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A força vinculante das deliberações de órgãos


internacionais
Vladimir Aras

Conforme RAMOS 1 , a força vinculante das decisões de responsabilização


internacional de Estados deve ser examinada quanto à obrigatoriedade e à
executoriedade.

As decisões dos mecanismos convencionais (judiciais) são obrigatórias porque


emitidas por órgãos criados por tratados. Quanto às decisões dos mecanismos
extraconvencionais de proteção a direitos humanos, há controvérsia a respeito de tal
obrigatoriedade.

Já a executoriedade diz respeito à correta execução nacional da decisão ou ao seu


efetivo cumprimento.

No plano da obrigatoriedade, um processo de responsabilidade internacional do


Estado por violação de direitos humanos pode resultar em três tipos de decisões:
recomendações, decisões quase judiciais e decisões judiciais. Vejamos cada uma
delas.

2.1. Recomendações

A recomendação “é uma opinião não vinculante de órgão internacional de direitos


humanos, fruto da existência de obrigação internacional de monitoramento e
supervisão dos direitos protegidos (o chamado “droit de régard”)”2. Há três tipos de
recomendações, sempre segundo RAMOS:

a) recomendações convencionais: resultam do exame de relatórios que os


Estados Partes devem enviar aos comitês de supervisão e monitoramento
previstos nos tratados de direitos humanos. Tais comitês podem ser
provocados por petições individuais, com base em procedimentos
facultativos;
b) recomendações extraconvencionais gerais: resultam de procedimentos
extraconvencionais, não previstos em tratados, que focam em determinados
temas gerais. Tais recomendações são preparadas por órgãos interestatais;

1 RAMOS, André de Carvalho. Processo internacional de direitos humanos. 5.ed. São Paulo: Saraiva,
2016.
2 RAMOS, André de Carvalho. Processo internacional de direitos humanos. 5.ed. São Paulo: Saraiva,

2016.

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c) Recomendações extraconvencionais casuísticas: resultam de procedimentos


extraconvencionais relativos a casos concretos, relativos a um indivíduo. As
recomendações são preparadas por órgãos interestatais.

As recomendações extraconvencionais não são vinculantes, são meros conselhos ou


exortações. Porém, elas têm power of embarrassment e levam os Estados a mover-
se pelo peso da opinião pública mundial e da pressão política da comunidade
internacional a fim de escapar a essa sanção moral e reparar a violação aos direitos
humanos. Não há portanto o reconhecimento judicial ou jurídico da
responsabilidade internacional do Estado, mas um reconhecimento de natureza
política, sem sanção do direito internacional, diz RAMOS. Além disso, há uma
utilidade probatória em tais recomendações, caso se recorra a um mecanismo
judicial (vinculante) ou a pronunciamentos políticos no seio de organizações
internacionais.

Resta saber se a prática atual dos Estados não criou um costume internacional de
cumprimento dessas deliberações. Esta obrigatoriedade costumeira seria
particularmente observada nas deliberações oriundas dos mecanismos
extraconvencionais no seio da Organização das Nações Unidas, em especial nas
deliberações do Grupo sobre Detenção Arbitrária e no Grupo contra a Tortura, ambos
da Comissão de Direitos Humanos. Como exemplo, cite-se a comunicação, como
medida urgente de proteção, enviada pelo Relator especial, por exemplo, do grupo de
execução sumária, para que se suspenda a execução de determinada pessoa. Essa
comunicação teria força vinculante, fruto do próprio conteúdo do mandato destinado a
tais grupos. A visão predominante indica que o pedido de soltura, por exemplo, por
parte do relator especial a um determinado Estado é verdadeira ação de “bons ofícios”
e a decisão de soltura do Governo local não é obrigatória. Não haveria força vinculante
em relação a estes pedidos, que seriam atendidos com base em considerações políticas.
De fato, alguns autores, como SIMMA e D’AMATO, assinalam a ausência de
comprovação de um real costume internacional, já que os casos de não cumprimento
das deliberações internacionais destes órgãos apontam para a falta do consenso entre
os Estados sobre a força vinculante destas deliberações. Nesse sentido, houve mudança
da própria denominação da deliberação internacional do Grupo de Trabalho sobre a
Detenção Arbitrária. Abandonou-se o termo “decisão” em prol do termo “opinião”,
optando-se por enfatizar o caráter opinativo da deliberação e não vinculante. Assim,
consolidou-se, de modo indubitável, a posição de não reconhecer qualquer força
vinculante nestas deliberações, agora meras opiniões.3

2.2. Decisões quase judiciais

Tais decisões são expedidas por órgãos responsáveis pela fase de controle do
respeito aos direitos humanos, como resultado de procedimentos iniciados por

3RAMOS, André de Carvalho. Processo internacional de direitos humanos. 5.ed. São Paulo: Saraiva,
2016.

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provocação de Estados (petições ou comunicações interestatais) ou de indivíduos


(petições individuais).

Esses órgãos correspondem a instâncias internacionais não jurisdicionais ou não


judiciais, a exemplo do Comitê de Direitos Humanos do Pacto Internacional de
Direitos Civis e Políticos e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Por seu
caráter não judicial, há duas correntes quanto ao caráter vinculante (obrigatória) ou
não vinculante (natureza voluntária ou ex gratia) de seus pronunciamentos.

Para RAMOS4, os que sustentam o caráter não vinculante de tais decisões alegam
que falta disposição expressa sobre obrigatoriedade nos tratados, acrescentando
que a cooperação dos Estados para o cumprimento do DIDH seria mais facilmente
alcançável mediante o convencimento do que mediante coerção.

A segunda corrente, por seu turno, indica que a interpretação sistemática e finalística
dos tratados de direitos humanos deve ser feita em prol do aumento da carga protetiva,
já que os mesmos foram celebrados justamente para proteger o indivíduo e não para
dar vantagens materiais aos contratantes. Além disso, o poder de apreciar as petições
pelos Comitês foi conferido, em geral, graças à adesão à cláusula facultativa. Logo, o
Estado pode aderir ao tratado sem concordar com tais cláusulas, ficando imune ao
sistema de petições. Mas se expressamente aceita tal sistema seria ilógico considerar as
deliberações finais dos mesmos como meros conselhos ou recomendações.5

2.3. Decisões judiciais e supervisão de cumprimento

Já as decisões judiciais, cautelares ou de mérito, que são expedidas por cortes


internacionais de direitos humanos, como as de Estrasburgo e San José, são
vinculantes para os Estados Partes que se sujeitem a sua jurisdição obrigatória.

Se o Estado não a cumprir, o Estado terá violado uma nova obrigação internacional e
estará, já por isto, sujeito a nova responsabilização internacional, agora por
descumprimento de obrigação secundária. Assim, falta executividade a sentenças
internacionais. São obrigatórias mas não autoexecutáveis, ensina RAMOS. No
entanto, pode ocorrer a supervisão internacional do cumprimento de tais decisões,
para chegar-se ao seu cumprimento de boa-fé.

É o que acontece no sistema interamericano, no qual a Corte Interamericana de Direitos


Humanos averigua o cumprimento dos termos dispositivos de suas sentenças antes de
determinar o arquivamento do feito. Essa dupla condenação pode acarretar a
imposição de sanções coletivas capazes de obrigar o Estado infrator a finalmente

4 RAMOS, André de Carvalho. Processo internacional de direitos humanos. 5.ed. São Paulo: Saraiva,
2016.
5 RAMOS, André de Carvalho. Processo internacional de direitos humanos. 5.ed. São Paulo: Saraiva,

2016.

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cumprir as deliberações internacionais. Como já vimos, há a possibilidade do recurso às


sanções coletivas no plano universal, através da ação do Conselho de Segurança, no
plano regional europeu, através do Comitê de Ministros do Conselho da Europa, e
mesmo no plano interamericano, através de uma deliberação da Assembleia Geral da
OEA.6

Para PIOVESAN, é crucial para o futuro do sistema interamericano “aprimorar os


mecanismos de implementação das decisões no âmbito doméstico, seja
assegurando-lhes eficácia direta e imediata no plano interno, seja reforçando a
capacidade fiscalizadora e sancionatória dos sistemas regionais”.7

6 RAMOS, André de Carvalho. Processo internacional de direitos humanos. 5.ed. São Paulo: Saraiva,
2016.
7 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 11.ed. São Paulo: Saraiva, 2018.

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