obra-prinla de Garftn,kel (Studies ... ) não foi ainda traduzída pesquisa, que, para os membros que fazem sociologia, o fenômeno
para o trances. I'llalgraclo os mú meros estudos já feitos na França com mapu-acâc fundamental é a realização objetiva dos fatos sociais, enquanto
na etnometodología.
90..·· João Carlos Tedesco
... _ ... -_ ..... J(~radigmas do Y;;:otidiano ···········.h 91
.............. - - _._- --- -.- - ... _0 .. · .. -.-'
realiza cão contínua das atividades combinadas da vida cotidiana
reciprocidade das perspectivas e dos pontos de vista em razão de
dos me;nbros que utilizam, considerando-os como conhecidos e evi-
idealizações, das formas normais, do compartilhar das trocas in-
dentes processos ordinários e engenhosos e para essa realização.
formativas (cláusula do et caetera, a qual veremos mais adiante),
Ao contrário de Durkheim, os {atos sociais são vistos como dos formatos da linguagem e sua reflexividade e indicialidade (Cou-
realizações práticas e dinâmicas de ação e de conhecimento. lon, 1995b).
Parsons, como já vimos, foi professor e orientado r de Gar- .manaforma-se, con:
..Ea.ra.ci.ca.ur.elD.919.l,....a...s.ílcializaçã.o.Jll1
finkel. Suas teses influenciaram muito seu aluno, porém este, cretízasse e djnamiza-se em decorrência da aquisição dessespro-
aproveitando a base epistêmica institucional daquele, estruturou cedimeotas.uueauxiaiiuos. Esses "e seus traços reflexivos forne-
uma corrente de pensamento que, em oposição, dialoga com seu cem instruções aos participantes de tal modo que se possa dizer
primeiro e grande mestre. que os membros programam suas ações recíprocas à medida em
Na visão de Parsons, a ordem social é produto de uma inter- que a ação se desenrola" (Cicourel, 1979, p. 152).
subjetividade dos atores sociais, os guaís incorporam os modelos
As análises de Cicourel buscam propor pistas em direção a
normativos que regulam o agir e as relações recíprocas; há um
uma dimensão explicativa e compreensiva da vida cotidiana. Daí.a
cwpartilhar de valore:uJ.ue vão além das açõ~-ª.lQ!.~.dia~.~, mª9
influência de Schutz, que vai transportar o conceito fenomenoló-
gue, ao mesmo tempo, nos governam.
gico de mundo da vida para o campo sociológico; vai significar
• Os quadros de referência de ação são, sobretudo, situações
vida cotidiana pela sua lógicainformal e espontânea (Cotesta, 1994).
alocadas de meios para a ação. Em outras palavras, o organismo
Ê nesse horizonte que se constroem relações sociais nem sempre
do ator faz parte do mundo exterior do ponto de vista das catego-
predefinidas pela lógica sistêmica e funcional das instituições so-
rias subjetivas da teoria da ação. E desse modo que "todo ator
ciais. Habermas, nessa noção de mundo da vida, une legitimida-
individual é um organismo biológicoagindo num meio social" (Par-
de, empiria e idealidade, mostrando que é a tradição que dá sen-
sons, 1955). Há uma homologia entre a pessoa e o sistema social.
tido à ação dos indivíduos. Mesmo sabendo que a estrutura cultu-
A estrutura do sistema social é constituída por relações entre ato- ral não possui status de total emancipação em meio à tendência
res implicados no processo interativo. universalizante da individualização da sociedade global, é no mundo
Uma instituição não é uma coletividade, mas "um complexo da vida que se têm uma configuração e um horizonte orientado
de integrações de papéis institucionalizados que têm uma signifi- para a lógica da compreensão.
c:;tçãoestrutural no sistema social". Um sistema social é .bem Íl~- Cicourel propõe uma hermenêutica da ação, na qual o soció-
tegrado quando a internalização, para o ator, dos valores instituí- logo penetra no interior dos códigos de linguagem do senso co-
dos traduz-se em disposição da pessoa. Assim, as pessoas cujas mum utilizados na vida cotidiana, onde a observação direta do
orientações se legitimam reciprocamente constituem uma coleti- tipo etnológica é priorizada (Bouveresse, 1987). A compreensão é
vidade, que é um subsistema do sistema social. a busca da estruturação simbólica do mundo da vida. Para o au-
Schutz não utiliza a metáfora micro/macro, porém Parsons, tor, um comportamento não é objetivo senão em aparência, pois
ao contrário, refere que a pessoa é um organismo biológico agin- (leve, para ser inteligível, ser interpretado num quadro de uma
do no meio, mas que, entre a pessoa e o sistema social, existe situação construída a partir de sua experiência cotidiana extrapo-
uma relação de homologia (Juan, 1996). luda (Juan, 1996).
Cicourel (co-definidor da corrente etnometodológica) é o au-
tor dos chamados procedimentos interpretatiuos (muito próximo
a,o que Garfinkel já havia discutido como raciocínio sociolJlgico_ '{->,'cs'\u:posto.; d,(J ea{1t{1oe~"ecffJeo dq
nrático), analisados a partir das formas comoa criança interioriza t fOfMlrtodo !og Ü-:1
l' f
as normas sociais, as proibições e obrig.acões. Para tanto, Cicou-
rel (1979) é que mais se serve da ai-•.1 : c;"hutz (1987) sobre a Comojá vimos, o sentido e a originalidade da etnometodolo-
/',1;1 6 a concepção teórica dada aos fenômenos sociais (Coulon,
92 João Carlos Tedesco
,j/~radigmas do 'Y!otidiano
1995a), ou seja, a instrumentalização teórico-metodológico para
analisar os diferentes processos que os indivíduos utilizam para a explicação dos símbolos e dos fatos entre o texto e o contexto sem
materializar o seu agir cotidiano. É a ciência dos etnométodos, do malabarismos teóricos e abstratos, mas, sim, enraizados na empi-
raciocínio sociológico prático, envolvendo aí o papel do senso co- ria cQtidiªI}a, OU melhor, no sentido da vida cotidiana (Pais, 1984).
mum (conhecimentos leigos ) e das circunstâncias do raciocínio so- Tendo presente que a realidade social é criada e se dinamiza no
ciológico prático e o papel do ator social. cenário (noção de Goffman) das atividades mundanas dos homens co-
A história do termo etnometodologia (Garfinkel prefere cha- muns, Garfinkel vai em busca da explicação da situação social por den-
mar de neopraxiologia) ajuda-nos a entender os supostos da cor- tro, "tal como aparece aos homens que a vivem; trata de transmitir o
rente. Garfinkel diz que, num certo período, dedicou-se a investi- sentido que tem eles das coisas l...J, evitando em especial as conceptua-
gar sobre o modo como os componentes de um tribunal legal to- lizações convencionais da sociologia normal" (Couldner, 1970, p. 359).
mavam consciência daquilo que faziam como jurados. Após es- Não é de estranhar o fato de que a etnometodologia deve um
cutar um certo número de conversações entre jurados, diz ele, pequeno tributo a Parsons, sobretudo sua teoria da ação. Como já
resultava interessante observar o uso de algum tipo de conheci- vimos, para o autor, as motivações dos atores integram-se em mode-
mento sobre o modo de proceder nas situações sociais expresso los normativos que as regulam as condutas e as apreciações recípro-
reciprocamente entre eles. Esse conhecimento não atuava como cas. A ordem social, sua reprodução e estabilidade, passa pela inte-
uma forma de controle, nem operava como autênticas verifica- riorização, por parte dos indivíduos, das regras da vida em comum.
ções, como entre cientistas: os jurados ocupavam-se com infor- Porém, os etnometodólogos substituem a dimensão das regras pela
mes adequados, descrições e evidências. Assim, eles mostravam ajuda dos símbolos como linguagem que preexiste nos nossos encon-
possuir, enquanto membros da sociedade, os métodos para mani- tros, como sistema de referência, bem como vêem a normatividade
festar, reclamar e fazer observar a competência necessária na vida parsoniana na perspectiva da interpretação (Coulon, 1995b).
cotidiana. Isso quer dizer que tanto a etnometodologia quanto o intera-
Analisando as conversas entre jurados, diz Garfinkel, ~n~ cionismo não valorizam muito (não significa ignorarl) as determi-
contramo-nos frente a pessoas que estão fazendo metodologia com nações normatizadoras, as regras dedutivas no social; valorizam,
um forte interesse e compromisso em sua forma de atuar. Por sim, os significados emergentes do sentido comum, compartilha-
isso, o termo etno refere-se à disponibilidade que um sujeito tem dos na vida social, induzidos pelas experiências do pré-científico
dos conhecimentos de sentido comum sobre sua sociedade; na me- (Schutz, 1977), do mundo da vida cotidiano, do que parece pronto
todologia estão presentes as atividades práticas e suas atividades e. evidente ao olhar do senso comum.
formais, os conhecimentos de sentido comum por racionalizações O resgate da perspectiva da compreensão em Schutz é um
práticas. No caso específico dos jurados, não teriam sentido os outro elemento passível de ser identificado nas reflexões de Gar-
discursos deles se não revelassem um saber comum sobre o fun- finkel. Para aquele, a compreensão é sempre realizada nas ativi-
cionamento dos atos cotidianos adaptados ao funcionamento da dades correntes da vida cotidiana; o social é aquele da vidacoti,
justiça (Garfinkel, 1967 e Wolf, 1979). diana, da.intersubjetividade, das rotinas, sem interesses teóricos
A etnometodologia é um aprofundamento, uma radicalidade apriorfsticos.t'j.A reciprocidade de perspectivas é o que dá o cará-
.da ordem simbólica do interacionismo. Em linhas gerais, a etno- ter social da estrutura do mundo da vida de cada um.
metodologia concebe a realidade social como uma construção co-
letiva de atores (indivíduos) que, conservando suas experiências
pessoais, concordam tacitamente sobre uma definição intersubje- ....'LPara Schutz, a realidade social é a "soma total elos objetos e elos acontecimentos
.do mundo cullural e social, vivido pelo pensarncn to (10 senso couuun rlos homens no
tiva do mundo (Berger e Luckmann, 1986). .coujuuto das numerosas relações de interacào. ~: o 1l11111doelos objetos culturais e elas
ínstítuícões Sociais nas. quaís nós nascemos, onde nós nos reconhecemos. 1... 1. Nós,
)( ~~t~omet~d~l?l5ii1?~~_C.:3.E~~.?l\Ter(com preen~er) O~pJ'?lll~-
o~E~-"~?~~~~llél c~na social. vivemos o mundo como um mundo ao 111eSlllOtempo de
Elh!?ª~~ociolokriClªa vida cotidiana relacionando a interpretação e cultura e de natureza. nào corno um mundo privado. mas inter-subjr-tívo. isto é. que
}!-º-S é C0I111111L que 110S é dado ou que é potencialtnenle acessível a cada um entre nós:
i$SO implica a tntercomuntcacáo e a lin,gllagem" (Schutz. 1987. p. (6).
,i
I João Ca rlos Tedesco
I
I
..... -•..•...... - .. _ .._ .
95
A idéia central e que Garfinkel, ao que nos parece, segue é de
o fluir dos significados conscientes do agir rotineiro. Essas ações
que toda a ação humana repousa sobre um conjunto de informa- dissonantes podem criar possíveis rebeliões, ao mesmo tempo que
ções e que nos são, no essencial, fornecidas pelos outros. Essas demonstram não um mundo em conflito (luta de classes, poder,
informações são socialmente determinadas (Berger e Luckmann, rivalidades ...), mas um mundo em dissolução, onde tudo é incerto,
1986) e se revelam incompletas para interpretar o mundo. Nesse sustentado por subentendidos rotineiros nas múltiplas formas va-
t';
modo de ver, o sujeito atuante e pensante opera sua trajetória so- lorativas, portanto pouco consistente (Herpin, 1973),
cial com a ajuda de um stock de conhecimento mais ou menos pre-
,I
j ,;
Garfinkel (1967) cita inúmeras transgressões promovidas em
ciso (diferente da noção de habitue em Bourdieu), mais ou menos hospitais, nas ruas, no trânsito, nos fóruns e nos colégios. Nesse
aplicável no mundo da vida em interação com outros sujeitos, último, faz estudantes experienciar uma vida de pensionistas em
gerando daí seu percurso. O sujeito, nessa perpectiva, é um ho- sua própria casa familiar, no sentido de escavar os cimentos cultu-
mem ordinário; é simplesmente aquele que recorre, na maior par- rais ocultos nas instâncias mais institucionais. O sentimento de
te de suas acões e das circunstâncias de sua vida em sociedade, ao nervosismo, a sensação de desconforto, de hostilidade, de irrita-
mesmo stoch de conhecimentos disponível, do qual só um núcleo ção, de desagrado, de transgressão, de fúria, de temor e de mal-
relativamente pequeno é utilizado (Lalive dEpinay, 1983a) estar são expressos em várias situações, mostrando que houve
A idéia geral, ao que nos parece, é forçar a compreensão da
invasão e transgressão de um horizonte que governa, por regras
situação social tal como os indivíduos a vêem, intencionam, con- tácitas, as relações sociais e as consciências das pessoas.
cebem e transmitem as coisas, objetivando sempre construir a
Esse sentido imanente às práticas intersubjetivas, segundo
estabilidade de seu mundo social. O acento se dá, sem sombra de
Garfinkel, obedece, como veremos adiante, a três propriedades
dúvidas, sobre a significação da vida cotidiana e do mundo vivi- interligadas: a reflexioidade, que possibilita ao ator construir a
do,42sobre a ligação intersubjetiva dos motivos dos atores indivi-
situação, descrevê-Ia, exibindo os processos e os métodos; a des-
duais (Coulon, 1992). criptibilidade, permitindo que os fatos sejam racionalizados, pre-
A etnometodologia, na concepção que tanto Garfinkel quan- enchendo os hiatos entre a ação e o discurso da ação, dando rela-
to Cicourel nos deixaram, é uma tentativa de interromper as roti- cionamento às ações; e a indexabilidade, possibilitando indexar
nas, as quais se assentam num caráter convencional das regras uma linguagem contextualizada, uma coerência e inteligibilidade
subjacentes (não explícitas ou visíveis), carentes de valores pró- nos intercâmbios verbais. Aí o papel da linguagem é fundamental
prios (frágeis), porém que mantêm a estabilidade social. - assim como o era para o interacionismo -, principalmente a
Garfinkel é um antidurkheiminiano quando afirma que os fa- linguagem ordinária das práticas sociais (Wolf,1979).
tos sociais não se impõem a nós como realidade objetiva; eles são Há uma localização e um contexto que fomentam sentidos e
realizações práticas, continuadas; são, acima de tudo, procedimen- práticas onde o ator se apresenta. O contexto, a linguagem, a
tos. O autor mostra justamente a vulnerabilidade do mundo coti- cena social e a ação conectam-se, determinam-se entre si, Por
diano e sua perigosa desorganização (conflito social e individual) isso, a etnometodologia, de forma sintética, é a compreensão das
I
mediante a ruptura de alguns supostos tácitos. As microconfronta- formas como o conhecimento se organiza, do conhecimento que
ções frente ao status quo, para os etnometodólogos, são estranha- os indivíduos têm no curso de suas ações normais (cotidianas,
mentos intencionais, em que o indivíduo cria situações de ação nas habituais ...) e dos cenários e práticas comuns, fundamento da
quais os subentendidos (regras, valores ...) são ignorados, forçando própria competência cotidiana.
\A etnometodologia ignora o ponto de vista segundo o qual a
.12 Sch utz (1972). mesmo sob influellcja husserltana. em sua teoria da íntersubjeü-
eficiência, a realização, a tipicalidade das ações e as propriedades
vidnde como falo social coustuuuvo da experencía cio mundo social. também foi racionais do comportamento prático são fixadas e categorizadas
influe nciaclo pela socioloyia compreenstoa de Weber. apesar de a ter problemau-
zado 1I111na série de concettos. aspectos e categorias (upo ideal - upícahdade .-.
por uma regra ou modelo obtido independentemente da situação
relações a meios. tms). em que tais práticas são reconhecidas e produzidas (Coulon, 1995a).
I~ 96 João Carlas Tedesca "f~radigmaS do '(-'otidiano _97
I
Toda a propriedade racional da ação, do sentido da atividade de É desse modo que a noção de prática ganha sentido no
sua objetividade, é considerada como uma realização contingente Studies .., buscando privilegiar a ação dos sujeitos, não dando muita
de práticas comuns organizadas socialmente (Wolf, 1979). Apreo- atenção às normas, a modelos, a regras e a estruturas externas
cupação se dá justamente em evidenciar o caráter racional subja- na construção das interações sociais. Por isso Garfinkel polemiza
cente às formas de atuação e de comportamento das ações cotidia- com Durkheim dizendo que os fatos sociais são as realizações dos
nas constitutivas do mundo social. O mundo social é uma produ- membros, enquanto criação de atores, enquanto decisão em suas
ção pura da ação individual mediatizada pela linguagem. Jamais o atividades concretas. É nesse momento e nessa interação que as
autor pensa em buscar uma "causa exterior" ou anterior à situa- regras se constituem (Woods, 1990).
ção produzida pela interação; o apelo é sempre o de redescobrir os Cornojá vimos, a etnometodologia baseia SUétS análises nas
sentidos comuns. Em outras palavras, os sujeitos são produtores '~ estruturas formais das açõespráticas, ou seja, enfatiza a capacidade
da ordem sociaL Ao tratar da ordem social, Garfinkel, num texto '».. -dos indivíduos em descrever, perceber e interagir segundo câfêgo=-'-
da revista Sociétés, diz-nos que nossa familiaridade com a socie-
,1:j rias formais que se tornam cotidianas e normais paraos mesmos-_
dade é um milagre constantemente renovado. Esta familiaridade A idéia de normalidade perc~biclcte~pressaqtieos-indivíd-uos
recobre o conjunto das realizações da vida cotidiana como práti- não manifestam só comportamentos perceptíveis, sentimentos e
cas que estão na base de toda forma de colaboração ou de intera- elementos socialmente organizados da vida no seu entorno, mas
ção. As racionalidades ordinárias (constitutivas da ordem social) também que os mesmos respondem à percebida interiorização des-
disposicionam os indivíduos como membros da sociedade. sa normalidade nos acontecimentos comuns.
Com o termo normalidade percebida dos acontecimentos me refi-
ro aos caracteres formais percebidos que possuem os fatos do con-
A 'Ujdg co1fditlfftl. no Cflt1tf'0 dtJ e1JWt14(~1odo!ogft:J texto para o sujeito enquanto instâncias de uma classe de fatos
:;~"nocàes (ftf g.ç,qO (tipicalidade), sua pr-obabilidade de realizar-se, a verossimilitu-
de, a compatibilidade (os acontecimentos passados e futuros), as
condições de seu suceder, quer dizer, suas relações causais, seu
Noceo di! {w!1fict:1 situar-se num conjunto de ralações meio/fim, isto é, sua eiicácia
instrumental; sua necessi.dade a respeito a uma ordem natural ou
No seu primeiro trabalho, Garfinkel tenta mostrar como, moral (Garfinkel, 196;:l,apud Wolf, 1979, p. 170).
num júri, os jurados fazem juízo de valor, usam e dominam a
Ni!._citaçãopercebe-se que todo o indivíduo possui e aciona
linguagem comum do grupo a que pertencem, ou, então, adotam
u.1JJJ:..a,çiocíniosociológicoprático na sua vida cotidiana parades-
formas de saber-fazer comuns nas ações cotidianas. Esses proce-
ç:r:ey~reef!.te_ndersua normalidade. Essas expectaiilJas- de fundo
dimentos interpretatioos (Cicourel, 1968) possiblitam que indiví-
(Cicourel, 1990) funcionam comoesquemas de interpretação e
duos construam e se construam no social: "Os procedimentos in-
constituem-se em conhecimentos partilhados que se socializam
terpretativos e seus traços reflexivos fornecem, em permanência,
na interação, o que permite demonstrar a racionalidade da ação.
instruções aos participantes de tal modo que se possa dizer que os
Como diz Wolf(1979, p. 172), "cada vez devemos mostrar que nos-
membros programam suas ações recíprocas à medida em que a
sa situação está situada num tipo concreto de relação com alguma
ação se desenrola" (Cicourel, 1972, apud Coulon, 1995b, p. 23).
norma e regra social".
\ 1\ ~
,n É uma revista por excelência de divllI~ação das idéias da pós-morle n ndade na lf(de,fcgfidgde
socíologta. O espaço dado a Garllnkel no número 5 é justamente para polernízar
COIU as tendencias da sociologia tradicional. Neste texto, Garfn rkel discute concei- ~\,
tos e nocóes ligadas a modelos. a regras. a estrut \iras, a normas. a atores, a ({ ~\Grande parte da linguagem de uso comum cotidiano depen-
pvioris. ele" procurando deixar bem claro que a realidade social é constantemente
de, para seu significado, da situação e do cenário em que se desen-
criada pelos atores. não sendo. portanto. um dado pre-c-xrstente.
98", João CarlosTedesco ,;f~radigmas do "Votidiano 99
volve. O sentido indexical denota referências pessoais e localiza- tante ter presente cada situação particular, interpretar e adaptar
ção espaço-temporal da linguagem (Strauss, 1992). Aidéia central operativamente a fim de poder realizar comportamentos descrití-
é que a etnometodologia se esforça para resgatar o caráter situa- veis como coerentes. Somente em sua conexão com cenários es-
do da linguagem, as propriedades racionais do conhecimento de pecíficos e na boca de atores específicos essas encontram uma voz
sentido comum que movem a (inter )ação social. (Coulon, 1995a).
Ávida social, para Garfinkel, constitui-se através da linguagem, A indexicalidade demonstra que não há uma realidade, mas,
de preferência da de todo~~Cl.s. dias. A significação de uma palavra ou de siIl!.,Jealidades e contextos múltiplos, variáveis conforme asidên-
uma expressão provém de fatores contextuais, os quais são indexados tiªades e os propósitos dos atores ou da institucionalidade da situ-
a uma situação de sentido potencial, permitindo colocar em evidência ação: Há uma teoria da congruência (entre objeto percebido e ob-
nossos imaginários. As expressões indexicais não são expressões para- jeto real) em vez de uma teoria da correspondência (existência de
sitas no curso de nossas conversas cotidianas (Coulon, 1995b). Elas uma realidade social analiticamente separada das interpretações
são constitutivas de um discurso que se constrói. f,..liQ@ªg(é).J!lcoj;idia- subjetivas de sua realidade) (Brown, 1980).
ra tem sentido ordinário, que as pessoas não têm dificuldade c!~~n- A vida cotidiana é constituída de normas morais, masos
~ender. Podemos dizer que a indexicalidade é a produção local dainte- ~n.ªivíduos têm capacidade de produzir sentidos. É uma espécie de
[igibilidade necessária, para captar a normalidade da vida cotidiana e produção local da inteligibilidade; da capacidade cognitiva dos ato-
liransmitir seu sentido. Como diz Juan (1995, p. 93), "a vida ordinária res é que se formaria a necessária racionalidade dos sujeitos na
seria, portanto, o produto de uma necessária racionalidade de sujeitos vida cotidiana (Paixão, 1986).
que recusam toda determinação institucional ou estrutural". A linguagem de todos os dias, para os.ktnometodólogos,!éâe
O elemento reflexivo (veremos depois a noção de reflexioida- fllndamental importânciasôacks (1993l, um dos grandes seguido-
de) exige uma indexação lingüística num contexto e numa situa- res da tradição etnometodológica, fundamenta o discurso prático
ção, cujos significados podem ser descritos, relatados, demonstra- no contexto em que foi produzido, numa situação de intercâmbio
dos e reconhecíveis racionalmente, ordenado e ordenando os mo- de linguagem; por isso, a biografia, a intenção presente, os gestos
dos de atuar. A importância da indexabilidade está no fato de que e as ações devem ser levadas em conta na interação. A tarefa do
"organiza a racionalidade, a ordem e a reconhecibilidade da reali- sociólogo é perceber as formas simbólicas, as situações sociais, a
dade social" (Wolf, 1979, p. 138).11 leitura subjetioa e contextual de expressões tipificadas objetiva-
A etnometodologia, para Garfinkel, nada mais é do que a mente (Coulon, 1996b), a coerência, as circunstâncias dos enun-
"análise das propriedades racionais das expressões indexicais e de ciados e os subentendidos. Q método etnográfico, com seu inten-
ações práticas, entendidas como progressiva realização de práti- i so trabalho de campo, sua descrição atenta, coma bilscade'mape~'
cas organizativas da vida cotidiana" (1967, p. 11). Isso demonstra a I ar o maior número possível de dados da realidade - os depoimen-
importância da linguagem nos estudos das relações sociais, da cons- tos -, com a preocupação com o processo, com o retrato das"lnfe-
trução dessas levada a efeito pelos sujeitos cotidianos. rações cotidianas etc., propicia uma descrição significativa e SIg-
Assim como a linguagem necessita ser indexicalizada, as re- nificante de dados culturais de um grupo social; ao mesmo tempo,
gras, o ordenamento social e os padrões pretendidos e esperados husca descobrir as significações e os sentidos que os indivíduos,
devem ser especificados nos contextos de uso, indexados em cada (~llqllanto elementos-membros de um grupo social, formulam de
situação contingente de sua aplicabilidade. Desse modo, é impor- liuas próprias (situ Iações da vida cotidiana (Coulon, 1995b; Pai-
xão, 1986). ~ etnografia, com seus recursos teórico-Ínstrumen-
ta ÍE),permite uma interação, com estranhamento, das coisas e
44 o termo "Indextcalídade" (indeAica/i(y) ou "tndiclalidade" dá a entender que Ulll
sinal pode ter diferentes significados em contextos diferentes. "Os membros sa-
acontecimentos que constituem a trama das vivências cotidianas.
bem. requerem. contam com e fazem uso dessa retlexividade para produzirem. re- I'; nesse sentido que a prática e a indexicalidade da linguagem,
alízarem. reconhecerem ou demonstrarem adequação racional para todos os propó-
sitos práticos dos seus procedimentos e descobertas" (Garllnkel. 1967, p. 8).
pda sua não-generalidade de sentido (tão caro à sociologia tradi-
, li) V.'
;}-aradigmas do {(iotidiano - __ .101
.--"
João Certos Tedesco
"
"0 ._ ••••••• ~ •••••
A reflexividade propicia uma dialetização entre a forma com-
cionall), fundam-se na (interjação cotidiana dos indivíduos dando preendida e a maneira expressa da compreensão, da descrição e
sentido às práticas ordinárias (Coulon, 1995b). da produção da ação. A situação, os procedimentos usados para
, materializá-Ia e sua descrição são equivalentes. No dizer de Gar-
"}~'"Ref!t~NlIid8de finkel (1967, p. 55),
aos membros da sociedade, o conhecimento do senso comum dos
O conhecimento de sentido comum dos fatos da vida social é para fatos da vida social é institucionalizado como conhecimento" clã"
os membros da sociedade um conhecimento institucionalizado do mundo real. O conhecimento do senso comum não pinta apenas
mundo real. Não só o conhecimento descreve uma sociedade que é uma sociedade real para os membros, mas a maneira de uma
real para os sujeitos, senão que, como se fosse uma profecia que se profecia que se realiza, as características da sociedade real são
auto-realiza, as características da sociedade real são produzidas produzidas pela aquiescência motivada das pessoas que já ali-
pela adesão motivada ds pessoas a tais expectativas de fundo mentam essas perspectivas.
(Garfinkel, 1967,p. 53).
A noção de reflexiuidade (não confundir com reflexão), para ~>.
os etnometodólogos, manifesta a descrição e a constituição clf! um. AL'C/;!'?(/f1!l./!llit.U'de.;,ctkZJO
quadro social, ou seja, uma espécie decódigo interno, uma_.Únc \ A prioridade da análise etnometodológica é a descrição, o
gu:agem interna do vivido que estrutura as ações e situações (Cas- relato (oaccoutability). A descrição que o pesquisador faz de ações
taneda, 1972). A reflexividade não é peE..?"a~a,
te~.':'iza._~_a.~!~}!~jda: -deseus informantes p~~;-émdos ele~lentos formadores da situa-
Os indivíduoS--pouco--fêmconsClê"llcÍado grau reflexivo de suas ..Ção"~"do enunciado. A descrição e o relato constituem, em"situa-
ações, "consideram essa reflexividade como algo evidente, mas ção, como os"i~"di~íduos fazem sua (re)leitura e intercâmbio co-
reconhecem, demonstram e tornam observável a cada um dos municacional da constituição dos fatos enquanto construção de
outros membros o caráter racional de suas práticas concretas - o seu mundo (Coulon, 1995b); refletem o domínio de pertença, ou
que significa dizer ocasionais - embora considerando essa reflexi- seja, da linguagem comum como relato prático e contextual cons-
vidade como uma condição inalterável e inevitável de suas pes- titutivo do saber do senso comum cotidiano.
quisas" (Garfinkel, 1967, p. 9). Af"amiliaridade discursiua (influência de Merleau-Ponty) for-
A linguagem constitui o mundo, porém seu código não é ex- ma a base da interação e da ordem social cotidiana, bem como as
terior à situação. A interação dita o código. Dificilmente teremos competências para agir e sentir-se membro social. Segundo a tra- /"
1 consciência do caráter reflexivo de nossas ações, todavia não sig-
nifica que não podemos agir reflexivamente. O autor concebe a
dição etnometodológica, a possibilidade de descrição de uma si-;tl
tuação é, ao mesmo tempo, sua constituição e condição de sua
reflexividade não como um obstáculo, mas, sim, como condição de efetuação (Watisr, 1996). Para isso, os indivíduos fazem apelo ao
manutenção e de compreensão da ordem social. A reflexividade senso comum. O accounle o termo usado pelos etnometodólogos
designa as práticas que, ao mesmo tempo, descrevem e consti-
tuem um quadro social (Coulon, 1987). Descrever uma situação é ~:~::1:~ur:~e~' .~~:-~z~õ;:r!~~:zi::~~~~O:u~ãla:Zr!.ub:aazc~~~ii. ,~'_
constituí-Ia. A reflexividade designa o equivalente entre descre- deiiliemos' fatos/acontecimentos normais do cotidiano; dão seu' \',i
ver e produzir uma interação, entre a compreensão e a expressão carãter típicoe suaprobabilidade de ocorrência, as formasde com-
-dessa compreensão. A reflexividade sustenta as atividades pelas p-m:ªºãºco~ fatos passados e os acontecimentos futuros;tarribéin
quais os indivíduos produzem e desenvolvem formas organizadas atribuem uma significação causal aos fatos operados pelo autor;
de atividades diárias e, ao mesmo tempo, fá-Ias serem idênticas aos manifestam a ligação da relação entre meios e fins e a maneira
p-;~~ediment~s dos membros, tornando-os reconhecíveis e descri-
c · __ \. pela qual são julgados os fatos necessários' à ordem natural ou
tos ..
moral de um ator ou de uma sociedade (Coulon, 1995a).
il 104 .. João Carlos Tedesco
,·:11radigmaS do 17:otidiano ............................•....
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A idéia de tipificação caracteriza o habitual ou o corrente de ção pi:t.r:adar s~ntido ao mundo que a cerca". É alguém que, tendo
uma situação. Para Garfinkel, a "nossa familiaridade com a socie- incorporado os etnométodos de um g:i=upo- social considerado, exi-
dade é um milagre sem cessar renovado. Esta familiaridade reco- be naturalmente a competência social que o agrega a esse grupo e
bre o conjunto das realizações da vida cotidiana como práticas que lhe permite fazer-se reconhecer e aceitar.
são a base de toda forma de colaboração ou de interação. Ela faz A linguagem natural remete ao caráter indicial das falas das
parte de atitudes que são necessárias às produções constitutivas expressões, da familiaridade (membro) com o social como práticas
do fenômeno cotidiano da ordem social" (1985, p. 36). conscientes e institucionais,
Essas racional idades ordinárias expressam saber cotidiano, A noção de membro é o fundo do problema. Não utilizamos o termo
atualizam competências, justificam ações dando-lhes razão. Aqui- em referência a uma pessoa. Relaciona-se antes com o domínio da
lo que Garfinkel chama de condições de objetividade nada mais é linguagem comum que entendemos da seguinte maneira: afirma-
do que o resultado da atividade dos agentes. Não o mero resulta- mos que os indivíduos, pelo fato de falarem uma linguagem natu-
ral, estão de alguma forma envolvidos na produção e apresentação
do, mas as diversas condutas que produziram espécies de ordens,
objetivas do saber do senso comum de suas atividades cotidianas
envolvendo negociações, atividades interacionais e justificações, como se fossem fenômenos observáveis e suscetíveis de serem re-
o que demonstra que a objetividade é construída de maneira in- latados 1...1 (Garfinkel e Sacks, 1970, p. 338).
tersubjetiva por meio do saber-fazer prático dos indivíduos. A ob-
O indivíduo é caracterizado como membro, como objetiva-
jetividade é o resultado do fazer social dos membros competentes
(Watier, 1996). ção para bem viver suas interações cotidianas ao ter condições de
Desse modo, a realidade objetiva dos fatos é produzida local- apreender e incorporar a linguagem institucional comum, de ques-
mente; é natural e espontaneamente organizada; é reflexivamen- tioná-Ia, de vivenciá-Ia, de saooir-faire, de (dislpor métodos em
te discutível; é uma realização contínua e prática, o que não signi- ação nas atividades e para a compreensão do mundo que o rodeia
fica dizer não-consciência do ator e que não haja pressões e/ou (Paixão, 1986).
experiências prévias. Os graus de evidências (conversações, situações sociais, aqui-
Sabendo que a ordem social contém o risco e a dúvida, Gar- sições sociais, habituei, a exteriorização das competências (reco-
finkel resgata o sentido de confiança em Simmel (como já vimos, nhecimento, mobilização de meios para atingir determinados fins,
o seu Philosophie de l 'argeni aborda bem isso), tematizando-a no comunicação e interpretação de regras internas) e a intensidade
sentido de conformidade de uma pessoa em relação às expectati- da filiação (tomar parte do desenrolar das atividades práticas, pos-
vas da atitude da vida cotidiana; em síntese, como uma moralida- sessão do saber explícito e implícito do contexto e dos processos)
de. Essa é percebida em cenas familiares de negócios cotidianos, são, em seu conjunto, expressivos da idéia de membro, funcionan-
em atividades comuns com os outros (membros), desde que acei- do como dispositivos de adaptação e sentido ao cotidiano vivido-
tos tacitamente por todos. prático do indivíduo."
. A idéia de membro, em Garfinkel, remete à noção de corpo
situado, que rompe com o sentido de estável dos elementos. É
uma dinâmica constante de inclusão/exclusão; ao mesmo tempo,
A noção de membro, muito presente nas análises de Gar- expressa uma temporalidade definida: o instante, o aqui e o agora
finkel (1967), dá idéia de uma afiliaçõo, ao mesmo tempo de parti- (Paixão, 1986).~:f\. idéia de corpo situado vincula-se com a de e1e-
j
cularidade que absorve as regras inerentes às práticas sociais co-
tidianas, sem precisar interrogar e refletir sobre essas. É como
r. A idéia ele Itliaçáo. em Garfinkel. está muito próxuua ao conceito ele habítlLs em
diz Coulon (1995b, p. 48), um membro "é umapessoadotada de B.().urdi~~u _(\~er Co u lo n , 1995al. guardadas as rele rtdrrs detenninações nst ltucio-
í
urn_<:2!?-J"1.~~.o..-ª~.
modos d.E)agir, de métodos; cle'iiEvlcfades,'de~~-~ 1~.l.~S. htstórtcas e ~ociais (posição de classe) que este carrega em oposição a pra-
tuídade presente. as improvisações. ao senudo auvo ele jogo. ele ínteraçào. do ele-
uoir-faire, que a fazem capaz de inventar dispositivos deã.dã.p~;- 1,.IIf' COIIl o mundo que a noção de membro descreve.
I'
I
João Carlos Tedesco ,F~radigmaS do '(Ç'otidiano 105
li
I, í-····· /"
mento, de membro, inserindo as biografias dos que participam da desenrolar, que as pessoas descobrem a aplicabilidade e a finalida-
situação social, suas normas em vigor, sua história, as funções [de das regras] A compreensão do desvio não se localiza no indiví-
latentes das atividades que se desenrolam. A idéia de corpo situa- 'duo, no seu comportamento, nem nas regras transgredidas, mas
do é próxima à de tipicalidade (em Schutz); dá o grau de familiari- nas situações sem predeterminações, como produtos da intera-
dade das práticas com suas propriedades racionais ordenadas de ção. Cada interactuante atualiza na atuação das formas de ações
uma situação social (Zimmerrnan e Pollner, 1996l. presentes o sistema perceptível de regras, de preconceitos relati-
É nesse sentido que podemos ter a certeza, segundo Cicou- vos à realidade dos acontecimentos suscetíveis de se encontrar
rel, de que o mundo da vida corrente é tecido de significações que (Cicourel, 1968); é a capacidade prática do indivíduo de identificar
são integradas a sua produção. É a chamada suposição implícita, a adaptabilidade normal (harmônica) entre ações e circunstâncias
ou seja, os processos colocados em prática para categorizar os específicas. "O conhecimento que os sujeitos têm do mundo é
fenômenos sociais são dissimulados sob suposições implícitas mais ou menos 'ad hoc', mais ou menos geral ]...l. O sujeito en-
emitidas pelo observador em relação ao seu objeto. contra o que necessita saber, e o que necessita saber é relativo às
exigências e práticas de seu problema. Seus critérios de adequa-
ção, suas regras de procedimentos e as estratégias para alcançar
as metas se articulam para ele quando seja necessário" (Douglas,
1970,p.85l.
Mais que manifestar a observância efetiva dos modelos de com-
portamento, o uso que os membros sociais fazem das regras mos- Há divergências entre alguns etnometodólogos no tocante à
tra que na realidade há um contínuo trabalho de adaptação, ajus- questão dos valores e normas gerais. Cicourel (1968), por exem-
te e interpretação do significadoe das prescriçõesda regra à situa- plo, tematiza-as como importantes em momentos cerimoniais, em
ção atual. Mais que ser aplicadas, as regras são invocadas e usa- situações conflitivas, como atividade relevante no momento da
das para firmar e descobrir (a posteriorii a racionalidade, coerên- reestruturação de ações, de tomada de decisões cotidianas, sejam
cia,justeza etc., dos cursos da ação (Wolf,1979, p. 145). elas individuais ou grupais. A possibilidade da regra ganha uma
A etnometodologia discorda do caráter objetivo e reconhecível salvaguarda que, de sua definição formal, abstrata, descontextua-
das regras. O uso competente da regra manifesta-se na capacidade do lizada, passa a ter um contexto específico, prático, descritível, re-
indivíduo em identificar as ações necessárias em determinadas cir- conhecido e recíproco, quer dizer, os elementos envolvidos na in-
cunstâncias para promover o estado normal das coisas, o que implica teração (seja numa conversação, seja numa outra ação qualquer)
um trabalho de observância, avalização, racionalização e interpreta- formulam-na, definem sua natureza no curso dela mesma, nos
ção. As regras ganham uma importância no aqui e agora da ação coti- detalhes e na ação (Coulon, 1995a; Paixão, 1986).
diana, adaptando-a às peculiaridades do contexto e da situação. Para Garfinkel não há uma radical coerção da regra como a
A etnometodologia não vai ao encontro dos aspectos da obje- priori da ação e da compreensão da ação; os indivíduos compreen-
tividade da ordem e das regras sociais (como um fora-do-aqui); ao dem-na no momento da materialização da ação. A rotina, a expe-
contrário, defende a tese de que é possível indexá-las, articulando riência, a normalidade (seu aspecto razoáuei), a não-conformida-
intenções, jogos e justificações - ordená-Ias aqui Hi -, como um de, as expectativas e propriedades constituiioas (percepção nor-
espaço de relações realizadas (Coulon, 1995a). Em outras pala- mal dos acontecimentos), a confiança e as contingências da práti-
vras, é no exercício das atividades cotidianas, nomomento de seu ca, dão o formato da externalidade e coesão, bem como sua gene-
ralidade da regra nas ações cotidianas.
Segui.ruma regra implica e engendra uma criaçãocontínua que só
LI(-j Sua estabilidade. na conconütáucía das estruturas sociais. é fruto dos valores per- podese revelar na ação 1... 1. Uma das propriedades das regras é se
cebidos como normais de acontcctrnentos uucrpcssoats que os membros de um
grupo tratam ele manter através ele sua atividade ele ajuste (Garfíukel. 1967: COLl·
tornarem visíveisou descritíveisunicamente se são ativadas, "des-
lon, 1995bl. pertadas" por determinadas ações ou comportamentos partícula-
10Q ')/) v
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João Carlos Tedesco
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;'~'aradigmas do ((otidiano ......
..107
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res. r ... I, as regras são sempre consideradas como questões práti-
que se diz quando as descrições são consideradas como evidentes
cas 1,.. 1,pelo trabalho que os indivíduos devem fazer para compre-
e, mesmo, quando não são imediatamente evidentes (Coulon,
endê-Ias, segui-Ias e respeitá-Ias, Com efeito, nem todas as regras
são mobilizadas ao mesmo tempo por uma ação; nem todos se 1987); ela manifesta a existência de um saber comum socialmen-
manifestam no momento em que acontece uma ação; algumas de- te distribuído e cotidianamente pragmático e praticado.
las são ativadas, outras mais raramente, ainda outras quase nun- Por isso a sociologia de Garfinkel não se preocupa tanto em
ca. É no decorrer da ação normal, corrente dos atores sociais que é dar atribuições de causalidades, explicações e avaliações racio-
possível ver surgir essas curiosas propriedades das regras I ... L nais ou previamente normatizadoras das ações; sua tarefa con-
(Coulon, 1995a, p. 123). centra-se na ação dos atores, no modo como eles constroem e
Para Garfinkel, há uma racionalidade do indivíduo no inte- reconstroem os meios e os acontecimentos promotores das ações/
rior e no decorrer da ação. A idéia de desempenho prático, possí- interações. As regras brotam daí como internalidades práticas que
vel, evidente e razoável da vida social leva a que as circunstâncias se manifestam na ação (Pais, 1986). Além elas regras, a realidade
socialmente organizadas (regras), pela sua utilização, sejam dita- social é revelada nessa trama/prática do senso comum para me-
das aos indivíduos pela intenção singular que eles fazem de tais lhor se:achar nesse mundo. É nessa interação com o interno/ge-
circunstâncias. É essa racionalidade peculiar às atividades habi- neralizado que é possível manifestar, descrever, analisar, tornar
tuais dos indivíduos, em seu cotidiano, que vai diferenciar Gar- inteligível (accountabilityl o mundo e nele se localizar, sem fazer
finkel de seu professor. Parsons, faz uma ligação estreita entre do indivíduo mera contingência e/ou adaptação.
estabilidade das estruturas sociais e reprodução da ordem social;
liga também objetivos (fins) e meios racional e previamente defi-
nidos e verificáveis como funcionais. O método científico, em sua
Glpjetividade, não leva em conta a inte-r:açi'io,osmeios pelos-Cltia)s'- Um dos primeiros pressupostos da etnometodologia de Gar-
osatores chegam ao conhecimento, Há um mundo objetivo exte- finkel éaidéia de estranhamento para com'as ações apar'cnternen-
-nol:,-di~ciplinado pela ciência, que deve ser interiorizado (teorema !~_~ormétis,ou seja, problematizar o cotidiario.fomperéobstaêuli-
da institucionalização) pela racionalidade das condutas. .zar as expectativas automáticas das interações. Só dessa formapode-
PClI:ªos etnometodólogos, pI·incipªlrn~l?t~._q.arfink.el,en1vá- se suspender 17 o conhecimento assumido normalmente como dado
rios acordos cotidianos pode existir aJgg que nªº.~_stªyª(.)~.pJíci19 compartilhado. Tal suspensão pode ser sinônimo de anomia e faz
nas regras; é a chamada cláusula do etecétera, que poderá alterar emergir, ao cair, evidências submersas da vida cotidiana, compre-
a-co~Pr:eensão do sentido-comum a priori prescrito eoperante. endendo, daí, a ordem social e moral em que o indivíduo se insere.
isso possibilita a contingência da interação, a elasticidade neces- "Os cenários familiares dessas atividades de todos os dias, tratados
sária para enfrentar as situações problemáticas referentes ao COI1- -. pelos membros como os 'fatos naturais da vida', são os sólidos fatos
texto ou às regras sociais. A cláusula do etecétera é uma resposta ti da existência cotidiana L... J. Os mesmos proporcionam o 'assim é'
crítica que os etnometodólogos encontram para se contrapor ao :-':- L... J, são o ponto de partida e de retorno de toda modificação do
i. modelo normativo, aplicável, o qual, segundo Cicourel (1968), não \ ~;\ mundo da vida cotidiana" (Garfinkel, 1967, p. 39).,IH
:. ,
permite um nível cognitivo da relação de construção da realidade ,j
social pelo sujeito na medida em que identifica as regras apropria-
das às situações. Porém, isso não anula a necessária reciprocida-
17 Postertormente. quando da análise marxista. na Vé'TSl.=tO luckaostnna. refletiremos
de das perspectivas e, também, a existência de formas normais sobre a idéia de suspensõo das ações cotidianas, porém não tendo completamente
nas interações cotidianas. A regr~ dog~_çqe.t~r:g ..reÇLl!~!,_.g!!~L.1!...m.'1 o mesmo sentido que Garfíukel lhe atribui.
AI!(UlllaS diferenças entre Garfinkel e Goffman se fazem sentir. Para Garfinkel a virla
locutor e um ouvinte aceitem tacitamente e assumam conjunta- .~ "
·IH
-~ cotidiana é o centro de análise. porém ê observada a partir de modos e de métodos
mentc a existência de significações e de compreensões comuns do ~ por meio dos quais se constrói um sentido comum e um ambiente social. cujos
caracteres são de uma realidade preexistenle. dada e indiscut ível. Portanto. o que
conta não são só as ínt erações. círcunstánctas do momento e. sím. lodo um cou-
108 João Carlos Tedesco
;-Y~radigmas do y.::otidiano ..109
A influência de Schutz (1977) é evidente: "As ciências que se
propõem explicar a ação e o pensamento humanos devem come- gil, precária, a fim de se entenderem e de serem capazes de se
çar com uma descrição das estruturas fundamentais do que é pré- intercambiar (Coulon, 1995a). Não se objetiva simplesmente des-
científico, da realidade que parece auto-evidente aos homens que crever o mundo, mas demonstrar sua permanente constituição.
estão em atitude natural" (1977, p. 223). Por mais que o conheci- Enfim, a sociologia de Garfinkel, sintetizada aqui, quer instituir o
mento e as ações cotidianas se movam por dimensões pragmáti- reconhecimento da capacidade reflexiva e interpretativa própria
cas, há um nível de compreensão nesse horizonte da vida que os de todo o ator social.
indivíduos assumem, um comum esquema compartilhado de co-
I' municação, uma espécie de sentido comum, uma tipificação idea-
lizada dos fluxos de experiência, criando linguagens comuns.
, I Esse sentido comum é fruto de uma reflexiuidade descritiva Comojá vimos, a cláusula do etecétera é uma espécie de regra
e ordenada das cenas de interação social. O caráter reflexivo das implícita e reciprocamente compreendida; manifesta uma disponibi-
práticas cotidianas constitui um dos elementos de extrema im- lidade de condições em que acordos podem ser feitos sem que a priori
portância do conhecimento de sentido comum. Nas palavras de se precisem os acordos, que governam e se generalizam no social.
Garfinkel (1967, p. 54): "O conhecimento de sentido comum dos As normas seriam regras de superfíciee não estruturas geradoras
fatos da vida social é para os membros da sociedade um conheci- de comoo ator assume e realiza os papéis sociais.Os procedimen-
mento institucionalizado do mundo real. Não só descreve uma tos interpretativos são comoas estruturas profundas na gramáti-
sociedade que é real para os sujeitos, senão que, como se fora ca geradora [...1: estas colocamo ator social em condicões de sus-
uma profecia que se autorrealiza." tentar um sentido da estrutura social durante o curso de seus
-",\Tanto a reflexioidade e a indexicalidade'? quanto as etecéte- mutáveis ambientes sociais de interação. 1 ... 1. As regras norrnati-
ras não se realizam sem a pressuposição da descrição. A accounia-
vas ou de superfíciefacilitam ao ator o modode unir sua percepção
do mundo a dos demais na ação socialmentecoordenada,e de pre-
bility de uma atividade e de suas circunstâncias é um elemento
sumir que oconsensoou oacordocompartilhadoregula a interaçào
constitutivo de suas atividades. A descrição permite a inteligibili- (Cicourel, 1979, p. 27, 30-31).
dade das situações, ao mesmo tempo que as avalia sob o aspecto
de sua própria racionalidade. Pela descrição pode-se revelar como Esse chamado consenso elefundo (Cicourel, 1979) só se rea-
os atores reconstituem permanentemente uma ordem social frá- liza quando estão implícitos os procedimentos interpretatioos'" ob-
jetivadores de um sentido de ordem social, pressuposto básico para
a ordem normativa desse mesmo social. No entanto, Cicourel re-
conhece a profunda problematicidade que envolve arelação indi-
junto pré-cíeutüíco que se torna familiar. reconhecível e também ao que ele suce-
de. transforma. Porem. ambos parecem fundamentar suas teses pressupondo 11111
víduo, norma e situação, o que nem sempre é expressão de coe-
Inundo social baseado em tácitos entendimentos. rn.i.f:!:eise precários. repousando
na mera ruvístbtltdade. ou no fato de se dar por dado. No entanto: ao contrário de
Goffmau , Garftukel não examina as dtíereuças no caráter especifico das diversas
regras tácitas: busca mostrar sua cxístencra. seu papel 110 embasamento para a
inleraçào social. Garfin kel tenciona desvelar as regras sociais e suas convenções 50 É o procedimento "que permite aos atores um sentido normatívo dos cenaríos con-
de sentido estabilizado r por meio de jogos. de demonstrações. que buscam des- tingentes. realizando conexões temporais concretas. com conher-tme ntos enciclo-
mascarar o lugar comum invisível. Díferent emente de Cofturan. Garfinkel "não en- pédicos (a curto ou a longo prazo] socialmente difundidos. Os procedtrnentos tu-
contra no mundo das aparências nerihum deleite sensual. Ao contrário, concebe terpretattvos são um conjunto de propriedades ínvariáveis qUE' g:O\TETl1aJll as COI1-
a parte verdaderramente importante do Inundo social como algo quase inadvertido" (lições Iuudamentats ele toda a Int eracáo e tudrcam como o ator e o observador
(Gouldner. 1970. p. 361). decídem aquilo ele que nece ssttam para definir a condutn normal ou corre-ta. desse
lq Na idéia de indextcalidade. o conceito parece referir situações além dos atos ele modo se vê COlHO supõem as conclícões mínímas que toda a ínteracào pre sumtvel-
linguagenl no tempo. bem COlHO no espaço. ocorrendo no seio de um cenário físico, mente deve apresentar para colocar o ator e o observador em condições de decidir
em que vários aspectos podem eslar incluídos. inclusive expressões raciais podem se a tuteracáo e normal ou apropriada e se pode prosseguir. A aquístcão e uso (Ir-
ter significados - "nenhuma expres.sào pode ser isenta de contexto", diz H. Gar- p~~c(':ditl1enlos ruterpre-tauvos <10 longo do tempo equivale a urna organização co~-
ünkel em AIglllllellls elluwllIétlwdoluf}irfues. Paris: EflESS - CNRS. )984. níttva que proporciona um constante sentido ela estrutura social" (Cicourel. 1979.
p. 33. 351.
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Joào Cartos Tedesco ~-Y~radigmas do "t?-otidiano


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1I
I
rência e consenso prévio em termos de comportamentos regula- sociais de análise. Os macro e microprocessos não podem ser ig-
dos e em termos do conteúdo da interação (Wolf, 1979). norados. De qualquer modo, as pesquisas microssociais fazem re-
Numa passagem significativa, Cicourel faz referência a pro- ferências diretas e/ou indiretas aos quadros sociais que estão en-
cedimentos interpretativos e às formas normais, dizendo que ambos volvidos: "O estudo macrossocial das organizações ou movimen-
pressupõem a existência de certas formas normais e aceitáveis de tos históricos, refere-se indiretamente às microatividades de que
linguagem e comportamento, nas quais se embasam os indivíduos é feita a vida social" (Coulon, 1995a, p. 46).
para dar sentido à realidade social I ... 1. Os membros competentes Para Cicourel (1990), toda e qualquer organização social pos-
1 ... 1 reconhecem e ampliam formas normais nas interações cotidia- sui uma rotina organizacional que a realiza de forma racional, ao
nas, partindo do pressuposto de que existe um sistema norma ti- mesmo tempo em que constitui as rotinas e baliza a vida cotidia-
zado e comum de sinais e regras de codificação e que toda comuni- na dos seus membros. Seja uma empresa, seja uma escola, sejam
cação se insere num corpus de conhecimento comuns (o que sabe organizações judiciais, há sempre processos de avalização do tra-
cada um) (apud Wolf, 1979, p. 229).
balho cotidiano, os quais, ao mesmo tempo, permitem dar uma
indicação dos aspectos estruturais que os objetivos normatizam e
conduzem. Essa ligação micro/macro, segundo Cicourel, permite
lffstvuun~frtais t1él(~fodo!ógfCOij, ?JfW d/io a organização funcional-burocrática das macroestruturas.
,.suf;orle à corren ie Através do modelo intera.tivo entre micro e macro, não mui-
to diferente do processo de compreensão, Cicourel analisa aspec-
:""Como _TIl1!itoj;í falamos, a etnometodQloJ5.ig,.é O~S~~_clQ dos tos da mobilidade social ligados às ocupações, às profissões, aos
método~.ilue os indi víduas u tilizampara ciªL§ig!1iJi~ªçãoªQ Y.b!ido graus de escolaridade, ou seja, liga-o a aspectos de estratificação
cotidiano enfatizando a natureza construída por meio de práticas social, a habitus vividos e incorporados, a biografias, a contextos,
;~t,~q:JX_~t~y\l_as_dos)}1ªi\T~9UOS ~~1 ~(;~~e_da·~~~~ta.mbºrnd_e_ estru- a tempos passados. Desse modo, "a macroestrutura é a mobiliza-
turas objetivas que governam os comportamentos e QSprocedi- ção ativa - e, sem dúvida, seletiva - de microacontecimentos sedi-
. mentes dialógicos reificados em certasnoções da realidade objeti- mentados" (Coulon, 1995a, p. 49).
'~\va a expensa~U.l.~--º-1!tras_(Paixão,1986, p. 93). Para os etnornetodólogos, a atividade científica é produtode
•I[ ·º§~;.t~Dºm~toclºJºgºS.ª~§.c~Q!!fjª}}Lªº_cla_do.ggºérj<;ocºªillc_Cl_do 11mmodo de conhecimento prático, levando em conta o reconhe-
i.pelo pesquisador, nãoªtl:iQ_1l~l'Ylg!·ª1:!_clElj!.1}PQr:tªºçi.ª.ªEljºt~n2I~_t_Çl- cimento da capacidade reflexiva e interpretativa própria de todo
I çÕ'esestatísticas do~~.?:.d.()ss()cjª~~~questionam a objetividade da atQr.,S,QçjaLO conhecimento prático é entendido como
I f!j~.a.·.}~se;~omono caso das ()ri.entilções macrossociais domarxismo
~ do funcionalismo estrutural.
esta faculdade de interpretação que todo indivíduo, erudito ou co-
mum, possui e aplica na rotina de suas atividades práticas coti-
_.' .Cicoürel tentou integrar micro e macroanálise através de frag- dianas 1 ... J. Procedimento regido pelo senso comum, a interpreta-
mentos de conversações extraídos de seu contexto de produção. Para ção se põe como indissociável da ação e como igualmente compar-
o autor, essas ações precisam ser vistas em quadros institucionais tilhada pelo conjunto dos atores sociais 1 ... 1. O modo de conheci-
mais amplos. "O contexto etnográfico e organizacional que fornece mento científico não se distingue em nada do modo de conhecimen-
o conteúdo da conversação identifica as estruturas formais da mes- to prático quando se considera que se acham confrontados comum
ma. Necessário se faz reconhecer que a mesma se apóia em níveis problema de elucidação similar: nenhum deles se pode desenrolar
fora do domínio de uma 'linguagem natural' e sem aplicar toda
mais complexos de análise" (Coulon, 1995a, p. 46). , uma série de propriedades indiciais que lhe são aferentes (Ogien,
Por utilizar o método etnográfico de análise, Cicourel redefi- 1984, p. 70).
ne alguns pressupostos epistemológicos e metodológicos da etno-
metodologia. O autor busca ir além do aspecto locacional da ação \Para os etnometodólogos, o objetioismo na sociologia isola
analisada, porém delimita fronteiras de não-penetração de dados observadores e observados, bem como coloca o pesquisador como
exterior; nega-se a subjetividade do pesquisador. No subjetiuis-
11l João Carlos Tedesco j() di 'f:'
,'/ 'ara igrnas do ,('Otidiano
...........
~." - .
113
,,-i,
:mo, o objeto interage com a pessoa que o analisa e estuda. Os
rios com atores, cenas visíveis e invisíveis, atos heterogêneos,
:etno!!!etodólogos adotarr; ()JIJ,étodo ((ºçll!n?~,t!:í!iQ~j!lte~reta-
representações articuladas com o local e com o global de difícil
.ção (retirado de Manheim), buscando perceber padrões subjacen-
tradução. Por isso, a importância do pesquisador inserido e, ao
:tes de relações num arsenal de variedades de relações em intera-
mesmo tempo, distanciado do mundo investigado e das relações
!ção, s~ndoeada ato aparência Kloulon, 1995af Qmétodo,cjoc~l!:'}!:.~n-
cotidianas que, aparentemente, são óbvias; são essas condições
'tário fundamenta-se em histórias de vida ou na genealogia bio-
fundamentais para descrever e socializar, para ligar a parte ao
gráfica de pessoas a fim de selecionar e ordenar acontecimen;tos e
descrever situações observáveis no presente (Pais, 1984). E um todo (o contexto em outros contextos), para traduzir e teorizar,
método pelo qual o discurso e as atividades dos membros são iden- experienciar a vida dos outros e contribuir na construção da cons-
ciência em relação à mesma.
tificados como casos concretos de comportamento, por meio dos
quais os informantes dão a intenção do que convém informar, be~ Ao atuar dessa forma, o pesquisador vai além do esponta-
como as conseqüências disso, as ocorrências, as normas e as ati- neísmo da pesquisa; incorpora atitudes, seleciona os processos de
tudes, ou seja, trata-se de formas de ver a sociedade no plano das análise, percebe os sistemas de regra, faz experiências, categori-
Ii ações temporalmente situadas. . za unidades e/ou vínculos de relações, enfim, compara, agrega, or-
dena e percebe os fatos em seus processos e contradições num con-
I: Os etnometodólogos não acreditam que a postura-relacional
dos indivíduos seja condicionada por sua posição social, ou por texto e num ambiente carregado de afetividado, de memória, de
II passados e de significados aquém e além do percebido presente.
,I
!, 1I
regras que governam interações. Há um domínio da linguagem
natural que fundamenta a indiferença etnometodológica. A ado- ~,,;. A etnogrnfia é um instrumental de pesquisa por excelência
i , I ção de práticas de observação participante, de diálogos, de questioná- eJos etnometodólogos, ell1b,!saIldoa. coIlc.eP.Ç,ªº,ª~,q1!~LQ~L(ªtQ§~sõ~:-..-
rios de análise de conteúdo e da lingüística, sempre levando em ciais são,construçõespráticas. A percepção de um saber social-
I conta variáveis subjetivas, permite dar conta disso. mente elaborado e aceito numa comunidade de convívio implica
O recurso etnográfico permite adentrar num mundo cultural inserção, "pôr-se à espreita", perceber o rotineiro, o repetitivo, o
I
padronizado e o ponto de vista do membro. É desse moro que a
que se tem interesse em conhecer, o qual é fonte dos da~os: A sen-
etnometodologia serve como instrumental epistêmico emetodo-
sibilidade aguçada do pesquisador permite perceber os significados
, I relacionais que perpassam esse cenário; permite captar e descre- lógico para análises do campo educacional, do cotidiano de esco-
ver os fatos considerando sua localização contcxtual e o comporta- las, das influências recíprocas entre professores e alunos, das orien-
I mento do grupo em questão. Os significados que os indivíduos dão tações de classe social, dos intercâmbios interacionais e interco-
a sua cultura exigem do pesquisador aproximações sucessivas, pai- municacionais (suas estratégias, competências, funcionamento e
I
xão e interesse pela vida do grupo, co-participação em situações significados das regras), dos diálogos de orientação, das provas, do
vivenciais, uma capacidade descritiva e interpretativa_- essa ligada conteúdo, da negociação social, das expectativas dos atores, den-
tre inúmeros outros aspectos.
a aspectos teóricos e conceituais em profunda relaçao entre SI -,
um contato instersubjetivo, aberto e dialogal, esforçando-se para Grande parte desses estudos de questões educacionais utili-
não fugir do contexto nem trair os sujeitos informantes. za recursos da chamada etnograt'ia constitutiva (Mehan, 1982),
A opção metodológica da etnografia, com sua descrição local, instrumentalizada pela observação participante de práticas em sala
com a participação ativa do pesquisador/observador, com suas de aula, essa em nível local. Os elos de ligação entre micro-ma-
entrevistas exploratórias, com seu diário de campo e outras for- (TO, as considerações da interação, consultas de dados, dispositi-
mas de obtenção e registro de dados, tem no vivido cotidiano uma vos de verificação, demanda de confirmação junto aos entrevista-
fonte de investigação, de intervenção, de lugar de socialização de dos, análise interacional entre pesquisador e o grupo pesquisado,
experiências e de incorporação de mundos inesgotável. O cotidi~- descrições de práticas aleatórias, a indicialidade do discurso, o
__n? _éYT!:lateia de relações e de mundos que se delineiam em cena- .ibandono apriorístico das hipóteses antes-de-ir-a-campo (como diz
111,1
)0 .
dáradigmas do "('otidiano 5
!iII João Carlos Tedesco ".0 •••• _. _ •• __
fi Mehan, 1982), gravações de aula etc. são objetos da etnografia
consiitutiua sobre o campo educacional.?'
tos, a~iv~dades, em suas interações, aprendizagens, competências
e socializações. ~n~jm, os inúmeros estudos etnometodológicos
! l[ A fonte epistemológica da etnografia é clara ao dizer que os no campo das praticas escolares são instrumentos importantes
li i
fatos sociais (contrários a Durkheim) são construções práticas. para a compreensão dos mecanismos cotidianos e habituais.
I I Seus seguidores, ao modo de Mehan (1982, p. 36), dizem que
: I
I,I os estudos de etnografia constitutiva funcionam a partir da hipó-
;r tese interacionista de que as estruturas são construções sociais.
I
r... J, A crença central dos estudos constituídos sobre a escola é que , Um~ das costumeiras críticas imputadas à etnometodologia
I, os fatos sociais objetivos, tais como a inteligência dos estudantes,
'ir est~ relacionada ao seu relatioismo sem saída (Giddens), o que impe-
!' seu rendimento escolar ou seus planos de carreira, assim como os
diria u~a afirmação teórica mais sólida e acabaria conduzindo a um
dispositivos rotineiros do comportamento tal como a organização
1111: da turma, constroem-se na interação entre professores e estudan- d~serto intelectual, a um conjunto de pontos de vista, a uma sociolo-
1'1 tes, diretores e professores. A etnografia constitutiva é o estudo gui do contexto e a uma centralização do particular, sem resolver o
:1
das atividades estruturantes que constroem os fatos sociais da problema da relação entre vida cotidiana e instituições sociais, entre
educação. aquela e as regras e o poder, reduzindo-as a situações banais.
I' A. interação etnográfica dos etnometodólogos visa adquirir _ Outras críticas argumentam o excesso de descrição, pela re-
flexao do que cada indivíduo sabe; o excesso de indexabilidade
i l-!!Ila visão íntima de um mundo social particular, no caso, a vida
'I perdendo-se a perspectiva histórica, ou seja, mais precisamente'
cotidiana em sala de aula.Os pressupostos teórico-metodológicos
',1
para essa empreitada são inúmeros. Alguns deles podem ser re- das causalid~des na vida cotidiana. Ainda, outros dizem que a et-
~;
I nometod~l~g13 reduz a vida cotidiana a uma dimensão negociada
sumidos na idéia de que é necessário partilhar com os membros
! desse mundo cotidiano uma linguagem comum para facilitar a
pelos indivíduos, na qual a ação se reduz ao significado e ao cum-
p.nmento, e não à práxis, como compromisso e transformação so-
\,
., li
interpretação.
A noção de tracking - "espionagem, seguir a pista, ir ao en- cial e da natureza por meio da ação humana (dentre os quais
estão Giddens e Gouldner).
calço de alguém" -, mesmo dando idéia de uma certa exteriorida-
de em relação ao objeto entrevistado, segundo Coulon (1995a), Muitas críticas também se centram na ausência de uma nor-
. ,
" !
1:
m~tividade acima do contexto da interação. Na mesma linha está
~ .,,~.
.;
permite considerar as descrições, as falas, as opiniões dos mem-
o fato de a etnometodologia preocupar-se com situações de peque-
-z bros, ou seja, um processo intersubjetivo.
.A técnica da descrição permite ver a sociedade-no-discurso na escala, abandonando a ligação com a estrutura social. "Fato-

:, (Garfinkel, 1967, p. 94). É o trabalho pelo qual os pesquisadores res externos ~ consciência e às situações do ator, que, sistemati-
\ camente, atnbuem significados e motivos à ação social, devem
[I ~tab~J~~~.t!~a correspondência entre a norma e o caso concre-
!!
formar parte das análises sociológicas (Me Sweeney, 1973 apud
tQ,..Qll.melhor, entre afirmações textuais e o propósito dos mem-
I bros, entre a formulação conceptual e a ilustração empírica (Zim-
Wolf, 1979, p. 179). '
I:
~~;~a'rt'e Pollner, 1996). \. É possível, portanto, perceber que as críticas mais contun-
I
"0 oUm outro pressuposto teórico-metodológico dos etnometo- dentes à etnometodologia são mais ou menos fundadas nas mes-
I1
dólogos é que a vida social é organizada e produzida pelos mem- n~as posturas do interacionismo, ou seja, giram em torno de ques-
bros em sua rotina, padronização, disciplinamento, acontecimen- t~e~ de contra?~nto a elementos mais genéricos da sociologia tra-
dicional, relativizando radicalmente conceitos, normas, vivências
tempos e contextos.
51 Ver uma indicação ele inúmeros estudos em Coulou (l995a e 1995b) e uma rica . . :Unda. que se fale em contexto e que a variável tempo tenha
explanação sobre teoria e método em pesquisa de campo nU1l1 texto de Cicourel no
~;lgmfIcado l~trínseco no mundo social, para Garfinkel, estátora do
livro organizado por A. Zaluar. Desvendando InôscClras sociais. Rio de Janeiro: Fran-
cisco Alves, 1990. tempo, ou seja, Garfinkel não se limita a uma época dada ou a uma
116 João Carles Tedesco
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cultura específica; é um tanto aistórico. Não está preocupado em Ci~ourel peI~'erte um pouco a tese dos etnometodólogos no
analisar por que em determinada época ou lugar a realidade social tocante a concep~ao de poder na interação social ao dizer que "de-
se define desta e não de outra forma. O apelo constante às expecta- hnquent~s.!~vel1ls emergem ~omo um produto da colaboração de
tivas de base (Garfinkel, 1967), onde os atores processam e definem paI~, POlICIaIS,conselhe~ros, juizes e outros, dos julgamentos e
os fatos com fatos, faz da etnometodologia uma restrição à descri- prejulgamentos ~ue eles fazem emergir de conversas seletivamente
ção de formas pelas quais os atores individuais dão conta de suas pmçadas. e~ registros oficiais e de recursos que jovens suspeitos
ações, dando pouco lugar aos aspectos objetivo-generalizantes do e se~s pais sao capazes de mobilizar e inserir no processo" (Knorr-
processo social. A expressão máxima disso está na colocação de ~e~l~a, 1981, apu? Paixão, 1986, p. 95). Há nessa afirmação uma
Garfinkel de que a etnometodologia forma um campo sociológico incrpients det_ermmação .da identidade de delinqüentes como pro-
onde a ordem social é local e interacionalmente produto, natural- duto ~e relaçoes de dommação e de submissão em instâncias de
mente organizado e reflexivamente descritível (Pais, 1986). relaçoes rrucro, mesm? que a classe e o Estado estejam ausentes.
As questões da criticidade, do imaginável e das temporalida- A etnometo~olog1a, entretanto, no seu corpo teórico, não acei-
des que se cruzam na interação social são pouco tematizadas. Sua ta que a~ determmações do poder tenham proveniência absoluta
forma analítica permite um relativismo nos jogos cotidianos (Pais, da relaçao entre economia, classes e Estado, como na visão de
1986), abrindo espaço, inclusive, para uma resistência não violen- ~lthusser e/ou Poulantzas. Os etnometodólogos criticam a positi-
ta no seu sentido simbólico, sensualista, romântico ou até volun- vI~ade d?s marXIstas quando estes ignoram a eontextualidade da
tarista de indivíduos e pequenos grupos das ações cotidianas (Gould- açao social e a aná.lise microssociológica do poder (Paixão, 1986).
ner, 1970). . l?e .fato~a sO~IOlogiaformal, para os etnometodólogos, elabo-
No fundo) o gra.Ild~R.rº-ºleI1l.~g~ra.gm tºr:noc;laIelªç.ª,º ..entre I a objetIvaçoes, .slste~natlZa conceitos das explicações empÍricas
vida ~~tidi~n~ ~°in;tituições sociais, aí envolvendo poder, regE~s, d~s sujeitos, racionaliza as experiências comuns em correspon-
valores , cultura e historicidade. Desse modo, o excesso da conte x-
~. de~cla com uma ord~nação teórica mais ampla, não passando
tualidade específica (o locus da ação) escamoteia ações e aspectos, m~Itas v~esJl7Ia~ açoes 8__ mterações de sentido-comum-cotidiac
muitas vezes independentes dessas especificidades. Em contra- n~, Ql1tra§.~~ovmelas da .,~eal~dadeJchamaria Sch.lltz. Desse modo;
partida, parecem-nos infundadas algumas críticas de que no mé- ha uma ~ntIca da COl1scwnCIacomo consciência individual (feno-
todo etnometodológico haveria uma onipotente naturalização do menol?g1a de Husserl). Se o mundo existe como realidade inter-
indivíduo frente ao social, ou melhor, que o social nada mais seria subjetIva, e~e n~o é uma construção individual, mas resulta de
do que uma contratualização/negociação cotidiana entre os indiví- uma comulll:açao de atores que são objetos e sujeitos.
duos. Gouldner critica a etnometodologia pelo fato de rejeitar uma A q~estao entre senso comum e ciência será objeto de an '1'-
possibilidade objetiva de explicação da sociedade e da história. O se postenor. Apenas a localizamos aqui por estar ;elacionad: ~
autor atribui trivialidade concentrada à observação cotidiana, nlgumas questões críticas de que a etnometodologia faz do senso
mesmo que seja baseada na observação participante com recur- comum, da !nteração cotidiana de primeiro grau objeto de cienti-
sos etnográficos. Os etnometodólogos não admitem que nossas licidade. Nao há dúvidas de que, pelo menos na leitura que fize-
vidas sejam afetadas pelo contexto socioeconômico no qual se an- IIIOS de Garfinkel, a etnometodologia reduz demais a realidade
coram (a etnometodologia tem pouco a dizer sobre isso); não tra- ;~c:cta~a.fen~menos da_subjetividade, da micJ'oanálise-aç~o, da des-
balham com a ação do poder macrossocial; enfatizam demais as ~tII~J ah~açao das açoes de poder, ignorando fatores de coerção
regras e teorias que têm suas raízes no senso comum ou nas tipifi- /JISI,ltuclOnal, ou 11.1elhor,de elementos normativos transcenden-
cações nativas que constituem o estoque de conhecimento social I(,s :~(~contexto da mteração, da inexistência do externo. O sujeito
apreendido pelos indivíduos (Paixão, 1986). Porém, tudo isso não .11 ,11 oce como subsoclallzaclo
1
(Pais, 1986).
significa que o indivíduo seja reificado em sua relação com o social. Não se pod~,.no entanto, acoplar preocupações explícibs por
,.\(·(·Ic'nelade análises macrossocioJógicas nas análises mino. '1':11I1.~
~..~_ª.. ._..,.. ,0 •••••••••••••••••

João Carlos Tedesco


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bém não se pode vê-Ias essas isoladas, com uma outra preocupa-
cão de per si (Wolf, 1979).
> Os etnometodólogos defendem-se dizendo que ver o mundo
do ponto de vista do ator não é sinônimo de orgia de subjetioismo;
ao contrário, trata-se de saber como as pessoas, conversando e
agindo, criam a realidade social como um fato objetivo (Schutz,
1972). Em correspondência, temos de reconhecer que a etnome-
todologia investe contra a rcificação, ao mesmo tempo em que
o PRESENTI
despolitiza a interação social, relegando a "constructos de se~?- DEMAF
da ordem" conceitos estruturais como alienação, classes SOCIaIS,
consciência de classe.
A etnometodologia não quer adentrar nas respostas da ma-
crossociologia; quer, sim, estudar a vida cotidiana a partir de um
instrumental metodológico que apreenda o sentido comum que
nela se desenvolve e se pratica. Enfim, para a etnometodologia, a 1'\5 5UC15 tonte«
ênfase está na compreensão e há interpretação do processo social
em situações sociais específicas, nos aspectos contingentes, contra- Optamos aqui pela análise teórica de Maffesoli por ser um dos
dos no tempo da intoração dos sujeitos cotidianos. São dimensões autores do campo sociológico da pós-modernidade que mais é cita-
essas, ao nosso ver, que devem estar em diálogo permanente com do, que mais gera polêmicas, por produzir muito (há mais de uma
rnacroinstâncias explicativas do social de extrema importância para dezena de livros seus traduzidos para o português), por coordenar
a compreensão critica e transformadora da realidade cotidiana que um centro de estudos sobre o cotidiano acima de tudo, por interpre-
nos envolve. tar alguns dos clássicos da sociologia em seu quadro analítico. /
Não obstante as críticas, a etnometodologia é uma corrente Influenciado por Simmel na sua sociologia das formas so-
teórica e um instrumental metodológico que está ganhando cada ciais, por Pareto, na noção de resíduo; por Weber, principalmente
''...vez mais espaço no meio acadêmico. Como já dissemos, pesquisas no campo da sociologia compreensiva; por Durand, em sua socio-
em educação, em lingüística, em estudos matemáticos, dentre antropologia do imaginário; por Durkheim, nas noções de formas
outros, acercam-se desse instrumental, ap~rfeiçoando referen- coletivas e solidariedades, por Schutz, quando aborda a questão
ciais etnográficos e de pesquisa participante. E claro que a etnome- dajiPicalidade, entre outros, Maffesoli dinamiza um aparato teó-
todologia não tem a preocupação, e mesmo que tivesse deixaria a rico que busca se desvincular, contrapor-se e transformar os pro-
desejar, de resolver a secular relação indivíduo/so~ied~de.Mesmo (:($SOS e métodos tradicionais de compreensão do social.
assim, colabora para resgatar universos (inter)relaclOnms pouco te- / Maffesoli agrupa-se num quadro de referência da sociologia com-
matizados pelos grandes temas do campo sociológico em geral, dan- ureensioa, especialmente de Simmel, preocupado em entender as
do sem dúvida, também um pouco de adubo para as investigações i 11 tcncionalidades que norteiam a vida cotidiana dos atores sociais.
pó~-modernas. É disso que nos ocuparemos no próximo capítulo. Acentua o olhar simmeliano das formas de associação no interior
(1:1 modernidade e, sobretudojna estetização dos modos de vida\ O
; 1I dor explora as condições de existência de uma nova dimensão
; : (lI" ial (8ocialidade) na pós- modernidade, analisando-as e aos ti po:-;
.I,> análise que ela requer, bem como as formas que assumo, <I
IIrl::lllização que daí resulta, as instaurações de novas instituiço.»,
I Pais, 1986).
-, ) .' ."
João Carlos Tedesco ,f'aradigmas do '6'otidiano 121
i
I'
~ I Sabemos que Simmel insistia nas formas nascentes de so- ções dos interesses e das razões. Enfim, processos internos aos
I cialidade, nas relações entre individualismo e associação (comu- indivíduos, nas suas relações uns com os outros, abrem um cam-
nidade), nos grupos escolhidos (sua efemeridade, níveis de coe- po de tipificações onde funcionam os fenômenos de interpenetra-
são, ..), nos seus múltiplos círculos sociais e nos grupos de afinida- ção humana e os sistemas de confirmação de suas identidades.
de no interior das organizações. §~ntimentos como amor, amizade, simpatia, atração, discrição e
Através das formas, os indivíduos estruturam experiências seus contrários formam as conexões de representação do social,
e uma atividade mútua que não são preexistentes, o que significa Simmeltenta mostrar a força das emoções para a manutenção ou
dizer que a rotina também precisa ser recriada. As formas de so- ª desintegração das relações sociais, ou melhor, das formas de
cialização são correspondentes a situações nas quais as orienta- associaçâo ou de socialização. i
ções sociais recíprocas se atualizam (Watier, 1996). Para que as Maffesoli bebe dessa fonte! Claro que aqui sintetizamos numa
formas possam melhorar desempenhar seu papel, é necessário forma mais do que superficial apenas elementos soltos da comple-
que os indivíduos tipifiquem essas situações. A socialização é uma xa teoria simmeliana das formas de organização social. Para enten-
energia em ato no social, porém precisa se materializar em ações dermos as bases do pensamento atual de Maffesoli, precisaríamos
recíprocas que envolvam fenômenos subjetivos e psicossociais - mergulhar em várias abordagens da sociologia compreensiva e do
fidelidade, lealdade, reconhecimento do outro. A sociedade é uma imaginário, algo impossível para nossos objetivos e condições.
unidade das unidades, as quais podem ser entre grupos e/ou indi-
víduos~\lAs formas de socialização são, necessariamente, o produ-
to dos indivíduos, mas, desde que elas existem, elassão também LOC{.jtíZ/Ufdo ;:J!gtfI1S lWC«Stfl'0s1os
guias, orientações e limitações das ações possíveis. _I '.
;i.Maffesoli, em sua fenomenologia compreensiva, critica as
Fidelidade e confiança, envolvendo sentimentos, crenças, abordagens sociológicas que reduzem o mundo social ao mundo
obrigações, representações imaginárias, desejos e aspirações, são da produção, especialmente de cunho marxista e funcionalista.
disposições psicossociais das relações sociai.s. A confiança estrutu- Tenta resgatar o lado elesombra do social baseado em minúsculas
ra um conjunto de microrrelações que servem de guia para a prá- situações do cotidiano, no imaginário, na utopia e no não-racio-
tica cotidiana (Watier, 19961- nal, em última instância, no senso comum: "l... J os conceitos cons-
Segundo Simmel, a vida social repousa, em boa parte, sobre truídos pela sociologia, em vista da apreensão da realidade social,
fenômenos psicossociais. Já vimos que, no Philosophie de l 'argent devem se apoiar no senso comum dos homens vivendo no mundo
(1987), Simmel sublinha a especificidade dos mecanismos mone- social" (Maffesoli, s.d., p. 212l.
tários e a necessidade da confiança que esses processos exigem. A Não acreditando que o conhecimento científico possa dar con-
confiança é uma pressuposição, uma espécie de a priori sem o ta da complexidade do social (influência weberiana) e de seu anta-
qual a economia monetária não seria dinamizada. Sem a confian- gonismo, Maffesoli propõe uma vigilância à respiração social, à
çados homens entre si, a sociedade toda se romperia. experiência do mundo vivido coletivamente, ao imaginal, ao plu-
, A sociedade moderna também repousa sobre "uma economia do ralismo da vida, longe dos mitos da razão, do progressismo e da
crédito além do sentido econômico do termo" (Simmel, 1987, p. 250). institucionalização do intelectual. O autor centra sua atenção na
Somos levados a dar crédito às pessoas e às instituições e a recebê-lo. idéia àeformismo como contraponto ao formalismo (forma/for-
Para tanto, as obrigações recíprocas, os julgamentos, as tipificações, mada, fixa, imóvel), sendo aquele urnaforma [ormante, portanto
as identificações e a confiança contribuem para dar a orientação e a virtual, imprevisível, contraditória, dinâmica e processual."
forma momentânea de atribuição à realidade.
A orientação psicossociológica de Simmel mostra que as for- ~,:~
o autor. em várias passagens ele seus livros ou nos varias textos da rcoisln Socté-
mas sociológicas de comportamento recíproco podem seguir, com /es, por ele clirigicla. faz um apanhado histórico cio termo .fi.mnislllo, cio seu sentido
flIosóllco. teológico. científico, sociológico, indo desde Tornas de Aquino. passando
uma adaptação precisa, as transformações internas das motiva- pela Filosofia das Luzes com Vico. pelos clássicos da sociologia (Durkheuu. Weber.
122 ..· ···· João Carlas Tedesco :Y~radigmas do '6otidiano 123
......... _ ....
I Maffesoli tem nos estudos do cotidiano seu foco maior, o qual, mais nas ciências sociais e, em particular, na sociologia. A consti-
para ele, é uma forma (anti-racionalizada) teatralizada e superfi- tuição do campo da sociologia da vida cotidiana não pode prescindir
cial, cujo estudo demanda compreender o jogo das formas sociais aí da episteme que esses dois autores tematizaram._AfelIQl72çnologia
presentes. AE formas nas quais os fenômenos sociais aparecem e se compreensiva, abordada em o Conhecimento cotidiano (Maffesoli,
enquadram dão a simbologia e a significação do mundo fenomêni- s.d.), objetiva mostrar um social não reduzido ao paradigrnada.
co; são a matéria-prima ele como o mundo se dá a conhecer. produção. Em A conquista do presente (1984), o conceito é substi-
Maffesoli também se inscreve na perspectiva de uma socio- .tuído pela noção; advoga-se o acesso às atitudes emocionais, aos
logia compreensiva pelo viés do imaginário, por. influência de insignificantes isolados que dão base à cotidianidade:l'Jesse livro,
Durand. Toda a sua produção que conseguimos revisar manifesta .Maffesoli a2Iesenta a epistemologia que norteia a análise do coti-
uma luta contra a sociologia acadêmica de cunho positivista, con- .di~!:l~L~q;;~_;~~~ia em categõriaS-tãlsconÍQ ª~éfiaçã9 da-vida, .
tra o dualismo que opõe razão e imaginação - aos moldes da crítica cc!~.Qlicidade.Jemporalidade fragmentada e aistórica, n~.~~~-ª-_aª~
de Durand à tendência iconoclasta da racionaliclacle moderna -, não @l_diferença, astúcia e silêncio como rp.eio-ª-~2"es~_t~l!..cia__ n~§.s>~
só opondo como dando privilégio à primeira. cial solidariedade orgânica (tribos, grupos, turma .._ em termos
Maffesoli, contrário ao conceptualismo, tenta adentrar !lª 80::_
..
=----------------------_._------ ...
-
de hábitos costumes e. identidades), proxemia' (microlüéà1ísmo
ci()l()gi(iço;npreç~-;:$Z~~~:-deWeberpela via da subjetividade, dos fatos g"'erador d~·1c·~itu~a-e··~e~ó~i~.::.-e~t;:;·~~J~;;t~~~e~si~~f)e--~i~ti~id-~-
•__ ,••..,.•.. "•.. _•.._ •.__._•• __
•....•... " '~. ",,~ ","0'_"-, _. •.•~~,,, r'''._, .••._··.• -c.~,_._~,,'.w .,,_~."_~~_._,~_~,
...__ "....
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e das ações não-lógicas, pela via da sociologia da vida cotidiana vivi- de..çQmo.JonJe!ie sociabilidª.Qe .
w •• ·.··" •• _ •••• '_"_._ •• __ ·•· __ '" .,_, __ ~.
.da no seu interior, das formas de manifestação davida social e dos -f\ / Maffesoli opõe-se à visão dualista razão/imaginação - pró- f'.
contornos da vida societaC<,~ma soCíologia d[fdeçlaJHi,~ como ele pria do positivismo, privilegiador da ~'azão. Para ele, essa di~en-.
mesmo classifica. Essa dimensão do dentro (Simmel) resgata a no- _;iªº_ gpantifi.Qª, reduz e calcula o social. e!f.1.t~t!1.~()~.~e._ca~.~.':l!!..~~- ...
.ç~o de tipicalidade (de Sªmtz) no sentido de empatia, de proximida- des, da unicidade e da rigidez do conceito. 1'rªt;;l-s~,parao~utOl::,
de e de interação que se estabelece entre o observador e seu objeto, de fazer uma releitura da sociologiacomprensiva de Weber, res-
distanciando-se da noção de externalidcde durkheimiana. g~t~~-cl~~~j; da subjetividade, das ações não lógicas, da poética
Para compreender de dentro a vida cotidiana é necessário da.id.d-ª5:oh~).?J1.ª,clo fantástico do dia-a-dia) dabanalidade, do vivi-
ter presentes algumas características que lhe são essenciais: am- \
do
... - interior; no....fundo,
-._._._-- ....--_ --....... o autor quer romper . . ..com
t·· -a razão
. em bene-..._..
bivalência, complexidade, duplicidade, polissemia, localidade, ba- (í~~Qdos sentimentos (o bom senso popular). "";.
nalidade e insignificância. Esse relativismo compreensivo perspec- \. Nessa orientação, o pensamento sociológico deve evitar os
tiva o real, pluraliza os pontos de vista e as razões, as conexões conceitos duros, fechados, amplos; deve orientar noções (em vez
i :
causais, as regras internas, os fínalismos e os conceptualismos. O d~'~~~~eitos) como história em espiralCretorno com algomais"),
conhecimento sensível, pela experiência, quer compreender o \~proxinúa.Üógica qQ doméstico), a potêl!ci~(~mvezdo poder),.~.
dado social que dá acesso à socialidade (empatia comunalizada) e local (no lugar do projeto, da lógica da produtividade, do futuEo);
às experiências comuns dos homens, "considerando que é a bana- todos esses são elementos de um reencantamento, de uma razão
! lidade cotidiana, o vivido comum, fundamentos da trama societal fl~n~ível, em substituição aos mitos da razão; são formadoresdas
.1 que estão na origem dos movimentos de massa" (Durand e Weil, _ novas socialidades cotidianas. preciso pensar, diz ele, numa 80- t
f 1989, p. 218). . _ . . _ . ,- çiologia acariciante que não violente a realidade, num pensamen-
, Maffesoli, sem dúvida, e Lyotard (1988) sao os dOISprotago- to vicinal que integre também os aspectos micro, ao mesmo tempo
nistas de um campo crítico da modernidade que emerge cada vez que a razão e os sentimentos.
. ~·.A vida cotidiana é apresentada por essa corrente carregadn
Ide.simbolislUQ, de sensação, de recordação, de empatia, de rnízcs.
Síuuuel]. na antropología com Durand. Morin ... e lá vai. buscando dar sígutücaoo
às várias modulações que a forma aSSUI11e e a que o plufalisTllo socíetal e a tradt-
lde reencantamento, de !:itu!,ti.~, de fantasia, de efemcridadc, (h·
çào ocidental não der.nu muítu atenção. ;i.Q1'p.!~!>§~o?~.~mo e polissemia do gesto, elementos esses pníprios
I
João Carlos Tedesco
- ~'" .. - .. - ..- - - _ . "/~radigmas do Y[:otidiano .125
. - -........•
da riqueza (relativizada) da, vida social, sem se condicional' a("!s jeto; implica não exagerar no excesso de racionalidade, pois os qua-
~;treitoslimües finalistas. Em termos epistemológicos, está pre- dros, as cadeias empáticas e simbólicas, o imaginário e os elemen-
"sente nesta teoria, forçando os traços, um certo holismo, ou seja, tos inconscientes estão presentes no cotidiano, no dado social.
uma sobredeterminação do todo sobre as partes na compreensão
Para o autor o cotidiano e o local são espaços de sociaEq.ad.~!.
do efeito da estrutura sobre a compreensão
como um produto de microatitudes,
do social; contudo,
são situações presentes e efê-
havendo uma liga~ãgestreita entfea~b~E'-; é colocadono o'acento
.1PJº!.ÇL1ll9_~no' afetual. Diz que "os elementos contextuais são ligados
meras, enfim, "uma trama feita de minúsculos fios pacientemen-
aos aspectos psíquicos do meio nos quais os atores se colocam"
te tecidos" (Pais, 1986).
(Maffesoli, 1993, p. 206). Porém, a acentuação espacial não é um fim
,- ;, A epistemologia de Maffesoli é declaradamente empírica, !lã?
em si; a proximidade pressupõe a fundação de uma sucessão de nós
bu se and o "nenhuma essência além do fato, do que se dá a ver. No que constitui a substância de toda socialidade. Em outras palavras, é
entanto, suas obr~~ expressam um grande esforçonosentido de
necessário um sentimento d ~appartenance em correspondência a uma
: perceber a multiplicidade 'dos fatos cotidianos fragmentadose ba-
ética específica num quadro de comunicação, de entrelaçamentos de
\nais, numa concepção global do social que justifica as buscas das
formas de vida (lembrando Giddens) e de espírito coletivo .
.grandes formas sociais, vistas integradas aos elementos corriquei-
rosda vida, numa perspectiva vetorial. t Maffesoli analisa o rito, ao lado do ressurgimento
do mito como uma técnica eficaz de manutenção
da imagem e
da existência \,<.,de
Para essa corrente, como vimos, a sociologia apresenta-se
.,._", •••••••.••• _ ...••.. , '",.~.'"'~ •.• '.k •. ' ..._, ....••• ,'''.'',.''" .. _.. , "', ,'o ',"" ..... , ,- '0'_" " .,",._,. ,',' -', -. ''',,'~';.C.''. ,',
grupos.iôeu aspecto repetitivo, sua atenção ao minúsculo, o desloca-
co~o relativista, como sociologia dosponü)s de vista"i?ignifi.can- mento do ideal de futuro para o presente criam um voltar-se para si.
do, com isso, que não há uma realidadeúnica, ~las maneiras dife- O universal abstrato (Hegel) deixa lugar à concretude do particular,
rentes-dea conceber; que a vida social passa por uma pluralidade
; \4e observações, ou, então, plurali~ade de raz.ões,;Di~so dec~r.~.em
ao romantismo tribal, valorizando a vida afetual e a aparência vivi-
da. Segundo Maffesoli (1980), o rito faz parte daguilo que Lukács
conceitos como flexibilidade, habilidade, ambivalência, dU12hcI~<1-
chamou de ética dos instantes. A vida, para o autor, consiste, senão
de, polissem ia e instante, presentes nos trabalhos de Maffes.?li." .
emlnstantes, em minúsculas situações que ganham sentido na sua
, -, Preocupado com as "nossas formas de socialidade", Maffesoli
atualização mesma ..Assim, nada há de importante, pois toda a vida é
define-as como empatia comunalizada e dimensiona a trama socie- importante. 'As atividades nos instantes formam a regularidade e
tal contemporânea baseada na "experiência comum dos homens", originam as estruturas sociais. Nessa epistemologiq.,.Mª-ffçsoJi di~
expressa no tribal, em detrimento do sentido clássico de individual. que.não ..s.ão.as.J~.xplicªç.õ~,c;pr~clG,fini,dÇlsdas grandesformass!9!!li-
"N ós vivemos uma dialética massa-tribo, a massa sendoo pólo englo- ,n-ªQt~~(QX9(hlÇ~.9,jª~oJogia, organização, classe etc.) que permite:!!;
, h0I1J~,:·jªJrtb()l.ª_c.lj§.talizaç~g elo pªI1!ç1!~ill"~JMaffesoli, 1984, p, 28). c!'Ullpreen"der.ªs_minús.Gulªs,situ.açõ~s.da vidacotidiana; não há res-
Os gTUpOSde afinidades sexuais, culturais, religiosas, políticas e de l(),º_Ie.§!()_ép_a..rtejnt~gral}te do conjunto, é indispensável.
lazer seriam os aglutinadores das microinstâncias tribais. A proxi- Detalharemos melhor alguns elementos do quadro analítico
midade, o local, o microgrupo fundamentar-se-iam no grau e no
de Maffesoli no sentido de perceber como o cotidiano é pontuado
sentimento de pertencimento (vila, bairro, cidade, país, comunida- dentro desse horizonte de formas societais.
de, sítio ... ), numa ética que se nutre dos quadros de comunicação
(ritos, mitos, simbologias, cultura ... ), que tendem a reforçar a coe-
são. Isso, em termos epistêmicos e metodológicos, implica um rela- A e"i~1Í;ffM(}!(}gi(-i do cotidisno
tivismo, um revisar constante do observador em relação a seu ob-
.EJILprim~jr:ºJ-º.gar,o~~torcg.n,§i.dera,geoti9-ian.9, com~J~~gar
p,m: e_Kç~J~Ilci;:ll?ll.!a .. anáh.l?E! social, pois é aí que se constitui a ª-
!):: Nesse aspecto. Maflc-sol é trthut.árro de .J. 8audrillard. no seu livro A sombra dns sociabilidade.Em segundo lugar, o cotidiano é constituído por uma
e
í
o Iuu do :-.tx·ial e o surgnuento massas. São Paulo: Bru st-
fJwiorins silellclosns: das
teiade.significaç.i't~sj.n~ign.iJiçªl!t~_l?J e.[ê!l1~.r:a~,ipequenos nadas)
__
l icn se. 1993.
polissêmicas que constroem a força e a permanência da vida coti-
• ". -.- •• - - ••• , •••• " •• ".- -. - •••••••••• o,. ". __ • _ •• ~'"
João Carlos Tedesco
......•..... -_ ..- ...
,-Y~radigmas do Y;:otidiano •••••• ' ••••••• _ ••••••••• ~ •••••••••••• _•••• _._. •• 0'0· ··· J27
• •••• ~........ ." ,.-0"
d.iªlm~j;ª. $llª,,ÇQIlcret.ll(J~. quelhedáa forma, .a a parência e, ao sente na interação cotidiana, ao mesmo tempo que faz referência
l!-l.~s!l.lg.tempo, a característica dasocialidade. ao grau de dinamicidade, de fragmentação e de diversidade do
Partindo do pressuposto de que o cotidiano é uma experiên- processo social._Ajg~iª-º--~.fgrma fundamenta também o ª.1IT1lE-
cia coletiva - a sociabilidade -, o autor apresenta a noção de acei- ._wento interativQ..dª-J).1'gçmi~ª-çlio __ $..QciaHgrup.Q§.L~~cL~s~a.s .ªçº~.s
tação da vida (não como sinônimo de passividade), de duplicidade, .recíprccas. O próprio Simmel (1981, p. 165) diz que "há sociedade,
de silêncio e de astúcia como formas e manifestações do vivido no sentido largo do termo, onde há ação recíproca de indivíduos".
orgânico e social (Teixeira, 1990). :J;AKª!:tQ~-ª._~§.~ª-~p.oÇQg'§'~?_~ªQ.o Maffesoli aproveita a interpretação que Simmel dá no sel~tido
teplp.Q _cíclicº)~.m gjJosiçã.o_ ao J!l}~a_r~ .progr~ólsivo; o 7W!1SenSe, de defender uma sociologia não do conteúdo, em seu Sentido clássi:
emCQntL<!1l9êjǪ,0 àunicidade da razão, à incoerência, aos impre- ~o, mas das forma§. sociais, de tomª-I..ª-$..§i@jf~<::.ªçºes Si~~(~E~a,~.2§i-
__
,I vi;:;to$.;.ª ambjgüidade do social, em dissonància com a lógica das ÇQJºgiç,ª§..dm:t_ªgr1!pm;Il~nJQ§.g,...ª§.s.Q.çi-ª.çQ~s_r!2çfm:º~?:§.i~ ..!!1:ªjvíd:u.. ()s
II!I I .normas e das verdades absolutas; o presente, em dissonância
·Q.i3~.l2rºj~iQ$,m·e5;'iâniç.º~,~.finalistas; a massa.iem vez do indivíduo
com ~._q.llil..)..somados,-&.!I!larrLO sº-g~J. Diz Simmel (1981, p. 211): "Eu vejo
uma sociedade, onde homens se encontram em reciprocidade de ação,
ii
'! eIDancip_adº;.ªdu_p-liçidª.d.dmªs.ç.ªrª).emy~.:z:.da_ªllt~nticidade,e e constituem uma unidade permanente e passageira."
dO_Il1Qralis.mO_Y11lgm~;Q. absenteísmo, em vez da normatização e Assim, Maffesoli pega justamente esse veio pata introduzir
j;hÜg~ºlºgiaçla participação.Todas essas, em seu conjunto, são for- a idéia de forma, para "descrever os contornos por dentro, os lirni-
l11as encoI1!ra.daspe1o indivíduo paIa assegurar sua soberania em tes e a necessidade de situações e das representações que consti-
fu.l-&,cial?..impºfi!.ç.9g~ sociaise do.§~\1KQo:espond~nte artificialismo. tuem a vida cotidiana": "Para fazer sobressair que a 'forma' é for-
Por menos lúcidos que sejamos sobre o desenvolvimento das histó- mante~--ª.§.§ir!Ll)le_dir ,<1_ eficá,Q.ª-.do anódino ou clQJ.:lDD~~Cl!JO,"fi-
rias humanas, percebemos que estas não são, de modo algum, coeren- ~~))j._o_.ª.!~!1:t~-ªQ..P.ªE!~~!ªE_:?.~_m---º~scuidª!"~os_~L~-qlep..t.9_~essen-
tes, lineares, planificadas, mas que, ao contrário, encerram uma par- ci1ó\!s.Desse moclo, OfºI.?7!·i~')77?~ºª.Pt<?ê.~!1J_ª: ól!?S.9_l!lQ.ç,º}.1.ªi.çª.()(l~.pgs-
te importante de irracionalidade. É em função dessa constatação que sibilidade, como fundante de uma sensibilidade relativista de mé-
a aparência e o duplo constituem, de alguma forma, um refúgio, uma
todos e teorias (advoga a produção de teses locais); propõe uma
maneira de responder o que Weber chamava de "irracionalidade ética
sociologia como ponto de vista (anticonteúdos sistemáticos), pes-
do mundo (Maffesoli, 1984, apud Teixeira, 1990, p. 147).
quisas simples enraizadas nos modos de ser populares (do já dito
JJ.. a u tor:Lç!~:º-.~n:uhzer_illJJ,~U:UimiI1.Ú_s_ç.ulªs.aütudes ..do.cori- bom senso comum, do discurso do social, em vez de só sobre o
cl.iªJ2!L~êl)l un~a extLªº!.9-jp áriLc..?-J?ª.Çi.ª-ª-ª".§_sl~_§.
u l:J.Y~L~ª-º--'<:U~§
..Q9- social, se é que, à maneira de Baudrillard, o social ainda existel),
de.r-ºJ,L~,~.çªp'ar.ª-º.~ __proçessosde controle sociaJ.lié'U;tBl.ª-aE;ttícia com obsessão ao rigor. /).. sociologia deve abordar as dimensõeól.
estrutural, uma sabedoria q].le compõe o cotidiano e que lhe dá qllaJitativaótclª.§'Qçiªbüiçlª<ie.,--R!~oª~!Q!:_"º-o.m09- téc!1~0: domundo
estatuto de soberania social.\O intercâmbio desentimentos, as és-ºmplexa, __ º_.1~2~t9_~º-fº!.ml.!..1ª-!!ªQ~.~~se~.i~epreensível,
tªgª~:fTi~ê~s.~~.I1LÇDnsistência e\~im~~'~lis~l~"'ético possuem força
p~rf~ilO.;.§l~ m.ªi.~_P.ãº.fu.~º_q~~ª11,!~i~ª!:..Eª!:.ª_OJ2·~~~~~Iê~~Ú~:i-
decQesãQ;.$..ªº QrgânicQs,.XJ'l5istem.e,.aQme.s.illo tempo, revelama tosq ue ..pE)fmii~:rp.L!p'-ª!º,ll1;>_~!!!)y!V~!".~l.I!.:;,<.?~i~.9ad.~.:91:) a .sociolo~
.\ cQIIlQkxiªaçle e~ª riqueza decenárioda vidacotidianaj; .cgia é a ideol ogj.1uiª.!lQ§~~éJ1oca,-elª.dgve..partic.ip.ªr..n<Le_dorois.té-
;"1'ioda existência" (Maffesoli, s.d., p. 16, 18-52) ...
. A forma permite perceber o orgânico do social em rnovimento; é
um a priori que atesta as características da vida societal e que permite
.Já vimos que a noção de forma que Maffesoli toma empres- observar a multiplicidade de seus aspectos. A forma permite ao autor
tada de Simmel'" vem carregada de uma orientação simbólica pre- "descrever, do interior, os contornos, os limites e as necessidades de
situações e de representações que constituem a vida cotidiana [...]
Nesse sentido, permite a apreensão tanto das invarianças como das
\01 v..,x. ..COII.lU.a~Jon.\'''5
soctatsse. ~'l.all~ê')ll..J IJ;.JVIOIMIS•. Ee' LO.rgJ:_.$1!lIn1?L",,:lologia.
\. P;.t,do;hW{l.\!983; SIMMEL. (" 00clOl09'" et épistenioloqie. Paris: PUF. 1981.
~ilU .• modulações que ocorrem no vir-a-ser social" (Teixeira, 1990, p. 105).
128 João Carlos Tedesco ,f~radigmas do'(:;otidiano
AJiüciillüg.l<LCDill O ]Jo nt.cLcle....u.i.s.t:LL.Qb.rig~(La n a Iist a.a.ter.,o, gundo Maffesoli, reúne os diversos elementos que constituem o so-
vi.y"ido ..como refer.ência analítiçlLÇo©tank~2LQc.e..deLp.nLanalogia cial, as interações nesse e o fio condutor em forma de rede.
e •..-metáforas
"-"'V - _-- ,'_.-,....----,- adentrar
---._"---_. ""<-'~."""""_" '.~'
no sensível no estetismo e nas verdades
_, .,. .•.._-',-" ..-" - '••...• ,,-'o ','- -.•,-" •••....,." .•..'.•. ,.•. ,.' ••.....•. ,' •.• _••._." •.._~,,_.M.»'~ .•.~. ~._, ..,.~_._.,,_.' .•~ -.- -.. ~...' -,----.--- --~- "",,"-' -,' "-------'-'--,'-'-'--- ..-.
\ Esse sentido do englobante, segundo Maffesoli, permite fa-
.zocªis\\.~ Ia biJi.ª,ªg~.~_ª-.Qgli§-º-e..mi1u;lº_y.iyiJIº.§_Q.Çiª-Lt-ºrnam jJ2~,Eç:.:t- zer analogias, fazer sobressair o minimizado o insignificante 55
~(ô)s()J?,I!létoªo.EQl;üs:.tj.Y.istas. A invariança, a transversalidade, a valorizar o tuelo serve, ou seja, as migalhas (re;íeluos, diria par'e- [,(i
verdade local, o movente, a tensão da forma e do minúsculo, a to) qa compreensão do social.
valorização dos modos de aparecer (a estilística), a superfície que Enfim, criticando o positivismo; reconhecendo a importân-
contém as profundezas, o anódino e o senso artístico formam e cia da ideologia; tendo presente a funcionalidade da forma, da ana-
contêm o pensamento libertário, um espírito livre dos dogmatis- logia; extraindo, da sociabilidade o tempo cíclico, descontínuo e
mos e métodos. Brota daí, segundo o autor, o desejo de inventar, sua pluralidade no e elo social.» formismo maffesoliano intencio-
de fazer ressaltar uma verdadeira aventura da descoberta. .' na atenuar a separação entre linguagem e sociedade. Busca reen-
\', Dessa forma, o forrnismo permite fazer sobressair as caracterl contrar o discurso e a ação, os estilos do cotidiano, num palco
rísticas da vida social sem as deformar muito. Essas características! teatral que comporta sentidos escondidos ou entendidos como in-
formam a vida cotidiana; são compostas de teatralidade e eferves- \, significantes: "Podemos, deste modo, dar conta ao mesmo tempo
cência; estão na superfíce das coisas e das pessoas, na banalidade I da invariança e do aspecto ondulatório dos elementos que estru-
da existência e nas minúsculas criações que escrevem o dia-a-dia/ turam a existência" (Maffesoli, s.d., p. 148).
Se a constatação sociológica tem que desconfiar da abstração con-
ceptual, isso nào significa que ela deva proceder a uma abdicação
A díf1feff<;rlO ~f'l'<;('frfí"tg do catiainno
do espírito. Pelo contrário, não intentando dar uma finalidade pre-
cisa aos atos minimais da vida cotidiana, integrá-Ias em algumas Não há dúvidas de que os vários livros de Maffesoli temati-
grandes estruturas que informam a vida social sem modificações zam a saturação dos valores considerados da modernidade, sejam
notáveis no curso das histórias humanas. O formalismo concep-
eles o individualismo, o ideal burocrático e democrático, o Estado-
tual quer pelo seu próprio ato dar sentido a tudo aquilo que obser-
nação, a racionalização do mundo, a razão instrumental e o pro-
va, apresenta razões e submete à razão, enquanto o "formismo" se
contenta em estabelecer grandes configurações que englobam sem
dutivismo, considerados as grandes filosofias da história, embasa-
reduzi-los os valores plurais e por vezes antagônicos da vida cor- das em fatores teológicos, teleológicos, econômicos e políticos. O
rente (Maffesoli, s.d., p. 89). autor busca substituí-los por tendências, (rejsurgimentos presen-
tistas como o tribalismo, o ideal comunitário fundado nas várias
Ao que nos parece, essa citação deixa claro o contra ponto
formas de solidariedade, generosidade, fanatismos, fundamenta-
forrnalismo/formismo, o sentido aglomerador, englobador deste
último, seu lado germinativo e florescente.
É desse modo que o forrnismo, na concepçãomaffesoliana, for-i ss o arüfícto à analogia permite lazcr referência a formas tipHlcadas sem dar tanta impor-
\ çando um pouco o argumento, é um pensamento doglobal tliolistcú, tância às suas causas racionais, fazendo apenas ressaltar o constitutivo e constituinte
~ssencial da trama social. Por ser comparartvísta. a analogia permite ligar as múltiplas
\ não privilegiando apenas um elemento do particular, tomando, sim, facetas de uma representação global, tanto do presente quanto dos ínvaríantes e moví-
\cada elemento da vida social na multiplicidade de seus pontos. O mentos no processo social (o autor em questão fala ele leitura transversal. em que o
passado ajuda a compreender os latos. gestos e sociabilidades atuais). chamando a
estilo, de que o autor fala tanto, é um bom exemplo dessa unidade atenção para a multidão de histórias que estruturam toda a sociabilidade. Porém. a
global (Pais, 1986). Não é o estilo de um indivíduo isolado; são as leitura truTlsuersnl de Maífcsolí nào pode ser entendida no âmbito das temporaltdades
que se cruzam e das suas contradições (tempos cíclicos. lineares, modalídades diver-
formas, as interações partilhadas por todos de uma mesma cultura sas do repetilivo e sua historicidacleJ no sentido que Lefebvre lhe dão
num lapso de tempo significativo que pode ser o presente. O resulta- Sli Resíduo é tudo o que não é racional de acordo C01Il a dinámlca relacional entre
meíos-üns. Segundo Pare to. em sua teoria ela açcLO, tem-se urna ação racional quando
do disso é uma estrutura dinâmica, flexível, mas que delimita os o ator calcula seus meios e os utiliza para buscar seus fins. Porem, para o autor,
-, traços do modelo cultural eleuma temporalidade. Esse processo, se- grande parte elas ações ::,ufre os Iuuíres da racionaJidacle. deixando-as sem deftní-
çào. Aí esturram os resíd uos.
j() , .:.
João Carlos Tedesco
;·jaradigmas do (;"otidiano ·.... J31
"' '-~"'-
lismos étnicos, religiosos e lingüísticas, criando o que ele chama sentações coletivas'" que constituem o meio das interações gru-
de cultura do sentido, a qual pensa o presente, reforça e reencan- pais. "l..'] em vez de dominar o mundo, em vez de o querer trans-
ta o mundo e o sentimento de pertença, tornando-se o mais hedo- formar ou mudar, a gente se impregna a se unir a ele pela con-
nista possível. templação/A prevalência do estético, a perspectiva ecológica, a
O estilo estético, a imagem, o fim do social e o irreal são as não-atividade política, as diferentes formas de cuidados de si, os
marcas que definem o presente, opondo-se ao racionalismo, à ra- diversos cultos do corpo, são efeitos de modulações de uma tal
zão e suas contradições (as desrazões), dando voz e vez a uma contemplação" (Maffosoli, 1994, p. 16).'
subjetividade de massa, alimentada de valores presentistas." Es- \. 0,°
ses ressurgimentos, e aqui ganham sentido os elementos pré-mo- C' fimrto d..q<;.
gl>gt'l!ffciq-;
dernos no pós-moderno, definem o paradigma estético da pós-
modernidade (tão ao gosto do autor), na forma da transmutação Como já vimos, Maffesoli insiste na evidência do objeto, na
(New Age, mística, informática ...), na proxemia (valorização do certeza do senso comum, na profundidade das aparências e na
vivenciado, do próximo), na sociabilidade desinteressada'" (razão experiência da proximia; só o presente é a fonte fecunda do pensa-
substituída pelo desejo, hedonismo ...), na simpatia universal (to- mento. Esse presente nos permite e nos instrumentaliza deixan-
lerância, indiferença, sólida organicidade dos grupos, felicidade do de lado os a priori aprisionadores para permitir a percepção do
coletiva ...), na centralidade subterrânea (banalidade cotidiana), no que está em estado nascente.
reencantamento (pelo viés da imagem, do mito, do mundo imagi- O autor enfatiza a emoção, o pensamento e a sensibilidade
nal...), na subjetividade do sujeito coletivo (emoção, estar junto, para apreender, nesse final de século :XX, os processos, os fenô-
festivo, a imagem comunhão .. .) e por aí vai! menos e o vitalismo social que se apresentam. Ao invés dejulga-
Esse processo, como um todo, promove a mobilidade social, mentos de valor, necessário se faz vunjulgamento da existência; é
dá a forma =força visível de algo invisível- da ordem desconstruí- desse a priori que é possível chegar ao fundo das aparências .
da na modernidade e reencantada no presente cotidiano. Esse .A hipótese básica ('10 autor é de que há um hedonismo do
1,'1 cotidiano é como teatro do trágico e do lúdico, dos atos e rituais da cotidiano, irrepreensível e poderoso,-que'súb-entendee ~ústenta
i'i
I ~ I:
vida social, da imagem, da finitude, do anódino, da exceção, da
expectativa, do ficcional..., fortificando aquilo que o autor chama
to~a vida em sociedade como se fosse uma estrutura antropológi-
ca não mais regida por instâncias transcendentes, por objetivos
, !II de sociabilidade de base. generalizantes e delimitados por uma lógica econômico-política
Maffesoli anuncia uma realidade que é, acima de tudo, espi- ou moral. Estarnosvivendo um outro ethos, que tem sua lógica na
1I,
11
ritual, mística (Pais, 1986), catalisada não por imperativos políti- ordem daproximia. do que é intrínseco, e que justifica as ações do
!
,I
co-econômicos, mas pelos microgrupos, na sociabilidade de vizi-
nhança, nas aderências religiosas, sexuais e culturais, imajadas
por pequenas utopias intersticiais, específicas das épocas emocio-

vivido cotidiano, do que do social torna-se emocional, enfim, uma


espécie de~ti~.C!:..C!O:.~stéticà
(Maffesoli, 1996, p.11-12).
Esse 'hedonismo subjacente à sociedade presente sempre exis-
I!~ nais; ou seja, uma série de fés sem dogma, animadas por repre- tiu. Segundo o autor, em tempos mais e em tempos menos, a mo der-
I~
í
nidade reduziu-o-porém não o destruiu.Hoje esse hedonismo-ética
do estético - é o que sustenta e organiza a vida social. Essa espécie
1'1
5] Ver em A contemplação do mundo uma teorizaçâo sobre esses elementos apenas
elencados aqui.
i 5R Segundo Maffesoli. é do ordinário que é elaborado o conhecimento social. A idéia
','I l'oderíanlOS fazer 11Ina lista de elementos imqjados que o autor repete em vários de
de desinteresse e de superfície é que faz a colocação em [orma. que dá o caráter
,,('US livros. entre os quais diversos rituais Iúdícos (lato, jogos outros). os arnuletos.
: i essencial do sentido coletivo. sejam eles o estilo ele vida. o aíetívo. a cultura rio
.i vídêncta. os cultos da natureza. a macrobtóüca. as formas da New Age (uusturadas
li sentuuento. o equilíbrio e a sensibilidade coletiva. a ética vinda de boi.xo. Esses
.t r.icíonalídade tecnologícat]. moda. os sloyans, os desiqns, os shopping centers. as
I elementos. aglulinados. oq:(anizarn aquilo que Durand (1960) chama de bacia SI'
, ~ mãntica que promove a tmnsdlLçüo propagadora de um estilo e de uma forma dI'
illl;.lgens televístvas. pequenos ídolos e o esteusmo, elementos esses que formam a
, "
sociabilidade que pouco a pouco cria domínios.
1i 1%(lO sensível e a pesson coletiva que reeucanta o mundo cotidiano,
. ,) ,
,'·jfaradigmas do 'fr"otidiano
João Cartos Tedesco
pela incultura técnica e/ou pela ignorância. A ignorância, segundo
de novo reencantamento do social (Maffesoli, 1994) é produto de uma Chalas (1990), não pode ser tratada como algo marginal ou resi-
colcha de retalhos produzida em sua diversidade inter-relacional e dual. Os objetos técnicos são mais símbolos do que técnica. A igno-
não racional (em vez dos pressupostos irracionais weberianos), feita rância não é o irracional; é, sim, e nesse ponto Maffesoliconcor-
de antagonismos (amor/ódio, bem/mal, carência/fartura) e polimor- da, uma f9U!.ÍQatiua de resistência para preservar situações 'nas
fismo), mas que expressa a ef~I'Vescência vitalícia (noção durkheimi- quais ,~or;wscolocados. A ignorância na vida cotidiana é, antes de
niana) dos processos sociais. E dessa dimensão estética que se refuta tudo, uma ignorância assumida e utilizada, é uma expressão sim-
a base epistemológica baseada na natureza e no indivíduo que se bólica. O discurso da existência é a expressão da cotidianidade sim-
constrói e se transmuta em ética. "Sublinharei freqüentemente que bolizante em face dos elementos naturais e dos objetos técnicos.
a moral é universal, aplicável em todos os lugares e em todos os É possível, para Maffesoli, falar em [amiliarismo, que vai
tempos; a ética, ao contrário, é particular, às vezes momentânea, além das relações de proxemia entre indivíduos e famílias isoladas
funda uma comunidade e elabora-se a partir de um território dado, e dispersas; é possível encontrá-lo na ordem empresarial e econô-
seja ele real ou simbólico" (Maffesoli, 1996, p. 16). mica, na comunidade, nos grupos afins, no setor de trabalho, na
/ A relatividade ética - aquilo que o autor, paradoxal e ironica- multiplicidade de pequenas tribos culturais e nas instituições.
mente, chama de imorolismo ético - rompe com as convicções Weber já atribuía, de certa forma, à comunidade uma estru-
seguras e generalizantes, fazendo com que as prescrições rígidas tura emocional que lhe daria características de [amiliarismo. Esse
se acomodem em multiplicidades de transgressões, porém que [amiliarismo maffesoliano se baseia nos sentimentos comuns da
obedecem a uma tendência à lógica da identificação em vez de experiência partilhada, na vida coletiva, na que está ao alcance
'\ uma estrutura de identidade. das mãos, no que é manobrável com os próximos, na sensualiza-
O autor também se utiliza de metáforas, de conceitos e de ção ,da existência e no gosto da proxemia.
noções como paradigma (em Kuhn), bacia semântica (em Durand), ~ Essa lógica do doméstico está em contra posição à lógica do
subsolo do pensamento (em Foucault), a priori histórico como ra- político que se solidificou com a modernidade. 'Para o autor, a partir
cionalidade aberta (Durand),lógica do conhecimento sensível (Sim- daZ6gica do doméstico, 'as necessidades, o território, as éticas parti-
mel), dentre outras, para embasar a tese do novo hedonismo culares, as concatenações de processos de atração-repulsão que li-
social e para perceber uma dominante específica (em termos epo- gam uns aos outros (Simmel dá a imagem metafórica de ponte e da
cais) ordenadora e agregadora de um conjunto de ações, de senti- porta), as redes de afinidades etc., todos esses elementos criam
mentos, de paixões e de preconceitos que regem a existência coti- LIma espécie de unidade pontilhada:"formadas de relações abertas,
ufêmeras, emocionais, que se elaboram a posteriori; em oposição à
diana.
Esse efeito de composição (weberiano), que Maffesoli (1994 e unicidade fechada da instituição, querendo ser universal, estável,
- 1996) chama de modulações, permite estudar as características de racional e que se quer a priori" (Maffesoli, 1996, p. 100-101).
uma constante em uma época. É desse modo que o autor, refutan- E<ll'a o autor, a afetivídade, hoje, mais do que nunca, é uma força
11 <l vida social, Maffesoli chama -a de experiência sensível, sendo uma
do os grandes sistemas explicativos que regeram a modernidade e
suas lógicas finalizantes, introduz a noção de estrutura do domésti- ('c;pécie de motor dos grandes acontecimentos históricos. A experiência
co como depressão da idade política, do vazio deixado pela ausência .':I'I/sívelestá no mundo imaginal como forma formadora, isto é, como
de projetos, pelo relativismo, pelo pluralismo e pelo hedonismo pós- ruudição de possibilidade das imagens sociais, como inteligência das
moderno. A tentativa é evitar que as formas sensíveis da existência lilimas, atribuindo à existência uma forma de arte. Ao dar significado
V ivido cotidiano, essa emoção coletioa.'" que a inteligência das formas
(o fundo das aparências) escapem da ordem do pensamento. ; Ii I
Maffesoli concorda que o mundo está submisso pela ciência
,·..II\I.i1fl'soliJ19961 substitui o conceito de mundo da vida habermasiano por emoção
e pela técnica científica, fruto de um processo de racionalização ,.,,/, ·1i,,«.. co:m0'~úll1a espécre de senumeuto não consciente de uma comunidade de
intelectualizada do mundo moderno (aos moldes weberianos), po- 11(·:.liIIO. clando lugar
á contemplação daJC!wmenologia das peqW?l1as imageIls corno
\'-"IH10 lima estrutura que possui sua força. inu'in sccu.
rém não concorda com a fato de que a vida cotidiana é alimentada
\
".-:) ,
João Carlos Tedesco ;-1' aradigrnas
.- "-. -. "~"'~

do '(Cotidiano ...•. ~ •. , o., o." .". "," - - . --·.135


provoca na banalidade da vida cotidiana, permite resgatar a noção de porém ambas manifestam as diferentes modalidades de estrutu-
mundo imaginal no mundo do espírito e da informação/comunicação; ração societal (Teixeira, 1990).
enfim, da fisica social e da estética enquanto sentimento comum. A violência, para o autor, vem acompanhada de potenciais
Ao tematizar a questão do formismo, o autor busca interli- racionais e irracionais, de um movimento destrutivo e construti-
gar e estabelecer conexão entre o conteúdo e o continente das vo. As manifestações orgiásticas, dionisíacas, de passividade ativa
interações no conjunto da vida social. Epistemologicamente, sig- das massas, são vitalidades que garantem resistências frente à
nifica uma constante inter-relação e interdependência de proces- institucionalidade da ordem e do poder na vida cotidiana: "['..J a
sos complexos entre as aparências e o conjunto ou estrutura 01'- vivência cotidiana deposita toda a importância num presente ca-
gânica daquilo que chama de "carência profunda" da existência ótico, que deve ser vivido numa intensidade que transcende às pro-
social':'0Maffesolisegue à risca a afirmação de Simmel de que é jeções de todas as ordens (paraíso, sonhos do amanhã, sociedades
necessário dar importância à superfície das coisas para captar uma perfeitas ...). O social é afrontado por esse instante vivido em toda a
estilística social. ~ignifica dizer que há uma ecologia do pensa- sua concretude. Instante esse que precisa ser consumido em excesso,
mento que participa, descreve e se corresponde com os diversos quando se conhece a sua precariedade" (Maffesoli, 1984, p. 25).
elementos do todo que entende compreender, ou melhor, o for- Criticando o utilitarismo da ideologia produtivista, cuja fina-
mismo, como forma (externa/superfície) formante, cria analogias lidade é o progresso e o desenvolvimento (sem envolvimento),
para a imagem, para a intuição; elabora um conhecimento inte- Maffesoli defende um.jjnoralismo ético, um querer-viver em vez
rior feito de conivência subjetiva, a fim de captar a lógica interna do dever-ser, um ser-estar-junto, uma atitude grupal, um nós-
de um objeto de uma interação ou de uma experiência (Teixeira, fusional-coletivo, declinando o indivíduo nas sociedades de massa. ~,
1990). Não é por nada que o autor defende uma ecologização do Os valores aí presentes não seriam mais finalistas e progressis-
mundo social inserido em seu paradigma estético, com equilíbrio tas, mas, sim, de proximidade, proteção, agregação, afetividade,
entre emoções e simpatias não racionais para os que vivem no afinidade, coexistência, orientação para o outro, empatia, comu-
mesmo espaço de ocupação do vivido como di.mensão natural. nidade etc., aspectos esses que constituem o orgânico e o societal
moderno. A unidade da comunidade constrói-se no coletivo' seu
sentimento é que produz o consenso e mede o grau da universali-
',">oder'!' O(yf::t<;dio"f"hc::t<; dade. A moral empática, proxêmica (a lei do meio), o ethos grupal,
Adentrando nas questões de violência e de poder (A violência a comunidade emocional contaminam o imaginário coletivo, for-
totalitária e Dinâmica da violência - 1981 e 1987), o autor analisa mam o caldo de cultura rico em possibilidades futuras, cimenta-
o papel da palavra como legitimação e subversão do poder e da dores da comunicação, do afetual e do societal (Teixeira, 1990).
violência. Analisa o confisco da fala pelo poder, o perigo da fala, a No fundo, é essa inflação de sentimentos (Sirnmel) que, se-
fala vazia, a ruptura do instituído pela palavra: "É isso que pode gundo Maffesoli (1994 e 1996), forma a atmosfera ambiente da pós-
permitir dizer que o profeta de hoje, o orador revolucionário, o modernidade, envolvendo o indivíduo que "não faz mais como os
poeta exaltado e o revoltado prefiguram o déspota ou o homem de outros", o meio natural, as relações sociais e os convívios. Esse é
Estado de amanhã" (Maffesoli, 1987, p. 62). o novo êxtase no corpo social (em substituição ao êxtase cristão),
o novo ethos que valoriza o próximo, que anima (reencanta) a
O autor discute com muita propriedade a chamada "apro-
atmosfera ambiente, a nova comunhão de consciência (Durkheim),
priação da fala", a ideologia da participação, a permissão da fala e
que não se baseia mais só no mito do progresso ou do fazer, mas
a palavra tomada. Ligando essa questão do poder da fala, Maffesoli
também nos elementos imateriais, imajados e simbólicos que as-
resgata a violência potencial e real que perpassa e constitui o
seguram a coesão do conjunto social.
dinamismo social; resgata a noção de luta como fundamento das
Contrapondo-se às análises do individualismo, do desencan-
relações sociais (concorrência, negociação, instabilidade, recusas
tamento e da razão instrumental, o autor afirma que o que está
etc.). A violência adquire formas instituídas, banais e anômicas,
João Carlos Tedesco :Y~radigmas do y;. ~tidiano ...•......... , ..... J37
imanente não é mais o indivíduo enclausurado na fortaleza de sua de padronização da ciência moderna, descompactibilizando a ciên-
razão, mas o conjunto tribal que se comunica por uma rede de cia e o intelectual das funções sociais de engajamento da ciência e
imagens (imaginário, simbólico, onírico, festivo ... ), a qual, ao in- da razão como projetos históricos (caros a Sartre e a Touraine).
vés de separar, une, alia contrários (Pais, 1986) presentes no cor- Lyotard é um apologeta do fim da razão, da razão dogmática,
po, na comunidade, na língua, no local, formando uma (inter) sub- instrumental, de dominação econômica; apologia crítica, de certa
jetividade de massas, estilizada e formada (formante) no vivido forma, que caminha pelos mesmos referenciais críticos já pre-
cotidiano-comum. sentes nos modernos, porém com uma ressalva: estes não subli-
nhavam a todo o custo a heterogeneidade e a fragmentação, nem
a subjetividade como ator social, estético e projetivo (diacrônico),
rompendo completamente com as promessas de progresso, de ra-
zão histórica e de utopia (Diehl, 1997). As formas sociais e/ou de
Na linha que vimos desenvolvendo caminham outros auto-
sociabilidade manifestam a nova razão histórica, fundada no pre-
res. Um deles é Lyotard (1988), que defende a tese do desconstru-
sente, despida de qualquer resquício das categorias de progresso
cionismo, ou seja, argumenta que as antigas narrativas do ilurni- dos modernos (uniforrnizante, estratégico, linear, etapista e tota-
nismo que legitimaram o cicntificismo ocidental, a ciência eman-
Iizante); é o suposto do bem-viver, do reencontro, em última ins-
cipadora da humanidade e do conhecimento e que constituem o tância, do fugidio e do flexível.
desdobramento do espírito do mundo perderam a credibilidade.
).\Em síntese, Lyotard e Maffesoli são os grandes defensores
"O consumo tornou-se um valor absoluto e suspeito." Mesmo que
de uma postura antimoderna na contemporaneidade.
desconstruindo princípios consensuais, o autor reconhece que a
justiça, como valor, não é obsoleta nem suspeita. Porém, no uni-
verso científico não há nenhum consenso que vá além das redes
locais de parceiros unificados na base de contratos curtos e efê-
meros (Levine, 1997). Primeiramente, é bom que se diga que a ruptura epistemo-
Lyotard talvez seja' a grande referência das críticas e das lógica provocada pelos pós-modernos, segundo alguns, não pode
adesões em termos de diagnóstico, método e teoria da pós-moder- ser vista como sinônimo de irracionalismo, em comparação ao
nidade e da radicalidade dos cânones e dogmas da modernidade, modelo dos frankfurtianos e nietzshianos; é expressão da [ragili-
alguns há tempos revistos de dentro da modernidade pelos mo- zação dos modernos. Mesmo que não consigam elaborar um pro-
dernistas. jeto que supere a modernidade ou, pelo menos, que dê conta de
O seu pós-moderno (1988) polemiza grandes mudanças por processos mais globais, os pós-modernos são precisos em apontar
que passam as sociedades industriais avançadas, o impacto tecno- a ambigüidade nas metanarrativas da emancipação da humanida-
lógico e os novos saberes, as novas dimensões políticas que acom- de, da unidade da razão, da experiência histórica da modernização
panharam as novas tecnologias. Lyotard pensa mais amplamente como projeto central iluminista.
o social, diagnostica a dissolução das grandes narrativas, adentra A razão que mergulhava na racionalização e na seculariza-
na discussão wittgenstiana dos jogos de linguagem, do dissenso; ção, presente no interior da modernização e que já se constituía
contrapõe-se aos sistemas de legitimidade e de integração social; corno potencial contraditório para os modernistas, encontra ago-
advoga a necessidade de se chegar a uma idéia e a uma prática da ra um outro sujeito e tematiza um outro projeto com pouca iden-
justiça que não se relacionem à do consenso. tidade histórica. e fronteira para o social e o indivíduo.
Dando ênfase à pluralidade de linguagem, de conceitos, de É aí que as críticas são pesadas (Rouanet, 1987; Sevcenko,
possibilidades, de discursos, dos valores, de instabilidade e des- I~)88;Diehl, 1993; Santos, 1986; Berman, 1988; Pais, 1986, dentre
" continuidade, o autor mostra-se um exímio crítico da tendência outros), Nesse outro modelo habitam o ecletismo, os simulacros e
li pragmático junto com o sensível presentificado, com a indiferen-
13ft .. João Cartos Tedesco ,!/~radigmaS do '(!otidiano 139
. -.-- .........•....
ça perante os grandes dilemas e projetos sociais de desmobilização, de sentido (utopias), porém, eI:n nome do imperialismo da razão,
de despolitização e de anti-revolução. O que quer se tornar lugar- cai-se numa fenomenologia sensualista, aleatória, cultuadora do
comum é a cultura da auto-imagem e o hedonismo do aqui e do sentimento'(Pais, 1986). A aparência ganha contornos de cientifici-
agora cotidiano - estetizado, informado [significado] e personaliza- dade, noção essa pouco present.e na proposta maffesoliana. O que
do -, em contraposição aos processos de burocratização e racionali- importa é sua manifestação mais real ("o que existe é o que parece
zação da organização social tecnocrática e programada.D impor-
existir"), como realidade em-si. Além da aparência só pode existir o
tante é consumir, e consumir por consumir, sem céu, sem história,
inacessível ao conhecimento, tese essa, ao nosso ver, problemática
sem revolução, sem projetos culturais e sociais previamente cone-
(não de hoje) para quem tematiza os "resíduos", a subjetividade,
xos e unificados, nos moldes da já consolidada civilização indus-
enfim, penetra na sociologia compreensiva.
trial. O importante são os signos, as imagens, o lazer (Iazer e tempo
A episteme centrada na experiência como a única que encer-
livre), a libertação do corpo e das fantasias (sem construções e re-
ra uma potencialidade cognitiva também pode desembocar num.
presentações sociais), o viver o cotidiano, o ecletismo, o pacifismo,
relativismo sem sentido:
esperar a próxima novidade, enfim, viver a espontaneidade e a se-
dução.É nesse terreno que Maffesoli planta sua vinha; é aí que o Com efeito, tal comojá foi dito e redito, tudo serve para a sociologia,
autor se deleita e se embebeda com seus frutos, contemplando o tudo é método, tudo "encaminha";
mundo na Sombra de Dionisioi (título de um de seus livros) quando se quer ser muito completo, deixa-se escapar o essencial; quan-
As críticas que brotam de seu modelo são muitas, e aqui nos do muito se quer discriminar, delimitar, suprime-se o que faz sentido, e
interessa a questão do cotidiano. 'Ao que nos parece, Maffesoli isto com a cega eficácia do trator que arrasa tudo à sua passagem.
temat.iza o cotidiano como que se autoproduzindo, desvinculado O aspecto cognitivo da experiência nos força a prestar atenção aos
das referências apriorísticas da estrutura e dos sistemas de racio- acontecimentos, aos fenômenos, enfim, a tudo o que se inscreve no
instante e no presente.
nalidade que lhe são subjacentes.Por mais que o autor defenda a
idéia da necessidade de integraros fatos cotidianos numa "com- Há, de fato, uma regra básica, em toda a diligência científica, que
é a de reclamar sua perpétua superação.
preensão global", sua análise está temperada com uma atitude
relativista. Propugna a existência de uma hierarquia de razões, Nossa definição dos conceitos depende de nossa posição e de nosso
ponto de vista que, por sua vez, são um e outro influenciados por um
porém privilegia uma razão interna e não só uma externa, ao
bom número de procedimentos inconscientes de nosso pensamento.
mesmo tempo em que busca uma perspectiva holística. No entan-
A separação da objetividade está em vias de dar (seu) lugar à
to, parece que tudo é válido; a lógica do isto e do aquilo, do e com
intuição da experiência 1 ... 1. Tudo isso demonstra que o hábito de
o objetivo de alargar o conhecimento, corre o risco de ignorar ou,
"tomar distância" 1... 1, vai dando lugar a uma maneira de fiel"mais
até, de acabar com a consciência das contradições; os conflitos "participa tiva".
ganham pouca importância (Pais, 1986). O heterogêneo enquanto
Demo-nos conta, de diversas maneiras, de que o sensualismo, a preg-
identidade faz perder a unidade, rompe com a possibilidade de nância do imaginário, uma concepçãode tempo rnarcada pelo presente
utopias. A socialidade substitui o social. Portanto, a dimensão po- e pelo trágico, o relativismo intelectual- tudo isto enfatiza a pluralida-
lítica tem pouco lugar na vida social. de dos aspectos da vida social e pluralismo inerente às abordagens
Em nome do antipositivismo (o que é até compreensívell), destes mesmos aspectos (Maffesoli, 1988, p. 198, 199,200,215,218).6]
Maffesoli centra suas análises no microssocial, nas relações sociais Todas essas citações garimpadas refletem a questão episte-
imediatas sem levar em conta os conflitos, as tensões, os grandes mológica da metodologia maffesoliana. Em nome de uma anti-
temas e movimentos que perpassam a sociedade: a dimensão da objet.ividade (neutralidade), de um anti-rigorismo metodológico,
história, do poder do Estado e da tradição. A sua concepção de socio-
logia do desinteresse desvincula-a de um rigor no método de análi-
1;1 Os fundamentos dessas idéias teórlco-metodológtcas estão também ('III O cOll/leci.
se do social. Segundo o autor, não têm mais sentido as teorias cheias mento conuun. São Paulo: Brasiliense. 1988: apresentam-se ainda. em Itpislelllologie
140 João Carlos Tedesco
,7~radigmas do '(otidiano . 141
de uma razão linear explicativa, do distanciamento e do marco
teórico, resvala-se para uma empatia, para uma análise estetiza- tanto, não significa que tenhamos de entender o real no seu lado
da e presentista da existência. Paradoxalmente, Maffesoli, ao jo- oposto, ou seja, pela razão interna, sensível, presentista e localista,
gar fora a água do banho, parece que joga também a criança. como se a modernidade estivesse superada e os modernistas não
Alguns criticam Maffesoli pelo fato de ser adepto das análi- se dessem conta de que o mundo ou as transformações em curso
ses do local, do microssocial sem ter em conta os grandes movi- foram e estão sendo negligenciados (Diehl, 1996).
mentos e as grandes tensões do mundo econômico e da história. Maffesoli é um dos garimpeiros dapedreira (na expressão de
O fato de estudar a labilidade e os fatos anódinos não significa que Kocka apud Diehl, 1997) que é a obra weberiana, ou seja, há mui-
o método não tenha de obedecer a uma certa rigorosidade; assim tos que tentam tirar a pedra que melhor lhes convier para cons-
como contestar o racionalismo da sociedade moderna não signifi- truir seu modelo e/ou justificação teórica (o interressante e para-
ca ignorá-lo, nem negligenciar as grandes interrogações sobre o dsxal é que serve tanto a pós-modernos quanto a rnodernosl).
lugar da razão na sociedade atual (Durand e Weil, 1989;Pais, 1986). \ 'ê.\ Weber defende a potencialidade da consciência individual. O
Segundo o autor, a centralidade do presente dá-se em razão desejo comunal, solidário e fraterno entre os homens que a razão
da precarização da vida presente, a qual não reserva nada de possi- instrumental bloqueou criou o mito nietzschiano da irracionalida-
bilidade de transferência de perfeição para o futuro (Teixeira, 1990). de, expresso na fuga, no fugidio, no desespero, na resignação e no
O presente é que merece atenção. Ao devir histórico, Maffesoli dá sofrimento, desresponsabilizando a capacidade do indvíduo em re-
poucas perspectivas. O presente precisa ser vivido ao máximo, lação às instituições, à crítica, colocando-o na massa e na abstra-
intensa e qualitativamente. Frente a algumas críticas, o autor ção. Além do mais, colaborou para institucionalizar o social, os de-
defende-se dizendo que seu presentismo radical não significa au- veres, os papéis, os lugares, os sentimentos e as especializações.
sentar a história, pois essa influi no cotidiano; o que o autor quer IAo contrário, Maffesoli fala muito em reencantamento do mun-
é negar os projetos da história, os mitos de vida eterna profana- do, fala no sensível que está no fundo das aparências. No entanto,
dos como modos da vida social. Maffesoli pensa numa sociedade nega-se a refletir sobre a humanidade desumanizada, sem cultura,
presente perfeita, portanto, ao advogar unicamente essa, não es- instrumentalizada pelo perito, pela burocracia, que impede a con-
taria sendo reducionista como os que critica?
duta livre da vida na superficie das aparênciaeç Essa é real. A racio-
Não há dúvidas de que nossas análises e nossas posições teó-
nalidade da técnica e a do poder burocrático, ao invés de desenvol-
ricas estão ainda apegadas a instrumentais teóricos do final do sé-
verem a racionalidade sensível, reduzem-na ao nplismo, à perda do
culo XIX: classe, indivíduo, Estado, nação, razão, fundamentados
sentido e da liberdade como condutores da vida.
em relações econômicas, políticas, dentre outras. É indubitável
Maffesoli entende isso, porém retoma Weber no ponto em
também que esses elementos metateóricos estão em crise como
que o autor lança um olhar àquilo que os críticos de dentro da
instrumentos de análise.v- A modernidade associa-se à racionaliza-
modernidade chamam de "irracionalismo": o sensível, o amor, a
ção da sociedade em vários de seus níveis, privilegiando aspectos
afinidade, o erótico dionisíaco, o fugidio, o presente, o despreo-
de mobilidade, de funcionalidade, de transtemporalidade (desencai-
cupado, o loca!..., em última instância, aquilo que, para o autor, é
xe), transcendendo as particularidades locais ou nacionais. No en-
o cotidiano. O autor busca reconstruir e reinventar a vida cotidia-
na longe do refúgio para o desencanto, próximo do próximo, do
presente, mediada pelo conhecimento comum e pelos significados
ele Ia vie quolichennc. CClhiers lnterllClliO/lCll/X de Sccioloqie, v. LXXIV, ] 983; e em Le subjetivos dado às relações sociais.
ru uel et Ia vie quolidienne couuue Ioudements des histoires de víe. Cahiers ...
v, LXIX 1989. O sentido ético do estético também é problemático no autor.
(j" Ver ORTIZ. Renato. MLLlldinlizaçc/O e cul/ura. Selo Paulo: Brasiliense. 1994. Também Por ser intercambiado em comum, o estético suscita um valor
Otávio Ianni Sociedade globnl: Teorias ela glo!Jalizaçc/O e A em elo globalislllO. 1992.
J 995 e 1996. respecttvainente. Ambas sáo referencias que. mesmo não sendo pós- (narcisismo coletivo), uma paixão partilhada, uma sensibilidade
modernas. nos ajudam lia ccmprec-n sào elas grandes questões soci;:ds e culturais coletiva que serve de fundamento à existência social (Teixeira, 1990).
da couteruporun.-ulad-.
142, João Carlos Tedesco
As críticas surgem pelo excesso de estética, o que poderia produzir
um projeto de indeterminação e de espontaneidade natura~.
Segundo os pós-modernos em geral, tendo Maffesoli na so-
ciologia como um grande tematizador, vivemos num contexto no
qual a metalinguagem, a grande teoria, é um hors-sol; a p~urali-
dade de regras e comportamentos (os tribalismos na aldeia glo-
bal) a atomização do social o pluralismo descentralizado, as va-
riedades de inclinações e julgamentos não têm lugar na centrali-
o COTIDI
dade dos mitos, dos universos ideológicos universais.f
Não obstante, os pós-modernos, nas suas abordagens, pelo
VERTENTE
menos colaboram para nos levar a reconhecer transformações e
especificidades em curso. No entanto, a idéia de pós é muito forte e
MA
é também anuladora: dá idéia de um radical antes e depois (Ortiz,
1994). Isso nos faz perder a dimensão do processo, de continuidade
com superação e preservação, que se constrói a partir dela, no
âmbito do conflito e das contradições. Não perceber a dialeticida-
de, a razão instrumental, °
problema da colonização do cotidiano,
a emancipação pela razão, a problemática das lutas de classes e do o nosso interesse aqui é aprofundar alguns tópicosda sociologia
mundo do trabalho (alienado e reificado) e suas inúmeras supera- da vida cotidiana que têm comofonte o pensamento marxista, expres-
ções/conservações, redefinições, hoje, sob a ótica do capital, da so numa vertente crítica, comoé o caso de Lefebvre, Lukács, Heller e
sociedade de mercado, do pós-indust.rialismo etc., é, no mínimo,
de outros oriundos da Escola de Budapeste, a qual deu grande contri-
estar fora da tão propalada aldeia global. . buição para a renovação do marxismo, principalmente das primeiras
.: Pensar desinteressadamentê sine ira.et odio=é, no mínimo,
obras de Marx. Para nós, interessa a temática do cotidiano.
perder a perspectiva da história, da memória e da cultura; de per- '<Lukács, especialmente na obra A estética, (;;;oferece os fun-
ceber criticamente o real imaginário/imaginável e a cotidianidade
damentos ontológicos para uma sociologia da vida cotidiana que
que se instaura (ou é instaurada). daria o embasamento para vários trabalhos de Heller. Desses fun-
Daí a necessidade de abordar o paradigma marxista de aná- damentos ontológicos, alguns podem ser esboçados aqui, tais como
lise do cotidiano. a insuprimibilidade da vida cotidiana; a idéia de que, enquanto
espaço-tempo de constituição, produção e reprodução do ser so-
cial, a vida cotidiana é inelimináuel. O cotidiano e a história são
níveis que se constituem. Afheterogeneidade, a imediaticidade, a
superficialidade extensiva, a singularidade em vez da genericida-
de, a particularidade, a homogeneização e a dialética cotidianida-
GIDDENS. A. As conseqiiênciae el(( l71oclerniclncle. São Paulo: Unesp. 1991. aumen- de/suspensão são algumas das determinações ontológicas da coti-
ta mais a polcmíca caracterizando o período at ual como sendo de uma altn TlIoder~
nidade, expressando. com isso, continuidade com e specificiclade s. raclicalizadas e
dianidade na análise luckacsiana~'J
construíclas a partir eleja. Rouanet (1987). num arugo intitulado "A verdade e a Ajdéia de homem como serprátjçce social,produzindo-se
ilusào do pós-moderno". coloca a clífercnca ent.re consciência de ruptura e a rup-
tura real. Diz que os pós-modernos julgam que estáo vivendo mudanças _e. ll? por meio de suas objetivações, o ponto de vista de classe, a catego-
entanto. no fundo nào estão. As dimensôes do politíco. das utopias. da razao cri-
tír-a, da emauctpacào do honrem. duucn sóe s (1;..1 liberdade nào clesaparec~ralll.
'. (q Titulo de um capitulo de 1I111 dos JhTOS de Maffesolí. que. em seu sentido ligurado.
-,acrr-dítamos. (11ler dizer "bento de possíveis idéias preoour-ebidus". ",; LUKÁCS. G. Estét.ica I: Ia pecullartdad ele 10 estético. Barcelona: Grijalbo. 1966.
144 João Carlos Tedesco
,1'&radigrnas do '('otidiano
... 145
ria de totalidade (concreta), de mediação, de negação, de contradi-
ção, dentre outras, são as fontes lukacsianas que permitem a apre- '''\fragmentos da vida cotidiana - o trabalho, o ócio, a organização, a
ensão da realidade - concreta, estruturada e dinâmica - e a supe- festa -, a estruturação, manipulação e controle racional do uso do
ração do abstrato enquanto razão, possibilitando à razão teórica tempo, do espaço e do corpo,~Ilti!D.!~.º-otidiano
comolug~-ªe emba-
J&.-entm_Q~onç~b.idºe.03ivido._ ___ ._._
reconstruir o ser social como humano-genérico e o real na sua
Vejamos isso mais de perto.
totalidade concreta (Neto, 1987).
Inúmeros estudos contribuíram para dar corpo a uma sociolo-
gia da vida cotidiana sobinfluência, em grande parte: marxista ',Ador- J! owi lef'i.l&'vvL'
no e Horkheimer, Arendt, Morin, Bourdieu, Freud," Ferrarotti, den- ~"fN,qdo(' do co1idiqfW
tre outros refletiram muito sobre a arte, a cultura como mercado-
A obra de Lefebvro é, como diz Martins (1996), um retorno a
ria, com suas lógicas de funcionamento e de desenvolvimento. Mas é
Marx - um retorno à dialética (retorno crítico) -, contemporanei-
emLefebvre que o tema se torna mais rico, mais completo e comple-
zando-o aos problemas do capitalismo, buscando resgatar a huma-
xo.Pkra ele, a vida cotidiana não é unicamente apresentada como
nidade do homem na relação com a natureza, nos fragmentos e
alienação, mas também comovivido. Não é só o lugar das lógicas de
no residual que a colonização do cotidiano, pela racionalidade téc-
funcionamento do sistema institucional. O vivido é digno de interes-
nico-econômico,produtivista, produziu sob a égide do Estado. O
~e .ao mesmo tempo, como resistência, não somente como resíduo
autor sempre se caracterizou como um crítico radical do mundo
pr~duzido historicamente pelo nascimento das instituições. Para
moderno, porém sempre animado da vontade de o transformar.
'Lefebvre, o horizonte de análise da vida cotidiana abarca trêsele-
Sua obra, mesmo não tendo a atenção que merece, permanece
:mentos indissociá.ve~s:6 tnlb_?JhQ2e0s la.zeres e. a y:unília, :eIl~-º_o atualíssima,
! reino da mercadoria instalado nomundo industrializado e urbaniza-
A obra de Lefebvre reflete e ternatiza os grandes debates e
!I d~~~~o "pano de fundo", criando, assim, uma "vida cotidiana como
os grandes movimentos de idéias que marcaram esse século e a
; totalidade segmentada e como zona de demarcação entre a parte
modernidade - o nacionalismo, a cotidianidade, o estruturalismo,
'! dominada e a parte não dominada da vida: ao mesmo tempo como
o urbanismo, o estatismo e o neoliberalismo -, tratando-os sob
I! rotina trivial e vivido profundo" (Lefebvre, 1981, p. 56).
uma orientação crítica e uma busca constante de compreensão
"', Mesmo com algumas divergências na abordagem, tanto Le-
dialética de seus fundamentos.
febvre quanto Heller entendem a vida cotidiana como obje~opri-
vilegiado de estudo. Ambos tematizam o indivíduo, a rotina, a No aspecto que aqui mais nos interessa, que é a críticéLda
reprodução das relações socais, o virtual, as representações." os ViciacQtiçliªD.a,;Lefebvreanalisa ascorrtjrruidades eçlescont~Dlli-
d,ªg~g,º que é cícliccelinear; a reprodução das relÇlÇÕefô çlepI'Q.Q,!J.:
çâa..aeupoder de norma]ização.!Porém, suas análises revelam o
potencial crítico e inventivo dos grupos e dos indivíduos, a forma
()(j Freud refletiu muito sobre a psicologia da vida cotidiana. Para ele. os sin_tOlll(~~ da
coUclianidade. seus gestos mals anodínos. por vezes incongruentes. sao efeitos como o micro e o macro se relacionam, se refletem e se dialetizam.
dos coutlttos inconscientes.
rconcon t ram as motívacões
O cotidiano
conscientes
apresenta-se
e íuconscíentes:
COlHO um teatro no qual se
é o ~spaç'o dos quadros
Lefebvre jamais viu a economia como objeto de estudo autô-
latentes ele- nossas inquieLudes. crenças e desejos. Fre ud professa um certo 1=CS- nomo, nas buscou inserir as relações sociais, políticas e institucio-
sínusmo frente à civiliz açáo atual. prisioneira da sensibilidade e c~,:-s ernoçoes.
nais que a subentendem. Aoevitar a famosa oposição entre infra-
promotora da privação e da alienação. O cOti9iallo. para o ~UL?r. _ITl<-llutesta.o _~~p~-
ço/cenário de mottvaçoes conscientes ou nao. A _de~co.Il~I~llllc~ade e/o~l rep:~llçao
expressalll isso. O pc sstrursmo de FI,'eud em relaçao a clvl1~z<~çao nlo,de~ l~a ~l~l.~_ ll~~
lira a esperança de que os elos afetívos possanl se presenal, e, ~utal pala escapL~l
das ínjuncóes sociais. O autor insiste ,nas enlo~ões., na ,sen~lbllldade., l~a con~unl- sunudn pelo produto. COl110 o cotidiano torna-se um espaço por excelência das
cacào íntersubjeuva. mesmo eru meio a alienaçao e a privacao. no cottdí.mo. como representações e, ao mesmo tempo. das ausências. O tecnicisrno. o estatlsmo, o
eSI;a('OS de manífestacào dialcuca. . __ _ ' cou sunusmo. a repetição e a tautologia, a lógica da identificação (homogeneízan-
(i7 1-1. Lefebvre , cru Lu presence cl l'nhsence faz uru estudo aprotuudado sobr~e a teoria do gêneros. tempos. espaços. ao mesmo tempo. fragmentando-os e híerarqutzarido-
das represcnt acõcs. mostraudo como. na sociedade' capitalista, a obra e sub- os). entre outros, formam as conexões do rc pre sc-ntado. representante e represen-
tativo na rclacao confltt u.i l entre cOllccbido e vivido,
~)I) d ,/,:
14(:, João Carlos Tedesco .. ::r'àra igmas do t( otidiano
estrutura e superestrutura, a base econômica sobre a qual se cons- capacidade crítica e a inventividade dos grupos e indivíduos. Para
trói o aparelho estatal, Lefebvre busca encontrar [undarnentos ele, as transformações nos planos tecnológico e burocrático no
horizontais não para refutar os fundamentos da base, mas para habi~at e nos modos de vida não são somente pequenas muda~ças
melhor compreendê-Ias. É desse modo que, para Lefebvre, o Es- localizadas na escala micro, nem simples fatos isolados. As transfor-
tado tem um papel importante na economia: garante a vida eco- maçõ.esse imbricam e se superpõem para engendrar modificações
nômica e social, ao mesmo tempo em quegarante a perenidade decisivas (trata-se da reprodução das relações de produção).
das estruturas mercantis (produção/troci)~p papel atribuído ao Dent!:.º-~a~,p.r:()~!~'!láJ.ieq~Jwvas que tomam conta do coti-
Estado por Lefebvre faz dele um mediador entre o econômico e o diano, Lefebvre atribui à questão espacia! umpapelfúndaméntal.
social, tendo em suas mãos a sociedade inteira. O modo de produ- Preocupado em reabilitar a vida cotidiana através de sua dimen-
ção é, portanto, um produto político; contribuem, para tanto, o s~o espacial, após as análises sobre o rural, pós-1968, Lefebvre
direito (o sistema contratual da sociedade civil), o campo social, o vai denunciar os problemas dos grandes conjuntos habitacionais
trabalho (fragmentadolhomogêneo e hierárquico) e as instituições a forma como o capital organiza o espaço do'habitat para melhor
em geral (Seabra, 1996). se utilizar da força de trabalho . .Tematiza em vários livros a ne-
Para o autor, pensar o mundo onde se vive é pensar proble- cessidade de restituir à cidade seu ~ã~-áte~d~t~~t~iid~d~c~n~r-eta
mas novos, multiplicar os reencontros, as viagens, usar as virtua- ,.~uàsiriioorogia, não reduzida ao utilitário (Tedesco et al., 1998). O
lidades do vivido para fundamentar a investigação científica (Car- direito à cidade manifesta-se como forma superior dos direitos~
Ias, 1996). Suas reflexões críticas sobre a vida econômica, política dir~ à liberda~~c_à,il1<ii\T~qll.ª,ÇAoI19- ao
s()c;~9:1iz..ªÇ.ªQ.,_a_o.!H!PUate
e social, seu trabalho sobre as 9ategorias, as representações e as I:.::~it.af;'âapropriação. Acidade insere-se num espaço de r~l~çÕ~s \
mediações foram no sentido deHesfetichizar o real. Tªmp~m.J!rQ~ S~~l.31S fundamentais de um modo de produção. No entanto, a pro- .Ii
cura mostr:.ª-X comoaprodutividade aniquilou a criatividade; como d,~.~ã~do espaço não é um reflexo passivo, exterior às relações
'11. o produto sobrepôs-se à obra; como o crescimento substituiu o S?~l31S: ela designa uma dimensão decisiva dos processos de sua
dgê~Dy_ºlviIll~Ilt.º;
çº,Illo,ªdiferenç(1 se reduz à id~ntidade~.ªªgª: (r(ó))produçãodoconjunto, que é também, num mesmo movimen-
logia; como o consumo é burocratizado e dirigido," o postulado da to, (reiprodução espacial de suas contradições (Carlos 1996' Mar-
equivalência da mercadoria e sua opressão; a produção política da tins, 1~96). ' ,
sociedade (o instituído e o instituinte - o direito, a lei, a moral-, Ú;O espaço, na dimensão do cotidiano, é um locu« onde se des-
a estatização da sociedade)," bem como sua decomposição e a preg~m forças sociais antagonistas, lutas em jogo, regulação dos
emancipação do civil, do social, o resgate da individualidade do confhtos - Estado e seus aparelhos, inclusive o sistema urbano-
ser humano, o estranhamento como contradição (Seabra, 1996). urbani~mo -, apropriações do espaço, represerrtaçõas do espaço
__ Lefebvre define o cotidiano comolugar de uma possível apro- (percebido, concebido e vivido}, segregações de classe (expulsões,
,//' priação do devir social; dialeticamente, comogeral e singular; como integrações), contradições do espaço (muitas vezes fetichizadas e
\ um atributo social e individual; ~º-rp.-º_'p'erIllªQ~p'.!u~peti~9_,~. reificadas como sendo do espaço mesmo, em-si, naturalizando os
mudança. 8e...,1:LgpprQc.hgtorna jndissociávelosistemae _oa1.QL o antagonismos sociais)."
instituci9,I!ªL~ Q.~~yido.\
(,
I
Na Critique de lo. oie ... II!, Lefebvre coloca em questão o
jproblema das continuidades e descontinuidades, o cíclico e o li-
artíctparnos ele Ul11 estudo sobr-e o processo ele ur-banizaçào da região de Passo
\near, evidenciando as relações de produção, revelando também a
7~
F~lndo (RSJ, no qual bllSC,'1110S refle t ir sobre a concepção de espaço (produto e
produtor SOCial). tendo C0l110 matriz teórica básíca as obras de Lefebvre. O estudo
sobre o espaço. em varias de suas obras. ajudou-nos a compreender a dimensão
do coüdíano ~,jvldo na periferia urbana. bem COlHO a ímbrtcaçào existente entre O
68 Brilhante análise do tópico é encontrada em A vido cotidiana no mundo moderno. esp~~o e a Vida cultural líruagtnártos e simbólicos aí presentes) e a organização
São Paulo: Álica. 1991. ecouonuca de um gmpo ele excauiponese-, estabelecidos na periferia urbana de
6<J Lefebvre trata disso em Dei E/CIt. Paris: UGE. 1978. Passo Fundo, RS (Teclesco et al., 1998).
. ')
,Yaradigmas do '&:otidiano
148 ..' João CarlosTedesco
projeto revolucionário articula-se em torno de três elementos: a
,
; -I
Mesmo fazendo uma revisão, superficial de alguns de seus contestação sexual da ordem moral,á revolução urbana suscetí-
I,!' livros, principalmente sobre o cotidiano, percebemos, à luz dojo- vel dé Íl1Ven~arUmriovo usodo espaço mais lúdico e afesta reen-
uem. Marx, que Lefebvre tematiza o conflito entre o momento da contrada, a qual colocará o tempo livre no centro da vida coletiva
objetivação e o da apropriação~{,O momento da objetivação é o (Seabra, 1986),
momento da colonização do cotidiano, de sua dominação pela téc- Delimitaremos melhor esses pressupostos enfocando-os teo-
nica (mesmo produzindo irracionalisrnos), pela lógica produtivis-
ricamente na ótica da vida cotidiana, baseados no pensamento de
ta, pelo Estado (expropriando o sonho;" o corpo, o sexo); já, no Agnes Heller e Henri Lefebvre.
momento da apropriação, estão presente o afetivo, a obra, as par-
ticularidades.f Ambos refletem a dialética entre concebido-vivi-
da-percebido, entre a superfície e o racional, alienação e obra, em b!t~uf{~n1a'!.1eól'ico~ lJtU~ cerecterizei« a
toda sua plenitude analítica.
Enfim, como diz Seabra (1996, p. 77), para Lefebvre, o coti- vida cotiaian» ófictJ u,tH';.I'i.ta tl1ais .cH1'ff'fa
/1[-}
diano Como já mencionamos, a vida cotidiana é um complexo re-
é ao mesmo tempo concreto e abstrato, institui-se e constitui-se a lacional de difícil entendimento. Há necessidade de análise de
partir do vivido, Com isso ele traz o vivido ao pensamento teórico e situações, de fragmentos e de fatos que a caracterizam no sen-
mostra aí uma certa apropriação do tempo, do espaço, do corpo e tido de perceber nesses a expressividade de elementos totali-
da espontaneidade vital [".],Qs.ºtiçFélno,e]~ própr-io, é a mEC4iélfª0
zantes. Falando como Heller, a vida cotidiana é a vida de todo o
!illtX:~Q econômico e o político, objetivação de e::;tratégias do Estaqp i
,QQ i:l.(:m.~i.dq,
c\~uma gestão total da sociedade [,,, I,as lutas pelo uso, ; ho..mem e do homem tod(; (não há quem esteja fora dela, nem
sempre envolvendo as particularidades na direção e com o sentido! quem viva completamente alienado) e do individuo (enquanto
de firmarem-se como diferença, particular e genérico).7IP-ªf::t.Heller (1977,.p~19),yida cotidiana
A vidª_çQ.tü!j-ªnª_~" dgllIDa.. p-ªrJ~..,-
l!!gaLºª mi~tifi~ªçª_Q"çlª :~_o conjunto de atividades que ca"~·~ct~~izam a reprodução dos
consciência, da.priYatizaçãoda_existência,~d,o fetichismo, da alie- homens singulares". As atividades.cotidianas são atividades que
naçào,mas,_deJUJ,tr:Çlh~é a.pedra.de.toquedo.valor do político, da IJ. promovem a. repro~ução.dojndiriduo_e,_p.oLconseqüência, a re-
obra, das relaçõesde produção.e dasestruturas sconômicas. n Seu PJitdJ.J{ª9. dosocial, '..
, Num texto fabuloso que se intit~la Puede estar el peligro la
vida cotidiana? (1989), Heller define a vidacotidi ana.como.a dimen-
7\ Ver U\ll estudo muito interessante sobre a ligação entre o sonho e a vida cotidiana são das experiênciaavitais.emqne.se baseiam a intersubjetiva cons-
ã luz da matriz lefebvriana organizado por MARTINS.J, S. lDes)Figumções: a vida
cotidiana 110 tmagtnárto onírico da metrópole, São Paulo: 'Hucítec. 1996, Os auto- tituição.do mundo, os significados desse mundo e as instituições que
res buscam dar urna interprelação socíológica do sonho. Mostram como o sonhoé guiam e ordenam a experiência no vivido, Assim, para Heller, a con-
revelador da htstortctdade e do conflito, do estr anharuento. do cotidiano repressi-
vo. do imaginário desfigurado (sem imaginação), C0l110 mantlestaçán.da transgres- dição humana constitui-se na vida cotidiana, porém não se reduz a
são dos mecanismos racionais e seus espaços de atuação (casa. família, rua. em- ela. A variabilidade, a heterogeneidade, a inconstância da vida coti-
presa), da alienação no contexto da coisificação: ao mesmo tempo, o sonho expres-
sa a criticidade do eu. ativo. contrapondo-se ao absurdo da alienação. encoutran-
do-se no estranharnento.
72 Ver uma análise detalhada sobre a questão das particularidades em L. SEABRA, A
insurreição do uso, ln: MART1NS.J, S, (Org,). Henri Lefeovree o retorno à dialé'
tica. São Paulo: Hucitec, 1996.
; I I'<lra Heller (1982), a estrutura ela vicia cotidiana possui alguns pressupostos em
7:< Lefebvre foi um dos poucos teóricos que levou em frente um programa de pesquisa ~,lla consutuiçào: nela o sujeito humano considera seu ambiente como also dado
unindo etnografia e marxlsmo. Fez urna sociologia ela rua. dos lazeres. da festa. do ju Icuo. que se apropria espout aneameute de seu sistema de hábitos e réCllicas;
habitar, dos horóscopos etc .. apresentando uma outra dínàmíca de análise ao C3111pO :::'" ,conlp~rla,lllellt~ ~ pra~Il~~it,ic,o. direCi~il~l?O .jlO e~it.o das. atiVi.dades: s.eu COl.'lhe-
sociológico, O apelo final que Lefebvre sempre lança na tradição marxista é a re- I nur 1Il.0 I~a? e IlH,·(ItCl<~ poi crtte-ríos de oplllJao.L~a Vida cotidiana. a hererogeneida-
volução cultural. a qual tem por objetivo e sentido a criação de uma cultura que rh- <1.)$aüvtclades esta em correspondência de modo unerltato C0I11 a práxís huma-
11.1 lola!. '
não seja instituição. mas estilo de lida, que contemple o vivido despido das amar-
ras da lógica funcional do tempo e do espaço,
,)/) '?
.~!aradigmas do Votidiano
João Carlos Tedesco
de da análise dos autores. Resumir parte da obra de Reller e os
diana moderna colocam-na na esfera da objetivação em si mesma
inúmeros escritos de Lefebvre sobre o tema não é nada fácil além
(regras de linguagem, maneira de utilizar os objetos, normas de in-
de que se corre o risco de esquematizar demais, de dizer coisas
teração humana, costumes). A condição humana constitui-se na es-
que não conservam o espírito dos autores, muitas vezes pelas in-
fera da objetivação por si mesma; está na esfera dos significados, das
compreensões, tornando-os banais. Servir-nos-emos de alguns de
generalizações, das narrativas, da constituição, da manifestação e do
seus comenta dores (Duarte, 1993 e 1996; Monteiro, 1995; Mello,
retorno da vida cotidiana como totalidade humana (Lukács),
1994, dentre outros) para melhor nos situarmos no tema. Mas
Há uma terceira esfera de objetivação - esfera de intermédio-
lancemo-nos à empreitada!
chamada de "objetivação por e em si mesma", que é a esfera das
instituições, sejam elas sociais, políticas e econômicas. É nessa esfe-
ra que a divisão do trabalho, a especialização do que se convencionou indhlfdtfo ~{Jvfictlk;:;f' e gi~Hér'ie(J
COV10 ';j~t'
chamar de "moderno" se fazem presentes. \A
diversidade de institui-
ções e suas especializações decorrentes tendem a estratificar cada Já vimos em Heller e Lukács que as objetivações genéricas
vez mais o indivíduo, preparando-o para melhor se adaptar e se inte- em-si formam a base da vida cotidianaasão constituídas pelos
grar ao vivido cotidiano.iflegundo Reller, essa crescente institucio- objetos, pela linguagem, pelos usos e costumes: As objetivações
nalização tende a deslegitimar os modelos normativos cotidianos e a genéricas para-si formam os âmbitos não cotidianos das ações so-
sua perda da objetivação por si mesma, criando tensão, falta de diálo- ciais (ciência, arte, filosofia, moral, política ... ). As primeiras são
go e um equilíbrio entre as três dimensões'] produzidas e reproduzi das no cotidiano sem que, necessariamen-
Como é que a vida cotidiana é a vida (1'0 indivíduo, e o indiví- te, os indivíduos tenham uma relação consciente com elas e com
duo pode ser particular e genérico ao mesmo tempo? É o que, ?s pr~cessos de sua pr?dução (Duarte, 1996). ~las não podem ser
como primeiro item, tentaremos elucidar, Adentraremos em al- identificadas com a alienação, porém esta existe quando as rela-
guns aspectos filosóficos da sociologia da vida cotidiana, para o ções sociais impedem o indivíduo de se relacionar conscientemen-
que Heller " nos é importante. O objetivo é mostrar a importância te com elas e com sua estrutura, isto é "podemos falar em aliena-
de categorias filosóficas" e sua penetração no espaço de compre- ção quando as relações sociais não permitem que o indivíduo se
ensão do cotidiano. Selecionamos apenas alguns tópicos {noções) aproprie das objetivações genéricas para-si, não permitem, por-
no sentido de mostrar sua importância na análise do cotidiano e tanto, que essas objetivações sejam utilizadas pelo indivíduo como
também com o objetivo de desmistificá-Ios das noções do senso mediações fundamentais no processo de direção consciente de sua
comum. São idéias sintéticas, porém que guardam a complexida- própria vida" (Duarte, 1996, p. 39).
Marx (1987, p. 166) já nos forneceu eSE)areflexão:
~Éprecisamente na ação sobre o mundo objetivo que o homem se
75 É importante que se diga que a autora apresenta uma contribuição séria 110 arnbíto manifesta como verdadeiro ser genérico. Tal produção é sua vida
dos estudos sobre o cotidiano. com o que não estamos querendo dizer que temos genérica ativa. Através dela, a natureza surge como sua obra e sua
o conjunto de sua obra COlHO referência. Em sua trajetória tntelectualmats recente.
realidade. Por conseguinte, o objetivo do trabalho é a objetivação
ela reconhece que seus trabalhos sobre a vida cotidiana ele fundarnentação mar-
xista são anacrônicos: não tematíza maís o paraduuna do trabalho. ao contrário. da vida genérica do homem: ao não reproduzir-se apenas inte-
tende para a filosofia do sujeito. com forte peso extstencíaltsta. estóír-o-epicurtsta lectualmente, como na consciência, mas ativamente, ele duplica-
de cunho pós-moderno. advogando. entre outras questões. a reforma moral. no
horizonte da subjetividade. o resgate às necessidades radicais (liberdade moral.
se de modo real e intui o seu próprio reflexo num mundo por ele
bondade.generosidade. solidariedade), Para o nosso objct ívo e nossa fonna de criado; pelo que, na medida em que o trabalho alienado subtrai ao
pensar. não corislderamos suas priIneiras análises (fruto ele discussões do grupo homem o objeto da sua produção, furta-lhe igualmente a sua vida
de Budapeste. com Markus. Lukács ... ) como ultrapassadas. Ver em GRANJO. M.
H. Agnes Heller: fllosofla. moral e educação. Pe trópo lis. Vozes. 1996. um .est udo genérica, a sua objetividade real como ser genérico, e transforma
sintélico sobre as fases marxísta e pós-rnoderna de Heller. em desvantagem a sua vantagem sobre o animal, porquanto lhe é
Urna discussão específica sobre filosofia e viela coüdtana encontra-se. além da
76
arrebatada a natureza, o seu COl'pO inorgânico.
autora em questão. em Lefcbvre . sobretudo na Vida cotidiana no llulndo moderno.
e tarnbéru nos três volumes da Critique de ia vie quoticlienne ... já citados.
João Carlos Tedesco ,'.');).
aradigrnas do "". ..
V otidiano 153
Essa longa citação de Marx serve para defender a idéia de particular identifica-se espontaneamente com o sistema habitual
que o homem é um ser que se autocria ao longo da história, atra- e com as exigências que propiciam a autoconservação, de prefe-
vés do espaço cotidiano de objetivação-apropriação da natureza rência sem conflitos. A passagem do particular para o indivíduo
como atividade objetivadora humana. Nesse processo, o genérico ocorre à medida que aquele toma consciência das necessidades de
humano desenvolve-se e os indivíduos, mediados pelas objetiva- sua própria existência, que se torna capaz de comportar-se consi-
ções, tornam-se seres généricos. O pressuposto básico que funda- go mesmo como membro de um gênero (Duarte, 1993).
menta essa questão é o de que o ser particular só pode se reprodu- A função, os papéis, a divisão social do trabalho, a cultura, a
zir enquanto ser particular. Essa particularidade de se reproduzir conjuntura, a posição de classe, o gênero, o tempo, vão determi-
enquanto ser particular se dá contextual e concretamente (Duar- nando relações, provando e desafiando o homem (indivíduo) no
te, 1993). sentido de reproduzir a sociedade. Por isso Heller diz que o ama-
Para Heller (1977, p. 21), o humano genérico apresenta-se durecimento do homem em qualquer espaço-tempo é expressão
como integração: da aquisição das habilidades necessárias para viver o cotidiano da
É sempre representado pela comunidade através da qual passa o temporalidade presente,' A particularidade individual (necessida-
percurso, a história da humanidade r ... 1.Todo homem sempre teve de do eu) contém ou está contida, consciente ou inconscientemen-
uma relação consciente com essa comunidade; nela se formou sua te, no humano-genérico. Os costumes, as leis, as instituições, a
consciência de nós, além de confirmar-se também sua própria "cons- moral, o sentimento ético e de sobrevivência são exigências do gê-
ciência do eu". Mesmo que os motivos sejam particulares, é o caráter nero humano para que o particular se aproprie da natureza e das
genérico da atividade humana e do conteúdo que transmitem a es- coisas, viva em sociedade (integrado numa comunidade), lute para
sência humana - o trabalho, a sociedade, a liberdade, a consciência. sobreviver e se singularize, ou seja, desenvolva e cultive faculda-
A necessidade que o indivíduo tem de ser genérico não signi- des, qualidades, atitudes, motivações particulares e disposições ne-
fica que sua singularidade seja alienada, porém não há dúvida de cessárias a sua existência e à apropriação da vida cotidiana.
que a alienação, a divisão do trabalho e a fragmentação de papéis Essa consciência da espécie é a própria dimensão do genéri-
vão cada vez mais dificultam a ligação da particularidade com a co, o que não significa dizer que não haja alienação. Tanto Hellcr
genericidade no sentido de produzir uma individualidade genérica quanto Luckács são claros quando dizem que a relação consciente
(Duarte, 1993). "Na vida cotidiana, a esmagadora maioria da hu- doparticulªx(indiyf4l!o)ao genérico é sempre uma "tendência"
manidade jamais deixa de ser, ainda que nem sempre na mesma humana. O nível da alienação de uma sociedade é medido pela
proporção, nem tampouco com a mesma extensão, muda unidade capacidade do homem de realizar na vida cotidiana uma relação
vital de particularidade e genericidade. Os dois elementos funcio- consciente com o genérico e também do grau de desenvolvimento
nam em si, mas não são elevados à consciência" (Heller, 1977, p. 23). deste nos atos cotidianos. Não há dúvidas de que o capitalismo
Significa dizer, em outras palavras, que mesmo que a vida cotidiana busca particularizar ao máximo os indivíduos e os interesses em
carregue em si, pela sua estrutura, uma dimensão de alienação, detrimento do comum e do comunitário, dificultando a relação
há possibilidades de espontaneidade, de motivações particulares e com o genérico (Duarte, 1993).
de elevações; ambas se alteram constantemente. A identificação espontânea com a particularidade, assim
Agnes Heller colocará o acento nas objetivações superiores como com os elementos da genericidade, é elemento fundamental
que trabalham a cotidianidade e que estão em ruptura com a ime- de que o indivíduo precisa para se apropriar e viver em seu meio
diaticidade. A origem da alienação ordinária e da discriminação do social. A_comnnidª.d(C)tomª:§~JlmªÇªJ~KoXÜU:lª estrl..ltllrª-.sº-g.ªl
conhecimento cotidiano inscreve-se no lento processo de indivi- deint;~gração,conl vétlores, de uma certétforma, homogêneos,à
duação (Tacussel, 1994). qualoparticular pertence. A relação indivíduo/comunidade não é
c-«. Tanto Heller quanto Marx (nos Manuscritos) sustentam que meramente uma relação entre indivíduo e grupo baseada numa
é a autoconseruação. O homem
o objetivo do homem particular relação de~..
causalidade.
.•
, .. _---" -.~----
É a individualidade que vai construindo o
154 ·········· . João Carlos Tedesco
.)/)
.: j ara diigrnas do V:·'
V'otí diiano -_ .._ .
............J55
grupo a que pertenço, por isso nem todo o grupo a que pertenço é
uma comunidade, embora possa chegar a ser. Há hierarquias de (comunitário), tornando-se, ao mesmo tempo, um ser único, sin-
gular, sujeito da construção de sua individualidade.
grupos, as quais dependem dos interesses, dos objetivos, das ati-
Marxjá enfatizara a distinção entre particularidade e indi-
vidades, das representações que tivermos ou assumirmos, ou seja,
vidualidade. A teoria da alienação é expressão crítica da vida coti-
da escolha individual.
diana. A alienação, criada pelas sociedades complexas e, em espe-
A comunidade é uma integração fundamental para a estru-
cial, pelo capitalismo, complicou tudo, fazendo da vida do homem
tura do conjunto social e para o desenvolvimento do homem; com-
um meio para sua existência. Contudo, há homens que se relacio-
pleta-se quando consegue promover objetivos conscientemente ge-
nam conscientemente com o gênero, que possuem a individuali-
néricos. A comunidade tende a promover a consciência em rela-.
dade madura em correspondência com as características da es-
ção aos outros, que se desenvolve e opera em concomitância à
sência humana: o trabalho, a sociedade (sua historicidade), a cons-
consciência individualista (Holler, 1977; Duarte, 1993).
ciência, a universalidade e a liberdade. Há na própria sociedade
Em sintese, a comunidade expressa a simultaneidade pre-
uma produção das condições materiais e humanas para sua supe-
sente no homem, qual seja, sua dimensão particular, singular e,
ração. A relação entre o particular e a consciência do genérico
ao mesmo tempo, humano-genérica." No entanto, como vimos, a
forma-se no cotidiano, é vivida no cotidiano, está voltada para o
comunidade não impede que o indivíduo se reconheça a si pró-
cotidiano (Duarte, 1993).
prio. A individualidade realiza-se à medida que concebe e faz das
forças objetivadoras suas forças, que humaniza seus objetivos. É
como diz Marx (1987, p. 178): Ht!1t!,'og(' rrâdgfi{! l! hfef'HftltÚJ
O homem não se perde em seu objetivo quando este se configurar '.Uma outra característica fundamental da vida cotidiana é a
como objetivo humano ou homem objetivado. E isso somente será
heterogeneidade, que se expressa em sentidos e aspectos os mais
possível quando se lhe configurar como ser social, assim como a
sociedade se configura nesse objeto como ser para ele. Assim, en- /\ diversos (Heller, 1977). Se o partjç1,l1~':'§..~.~~1~go!:i.a._:e.<?r
.~~.~elê.ll.~_.
quanto, de um lado, para o homem em sociedade a efetividade \'
I
I
cia da vida cotidiana, deduz-se que avida cotidiana não tem, ~~.
objetiva se configura em geral como a efetividade das forças essen- I
cessariamente, um valor de autonomia.
ciais humanas, como efetividade humana e por isso como efetivi- Muitas são as ocupações, os desejos, os sentimentos, as ações,
dade de suas próprias forças essenciais, todos os objetos se lhe as observações, os graus de saber e os instintos envolvidos que as
apresentarão como objetivação de si próprio, como objetos que con- objetivações genéricas não contemplam simultaneamente. A he-
figuram e efetivam sua individualidade.
terogeneidade e a hieraquia promovem a seleção do pensamento-
~ Portanto, percebe-se que há o elemento histórico das condi- ação indispensável à continuidade da cotidianidade. Ambas expres-
ções objetivas da emancipação (humano-genérico) dos individuos. As sam espontaneidade, no sentido de ser automática e irrefletida, e,
formas concretas de relações sociais - espaço da vida cotidiana -' ao mesmo tempo, assimilação tanto da natureza das coisas quan-
fornecem os elementos alieriantes como também os da apropria- to das relações sociais.
ção. Marx deixa claro que todo processo de apropriação das objeti- Na vida cotidiana, as várias atividades são tão heterogêneas
vações genéricas pelos indivíduos, por mais conflituoso que seja, como as capacidades de agir (habilidades), como os tipos de percep-
é um processo de formação do indivíduo enquanto um ser social ção. Nela, desenvolvem-se atividades, sentimentos e atitudes pro-
fundamente heterogêneas. A heterogeneidade não é caracterizada
só pelo fato de as coisas serem diferentes, mas pela importância
77 No dizer de Marx (1987. p. 20). "só quando o homem real. individual assume a (papel da individualidade), pela mudança de importância, pela va-
sua vida empírtca, o seu trabalho individual. as suas relações sociais. tem ch('~a-
do a ser ente genérico: só quando o homem tem reconhecido e organizado sun-: riação no tempo, nos estratos, nai.?tensidade do objetivo dos indi-
proprtas torças COlHO torcns ~(Jciais. e por ele já não separa de si a_[OI-ça social 11;1 víduos e dos grupos particulares. Há uma teleologia da particulari-
figura da força políucu. sorueut« cutào se tC"r;'I, cumprtdo a eruunctpucào lunnanu".
dade, mesmo porque o genérico está presente (Duarte, 1993).
156 João Carlos Tedesco
,Y~radigmas do t7otidiano 157
Nas sociedades complexas, a vida e o pensamento cotidianos
não são reveladores do grau de desenvolvimento genérico dessa Quanto.maisJutarmoscontra a alienação da vidacotidja:Ili.L~..
sociedade, pois as instituições, os mecanismos de produção fazem das objetivações genéricas em-si, mais construiremos condições
parte dela. A eliminação da alienação não traduz o grau de desen- para momentos de homogeneização, para a saída da cotidianidade
volvimento de uma sociedade. A humanização de uma sociedade em direção à genericidade, para o homem inteiramente (Lukács),
reflete-se no cotidiano, nos seus valores; no entanto, o cotidiano para atuar como ser genérico, isto é, "como um ser que se apro-
puro e simples não nos fornece certeza sobre o grau de desenvol- pria das forças essenciais humanas existentes nessa esfera de ob-
vimento genérico social (Monteiro, 1995). A moral, a religião, o jetivação e pode se objetivar (produzir e reproduzir) mediado por
direito, a política, de certa forma a técnica, como objetivações esses forças essenciais" (Duarte, 1996, p. 66).
genéricas, têm uma tendência de conservar-se em âmbitos des- Para a homogeneização acontecer, segundo Heller (1977),
vinculados da vida cotidiana, o que quase sempre a tem como são necessários, em primeiro lugar, um desejo e uma relação in-
normatização, como regulação, como subordinação, como coloni- tencional do indivíduo com uma objetivação genérica para si; por
zação. isso, é preciso, em segundo lugar, concentrar-se em uma única
tarefa, suspendendo as demais e canalizando as energias possíveis
para o tipo de objetivação. Nessa esfera, o indivíduo deve superar a
jf ONW{/l.!fW.' ieacào
particularidade e manter uma relação direta com sua condição de ser
Afirmamos, anteriormente, que a vida cotidiana é uma es- genérico, generalizando a personalidade, as experiências, o pensa-
fera heterogênea, que as esferas não-cotidianas (ciência, arte ...) mento e os desejos (Duarte, 1996). Pelo momento catártico da homo-
são homogêneas. Homogêneo não significa esfera autônoma, des- geneização, o indivíduo constrói uma relação com as objetivações
vinculada do social, porém não se liga imediatamente à prática genéricas para si; retorna modificado, apropriado pela consciência e
social; possui, sim, um significado de reprodução da sociedade e pela práxis político-social, como momento ético-político em direção
do gênero humano, não exclusivamente do indivíduo. É como diz às esferas de liberdade e necessidade.
Heller (1977, p. 116-117): Dissemos que o eu-particular-heterogêneo é a grande ten-
dência ontológica da vida cotidiana. Para romper com esse pro-
Quanto mais objetivamente genérica é uma objetivaçào, tanto mais
cesso, Heller explora a questão da homogeneização como ccntra-
é homogênea [".[. E a saída do cotidiano I".1, não é um critério
lidade/concentração de uma atividade, suspendendo outras. A in-
subjetivo [... 1. É precisamente o processo de reprodução das esfe-
ras e objetivações homogêneas que exige categoricamente a horno-
dividualidade humana toma o lugar da particularidade, abrindo
geneização. Se uma sociedade necessita do Estado e do direito espaço para superar a cotidianidade. Certamente, esse processo
não poderá subsistir nem sequer um dia se não existem pessoas não é automático, pois implica mediações, rupturas, seleções de
que, por um certo período de sua vida ou durante toda ela, estejam objetivos, consciência do agir, da integração e do coletivo. O eu
imersas no trabalho sobre a estrutura homogênea do direito e particular não é abolido e, sim, suas características são orientadas,
tenham aprendido a pensar sobre tal base. 1... [ Se uma sociedade canalizadas para fora, para o não-cotidiano, como motor da realiza-
necessita de ações que se elevem acima da moral usual da vida ção humano-genérico. A essa transformação Lukács chamou de "ho-
cotidiana, que requeiram virtudes imediatamente genéricas, deve mem inteiramente", algo excepcional no ser humano. Não signifi-
contar com membros que possam ser definidos como "gênios mo-
ca, porém, que a individualidade seja completa, ou que a suspensão
rais", que guiados por motivações morais se elevem às objetiva-
ções morais. Se estas homogeneizações não se verificam no núme-
da particularidade, comojá referimos, seja por inteiro.
ro e na medida necessários, as necessidades objetivas da socieda- Heller (1977, p. 95) introduziu na ontologia marxista a cate-
de permanecem insatisfeitas e as objetivações não chegam a re- goria de mundo da vida em correspondência ao universo reificado
produzir-se. e ao vivido. É em torno da categoria de mundo da vida, tomada da
fenomenologia, que Heller vai elaborar a distinção entre doxa
(opinião) e saber elaborado cientificamente (episteme). "Uma ver-
II1
João Carlos Tedesco
--..... .. -_0 .- ..... -." ,·Y~radigmas do Y;:otidiano ...........159
.............. _-----
. " .... _ ..
dade cotidiana torna-se doxa mesmo se ela se confirma sempre; gens, coisificando a existência, tornando o homem cotidiano equi-
uma verdade científica terá sido episteme mesmo se amanhã ela valente" de valor quantitativo. A incapacidade de o homem pen-
será substituída por uma verdade de um tipo superior." A autora sar o cotidiano, e não o pensar do cotidiano, dificulta também a
enfatiza as objetivações superiores que nascem da cotidianidade e criação, o estabelecimento de relações, de saber a natureza das
que estão em ruptura com a imediaticidade dessa. A doxa conser- relações, de estranhar-se consigo mesmo (descobrir-se, sair-de-
va seu contexto singular, imediato; ao contrário, os fenômenos si), de historicizar o cotidiano (e não ser historicizado).
epistêmicos são generalizantes. A alienação cotidiana e no coti-
Desse modo, o cotidiano é submetido a um ritmo de vida
diano não permite vislumbrar os atos individuais das atividades exterior, padronizado, no qual os desencontros, em contradição
superiores (Duarte, 1993). com diferentes temporalidades, são vistos numa perspectiva dual
As dificuldades de homogeneização/elevação não advêm ex- (tradicional-moderno, brega/chique); o estranho é visto como sur-
clusivamente das condições subjetivas, mas, sim, têm origem no
presa, como incerto, imprevisto, criando, assim, uma cotidianida-
fato de que, na sociedade atual, grande parte das pessoas passa a
de pobre, rotineira, banal, reino da miséria, alienada.
vida toda lutando para assegurar as condições mínimas de sobre-
Tanto Heller quanto L_~~bvr.:.e7!1 .E_~ __~n~!!i'!pe~_eEl.~!l!mar._
vivência.
u
que, no capitalismo, a vida cotidiana foi colo1)izac:l?..Lacirrando-se
profundameIlEê a aEenaçãQ.:...Noentanto, voltamos a dizer, não
A!i<!f(q.r?io significa que haja naturalmente uma cega afinidade entre vida
cotidiana e alienação. Mesmo que a vida cotidiana seja um terre-
.'Beller diz gue a vida cotidiana é, em relacão a todas as esfe- no fértil para a alienação (estando alienada), não significa que a
ras da realidade, a que mais se presta à alienaçaob:!stamente pela individualidade não possa se superar. O contrário disso seria afir-
coexistência e sucessão de atividades heterogêneas. Com isso, não mar que a realização do particular em relação ao gênero humano
se-q~e;'di~e~:·que·-~vida CõtTd~~·áSê}ã"'~·6~ii~nação. iA alienação, não seria possível no seio da esfera cotidiana. A alienação só é alie-
segundo Heller, dá-se quando as formas necessárias de pensamento nação em face de algo, ou, mais especificamente, em face dos ele-
e ação se absolutizam, deixando pouco ou nada de. margem para o mentos promotores da genericidade da humanidade - trabalho, lin-
movimento ou a manipulação da individualidade. A divisão social guagem, moral, arte, liberdade, consciência social (Duarte, 1993).
do trabalho na sociedade capitalista é um elemento concreto de Segundo Heller, a alienação econômica tem um peso maior
perda da objetividade (humano-genérico) do indivíduo, com gran- frente a outras esferas, pois tem um poder de irradiação maior
de tendência de esse se tornar eu-particular: O indivíduo alienadQ. sobre o todo social. As circunstâncias sociais e econômicas criam
(particulari9-~-ª~) é l~.rp._.~nte
Jragmeptaj.2.t.yítima de uma cisão~- estruturas de alienação na vida cotidiana. Todavia, essas mesmas
ire a personalidade_<L:,!~~xistênciaautêntica e o papel., .
; Não há dúvidas de que o trabalhador, submetido cotidiana-
mente à disciplina do trabalho, fica submetido à inteligência e à 71'i Sobre a questão das equtvalôncía s e dos 111eC'aniSlTIOS reproduuvos. fetíchtzndos.
imaginação do trabalho, não do trabalhador. A sua mente torna-se instaurados no iI11a~iI)ário coüdíano. ver LEFEBVRE. H. Le retour de ln diclleclique.
Paris. Messidor/ÉdiUons Soctales. 1986.
cativa do processo de trabalho, da coisa, do produto, estranhada e 7" Em 1947 H. Lefebvre publica o primeiro volume do Critique de Ia t'ie.... O referido
entranhada do próprio ato de trabalhar. Transpondo isso para o livro é uma tentativa de tirar o marxísmo de seu reduc íonisrno doutrinal e adentrar
para a esfera da existência. elo cotidiano Ia consciência prrvada. o sonho. a festa.
conjunto das relações cotidianas no contexto da coisificação das a rua. a poesia ... l. mostrando como o irracional primitivo continua a ligar-se ú viela
rel ações sociais na cotidianidade, o processo não é diferente (Duarte, cotidiana do homem, Lefebvre centraliza sua análise em torno elas representações
(ideologias e mistificações. alienações económtcas. morais. políticas que penetram
1993). a vida -corrente). concebendo essas COlHO reahrlade s privadas de verdade, Os si~-
A instauração e disseminação do mundo da mercadoria, como nos - pela publtctdade -. os stmulacros. os i1n:-.gin<lrios (' as ima~ells - frutos da
moderrnclade - produzem lima cottdíantdnde alienada. Letebvre propõe nessa obra
mediação entre concebido e vivido, aparecem e emergem na pri- uma politização da vida cotidiana, a qual passa pela articulação da coutestaçao
meira instância em forma de consumo, de publicidade e de ima- sexual ela OrdeITI moral. ela revolução urbana. atribuindo novas si,gnificé\çàes ao
LISO cio espaço. do retorno ao espaço do ludíco. festa. ao tempo livre.
á
16Q . João CarlosTedesco ;-1-~radigmasdo '(otidiano
i'
i:
circunstâncias criam hierarquias espontâneas, que permitem à o que fundamenta uma ação probabilística é a repetição tan-
individualidade um certo movimento diferente para cada situa- to do hábito como do costume (praxis repetitiva). A probalidade,
11
ção, uma condução da vida, enquanto atitude consciente de seu por si só, não é segura, é provável; portanto, não é sinônimo de
"
espaço. As alienações concretas, mediante reações econômicas e êxito, nem de impossibilidade de catástrofes. O que a probalidade
sociais, podem encontrar repulsões ou revoltas subjetivas. nos dá são os "fundamentos suficientes" de que a convicção neces-
A superação subjetiva da alienação, entretanto, só pode reali- sita. Nesse sentido, a tradição/H a fé, a afetividade, a imitação de
zar-se tendo como objetivo uma relação consciente com os valores comportamentos, os relatos, as histórias de vida, as analogias, as
ou objetivações genéricas para si. Desse modo, o indivíduo conse- generalizações de valores, como valores de probabilidades, são
guirá superar a pura particularidade. A clareza da não-alienação fontes que impulsionam a eleição e as formas de ação.
expressa-se na relação consciente do indivíduo com os sistemas da
vida cotidiana, usando como medida as normas, os conhecimentos,
as exigências das objetivações e integrações genéricas para si."
'Pf't'COHcútO<; t' 'f'tl/jfíf-;
Como diz Heller (1989), o preconceito é uma categoria do pen-
samento e do comportamento cotidianos. O preconceito é um juízo,
b<:'iW!rigNl'Íd.qdc c 'f1ro0a&itidade
uma regra provisória de comportamento, pois se antecipa à situação
A espontaneidade caracteriza a vida cotidiana, mesmo que ou atividade possível. Não há dúvidas de que assumimos estereóti-
não se possa dizer que a vida cotidiana seja toda espontânea em pos, esquemasjá elaborados, empurrados pelo meio, ultragenerali-
níveis iguais. De qualquer forma, na vida cotidiana, há uma gran- zados, considerados pelo pragmatismo do pensamento e da ação coti-
de tendência à espontaneidade tanto das motivações particulares diana como afirmação de um saber e de um critério de ação.
quanto das atividades humano-genéricas que também a consti- A própria Heller concorda que o preconceito é um juízo fal-
tuem. Não podemos refletir sobre as nossas inúmeras atividades, so, porém necessário à vida cotidiana, principalmente como pro-
, pois, assim, não teríamos condições de materializá-Ias (na sua qua- teção frente aos conf1itos, objetivando estabilidade e coesão nas
; I
se-totalidade), comprometendo, inclusive, a produção e arepro- integrações sociais. O preconceito poderia ser substituído com
I
dução da vida da sociedade humana. Além de o ritmo da vida ser base nos critérios de pensamento, da ciência e da moral. No.en-
intenso e exigir apenas assimilações, as motivações também são tanto, isso não seria possível, pois não seria mais cotidiano e, sim,
efêmeras, estando, portanto, em constante alteração. razão. Desse modo, contrapondo-se à razão, o preconceito alimen-
Assim como é impossível refletir sobre todas as ações coti- ta-se na afetividade, na fé. Grande parte dos preconceitos não nasce
dianas, é também impossível prever e calcular cientifícamente as na particularidade, é fruto do social, medeia estereótipos de com-
conseqüências das múltiplas ações, mesmo porque o próprio tempo portamentos carregados de preconceitos (Heller, 1982). As classes
não permitiria. A idéia de probabilidade, de caso médio, de segu- dominantes, segundo a autora e também Lefebvre, são produto-
rança, nesse sentido, apresenta-se suficiente no contexto da vida
cotidiana. Essa objetiva relação de constante possibilidade não nos
"J tobsbawm escreveu UIlI livro muito interessante sobre a lnvençüo da lracliçào.
afasta do risco e da catástrofe na vida cotidiana, porém também
í
mostrando-a, mais para a realidade dos mttos e tradíções inglesas. como um COI1-
nos alivia do temor que exige segurança científica. A unidade junto de prática de profunda natureza simbólica e ritual. ínculcadoras. repetittvas.
rrproduztndo passados históricos odequados. Outros autores. urats devotos pós-
imediata de pensamento e ação expressa o nível de pragmatici-
á
ruodernídarle global. contestam as tde nüdades centradas e fechadas. defendendo
dade das relações e das situações da vida cotidiana (Duarte, 1993). ;\ u-se ele que a tradição. enquanto tentativa de restaurar e recuperar as unidades
,. «ertezas perdidas no tempo. não existe mais. O máximo que existe é uma tradu-
':tI". Esta re!letiria a dispersão de pessoas. identidades. os pluralísmos. as mes-
('1:1:-;.as histórias entrelaçados perrnaneutes em vários espaços. tempos. Oll em
11C"1l11l1l1l lugar particular. sendo nada mais do que traços de cultura. Essas cul-
so Ver ('111 A. Ildler. L<I revolución de La vida cotidiallo. já cilada. uma reflexão sob •.•• 111I";I.'i do htbrídtsmo apenas truduzem. transtadem. conduzem dispersões. criando,
as POSSibilidade::.; de superacuo subjetiva (LI aheuuçào. bem como elos proce-ssos .1."~Silll, a chamada disl.Ínlil'idade étnica.
de ildt'gra(:~\o do particular no individual.
io
,00aradigmas do '(:otidiano
162 ............ - -..
, ~ João Carlos Tedesco
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ras de preconceitos, pois são as mais interessadas no conformis- des que buscam conexões objetivas (liberdades) com a realidade,
mo, na coesão e na estabilidade da estrutura social que lhe é favo- exteriorizando a personalidade ao encontro da interioridade. Em
rável (Mello, 1994). outras palavras, há contradições que nascem e renascem, mesmo
. Lefebvre afirma que a alienação caminha passo a passo com que não bem dirigidas; há recusas e conflitos no processo.
o preconceito. Quantomais alienada for a vida cotidiana, mais o A concepção funcionalista do papel atribui disfunção (confli-
preconceito a dom'ina-.~força hegemÔnica da classe dominante e tos) a um defeito de organização, como perturbações funcionais
que podem ser de ordem técnica, social ou psíquica. No entanto,
seus recursos ideológicos, econômicos e técnicos buscam sempre
mais universalizar seu modo de conceber e de direcionar o mun- na perspectiva dialético-humanista, contradições, limites, trans-
do. O importante é que, independentemente dos tipos de precon- formações, elevações, rupturas são partes constituintes do pro-
ceitos (morais, étnicos, políticos, religiosos) e de seu conteúdo, a cesso humano-genérico-social," restabelecendo a unidade da per-
vida cotidiana é seu espaço por excelência. A sua produção, neces- sonalidade como indivíduoDaf a importância das histórias devida,
sidade e procedência são históricas, não simplesmente grupais da subjetividade, da indivíd6alidade, redefinindo a vida cotidiana
(aos moldes de algumas interpretações pós-modernas), mas tam- "~õXno Iúgardé transformações sociais. . '.
bém em permanente transformação.
Ao analisar a questão do papel, Heller passa da abstração do
Tewl'O, eç?vlÇo e çifJJf(J
conceito à sua realidade histórica; mostra que a vida cotidiana se
serve de recursos,(como a imitação (m:ímeseonohabitual (estrutu- A característica comum tanto do tempo quanto do espaço
ra consuetudináriaJáfeita),-~~t~;-d;çi~:~;~~ forma de assimila- cotidianos é sua dimensão antropocêntrica. Se o espaço se refere
ção das atividades e dos papéis. Nesse processo, é a partir daí que ao aqui do particular, o tempo tem sua referência no presente.
a particularidade se sobrepõe (abafa) à individualidade, que o ho- Não é só a esfera cotidiana que assim se apresenta; a história e a
mem se fragmenta, vive a função; que a exterioridade encobre a política também tematizam por esse viés, porém sua esfera não é
interioridade, a qual empobrece (Duarte, 1993). o presente cotidiano e, sim, o gênero humano.
O problema não está no papel em si. O papel, enquanto tal , Voltamos a insistir que uma abordagem crítica do cotidiano
(não-alienado), é extremamente interessante, pois permite o de- implica ter a história como perspectiva. O presente, por mais que
senvolvimento do indivíduo enquanto ser autônomo. A questão alguns não acreditem, é um produto histórico. O tempo e o espaço,
problemática coloca-se no momento em que os sistemas funcio- desse modo, organizam-se em função desse momento. A relação de
nais (em nome da integração/bom funcionamento) da ordem social uso do tempo e do espaço (rotinizados) faz brotar a concepção de
vão sendo rotulados, estereotipando-se em papéis com suas fun- sua apropriação.:.§~g-:qn~lQJ3alangier (1983), o ql,l.~G<:!rªçteriza
a tem-
ções atribuídas. As técnicas, o trabalho, a política, a burocracia e a poralidade cotidiana é a repetição contrao ~c~nteçido (~o-mofator
especialização colaboram, muitas vezes, cientificamente, para feti- de-s-eg'liiançacontra os acasos), a ruptura contra a repetição (reavi-
chizar ainda mais os papéis na vida cotidiana, enriquecendo e esti- va."r·ifcõtidiano:as festas, as férias ...) e o cotidiano contra tempo, °
mulando a particularidade (o especialista/individualismo). gerenciando-o, organizando-o para não tumultuar.a rotina."
~'"c-'!Noentanto, por mais que seja fácil crer no que crê a multi-
dão, o homem não é mais do que o conjunto de seus papéis; antes
de mais nada, ,diz Hener, porque esses sãosimplesmente formas SjT''-lnto Hellcr quanto Lefebvre. COlHO já vimos. resgatmn os movírnentos sociais. as
- mstttuíções. COlHO a Ia milta. a escola. euquu uto centros ele poder. a subjcuvídadc. a
de relações sociais, estereotipadas em clichês, e porque os papéis festa. o ímagtnárto soctal. a Cidade. o pequeno grupo. a prática política. a moralida-
não. esgotam o comportamente humano em sua totalidade. Há de pública e individual. corno relações IiberLadoras. COlHO pequenas conquistas. COlllO
rupturas dos carecímeruos radicais. como atiludes promotoras da passagem da par-
um dever-ser moral, que instiga a liberdade, a política (seu senti- ticularidade à individualidade e essa ao humano-gcnéríco (ver Granjo. 1996).
do mais genérico); há uma personalidade que não se dissolve nem /,''':;Ver em BALANDIER. G. Essa] drdeutíftcauon du quotidien. Cahiers lniernatio-
de Socioloqie, Paris. v. LX..\:IV. p. 5· 12. 1983. UII} estudo sintético. mas muito
se aniquila; há limites também para ser objeto; há espontaneida-
• »: II(IW(
ínteressaute sobre D vart.ive! te-mpo 110 cot.icli.u io.
II
I .;l"~radigmas do 'V~tidiano ~. .- . --' -_ . _.165
164.....
·· João Carlos Tedesco
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seminadas na sociedade moderna que, segundo alguns analistas,
Lefebvre, nessa questão, assim como em muitas outras, con- a vida cotidiana está em perigo.t" assim como sua monotonia! O
corda com Heller, Segundo ele, o tempo, como tal, é irreversível. ritmo do tempo é uma categoria histórica; sua aceleração ou não
A repetição do tempo nada mais é do que uma dimensão ontológi- depende de fatores históricos que o condicionamj No entanto, sua
ca e metafísica concebida no absoluto (divino). Tempo e espaço se tendência é de relativa estabilidade como fator de adequação bio-
imbricam. O tempo projeta-se no espaço pela medida, homogeneí- lógica e humana e como fator de equilíbrio social (Carlos, 1996 e
za-se, fra~menta-se e hie~a~quiza-~e, ~parecend,o ?as co~sas, nos 1998; Seabra, 1996).
pxºçlJJJº~O tempo do cotidiano vai alem do relógio; esta na me- A consciência do momento (certo,justo) é importante para a
~..'mória, nos fatos, nos souoenirs , formando o imaginário de um consciência cotidiana e para elevar-se ao universo do genérico
tempo jamais feito, acabado, pronto. Os espaços cotidianos, por para si na esfera política, numa comunidade, num movimento
mais que se caracterizem pela proximidade, pela acessibilidade, social, numa ruptura institucional. Numa sociedade dinâmica como
são disperses." No entanto, sob a racionalidade instrumental, o a nossa, é profundamente dimensionada a idéia de momento, como
tempo e o espaço passam pelo crivo da rentabilização, da organi- sinônimo de oportunidade, de saber aproveitar o momento (ele é
zação. Porém, é também o tempo das surpresas, das expectativas, irreversível í/O tempo-momento é reificado como natural, sua sim-
da subjetividade, do silêncio, da finitude da vida, dos momentos, bologia expressa-se em dimensões como esperteza, lucidez, sorte,
dos sonhos, do imaginável e do resíduo (Seabra, 1996). felicidade. Isso tudo dinamiza as experiências interiores (tempo
Quanto mais alienada é a consciência no cotidiano, mais di- subjetivo, tempo vivido), impossibilitando a sua mensuração obje-
fícil se torna aceitar a dimensão da irreversibilidade; também da tiva em razão justamente da sua variação de intensidade.s"
morte, das desgraças, das alegrias e dos interesses. O fenômeno tA fantasia, a memória e a imaginação estruturam os instan-
religioso exerce aí um papel importante no sentido de introduzir tes temporais da subjetividade do indivíduo na vida cotidiana. Desse
os desígnios divinos como causa de determinados fatos, ou contri- modo, tanto o tempo quanto o espaço cotidianos têm sua esfera
bui para a resignação do indivíduo, racionalizando situações como peculiar, a vida cotidiana, onde a recuperação e a experiência de
parte orgânica da vida. ambos estão inter-relacionadas a ela. Direita/esquerda, dia/noite,
A natureza (divisão natural) exerce um papel importante (não horas/minutos, acima/abaixo, próximo/distante são modos intui-
determinante, nem preciso) na mensuração e na divisão do tempo tivos de orientação de campos que, na vida cotidiana, perdem muito
e do espaço cotidianos. Porém, é comum, na vida cotidiana, comu- de seu grau de objetividade (Seabra, 1996).
nicarmos as distâncias com definições temporais (tantas horas a Há tempos sociais distintos de tempos biológicos e psíquicos,
pé para chegar a tal lugar). Segundo Heller, a importância da assim como há um espaço social distinto do geométrico, do geo-
divisão do espaço na vida cotidiana é bem menor que a divisão do gráfico, do econômico. Porém, não significa dizer que o espaço
tempo. O espaço tem grande referência à natureza (grande, alto ...); social não tenha aspectos subjetivos e objetivos. O ambiente de
o tempo, ao contrário, é muito mais dimensionado (sua finitude- grupo, o indivíduo no grupo, a casa," a mobilidade social vão for-
morte, sua redução, sua velocidade-produtividade, sua distribui- mando redes integrantes da cotidianidade. A idéia de momento -
ção, sua pontualidade). O símbolo relógio (muito mais que o me- tentativa de realização total de uma possibilidade de espaço-tempo
tro) está mais presente no cotidiano. Técnicas de informação, de
gestão, burocracia, métodos de organização da produção, logísti-
cas funcionam como estratégias de controle do espaço, do tempo 85 Ver HELLER A Histeria y [uturo. Barcelona: Grijalbo. 1989. Também. Fetichismo
(e dos homens) para maximizar sua funcionalidade. Estão tão dis- O alíenacíón. ArglLfnentos. Madríd, 11. 38. out. 1980.
86 Ver vários textos cio livro ele J. S. Martíns (1996).
87 Sobre o papel da casa. como contraponlo à rua e sua snubología no Imagin árío co-
tidiano dos homens, ver MARTlNS. .J. S. (Org.). {Des)Piguracóes«« já cít.: LEFEBVRE.
8·' G. Balandier (1983) idenUfica um centro e uma periferia do cotidiano pelos graus 1-1.Du. rural ó rurlxllll. Paris: Edtuons. Anthropos. 1970. Aliás. essa é lU11a obra pio-
de proxímídade e afastamento. prívarlo e publico. regularidade e surpresa. ali seja.
neira que. acredítamos. merecerta mais destaque no C<lIlIpO da sociologia rural.
a espacialidade é umafonna (Sírnmel) que é modelada conforme as vivêncías sociais
de significado cotidiano pelos Indívíduos.
,)/). ''::
.', aradigrnas do (( otidiano
João Carlos Tedesco
objetivando O global, o organizacional e o modo de produção/re-
limitado e parcial -, segundo Lefebvre, nasce no cotidiano. É aí
produção. Por isso, o cotidiano não é tão banal assim, pois o próprio
que a possibilidade se descobre no horizonte da espontaneidade (o
espaço e o tempo não são desinteressados, inocentes, mas impli-
jogo, o trabalho, o amor). É aí que se toma a decisão primeira
cam uma estratégia objetiva e, em alguns momentos, mesmo, sub-
(inaugural), que começam o discernimento, a escolha.
jetiva, de se efetuar material e simbolicamente dentro de um qua-
Segundo Reller, por mais extensos que possam ser o espaço
dro geral de uma sociedade.
e os atos, o raio de ação do homem que vive sua vida cotidiana
É nesse sentido que o cotidiano contém e forma um sistema
permanece sempre dentro de limites determinados. A elevação ao
de signos próprio da práxis (reiterativa) cotidiana, tanto no espaço
genérico-para-si permite superar os limites terrestres.
quanto no tempo (as nuvens e sua relação com a chuva, a lua e as
O cotidiano, na análise de Lefebvre (1981), resulta também
da interferência entre os processos e os tempos cíclicos." O repe- plantações, o calor e o vento ...), funcionando, inclusive, como re-
lação de causalidade (Lefebvre, 1983). Há signos cotidianos
titivo não pode se reduzir aos resultados de uma combinatória de
são convencionais e seus resultados d~eni estar de ··'···c'o·m-·"'·'
uma linearidade pré-fabricada; o qualificativo não pode inteira-
()S sÍ.c'-fê-masde uso que se tem deserivólvidoaté então, e deve ser
mente desaparecer no quantitativo. No entanto, o cotidiano com-
possível estabelecer com eles uma relação." Como diz Heller (1989),
preende as modalidades (o linear, o repetitivo, o biológico, o psico-
o signo é o que é somente como parte de um conjunto, e somente
lógico, o sideral e o histórico), mas os ritmos são múltiplos e
interferem qualitativamente. esta qualidade sua pode ser significante,_O nl]JJld-ººpj~tual (dos
obj~~~~.?.r.l.lto.S)C:()Ilf3titui
um sistema sígnico importante para a
A modernidade, de forma crescente, arranca o espaço do lugar, ao vida cotidiana na medida em que transmite significados que se
favorecer relações entre outros "ausentes", localizadamente dis-
referem a usos.
tantes de qualquer situação dada de interação face a face. 1... 1os
lugares são inteiramente penetrados e moldados em termos de
influências sociais muito distantes. O que estrutura o lugar não é
simplesmente o que está presente na cena; a "forma visível" do
local oculta as relações à distância que determinam sua natureza A vida cotidiana está ligada à modernidade; ambas são duas
\\.JGiddens, 1990, p. 18). faces da mesma moeda, ligadas ao problema da temporalidade. A
O autor mostra como o espaço é atravessado, moldado e des- primeira funda-se num tempo banal, trivial e repetitivo; a segunda
locado facilmente. A análise crítica do cotidiano deve analisar os alimenta-se do tempo instantâneo, rápido, do tempo da publicidade,
processos temporais e suas interferências, sua quantificação no da linearidade, da fragmentação e da acumulação. A tentativa mar-
processo social e produtivo (trabalho e produtividade na indústria xista de análise do cotidiano tem por missão descrever e analisar a
e na agricultura), sua organização, as conseqüências na objetivi-
dade social e na subjetividade humana, o quase-desaparecimento
\ z.;D rito iInplica um jogo ele papéis. ele palavras e de ações não espontâneas que se
da dimensão qualitativa do tempo e do espaço na organização téc- apres~ntanl COlHO um espelho parcial. No momento do rito não se opera nenhuma
nico-nacional da sociedade moderna. transfonnação essencial do mundo das relações sociais. 111as somente uma manr-
pulacào temporal de alguns elementos racionais (Rívícrc. 1983). Os ritos muitas
---'~Não há dúvida de que o tempo cotidiano também passa pelo vezes exigem comportamentos não COIllUllS, nào adaptados à vida cotidiana. Só
crivo da homogeneidade, da fragmentação e da hierarquização, ~elo fato de ser solene. o rito apresenta uma ruptura COlll o cotidiano bem ma is
!ül~l.nalizaclo. O rito busca atribuir níveis ele íruegraçào. rcvíver crenças. propagar
Idé ias ele uma cultura e dar uma fonna de delnnítar os papéis e de tentar estru-
tural' nos comportamentos a manetra que uma sociedade ou um grupo social se
pensa. Considerados do angulo da sua regularidade. ele sua normatívídade e de
88 A vida cotidiana parece estar estruturada por ciclos: ciclo diário. semanal. anual. sua repetitiviclade. os ritos participam elo caráter reconfortante das regras pelas
das estações (este principalmente para o camponês). ciclos ele emprego. ele ele- ~llals o ~lOInelll ordena sua conduta humana. Se os ritos não operam a profunda
semprego, ~e sauele/eloença. ele j uve nt.ude , ele velhice. de renovação elas gerações uliegraçao das pessoas. ao HIenas clernonstram que aquilo que o vivido tem de
ete. Em razao dos Ciclos. as pessoas e os grupos oraantzarn-se e previnem-se: suas mais üld~tenllin~do, obscuro e ínacabado resiste e se mantém: passa a ser a fonte
vicissitudes. práticas. resignações e confiança colaboram para criar' U111modo de da duração. o atrontament o do destino.
vida (Berteaux. 1983).
~§~t. João Carlos Tedesco .:Y~radigmas do '(í~tidiano
-._/
vida cotidiana, sendo essa nãql~ssimilada à cultura, nem à história, formas superiores de repetição e de reaparição; alguma coisa que
nem à política, nem à técnica.Na abordagem marxista há um hiato resta, fluida tentativa visando à realização de uma possibilidade;
entre os momentos superiores, criadores, e a massa dos instantes uma espécie de estruturação sobre o fundo incerto e transitório
banais. O materialismo quer integrar esses momentos superiores, da cotidianidade (Périgord, 1977).
da festa, aos da cotidianidade. É nesse encontro, do seio do trivial Essa estruturação do momento, na qual está presente uma
com esferas superiores, que se operam as grandes criações. A socie- noção de liberdade, uma pluralidade de atividades e formas de pre-
dade moderna liga cotidianidade e modernidade; tempos cíclicos e sença, requer um ponto de vista de uma totalidade parcial, um as-
lineares, ritmos cósmicos e sociais se imbricam/A cotidianidade, na pecto da totalidade, um ponto de vista sobre o homem total.?" Po-
visão marxista, busca resgatar os tempos rítmicos, cíclicos e cósmi- rém, esse homem total tende a recuar na sociedade capitalista à
cos nos tempos lineares da sociedade industrial. Esse resgate de tem- medida que a propriedade absorve uma amplitude de domínios; à
pos não cumulativos (que têm sua temporalidade própria, sensível, medida que o momento racional é dominado pela técnica e pela lógi-
espontânea), engendrados nos tempos cumulaticos (lineares, da re- ca mercantil, momento esse expropriador do sonho, do corpo, do
produção ampliada do capital), constitui a vida cotidiana como um prazer é da espiritualidade. É nessa dialética entre o racional e a
nível da realidade e como intersecção (Seabra, 1996). apropriação que se constitui a noção de natureza, e essa desvela a
"i,:······.,Segundo Lefebvre, é no urbano que a cotidianidade se apre- esfera e/ou nível do cotidiano e/ou do infracotidiano (espaço da preca-
senta em seu estado mais puro; é aí que é despida de sua esponta- riedade, da subvida, da completa não-alteridade e encanto social).
neidade elementarJSeus ritmos tornam-se simultâneos; as comu- "A destruição do espontâneo, do natural, e, portanto, do uso,
nicações, instantâneas; os indivíduos se isolam, decompõem-se não se realiza somente na natureza exterior, mas também na natu-
A
em elementos dispersos. cotidianidade cai no trivial. ):.,efebvrebusca reza interna do ser humano, o corpo, o sexo" (Lefebvre, 1983, p. 183).
resgatar o excepcional, defende a restituição da festa, a transforma- Porém, por mais que o mundo se artificialize, submete-se às leis
ção da vida cotidiana pelos tempos involutivos, pelos momentos, da troca; o vivido, como um nível da prática imediatamente dada,
pelas descontinuidades (que não são sinônimos de efemeridade). Cada insurge-se, esforça-se por resgatar sua particularidade, pois é cons-
momento do ser humano contém o ser total: "É entre o móvel e o tituído de desejo, de local, de singularidade, de emoção e de exis-
imóvel, entre a eternidade e o fluxo dos fenômenos, entre o proces- tência. O cotidiano institui-se e constitui-se a partir do vivido.
so criador e a realidade constituída na passagem de um a outro, que Com isso ele traz o vivido ao pensamento teórico e mostra aí uma
nossa busca se localiza" (Périgord, 1977, p. 243). certa apropriação do tempo, do espaço, do corpo e da espontaneida-
Para Lefebvre, o momento tem uma duração que lhe é pró- de vital. A apropriação está sempre em vias de expropriação. O
pria, "é uma forma superior da repetição, da retomada e da reapa- cotidiano, ele próprio, é uma mediação entre oeconômicoe o político,
rição" (p. 243), reconcilia o contínuo e o descontínuo, o durável e o objetivação de estratégias do Estado no sentido de uma gestão total
efêrnero pela involução. O momento tem uma memória, é uma da sociedade; lugar de realização da indústria cultural, visando aos
modalidade da presença (o presente); tem conteúdo, forma e trans- modelos de consumo, no qual se destaca o papel da mídia. Enfim, no
forma-se em absoluto sem visar sê-lo, nasce do e no cotidiano, e cotidiano, entre o concebidoe o vivido,travam-se as lutas pelo uso,
sempre envolvendo as particularidades na direção e com o sentido
esse serve de fundamento ao momento. É por isso que Lefebvre
de firmarem-se como diferença (Seabra, 1996, p. 77).
'~resgata os possíveis do momento no seio do cotidiano. O momen-
d
;\!to é "uma festa individual e livremente celebrada, festa trágica,
jportanto, verdadeira festa" (1981, p. 348).
5}O l)'á discussões sobre se Lefebvre apela. nessa questão cios momentos, a uma 01l~
.; Para Lefebvre, momentos e necessidades combinam-se. O \,~_Áolop;ia.a um cxtstencíaltsmo (experiências existenciais). a urna fenomenoloala (des-
amor, o jogo, a justiça, a poesia, o repouso, a amizade, a contem- crição do vivido). a urn estrnturansmo (estrutura da consciência), a urna antropo-
logia. a uma pós-moderntdade (do desconlínuo) - ver Pérlgord (1977). Indepen-
plação, o conhecimento, o olhar, a arte (criação), a ética, a memó- dentemente dos encaixes. no fundo. O que Letebvre quer é problernattzar a colidia-
ria etc. são momentos (não instantes); são sucessões de instantes, niclade programada como mercadoria suprema, corno cercada e recheada de tem-
pos vazios e abstratos e que tem o quadro urbano adaptado a esse fim.
João Carlos Tedesco , 'I) V'"
,'J'aradigmas do \I'otidiano J71
No cotidiano cruzam-se os momentos do vivido e do concebi-
a continuidade dos valores r...]. o valor, portanto, é uma categoria
do (o espontâneo e o programado); nessa dialeticidade, opera-se ontológico-social; como tal, é algo objetivo, mas não tem objetivida-
uma zona de resíduos e de sombra que se constrói em representa- de natural e sim objetividade social. É independente da avaliação
ções, em visões de mundo, em valores. Nesse embate pelos mo- dos indivíduos, mas não da atividade cioshomens, pois é expressão
mentos e espaços do uso, na superfície da sociedade e do social, e resultante de relacões e situações sociais (Heller, 1989, p. 2-4J.
em contraposição aos momentos e aos tempos das trocas racionais A autora serve-se'da interpretação que Markus~l/faz dojo-
mundializadas, objetivadoras da acumulação do capital, surgem as
vem Marx, elencando os componentes essenciais do humano: ati-
possibilidades do vivido, as apropriações, as criações, as presenças vidade produtiva, socialidade, universalidade, consciência e liber-
e a obra. "O criador da obra realiza uma dupla criação: a do saber dade. Essa concepção não é essencialista e, sim, histórica, en-
por um vivido e a de um vivido por um saber L..J. O ato criador quanto campo de possíveis, de descontínuos e, em alguns momen-
passa através do mundo das representações, das aparências, e as tos, de contraditórios (Duarte, 1993).
supera" (Lefebvre, 1983, p. 224 e 239). \ É desse modo que Heller distingue realidade de possibilida-
Lefebvre analisa as representações dos tempos que perpas- . de. ~ tradição, por exemplo, é algo que está sendo sempre produ-
sam o cotidiano moderno, mostrando como esses atravessam de- zida, porém não significa que sua posição seja proeminente em
terminados processos de representação que esvaziam o represen- determinada época. No entanto, seu desaparecimento da cena não
tado e, ao mesmo tempo, distanciam-se do vivido, muitas vezes significa seu pleno aniquilamento. As formas como os valores so-
manipulando-o. Lefebvre (1980) quer mostrar a dialética triádica ciais se preservam podem variar dependendo dos grupos, das co-
.c. entre o representado, o representante e a~.;representação, suas munidades, dos períodos históricos: "Nem só um valor conquistado
\~::'-'substituições, concreticidadcs e reificações.\p trabalho, a lingua- pela humanidade se perde de modo absoluto; tem havido, continua
gem, o direito, a mercadoria, o consumo na sociedade capitalista a haver e haverá sempre ressurreição" (Heller, 1989, p. 10).
são dissimuladores e produtores de representações. A racionali- A moral não se constitui numa esfera autônoma, mas está
da de moderna, técnica e burocrática, produz signos e imagens conectada entre a particularidade e a univer~ahrde gené~ica hu-
representativas e representantes que omitem os conflitos' e reo- mana em situação concreta da estrutura social, A moral e sobre-
rientam sentimentos, dissimulando ideologias e o próprio vivido. tudo uma atitude pr4tica que se expressa em a?õ~s e decis~es que
A teoria crítica da representação (Lefebvre, 1980) quer transfor- concernem às ações" (Heller, 1977, p. 132). Os COdlgOS morais exer-
mar a representação como mediadora, como virtualidade (pois con-
cem uma grande influência na vida cotidiana dos indivíduos por
tém o virtual), como conhecido e momento do e no vivido. "Viver
serem justamente uma atitude prática de regulação (da particula-
é (se) representar, mas também transgredir as representações
ridade às exigências sociais) e de subordinação (aos costumes, ao
l. ..]' Pensar é representar, mIas também superar as representa- coletivo). A vida cotidiana alienada tende a canalizar a moral para
ções" (Lefebvre, 1980, p. 88). ,
a particularidade, porém o momento ético é aquele no qual os
valores morais ganham constância e elevam-se. Por "momento
o cotidias«: e g (>lJf'ttf/JJú.rncí::J de valores sociai« ético" compreende-se (consciência) a interiorização de exigências
genérico-sociais (Lastória, 1994).~)2
;. Heller compreende a história como substância da sociedade, Heller entende a moral como uma atitude prática expressa em
sendo os indivíduos sujeitos sociais formadores da estrutura-social. ações e decisões organizativas do cotidiano. Para a autora, o conteú-
A sociedade não dispõe de nenhuma substância além do homem, do moral das ações está constituído por quatro processos: a elevação
pois os homens são os portadores da objetividade social,cabendo- acima das motivações particulares, a escolha de fins e conteúdos fora
lhes exclusivamente a construção e transmissão de cada estrutura
social 1 ... 1. A substância não contém apenas o essencial, mas tam-
bém a continuidade de toda a heterogeneidacle da estrutura social, ·,,<c. MARKUS. MorAismo Y Gn/ropologia. Barcelona: Grijalclo. 1975.
';2 N. LASTORIA. Ética. estética e cotidiollo. Píracícaba: Unímep, 1994.
João Carlas Tedesco
........ " _- .. ~
...... .._- .- ..... ;4~radigmas do Y;:otidiano . 1]3
da particularidade, a constância na elevação exigida e a capacidade
de aplicar tais exigências às situações específicas concretas. cessidades e suasatisfà.ção na sociedade hurocrática deturpam a idéia
Relacionado à moral, há um sistema de motivações que in- de felicidade. As necessidades são telecomandadas, simbolizando e
clui desejos, costumes e conhecimentos (todos impregnados de modelando o desejo; o indivíduo é separado de seu próprio desejo."
sentimentos). O conhecimento implica cálculos e também a consi- O homem cotidiano é um homem (pré)ocupado; a economia, o
deração moral de fatores não previstos em que deve pesar o co- produtivismo o exigem. O elemento prático-utilitário enreda o indi-
nhecimento sedimentado no todo social, seus valores e tendên- víduo no conjunto das relações sociais e de produção, o próprio
cias (Lastória, 1994). Portanto, a moral na e da vida cotidiana é trabalho transforma-se em preocupação. Pela (pré)ocupação ocorre
tão heterogênea como a própria vida cotidiana; serve para dina- uma antecipação do tempo (aumenta-se o ritmo da produtividade),
mizar formas recíprocas e/ou de represália frente à incorporação vive-se o futuro, cria-se uma determinada relação (representação)
e à ação dos valores imersos na cotidianidade. com o espaço, com a natureza (base material do e para o econômi-
co); as coisas aparecem fragmentadas, a objetividade passa a ser o
sujeito rea1.91;('0 indivíduo se move em um sistema formado de
aparelhos e equi.pamentos que ele próprio determinou e pelos quais
é determinado, masjá há muito tempo perdeu a consciência de que
Lefebvre concentra suas análises na forma como o Estado se
este mundo é criação do homem" (Kosik, 1976, p. 63). '
constitui no gestor da sociedade e como essa gestão se instala e
Para Lefebvre, a técnica tende a fechar a sociedade, os hori-
repousa sobre o cotidiano, criando uma cotidianidade rentável
zontes, torna-se obsedante e, por conseqüência, determinante, in-
burocratizada, consumista - estética do cotidiano: "Um grande nú-
vadindo pensamento e ação. Porém, abre o caminho do possível,
mero de casais trabalhadores têm uma máquina de lavar, uma
com a condição de ser ínvestida no horizonte cotidiano. Ela é, por-
televisão, um carro. Mas os interessados têm geralmente sacrifi-
tanto, aquilo que abre e fecha a saída, que obscurece e que desco-
cado outra coisa a este equipamento, por exemplo, a vinda de
bre horizontes.
uma criança" (Lefebvre, 1969, p. 16).'\Noutra obra, "ao intenso
Há limites na racionalidade técnica. Os irracionalismos." pre-
consumo dos signos da tecnicidade, sobrepõe-se um gênero alta-
sentes atualmente na superfície, não se confundem com o mundo
- mente consumível: o estetismo J... I. Uma tecnicidade disfarçada
dos signos da técnica, do consumo e do estatismo (Carlos, 1996). O
de estetismo, sem mediação da arte, sem cultura (supondo o feti-
próprio Lefebvre diz que a
chismo da cultura), tais são os traços mais simples que legitimam
esta definição: sociedade técnica" (Lefebvre, 1991, p. 57).
A técnica, fruto de uma racionalidade desumanizada sob a
égide do Estado, faz a individualidade abdicar de sua condição de
9:< UI" estudobrtlhaute sobre o desejo. afelicieladp e o colíeliano está em L~F~BVRE.
sujeito, de cidadão; enfraquece a classe trabalhadora como sujeito r: ~J POSiÇClO: contra os tecnocratas. São Paulo: Nova Crítica. 1969.
político; faz do presentismo e do individualismo as referências da 91.)". Kosik. num de seus brilhantes textos da Dia/ética elo concreto. fala da metofi-
sica da vicio cotidiano. mostrando como esta foi transformada no horizonte fenomê-
visibilidade dos valores fundamentais do ser social (Falcão e Neto n íco do (pretocupar- se.
1987). Como diz Lefebvre (1991), os homens crêem na indepen~ !.Ir,Não há dúvida de que o excesso ele rClcionCllisTHoSprovoca. IneSl110 pulverizados.
excessos de irracionaLismos. ele paradoxos e contradições. É o caso das revíves-
dência das idéias, dos sentimentos e da consciência, porém não é cências reltgtosas, cios horóscopos. das superstições. do moralísmo exagerado. do
somente nossa consciência que é falsa: ela é falsa porque nossa trágico e do lerror (violência. não controle da natureza. poluição). dos pstcologís-
mos. das magias. elo Neu: Age. dos consumos de signos ele .. O consumo material.
vida permanece alienada. Falsas representações apartam uma ideal e personalízante possui urna tdealrdade múltipla: ao IneSl110 tempo em que é
consciência falsa de uma vida irrealizada. satisfação. é Irustraçào: ao mesmo tempo em que abundância.
é é prívacào (Lefebvre,
1991). Urna bela reflexão sobre essa questão do racional irracionalista está no Livro
\-;~\ Assim, o homem, em meio aos inúmeros objetos técnicos, 11Iela Criiique de /((... e também no capitulo 11da Vid(( cotidian(( 110 mune/o.... ambos
\ sufocado pelo terror heelonista elo consumo, sente-se vazio, 1'0])1- de H. Lefebvre, Em A. Heller. no livro História !J futuro: sobrpviverá /a 1110e/ernicladp?
mesmo não abordando na ótica do paradígma do trabalho e da produção. encontra-se
.pido da dimensão ela complementariedade e da diferença. As ne- uma discussão sobre o fenômeno burocrattzante. empohrecedor do estético. da liber-
dade, da felicidade e da democracia na sociedade atual.
174 João Carlos Tedesco
"Ji~radigmaS do ''(;:~tidiano .. 175
diferença nasce do idêntico, o imediato persiste no uso ocultado
pela troca, no vivido, como residual, possível. A sociedade foi mode- tador penetra o seio elas famílias a descobrir
aí 'factos recônditos, pequenos i.ncidentes da
lada ou modulada pelo Estado, porém, não significa que ela foi
absorvida (Lefebvre, 1991, p. 85)."/; vida doméstica, onde, mais fielmente do que
na vida pública, se refletem os caracteres e as
As capacidades produtivas e criadoras nascem humildemente ao índoles. Não julgueis que lhe basta a enume-
nível do chão; logo emergem do cotidiano e do vivido, erguem-se, ração das batalhas, dos feitos brilhantes, dos
ampliam-se, e por último, desprendem-se e tornam-se autônomas servicos humanitários, dos actos civis do herói
(Lcfebvro, 1981, p. 221).
do di~; quer vê-Ia em família, depois de despir
Claro está que esse processo só é possível com organização a farda, a toga ou os arminhos, para envergar o
política nos movimentos políticos, nos embates por democratiza- modesto robe de chambre; aspira a devassar-
ção do espaço, da informação, do direito, do consumo, dos signos, lhe no modo de viver íntimo e a estudar-lhe os
do gênero, do virtual, do uso e da troca, mergulhados na trama e hábitos; obriga o personagem da história a re-
presentar diante de si o papel de filho, de ir-
nos dramas do mundo vivido cotidiano,' O cotidiano, em meio à
mão, de amante, de esposo e de pai no drama
técnica, é para Lefebvre um cenário do possível, do imprevisto, da vida, e é então que mais interesse lhe exci-
um campo de possibilidades concretas: ta, é então que aplaude; quando lhe falecem as
Enfim, com ajuda de alguns autores, vimos algumas catego- informações, inventa, recorre ao inesgotável
rias que constituem a análise do cotidiano na abordagem marxis- tesouro da imaginação, senão a alguma coisa
ta. O veio dialético compõe a análise do cotidiano nessa vertente. de mais seguro.
O resgate da subjetividade, do individual e do humano-genérico .T úlio Dinis, Serões da província
está no campo do possível. Tanto Heller quanto Lefebvre nos for-
necem uma abordagem crítica do cotidiano; crítica de sua consti-
tuição e dinâmica; crítica dos processos colonizadores, dos blo- o {WOÚfl'M'fa do {I{~!J,,:::}[4fl~frtolwdí!f/wlo {! dt~1rtffJco fft]
queios e das homogeneizações castradoras do referencial eman- a;wt'f!ff<;:Jo do cotidiss«:
cipatório. No entanto, as análises de ambos adentram nas racio-
nalidades internas, nas estratégias e nas experiências que se cons- As pessoas querem compreender a sua vida
troem na ação, e é essa ação cotidiana que faz com que se resga- cotidiana, suas dificuldades, suas contradi-
tem espaços, tempos, signos e individualidades no cotidiano. É ções, as tensões e os problemas que se lhes
desse espaço que brotam racionalidades adaptativas e circularida- impõem. Em conseqüência, exigem uma ciên-
des que se excluem e que se complementam. É desse modo que o cia das medições que traduza as estruturas
vivido encontra espaço e ÜIZ sua leitura dos concebidos sociais. sociais em comportamentos individuais ou
microssociais. Ferrarotti 0982, p. 127).'"
Queremos neste item refletir sobre a importância do senso
g,2ue.;;iih~.;; i eorlco- toetodo tógices {.:j{';O Jrf{-}doo;
comum nos estudos do cotidiano, até para afastar alguns precon-
{';t'lo {;f·u~{-idf!lfAl{.:J Mfae';.Ji11g ceitos e exorcizar concepções reduci.onistas.
Primeiramente, é bom que se diga que o cotidiano é um espaço
Ao lado da biografia exacta de um indivíduo, privilegiado para a análise sociológica porque ali perpassam proces-
ainda dos mais obscuros, o povo refere de ordi- sos reveladores do funcionamento, da transformação e dos conflitos
nário outra, menos documentada talvez, po- que engendram ações sociais (Schutz, 1977). Também é bom limpara
rém sempre mais curiosa. Com olhar perscru-
,••.Ver LEFI';BVRE. H. De /·e/w. Paris: UGE. 1976. 1011I0 I. '" FERRARO'ITI. Franco. Acerca de Ia autonomta del método biogralko. 111: DUVIG-
NAUD. J. Sociologia dei cOllocimienlo.. México: Fondo de Cultura Econónuca. 1982.
179 João Carlos Tedesco , ::Y~radigmaS do '(;;otidiano 177
..... _~ -- . _ _ .
terreno desde logo dizendo que cotidiano não é, automaticamente, com Lalive dEpinay (1983)100quando diz que o cotidiano é o cruza-
sinônimo de senso comum. Por mais que a sociologia da vida cotidia- mento de múltiplas dialéticas entre o rotineiro e o acontecimento.
na não tenha ainda um referencial conceitual preciso, coerente e A idéia de começar pelo senso comum, pelo mundo da vida,
próprio, um objeto unificado, não significa dizer que o apelo à esfera pressupõe a necessidade de uma base epistemológica que possa
do senso comum lhe dá a vestimenta deste; muito menos que o con- pôr em xeque as noções comuns do senso comum e elo cotidiano,
ceito só é conceito na medida em que esteja amparado por uma entrelaçando aspectos micro e macro, isto é, "o plano dos compor-
teoria coerentemente estruturada (Azanha, 1992).9HÉ, sim, um lugar tamentos dos indi víduos com aqueles outros planos que resultam
revelador de problemas sociológicos importantes. da conjugação de variáveis macrossociológicas como poder, ideo-
A sociologia,diferentemente das ciênciasda natureza, tem no mundo logia, autoridade, desigualdade social etc." (Pais, 1986, p. 12), ou
pré-interpretado postulados - conceitos leigos, diria Giddens -, segun- seja, dar historicidade ao social, fazendo aflorar as estruturas so-
do os quais a criação e a seqüência dos quadros de significados passam ciais globais, suas mediações e suas instituições.'?'
a ser a condição do que se procura entender. Isso implica, sem dúvida, É, como diz Lefebvre (1991, p. 56), "alcançar o extraordinário
penetrar hermeneuticamente na maneira de viver dos elementos a do ordinário". A base epistemológica caminha pelo veio do tempo;
serem investigados; implica um espaço para entender esses conceitos quer dizer, a temporalidade do cotidiano, como já vimos, é não só o
leigos, ou dos leigos que muitas vezes são retirados dos vocabulários presente e, muito menos, só cíclica. Voltamos a repetir, há uma his-
técnicos das ciências sociais e incorporados na racionalização do seu tor:icidade do cotidiano-" mesmo nos fatos banais, como nos recôndi-
modo elevida. "A imersão numa forma de vida é o meio único e neces- tos. Os indivíduos e os fatos (biografias) não podem ser considerados
sário através do qual um observador é capaz de produzir tais caracte- como expressão aleatória (passiva) de um espaço individual e isola-
rizações" (Giddens, 1996, p. 184). O desafio está em saber de que modo do: "São sínteses complexas de elementos sociais" (Ferrarotti, 1982,
descrições cotidianas são passíveis de mediação por categorias do dis- p. 112). Com isso não estamos querendo refutar a subjetividade, os
curso científico e social (Azanha, 1992). Aquilo que Schutz chama de fundamentos da sociologia compreensiva, muito menos os contextos
base do conhecimento que os indivíduos detêm e colocam em prática de interação social subjetiva. O que queremos é enfatizar que o sa-
nas interações sustenta um conhecimento mútuo que não tem só ca- ber, mesmo intuitivo, do senso comum, deve ser resgatado dos sig-
ráter prático, mas que também contribui para a racionalização explíci- nificados, como processos constitutivos da realidade social.
ta da sua cultura, do sentimento de pertença, de sabedoria acumulada Alguns conceitos e noções, tais como ação significante, mun-
e sua simbologia." É difícil conceber que as formas mais ordinárias de do ela vida, experiência que se vive, projeto, relevância, tipificação,
ação e de comportamento não possam ser qualificadas de intencionais realidades múltiplas, intencionalidaele, meu mundo, entre outros,
ou de dotadas de propósitos (como diria Weber), acreditando manifes-
tar um resultado ou uma qualidade particular (Pais, 1986).
Começar pelo pré-científico (Schutz, 1977) e descrevê-Io sig- I'" Ver em LALlVE D'EPINAY. C. La víe quotídtenne. Essay de constructíon duu con-
ceplo socíologíque el anthropologtque. Cahiers [nlerna/iollcwx de Socioioqie. v. LX-
nifica uma postura de não-dualidadejbíão há separação entre sen- XIV, p. 13-38. 1983.
so comum e vida cotidiana, o que não significa dizer que são a 101 Acreditamos que o esforço de perceber o nexo global-local é Importante na pers-
pectiva crítica do estudo do cotidiano. Por ruais que hoje os mais devotos do pro-
mesma coisa.\O que normalmente se convencionou dizer é que o cesso ele gIobalização-mullclialização-econolllia-mundo (e urna série de outros adjeti-
cotidiano está"em oposição ao histórico-significativo. Concordamos vos que o mesmo ganha) tentem ignorar o local. localismos apresentam-se: há cla-
ros processos. ações. evidências e movímeruos que mostram urna tentativa de res-
gate do local. Inesmo que não seja mserido na dtrnensão da nação e. sim. da glo-
balizaçào. A dnuensào relacíonul (sem idealizar ue m um nem outro. também se m
ser ingênuo em julgar que o movnnento da globalização não interfere). não na ótica
98 Como ciência normal no sentido que- T. I<uhn lhe da. Ver seu polêmico livro As jJlLriS[C(, perrníte ver a Incorporação de fatores. de ractonalídades e de estratégias
esrrurums elas revoluções cientificas. São Paulo: Perspectiva. 1975. que se imbricam. definindo espaços. valores e. por que não. as significações cu\-
9~ O meio camponês é elucidauvo dessa dimensão. Há uma racíoualízacao da ação na tu ra is.
vicia diária dos individuos que. mal ou bem. é afe rtda COI110 ClcleC[!.Lnd(l n contextos 1m Ver FERRÀROTTI. F. Histoirc el histoires de [Jie: Ia méthode bíograüe dans les
ou convenções aceitas. as quars momroram a chamada eficiéncia técnica do agir scíences soclales: Paris. Meridíens. 1983: PAIS. J, M, Fontes documentais na
cotidiano (Azanh~, 1992). análise ela vida cotidiana. Análise Socio/. v'. Xx. 83. p. 507-519. 1984,
I~I
II
'I
João Carlos Tedesco ,;il~radigmas do 'Votidiano
.179
"
retirados das análises (polêmicas) de Weber e Schutz, poderão nos A questão fundamental a ser levantada, na esteira de Aza-
ajudar a entender a problemática da intersubjetividade e a exis- nha (1992), como problema teórico-metodológico é: como, no amon-
tência de um mundo social e cotidiano toado de relações, fatos e situações, dar unidade ou seleção a situ-
Partindo do senso comum, pode-se, em algumas circunstân- ações que possibilitem a compreensão do fio condutor revelador
cias, "desobstaculizar impasses presentes ao nível de outros dis- da totalidade? Ou, em outras palavras, como compreender a tota-
cursos mais elaborados" (Pais, 1986, p. 35). O senso comum tem lidade revelando-se por uma de suas partes? Como fundamentar
uma estrutura lingüística ("categorias reais")lÜ;) para interpretar e teoricamente uma multiplicidade de situações, de episódios, quando
ordenar os fatos cotidianos, que muitas vezes não se reduzem às o próprio registro total é impossível? Como selecionar um ponto
suas circunstâncias pessoais. Sem ser uma realidade de segunda de vista neste registro total que seja abrangente, que contemple,
ordem, é dessa base lingüística que emergem modelos interpreta" que estabeleça configuração ao isolado, caótico?
tivos, visões de mundo, sistemas de valores, enfim, representações Uma coisa é certa: para não cair no empirismo, é necessário
sociais'?' que, relativas e instáveis, tornam-se enriquecedoras da uma compreensão que permita organizar a trama em fluxo de
realidade social e da investigação científica do cotidiano. relações que, aparentemente, são ou estão desconexas. Daí se faz
necessário compreender que a vida cotidiana é uma totalidade, IIJ5
() iwohlcw/J da ;irt;;/kl(-,j//É' porém não entendida como mera agregação de partes, pela justa-
posição das mesmas, sem levar em conta as novas qualidades emer-
.• Uma questão primeira a enfrentar é romper com a idéia de que gentes no processo, nos moldes do holismo ou do positivismo em-
o estudo do cotidiano é apenas uma coleta de dados, de registro do dia- piricista (Azanha, 1992).
a-dia. O grande desafio é mostrar que a constituição de uma ciência do Weber (1982, apud Azanha, 1992), mesmo na ótica da objeti-
<homem é parte do cotidiano (Azanha, 1992). Na visão de Azanha, um vidade das ciências sociais, ilumina-nos na tendência de promo-
estudo do cotidiano tem de aceitar alguns pressupostos pouco ortodo- ver a partição de situações e/ou categorias reveladoras da totali-
xos aos argumentos da cientificidade na medida em que têm presen- dade:
tes a efemeridade das ações, a infalibilidade de algumas categorias Tão logo tentamos tomar conhecimento do modo como se nos apre-
analíticas, os elementos da subjetividade etc. (como é o caso da abor- senta imediatamente a vida, verificamos que se nos manifesta,
dagem maffesoliana); ao mesmo tempo, evita generalizações objeti- dentro de nós, sob uma quase infinita diversidade de eventos que
vas, continuidades desconexas e descontextualizadas, prioriza a pes- aparecem e desaparecem sucessiva e simultaneamente. E a abso-
quisa empírica como fundamental para perceber os movimentos e luta infinidade dessa diversidade subsiste, sem qualquer atenuan-
transformações por que passam e constituem as práticas cotidianas. te do seu caráter intensivo, mesmo quando prestamos a nossa
Só a pesquisa empírica propicia desvelar o implícito e o oculto nas atenção, isoladamente, a um único "objeto" 1... 1 e isso tão logo ten-
tamos sequer descrever de forma exaustiva essa "singularidade"
estruturas das relações cotidianas, relacioná-los de modo analítico-
em todos os seus componentes individuais, e muito mais ainda
teórico às articulações e relações mais amplas inseri das nas transfor-
quando tentamos captá-Ia naquilo que tem de casualmente deter-
mações histórico-sociais, econômicas e culturais em curso. minado.
A citação transcrita é reveladora da necessidade de identifi-
1(>;, U111aanálise sobre o uso cotidiano da linguagerll. suas formas discursivas. seus signi-
carmos e de isolarmos no em arranhado de relações na vida coti-
ficados ("o lado de dentro da linguageln") está em CERTEAU. M. A invenção do cotidiano: diana as partes mais interessantes, mais abrangentes e mais re-
Petrópolis: Vozes. 1994: A cultura no pluml que a editora Papirus publicou. em 1997.
é UIl1 outro livro de Certeau IlIUiLo interessante nessa dimensão de análise.
veladoras de totalidades, ainda que sejam parciais, pois nem a
101Um livro que é U1113 obra-priIna sobre as representações. sobre COlHO um objeto vida cotidiana nem a totalidade são estáticas. É claro que as múl-
pode ser constituído de Inúmeras representações. de corno essas, em detennina-
das circunstâncias. subsnt uern. constüuem e se convertem em realidade social. é
o de LEFEBVRE. H. La presencia y Ia ("([Lse1lcia. Contribución a Ia teoria de Ias
representaciones. México: Fondo de Cultura Economica. 1983. llC, A idéia de totalidade esta mun.o bem fundamentada em Kosík (1976).
João Carlos Tedesco ;Y~radigmaS do 1?-otidiano
tiplas determinações não nos deixam correr o risco de, pelo fato primeiro plano das preocupações intelectuais (filosóficas e cientí-
de selecionar partes, dicotomizar partes essenciais com aciden- ficas), mas ?oucas pessoas se apercebem que é o cotidiano que for-
tais, ou cair numa concepção essencialista.l'" que vê a realidade nece uma VIa para abordar a globalidade."
como imutável, acrítica, teórica e definitivamente explicada (Aza- . O ~otidiano torna-se um meio de acesso ao global, como uma
nha, 1992). medI~ç~o entre o particular e o universal, entre o local e o global.
O cotidiano, como diz Lefebvre (1981), não se inscreve nos domí-
nios ~u nos campos parciais. Seu conceito é global, concerne e
questiona o curso de seu desenvolvimento, a totalidade. Querer
Como já afirmamos, a aplicação de procedimentos metodoló- tomar e definir o cotidiano segundo a escala aparente (o rnicro) é
gicos rigorosos para o estudo da vida cotidiana, segundo alguns deixá-lo fugir; querer tomá-Ia no sentido global é também deixar
autores, nem sempre se mostra eficiente, em razão, justamente, fugir a totalidade (Azanha, 1992).
das inúmeras variáveis implica das nessa dimensão do real. Com Percebe-se que os estudos sobre vida cotidiana têm sido
isso, não queremos dizer que haja impossibilidade de um saber embasados em fortes tendências teóricas e metodológicas dos mi-
científico sobre o cotidiano, muito menos que não sejam necessá- cro~rocessos da vida social. Há autores que defendem que a racio-
rias hipóteses e marcos teóricos bem definidos. Pelo contrário, o nalidads técnica cria condições, utiliza-se, alimenta-se e multipli-
desafio teórico está em conseguir fazer a passagem da parte para o ca os pequenos fragmentos do cotidiano. No entanto, aí já está
todo, ou seja, em descobrir o todo na parte, em articular um saber uma am?stra de que o social, expresso pelos indivíduos, não pode
que fundamente e, ao mesmo tempo, supere os limites do "aqui e ser analisado sem se ter presentes elementos que constituem o
agora", dos pares de oposição micro/macro, local/global. O critério ~thos, o habitus da sociedade moderna, sejam as instituições, se-
jam os valores e representações interiorizadas,
em última instân-
da racionalidade científica (saber justificado) é o elemento que ul-
cia, as regras desse social.
trapassa as oposições (inclusive a indução/dedução) e que contrasta
com os saberes do senso comum e mágico (Azanha, 1992). . ~a.co~tracorrente da interpretação de Kuhn (1975), da ma-
No entanto, as implicações lógicas (tão ao gosto dos positivis- triz disciplinar e da ciência normal.t= os estudos sobre vida coti-
tas), da "racionalidade científica", esbarram em conexões indutivas diana .devem estar mais na ótica daf'ronteira deslizante do que do
(tradição, cultura, subjetividade) de difícil elucidação. Não estamos, paradigrna. O seu campo é movente, orientado por vários vieses
com isso, pregando que o indutivismo se fundamenta unicamente teóricos, instrumentalizados por matrizes conceituais e métodos
nas oposições, nas probabilidades ou nas irracionalidades;'"? o que não muito c?nvencionais das micro e macroanálises (Azanha, 1992).
queremos dizer é que a rigorosidade metodológica no estudo do Acreditamos que a perspectiva dialético-marxista do método
cotidiano esbarra em variáveis que inviabilizam a própria análise lefebvriano nos possa dar uma orientação metodológica na difícil
e, também, que o estudo da vida cotidiana, transcendendo os limi- tarefa de compreender a parte no todo e vice-versa. O método
tes da simples experiência, pode ser incluído nessa orientação ge- regressivo-progressivo de Lefebvre foi explicitado nos estudos so-
ral da ciência e da compreensão da vida humana. Como diz Lefebvre bre o rura1.11J9 Para o autor, a realidade social tem duas dimen-
(1981, p. 21): "No momento, o global e o total se inscrevem no
tos R. BrOWI,1. no .t~xto Ordre et revolutiOIl dans les formes llorlHales dLL discours et de
l~l. COllc~uüe.cnü~~a 0, ncopostüvísmo kuhruano das crises. das revoluções, da cíén-
100 H. Lefebvre (1991) reflete muito sobre isso e nos alerta para o problema da par- era nOI_mal. da Ildelldade (comunidade cienlílka) e da díficuldade de deslizar das
tição do real e das explicações últimas e definitivas. Irorrte ira s , devido a Impregnação de regras e normas do paradígma. O autor dis-
107 Há inúmeras discussões ainda em grande parte não solucionadas (ou. então. não cute a posstbrlídaríe de vinculação do paradig.lIla prático do microssocial (princi-
válidas para todas as áreas do conhecimento) sobre o problema da indução/dedu- pahne_l1te a etnOIuetodologia) COlll o nível macropolitico.
ção. do rigor do método. da idéia de probalidade. Popper. Kt th n , Gadamer. Webcr. lU!Reflexões sobre o método encontram-se 1I0S textos ele Lcfcbvre sobre o rural, EntraI110S em
entre outros. contrtbu íram ímensnmente para o entendimento da questão. porém a conlat? apenas com o Da rural à ...já citado. e também os textos de Lefebvre no Introdu-
polêmica continua. çno cntica CI soclDlogiu nunl. organizado por MARflNS. ,J. S. São Paulo: Hucilec. 1980.
)/). V
182 ... João Cartas Tedesco • j aradigrnas do V~tidiano
183
sões: horizontal e vertical. Nessas dimensões, as temporalidades até, de ser um pensador da pós-modernidade. É acusado de ofere-
desencontradas podem ser apreendidas como coexistentes. cer referenciais teóricos para essa corrente na medida em que é
No método de Lefebvre, o primeiro momento é o dado descriti- um crítico profundo da forma como a modernidade estruturou o
vo (observação pela experiência, porém informada por uma teoria ge- s~cial e a urbanização desurbanizada; na medida em que celebra a
ral, usando técnicas de entrevistas, histórias de vida ...); o segundo diferença em contraposição à tendência homogeneizante do mun-
momento é o analítico-regressivo (análise do descrito, esforço por datá- do; na medida em que focaliza a fragmentação e suas novas cen-
10, é a dimensão vertical, o encontro de temporalidades que coexis- tralidades do espaço, identificando este como dominado familiar
tem, o resgate das fontes contextuais e históricas ...); o terceiro é o instrumental, lúdico, mental, absoluto, abstrato, concr~to cultu~
histórico-genético, em que se faz um esforço para retomar ao atual, ral, diferenciado, masculino, neutro, orgânico, psíquico, político,
para elucidá-lo teoricamente na ótica dialética do vivido e do concebido real, repressivo, estatal e social (Lefebvre, 1974). Os aspectos pós-
pelo percebido, descortinando aí as estruturas datadas, os conjuntos modernos de Lefebvre, segundo Dear (1993), apresentam-se nas
de relações, as contradições históricas, suas gêneses, suas superações distinções que o autor faz entre práticas espaciais (nossas percep-
e possibilidades (Martins, 1996). As noções de complexidade, de tem- ções), as representações elo espaço (nossas concepções) e os espa-
poralidade e de polissemia disciplinar (pela praxis) fazem do conceito e ços ele representações (o nosso espaço vivido). Esses elementos
da realidade dimensões abertas a muitos âmbitos. É um esforço de criariam uma morfologia espacial própria da concepção pós-mo-
pensar o concreto, de pensar criticamente a forma como se transfor- derna.
mou o mundo moderno e de fazer com que o concreto e o abstrato!" A crítica de Lefebvre à uniformização funcional da arquite-
formem dois aspectos inseparáveis do conhecimento. tura, à reabilitação da dimensão simbólica e lúdica das tradições e
Acreditamos que, acima de tudo, O importante, se quiser- de um certo culturalismo não passa despercebidas por alguns de
mos conservar um olhar compreensivo sobre a vida cotidiana, não seus críticos, especialmente Hanel e Poitras (1993).
é adotar tal ou tal técnica de investigação, mas sempre buscar a Lefebvrs insiste na dimensão simbólica e estética do cotidia-
estruturação simbólica e objetiva do mundo da vida (como diz Ha- no. Seu método regressivo-progressivo é considerado por alguns
berrnas); acrescentaria, numa perspectiva crítica. de seus críticos como uma forma de idealismo. Lefebvre é consi-
derado por alguns sociólogos urbanos como o pioneiro do pensa-
mento P?s-moderno, sobretudo na análise do espaço, pois advoga
a necessidade da autogestão e da democracia direta em relação ao
espaço urbano. A autogestão implica o desaparecimento do Esta-
Heller é criticada não tanto pelos seus primeiros escritos,
do e o fim do político (tendências presentes na doutrina neolibe-
mas, sim, por tê-Ios hoje menosprezado em razão de sua opção
rall._Para ele, existe uma incompatibilidade entre o modo elepro-
analítica do social. A autora adentrou na filosofia do sujeito pela
duçao estatal e o urbano, pois o primeiro impõe mecanismos de
moral subjetivista, própria da filosofia utilitarista de ênfase indi-
controle, relações de dominação, o que impede os usuários de se
vidualista. É criticada por ter optado por um utilitarismo existen-
apropriarem do espaço (Hanel e Poitras, 1993). Para Lefebvre
cial que resgata a bondade e o aprimoramento moral - a interiori-
uma ."transformação da sociedade supõe a possessão e a gestão
dade estóico-epicurista - am bos os aspectos desprovidos de uma
coletiva do espaço, por intervenção perpétua dos interessados com
proposta revolucionária do social (ver Granjo, 1996).
seus múltiplos interesses diversos e mesmo contraditórios" (apud
Lefebvre também não escapa imune, sendo acusado por al-
Hanel e Poitras, 1993, p. 49).
guns analistas de ser um dos mentores da crítica pós-moderna ou,
. ~s críticas a Lefebvre, no sentido de ser um precursor e
ptonerro dapós-modernidade, não ficam só na questão do espaço
urbano. O fato de ter escolhido certas questões de análise que não
110 "Le concret detemüné devient ele:' labstrat , apparait conune du coucret dejá conriu.'
obedecem a certos esquemas axiológicos e analíticos de algumas
LEFEBVRE. H. Cahiers Inlemaíionaw( ele Sociologie. Paris. v. 14. p. 122-144. 1953.
João CarlosTedesco
tradições e/ou traduções marxistas, como é o caso da cotidianida-
de, do direito à diferença, da heterogeneidade do social, da plura-
lidade dos modos de vida, da democracia direta, da antiplanifica-
ção, do plano da sensibilidade (aos modos apocalípticos de
Baudrillard), da formulação de discursos alternativos da valoriza-
ção do local, da rejeição do formalismo e da padronização, do ape- CONSIDERACÕES
-'
FINAIS
lo à descentralização, dentre outras, coloca-o como defensor de
princípios que enriquecem as abordagens pós-modernas.
A PERSPECTIVA DE ANÁLISE
No entanto, apenas gostaríamos de dizer que é bom não es-
quecer, principalmente os que gostam de interpretações ideo-
CRÍTICA
logizadas, encaixadas e/ou apressadas, que Lefebvre nunca renun-
ciou à ambição de transformar o real. Se há insistência na dimen-
são lúdica, na festa, na rua, no rural, no direito à diferença, nas 1 ... 1 porém precisamente por isso ela (a vida cotidiana) contém a
dimensões simbólicas, estéticas etc., ambas não estão dissociadas totalidade dos modos de reação, naturalmente não como manifes-
da análise e da discussão de práticas efetivas da apropriação, da tações puras, mas caótico-heterogêneas. Conseqüentemente, quem
burocratização e da racionalização, todas fundadoras e fundamen- quiser compreender a real gênese histórico-social destas reações
tos de relações sociais instrumentalizadas pela razão técnica que está obrigado tanto do ponto de vista do conteúdo como do método,
coloniza o cotidiano. a investigar com precisão esta zona eloser.
Lukács(1966,p.12)
(-~-''''''''lãrnos, nesse esboço de reflexão, com ajuda das fon-
f/"="') es e de comentadores, transitar por alguns aspectos teó-
\,/ ricos que tematizam a problemática do cotidiano. Prio-
rizamos alguns, deixamos outros, como é o caso da corrente feno-
menológica e do espaço do mundo da vida habermasiano. Quería-
mos desmistificar um pouco esse universo de análise, mostrar
sua abrangência, importância e premência de abordagens críticas
e que possam adentrar nos problemas metodológicos, epistemoló-
gicos e teóricos que o envolve.
Sabemos que o tão propalado processo de globalização e a tão
batida crise de explicaçõestotalizantes, em andamento, por mais con-
traditórias, polêmicas,dinâmicas e complexasque sejam, estão modi-
ficando conceitos,noções de espaço e tempo, momentos, modo de ser
das coisas,o local,a tradição etc. A globalização, por exemplo,consoli-
da-se comoum sistema global, com vida propricüé), aparentemente,
independente das sociedades nacionais e de suas fronteiras,'!' imple-
III Urna analtse 11U:'llos panorámír-a e qlobaiizante, mostrando a necessidade de Iatos.
criacôes. concepções. reações e organizações que brotem de dentro. em oposicâo
ao brutal lllol'im~llto que vem de fomo encontra-se em SANTOS. M. Tecllica. esp«-
ço. tempo. São Paulo: Hucilec. 1994.
18º- " João Carlos Tedesca ;..Y~radigmas do '(~tidiano , J87
mentando todo um jogo de relações e movimentos nas várias dimen- que.perpass,ª.ª.~hªP.:lª~J?: .."s!~il~,z..ªS~Q_técni~o-i!.1dustr~-ªI:Q~"pÓs-.
sões da vida social e individual- subjetividade, direito, moral e valo- industrial"; compre.endê.-la.cOIr.1.QJ,QtpljQª(l~:!lll1.::-ª_tQ,j,illª-miça.,
aber:-
res em geral. Envolvidos russo, o passado (tradição), o local, o lugar, a t.a..e..PQss.íY..el,
enfim, jnte.rp.L~t..ád.ª-lliLquadroda sociedade global.
identidade e o cotidiano são redefinidos, recriados, subsumidos, resga- Sabemos que o real é bem mais profundo que o existente ou
tados, rompidos, imaginados, imajados e imagináveis, tanto pela ra- a existência constatável. Porém, entendemos com Marx que o
cionalidade técnico-econômica(produtivismo, cálculo, mercado) quan- °
aparente e essencial coincidem no seio do real, que a consciên-
to pela anti-razão pós-moderna (pela imagem, pelo imediato, pelo evi- cia nasce dos problemas, dos conflitos e das contradições dos pos-
dente, pelo virtual, pelo fugidio..J. São todos elementos e situações síveis, nos aparentes e espontâneos vividos ou do viver cotidiano.
que se complementam e se imbricam em meio à globalização. A praxis que intermedeia a vida cotidiana deve criar uma cons-
O cotidiano está aí, não morreu; pelo contrário, vive e situa- ciência do possível, estabelecer o lugar do reencontro e do afron-
se no centro da problemática contemporânea, absorve a experiên- tamento entre o repetitivo e a criação disseminados não só no
cia da modernidade, contraditoriamente, em meio à rotinização, econômico-técnico, como mediadora dos momentos, dos usos, do
palco da desintegração e da mudança, da unidade e da contradição. desejo, da diferença, do informal e da ruptura da alienação. E,
A partir disso, tentamos mostrar que as correntes sobre o cotidia- como diz Lukács (1966, p. 11),
no se dão em razão dessa problemática toda: das crises epistêmi- a sociedade só pode ser compreendida em sua totalidade, em sua
cas, da razão, de métodos, de transformações e de reencantamen- dinâmica evolutiva, quando se está em condiçõesde entender a
tos que o espaço cotidiano expressa. vida cotidiana em sua heterogeneidade universal. A vida cotidiana
Priorizamos algumas correntes, porém damos mais ênfase à constitui a mediação objetivo-ontológicaentre a simples reprodu-
abordagem marxista por entender que suas análises complexifi- ção espontânea da existência física e as formas mais altas de
cam o cotidiano e mostram os elementos alienantes, fetichizantes genericidade agora já existentes 1... 1, conseqüentemente, um estu-
e colonizadores dessa dimensão vital, assim como resgatam ele- do apropriado desta esfera da vida pode também lançar luzes so-
mentos libertadores e insistem na transformação radical das es- bre a dinâmica interna do desenvolvimento da genericidade do
truturas sociais reprodutoras da forma como se organizam as re- homem, precisamente por tornar compreensíveis aqueles proces-
sos heterogêneos que, na realidade social dão vida às realizações
lações e os convívios sociais.
de genericidade.
Ficamos com a idéia de que Lefebvre e Heller nos oferecem
uma análise fundamentada em uma práxis aberta, sem idolatrar as A análise da dimensão do ser social, no trabalho, na família e
categorias do pensamento, numa crítica permanente, na esfera do em outras instâncias genéricas, implica concepções e apreciações
possível. Mesmo que estejam presentes o sonho e a imaginação, am- na escala do conjunto social, que demonstrem a conotação alie-
bos nos oferecem uma orientação de possibilidade do pensamento teó- nante, desencantada e angustiante em que foi transformada a co-
rico. Lefebvre, tanto na questão do método analítico regressivo-pro- tidianidade. Nisso Lefebvre nos é uma grande referência. Essa
gressivo quanto na diversidade dos temas abordados, na sua interpre- percepção do processo não pode se dar numa perspectiva unica-
tação inovadora da dialética marxista, na sua luta insistente contra o mente individual; são necessárias transformações concretas das
positivismo e o empirismo em nome de uma visão de unidade entre o significações, das representações coletivas do cotidiano, ligadas
indivíduo e a sociedade, na insistência nas mediações, na reflexão teó- às condições concretas, materiais, às estruturas sociais, às ques-
rica, nos movimentos sociais (comoas lutas urbanas), na perspectiva tões culturais e ao passado.t " Isso porque não há dúvida de que o
de emancipação da classe trabalhadora no seu espaço (o direito à cida-
de) e na sua noção de vivido, oferece-nos um conjunto de referenciais
criticos que perpassam as relações no cotidiano. 112 "l... 1 há alguns anos fui ver a casa ern Avalon. N(10 estava lã. Né10 só a casa. 111<1S
J A crítica da vida cotidiana precisa levar em conta a historici:. toda a vtztuhança. Fui \TT o salão onde eu e me us írmàos COIlStUllH.lV<1UlOS tocar.
Também não existia mais. Não só ele. luas o mercado anele Iaziamos nossas com-
"z~lçãõdas relações sociais, principalmente a razao instrumental, pras tarnbém. Tudo desapareceu. Fui ver o lugar onde eu morava. Não existe mais.
18§ João Carlos Tedesco
,-Y~radigmaS do '{otidiano .. 189
cotidiano perdeu a perspectiva prática do momento histórico, de-
sabam as referências, marcam-se o distanciamento e a banalida- próprio conhecimento, a efemeridade das perspectivas, a ~etero-
de (ignorando o passado), lineariza-se positivamente o tempo, ao geneidade das temporalidades, os ritmos desconexos, descortinando
mesmo tempo em que se fragmenta o espaço na homogeneização, o tempo imutável e repetitivo ligado aos hábitos, mas também o
tempo criador, dinâmico e das inovações.
concentrando-se na consciência imediata, empobrecendo a me-
mória (Carlos, 1996). Em síntese, a dificuldade do historiador está mais na frag-
O desafio acadêmico está em estrutural' metodologias e mentação do que na ausência da documentação, o que requer pa-
teorias que promovam o diálogo epistemológico entre o micro e o ciência, leitura detalhada para esmiuçar o implícito e o oculto,
rnacro, que dêem conta das várias modalidades que a vida social para descortinar as estruturas do cotidiano.
hoje apresenta e que o cotidiano, com signos de insignificâncias É nesse sentido que muitos estudos do cotidiano (sendo uma
do presente, para dar lugar ao lugar/local, à memória, às tempo- de suas características) concentram-se na pequena comunidade.
ralidades entrecruzadas, ao signo significante e significado histo- Nessa, há uma localizaçã.o que permite uma observação direta e
ricamente. participante; uma presença dos atores sociais identificados por
Resgatando inúmeras abordagens históricas sobre o cotidia- suas representações, suas estratégias e suas práticas; um con-
no, Matos (1994)11:3 diz que o historiador do cotidiano tem como junto de fatos que manifestam uma experiência total (Azanha, 1992),
preocupação restaurar as tramas de vidas que estavam encober- 'os quais permitem perceber as pressões, os atos mais individuali-
tas, procurar no fundo da história figuras ocultas, recobrar o pul- zados e os mecanismos mais submissos aos dispositivos sociais. A
sar no cotidiano, recuperar sua ambigüidade e a pluralidade de ligação entre comunidade e cotidiano tanto delimita ligações so-
possíveis vivências e interpretações, desfiar a teia de relações co- ciais, representações e simbolizações, como negociações e imagi-
tidianas e suas diferentes dimensões de experiência, fugindo dos nários (Balandicr, 1983). Segundo Balandier, a utilização da obser-
dualismos e das polaridades e questionando dicotomias. vação direta/participante, o estudo de situações e de interações, o
Ao recuperar o processo histórico, os estudos do cotidiano método de história de vida, dentre outros, são importantes, além de
buscam perceber as mudanças e permanências, as descontinuida- promover o intercâmbio entre o campo sociológico e o antropológi-
des e fragmentações, as amplas articulações, as infinitas possibili- co, ou melhor, reconhecidamente uma antropologia da sociologia
dades dessa trama multidimensional, que se compõe e se recom- do cotidiano.
põe continuamente (Matos, 1994, p. 19-20). A autora reconhece O problema dessa centralidade da análise do indivíduo no
que os estudos históricos do cotidiano têm limites na utilização de espaço local é que os espaços se dispersam na vida cotidiana; há
premissas e de conceitos preestabelecidos e generalizantes, o que várias ligações espaciais, umas mais próximas e mais fechadas;
implica conceber mudanças e descontinuidades históricas; aponta outras mais abertas e menos regulares, mais fora; outras mais
a necessidade de construir categorias de análise no próprio pro- internas. Assim como há uma localização que se desloca, há tem-
cesso de pesquisa, de aceitar a transitoriedade de conceitos e do poralidades cotidianas que se cruzam, ritmos, ciclos, regularida-
des, repetições, instabilidades, tempo livre, tempo privado, etc, E
evidente que o cotidiano se caracteriza pelo repetitivo em relação
ao factual, pela continuidade e permanência, até porque o cotidia-
Ne m a rua existe. neru mesmo a rua! Eutào fui ver o clube noturno do qual fui dono no estrutura um modus uiuendi que esconde o movimento tempo-
e. gr;:lças a Deus. estava lã. Por um rnuruto achei que eu nunca tivesse existido"
(relat o de Sa.m para seu bisneto no fihne Avalon - ver discussões sobre a que st.ào ral (Carlos, 1996). Com isso não significa dizer que o cotidiano não
da memorta do espaço em Carlos. 1996J.
seja um lugar de criação, de inovação, do espontâneo, do jogo, do
11:'. A autora aclentra em estudos que tematízam o cotidiano. enfocanclo as suas prin-
cipais preocupações analíticas. citando Braudel, a corrente da Nova Hislória. a imaginário, da festa e da resistência. Esses processos todos mani-
historiograna das mentalidades. ín úme ros esluclos de gênero e espaço público
festam a dificuldade analítica e metodológica de identificar o coti-
(Pe rrot , De Cert enu. Artes. Four-autt , I311rke. deut re outros]. mostrando que o his-
toriador esta protuudamcnre ellgi.:'tjado CQIII ;1 1, !(hdt" de perspectivas aua- diano, ao mesmo tempo em que revelam a complexidade de uma
Iutcas. dcnt.re elas. o ('vi irhano.
sociologia do cotidiano.
190 João Cartas Tedesco .Y~radigmas do ''t>otidiano J91
....•... -_ .
Lalive dEpinay (1983) desafia-nos a adentrar na perspectiva Pensando como Lefebvre, vimos que o cotidiano é um hori-
inter e intracultural para precisar as estruturas, os conteúdos, as zonte por excelência de consumo de símbolos; as fontes de infor- :I
hierarquizações e gêneses das dinâmicas e das práticas cotidia- mação são variadas (rua, cartazes, anúncio, e sistemas de ilumi-
nas; adverte-nos de que há uma ligação profunda entre o cotidia- nação, TV, rádio, notícias em manchetes etc.). O cotidiano é forte-
no e a lógica do sistema social. O desafio está em perceber como mente programado pelos meios de comunicação social, os quais
as práticas cotidianas tratam dessa lógica. estruturam as fontes audiovisuais que aproximam e sedimentam
Segundo Pais (1984), há alguns elementos que dificultam a informações, inspirações, estilos de vida ritualizados, banalizados
análise do cotidiano: a temporalidade do cotidiano não é unica- etc., assim como também podem contribuir para potencializar a
mente cíelica e presente. Há, na vida cotidiana, lugar para uma própria subversão do cotidiano. Lefebvre, De Certeau, dentre ou-
história que não seja só efêmera. Segundo Pais (1984), as fontes tros, ilustram essa dimensão de possibilidade crítica do cotidiano.
documentais da vida cotidiana nem sempre são acessíveis, váli- Lançar mão da noção de totalidade como um todo não aditi-
das, sistematizadas e representativas. vo (Azanha, 1992), a qual não se resume a mera soma das partes,
É fundamental a compreensão de que existe um certo coti- significa dizer que um fato só é significativo e requer um referen-
diano, um modo de viver recôndito que se manifesta no senso cial teórico e uma preocupação metodológica no sentido da condu-
comum, talvez muito rico em especulação e saber. Os etnometo- ção de uma descrição de totalidade-parcial, evitando o dedutiuis-
dólogos e os interacionistas, como vimos, auxiliam na percepção mo e promovendo, daí, a despetrificação da noção de totalidade e
da ligação entre o texto e o contexto, entre a objetividade e o a imagem de realidade acabada.
compromisso, nos detalhes empíricos, no próprio sentido da vida Eis, em meio à tão propalada crise de paradigmas e dos ditos
cotidiana, nas perspectivas compartilhadas na vida social. fins, pós e trans, com o neoliberalismo, com a globalização, com a
Questões daí se fazem presentes: como apelar, heuristicamen- falada tendência ao pensamento único etc., um imperativo heu-
te, a um método que permita ver no singular o universal, o subjetivo rístico que não pode ser ignorado.
ligado no objetivo? Em que medida o subjetivo nos dá suporte cientí-
fico?Ferrarotti (1983) nos diz que o indivíduo é uma síntese comple-
xa de elementos sociais. Defende o método biográfico como instru-
mento capaz de resgate de uma história biográfica e social em movi-
mento e em interação, pois, como diz Raybant (apud Pais, 1984),
ainda que subjetivos, os testemunhos autobiográficos constituem um
fato sociologicamente objetivo. No entanto, o problema do método
biográfico, dentre outros, é seu grau de representatividade, pois o
que normalmente se apresenta são projetos de vida que se presenti-
ficam e se historicizam muito mais objetiva do que subjetivamente.
Assim mesmo, para Ferrarotti (1983), o método biográfico
serve como meio de verificação de um modelo interpretativo. A
escolha das biografias mais representativas é feita segundo crité-
rios que constituem, afinal, as variáveis principais do modelo her-
menêutico ou descritivo que as biografias devem verificar (Pais,
1984). A relação dinâmica e interativa entre a problemática da
investigação (hipóteses) e a seleção das fontes biográficas deve
constituir o nível de representatividade, o que não depende, ape-
nas, da intuição sociológica do investigador t Ferrarctti, 1983).
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ensão do social entrecruzado de
19 290.·_···_-_···- João Carlos Tedesco velhas questões e novas aborda-
gens.
O presente livro adentra no
M "Raissonances'' de I' imaginaire. L' HOII/II/l' dia Soctét«, Paris, n. 59/62,
campo da sociologia do cotidiano;
__ o
p. 11-21,jan./déc. 1981.
19 retoma autores como Lukács,
TEDESCO,.I_ C. al. Urbanizaçã«, exclusão e resistência. Passo Fundo: Ediupf, Mannheim, Schutz, Kosik;
I
et
I1l
1998. adentra em correntes como o
TEIXEI RA, M. C. S. Antropolugt«, cotidiano e educação. Rio dejaneiro: Imago, interacionismo simbólico (Goff-
19 ( 1990. O j man, Mead, Becker), na etnome-
ft- TO l-L-\INE, A. Productiou dI' Ia société. Paris: Édilions du Seuil, 1973.
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M< ~ Zr\LUA R, A. (Org.). Desnendando uuisra ias sociais. Rio de .J aneiro: Francisco análise do cotidiano pode tornar-
Ed Alves, 1990. se um espaço fértil para a
apreensão de subjetividades e
ZE1TUN, L La sociologia de Erving Coflinan. Reoista de Sociologia, Barcelona,
interações sociais que se
\\ n. 15, p. 97-126, 1981.
constituem a partir de visões e
'~ZIMMERMAI , D. H.; POLL ER, M. Le monde quotidien com rue intercâmbios de mundo.
phénomene. Caliiers de Rechcrche ElllllolI/é/odologiq/ll', Paris, n. 2, p. 7-37,.iuin. Acreditamos também que a
19~)(j.
abordagem sobre o cotidiano
pode tornar-se um espaço por
excelência para compreender as
grandes transformações por que
Pr\ passa a contemporaneidade.
SOl
O autor
V. Impressão
oão Carlos Tedesco é professor
PA da Universidade de Passo Fundo
Ali (UPF). Mestre e doutor em I
\p. Sociologia e especialista em il
'!)A Economia. I
r
_.
As teorias que compõem a chamada sociologia do
. cotidiano, o internacionalismo simbólico, a
etnometodologia, a pós-modernidade e o marxismo
na vertente da Escola de Budapeste, tematizadas
neste livro, buscam deixar entender que o cotidiano
não é apenas um conceito, um campo relativo ou
uma estratégia de marketing. É, sim, um veio
analítico por onde se podem conhecer a história e as
interações sociais; local onde se pode aprender a
critiquizar o global, perceber as tramas de relações
que constituem e se desenvolvem no social.