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A DOLOROSA COLHEITA

JORGE BOAVENTURA

Desde quando, coroando esforços que se desdobravam há séculos, a civilização


a que pertencemos e que, até há bem pouco tempo, era designada "civilização ocidental cristã"
foi erradicada de seus alicerces culturais, não seria difícil a um observador atento prever os
perigosos descaminhos que a levariam à ruína, sobre cujos escombros surgiria uma nova e
mais esperançosa fase da história humana.

Referimo-nos ao artigo 6º da "Declaração dos Direitos do Homem e do


Cidadão", promulgada em 1791, na França. O que continha o referido artigo? "A lei é a
expressão da vontade geral, expressa diretamente ou por intermédio de representantes." A
declaração a que nos referimos compunha-se de 17 artigos e estava repassada de aspectos
humanísticos, como, entre outros, o de que todos os homens nasciam iguais em direitos e
deveres e ninguém seria obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa, a não ser em
virtude de lei.

Tudo aparentemente irrepreensível e louvável. Mas, ao dizer que "a lei é a


expressão da vontade geral, manifestada diretamente ou por meio de representantes" -é o que
na prática se verifica-, a declaração atribuía aos legisladores a elaboração de todo o direito,
segundo as preferências de maiorias eventuais e volúveis, caindo na crítica feita há milênios,
por Cícero, em "De Legibus", segundo a qual àquelas se estaria concedendo a faculdade de
transformar o bem em mal, a verdade em mentira e assim por diante.

A declaração foi promulgada, no século 18, no contexto do Iluminismo francês.


Daí trazer embutida a superestimação da razão humana, que levaria, um pouco mais adiante,
Kant a afirmar que a humanidade alcançara a maioridade, já não necessitando de nada que
não elaborado pela sua própria razão.

Mas qual foi a origem de tais esforços a que nos referimos? Foi a antinomia
entre as imposições decorrentes da ética decorrente das nossas raízes judaico-cristãs, no que
tange o exercício da atividade econômica que, segundo aquela ética, deve ter como objetivo
fundamental a realização do bem comum, e não o lucro pelo lucro.

Quanto ao mito da onipotência da razão humana, isso é algo tragicamente


fracassado diante das guerras que se multiplicam e dos arsenais nucleares.

Por tudo isso, Jean Madiran considerou o artigo 6º como mais influente sobre a
nossa civilização do que o emprego da pólvora, a invenção da imprensa e a Reforma. Quanto
ao direito depender das maiorias eventuais e volúveis de legisladores, estas são constituídas e
manipuláveis por quem tenha o controle dos meios de influência sobre os sentimentos e
opções dos eleitores -e quem tem tal controle são os que geraram e controlam o Baal Moloch
e cujo símbolo maior era o World Trade Center, emblemático do poder transnacional apátrida
o qual tem funcionado como uma espécie do que designamos "nação pluriestatal", de vez que
é constituída pelos que, de procedências culturais e étnicas diversas, cultuam o mesmo ídolo e
integram as mesmas lutas, os mesmos objetivos e os mesmos valores ou desvalores, o que
lhes dá o status de nação.

Pluriestatal porque, em diferentes níveis de influência, atuam em numerosos


Estados. É tamanho o poder dessa "nação pluriestatal", que se tem permitido zombar da
opinião pública mundial e contradizer-se até em "princípios" que, quando lhe convém,
considera tão importantes que pretende impor, se necessário, até pela força da pressão
econômica ou militar.

A ordem internacional "democrática"


vive sob a inquestionável égide do mais forte,
não do mais generoso ou mais justo

Exemplos? Na ONU têm assento, hoje, cerca de 200 Estados. De sua estrutura,
apenas 20% compõem o Conselho de Segurança, dentro do qual existem cinco que se
atribuíram o "direito de veto", em caráter permanente, bastando o veto de um único deles para
invalidar qualquer resolução, ainda que adotada pelos demais Estados do mundo que ali se
fazem representar. Seriam esses cinco algo homogêneo e exemplificador? Absolutamente. O
que têm em comum, então, os detentores do "direito" de veto? Um devastador poder militar.
A ordem internacional "democrática" vive sob a inquestionável égide do mais forte, não do
mais generoso ou mais justo. Que o digam os dois terços de miseráveis do mundo. Os brutais
e desumanos atentados contra o WTC foram feitos por desesperados que, ao ceifar tantas
vidas, imolaram também as próprias vidas. Desesperados contam, na dimensão tática, com a
surpresa; na estratégica, com o simbolismo que consigam imprimir às suas ações.
A nossa civilização está ruindo, como temos anunciado há quatro anos. Sobre os seus
escombros começa a despontar outra melhor. Disso é sintoma a tomada de consciência, em
nível mundial, de que não é com violência que se combate a violência, mas com amor e
justiça. Está operando o segundo plano da história: o plano providencial, em que já tão
poucos, com coerência, crêem.

Jorge Boaventura de Souza e Silva, 80, ensaísta e escritor, é conselheiro do Comando da ESG
(Escola Superior de Guerra).