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1.     Lê o texto e seleciona a única opção correta para cada item.

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                                                                  Gil Vicente – A sátira social

     O tipo mais insistentemente observado e satirizado por Gil Vicente é sem dúvida o clérigo, e
especialmente o frade, presente em todos os setores da vida portuguesa, na corte e no povo, na cidade e
na aldeia. Gil Vicente censura nele a desconformidade entre os atos e os ideais, pois, em lugar de praticar
a austeridade, a pobreza e a renúncia ao mundo, busca as riquezas e os prazeres, é espadachim,
blasfema1, tem mulher e prole2, ambiciona honras e cargos, procedendo como se a ordenação sacerdotal
o imunizasse contra os castigos que Deus tem reservados para os pecadores. (…)
     Outro tipo insistente nos autos vicentinos é o Escudeiro, género de parasita ocioso e vadio (…). O
Escudeiro imita os padrões da nobreza, toca guitarra, verseja, faz serenatas às filhas dos «oficiais
mecânicos», pavoneia-se de bravo e cavaleiro, espera o seu «acrescentamento», que o instalará de vez
na nobreza. Mas não trabalha, passa fome estreme3, tem medo, é corrido sob a chuva de insultos da mãe
da pretendida, que o aconselha a aprender um ofício para não morrer à míngua 4. Esta parasitagem
faminta, que tendia a multiplicar-se com a decadência da baixa nobreza e seus ramos desqualificados,
levantava protestos da parte de burgueses e artífices.
     Também aqui Gil Vicente se faz eco de um sentimento popular, ao mesmo tempo que de um problema
colocado ao nível dos governantes. Mas cabe perguntar em que medida ele visa, através do Escudeiro, o
próprio ideal de vida nobre. O facto é que, embora relativamente raros, os fidalgos aparecem também
duramente atacados nos autos. Na Barca do Inferno e na Farsa dos Almocreves caracterizam-se por uma
presunção balofa5 e por explorarem o trabalho dos servidores sem lhes pagar (o que também sucede com
os Escudeiros relativamente aos respetivos moços).
     Não fica mais favorecido o grupo dos magistrados e dos administradores. Meirinhos 6, corregedores,
juízes, insaciáveis espoliadores7 do povo, são impiedosamente fustigados8 na Barca do Inferno,
na Floresta de Enganos, na Frágua do Amor, onde a Justiça é uma velha corcovada9 com as algibeiras
repletas de galinhas, perdizes e bolsas, as mãos enormes, habituadas a «apanhar». (…)

     Quem suporta a carga desta hierarquia social de parasitas e ociosos? Segundo Gil Vicente, o
«Lavrador». Este Lavrador, que faz duas rápidas mas impressionantes entradas em cena (Barca do
Purgatório, Romagem de Agravados), (…) é uma personagem patética cuja voz acusadora tem acentos
comoventes. Trabalha até à extenuação, sem tempo sequer para limpar as gotas de suor. O produto do
trabalho é-lhe arrancado pelos cobradores de rendas ou pelos frades. Na igreja escorraçam-no como um
cão. Até Deus, segundo João Murtinheira, parece comprazer-se em persegui-lo enviando-lhe o sol e a
chuva fora de tempo (…). Em resumo, segundo o Lavrador do Auto impropriamente dito da Barca do
Purgatório:

Nós somos vida das gentes/ e morte das nossas vidas.


       E todavia, pondera o mesmo Lavrador, todos vimos do mesmo pai Adão.
   Este sentimento da condição miserável do camponês, aliás sustentáculo dos privilégios senhoriais, tem
um acento profundamente sincero em Gil Vicente, e é a contrapartida grave do riso que ele prodigaliza 10 a
propósito das outras camadas.

A. J. Saraiva e Óscar Lopes, História da literatura portuguesa, 17.a edição, Porto,Porto Editora, 1996, pp. 199-201.
Vocabulário
1
 profere insultos contra o sagrado; 2 filhos; 3 verdadeira; 4 de fome; 5 ridícula; 6 oficiais da
justiça; 7 ladrões; 8 criticados; 9 corcunda; 10 oferece

1. Seleciona a única opção que permite obter uma afirmação correta.

1.1 De acordo com o primeiro parágrafo do texto, Gil Vicente satiriza os clérigos porque a sua vida
(A) não decorre de acordo com o princípio de desapego pelas riquezas do mundo.
(B) revela incoerência entre o que pregam e o que fazem.
(C) não revela incoerência entre as palavras e as ações.
(D) decorre de acordo com o princípio de desinteresse pelas honrarias mundanas.

1.2 O segundo parágrafo refere vários aspetos da vida dos Escudeiros, exceto
(A) a origem da sua posição social.
(B) os seus anseios de ascensão social.
(C) críticas que a sociedade lhes fazia.
(D) o modo como desapareceram da sociedade.

1.3 A possibilidade de a crítica aos Escudeiros ser, talvez, um ataque à nobreza, baseia-se no facto de
(A) os Escudeiros pertencerem a uma nobreza decaída.
(B) tanto os Escudeiros como os nobres terem certos comportamentos idênticos.
(C) tanto os Escudeiros como os nobres serem presunçosos.
(D) os Escudeiros estarem ao serviço da nobreza.

1.4 O recurso expressivo presente na frase «Meirinhos, corregedores, juízes, insaciáveis espoliadores do
povo, são impiedosamente fustigados na Barca do Inferno, na Floresta de Enganos, na Frágua do
Amor», ll. 20-21, é uma
(A) comparação.
(B) hipérbole.
(C) metáfora.
(D) personificação.

1.5 A frase que melhor sintetiza o último parágrafo do texto é


(A) Gil Vicente tanto sabe criticar com seriedade como através do riso.
(B) Gil Vicente tanto critica o clero através da seriedade como através do riso.
(C) Gil Vicente critica principalmente através do riso.
(D) Gil Vicente critica especialmente a exploração dos pobres pelos poderosos.

2.1 Identifica as funções sintáticas presentes nas palavras sublinhadas «Outro tipo insistente nos
autos vicentinos é o Escudeiro». (l.7)