Você está na página 1de 115

G uará Indexada no ISI Web of Knowledge - Zoological Record e no CAB Abstracts ISSN 1413-571X

E D i TO R A

Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 - R$ 13,00

www.revistaclinicaveterinaria.com.br
Índice

Ron Lowe
Oncologia - 30
Eletroquimioterapia: uma nova promessa para o
tratamento de cânceres em animais Carcinoma de células escamosas
Electrochemotherapy: a new alternative for the treatment of cancer in animals em mastiff antes do tratamento e
Electroquimioterapia: una nueva promesa para el tratamiento del cáncer en los animales três semanas após o tratamento
Clínica médica - 38
Sofia Borin

Adelina Helena Tortora


Desmistificando a via intra-óssea
Demystifying the intraosseous route
Desmistificando la vía intraósea

Clínica médica - 42
Imunodeficiência viral felina associada à alta infecção por
Toxocara cati: relato de caso
Feline immunodeficiency virus (FIV) related to a high infection of Toxocara cati: case report
Ouriço-caixeiro (Coendou prehensilis) Inmunodeficiencia viral felina asociada a alta infección por Toxocara cati: relato de caso Fase terminal da imunodeficiência
com cateter intra-ósseo femoral viral felina
Clínica médica - 52
Aspectos etiológicos das hepatites crônicas caninas

Paulo Eduardo Ferian


Etiological aspects of canine chronic hepatitis
Aspectos etiológicos de las hepatitis crónicas caninas

Clínica médica - 60
Hemorragia de involução tímica em uma cadela -
Francisco A. L. Costa

relato de caso
Thymic involution hemorrhage in a bitch - case report
Hemorragia de involución del timo en una perra - relato de caso

Clínica médica - 64
Glomerulonefrite no cão Hematoma estendendo-se de
Glomerulonephritis in dogs região subcutânea cervical até
Glomérulo. Glomerulonefrite me- Glomerulonefritis en el perro mediastino cranial
sangioproliferativa. Hipercelularidade
Oftalmologia - 74

Angélica de M. V. Safatle
glomerular. Coloração: PAS.
Aumento: 40 x Análise retrospectiva dos resultados da remoção de
catarata por facoemulsificação em cães
Retrospective analysis of phacoemulsification for cataract removal in dogs
Thomas Normanton Guim

Análisis retrospectivo de los resultados obtenidos en la


remoción de cataratas en perros por facoemulsificación

Oncologia - 80
Histiocitoma fibroso maligno tipo célula gigante em felino
Giant-cell type malignant fibrous histiocytoma in feline
Histiocitoma fibroso maligno tipo célula gigante en un felino
Facoemulsificação: fragmentação
do núcleo

Saúde pública - 24 Mercado pet - 96


Corte histológico do neoplasma • Sabonete contra dengue 24 • Empresas brasileiras presentes na
demonstrando células fusiformes • Nova ferramenta contra a tuberculose 26 Interzoo
(setas) com acentuado pleomorfis- • Raiva sob vigilância 28
mo celular e nuclear. Coloração HE,
Ecologia - 97
objetiva 20x Bem-estar animal - 84 • Animais selvagens e cativeiro:
• Vozes do silêncio - uma reflexão sobre o algumas considerações 97
Seções uso de animais em experimentos científicos • Conservação da fauna, ética e
bem-estar 98
• 3º Seminário Arca Brasil
• Animais selvagens em cativeiro:
Legislação - 85 justificativas e desafios 99
Câmara dos deputados aprova projeto de • GEAS – Grupo de Estudo de Animais
Editorial - 5 lei sobre experimentação animal Selvagens 100
Cartas - 6 Internet - 86 Lançamentos - 102
Notícias - 8 • Vídeos veterinários on line
Negócios e
• Medicina felina em evidência 8 • Médico veterinário cadastrado no sítio
da Schering-Plough Saúde Animal oportunidades - 104
• CBNA promoveu simpósio sobre Ofertas de produtos e equipamentos
nutrição de animais de estimação 10 concorre a prêmios!
• III Simpósio da Fundação CL Davis Livros - 88 Serviços e
e V ONCOVET 14 • Atlas Colorido de Patologia especialidades - 105
• Novas técnicas ortopédicas Veterinária - Reações Morfológicas Prestadores de serviços para
avançam na medicina veterinária 16 Gerais de Órgãos e Tecidos 88 clínicos veterinários
• Fort Dodge lança ectoparasiticida 18 • Quimioterapia Antineoplásica
• Rhobifarma é autorizada pela Anvisa em Cães e Gatos 88 Agenda - 112
a trabalhar com drogas controladas 18 • Oftalmologia clínica em animais
• Campanha “ZooAção” esclarece de companhia 90
sobre as verminoses e as zoonoses 18
• Normas para a residência em Gestão, marketing e
medicina veterinária no Brasil 20 estratégia - 92
• Radiologia computadorizada “ Todo dia ela faz tudo sempre igual, me
disponível no Rio de Janeiro 22 acorda às seis horas da manhã...”

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Indexada no ISI Web of Knowledge - Zoological Record e no CAB Abstracts
CONSULTORES CIENTÍFICOS
SCIENTIFIC COUNCIL
Adriano B. Carregaro Fernando Ferreira Leucio Alves Norma V. Labarthe
Revista de educação continuada do clínico veterinário de pequenos animais Journal of continuing education for small animal veterinarians
DCPA/UFSM FMVZ/USP FMV/UFRPE FMV/UFFe FioCruz
carregaro@smail.ufsm.br fernando@vps.fmvz.usp.br leucioalves@gmail.com labarthe@centroin.com.br
Alceu Gaspar Raiser Flavia Toledo Luciana Torres Paulo César Maiorka
EDITORES / PUBLISHERS EDITORAÇÃO ELETRÔNICA / DCPA/CCR/UFSM Univ. Estácio de Sá FMVZ/USP USP/UNISA
Arthur de Vasconcelos Paes Barretto DESKTOP PUBLISHING raisermv@smail.ufsm.br ftoledo@attglobal.net lu.torres@terra.com.br pmaiorka@yahoo.com
editor@editoraguara.com.br Editora Guará Ltda. Alexandre Lima Andrade Flavio Massone Lucy M . R. de Muniz Paulo Iamaguti
CMV/UNESP-Aracatuba FMVZ/Unesp/Botucatu FMVZ/Unesp/Botucatu FMVZ/Unesp/Botucatu
CRMV-SP 6871 landrade@fmva.unesp.br btflama@uol.com.br lucy_marie@uol.com.br pauloiamaguti@ig.com.br
Maria Angela Sanches Fessel CAPA / COVER Alexandre Mazzzanti Francisco J. Teixeira Neto Luiz Henrique Machado Paulo S. Salzo
UFSM FMVZ/Unesp/Botucatu FMVZ/Unesp/Botucatu
cvredacao@editoraguara.com.br mazzal@smail.ufsm.br fteixeira@fmvz.unesp.br henrique@fmvz.unesp.br
UNIMES, UNIBAN
Eye Wire pssalzo@ig.com.br
CRMV-SP 10159 Alexander Walker Biondo Francisco Marlon C. Feijo Marcelo Bahia Labruna
Images UFPR, UI/EUA UFERSA FMVZ/USP
Paulo Sérgio M. Barros
FMVZ/USP
PUBLICIDADE / ADVERTISING abiondo@uiuc.edu marlonfeijo@yahoo.com.br labruna@usp.br
pauloeye@usp.br
João Paulo S. Brandão Ana Maria Reis Ferreira Franklin A. Stermann Marcelo de C. Pereira
Pedro Germano
FMV/UFF FMVZ/USP FMVZ/USP
midia@editoraguara.com.br anamrferreira@br.inter.net fsterman@usp.br marcelcp@usp.br
FSP/USP
pmlgerma@usp.br
(11) 3672-9497 Ana Paula F. L. Bracarense Franz Naoki Yoshitoshi Márcia Marques Jericó
DCV/CCA/UEL Provet UAM e UNISA Pedro Luiz Camargo
anapaula@uel.br franz.naoki@terra.com.br marciajerico@hotmail.com DCV/CCA/UEL
JORNALISTA / JOURNALIST André Selmi Geovanni Dantas Cassali Marcia M. Kogika
p.camargo@uel.br
Aristides Castelo Hanssen UNIFRAN e UNISA ICB/UFMG FMVZ/USP Rafael Almeida Fighera
MTb-16.679 andre_selmi@yahoo.com.br cassalig@icb.ufmg.br mmkogika@usp.br FMV/UFSM
IMPRESSÃO / PRINT Antonio Marcos Guimarães Geraldo Márcio da Costa Marcio B. Castro
anemiaveterinaria@yahoo.com.br
Copypress DMV/UFLA DMV/UFLA UNB Regina H. R. Ramadinha
CONSULTORIA JURÍDICA / www.copypress.com.br amg@ufla.br gmcosta@ufla.br mbcastro2005@yahoo.com.br FMV/UFRRJ
regina@vetskin.com.br
CONSULTING ATTORNEY Aparecido A. Camacho Gerson Barreto Mourão Marcio Dentello Lustoza
Joakim M. C. da Cunha TIRAGEM / CIRCULATION FCAV/Unesp/Jaboticabal
camacho@fcav.unesp.br
ESALQ/USP
gbmourao@esalq.usp.br
Agener/União
mdlustoza@uol.com.br
Renée Laufer Amorim
FMVZ/Unesp/Botucatu
(OAB 19.330/SP) (11) 3251-2670 12.000 exemplares A. Nancy B. Mariana Hannelore Fuchs Márcio Garcia Ribeiro renee@fmvz.unesp.br
FMVZ/USP - SPMV Instituto PetSmile FMVZ/Unesp/Botucatu Ricardo Duarte
anbmaria@usp.br afuchs@amcham.com.br mgribeiro@fmvz.unesp.br CREUPI-SP
CORRESPONDÊNCIA E ASSINATURAS Arlei Marcili Hector Daniel Herrera Marco Antonio Gioso ricardoduarte@diabetes.vet.br
ICB/USP Univ. de Buenos Aires FMVZ/USP
LETTERS AND SUBSCRIPTION amarcili@usp.br hdh@fvet.uba.ar maggioso@usp.br
Rita de Cassia Garcia
FMV/USP - Instituto Nina Rosa
Editora Guará Ltda. - Depto. de Assinaturas Aulus C. Carciofi Hector Mario Gomez Marconi Rodrigues de Farias rita@vps.fmvz.usp.br
Caixa Postal 66002 - 05311-970 - São Paulo - SP BRASIL FCAV/Unesp/Jaboticabal FMV/UNG PUC-PR Rita de Cassia Meneses
aulus@fcav.unesp.br hectgz@netscape.net marconi.farias@pucpr.br
cvassinaturas@editoraguara.com.br IV/UFRRJ
Aury Nunes de Moraes Hélio Autran de Moraes Maria Cecilia Rui Luvizotto cassia@ufrrj.br
Telefone/fax: (11) 3835-4555 UESC Madison S. V. M./UW CMV/Unesp-Aracatuba Rita Leal Paixão
a2anm@cav.udesc.br demorais@svm.vetmed.wisc.edu ruimcl@fmva.unesp.br FMV/UFF
Benedicto W. De Martin Hélio Langoni Maria Cristina F. N. S. Hage rita_paixao@uol.com.br
é uma revista técnico-científica bimestral, dirigida aos clínicos FMVZ/USP; IVI FMVZ/Unesp/Botucatu FMV/UFV
veterinários de pequenos animais, estudantes e professores de ivi@ivi.vet.br hlangoni@fmvz.unesp.br crishage@ufv.br
Rodrigo Mannarino
medicina veterinária, publicada pela Editora Guará Ltda. FMVZ/Unesp/Botucatu
Berenice Avila Rodrigues Heloisa J. M. de Souza Maria Cristina Nobre r.mannarino@uol.com.br
As opiniões em artigos assinados não são necessariamente compartilhadas pelos FAVET/UFRGS FMV/UFRRJ FMV/UFF
editores. berenice@portoweb.com.br justen@centroin.com.br mcnobre@predialnet.com.br
Ronaldo G. Morato
CENAP/IBAMA
Os conteúdos dos anúncios veiculados são de total responsabilidade dos anunciantes. Carlos Alexandre Pessoa Herbert Lima Corrêa Maria de Lourdes E. Faria ronaldo@procarnivoros.org.br
Não é permitida a reprodução parcial ou total do conteúdo desta publicação sem a prévia Médico veterinário autônomo ODONTOVET Madison S. V. M. / UW
autorização da editora. animalexotico@terra.com.br odontovet@odontovet.com mfaria@svm.vetmed.wisc.edu Rosângela de O. Alves
EV/UFG
Carlos Eduardo S. Goulart Idael C. A. Santa Rosa Maria Isabel Mello Martins rosecardio@yahoo.com.br
FTB UFLA FMV/UEL
carlosedgourlart@yahoo.com.br starosa@ufla.br imartins@uel.br Rute Chamie A. de Souza
UFRPE/UAG
Carlos Roberto Daleck Ismar Moraes Maria Jaqueline Mamprim
rutecardio@yahoo.com.br
FCAV/Unesp/Jaboticabal FMV/UFF FMVZ/Unesp/Botucatu
daleck@fcav.unesp.br fisiovet@vm.uff.br jaquelinem@fmvz.unesp.br Ruthnéa A. L. Muzzi
DMV/UFLA
Cassio R. Auada Ferrigno James N. B. M. Andrade Maria Lúcia Zaidan Dagli
FMVZ/USP FMV/UTP FMVZ/USP ralmuzzi@ufla.br
cassioaf@usp.br jamescardio@hotmail.com malu021@yahoo.com Sady Alexis C. Valdes
César Augusto Dinóla Pereira Jane Megid Mariangela Lozano Cruz Zoo/Piracicaba
UAM, UNG, UNISA FMVZ/UNESP-Botucatu FMVZ/Unesp/Botucatu sadyzola@usp.br
dinolaca@hotmail.com jane@fmvz.unesp.br neca@fmvz.unesp.br Sheila Canavese Rahal
Instruções aos autores Christina Joselevitch Janis R. M. Gonzalez Maria Rosalina R. Gomes FMVZ/Unesp/Botucatu
sheilacr@fmvz.unesp.br
Artigos científicos inéditos, revisões de literatura e relatos de caso enviados à Yale Univ. School of Medicine FMV/UEL Médica veterinária sanitarista
christina.joselevitch@yale.edu janis@uel.br rosa-gomes@ig.com.br
redação são avaliados pela equipe editorial. Em face do parecer inicial, o material Silvia E. Crusco
FMVA/Unesp/Araçatuba
é encaminhado aos consultores científicos. A equipe decidirá sobre a conveniência Cibele F. Carvalho Jairo Barreras Marion B. de Koivisto
silviacrusco@terra.com.br
UNIABC FioCruz FO/CMV/Unesp/Araçatuba
da publicação, de forma integral ou parcial, encaminhando ao autor sugestões e cibelecarv1904@aol.com jairo@ioc.fiocruz.br koivisto@fmva.unesp.br Silvia R. G. Cortopassi
possíveis correções. FMVZ/USP
Cleber Oliveira Soares Jean Carlos Ramos Silva Masao Iwasaki
Para esta primeira avaliação, devem ser enviados pela internet (cvredacao@ EMBRAPA UFRPE, IBMC-Triade FMVZ/USP silcorto@usp.br
editoraguara.com.br) um arquivo texto (.doc ou .rtf) com o trabalho e imagens cleber@cnpgc.embrapa.br jean@triade.org.br miwasaki@usp.br Silvio Arruda Vasconcellos
digitalizadas em formato .jpg . No caso dos autores não possuirem imagens digi- Cristina Massoco João G. Padilha Filho Michele A. F. A. Venturini FMVZ/USP
talizadas, cópias das imagens originais (fotos, slides ou ilustrações acompa- Salles Gomes Consult. Empresaria FCAV-Unesp/Jaboticabal ODONTOVET savasco@usp.br
nhadas de identificação de propriedade e autor) devem ser encaminhadas pelo cmassoco@gmail.com padilha@fcav.unesp.br michele@odontovet.com
Silvio Luis P. de Souza
correio ao nosso departamento de redação. Os autores devem enviar tambem a Daisy Pontes Netto João Pedro A. Neto Michiko Sakate FMVZ/USP, UAM
identificação de todos os autores do trabalho (endereço, telefone e e-mail). FMV/UEL UAM FMVZ/Unesp/Botucatu slpsouza@usp.br
Os artigos de todas as categorias devem ser acompanhados de versões em língua rnetto@uel.br joaopedrovet@hotmail.com michikos@fmvz.unesp.br
Stelio Pacca L. Luna
inglesa e espanhola de: título, resumo (de 600 a 800 caracteres) e unitermos (3 a Daniel Macieira José Alberto P. da Silva Miriam Siliane Batista FMVZ/Unesp/Botucatu
IV/UFRRJ FMVZ/USP e UNIBAN FMV/UEL stelio@fmvz.unesp.br
6). Os unitermos não devem constar do título. Devem ser dispostos do mais dbmacieira@ufrrj.br jsilva@uniban.br msiliane@uel.br
abrangente para o mais específico (eg, “cães, cirurgias, abcessos, próstata). Suely Beloni
Denise T. Fantoni José de Alvarenga Moacir S. de Lacerda
Verificar se os unitermos escolhidos constam dos “Descritores em Ciências de FMVZ/USP FMVZ/USP UNIUBE
DCV/CCA/UEL
Saúde” da Bireme (http://decs.bvs.br/). ou do Index Medicus. (www.nlm.nih.gov/ beloni@uel.br
dfantoni@fmvz.usp.br Alangarve@terra.com.br moacir.lacerda@uniube.br
mesh/MBrowser.html). Tilde Rodrigues Froes Paiva
Dominguita L. Graça Jose Fernando Ibañez Monica Vicky Bahr Arias
No caso do material ser totalmente enviado por correio, devem necessariamente FMV/UFSM FMV/UEL FMV/UEL
FMV/UFPR
tilde9@hotmail.com
ser enviados, além de uma apresentação impressa, uma cópia em CD-room. dlgraca@smail.ufsm.br fibanez@yahoo.com.br vicky@uel.br
Imagens como tabelas, gráficos e ilustrações não podem ser provenientes de lite- Edgar L. Sommer José Luiz Laus Nadia Almosny
Valéria Ruoppolo
International Fund for Animal Welfare
ratura, mesmo que seja indicada a fonte. Imagens fotográficas devem possuir PROVET FCAV/Unesp/Jaboticabal FMV/UFF
vruoppolo@uol.com.br
indicação do fotógrafo e proprietário; e quando cedidas por terceiros, deverão ser edgarsommer@sti.com.br jllaus@fcav.unesp.br mcvalny@vm.uff.br
Vamilton Santarém
obrigatoriamente acompanhadas de autorização para publicação. Eduardo A. Tudury José Ricardo Pachaly Nayro X. Alencar
Unoeste
As referências bibliográficas serão indicadas ao longo do texto apenas por DMV/UFRPE UNIPAR FMV/UFF
vamilton@vet.unoeste.br
eat-dmv@ufrpe.br pachaly@uol.com.br nayro@vm.uff.br
números, que corresponderão à listagem ao final do artigo, evitando citações de Wagner S. Ushikoshi
Elba Lemos José Roberto Kfoury Júnior Nilson R. Benites
autores e datas. A apresentação das referências ao final do artigo deve seguir as FioCruz-RJ FMVZ/USP FMVZ/USP FMV/UNISA e FMV/CREUPI
normas atuais da ABNT e elas devem ser numeradas pela ordem de apareci- elemos@ioc.fiocruz.br robertok@fmvz.usp.br benites@usp.br wushikoshi@yahoo.com.br
mento no texto. Fabiano Montiani-Ferreira Karin Werther Nobuko Kasai William G. Vale
Com relação aos princípios éticos da experimentação animal, os autores deverão FMV/UFPR FCAV/Unesp/Jaboticabal FMVZ/USP FCAP/UFPA
considerar as normas do COBEA (Colégio Brasileiro de Experimentação Animal). fabiomontiani@hotmail.com werther@fcav.unesp.br nkasai@usp.br wmvale@ufpa.br
Fernando C. Maiorino Leonardo Pinto Brandão Noeme Sousa Rocha Zalmir S. Cubas
FEJAL/CESMAC/FCBS Merial Saúde Animal FMV/UNESP-Botucatu Itaipu Binacional
Revista Clínica Veterinária / Redação fcmaiorino@uol.com.br leobrandao@yahoo.com rochanoeme@fmvz.unesp.br cubas@foznet.com.br
Caixa Postal 66002 CEP 05311-970 São Paulo - SP
e-mail: cvredacao@editoraguara.com.br

4 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Editorial
N
esta edição, uma das notícias publicadas, trata de simpósio promovido pelo Conselho
Federal de Medicina Veterinária (CFMV) onde se discutiu sobre o perfil ideal para o
treinamento supervisionado, ou seja, a residência em medicina veterinária. O evento foi
muito proveitoso, principalmente pelo fato de abrir oportunidade para discussão e parti-
cipação dos interessados. Entre os dias 13 a 15 de agosto o CFMV promoverá outro
evento, o XVII SENEV (Seminário Nacional de Ensino de Medicina Veterinária), que tem o objetivo de
discutir a situação do ensino de medicina veterinária no Brasil. O SENEV representa um fórum de
discussão dos assuntos relacionados ao ensino e também um momento ímpar para trocas de expe-
riências entre os dirigentes dos cursos e docentes. Neste SENEV, a Comissão Nacional de Ensino de
Medicina Veterinária do CFMV (comissoes@cfmv.org.br), em parceria com as Comissões Estaduais
dos Conselhos Regionais de Medicina Veterinária, pretende colocar em discussão o futuro do ensino
da medicina veterinária no Brasil. Estão programados assuntos de grande relevância, tais como a
imaturidade do aluno ingressante; a utilização de ferramentas de informática no ensino; entre outros.
A ocasião é bastante propícia e oportuna para que não seja esquecido o tema da educação humanitária.
Nas universidades brasileiras, encontramos excelentes trabalhos desenvolvidos em prol da educação
humanitária. O prof. dr. Stélio P. L. Luna, da FMVZ/Unesp/Botucatu, e o dr. Alfredo Lima, professor na
Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona, de Portugal, desenvolveram didático
DVD que apresenta técnicas cirúrgicas de contracepção minimamente invasivas em cães e gatos. A
profa. Júlia Matera, da FMVZ/USP, contribui com o desenvolvimento e aplicação prática de técnica de
conservação de cadáveres. No exterior, uma infinidade de opções podem ser encontradas
no sítio mantido pelo médico veterinário Andrew Knight, que traz
mais de 400 trabalhos descrevendo técnicas de ensino substitu-
tivas e diversos links para outros sítios relacionados ao assunto
(www.humanelearning.info). Destacam-se também os programas
de colaboração que a Humane Society Veterinary Medical Association
(HSVMA - www.hsvma.org) mantém com as escolas veterinárias
na Universidade de Louisiana e na Universidade do Mississipi. No
Brasil, lançamentos de obras literárias sobre o tema estão sendo
divulgados nesta edição e podem ser adquiridos a qualquer momen-
to na loja virtual da Editora Guará, sendo recomendadas para todos www.editoraguara.com.br
os envolvidos no ensino.
A princípio, a inclusão de métodos substitutivos, preconizados por uma educação humanitária,
pode parecer dispendiosa para alguns dirigentes, mas é, a longo prazo, mais econômica. No exte-
rior, existem vários modelos de faculdades de medicina veterinária que adotam estes príncipíos. No
Brasil, estamos começando, mas nossos pesquisadores possuem criatividade e competência para,
além de absorver as técnicas substitutivas já desenvovidas, criar novas e aperfeiçoar as já existentes.

Arthur de Vasconcelos Paes Barretto

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 5


Cartas para esta seção devem ser enviadas para cvredacao@editoraguara.com.br ou pelo correio para a Editora Guará Ltda.,
Seção de Cartas, Caixa Postal 66002, 05311-970, São Paulo - SP. Perguntas, dúvidas, esclarecimentos, comunicados, orientações
etc. serão respondidos conforme a ordem de chegada. Os editores poderão resumir o conteúdo da carta, conforme a necessidade.

Atendimento de animais silvetres


- será mesmo que, em mais alguns anos, o Com relação à criação comercial é impor-
preço dos animais criados comercial- tante olharmos também para a situação com
mente não irá realmente competir com os outras opções. Muitas atividades comerciais
preços reduzidos praticados no tráfico ile- podem e estão sendo desenvolvidas com foco
gal? Há o exemplo dos preços praticados na vida livre. Ao serem trabalhadas e incenti-
para filhotes de cães ou gatos de raças vadas, estamos ajudando a preservar as ma-
recém introduzidas no país, que costu- tas, o que é fundamental, pois muitas espécies
mam ser elevados inicialmente, sofrendo brasileiras estão à beira da extinção em fun-
redução com o passar dos anos e popular- ção da destruição quase que total de seus
Arara-canindé (Ara ararauna), ave da fauna silvestre ização destas raças. hábitats. O maior envolvimento do governo
presente na lista de animais do Ibama quando - a redução do tráfico de animais silvestres com a preservação da fauna e flora poderia
depende somente da execução das leis gerar diversos empregos para médicos veteri-

P
da realização de consulta pública há meses atrás
ara melhor esclarecimentos dos brasileiras e sua fiscalização ou também do nários de animais selvagens e biólogos.
leitores desta prestigiosa revista, exercício de cidadania que cada um de nós Porém, o que vemos são ONGs que perpe-
temos que discordar da afirmação pulica- ligados à área devemos exercer, em relação tuam seu trabalho de conservação às custas
da na seção Ecologia de edição n. 74, à conscientização da população quanto a de muita convicção e dedicação. Atualmente
maio/junho, páginas 86-90. guarda de animais e preservação do meio há grupos especializados em promover pas-
Em nome da classe de médicos veteri- ambiente? seios ecológicos para observação de pássaros
nários, gostaríamos de esclarecer que o Diretoria da Anclivepa-SP na vida livre, atividade que pode estar asso-
número de profissionais veterinários atu- www.anclivepa-sp.org.br ciada até mesmo com esportes de aventura.
antes e capacitados na área de atendimen- Na internet, pode-se encontrar diversos locais
to clínico de animais silvestres é adequa- Prezados membros da diretoria da que oferecem pacotes para observação de
do e vem aumentado nos últimos anos, Anclivepa-SP, aves em seus hábitats naturais, inclusive na
por intermédio, principalmente, da real- Certamente a qualidade do atendimento Amazônia, como por exemplo: www.birding.
ização de cursos de especialização nesta clínico a animais silvestres tem evoluído. com.br, www.avistarbrasil.com.br, www.
área. Além disto, a atualização destes e Principalmente no Estado de São Paulo, pelo terrabrasil.org.br/itb_caminhadas/camin-
dos demais profissionais ligados à medic- empenho da Anclivepa-SP em promover a edu- hadas_proceder.htm, www.avisbrasilis.com.
ina e conservação de animais silvestres cação continuada através do curso de especi- br. Outra opção que não envolve o cativeiro é
ocorre também mediante a participação liazação em animais silvestres na clínica vete- promovida por Christian Dalgas Frisch, fotó-
em congressos e encontros anuais de enti- rinária. Porém, a realidade brasileira é bem grafo e co-autor do livro Aves brasileiras e
dades de classe como a ABRAVAS heterogênea, principalmente ao distanciar-se plantas que as atraem: “cuide do seu jardim,
(Associação Brasileira de Veterinários de dos grandes centros, onde há grande oferta de plantando o que as atraem, que elas virão até
Animais Selvagens), SZB (Sociedade de serviços especializados. A exemplo de clínicas você!”, incentiva o autor.
Zoológicos do Brasil) e Anclivepa (Asso- com atendimento específico de felinos, as quais Na criação comercial de animais sil-
ciação Nacional de Clínicos Veterinários vêm sendo inauguradas em diversas partes do vestres, principalmente de aves, é emergente a
de Pequenos Animais), dentre outras. Di- país, será de grande valor para o consumidor necessidade da implantação de testes de
versas faculdades já dispõem, em sua gra- que isso aconteça também com o atendimento, DNA. Anilhas e microchips não são páreos
de curricular, de disciplinas que abordam por exemplo, de aves ou répteis. Para con- para os perspicazes fraudadores do mercado
medicina de animais silvestres, com inter- tribuir com esse aquecimento do mercado, dis- ilegal de animais silvestres. Com o teste sendo
esse crescente por parte dos alunos, além pomos do Guia Vet (www.guiavet.com.br), sis- uma obrigatoriedade, as fraudes ficam ani-
das disciplinas já tradicionais que abor- tema de banco de dados que inclui, entre ou- quiladas. Como médicos veterinários deve-
dam, entre outras, a anatomia, patologia, tros ítens, serviços especializados, hospitais, mos primar pela integridade e contribuir
farmacologia, manejo, clínica, dos ani- clínicas e consultórios veterinários. O cadastro para o fim das fraudes. Adotando o princípio
mais silvestres e selvagens, condição pre- é gratuito e pode ser feito diretamente pela pági- da precaução, a implantanção dos testes de
cípua da medicina veterinária. Não há na principal do Guia Vet. DNA deve preceder à ampliação comercial de
melhor profissional capacitado para atender No Brasil, legislação nunca foi barreira. animais da nossa fauna.
a estes animais que um médico veterinário. Basta ver as notícias sobre as brigas de galo.
Ainda em relação às manifestações da Por isso, o exercício da cidadania faz sim a Arthur de V. P. Barretto - editor
WSPA e SOS Fauna quanto à legalização diferença. Principalmente quando a asso- Revista Clínica Veterinária
da criação comercial de algumas espécies ciarmos à prática da educação ambiental e Editora Guará Ltda.
de animais silvestres, gostaríamos de pro- sanitária dentro dos estabelecimentos veteri- www.revistaclinicaveterinaria.com.br
por ao leitor alguns pontos para reflexão: nários. www.editoraguara.com.br

6 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Medicina felina em evidência
por Arthur Barretto

O crescimento da medicina felina no


Brasil já vem acontecendo há anos.
Inclusive, fato evidenciado na edição n.
indivíduos do grupo B, geralmente encontra-
do em gatos persas, que não devem receber
transfusões do grupo A, que é o tipo mais en-
64 da revista Clínica Veterinária, em re- contrado nos gatos. Em indivíduos AB, que
portagem sobre um pouco da história da são muito raros, recomendou que recebam
medicina felina no Brasil. sangue tipo A.
O crescimento de clínicas com atendi- Luciana Domingues Oliveira, da Royal Palestrantes (Heloísa Justen, Vanessa Pimentel,
mento exclusivo para gatos tem crescido Canin, falou sobre o manejo nutricional do Giovana Mazzotti, Fernanda Amorim e Christine S.
Martins) e membros da comissão organizadora
nas mais diversas regiões do país. Tanto gato nefropata. Destacou a importância do do 1º Simpósio de Medicina Felina de Brasília
que especialistas na área reuniram-se e suporte ao paciente em crise, que deve ser ali-
mentado por sonda nasogástrica. pelo convívio com os gatos, mas pelo con-
criaram a Academia Brasileira de Clíni- sumo de carne “mal passada”, entre outras
cos de Felinos. Ela foi anunciada em pri- As doenças do trato respiratório superior
dos felinos e o tratamento clínico e cirúrgico possibilidades. Detalhes do assunto podem
meira mão durante o 1º Simpósio de Me- ser vistos no artigo publicado pela palestran-
dicina Felina de Brasília, evento que con- da constipação foram temas abordados pela
tou com a participação da diretoria da profa. Heloísa Justen de Souza, da UFRRJ. te na Clínica Veterinária n. 15.
academia e palestrantes convidados. Um alerta passado pela palestrante foi sobre Outros temas que enriqueceram o evento
O 1º Simpósio de Medicina Felina de a assepsia adequada pós medicação dos foram: o diagnóstico, o tratamento e compli-
Brasília contou com uma vasta programação gatos internados, pois os pacientes com pro- cações de gatos com doença renal crônica,
que durou quatro dias e que foi prestigiada blemas respiratórios das vias superiores, apresentado por Maria Cristina Nobre e Cas-
por médicos veterinários de diversas partes uma vez manipulados para a aplicação de tro (UFF-RJ); doenças infecciosas da pele
do país, que dirigiraram-se para Brasília em medicamento, podem deixar vírus nas mãos do gato, por Marconi Farias (PUC-PR); par-
busca do conhecimento em medicina felina. de quem aplicou, que poderão ser carreados ticularidades nos exames de laboratório do
Gioavana Mazzotti, médica veterinária da aos demais pacientes que serão tratados na paciente felino, por Giane Regina Paludo
Casa do Gato (Brasília/DF) transmitiu im- seqüência. (UnB-DF); a medicina tracional chinesa, por
portantes conhecimentos sobre o comporta- Fernanda Amorim, presidente da Acade- Rodrigo Fagundes; e obesidade em gatos,
mento dos felinos. O allogrooming, por mia Brasileira de Clínicos de Felinos, falou por Rodrigo Bazolli, da Guabi.
exemplo, é caracterizado pela prática mútua sobre sarcoma de aplicação, polêmico tema Os eventos não param. No final de junho,
de lambeduras entre os gatos. Giovana que envolve as vacinas, e sobre a peritonite a Anclivepa-MG realizou curso de medicina
Mazzotti destacou que, geralmente, quanto infecciosa felina. Quanto ao sarcoma de apli- felina. Em julho, no Rio de Janeiro, está pro-
mais amigos os gatos são mais allogrooming cação, Fernanda Amorim frisou que muito gramado o I Simpósio de Dermatologia Fe-
iremos encontrar. “Quando dois gatos que vi- se gastou em pesquisas e que até hoje nin- lina. Também no RJ, em agosto, acontece a
vem juntos não praticam o allogrooming, guém conseguiu provar alguma relação entre 8ª Riovet e 8ª Conferência Sul-americana de
talvez seja porque eles não são amigos, ape- a ocorrência de sarcomas e a vacinação. Po- Medicina Veterinária, onde uma das grandes
nas se respeitam, mantendo um convívio sem rém, deu ênfase para que na região da es- novidades será a realização das LXV & LXVI
brigas, mas com distância reservada”, ex- cápula do gato nada seja aplicado, dando-se Exposições Internacionais de Gatos de Raça,
plicou Giovana Mazzotti. preferência aos membros posteriores. evento realizado pelo Clube do Gato do RJ,
A transfusão sanguínea foi abordada por Janis Gonzalez, da UEL, discorreu sobre que já faz parte do calendário anual de expo-
Vanessa Pimentel (UFRRJ), que destacou a as indicações de diagnóstico por imagem na sições de gatos de raça no Brasil e da Fede-
importância da realização de provas cruza- clínica de felinos. Ressaltou a necessidade ração Felina Internacional. Neste evento, nos
das de compatibilidade, pois há três tipos de correto posicionamento do animal para dias 7 e 8 de agosto, ha-
sanguíneos em gatos: o A, o B e o AB. exames radiográficos conclusivos, principal- verá o Meeting com
Vanessa Pimentel destacou o cuidado com os mente para animais traumatizados. Para isso, palestras sobre manejo
indicou a sedação com o do gato, genética feli-
propofol (1mL/kg), mui- na, grooming e doen-
to útil também para a rea- ças felinas. No mês de
lização de exames ultra- setembro, está progra-
sonográficos. mada a IV Semana de
A toxoplasmose tam- Atualização em Me-
bém foi tema apresenta- dicina Felina,
do no evento. Christine S. que ocorrerá
Martins (UnB) destacou o na UFRRJ.
fato de que em grande nú-
Ilustração e radiografias da reconstrução isquiopúbica através de aloenxerto mero de casos, a toxoplas-
ósseo corticoesponjoso preservado em glicerina, tema da tese de mestrado mose não é transmitida
do palestrante Richard Filgueiras (UnB). Durante sua palestra, Richard Fil- Caso do Gato, pioneira
gueiras explicou que em fraturas nessa região é comum casos de constipa- no atendimento exclusi-
ção devido a estreitamento anatômico. Substituindo a região estrangulada vo para gatos no DF.
pelo aloenxerto, recupera-se a anatomia e o livre trânsito intestinal www.casadogato.com
CBNA promoveu simpósio sobre nutrição de animais de estimação
por Arthur Barretto

cação. Valéria Costa


Salustiano, da NBS
Consulting Group,
abordou como a ferra-
menta APPCC (Análi-
se de Perigo e Pontos
Críticos de Controle)
pode ajudar o produtor
de alimentos para cães
Os anais do simpósio foram entregues a todos os
participantes nas versões impressa e eletrônica e gatos. Em sua pa-
lestra, Valéria fez o se-

D e 15 a 16 de maio de 2008 aconte-


ceu, em Campinas, SP, no Instituto
Agronômico de Campinas (IAC), o VII
guinte questionamento à
platéia: “as empresas do se-
tor de pet food podem arcar com A presença no simpósio de grande número de repre-
sentantes do mercado de pet food foi muito bom para
Simpósio sobre Nutrição de Animais de os custos de implantação do sis- as trocas de informações e aprendizado
Estimação, evento realizado pelo Colégio tema APPCC?” Ela mesmo res-
Brasileiro de Nutrição Animal (CBNA). pondeu a pergunta, mas com outra per- o governo publicou novas exigências
O perfil nutricional de alimentos para gunta e um exemplo real da importância para os estabelecimentos. Desde 11 de
cães idosos saudáveis foi o primeiro de se implantar o sistema APPCC: “as dezembro de 2007, vigora o decreto n.
tema a ser abordado no evento. Irina M. empresas podem arcar com os custo de 6.296, o qual aprova o regulamento da
Munaro, consultora em nutrição e de- não ter o sistema APPCC?” Nos EUA, lei no 6.198, de 26 de dezembro de
senvolvimento de produtos pet, destacou em 2007, uma contaminação por mela- 1974, que dispõe sobre a inspeção e a
a importância da alimentação específica nina matou mais de 4.000 animais, fiscalização obrigatórias dos produtos
para os cães idosos. No Brasil, estima- entre cães e gatos, gerando um gigantes- destinados à alimentação animal, dá
se que 25% da população canina esteja co recall, acarretando prejuízos em tor- nova redação aos arts. 25 e 56 do anexo
com mais de sete anos de idade. Na Eu- no de US$ 30 a US$ 40 milhões, com ao decreto n. 5.053, de 22 de abril de
ropa, por exemplo, já se chega a uma retirada do mercado de 60 milhões de 2004, e dá outras providências. O docu-
população de cães idosos ao redor de enlatados para cães e gatos. Uma situa- mento pode ser encontrado no endereço
35%. Munaro explicou que a prevenção ção como essa vivenciada nos EUA faz www.planalto.gov.br/Ccivil_03/
é o enfoque mais adequado a ser obser- com que o consumidor generalize o Ato2007-2010/2007/Decreto/
vado pelos especialistas ao elaborarem problema, substituindo a ração pelos D6 2 9 6 . htm.
alimentos para cães idosos e salientou alimentos caseiros. O sistema APPCC Todas as indústrias de alimentos para
que: “além de prolongar a expectativa pode evitar tudo isso, e trazer, como animais de
de vida, melhora a qualidade de vida grande benefício às empresas e seus estimação po-
ajudando a retardar e a prevenir os pro- produtos: a competitividade nos merca- derão candi-
blemas de saúde vinculados ao proces- dos interno e externo, a confiança e a datar-se à cer-
so de envelhecimento” credibilidade dos consumidores”. tificação. O
O perfil nutricional de alimentos para Outra palestra que envolveu o tema processo po-
filhotes de cães de raças pequenas, qualidade foi ministrada por Silvia M. de ser muito
grandes e gigantes foi tema abordado S. Pereira, da Mars Brasil. Silvia discor- rápido. Para
por Geraldo Luiz Colnago, da UFF, que reu sobre o Programa Integrado de tanto, basta
frisou que “a alimentação de filhotes de Qualidade (Piq Pet), que é promovido adequar o
raças grandes e gigantes merecem es- pela Anfal Pet - Associação Nacional processo de
pecial atenção em função do rápido de- dos Fabricantes de Alimentos para produção aos
senvolvimento, mas independente do Animais de Estimação (www.anfalpet. requisitos do
porte a melhor recomendação é evitar o org.br). O Piq Pet é um processo de selo de forma
excesso de nutrientes”. certificação voluntária através do selo integral.
A questão da qualidade em todos as PiqPet. O objetivo é adequar a cadeia de Para ga-
etapas de fabricação de alimentos para produção de alimentos para animais de rantir a ido- O selo Piq Pet de qualidade
pets foi tema bastante focado no evento. companhia visando aumento da qualida- neidade do estampado na embalagem
Alderley Zani Carvalho, médico veteri- de, reconhecimento do consumidor e processo e dar atesta que aquele produto
nário do Grupo Guabi, falou sobre a im- cumprimento de todas as normas e legis- peso à chan- das no criterioso mercado
obedece às normas exigi-

plementação das boas práticas de fabri- lações vigentes, sendo que recentemente cela do selo internacional

10 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Pet, criado pela Associação Nacional dos
Fabricantes de Alimentos para Animais
de Estimação. Esta certificação é forne-
cida para empresas que seguem as legis-
lações vigentes e requisitos nutricionais
estabelecidos pela entidade, além de
cumprirem com o programa de APPCC
(segurança alimentar) e BPF (Boas Prá-
ticas de Fabricação), garantindo um pro- Planta da Total Alimentos, em Três Corações,
duto final seguro e confiável. Todas as MG, primeira empresa a obter o selo PiqPet

“O sistema APPCC traz competitividade para linhas de alimentos da empresa - standard, (Guabi), Friskies (Nestlé) Frolic (Master-
participar dos mercados interno e externo, e é premium, superpremium e snacks - fo- foods), Gatsy (Nestlé), Herói Mascote
fundamental para ganhar a confiança e a credi- ram aprovadas pelo PiqPet. (Guabi), Kanina (Nestlé), Pedigree (Master-
bilidade dos consumidores”, destacou Valéria
Costa Salustiano, da NBS Consulting Group
Atenta à segurança alimentar tam- foods), Whiskas (Masterfoods), Top Cat
bém está a empresa Romer Labs (www. (Guabi), Kitekat (Masterfoods). O
PiqPet, a associação buscou empresas e romerlabs.com). Na sua Greenpeace explica que o fato de
entidades que se destacam pela credi- linha de kits para análises uma empresa não estar na lista ver-
bilidade no mercado. São os casos da rápidas, encontra-se por melha não significa que seus pro-
BSI Management Systems - empresa de exemplo, kits para identifi- dutos são livres de transgênicos.
certificação multinacional, com sede no cação de soja e milho geneti- Como algumas marcas/ empresas
Reino Unido e atuante no mercado de camente modificados (OGMs) são muito pequenas ou são vendi-
avaliação da conformidade desde 1901; e micotoxinas. Dependendo do das apenas em algumas regiões do
NBS Consulting Group - responsável perfil de cada fabrincante de país, não é possível incluir todas no
pelos programas de qualidade, treina- ração, o kit para identificação guia. Nestes casos, elas não são lis-
mentos e diagnósticos para certificação; de OGMs pode ser bastante AgraStrip GMO tadas nem na coluna vermelha
os laboratórios ITAL - Instituto de útil. No Guia do Consumidor (transgênicos) e nem na verde (não
Tecnologia de Alimentos, Multimix, do Greenpeace (www.greenpeace.org/ transgênicos). Neste caso, qualquer pes-
CBO, MCassab, LAB de óleos e gordu- brasil/transgenicos) constam, atual- soa pode e deve entrar em contato com a
ras da Unicamp e ainda, estações de pes- mente, as seguintes empresas/produtos empresa e questionar sobre a utilização
quisa da UFLA e da Unesp/Jaboticabal. na lista verde (não transgênicos): Guabi, de ingredientes transgênicos. É impor-
A fabricante de pet food Total Ali- Purina (Nestlé), Alpo (Nestlé), Bonzo tante as empresas saberem que há con-
mentos saiu na frente e foi a primeira (Nestlé), Cat Chow (Nestlé), Champ sumidores que não querem comprar
empresa do setor a conquistar o selo Piq (Masterfoods), Deli Dog (Nestlé), Dog produtos com organismos geneticamen-
Pet - Programa Integrado de Qualidade Menu (Nestlé), Fancy Feast (Nestlé), Faro te modificados.
Perfil nutricional de alimentos para final de sua vida. Uma boa nutrição Características do manejo também são
gatos idosos saudáveis durante a fase adulta, permitindo uma primordias quando se trata de um gato
A Royal Canin trouxe da França para condição ideal de peso, pode levar a uma geriátrico. “A água, nutriente essencial
participar do simpósio, Vincent Biourge, sobrevida de 4 anos a mais do que a de para o gato idoso, deve sempre estar sob
diretor de projetos da empresa. Em seu gatos que estão abaixo ou acima da fácil oferta, principalmente naqueles ani-
país a longevidade dos gatos está au- condição ideal”, ressaltou o especialista. mais onde se observa problemas de loco-
mentando, “mais de 33% dos gatos pos- Outro detalhe que foi frisado é que moção. Antes de apresentar sinais de en-
suem mais de 8 anos de idade”, frisou “pode-se ter a melhor formulação do fermidade renal, muitas vezes o gato
Vincent. No Brasil, o assunto tambem mundo, mas se o alimento não for palatá- apresenta uma fase de poliúria e poli-
merece atenção, pois o mercado cresce a vel ou se o gato possuir problemas den- dipsia. Por isso, não havendo fácil oferta
cada ano. tários que dificultam a ingestão do ali- de água, o gato pode desidratar rapida-
Vincent explicou que “o gato que já mento, não se terá sucesso no manejo mente”, relatou Vincent.
ultrapassou metade do seu tempo de dietético pretendido. Por isso, a dieta que A energia é outro ponto importante na
expctativa de vida deve ser considerado o gato aceita e come bem deve ser a de dieta do gato geriátrico. “O fornecimento
como gato maduro. Ao redor dos 12 eleição”. de energia ao gato geriátrico não
anos teremos o gato geriátrico: deve ser restringido, exceto nos
pouco ativo, pode ter padrões anor- indivíduos que tenham tendência à
mais de sono, mia muito durante a obesidade. Tanto para gatos adul-
noite sem motivo aparente, pode tos quanto para os geriátricos deve-
estar surdo e/ou cego, perda me se fornecer uma dieta que leve em
massa muscular, máu hálito, dificul- consideração suas condições cor-
dades de locomoção”. porais. A obesidade em gatos pre-
“Devemos cuidar da nutrição do cisar ser criteriosamente controla-
gato geriátrico, logo que ele nasce! da, pois quando obesos, passam a
Se a manutenção não for adequada desenvolver resitência à insulina,
durante toda a vida, não se pode levando a um quadro de diabetes
esperar que ele viva mais na fase Vincent Biourge acompanhado da equipe Royal Canin do Brasil mellitus”, alertou Vincent.

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 11


mercado, mas evidências científicas em algumas novi-
agora, seu uso dades apresentadas no mercado de pet
cresce de 20% a food”, alertou Lowe.
25% por ano. A O uso de nutracêuticos como os fru-
estimativa do tooligossacarídeos (FOS) e os manaoli-
tamanho do mer- gossacarídeos (MOS) são vantajosos na
cado mundial pa- medida em que, os primeiros estimulam
ra os nutracêu- a proliferação de bactérias benéficas
ticos e alimen- constituintes da flora digestiva e os se-
tos funcionais é gundos, provenientes das leveduras,
mais de US$ competem com as bactérias patogênicas
“Temos que redefinir as necessidades energéticas do animal moderno. 15-20 bilhões pelos receptores da mucosa digestiva,
Conseqüentemente, nós também temos que ajustar a proporção da ingestão
de nutrientes diários de energia, como aquele que alcança uma margem de anuais, com pro- melhorando em conjunto a eficiência da
energia nutricional sem a desnutrição de outros nutrientes”, frisou John Lowe jeções de cresci- digestão. Os MOS, em nível intestinal,
mento extrema- aumentam também a imunidade do trato
Nutracêuticos mente rápidas, alcançando US$ 500 bi- intestinal pelo aumento da produção de
John Lowe foi um dos palestrantes lhões por volta de 2010. Muitos dos nu- anticorpos locais. John Lowe ressaltou
internacionais que enriqueceu o simpó- tracêuticos encontrados são de origem que “os melhores benefícios na alimen-
sio. Trazido para o evento pela empresa natural, mas também se pode encontrar tação dos pets são obtidos quando se
Alltech, abordou em sua palestra a ação sintéticos idênticos aos naturais, mas utiliza MOS e FOS associados. Porém,
dos nutracêuticos e os benefícios da nu- que quimicamente podem ser distingüi- sendo necessário fazer uma opção,
trição ótima para cães e gatos. Lowe dos. Com esse evidente crescimento, muitas vezes com o objetivo de tornar o
contou que os nutracêuticos começa- muitas pesquisas estão sendo feitas alimento mais barato, deve-se dire-
ram a ser usados há aproximadamente sobre nutracêuticos. “Porém, é essen- cionar a utilização de MOS para ani-
15 anos e que, inicialmente, eles eram cial que se tenha cautela no uso de mais jovens e idosos e de FOS para ani-
utilizados por uma pequena parcela do novos “nutracêuticos”, porque faltam mais adultos”.

12 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


III Simpósio da Fundação CL Davis e V ONCOVET
por Maria Angela S. Fessel

A quinta edição do ONCOVET ocor-


reu no mês de maio, na cidade de
São Paulo, na FMVZ-USP. Como ativi-
Vacinas antitumorais - o que são e para
que servem?; Andrigo Barboza de
Nardi, com Prevenção e controle dos
L. ; FERREIRA, M. A.
N. D. ; CASSALI, G. D. ,
O papel controverso da
dade pré-congresso foi realizado o III principais efeitos colaterais provocados interleucina-8 (IL-8) nas
Brazilian Symposium of the CL DAVIS pela quimioterapia; Heidge Fukumasu neoplasias mamárias
Foundation, promovido pela Associação com Fitoterápicos: da prevenção ao caninas, de autoria de
Brasileira de Patologia Veterinária tratamento do câncer; Ana Carolina B. ZUCCARI, D. A. ; Geovanni Cassali
(ABPV), nos dias 14 e 15 de maio, que C. F. Pinto, com Contribuição da tomo- CASTRO. R. ; PÍVARO,
apresentou como tema "Cytology for grafia computadorizada para os L. R. ; FRADE, C. S. ; MANCINI, U.
the Anatomic Pathologist and High pacientes oncológicos; Franz N. M. ; GOMES, A. F. ; CARMONA-RA-
Speed Practitioner". O simpósio teve Yoshitoshi, com Rinite tumoral X rinite PHE, J. ; TERZIAN, A. C. ; RUIZ C. M.
grande impacto devido à presença dos fúngica. Como diagnosticar?; Tilde R. e Neuroblastoma olfatório em cão: rela-
ilustres pesquisadores e professores drs. F. Paiva, com Contribuição da ultra- to de caso, de autoria de CROCE, G. B. ;
Donald Meuten, autor de Tumors of sonografia no diagnóstico oncológico PINCZOWSKI, P. ; SERENO, M. G. ;
domestic animals e Mary Anna Thrall, das neoplasias abdominais - discussão BRANDÃO, C. V. ; DOICHE, D. P. ;
autora do livro Hematologia e bioquími- de casos; Alexandre L. de Andrade, com VULCANO, L. C. ; LAUFER-AMO-
ca clínica veterinária. Emprego de modalidades RIM, R.
de radioterapia para con- Os professores Carlos Roberto
trole de recidivas de Daleck, Benedicto Wlade-
neoplasias em cães e mir De Martin e Julia
gatos; e Luciana O. Oli- Maria Matera receberam
veira, com Tratamento os títulos de membros ho-
eletroquímico de neopla- norários da ABROVET
Alexandre L. sias. como reconhecimento pe-
de Andrade
As mesas redondas los seus trabalhos em on-
Carlos Daleck
com pesquisadores de todo o país abor- cologia veterinária.
daram os temas Mastocitomas: avanços Como atividade pós-congresso foi
e novos conceitos, com a coordenação realizado o II Simpósio de Papilomatose
A palestrante Mary Anna Thrall do III Simpósio
da CL Davis, acompanhada da professora da professora Renée Lau- Animal no dia 19 de maio. Eduardo
Lílian Rose Marques de Sá e do palestrante fer Amori, Neoplasias Harry Bergel, Willy Beçak e Rita de
Donald Meuten mamárias, com a coorde- Cássia Stocco dos Santos receberam
O V ONCOVET foi realizado entre nação da professora Clair títulos de membros honorários do
os dias 16 e 18 de maio e chegou à M. de Oliveira; e Osteos- SIMPAP.
lotação máxima (235 participantes). O sarcomas, com a coorde- O sucesso do ONCOVET pode ser
congresso abordou grandes temas liga- nação do professor Mar- Renée Amorim visto no impacto positivo sobre os parti-
dos à terapêutica, com participação do co A. Gio- cipantes, muitos acadêmicos e profis-
eminente professor David Vail, autori- so. Esta edição do con- sionais, além de diversos importantes
dade internacional em gresso brindou a exce- pesquisadores nacionais que apresenta-
oncologia clínica com os lência na atualização de ram trabalhos científicos de grande rele-
temas Introdução geral à clínicos e cirurgiões ve- vância sobre esta especialidade em fran-
oncologia veterinária: terinários que atuam em co desenvolvimento. O VI ONCOVET
Mitos e maus conceitos; Marco Gioso oncologia. já está programado para maio de 2009.
Quando as coisas não Ao final do evento Parabéns à comissão organizadora!
vão bem no tratamento foi realizada a entrega do Prêmio José
David Vail do câncer; Manejo práti- Luis Guerra aos três vencedores. Dentre
co do linfoma; Manejo prático dos os 104 trabalhos apresentados nas áreas
mastocitomas e outros tumores de pele, de oncologia experimental, oncologia
e do professor Luis Mir, aplicada e relato de caso foram agracia-
de Paris, que palestrou dos, respectivamente, os
sobre os princípios da ele- trabalhos: Avaliação da
troquimioterapia. Entre angiogênese do tumor
os palestrantes nacionais sólido de Ehrlich sob
participaram Cristina de efeito da proteína K1-3,
Comissão organizadora: Patrícia Matsuzaki
Oliveira Massoco de Salles de autoria de SOUZA, (secretária-geral), Paulo C. Maiorka (diretor
Gomes, com o tema Luis Mir C. M. ; PESQUERO, J. José L. Guerra científico) e Maria Lúcia Z. Dagli (presidente)

14 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Novas técnicas ortopédicas avançam na medicina veterinária
N
por Arthur Barretto
os dias 13, 14 e 15 de junho a Asso- imobilização de pequeno se-
ciação Brasileira de Ortopedia e Trau- guimento da coluna; a utiliza-
matologia Veterinária (OTV) realizou no ção nas diferentes regiões da
Rio de Janeiro, RJ, simpósio que contou coluna e em diferentes raças e
com a participação de especialistas brasi- portes de cães; e a eficácia
leiros e do exterior. Nesse primeiro evento contra as forças de rotação".
científico da associação, pode-se constatar A técnica de TPLO (tibial
que no Brasil, a especialidade avança tanto plateau levelling osteothomy)
na área acadêmica quanto na inserção de para o tratamento de lesões do
novas técnicas na rotina das clínicas. ligamento cruzado cranial foi Palestrantes e membros da OTV durante o
primeiro evento científico da associação
Hélia Zamprogno, da UFRJ, iniciou o apresentada por André Lacer-
evento com palestra sobre a utilização de da, da UENF. Wanderley Severo Jr., apre- Siqueira, da UFRRJ; as fraturas expostas,
células tronco esqueléticas para o trata- sentou outra técnica que também pode ser por Sandro Stefanes, da UPIS/DF; a ava-
mento da não união de fraturas. utilizada, a TTO (triple tibial osteotomy), liação do CORA, por Bruno Lins, da
Esteban Mele, da Universidade de que possui como vantagem menor custo do Anhembi-Morumbi, método originalmente
Buenos Aires, Argentina, discorreu sobre o que a TPLO. desenvolvido por ortopedistas humanos
conceito de osteossíntese de mínima inva- PennHIP (www.pennhip.org), técnica para avaliação de desvios ósseos e que vem
são (MIPO), que surge da necessidade de radiográfica para a avaliação da displasia sendo empregado no meio veterinário; a
se preservar o ambiente biológico, reali- coxofemoral foi apresentada por Luis Ve- utilização de fixador externo híbrido, por
zando a redução de fraturas com a mínima ríssimo. Já a luxação coxofemoral traumá- Rubens Bittencourt, da UFF; as cirurgias de
manipulação do foco. tica foi tema esplanado por Marcus Fal- joelho e suas complicações, por João Gui-
Dois palestrantes internacionais enri- cão, da Universidade Estácio de Sá, que lherme Padilha, da Unesp/Jaboticabal.
queceram o evento: Bianca Hettlich, da explicou que o mais comum é que a lu- Em setembro, no 8º Congresso Paulista
Texas A&M (EUA), que falou sobre as xação seja craniodorsal, com encurtamen- de Clínicos Veterinários de Pequenos Ani-
doenças da coluna cervical, e Bill Liska, da to do membro. mais (Conpavepa - www.petsa.com.br),
Gulf Coast Veterinary Specialists (EUA), Cleuza Resende, da UFMG, fez ampla Esteban Mele e outros especialistas falarão
que tratou das próteses total de quadril, apresentação sobre a artroscopia. O proce- sobre a etiopatogenia e tratamento da rup-
joelho e cotovelo. dimento possui algumas limitações como tura do ligamento cruzado cranial. Haverá
Paulo Moya apresentou soluções orto- custo elevado e muito treinamento, mas também curso prático de placas e parafusos
pédicas para os traumas na coluna verte- uma vez implantado traz como grande be- com Cássio Ricardo Auda Ferrigno, da
bral. "Conforme o caso, uma boa opção nefício a identificação precoce dos proces- FMVZ/ USP. Outro destaque no congresso
para o tratamento do trauma na coluna, é sos degenerativos. é a fisioterapia, com a participação de
a utilização de parafusos ortopédicos e ci- Outros assuntos tratados no simpósio fo- Darryl Millis, da Universidade do
mento ósseo. Como vantagens, temos a ram: o interlocking nail, técnica de fixação Tennessee, EUA, palestrante patrocinado
pequena dissecção de tecidos moles; a intramedular, apresentada por Ricardo pelo Vet Spa (www.vetspa.com.br).

Curso teórico-prático de Curso de neonatologia Curso teórico-prático Curso teórico-prático de


afecções cirúrgicas da dos cães e gatos de dermatologia cirurgia de partes moles
coluna vertebral 31 de agosto; 14, 21 e 28 de setembro 14, 21, 28 de setembro;
7, 14, 21 e 28 de setembro 19 de outubro (prática) 19 de outubro;
9, 10, 16 e 17 de agosto horário: das 8h às 12h horário: das 8h às 12h 9, 23,e 30 de novembro;
horário: das 8h às 17h
7 de dezembro
Palestrante: Palestrante: horário: das 8h às 17h
Palestrante:
Prof.ª Dr.ª Helena Ferreira. Profª. Ana Claudia Balda
Profº. Dr. João Guilherme Padilha Reflexos tegumentares das Palestrante:
Cuidados básicos com a gestante e
Exame neurológico; doença do disco inter- endocrinopatias; alopecias
com o neonato; características fisio- Profª Aline Machado de Zoppa
vertebral; fenestração de discos interverte- não hormonais; vasculites;
lógicas; exame neurológico; alimen- Cirurgias: da cabeça e do
brais; uso de fenda ventral; hemilaminecto- leishmaniose; disqueraniza-
tação artificial; tratamento alternati- pescoço; das cavidades toráci-
mia; laminectomia dorsal; afecções cirúr- ções e uso dos xampus;
vo na ausência da ingestão do co- ca e abdominal; do trato genito-
gicas da coluna; síndrome de Wobbler; otites
lostro; considerações sobre as vias urinário; região perineal; da
subluxação atlanto-axial; afecções cirúrgi- Prática: citologia; tricograma;
de administração de drogas; enfer- pele; miscelâneas cirúrgicas
cas da coluna; síndrome de compressão biópsia cutânea
midades neonatais
da cauda eqüina; fraturas de L7 Local: 2º Batalhão da Local: 2º Batalhão da
Local: 2º Batalhão da Polícia do Exército* Local: Instituto Biológico** Polícia do Exército* Polícia do Exército*
Realização Informações e inscrições: * 2º Batalhão da Polícia do Exército (BPE) ** Instituto Biológico
fone: (11) 2995-9155 • fax: (11) 2995-6860 Rua Raul Lessa, 52 - Saída 17 da Rod. Castelo Branco Rua Conselheiro Rodrigues Alves 1252 - 4º andar -
juna.eventos@uol.com.br - www.junaeventos.com Trav.da Av.Getúlio Vargas - Osasco/SP Vila Mariana - São Paulo - SP
(próximo a estação Ana Rosa do metrô)

16 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Fort Dodge lança Rhobifarma é autorizada pela Anvisa a
ectoparasiticida trabalhar com drogas controladas
A pós 10 anos de pesquisa e investi-
mentos de mais de 15 milhões de
dólares, a Fort Dodge Saúde Animal,
A Rhobifarma, empresa veterinária
especializada na produção de inje-
táveis veterinários e fabricante de suple-
autorização, o que atesta a qualidade
de procedimentos e instalações da
Rhobi”. Ricardo Lucas, diretor de
líder mundial no desenvolvimento e fa- mentos como o CartiloDog e o marketing comemora a obtenção da
bricação de vacinas, acaba de lançar no DermaDog, obteve autorização especial autorização da ANVISA como “uma
Brasil uma nova linha de produtos. Tra- da Agência Nacional de Vigilância Sa- forte sinalização de uma autoridade
ta-se do ProMeris Duo (indicado para nitária (ANVISA), para trabalhar com regulatória quanto à qualidade fabril
cães) e ProMeris (indicado para gatos), drogas controladas. de nossa empresa, o que também abre a
ectoparasiticidas de eficácia comprova- Segundo Valdemir Volante, Diretor oportunidade de desenvolvimento de
da no combate aos carrapatos e pulgas. Comercial da Rhobi, “poucas empresas novos produtos”.
Os produtos trazem em sua composi- veterinárias nacionais possuem essa Rhobifarma: www.rhobifarma.com.br
ção um novo princípio ativo, a metaflumi-
zona, molécula que age no sistema ner-
voso da pulga, resultando em sua parali-
sia e morte. De acordo com Tiago Papa, Campanha “ZooAção” esclarece sobre
gerente de negócios sênior de animais
de companhia da Fort Dodge, a empresa
as verminoses e as zoonoses
O
começou a trabalhar com esta molécula que são verminoses? Quais as venda e também muito úteis para serem
em 2000, quando foi identificado que sua zoonoses mais comuns causadas utilizados pelos médicos veterinários
ação contra pulgas era inovadora e ao por vermes? Quais os riscos para o ani- como material de apoio, durante os
mesmo tempo altamente eficaz. “A partir mal e o homem? Essas e outras questões atendimentos.
desta descoberta, a empresa direcionou são bastante comuns entre os proprie- A empresa também possui infor-
parte de sua equipe de P&D de Princeton tários de cães e gatos. mações sobre a campanha na internet.
(EUA) para desenvolver uma formula- Para esclarecer essas dúvidas e con- Bayer: www.bayerpet.com.br
ção que fosse segura e que apresentasse tribuir para a saúde da relação
longa duração”, revela Papa. entre o proprietário e seu animal
“Atualmente, a linha de pets respon- de estimação, a Bayer tem pro-
de por 15% do faturamento da compa- movido anualmente a campanha
nhia no Brasil”, afirma Papa, para quem “ZooAção”. Realizada durante
este é o setor mais promissor do merca- os meses de maio e agosto, a
do veterinário brasileiro. De acordo com iniciativa tem como objetivo
o executivo, a expectativa é chegar a casa conscientizar os donos de cães e
dos R$ 20 milhões este ano, com a gatos sobre os riscos de ver-
venda de aproximadamente meio mi- minoses e zoonoses transmitidas
lhão de pipetas da Linha ProMeris no por vermes. Esse ano a cam-
primeiro ano de mercado. Com isso, panha destaca-se por uma grande
segundo Papa, a Fort Dodge preten- variedade de materiais informa-
de assumir a segunda posição no ranking tivos, bastante didáticos. Eles
nacional das empresas do setor, no estão presentes nos pontos de Campanha
segmento de pequenos animais. ZooAção de
Fort Dodge: 0800 701 9987 2008 possui farto
material educativo

ProMeris
e ProMeris
Duo, novos
produtos da
Fort Dodge
para o con-
trole de
pulgas, em
gatos, e de
pulgas e
carrapatos,
em cães

18 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Normas para a residência em medicina veterinária no Brasil
por Arthur Barretto

avaliados nos períodos de


2003/2007. Nesse período,
das 43 solicitações de ava-
liação foram feitas 28 verifi-
cações in loco, resultando
em 20 aprovações, e 10 soli-
citações de reavaliação, que
resultaram em 9 aprovações.
As avaliações in loco sem-
pre são feitas por 2 membros As mesas redondas formadas durante o seminário foram os
da CNRMV. No caso das palcos dos momentos mais produtivos do evento. Na foto, à
reavaliações, elas também esquerda, encontra-se o dr. Antônio Carlos Lopes (Unifesp/
SP), médico com bastante experiência nos programas de
O prof. dr. Júlio César Cambraia Veado, enfa-
tizou o caráter educativo da Comissão Nacio-
são feitas por 2 membros da residência em medicina. Ele não foi otimista quanto ao reco-
CNRMV, mas com a substi- nhecimento federal dos programas de residência em medici-

N
nal de Residência em Medicina Veterinária
tuição de um dos membros na veterinária. Em sua opinião o governo está mais tenden-
os dias 16 e 17 de junho de da CNRMV, por outro que Essa modalidade de residência precisa ser do conhecimento
cioso a aprovar o programa de residência multiprofissional.

2008, o Conselho Federal de não tenha participado da pri- de todos e o prof. dr. Eduardo H.
Medicina Veterinária (CFMV) meira visitação. Birgel, membro da CNRMV, frisou
promoveu o I Seminário Brasileiro de O prof. dr. Antônio F. P.
bastante que os participantes
enviassem à comissão suas
Residência em Medicina Veterinária. O de F. Wouk, também mem- opiniões sobre essa modalidade.
evento foi realizado em São Paulo, SP, bro da CNRMV, explicou, No endereço eletrônico portal.
e contou com a participação de mem- por sua vez, que “aguarda- saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/
livroresidenciamultiprofissional.
bros de instituições de ensino de várias se uma agenda ministerial pdf pode-se encontrar extenso do-
regiões do país. para regulamentação fede- cumento sobre a modalidade, com
O evento teve início com a apresen- ral da residência em medi- 415 páginas, no qual, bem diferente
de outras profissões da saúde, a
tação do prof. dr. Júlio César Cambraia cina veterinária e, conse- palavra veterinário aparece uma
Veado, membro da Comissão Nacional de qüente, aprovação por decre- única vez
Residência em Medicina Veterinária to presidencial. Outra ação Residência multiprofissional em saúde:
(CNRMV), que discorreu sobre a relação desenvolvida pelo CFMV em experiências, avanços e desafios -
do CFMV com os programas de residên- prol do ensino, o exame na- Ministério da Saúde - Brasília/DF - 2006
cia em medicina veterinária. Explicou que cional de certificação pro-
desde 2001 o CFMV vem publicando re- fissional, também por uma ação políti- Além disso, Wouk destacou que “deve-
soluções que foram sendo aperfeiçoadas, ca, está próximo de assinado pelo presi- mos permanecer mobilizados como
principalmente em função do trabalho de- dente da república. O fato do Ministério classe, no sentido de, unidos, pleitear-
senvolvido pela CNRMV, que há anos da Educação estar interagindo com o mos ao Ministério da Educação, o
vem avaliando in loco, sempre com cará- CFMV, o exame de certaficação nacional mesmo tratamento que é dado à nossa
ter educativo, os programas de também estar próximo de co-irmã, a medicina. Diferentemente de
residência em medicina vete- ser aprovado e contatos pré- outras profissões que pleiteiam o
rinária. Inicialmente, o assun- vios com o ministro da Edu- reconhecimento de suas residências, a
to foi tratado pela resolução cação, Fernando Haddad, medicina veterinária, depois da medi-
684, de 16 de março de 2001, trazem uma grande es- cina, é a profissão que mais possui
sendo revogada pela resolu- perança na regulamenta- experiência em programas de residên-
ção 729 de 10 de dezembro de ção federal da residência cia”.
2002, a qual também foi revo- em medicina veterinária. A profa. dra. Cleuza Maria de Faria
gada pela resolução 752 de 17
de março de 2003. Esta última
também já foi revogada, es- "A metodologia deve ser ativa, participativa e tendo
tando em vigor a resolução
como eixo pedagógico a educação continuada. O resi-
dente é o médico veterinário que está se aperfeiçoan-
824, de 31 de março de 2006. "Apenas 25% dos cursos
de medicina veterinária do do no exercício prático da função, sob supervisão e
O prof. dr. Eduardo H. Brasil tem um programa de orientação. O residente não é mão-de-obra barata, não
Birgel, também membro da residência que foi
veio suprir a falta de funcionários de hospital ou qual-
quer outra função que o tire do seu foco, o aprendiza-
CNRMV, abordou detalhes submetido à avaliação
pela CNRMV", salientou do em serviço", enfatizou a presidente do Colégio
das avaliações dos progra- o prof. dr. Eduardo Harry Brasileiro de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária
mas de residência que foram Birgel, membro da CNRMV (CBCAV), profa. dra. Cleuza Maria de Faria Rezende

20 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Rezende, presidente do Colégio Brasi- O prof. dr. Carlos E. “O título de especialista concedido pelo CFMV
leiro de Cirurgia e Anestesiologia Vete- Larsson destacou que “o não é perpétuo. Ele deve ser renovado a cada
5 anos. Essa medida é uma forma de garantir
rinária (CBCAV), também contribuiu título de especialista, à sociedade que o profissional está plenamen-
com o seminário destacando pontos im- atribuído a um médico te habilitado e permanece atualizado e apto a
portantes que devem ser avaliados nos veterinário, conforme oferecer serviços de qualidade”, explicou o
prof. dr. Carlos Eduardo Larsson, presidente
programas de residência em medicina parecer feito em 2004, da Comissão Mista de Especialidades (CME)
veterinária que focam a cirurgia e a para o CFMV, pelo prof.
anestesiologia veterinária. “É comum o dr. Eduardo H. Birgel,
residente questionar sobre qual cirur- representa o aval da classe pro- foi entendê-la como um processo de
gia está agenda para ser feita. Porém, fissional, pela ação do Sistema CFMV/ avaliação, assumindo como postulado
ele não se interessou pelo pré-operató- CRMVs que o registrou e homologou, inicial a autonomia institucional, mas
rio, não ouviu a história do proprietá- garantindo à sociedade a formação não deixando de lado a articulação en-
rio, não aprendeu como filtrar as infor- pretérita e atualizada de profissional tre qualidade e quantidade, bem como
mações do proprietário e não fez o exa- de excelente nível”. Durante sua apre- a sensibilidade da própria instituição
me clínico. Como pode ser decidido o sentação o prof. dr. Carlos Eduardo detentora do programa de residência,
que irá ser feito, desconhecendo-se a Larsson também deu importante aviso: nos seguintes aspectos: a globalidade,
avaliação clínica do animal? Ele não “em 5 de agosto de 2008, na sede do ou seja a avaliação de todos os elemen-
sabe, inclusive, porque irá executar a CFMV no Distrito Federal, visando tos que compõem a instituição de ensi-
técnica cirúrgica. E, para a sedimen- ampliar a divulgação da Resolução no; o respeito à identidade de cada ins-
tação do conhecimento e para que seja CFMV 756/2003 e dirimir dúvidas será tituição, levando em conta as caracte-
possível avaliar a técnica aplicada, implantado o foro sobre especialidades rísticas próprias, inserindo assim a
buscando a todo momento, melhorar a em medicina veterinária. Dele partici- questão da regionalidade; a legitimi-
performance, o pós-operatório é obri- parão presidentes do CFMV e CRMVs; dade do processo pela adoção de meto-
gatório. A discussão em grupo dos membros da CME; assessoria jurídica dologias e construção dos indicadores
casos que chegam ao hospital também do CFMV, coordenadoria de comis- capazes de serem fidedignos para a
é fundamental e promove o aprendiza- sões, membros da CNRMV; presidentes realidade avaliada; o reconhecimento
do dos residentes”, frisou a profa. dra. de colégios, associações e sociedades por todos os agentes da legitimidade
Cleuza Maria de Faria Rezende. de especialistas de âmbito nacional e desse processo de avaliação, seus prin-
O prof. dr. Carlos Eduardo Larsson, legalmente constituídas”. Os interessa- cípios norteadores e seus critérios”.
presidente da Comissão Mista de Espe- dos em contribuir com o foro poderam Esse documento preconiza que haja
cialidades (CME) do CFMV, participou participar enviando sua manifestação cinco condições fundamentais para os
do evento falando sobre as interrela- até o dia 20 de junho de 2008 através de programas de residência em medicina
ções da Comissão Mista de Especiali- formulário disponível no endereço veterinária: estrutura administrativa e
dades e a Residência em Medicina Ve- eletrônico www.cfmv.org.br/portal/ organizacional; capacidade e qualidade
terinária. A CME foi nomeada pelo titulo_especialista.php. de preceptoria dos docentes da institui-
CFMV em 2005, sendo composta por Ao final do evento, o prof. dr. Antô- ção; projeto pedagógico do programa
docentes de IES (BA, MG, PE, RJ, SP): nio F. P. de F. Wouk, referindo-se ao de residência em medicina veterinária.
Áurea Wichsral, Carlos Eduardo documento Residência em medicina Todos esses ítens foram discutidos no
Larsson (presidente), Eduardo Luis T. veterinária no Brasil - perfil ideal se- seminário e enriquecerão o novo docu-
Moreira, Helton M. Saturnino, Sérgio gundo a CNRMV do CFMV, distribuído mento que deve ser elaborado na próxi-
C. de São Clemente e Silvana L. a todos os participantes do seminário, ma reunião da CNRMV, no segundo se-
Górniak. Como atribuições da CME explicou que: “trata-se de um docu- mestre. Os interessados em contribuir
incluem-se: avaliar pedidos de altera- mento inicial, cujo objetivo maior é com o documento que será elaborado
ção na lista de especialidades (anexo da legitimá-lo com as opiniões, críticas e devem enviar suas manifestações até o
resolução 756/2003) e assessorar a pre- observações frutos desse seminário. Os dia 31 de julho de 2008 para o endereço
sidência do CFMV em assuntos corre- princípios que nos regeram nessa ava- eletrônico da CNRMV: comissoes@
latos às especialidades. liação institucional para a residência cfmv.org.br.

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 21


Radiologia computadorizada disponível no Rio de Janeiro
J á encontra-se em funcionamento na
Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro,
RJ, o serviço de radiologia digital do
método ecologicamente
correto.
As imagens registradas
CRV-imagem. podem ser distribuídas
A radiologia computadorizada é um eletronicamente por um
novo ramo da medicina diagnóstica por sistema digital de arquiva-
imagem que vem substituir os filmes mento e comunicação
radiográficos e o processo de revelação (PACS) que é usado em
química por placas sensíveis que trans- todo o mundo pela área
mitem a imagem para um computador e médica, baseado na rede de
permite manipular a imagem numa tela, computadores (web), sem
modificando as qualidades ópticas para perda de qualidade (padrão
avaliação de diferentes tecidos em uma DICOM). As imagens po-
mesma exposição. dem ser encaminhadas, ar-
A partir deste processamento digital mazenadas e consultadas a Serviço de radiologia digital do CRV-imagem
consegue-se: qualquer tempo, reduzindo
• reduzir significativamente o número a chance de perda de dados e extravio aumentando a qualidade de vida dos
de repetições de exames; de exame. animais e de seus responsáveis.
• aumentar o alcance diagnóstico com Nascendo com uma proposta inova- Alex Adeotado (MV, MSc, PhD), di-
menor estresse para o paciente; dora, o CRV-imagem tem como missão retor do CRV-imagem, destaca que: “em
• diminuir a dose de radiação em propiciar o mais alto nível de diagnós- breve, também teremos disponíveis os
pacientes e profissionais envolvidos; ticos por imagem na medicina veteri- serviços de ultra-sonografia, ecocardio-
• eliminar o processamento químico e nária, facilitando o dia a dia dos médi- grafia e tomografia computadorizada”.
uso de filmes radiográficos, tornando o cos veterinários e conseqüentemente, CRV-imagem: (21) 2484-0508

22 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Saúde pública

Sabonete contra dengue * por Thiago Romero

Pesquisadores da Uenf concluem formulação de sabonete capaz de proteger contra


o Aedes aegypti por até seis horas após o banho. Produto é feito com essências de
plantas como citronela e capim-limão

E stá concluída a formulação de um


sabonete repelente, desenvolvido
por pesquisadores do Laboratório de
ação, primeiramente aplicamos o
sabonete em camundongos, que ficaram
em contato com mosquitos Aedes
fica, segundo o professor, pelo fato de
ela estar mais exposta à transmissão da
doença nas grandes cidades. “Essa po-
Ciências Químicas da Universidade aegypti. Esses insetos são criados em pulação normalmente vive em áreas nas
Estadual do Norte Fluminense Darcy cativeiro no laboratório a partir de uma quais os alagamentos são mais con-
Ribeiro (Uenf), que poderá se tornar linhagem que não tem o vírus da stantes e o saneamento básico é mais
uma importante arma para o combate ao dengue, fazendo com que as gerações precário, além de muitas vezes não ter
mosquito da dengue (Aedes aegypti), posteriores do mosquito também não condições de comprar repelentes elétri-
que também transmite a febre amarela. desenvolvam a virulência”, explicou. cos ou de instalar telas de proteção nas
O produto, cujo efeito dura até seis Nos testes em humanos, o produto foi janelas”, apontou.
horas sobre a pele humana, foi criado a aplicado na mão e no antebraço de vo- “O período de seis horas de atuação do
partir de uma mistura de glicerina, obti- luntários da universidade. “Em seguida, sabonete é o tempo médio em que uma
da em óleo de cozinha reciclado, com inserimos os braços dos voluntários, criança, por exemplo, sai de casa usando
essências naturais de plantas como o sucessivamente em um período de seis o produto, vai até a escola e retorna à sua
cravo-da-índia, citronela e capim-limão. horas, em gaiolas cheias de mosquitos residência”, disse. A intenção, em um pri-
A fórmula conta ainda com outras subs- para verificar se haveria algum tipo de meiro momento, segundo o pesquisador, é
tâncias químicas, que ajudam a aumen- contato dos insetos com a pele, o que disponibilizar o produto a órgãos públicos
tar o tempo de ação do produto. não ocorreu”, afirmou. ligados à saúde do Rio de Janeiro.
“Apesar de ter uma ação comprovada “Fizemos ainda uma contraprova, Para isso, a equipe da Uenf está
contra o Aedes aegypti, que foi o foco em que a mesma base do sabonete sem atualmente trabalhando, com financia-
dos estudos, o sabonete conta com as substâncias repelentes foi aplicada. mento da própria universidade, na pro-
grande possibilidade de ter ação repe- Seguimos a mesma metodologia e iden- dução de um lote de mil unidades do
lente contra outros vetores. O objetivo tificamos um alto número de pousos dos sabonete para enviá-lo aos poderes
agora é ampliar os testes de sua eficácia mosquitos na pele dos voluntários”, público municipal e estadual, que deve-
contra insetos que transmitem outras completou. rá repassar o produto à sociedade.
doenças humanas e animais”, disse “A previsão é que até o fim deste mês
Edmílson José Maria, coordenador da População vulnerável estejamos com esse lote pronto. Tam-
pesquisa e chefe do Setor de Síntese José Maria explica que a criação de bém estamos em busca de parcerias
Orgânica do Laboratório de Ciências um repelente em forma de sabão surgiu com a iniciativa privada para a fabri-
Químicas da Uenf, onde o sabonete foi da idéia de disponibilizar um produto cação em larga escala e comercializa-
formulado, à Agência FAPESP. economicamente acessível à população ção do produto”, sinalizou.
O processo de obtenção de patente do carente das grandes cidades que não têm Campos dos Goytacazes, que abriga
produto junto ao Instituto Nacional da acesso a ferramentas mais sofisticadas o campus da Uenf, é a terceira cidade do
Propriedade Industrial (INPI) teve iní- de combate à dengue. Estado do Rio de Janeiro em número de
cio, assim como o pedido de aprovação “Como o acesso da população aos casos de dengue registrados em 2008,
da formulação na Agência Nacional de repelentes convencionais é restrito, dev- ficando atrás apenas da capital flumi-
Vigilância Sanitária (Anvisa). ido ao seu custo elevado, nosso projeto nense e de Nova Iguaçu. “De janeiro a
De acordo com José Maria, a eficácia vem ao encontro dessa questão social. O abril deste ano, houve aproximada-
do sabonete foi comprovada em testes sabonete ainda não tem preço definido, mente 6 mil casos da doença em
com cobaias e humanos. “Para verificar mas certamente terá baixo custo”, disse. Campos dos Goytacazes, com 16 óbitos
sua atividade repelente e seu tempo de O foco na população carente se justi- registrados”, disse José Maria.
* Fonte: Agência FAPESP - www.agencia. fapesp.br/boletim_dentro.php?id=8803

Tr a b a l h o s d e s e n v o l v i d o s
ISTA
• Curso de capacitação em cirurgias de ASS
esterilização minimamente invasiva
• Curso de capacitação em educação
humanitária
• Consultoria para Prefeituras, Empresas
e ONG’s
Disponível no
• Curso de Formação de Oficiais de endereço:
Controle Animal (FOCA) www.itecbr.org

24 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Saúde pública

Nova ferramenta contra a tuberculose * por Thiago Romero

Pesquisadores da Fiocruz validam novo teste molecular para diagnóstico. Método identifica elemento
genético da bactéria causadora da doença, que atinge cerca de 50 milhões de pessoas no Brasil

P esquisadores do Centro de Pesquisa


Aggeu Magalhães (CPqAM) da
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em
em crianças. O quadro clínico clássico
geralmente é ausente, sendo mais
comum a presença de sintomas não
utilizados atualmente, a necessidade de
um teste rápido, sensível e prático levou
ao desenvolvimento desse novo teste
Pernambuco, desenvolveram e valida- específicos.” diagnóstico molecular”, explicou
ram um teste molecular para o diagnós- Por conta disso, atualmente o diagnós- Haiana.
tico da tuberculose de alta complexi- tico laboratorial da tuberculose infantil Se entre as vantagens do novo teste
dade, em especial a tuberculose infantil apresenta diversas dificuldades: as ima- estão a alta sensibilidade, especificidade
e a tuberculose extrapulmonar. gens radiológicas pulmonares nem sem- e rapidez na obtenção do resultado, a
O teste funciona com a identificação do pre são conclusivas e o teste conhecido pesquisadora aponta que uma das des-
IS6110, um elemento genético da bactéria como Mantoux pode ser de difícil inter- vantagens pode ser o custo mais eleva-
causadora da doença, o Mycobacterium pretação devido, sobretudo, à vacinação do, apesar de os pesquisadores da
tuberculosis. O objetivo é detectar, de prévia das crianças com a vacina BCG. Fiocruz ainda não terem realizado estu-
maneira precoce, os casos de tuberculose Além disso, a cultura de sangue tem dos de custos.
em que a presença do bacilo no organismo baixa sensibilidade e requer muito tem- “A vantagem é que, quando compa-
é muito baixa, gerando um tipo da doença po para obtenção do resultado, uma vez rada com os gastos da saúde com outros
que pode ocorrer nos gânglios linfáticos, que o bacilo Mycobacterium tuberculosis exames laboratoriais, dias de interna-
ossos, articulações, fígado, pele e sistema necessita de oito a dez semanas para se ção, medicamentos e outras seqüelas
nervoso central. multiplicar. ocasionadas por falta de diagnóstico
Ao ser validado em amostras de Segundo Haiana, que também é pro- precoce, os benefícios desse novo teste
sangue de 117 crianças de ambos os fessora do Departamento Materno In- poderão compensar a sua implantação
sexos, com idades entre seis meses e 14 fantil da UFPE, hoje o procedimento nos principais serviços de referência do
anos, atendidas no Hospital das Clínicas mais comum, devido à dificuldade das Brasil”, afirmou.
da Universidade Federal de Pernambu- crianças menores em expectorar, é a Atualmente, o teste molecular só
co (UFPE), no Hospital Barão de Luce- cultura de lavado gástrico nos suspeitos está sendo utilizado em contexto de
na e no Instituto Materno Infantil Pro- de tuberculose pulmonar, que detecta a pesquisa. “Estamos trabalhando no
fessor Fernando Figueira (Imip) – todos presença do bacilo em cerca de 40% dos desenvolvimento e validação de um kit
no Recife –, o novo método apresentou casos. de diagnóstico para ser implantado nos
especificidade de 100%, ou seja, capaci- “Já pelo teste molecular, a detecção principais centros e instituições de refe-
dade de descartar a presença do M. do M. tuberculosis pode ser obtida com rência da tuberculose no Brasil em
tuberculosis em indivíduos saudáveis. sensibilidade de uma cópia de DNA casos de difícil elucidação. Para isso, a
Apresenta também 92,6% de sensibili- alvo em uma única célula bacteriana, relação custo-benefício do método já
dade, ou a capacidade de confirmar a extraída de amostras clínicas de está sendo avaliada”, disse a pesquisa-
presença do bacilo. naturezas variadas. Esse novo método dora do Departamento de Imunologia
A eficácia do teste molecular foi detecta a presença do material genético do CPqAM.
comprovada por meio do método co- específico da microbactéria presente na A intenção é fazer com que a utiliza-
nhecido como Nested-PCR, que ampli- tuberculose-doença, com sintomas, e ção do teste molecular, associada aos
fica, em crianças com suspeita de tuber- também na tuberculose-infecção, ainda métodos tradicionais, contribua para um
culose, um trecho específico do DNA da sem os sintomas”, explicou. diagnóstico mais preciso em qualquer
bactéria em milhares de vezes. De acor- fase da doença, permitindo o tratamento
do com a coordenadora do trabalho e Amplificação de seqüências de DNA precoce e o controle da sua transmissão.
chefe do Laboratório de Imunoepide- A técnica da Fiocruz para o diagnós- A tuberculose infantil é um problema de
miologia do CPqAM, Haiana Schindler, tico rápido da tuberculose é baseada na saúde pública que atinge 1,3 milhão de
o método molecular que acaba de ser reação em cadeia da polimerase (PCR). crianças por ano no Brasil.
validado é capaz de detectar uma quan- A amplificação específica de seqüências Estima-se que cerca de 50 milhões
tidade de DNA menor que a existente de ácidos nucléicos por meio da PCR, de pessoas estejam infectadas pela
em uma célula bacteriana. que permite a síntese enzimática in vitro Mycobacterium tuberculosis no Brasil,
“Com o teste, a presença de apenas de seqüências de DNA, também tem o que resulta na 16ª posição entre os 22
um bacilo pode ser suficiente para sido empregada no diagnóstico de países com mais alta carga de tubercu-
indicar, em cerca de 24 horas, se o várias doenças infecciosas. lose do mundo, de acordo com a Orga-
paciente está infectado”, disse ela à “Para o controle da tuberculose é im- nização Mundial da Saúde (OMS).
Agência FAPESP. “A tuberculose é par- portante o diagnóstico precoce e, como Entre os casos notificados no país, 10%
ticularmente difícil de ser diagnosticada existem falhas nos métodos rotineiros acometem menores de 15 anos.

* Fonte: Agência FAPESP - www.agencia. fapesp.br/boletim_dentro.php?id=8923

26 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Saúde pública

Raiva sob vigilância * por Thiago Romero

A partir do mapeamento da população de cães e gatos na


capital paulista, pesquisadores da USP desenvolvem método
inédito para planejamento e avaliação de campanhas
de vacinação contra a raiva animal

P esquisadores da Faculdade de
Medicina Veterinária e Zootec-
nia da Universidade de São Paulo
Estatística (IBGE). “Qualquer mu-
nicípio que tiver a base de dados
do IBGE pode fazer estimativas da
de São Paulo considera que, para não
haver comprometimento da qualidade
do serviço prestado, cada posto deve
(FMVZ-USP) desenvolveram uma população animal utilizando os atender no máximo 700 animais por
metodologia inédita que, ao estimar as programas de informações geográfi- dia. Em 2002, cerca de 25% dos postos
populações de cães e gatos de um cas e a razão de habitantes por animal da capital paulista vacinaram um núme-
município, pode ser aplicada de forma que pode ser estimada pelos centros de ro superior a mil animais. “Esse grande
sistemática no planejamento e na avalia- controle de zoonose de cada cidade”, número de animais em um único posto
ção de campanhas de vacinação contra a explicou. compromete a qualidade do serviço
raiva animal. Em São Paulo, os setores censitários prestado e dá margem a problemas
O desenvolvimento do método, que foram agrupados de forma a compor os como brigas entre animais”, conta
permite a identificação de áreas de cober- 96 distritos administrativos e as 31 sub- Amaku.
tura vacinal crítica, partiu de estimativas prefeituras da capital. Os pesquisadores Dados de literatura estimam uma
feitas na capital paulista: sete habitantes estimaram a existência de 1,49 milhão soroprevalência para raiva de 16,5%
por cão e 46 habitantes por gato. A vali- de cães e 226,9 mil gatos domiciliados para os cães de rua da cidade de São
dação do método teve como base infor- na cidade, totalizando uma população Paulo. “Isso significa que apenas 16,5%
mações da campanha de vacinação contra de cerca de 1,7 milhão de animais. As dos cães de rua da capital paulista, cujo
a raiva de 2002, fornecidas pelo Centro estimativas do estudo não incluíram a tamanho da população é ainda desco-
de Controle de Zoonoses da Secretaria população de cães de rua, cuja cobertu- nhecida, estariam protegidos contra a
Municipal de Saúde de São Paulo. ra vacinal é mais baixa. doença”, apontou.
Com base nesses dados, coletados Segundo os pesquisadores, que ela- “Essa baixa soroprevalência, asso-
com o auxílio de sistemas de informa- boraram uma série de mapas de densi- ciada à possibilidade de reintrodução
ção geográfica, o método permite fazer dade animal para organizar a distribui- do vírus rábico por outras espécies ani-
estimativas de densidade animal e do ção espacial dos postos de vacinação na mais, é um fator que deve motivar um
número de postos de vacinação móveis capital, 1.729 é o número total de postos planejamento estratégico de vacinação
necessários para se atingir uma cobertu- necessários no município para atingir a e a manutenção de um sistema eficaz de
ra vacinal de 70% em cada região. cobertura vacinal de 70%. vigilância epidemiológica nos municí-
Dados de literatura sugerem que uma “Além de evitar as epidemias de pios brasileiros”, disse Amaku.
cobertura nessa proporção previne cerca raiva e evitar a formação de filas nos O projeto de pesquisa que originou o
de 96% das epidemias rábicas nas postos, com essa distribuição é possível método teve apoio da FAPESP na mo-
grandes cidades. deslocar a quantidade exata de recur- dalidade Auxílio a Pesquisa e foi desen-
“Os sistemas de informação geográ- sos financeiros e humanos em cada volvido em parceria com pesquisadores
fica integram softwares que podem ser posto de vacinação”, disse Amaku. do Centro de Controle de Zoonoses de
baixados gratuitamente pela internet, A raiva é uma zoonose causada por São Paulo. Um artigo com a descrição
permitindo a associação de dados car- um vírus do gênero Lyssavirus que da metodologia foi aceito e será publi-
tográficos – como ruas, setores censi- ataca o sistema nervoso de todos os ma- cado na Revista de Saúde Pública, edi-
tários e distritos administrativos – com míferos, principalmente bovinos, eqüi- tada pela Faculdade de Saúde Pública
dados não geográficos, como tamanho nos, suínos, cães, gatos e morcegos. da USP.
da população animal e número de pos- Uma vez iniciada a sintomatologia não Um software de sistemas de infor-
tos de vacinação”, disse Marcos Ama- há tratamento efetivo conhecido, o que mações geográficas que pode ser usado
ku, coordenador do trabalho e professor faz com que, na zona urbana, a pre- para a aplicação do método, segundo
do Departamento de Medicina Veteriná- venção da raiva canina e felina por meio Amaku, é o TerraView, disponibilizado
ria Preventiva e Saúde Animal da de campanhas de vacinação seja o ins- gratuitamente pelo Instituto Nacional de
FMVZ, à Agência FAPESP. trumento mais eficiente para o controle Pesquisas Espaciais (Inpe) e cujo lança-
Segundo ele, os municípios interes- da raiva humana. mento da versão 3.0 Plus foi noticiado
sados na aplicação do método podem pela Agência FAPESP
utilizar bases de dados censitárias do Serviço de qualidade Mais informações sobre o método:
Instituto Brasileiro de Geografia e O Centro de Controle de Zoonoses amaku@vps.fmvz.usp.br.

http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=8958

28 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Marcelo Monte Mór Rangel
Eletroquimioterapia: uma Físico e MV, mestrando - VPT/FMVZ/USP
marcelomontemor@usp.br

nova promessa para o Natália Coelho C. de A. Fernandes


tratamento de cânceres Graduanda - FMVZ/USP
nccafernandes@yahoo.com.br

em animais Márcia Kazumi Nagamine


MV, doutoranda - VPT/FMVZ/USP
markazbr@yahoo.com.br

Electrochemotherapy: a new alternative Heidge Fukumasu


for the treatment of cancer in animals Médico veterinário, dr.
fukumasu@usp.br

Krishna Duro de Oliveira


Electroquimioterapia: una nueva MV, doutoranda - VPT/FMVZ/USP
promesa para el tratamiento krishna.oliveira@uvv.br

Ron Lowe
del cáncer en los animales MV - Clinica Petcancetvet
ronlowe@petcancervet.co.uk
Resumo: A eletroquimioterapia é uma nova modalidade de terapia de controle local para neoplasias sólidas. A administração
do agente antineoplásico posteriormente à realização da eletroporação no tumor são os princípios da técnica. Suas principais
características são os poucos efeitos colaterais, não promover mutilações na maioria dos casos em que se aplica além de não Lluis Maria Mir
mostrar diminuição em sua eficiência frente a reaplicações em possíveis recidivas A terapia vem apresentando resultados bas- Institut de Cancérologie Gustave Roussy
tante satisfatórios tanto para carcinomas quanto para sarcomas na medicina humana e na medicina veterinária os estudos Universidade Paris-Sud
estão avançando, conferindo a esta uma grande expectativa de vir a ser outra opção de tratamento. No Brasil, o Laboratório luis.mir@igr.fr
de Oncologia Experimental da FMVZ/USP vem desenvolvendo pesquisas e obtendo resultados expressivos com a técnica e
espera em breve publicá-los, possibilitando a aplicação da técnica na rotina das clínicas.
Unitermos: eletroporação, quimioterapia, bleomicina, cisplatina Idércio Luiz sinhorini
MV, prof. tit. - VPT/FMVZ/USP
Abstract: Electrochemotherapy is a new type of antitumor therapy for solid neoplasms. This technique consists first in sidercio@usp.br
administering a chemotherapeutic drug followed by the application of a specific electric field, which promotes electroporation in
tumor cells. The main advantages are fewer toxic effects, a smaller amount of mutilations and the possibility to use the same
drug multiple times in case of recurrence. This therapy has demonstrated promising results in both epithelial and mesenchymal
Maria Lúcia Zaidan Dagli
tumors in humans. Studies in veterinary medicine are advancing, and this therapy might become a treatment option in the MV, profa. tit. - VPT/FMVZ/USP
clinic. In Brazil, the Laboratory of Experimental and Comparative Oncology from FMVZ-USP has obtained expressive results malu021@yahoo.com
with this technique, which will be published shortly.
Keywords: electroporation, chemotherapy, bleomycin, cisplatin
aumento da permeabilidade das vesícu-
Resumen: La electroquimioterapia es una nueva modalidad antitumoral para control local de neoplasias sólidas. La técnica las submetidas a pulsos elétricos. Em
consiste en administrar un quimioterápico posteriormente a la aplicación de electroporación en el tumor. Sus principales
características son: menor cantidad de efectos colaterales, menor grado de mutilaciones y mantenimiento de la eficiencia 1982 foi feita a transferência de genes
terapéutica frente a replicaciones en posibles recidivas. El uso de esta terapia en humanos ha presentado resultados utilizando pulsos elétricos, e final-
prometedores tanto para carcinomas como sarcomas. En medicina veterinaria los estudios están avanzando, con grandes
expectativas de que se convierta en otra alternativa terapéutica. En Brasil, el Laboratorio de Oncología Experimental de la mente, em 1988, foi observado o
FMVZ/USP viene desarrollando investigaciones y obteniendo resultados significativos con esta técnica y se espera publicar en aumento da citotoxicidade da bleomici-
breve, permitiendo la aplicación de la técnica en la rutina de las clinicas.
Palabras clave: electroporación, quimioterapia, bleomicina, cisplatina na in vitro e in vivo com o uso de pulsos
elétricos, o que viria a ser posterior-
Clínica Veterinária, n. 75, p. 30-36, 2008 mente denominado eletroquimioterapia 4.
A eletroporação, processo conhecido há
INTRODUÇÃO fármacos antineoplásicos apresenta prin- aproximadamente vinte anos, tem como
Os tratamentos de câncer atualmente cipalmente limitações de toxicidade, objetivo facilitar a entrada na célula, de
disponíveis podem ser divididos em di- relacionadas a sua inespecificidade por moléculas normalmente não permeáveis
ferentes categorias, de acordo com seus células tumorais e às altas doses re- à membrana 5. Atualmente esse processo
objetivos e modos de ação. Freqüente- queridas, o que tem incentivado o desen- tem sido amplamente utilizado em bio-
mente são utilizados como tratamento volvimento de novos mecanismos para logia molecular, biotecnologia e medici-
único ou combinados. As três principais facilitar a entrada do fármaco na célula 3. na para o transporte de genes e fármacos
categorias de tratamentos são a cirurgia, para dentro das células 6. Dentre as apli-
a radioterapia, que são tratamentos loca- ELETROPORAÇÃO cações mais promissoras da eletropo-
lizados, e a quimioterapia, uma modali- Embora pouco percebido na época, o ração destacam-se a transferência de
dade sistêmica 1. Dentre essas opções de fenômeno de “quebras elétricas” rever- DNA, pois o método é eficiente, seguro
tratamento, os efeitos colaterais tardios e síveis na membrana celular, mais tarde e não viral para a terapia gênica 4, e a
graduais, o potencial oncogênico e o definido como eletroporação ou eletro- eletroquimioterapia para o tratamento
custo alto são os principais inconve- permeabilização, foi relatado em 1958. do câncer 7. Recentemente, a eletropo-
nientes da radioterapia, e os necessários Quase uma década depois, foi realiza- ração foi associada com sucesso à tera-
procedimentos mutilantes e desfiguran- da a destruição não térmica de microor- pia fotodinâmica in vitro, com o objeti-
tes constituem-se nas principais limita- ganismos submetidos a altos pulsos vo de aumentar os níveis de fotosensibi-
ções da cirurgia 2. Já o tratamento com elétricos. Em 1972, constatou-se grande lizadores nas células tumorais 8.

30 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


FUNDAMENTOS DA determinados padrões de pulso elétrico pacientes imunocompetentes e imuno-
ELETROPORAÇÃO suportáveis pela membrana os poros se deficientes 1.
Quando uma célula é submetida a um tornam irreversíveis, desencadeando a
campo elétrico, uma diferença de poten- morte da célula 11. Os poros formados ELETROQUIMIOTERAPIA
cial transmembrana é induzida em sua pela eletroporação permitem que molé- À combinação de quimioterapia su-
membrana. Se essa voltagem transmem- culas de peso molecular com valores cedida de eletroporação denominou-se
brana induzida atingir determinados va- acima de 30.000 Da, normalmente não eletroquimioterapia, uma nova modali-
lores, começa-se a observar aumento de permeáveis, penetrem na célula 5. dade de terapia antineoplásica. O pro-
permeabilidade. Esse fenômeno é deno- Enquanto a formação dos poros se dá cesso consiste em potencializar a ação
minado eletroporação ou eletropermea- quase que imediatamente à aplicação do de um fármaco, antes com baixa ou ne-
bilização 9. Os poros são inicialmente campo elétrico, seu fechamento pode nhuma permeabilidade na membrana da
gerados onde o campo elétrico induzido demorar de alguns segundos a minutos 13. célula, através do fenômeno de eletro-
superar a diferença de potencial trans- A exposição de tecidos ao campo elétri- poração 15. A bleomicina, um fármaco de
membrana, descrita como sendo aproxi- co na eletroporação também promove alto poder citotóxico intrínseco porém
madamente 200mV para células euca- outros fenômenos, como uma transiente impermeável à membrana, teve, in vitro,
rióticas 10. A intensidade do campo indu- diminuição do fluxo sangüíneo, possibi- seu efeito aumentado cerca de 8.000
zido determinará a área de eletropora- litando um maior tempo para penetração vezes com a eletroporação 16. Esse fár-
ção, e o tempo de duração e o número de do fármaco pelos poros formados. Isso maco, sem eletroporação, é internaliza-
pulsos definirão o tamanho do poro 11. A proporciona maior concentração intra- da na célula por endocitose mediada por
eletroporação está fortemente relaciona- celular do fármaco circulante no tecido proteína carreadora. Dessa forma, seu
da com o padrão de amplitude, a duração, exposto 14. O efeito citotóxico da eletro- transporte para dentro da célula depende
a freqüência, o número e a forma do pul- quimioterapia também atinge o estroma da quantidade de exposição de tais pro-
so elétrico aplicado 12. Os poros forma- do tumor, causando um efeito de ruptura teínas na membrana celular, e da veloci-
dos pelo campo elétrico aplicado pode- vascular. Ainda, há promoção de um in- dade com que elas são endocitadas.
rão ser reversíveis, mantendo a viabilida- tenso derramamento de antígenos tumo- Outro fármaco também utilizado em
de da célula após a aplicação. Se os val- rais no organismo, o que faz com que a eletroquimioterapia é a cisplatina, que é
ores de amplitude e duração excederem resposta ao tratamento seja diferente em pouco permeável à membrana e, in vitro,

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 31


teve seu efeito potencializado cerca de concentração do fármaco na neoplasia

Marcelo Monte Mór Rangel


80 vezes com a eletroporação 17. A alcance seu valor máximo. Em animais
eletroquimioterapia é uma técnica de de laboratório esse intervalo varia de
tratamento localizado de diversos tipos poucos minutos para a via intravenosa a
de tumores sólidos, sejam eles cutâneos imediatamente para a via intratumoral 1.
ou subcutâneos 18. Pelas bases físico- Em humanos, o intervalo entre a admin-
químicas descritas anteriormente pode- istração do fármaco e a aplicação dos
se notar que, teoricamente, o tratamento pulsos elétricos não deve ultrapassar
é eficiente em todos os tumores em que dez minutos em caso de via intratu-
se consiga realizar o procedimento 19. moral; já pela via intravenosa, a apli-
cação dos pulsos pode iniciar oito min-
PROCEDIMENTO utos após a administração do fármaco,
ELETROQUIMIOTERÁPICO sem ultrapassar 28 minutos 19. As doses
O procedimento eletroquimioterápi- recomendadas de bleomicina intra-
co consiste basicamente na administra- venosa e intratumoral são, respectiva- Figura 1 - Eletrodo construído para os primeiros
ção do fármaco no indivíduo ou meio de mente, 15mg/m2 (0,5mg/kg) 17 e experimentos de eletroquimioterapia no Labo-
cultura para estudos in vitro, e posterior 1000UI/cm3 do volume de tumor e, para ratório de Oncologia Experimental da
exposição do tecido ou células aos pul- a cisplatina intratumoral, variam de 0,5 FMVZ/USP
sos elétricos por meio de eletrodos 19. Já a 2mg/cm3 do volume de tumor 3,19. As
foi descrita a realização de eletroqui- concentrações para a administração espinhal 28. Entre os diferentes eletrodos
mioterapia transoperatória ou pós-ope- intratumoral podem ser de 1000UI/mL 17 utilizados para a eletroquimioterapia,
ratória nas adjacências da margem ci- e 2mg/mL para a bleomicina e a cispla- podem ser citados tanto aqueles em
rúrgica da neoplasia, com resultados sa- tina, respectivamente 23. Com relação forma de placas (Figura 1) quanto aque-
tisfatórios. Nesses casos, foi administra- aos valores dos parâmetros dos pulsos les que têm agulhas eqüidistantes. Os
da juntamente a hialuronidase, na dose elétricos aplicados, o protocolo mais principais materiais utilizados para a
aproximada de 300 UI, para garantir utilizado e que tem se mostrado mais construção dos eletrodos são o alumínio
distribuição mais uniforme do agente eficiente adota 8 pulsos de 100µs de e o aço, que é mais utilizado por ser
antineoplásico 20. O procedimento já foi duração, 1300 Vcm-1 de amplitude, e mais acessível e manter mais estável a
realizado sem anestesia sendo bem su- frequência de 1 Hz 26 ou 5 kHz 25 . As tensão entre o tumor e o eletrodo 9.
portado por animais, tanto com adminis- principais diferenças entre as freqüên-
tração intratumoral quanto pela via in- cias de pulso utilizadas estão relaciona- EFEITOS COLATERAIS
travenosa do fármaco antineoplásico 7,21. das às contrações musculares desenca- Os efeitos colaterais mais comuns da
Alguns procedimentos já foram realiza- deadas pelos pulsos elétricos e ao tempo eletroquimioterapia são as contrações
dos em camundongos após a adminis- de tratamento. Com freqüências de 1Hz musculares involuntárias no local de
tração de pentobarbital na dose de os pacientes sentem oito contrações, aplicação dos pulsos elétricos, que ces-
45mg/kg 22, em gatos submetidos à que podem também ocasionar desloca- sam imediatamente ao final destes 5,23.
administração anterior de metomidina e mento dos eletrodos e falhas no proces- Em avaliação empreendida com 61
quetamina nas doses de 80µg/kg e so, e o tempo de aplicação dos pulsos pacientes humanos, utilizando escala de
5mg/kg, respectivamente, e em cães que dura aproximadamente 10 segundos. dor que variava de zero (ausência de
haviam recebido metomidina na dose de Quando se utilizam 5kHz, o processo de dor) a 100 (pior dor imaginável), a
100µg/kg 23. Em cavalos, o procedimen- aplicação dura aproximadamente 1,5 mi- média ficou em 35 imediatamente após
to foi implementado sob anestesia geral lisegundos e o paciente sente apenas o tratamento, e caiu para 20 dois dias
de curta duração 24. Em humanos deve- uma contração, diminuindo o descon- após o tratamento, naqueles que haviam
se considerar a realização de anestesia forto e outras possíveis falhas decorren- recebido anestesia local. Já nos pacien-
geral para tumores maiores ou dolori- tes do deslocamento dos eletrodos 27. tes tratados sob anestesia geral, que
dos, e também quando da existência de Para promover um bom contato entre os foram avaliados somente dois dias
grande número de tumores. Afora esses eletrodos e a pele, pode ser utilizado o depois da eletroquimioterapia, a média
casos, pode-se utilizar anestesia local 19. gel condutor empregado em exames de de dor foi 10. Outro resultado que indi-
Os fármacos utilizados são a bleomicina ultra-som 3. ca que a eletroquimioterapia não é um
ou a cisplatina, e as vias de administra- tratamento estressante ou doloroso é o
ção podem ser a intratumoral para am- ELETRODOS índice de aceitação de 93% dos pacien-
bas, ou a intravenosa para a bleomicina, A geometria dos eletrodos deve pro- tes para uma possível nova sessão 25. Em
com a mesma eficiência terapêutica porcionar a aplicação homogênea e cães e gatos, não foram observadas
para tumores de até 0,5cm 3. A via intra- constante dos pulsos elétricos no tecido queimaduras ou sangramentos no local
venosa tem se mostrado mais eficiente neoplásico. Uma limitação importante da inserção dos eletrodos com agulhas.
em tumores com volumes maiores 25. O do desenvolvimento em algumas neo- Mesmo depois de várias sessões, ne-
intervalo entre a administração do fár- plasias é justamente a inviabilidade de nhum sinal de comprometimento do es-
maco e a aplicação do campo elétrico aplicação dos pulsos em determinadas tado geral de saúde – decorrente da ele-
deve ser suficiente apenas para que a regiões, como a intracraniana e a medula troquimioterapia – costuma ser observado.

32 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Farmaco/via de administração Número de pacientes Número de nódulos Resposta (%)
PD ED RP RC RO
bleomicina i.v. 16 119 2 10 43 45 88
bleomicina i.t. 42 189 3 7 13 77 90
cisplatina i.v. 9 27 11 41 37 11 48
cisplatina i.t. 27 307 7 10 9 74 85
total 94 642 5 10 18 67 85
PD - progressão da doença; ED - estabilização da doença; RP - resposta parcial; RC - resposta completa; RO - resposta objetiva (RO = RP + RC)
Tabela modificada de GOTHELF, 2003.
Figura 2 - Resposta de melanomas à eletroquimioterapia em humanos 6

Fármaco/via de administração Classificação histológica N. pacientes N. nódulos Resposta (%)


PD ED RP RC RO
bleomicina i.v.
CCE em cabeça e pescoço 21 114 19 11 18 52 70
CCB 2 6 0 0 67 33 100
Adenocarcinoma mamário 2 9 77 0 0 23 23
Adenocarcinoma de glândula salivar 1 20 0 0 0 20 100
Subtotal 26 149 19 11 17 53 70
bleomicina i.t.
CCE em cabeça e pescoço 81 96 0 33 32 35 67
CCB 29 63 0 0 5 95 100
Sarcoma de Kaposi 1 4 0 0 0 100 100
CCT de bexiga 1 17 0 0 0 100 100
Adenocarcinoma em cabeça e pescoço 2 2 0 0 50 50 100
carcinoma mamário 2 14 0 0 43 57 100
condrosarcoma 1 1 0 0 100 0 100
Subtotal 117 197 0 16 21 63 84
cisplatina i.t.
CCE 1 2 0 0 0 100 100
CCB 1 4 0 0 0 100 100
carcinoma mamário 6 12 0 0 67 33 100
Subtotal 8 18 0 0 44 56 100
Total 151 364 8 13 21 58 79
CCE - Carcinoma de células escamosas; CCB Carcinoma de células basais; CCT - Carcinoma de células transicionais
Tabela modificada de GOTHELF, 2003.

Figura 3 - Resposta de diversos tumores à eletroquimioterapia em humanos 6

Após as sessões, a maioria dos animais da doença (ED) e progressão da doença eletroquimioterapia pode ser realizada
apresenta comportamento normal e (PD) foram divididos para melanomas e novamente, com a mesma eficiência,
ausência de sinais de dor 19. Reação não melanomas, e também em relação em intervalos de três a seis semanas.
inflamatória local – com discreto erite- ao uso da bleomicina ou da cisplatina, Tumores já tratados com cirurgia,
ma no tecido normal adjacente –, e for- como demonstram as figuras 2 e 3 6. Fo- quimioterapia ou radioterapia que apre-
mação de crosta superficial podem ser ram adotados os critérios da Organização sentarem comportamento refratário ou
observadas nos primeiros dias após a Mundial de Saúde (OMS) para avaliar recidiva também podem ser tratados
aplicação. Em tumores maiores, algu- os resultados de tratamentos de câncer, com eletroquimioterapia sem interfe-
mas vezes verificam-se ulcerações do segundo os quais RC indica que o tumor rência em sua eficiência 29. Alguns expe-
nódulo neoplásico. Ambas as lesões de- passa a não ser mais palpável, RP repre- rimentos têm demonstrado que a eletro-
saparecem em no máximo cinco sema- senta diminuição maior que 50% no quimioterapia pode se constituir em
nas após o tratamento 23. Alterações bio- volume do tumor, ED corresponde a di- uma opção de tratamento conservativo
químicas e hematológicas são raras em minuição menor que 50% e aumento de para sarcomas localizados nas extremi-
pacientes submetidos à eletroquimiote- até 25%, e PD significa aumentos supe- dades de membros 16. Em pesquisas rea-
rapia 5. riores a 25%. Um mínimo de quatro se- lizadas em animais, o índice de RO é de
manas foi necessário para qualificar as aproximadamente 80%, sendo em mui-
EFICIÊNCIA TERAPÊUTICA respostas ao tratamento. Os resultados tos casos observada, já após a primeira
Diversas triagens clínicas foram rea- foram bastante promissores, alcançando sessão, parcial ou completa remissão do
lizadas em humanos para avaliar a efi- índices de RO predominantemente tumor 20. As figuras 4, 5, 6 e 7 mostram
ciência terapêutica da eletroquimiotera- maiores que 80%, conforme mostrado a evolução de um carcinoma de células
pia. Os índices de resposta completa nas figuras 2 e 3. Em casos de recidiva escamosas em membro torácico de um
(RC), resposta parcial (RP), resposta ou de tumores maiores, para os quais mastiff Inglês tratado com eletroqui-
objetiva (RO = RC+RP), estabilização uma única sessão não seja suficiente, a mioterapia. As figuras 8, 9, 10, 11 e 12

34 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Ron Lowe

Ron Lowe

Ron Lowe
Figura 4 - Carcinoma de células escamosas em
mastiff antes do tratamento
Ron Lowe

Figura 8 - Sarcoma sinovial em cão - antes do


tratamento
Figura 12 - Sarcoma sinovial em cão cinco
Ron Lowe meses após o tratamento

Figura 5 - Carcinoma de células escamosas em

Ron Lowe
mastiff três semanas após o tratamento
Ron Lowe

Figura 9 - Sarcoma sinovial em


cão 10 dias após o tratamento
Ron Lowe

Figura 13 - Carcinoma de células escamosas


em plano nasal de gato

Figura 6 - Carcinoma de células escamosas em

Ron Lowe
mastiff quatro meses após o tratamento
Ron Lowe

Figura 10 - Sarcoma sinovial em cão 25 dias


após o tratamento
Figura 14 - Carcinoma de
células escamosas em plano
Ron Lowe

nasal de gato duas semanas


após o tratamento

Ron Lowe

Figura 7 - Carcinoma de células escamosas em


mastiff seis meses após o tratamento
Figura 11 - Sarcoma sinovial
em cão seis semanas após o
mostram a evolução de um caso de sar- tratamento
coma sinovial em membro torácico em
cão. As figuras 13, 14 e 15 mostram a com a cisplatina, deve-se utilizar a via
evolução de um carcinoma de células intratumoral. Figura 15 - Carcinoma de células escamosas
escamosas em plano nasal de gato trata- em plano nasal de gato sete meses após o
do com eletroquimioetrapia. Em todos CONSIDERAÇÕES FINAIS tratamento
esses casos, pôde-se observar total Atualmente, a medicina veterinária
remissão do tumor. no Brasil apresenta poucas opções Outras opções, como a criocirurgia e te-
Pode-se observar, na figura 2, que a viáveis para o tratamento de câncer rapia fotodinâmica também estão dis-
via de administração dos fármacos pode em animais. As terapias disponíveis poníveis, mas suas aplicações são restri-
ser tanto intratumoral quanto intra- restringem-se quase que exclusiva- tas a apenas alguns cânceres, ficando
venosa, porém, para maior eficiência mente à cirurgia e à quimioterapia. diversos casos sem opção de tratamento

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 35


que apresente resultados satisfatórios. R. ; HELLER, R. Enhanced effects of multiple GEERSTEN, P. F. ; RUDOLF, Z. ;
treatment Electrochemotherapy. Melanoma O´SULLIVAN G. C. ; MARTY, M. Standard
A radioterapia, que já é utilizada em Research, v. 6, p. 427-433, 1996. operating procedures of the electrochemotherapy:
outros países, tem alto custo de infra- 09-SATKAUSKAS, S. ; BATIUSKAITE, D. ; Instructions for the use of bleomycin or cisplatin
estrutura e manutenção, além de não SALOMSKAITE-DAVALGIENE, S. ; administered either systemically or locally and
estar regulamentada para aplicação em VENLAUSKAS, M. S. Effectiveness of tumor electric pulses delivered by the CliniporatorTM by
electrochemotherapy as a function of electric means of invasive or non-invasive electrodes.
medicina veterinária; assim, sua utiliza- pulse strength and duration. Bioelectrochemistry. European Journal of Cancer, Oxford, v. 4, n. 11,
ção está restrita a poucos centros de v. 65, n. 2, p. 105-111, 2005. p. 14-25, 2006.
pesquisa nacionais. A eletroquimiote- 09-MIKLAVCIC, D. ; KOTNIK, T. Electroporation 20-PEYCHEVA, E.; DASKALOV, I. ; TSONEVA,
rapia, como apresentado neste trabalho, for electrochemotherapy and gene therapy. I. Electrochemotherapy of Mycosis fungoides by
Bioelectromagnetic Medicine, New York, interferon-? Bioelectrochemistry, v. 70, n. 2,
pode vir a ser uma opção viável na me- p. 637-656, 2004. p. 283-286, 2006.
dicina veterinária do país. Os resultados 10-KANDURE, M. ; SENTJURE, M. ; MIKLAVCIC, 21-SERSA, G. ; CEMAZAR, M. ; RUDOLF, Z.
promissores alcançados na Europa, D. Cell membrane fluidity related to electroporation Electrochemotherapy: advantages and drawbacks
in treatment of cancer patients. Cancer
tanto na medicina humana quanto na and resealing. European Biophysics Journal.
Therapy, v. 1, p. 133-142, 2003.
Berlin, v. 35, n. 3, p. 196-204, 2006.
medicina veterinária, qualificam-na 22-SERSA, G. ; KRZIC, M. ; SENTJURE, M. ;
11-LABANAUSKIENE, J. ; GEHL, J. ;
como uma nova modalidade a ser DIDZIAPETRIENE, J. Evaluation of cytotoxic IVANUSA, T. ; BERAVS, K. ; KOTNIK, V. ;
implantada nos próximos anos. effect of photodynamic therapy in combination COER, A. ; SWARTZ, H. M. ; CEMAZAR, M.
with electroporation in vitro. Bioelectrochemistry, Reduced blood flow and oxygenation in SA-1
v. 70, n. 1, p. 78-82, 2007. tumors after electrochemotherapy with cisplatin.
AGRADECIMENTOS British Journal of Cancer, London, v. 87,
12-LEBAR, A.M. ; SERSA, G. ; KRANJC, S. ;
Marcelo Monte Mor Rangel é bolsis- GROSELJ, A. ; MIKLAVCIC, M. Optimisation
p. 1047-1054, 2002.
ta da FAPESP em nível de mestrado of pulse parameters in vitro for in vivo 23-ROLS, M.P.; TAMZALI, Y.; TEISSIÉ, J.
Electrochemotherapy of horses: A preliminar
(processo n. 07-51972-1). O projeto, electrochemotherapy. Anticancer Research,
clinical report. Bioelectrochemistry, v. 55,
v. 22, n. 3, p. 1731-1736, 2002.
ainda em nível experimental, foi con- p. 101-105, 2002.
13-PUC, M. ; COROVIÉ, S. ; FLISAR, K. ;
templado com auxílio à pesquisa da PETKOVSEK, M. ; NASTRAN, J. ; MIKLAVCIC,
24-SPUGNINI, E. ; BALDO, A. ; VICENZI, B. ;
FAPESP (processo n. 07-59391-8). BONGIORNI, F. ; BELLELLI, C. ; CITRO, G. ;
D. Techniques of signal generation required for
PORRELLO, A. Intraoperative versus postoperative
electropermeabilization. Survey of electroperme-
Electrochemotherapy in high grade soft tissue
REFERÊNCIAS abilization devices. Bioelectrochemistry. v. 64,
sarcomas: a preliminary study in a spontaneous
01-SERSA, G. ; CEMAZAR, M. ; MIKLAVCIC, D. ; p. 113-124, 2004.
feline model. Cancer Chemotherapy and
RUDOLF, Z. Electrochemotherapy of tumors. 14-SERSA, G. ; JARM, T. ; KOTNIK, T. ; COER, A. ; Pharmacology, v. 59, n. 3, p. 375-381, 2006.
Radiology and Oncology, v. 40, n. 3, p. 163- PODKRAJSEK, M. ; SENTJURK, M. ;
25-TOZON, N.; SERSA, G.; CEMAZAR, M.
174, 2006. MIKLAVCIC, D. ; KADIVEC, M. ; KRANJC,
Electrochemotherapy: potentiation of local
02-SERSA, G. ; STABUC, B. ; CEMAZAR, M. ; S. ; SECEROV, A. ; CEMAZAR, M. Vascular
antitumor effectiveness of cisplatin in dogs and
MIKLAVCIC, D. ; RUDOLF, Z. disrupting action of electroporation and
cats. Anticancer Research, v. 21, p. 2483-2488,
Electrochemotherapy with cisplatin: clinical electrochemotherapy with bleomycin in murine
2001.
experience in malignant melanoma patients. sarcoma. British Journal of Cancer, v. 98,
p. 388-398, 2008. 26-MIKLAVCIC, D, ; PUCIHAR, G.; PAVLOVEC,
Clinical Cancer Research, Philadelphia, v. 6, M. ; RIBARIC, S. ; MALI, M. ; MACEK-
p. 863-867, 2000. 15-PLIQUETT, U. ; JOSHI, R. P. ; SHIDHARA, V. ; LEBAR, A .; PETKOVSEK, M. ; NASTRAN, J. ;
03-GEHL, J. Electroporation: theory and methods, SCHOENBACH, K. H. High electrical field KRANJC, S. ; CEMAZAR, M. ; SERSA, G. The
perspectives for drug delivery, gene therapy and effects on cell membranes. Bioelectrochemistry, effect of high frequency electric pulses on muscle
research. Acta Phisiologica Scandinavica, v. v. 70, n. 2, p. 275-282, 2006. contractions and antitumor efficiency in vivo for
177, n. 4, p. 437-447, 2003. 16-MIR, L. M. Therapeutic perspectives of in vivo a potential use in clinical electrochemotherapy.
04-MIKLAVCIC, D. ; PUC, M. Electroporation. cell electropermeabilization. Bioelectrochemistry, Bioelectrochemistry, v. 65, n. 2, p. 121-128, 2005.
Wiley Encyclopedia of Biomedical Engineerig, v. 53, n. 1, p. 1-10, 2000. 27-MIKLAVCIC, D.; COROVIC, S.; PUCIHAR,
John Wiley & Sons, p. 1-11, 2006. 17-MIR, L.M.; Bases and rationale of the G.; PAVSELJ, N. Importance of tumour coverage
05-SPUGNINI, F. P. ; PORRELLO, A. Potentiation Electrochemotherapy. European Journal of by sufficiently high local electric field for
of chemotherapy in companion animals with Cancer Supplements, Oxford, v. 4, n. 1, p. 38-44, effective Electrochemotherapy. European Journal
spontaneous large neoplasms by application of 2006. of Cancer, Oxford, v. 4, n. 11, p. 45-51, 2006.
biphasic electric pulses. Journal of Experimental 18-MIR, L. M. ; DEVAUCHELLE, P. ; QUINTIN- 28-SPUGNINI, F. P.; CITRO, G.; PORRELLO, A.
& Clinical Cancer Research, Rome, v. 22, n. 4, COLONA, F. ; DELISIE, F. ; DOLIGER, S. ; Rational design of new electrodes for
p. 571-580, 2003. FRADELIZI, D. ; BELEHRADEK Jr, J. ; electrochemotherapy. Journal of Experimental
06-GOTHELF, A. ; MIR, M. L. ; GEHL, J. ORLOWSKI, S. First clinical trial of cat soft-tissue & Clinical Cancer Research, v. 24, n. 2, p. 245-
Electrochemotherapy: results of cancer treatment sarcomas treatment by electrochemotherapy. 254, 2005.
using enhanced delivery of bleomycin by British Journal of Cancer, v. 76, n. 12, p. 1617- 29-SERSA, G. The state-of-the-art of
electroporation. Cancer Treatment Reviews, 1622, 1997. electrochemotherapy before the ESOPE study;
v. 29, n. 5, p. 371-387, 2003. 19-MIR, L. M. ; GEHL, J. ; SERSA, G. ; COLLINS, advantages and clinical uses. European Journal
07-JAROSZESKI, M. J.; GILBERT, R. ; PERROT, C. G. ; GARBAY, J-R. ; BILLARD, V. ; of Cancer, Oxford, v. 4, n. 11, p. 52-59, 2006.

36 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Sofia Borin
Desmistificando MV, residente
FCAP/UNESP-Jaboticabal
a via intra-óssea sofiaborin_vet@yahoo.com.br

Leandro Zuccolotto Crivelenti


MV, residente
Demystifying the intraosseous route UNIFRAN
crivelenti_lz@hotmail.com

Daniel Peixoto Pereira


Desmistificando la vía intraósea Médico veterinário autônomo
Pronto Socorro Veterinário
daniel_vetbr@yahoo.com.br

Resumo: Importante acesso na terapia intensiva, a via intra-óssea (IO) pode ser utilizada em situações nas quais o acesso
intravascular não é possível, especialmente em pacientes pediátricos e de pequeno porte. É indicada no colapso vascular
Silvia Molnar Leite Fernandes
associado ao choque, em distúrbios de coagulação, queimaduras, edemas, flebites, variações anatômicas e para a adminis- Médica veterinária autônoma
tração de fluidos após longos períodos de hospitalização. Infelizmente, a via IO ainda encontra no Brasil relativa resistência Pronto Socorro Veterinário
por parte dos clínicos de pequenos animais, em função do desconhecimento de sua praticidade e eficiência e por ser erronea- silviamolnar@yahoo.com.br
mente considerada perigosa e complicada. Espera-se, com este artigo, desmistificar o uso dessa via e esclarecer as principais
dúvidas em relação às suas indicações e contra-indicações, descrevendo o procedimento e evidenciando as suas vantagens
na clínica de pequenos animais, animais selvagens e exóticos.
Unitermos: emergência, intramedular, infusão

Abstract: The intraosseous route (IO) offers an important means of access in intensive care and can be used in several
situations in which intravascular access is not possible, especially in pediatric and small-size patients. It is indicated in the
vascular collapse related to shock, coagulation disorders, burnings, swelling, phlebitis, when there are anatomical variations
and for fluid administration after long periods of hospitalization. Unfortunately, the IO route still faces a certain resistance by
small animal clinicians in Brazil, mainly due to unawareness of its convenience and efficiency, and because it is mistakenly
considered dangerous and complicated. This article intends to demystify the usage of this route, addressing the main questions
as regards the indications and contraindications, as well as describing the usage and stressing its advantages in the clinics of
small, wild and exotic animals..
Keywords: emergency, intramedullary, infusion

Resumen: Un importante acceso en la terapia intensiva, la vía intraósea, se convierte en una alternativa que puede ser
utilizada en diversas situaciones en las que no es posible el acceso intravascular, especialmente en pacientes pediátricos o de
pequeño tamaño. Es indicada en el colapso vascular asociado al choque, en alteraciones de la coagulación, quemaduras,
edemas, flebitis, cuando las características anatómicas impiden el acceso a las venas o cuando se requiere administrar fluidos
por largos periodos. Infelizmente, la via intraósea todavía encuentra en Brasil una relativa resistencia a su uso por parte de los
clínicos de pequeños animales, debido muy posiblemente al desconocimiento de su practicidad y eficiencia, y por ser
erróneamente considerada peligrosa y complicada. Se espera con este articulo desmistificar el uso de esta vía, aclarando las
principales dudas en relación a sus indicaciones y contraindicaciones, describiendo el procedimiento y mostrando sus
ventajas en la clínica de pequeños animales, animales salvajes y exóticos. trocantérica ou no platô tibial respecti-
Palabras clave: emergencia, intramedular, infusión vamente 7, na dosagem rotineiramente
utilizada na via intravenosa (IV) 2,8.
Clínica Veterinária, n. 75, p. 38-40, 2008 Essa via, descrita com sucesso em
pequenos mamíferos exóticos 9,10, coe-
lhos 4, aves 11, répteis 12 e humanos 13,
Introdução de soluções cristalóides, sangue e he- ainda é pouco utilizada no Brasil devido
A infusão intra-óssea (IO) é uma via moderivados, assim como a administra- à resistência de alguns clínicos de peque-
alternativa quando se exige acesso rápi- ção de nutrientes 6 e medicamentos, nos animais, que a consideram perigosa
do e direto ao sistema circulatório 1, e podem ser realizadas no canal medular e complicada 5 por desconhecerem sua
consiste na administração de soluções do úmero (Figura 1), do fêmur (Figura 2) praticidade e eficiência 2.
diretamente na cavidade medular de de- ou da tíbia (Figura 3), com inserções Porém, assim como as demais vias, a
terminados ossos longos 2. do cateter no tubérculo maior, na fossa IO também apresenta complicações e
Especialmente importante em pa-
cientes pediátricos, cuja vasculatura é
Sofia Borin

Daniel Pereira Peixoto

delicada 3, indica-se o uso da via IO tam-


bém em casos de traumas cutâneos,
queimaduras, edema, trombose vascu-
lar, variações anatômicas 4, flebite, dis-
túrbios da coagulação, administração de
fluidos após longos períodos de hospi-
talização e em situações de colapso vas-
cular associado ao choque, pois, em vir-
tude da rigidez da parede óssea, os
vasos intramedulares não entram em
colapso 5. Figura 1 - Felino com cateter intra-ósseo inseri- Figura 2 - Canino com cateter intra-ósseo
A reposição do volume intravascular do no tubérculo maior do osso úmero inserido na fossa trocantérica do osso fêmur

38 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Leandro Zuccolotto Crivelenti
Sofia Borin
Sofia Borin

Figura 3 - Posicionamento da agulha hipodér- Figura 6 - Cateter intra-ósseo femoral devida-


mica para inserção intra-óssea na crista tibial mente fixado em membro pélvico direito de um
sagüi do tufo-preto (Callithrix penicillata)

limitações. Seu uso é contra-indicado


nos casos de osteogênese imperfeita, da introdução. Caso isso ocorra, deve-se
osteoporose, osteomielite, fratura em substituir a agulha por outra, utilizando
Figura 4 - Esquema da inserção do cateter
extremidades ósseas, infecção na pele intra-ósseo na crista tibial
o mesmo orifício ósseo, ou ainda deslo-
no local de inserção do cateter 4, bem car o fragmento ósseo para o interior da
como quando da administração de dro- cavidade medular com o auxilio de
gas mielo-supressoras 2 como vincristi- adjacente à inserção (Figura 6). outra agulha hipodérmica, mais longa e
na, vimblastina, ciclofosfamida e do- Quanto aos equipamentos necessários, fina 15.
xorrubicina 14. devem ser empregadas agulhas tipo tro- A prévia administração, vagarosa-
O presente artigo tem como finali- cater, providas de mandril interno remo- mente e em pequena quantidade, de li-
dade desmistificar o emprego da via IO, vível. Sua dimensão deve estar entre 33 docaína a 0,2% sem vasoconstritor no
ressaltar detalhes técnicos indispen- e 67% do diâmetro da cavidade medu- canal medular, é citada como opção
sáveis para o êxito do procedimento, e lar, assim como em relação ao compri- para minimizar a efêmera dor gerada
relatar casos em que tal via foi empre- mento do osso. Pode-se também empre- pela infusão de alguns medicamentos 4.
gada com sucesso na clínica de peque- gar agulhas hipodérmicas (Figura 7) 6, Tanto a via IV quando a via IO estão
nos animais, animais selvagens e exóti- lembrando que estas podem ser obstruí- sujeitas ao extravasamento de fluidos e
cos por estes autores. das por fragmentos ósseos no momento drogas, que pode promover necrose
secundária à síndrome de compartimen-
Discussão talização ou à causticidade de certos
O procedimento inicia-se com a tri- medicamentos. Dessa forma, sugere-se
Leandro Zuccolotto Crivelenti

cotomia e a anti-sepsia locais, preparan- inspeção constante do membro cateteri-


do-se a região da forma utilizada para zado 15.
procedimentos cirúrgicos. Lidocaína a Apesar do baixo índice de osteomie-
0,2% (lidocaína 1% diluída a 1:10) deve lite decorrente de infusão intra-óssea
ser infiltrada no subcutâneo e próxima (aproximadamente 0,6%) 15, o local de
ao periósteo, para reduzir a sensibili- cateterismo deve ser alterado a cada 72
dade dolorosa local 4,15. O cateter deve horas, removendo-se o cateter por tra-
permanecer firmemente reto e, enquan- ção simples e mantendo-se assepsia
to se perfura o córtex ósseo, os giros local por 48 horas 15. Em revisão de
devem ser realizados em um só sentido
para evitar que o diâmetro do orifício
Leandro Zuccolotto Crivelenti

aumente e propicie extravasamentos 15.


O operador sentirá uma súbita falta
de resistência no momento em que a
agulha adentrar o canal medular. A
confirmação do correto acesso pode ser
realizada pela aspiração de medula
óssea e pela infusão sem resistência
de fluido no espaço medular (Figuras 3
e 4) 4,6,15. No caso de não se aspirar nen-
hum material ou se verificar sangue,
sugere-se que o membro seja radiografa- Figura 5 - Radiografia de membro pélvico Figura 7 - Agulha hipodérmica sendo medida
do para confirmar a localização do esquerdo de macaco bugio (Alouatta senicu- para posterior utilização na cateterização intra-
cateter (Figura 5) 15, e posteriormen- lus), demonstrando posicionamento correto do óssea femoral em um sagüi do tufo-preto
cateter intra-ósseo femoral (Callithrix penicillata)
te proceder à bandagem da região

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 39


4.270 casos humanos, a osteomielite 03-MACINTIRE, D. K. ; FRÓES, M. Emergências

Leandro Zuccolotto Crivelenti


pediátricas. In: Terapia intensiva veterinária
ocorreu após uso da via por períodos em pequenos animais: condutas no paciente
prolongados, situações de bacteremia e crítico. RABELO, R. C. ; CROWE JR. , D. T. 1.
utilização de solução hipertônica 16. ed. Rio de Janeiro: Editora L. F. Livros de vete-
A desvantagem mais significativa do rinária Ltda, p. 560-568, 2005.
emprego da via IO é a velocidade de 04-SA_LAM, M. ; U_UREL, S. ; K_LC_LER, M. ;
DAKAK, M. ; BUM_N, A. ; SOMUNCU, I.
infusão em pacientes críticos, que re- Intraosseous urography compared with
querem alta velocidade e grande volume intravenous urography: an experimental study in
de fluido. Sugere-se que esse problema the rabbit model. Turkish Journal of
Veterinary and Animal Science. n. 28, p. 933-
seja compensado pelo emprego de uma 942, 2004.
agulha mais calibrosa ou de mais de um 05-KLAMARIAS, L. The intraosseus infusion.
sítio de cateterismo 15. Anais... 29th WORLD SMALL ANIMAL
O acesso IO é muito utilizado na roti- VETERINARY ASSOCIATION - WSAVA,
Athenas - Greece, 2004.
na médica de pequenos mamíferos
06-BISTNER, S. I. ; FORD, R. B. ; RAFFE, M. R.
como mustelídeos, roedores (Figura 8), Manual de procedimentos veterinários &
primatas (Figura 9) e lagomorfos, e al- tratamento emergencial. 7. ed. São Paulo: Roca
gumas vezes requer sedação devido aos ltda, 2002, p. 531-532.
problemas ocasionados pela contenção 07-RABELO, R. C. ; CROWE JR., D. T. Técnicas de
acesso vascular. In: __ Fundamentos de
física. O cateter deve ser, preferencial- Terapia intensiva veterinária em pequenos
mente, inserido no fêmur nos ferrets, e animais: condutas no paciente crítico. 1. ed.
na tíbia ou úmero nos demais animais 9. Rio de Janeiro: Editora L. F. Livros de veteriná-
As aves têm alguns ossos pneumáti- ria Ltda, p. 719-730, 2005.
cos indisponíveis para a utilização da 08-HUGHES, D. ; BEAL, M. W. Emergency
Figura 10 - Tucano-toco (Ramphastos toco) re- vascular access. Veterinary Clinics of North
via IO, dentre eles o fêmur e o úmero 6. cebendo fuidoterapia pela via intra-óssea na tíbia American Small Animals Practice, Orlando,
Assim, a ulna e a tíbia são os sítios de n. 30, v. 3, p. 491-507, 2000.
eleição para a cateterização – realizada porção proximal da tíbia, mas nos 09-QUESENBERRY, K. ; CARPENTER, J. M.
da mesma maneira que a descrita em grandes quelônios terrestres talvez seja Ferrets, rabbits, and rodents clinical medicine
necessário cateterizar a cavidade me- and surgery. 2. ed. Philadelphia: WB Saunders,
mamíferos (Figura 10) – nesta espécie 11. 2004. 496 p.
Dentre os répteis criados em cativei- dular do espaço plastrocarapacial 12.
10-BORIN, S. ; CRIVELENTI, L. Z. ; TSURUTA,
ro, relata-se a via IO em lagartos, pe- As mesmas complicações referidas S. A. ; FARIA L. A. Procedimentos emergenciais
quenos crocodilianos e quelônios. Pode- em pequenos animais podem ocorrer e terapia clínica em choque neurogênico em
nos animais selvagens e exóticos e, para ferret (Mustela putorius furo). Anais... XXXVI
se optar pela inserção da agulha na CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA
minimizá-las, faz-se necessário adotar VETERINÁRIA - CONBRAVET, Uberlândia,
todos os cuidados anteriormente descri- MG. 2005.
Sofia Borin

tos 2,11,12. 11-HERNANDEZ-DIVERS, S. J. Therapeutic


techniques of birds. Anais… Scientific
presentations of the 27th WORLD SMALL
Considerações finais ANIMAL VETERINARY ASSOCIATION
Na rotina médico veterinária, muitos CONGRESS (WSAVA), Granada, Espanha,
pacientes podem requerer o acesso IO, 2002a. Disponível em: http://www.wsava.org/
Acessado em 04 de outubro de 2007.
razão pela qual o médico veterinário
12-HERNANDEZ-DIVERS, S. J. Therapeutic
deve estar apto a proceder à sua realiza- techniques of reptiles. Anais… Scientific
ção de forma correta e segura, o que presentations of the 27th WORLD SMALL
implica capacitação para reconhecer a ANIMAL VETERINARY ASSOCIATION
Figura 8 - Ouriço-caixeiro (Coendou prehen- CONGRESS (WSAVA), Granada, Espanha,
silis) com cateter intra-ósseo femoral emergência e domínio da técnica. Espe- 2002b. Disponível em: http://www.wsava.org/
ra-se, portanto, que com esta revisão a Acessado em 04 de outubro de 2007.
via IO deixe de ser a última opção, pas- 13-ARAÚJO, S. ; ARAÚJO, I. E. M. Ressuscitação
Silvia Molnar Leite Fernandes

sando a ser empregada, sempre que cardiorrespiratória. Medicina, Ribeirão Preto,


necessário, com a rapidez que os pro- n. 34, p. 36-63, 2001.
cedimentos emergenciais exigem. 14-RODASKI, S. ; DE NARDE, A. B.
Quimioterapia antineoplásica em cães e gatos.
3. ed. São Paulo: MedVet, 2008. 320p.
Referências 15-ANDERSON, N. L. Intraosseous fluid therapy in
01-SILVERSTEIN, D. Shock fluid therapy: small exotic animals. In: BONAGURA, J. D.
restoring an effective circulating volume. Kirk's Current Veterinary Therapy - small
Anais… 56th International Congress (SCIVAC), animal practice. 12. ed. Philadelphia: W.B
Rimini, 2007. p. 109-110. Disponível em: Saunders Company, 1995. p. 1331-1335.
www.ivis.org/proceedings/scivac/2006/silver- 16-ROSETTI, V. A. ; THOMPSON, B. M. ;
stein3_en.pdf?LA=1. Acessado em 04 de ou- MILLER, J. ; MATEER, J. R. ; APRAHAMIAN,
tubro de 2007. C. ; WISCONSIN, M. Intraosseus infusion: an
Figura 9 - Sagüi do tufo-preto (Callithrix peni- 02-MONTIANI-FERREIRA, F. ; PACHALY, J. R. alternative route of pediatric intravascular
cillata) recebendo fluidoterapia intra-óssea Manual de fluidoterapia em pequenos animais. access. Annals of Medicine Emergency, Nova
femoral 1. ed. São Paulo: Editora Guará, 2000. p. 50-55. York, n. 14, v. 9, p. 885-888, 1985.

40 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Adelina Helena Tortora
Imunodeficiência viral felina Médica veterinária autônoma
Ahtortora@yahoo.com.br
associada à alta infecção por Sílvio Luis Pereira de Souza
Toxocara cati: relato de caso MV, MSc, prof. dr.
Universidade Anhembi Morumbi
slpsouza@anhembi.br

Feline immunodeficiency virus (FIV) César Augusto Dinóla Pereira


MV, prof. dr.
related to a high infection Universidade Anhembi Morumbi
dinolaca@anhembi.br
of Toxocara cati: case report
Inmunodeficiencia viral felina
asociada a alta infección por
Toxocara cati: relato de caso
Resumo: A imunossupressão está associada à incapacidade do organismo de reconhecer algo como estranho e, conse- em Formosa; o sorotipo D foi identifi-
qüentemente, neutralizá-lo ou eliminá-lo. O presente trabalho visou estabelecer a associação entre a alta infecção por cado no Japão e, por fim, o sorotipo E
Toxocara cati e o vírus da imunodeficiência felina (FIV) por meio do relato de caso clínico de um gato doméstico. Nesta
abordagem, dados do histórico, anamnese, exame clínico e diagnóstico laboratorial e terapêutico foram confrontados com foi caracterizado na Argentina e no
informações existentes na literatura especializada. Considerando que o FIV induz imunossupressão, que o animal era Japão 1,11,12. No Brasil, análises antigêni-
domiciliado e, ainda, que o manejo sanitário do ambiente era desfavorável ao desenvolvimento do estádio infectante, sugere-se
que o felino em questão desenvolveu uma reativação da infecção por T. cati associada à imunossupressão. cas e moleculares realizadas nos Esta-
Unitermos: gato, FIV, imunossupressão, retroviroses, parasita dos de Minas Gerais e São Paulo revela-
ram a presença apenas do sorotipo B 13.
Abstract: Immunosuppression is associated to the inability of the organism to recognize non-self materials, and to O vírus está presente na saliva, no
subsequently neutralize or abolish these. This article aims to establish the correlation between FIV and high Toxocara cati sangue, no soro, no plasma e no líquido
infection by reporting the clinical case of a cat. Anamnesis and data obtained during clinical examination, as well as
laboratorial and therapeutical results are confronted with literature reports. Since this was not a stray animal and the cérebro-espinhal, sendo encontrado em
environmental sanitary management was unfavorable to the development of the infecting Toxocara stage, we suggest that this quantidades menores no sêmen e no
cat developed a reactivation of the Toxocara cati infection due to the immunosuppression caused by FIV.
Keywords: cat, FIV, immunosuppression, retroviruses, parasite leite, o que sugere diferentes formas de
transmissão 5,14. Contudo, a saliva é a
Resumen: La inmunosupresión está asociada a la incapacidad del organismo en reconocer algo extraño y consecuentemente forma predominante de transmissão do
neutralizarlo o eliminarlo. El presente trabajo tuvo como objetivo establecer la asociación entre la alta infección por Toxocara vírus. A transmissão transplacentária e
cati y la inmunodeficiencia viral felina (FIV) a través del relato del caso clínico de un felino domesticado. Fueron considerados
en este abordaje datos históricos, anamnesis, examen clínico, diagnóstico laboratorial y terapéutico, confrontados con una transmamária não é comum e provavel-
revisión bibliográfica. Considerando que el FIV lleva a la inmunosupresión, que el animal era domiciliado y aún que el manejo mente ocorre durante a fase aguda, em
sanitario del ambiente se presentó desfavorable al desarrollo de la etapa infecciosa, sugerimos que el animal en cuestión
desarrolló una reactivación de la infección por T. cati asociada a la inmunosupresión. virtude da alta viremia existente logo
Palabras clave: gato, FIV, inmunosupresión, retrovirosis, parasita após a infecção 14,15.
De maneira semelhante ao HIV, a in-
Clínica Veterinária, n. 75, p. 42-50, 2008 fecção pelo FIV compromete o sistema
imune do hospedeiro. As principais célu-
VÍRUS DA IMUNODEFICIÊNCIA comportamentais 3. Uma vez infectados, las-alvo para a replicação viral são os
FELINA: ASPECTOS GERAIS os animais permanecem nessa condição linfócitos T CD4+ (linfócitos T helper,
O vírus da imunodeficiência felina por toda vida 4,5. ou auxiliadores), mas também os linfóc-
(FIV) é um Lentivirus e pertence à famí- O FIV é endêmico por todo o mundo, itos T CD8+ (linfócitos T citotóxicos),
lia Retroviridae, da qual também fazem com estimativas de soroprevalência va- os linfócitos B e os macrófagos – que
parte os vírus da imunodeficiência riando de 1% a 52% 6,7,8,9,10. Semelhante- atuam como reservatórios do vírus –
humana (HIV) e dos símios (SIV) 1. mente a outros retrovírus, o FIV apre- propiciam essa ação 13,16,17. No cérebro,
Suas características morfológicas e ge- senta grande variabilidade antigênica verifica-se a infecção de astrócitos,
néticas são semelhantes às do HIV, con- caracterizada pela presença de cinco so- micróglias e oligodendrócitos. As célu-
tudo diferem nas propriedades antigêni- rotipos, denominados A, B, C, D e E, las precursoras do tecido hematopoiéti-
cas e na especificidade por hospedeiro, cuja freqüência varia geograficamente. co, bem como as células foliculares, as
replicando-se exclusivamente em célu- O sorotipo A é freqüentemente detecta- células dendríticas e os monócitos são
las felinas 2. As espécies susceptíveis do na costa oeste dos Estados Unidos infectados na via linfática. No sistema
incluem o gato doméstico (Felis catus) e (Califórnia), na Austrália e em países da gastrintestinal, as células da mucosa e do
os felídeos silvestres, não existindo predi- Europa; por sua vez, o sorotipo B foi tecido linfóide digestivo são susceptí-
leção por raça, embora animais do sexo isolado no Japão e nas regiões central e veis ao vírus e por fim, na pele, a maior
masculino e errantes sejam mais acome- leste dos Estados Unidos; já o sorotipo susceptibilidade é verificada nas células
tidos em função de suas características C foi detectado no Canadá, na Europa e de Langerhans e nos fibroblastos 5,18.

42 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Há ainda uma incidência, maior que a - Persistente linfoadenopatia generali- do enfraquecimento progressivo etc. 24
esperada, de linfomas do tipo linfócitos zada (fase 3): observam-se sinais de Ao longo das diferentes fases clínicas
B e de distúrbios mieloproliferativos perda de peso progressiva, infecções observa-se que, em decorrência da imu-
(neoplasia e displasias) 5,19. Há relatos de secundárias, febres recorrentes, anemia nossupressão, os gatos desenvolvem in-
sinais neurológicos caracterizados por ou leucopenia, anorexia e estomatite fecções secundárias principalmente nos
alteração dos padrões normais de sono e crônica 14,24 A mortalidade também é tratos respiratório, gastrintestinal e uri-
de comportamento, entre estes a marca- baixa, e a duração pode ser de seis nário, na cavidade oral e na pele 24,25,26.
ção territorial, a agressão, além de con- meses a vários anos 14. Existem muitos microrganismos
vulsão, demência e distúrbios psicomo- - Complexo relacionado à síndrome da oportunistas que aproveitam a queda de
tores 17,20. Oftalmopatias como uveíte an- imunodeficiência adquirida (fase 4): resistência imunológica do hospedeiro
terior, glaucoma e conjuntivite também ainda apresenta sinais clínicos de perda ocasionada pelo FIV para se desenvol-
são relatadas 21,22. de peso, infecção respiratória, diarréia ver, como é o caso de calicivírus, her-
O desenvolvimento da infecção é crônica, neoplasias e alterações de com- pesvírus felino, Microsporum canis,
marcado por cinco fases clínicas: portamento 14,24. A duração é em média Mycoplasma, Yersinia, Mycoplasma
- Aguda (fase 1): inicia-se de quatro a de seis meses a dois anos, e a mortali- haemofelis (Haemobartonella felis),
seis semanas após a infecção. É caracte- dade é alta 5,14. Staphylococcus, Salmonella spp. e
rizada por neutropenia, linfoadenopatia, - Síndrome da imunodeficiência adqui- Pseudomonas, entre outros. Também
anemia, febre, doenças respiratórias, rida (fase 5): é caracterizada pela evolu- devem ser mencionados os ecto e endo-
conjuntivite, estomatite, doenças mielo- ção da doença de forma progressiva e parasitos, como Demodex cati, Notoedres
proliferativas e diarréia 14. A duração é fatal. Aproximadamente 10% dos ani- cati, Giardia duodenalis, Toxoplasma
de semanas a meses, a mortalidade é mais infectados atingem esse estado e gondii, Cystoisospora felis e C. rivolta,
baixa e muitos gatos passam por essa raramente sobrevivem mais do que pou- embora não haja, na literatura, relatos
fase sem sinais clínicos ou com sinais cas semanas a meses 14,18. Os sinais clíni- de reativação da infecção causada por
brandos da doença 14,23. cos são reflexo de infecções oportunis- nematóides 27,28,29.
- Portador assintomático (fase 2): é a fase tas, neoplasias, doenças neurológicas,
latente e assintomática, que pode perdu- alterações hematológicas, azotemia Diagnóstico
rar por anos. A mortalidade é baixa 14. irresponsiva aos tratamentos, síndrome O diagnóstico pode ser realizado pela
detecção de anticorpos circulantes utili- adultos no intestino delgado, as larvas desinfetados, com remoção mecânica
zando as técnicas de imunofluorescên- do T. cati realizam outra rota migratória das fezes. Tal procedimento visa
cia indireta, “western blotting” e, mais no organismo do hospedeiro. Nesse impedir que ocorra tempo hábil para o
freqüentemente, ensaio imunoenzimáti- processo, denominado migração somá- desenvolvimento das larvas infectantes
co (ELISA) Alternativamente, testes tica, as larvas permanecem na circula- no interior dos ovos. A presença de
moleculares, como a reação em cadeia ção sangüínea e atingem os mais varia- pisos lisos facilita a limpeza e a desin-
da polimerase (PCR), são utilizados dos tecidos, como fígado, rins, muscula- fecção, sendo que os ovos são sensíveis
para a detecção do DNA proviral 13,14,18. tura e glândula mamária 32. Essas larvas, à ação do formol, da água fervente e do
que não se desenvolvem, permanecem vapor 32.
Profilaxia encistadas e latentes por toda a vida do
No ano de 2002, a vacina Fel-O-Vax animal. Fatores hormonais relacionados RELATO DE CASO
FIV (Laboratório Fort Dodge Animal à gestação, e possivelmente fatores imu- Relata-se o caso de um animal da es-
Health) foi aprovada pelo Departamen- nológicos, promovem a reativação dessas pécie felina, macho, SRD, domiciliado,
to de Agricultura (USDA) dos Estados larvas, que retornam para a circulação e nascido aproximadamente em novem-
Unidos 13. são excretadas no colostro e no leite, o bro de 1992. O animal chegou ao pro-
que leva à transmissão transmamária prietário com idade aproximada de
Toxocara cati: ASPECTOS GERAIS para os filhotes 30,32. cinco meses e apresentava sinais de apa-
O T. cati é um nematóide cilíndrico Camundongos, ratos e aves podem tia, tosse e secreção ocular e nasal mu-
da família Ascarididae, que parasita o ingerir acidentalmente os ovos infectan- copurulenta. Levado ao médico veteri-
intestino delgado dos felinos. O compri- tes desse nematóide mas, diferentemen- nário, foi diagnosticado um processo in-
mento dos machos varia de três a sete te do que ocorre nos felinos – hospedei- feccioso de causa indefinida. Após o
centímetros e o das fêmeas de quatro a ros específicos do T. cati, pois fornecem tratamento, o animal tornou-se domici-
doze centímetros 30. as condições ideais para o estabeleci- liado e passou a conviver com os outros
As fêmeas desse parasita são extre- mento dos parasitos adultos –, no orga- três gatos da residência. O local era de
mamente prolíferas e produzem milha- nismo desses animais, denominados piso frio e liso, cercado por muros altos,
res de ovos que são eliminados diaria- hospedeiros paratênicos, a única migra- e o contato com animais errantes e o
mente nas fezes dos gatos, favorecendo ção possível é a somática, o que leva as acesso à rua eram impossíveis. A higie-
uma elevada contaminação ambiental. 31 larvas ao encistamento e latência. A nização das caixas de plástico e a
Para esses ovos se tornarem infectan- ingestão das larvas de T. cati presentes limpeza do ambiente eram realizadas
tes é necessário um período de quatro a nos tecidos desses hospedeiros paratêni- diariamente.
cinco semanas em condições ambientais cos constitui uma fonte alternativa de No período de 1993 a 1998, o felino
apropriadas, que incluem solo úmido, infecção, particularmente para os gatos apresentou seguidos episódios clínicos
presença de oxigênio, temperatura entre que têm o hábito da caça 30,32. caracterizados por febre, apatia, hipore-
15 ºC e 35 ºC e proteção contra a luz xia, êmese, diarréia e tosse, que regredi-
solar. Nesse período ocorrem a formação Sinais clínicos ram após tratamento sintomático, se-
e o desenvolvimento da larva infectante Os parasitos adultos promovem um gundo protocolo medicamentoso pa-
(L3) no interior do ovo. A infecção do efeito deletério no intestino, e os ani- drão. O animal apresentou-se assinto-
gato ocorre por meio da ingestão de ovo mais apresentam perda de peso, pelame mático apenas no ano de 1995 (Figura 1),
contendo larva infectante 32. opaco e diarréia. No caso de infecções mesmo após ter sido submetido a uma
Os ovos eclodem na luz do estômago maciças, é comum a presença de cirurgia de conveniência (orquiectomia
e liberam as larvas que invadem a pare- espécimes do parasito nas fezes e no bilateral).
de gástrica e, por meio da corrente cir- vômito 32.
culatória, seguem para o fígado, o cora-
ção e os pulmões. As larvas rompem os Tratamento
capilares dos alvéolos e migram para os As drogas efetivas para o tratamento
bronquíolos, brônquios e traquéia, po- são: piperazina, albendazol, fenbenda-
Adelina Helena Tortora

dendo ser expelidas ou deglutidas. So- zol, mebendazol, febantel, levamisol,


mente as larvas que atingem o intestino pamoato de pirantel e oxantel. Nas do-
delgado evoluem e dão origem aos para- ses recomendadas, a maioria dos anti-
sitos adultos (macho e fêmea). Após a helmínticos não tem efeito sobre as lar-
cópula, as fêmeas realizam a postura vas encistadas nos tecidos 30,32,33.
dos ovos embrionados, que são elimina-
dos junto com as fezes. O período ne- Profilaxia
cessário para o desenvolvimento dos pa- As medidas profiláticas envolvem
rasitos adultos a partir da ingestão de condutas adequadas de tratamento anti-
ovos infectantes é de aproximadamente helmíntico dos animais e manejo sani-
dois meses 30,32. tário do ambiente. Os ambientes inter-
Além dessa migração parasitária que nos e externos onde vivem os gatos Figura 1 - Fase assintomática da imu-
propicia o desenvolvimento dos parasitos devem ser diariamente higienizados e nodeficiência viral felina

44 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Em função do histórico de infecções

Adelina Helena Tortora


Adelina Helena Tortora
recorrentes, em 1999 foi realizado exa-
me sorológico para detecção dos vírus
da imunodeficiência felina (FIV) e da
leucemia felina (FeLV). O resultado foi
positivo para o FIV, e o animal (Figura 2)
passou a receber tratamento de suporte
baseado na utilização de interferon e
complexos vitamínicos, além de anti-
bióticos, antiinflamatórios, antifúngicos Figura 3 - Fase terminal da imunodeficiência
viral felina.
e antiparasitários, na dependência do
quadro clínico.
Contudo, dois meses após o trata-
mento, o felino (Figura 3) foi acometido
Adelina Helena Tortora

por um novo e mais maciço episódio de


infecção por T. cati pois, além das fezes,
o parasito também foi evidenciado no Figura 4 - Fase terminal da imunodeficiência
vômito do animal. viral felina: alopecia e astenia cutânea
Em outubro de 2001 o animal passou autores ressaltam a sua grande eficácia
a apresentar sinais clínicos compatíveis (99,9%) quando empregada no trata-
com a síndrome paraneoplásica, tais mento de infecções causadas por ascarí-
como emagrecimento progressivo, po- deos 35. Assim, a utilização do pomoato
liúria, polidipsia, polifagia, telangecta- de pirantel em duas doses administradas
sia, comedões, alopecia simétrica bila- no intervalo de 21 dias seria eficaz
teral e não pruriginosa e astenia muscu- para o controle da carga parasitária dos
lar e cutânea (Figura 4). animais.
A evolução cronológica do quadro A via transmamária e a ingestão de
clínico, evidenciando os diferentes acha- ovos contendo a larva infectante no seu
Figura 2 - Fase 3 da imunodeficiência viral feli-
na: pelame opaco e rarefeito e perda de peso dos, pode ser observada na Figura 5. interior são as maiores fontes de infecção
Em outubro de 2001 o animal pesava para, respectivamente, filhotes e gatos
As diarréias tornaram-se crônicas e 6,3kg, e em dezembro do mesmo ano, jovens e adultos. A ingestão de hos-
de difícil controle e, no ano de 2001, o na fase 5 da imunodeficiência viral feli- pedeiros paratênicos é uma fonte alter-
animal apresentou infecção maciça por na, o seu peso era de 2,5kg. Em janeiro nativa de infecção para felinos que pos-
T. cati, caracterizada pela eliminação de de 2002 o animal foi a óbito. suem hábitos predatórios, portanto, para
parasitos nas fezes. O diagnóstico labo- animais que vivem em ambientes fecha-
ratorial foi realizado por meio da identi- DISCUSSÃO dos (apartamentos e interior de residên-
ficação morfométrica desses parasitos, Nematóides do gênero Toxocara são cias) e não exercem atividade de caça, a
que mediam cerca de dez centímetros e organismos adaptados à existência para- importância dessa via de infecção é
apresentavam coloração esbranquiçada sitária obrigatória que necessitam de quase nula 32.
e uma pronunciada asa cervical, típica uma superação ou escape da resposta A hipótese de reinfecção do animal a
dos ascarídeos pertencentes à espécie T. imune dos hospedeiros 31,34. partir da ingestão de ovos larvados, ape-
cati. Além disso, foi realizado o exame No caso aqui relatado, chama a aten- sar de possível, foi considerada remota
coproparasitológico pela técnica de ção o fato de um felino adulto, domici- pois os gatos defecavam apenas nas
“Willis”, verificando-se apenas a pre- liado e desverminado, apresentar suces- caixas de areia, que eram limpas e des-
sença de ovos escuros e globulares con- sivos quadros de alta infecção por T. cartadas diariamente. Assim, não haveria
tendo um núcleo citoplasmático com cati, com a eliminação do parasito nas tempo hábil para o desenvolvimento das
casca grossa e áspera, típicos do gênero fezes e no vômito, à semelhança do que larvas de T. cati para o estádio infectan-
Toxocara sp. é observado em filhotes com alta carga te no interior dos ovos, processo que
O animal apresentou melhora clínica infectante. Essa situação suscita dúvidas demanda quatro semanas 32. Além disso,
após o tratamento anti-helmíntico à base sobre a possível associação entre a imu- os animais eram banhados a cada quinze
de pamoato de pirantel e praziquantel a nodeficiência viral felina e a infecção dias, o que impedia que algum ovo re-
de acordo com a posologia indicada por T. cati no animal objeto deste relato. manescente na pelagem se tornasse
pelo fabricante, com repetição depois de Os animais foram tratados com infectante. Deve-se destacar, ainda, que
21 dias 14. Os demais gatos contactantes pomoato de pirantel, um dos anti-hel- todo o piso da residência era frio e a
da residência também receberam esse mínticos mais empregados para trata- limpeza e a desinfecção eram realizadas
tratamento. mento de verminoses em cães e gatos. diariamente – o que tornava o ambiente
Essa droga exerce seus efeitos nos para- extremamente desfavorável para o de-
sitos adultos e imaturos (larvas) de ne- senvolvimento de larvas infectantes –,
a) (Drontal Bay-o-Pet Gatos - Bayer® São Paulo SP matóides gastrintestinais 33, e vários e que os felinos da casa não tinham

46 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Ou seja, tal situação só ocorreria se o
animal tivesse ingerido grande quanti-
dade de ovos infectantes quase que no
mesmo dia do tratamento, hipótese bas-
tante improvável no ambiente do domi-
cílio, cujas condições eram desfavorá-
veis para tal situação.
Descartada a possibilidade de rein-
fecção ambiental, aventou-se a partici-
pação de algum fator endógeno determi-
nante para a elevada carga parasitária
observada no animal. Sabe-se que as
Figura 5 - Cronologia das afecções relacionadas ao estudo do caso clínico. Barra amarela: fases clíni- larvas de T. cati migram para os tecidos
cas de evolução da imunodeficiência viral felina; barras verticais transparentes: episódios de elimi- do hospedeiro – nos quais permanecem
nação de Toxocara cati; barra vermelha: início dos sinais compatíveis com síndrome paraneoplásica
em latência –, e que sua reativação e
conseqüente retorno à circulação san-
nenhum acesso à rua ou contato com número de parasitos, mas estes não güínea são promovidos por fatores hor-
animais errantes. Portanto, a possibili- apresentaram nenhuma manifestação monais e possivelmente imunológicos
dade de contaminação ambiental com clínica. do próprio hospedeiro. Tais evidências
grande número de ovos contendo larvas Outro aspecto a ser considerado é o suscitaram a hipótese de que o felino
infectantes – fator estritamente neces- período necessário para o desenvolvi- objeto do presente relato pudesse ter so-
sário para a ocorrência de infecção ma- mento dos parasitos adultos no intestino frido uma reativação da infecção do pa-
ciça com elevado número de parasitos – delgado após a ingestão dos ovos larva- rasita em função da imunossupressão
é remota. E, se uma elevada contamina- dos, que é de dois meses – justamente o promovida pelo FIV.
ção ambiental tivesse ocorrido, os ou- intervalo após o tratamento em que o Como anteriormente mencionado, as
tros gatos contactantes também seriam gato apresentou a infecção severa, com principais células-alvo para a replicação
acometidos, provavelmente com grande grande quantidade de parasitos adultos. do FIV são os linfócitos T CD4+, embora
o vírus também se replique em linfócitos crônicas – na cavidade oral, no trato experimentally infected with feline
immunodeficiency virus. Journal of Veterinary
T CD8+, linfócitos B e macrófagos 16,17. respiratório superior e em outras regiões Medical Science, v. 55, n. 3, p. 387-394, 1993.
Nesse contexto, a imunossupressão do corpo – causadas por uma diversi- 03-DUNN, J. K. Tratado de Medicina de
decorrente da infecção pelo FIV poderia dade de agentes etiológicos. Entre esses Pequenos Animais. Ed. Roca, 2001 p. 963
afetar a resposta do hospedeiro ao para- agentes, destacam-se os vírus, como o 04-PARODI, A. L. ; FEMENIA, F. ; MORAILLON,
A. ; CRESPEAU, F. ; FONTAINE, J. J.
sitismo por T. cati, uma vez que a imu- FeLV 28,40,41, o calicivírus felino 24,42, o Histopathological changes in lymph nodes of
nidade à infecção por helmintos é vírus da peritonite infecciosa felina 43 e o cats experimentally infected with the feline
dependente das subpopulações de célu- papilomavírus felino 44; as bactérias, aí immunodeficiency virus (FIV). Journal of
Comparative Pathology, v. 111, n. 2, p. 165-
las T CD4+, isto é, dos linfócitos T se incluindo o Staphylococcus sp 45, a 174, 1994.
helper (Th) tipos 1 e 2 36. Pseudomonas sp 43, o Streptococcus 05-PEDERSEN, N. C. ; BARLOUGH, J. E. Clinical
Os linfócitos Th 2 induzem uma res- canis 45, as micobactérias 43, o Mycoplasma overview of feline immunodeficiency virus.
posta imune do tipo humoral, associada Journal of the American Veterinary Medical
haemofelis (Haemobartonella felis) e Association, v. 199, n. 10, p. 1298-1305, 1991.
à produção de interleucinas (IL) como outras, aeróbias e anaeróbias 28,41,46; os 06-BANDECCHI, P. ; MATTEUCCI, D. ;
IL4, IL13, e particularmente IL10, fun- fungos, como a Candida albicans 43,46, o BALDINOTTI, F. ; GUIDI, G. ; ABRAMO, F. ;
damentais para a expulsão intestinal dos Cryptococcus neoformans 43 e o Micros- TOZZINI, F. ; BENDINELLI, M. Prevalence of
feline immunodeficiency virus and other
nematóides. Esse padrão de citocinas se porum canis 43; os protozoários, incluin- retroviral infections in sick cats in Italy.
traduz em aumento do título sérico de do o Toxoplasma gondü 47,48 e o Cryptos- Veterinary Immunology and Immunopathology,
imunoglobulinas do tipo E (IgE), na poridium sp 49; e os ácaros, como o v. 31, n. 3-4, p. 337-345, 1992.
mobilização de mastócitos e eosinófilos 07-BRALEY, J. FeLV and FIV: survey shows
Demodex cati 45,50 e o Notoedres cati. 43,45. prevalence in the United States and Europe.
para a mucosa intestinal e na conse- Contudo, não existem relatos sobre a Feline Practice, v. 22, n. 2, p. 25-28, 1994.
qüente expulsão dos parasitas 34. Duran- associação entre o FIV e a alta infecção/ 08-FRIEND, S. C. E. ; BIRCH, C. J. ; LORDING, P.
te os estádios iniciais da enfermidade, reativação da infecção pelo T. cati, o M. ; MARSHALL, J. A. ; STUDDERT, M. J.
Feline immunodeficiency virus: prevalence,
felinos soropositivos apresentam forte que indica a necessidade de estudos disease associations and isolation. Australian
estimulação das células T helper e mais aprofundados para esclarecer as Veterinary Journal, v. 67, n. 7, p. 237-243, 1990.
aumento da produção de interferon hipóteses aventadas neste trabalho. 09-FURUYA, T. ; KAWAGUCHI, Y. ; MIYAZAWA,
gama (INF-a) e de IL-10 porém, com a T. ; FUJIKAWA, Y. ; TOHYA, Y. ; AZETAKA,
M. ; ITAGAKI, S. ; MIKAMI, T. Existence of
evolução da infecção, essa atividade CONSIDERAÇÕES FINAIS feline immunodeficiency virus infection in
diminui gradativamente, até a falência Considerando que: Japanese cat population since 1968. Japanese
da resposta imune 37,38. Journal of Veterinary Science, v. 52, n. 4,
- o FIV induz a imunossupressão; p. 891-893,1990.
Por outro lado, os linfócitos Th1 - a imunidade à infecção por helmintos 10-SOUZA, H. J. M. ; TEIXEIRA, C. H. R. ;
estão associados à resposta imune do é dependente das subpopulações de GRAÇA, R. F. S. Estudo epidemiológico de
tipo celular que combate os helmintos células T CD4+;
infecções pelo vírus da leucemia e/ou imunodefi-
via reação de hipersensibilidade retar- ciência felina, em gatos domésticos do município
- a possibilidade de reinfecção por meio do Rio de Janeiro. Clínica Veterinária, Ano 7,
dada, tornando o ambiente impróprio da ingestão de ovos era remota no ani- n. 36, p. 14-21, 2002.
para o desenvolvimento desses parasitas mal estudado, cuja condição incluía do- 11-KAKINUMA, S. ; MOTOKAWA, K. ;
ou destruindo as larvas pela ação dos HOHDATSU, T. ; YAMAMOTO, J. K. ;
micílio em condições desfavoráveis à KOYAMA, H. ; HASHIMOTO, H. Nucleotide
linfócitos T citotóxicos. Em biópsias presença de ovos contendo larvas in- sequence of feline immunodeficiency virus:
oriundas de cistos mortos de Taenia classification of Japanese isolates into two
fectantes (L3);
ovis, verificou-se presença de IFN-a, subtypes which are distinct from non-japanese
- e todos os animais do domicílio foram subtypes. Journal of Virology, v. 69, n. 6,
IL12 e, particularmente, IL 2 – que
tratados com uma droga eficaz. p.3639-3646, 1995
induz a estimulação da subpopulação de 12-PECORARO, M. R. ; TOMONAGA, K. ;
Sugere-se que o animal desenvolveu
Th1 e, por conseqüência, estimula a ati- MIYAZAWA, T. ; KAWAGUCHI, Y. ; SUGITA,
uma alta infeccção por T. cati associada S. ; TOHYA, Y. ; KAI, C. ;
vação da resposta imune celular 36. Con-
à reativação de larvas tissulares em vir- ETCHEVERRIGARAY, M. E. ; MIKAMI, T.
tudo, ao longo do processo infeccioso Genetic diversity of Argentine isolates of feline
tude da imunossupressão.
do FIV, com o declínio das células immunodeficiency virus. Journal of General
CD4+ e a inversão da proporção entre Devido a escassez de dados referen- Virology, v. 77, n. 9, p. 2031-2035,1996.
CD4+/CD8+, observou-se menor pro- tes à associação entre FIV e infecções 13-LARA, V. M. Estudo epidemiológico e genético
por nematóides na literatura, destaca-se do vírus da imunodeficiência felina identifica-
dução de IL-2, acompanhada por au- do no estado de São Paulo. Tese (Doutorado) -
mento significante na produção de IL-1, a necessidade de mais estudos para elu- Universidade Estadual Paulista, Faculdade de
IL-6 e fator de necrose tumoral (TNF), cidar possíveis questões pertinentes ao Medicina Veterinária e Zootecnia, Botucatu,
o que também contribui para a disfun- presente assunto. 2004.
14-AVERY, P. R. Feline immunodeficiency virus: In:
ção imunológica 39. Esse achado justifi- LAPPIN, M. R. Feline Internal Medicine
caria a hipótese de participação da imu- REFERÊNCIAS Secrets. Philadelphia: Hanley&Belfus. Inc. p.
01-BURKHARD, M. J. ; HOOVER, E. Feline 391-397, 2001.
nossupressão decorrente do FIV na rea- immunodeficiency virus (FIV): 15-O'NEIL, L. L. ; BURKHARD, M. J. ; DIEHL, L.
tivação da infecção a partir de formas immunopathogenesis. Feline Practice, v. 26, J. ; HOOVER, E. A. Vertical transmission of
tissulares latentes do T. cati. n. 6, p. 10-13, 1998. feline immunodeficiency virus. Seminars in
Estudos demonstraram que gatos 02-MATSUMURA, S. ; ISHIDA, T. ; WASHIZU, T. ; Veterinary Medicine and Surgery (Small
TOMODA, I. ; NAGATA, S. ; CHIBA, J. ; Animal), v. 10, n.4, p. 266-278 , 1995.
soropositivos para o FIV usualmen- KURATA, T. Pathologic features of acquired 16-BEEBE, A. M. ; DUA, N. ; FAITH, T. G. ;
te apresentam infecções secundárias immunodeficiency-like syndrome in cats MOORE, P. F. ; PEDERSEN, N. C. ;

48 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


DANDEKAR, S. Primary stage of feline American Veterinary Medical Association, leukemia virus seropositivity. Journal of the
immunodeficiency virus infection: viral v. 194, n. 2, p. 226-228,1989 American Veterinary Medical Association. v.
dissemination and cellular targets. Journal of 29-HOPPER, C. D. ; SPARKES, A. H. ; 197, n. 2, p. 220-225, 1990.
Virology, v. 68, n. 5, p. 3080-3091, 1994. GRUFFYDD-JONES, T. J.; CRISPIN, S. M. ; 41-HOSIE, M. J. ; ROBERTSON, C. ; JARRET, O.
17-HARTMANN, K. Feline Immunodeficiency MUIR, P. ; HARBOUR, D. A. ; STOKES, C. R. Prevalence of feline leukemia virus and
virus infection: an overview. The Veterinary Clinical and laboratory findings in cats infected antibodies to feline immunodeficiency virus in
Journal, v. 155, n. 2, p.123-137, 1998. with feline immunodeficiency virus. The cats in the United Kingdom. The Veterinary
18-CALLANAN, J. J. Feline immunodeficiency of Veterinary Record, v. 125, n. 13, p. 341-346, Record, v. 125, n. 11, p. 293-297, 1989.
virus infection; a clinical and pathological 1989. 42-DAWSON, S. ; SMYTH, N. R. ; BENNETT, M. ;
perspective. In: Willet, B. J. ; Jarret, O. Feline 30-PARSONS, J. C. Ascarids infections of cats and GASKELL, R. M. ; McCRAEKEN, C. M. ;
Immunology and Immunodeficiency. Oxford: dogs. Veterinary Clinical of North America BROWN, A. ; GASKELL, C. J. Effect of
Oxford University Press. p. 111-130, 1995. Small animal Practice, v. 17, n. 6, p. 1307-1339, primary-stage feline immunode¬ficiency virus
19-HUTSON, C. A. ; RIDEHOUT, B. A. ; 1987. infection on subsequent feline calicivirus
PEDERSEN, N. C. Neoplasia associated with 31-VINEY, M. How do host immune responses vaccination and challenge in cats. AIDS, v. 5,
feline immunodeficiency virus infection in cats affect nematode infections? Trends in n. 6, p. 747-750,1991.
of Southern California. Journal of the American Parasitology, v.18, n. 2, p. 63-66, 2002.
Veterinary Medical Associated, v. 199, n. 10, 43-ISHIDA, T. ; WASHIZU, T. ; TORIYABE, K. ;
32-OVERGAAUW, P. A. M. Aspects of Toxocara
p. 1357-1362, 1992. MOTOYOSHI, S. ; TOMODA, I. ; PEDERSEN,
epidemiology: toxocarosis in dogs and cats.
N. C. Feline immunodeficiency virus infection in
20-STEIGERWALD, E. S. ; SARTER, M. ; Critical Reviews in Microbiology, n. 23, v. 3,
MARCH, P. ; PODELL, M. Effects of feline p. 233-251, 1997. cats of Japan. Journal of the American
immunodeficiency virus on cognition and Veterinary Medical Association. v. 194, p. 221-
33-SPINOSA H. S. ; GORNIAK, S. L. ; BERNAR-
behavioral function in cats. Journal of Acquired 225, 1989.
DI, M. M. Farmacologia aplicada à medicina
Immune Deficiency Syndromes and Human veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 44-EGBERINK, H. F. ; BERROCAL, A. ; BAX, H.
Retrovirology, v. 20, n. 5, p. 411-419, 1999. p. 545, 2006. A. D. ; INGH Van Den, T. S.; WALTER, J. H. ;
21-LAPPIN, M. R. ; GREENE, C. E. ; WINSTON, 34-KURODA, E. ; YOSHIDA, Y. ; SHAN, B. ; HORZINEK, M. C. Papilomavirus associated
S. ; TOLL, S. L. ; EPSTEIN, M. E. Clinical YAMASHITA, U. Suppression of macrophage skin lesions in a cat seropositive for feline
feline toxoplasmosis: serologic diagnosis and interleukin-12 and tumor necrosis factor-alpha immunodeficiency virus. Veterinary
therapeutic management of 15 cases. Journal of production in mice infected with Toxocara canis. Microbiology, v. 31, n.2-3, p. 117-125, 1992.
Veterinary Internal Medicine, v. 3, n. 3, p.139- Parasite Immunology, v. 23, n. 6, p. 305-311, 45-PEDERSEN, N. C. ; YAMAMOTO, J. K. ;
143, 1989. 2001. ISHIDA, T. ; HANSEN, H. Feline
22-SELLON, R. K. Feline immunodeficiency virus 35-RIDLEY, R. K. ; TERHUNE, K. S. ; immunodeficiency virus infection. Veterinary
infection. In: GREENE, C. E. Infectious GRANSTRON, D. E. The efficacy of pyrantel Immunology and Immunopathology, v. 21,
Diseases of the Dog and Cat, 2. ed. St. Louis: pamoate against ascarids and hookworms in cats. n. 1, p. 111-129, 1989.
WB Saunders Company. p. 84-96,1998. Veterinary Research Commun, v. 15, n.1, 46-DAVIDSON, M. G. ; ROTTMAN, J. B. ;
23-SPARGER, E. E. Current thoughts on feline p. 37-44, 1991. ENGLISH, R. V. ; LAPPIN, M. R. ;
immunodeficiency virus infection. The 36-TIZARD, I. R. Imunologia veterinária - uma TOMPKINS, M. B. Feline immunodeficiency
Veterinary Clinics of North America: Small introdução, 6. ed. SP, Ed. Roca, p. 312-329, 2002. virus predisposes cats to acute generalized
Animal Practice, v. 23, n. 1, p. 173-191, 1993. 37-BENDINELLI, M. ; PISTELLO, M. ; toxoplasmosis. The American Journal of
24-PEDERSEN, N. C. The feline immunodeficiency LOMBARDI, S. ; POLI, A. ; GARZELLI, C. ; Pathology, v.143, n. 5, p.1486-1497, 1993.
virus infection. In: LEVY, J. A. The MATTEUCCI, D. ; CECCHERINI-NELLI, L. ; 47-MANCIANTI, F. ; GIANNELLI, C. ;
retroviruses, v. 2 New York: Plenum Publishing MALVALDI, G. ; TOZZINI, F. Feline BENDINELLI, M. ; POLI, A. Mycological
Corporation, p. 181-228, 1993. immunodeficiency virus: an interesting model findings in feline immunodeficiency virus-
25-FLEMING, E. J. ; McCAW, D. L. ; SMITH, J. A. ; for AIDS studies and an important cat pathogen. infected cats. Journal of Medical and
BUENING, G. M. ; JOHNSON, C. Clinical, Clinical Microbiology Reviews, v. 8, n. 1, p. 87- Veterinary Mycology. v. 30, p. 257-259, 1992.
hematological and survival data from cats 112, 1995.
48-LAPPIN, M. R. ; GASPER, P. W. ; ROSE, B. J. ;
infected with feline immunodeficiency virus: 42 38-LIANG, Y. ; HUDSON, L. C. ; LEVY, J. K. ; POWELL, C. C. Effect of primary phase feline
cases (1983-1988). Journal of the American RITCHEY, J. W. ; TOMPKINS, W. A. ;
Veterinary Medical Association, v. 199, n. 7, immunodeficiency virus infection on cats with
TOMPKINS, M. B. T cells over expressing
p. 913-916, 1991. chronic toxoplasmosis. Veterinary Immunology
interferon-gamma and interleukin-10 are found
and Immunopathology, v. 35, n.1-2, p. 121-132,
26-MACY, D. W. Feline immunodeficiency virus. in both the thymus and secondary lymphoid
In: SHERDING, R. G. The cat: diseases and tissues of feline immunodeficiency virus- 1992.
clinical management. 2. ed. Philadelphia: W. B. infected cats. Journal of Infectology Disease, 49-MTAMBO, M. M. ; NASH, A. S. ; BLEWETT,
Saunders Company. p. 433-448, 1994. v. 181, n. 2, p. 564-575, 2000. D. A. ; SMITH, H. V. ; WRIGHT, S.
27-BROWN, A. ; BENNETT, M. ; GASKELL, C. J. 39-LAWRENCE, C. E. ; CALLANAN, J. J. ; Cryptosporidium infection in cats: prevalence of
Fatal poxvirus infection in association with FIV WILLETT, B. J. ; JARRETT, O. Cytokine infection in domestic and feral cats in the
infection. The Veterinary Record, v. 124, n. 1, production by cats infected with feline Glasgow area. The Veterinary Record, v. 129,
p. 19-20, 1989. immunodeficiency virus; a longitudinal study. n. 23, p. 502-504, 1991.
28-GRINDEM, C. B. ; CORBETT, W. T. ; Immunology. v. 85, n. 4, p. 568-574, 1995. 50-CHALMERS, S. ; SCHICK, R. O. ; JEFFERS, J.
AMMERMAN, B. E. ; TOMKINS, M. T. 40-COHEN, N. D. ; CARTER, C. N. ; THOMAS, Demodicosis in two cats seropositive for feline
Seroepidemiologic survey of feline M. A. ; LESTER, T. L. ; EUGSTER, A. K. immunodeficiency virus. Journal of the
immunodeficiency virus infection in cats of Epizootiologic association between feline American Veterinary Medical Association,
Wake County, North Carolina. Journal of the Immunodeficiency virus infection and feline v. 194, n. 2, p. 256-257, 1989.

50 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Leandro Bertoni Cavalcanti Teixeira
Aspectos etiológicos das Mv., mestrando
Depto. Clínica Veterinária FMVZ/Unesp-Botucatu
hepatites crônicas caninas Leteixeira-vet@hotmail.com

Renée Laufer Amorim


Mv., profa. ass. dra.
Etiological aspects of Depto. Clínica Veterinária FMVZ/Unesp-Botucatu
renee@fmvz.unesp.br

canine chronic hepatitis Raimundo Alberto Tostes


Mv. prof. dr.
CMV/Cesumar

Aspectos etiológicos de las tostes@cesumar.br

hepatitis crónicas caninas


Resumo: A hepatite crônica é comumente diagnosticada em cães na rotina veterinária. É uma doença com provável pro-
gressão para cirrose e conseqüente prognóstico ruim. Apesar de ser uma das enfermidades caninas mais freqüentes, não é
apenas uma doença mas o resultado de diferentes etiologias que lesam cronicamente o fígado. Nos humanos, a maioria dos
agentes etiológicos causadores de hepatites crônicas são conhecidos. Em contraste, nos cães, a causa é geralmente desco-
nhecida e o diagnóstico etiológico nem sempre é possível, sendo substituído pela descrição histopatológica. Esta revisão tem
como propósito destacar os prováveis agentes etiológicos causadores da hepatite crônica nos cães e a importância e a
necessidade de identificá-los para o estabelecimento de terapias mais adequadas, com o controle da progressão da doença
e a remoção da causa primária.
Unitermos: cães, doenças, fígado

Abstract: Chronic hepatitis is frequently found in dogs in the veterinary practice. The prognosis is poor due to the high
probability of progression to cirrhosis. In spite of being one of the most frequent canine malignancies, it is not a single disease,
but rather the result of different etiologies in which the liver becomes chronically wounded. In humans, most of the etiological
agents that cause chronic hepatitis are known. In contrast, in dogs the cause is usually unknown, and the etiological
diagnostic is not always possible. Instead, clinicians rely on the histopathological description. This review aims to highlight the
etiological agents that are likely to cause chronic hepatitis in dogs and the importance and need of this etiological identification
for the establishment of more adequate therapies, which enable the control of disease progression and removal of main cause.
Keywords: dogs, disease, liver

Resumen: La hepatitis crónica se diagnostica con frecuencia en perros en la práctica veterinaria. Es una enfermedad con
progresión probable a cirrosis y por lo tanto con pronóstico malo. Aunque sea una de las molestias caninas más frecuentes,
no es sólo una enfermedad, pero el resultado de diversas etiologías que lesionan el hígado crónicamente. En seres humanos,
la mayor parte de los agentes etiológicos que causan las hepatitis crónicas son conocidos. En contrate, en perros, la causa es que, somada à presença de nódulos de
generalmente desconocida, y el diagnóstico etiológico no es siempre posible, siendo substituido por la descripción
histopatológica. Esta revisión apunta destacar los agentes etiológicos probables que pueden causar hepatitis crónica en regeneração, define a cirrose hepática 3.
perros y la importancia y la necesidad de esta identificación etiológica, buscando el establecimiento de terapias más A cirrose é o quadro terminal da doença
adecuadas, con el control de la progresión de la enfermedad y de la eliminación de la causa principal.
Palabras clave: perros, enfermedad, hígado hepática crônica, e é acompanhada de
marcante distorção arquitetural com
alterações circulatórias e metabólicas
Clínica Veterinária, n. 75, p. 52-58, 2008 no fígado 5.

INTRODUÇÃO A hepatite crônica pode ser definida ASPECTOS ETIOLÓGICOS


A hepatite crônica é comumente como uma doença de curso crônico, Nos humanos, a maioria dos agentes
diagnosticada em cães na rotina vete- com atividade necro-inflamatória e per- etiológicos causadores de hepatites crô-
rinária. É uma doença com provável sistência de alterações laboratoriais por nicas são conhecidos, sendo apenas al-
progressão para cirrose e conseqüente pelo menos quatro meses 4. gumas formas de hepatites classificadas
prognóstico ruim 1. Apesar de ser uma Independentemente da causa, as he- como idiopáticas ou criptogênicas 1. As
das enfermidades caninas mais freqüen- patites crônicas são caracterizadas pela causas mais comuns de hepatite crônica
tes, não é apenas uma doença mas o diminuição na capacidade de regene- nos humanos são as virais, principal-
resultado de diferentes etiologias que ração do fígado em combinação com a mente causadas por um agente da famí-
lesam cronicamente o fígado 2. formação de fibrose 2. A fibrose é uma lia hepadnaviridae, o vírus da hepatite B
Os avanços da gastroenterologia, da conseqüência da agressão hepática nor- (HBV), e por um agente da família fla-
hepatologia e da patologia veterinárias malmente decorrente de lesões crônicas, viviridae, o vírus da hepatite C (HCV).
determinaram um incremento no diag- e caracterizada pelo aumento da deposi- Estima-se que 300 milhões de pessoas
nóstico de doenças hepáticas crônicas ção de colágeno e outros componentes no mundo estão infectadas com o HBV,
na população canina 3. Essa ampliação da matriz extracelular no fígado 3. A e 120 milhões com o HCV 6. Na medici-
vem acompanhada da necessidade de associação de fenômenos de agressão na humana, o reconhecimento dos agen-
melhor entender a progressão da doen- hepatocelular, colapso e deposição de tes causadores de hepatite proporcionou
ça, uma vez que a influência dos agen- colágeno, destruição da arquitetura lo- significativa melhora no tratamento e no
tes etiológicos na instalação e na pro- bular e regeneração hepatocelular forma prognósticos dos pacientes, graças ao
gressão das doenças hepáticas crônicas um conjunto de alterações que favorece maior controle da progressão e da trans-
ainda é controversa 3. a fibrose difusa do parênquima hepático missão da doença.

52 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Em contraste, nos cães, a causa da Hepatites crônicas associadas à raça e que codifica a proteína ceruloplasmina,
hepatite é geralmente desconhecida, ao metabolismo de cobre responsável pelo transporte de cobre do
pois o diagnóstico etiológico nem sem- Em revisões de casos de hepatite meio intracelular para o sangue e a bile 12.
pre é possível 1; assim, a descrição histo- crônica canina, tem sido demonstrado Essa proteína também está associada
patológica torna-se o melhor recurso aumento consistente da incidência da com o transporte vesical lisossomal pela
diagnóstico. Do ponto de vista epide- doença em algumas raças específicas. membrana dos canalículos biliares para
miológico, as hepatites crônicas caninas Apesar da alta incidência de casos de a excreção de cobre. A alteração genéti-
ocorrem com maior freqüência em ani- hepatopatias hereditárias por acúmulo ca gera uma proteína estruturalmente
mais com idade entre um e sete anos 7. de cobre nos bedlington terriers, cães alterada e inativa 12.
Aparentemente, algumas raças de cães de meia idade de grande variedade de Hepatopatias associadas ao cobre
têm maior predisposição a desenvolver raças estão representados nessas revi- também foram descritas em outras
a hepatite crônica. Estudos conduzidos sões, como os cocker spaniels ameri- raças, como skye terrier 13, west highlight
nos Estados Unidos e na Europa indi- canos e ingleses, west highland white white terrier 10 e doberman 4,11, mas em
cam que entre essas raças estão o cocker terriers, skye terriers, dobermans e nenhuma dessas raças parece ocorrer
spaniel americano, o west highland labradores 1,4,6,7,10,12,13. Esse aumento na acúmulo de cobre de origem genético-
white terrier, o retrivier do labrador e o ocorrência de hepatite crônica em raças metabólica como nos bedlington terri-
doberman pinscher 8,9. Em cães das raças específicas sugere uma base genética ers, pois o processo de acúmulo de co-
bedlington terrier, west highland white para a doença, o que tem sido difícil bre não evolui durante a vida do animal,
terrier e dálmata, a hepatite crônica está de esclarecer, com exceção da doença a quantidade de cobre acumulada não
relacionada a uma anomalia congênita por acúmulo de cobre dos bedlington tem relação com o grau de evolução da
no metabolismo cúprico 10. Não há evi- terriers 1. doença, e também não está presente no
dências claras de uma possível predispo- Na doença dos bedlington terriers, o início da doença 14.
sição sexual, exceto na raça doberman defeito genético que resulta na toxicose Nos dobermans, a maioria dos ani-
pinscher, na qual, aparentemente, as he- cúprica foi descoberto recentemente 6. O mais com hepatites crônicas apresenta
patites crônicas acometem mais comu- acúmulo hepático de cobre é causado concentrações de cobre hepático au-
mente as fêmeas 11. pela deleção do exon 2 do gene MURRI mentadas e colestase 12. Sendo assim,

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 53


alguns autores concluíram que esse au- em castores, esquilos e patos 23. Porém, importante causa de hepatites em cães 26,
mento da concentração de cobre hepá- nos cães com hepatite crônica e carcino- mas o não isolamento do agente e a falta
tico poderia ser secundário à estase bi- mas hepatocelulares, as tentativas de de relatos de casos semelhantes faz com
liar 15. Porém, em trabalho realizado identificação de hepadnavírus com o uso que a sua real importância como cau-
com 106 cães da raça doberman, no da técnica de PCR falharam 24. sador de hepatite crônica permaneça
qual foi dosada a concentração de cobre O agente da hepatite infecciosa cani- uma incógnita.
hepático e analisadas a excreção biliar na, adenovírus canino tipo 1 (CAV-1), Contrariamente ao que acontece nas
de cobre e a concentração das proteínas classicamente produz hepatite aguda hepatites crônicas dos homens, infecções
carreadoras e associadas ao cobre, veri- necro-hemorrágica com inclusões intra- bacterianas podem ser responsáveis por
ficou-se retenção primária de cobre e citoplasmáticas em hepatócitos e célu- processos crônicos hepáticos nos cães 27.
relação entre o acúmulo de cobre, o las de Kupfer 20. Hepatite crônica foi Infecções por leptospiras “atípicas”
dano hepatocelular e a hepatite, mas que reproduzida experimentalmente em ani- podem ser uma importante e subesti-
a patogênese do processo é mais com- mais parcialmente imunizados e desa- mada causa de hepatite crônica em
plexa nessa raça do que nos bedlington fiados com o CAV-1 25. Apesar disso, a cães 1. Apesar da existência de vacinas
terriers 12. detecção da presença do CAV-1 em teci- contra a Leptospira interrogans soro-
Hepatite crônica relacionada ao acú- dos hepáticos de cães com hepatite grupos canicola e icterohaemorrhagiae
mulo de cobre também foi descrita em crônica e cirrose pela técnica de PCR e para cães, estudos recentes demos-
dálmatas e, com base na apresentação imuno-histoquímica demonstrou resul- traram a emergência da doença associ-
clínica, na concentração de cobre hepá- tados contraditórios. Pela técnica de ada a outros sorogrupos 1, como
tico e nos achados histopatológicos, foi PCR esse agente não foi identificado 22, Leptospira interrogans sorogrupo
sugerido que essa raça pode apresentar e nas marcações imuno-histoquímicas grippotyphossa 28.
um defeito primário, de origem familiar houve uma variação de positividade Foi relatado um surto de hepatite
e ainda não esclarecido, no metabolis- para CAV-1 de 15 a 21% dos casos estu- crônica, causada por leptospiras, em
mo de cobre 16. dados 3,19,20. A infecção pelo adenovírus uma colônia de beagles jovens. Os au-
Sendo assim, excetuando os bedlington canino difere da infecção pelo vírus da tores sugerem que animais parcial-
terriers, o papel do acúmulo de cobre hepatite B em humanos: nos cães, o mente imunizados para a leptospirose
hepático no estabelecimento do pro- adenovírus poder ser encontrado no podem desenvolver hepatites crônicas,
cesso de hepatite crônica nos cães con- fígado apenas quatro a oito dias após a particularmente quando infectados por
tinua controverso e tem-se por consenso infecção; já em humanos, o vírus da sorovares atípicos, não presentes nas
que, na maioria das raças, esse acúmulo hepatite B pode ser detectado vários vacinas usuais 18. Em outro relato, cinco
é mais uma conseqüência de processos meses após a infecção. Sendo assim, e cães da raça fox hound americano de
colestáticos do que realmente o agente considerando que a doença canina pode um mesmo canil foram diagnosticados
causal da lesão hepática 1, sempre tendo progredir por meses, o diagnóstico re- com hepatite crônica ativa sendo
em mente que, por si só, o cobre pode trospectivo de hepatites crônicas por encontrados espiroquetas no tecido
ser efetivamente hepatotóxico. adenovírus canino é dificultado 1. hepático corado com Warthin-Starry, e
Outro agente viral causador de hepa- títulos elevados de anticorpos contra
Hepatites infecciosas tite aguda, persistente e crônica foi pro- Leptospira interrogans sorogrupo
Ao contrário do que ocorre nos ho- posto e nomeado “vírus de células aci- grippotyphossa 17.
mens, a busca por agentes infecciosos dófilas” com base na intensa acidofilia Outros agentes bacterianos, como o
causadores de hepatites crônicas nos citoplasmática dos hepatócitos dos ani- Helicobacter, têm sido investigados
cães não tem mostrado bons resultados 1. mais afetados 21. Os animais estudados como causadores de hepatites tanto no
Dentre os agentes infecciosos cau- eram oriundos de uma região que apre- homem como em animais uma vez que
sadores de hepatites crônicas conheci- senta incidência alta de carcinomas he- espécies de Helicobacters resistentes à
dos estão a Leptospira sp. 17,18, o vírus da patocelulares em cães 21. O vírus foi bile podem causar hepatites em roedo-
hepatite infecciosa canina, o adenovírus transmitido por injeções subcutâneas de res 29. Um caso de hepatite necrotizante
canino tipo 1 (CAV-1) 19,20 e o agente da homogenado hepático e soro sangüíneo associada à infecção por Helicobacter
hepatite canina de células acidófilas, de cães doentes, e foi aparentemente canis em um filhote de cão foi relatado,
vírus não isolado até o presente 21. capaz de produzir hepatite crônica ca- ressaltando a necessidade de investi-
Apesar da etiolgia ser desconhecida racterizada por morte de hepatócitos e gações mais profundas sobre o papel
na grande maioria dos casos de hepatite fibrose, mas com alterações inflamató- desse agente nas hepatites caninas 9.
canina, os sinais clínicos, o curso da rias esparsas 26. Os animais afetados Recentemente, foi descrita a presença
doença e as características histológicas apresentaram sinais clínicos típicos de de alterações hepáticas em animais
são similares às hepatites que acometem disfunção hepática, elevações intermi- infectados com protozoários do gênero
humanos, cuja etiologia geralmente é tentes das concentrções séricas de enzi- Leishmania infantum de três padrões
viral 22. mas hepáticas (alaninoaminotransferase histopatológicos diferentes, o que de-
O vírus da hepatite B humana é um [ALT] e aspartatoaminotransferase monstra a capacidade que esse agente
vírus hepatotrópico que pertence à famí- [AST]), e em alguns o curso da doença tem de causar hepatites crônicas, e a
lia dos hepadnavírus 1. Hepadnaviroses foi prolongado, de até dois anos 26. Na evolução da doença por ele provocada 30.
associadas a hepatites foram identificadas época foi proposto que esta seria a mais Apesar dos agentes etiológicos acima

54 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


descritos, sem contar o adenovírus cani- Há relato sobre 18 cães que recebe- oxibendazol; na amostra estudada, 50%
no, ainda se sabe muito pouco sobre ram tratamento anticolvulsivante com dos animais afetados eram da raça
outros agentes infecciosos causadores fenobarbital durante cinco a 82 meses doberman pinscher, o que levou à con-
de hepatites agudas e crônicas 2. Isso (média de 39 meses), e que apresen- clusão de que os doberman pinschers
fica evidenciado em trabalho recente, taram doença hepática crônica 31. Apesar podem apresentar predisposição à hepa-
em que se utilizou a técnica de PCR dos trabalhos descritos, o verdadeiro totoxicidade por dietilcarbamizina e
para identificar possíveis agentes in- papel do tratamento prolongado com oxibendazol 38.
fecciosos (hepdnavírus, vírus da hepati- fenobarbital como causador de hepatite Algumas micotoxinas, incluindo as
te A, C e E, adenovírus canino, par- crônica não está bem definido, uma vez aflatoxinas, dependendo da dose ingeri-
vovírus canino, Helicobacter spp, que alguns animais apresentam valores da e do tempo de exposição, podem
Leptospira spp. e Borrelia spp) em 98 séricos de enzimas hepáticas (principal- causar doença hepática aguda e crônica
amostras de fígado de cães com hepa- mente ALT e FA [fosfatase alcalina]) em cães 40. Os cães são mais comumente
tite. Os autores não conseguiram detectar aumentados, mas não apresentam sinais expostos a alimentos contaminados do
nenhum desses agentes por essa técnica, clínicos. Isso pode ser explicado pela que os homens, então é possível que
com exceção de dois casos de hepatite capacidade que o fenobarbital teria de alguns casos de hepatites crônicas ocor-
aguda que foram positivos para par- aumentar a produção dessas enzimas ram devido à ingestão de toxinas não
vovírus, mas os animais apresentavam nos hepatócitos, levando assim ao au- identificadas 1.
quadro clínico de parvovirose. Sendo mento das concentrações séricas de Uma grande variedade de fármacos
assim, concluíram que as hepatites nos ALT e FA sem causar lesão hepatocelu- tem sido descrita como causadora de
cães possivelmente não são causadas lar 33,34,35. Porém, essa hipótese de indu- reações adversas hepáticas tanto em
pelos agentes que provocam a doença ção das enzimas hepáticas pela terapia homens como em cães. Dessa forma, a
em outras espécies 22. com fenobarbital ainda não foi compro- reação a medicamentos deve ser consi-
vada. derada em todos os cães com hepatites
Hepatites induzidas por tóxicos ou Em trabalho recente, os autores crônicas expostos a tratamentos de qual-
fármacos observaram que animais tratados com quer tipo durante um longo período 1.
A maioria das reações hepáticas fenobarbital apresentavam lesões histo- Entretanto, em homens, o diagnóstico
induzidas por fármacos em animais de patológicas hepáticas significativamen- incorreto desse tipo de reação adversa
companhia é resultado de dano hepático te mais graves do que os indivíduos do pode levar à interrupção desnecessária
tóxico direto, e não se deve a resposta grupo controle, e que o aumento da con- de tratamentos 31. A doença hepática
imunológica aos metabólitos tóxicos 10. centração sérica de ALT e FA não pode- deve ser classificada como reação a fár-
A interação entre fatores relacionados ria ser associado à indução hepática macos quando existir relação temporal
ao hospedeiro e características quími- dessas enzimas 36. clara com a administração do medica-
cas dos fármacos predispõe o indivíduo Esse quadro traz problemas aos clíni- mento, e depois da exclusão de outras
ao desenvolvimento de hepatopatias cos que se deparam com cães que rece- doenças hepáticas 31. No entanto, essa
tóxicas 10. bem tratamento anticolvulsivante com exclusão se torna difícil nas hepatites
Mulheres e fêmeas têm maior predis- fenobarbital sem sinais clínicos de caninas 1.
posição a desenvolver reações hepáticas doença hepática, mas que apresentam A exposição de cães a substâncias
tóxicas, o que é atribuído à grande con- aumento da atividade sérica de enzimas químicas provenientes de contaminação
centração que possuem de diferentes hepáticas, pois cria um dilema quanto à ambiental, bem como a contaminação
isotipos de enzimas hepáticas, que po- interrupção ou não do tratamento 36. acidental com produtos residenciais,
dem gerar metabólitos tóxicos 10. Há relatos de hepatites crônicas cau- pode causar hepatite aguda fulminate ou
Reações a toxinas e fármacos geral- sadas pela administração de dois antipa- hepatite crônica 27,41. Fatores como sus-
mente causam hepatites agudas e necro- rasitários – dietilcarbamizina e oxiben- ceptibilidade individual, estado nutri-
tizantes, porém em alguns casos podem dazol 37 – concomitantemente. A asso- cional, tipo de toxina, dose, duração da
evoluir para hepatites crônicas 1. A asso- ciação desses dois fármacos é utilizada exposição e presença de doença hepáti-
ciação entre a utilização de medicamen- na profilaxia de infecções por dirofilá- ca concomitante influenciam a insta-
tos anticonvulsivantes, como fenobarbi- ria, e pode ser responsável por hepato- lação do processo tóxico hepático de
tal e primidona, e o desenvolvimento de patias crônicas em cães susceptíveis 38,39. forma aguda ou crônica 41. Entre as subs-
doenças hepáticas crônicas em alguns Foram descritos treze casos de hepato- tâncias químicas hepatotóxicas estão os
cães é bem conhecida 31. A longo prazo, patias causadas pela utilização desses solventes orgânicos, como o tetracloro-
a terapia com anticonvulsivantes pode fármacos, sendo que seis cães afetados etileno presente em produtos de limpeza
levar ao desenvolvimento de disfunção apresentaram anormalidades persisten- e o tolueno presente em tintas de pintu-
hepática, hepatite crônica periportal e tes no perfíl bioquímico hepático depois ra, os pesticidas organoclorados e os
cirrose 28. A reação à primidona, sozinha de cessado o tratamento, o que levou os metais pesados, como chumbo, mer-
ou em associação com outros anticon- autores a suspeitarem do desenvolvi- cúrio, cobre e ferro 39.
vulsivantes, é a mais relatada, mas a mento de doença hepática crônica 8.
fentoína e o fenobarbital também já fo- Em outro trabalho, são relatados dez Hepatites associadas a distúrbios
ram apontados como causadores de casos de hepatopatias causadas pela metabólicos
doença hepática crônica 28,32. administração de dietilcarbamizina e Outra causa relativamente comum de

56 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


hepatites crônicas no homem é a defi- anticorpos circulantes no soro de 36 a sua progressão para fibrose hepática.
ciência de alfa-1 anti-tripsina (ATT) 1, cães com diferentes doenças hepáticas, A definição e o diagnóstico de agentes
uma enzima inibidora de protease circu- e encontrada variedade muito grande de etiológicos específicos causadores de
lante altamente polimórfica que inativa autoanticorpos em comparação com os hepatite crônica em cães poderiam pos-
a elastase dos neutrófilos e outras pro- anticorpos encontrados na doença hepá- sibilitar, como ocorreu na medicina
teases 42. Nos homens, a deficiência con- tica autoimune dos homens 45. Obser- humana após a descoberta das hepatites
gênita de AAT comum em indivíduos vou-se também resposta inespecífica, o virais, a utilização de terapias mais efe-
caucasianos deve-se a alterações genéti- que sugere que os autoanticorpos não tivas, principalmente no que se refere à
cas, e decorre da produção de variantes seriam úteis para diagnosticar as hepa- remoção do agente etiológico ou, quan-
aberrantes da inibidora de proteases por tites autoimunes em cães 45. do isso não for possível, ao controle da
secreção defeituosa no fígado 43,44. Como Outros autores investigaram a res- progressão da doença, aumentando
resultado, nos indivíduos homozigóti- posta de células mononucleares da cir- assim a expectativa de vida dos pa-
cos a concentração plasmática de AAT é culação periférica às proteínas de mem- cientes hepatopatas crônicos. Outro
15% maior do que o normal e acumula- brana hepática em cães com hepatite ponto importante é o entendimento da
se no retículo endoplasmático rugoso crônica e lesões hepáticas crônicas não história natural dessas hepatites, o que
dos hepatócitos, resultando no desen- inflamatórias, e concluíram que os cães poderia levar a meios profiláticos mais
volvimento de hepatites crônicas na com hepatite crônica apresentaram adequados e ao estabelecimento de um
maioria dos casos 42,43. Essa doença, que resposta maior a essas proteínas. Ainda prognóstico mais acurado.
apresenta caráter recessivo, tem pro- assim, não foram capazes de definir se Futuras pesquisas na tentativa de
gressão variável e alguns indivíduos essa resposta era primária ou secundária melhor entender e tratar as hepatites
chegam a desenvolver carcinomas he- à lesão hepática 46. crônicas devem levar em consideração
patocelulares 43. Na hepatite crônica dos dobermans, alguns aspectos, como: (1) conhecer os
Estudos conduzidos em uma grande foi demonstrado aumento na expressão mecanismos que promovem a perda da
variedade de raças de cães, mas particu- de moléculas de MHC classe II nos he- capacidade de regeneração e instalação
larmente no cocker spaniel, não de- patócitos 47. Essa molécula normalmente da fibrose no fígado, esclarecendo a
monstraram indivíduos com baixas con- não é expressa por hepatócitos, e está interação entre fatores de crescimento e
centrações de AAT no plasma, embora relacionada a respostas autoimunes 47. citocinas no controle desse processo; (2)
na maioria dos animais as concentra- Tal achado, associado a um intenso in- entender os aspectos etiológicos das
ções estivessem de fato aumentadas, filtrado inflamatório mononuclear hepatites caninas pois, como demons-
pois a AAT também é uma proteína de observado, levou os autores a concluir trado anteriormente, sabe-se muito
fase aguda 42. Apesar disso, foram iden- que essa forma de hepatite crônica nos pouco sobre outros agentes infecciosos
tificados três diferentes subtipos de dobermans provavelmente tem uma envolvidos na patogênese desse proces-
AAT em cães com hepatites crônicas, causa autoimune, sendo os antígenos so; (3) reconhecer as bases genéticas
sendo que dois desses subtipos pos- originados nos próprios hepatócitos 47. que levam a predisposições raciais à
suiam tendência a se acumular nos he- Intrigantemente, hepatites crônicas hepatite e (4) desenvolver terapias
patócitos causando a morte 42. Os auto- em cães têm sido observadas em asso- avaliadas cientificamente com o auxílio
res especularam que o acúmulo de AAT ciação a doenças imunomediadas como de estudos aleatorizados, duplo cegos e
no fígado pode contribuir para a pro- anemia hemolítica, glomerulonefrite, controlados por placebo, ao invés de
gressão das hepatites crônicas, mas não lupus eritematoso sistêmico, poliartrites utilizar terapias baseadas exclusiva-
deve ser responsabilizado pelo início da e doença de Bowel; sugerindo que algu- mente em conhecimentos empíricos.
lesão, e que uma deficiência verdadeira mas hepatopatias podem ser reflexo de
de AAT, análoga àquela da doença resposta imunológica anormal mais REFERÊNCIAS
humana, ainda não foi identificada em generalizada 45, assemelhando-se às he- 01-WATSON, P. J. Chronic hepatitis in dogs: a
cães 42. patites autoimunes tipo II dos homens 1. review of current understanding of aetiology,
progression, and treatment. The Veterinary
Journal. v. 167. n. 3, p. 228-241, 2004.
Hepatites autoimunes CONSIDERAÇÕES FINAIS 02-ROTHUIZEN, J. Canine chronic liver disease:
Os processos autoimunes, importante Embora a hepatite crônica seja uma where are we now? Four pointers for future
causa de hepatites não virais no homem, das enfermidades caninas mais freqüen- research. The Veterinary Journal. v. 167, n. 3,
p. 219, 2004.
não foram demonstrados nos cães, ape- tes, não é apenas uma doença mas o re-
03-TOSTES, R. A. ; BANDARRA, E. P. Aspectos
sar da realização de vários estudos para sultado de diferentes etiologias que etiológicos, epidemiológicos e patológicos das
investigar o assunto1. lesam o fígado cronicamente. Indepen- hepatites crônicas em cães. MedveP - Revista
Pesquisas procurando anticorpos cir- dentemente da causa, as hepatites crôni- cientifica de Medicina veterinária. v. 2, n. 4,
p. 67-72, 2004.
culantes associados ao fígado foram cas são caracterizadas pela perda da ca-
04-THORNBURG, L. P. A study of canine
realizadas em cães, porém nenhuma pacidade regenerativa do fígado em hepatobiliary disease, part 3: hepatitis e cirrhosis.
delas respondeu à principal pergunta: se combinação com fibrose. Companion Animal Practice. v. 2, p. 17-20, 1988.
a resposta imunológica observada é a Atualmente, na medicina veterinária, 05-STROMBECK, D. R. ; MILLER, L. M. ;
causa primária da doença ou um fenô- o tratamento das hepatites crônicas ca- HARROLD, D. Effects of corticosteroid
treatment on survival time in dogs with chronic
meno secundário 45,46. ninas tem caráter meramente paliativo, hepatitis: 151 cases (1977-1985). Journal of
Em um trabalho, foram procurados concentrando-se basicamente em evitar American Veterinary Medical Association.

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 57


v. 193, p. 1109-13, 1998. 20-CHOUINARD, L. ; MARTINEAU, D. ; Association. v. 207, n. 10, p. 1305-1307, 1995.
06-BOOMKENS, S. Y. ; PENNING, L. C. ; FORGET, C. ; GIRARD. C. Use of polymerase 34-MÜLLER, P. B. ; TABOADA, J. ; HOSGOOD,
EGBERINK, H. F. ; INGH, T. S. G. A. M. van chain reaction and immunohistochemistry for G. ; PARTINGTON, B. P. ;
den ; ROTHUIZEN, J. Hepatitis with special detection of canine adenovirus type 1 in VANSTEENHOUSE, J. L. ; TAYLOR, H. W. ;
reference to dogs. A review on the pathogenesis formalin-fixed, paraffin-embedded liver of dogs WOLFSHEIMER, K. J. Effects of long-term
and infectious etiologies, including unpublished with chronic hepatitis or cirrhosis. Journal of phenobarbital treatment on the liver in dogs.
results of recent own studies. Veterinary Veterinary Diagnostic Investigation. v. 10, n. 4, Journal of Veterinary Internal Medicine. v. 14,
Quarterly. v. 26, n. 3, p. 107-114, 2004. p. 320-325, 1998. n. 2, p. 165-171, 2000.
07-ANDERSSON, M. ; SEVELIUS, E. Breed, sex 21-JARRETT, W. F. ; O'NEIL, B. W. A new 35-FOSTER, S. F. ; CHURCH, D. B. ; WATSON, A.
and age distribution in dogs with chronic liver transmissible agent causing acute hepatitis, D. J. Effects of phenobarbitone on serum
disease: a demographic study. Journal of Small chronic hepatitis and cirrhosis in dogs.
biochemical tests in dogs. Australian
Animal Practice. v. 32, p. 1-5, 1991. Veterinary Record. v. 116, n. 24, p. 629-635,
Veterinary Journal. v. 78, p. 23-26, 2001.
1985.
08-HARDY, R. M. Chronic hepatitis: an emerging 36-GASKILL, C. L. ; MILLER , L. M. ; MATTOON,
syndrome in dogs. Veterinary Clinics of North 22-BOOMKENS, S. Y. ; SLUMP, E. ; EGBERINK,
H. F. ; ROTHUIZEN, J. ; PENNING, L. C. PCR J. S. ; HOFFMANN, W. E. ; BURTON, S. A. ;
America Small Animal Practice. v. 15, p. 135- GELENS, H. C. J. ; IHLE, S. L. ; MILLER, J. B. ;
50, 1985. screening for candidate etiological agents of
canine hepatitis. Veterinary Microbiology. SHAW, D. H. ; CRIBB, A. E. Liver histopathology
09-CENTER, S. A. Chronic liver disease in the dog: v. 108, n. 1-2, p. 49-55, 2005. and liver and serum alanine aminotransferase and
important concepts and menagment alkaline phosphatase activities in epileptic dogs
considerations. In: WALTHAM SYMPOSIUM 23-HOLLINGER, F. B. ; LIANG, T. J. Hepatitis B receiving phenobarbital. Veterinary Patholology.
LIVER DISEASE - PRACTICAL virus. In: KNIPE, D. M. ; HOWLEY, P. M.
v. 42, p. 147-160, 2005.
PROSPECTIVES, 1996, Birmingham. Fields virology. 4. ed. Philadelphia: Lippincott
Williams, 2001. p. 2971-3036. 37-HARDY, R, M. ; O'BRIEN, T. ; ADAMS, L. G. ;
Proceedings... Birmingham: BSAVA, 1996. POLZIN, D. J. ; REIDARSON, T. Periportal
p. 20-41. 24-GUMMERLOCK, P. H. ; KRAEGEL, S. A. ;
MADEWELL, B. R. Detection of mammalian hepatitis associated with the use of a
10-THORNBURG, L. P. ; ROTTINGHAUS, G. ; heartworm-hookworm preventative (diethyl-
and avian hepadnaviruses by polymerase chain
DENNIS, G. ; CRAWFORD, S. The relationship carbamazine-oxibendazole) in thirteen dogs.
reaction. Veterinary Microbiology. v. 32, n. 3-4,
between hepatic copper content and Journal of American Animal Hospital
p. 273-280, 1992.
morphologic changes in the liver of West Association. v. 25, p. 419-429, 1989.
Highland White Terriers. Veterinary Pathology. 25-GOCKE, D. J. ; PRESIG, R. ; MORRIS, T. Q. ;
MCKAY, D. G. ; BRADLEY, S. E. Experimental 38-BUNCH, S. E. Hepatotoxicity associated with
v. 33, n. 6, p. 656-661, 1996. pharmacologic agents in dogs and cats.
viral hepatitis in the dog: production of persistent
11-SPEETI, M. ; ERIKSSON, J. ; SAARI, S. ; Veterinary Clinics of North America - Smal
disease in partially immune animals. Journal of
WESTERMARCK, E. Lesions of subclinical Animal Practice. v. 23, n. 3, p. 659-670, 1993.
Clinical Investigation. v. 46, n. 9, p. 1506-1517,
doberman hepatitis. Veterinary Pathology. v. 35, 1967. 39-WATSON, P. Diseases of the liver. in: HALL, E.
n. 6, p. 361-369, 1998.
26-JARRET, W. F. H. ; O'NEIL, B. W. ; J. ; SIMPSON, J. W. ; WILLIAMS, D. A.;
12-MANDIGERS, P. J. J. ; INGH, T. S. G. A. M. van LINDHOLM, I. Persitent hepatitis and chronic BSAVA manual of canine and feline
den ; SPEE, B. ; PENINNING, L. C. ; BODE, P. ; fibrosis induced by canine acidophil cell gastroenterology. 2. ed. Iowa: Blackwell
ROTHUIZEN, J. Chronic hepatitis in Doberman hepatitis virus. Veterinary Record. v. 120, Publishing, 2005. p. 320.
Pinchers. A review. Veterinary Quarterly. v. 26, p. 234-235, 1987. 40-LITTLE, C. J. L. ; MACNEIL, P. E. ; ROBB, J.
n. 3, p. 98-106, 2004.
27-STROMBECK, D. R. ; CENTER, S. A. ; Hepatopathy and dermatitis in a dog associated
13-MCGROTTY, Y. L. ; RAMSEY, I. K. ; GUILFORD, W. G. ; WILLIAMS, D. A. ; with the ingestion of mycotoxins. Journal of
KNOTTENBELT, C. M. Diagnosis and MEYER, D. J. Chronic liver disease. In: Small Animal Practice. v. 32, p. 23-26, 1991.
management of hepatic copper accumulation in Strombeck's small animal gastroenterology.
Skye terrier. Journal of Small Animal Practice. 41-ANDERSON, N. V. Liver and biliary tract. in:
3. ed. Philadelphia: Saunders, 1996. p. 705-765. ANDERSON, N. V. Veterinary gastroenterology.
v. 44, n. 2, p. 85-89, 2003.
28-DILL-MACKY, E. Chronic hepatitis in dogs. 2. ed. Philadelphia: Lea & Febiger, 1992. p. 508-559.
14-THORNBURG, L. P. A perspective on copper Veterinary Clinics of North America Small
and liver disease in the dog. Journal of 42-SEVELIUS, E. ; ANDERSSON, M. ; JÖNSSON,
Animal Practice. v. 25, p. 387-398, 1995. L. Hepatic accumulation of alpha-1-antitrypsin
Veterinary Diagnostic Investigation. v. 12, n. 2,
29-NILSSON, I. ; LINDGREN, S. ; ERIKSSON, S. ; in chronic liver disease in the dog. Journal of
p. 101-110, 2000.
WADSTROM, T. Serum antibodies to Comparative Pathology. v. 111, n. 4, p. 401-412,
15-FUENTEALBA, C. ; GUEST, S. ; HAYWOOD, Helicobacter hepaticus and helicobacter pylori 1994.
S. ; HORNEY, B. Chronic hepatitis: a in patients with chronic liver disease. Gut. v. 46,
retrospective study in 34 dogs. Canadian 43-HIBBITS, K. ; HINES, B. ; WILLIAMS, D. An
p. 410-414, 2000. overview of proteinase inhibitors. Journal of
Veterinary Journal. v. 38, n. 6, p. 365-373, 1997.
30-RALLIS, T. ; DAY, M. J. ; SARIDOMICHELAKIS, Veterinary Internal Medicine. v. 13, p. 302-
16-WEBB C. B. ; TWEDT, D. C. ; MEYER, D. J. M. N. ; ADAMAMA-MORAITOU, K. K. ; 308, 1999.
Copper-associated liver disease in Dalmatians: a PAPAZOGLOU, L. ; FYTIANOU, A. ;
review of 10 dogs (1998-2001). Journal of 44-ERIKSSON, S. ; CARLSON, J. ; VELEZ, R.
KOUTINAS, A. F. Chronic hepatitis associated
Veterinary Internal Medicine. v. 16, n. 6, with canine leishmaniosis (Leishmania infantum): Risk of cirrhosis and primary liver cancer in
p. 665-668, 2002. a clinicopathological study of 26 cases. Journal of alpha-1-antitrypsin deficiency. The New
17-BISHOP, L. ; STRANDBERG, J. D. ; ADAMS, Comparative Pathology. v. 132, n. 2-3, p. 145- England Journal of Medicine. v. 314, n. 12,
R. J. ; BROWNSTEIN, D. G. , PATTERSON, R. 152, 2005. p. 736-739, 1986.
Chronic active hepatitis in dogs associated with 31-DARYELL-HART, B. ; STEINBERG, S. A. ; 45-ANDERSSON, M. ; SEVELIUS, E. Circulating
leptospires. American Journal of Veterinary VANWINKLE, T. J. ; FARNBACH, G. C. autoantibodies in the dogs with chronic liver
Research. v. 40, n. 6, p. 839-844, 1979. Hepatotoxicity of phenobarbitol in dogs: 18 disease. Journal of Small Animal Practice.
18-ADAMUS, C. ; BUGGIN-DAUBIE, M. ; cases 1985-1989. Journal of the American v. 33, p. 389-394, 1992.
IZEMBART, A. ; SONRIER-PIERRE, C. ; Veterinary Medical Association. v. 199, n. 8, 46-POITOUT, F. ; WEISS, D. J. ; ARMSTRONG, P.
GUIGAND, L. ; MASSON, M. T. ; p. 1060-1066, 1991. J. Cell-mediated immune responses to liver
ANDRE-FONTAINE, G. ; WYERS, M. Chronic 32-AITHAL, G. P. ; RAWLINS, M. D. ; DAY, C. P. membrane protein in canine chronic hepatitis.
hepatitis associated with leptospiral infection in Accuracy of hepatic adverse drug reaction Veterinary Immunology and Immunopathology.
vaccinated beagles. Journal of Comparative reporting in one English health region. British v. 57, n. 3-4, p. 169-178, 1997.
Pathology. v. 117, p. 311-328, 1997. Medical Journal. v. 319, n. 7224, p. 1541, 1999. 47-SPEETI, M. ; STAHLS, A. ; MERI, S. ;
19-RAKICH, P. M. ; PRASSE, K. W. ; LUKERT, P. 33-CHAUVET, A. E. ; FELDMAN, E. C. ; KASS, P. WESTERMARCK, E. Upregulation of major
D. ; CORNELIUS, L. M. Immunohistochemical H. Effects of phenobarbital administration on histocompatibility complex class II antigens in
detection of canine adenovirus in paraffin results of serum biochemical analyses and hepattocytes in Doberman hepatitis. Veterinary
sections of liver. Veterinary Pathology. v. 23, adrenocortical function tests in epileptic dogs. Immunology and Immunopathology. v. 96,
n. 4, p. 478-484, 1986. Journal of the American Veterinary Medical n. 1-2, p. 1-12, 2003.

58 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Paulo Eduardo Ferian
Hemorragia de involução MV, MSc, prof.
FEAD
tímica em uma cadela - paulo.ferian@fead.br

Eliana Matias de Souza


relato de caso MV, MSc
HV/UFMG
elimatias@yahoo.com.br

Thymic involution hemorrhage in a bitch - Euler Fraga Silva


MV, MSc
case report HV/UFMG
eulerfragasilva@pop.com.br

Patrícia Coutinho de Souza


Hemorragia de involución del timo en una MV, residente
HV/UFMG
perra - relato de caso patriciacsouza@yahoo.com.br

Roberto Maurício de Carvalho Guedes


Resumo: A hemorragia de involução tímica é uma doença que ocorre em cães jovens, ocasionando hemotórax e perda
sangüínea aguda. A etiopatogenia da doença permanece obscura, mas acredita-se que possa ocorrer de maneira espontânea MV, prof. adj. dr.
ou associada a traumas e distúrbios de coagulação. A grande maioria dos casos relatados evoluiu para o óbito, mas o Depto. Patologia Veterinária - UFMG
diagnóstico e o tratamento clínico e cirúrgico de alguns casos resultaram em completa recuperação do paciente. O objetivo do guedes@vet.ufmg.br
presente trabalho é relatar o caso de uma cadela Whipet, de seis meses de idade, que apresentou quadro clínico de dificuldade
respiratória aguda e presença de massa mediastínica, evoluindo rapidamente para óbito. À necropsia foi observado grande
coágulo em mediastino cranial e hemotórax. Renato César Sacchetto Tôrres
Unitermos: cães, hemotórax, timo MV, prof. adj. dr.
Depto. Clínica e Cirurgia Veterinárias - UFMG
Abstract: Thymic involution hemorrhage is a disease that affects young dogs and is associated with hemothorax and acute rtorres@vet.ufmg.br
bleeding. The physiopathology of the disease remains unclear, but it is thought to be either a spontaneous event or associated
with trauma and coagulopathy. It is a fatal disease in most cases, although there are sporadic reports of complete recovery
following diagnosis, clinical and surgical treatment. The aim of this study is to describe the case of a six-month-old whippet bitch Roberto Baracat de Araújo
presented with acute respiratory distress and mediastinal mass that died quickly thereafter. Post-mortem evaluation showed a MV, prof. adj. dr.
large clot in the cranial mediastinum and hemothorax
Keywords: dogs, hemothorax, thymus
Depto. Clínica e Cirurgia Veterinárias - UFMG
baracat@vet.ufmg.br

Resumen: La hemorragia de involución del timo es una enfermedad que ocurre en perros jóvenes, resultando en hemotórax
y pérdida aguda de sangre. La etiología de la enfermedad es todavía desconocida, pero se cree que ocurra de manera Marília Martins Melo
espontánea o asociada a traumas o disturbios de coagulación. La mayor parte de los casos referidos resultó en muerte, pero MV, profa. adj. dra.
el diagnóstico y terapia clínica y quirúrgica de algunos casos resultaron en total recuperación del paciente. El objetivo de este Depto. Clínica e Cirurgia Veterinárias - UFMG
trabajo es reportar el caso de una perra Whipet, de seis meses de edad, que presentó un cuadro clínico de dificultad marilia@vet.ufmg.br
respiratoria aguda con presencia de masa mediastínica, que evolucionó muy rápido hasta causarle la muerte. En el examen
necroscópico se observó un gran coágulo en mediastino craneal y hemotórax.
Palabras clave: perros, hemotórax, timo

Clínica Veterinária, n. 75, p. 60-62, 2008

Introdução uma condição que acomete cães jo- Os sinais clínicos da doença incluem
O timo é um órgão de grande vens no período de involução do timo, dispnéia, taquipnéia, depressão, anore-
importância imunológica, sendo o local ocasionando sinais sistêmicos associa- xia, mucosas pálidas e pulso fraco.
de maturação de células T no organis- dos à perda sangüínea e à efusão pleural Grande parte desses pacientes evolui
mo. Em cães, o timo involui entre seis (pneumopatia restritiva). Os primeiros para o óbito em menos de 24 horas a
meses e dois anos de idade 1. casos da afecção foram descritos em contar do início dos sintomas. Contudo,
A hemorragia tímica associada com o 1975 4, e desde então relatos sobre a os tratamentos clínico e cirúrgico
desenvolvimento de hemotórax é uma afecção têm sido publicados, totali- podem ser efetivos na estabilização e
doença na maioria dos casos fatal, que zando cerca de 70 casos, todos eles completa recuperação do animal. Foram
acomete cães jovens, em geral até os diagnosticados à necropsia 5,6,7,8. A maio- descritos dois casos nos quais a terapia
dois anos de idade, período de invo- ria dos animais descritos não apresenta- com vitamina K1 e toracocentese para
lução do timo. 2,3 va evidência de trauma, distúrbios de drenagem do sangue (caso 1), e a trans-
O objetivo deste trabalho é abordar coagulação ou ingestão de rodenticidas, fusão sangüínea associada à aplicação
aspectos etiológicos, fisiopatológicos, além de não ter hemorragias em outros de vitamina K1 (caso 2) foram efetivas
clínicos e de tratamento da hemorragia locais do corpo. A causa do sangramen- na completa recuperação dos pacientes 3.
de involução do timo, assim como to espontâneo ainda é obscura, sendo Outro autor também relatou o sucesso
descrever um caso da afecção em uma sugerido um aumento da fragilidade dos do tratamento de um cão com transfusão
cadela. vasos tímicos em função da substituição de sangue e administração de vitamina
do parênquima por tecido adiposo e K1 9. O tratamento cirúrgico também foi
Revisão de literatura conjuntivo no período de involução do efetivo em um caso, com a retirada de
A hemorragia de involução tímica é órgão 2. um grande hematoma do mediastino

60 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


cranial e colocação de dreno torácico 2.

Paulo Eduardo Ferian


Paulo Eduardo Ferian
Relato de caso
Uma cadela da raça whipet de seis
meses de idade, com histórico de episó-
dio agudo de angústia respiratória e apa-
tia havia menos de 10 horas, foi atendi-
da no Hospital Veterinário da Univer-
sidade Federal de Minas Gerais. O pro-
prietário negava qualquer possibilidade
de trauma torácico ou exposição a ve- Figura 1 - Exame radiográfico demonstrando
nenos. Ao exame físico observaram-se acentuado deslocamento ventral de traquéia e
mucosas moderadamente pálidas, hidra- esôfago (preenchido com contraste de bário)
em região de mediastino cranial, devido à pre-
tação, temperatura e linfonodos palpá- sença de massa. Observa-se discreta efusão
veis dentro da normalidade. O exame pleural (setas)
radiográfico demonstrou presença de Figura 2 - Exame radiográfico demonstrando
massa em região de mediastino cranial (setas)
massa em região de mediastino cranial,
com deslocamento ventral acentuado de

Paulo Eduardo Ferian


traquéia e esôfago, além de efusão pleu-
ral discreta (Figuras 1 e 2). O exame ul-

Paulo Eduardo Ferian


tra-sonográfico confirmou a presença
de líquido livre em tórax e foi observa-
da massa de ecogenicidade mista em
mediastino cranial, a qual se estendia até
a região subcutânea cervical (Figuras 3
e 4). O hemograma denotou anemia
discreta (hematócrito: 33%), leucoci-
tose por neutrofilia madura e discreta
eosinofilia (leucócitos totais: 23.000; Figura 3 - Exame ultra-sonográfico demons-
neutrófilos segmentados: 17.632; eosi- trando massa de ecogenicidade mista em
nófilos: 2.204). A contagem de plaque- mediastino cranial Figura 4 - Ultra-sonografia: efusão pleural
tas encontrava-se dentro dos limites da
normalidade.
O animal foi internado para fluidote- estendia da região cervical até o medias- constatada ainda a presença de hemo-
rapia e monitoração dos parâmetros tino cranial, apresentando cerca de tórax e pequeno hematoma em muscu-
vitais, evoluindo para o óbito no mesmo 20cm de extensão, aderida à parede latura de membro pélvico (Figura 5). O
dia. À necropsia foi observada uma torácica. Não havia qualquer evidência exame histopatológico da massa de-
massa de aspecto sanguinolento, que se de ruptura vascular ou trauma local. Foi monstrou presença de hemácias, fibrina

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 61


e macrófagos contendo hemossiderina.

Paulo Eduardo Ferian

Paulo Eduardo Ferian


Discussão
A hemorragia tímica idiopática é uma
afecção que acomete cães jovens em
período de involução tímica. Na grande
maioria dos casos não existe evidência
de distúrbios dos fatores de coagulação
ou plaquetas nesses pacientes. No en-
tanto, um trabalho que revisou dez
casos de necropsia constatou exame
toxicológico positivo para rodenticidas
em cinco destes dez. As hemorragias

Paulo Eduardo Ferian

Paulo Eduardo Ferian


sem causa definida foram atribuídas a
uma fragilidade aumentada dos vasos
tímicos em seu período de involução.
Partindo desse princípio, é provável que
cães que apresentem distúrbios de coa-
gulação (ex: ingestão de rodenticidas)
ou lesões traumáticas e estejam nessa
faixa etária desenvolvam com maior
facilidade hemorragia nessa região do
que em outros locais do organismo. No
presente caso, nenhuma associação
pode ser feita com traumas, intoxicação Figura 5 - Hematoma estendendo-se de região subcutânea cervical até mediastino cranial
por rodenticidas ou distúrbio sistêmico
de coagulação (ex: insuficiência hepáti-
ca aguda) uma vez que, embora a con- tímica idiopática ou com causa subja- v. 29, p. 489-491, 1993.
tagem plaquetária estivesse normal, não cente (como intoxicação por roden- 03-MALIK, R. ; DOWDEN, M. ; ALLAN, G. S.
Acute mediastinal haemorrhage and
foram realizados exames como tempo ticidas) possa influenciar o sucesso da haemothorax in young dogs - two suspected
de protrombina e tromboplastina parcial terapia. cases. Australian Veterinary Practice, v. 23,
ativada. Contudo, a presença de hemor- n. 3, p. 134-138, 1993.
ragia na musculatura de membro pélvi- Considerações finais 04-KOEHLER, H. Zum Auftreten toedlicher
A hemorragia tímica associada ao he- verbelutungen im thymusrestgewebebei hunden.
co sugere que poderia ter ocorrido Wien Tieraerztl Monatsschr, v. 62, n.9, p. 341-
algum distúrbio hemorrágico sistêmico. motórax é uma condição rara, mas de 345, 1975.
Apesar da evolução clínica aguda, extrema gravidade. Apesar de constata- 05-KOVACS, G. ; GLAVITS, R. ; MOLNAR, T.
evidências histológicas observadas, da e descrita em várias partes do mundo Belso elverzes involucioban levo
como macrófagos com hemossiderina e (Europa, Estados Unidos, Austrália), magzatmirigybol kutyaban. Magy Allatorv
Lapja, v.35, p. 102-105, 1980.
fibroangioplasia encontrados em gran- não foi encontrado nenhum relato da
06-KLOPFER, U. ; PERL, S. ; YAKOBSON, B. ;
de parte dos casos, assim como no pre- afecção na literatura nacional. NOBEL, T. A. Spontaneous fatal hemorrhage in
sente relato, sugerem um curso mais A despeito da fisiopatologia ainda the involuting thymus in dogs. Journal of the
antigo de hemorragia. A ausência de incerta, é provável que a condição ocor- American Animal Hospital Association, v. 21,
n. 2, p. 261-264, 1985.
tecido linfóide na avaliação histológica ra concomitantemente ou na ausência de
07-LINDE-SIPPIMAN, J. S. ; DIJK, J. E.
deve-se ao fato de apenas o coágulo de distúrbios de coagulação (hemorragia Hematomas in the thymus in dogs. Veterinary
grande dimensão (cerca de 20 cm) ter espontânea). O presente trabalho busca Pathology, v. 24, n.1, p. 59-61, 1987.
sido submetido ao corte. alertar o médico veterinário sobre o de- 08-BRADLEY, G. A. ; TYE, J. ; LOSANO-
A despeito da grande quantidade de senvolvimento dessa afecção em ani- ALARCON, F. ; NOON, T. ; BICKNELL, E. J. ;
casos fatais descritos, o diagnóstico pre- REGGIARDO, C. Hemopericardium in a dog
mais jovens, uma vez que a precocidade due to hemorrhage originating in a heart base
coce e o tratamento clínico e/ou cirúrgi- diagnóstica e a instituição imediata da thymic remnant. Journal of Veterinary
co podem ser suficientes para salvar o terapia podem ser decisivas na manu- Diagnostic Investigation, v. 4, p. 211-212, 1992.
paciente. É provável, contudo, que a tenção da vida do paciente. 09-COOLMAN, B. R. ; BREWER, W. G. ;
gravidade da hemorragia e as conse- D'ANDREA, G. H. ; LENZ, S. D. Severe
idiopathic thymic hemorrhage in two littermate
qüências clínicas variem entre os pacien- Referências dogs. Journal of American Veterinary Medical
tes, determinando diferentes prognós- 01-DAY, M. J. Review of thymic pathology in 30 Association, v. 205, n. 8, p. 1152-1153, 1994.
ticos. É possível que alguns cães desen- cats and 36 dogs. Journal of Small Animal 10-LIGGET, A. D. ; THOMPSON, L. J. ; FRAZIER,
Practice, v. 38, p. 393-403, 1997.
volvam hemorragias subclínicas (assin- K. S. ; STYER, E. L. ; SANGSTER, L. T.
tomáticas e de pequena gravidade) e se 02-GLAUS, T. M. ; RAWLINGS, C. A. ; Thymic hematoma in juvenile dogs associated
MAHAFFEY, E. A. ; MAHAFFEY, M. B. Acute with anticoagulant rodenticide toxicosis.
recuperem de forma espontânea e, além hemorrhage and hemothorax in a dog. Journal Journal of Veterinary Diagnostic
disso, que a presença de hemorragia of the American Animal Hospital Association, Investigation, v. 14, n. 5, p. 416-419, 2002.

62 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Francisco Assis Lima Costa
Glomerulonefrite no cão MV, prof. dr.
DCCV/CCA/UFPI
fassisle@gmail.com

Glomerulonephritis in dogs
Glomerulonefritis en el perro definição desses critérios, foi impor-
tante a publicação do “Handbook of
Resumo: A prevalência de glomerulonefrites na população canina vem aumentando consideravelmente. Mesmo com o adven- Kidney Nomenclature and Nosology” e
to de técnicas modernas de estudo, ainda há dificuldade em interpretar e classificar as glomerulonefrites na espécie canina. A
falta de critérios de classificação das glomerulonefrites no cão tem levado os pesquisadores a adotarem os critérios da do “International Collaborative Study
Organização Mundial de Saúde (OMS), elaborados para classificar as glomerulopatias no homem, como parâmetro para definir of Kidney Disease in Children” pelo
os tipos morfológicos de lesão glomerular na espécie canina. Esse fato limita o estudo das nefropatias no cão e dificulta o
entendimento da sua patogenia. Pouco se conhece sobre a patogênese da glomerulonefrite no cão mas, além do mecanismo Comitê Internacional para Nomenclatu-
imune humoral, existem fortes evidências de que o mecanismo imune celular também participe do processo de lesão glomeru- ra e Nosologia de Doença Renal. Com
lar secundária.
Unitermos: rim, nefropatia, glomérulo base nos critérios definidos, em 1974 a
Organização Mundial de Saúde (OMS)
Abstract: The occurrence of glomerulonephritis is increasing considerably among the canine population. In spite of modern
study techniques, it is still difficult to interpret and classify the disease in dogs. The lack of specific criteria has led researchers
estabeleceu um centro de colaboração
to adopt those that the World Health Organization (WHO) has developed for humans as parameters to define the morphologic para a classificação histológica das
types of glomerular injury in the canine species. This limits the study of this nephropathy in dogs and hinders the
understanding of its pathogenesis. Little is known about the pathogenesis of glomerulonephritis in dogs. In addition to humoral
doenças renais, com sede no Departa-
immune mechanisms, there is strong evidence that the cellular immune responses also participate in the process of secondary mento de Patologia da “Mount Sinai
glomerular injury.
Keywords: kidney, nephropathy, glomeruli
School of Medicine” da Universidade
de Nova York e sob a coordenação do
Resumen: En la población canina la prevalencia de glomerulonefritis viene aumentando considerablemente. Mismo con el dr. J. Churg. O centro trabalhou com
advenimiento de técnicas modernas de estudio, aún hay dificultades en interpretar y clasificar las glomerulonefritis en la
especie canina. La falta de criterios de clasificación de las glomerulonefritis en el perro ha llevado los investigadores a patologistas e nefrologistas de 14 paí-
adoptaren los criterios de la Organización Mundial de Salud (OMS), elaborados para clasificar las glomerulonefritis en el ses. A classificação levou em considera-
hombre, como parámetro para definir los tipos morfológicos de lesión glomerular en la especie canina. Ese hecho limita el
estudio de las nefropatías en perros y dificulta el entendimiento de su patogenia. Poco se conoce sobre la patogénesis de la ção os seguintes aspectos: a morfologia
glomerulonefritis en perros además del mecanismo inmune humoral, pero existen fuertes evidencias de que el mecanismo das lesões renais em tecidos corados por
inmune celular también participe del proceso de lesión glomerular secundaria.
Palabras clave: riñón, nefropatía, glomérulo técnicas histológicas especiais, como
ácido periódico de Schiff (PAS), tricrô-
Clínica Veterinária, n. 75, p. 64-72, 2008
mico de Masson (TM), ácido periódico
prata metanamine (PAMS) e imunoper-
oxidase; a presença de depósitos de
INTRODUÇÃO trombose em decorrência, provavel- imunoglobulinas (IgG, IgM, IgA) e
No passado recente, as glomerulone- mente, da hipoalbuminemia que é cau- complemento (C3) no glomérulo; e a
frites (GN) eram quase desconhecidas sada pela perda renal de grandes quanti- deposição de material eletrodenso na
ou não diagnosticadas nos animais 1 dades de antitrombina III 7,9,10,11. membrana basal glomerular 13. O empre-
mas, atualmente, sabe-se que são res- Mesmo com o advento de técnicas go dessas técnicas forneceu elementos
ponsáveis por substancial morbidade e modernas de estudo, ainda hoje há difi- mais adequados para o diagnóstico e
mortalidade em muitas espécies 2. A pre- culdade para interpretar e classificar as classificação das GN 8,14,15.
valência de GN vem aumentando consi- alterações glomerulares na espécie cani-
deravelmente na população canina 3, na. A falta de critérios padronizados li- CAUSAS DE
constituindo-se em causa comum de in- mita o estudo das nefropatias e faz com GLOMERULONEFRITES
suficiência renal crônica 4. A maior ocor- que as alterações renais nem sempre As GN primárias constituem um gru-
rência de GN no cão está na faixa etária sejam interpretadas e classificadas da po específico de doenças glomerulares
de oito a doze anos 2,3,4,5. forma mais adequada, dificultando o hereditárias causadas pela síntese defei-
Em doença glomerular com perda de entendimento da patogenia da doença. tuosa de colágeno tipo IV. Como na sín-
mais de 3/4 dos néfrons pode ocorrer in- No homem, avanços significativos drome de Alport no homem, a nefrite
suficiência renal com conseqüente pro- nessa área foram possíveis graças à in- hereditária no cão é causada por uma al-
teinúria, principalmente albuminúria trodução, em 1951, da técnica de biópsia teração autossômica recessiva que de-
que, na ausência de infecção das vias renal 12, metodologia raramente empre- termina um defeito no gene que codifi-
urinárias ou de sedimento na urina, evo- gada para o estudo das alterações renais ca a cadeia _5 do colágeno tipo IV (raça
lui para azotemia, polidipsia, poliúria, no cão. A biópsia disponibilizou ma- samoyeda) e a cadeia _3 ou _4 do colá-
anorexia, náusea e vômito 6,7,8. Se a pro- terial mais adequado para o acompanha- geno tipo IV (raça cocker spaniel) 16,17.
teinúria é suficientemente severa, maior mento da evolução do processo de com- A nefropatia juvenil é descrita em cães
que 3,5g/dL, promove a síndrome ne- prometimento renal e a interpretação das raças dálmata, cocker spaniel, beagle,
frótica, caracterizada por proteinúria se- da resposta aos tratamentos emprega- chow-chow e dobermann 18.
vera, hipoalbuminemia, ascite ou edema dos. No entanto, para melhor entendi- As GN secundárias se manifestam no
e hipercolesterolemia. As complicações mento das GN no homem, foram defini- quadro evolutivo de várias enfermida-
da GN, como hipertensão sistêmica e dos critérios de classificação que são des, como a leishmaniose visceral, a
hipercoagulabilidade, predispõem à adotados internacionalmente. Para a piometra, o lupus eritematoso sistêmico,

64 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


a dirofilariose, a hepatite canina infeccio- particularmente no cão 14,29. analisados por imunofluorescência ou
sa, a endocardite bacteriana, a defi- A falta de critérios de classificação imunoperoxidase. Ocorre fusão dos
ciência congênita de complemento e as morfológica das GN no cão tem levado pedicelos dos podócitos (Figura 1),
neoplasias 2,4,8,14,19,20,21,22,23,24,25. O mecanis- os pesquisadores a adotarem os critérios observada por microscopia eletrônica
mo pelo qual a doença primária leva à da Organização Mundial de Saúde de transmissão. Em 55 cães com leish-
GN ainda não está bem esclarecido, mas (OMS), elaborados para classificar as maniose visceral, esse padrão de altera-
a literatura básica sugere que, em cães, glomerulopatias no homem, como parâ- ção glomerular foi observado em oito
essa moléstia secundária é causada por metro para definir os tipos morfológicos animais (14,5%). Depósito granular de
complexo imune depositado no glo- de lesão glomerular na espécie 13. Os IgM estava presente na parede dos capi-
mérulo 6,24,26,27. padrões de GN canina definidos neste lares glomerulares, em intensidade
trabalho têm como base os critérios da maior que a de IgG e de C3. Observou-
PADRÕES DE OMS e a classificação de glomerulone- se presença discreta de células T CD4+ 31.
GLOMERULONEFRITES frites para o homem descrita por Tisher Estudo realizado em uma população de
Os padrões morfológicos de GN ca- & Brenner 13,21,30. 115 cães com nefropatias diagnosticadas
nina ainda não foram caracterizados em
definitivo, mas ocorrem desde lesões Alterações glomerulares mínimas

Francisco Assis Lima Costa


membranoproliferativas até prolifera- São caracterizadas por glomérulos nor-
ção celular irregular e aumento focal da mais ou levemente alterados, com o tufo
matriz mesangial 26. As lesões em forma de aparência rígida e fixada, os capilares
de crescente epitelial verdadeira e pura- dilatados sem espessamento da parede,
mente membranosas são menos fre- discreta ou nenhuma hipercelularidade,
qüentes 2,3. A incidência de GN membra- e às vezes expansão do mesângio, tume-
nosa é de 8%, e a de GN membra- fação e vacuolização das células epite-
noproliferativa é de 32%, sendo este o liais viscerais. Na maioria das vezes, os Figura 1 - Glomérulo. Cão naturalmente infecta-
padrão mais freqüente 4,14,22,27,28. A ocor- glomérulos são completamente nega- do por Leishmania (Leishmania) chagasi.
Glomerulonefrite de alterações mínimas. Fusão
rência de GN proliferativa mesangial tivos ou apresentam pequenos depósitos de pedicelos de podócitos (seta). M. E.
difusa entre os animais tem sido relatada de IgG, IgM e complemento, quando Aumento: 19.520x

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 65


clinicamente revelou a presença de 28 coincide com o padrão da classificação de um total de 40 cães, 20% apresen-
casos (24,3%) de alterações glomerula- da OMS é descrito como esclerose e tavam glomerulonefrite proliferativa
res mínimas, com ausência de depósitos hialinose segmentar e focal, com 12 mesangial caracterizada por hipercelu-
ou com depósito mesangial granular casos diagnosticados em 115 cães laridade mesangial global e difusa 4. De
discreto de IgM e/ou C3 32. examinados 32. uma amostra constituída por 101 cães,
16 (15,84%) apresentaram glomeru-
Glomeruloesclerose segmentar focal Glomerulonefrite proliferativa lonefrite proliferativa mesangial 22. A
Essa expressão é utilizada para des- mesangial difusa membrana basal glomerular era normal,
crever síndrome clínico-patológica em É uma forma de proliferação difusa mas se apresentava espessa quando as
seres humanos com proteinúria, ou sín- de células mononucleares (monócitos e alterações mesangiais eram severas.
drome nefrótica que não responde à te- células mesangiais) no mesângio (Figu- Outro estudo revelou 1,7% de glomeru-
rapia com corticosteróides. É muito se- ra 3). Não existe espessamento da pare- lonefrite proliferativa mesangial difusa
melhante à síndrome nefrótica de altera- de capilar (Figura 4) nem presença de em 115 cães com e sem sinais clínicos
ções mínimas, mas difere desta por não depósitos 15. As células em proliferação, de doença renal 32.
apresentar proteinúria seletiva e pelas tanto mesangiais quanto monócitos, for-
lesões esclerosantes segmentares caracte- mam agrupamentos de quatro ou mais

Francisco Assis Lima Costa


rísticas, associadas à atrofia tubular fo- células por área mesangial em mais de
cal. A lesão se inicia na zona justamedu- 80% dos glomérulos. O lume capilar
lar e o diagnóstico histopatológico pode permanece patente. São observados
ser feito quando alguns glomérulos re- depósitos de IgG, IgM, IgA e C3. Esse
velam áreas de esclerose mesangial padrão de lesão foi diagnosticado em
segmentar (Figura 2), colapso do lume 30,9% de cães com leishmaniose visce-
capilar e colapso da membrana basal ral, com depósitos granulares de IgG
glomerular, constituindo uma área for- (Figura 5) e IgM em intensidade maior,
temente positiva à coloração com PAS, e de IgA e C3 em intensidade menor 21,31.
Masson e PAMS 30. A presença de de- Células T CD4+ também estavam pre-
pósitos de C3 e IgM é característica das sentes no infiltrado glomerular. Exame
lesões glomerulares segmentares ou de histopatológico realizado em 42 cães da Figura 5 - Glomérulo. Cão naturalmente infecta-
distribuição difusa no mesângio. Raras Força de Defesa Nacional Sul Africana do por Leishmania (Leishmania) chagasi.
descrições dessa alteração no cão são sem sinais clínicos de doença renal reve- Glomerulonefrite proliferativa mesangial difusa.
Depósito de IgG na parede do capilar glomeru-
encontradas na literatura. Entretanto, em lou que mais de 50% apresentavam lar. Coloração: imunoperoxidase. Aumento: 40x
18,2% de 55 cães com leishmaniose vis- glomerulonefrite mesangioproliferativa 33.
ceral, observou-se presença marcante de Estudos anteriores demonstraram que, Glomerulonefrite membranoprolife-
depósitos granulares de IgG e IgM rativa (mesangiocapilar) difusa
acompanhados de depósitos discretos de Nesse padrão, todos ou quase todos
Francisco Assis Lima Costa

C3, IgA e células T CD4+ 21,31. Em amos- os glomérulos mostram uma combi-
tra constituída por 101 cães com e sem nação de espessamento da parede capi-
sinais clínicos de doença renal, verifi- lar com proliferação e aumento variável
cou-se que 19 animais tinham esclerose de células e de matriz mesangial, o que
mesangial com depósitos de C3 no me- acentua a estrutura lobular do gloméru-
sângio, mas sem presença de imunoglo- lo. A forma mais típica de GN membra-
bulinas 22. Outro estudo revelou que de noproliferativa é a que se manifesta por
106 cães com GN, seis (4,4%) possuíam Figura 3 - Glomérulo. Cão naturalmente infecta- duplicação da membrana basal do capi-
glomeruloesclerose com imunofluores- do por Leishmania (Leishmania) chagasi. lar glomerular (MBG), com formação
Glomerulonefrite proliferativa mesangial difusa.
cência negativa para imunoglobulinas e Hipercelularidade glomerular. Coloração: PAS. de membrana de duplo contorno vista
complemento 6. O padrão de doença que Aumento: 40x na coloração pelo PAMS. Entretanto,
três tipos diferentes de GN mesangioca-
Francisco Assis Lima Costa

pilar difusa podem ser identificados: o


Francisco Assis Lima Costa

tipo I é caracterizado por proliferação


de células mesangiais, espessamento e
membrana basal de duplo contorno (Fi-
gura 6); o tipo II apresenta depósitos
densos na parede capilar à coloração de
Masson (Figura 7) ou à microscopia ele-
trônica; no tipo III ocorre ruptura da
Figura 2 - Glomérulo. Cão naturalmente infecta- Figura 4 - Glomérulo. Cão naturalmente infecta- membrana basal glomerular. Depósitos
do por Leishmania (Leishmania) chagasi. do por Leishmania (Leishmania) chagasi. de C3 são muito freqüentes, enquanto
Glomeruloesclerose segmentar focal. Esclero- Glomerulonefrite proliferativa mesangial difusa.
se segmentar em 50 % do glomérulo (seta). Co- Membrana basal dos capilares glomerulares nor- os de IgG e IgM são menos verificados
loração: Masson. Aumento: 40x mais (seta). Coloração: PAMS. Aumento: 40x e os de IgA raramente são observados.

66 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Em cães com leishmaniose visceral, foi características morfológicas de nefropa-

Francisco Assis Lima Costa


encontrada ocorrência de 32,7%, com tia membranosa à microscopia óptica e
depósito de IgG, e IgM em intensidade eletrônica 35. Esses casos foram classifi-
mínima. Estudo morfométrico revelou a cados, por meio de exame histológico
presença de células T CD4+ (Figura 8) seriado, em cinco estágios 36. Estágio I -
em quantidade maior nesse padrão de caracterizado por espessamento mínimo
GN do que nos demais padrões diagnos- da parede capilar; em coloração com tri-
ticados 21,31. Em cinco de sete cães bea- crômio foi constatada, em alguns glo-
gles adultos oriundos de um mesmo mérulos, a presença de pequenos nódu-
parto foi diagnosticada glomerulonefrite los vermelho-alaranjados distribuídos
membranoproliferativa, classificada co- Figura 8 - Glomérulo. Cão naturalmente infec- de forma irregular ao longo da superfí-
tado por Leishmania (Leishmania) chagasi.
mo glomerulopatia familiar hereditária. Glomerulonefrite membranoproliferativa difusa.
cie externa da parede capilar; a imuno-
Microscopia eletrônica realizada em três Células positivas para CD4+. Coloração: peroxidase revelou a presença de IgG
biópsias renais revelou espessamento e imunoperoxidase. Aumento: 40x em um padrão granular irregular. Está-
duplicação da membrana basal glomeru- gio II - caracterizado por espessamento

Francisco Assis Lima Costa


lar 34. Outros autores encontraram inci- da parede capilar glomerular; em colo-
dência variável – de 10% a 34,2% – ração com PAS, e especialmente PAMS,
desse padrão de lesão em cães com e a membrana basal do capilar apresen-
sem histórico de doença renal 4,6,8,22,32. tou-se irregular devido à presença de
pequenas espículas que se projetavam
Glomerulonefrite crescêntica difusa entre áreas coradas em vermelho-laran-
Caracteriza-se pela proliferação de ja com tricrômio de Gomori, positivas
vários tipos de células e tecido conjunti- para IgG. Estágio III - caracterizado por
vo fibroso no espaço de Bowman espessamento uniforme da parede capi-
Figura 9 - Glomérulo. Cão naturalmente infecta-
(extracapilar). O grau de formação de do por Leishmania (Leishmania) chagasi. Glo-
lar glomerular em coloração com H-E e
merulonefrite crescêntica. Crescente segmentar PAS; a coloração com PAMS revelou
fibroso (seta). Coloração: H-E. Aumento 40x que o proeminente espessamento da pa-
Francisco Assis Lima Costa

rede capilar resultava de duplicação ou


crescente pode variar de focal e ruptura da membrana basal com pontes
segmentar a circunferencial. É classifi- intercomunicantes, positivas para prata.
cada como celular, fibrocelular ou Estágio IVA - caracterizado por reabsor-
fibrosa (Figura 9). O grau de envolvi- ção parcial dos depósitos imunes e
mento glomerular com crescente varia fibrose glomerular; nos glomérulos
de 20 a 80%. Coloração para membrana menos afetados a parede capilar era uni-
basal (PAS, PAMS) revela quebra da formemente espessa e a membrana
MBG e da membrana basal da cápsula basal freqüentemente laminada, rompi-
de Bowman. Estas são, provavelmente, da ou duplicada; nos glomérulos mais
Figura 6 - Glomérulo. Cão naturalmente infec- as lesões que iniciam o extravasamento afetados, verificou-se espessamento da
tado por Leishmania (Leishmania) chagasi.
Glomerulonefrite membranoproliferativa tipo I.
de sangue para o espaço urinário e de- parede capilar, colapso ou compressão
Espessamento e duplicação da membrana sencadeiam a formação de crescente. A do lume, aderência capsular e esclerose
basal do capilar glomerular (seta). Coloração: imunofluorescência revela, como ca- hialina segmentar; os depósitos de IgG
PAMS. Aumento: 40x eram irregulares e discretos. Estágio
racterística própria desse padrão de GN,
fraca coloração para IgG, IgA e IgM, IVB - caracterizado por moderado es-
com ou sem complemento. A acentuada pessamento uniforme da parede capilar
Francisco Assis Lima Costa

deposição de imunoglobulinas é incom- glomerular e ruptura ou duplicação de


patível com o diagnóstico da GN cres- segmentos da membrana basal glomeru-
cêntica primária. Esse padrão de lesão lar; à exceção do último estágio, os de-
glomerular parece raro na espécie cani- mais eram acompanhados por síndrome
na. Glomerulonefrite crescêntica foi en- nefrótica.
contrada em um cão com LV, presença
discreta de IgG e IgM e ausência de IgA Glomerulonefrite proliferativa
e C3 21,31. Outros autores encontraram endocapilar difusa
glomerulonefrite crescêntica em um O glomérulo apresenta-se aumentado
único cão 4. de volume, hipercelular, ocupando todo
Figura 7 - Glomérulo. Cão naturalmente infec- o espaço de Bowman. A parede capilar é
tado por Leishmania (Leishmania) chagasi. Glomerulonefrite membranosa normal, sem espessamento da MBG, e o
Glomerulonefrite membranoproliferativa tipo II. difusa lume tem diâmetro reduzido ou está
Depósito de proteína na membrana basal dos
capilares glomerulares (seta). Coloração: Em amostra constituída por 46 completamente ocluído. Nos casos
Masson. Aumento: 40x cães proteinúricos, 14 apresentaram mais severos observa-se trombo capilar,

68 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


crescente e MBG de duplo contorno. animais do grupo controle 37. de adesão 2,40,41,42,43,44,45. O glomérulo
Este tipo de lesão glomerular decorre de Para alguns autores, a lesão é uma responde a essas injúrias por meio de
uma infecção, daí ser chamada de GN conseqüência da idade em cadelas afeta- proliferação celular, espessamento da
pós-infecciosa. Às vezes pode observar- das pela piometra, e constitui-se em membrana basal, e se a injúria persistir,
se na coloração com tricrômico de uma glomerulopatia crônica não especí- por hialinização e esclerose 7.
Masson pequenos depósitos subepite- fica caracterizada por glomeruloescle- Nos últimos anos, importante desta-
liais que correspondem aos humps rose global difusa e severas alterações que vem sendo conferido à participação
(cúpulas) vistos no exame ultraestrutur- túbulo-intersticiais 32. Sete casos desse das citocinas no processo de injúria glo-
al. Na imunofluorescência é marcante o padrão de GN foram detectados em uma merular, tanto em animais de experimen-
depósito granular de C3 ao longo da população de 34 cães. A maioria dos tação quanto no homem. Essas molécu-
parede capilar. Este depósito é normal- glomérulos apresentava-se obsoleta ou las solúveis (IL-1, TNF_, IFN-a etc.) re-
mente acompanhado de IgG e às vezes mostrava fibrose progressiva, expansão gulam a expressão do complexo de histo-
IgM e IgA. Em 34 cães examinados da matriz mesangial, colapso da parede compatibilidade principal classe II, e de
foram diagnosticados dois casos de GN capilar, aderências e alguns depósitos moléculas de adesão pelas células me-
proliferativa endocapilar difusa e cinco hialinos. Hipercelularidade em grau va- sangiais, células inflamatórias e endoté-
casos (4,3%) em 115 cães examinados 4,32. riável estava presente 4. lio vascular; regulam a liberação de fato-
Por imunoperoxidase foi demonstrada a res quimiotáticos e promovem a indução
presença de depósitos de IgG, IgM e C3 PATOGÊNESE de mediadores pró-inflamatórios nas
ao longo da parede capilar. Pouco se conhece da patogênese da células glomerulares (componentes do
GN no cão. Acredita-se que o complexo complemento, radicais de oxigênio, óxi-
Glomerulonefrite focal imune circulante e o complexo imune in do nítrico e prostanóides) 46,47,48,49,50,51,52. A
Essa GN é classificada em quatro situ participem do processo como me- expressão das moléculas de adesão fa-
tipos histológicos: proliferativa, necro- diadores primários 2,5,22. No primeiro cilita a infiltração de células inflamató-
sante, crescêntica e esclerosante. As caso, anticorpos reagem com antígeno rias 44, que por sua vez acentuam a injú-
lesões são focais e segmentares, envol- não glomerular na circulação para for- ria glomerular, podendo levar ao desen-
vendo menos de 50% do tufo glomeru- mar complexos imunes que se deposi- volvimento de glomeruloesclerose 43,53.
lar, ou focais e globais, envolvendo tam no glomérulo, revelando um padrão Recentemente, a descoberta de um gru-
mais de 50% do tufo glomerular. Em fluorescente de depósito granular de po de citocinas com atividade quimiotá-
amostra constituída por 115 cães, 18 imunoglobulina e complemento 3. Glo- tica, as quimiocinas, tem trazido impor-
(15,7%) receberam diagnóstico de merulonefrite por complexo imune tem tantes contribuições para o entendimen-
glomerulonefrite focal, distribuída em sido diagnosticada em cães com infecção to do mecanismo de infiltração renal por
proliferativa (10 casos), necrosante simultânea por adenovírus canino-1 e células inflamatórias. A família das qui-
(dois casos), crescêntica (um caso) e Dirofilaria immitis 24. No segundo caso, miocinas induz a quimiotaxia ou a ati-
esclerosante (cinco casos) 32. Em cinco extremamente raro nos animais em vação de uma variedade de células in-
de 40 cães verificou-se glomerulonefri- condições naturais, anticorpos reagem flamatórias como neutrófilos, monóci-
te focal: três do tipo proliferativo me- com antígenos na membrana basal glo- tos, eosinófilos, células T CD4+ e
sangial e dois do tipo necrosante, com merular (antígenos glomerulares insolú- CD8+. Elas são sintetizadas e secre-
crescente e depósito eletrondenso sube- veis ou antígenos extraglomerulares im- tadas tanto por células renais residentes
pitelial e intramembranoso 4. São obser- plantados no glomérulo), revelando um (células mesangiais, endoteliais e tubu-
vados, com maior freqüência, depósitos padrão fluorescente uniforme, liso e li- lares) quanto por células que migram
de IgG e C3. near 6,26. Algumas vezes, contudo, esses para o parênquima renal 54,55. Se a infil-
eventos podem atuar simultaneamente tração é de neutrófilos, p. ex., ocorre
Glomerulonefrite esclerosante difusa na indução de injúria glomerular 27. uma “explosão respiratória”, com pro-
É caracterizada por esclerose difusa Vários fatores influenciam a deposi- dução de metabólitos tóxicos, peróxido
do glomérulo. Não constitui uma enti- ção de complexo imune nos tecidos 38 de hidrogênio (H2O2) e mieloperoxidase
dade específica, mas sim a conseqüên- mas, nos rins, os mais importantes estão (MPO), capazes de danificar diretamen-
cia final de uma variedade de doenças relacionados à carga elétrica e ao tama- te a membrana basal glomerular 56.
glomerulares, que incluem desde a glo- nho dos complexos solúveis circulantes Acentuada infiltração de monócitos/
merulonefrite pós-infecciosa e a glome- formados 38,39. O complexo imune circu- macrófagos nos capilares glomerulares,
ruloesclerose segmentar focal até a ne- lante implantado no glomérulo ou os no mesângio, e em menor proporção
frite hereditária. Na maioria dos casos, anticorpos antimembrana basal glome- no espaço urinário e em focos de rea-
são observados depósitos granulares de rular, sozinhos, raramente produzem ção inflamatória intersticial, ocorre
IgM e C3 acompanhados, ocasional- danos glomerulares significantes, entre- nos rins de cães com diferentes padrões
mente, de IgG ou IgA e componentes tanto alterações mais severas podem ser de glomerulonefrite (glomerulonefrite
precoces do complemento. Estudo reali- causadas por mediadores secundários co- proliferativa endocapilar difusa, glome-
zado em cadelas com e sem piometra mo componentes do sistema comple- rulonefrite proliferativa mesangial difu-
revelou a presença de esclerose glome- mento, leucócitos e plaquetas circulantes, sa e glomerulonefrite mesangiocapilar
rular em sete (36,8%) fêmeas porta- fatores de coagulação, deposição de fi- difusa) 32. Um pequeno número dessas
doras de piometra, e em nove (56,3%) brina, citocinas, quimiocinas e moléculas células é normalmente encontrado no

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 69


glomérulo como células residentes, cães são baseados somente no emprego eletrônica e imunofluorescência, o
desempenhando a função de apresenta- das técnicas histopatológicas de rotina acompanhamento rigoroso do paciente
doras de antígenos. Elas são atraídas por (H-E, PAS, colorações à base de prata e com avaliações clínicas, laboratorias e
fatores quimiotáticos produzidos pelas vermelho congo) 8. Mesmo a biópsia terapêuticas permanentes, em conso-
células mesangiais e causam injúria renal, procedimento rotineiro aplicado nância com o entendimento do compor-
glomerular pela liberação de oxidantes no diagnóstico das nefropatias no tamento biológico da doença glomeru-
(óxido nítrico) e proteases 46. homem, não é adotada com a mesma lar e dos aspectos epidemiológicos das
Ainda não se sabe se todos esses freqüência em cães 11. Por outro lado, enfermidades associadas às glomerulo-
mecanismos de lesão glomerular ocor- observa-se que a classificação das patias na espécie .
rem na espécie canina, mas estudos re- glomerulopatias proposta pela OMS Com base na similaridade entre a
centes sobre GN realizados em cães na- para o homem vem sendo adotada para estrutura glomerular e as lesões glome-
turalmente infectados por Leishmania o cão de maneira satisfatória, visto que rulares observadas no homem e no cão,
(Leishmania) chagasi demonstraram a os princípios que determinam os meca- e nos resultados de trabalhos já realiza-
participação de células T CD4+ e de nismos de lesão renal são semelhantes dos, acredita-se que os critérios da
moléculas de adesão (ICAM-1 e P- entre as duas espécies 3,4,13,21,32,39. OMS, elaborados para classificar as
selectina), bem como presença de O mecanismo imunopatológico hu- glomerulopatias no homem, podem,
antígenos de Leishmania, na patogenia moral responsável pela glomerulonefri- seguramente, ser utilizados para classi-
da lesão glomerular nesses animais 57. te envolve tanto a produção transitória ficar as glomerulonefrites no cão 13.
de anticorpos dirigidos contra a mem-
COMENTÁRIOS E DISCUSSÃO brana basal glomerular quanto a deposi- REFERÊNCIAS
O aumento do número de casos regis- ção passiva de complexos imunes solú- 01-WINTER, H. ; MAJID, N. H. Glomerulonephritis
trados de glomerulonefrites deixa claro veis formados na circulação, ou a for- - an emerging disease. Veterinary Bulletin, v. 54,
n. 5, p. 327-335, 1984.
o aumento da incidência dessa enfermi- mação de complexos imunes in situ 2,5,22. 02-LERNER, R. A. ; DIXON, F. J. ; LEE, S.
dade em animais, particularmente nos A glomerulonefrite mediada por anti- Spontaneous glomerulonephritis in sheep. II.
cães. Esse fato pode refletir não só a corpos antimembrana basal glomerular Studies on natural history, occurrence in other
species, and pathogenesis. American Journal of
acurácia dos procedimentos diagnósti- é muito rara ou não ocorre em condi- Pathology, v. 53, n. 4, p. 501-512, 1968.
cos, mas também mudanças reais nas ções naturais no cão, contudo pode ser 03-SLAUSON, D. O. ; LEWIS, R. M. Comparative
características epidemiológicas de cer- induzida experimentalmente 58,59. De pathology of glomerulonephritis in animals,
Veterinary Pathology, v. 16, n. 2, p. 135-164,
tas doenças ao longo dos anos, o au- fato, tanto a deposição passiva de com- 1979.
mento da incidência de doenças virais plexos antígenos/anticorpos solúveis 04-MACDOUGALL, D. F. ; COOK, T. ;
crônicas e o aumento da expectativa de quanto a formação in situ de complexos STEWARD, A. P. ; CATTELL, V. Canine
chronic renal disease: prevalence and types of
vida dos animais promovido pelas imu- imunes no glomérulo parecem estar glomerulonephritis in the dog. Kidney
nizações freqüentes e pelas melhorias envolvidas na indução da glomerulone- International, v. 29, p. 1144-1151, 1986.
nutricionais e sanitárias 2. frite no cão 8. Na literatura, encontra-se 05-GRAUER, G. F. Canine glomerulonephritis: new
Apesar dos estudos realizados, os um único relato sobre essa GN em cão, thoughts on proteinuria and treatment, Journal of
Small Animal Practice, v. 46, n. 10, p. 469-478,
padrões de glomerulonefrite no cão que lembra a doença de Goodpasture 9. 2005.
ainda não foram bem caracterizados. Apesar das evidências apontarem o 06-COOK, A. K. ; COWGILL, L. D. Clinical and
Ainda não foi elaborada uma classifi- mecanismo imunológico por complexo pathological features of protein-losing
glomerular disease in the dog: a review of 137
cação padronizada, única, que possa ser imune como a mais provável causa das cases (1985-1992). Journal of the American
usada como referência, a exemplo do glomerulopatias, estudos demonstram Animal Hospital Association, v. 32, n. 4, p. 313-
que acontece com o homem. Talvez essa que a aparente presença de depósitos 322, 1996.
07-GRAUER, G. F. Glomerulonephritis. Seminars
lacuna decorra da dificuldade de desen- imunes nos rins nem sempre está rela- in Veterinary Medicine and Surgery, v. 7,
volver um estudo sistemático das enfer- cionada com anormalidades glomeru- p. 187-197, 1992.
midades associadas às nefropatias no lares 60. Embora não esteja completa- 08-CENTER, S. A. ; SMITH, C. A. ; WILKINSON,
E. ; ERB, H. N. ; LEWIS, R. M.
cão. As informações clínicas e laborato- mente esclarecida, já existe compro- Clinicopathologic, renal immunfluorescent, and
riais atualmente disponíveis sobre essas vação da participação de outros elemen- light microscopic features of glomerulonephritis
enfermidades e as alterações renais tos na patogênese das glomerulopatias in the dog: 41 cases (1975-1985) Journal of the
American Veterinary Medical Association,
secundárias ou primárias que elas pro- secundárias. É o caso das células T, das v. 190, n. 1, p. 81-90, 1987.
movem não permitem o estabelecimen- citocinas, das moléculas de adesão e da 09-PEDERSEN, N. C. A review of immunologic
to de uma correlação precisa entre sin- apoptose, cujas ações estão relacionadas diseases of the dog. Veterinary Immunology
and Immunopathology, v. 69, n. 2-4, p. 251-
tomas, exames bioquímicos, patologia, com os eventos imunológicos, com a in- 342, 1999.
imunologia e tratamento 6. A determi- filtração de células e com a progressão 10-GREEN, R. A. ; RUSSO, E. A. ; GREENE, R. T. ;
nação precisa das alterações renais da glomerulonefrite. KABEL, A. L. Hypoalbuminemia-related platelet
requer conhecimentos de imunofluo- A elaboração de critérios padroniza- hypersensitivity in two dogs with nephritic
syndrome. Journal of the American Veterinary
rescência e microscopia eletrônica, dos para a classificação das glomeru- Medical Association, v. 186, n. 5, p. 485-488,
técnicas cujos resultados devem ser lonefrites a serem adotados para o cão 1985.
comparados com os dados clínicos e exige, além da instituição de biópsia 11-LULICH, J. P. ; OSBORNE, C. A. ; POLZIN, D. J.
Diagnosis and long-term management of
laboratoriais 15. Na maioria das vezes, os renal como rotina para processamento protein-losing glomerulonephropathy. A 5-year
padrões de classificação das GN nos de material para microscopia de luz, case-based approach. Veterinay Clinics of North

70 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


America: Small Animal Pratice, v. 26, p. 1401- The American Journal of Pathology, v. 67, n. 3, 44-BONVENTRE, J. V. ; COLVIN, R. B. Adhesion
1416, 1996. p. 471-482, 1972. molecules in renal disease. Current Opinion in
12-IVERSON, P. ; BRUN, C. Aspiration biopsy of 27-HALLIWELL, R. E. ; BLAKEMORE, W. F. A Nephrology and Hipertension, v. 5, n. 3, p. 254-
kidney. American Journal of Medicine, v. 11, case of immune complex glomerulonephritis in a 261, 1996.
p. 324-330, 1951. dog. The Veterinary Record, v. 90, n. 10, p. 275- 45-OSTENDORF, T. ; BURG, M. ; FLOEGE, J.
13-CHURG, J. ; BERNSTEIN, J. ; GLASSOCK, R. 280, 1972. Cytokines and glomerular injury. Kidney Blood
J. Renal disease: classification and atlas of 28-KOEMAN, J. P. ; BIEWENGA, W. J. ; GRUYS, Press Research, v. 19, p. 281-289, 1996.
glomerular disease, 2. ed., New York, E. Proteinuria in the dog: a pathomorphological 46-MAIN, I. W. ; NIKOLIC-PATERSON, D. J. ;
Igaku-Shoin, 1995, 541p. study of 51 proteinuric dogs. Research in ATKINS, R. C. T cells and macrophages and their
14-MURRAY, M. ; WRIGHT, N. G. A morphologic Veterinary Science, v. 43, n. 3, p. 367-378, 1987. role in renal injury. Seminars in Nephrology,
study of canine glomerulonephritis. Laboratory 29-ROUSE, B. T. ; LEWIS, R. J. Canine v. 12, n. 5, p. 395-407, 1992.
Investigation, v. 30, n. 2, p. 213-221, 1974. glomerulonephritis: prevalence in dogs 47-PROBER, J. S. ; COTRAN, R. S. Effects of
15-PANKEWYCZ, O. G. ; STURGILL, B. C. ; submitted at random for euthanasia. Canadian cytokines on vascular endothelium: their role in
BOLTON, W. K. Proliferative Journal of Comparative Medicine, v. 39, n. 4, vascular and immune injury. Kidney
glomerulonephritis: postinfectious, noninfectious, p. 365-370, 1975. International, v. 35, p. 969-975, 1989.
and crescentic forms. In: TISHER, C. C. ; 30-TISHER, C. C. ; BRENNER, B. M. Renal 48-TOPLEY, N. ; FLOEGE, J. ; WESSEL, K. ;
BRENNER, B. M. Renal pathology - with clin- pathology with clinical and functional HASS, R. ; RADEKE, H. H. ; KAEVER, V. ;
ical and functional correlations. 2. ed. J.B. correlations, 2. ed. Philadelphia: J. B. Lippincott, RESCH, K. Prostaglandin E2 production is
Lippincott Company, Philadelphia, 1994, p. 222- 1994. V. 1, 978 p. synergistically increased in cultured human
257. 31-COSTA, F. A. L. Patologia e Imunopatogenia da glomerular mesangial cells by combinations of
16-CASAL, M. L. ; DAMBACH, D. M. ; nefropatia da Leishmaniose visceral canina. interleukin 1 and tumor necrosis factor. Journal
MEISTER, T. ; JEZYK, P. F. ; PATTERSON, D. 2001. 129f. Tese (Doutorado) - Faculdade de of Immunology, v. 143, p. 1989-1995, 1989.
F. ; HENTHORN, P. S. Familial Medicina Veterinária e Zootecnia de São paulo, 49-FLOEGE, J. ; TOPLEY, N. ; WESSEL, K. ;
glomerulonephropathy in the Bullmastiff, São Paulo. KAEVER, V. ; RADEKE, H. ; HOPPE, J. ;
Veterinary Pathology, v. 41, p. 319-325, 2004. 32-VILAFRANCA, M. ; WOHLSEIN, P. ; KISHIMOTO, T. ; RESCH, K. Monokines and
17-LEES, G. E. ; HELMAN, R. ; GAYMAN, C. E. ; TRAUTWEIN, G. ; TEMMLER, L. B. ; NOLTE, platelet-derived growth factor modulate
KASHTAN, A. F. ; MICHAEL, L. D. ; HOMCO, I. Histological and immunohistological prostanoid production in growth arrested, human
N. J. ; MILLICHAMP ; YOSHIFUMI, N. ; classification of canine glomerular disease. mesangial cells. Kidney International, v. 37,
YOSHIKAZU, S. ; ICHIRO, N. ; YOUNGKI, K. Journal of Veterinary Medicine A, v. 41, p. 599- p. 859-869, 1990.
A model of autosomal recessive Alport syndrome 610, 1994. 50-RADEKE, H. H. ; MEIER, B. ; TOPLEY, N. ;
in English cocker spaniel dogs, Kidney 33-SHORT, R. P. ; LOBETTI, R. G. ; NESBIT, J. W. FLOEGE, J. ; HABERMEHL, G. G. ; RESCH, K.
International, v. 54, p. 706-719, 1998. Renal pathology in working dogs in the South Interleukin-1-alpha and tumor necrosis factor-
18-DIXON, C. E. Juvenile nephropathy in a African National Defence Force. Journal of the alpha induce oxygen radical production in
dalmatian. The Veterinary Record, v. 140, n. 7, South African Veterinary Association, v. 70 mesangial cells. Kidney International, v. 37,
p. 184, 1997. n. 4, p.158-60, 1999. p. 767-775, 1990.
19-POLI, A. ; ABRAMO, F. ; MANCIANTI, F. ; 34-RHA, J. Y. ; LABATO, M. A. ; ROSS, L. A. ; 51-MONTINARO, V. ; SERRA, L. ; PERISSUTTI,
NIGRO, M. ; PIERI, S. ; BIONDA, A. Renal BREITSCHWERDT, E. ; ALROY, J. Familial S. ; RANIERE, E. ; TEDESCO, F. ; SCHENA, F.
involvement in canine leishmaniasis: a light- glomerulonephropathy in a litter of beagles. P. Biosynthesis of C3 by human mesangial cells:
microscopic, immunohistochemical and electron- Journal of the American Veterinary Medical modulation by proinflamatory cytokines. Kidney
microscopic study. Nephron, v. 57, n. 4, p. 444- Association, v. 216, n. 1, p. 46-50, 2000. International, v. 47, p. 829-836, 1995.
452, 1991. 35-JAENKE, R. S. ; ALLEN, T. A. Membranous 52-MUHL, H. ; PFEILSCHIFTER, J. Amplification
20-NIETO, C. G. ; NAVARRETE, I. ; HABELA, M. nephropathy in the dog. Veterinary Pathology, of nitric oxide synthase expression by nitric oxide
A. ; SERRANO, F. ; REDONDO, E. Pathological v. 23, n. 6, p. 718-733, 1986. in interleukin 1 beta-stimulated rat
changes in kidneys of dogs with natural 36-ENRENREICH, K. ; CHURG, J. Pathology of mesangial cells. The Journal of Clinical
leishmania infection. Veterinary Parasitology, membranous nephropathy. Pathology Annual, Investigation, v. 95, n. 4, p. 1941-1946, 1995.
v. 45, n. 1-2, p. 33-47, 1992. v. 3, p. 145-186, 1968 53-KOOTSTRA, C. J. ; SUTMULLER, M. ;
21-COSTA, F. A. L. ; GOTO, H. ; SALDANHA, L. 37-HEIENE, R. ; KRISTIANSEN, V. ; TEIGE, J. ; BAELDE, H. J. ; HEER, E. ; BRUIJN, J. A.
C. B. ; SILVA, S. M. M. S. ; SINHORINI, I. L. ; JANSEN, J. H. Renal histomorphology in dogs Association between leukocyte infiltration and
SILVA T. C. ; GUERRA, J. L. Histopathologic with pyometra and control dogs, and long term development of glomerulosclerosis in
patterns of nephropathy in naturally acquired clinical outcome with respect to signs of kidney experimental lupus nephritis. Journal of
canine visceral leishmaniasis. Veterinary disease. Acta Veterinaria Scandinavica, v. 49, Pathology, v. 184, n. 2, p. 219-225, 1998.
Pathology, v. 40, p. 677-684, 2003. n. 13, p. 1-9, 2007. 54-BRADY, H. R. Leukocyte adhesion molecules
22-MÜLLER-PEDDINGHAUS, R. ; TRAUTWEIN, 38-ABBAS, A. K. ; LICHTMAN, A. H. ; POBER, J. and kidney diseases. Kidney International,
G. Spontaneous glomerulonephritis in dogs. S. Cellular and molecular immunology. 4. ed. v. 45, p. 1285-1300, 1994.
Veterinary Pathology, v. 14, n. 1, p. 1-13, 1977. W. B. Saunders Company, Philadelphia, p. 404- 55-NEILSON, E. G. ; COUSER, W. G.
23-OSBORNE, C. A. ; VERNIER, R. L. 423, 2000. Immunologic renal diseases. Lippincott-Raven:
Glomerulonephritis in the dog and cat: a 39-ISAACS, K. L. ; MILLER, F. Role of antigen size Philadelphia, 1258p. 1997.
comparative review. Journal of the American and charge in immune complex glomerulonephritis.
56-GIBSON, I. W. ; MORE, I. A. R. Glomerular
Animal Hospital Association, v. 9, p. 101-127, I. Active induction of disease with dextran and its
pathology: recent advances. Journal of
1973. derivatives. Laboratory Investigation, v. 47,
Pathology, v. 184, n. 2, p. 123-129, 1998.
24-SÁNCHEZ-CORDÓN, P. J. ; SALGUERO, F. J. ; p. 198-205, 1982.
NÚNEZ, A. ; GÓMEZ-VILLAMANDOS, J. C. ; 40-EDDY A. A. ; MICHAEL, A. F. 57-COSTA, F. A. L. ; GUERRA, J. L. ; SILVA, S. M.
CARRASCO, L. Glomerulonephritis associated Immunopathogenic mechanisms of glomerular M. S. ; KLEIN, R. P. ; MENDONÇA, I. L. ;
with simultaneous canine adenovirus-1 and injury. In: TISHER, C. C. ; BRENNER, B. M. GOTO, H. CD4+ T cells participate in the
Dirofilaria immitis infection in a dog, Journal of Renal pathology with clinical and functional nephropathy of canine visceral leishmaniasis.
Veterinary Medicine B, v. 49, n. 5, p. 235-239, correlations. 2. ed. Philadelphia: J. B. lippincott, Brazilian Journal of Medical and Biological
2002. 1994, p. 162-221. Research. v. 33, n. 12, p. 1455-1458, 2000.
25-AMERATUNGA, R. ; WINKELSTEIN, J. A. ; 41-KINCAID-SMITH, P. Coagulation and renal disease. 58-WISEMAN, A. ; SPENCER, A. ; PETRIE, L. The
BRODY, L. ; BINNS, M. ; CORK, L. C. ; Kidney International, v. 2, p. 183-190, 1972. nephrotic syndrome in a heifer due to
COLOMBANI, P. ; VALLE, D. Molecular 42-CLARK, W. F. ; FRIESEN, M. ; LINTON, A. L. ; glomerulonephritis. Research in Veterinary
analysis of the third component of canine LINDSAY, R. M. The platelet as a mediator of Science, v. 28, n. 3, p. 325-329, 1980.
complement C3 and identification of the tissue damage in immune complex 59-SHIROTA, K. ; FUJIWARA, K. Nephropathy in
mutation responsible for hereditary canine C3 glomerulonephritis. Clinical Nephrology, v. 6, dogs induced by treatment with antiserum against
deficiency. The Journal of Immunology, v. 160, p. 287-289, 1976. renal basement membrane. Japanese Journal of
p. 2824-2830, 1998. 43-BANAS, B. ; WENZEL, U. ; STAHL, R. A. K.; Veterinary Science, v. 44, n. 5, p. 767-776, 1982.
26-KURTZ, J. M. ; RUSSELL, S. W. ; LEE, J. C. ; SCHLÖNDORFF, D. Role of chemokines in 60-JUBB, K. V. F. ; KENNEDY, P. C. ; PALMER, N.
SLAUSON, D. O. ; SCHECHTER, R. D. glomerular diseases. Kidney Blood Press Pathology of domestic animals. 4. ed. New
Naturally occurring canine glomerulonephritis. Research, v. 19, p. 270-280, 1996. York: Academic Press, v. 2, 1993.

72 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Angélica de Mendonça Vaz Safatle
Análise retrospectiva Médica veterinária
angsaf@usp.br
dos resultados da Márcia Pansera Galego
remoção de catarata por Médica veterinária
mpgalego@uol.com.br

facoemulsificação em cães Ana Paula Hvenegaard


Médica veterinária
ana6113@hotmail.com
Retrospective analysis of Débora Gomes
phacoemulsification for cataract Médica veterinária
debb_gomes@yahoo.com.br
removal in dogs Ricardo Lisak
Médico veterinário
Análisis retrospectivo de los resultados riclisak@ig.com.br

obtenidos en la remoción de cataratas


en perros por facoemulsificación
Resumo: Nos últimos anos, a facoemulsificação (FACO) vem se tornando a técnica cirúrgica intra-ocular de eleição para a
dificuldade técnica 3,4,8 . Em relação à
remoção de catarata em medicina veterinária. Neste estudo, foram analisados os resultados de 71 cirurgias de FACO técnica padrão de facectomia extra-capsu-
realizadas em clínica particular entre os meses de janeiro de 2005 e dezembro de 2006, em um total de 67 cães (sendo 6 lar (FEC), as vantagens da facoemulsifi-
diabéticos), com idades entre 4 meses e 13 anos. Foi observada melhora da visão funcional em 68 casos (95,77%), acompa-
nhados no período de 30 dias a 1 ano após a intervenção cirúrgica. Alterações como opacificação da cápsula posterior, cação são: menor tempo cirúrgico, redu-
sinéquia posterior, hipertensão ocular transitória, uveíte anterior e edema de córnea foram ocasionalmente diagnosticadas. ção das complicações associadas com a
Com esses resultados, pode-se concluir que a facoemulsificação, quando corretamente indicada, mostra-se adequada ao
tratamento da catarata por ser uma técnica cirúrgica rápida, menos traumática e com menor morbidade no pós-operatório. cicatrização, pois a incisão corneal na
Unitermos: lente, cegueira, cirurgia de catarata FEC é de cerca de 170º 1,9, e menor
tempo de recuperação.
Abstract: Phacoemulsification (FACO) has become the main intra-ocular surgical technique for cataract removal in veterinary
medicine in the past years. This study reviews the results of 71 phacoemulsifications performed in a private veterinary clinic As complicações precoces comu-
from January 2005 to December 2006. Data from sixty one healthy dogs and six animals with diabetes mellitus between 4 mente encontradas nesse procedimento
months and 13 years of age were analyzed. Return of functional vision was observed in 68 cases (95.77%), followed from 30
days to 1 year post-surgery. Posterior capsular opacification, posterior synechia, ocular hypertension, anterior uveitis and são: aumento transitório da pressão in-
corneal edema were occasionally diagnosed. Results suggest that phacoemulsification is adequate to cataract removal when tra-ocular – acima de 30 mmHg –,
correctly indicated, since it is a fast and less traumatic surgical technique and because it yields better recovery prognosis.
Keywords: lens, blindness, cataract surgery referido como hipertensão ocular pós-
operatória (HOP); uveíte severa, que
Resumen: La facoemulsificación se ha convertido en la principal técnica quirúrgica intraocular para la remoción de cataratas pode levar a aderências da íris (si-
en medicina veterinaria en los últimos años. En este estudio fueron analizados los resultados de 71 cirugías de
facoemulsificación realizadas en la clínica veterinaria entre enero de 2005 y diciembre de 2006. Las cirugías de 67 perros, 6
néquias) e fechamento da pupila (se-
con diabetes mellitus fueron analizadas,, con edades entre 4 meses y 13 años. La recuperación de la visión funcional fue clusão pupilar); descolamento de retina;
observada en 68 casos (95,77%), analizados desde 30 días hasta 1 año después de la cirugía. Opacificación capsular
posterior, sinequia posterior, hipertensión ocular, uveítis anterior y edema corneal fueron diagnosticados eventualmente. Los
edema profundo de córnea por lesão
resultados sugieren que el procedimiento quirúrgico de facoemulsificación, cuando indicado correctamente, es adecuado en el endotelial e opacificação da cápsula pos-
tratamiento de remoción de catarata, por ser una intervención más rápida, menos traumática y menos mórbida en el
posoperatorio.
terior da lente 2,3,9,10,11,12,13.
Palabras clave: lente, ceguera, cirugías de catarata O objetivo desta revisão é analisar os
resultados, a curto e a médio prazos, da
Clínica Veterinária, n. 75, p. 74-78, 2008 facoemulsificação para a cirurgia de
catarata, quanto à recuperação da visão
e às complicações encontradas.
Introdução 1985 situava-se entre 60 e 80% dos
Catarata é a ruptura do arranjo arqui- casos 5, agora atinge taxas de aproxi- Material e método
tetural lamelar normal das fibras da madamente 90-95% 6,7. O presente artigo Foram analisados os registros médi-
lente ou da cápsula, resultando na perda relata 71 cirurgias de remoção de cata- cos de 67 cães submetidos à cirurgia de
de transparência da lente 1,2. Trata-se de rata por facoemulsificação, realizadas remoção de catarata por facoemulsifi-
uma das causas mais comuns de perda em clínica particular entre janeiro de cação, dos quais 63 tiveram um olho
de visão em cães 2 e pode levar a proble- 2005 e dezembro de 2006. operado e quatro ambos os olhos. O
mas secundários como uveíte e glauco- A técnica de facoemulsificação, in- grupo incluiu 32 machos e 35 fêmeas
ma. A remoção de catarata é a cirurgia troduzida em 1967 8, consiste na remo- com idades entre quatro meses e treze
intra-ocular mais comumente realizada ção da catarata por fragmentação ultra- anos, seis dos quais eram portadores de
na medicina veterinária 3,4. Com o sônica e aspiração, através de uma inci- Diabetes melito. As raças incluíam:
advento da facoemulsificação (FACO), são de 3,2mm. As desvantagens se rela- bichon frisè, cocker spaniel americano e
o sucesso da cirurgia de catarata, que até cionam ao alto custo instrumental e à inglês, fila brasileiro, fox terrier, retriever

74 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


dourado, retriever do labrador, lhasa para a indução, propofol k (5mg por kg), (Figura 4), seguida da remoção con-
apso, lulu da pomerânia, pinscher, via intravenosa e, para a manutenção, tínua e curvilínea da porção central da
maltês, poodle toy, mini e médio, são inalação de halotano l ou isofluorano m cápsula anterior (capsulorhexis). O
bernardo, schnauzer mini, SRD, teckel, com oxigênio a 100%. Empregou-se material viscoelástico p (hidroxipropil-
weimaraner e yorkshire terrier. bloqueador neuromuscular (rocurônio n metilcelulose 2%) foi injetado na
Todos os cães apresentavam baixa de 0,5mg por kg) intravenoso com o intuito câmara anterior. Fez-se incisão acessó-
acuidade visual em diferentes graus de- de centralizar o bulbo ocular e diminuir ria (side-port) com bisturi 15° para rea-
vido à catarata, e foram submetidos a a tensão vítrea. lizar a facoemulsificação bi-manual-
exames físico, oftalmológico e laborato- Todas as intervenções cirúrgicas foram mente. Introduziu-se a caneta do facoe-
rial antes da cirurgia. Eletrorretinografia realizadas por um único cirurgião (Angé- mulsificador que, pela unidade de irri-
e ultra-sonografia ocular também foram lica de Mendonça Vaz Safatle), uti- gação, manteve a forma e a tensão da
solicitadas. Dentre as cataratas, 16 eram lizando a mesma técnica e unidade de fa- câmara anterior pela infusão de solução
intumescentes, 17 imaturas, 19 maturas co-fragmentação e aspiração (Figura 1). salina balanceada (BSS q). Procedeu-se à
e 19 hipermaturas. O ultra-som, a irrigação e a aspiração
As medicações utilizadas por via tó- provieram de uma unidade manual (cane-

Angélica de M. V. Safatle
pica foram atropina 1% a (em intervalo ta) acoplada a uma agulha de titânio. Du-
de 12 horas, um dia antes da cirurgia), rante a cirurgia, os animais permaneceram
gatifloxacino 0,3% b e acetato de predni- em decúbito lateral com a cabeça apoiada
solona 1% c (em intervalos de quatro a em travesseiro apropriado, e o olho a so-
seis horas, nos três dias anteriores ao frer a intervenção foi posicionado sob
procedimento e até um mês após, sendo microscópio cirúrgico (Figura 2). Reali-
a freqüência gradualmente diminuída zou-se cantotomia para melhor exposi-
após a cirurgia) e tropicamida 1% d (em ção do campo operatório quando neces-
intervalos de 8 horas, iniciada logo após sário. Após uma incisão de 3,2mm na
a cirurgia e até quinze dias depois des- córnea (clear cornea), foram injetadas
ta); os portadores de Diabetes melito re- 10 unidades de azul de tripano o e 30
ceberam antiinflamatório não esteroi- unidades de ar para corar a cápsula an-
dal, cetorolaco de trometamina e, em terior da lente (Figura 3); um cistítimo
substituição ao corticóide. Antibióticos ou uma agulha 22X25ga foi introduzido Figura 3 - Cápsula anterior da lente corada com
azul de tripano
foram administrados também por via para a realização da capsulotomia
sistêmica por dez dias, a contar do dia
da cirurgia. Flunixin meglumine f (1mg

Angélica de M. V. Safatle
Angélica de M. V. Safatle

por kg/IV) foi aplicado imediatamente


antes do início da cirurgia. Prednisona g
(0,5 a 1mg por kg/VO) foi administrada
uma vez ao dia por um período de quin-
ze dias, iniciando-se três dias antes da
cirurgia, passando então para adminis-
tração em dias alternados, até ser sus-
pensa no 30º dia pós-cirúrgico. Colírio Figura 1 - Facoemulsificador: marca Nidek,
de dorzolamida h 2% foi utilizado nas modelo - 12000
primeiras 72 horas, uma gota a cada oito
horas. De forma geral, foram utilizados
Angélica de M. V. Safatle

como medicação pré-anestésica, acepro- Figura 4 - Capsulotomia


mazina i (0,05 a 0,1mg por kg) e mepe-
ridina j (2mg por kg), via intramuscular;
Angélica de M. V. Safatle

a) Atropina 1%. Laboratório Allergan. Guarulhos. SP


b) Zymar. Laboratório Allergan. Guarulhos. SP
c) Predfort. Laboratório Allergan. Guarulhos. SP
d) Mydriacyl 1%. Laboratório Alcon. São Paulo. SP
e) Cetrolac. Laboratório Genom. São Paulo. SP
f) Banamine. Schering-Plough. São Paulo. SP
g) Meticorten. Schering-Plough. São Paulo. SP
h) Trusopt. Laboratório Merck Sharp & Dohme. São Paulo. SP
i) Acepram 0,2%. Laboratório Univet. São Paulo. SP
j) Dolantina. Hoechst Marion Roussel. São Paulo. SP
k) Propovan. Cristália. Itapira. SP
l) Halotano. Hoechst Marion Roussel. São Paulo. SP
m) Isothane. Zeneca. Cotia. SP
n) Rocuron. Cristália. Itapira. SP
o) Azul de tripano. Ophthalmos. São Paulo. SP
p) Metilcelulose 2%. Ophthalmos. São Paulo. SP
q) BSS. Ophthalmos. São Paulo. SP
r) Fio de sutura Seda 8-0. Ethicon. São José dos Campos. SP Figura 5 - Facoemulsificação: fragmentação do
s) Fio de sutura Seda 4-0. Ethicon. São José dos Campos. SP Figura 2 - Microscópio cirúrgico núcleo

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 75


Angélica de M. V. Safatle

Angélica de M. V. Safatle
Angélica de M. V. Safatle

A B
Figura 6 - Pós-operatório imediato: aspecto final Figura 7 - Facoemulsificação bilateral: sete meses após a cirurgia

fragmentação do núcleo do cristali- freqüentes foram opacificação da uveíte anterior severa é freqüentemente
no, que foi aspirado posteriormente, cápsula posterior e formação de siné- descrita. Fibrina, flare (dispersão coloi-
assim como o viscoelástico (Figura 5). quias posteriores (Figura 8), e as menos dal do humor aquoso; efeito Tyndall) e
A córnea foi suturada em pontos sim- freqüentes, edema de córnea e desen- células se instalam na câmara anterior, a
ples isolados com fio de seda 8-0 r, e a volvimento de uveíte anterior severa. despeito do emprego de antiinflamató-
cantorrafia foi realizada com fio de seda Foram registrados dois casos de seclu- rios. A miose acompanha a uveíte e
4-0 s (Figura 6). O colar elizabetano foi são pupilar com íris bombé e outros dois sinéquias posteriores se desenvolvem 1,14.
colocado imediatamente após a cirurgia de hipertensão ocular pós-operatória. Dentre os 71 casos analisados, seis
e mantido por quinze dias. A não recuperação da visão no perío- apresentaram uveíte severa, três dos
Os animais foram avaliados quanto a do estudado foi decorrente do desenvol- quais responderam de forma satisfatória
visão, inflamação e pressão intra-ocular vimento de uveíte anterior severa não ao tratamento; dos demais, dois evo-
(PIO), obtida com tonômetro de aplana- responsiva ao tratamento, e da não luíram para cegueira e um para phthisis
ção (Tono-pen®). Essa avaliação foi fei- administração da medicação por parte bulbi.
ta no primeiro, quinto, 12º, 20º e 30º do proprietário. Pressupõe-se que alguns aconteci-
dias de pós-operatório, e então mensal- mentos, como o trauma causado pela
mente, por três meses. Discussão e conclusão turbulência do ultra-som e os efeitos tó-
Considerou-se como bem sucedida a A taxa de sucesso alcançada na análi- xicos e mecânicos da infusão de
cirurgia que proporcionou eixo visual se do emprego da facoemulsificação grandes volumes, possam lesar as célu-
claro e melhoria ou restauração da como tratamento de catarata (95,77%) las endoteliais, resultando no edema de
visão funcional do paciente, aferida foi similar à relatada na literatura, que córnea. Cães em estágio ainda inicial de
pela presença de reflexo de ameaça, varia de 90 a 95% 3,5,8,13,14. Esse resultado distrofia endotelial podem não tolerar o
capacidade de acompanhar objetos em é positivo quando comparado aos repor- volume de irrigação contínua, com des-
movimento e de transpor obstáculos tados para a técnica convencional, FEC, compensação e perda das células do en-
em ambiente desconhecido. Nos cães entre 75% e 83% 6. dotélio. O aumento de pressão e a
que tiveram os dois olhos operados, As complicações encontradas após a uveíte pós-operatória podem causar
estes foram avaliados separadamente FACO, como uveíte pós-operatória, edema secundário, que tende a se
(Figura 7). opacidade de cápsula posterior, sinéquia resolver uma vez corrigida a causa de
As complicações encontradas foram: posterior e edema de córnea, são base 8,13. Dos dez casos de edema
opacidade de cápsula posterior, uveíte comuns à FEC 1,8. corneal, oito regrediram e dois se man-
severa, edema de córnea, descolamento A uveíte pós-operatória é esperada tiveram ao final do período compreen-
de retina, sinéquias e seclusão pupilar como resposta ao trauma cirúrgico, o que dido neste estudo, mas não comprome-
acompanhada por íris bombé. explica o uso de antiinflamatórios, ini- teram a visão.
Como se tratou de trabalho clínico ciado ainda no pré-operatório. Entretan- Embora seu mecanismo exato perma-
epidemiológico retrospectivo observa- to, em cães e humanos, a cronificação de neça incerto, a hipertensão ocular pós-
cional, ou seja, estudos de casos, a aná-
lise estatística foi dispensada.
Complicações nº de olhos %
Resultados Opacidade de cápsula posterior 27 38,03
Houve restauração da visão funcional Sinéquia posterior 15 21,13
em 68 dos 71 olhos operados (95,77%), Edema de córnea 10 14,08
ou seja, apenas em três casos os animais Uveíte severa 6 8,45
não recuperaram a visão durante o pe- Seclusão pupilar/Iris bombé 2 2,82
ríodo analisado, e nenhum destes era Hipertensão ocular pós-operatória 2 2,82
diabético.
As complicações precoces mais Figura 8 - Complicações encontradas nas cirurgias realizadas (em porcentagem)

76 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


operatória (HOP) é atribuída a uma n. 5, p. 1143-73, 1997.

Angélica de M. V. Safatle
variedade de condições relacionadas à 03-STRUBBE, D. T. ; GELATT, K. N. ; Diseases
and surgery of the canine lens In: Essentials of
inflamação que se desenvolvem no pós- veterinary ophthalmology. Philadelphia:
cirúrgico, como restos celulares no Lippincot Williams & Wilkins, 2000.
humor aquoso que dificultam seu fluxo, 04-NASISSE, M. P. Innovations in cataract surgery.
edema do trabeculado, partículas resi- In: Kirk, R. W. , Bonagura, J.D. (Ed): Current
Veterinary Therapy XI (Small Animal
duais e proteínas solúveis da lente, Practice). Philadelphia: W.B. Saunders Co.
herniação do vítreo e retenção do p. 1261-1265, 1995.
viscoelástico 3,11. É relatado que 37,5% 05-LANNEK, E. B. ; MILLER, P .E. Development
dos cães submetidos à FACO desen- of glaucoma after phacoemulsification for
removal of cataracts in dogs: 22 cases (1987-
volvem HOP 8. Essa alta incidência 1997). Journal of the American Veterinary
indica que é apropriado tratar os cães Medical Association, v. 218, n. 1, p. 70-76, 2001.
com medicações antiglaucomatosas 06-BIROS, D. J. ; GELATT, K. N. ; BROOKS, D. E. ;
desde as primeiras horas do pós-oper- Figura 9 - Opacidade de cápsula posterior. KUBILIS, P. S. ; ANDREW, S. E. ; STRUBBE,
Observe visualização do disco óptico D. T. ; WHIGHAM, H. M. Development of
atório, para evitar aumentos de pressão glaucoma after cataract surgery in dogs: 220
intra-ocular e danos ao nervo óptico 12. cases (1987-1998). Journal of the American
No pós-operatório imediato, foram visual na espécie canina, assim como Veterinary Medical Association, v. 216, n. 11,
p. 1780-1786, 2000.
administrados fármacos que diminuem no homem, seja reduzida após a
07-KEIL, S. M. ; DAVIDSON, H. J. Canine
a produção do humor aquoso, remoção do cristalino sem colocação de cataracts: a review of diagnostic and treatment
inibidores de anidrase carbônica, com lente (afacia), mas essa condição não é procedures. Veterinary Medicine, v. 96, n. 1,
resultado satisfatório, ou seja, apenas objetivamente analisada devido à difi- p. 14-38, 2001.
em dois casos registrou-se aumento da culdade de aferir a acuidade visual no 08-STRUBBE, D. T. Uveitis and pupillary block
glaucoma in an aphakic dog. Veterinary
pressão intra-ocular. cão. Além disso, cães possuem pequena Ophthalmology, v. 5, n. 1, p. 3-7, 2002.
A opacificação da cápsula posterior capacidade acomodativa e não têm 09-WILLIAMS, D. L. ; BOYDELL, I. P. ; LONG,
(OCP) é uma complicação freqüente regiões na retina comparáveis à mácula R. D. Current concepts in the management of the
da cirurgia de catarata 1,5,14,15, embora a canine cataract: a survey of the techniques used
e à fóvea, que requerem imagens pre- by surgeons in Britain, Europe and USA and
sua exata prevalência não tenha sido cisamente focadas 13. Considerando que review of recent literature. The Veterinary
determinada 16. Em um estudo, a as lentes são associadas a uma maior Record, v. 138, n. 15, p. 347-353.
prevalência dessa complicação foi de incidência de complicações como 10-MILLER, T. R. ; WHITLEY, R. D. ; MEEK, L.
67% para cães não diabéticos, e de A. ; GARCIA, G. A. ; WILSON, M. C. ;
uveíte crônica e glaucoma 7,13 e que os RAWLS, JR. B. H. Phacofragmentation and
68% para cães diabéticos, independen- cães, após uma bem sucedida cirurgia aspiration for cataract extraction in dogs: 56
temente da técnica empregada, FACO de catarata, mesmo sem implante de cases (1980-1984). Journal of the American
ou FEC 14. A despeito de quão meticu- Veterinary Medical Association, v. 190, n. 12,
LIO, retomam suas atividades normais, p. 1577-1580, 1987.
losamente se realize o procedimento optou-se por não utilizá-las até o 11-BAGLEY, L. H. ; LAVACHE, J. D. Comparison
cirúrgico, algumas células epiteliais momento. of postoperative phacoemulsification results in
remanescentes da lente aderem à A facoemulsificação apresenta im- dogs with and without diabetes mellitus: 153
cápsula anterior, e depois migram para cases (1991-1992). Journal of the American
portantes vantagens em relação à téc- Veterinary Medical Association, v. 205, n. 8,
a cápsula posterior, onde passam a nica convencional, como menor tem- p. 1165-1169, 1994.
produzir material cristalino e sofrem po cirúrgico, redução das complica- 12-SMITH, P. J. ; BROOKS, D. E. ; LAZARUS, J.
metaplasia fibrosa, que causa o enru- ções decorrentes da cicatrização – A. ; KUBILIS, P. S. ; GELATT, K. N. Ocular
gamento da cápsula. A presença de hypertension following cataract surgery in dogs.
pois a incisão é menor –, e menor Journal of the American Veterinary Medical
lente intra-ocular inibe essa opacifica- tempo de recuperação. Sua introdução Association, v. 209, n. 1, p. 105-111, 1996.
ção 5. A complicação mais prevalente representou aumento significativo nas 13-NASISSE, M. P. ; DAVIDSON, M. G. ;
(38,03%) neste estudo foi a OCP com taxas de sucesso cirúrgico na remoção ENGLISH, R. V. ; ROBERTS, S. M. ;
vários graus de intensidade e, embora NEWMAN, H. C. Neodymium: YAG laser
da catarata. Comparada à FEC, a faco- treatment of the lens extraction-induced
lentes intra-oculares não tenham sido emulsificação é um procedimento ci- pupillary opacification in dogs. Journal of the
utilizadas, nenhum animal apresentou rúrgico mais complexo, requer apare- American Animal Hospital Association, v. 26,
opacidade suficiente para impedir a p. 275-281,1990.
lhagem de custo elevado e, dada a sua 14-GELATT, K. N. The canine lens. In: GELATT, K.
visão (Figura 9). A OCP pode ser trata- complexidade, exige que o cirurgião N. Veterinary Ophthalmology, 2 ed.
da por capsulectomia ou por capsuloto- possua considerável treinamento e co- Pennsylvania: Lea & Febiger, 1991, p. 429-460.
mia com yttrium-aluminium-garnet nhecimento teórico do procedimento. 15-DAVIDSON, M. G. ; NASISSE, M. P. ;
(YAG) laser 13,16, este não disponível RUSNAK, I. M. ; CORBERTT, W. T. ;
rotineiramente em nosso meio. ENGLISH, R. V. Sucess rates of unilateral vs.
Referências bilateral cataract extration in dogs. Veterinary
Na opinião de alguns autores, a 01-GILGER, B. C. Phacoemulsification, technology Surgery, v. 19, n. 3, p. 232-236, 1990.
cirurgia de catarata sem o implante de and fundamentals. Veterinary Clinics of North 16-MILLER, P. E. ; STANZ, K. M. : DUBIELZIG,
lentes intra-oculares (LIO) não pode ser America: Small Animal Practice, v. 27, n. 5, R. R. ; MURPHY, C. J. Mechanisms of acute
p. 1131-1141,1997. intraocular pressure increases after
considerada totalmente bem sucedida 15, phacoemulsification lens extraction in dogs.
02-GLOVER, T. D. ; CONSTANTINESCU, G. M.
porém o assunto ainda é alvo de con- Surgery for cataracts. Veterinary Clinics of American Journal of Veterinary Research,
trovérsias. Estima-se que a acuidade North America: Small Animal Practice. v. 27, v. 58, n. 10, p. 1159-1165.

78 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Thomas Normanton Guim
Histiocitoma fibroso maligno MV, mestre, doutorando
PPGV/FV/UFPel
tipo célula gigante em felino thomasguim@hotmail.com

Eduardo Negri Mueller


MV, mestrando
Giant-cell type malignant fibrous PPGV/FV/UFPel
enmuellervet@yahoo.com.br
histiocytoma in feline Josiane Bonel Raposo
MV, dra., profa. adj.

Histiocitoma fibroso maligno tipo célula Depto. Patologia Animal/FV/UFPel


bonel-raposo@brturbo.com.br

gigante en un felino Márcia de Oliveira Nobre


MV, dra., profa. adj.
Resumo: O histiocitoma fibroso maligno (HFM) tipo célula gigante é um sarcoma raro em animais domésticos. Ele foi Depto. Clínicas Veterinárias/FV/UFPel
diagnosticado em um felino que apresentava claudicação e uma massa na região rádio-ulnar esquerda. Ao exame clínico foi mo-nobre@uol.com.br
constatada massa subcutânea ulcerada, firme e aderida à musculatura profunda. Radiograficamente não foram observadas
alterações de estruturas ósseas ou evidência de metástases. Após estadiamento clínico, a amputação do membro foi realizada
e a peça cirúrgica foi encaminhada para exame histopatológico, sendo estabelecido o diagnóstico de HFM tipo célula gigante. Cristina Gevehr Fernandes
Acompanhamento periódico do paciente foi realizado e, vinte e dois meses após a terapia, não houve recidiva ou evidência de MV, dra., profa. adj.
lesões metastáticas. Depto. Patologia Animal/FV/UFPel
Unitermos: gatos, oncologia, neoplasmas de tecidos moles, sarcoma cris.gf@uol.com.br
Abstract: The malignant fibrous histiocytoma of the giant cell type is a rare sarcoma in domestic animals. It was diagnosed in
a feline with a mass in the left radio-ulnar region and manifest lameness. A subcutaneous ulcerated mass, firm and adhered to Descrição do caso
the deep muscles was evidenced on clinical examination. There were no bone alterations or evidence of metastases on the
radiographic examination. After clinical staging, amputation of the affected limb was performed and the surgical specimen was
Foi atendido, no Hospital de Clínicas
submitted for histopathological examination, and the diagnosis of malignant fibrous histiocytoma was established. The patient Veterinária da Universidade Federal de
was periodically examined and up to twenty two months after the therapy no recurrence or evidence of metastases were
recorded.
Pelotas (HCV-UFPel), um felino macho
Keywords: cats, medical oncology, soft tissue neoplasms, sarcoma de pêlo curto, sem raça definida, de dez
anos de idade, com histórico de aumento
Resumen: El histiocitoma fibroso maligno (HFM) tipo célula gigante es un sarcoma raro en los animales domésticos. Este fue
diagnosticado en un felino que presentaba claudicación y una masa en la región radio-ulnar izquierda. En el examen clínico se de volume em região do membro anterior
observó masa subcutánea ulcerada, firme y adherida a la musculatura profunda. En las radiografías no se observaron esquerdo há aproximadamente seis meses.
alteraciones de las estructuras óseas o evidencia de metástasis. Después de definido el estadio clínico, la amputación del
miembro fue realizada y la pieza quirúrgica fue enviada para la realización del examen histopatológico, donde fue establecido No exame clínico notou-se que o animal
el diagnóstico de HFM tipo célula gigante. Fue realizado el acompañamiento periódico del paciente y veintidós meses después apresentava impossibilidade de apoiar o
de la terapia, no hubo recidiva o evidencia de lesiones metastáticas.
Palabras clave: gatos, oncología, neoplasmas de los tejidos blandos, sarcoma membro afetado e, quando estimulado a
andar, demonstrava sinais de claudicação
Clínica Veterinária, n. 75, p. 80-82, 2008 acentuada.
No exame físico geral não foi constata-
Introdução acometida 5,6,7, mas há relatos de ocorrência da nenhuma alteração nos sinais vitais, e o
Os sarcomas de tecidos moles compre- desses neoplasmas no baço 8, nos ossos 9, no estado corporal do animal era bom.
endem um grupo diverso de neoplasias tecido periarticular 4, na glândula salivar 10, Através da palpação, verificou-se a pre-
malignas que se desenvolvem a partir de nos pulmões, no fígado, nos rins e nos lin- sença de massa subcutânea de consistên-
tecidos de origem mesenquimal. Esses fonodos 3,8. cia firme, ovóide, medindo aproxima-
sarcomas têm sido relatados por repre- O HFM é pleomórfico e apresenta dife- damente 8x4x2cm, ulcerada e aderida à
sentarem cerca de 7% de todos os tumores renciação parcialmente histiocítica e fi- musculatura profunda, localizada na face
malignos da pele e do tecido subcutâneo broblástica, mas a sua histogênese ainda medial da região rádio-ulnar esquerda
de felinos 1, sendo estimada uma incidên- não foi completamente definida 11,12. (Figura 1).
cia anual de 17 casos para cada 100.000 Histologicamente, o HFM é classificado Durante a anamnese o proprietário
gatos em idade de risco 2. em vários tipos. Em cães, o tipo estorifor- informou que uma biopsia com punch
O histiocitoma fibroso maligno (HFM) me-pleomórfico é o mais comum, en- (saca-bocado) do tumor havia sido realiza-
é um sarcoma primitivo, incomum a raro em quanto o tipo célula gigante é o padrão da e encaminhada a um centro de diagnós-
animais domésticos, que pode acometer ca- predominante em felinos 3,8. tico, que emitiu o parecer de tumor me-
ninos, felinos, eqüinos, bovinos e suínos 3. A cirurgia realizada com amplas mar- senquimal de caráter maligno.
Em humanos, o HFM é bem documentado gens de segurança é considerada a terapia A partir desses achados, o animal foi
e apresenta algumas características mor- de escolha, pois há poucos relatos de submetido a um exame radiográfico. No
fológicas e comportamento biológico responsividade à quimioterapia ou à radi- membro afetado foi evidenciada uma
semelhantes aos encontrados em animais 4. ação em animais acometidos por HFM 1. massa radiopaca localizada na região rá-
Clinicamente, o HFM apresenta-se Este trabalho tem como objetivo relatar dio-ulnar, sem envolvimento de estruturas
como uma massa pouco dolorosa, firme, um caso de HFM tipo célula gigante em ósseas e articulares adjacentes (Figura 2).
geralmente aderida, invasiva e de cresci- um felino, e são descritos os aspectos clíni- Na avaliação radiográfica do tórax não
mento lento. O tecido subcutâneo dos co-patológicos do neoplasma, bem como a foram observadas alterações que pudes-
membros anteriores é a região mais eficácia da terapia realizada. sem indicar lesões metastáticas.

80 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


esse neoplasma como um histiocitoma No caso aqui relatado, o exame radio-
Thomas Normanton Guim

fibroso maligno tipo célula gigante. gráfico não revelou imagens compatíveis
Durante o período pós-operatório não com lise de estruturas ósseas e articulares
houve complicação. Os pontos cirúrgicos adjacentes à massa neoplásica, mas essa
foram retirados dez dias após o procedi- alteração tem sido observada por outros
mento, sem histórico de contaminação ou autores e está associada ao comportamen-
dificuldade de cicatrização da ferida. Acom- to invasivo do HFM 5,7,20. A radiografia é
panhamento periódico do animal através de uma ferramenta essencial para a detecção
Figura 1 - Massa subcutânea de formato ovóide
e ulcerada localizada na face medial da região exames clínicos e radiográficos foi sugeri- de alterações que possam indicar lesões me-
rádio-ulnar esquerda do felino do ao proprietário. Até o momento transcor- tastáticas 1. O HFM, embora apresente com-
reram vinte e quatro meses de sobrevida sem portamento invasivo e altas taxas de re-
Por apresentar sinais clínicos e padrões intercorrências, a contar do período pós-ope- corrência, raramente produz metástases
histológicos de malignidade, mas sem evi- ratório. O animal apresentava-se em ótimo para pulmões e outros órgãos 3,6,8. No animal
dências de lesões metastáticas, a terapia estado clínico. O proprietário informou que, deste caso não foram encontradas altera-
eleita para esse caso foi a cirúrgica. A am- devido à amputação, o animal tornou-se mais ções radiográficas no campo pulmonar.
putação completa do membro anterior, in- sedentário e já não apresentava os hábitos A biópsia incisional ou excisional é
cluindo a escápula, foi realizada. Não de caça que comumente exercia. absolutamente necessária para o diagnós-
houve complicações durante o período tico definitivo do HFM. O conhecimento
transoperatório. Discussão do tipo histológico antes da intervenção
A peça cirúrgica foi encaminhada para O HFM é um neoplasma incomum em curativa é vital para que a terapia inicial
exame anatomopatológico. Macroscopi- todas as espécies de animais domésticos. possa ser planejada e realizada 1. Neste
camente, foi eviden- Em cães e gatos, tem se observado nos últi- caso, uma biópsia por punch foi realiza-
ciada a aderência e a mos anos um número crescente de diagnós- da e um diagnóstico presuntivo foi esta-
Thomas Normanton Guim

infiltração do neo- ticos, embora a casuística nessas duas belecido. A dificuldade de estabelecer o
plasma na fáscia espécies ainda seja considerada baixa 3,8. diagnóstico por meio de biópsias incisio-
muscular profunda, No Brasil, embora haja um crescente nú- nais ou por punch pode estar relacionada
sem envolvimento mero de diagnósticos de HFM em cães 13,14,15, à heterogeneidade do HFM, pois propor-
do linfonodo regio- a espécie felina raramente tem sido descrita ções dos diferentes tipos celulares va-
nal. A superfície de como portadora desse tipo de neoplasma 16,17. riam consideravelmente em um mesmo
corte do neoplasma Claudicação é um sinal clínico comu- tumor 3,4. O diagnóstico diferencial do
apresentou colora- mente observado em animais acometidos HFM inclui os fibrossarcomas, os neo-
ção esbranquiçada e por HFM nos membros 6,9,18. Neste relato, a plasmas de bainha neural, os rabdomios-
aspecto lobulado. disfunção neurológica, evidenciada por im- sarcomas, os osteossarcomas extra-es-
Histologicamente possibilidade de apoio do membro afetado queléticos e outros sarcomas 6,9,21.
Figura 2 - Projeção ra- observou-se prolife- e perda proprioceptiva foi associada à com- As informações mais importantes para
diográfica lateral de- ração de células fu- pressão dos nervos periféricos pela massa a determinação do estádio clínico de sar-
monstrando massa siformes com pleo- neoplásica. Alguns autores citam que, mesmo comas de tecidos moles são o tamanho do
radiopaca localizada
na região rádio-ulnar, morfismo celular e que as neoplasias não sejam primárias dos neoplasma, sua aderência a tecidos adja-
sem envolvimento de nuclear acentuado, nervos periféricos, outros tumores de teci- centes, sua localização, o comprometimen-
estruturas ósseas e além de núcleos dos moles podem produzir sinais de disfun- to neoplásico de linfonodos regionais e as
articulares adjacentes ção neurológica, tanto por invasão como metástases clinicamente diagnosticadas.
com mitoses bizarras
(Figura 3). Adicionalmente, células gigan- por encarceramento e compressão dessas Segundo o sistema TNM de estadiamento
tes multinucleadas neoplásicas eram abun- estruturas 19. Em estudo anterior, foram clínico para sarcomas de tecidos moles
dantes e havia atividade mitótica típica e constatados sinais de disfunção neurológi- (Figura 5) proposto pela Organização
atípica acentuada (Figura 4). Os achados ca do nervo ciático em um felino acometi- Mundial da Saúde (OMS) 1, o sarcoma
microscópicos permitiram caracterizar do por HFM envolvendo ossos pélvicos 9. presente no animal objeto deste relato in-
seria-se no estádio II da doença.
Thomas Normanton Guim

Embora ainda haja controvérsias, o


Thomas Normanton Guim

HFM é um neoplasma incomum que vem,


lentamente, ganhando aceitação na literatura
médico veterinária como uma entidade dis-
tinta, dada a sua ampla diversidade his-
tológica 3,22. Em felinos, nos quais a varian-
te célula gigante é o padrão mais comu-
mente observado, os primeiros relatos desse
sarcoma foram referidos como tumor de cé-
Figura 3 - Corte histológico do neoplasma lulas gigantes extra-esquelético 23, ou ainda,
demonstrando células fusiformes (setas) com Figura 4 - Corte histológico do neoplasma
acentuado pleomorfismo celular e nuclear. demonstrando células gigantes multinucleadas tumor de células gigantes de partes moles 24.
Coloração HE, objetiva 20x neoplásicas (setas). Coloração HE, objetiva 20x A histogênese das células do HFM

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 81


Tamanho do tumor primário (T) Linfonodos regionais (N) e radiográficas KOTANI, T. ; LAMARRE, J. Characterization of a rat
subcutaneous malignant fibrous histiocytoma and its
T1: < 2 cm de diâmetro N0: sem evidências de metástase para linfonodo de recidiva e tumor lines, with reference to histiocytic features.
T2: 2-5 cm de diâmetro N1: evidências de metástase para linfonodo metástases, de- Veterinary Pathology, v. 44, p. 151-160, 2007.
T3: > 5 cm de diâmetro monstrando a 13-CALDERÓN, C. ; AMORIM, R. L. ; BANDARRA, E. P. ;
T4: tumor invadindo músculo, Metástases à distância (M) MINTO, B. W. Histiocitoma fibroso maligno metastático
osso ou cartilagem M0: sem evidências de metástases distantes eficácia da tera- em canino de 1 ano. In: Anais do XI ENCONTRO
M1: evidências de metástases distantes pia realizada. NACIONAL DE PATOLOGIA VETERINÁRIA, 2003,
Botucatu - SP, p. 252, 2003.
Agrupamento por estágios 14-SOUZA, T. M. ; FIGHERA, R. A. ; IRIGOYEN, L. F. ;
Estágio I Estágio II Estágio III Considerações
BARROS, C. S. L. Estudo retrospectivo de 761 tumores
I A = T1N0M0 II A= T3N0M0 III A: TodosTN1M0 finais cutâneos em cães. Ciência Rural, v. 36, n. 2, p. 555-560,
I B = T2N0M0 II B= T4N0M0 III B: TodosT TodosNM1 O HFM é 2006.
Figura 5 - Sistema modificado de estadiamento clínico para sarcomas um neoplasma 15-VIANA, D. A. ; SILVA, S. W. G. ; PACHECO, A. C. L. ;
FEITOSA, M. S. ; PASSOS, T. C. ; COSTA, L. A. C. ;
de tecidos moles, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) 1
invasivo rara- NUNES, L.C. ; GOUVEIA, J. J. S. ; ALBUQUERQUE,
mente encon- M. C. ; CARVALHO, P. R. L. ; DINIZ, N. B. ; PI-
ainda é objeto de discussão. Alguns autores trado em felinos. O estadiamento clínico é NHEIRO, E. S. P. ; VIEIRA, A. F. A. ; SILVA, M. C. ;
EVANGELISTA, I. L. ; ROCHA, N. S.; OLIVEIRA, D.
sugerem uma origem histiocítica, enquan- vital para o estabelecimento da melhor M. Histiocitoma Fibroso Maligno Metastático: relato de
to outros sugerem origem fibroblástica ou modalidade de tratamento a ser adotada. caso. In: Anais do XI Encontro Nacional de Patologia
miofibroblástica 8. Estudos recentes uti- Neste caso, a amputação do membro com Veterinária, Botucatu - SP, p. 253, 2003.
16-BARROS, L. P. ; MACHADO, L. F. P. ; SILVA, F. C.
lizando imunoistoquímica e microscopia amplas margens de segurança demon- Reparação da falha abdominal com centro frênico eqüino
eletrônica de transmissão têm apontado strou-se eficaz no tratamento do HFM. em gato com histiocitoma fibroso maligno: relato de
provável origem histiocítica para esses Um maior número de casos e o acompa- caso. In: VII Congresso do Colégio Brasileiro de Cirurgia
e Anestesiologia Veterinária, 2006, Santos. Arquivo
neoplasmas, mas existem evidências da nhamento periódico de animais acometi- Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, supl. 2,
possibilidade de que ambas as células, dos é necessário para que informações v. 58, 2006.
histiocíticas e fibroblásticas, possam ser prognósticas fidedignas possam ser esta- 17-GUIM, T. N. ; XAVIER, F. S. ; SPADER, M. B. ;
derivadas de células tronco indiferencia- belecidas, principalmente no Brasil, onde SECCHI, P. ; GUIM, T. N. ; GAMBA, C. O. ; SCHMITT,
B. ; FERNANDES, C. G. Estudo retrospectivo de neo-
das 12,25,26. o número de relatos de felinos acometidos plasmas em felinos diagnosticados durante o período de
A escolha da terapia para animais por- por HFM é escasso. 1980 a 2006. In: Anais do XV Congresso de Iniciação
tadores de sarcomas de tecidos moles po- Científica e VII Encontro de Pós-Graduação da UFPel,
Pelotas - RS, 2006.
de ser baseada na localização, no estadia- Referências 18-WATERS, C. B. ; MORRISON, W. B. ; DENICOLA, D.
mento clínico e no subtipo histológico do 01-MACEWEN, E. G. ; POWERS, B. E. ; MACY, D. Soft
B. ; WILDMER, W. R. ; WHITE, M. R. Giant cell
tissue sarcomas. In: WITHROW, S. J. ; MACEWEN, E.
neoplasma. A despeito do comportamento J. Small Animal Clinical Oncology. Philadelphia: W. B.
variant of malignant fibrous histiocytoma in dogs: 10
cases (1986-1993). Journal of the Veterinary Medical
invasivo e das margens pobremente cir- Saunders Company, 3. ed. , p. 211-226, 2001.
Association, v. 205, n. 10, p. 1420-1424, 1994.
cunscritas, os sarcomas de tecidos moles 02-DORN, E. D. Epidemiology of canine and feline tumors.
Journal of the American Animal Hospital Associaton, 19-CHRISMAN, C. L. Paresia ou paralisia de um membro.
requerem excisão com amplas margens v. 12, p. 307-312, 1976. In: Neurologia dos pequenos animais. São Paulo: Ed.
Roca Ltda. , p. 371-386, 1985.
cirúrgica, incluindo a amputação quando 03-GOLDSCHIMIDT, M. H. ; HENDRICK, M. J. Tumors of
20-RENLUND, R. C. ; PRITZKER, K. P. H. Malignant
necessária. As excisões completas são the skin and soft tissues. In: MEUTEN, D. J. Tumors in
domestic animals. Iowa State Press, 4. ed. , p. 45-117, fibrous histiocytoma involving the digit in a cat.
usualmente curativas . No caso aqui rela-
1
2002. Veterinary Pathology, v. 21, n. 4, p. 442-444, 1984.
tado, a amputação completa do membro 04-POLL, R. R. ; THOMPSON, K. G. Tumors of joints. In: 21-WALDER, E. J. ; GROSS, T. L. Other mesenchymal
MEUTEN, D. J. Tumors in domestic animals. Iowa tumors. In: GROSS, T. L. ; IHRKE, P. J. ; WALDER, E.
anterior foi realizada e o não comprome- State Press, 4. ed. , p. 234-237, 2002. J. Veterinary Dermatopathology. St. Louis: Mosby-
timento das margens cirúrgicas e do linfo- 05-THOMAS, J. B. Malignant fibrous histiocytoma in a dog. Year Book, p. 430-450, 1992.
nodo regional por células neoplásicas foi Australian Veterinary Journal, v. 65, p. 252-254, 1988. 22-FULMER, A. K. ; MAUDIN, G. E. Canine histiocytic
neoplasia: an overview. Canadian Veterinary Journal,
confirmado histologicamente. 06-GIBSON, K. L. ; BLASS, C. E. ; SIMPSON, M. ;
v. 48, n. 10, p. 1041-1050, 2007.
GAUNT, D. Malignant fibrous histiocytoma in a cat.
Nos escassos relatos de HFM em felinos, Journal of American Veterinary Medical Association, 23-CONFER, A. W. ; ENRIGHT, F. M. ; BEARD, G. B.
apenas excepcionalmente houve acompa- v. 194, n. 10, p. 1443-1445, 1989. Ultrastructure of a feline extraskeletal giant cell tumor
nhamento periódico da sobrevida dos pa- 07-GLEISER, C. A. ; RAULSTON, G. L. ; JARDINE, J. H. ; (malignant fibrous histiocytoma). Veterinary Pathology,
GRAY, K. N. Malignant fibrous histiocytoma in dogs and v.18, n. 6, p. 738-744, 1981.
cientes, o que faz com que as informações cats. Veterinary Pathology, v. 16, n. 2, p. 199-208, 1979. 24-FORD, G. H. ; EMPSON, R. N. ; PLOPPER, C. G. ;
referentes ao prognóstico sejam escassas. 08-HENDRICK, M. J. ; BROOKS, J. J. ; BRUCE, E. H. Six BROWN, P. H. Giant cell tumor of soft parts. A report of
Dos relatos de animais amputados, dois cases of malignant fibrous histiocytoma of the canine an equine and a feline case. Veterinary Pathology, v. 12,
spleen. Veterinary Pathology, v. 29, n. 4, p. 351-354, n. 5, p. 428-433, 1975.
felinos morreram oito meses e seis semanas 1992. 25-THOOLEN, R. J. ; VOS, J. H. ; VAN DER LINDE-
após a cirurgia: o primeiro foi eutanasiado 09-SEILER, R. J. ; WILKINSON, G. T. Malignant fibrous SIPMAN, J. S. ; DE WEGER, R. A. ; VAN UNNIK, J. A. ;
devido a recidiva e resposta insatisfatória à histiocytoma involving the ilium in a cat. Veterinary MISDORP, W. ; VAN DIJK, J. E. Malignant fibrous
Pathology, v. 17, n. 4, p. 513-517, 1980. histiocytomas in dogs and cats: an immunohistochemical
radioterapia, enquanto no segundo, que study. Research Veterinary Science, v. 53, n. 2, p. 198-
10-PEREZ-MARTINEZ, C. ; GARCIA-FERNÁNDEZ, R. A. ;
também apresentava recidiva neoplásica, REYES ÁVILA, L. E. ; PÉREZ-PÉREZ, V. ; 204, 1992.
a causa da morte não foi determinada 7. En- GONZÁLEZ, N. ; GARCÍA-IGLESIAS, M. J. Malignant 26-MORRIS, J. S. ; MCINNES, E. F. ; BOSTOCK, D. E. ;
fibrous histiocytoma (giant cell type) associated with a HOATHER, T. M. ; DOBSON, J. M.
tretanto, em outro relato, 14 meses após a ci- malignant mixed tumor in the salivary gland of a dog. Immunohistochemical and histopathologic features of 14
rurgia o felino encontrava-se sadio e sem Veterinary Pathology, v. 37, p. 350-353, 2000. malignant fibrous histiocytomas from flat-coated
evidência radiográfica de metástase pulmo- 11-PACE, L. W. ; KREEGER, J. M. ; MILLER, M. A. ; retrievers. Veterinary Pathology, v. 39, p. 473-479,
TURK, J. R. ; FISCHER, J. R. Immunohistochemical 2002.
nar 27. No presente caso, vinte e quatro meses staining of feline malignant fibrous histiocytomas. 27-ALLEN, S. W. ; DUNCAN, J. R. Malignant fibrous
após a cirurgia o animal encontrava-se em Veterinary Pathology, v. 31, n. 2, p. 168-172, 1994. histiocytoma in a cat. Journal of the Veterinary
ótimo estado clínico, sem evidências clínicas 12-YAMATE, J. ; FUMIMOTO, S. ; KUWAMURA, M. ; Medical Association, v. 192, n. 1, p. 90-91, 1988.

82 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


"#$%&%'(!)#*#+%',+%(!-#.(-
Bem-estar animal

Vozes do silêncio - uma reflexão sobre o


! ! ! de animais
uso ! ! em experimentos
! ! científicos

A
! ! ! !
recente aprovação pela Câmara científicos, tanto no ensino quanto na pes-
Federal do Projeto de Lei n. quisa. Foi apresentado como dissertação de
! ! ! 1.153/95,
! ! ! a chamada "Lei
! ! Arouca", mestrado ao! ! Instituto !de Psicologia ! da!
! ! ! ! que regulamenta
! a
! experimentação ! ! animal Universidade
! ! de São Paulo,
! ! em 1995. ! Im-
! ! ! ! no País, tem ! acirrado ! o debate entre ! ! cientis- ! ! portante ! !referencial ! teórico
! no debate acerca
! !
tas e a sociedade civil, da vivissecção, tem inspirado monografias
! ! ! ! ! ! ! ! ! notadamente ! ! o movi- ! ! ! ! ! !
mento de defesa animal, acerca dos princí- de conclusão de cursos universitários, teses
! ! ! ! ! ! ! ! ! em congressos ambientais e ações judiciais !
! ! ! ! !
pios éticos da ciência e também sobre a efi-
! ! ! ! ! ! ! !
cácia e necessidade deste método de ensino
! ! ! ! ! ! em!defesa dos
propostas ! animais.! !
! ! ! ! e pesquisa. Se aprovada no Senado, será a João Epifânio Regis !Lima,
! ! ! !
professor de
! ! ! ! ! ! ! !
primeira regra federal sobre pesquisas e ati- ! ! !
Filosofia da Ciência e Estética na Universi- ! ! !
! ! ! ! ! vidades de ensino ! ! cobaias,
com ! ! legalizando- ! !
! dade Metodista de São ! !Paulo, investiga ! as
! ! ! ! ! as. Seu! primeiro ! !efeito prático, ! !porém, será ! causas do silêncio, da naturalidade e! da! pos-
! ! ! ! !
! ! ! ! acabar !com ! leis municipais ! ! !que ! tentam tura acrítica! do! meio acadêmico diante de
! ! ! ! ! proibir a pesquisa com animais, em disputa
! ! ! ! uma prática ! violenta ! como ! a! vivissecção. ! !
! ! ! no Rio de Janeiro e em Florianópolis.
! ! ! Para isso, baseia-se em depoimentos de !pro-!
! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! Neste contexto, o Instituto Nina Rosa
! ! ! ! ! fissionais
! e estudantes
! ! envolvidos ! com! a ex-
! ! ! ! lançou no dia 7 de junho de 2008, o livro
! perimentação ! animal e! na !análise ! dos
! com-
! ! ! ! ! Vozes do Silêncio. ! ! É o primeiro ! trabalho! ponentes ! ! ideológicos! e culturais que ! ! cercam
Vozes do Silêncio - !Cultura cientifíca: ! ! ideologia acadêmico,!no !Brasil,! que ! faz ! uma ! reflexão! tal prática. ! !O silêncio! é o problema. ! ! O mate-! ! !
e alienação no! discurso ! sobre!vivissecção ! acerca do !uso !de animais em experimentos ! ! rial, a palavra. ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! !
3º Seminário Arca Brasil ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
Responsabilidade ! ! ! Social
! ! & Crescimento ! ! Profissional ! ! ! ! !

C
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
rescem em nosso país as ações de cunho nova medicina veterinária;
! ! ! ! ! ! !
- legislação, defesa dos animais e cidadania;
! ! ! ! ! ! ! !
social que trazem consigo grande po-
! ! !
tencial de negócios. Confira no 3º Seminário ! ! ! !
- as novas legislações e a consolidação das ! ! ! ! ! ! ! !
! !
ARCA Brasil, que ocorrerá em setembro, em ! ! ! !
políticas públicas de controle de cães e ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! !
São Paulo, SP, os novos caminhos que se ! ! gatos; ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
apresentam para ! o! médico ! ! !
veterinário. ! !
Co- - controle !populacional de !cães ! e gatos: ! ! ! ! ! ! !
! !
nheça as oportunidades de transformar ! res- modelos !de sucesso no Brasil ! ! e no! exterior. ! ! ! ! ! !
ponsabilidade ! social ! !em sucesso ! !profissional ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
3º SEMINÁRIO ARCA ! BRASIL
e pessoal. ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
Responsabilidade Social! !& Crescimento Profissional
Entre os temas ! ! que! serão! abordados, ! ! ! ! ! !
17 !de setembro de !2008, ! das 14h00 às 18h30
destacam-se: ! ! ! ! ! !
Auditório do Transamérica Expo Center
- leishmaniose:! aspectos ! éticos !e legais ! do ! ! ! !
São Paulo - SP, Brasil
atendimento clínico; ! ! !
- atuação social! e crescimento ! ! profissional:
! ! a Inscrições em !breve!
! !
receita do sucesso; ! ! ! ! ! Mais
! ! informações ! no !sítio www.petsa.com.br
- o bem-estar ! dos animais ! !no contexto
! ! da ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! !! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! !! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !

84 ! Ano
! Veterinária,
Clínica ! XIII,
! !n. 75,
! julho/agosto, 2008 !
Legislação

Câmara dos deputados aprova projeto de lei sobre experimentação animal


N o dia 20 de maio de 2008 foi
aprovado pela câmara dos deputa-
dos o projeto de lei do deputado Sérgio
de ditaduras tardias, ao contrário do
que ocorreu na Europa, onde as ditadu-
ras mais sangrentas ocorreram até o
organismo vivo, a exemplo do biochip
já inventado por um estudante para o
estudo das doenças ligadas ao açúcar e
Arouca, PL 1153, de 26 de outubro de final da década de 50 do século XX. à coagulação, que certamente elimina-
1995. Foram mais de 10 anos em trami- Quando os humanos estão sob um regime rá o uso de animais vivos na busca de
tação. Agora, conforme decisão da Me- totalitário, a única coisa que interessa a medicamentos para o diabetes e anti-
sa Diretora da Câmara dos Deputados, o eles é lutar para se auto-libertarem da coagulantes”, acrescenta Sônia Felipe.
PL foi ao Senado Federal por meio do condição de opressão e sofrimento. Por Sônia Felipe ressalta também que “O
ofício nº 278/08/PS-GSE. O projeto de isso não discutimos a libertação dos crescente interesse da comunidade bra-
lei, também conhecido como Lei Arou- animais, nem a preservação da nature- sileira pela discussão sobre o uso de
ca, é uma tentativa de regulamentar a za, somente o que tinha diretamente a animais vivos e sobre a fabricação de
experimentação animal no Brasil, já que ver com o fim da opressão política”, animais para atender necessidades hu-
não há uma norma nacional que indique explica Sônia Felipe. manas pode ser compreendido à luz de
claramente os limites dessa prática. “O uso de animais para testes de cos- todas essas variáveis, e, especialmente,
Sônia Felipe, doutora em filosofia méticos, para a moda, para diversão e pela possibilidade que os jovens têm de
moral e teoria política pela Universida- shows já é considerado uma prática que colher matérias na internet e em publi-
de de Konstanz, Alemanha, professora apenas preserva a tradição cultural, cações já existentes em língua portu-
da graduação e pós-graduação em filo- mas não é constituída de nenhum funda- guesa nas quais o uso de animais é cri-
sofia e do doutorado interdisciplinar em mento ético que a possa tornar legíti- ticado de forma contundente e filosofi-
ciências humanas da UFSC, destaca que ma, da perspectiva do desenvolvimento camente fundamentada”.
“No Brasil são muito poucos os que tecnológico exatamente nessas áreas, da
lêem em inglês com domínio suficiente produção de cosméticos ao divertimento
para aproveitar a argumentação filosó- e vestimentas. Resta agora abolir o uso
fica construída nas décadas de 70 a 90, de animais nos testes de fármacos e a
do século XX, em defesa dos animais. ditadura da carne e derivados de ani-
Isso retardou o acesso dos jovens brasi- mais na dieta. Com a diversificação da
leiros aos argumentos éticos já elabora- produção de alimentos a carne passa a
dos na Europa e nos Estados Unidos em ser secundária para a manutenção da
favor dos animais, exatamente o que saúde humana, além de já ser conside-
levou a Comunidade Européia a ter de rada um malefício. E com as invenções
rever a política do uso de animais para cada vez mais brilhantes na área da
quaisquer finalidades humanas”. pesquisa médica, também já se vislum-
“Ficamos fora do debate internacio- bra a abolição do uso de animais vivos
nal durante quase quarenta anos, pois em experimentos químicos, pois os Pesquisas com biochips podem ser encontradas
na América Latina sofremos uma onda biochips substituem com eficácia o no sítio www.inovacaotecnologica.com.br

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 85


! Internet
!"#$%$&'()"*"+$&,+$'(-".'-

Vídeos veterinários on line


E
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
stão disponíveis, ! !em iniciativa ! pioneira! do Núcleo! Setorial de ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
Informática
! ! (NuSI), ! ! do !Centro ! de
! Ciências ! Rurais, ! ! da ! ! ! ! ! ! ! ! !
Universidade ! ! Federal !de Santa Maria ! (UFSM), ! diversos ! vídeos de ! ! ! ! ! ! ! ! !
procedimentos ! médico ! veterinários ! estão ! disponíveis no endereço
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
eletrônico: www.ufsm.br/tielletcab/TECvet.
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
“O objetivo é proporcionar à classe veterinária um ambiente de
! ! !
aprendizagem lúdico, interativo e contemporâneo, que vá de encon-
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! !
tro à WEB 2.0. Vivemos tempos de uma sociedade "imagética" na ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! !
Internet. Nossa página é aberta e sem distinção. A partir desse ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
momento,! não !é mais nossa, ! é de ! !todos. Contamos, ! ! pois, com ! a cola- ! ! ! ! ! ! !
!
boração dos internautas, a fim de que possamos construir uma pági- ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
na modelo. !Sua elaboração ! ! ! foi projetada ! ! dentro ! de padrões! !
compro- ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
! ! ! !
vadamente eficiêntes, porém simples, e que permitem constante reno- ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
vação, sempre ! indo! de ! encontro ! ! àquilo ! que nossos usuários! ! solici-
! ! ! ! ! ! ! ! ! !
tarem”, esclarece
! o prof. !Claudio ! Afonso ! Baron ! Tiellet, coordenador
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
do NuSI,! médico! veterinário, ! !mestre! em tecnologia da informação e
Diversos procedimentos veterinários podem ser encontrados no
! endereço www.ufsm.br/tielletcab/TECvet! ! ! ! ! !
doutorando
! !em Informática ! !na! educação. ! ! ! ! ! ! ! !
“A todos que possuem ! material ! que !possa! ser disponibilizado em forma de ! ! ! ! ! ! !
vídeo, convidamos
! ! ! a colocá-los !na página. ! ! Nosso foco é a educação. Procedendo ! ! ! ! !
dessa !maneira, estaremos ! auxiliando ! ! nossos futuros profissionais, os alunos de ! ! ! ! ! !
todas as! partes, ! a terem ! !acesso a! uma! rica casuística, imprescindível no aprendiza- ! ! ! ! !
do”, acrescenta ! ! o prof. Tiellet. ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
Outro ! sítio na! internet ! ! onde! se pode ! ! !encontrar vídeos é no Youtube ! ! ! ! !
(www.youtube.com).
! ! ! A diferença ! é que no Youtube ! os vídeos são diversos, exigin- ! ! ! ! !
do que o !usuário ! ! utilize as palavras-chave ! ! ! corretas no campo de busca para ter ! ! ! ! !
sucesso para encontrar ! o que
! ! ! ! ! ! ! ! !
se procura. Ao utilizar, por
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
exemplo, as palavras “tomo-
!
grafia” e “veterinária” encon-
! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
tram-se os! vídeos: ! ! Tomografia! ! Demonstração da !técnica ! de intubação é um dos vídeos
! !
Veterinária Helicoidal em 3D ! ! ! mais vistos
!
na Renalvet ! e Tomografia ! ! ! !
Helicoidal !em !abdomen de ! !
cão, apenas 20 segundos. ! ! ! No Youtube há uma grande diversidade
de vídeos, inclusive veterinários
! ! ! !
! ! ! ! !! ! ! !
Médico veterinário cadastrado no sítio da Schering-Plough
! ! ! ! ! ! ! ! ! !! ! ! ! !
Saúde Animal concorre a prêmios! ! ! !

A
! !
Schering-Plough
! ! ! Saúde ! Animal ! ! ! ! Fotóforo (3º lugar); todos da marca
lança! uma! !promoção, ! !por tempo ! Welch Allyn. Além disto, terão direito a
limitado (até ! ! outubro ! de 2008),
! ! ! aos uma reportagem na Revista Vet News e
médicos veterinários. ! ! ! ! no site especialpet, falando a respeito de Otoscópio
Os médicos ! ! veterinários ! ! devidamente ! serviços e especialidades de suas clínicas. Macroview
Vale ressaltar que aqueles que ainda
cadastrados ! no sítio www.especialpet. ! ! !
com.br que permanecerem por mais não são cadastrados podem se cadastrar
! ! ! ! ! ! agora mesmo e concorrer da mesma
tempo logado, navegando pelos links
! !
artigos técnicos, produtos, novidades,
! ! ! ! ! forma.
!
programas, ! outros, concorrerão
entre ! ! a Assim, além de fortalecer o relacio-
prêmios. ! ! ! ! ! ! ! namento com seus principais formado- Auriflush
!
A medição !será controlada
! ! ! ! área! res de opinião, a Schering-Plough Saú-
pela
de manutenção ! ! do site ! durante ! todo! o de Animal sai na frente e consolida sua
! !
período da promoção. ! ! ! ! marca por meio das informações técni-
Os premiados serão contemplados
! ! ! ! ! cas promocionais prestadas em seu sítio.
com um ! Otoscópio! Macroview ! ! (1º! ! Schering-Plough ! !! ! ! ! ! ! ! !
lugar); !um! Auriflush ! ! (2º ! lugar) ! e um Saúde Animal: ! 0800131113. ! ! ! ! ! Fotóforo

86 Clínica ! Ano
( Veterinária, ! XIII,
! ! n. 75,
! julho/agosto, 2008 !
ATLAS COLORIDO DE PATOLOGIA VETERINÁRIA - REAÇÕES
MORFOLÓGICAS GERAIS DE ÓRGÃOS E TECIDOS
A segunda edição do clássico Atlas Consulta essencial para alunos de
Colorido de Patologia Veterinária - graduação e pós-graduação, médicos
Divulgação

Reações Morfológicas Gerais de Órgãos veterinários e patologistas, a obra já está


e Tecidos, editado por J. E. van Dijk, E. disponível no mercado.
Gruys e J. M. V. M. Mouwen do O livro apresenta introduções breves,
Departamento de Patobiologia da porém abrangentes, em cada capítulo,
Faculdade de Medicina Veterinária da descrevendo os principais padrões de
Universidade de Utrecht na Holanda, reação de cada órgão e tecido, adotando
lançada em 2007 e traduzida para mais abordagem comparativa que permite
de oito línguas, foi traduzida também melhor compreensão dos mecanismos
para o português e contou com a revisão gerais que operam em diferentes órgãos.
científica do prof. dr. Paulo César O atlas é usado mundialmente em
Maiorka da FMVZ/USP cursos de medicina veterinária e é um
A renomada instituição reedita pelo dos pilares do ensino de Patologia
selo da Elsevier o atlas mais importante Animal.
na área de patologia veterinária, agora
com seiscentas ilustrações de excelente Editora Elsevier/Saunders
qualidade, tanto em matéria de registro http://www.elsevier.com.br/
fotográfico como em finalidade científi- info@elsevier.com.br
ca, incluindo todas as espécies de ani- (21) 3970-9300
Atlas Colorido de Patologia Veterinária - Reações mais domésticos. (11) 5105-8555
Morfológicas Gerais de Órgãos e Tecidos

QUIMIOTERAPIA ANTINEOPLÁSICA EM CÃES E GATOS

S uely Rodaski, professora de técnica


cirúrgica veterinária e oncologia
veterinária do Departamento de Medicina
Veterinária da Universidade Federal do
Paraná (UFPR), e Andrigo Barboza De
Nardi, professor da disciplina de
hidroxiuréia e piroxicam.
Nos capítulos seguintes estão descri-
tos os protocolos quimioterápicos anti-
oncologia veterinária do curso de neoplásicos para cães (linfomas, leuce-
mestrado em cirurgia e a anestesiologia mia linfóide, mastocitomas, tumor ve-
veterinária da Universidade de Franca néreo transmissível, neoplasias de teci-
(Unifran), assinam a autoria da 3ª dos moles, osteossarcomas e carcino-
edição do livro Quimioterapia Antineo- mas) e para gatos (linfoma, leucemia
plásica em Cães e Gatos, lançado recen- linfóide e sarcomas).
temente pela MedVet. A quimioterapia, apesar de única
De forma didática, o primeiro capítu- opção em alguns casos, pode ter efeitos
lo do livro apresenta as várias modali- colaterais sérios. Na obra, dedicou-se
dades da quimioterapia: pré-operatória, um capitúlo inteiro para o assunto, abor-
adjuvante, paliativa, indução e manu- dando-se reações alérgicas e anafilaxia,
tenção. Seqüencialmente, abordam-se a síndrome aguda por lise tumoral e va-
as principais vias de administração: riadas formas de toxicidade (hematoló-
oral, intravenosa, intramuscular e subcu- gica, gastrintestinal, hepática, pancreáti-
tânea. Os tópicos seguintes dedicam-se ca, cardíaca, pulmonar, neurológica,
à avaliação da resposta à quimioterapia urológica, dermatológica e reprodutiva).
e quais as orientações que devem ser Os autores finalizam a obra com um
dadas aos proprietários de cães e gatos capítulo essencial: as medidas de pro-
portadores de câncer. teção em quimioterapia antiblástica, que
No segundo capítulo, encontram-se são essencias em diversas etapas da
as características dos fármacos anti- quimioterapia, como a administração, o
neoplásicos: agentes alquilantes, anti- armazenamento e a manipulação.
Quimioterapia Antineoplásica em Cães e Gatos metabólitos, fármacos naturais, antibió- MedVet Livros: (11) 6918-9154 -
- 3ª edição - 305 páginas ticos antitumorais, hormônios, enzimas, www.medvetlivros.com.br

88 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


OFTALMOLOGIA CLÍNICA EM ANIMAIS DE COMPANHIA

A obra Oftalmologia Clínica em


Animais de Companhia, publicada
originariamente em língua espanhola,
(Centro Oftalmológico Veterinário
Goya, Madri, Espanha) e Nathali
Weichsler (Faculdade de Ciências Vete-
Divulgação

teve sua versão para o português lança- rinárias, Universidade de Buenos Aires,
da recentemente pela MedVet Livros. República Argentina).
O autor da obra, Daniel Herrera, MV, O conteúdo da obra é composto, ini-
PhD, diplomado pelo Colégio Latino- cialmente, pela farmacologia e pela te-
Americano de Oftalmólogos Veteriná- rapêutica em oftalmologia clínica, que
rios (CLOVE), professor de enfermi- aborda, entre outros itens, a administra-
dades cirúrgicas, chefe da unidade de ção eficaz de fármacos oftálmicos, as
oftalmologia da Faculdade de Ciências injeções intra-oculares, os agentes anti-
Veterinárias, da Universdidade de Bue- microbianos, os fármacos antiinflama-
nos Aires, República Argentina, contou tórios e os reguladores da pressão intra-
com a participação de importantes cola- ocular. Toda a parte de exames é deta-
boradores: Peter G. C. Bedford (Royal lhada, desde a anamnese, a contenção e
Veterinary College, Universidade de o exame oftalmológico, até exames
Londres, Reino Unido), Dennis E. mais minusciosos, como por exemplo, a
Brooks, (Universidade da Flórida, ultra-sonografia ocular, a angiografia
EUA), Kirk N. Gelatt (Universidade da fluoresceínica do fundo ocular e a ele-
Flórida, EUA), José Luis Laus, (Uni- trorretinografia. O livro aborda a oftal-
Oftalmologia Clínica em Animais de
Companhia, obra com o total de 300 pági- versidade Estadual Paulista - Unesp/Ja- mologia no cão, no gato e no eqüino.
nas, é ricamente ilustrado com fotografias e boticabal, Brasil), Marc Simon MedVet Livros: (11) 6918-9154 -
ilustrações de excelente qualidade (França), Manuel Vilagrasa Hijar www.medvetlivros.com.br

90 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Por Sergio Lobato
“ Todo dia ela faz tudo sempre igual, me
acorda às seis horas da manhã...”

O
que será que faz com que mi- estruturas físicas fora dos padrões, em
lhares de veterinários acordem condições de insalubridade, sem condi-
todos os dias de manhã, tomem ções técnicas adequadas e condizentes
seus banhos, comam o café da manhã com o conhecimento obtido em anos e
(muitas vezes de forma apressada e anos de estudo e ainda recebendo per-
desequilibrada do ponto de vista nutri- centagens ínfimas sobre o serviço que
cional...), vistam suas roupas e/ou jale- prestam e pelo qual respondem legal-
cos brancos e comecem o dia dentro de mente perante várias esferas da Lei?
seus consultórios, clínicas e hospitais? O que faz com que esses profissio-
O que será que faz com que esses nais da medicina veterinária sigam para
mesmos profissionais passem mais de seus plantões com a esperança de que
oito horas em plantões sem almoçar di- vários clientes entrem na sala de atendi-
reito, sem tempo para pagar uma conta mento garantindo o mínimo da comis-
no banco ou mesmo descansar um são do dia?
pouco durante um atendimento e outro? O que faz com que médicos veteriná- tempos corridos como estes em que
O que será que faz com que médi- rios de todo o Brasil insistam em abrir vivemos? Pois muitos de nossos colegas
cos(as) veterinários(as) de todo o País suas clínicas quando a imagem da pro- já abandonaram a profissão, seguiram
enfrentem situações de conflito com fissão se encontra tão desvalorizada por outros caminhos. Conheço colegas
clientes estressados, clientes oportunis- como instituição perante a sociedade que hoje são atores, outros comerciantes
tas, clientes desinformados e que acham que acha que todos devemos ser “veteri- de jóias, outros trabalham em bancos e
que esses profissionais devem ser a re- nários do Bem” e atender de graça, tantos outros que seguiram por estradas
presentação diplomática de São Fran- dando aquilo que temos para vender? diferentes... Mas o que faz você seguir
cisco de Assis na Terra ao chegar nas Em um primeiro instante creio que na medicina veterinária? O que o dife-
consultas com quadros críticos como todos pensamos... “Temos que pagar as rencia desses colegas que escolheram no-
um tumor de mama de 5 kilos arrastan- nossas contas...” vas estradas para sua satisfação pessoal?
do pelo chão e com a falta de vergonha E esta não deixa de ser uma forte A resposta é uma só: sua motivação!
na cara em dizer: “ Ih doutor apareceu razão, mas e por trás disso ? Dessa obri- Mas afinal o que seria essa tal moti-
ontem!”? gação monetária e fiscal? vação?
O que será que faz com que nossos O que move você? Será que você Não quero aqui tratar do tema do ponto
colegas continuem trabalhando em já parou para pensar nisso no meio de de vista filosófico, social, etnográfico ou

92 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


psicológico, contento-me em apenas ter trabalho deve ser padronizado, pois as perante aqueles times de trabalho não
uma conversa boa sobre o tema, dividir pessoas esperam da vida muitas coisas acostumados a correr atrás das metas e
pensamentos que passam por essa minha diferentes, e mesmo quando existe a dos benefícios que são propostos a todos.
cabeça livre de rédeas com os colegas que semelhança, existe a diferença. Vamos a Comece com metas mais palpáveis,
prestigiam a coluna... um exemplo? Pergunte a um brasileiro e, um conselho precioso, jamais deixe
Vamos começar falando das nossas qual seu maior sonho e a maioria dirá: as mesmas pessoas com os mesmos de-
escolhas, de nossas escalas de valo- “A casa própria!” Mas como seria essa safios sempre, ou seja, promova um giro
res...Nós somos fruto de uma série de casa? Será que seriam iguais? Do de responsabilidades na loja ou na clíni-
influências e interferências durante toda mesmo tamanho? Cor? Número de cô- ca, delegue responsabilidades distintas a
nossa vida... desde nossa tenra idade, modos? Localização? cada período que pode variar de dois a
quer ver só? A criança segue camba- Um aspecto que não deve ser esque- três meses, pois assim haverá tempo
leante pela sala e observa os bibelôs em cido, é que você como gestor do esta- hábil para uma avaliação mais correta e
cima da mesa de centro, ao esticar suas belecimento, líder de sua equipe de tra- criteriosa dos resultados de cada grupo
mãozinhas ávidas pela curiosidade, balho, deverá, por obrigação, desenvol- em cada respectiva ação.
ecoa pela sala um sonoro NÃO vindo da ver ferramentas para conhecer os dese- Um exemplo prático disso é fazer
mãe zelosa (e preocupada em ver o bi- jos de cada membro da sua equipe, pois com que diferentes vendedores de uma
belô em mil pedaços também....). o exercício diário da motivação não se- loja “girem” pelos setores, não deixan-
Ela começa cedo a ter seu comporta- guirá jamais regras iguais para toda a do que alguns poucos que vendam pro-
mento moldado pela sua primeira estu- equipe. E sabe por quê? Porque cada ser dutos de maior giro e de maior valor
tura social, a família, onde os primeiros humano é um somatório individualiza- agregado, se distanciem do resto do
códigos são impostos e aprendidos, e do de valores e de posturas, o que pode grupo e se acomodem com a bonifi-
assim será pela vida toda, com a escola, motivar seu tosador nem de longe anima cação mais “fácil”.
os amigos, a faculdade, os amigos de seu vendedor do balcão e, muito menos, E se faça presente sempre, não crie os
trabalho, a sociedade, a mídia invasiva, sua equipe veterinária. planos de motivação e incentivo e suma
a velocidade dos tempos etc. Enfim, Como proceder então? da loja, verifique o progresso de cada
você irá construindo algumas figuras Primeiro se disponha a conhecer real- um, estimule sempre, corrija a rota, mas
muito próprias como sua personalidade, mente cada membro da sua equipe de antes de tudo esteja disponível para
seu auto-conceito e sua escala de valo- trabalho, não os considere códigos de ouvir e para aconselhar quando necessá-
res, ou seja, aquilo que lhe é mais im- barra como fazemos com produtos, pois rio for!
portante, seja amor, família, saúde, somente de posse desse conhecimento é Afinal cada um tem mente onde quer
sexo, dinheiro, poder, fama, trabalho, que você será capaz de saber se aquele chegar, que tipo de casa deseja construir
reconhecimento, filhos, amizades etc. seu vendedor dá muito mais valor a um na vida, inclusive você !
Você dará notas a cada fato, estrutura, elogio público do que aquela tosadora E você? Como seria a sua casa?
sentimento, coisa ou pessoa em seu que quer um plano de remuneração me- Como seriam os seus desejos? O que
viver... E assim será com a sua carreira! lhor no final do ano. motiva você?
Viver a sua carreira não é apenas É meio cansativo em um primeiro Não é fácil ser médico veterinário
cumprir rotinas, É buscar aquela sensa- momento pensar em uma customização nos dias de hoje, mas espero que acredi-
ção de bem estar dentro de si quando das políticas de bonificação, estímulo tem que vale muito a pena quando você
você é o personagem central desta peça... ou reconhecimento, mas lembre-se: na encontra em seu trabalho a melodia de
Viver a sua carreira é entender que sua essência cada ser humano gostará de canções como essa:
cada passo implica em condições im- diferentes tipos de desafios, claro que
postas por terceiros e por você mesmo, teremos aqueles que fogem de desafios,
e encontrar esse equilíbrio é fundamen- mas será que você precisa de gente
“A vida é amiga da arte
tal para enfrentar o dia seguinte... assim na sua equipe?
E nesse aprendizado do viver a car- Estipular e criar esses desafios é uma É a parte que o sol me ensinou
reira é que encontramos a motivação arte, pois como dito antes, nem todos O sol que atravessa essa estrada
como força motriz, como chama inter- respondem de forma igual a um plano de que nunca passou
na, fogo, tesão, e que apresentará mi- metas e objetivos, mas com certeza fazer Por isso uma força me
lhões de cores e nuances, pois graças a com que todos se sintam parte deste pro- leva a cantar
Deus somos todos diferentes! grama de estímulo já é meio caminho
As bases da motivação até podem ser andado para fazer germinar a semente da Por isso essa força estranha
as mesmas, mas elas são revestidas de participação pró-ativa de todos os mem- Por isso é que eu canto não
muitos aspectos extremamente indivi- bros da equipe em seu programa. posso parar
duais. Por isso, nenhum treinamento Não defina metas únicas e imutáveis, Por isso essa voz tamanha”
que vise a motivação de equipes de isso pode parecer um balde de águia fria

94 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Empresas brasileiras presentes na Interzoo
Anfal Pet e Apex-Brasil levam empresas do setor para feira de negócios na Alemanha

A Interzoo acontece
na Alemanha e é uma
das mais importantes
feiras mundias do
mercado pet. Sua
próxima edição já está
programada para 2010.
www.interzoo.com

A Associação Nacional dos Fabrican-


tes de Alimentos para animais de
estimação - Anfal Pet e as empresas
fabricantes de ali-
mentos, acessó-
rios, medica-
Empresas brasileiras marcam
presença na Interzoo 2008

Guabi, Nutrire, Total Alimentos, mentos, suple-


Extrutécnica, Pet Society, Vetnil, Vigo mentos, mas- A Total Alimentos expôs no Pavilhão
Ar, Sarlo Better, Atacama, Comac, tigáveis e pro- Brasileiro, um ponto de encontro
entre as empresas nacionais e todos
Giardini, Mr. Pet participaram, entre os dutos de higie- os brasileiros que visitaram o evento.
dias 22 e 25 de maio, da feira Interzoo, ne e embeleza- Exportadora desde 2001, a Total
que ocorreu na cidade de Nuremberg - mento para ani- Alimentos já inseriu seus produtos
nos cinco continentes. Este fato se
Alemanha. As empresas Ibasa, Duprat, mais de com- deve em grande parte aos certifica-
Sanol, Organnact e Brasmed também panhia. Além dos de qualidade que a empresa
participaram, mas através da Centralvet, da participação possui, entre eles PIQ Pet, HACCP
em feiras inter-
e GMP de Boas Práticas de
que realiza a gestão comercial interna- Fabricação do segmento
cional destas empresas. “Fizemos vários nacionais, in-
contatos que já estão gerando negócios”, clui estudos de
destacou Rosana B. Santana, Consul- mercado e rodadas de negócio. Brasil apóia 50 setores da economia
tora de Negócios da Centralvet. A Anfal Pet tem como missão defen- brasileira, divididos nas áreas de agro-
Durante o evento foram realizadas 469 der os interesses institucionais dos fa- negócio, moda, tecnologia, casa e cons-
reuniões de negócios com compradores bricantes de Produtos Pet junto a enti- trução civil, entretenimento e serviços e
da Índia, Coréia, China, EUA, Emirados dades de classe, órgãos governamen- máquinas e equipamentos. Anualmente,
Árabes Unidos, Rússia, Turquia, Gré- tais, imprensa e sociedade em geral. apóia a participação de empresas brasi-
cia, Reino Unido, Alemanha, Portugal, Defende a redução da carga tributária leiras em mais de 600 eventos – tanto no
França, Romênia, Holanda, Japão, Es- para produtos pet, monitora a legisla- Brasil quanto no exterior.
lovênia, Tailândia, Israel, Arábia Sau- ção junto aos Órgãos Públicos, promo- Enquanto isso, no Brasil, estamos pró-
dita, Espanha, Bulgária, Finlândia, Ma- ve o desenvolvimento da demanda in- ximos da realização de evento que cres-
lásia, República Tcheca, Kuwait, Hun- terna e o crescimento das exportações ce anualmente: a 8ª Riovet e 8ª Conferên-
gria, Colômbia, Alemanha e Venezuela. além de buscar a normatização da pro- cia Sul-americana de Medicina Veteri-
As rodadas geraram US$ 273.000,00 dução segundo rígidos padrões de nária (www.riovet.com.br), que aconte-
em negócios imediatos, e ainda uma qualidade. cerá, de 7 a 9 de agosto de 2008, na
previsão de US$ 3.000.000,00 para os A Apex-Brasil tem a missão de pro- cidade do Rio de Janeiro. Com uma pro-
próximos 12 meses. mover as exportações dos produtos e posta diferenciada e cada vez mais
A participação na Interzoo foi mais serviços do país e contribuir para a in- atraente aos mais variados públicos-
uma ação do programa Pet Products ternacionalização das empresas brasilei- alvos que compõem o mercado pet, a 8ª
Brasil (www.petproductsbrasil.org.br) ras. A agência trabalha para aumentar o Riovet Trade Show marca seu lugar no
- parceria entre a Anfal Pet e a Agência número de empresas exportadoras, cenário pet sul-americano ao oferecer um
Brasileira de Promoção de Exportações agregar valor à pauta de produtos ex- leque de opções em termos de eventos
e Investimentos - Apex-Brasil - que tem portados, consolidar a presença do país paralelos e oportunidades de negócios
por objetivo promover e fomentar as ex- em mercados tradicionais e abrir novos em um mesmo local à disposição de
portações das empresas brasileiras, expor- mercados no exterior para os produtos e todos os profissionais interessados em
tadoras ou com potencial de exportação, serviços nacionais. Atualmente, a Apex- participar e/ou visitar o evento.

96 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Ecologia
N
a edição passada, nesta seção, foi abordado o tema da consulta pública feita pelo
IBAMA para avaliar a inclusão de espécies da fauna silvestre que poderão ser criadas e
comercializadas com a finalidade de animais de estimação. As opiniões colocadas
defendiam apenas um lado da situação, mas certamente, o mais fraco e o que mais sofre. Para
mantermos a parcialidade, nessa edição está sendo publicado o lado que é vivenciado por
alguns grupos de médicos veterinários de animais selvagens
Animais selvagens e cativeiro: algumas considerações
O Brasil é o país com maior diversidade bioló- de seis meses a um ano e multa penal”. inicial de espécies destinadas a esse fim.
gica do mundo, albergando entre 15 e 20% do total Mas por que isso acontece? Por qual razão Esses instrumentos legais foram muito discuti-
das espécies vivas. São mais de 1700 espécies de tantos exemplares de nossa fauna morrem regular- dos e criticados: concordâncias ou discordâncias
aves, 10% das quais endêmicas (que só ocorrem em mente, por conta de uma atividade cruel e ilegal? com os critérios estabelecidos e com as espécies já
território brasileiro) e 524 espécies de mamíferos, o Não há certamente uma resposta simples, mesmo arroladas; excessos de permissividade e de limi-
que constitui a maior diversidade mundial. porque o problema é bastante complexo. tes, enfim, opiniões muito diferentes foram for-
Essa condição, aliada às dimensões continentais Todavia, uma lei básica de mercado pode madas a partir da mesma idéia.
do país, à crescente pressão decorrente do aumento servir de base à discussão: só há oferta porque há E, opiniões e imperfeições à parte, o fato é que
da população humana e do consumo de recursos procura. Ou seja, hoje em dia, por traços culturais, elas representam a tentativa concreta de se elabo-
naturais, bem como à má distribuição de renda – ignorância, dó, cobiça, ganância, necessidade de rarem critérios objetivos para a criação de animais
que gera enormes bolsões de pobreza, geralmente afirmação ou modismo, esta civilização – desen- selvagens e a utilização destes como animais de
no entorno das principais áreas naturais do país –, volvida e urbana –, constituída por cidadãos rela- estimação, até para atender uma demanda que
cria condições favoráveis à destruição do ambiente tivamente esclarecidos, sustenta e estimula a hoje é suprida quase que totalmente pelo tráfico.
e à proliferação do tráfico de animais. indústria do tráfico. Se somarmos a essa demanda A Resolução CONAMA 394 não é ótima e
Apontado como a terceira atividade ilegal do a impunidade que impera – o traficante preso hoje nem vai resolver os graves problemas da fauna
planeta, estima-se que o tráfico de animais movi- estará de volta ao “escritório” amanhã –, teremos brasileira: o tráfico – e tampouco a crueldade e o
mente cerca de 1 bilhão de dólares por ano, uma pálida dimensão do problema. abandono de animais – não desaparecerá sob a
atingindo 4 milhões de aves, 640 mil répteis, 350 É exatamente neste ponto que se pode enxergar ação salvadora do cativeiro. Ainda assim ela é
mil peixes tropicais e 40 mil primatas. a criação comercial de animais selvagens como um boa, principalmente porque possibilitou a discus-
No estado de São Paulo, entre os anos de 2005 instrumento de conservação e proteção da naturez: são e o engajamento de importantes setores da so-
e 2006, a Polícia Ambiental apreendeu 55327 ani- oferecer ao mercado indivíduos saudáveis e nasci- ciedade organizada, e porque pode propiciar con-
mais silvestres em condições irregulares de dos em criadouros regularizados, rivalizando com dições melhores e ações mais efetivas.
cativeiro – 97% dessa população era constituída o tráfico, pode diminuir sensivelmente o extrativis- Em essência, a nova legislação, ao permitir a
por aves. Do total apreendido, 23% dos animais mo e os danos às espécies nativas. utilização de determinadas espécies como animais
foram encaminhados a zoológicos, criadouros e Óbvio está que não se trata, aqui, de uma sim- de estimação, representa uma alternativa legal a
centros de triagem, 57,4% ficaram com os ples equação, e por certo muitas dificuldades exis- pessoas que querem um animal diferente de um cão
próprios “donos” e 19,6% foram soltos. tem e precisam ser sanadas. Como fiscalizar as ou um gato. Ao mesmo tempo, por excluir espécies
Sabe-se ainda que a parcela apreendida corres- matrizes e os produtos, garantindo que criadouros com comprovado potencial invasor, cria algumas
ponde tão somente à ponta de um iceberg, que não sejam entrepostos do tráfico? Não é um cami- garantias para salvaguardar os ecossistemas de
engloba outros milhares que não são apreendidos, nho fácil, pois envolve uma atividade criminosa espécies exóticas, um comprovado fator de
sem contar a parcela maior, que morre em decor- entranhada em nossa sociedade, grandes interes- agressão ao ambiente natural e causa de extensão.
rência dos maus tratos. Calcula-se que, para cada ses econômicos e, ao mesmo tempo, aproveita-se Não é possível fechar os olhos à atual deman-
indivíduo que chega vivo ao “varejo”, entre cinco da miséria que grassa no campo e nas grandes da crescente por animais selvagens para utilização
e nove outros perecem durante a captura, o trans- cidades do país. O combate efetivo passa deman- como animais de estimação; sendo assim é
porte ou o armazenamento. Sendo assim, pode- da legislação, fiscalização e até mudanças de pa- imprescindível que ações sejam tomadas no senti-
mos imaginar que, além desses 55 mil animais, radigmas institucionais e pessoais. do de estabelecer uma alternativa ao tráfico de
outros tantos 55 mil, 100 mil ou muitos mais são Entretanto, atitudes já adotadas – como a obri- animais, ou seja, um sistema de criação e comer-
perdidos regularmente pelos ecossistemas para o gatoriedade do registro dos criadouros, a marcação cialização ético e sustentável que evite as dezenas
tráfico de animais. definitiva dos animais com anilhas e microchips e a de milhares de mortes desnecessárias e cruéis,
A Lei Federal 9605 de 1998, conhecida como realização de testes de DNA para garantir a legiti- invasões de espécies exóticas, fugas de animais
Lei de Crimes Ambientais, em seu capítulo 29, diz: midade dos nascimentos em cativeiro –, certamente perigosos e a transmissão de doenças.
“quem mata, caça, apanha, persegue, transporta, representam acertos na busca pela idoneidade. Isoladamente a criação de animais selvagens,
guarda, mantém em cativeiro, utiliza, vende, expõe A Resolução CONAMA 394 (6 de novembro por melhor e mais técnica que possa se tornar, não
à venda, adquire e exporta animais da fauna sil- de 2007), e a Instrução Normativa IBAMA representa muito, é preciso que seja encarada
vestre nacional, ou seus ovos, larvas, produtos ou 169/2008, estabelecem critérios para a permissão como um dos muitos instrumentos de conservação
objetos, sem autorização do órgão ambiental com- da criação de espécies selvagens como animais de que devemos lançar mão a fim de enfrentar os
petente, comete crime sujeito a pena de detenção estimação e, ao mesmo tempo, oferecem uma lista graves problemas ambientais da atualidade.
MV MSc Marcelo da Silva Gomes
Presidente da Associação Brasileira de Veterinários de Animais Selvagens - ABRAVAS

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 97


Ecologia
Conservação da fauna, ética e bem-estar
Uma crise totalmente diferente das anteriores se preocupam com o bem-estar animal (não apenas de sustentável, cujos pilares estão na interdependência
apresenta ao mundo moderno. No passado, predomi- indivíduos, mas das espécies como um todo) con- de ações econômicas, sociais e ambientais.
naram os conflitos e disputas ocasionados por dife- cordam que não há solução simplista para os pro- Desconsiderar, portanto, o fator econômico na con-
renças étnicas, geopolíticas e ideológicas. A crise blemas atuais. Não há como dicotomizar a reali- servação da fauna é um erro grave. Insistir – com
atual é global e, em vez de colocar nações em lados dade em mundos distintos: o dos homens e o dos visão ortodoxa – nessa postura, usando como pre-
opostos, acabou por reunir todos os povos em um animais. O planeta está cada vez menor, e essa é a texto o bem-estar animal, é desrespeitar a diversi-
mesmo grupo: o das vítimas do descaso com o meio realidade a ser encarada por todos os seres vivos. dade de opiniões de conceituados ambientalistas.
ambiente. A crise ambiental foi instalada muito antes Não se encontrarão equilíbrio e harmonia nas Pior ainda é perder tempo criando divisão entre pes-
do que os governos esperavam. Deixou de ser previ- relações entre o homem e os demais seres vivos soas conscientes, dando oportunidade para que
são de ambientalistas inconvenientes para ser um enquanto visões apaixonadas insistirem nos extre- visões mercantilistas fortaleçam e prosperem.
problema real, que traz sérios riscos à segurança mos. De um lado aqueles que desejam todo e qual- Criar e comercializar animais silvestres com
mundial. Agora não se trata mais de pensar na sobre- quer metro quadrado de terra para o agronegócio, e critérios éticos e de bem-estar não deixa de ser uma fer-
vivência de espécies animais e na conservação das de outro os que professam uma concepção jainista ramenta útil nos propósitos conservacionistas. O médi-
florestas, mas de refletir sobre o modelo de desen- de mundo, propondo a proibição categórica do uso co veterinário de animais selvagens está inserido nesse
volvimento que a sociedade adotou a partir do sécu- de animais para qualquer fim. Apesar de ambas contexto. Esta é, felizmente, uma das especializações
lo XVIII, com o advento da Revolução Industrial. serem absurdas, são forças antagônicas que pre- da medicina veterinária que mais cresce no Brasil. A
O fantástico crescimento econômico de países cisam convergir para o equilíbrio e a sensatez, cada oferta de cursos de especialização nessa área aumenta a
emergentes como China e Índia tem elevado a de- ponto de vista com sua própria lógica. cada ano, e as faculdades já incluíram em seus currícu-
manda por recursos naturais de uma maneira nunca Condenar o homem a distanciar-se de outros seres los as disciplinas de manejo e clínica de animais sil-
vista antes. Não que os povos de países em de- sencientes é ignorar os sentimentos humanos e não vestres. Outra boa notícia é o surgimento de inúmeras
senvolvimento não tenham direito à riqueza, mas essa reconhecer que outras espécies também se benefi- publicações científicas e livros especializados em ani-
rápida expansão econômica acabou revelando que as ciam da convivência com pessoas responsáveis. mais selvagens. Isso é uma demonstração da capaci-
demandas da superpopulação humana por bens mate- Quem não consegue perceber isso na relação afetuosa dade e da competência do povo brasileiro. Devemos
riais são maiores que a capacidade de reposição dos de uma criança com seu animalzinho de estimação? também reconhecer que muitos jovens ingressam todos
recursos naturais. A necessidade do homem por ali- Tem-se a convicção de que é necessário criar uma os anos no mercado de trabalho, ansiosos por contribuir
mentos, água, terra para agricultura, energia e consciência ecológica planetária, na qual os seres para o desenvolvimento da ciência. São pesquisadores,
minérios está provocando alterações tão marcantes na sencientes e também os insensíveis (como as árvores analistas, clínicos, administradores que, de alguma for-
biosfera que corremos o risco de ter, em poucas das florestas) tenham direito à existência, não apenas ma, querem fazer parte do processo de "salvação do
décadas, um planeta mergulhado no caos ecológico- pelos benefícios que geram à espécie humana, mas planeta". Esses jovens não podem ser ignorados e
econômico-social. O questionamento que fazemos é também pela responsabilidade moral que o Homem frustrados, pois carregam ideais nobres e desejam par-
se haverá espaço nesse novo mundo para os animais tem, de proteger toda a forma de vida. Em oposição à ticipar dos processos construtivos.
selvagens. Sabemos que nos momentos de crise, visão antropocêntrica predominante, Leonardo Boff O dever de defender o campo de trabalho desses
como os períodos de guerra, os valores éticos, morais propõe uma nova ordem ética ecocêntrica, que possi- jovens não cabe só ao Conselho Federal e aos
e socialmente contratuais, como apreciaria Jean bilite o equilíbrio ecológico da comunidade biótica. Conselhos Regionais de Medicina Veterinária, mas
Jacques Rousseau, são normalmente negligenciados Com essa visão macroscópica das inter-relações entre a todos os que se inserem e sensibilizam, médicos
e o lado mais obscuro do comportamento humano os seres vivos, temos que compreender que conservar veterinários organizados ou individualmente, pois
tende a aflorar, gerando ódio, lutas e destruição. não é uma missão exclusiva dos governos, do há que ouvir as vozes que se manifestam em defe-
Não se trata de criar um cenário pessimista para IBAMA e de organizações não-governamentais, mas sa da profissão e dos ideais convergentes.
o futuro, mas temos que compreender que o mundo direito e dever de toda a sociedade. Excluí-la de par- Conclui-se que os médicos veterinários que aten-
do amanhã não será o mesmo em que vivemos. A ticipar da defesa da teia da vida é o golpe final na dem animais selvagens desejam trabalhar nessa espe-
forma de enfrentar, portanto, os desafios atuais deve conservação de incontáveis espécies silvestres. A ex- cialidade com dignidade, pois sabem que estão
ser à luz de outras perspectivas. E para a conservação tinção, esta sim, é o derradeiro ato nos conceitos de exercendo atividades previstas na legislação brasileira.
da fauna não é diferente. Não se pode planejar políti- bem-estar animal. Afinal, as cinco liberdades só têm Não há, portanto, como concordar com propostas uni-
cas de conservação ambiental e de bem-estar animal sentido quando existe vida. Sem existência física não laterais de mudanças na Lei Federal, decididas em
com princípios fundamentados unicamente na tem sentido falar em liberdades. escritório, e que têm por finalidade restringir o campo
emoção. É preciso racionalidade científica e atenção Para conservar o que resta da diversidade bioló- de trabalho do médico veterinário. Discutir com a
para com a realidade planetária, discernindo entre a gica, especialistas esboçaram várias estratégias sociedade e, principalmente, com os profissionais que
utopia e o exeqüível, o desejável e o possível. globais de ação. A criação de animais silvestres em realmente conhecem esses assuntos acadêmicos, é um
É um absurdo querer desvincular o ser humano cativeiro para fins conservacionistas, científicos e princípio básico do regime democrático. A oportu-
das ações conservacionistas. Sabemos muito bem que comerciais é um desses instrumentos de planeja- nidade de debate é construtiva e demonstra interesses
nos sistemas democráticos não se governa por meio mento, particularmente útil nesta época em que os verdadeiros e honestos na solução dos problemas. Não
da opressão e pelo uso da força. Criar leis restritivas governos e seus órgãos de fiscalização não conse- é possível silenciar quando vislumbres utópicos e
é relativamente fácil se houver influência política. guem frear o ritmo da destruição dos biomas. A apaixonados ignoram a racionalidade, reivindicam o
Implementá-las, porém, é outra história. As pes- IUCN (International Union for Coservation of direito exclusivo à verdade e desrespeitam os direitos e
soas que se dedicam à conservação ambiental e se Nature) dirige seus programas ao desenvolvimento a liberdade de escolha do Homem.

Zalmir Silvino Cubas - M.V., MSc - Membro da Academia Paranaense de Medicina Veterinária • cubas@foznet.com.br

98 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Animais selvagens em cativeiro: justificativas e desafios
Os animais sempre foram importantes para as tenção de populações cativas, analisando os im- entre 300 e 500), há que implementar o controle
sociedades humanas, tanto na relação predador- pactos biológicos e econômicos dessa atividade à da reprodução. Isto porque, quando se alcança o
presa (com humanos caçando os animais para luz das reflexões éticas sobre o tema. Em especial nível ótimo da população, entende-se que somente
consumí-los) quanto em relações mais complexas, após a publicação da resolução CONAMA nº. se um animal viesse a óbito poderia haver repro-
como a simbiose. A simbiose ocorre quando pelo 394/2007 e da Instrução Normativa 169/2008 do dução. Nessas condições, o que fazer com todo o
menos dois tipos de organismos distintos intera- IBAMA, que definem, respectivamente, as espé- potencial reprodutivo dos animais do plantel?
gem, com benefícios para ambos e, segundo o en- cies passíveis de serem criadas como “pets” e os Uma possibilidade seria a venda dos filhotes pro-
tendimento de muitos pesquisadores que estudam padrões de manutenção de espécies selvagens. duzidos, que estariam fora do programa de con-
o tema domesticação, esse é o tipo de relação que Opiniões foram emitidas – muitas delas sem o servação. Os recursos gerados por essas vendas
se estabelece entre nós (humanos) e os animais devido embasamento técnico –, tanto em prol da poderiam estimular ou subsidiar a manutenção do
domésticos. liberação total quanto em prol da restrição total da plantel do programa de conservação.
A manutenção de animais selvagens em manutenção de animais selvagens em cativeiro. Esse seria um dos caminhos possíveis para os
cativeiro tem uma longa história: remonta aos Assim, a presente manifestação tem o objetivo de programas de conservação ex situ no Brasil, país
primórdios da formação da civilização e, muito esclarecer alguns pontos sobre o assunto, anali- que não conta com instituições públicas capazes
provavelmente, desempenhou importante papel na sando-o com abordagens científicas próprias das de conduzir com próprios recursos um programa
evolução biológica e cultural dos humanos. Os pesquisas biológicas e à luz das fundamentações eficiente de conservação, em qualquer espécie que
processos de domesticação de animais e de plan- éticas que envolvem a conservação de animais em seja.
tas são tidos como as grandes forças que con- cativeiro e a sua domesticação (intencional), com O Programa de Conservação ex situ do cervo-
tribuíram para a expansão da nossa espécie no fins utilitários. do-pantanal é um exemplo disso. Hoje o programa
planeta. O cativeiro, utilizado em inúmeros programas conta com 14 instituições participantes e com uma
Nos dois casos, o processo de domesticação de conservação por todo o mundo, tem a função população de 66 animais, oriundos da região de
teve efeitos recíprocos (co-evolução) para domes- de resguardar o perfil alélico das populações sel- Porto Primavera-SP. Essa população é insuficiente
ticadores e domesticados, dando origem a popu- vagens ameaçadas, de modo a servir como fonte para a manutenção da recomendada – e recomen-
lações de animais adaptadas aos humanos e aos futura desses alelos quando tais populações forem dável – diversidade e, a longo prazo, seriam ne-
ambientes que estes proporcionam, ou seja, às ainda mais vitimadas em seu ambiente de origem cessários novos aportes. Entretanto, o alto custo
populações (ou espécies) domésticas. O processo e predileção. Portanto, as populações cativas são de manutenção, aliado à impossibilidade de lucro
de domesticação não cessou, há ainda muitas consideradas “apólices de seguro” para as espé- pelos criadores, diminui as chances de que novas
oportunidades para que ele ocorra, algumas em cies ameaçadas. Para o manejo voltado à conser- vagas sejam geradas e a população começa a ex-
andamento e outras ainda potenciais. vação de tais espécies, deve-se adotar um controle trapolar a capacidade de suporte das instituições
Certamente, o primeiro passo para a domesti- central – o Livro de Registro Genealógico participantes. O adensamento dos animais nessas
cação é a manutenção de animais selvagens em (Studbook) –, no qual são registrados os nasci- instituições leva a problemas de manejo, que re-
cativeiro. A criação desses animais em cativeiro mentos, as mortes, a filiação e outros eventos sultam em aumento de mortalidade e queda da
vem aumentando em nosso país, e com múltiplos importantes do plantel. O objetivo básico desse qualidade de vida dos animais.
propósitos. As justificativas para esse crescente processo é monitorar os efeitos de seleção, de A oportunidade de retorno econômico poderia
interesse são, principalmente: (1) a obtenção de forma a minimizar perdas de diversidade genética. contribuir de maneira decisiva para a entrada de
produtos para consumo humano; (2) a busca por Dessa maneira, a criação de animais selvagens em novos participantes no programa de conservação
novos “pets”; (3) a conservação de espécies cativeiro com o objetivo de conservação deve ser do cervo-do-pantanal, que não dependeria tanto
ameaçadas de extinção; (4) a utilização desses realizada seguindo regras bem definidas, que po- de instituições públicas, geralmente sem verbas.
animais em pesquisas científicas; (5) a exibição tencializem a contribuição igualitária de fundado- Com a adoção dessa estratégia, a criação co-
(lazer) e (6) a educação. Obviamente, essas justi- res e minimizem a endogamia. mercial de animais selvagens poderia contribuir
ficativas não são mutuamenteexcludentes. Há pro- Então, o que têm a haver a criação comercial e de maneira decisiva para a conservação de inúme-
postas que abrangem múltiplos objetivos, embora a conservação de animais selvagens? Muitas insti- ras espécies ameaçadas de extinção, inclusive fi-
também haja alguns casos conflitantes, como a tuições, como a IUCN, defendem a criação co- nanciando as ações de conservação em vida livre,
manutenção de animais selvagens em cativeiro mercial de animais selvagens como mecanismo de como é comum em vários programas internacio-
com fins de conservação, situação na qual o auxílio à conservação, considerando que o comér- nais. Temos que utilizar a fauna como meio para
processo de domesticação é indesejável. cio legal diminui a demanda do tráfico, e que o conservar as espécies, por mais que esses con-
De maneira geral essas justificativas têm sido cativeiro pode produzir animais para os progra- ceitos pareçam antagônicos.
pouco fundamentadas pois, apesar de se apre- mas de conservação. Por óbvio, os animais inseri- A manutenção de populações de animais sel-
sentarem coerentes e em muitos casos interes- dos em programas de conservação jamais pode- vagens em cativeiro por inúmeras gerações – e
santes, carecem de análise mais cuidadosa, princi- riam ser comercializados como “pets” ou abati- submetidas à seleção artificial –, invariavelmente
palmente no que diz respeito aos impactos que a dos, mas os excedentes populacionais poderiam resulta em mudanças genéticas e indução ambien-
atividade pode ter sobre a fauna em liberdade e ter esse destino. tal, que levam à domesticação. Essa é ainda uma
sobre o bem-estar dos animais cativos. Para diminuir a probabilidade de perda de possibilidade real para algumas das espécies sel-
A preocupação com a conservação das espé- diversidade genética, os programas de conser- vagens, desde que haja interesse de nossa parte
cies selvagens em seus ambientes naturais, bem vação em cativeiro procuram aumentar o interva- (nós humanos, como domesticadores) em domes-
como com o bem-estar dos animais em cativeiro, lo entre gerações. E, quando o número de indiví- ticá-las.
tem despertado ampla discussão sobre a manu- duos corresponde à população ótima (geralmente É importante salientar que o processo de do-

Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008 99


Ecologia
mesticação promove mudanças genéticas, o que deu quando ela já estava em perigo de extinção. Bibliografia complementar
distancia as populações adaptadas daquelas que as O cativeiro geralmente é considerado como BALLOW, J. D. ; FOOSE, T. J. Demographic and genetic management
of captive populations. In: KLEIMAN, D. G. ; ALLEN, M. E. ;
originaram (selvagens), o que, em alguns casos, uma condição que causa estresse, com prejuízos THOMPSON, K. V. ; LUMPKIN, S. Wild mammals in
resulta em nova espécie. Sabe-se que, quando o ao bem-estar dos animais. Isso pode ser explica- captivity. The University of Chicago Press, Chicago. p. 263-283.
1996.
processo de domesticação se completa, a popu- do pelo medo que os animais selvagens sentem CHIEREGATTO, C. A. F. S. ; DUARTE, J. M. B. ; RAMOS JUNIOR,
lação submetida a essa circunstância está adapta- na presença de humanos. Esse medo pode ser V. A. ; PESSUTTI, C. Planos de manejo da fauna em cativeiro. In:
da ao ambiente cativo e, conseqüentemente, ao quantificado pela distância de fuga que eles man- MORATO, R. G. et al. Manejo e conservação de canívoros
neotropicais. IBAMA/ MMA, Brasília. p. 265-279. 2006.
domesticador, em geral o ser humano. têm das pessoas. Assim, animais selvagens colo- CLUTTON-BROCK, J. A natural history of domesticated animals.
Isso provavelmente vem ocorrendo com as po- cados em cativeiros cuja área não permita a Cambridge University Press, Cambridge, 238 p. 1999.
pulações de aves canoras mantidas em cativeiro, manutenção dessa distância de fuga desen- DUARTE, J. M. B. et al. Order Artiodactyla, Family Cervidae (Deer).
In: FOWLER, M. E. ; CUBAS, Z. S. Biology, medicine, and
como são exemplos os curiós, os bicudos e os volverão estresse crônico, o que prejudica a re- surgery of South American wild animals. Iowa State University
canários. É possível que a seleção para canto e produção, o crescimento e a sociabilidade da es- Press, Ames. p. 402-422. 2001.
para mansidão tenha modificado substancial- pécie. Isso não é válido, entretanto, para muitos DUARTE, J. M. B. Artiodactyla - Cervidae. In: CUBAS, Z. S. ; SILVA,
J. C. R. ; CATÃO-DIAS, J. L. Tratado de animais selvagens,
mente as populações cativas, que são distintas das dos animais cativos que não temem os humanos, medicina veterinária. Roca, São Paulo. pp.641-664. 2007.
populações livres, o que indica que a manutenção por uma condição natural da espécie ou por terem DUARTE, J. M. B. ; JORGE, W. Morphologic and cytogenetic
dessas populações em cativeiro não causa proble- passado pelos processos de imprinting ou de description of the small red brocket (Mazama bororo Duarte,
1996) in Brazil. Mammalia, 67, 403-410. 2003.
mas para seu bem-estar. amansamento. FIELD, C. R. Potential domesticants: bovidae. In: MASON, I. L. (Ed.)
O cativeiro como fonte de animais para Por óbvio, animais selvagens mantidos em Evolution of domesticated animals, Longman, London, pp. 102-
106. 1984.
pesquisa é um uso bastante nobre para os animais cativeiro têm pouco controle sobre os eventos e FRANKHAM, R. ; BALLOU, J. D. ; BRISCOE, D. A. A primer of
selvagens, tanto para aqueles que geram conhe- as condições ambientais que os rodeiam, ou seja: conservation genetics. Cambridge University Press, Cambridge.
cimento científico para as suas próprias espécies dependem do homem para sobreviver e manter a 220 p. 2004.
FRASER, A. ; BROOM, D. A. Farm animal behaviour and welfare,
quanto para aqueles que são utilizados como mo- saúde. Assim sendo, cabe ao homem ficar atento, Bailliere Tindall, London, 437p. 1985.
delos biológicos. Muitas pesquisas só são possí- para proporcionar a esses animais as condições HEDIGER, H. Wild animals in captivity, Dover Publications Inc.,
veis se os animais (modelos) forem mantidos em adequadas para que se desenvolvam física e New York, 207 p. 1964.
PRICE, E. O. Behavioural aspects of animal domestication. Quarterly
cativeiro, e podem gerar conhecimentos para au- mentalmente, assegurando-lhes as necessárias Review of Biology, v. 59, n. 1, p. 1-32. 1984.
xiliar as populações de vida livre a manterem condições de bem-estar. Para tanto, é necessário REED, C. A. The beginnings of animal domestication. In: MASON, I.
essa condição. A descoberta de uma espécie nova que se determinem, de forma objetiva, as neces- L. (Ed.) Evolution of domesticated animals, Longman, London,
p. 1-6. 1984.
de cervídeo, o veado-mateiro-pequeno (Mazama sidades fisiológicas e comportamentais dos ani- Yamada, R. Potential domesticants: freshwater fish. In: MASON, I. L.
bororo) só foi possível por meio um animal que mais selvagens mantidos em cativeiro. Somente (Ed.) Evolution of domesticated animals, Longman, London, pp.
estava em cativeiro. Essa descoberta levou à im- a partir daí será possível oferecer-lhes ambientes 397-399. 1984.
ZANETTI, E. S. ; DUARTE, J. M. B. Livro de tegistro genealógico da
plantação de uma série de medidas para proteger cativos apropriados para o crescimento e a repro- população cativa de cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus).
a espécie, uma vez que a identificação desta se dução, com boa qualidade de vida. Funep, Jaboticabal. Cd-Room. 2008.

José Maurício Barbanti Duarte - barbanti@fcav.unesp.br • Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa - mpcosta@fcav.unesp.br
Depto. Zootecnia, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP Campus de Jaboticabal

GEAS – Grupo de Estudo de Animais Selvagens


GEAS – Grupo de Estudo de Animais integrante do GEAS Brasil, possui caráter multi- animais de companhia irá estimular o desenvolvi-
Selvagens – é a denominação mais comumente disciplinar e esforça-se para aprimorar os conhe- mento da medicina de animais selvagens e as dis-
adotada pelos vários grupos de alunos e profis- cimentos referentes ao atendimento médico a ani- ciplinas correlatas. A especialização de profis-
sionais que se reúnem das mais diversas formas a mas selvagens e à conservação da biodiversidade. sionais na área de animais selvagens, frente a esse
fim de aprender e debater temas relacionados a A filosofia do GEAS.UnB inclui o estímulo ao incrível estímulo desencadeado pela criação co-
medicina veterinária, biologia e meio ambiente. aprendizado – por meio da troca de informações – mercial, é essencial para a conservação da biodi-
No ano de 2005, durante o IV Encontro Sobre e o estabelecimento de parcerias com várias insti- versidade, visto que grande parte das técnicas
Animais Selvagens foi levantada a necessidade de tuições, nem sempre diretamente ligadas à medi- desenvolvidas para benefício dos animais de com-
se criar um canal para a troca de informações cina veterinária. Há um consenso geral, entre os panhia será aplicada também nas espécies que não
entre os diversos GEAS. Assim, criou-se uma lista membros do Geas.UnB sobre a necessidade de in- puderem ser criadas e nos animais de vida livre. O
de e-mails para atender a essa demanda e a outras centivo à pesquisa e apoio aos alunos e profissio- objetivo é desenvolver uma medicina tão avança-
que possam surgir ao longo do tempo. Desde nais da área, para que todas as decisões tomadas a da quanto aquela atualmente voltada a cães, gatos
então, os GEAS do Brasil inteiro vêm se reunindo respeito do meio ambiente sigam critérios científi- e eqüinos, proporcionando um imenso campo de
em congressos e encontros, divulgando seus tra- cos aplicáveis à realidade brasileira, e atendam da trabalho – e remuneração adequada – aos profis-
balhos em âmbito nacional e debatendo assuntos melhor maneira o(s) maior(es) interessado(s): o sionais. Acima de tudo, destaca-se o benefício aos
de importância, como a resolução 394 do CONAMA meio ambiente e o homem. animais selvagens, considerados patrimônio na-
(Conselho Nacional do Meio-Ambiente). Para tanto, acreditamos que a criação de de- cional, que poderá ser viabilizado por meio de
O GEAS.UnB (Universidade de Brasília), terminadas espécies de animais selvagens como incentivos da iniciativa privada.
Nárjara Grossmann narjaragr_vet@yahoo.com.br • Isabella Fontana isabellavet@yahoo.com.br
Geas-UnB

100 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


Lançamentos
ECTOPARASITICIDA PARA CÃES E GATOS ALIMENTO PARA

A Fort Dodge lançou em junho os


ectoparasiticidas ProMeris, para
gatos, e ProMeris Duo, para cães. Os
o risco de expor o pet ao contato com
grande quantidade do princípio ativo,
diferente de ProMeris Duo”, afirma.
CÃES ADULTOS

produtos são compostos por uma nova Papa explica que o ProMeris foi de-
molécula, a metaflumizona, que age no senvolvido para ser aplicado na nuca do

Divulgação
sistema nervoso da pulga, resultando animal. A ponta da pipeta aplicadora
em sua paralisia e morte. deve ser colocada entre os pêlos, que
A versão para gatos leva o nome precisam ser afastados para promover
ProMeris porque possui apenas a meta- melhor penetração do produto na pele
flumizona. Na versão para cães, foi do animal. Recomenda-se que o conteú-
incorporado o amitraz, substância con- do não seja aplicado de uma só vez, já
sagrada e de eficácia comprovada con- que o for-
tra carrapatos, sendo chamada de mato es-
ProMeris Duo. De acordo com Tiago pecial da

Divulgação
Nero Vegetais com Corn Crispys possui
Papa, gerente de negócios de animais de pipeta partículas crocantes de milho – fonte de car-
companhia da Fort Dodge, o objetivo permite boidrato de alta absorção – que tornam o ali-
mento mais saboroso e nutritivo
foi aliar a rápida ação do amitraz, im- que o me-
portante para que os carrapatos sejam
eliminados antes de transmitirem doen-
ças aos cães, com a segurança e longa
dicamento
seja vertido len-
Aplicação de
ProMeris Duo.
tamente, de ma- Ao lado, detalhe
O novo Nero Vegetais com Corn
Crispys, da Total Alimentos, é uma
ótima opção nutricional para cães adul-
ação desejada pelo mercado, já que a neira que o lí- da pipeta tos, enriquecido com antioxidantes e
pipeta é de fácil utilização, prática, não quido se disper- proteínas nobres
vaza e nem espirra. “Alguns produtos se gradualmente, sem cair. O produto possui proteínas à base de
para banho anti-pulgas também contém Além da praticidade e segurança, é frango e ovelha, de excelente digestibi-
essa substância, mas, além de não possível identificar quando o local de lidade. “É enriquecido com vitamina E
serem produtos de ação prolongada, há aplicação está seco. O ProMeris Duo e selênio, antioxidantes que proporcio-
tem um aroma exclusivo de eucalipto, já nam mais saúde e longevidade aos
o ProMeris, de coco. Assim, ao aplicar o cães”, explica o médico veterinário da
medicamento, o proprietário sabe que Total Alimentos, Julio César Coscarelli.
Divulgação

quando não sentir mais o aroma siginifi- O alimento traz ainda benefícios para a
ca que o pêlo do animal está seco. De pele e pelagem dos animais, em função
acordo com Papa, isso é importante para de possuir equilibrada quantidade de
que o o dono do animal não esqueça que ômegas 3 e 6 em sua formulação.
o animal está sendo tratado e remova o Nero Vegetais com Corn Crispys está
ProMeris Duo e ProMeris, novos produtos da Fort
produto acidentalmente, o que poderia disponível em embalagens de 15 e 25
Dodge para o controle, respectivamente, de pulgas diminuir sua eficácia. kg.
e carrapatos, em cães, e de pulgas, em gatos Fort Dodge: 0800 701 9987 Total Alimentos: 0800-725 8575

NOVA VACINA PARA PRIMO-VACINAÇÃO DE FILHOTES DE CÃES


Desde junho, a Merial Saúde Animal explica Leonardo Brandão, PhD em
disponibilizou ao mercado brasileiro a medicina veterinária e gerente de produ-
Recombitek® C4/CV, a primeira vacina tos biológicos da Operação Animais de
com tecnologia recombinante desenvol- Companhia da Merial.
Divulgação

vida especificamente para a primeira Para evitar as reações pós-vacinais,


dose de vacinação de filhotes de cães. É Recombitek® C4/CV não possui a fração
indicada contra cinomose, parvovirose, de Leptospira, agente da vacina que con-
adenovirose, parainfluenza, hepatite fere imunidade contra leptospirose. “São
infecciosa e coronavirose canina. muito comuns os casos de reações pós-
“Ao contrário do vírus vivo atenua- vacinais na primo-vacinação quando Nova Recombitek® C4/CV
do, o vírus-vetor de Recombitek® se utilizam vacinas com frações de ! Vacina produzida exclusivamente para a
primo-vacinação de filhotes de cães;
C4/CV, ao se replicar, sintetiza os agen- Leptospira. Tanto que os pesquisadores ! Única vacina veterinária para cães filhotes
tes estritamente necessários para imu- recomendam que a fração seja ministra- com tecnologia recombinante Tipo 3 contra a
nizar contra cinomose, sendo portando da somente na segunda e terceira doses cinomose canina, a mesma das mais moder-
de imunização”, diz Leonardo, acrescen-
nas vacinas humanas;
incapaz de reverter a virulência. Além ! Apresenta risco zero de reversão da virulên-
disso, passa despercebido pelos anti- tando que a versão original Recombitek® cia na imunização contra cinomose;
corpos maternos recebidos da mãe e é contém frações de Leptospira e pode ser ! Induz imunidade contra cinomose mesmo na
capaz de induzir imunidade contra ci- indicada normalmente na segunda e ter-
presença de anticorpos maternos;
! Não contém fração de Leptospira e apresen-
nomose mesmo na presença deles”, ceira vacinação do filhote. ta baixo risco de reações pós-vacinais

102 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


$ NEGÓCIOS E OPORTUNIDADES $

Manual de fluidoterapia em pequenos animais


saiba sobre os diferentes fluidos para as diferentes alterações orgânicas
• anorexia Faça com tranqüilidade seu pedi-
• vômito crônico do pelo telefone (11) 3835-4555
ou pela internet
• obstrução intestinal
www.editoraguara.com.br
• diabetes melito
• e outras
Escolha os eletrólitos mais adequados e administre doses precisas

Quantidade
A - perdas B - manutenção C - perdas de fluido a
ocorridas diária continuadas ser administrada

Tempo aproximado
dos procedimentos
demonstrados:
Procedimento Tempo
(min.)
Paramentação 4:50'
Mesa cirurgica 3:50'
Cães • macho 4:10'
• fêmea 12:10'
Gatos • macho 5:20'
• fêmea 8:50'
! S i s t e m a d e b u s c a p o r p a l av r a - ch ave
! I n cl u s ã o s e m i - a u t o m á t i c a d e eve n t o s d i r e t a m e n t e
www.agendaveterinaria.com.br at r av é s d a p á g i n a i n i c i a l
ANESTESIA
INALATÓRIA
as anestesias são marcadas
na sua clínica
Luiz Otávio Gonzaga
CRMV-SP 6117

tels: 0**(11) 6994-1029


0**(11) 6204-8801
cel: (011) 8259-1351
tomada@superig.com.br
www.agendaveterinaria.com.br

NACIONAL 2 de agosto a 31 de 8 a 10 de agosto 25 a 26 de agosto 30 a 31 de agosto


dezembro de 2009 Vitória - ES Belo Horizonte -MG Campinas - SP
Araras - SP Cardiologia em cães e gatos Odontologia I Curso de massagem
MBA Clínica veterinária ! anclivepaes@gmail.com ! anclivepa@anclivepa- para cães e gatos
14 de julho a 13 de agosto de pequenos animais mg.com.br ! (19) 9198-2218
São Paulo - SP ! 0800 770 44 55 9 a 17 de agosto
Curso teórico-prático de Osasco - SP 25 a 29 de agosto 30 de agosto a
ultra-sonografia 2 de agosto a Curso teórico-prático de Seropédica - RJ; UFRRJ 6 de setembro
em pequenos 10 de janeiro de 2009 afecções cirúrgica da III Simpósio de São Paulo – SP
animais São Paulo - SP coluna vertebral Comportamento e XI SAMVET - Semana
! (11) 3034-5447 Curso de terapias holisti- ! (11) 2995-9155 Bem-estar Animal Acadêmica de Medicina
cas para animais (SIMCOBEA) Veterinária da Metodista
19 e 20 de julho ! (11) 5061-4429 13 a 15 de agosto ! (21) 9300-2332 ! (11) 4366-5350
Rio de Janeiro - RJ Brasília - DF
I Simpósio em 4 a 8 de agosto XVII SENEV - Seminário 26 a 29 de agosto 31 de agosto a
dermatologia felina Goiânia - GO Nacional de Ensino de São Paulo – SP 28 de setembro
! (21) 8820-1899 Curso perícia judicial Medicina Veterinária III Semana acadêmica da São Paulo – SP
ambiental ! (61) 2106-0400 UNICSUL Curso de neonatologia
! (53) 3231-3622 ! pr.custodio@bol.com.br ! (11) 2995-9155
14 a 17 de agosto
4 a 8 de agosto Araçatuba - SP 26 a 29 de agosto 1 a 5 de setembro
Foz do Iguaçu - PR XIV SEMEV São Paulo – SP São José do Rio Preto - SP
21 a 26 de julho Curso de atualização em ! semev.unesp@hotmail. 3ª Jornada acadêmica de SAMVERP - Semana
São Paulo - SP endocrinologia de animais com medicina veterinária da acadêmica da medicina
Curso teórico-prático de selvagens Universidade Cruzeiro do veterinária de Rio Preto
radiologia convencional ! (44) 3649-3444 Sul (UNICSUL) ! (17) 3201-3360
! (11) 3579-1427 16 e 17 de agosto ! (11) 8514-5133
5 de agosto a Londrina - PR 5 a 7 de setembro
21 a 31 de julho 11 de dezembro CTI-PET - Curso de tera- 28 a 30 de agosto Botucatu - SP
São Paulo - SP São Paulo - SP pia Intensiva em animais São Paulo - SP II Curso de emergências
Curso de terapias holísti- Curso de especialização de companhia Cirurgias em coluna em animais de companhia
cas para animais e aperfeiçoamento em ra- ! (43) 9151-8889 ! (11) 3819-0594 ! (14) 3811-6019
! (11) 5061-4429 diodiagnóstico veterinário
! (11) 3034-5447 18 a 22 de agosto 29 a 31 de agosto 8 a 11 de setembro
24 a 26 de julho São Paulo – SP São Paulo – SP Marília - SP
São Paulo - SP 7 a 9 de agosto Susavet - semana Curso teórico e prático de 1º Congresso pau-
Curso Intensivo Prático Rio de Janeiro - RJ acadêmica de medicina eletrocardiografia em lista de homeopa-
de Ortopedia • Riovet - Feira de veterinária da Unisa pequenos animais tia veterinária
! (11) 3819-0594 negócios pet & vet ! da_vetunisa@yahoo. ! (11) 3579-1427 ! (14) 2105-4065
• Conferência Sul-america- com.br
27 de julho a na de medicina veterinária 30 a 31 de agosto 8 a 11 de setembro
21 de dezembro • 1º Encontro brasileiro de 20 de agosto São Paulo – SP Seropédica - RJ;
São Paulo - SP marketing - Pet Vet Belo Horizonte - MG II Curso de massagem UFRRJ
Curso de terapias alterna- • II Seminário de nutrição Diagnóstico das pancrea- oriental e acupressão IV Semana de atuali-
tivas para animais pet tites e Diabetes mellitus para animais zação em medicina felina
! (11) 5061-4429 ! (21) 3295-2803 ! (31) 3281-0500 ! (11) 5061-4429 ! (21) 8654-4555

112 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008


www.agendaveterinaria.com.br

17 a 21 de setembro 13 a 17 de outubro 7 a 9 de novembro INTERNACIONAL


São Paulo - SP Santo André - SP Goiânia - GO
NACIONAL XXIX Congresso brasileiro III Simpósio de Medicina IV Concevepa 27 a 31 de julho
início - pág. 112 de homeopatia Veterinária (SIMVET) ! (62) 3241-3939 Canada - Vancouver
! (11) 3051-6121 ! medvetuniabc@ 29th World veterinary congress
yahoo.com.br 7 a 9 de novembro ! www.worldveterinary
8 a 12 de setembro congress2008.com
25 a 27 de setembro Vitória - ES
Porto Alegre - RS
São Paulo - SP 19 a 22 de outubro Indicações e
Curso perícia judicial 13 a 16 de agosto
Curso de cirurgia em Gramado - RS interpretações
ambiental Minneapolis - Minnesota; USA
cabeça e pescoço 35º Conbravet de exames de
! (53) 3035-3622 diagnóstico por imagem 5th International Symposium
! (11) 3819-0594 ! (51) 3326-7002
! anclivepaes@gmail.com on Rehabilitation and Physical
10 a 12 de setembro Therapy in Veterinary
26 a 28 de setembro 20 a 21 de outubro
Guarapari - ES Medicine
Vitória - ES Belo Horizonte - MG 9 a 14 de novembro
XXXV Semana Capixaba
Gastroenterologia Fisioterapia Belo Horizonte - MG ! www.arconference.org
do médico veterinário e
em cães e gatos ! (31) 3297-2282 Curso de Formação de
III Encontro regional de 14 a 18 de agosto
! anclivepaes@gmail.com Oficiais de
saúde pública em medici- Washington - DC, USA
20 a 23 de outubro Controle Animal
na veterinária Animal Rights 2008
26 a 28 de setembro São Paulo - SP (FOCA)
! (27) 3324-3877 ! www.arconference.org
São Paulo - SP Clínica das doenças ! (11) 8496-2499
I Conferência brasileira de infecciosas e parasitárias
13 e 14 setembro 20 a 24 de agosto
enriquecimento ambiental em pequenos animais 11 a 13 de novembro
Porto Alegre - RS Dublin - Irlanda
! (11) 9308-2160 ! marina.monteiro.oliveira Recife - PE
I Curso internacional de 33º Congresso
@usp.br VIII Congresso Brasileiro
neurologia veterinária Mundial da WSAVA
30 de setembro a de Cirurgia e Anestesiolo-
! (51) 3308-6111 ! www.wsava2008.com
2 de outubro 21 de outubro gia Veterinária
Presidente Prudente - SP Belo Horizonte - MG ! (81) 3466-5551
14 e 19 setembro 28 a 30 de agosto
Semana Acadêmica de Urinálise, urolitíase
Vitória - ES Cartagena - Colombia
Medicina Veterinária e função renal
Curso de V Congresso Ibero-americano
! inesgiometti@yahoo. ! (31) 3281-0500
Formação de Oficiais de
com.br FIAVAC ! www.fiavac.org
Controle Animal (FOCA)
23 a 25 de outubro
! (11) 8496-2499 3 a 6 de outubro
3 a 5 de outubro São Paulo - SP 12 de novembro
Belo Horizonte - MG Curso Intensivo Belo Horizonte - MG Lima - Peru
14 de setembro Latin American
I Fórum Latino Prático de Ortopedia - Doenças infecciosas -
a 19 de outubro Veterinary
Americano de módulo avançado - CIPO atualização
São Paulo - SP Conference
Dermatologia e ! (11) 3819-0594 ! (31) 3281-0500
Curso teórico-prático de
3º Congresso ! www.tlavc-peru.org
dermatologia
Brasileiro de 25 de outubro a
! (11) 2995- 9155 17 a 19 de outubro
Odontologia Veterinária 9 de novembro
! (31) 3297-2282 Jaboticabal - SP 20 a 22 de novembro Barcelona - Espanha
14 de setembro a
IV Curso teórico-prático so- São Paulo - SP SEVCO
7 de dezembro
8 a 11 de bre nutrição de cães e ga- II International ! www.sevc.info
Osasco - SP
outubro tos: "uma visão industrial" Symposium on Animal
Curso teórico-prático de
Salvador - BA ! (11) 3819-0594 Biology of Reproduction 2009
cirurgia de partes moles
I Congresso ! cbra@cbra.org.br
! (11) 2995-9155 17 a 21 de janeiro
mundial de 27 a 30 de outubro
bioética e Fortaleza - CE 6 e 7 de dezembro Orlando - FL - USA
17 a 19 de setembro
direito animal Fort Pet Vet Rio de Janeiro - RJ North American
São Paulo - SP
! (71) 3103-6836 ! (85) 3257-6382 I Congresso Latino- Veterinary Conference
• 8º Copavepa
americano de medicina ! www.tnavc.org
• Pet South America
12 a 17 de outubro 27 a 30 de outubro de urgências e cuidados
! (11) 3813-6568 21 a 24 de julho
Presidente Prudente - SP São Paulo -SP intensivos
Curso de Formação de II Curso teórico-prático de ! www.laveccs.org São Paulo - SP - Brasil
Oficiais de Controle terapia intensiva em WSAVA 2009 Congress
Animal (FOCA) pequenos animais ! www.wsava2009.com.br
! (11) 8496-2499 ! (11) 5572-8778 ! (11) 4613-2014

114 Clínica Veterinária, Ano XIII, n. 75, julho/agosto, 2008