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Gramática e Literatura

para vestibular medicina


1ª edição • São Paulo
2019

L C LINGUAGENS, CÓDIGOS

1
e suas tecnologias
Gramática e Literatura
ENTRE LETRAS Lucas Limberti, Murilo de Almeida Gonçalves e Pércio Luis Ferreira
© Hexag Sistema de Ensino, 2018
Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2019
Todos os direitos reservados.

Autores
Lucas Limberti
Murilo de Almeida Gonçalves
Pércio Luis Ferreira

Diretor geral
Herlan Fellini

Coordenador geral
Raphael de Souza Motta

Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica


Hexag Sistema de Ensino

Diretor editorial
Pedro Tadeu Batista

Editoração eletrônica
Arthur Tahan Miguel Torres
Claudio Guilherme da Silva
Eder Carlos Bastos de Lima
Fernando Cruz Botelho de Souza
Matheus Franco da Silveira
Raphael de Souza Motta
Raphael Campos Silva

Projeto gráfico e capa


Raphael Campos Silva

Foto da capa
pixabay (http://pixabay.com)

Impressão e acabamento
Meta Solutions

ISBN: 978-85-9542-072-4

Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o
ensino. Caso exista algum texto, a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à disposição
para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre
as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições.
O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não representando qual-
quer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora.

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CARO ALUNO

O Hexag Medicina é referência em preparação pré-vestibular de candidatos à carreira de Medicina. Desde 2010, são centenas de aprovações nos
principais vestibulares de Medicina no Estado de São Paulo, Rio de Janeiro e em todo Brasil. O material didático foi, mais uma vez, aperfeiçoado e seu conteúdo
enriquecido, inclusive com questões recentes dos relevantes vestibulares de 2019.
Esteticamente, houve uma melhora em seu layout, na definição das imagens, criação de novas seções e também na utilização de cores.
No total, são 103 livros, 24 cadernos de Estudo Orientado e 6 cadernos de aula.
O conteúdo dos livros foi organizado por aulas. Cada assunto contém uma rica teoria, que contempla de forma objetiva e clara o que o aluno
realmente necessita assimilar para o seu êxito nos principais vestibulares do Brasil e Enem, dispensando qualquer tipo de material alternativo complementar.
Todo livro é iniciado por um infográfico. Esta seção, de forma simples, resumida e dinâmica, foi desenvolvida para indicação dos assuntos mais abordados nos
principais vestibulares, voltados para o curso de medicina em todo território nacional.
O conteúdo das aulas está dividido da seguinte forma:
TEORIA
Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos, de cada coleção, tem como principal objetivo apoiar o estudante na resolução de questões propos-
tas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, completos e organizados. Além disso, contam com imagens ilustrativas que complementam as explicações
dadas em sala de aula. Quadros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados, e compõem um conjunto abrangente de informações para o
estudante, que vai dedicar-se à rotina intensa de estudos.
TEORIA NA PRÁTICA (EXEMPLOS)
Desenvolvida pensando nas disciplinas que fazem parte das Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias. Nesses
compilados nos deparamos com modelos de exercícios resolvidos e comentados, aquilo que parece abstrato e de difícil compreensão torna-se mais acessível
e de bom entendimento aos olhos do estudante.
Através dessas resoluções é possível rever a qualquer momento as explicações dadas em sala de aula.
INTERATIVIDADE
Trata-se do complemento às aulas abordadas. É desenvolvida uma seção que oferece uma cuidadosa seleção de conteúdos para complementar o
repertório do estudante. É dividido em boxes para facilitar a compreensão, com indicação de vídeos, sites, filmes, músicas e livros para o aprendizado do aluno.
Tudo isso é encontrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos temas estudados. Há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até sugestões
de aplicativos que facilitam os estudos, sendo conteúdos essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica. Tudo é selecionado com finos
critérios para apurar ainda mais o conhecimento do nosso estudante.
INTERDISCIPLINARIDADE
Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é elaborada, a cada aula, a seção interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares de
hoje não exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos conteúdos de cada área, de cada matéria.
Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como biologia e química,
história e geografia, biologia e matemática, entre outros. Neste espaço, o estudante inicia o contato com essa realidade por meio de explicações que relacio-
nam a aula do dia com aulas de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizando temas da atualidade. Assim, o estudante consegue entender
que cada disciplina não existe de forma isolada, mas sim, fazendo parte de uma grande engrenagem no mundo em que ele vive.
APLICAÇÃO NO COTIDIANO
Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu distanciamento da realidade cotidiana no desenvolver do dia a dia, dificultando o
contato daqueles que tentam apreender determinados conceitos e aprofundamento dos assuntos, para além da superficial memorização ou “decorebas” de
fórmulas ou regras. Para evitar bloqueios de aprendizagem com os conteúdos, foi desenvolvida a seção “Aplicação no Cotidiano”. Como o próprio nome já
aponta, há uma preocupação em levar aos nossos estudantes a clareza das relações entre aquilo que eles aprendem e aquilo que eles têm contato em seu
dia a dia.
CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES
Elaborada pensando no Enem, e sabendo que a prova tem o objetivo de avaliar o desempenho ao fim da escolaridade básica, o estudante deve
conhecer as diversas habilidades e competências abordadas nas provas. Os livros da “Coleção vestibulares de Medicina” contêm, a cada aula, algumas dessas
habilidades. No compilado “Construção de Habilidades”, há o modelo de exercício que não é apenas resolvido, mas sim feito uma análise expositiva, descre-
vendo passo a passo e analisado à luz das habilidades estudadas no dia. Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a apurá-las na sua
prática, identificá-las na prova e resolver cada questão com tranquilidade.
ESTRUTURA CONCEITUAL
Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Geramos aos estudantes o máximo de recursos para orientá-los em suas trajetórias. Um deles
é a estrutura conceitual, para aqueles que aprendem visualmente a entender os conteúdos e processos por meio de esquemas cognitivos, mapas mentais e
fluxogramas. Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo da aula. Por meio dele, pode-se fazer uma rápida consulta aos principais conteúdos
ensinados no dia, o que facilita sua organização de estudos e até a resolução dos exercícios.
A edição 2019 foi elaborada com muito empenho e dedicação, oferecendo ao aluno um material moderno e completo, um grande aliado para o seu
sucesso nos vestibulares mais concorridos de Medicina.
Herlan Fellini
SUMÁRIO
ENTRE LETRAS
GRAMÁTICA
Aulas 1 e 2: Formação de palavras 7
Aulas 3 e 4: Artigos, substantivos e adjetivos 17
Aulas 5 e 6: Verbos: noções preliminares e modos indicativo e subjuntivo 29
Aulas 7 e 8: Verbos: modo imperativo e vozes verbais 39
Aulas 9 e 10: Advérbios 45

LITERATURA
Aulas 1 e 2: A arte literária e o estudo dos gêneros 55
Aulas 3 e 4: Trovadorismo: a literatura da Idade Média 69
Aulas 5 e 6: Humanismo e Classicismo 85
Aulas 7 e 8: Classicismo: Camões épico e lírico 101
Aulas 9 e 10: Quinhentismo e Barroco 115
Abordagem de GRAMÁTICA nos principais vestibulares.

FUVEST
Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Fuvest são a
formação de palavras e os usos de verbos no modo imperativo. Os demais temas são de aplica-
ção esporádica, requerendo atenção o uso de tempos verbais e de advérbios.

LD
ADE DE ME
D
UNESP
U

IC
FAC

INA

BO
1963
T U C AT U Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Unesp são a
formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica,
requerendo atenção o uso de tempos verbais.

UNICAMP
Dentre os temas abordados neste caderno, o de maior incidência no vestibular da Unicamp é a
formação de palavras. Os demais temas são de aplicação esporádica, requerendo atenção o uso
de tempos verbais.

UNIFESP
Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Unifesp são a
formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica,
requerendo atenção o uso de tempos verbais e a aplicação geral de classes de palavras em certos
contextos.

ENEM/UFMG/UFRJ
Dentre os temas abordados neste caderno, o de maior incidência no ENEM é o uso de tempos
verbais. Os demais temas são de aplicação bastante esporádica.

UERJ
Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da UERJ são a
formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica,
requerendo atenção o uso de tempos verbais.
0 2
1 0 Formação de palavras

Competências Habilidades
1e8 1, 2, 3, 4, 26 e 27
COMO AMAR E PA S
PA R A GOES SASS
REST TEMO I M PA
EINS MENT SSAA
TA N T OAMA SSIM
eluz I S QU PA S S
Q U E A EAME AMEM

MEMO M ORI OR I A
R I A A AMOR ASSA
F L O R DEMA S S IN
L C
ARIA
ENTRE LETRAS
ARIA DERA
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Morfologia: formação de palavras
Neste tópico, estudaremos os processos de estruturação e formação de palavras do português.

§§ Radical (morfema lexical): é a parte da palavra que contém o significado mais geral e é comum às pa-
lavras chamadas de cognatas (também consideradas da mesma família).
Exemplos: terra; terreiro; terrestre; enterrar

§§ Vogal temática: é a vogal que aparece logo após o radical, “ajudando” as palavras a receber outro signi-
ficado. Aparece nos verbos, definindo se são de 1a, 2a ou 3a conjugação.
Exemplo: amar = am + a + r, onde “am” é o radical, “a” é a vogal temática de 1a conjugação e “r” é a
desinência de infinitivo.

§§ Tema: é a junção do radical + vogal temática ou desinência nominal.

§§ Desinências: indicam gênero e número, para desinência nominal, e indicam tempo e pessoa, para desinên-
cia verbal. As desinências nominais caracterizam as variações de substantivos, adjetivos e certos pronomes
quanto ao gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural). As desinências verbais indicam as va-
riações dos verbos em pessoa (1a, 2a ou 3a), número (singular e plural) e tempo (presente, passado e futuro).

§§ Afixos: são elementos que se juntam ao radical para formar novas palavras. Podem aparecer antes do
radical (prefixos) ou depois do radical (sufixos).

§§ Palavras primitivas: são aquelas que não derivam de outras.


Exemplos: pedra; noite

§§ Palavras derivadas: são aquelas que derivam de outras.


Exemplos: pedreiro; anoitecer

§§ Palavras simples: são aquelas que possuem apenas um radical.


Exemplos: couve; flor

§§ Palavras compostas: são aquelas que possuem mais de um radical.


Exemplo: couve-flor

Processos de formação
Basicamente, as palavras da língua portuguesa são formadas pelos processos de derivação e composi-
ção, mas também por outros como onomatopeia, neologismo e hibridismo.

Formação por derivação


No processo de formação por derivação, a palavra primitiva (primeiro radical) sofre acréscimo de afixos. São
seis os tipos de formação por derivação.

§§ Derivação prefixal: acréscimo de prefixo à palavra primitiva.


Exemplo: in-capaz

§§ Derivação sufixal: acréscimo de sufixo à palavra primitiva.


Exemplo: papel-aria

9
§§ Derivação prefixal + sufixal: acrescenta-se
um prefixo e um sufixo a um mesmo radical de
Outros processos
modo sequencial, ou seja, os afixos não são en-
caixados ao mesmo tempo. Percebe-se facilmen- Hibridismo
te, ao remover um dos afixos, a presença de uma
palavra com sentido completo. No processo de formação por hibridismo, as
Exemplo: in-feliz-mente palavras compostas ou derivadas são constituídas por
elementos originários de línguas diferentes:
§§ Derivação parassintética: acréscimo simultâ-
neo de um prefixo e de um sufixo a um mesmo §§ grego + latim: automóvel e monóculo
radical ou à palavra primitiva. Em geral, as for- §§ latim + grego: sociologia, bicicleta
mações parassintéticas originam-se de substan- §§ árabe + grego: alcaloide, alcoômetro
tivos ou adjetivos para formarem verbos. §§ tupi + grego: caiporismo
Exemplo: en-triste-cer §§ africano + latim: bananal
§§ Derivação regressiva: ocorre redução da pa- §§ africano + grego: sambódromo
lavra primitiva. Nesse processo, formam-se subs- §§ francês + grego: burocracia
tantivos abstratos por derivação regressiva de
formas verbais. Neologismo
Exemplo: ajuda (substantivo abstrato da deri-
vação regressiva do verbo ajudar) Neologismo é o nome dado ao processo de
§§ Derivação imprópria: ocorre a alteração da criação de novas palavras ou palavras da própria lín-
classe gramatical da palavra primitiva. gua portuguesa que adquirem um novo significado.
Exemplos: (o) jantar – de verbo para subs-
Exemplos:
tantivo; (um) Judas – de substantivo próprio
§§ Originalmente, a palavra bonde significava
para comum
certo veículo utilizado como meio de transpor-
te. Hoje, na variedade linguística utilizada por
Formação por composição
falantes inseridos no estilo do funk carioca, foi
Nos processos de formação de palavras por dado um novo significado para a palavra bonde:
composição, ocorre a junção de dois ou mais radicais. turma, galera.
Palavras com significados distintos formam uma nova §§ É comum formar verbos a partir de palavras do
palavra com um novo significado. meio da informática, como googlar (procurar
Exemplo: guarda (flexão do verbo guardar; no Google), twittar (escrever no Twitter) ou re-
sentinela) + roupa (vestuário) = guarda-roupa
setar (de reset).
(mobiliário)
São dois os processos de formação por compo-
sição:
§§ Composição por justaposição: quando não
ocorre a alteração fonética das palavras. A jus-
taposição também pode ocorrer por hifenização.
Exemplos: girassol (gira + sol); guarda-chuva
(guarda + chuva)
§§ Composição por aglutinação: quando ocor-
re alteração fonética, em decorrência da perda
de elementos das palavras.
Exemplos: aguardente (água + ardente); em-
bora (em + boa + hora)

10
APLICAÇÃO NO COTIDIANO

A tabela abaixo traz os significados de alguns prefixos e radicais, alguns frequentemente usados no
dia a dia.

Prefixos gregos Significados Exemplos


acro– alto acrobata, acrópole
aero– casa aerodinâmica
agro– campo agrônomo, agricultura
antropo– homem antropofagia, filantropo
homo– igual homônimo, homógrafo
idio– próprio idioma, idioblasto
macro–, megalo– grande, longo macronúcleo, megalópole
metra– mãe, útero endométrio, metrópole
meso– meio mesóclise, mesoderma
micro– pequeno micróbio, microscópio
mono– um monarquia, monarca
necro– morto necrópole, necrofilia, necropsia
nefro– rim nefrite, nefrologia
odonto– dente odontalgia, odontologia
oftalmo– olho oftalmologia, oftalmoscópio
onto– ser, indivíduo ontologia
orto– correto ortópteros, ortodoxo, ortodontia
pneumo– pulmão pneumonia, dispneia

Prefixos latinos Significados Exemplos


a–, ab–, abs– afastamento, separação abstenção, abdicar
a–, ad–, ar–, as– aproximação, direção adjunto, advogado, arribar, assentir
ambi– ambiguidade, duplicidade ambivalente, ambíguo
ante– anterioridade anteontem, antepassado
aquém– do lado de cá aquém-mar
bene–, bem– excelência, bem beneficente, benfeitor
bis–, bi– dois, duas vezes, repetição bípede, binário, bienal
com– (con–), co– (cor–) companhia, contiguidade compor, conter, cooperar
contra– oposição controvérsia, contraveneno
cis– posição, aquém de cisandino, cisalpino
separação, privação, negação,
de–, des– deportar, demente, descrer, decair, decrescer, demolir
movimento de cima para baixo
dis– separação, negação dissidência, disforme

11
Prefixos latinos Significados Exemplos
e– ,em– ,em– introdução, superposição engarrafar, empilhar
e–, es–, ex– movimento para fora, privação emergir, expelir, escorrer, extrair, exportar, esvaziar, esconder, explodir
extra– posição exterior, excesso extraconjugal, extravagância
intra–, posição interior intrapulmonar, intravenoso
i–, im–, in– negação, mudança ilegal, imberbe, incinerar
infra– abaixo, na parte inferior infravermelho, infraestrutura,
intra–, intro– movimento para dentro imersão, impressão, inalar, intrapulmonar, introduzir
justa– posição ao lado justalinear, justapor
o–, ob– posição em frente, oposição obstáculo, obsceno, opor, ocorrer
per– movimento através de perpassar, pernoite
pos– ação posterior, em seguida pós-datar, póstumo
pre– anterioridade, superioridade pré-natal, predomínio
pro– antes, em frente, intensidade projetar, progresso, prolongar
preter–, pro– além de, mais para frente prosseguir
re– repetição, para trás recomeço, regredir
retro– movimento mais para trás retrospectivo

Radicais gregos Significados Exemplos


–agogo o que conduz demagogo, pedagogo
–alg, –algia sofrimento, dor analgésico, cefalalgia, lombalgia
–arca o que comanda monarca, heresiarca
–arquia comando, governo anarquia, autarquia, monarquia
–cracia autoridade, poder aristocracia, plutocracia, gerontocracia
–doxo que opina paradoxo, heterodoxo
–dromo corrida, pista hipódromo
–fagia ato de comer antropofagia, necrofagia
–fago que come antropófago, necrófago
–filo, –filia amigo, amizade bibliófilo, xenófilo, lusofilia
–fobia inimizade, ódio, temor xenofobia
–fobo aquele que odeia xenófobo, hidrófobo
–gamia casamento monogamia, poligamia
–gene que gera, origem heterogêneo, alienígena
–gênese geração esquizogênese, metagênese
–gine mulher andrógino, ginecóforo
–grafia descrição, escrita caligrafia, geografia
–gono ângulo pentágono, eneágono
–latria que cultiva idolatria
–log, –logia que trata, estudo psicólogo, andrologia
–mancia adivinhação cartomante, quiromancia
–mani loucura, tendência megalomaníaco
–mania loucura, tendência cleptomania
–metro que mede barômetro, termômetro

12
Radicais gregos Significados Exemplos
–morfo forma, que tem a forma amorfa, zoomórfico
–onimo nome sinônimo, topônimo
–polis, –pole cidade metrópole
–potamo rio mesopotâmia, hipopótamo
–ptero asa helicóptero
–scopia o que faz ver endoscopia, telescópio
–sofia sabedoria, saber filosofia, teosofia
–soma corpo cromossomo
–stico verso monóstico, dístico
–teca lugar, coleção biblioteca, hemeroteca
–terapia cura, tratamento hidroterapia
–tomia corte, divisão vasectomia, anatomia
–topo lugar topografia, topônimo
–tono tom barítono, monótono

Radicais latinos Significados Exemplos


aristo– melhor aristocracia
arqueo– antigo arqueologia, arqueólogo
anthos– flor antologia, crisântemo, perianto
atmo– ar atmosfera
auto– mesmo, próprio autoajuda, autômato
baro– peso, pressão barômetro, barítono
biblio– livro bibliófilo, biblioteca
bio– vida biologia, anfíbio
caco– mau cacofonia, cacoete
cali– belo caligrafia, calígrafo
carpo– fruto pericarpo
céfalo– cabeça cefalópodes, cefaleia, acéfalo
cito– célula citoplasma, citologia
copro– fezes coprologia, coprófagas
cosmo– mundo microcosmo, cosmonauta
crono– tempo cronômetro, diacrônico
dico– em duas partes dicotomia, dicogamia
eno– vinho enologia, enólogo
entero– intestino enterite, disenteria
etno– povo étnico, etnia, etnografia
filo–, filia– amigo, amizade filósofo, filantropia
fono– som, voz fonética, disfônica
gastro– estômago gastrite, gastronomia
hemo– sangue hemorragia, hemodiálise
hidro– água hidravião, hidratação

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Radicais latinos Significados Exemplos
higro– úmido higrófito, higrômetro
hipo– cavalo hipódromo, hipopótamo
–ambulo que anda noctâmbulo, sonâmbulo
–cida que mata fraticida, inseticida
–cola que habita arborícola, silvícola
–cultura que cultiva triticultura, vinicultura
–evo idade longeva, longevidade
–fero que contém ou produz mamífero, aurífero
–fico que faz ou produz benéfico, maléfico
–forme que tem a forma cordiforme, uniforme
–fugo que foge vermífugo, centrífugo
–grado grau, passo centígrado
–luquo que fala ventríloquo
–paro que produz ovíparo
–pede pé velocípede, bípede
–sono que soa uníssono
–vago que vaga noctívago
–voro que come carnívoro, herbívoro, onívoro

14 14
POEMA

Diversonagens suspersas (Paulo Leminski)


Neste poema, o autor joga com os diferentes sentidos produzidos por morfemas iguais ou semelhantes.

Meu verso, temo, vem do berço.


Não versejo porque eu quero,
versejo quando converso
e converso por conversar.
Pra que sirvo senão pra isto,
pra ser vinte e pra ser visto,
pra ser versa e pra ser vice,
pra ser a super-superfície
onde o verbo vem ser mais?

Não sirvo pra observar.


Verso, persevero e conservo
um susto de quem se perde
no exato lugar onde está.

Onde estará meu verso?


Em algum lugar de um lugar,
onde o avesso do inverso
começa a ver e ficar.
Por mais prosas que eu perverta,
não permita Deus que eu perca
meu jeito de versejar.
(Paulo Leminski, in: Toda Poesia)

15
ESTRUTURA CONCEITUAL

GRAMÁTICA
NORMATIVA

ESTUDO DOS PROCESSOS DE


MORFOLOGIA FORMAÇÃO DE PALAVRAS CLASSES DE
PALAVRAS

FORMAÇÃO DE PALAVRAS
ARTIGO
SUBSTANTIVO
ADJETIVO
VERBO
DERIVAÇÃO COMPOSIÇÃO ADVÉRBIO
PRONOME
NUMERAL
PREPOSIÇÃO
CONJUNÇÃO
FORMAÇÃO DE FORMAÇÃO DE INTERJEIÇÃO
PALAVRAS PALAVRAS
A PARTIR DE COM MAIS
UM ÚNICO RADICAL DE UM RADICAL

SUFIXAL
JUSTAPOSIÇÃO
PREFIXAL
AGLUTINAÇÃO
IMPRÓPRIA
REGRESSIVA
PARASSINTÉTICA

16
0 4
3 0 Artigos, substantivos
e adjetivos

Competências Habilidades
1e8 1, 2, 3, 4, 26 e 27
Geralt/Pixabay

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Artigos
O artigo é a palavra que se antepõe a um substantivo (é um marcador pré-nominal), com a função inicial de
determiná-lo, ou indeterminá-lo. São classificados em dois grupos: definidos e indefinidos.

§§ Artigos definidos: determinam o substantivo de maneira precisa. São eles: o(s), a(s).
Exemplo: Preciso que você me traga a cadeira branca.
(O artigo definido marca a necessidade de se pegar uma cadeira determinada.)

§§ Artigos indefinidos: determinam o substantivo de maneira vaga/imprecisa. São eles: um(uns), uma(s).
Exemplo: Preciso que você me traga uma cadeira branca.
(O artigo indefinido marca a necessidade de se pegar uma cadeira qualquer, indeterminada.)

Artigo combinado com preposições


A contração de artigos com preposições é um movimento essencial para demarcação de sentido em cons-
truções textuais. Muitas vezes, fazer ou não fazer a contração do artigo com a preposição pode alterar significativa-
mente o entendimento que se tem de um texto. Esses eventos textuais serão discutidos no próximo tópico (o artigo
aplicado ao texto). Ficaremos aqui com as possibilidades de contração do artigo com a preposição.

Artigos
Preposições
o, os à, às * um, uns uma, umas
a ao, aos à, às * — —
de do, dos da, das dum, duns duma, dumas
em no, nos na, nas num, nuns numa, numas
por pelo, pelos pela, pelas — —
* A junção de “a” preposição + “a” artigo é o que dá origem ao fenômeno da crase, que será discutido em momento oportuno.

Artigo aplicado ao texto


O artigo talvez seja uma das classes gramaticais mais subestimadas da língua portuguesa, e isso ocorre,
principalmente, pelo fato de, em âmbito escolar, ser apresentado apenas em suas características estruturais mais
básicas, sem o devido aprofundamento semântico ou textual que os vestibulares costumam abordar. Por esse mo-
tivo, apresentaremos a seguir as aplicações textuais do artigo.

Artigo como marcador de quantidade


A presença ou ausência do artigo pode servir como quantificador de elementos.
Exemplos:
§§ Ele trocou o dinheiro em casa de câmbio da Rua do Ouvidor.
(A ausência de artigo indica que há mais de uma casa de câmbio na rua).

§§ Ele trocou o dinheiro na casa de câmbio da Rua do Ouvidor.


(A presença de artigo indica que há apenas uma casa de câmbio na rua).

19
Artigo como marcador Artigo como marcador de coerência textual
de convívio/intimidade Para marcarmos coerência textual, muitas vezes
nos valemos das capacidades de determinação e inde-
A presença ou ausência do artigo pode servir como
terminação dos artigos.
algo que marca certos afetos em relação aos indivíduos.
Exemplos: Exemplo:
§§ A gerência será assumida por Gerson Soares, do §§ Um rapaz magrinho apareceu em casa ontem
almoxarifado. vendendo umas bíblias. O rapaz era bem simpá-
(A ausência de artigo indica distanciamento de tico, estava bem vestido, mas me irritou quando...
Gerson, marcando o fato de que, possivelmente, No exemplo apresentado, constatamos que
nem todos o conhecem.) quando precisamos introduzir uma informação que
§§ A gerência será assumida pelo Gerson Soares, nosso interlocutor desconhece, nos valemos primeiro
do almoxarifado. de um artigo indefinido, e depois de apresentado o
(A presença de artigo indica intimidade com Ger- substantivo (no caso, o rapaz) começamos a demarcá-
son, podendo marcar uma conversa entre pesso- -lo a partir do artigo definido. Há também outra possi-
as que conhecem o Gerson.) bilidade de organização:
Exemplos:
Artigo marcando conhecimento ou — Então, como é o sítio?
desconhecimento de substantivos — Bem, é um sítio antigo, retiramos a água do
poço, mas é bastante tranquilo...
Os artigos definido e indefinido podem marcar o
Nesse segundo exemplo, a coerência textual é
conhecimento ou o desconhecimento de certos assun-
definida quando é apresentado um substantivo defini-
tos conduzidos por substantivos.
do que nosso interlocutor conhece. Para satisfazer a de-
Exemplos: manda de explicação, o interlocutor abre sua explicação
§§ Foi localizado ontem o jovem serial-killer que marcando o substantivo com artigo indefinido.
havia fugido da cadeia.
(O artigo definido nos transmite a ideia de que
a notícia da fuga do jovem era de conhecimento
Substantivos
dos leitores; ou seja, o substantivo era conhecido.)
É a classe de palavras variável que dá nome aos
§§ Foi localizado ontem um jovem serial-killer que seres, objetos e coisas em geral.
havia fugido da cadeia.
(O artigo indefinido nos transmite a ideia de que Classificação
a fuga do jovem era novidade para os leitores;
§§ Próprios: nomeiam a totalidade dos seres de
ou seja, o substantivo era desconhecido.)
uma espécie (designação genérica) ou o indivíduo
único de determinada designação específica.
Artigo como particularizador Exemplos: Paulo; Pedro; Roma; Folha de S.Paulo.
ou generalizador
§§ Comuns: nomeiam, sem distinção, todo e
Exemplos: qualquer ser de uma espécie.
§§ Garfield é um gato. Exemplos: cadeira; porta; sala.
(O artigo indefinido marca a ideia de que §§ Concretos: nomeiam os seres de existência
Garfield é mais um entre os vários gatos no concreta, real, palpável (a pedra ou a porta, por
mundo; ou seja, generaliza o substantivo.) exemplo) e também seres dos quais já se cons-
§§ Garfield é o gato. tituiu uma imagem histórica (a bruxa ou a fada,
(O artigo definido marca a ideia de que Garfield por exemplo).
é um gato especial em relação a outros gatos; ou §§ Abstratos: nomeiam sentimentos/sensações,
seja, particulariza e destaca o substantivo.) elementos não palpáveis.
Exemplos: maldade; compaixão; beijo.
20
Flexões de substantivos Gênero
Os substantivos podem se flexionar também
Número por gênero, indicando quantidades de certos termos/
elementos. Também existe uma regra geral e algumas
Os substantivos podem se flexionar por núme- variantes a serem observadas:
ro, indicando quantidades de certos termos/elementos.
§§ Regra geral: o feminino dos substantivos é
Existe, a princípio, uma regra geral, e também algumas
formado pela substituição da desinência “-o”
variantes que são apresentadas a seguir:
(masculino) pela desinência “–a” (feminino).
§§ Regra geral: o plural dos substantivos termina- São conhecidos como substantivos biformes,
dos em vogal ou ditongo exige o acréscimo do pois possuem duas formas diferentes para de-
sufixo marcador de plural “–s”. signação de gênero.
Exemplos: cadeira > cadeiras; Exemplos: menino > menina; garoto > garota.
mãe > mães; perna > pernas. Há também substantivos biformes formados por
radicais diferentes.
§§ Substantivos terminados em ”–ão”
Exemplos: homem > mulher; cavalheiro > dama.
1. Fazem o plural em “–ãos”.
Exemplos: cidadão > cidadãos; §§ Substantivos uniformes: são aqueles que
irmão > irmãos; órgão > órgãos. apresentam uma única forma para marcação de
gênero:
2. Fazem o plural em “–ães”.
1. Epicenos: usados para nomes de animais de
Exemplos: escrivão > escrivães; um gênero só que designam ambos os sexo.
cão > cães; alemão > alemães. Exemplos: a águia; a mosca; o condor;
3. Fazem o plural em “–ões”. o gavião.
Exemplos: canção > canções;
gavião > gaviões; botão > botões. Observação
§§ Substantivos terminados em consoantes Caso haja necessidade de especificar
1. “r“, “z“ e “n“ fazem o plural em “–es“. o sexo do animal, juntam-se aos substanti-
Exemplos: mar > mares; rapaz > rapazes. vos os adjetivos macho ou fêmea:
Exemplos:
2. Substantivos oxítonos terminados em “–s“ e
gavião macho > gavião fêmea;
“–z“ fazem o plural em “–es“.
tatu macho > tatu fêmea.
Exemplos: país > países; raiz > raízes.
3. Substantivos paroxítonos terminados em “–s“
2. Comum de dois: a marcação de gênero é
são invariáveis.
feita exclusivamente pelos artigos. O substan-
Exemplos: atlas > atlas; lápis > lápis. tivo se mantém.
4. Substantivos terminados em “–al“, “–el“, “– Exemplos: o agente > a agente;
ol“ e “–ul“ substituem no plural o “–l“ por o gerente > a gerente.
“–is“. 3. Sobrecomuns: designam ambos os sexos
Exemplo: animal > animais. com forma masculina ou feminina.
Exemplos: a criança; a testemunha; a vítima.
5. Substantivos oxítonos terminados em “–il“
fazem o plural em “–s“. 4. Flexão de grau: os substantivos se flexio-
Exemplos: ardil > ardis; funil > funis. nam por grau, e marcam aumento ou dimi-
nuição:
6. Substantivos paroxítonos terminados em “–
Grau normal: homem; boca.
il“ fazem o plural em “–eis“. Grau aumentativo: homenzarrão; bocarra.
Exemplos: fóssil > fósseis. Grau diminutivo: homenzinho; boquinha.

21
Grau diminutivo / aumentativo sintéti-
co: chapeuzinho, chapelão; homúnculo, ho- Observação 1
menzarrão; boquinha, bocarra. Há uma exceção: surdo-mudo > surdos-mudos.
Grau diminutivo / aumentativo analí-
tico (junta-lhe um adjetivo que indique au- Observação 2
mento ou diminuição): boca grande; homem São invariáveis os adjetivos referentes a cores,
pequeno. se o último elemento ou ambos forem substanti-
vos: blusas vermelho-sangue; vestidos cor de rosa;

Adjetivos
blusas verde-limão.

É a palavra que acompanha e modifica o subs- Grau dos adjetivos


tantivo, podendo caracterizá-lo ou qualificá-lo.
§§ Comparativo: indica determinada qualidade
em grau igual, superior ou inferior a outra.
Nomes substantivos e Exemplos:
nomes adjetivos Pedro é tão estudioso como (ou quanto) Rodrigo.
Pedro é mais estudioso que Rodrigo.
No contexto de uma frase, é possível identificar Pedro é menos estudioso que Rodrigo.
palavras de outras classes, entre elas os adjetivos, que §§ Superlativo: pode indicar determinada quali-
se transformam em nomes (substantivos) desde que dade em grau elevado (superlativo absoluto).
precedidas de um artigo. Exemplos: o jovem desem- Exemplos:
pregado; um desempregado jovem. Pedro é inteligentíssimo.
§§ Adjetivos pátrios e gentílicos Rodrigo é muito inteligente.
Derivados de substantivos, os adjetivos que in- Pode indicar determinada qualidade em grau
dicam a nacionalidade de pessoas e coisas são mais ou menos elevado em comparação à totali-
chamados pátrios. Exemplos: brasileiro; minei- dade dos seres (superlativo relativo).
ro; paranaense; paulista; português.
Exemplos:
Os que indicam etnias e povos são os adjetivos João é o aluno mais estudioso da classe. (su-
gentílicos. Exemplos: israelita; semita; gaúcho;
perlativo relativo de superioridade)
carioca; potiguar; europeu; africano.
João é o aluno menos estudioso da classe.
§§ Adjetivos pátrios compostos (superlativo relativo de inferioridade)
Exemplos: luso-brasileiro; euro-asiático; teuto-
-brasileiro; afro-americano; franco-suíço; hispa-
no-americano; austro-húngaro; indo-europeu, Substantivos e adjetivos
anglo-americano.
aplicados ao texto
Flexão do adjetivo
Tanto os substantivos quanto os adjetivos têm im-
§§ Número: o adjetivo toma a forma singular ou portantíssimas aplicações textuais, que serão exploradas
plural do substantivo que ele determina.
em gêneros textuais variados. Vejamos como funcionam...
Exemplos: aluno estudioso > alunos estudiosos;
aluna aplicada > alunas aplicadas;
perfume francês > perfumes franceses.
Substantivo e texto
§§ Plural dos adjetivos compostos: apenas o A construção de um texto depende essencial-
último elemento vai para o plural. mente dos substantivos, pois é deles que parte o pro-
Exemplos: clínicas médico-dentárias; institutos cesso de referencialidade. Entende-se por referencia-
ítalo-brasileiros. lidade a capacidade que os substantivos têm de apontar

22
para os elementos do mundo que compõem sentido, e
também de fazer com que esses sentidos sejam cons-
truídos à medida que novos substantivos apareçam no
texto. O movimento de referencialidade parte de três
pressupostos importantes:

§§ Introdução/construção: apresenta um subs-


tantivo no texto, não apenas o introduz, como
constitui uma ideia. É a partir desse substantivo
que o texto se constrói.

§§ Retomada/manutenção: usam-se outros subs-


tantivos muito similares ao primeiro, que permi-
tem retomar a ideia inicialmente apresentada (o
que contribui para a manutenção de sentido)

§§ Desfocalização: é o momento do texto em que


entram em cena novos substantivos que tomam
o foco para si e ampliam os sentidos do texto.

Adjetivo e texto
Os adjetivos exercem o importante papel de con-
duzir os processos descritivos de um texto. Em termos
mais claros, os adjetivos são responsáveis por compor
sentenças que, por exemplo, caracterizem os persona-
gens de uma narrativa (suas roupas, atitudes) ou que
apresentem detalhes a respeito de uma localização
(detalhes de uma cidade, ou ambiente florestal), entre
outras caracterizações. Em textos literários brasileiros
do período romântico, por exemplo, havia a necessida-
de de se evidenciar características que valorizassem a
nação, por esse motivo encontramos obras em que há
grandes processos de adjetivação, caracterizando o am-
biente brasileiro (o livro Iracema, de José de Alencar, é
um grande exemplo).

23
INTERATIVI
A DADE

LER

No primeiro, o autor trabalha com os sentidos das palavras “autor” e


“defunto” em diferentes classes gramaticais.
Capítulo I - ÓBITO DO AUTOR
Algum tempo hesitei se devia estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto
é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto
o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me leveram
a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um
autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a
segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que
também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença
radical este livro e o Pentateuco.

2424
INTERDISCIPLINARIDADE

Canção: Esse cara (Caetano Veloso) Canção: O nome das coisas (Karnak)
A canção é composta por substantivos de diferentes naturezas.
A canção, em seu refrão, recorre às propriedades semânti-
Nomes se dão às coisas
cas do emprego dos artigos: “Ele é o homem
Nomes se dão
Eu sou apenas uma mulher”.
Nomes se dão às pessoas
Nomes se dão
ESSE CARA
Nomes se dão aos deuses na imensidão do céu
Ah! Que esse cara tem me consumido
Nomes se dão aos barquinhos na imensidão do mar
A mim e a tudo que eu quis
Nomes se dão às doenças na imensidão da dor
Com seus olhinhos infantis
Nomes se dão às crianças na imensidão do amor
Como os olhos de um bandido
You and me
Ele está na minha vida porque quer
Salame
Eu estou pra o que der e vier
Batata
Ele chega ao anoitecer
Barata
Quando vem a madrugada ele some
Bigorna
Ele é quem quer
Casa
Ele é o homem
Comida
Eu sou apenas uma mulher
Bicho
Paçoca
Tampinha de caneta
Bolinha de sabão
Rabo de galo
Circo
Pão
Conchinha de galinha
Coxinha do mar
Linha
Palito
Terra
Água
Ar
Seriema
Tatu
Merthiolate
Saci
Rocambole de laranja
Revista
Gibi
Pipoca
Margarina

25
Lentilha Nostradamus
Leitão Filarmônica
Carrinho de feira Marisa
Terremoto Biriba
Furacão Pelé
Centopeia Afrodite
Isqueiro José
Cefaleia Filho
Blefarite Veleiro
Cimento Alá
Colar Deus
Risole Salomão
Rinite Peixe
Armário Pão
Geladeira
Furadeira
Cobertor
Ladeira
Pedreira
Fogueira
Extintor
Jeton
Bazuca
Suporte
Argamassa
Fio de nylon
Lamparina
Chocolate
Queratina
Juliana
Cadarço
Picareta
Beija-flor
Convidados
Esfiha
Chupeta
Fruta-cor
Trompete
Arame
Hepatite
Fax-símile
Chocalho
Geleia
Biga
Mocreia
Apolo

26
ESTRUTURA CONCEITUAL

GRAMÁTICA
NORMATIVA

ESTUDO DOS PROCESSOS DE


MORFOLOGIA FORMAÇÃO DE PALAVRAS

PALAVRA VARIÁVEL
CLASSE DAS QUE ESPECIFICA
O SUBSTANTIVO,
PALAVRAS CARACTERIZANDO-O

ADJETIVO

SUBSTANTIVO
ARTIGO

PALAVRA VARIÁVEL QUE


DÁ NOME A SERES REAIS,
PALAVRA VARIÁVEL IMAGINÁRIOS OU IDEIAS
QUE SE ANTEPÕE
AO SUBSTANTIVO,
DETERMINANDO-O

27
0 6
5 0 Verbos: noções preliminares e
modos indicativo e subjuntivo

Competências Habilidades
1e8 1, 2, 3, 4, 26 e 27
RyanMcGuire/Pixabay

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Verbos
Verbo é a classe de palavras que, do ponto de vista semântico (morfológico), contém as noções de ação,
processo, estado, mudança de estado e manifestação de fenômenos da natureza. É variável e suas flexões marcam:
§§ pessoa: indica o emissor, o destinatário ou o ser do qual se fala. Os pronomes pessoais do caso reto indi-
cam as pessoas do verbo – eu, tu, ele(a), nós, vós, eles(as);
§§ número: indica se o sujeito gramatical está no singular ou no plural;
§§ tempo: localiza a ação, o processo ou o estado em relação ao momento do enunciado. Os tempos verbais
são seis – pretérito mais-que-perfeito, pretérito perfeito, pretérito imperfeito, futuro do pretérito, presente
e futuro (do presente);
§§ modo: indica a atitude do emissor quanto ao fato por ele enunciado, que pode ser de certeza, dúvida,
temor, desejo, ordem etc. Os modos verbais são: indicativo, subjuntivo e imperativo (afirmativo e negativo);
§§ voz: indica se o sujeito gramatical é agente, paciente ou, ao mesmo tempo, agente e paciente da ação.

Conjugações verbais
Conjugar um verbo compreende adicionar ao seu radical a vogal temática da conjugação ou classe a que
pertence mais os sufixos modo-temporal e número-pessoal que lhe são permitidos. Existem três conjugações ver-
bais na língua portuguesa:
§§ 1a conjugação: indicada pela vogal temática –a– (amar, brincar, falar);
§§ 2a conjugação: indicada pela vogal temática –e– (nascer, crescer, morrer);
§§ 3a conjugação: indicada pela vogal temática –i– (dormir, sorrir, partir).

O verbo pôr e seus derivados são considerados de 2ª conjugação por conta de um processo fonológico que
suprimiu a vogal temática –e–. Em um estágio anterior da língua portuguesa, a sua forma era poer.

Classificação dos verbos


Verbos regulares
Os verbos regulares não sofrem alteração do radical e das desinências nos diferentes tempos, modos e
pessoas. O radical do verbo é obtido pela supressão das terminações do infinitivo (–r):
§§ mand(ar), vend(er), part(ir);
§§ mand(o), vend(o), part(o).

Verbos irregulares
Os verbos irregulares sofrem alteração do radical e das desinências nos diferentes tempos, modos e pessoas.
§§ fazer: faço, faria, fazia;
§§ estar: estou, estive, estarei;
§§ saber: sei, soubera, saiba.

Verbos anômalos
Os verbos anômalos possuem diferentes radicais:
§§ ser: sou, é, fomos;
§§ ir: vou, fui, ia.

31
Verbos defectivos Formas nominais do verbo
Os verbos defectivos não possuem todas as formas: O infinitivo, o particípio (regular e irregular) e o ge-
§§ reaver (composto de haver, tem apenas as for- rúndio são chamados formas nominais do verbo porque
podem funcionar como nomes – substantivo, adjetivo.
mas em “v“): reavemos, reavia, reaverá;
§§ precaver: precavenho, precavenha, precavinha; §§ Infinitivo
O comer demais faz mal. (substantivo)
§§ latir: lates, late, latimos;
O viver é bom. (substantivo)
§§ colorir: colores, colore, colorimos, coloris.
§§ Gerúndio
Ela bebeu chá fervendo. (advérbio)
Observação
Fervendo, desligue. (advérbio)
Entre os verbos defectivos estão incluídos os §§ Particípio
chamados verbos impessoais, usados apenas na Problema resolvido. (adjetivo)
terceira pessoa do singular: chover, trovejar, ventar, A feira foi inaugurada. (adjetivo)
haver (existir), fazer (refere-se ao clima: faz frio; ao
O parque foi inaugurado. (adjetivo)
tempo: faz dez anos).

Locução verbal
Verbos auxiliares A locução verbal é a expressão constituída por
verbo (ou verbos auxiliares) seguido do verbo principal.
Os verbos auxiliares formam os tempos compos-
tos ou locuções verbais com os verbos principais: §§ A Europa vem sendo desgastada pela crise.
§§ ser (pago); O verbo auxiliar “vem” designa a pessoa e o nú-
mero do sujeito “Europa”, bem como o tempo verbal
§§ estar (curado);
designado pelo verbo principal “desgastada” – presen-
§§ ter (estudado);
te do indicativo. O verbo principal está na voz passiva
§§ haver (prometido). (ser desgastada).
§§ Hei de fazer algo mais legal.
Verbos abundantes Trata-se de uma locução verbal constituída pelo
auxiliar “hei” e o infinitivo impessoal “fazer”, antecedi-
Os verbos abundantes apresentam mais de uma
do da preposição “de”.
forma, especificamente de particípio:
§§ cozido e cozinhado; §§ Andam falando que tudo aquilo foi falso.
O gerúndio “falando” ou o infinitivo impessoal,
§§ morto e morrido;
precedido da preposição “a” confere à locução ideia de
§§ imprimido e impresso.
continuidade, de frequência, reiteração de ação.

Os particípios abundantes são classificados Modos verbais


em regulares e irregulares.
a) As formas regulares terminadas em –ado e Quando lemos, falamos ou escrevemos, posicio-
–ido, não contraídas, acompanham os ver- namo-nos em um determinado tempo. No momento do
bos auxiliares ter e haver. enunciado, os verbos ocorrem (presente), ocorreram (pas-
Ele já havia pagado a dívida. sados) ou ocorrerão (futuro), dependendo no modo verbal.
Tínhamos aceitado o convite.
b) As formas irregulares, contraídas, acompa-
Tempos do modo indicativo
nham os verbos auxiliares ser e estar.
O feijão foi cozido na panela de pressão. 1. Presente
A lâmpada foi acesa.
§§ Indica processo no momento da fala.
Faço minhas escolhas. (atualmente, agora)

32
§§ Indica processo habitual, constante, fato real, §§ Indica processo em continuidade, habitual,
verdade. constante, frequente.
Ela cumpre seus acordos. (ação habitual) Eu residia nesta casa.
§§ Indica processo ocorrido até o momento da §§ Indica processo idealizado, não realizado.
declaração. Pretendíamos ir à Bahia, mas o frio repenti-
Moro com meus colegas. no não permitiu.
§§ Em narrativas históricas (presente histórico), §§ Como manifestação de cortesia, de polidez,
em lugar do pretérito perfeito. em lugar do presente do indicativo ou do im-
Colombo chega à América e, em 1492, con- perativo.
quista o Novo Mundo. Queria só um abraço.

§§ Em acontecimento próximo no lugar do futuro. §§ Em lugar do futuro do pretérito do indicativo.


Não posso almoçar contigo amanhã. Se ele pagasse, já estávamos (em vez de
“estaríamos“) na França.
§§ Em expressões condicionais (se...), em lugar
do subjuntivo. 4. Pretérito mais-que-perfeito
Se tudo corre bem, podemos viajar.
§§ Indica uma ação passada, um fato concluído
2. Pretérito perfeito que aconteceu antes de outro fato (ambos
no passado).
§§ Indica um processo, algo já realizado, concluí-
O trem partira quando ele enfim chegou.
do, terminado, sem necessidade de referência
Ela estivera presente à toda reunião.
à outra ação anterior nem contemporânea.
Ele dançara muito.
João saiu ontem.
Fiz as compras. §§ Em construções exclamativas.
Cheguei. Quem lhe dera tê-la nos braços naquela tarde!

§§ Indica processo ocorrido antes da declaração §§ Em lugar do pretérito imperfeito do subjuntivo.


expressa pelo verbo. Nadou como se estivera (estivesse) à beira
Em 1939, Hitler invadiu a Polônia. da morte.

§§ É frequente o emprego do pretérito perfeito §§ É bastante frequente o emprego do mais-


composto – presente do indicativo do verbo -que-perfeito composto – imperfeito do ver-
auxiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do ver- bo auxiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do
bo principal. verbo principal.
Pode indicar ato habitual: Eu tinha falado bastante.
Eu tenho lido bastante. Já havia ocorrido o pior.
Os alunos têm estudado muito.
5. Futuro do pretérito
Também pode indicar fato ocorrido até o mo-
mento da declaração: §§ Exprime ação futura em relação ao passado,
Tenho comprado muitos carros iguais a este. ação que teria ocorrido em relação a um fato
já ocorrido no passado.
3. Pretérito imperfeito Eu iria, se você chegasse a tempo.

§§ Indica um processo ocorrido anteriormente §§ Designa ações posteriores à época em que


ao momento da declaração, mas contempo- se fala.
râneo a outro fato passado. Ainda ficaria. Esperaria a noite. (Marques
Eu ouvia samba, quando se deu o estouro. Rabelo)
Ele comia, quando da sua chegada. §§ Designa incerteza, probabilidade, dúvida, su-
§§ É empregado para indicar processo em desen- posição sobre fatos passados.
volvimento. Seriam mais ou menos dez horas quando
Eu dançava, quando ele entrou. chegaram. (Lobato)

33
§§ Forma polida de presente para denotar um §§ Indica ação futura a ser consumada antes de
desejo. outra.
Eu precisaria namorar aquela moça. Quando o guarda chegar, já teremos fugido.

§§ O futuro do pretérito composto expresso – §§ Indica possibilidade de um fato passado.


verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no futuro do Terá passado o furacão dentro de oito dias?
pretérito e particípio do verbo principal. §§ Indica certeza de uma ação futura.
Eu teria dito (diria) umas verdades a você. Se não voltarmos em algumas horas, tere-
mos perdido a oportunidade.
§§ Indica fato que teria acontecido no passado
mediante certa condição.
Teria sido diferente, se eu a amasse. (Ciro
Tempos do modo subjuntivo
dos Anjos) 1. Presente
§§ Indica possibilidade de um fato passado. §§ Expressa hipótese, desejo, suposição, dúvida.
Teria sido melhor não escrever nada. (Ruben Tomara que você tenha boas festas!
Braga) Bons ventos o levem!
§§ Indica incerteza sobre fatos passados em cer- 2. Pretérito imperfeito
tas frases interrogativas.
§§ É empregado nas orações subordinadas da
Ele só teria falado ou também...?
oração principal, em que o verbo esteja no
6. Futuro (do presente) pretérito imperfeito do indicativo.
§§ Indica a ação ainda não ocorrida, mas já de- Ela desejava que todos morressem.
clarada pelo verbo. Esperei que eles fizessem os trabalhos di-
Ora (direis) ouvir estrelas!/ (...) E eu vos di- reito.
rei: amai para entendê-las! (Olavo Bilac) Apreciaria que você me beijasse.

§§ Empregado para indicar um fato aproximado 3. Pretérito mais-que-perfeito (composto)


ou para enfatizar uma expressão. §§ Verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no pretérito
Na África, quantos não estarão mortos de imperfeito do subjuntivo seguido do particí-
fome! pio do verbo principal.
§§ Indica incerteza, probabilidade, dúvida, supo- Imaginei que ele tivesse trazido a grana.
sição. (Indica fato anterior a outro, ambos no pas-
Há uma várzea em meu sonho, mas não sei sado.)
onde será. (Augusto Meyer) 4. Futuro simples
§§ Indica fatos de realização provável. §§ Designa fato provável, eventualidade futura.
Vem, dizia ele na última carta; se não vieres Quando ela vier, encontrará uma bagunça.
depressa, acharás tua mãe morta. (Machado
de Assis) 5. Futuro composto

§§ Como forma polida, em vez do presente. §§ Verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no futuro
Mas como foi que aconteceram? E eu lhe di- do subjuntivo seguido do particípio do verbo
rei: sei lá, aconteceram: eis tudo. (Drummond) principal. Designa fato futuro como encerra-
do em relação a outro também no futuro.
§§ É frequente o emprego do futuro do presente
Só deixarei esta casa, quando ele tiver tra-
composto – futuro do presente do verbo au-
zido todos os meus pertences.
xiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do verbo
Quando eu tiver encontrado o vestido, avi-
principal.
sarei a você.
Quando você chegar, eu já terei ido.

34
INTERATIVI
A DADE

ASSISTIR

Vídeo Jornalista - Veja o uso do futuro do pretérito.

Fonte: Youtube

35
LER E OUVIR

Letra e Música Por Você (Barão vermelho)

Por Você (Barão vermelho)

Por você Por você


Eu dançaria tango no teto Conseguiria até ficar alegre
Eu limparia Pintaria todo o céu
Os trilhos do metrô De vermelho
Eu iria a pé Eu teria mais herdeiros
Do Rio a Salvador Que um coelho
Eu aceitaria Eu aceitaria
A vida como ela é A vida como ela é
Viajaria a prazo Viajaria a prazo
Pro inferno Pro inferno
Eu tomaria banho gelado Eu tomaria banho gelado
No inverno No inverno
Por você Eu mudaria
Eu deixaria de beber Até o meu nome
Por você Eu viveria
Eu ficaria rico num mês Em greve de fome
Eu dormiria de meia Desejaria todo o dia
Pra virar burguês A mesma mulher
Eu mudaria Por você! Por você!
Até o meu nome Por você! Por você!
Eu viveria Eu mudaria
Em greve de fome Até o meu nome
Desejaria todo o dia Eu viveria
A mesma mulher Em greve de fome
Por você! Por você! Desejaria todo o dia
Por você! Por você! A mesma mulher

36
REFLETIR

Poema / Poesia Epígrafe

Reflita sobre o emprego dos tempos verbais no poema de Manuel Bandeira. Qual relação semântica eles
estabelecem?

Epígrafe

Sou bem nascido. Menino,


Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,


Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,


Queimou sem razão nem dó –
Ah, que dor!
Magoado e só,
– Só! – meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes


Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.

– Esta pouca cinza fria...


(Manuel Bandeira, In: A cinza das horas, 1917)

37
Estrutura Conceitual
MORFOLOGIA
VOZES

VERBOS

MODOS

INDICATIVO SUBJUNTIVO IMPERATIVO

TEMPOS TEMPOS
Presente Presente
Pretérito Pretérito imperfeito
Perfeito Futuro
Imperfeito
Mais-que-perfeito
Futuro
Do presente
Do pretérito

38
0 8
7 0 Verbos: modo imperativo
e vozes verbais

Competências Habilidades
1e8 1, 2, 3 e 27
terimakasih0/Pixabay

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Modo imperativo
O modo imperativo manifesta ordem, conselho, súplica ou exortação do emissor, e pode ser imperativo
afirmativo ou imperativo negativo.

§§ Se beber, não dirija!


§§ Dorme, que já está na hora!

FORMAÇÃO DOS IMPERATIVOS


imperativo afirmativo presente do subjuntivo imperativo negativo
Não existe primeira pessoa. que eu ame Não existe primeira pessoa.
ama (tu) que tu ames não ames (tu)
ame (ele/ela/você) que ele/ela/você ame não ame (ele/ela/você)
amemos (nós) que nós amemos não amemos (nós)
amai (vós) que vós ameis não ameis (vós)
amem (eles/elas/vocês) que eles/elas/vocês amem não amem (eles/elas/vocês)

Embora a palavra “imperativo” esteja ligada à ideia de comando, ordem, não é para comandar ou ordenar
que, na maioria das vezes, servimo-nos dele. O imperativo também é empregado para designar pedido, convite,
conselho ou súplica.

§§ Faça isso agora, amor! (pedido)


§§ Faça-nos uma visita! (convite)
§§ Meu filho, faça sempre o melhor! (conselho)
§§ Senhor, faça-nos esse milagre! (súplica)

Vozes
O fato expresso pelo verbo pode ser representado em três formas, em três vozes.

§§ João cortou árvores.


O fato (cortou) é praticado pelo sujeito (João). Portanto, o verbo está na voz ativa.

§§ Árvores foram cortadas por João.


O sujeito (árvores) é alvo, ou seja, sofre a ação de João. Portanto, o verbo está na voz passiva.

§§ João cortou-se com o machado.


O sujeito (João) é alvo (cortou-se) do machado. Portanto, o verbo está na voz reflexiva.

Voz ativa
§§ O fato indicado pelo verbo e exercido pelo sujeito (pessoa ou coisa) recai sobre um objeto (pessoa ou coisa).
Os coletores recolhem diariamente toneladas de lixo.
Os caminhões despejam toneladas de lixo.

§§ As vozes ativa e passiva existem tão somente com verbos transitivos diretos, que necessariamente preveem
sujeito (agente da ação) e objeto (alvo da ação).
Alberto tirou boas notas.
Os pais amam seus filhos.

41
Voz passiva analítica
§§ A voz passiva dos verbos é formada pelo verbo auxiliar ser, conjugado no tempo e na pessoa desejados, se-
guido do particípio do verbo principal: A árvore foi cortada pelo lenhador./ Muitas mansões foram alugadas
em Brasília./ Muita gente ainda vai ser julgada inocente.
§§ A voz passiva analítica sempre é formada por tempos compostos – ser + verbo principal transitivo direto –,
bem como com pelos verbos auxiliares ter e haver.
Têm sido (foram) alugadas muitas mansões em Brasília.

Voz passiva sintética


§§ Formada com o verbo principal transitivo direto na voz ativa, na terceira pessoa do singular ou do plural,
acompanhado da partícula apassivadora “se“.
Aluga-se casa.
Alugam-se casas.
Compra-se apartamento.
Compram-se apartamentos.
Persuadem-se alunos com muito empenho.

Voz reflexiva
§§ Necessariamente formada pelos verbos pronominais – acompanhados de “me“, “te“, “se“, “nos“, “vos“,
“se“ –, cuja ação designada parte do sujeito e volta-se para ele mesmo.
Eu me feri. (O ato e o efeito do ferimento partem e voltam para o “eu”, que é o sujeito.)
Tu te feriste.
Ele se machucou.
Nós nos prejudicamos.
Eles se feriram com faca.

42
INTERATIVI
A DADE

ANALISAR

Imagens Anúncios
O imperativo é usualmente empregado no universo publicitário. Procure identificar em qual pessoa
gramatical os verbos presentes nas imagens abaixo estão empregados.

43
Estrutura Conceitual
MORFOLOGIA
VOZES

VERBOS - Ativa
- Passiva
- Reflexiva

MODOS

INDICATIVO SUBJUNTIVO IMPERATIVO

NÃO ARTICULA TEMPO

Afirmativo
Negativo

44
0 0
9 1 Advérbios

Competências Habilidades
1e8 1, 2, 3 e 27
terimakasih0/Pixabay

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional.
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Advérbios
Advérbio é uma classe de palavras invariável que se associa a verbos, a adjetivos ou a outros advérbios,
cada qual com intenções bastante específicas.
§§ Associa-se a verbos para indicar com maior precisão as circunstâncias da ação verbal.
Exemplo: Paula viajou ontem. (O advérbio “ontem” indica com maior precisão quando Paula viajou.)
§§ Associa-se a adjetivos para intensificar o adjetivo já apresentado.
Exemplo: Roberto ficou bastante preocupado. (O advérbio “bastante” intensifica o adjetivo preocupado.)
§§ Associa-se a advérbios para intensificar outro advérbio já apresentado.
Exemplo: O jogador do Corinthians está se recuperando muito bem. (O advérbio “muito” intensifica o
outro advérbio “bem”.)

Classificação dos advérbios


Os advérbios e as locuções adverbiais estabelecem diferentes relações semânticas, que são as seguintes:
§§ de lugar: aqui; antes; dentro; ali; adiante; fora; acolá; atrás; além; lá; detrás; aquém; cá; acima; onde; perto;
aí; abaixo; aonde; longe; debaixo; algures; defronte; nenhures; adentro; afora; alhures; aquém; embaixo; ex-
ternamente; a distância; a distância de; de longe; de perto; em cima; à direita; à esquerda; ao lado; em volta.
§§ de tempo: hoje; logo; primeiro; ontem; tarde; outrora; amanhã; cedo; depois; ainda; antigamente; an-
tes; doravante; nunca; então; ora; jamais; agora; sempre; já; enfim; afinal; amiúde; breve; constantemente;
imediatamente; primeiramente; provisoriamente; sucessivamente; às vezes; à tarde; à noite; de manhã; de
repente; de vez em quando; de quando em quando; a qualquer momento; de tempos em tempos; em breve;
hoje em dia.
§§ de modo: bem; mal; assim; melhor; pior; depressa; debalde; devagar; às pressas; às claras; às cegas; à toa;
à vontade; às escondidas; aos poucos; desse jeito; desse modo; dessa maneira; em geral; frente a frente;
lado a lado; a pé; de cor; em vão; e a maior parte dos que terminam em ”–mente”: calmamente; triste-
mente; propositadamente; pacientemente; amorosamente; docemente; escandalosamente; bondosamente;
generosamente.
§§ de afirmação: sim; certamente; realmente; decerto; efetivamente; certo; decididamente; deveras; indubi-
tavelmente.
§§ de negação: não; nem; nunca; jamais; de modo algum; de forma alguma; tampouco; de jeito nenhum.
§§ de dúvida: acaso; porventura; possivelmente; provavelmente; talvez; casualmente; por certo; quem sabe.
§§ de intensidade: muito; demais; pouco; tão; em excesso; bastante; mais; menos; demasiado; quanto; quão;
tanto; que (quão); tudo; nada; todo; quase; de todo; de muito; por completo; extremamente; intensamente;
grandemente; bem (aplicado a propriedades graduáveis).
§§ interrogativos: onde; aonde; donde; quando; como; por que; empregadas em interrogações diretas ou
indiretas – entende-se por interrogações diretas aquelas em que as palavras em destaque iniciam uma frase
interrogativa. Já as interrogações indiretas são aquelas em que os termos destacados não iniciam a frase.
Interrogação direta Interrogação indireta
Como isso aconteceu? Queria saber como isso aconteceu.
Onde ela mora? Precisava saber onde ela mora.
Por que ela não veio? Quero entender por que ela não veio.
Aonde você vai? Quero saber aonde você vai.
Donde vem esse rapaz? Necessito entender donde vem esse rapaz.
Quando que chega a carta? Quero saber quando chega a carta.

47
Palavras denotativas que se Grau comparativo
assemelham aos advérbios Formado do mesmo modo que o comparativo do
adjetivo:
Existem algumas palavras e locuções que se
assemelham muito a advérbios, recebendo o nome §§ de igualdade:
de advérbios impróprios ou palavras com sentido tão + advérbio + quanto (como)
denotativo. Exemplo: Sara pulou tão alto quanto Patrícia.

§§ Advérbios de exclusão: apenas; exclusiva- §§ de inferioridade:


menos + advérbio + que (do que)
mente; salvo; senão; somente; simplesmente; só;
Exemplo: Ana fala menos alto que João.
unicamente.
Exemplo: Todos se foram pela manhã; somen- §§ de superioridade:
te ele quis partir mais tarde. mais + advérbio + que (do que)
Exemplo: Ana fala mais alto que João.
§§ Advérbios de inclusão: ainda; até; mesmo;
inclusivamente; também.
Grau superlativo
Exemplo: Todos se foram pela manhã, até ele
que queria partir mais tarde. Intensifica a qualidade de uma coisa ou pessoa.
§§ Advérbios de ordem: depois; primeiramente; §§ Superlativo analítico: vem acompanhado de
ultimamente. outro advérbio.
Exemplo: Primeiramente, gostaria de agra- Exemplo:
decer a todos os que estiveram presentes. O rapaz falava muito alto. (”muito” é advérbio
de intensidade; ”alto”, de modo)

Locuções adverbiais §§ Superlativo sintético: é formado por sufixos.


Exemplo:
Locuções adverbiais são expressões forma- O rapaz falava altíssimo. (advérbio de modo
formado pelo acréscimo do sufixo)
das a partir de duas ou mais palavras que exercem
função adverbial. Geralmente, são iniciadas por uma Observação: na linguagem afetiva e popular,
preposição, seguida de outra palavra como substan- certos advérbios são empregados no diminutivo,
tivo, advérbio ou verbo, e que seja capaz de indicar com valor de superlativo.
a circunstância. Exemplos:
§§ de lugar: à esquerda; à direita; de longe; de O homem caminhava devagarinho.
perto; para dentro; por aqui. Amanhã precisarei acordar cedinho.
Ela mora pertinho daqui.
§§ de afirmação: por certo; sem dúvida.
§§ de modo: às pressas; passo a passo; de cor; em O advérbio aplicado ao texto
vão; em geral; frente a frente.
§§ de tempo: à noite; de dia; de vez em quando; à As principais aplicações dos advérbios ao texto e
tarde; hoje em dia; nunca mais. que respondem a questões semânticas importantes são
as dos advérbios frásicos versus advérbios extrafrásicos,
além da distribuição de advérbios modais (terminados
Grau dos advérbios em –mente).
§§ Advérbios frásicos: são aqueles que modifi-
Os advérbios são palavras, por definição, invari-
cam um elemento específico da frase. Não apre-
áveis (não sofrem alterações de gênero ou número). No
sentam marcas de deslocamento (vírgulas).
entanto, há algumas variações de grau.
Exemplo: O veículo corre muito.

48
§§ Advérbios extrafrásicos: são aqueles que são exteriores à frase, estão no âmbito da enunciação e, ge-
ralmente, deslocados por vírgula.
Exemplo: Ele, infelizmente, não jogou bem hoje.
Observação: os advérbios extrafrásicos funcionam como elementos de avaliação do enunciador acerca do
conteúdo enunciado.
§§ Distribuição textual de advérbios modais (mais de um advérbio terminado em “–mente”)
Quando temos uma frase que congrega mais de um advérbio terminado em “–mente”, deve-se fazer a con-
tração dos advérbios centrais (retirar o termo “–mente”) e preservar apenas o último advérbio flexionado.
Errado: Ele saiu calmamente, sorrateiramente e rapidamente.
Certo: Ele saiu calma, sorrateira e rapidamente.

49
INTERATIVI
A DADE

LER E OUVIR
REFLETIR

Poema / Poesia Poema só para Jaime Ovalle / Você Só... Mente

Procure encontrar os advérbios no poema e na canção abaixo.

Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro


(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
(Manuel Bandeira)

Você Só... Mente

Não espero mais você, pois você não aparece


Creio que você se esquece das promessas que me faz
E depois vem dar desculpas, inocentes e banais
É porque você bem sabe
Que em você desculpo
Muitas coisas mais
O que sei somente
É que você é um ente
Que mente inconscientemente
Mas finalmente
Não sei por que
Eu gosto imensamente
De você
Invariavelmente, sem ter o menor motivo
Em um tom de voz altivo
Você quando fala mente
Mesmo involuntariamente, faço cara de inocente
Pois sua maior mentira, é dizer à gente que você não mente.
(Noel Rosa)

50
Estrutura Conceitual

Gramática Normativa

Formação de palavras

Classes de palavras

Advérbio Preposição Interjeição Numeral

Classes Classe
invariáveis variável

51
51
Abordagem de LITERATURA nos principais vestibulares.

FUVEST
A maior parte das questões de literatura da Fuvest refere-se às obras obrigatórias. Neste caderno,
você encontrará alguns desses exercícios de anos anteriores sobre o HUMANISMO, bem como
questões sobre as estéticas medieval, clássica e barroca.

LD
ADE DE ME
D
UNESP
U

IC
FAC

INA

BO
1963
T U C AT U Como a Unesp não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste vestibular con-
templam o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes.
Neste caderno, estão presentes questões sobre TROVADORISMO, HUMANISMO, CLASSICISMO
E BARROCO.

UNICAMP
A maior parte das questões de literatura da Unicamp refere-se às obras obrigatórias. Neste caderno,
você encontra alguns desses exercícios de anos anteriores sobre o HUMANISMO e o CLASSICISMO.

UNIFESP
Como a Unifesp não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste vestibular con-
templam o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes.
Neste caderno, estão presentes questões sobre TROVADORISMO, HUMANISMO, CLASSICISMO
e BARROCO.

ENEM/UFMG/UFRJ
Como o ENEM não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste exame contemplam
o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes.

UERJ
Neste caderno, você encontrará exercícios da UERJ apenas nas aulas 1 e 2. O Vestibular da UERJ
não exige os demais conteúdos contidos neste livro.
0 2
1 0 A arte literária e
o estudo dos gêneros

Competência Habilidades
5 15, 16 e 17

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
O que é arte?

Esse é um conceito historicamente muito discutido. Um estudo de Literatura que se pretenda aprofundado
deve levar em consideração os sentidos da arte e notadamente a análise técnica dela. A palavra literatura é de
origem latina e significa “arte de escrever”. Portanto, conjugar essa relação entre arte e escrita é o primeiro passo
para dar corpo à maneira de divulgar os valores culturais que estruturam uma sociedade e uma civilização. Enten-
der os conhecimentos científicos, filosóficos, místicos e artísticos de um dado contexto é de fato conhecer o próprio
homem e compreender sua identidade.
O filósofo Aristóteles considerava que a arte era uma maneira de “imitar” (mimesis, do grego) a realidade
do homem, que, em seus vários suportes, cria essa possibilidade de fazê-lo pensar sua própria vida, autoconhecer-
-se, encontrar-se como ser humano, observar criticamente a realidade, divertir-se e sonhar.
Da Antiguidade Clássica às Idades Moderna e Contemporânea, a arte se manifesta em vários suportes –
música, pintura, literatura, dança, escultura e teatro. Funciona como elemento transformador da consciência huma-
na. O artista, esse criador, cria e recria realidades, expressa valores estéticos com beleza, harmonia e equilíbrio e
estrutura-se à luz de um contexto de circulação, de transformação, de um agente e de um público.
No decorrer dos tempos, esses conceitos foram se transformando sem perder sua lógica. Seja na perfeição
e harmonia das formas da Antiguidade Clássica (período greco-latino), seja no teocentrismo medieval, com suas
relações de vassalagem, seja no século XIX, com suas utopias românticas, seja nas vanguardas artísticas do século
XX. Emoções humanas, alegrias e angústias, ideologias, religião, luta social e cultura sempre perpassaram e fre-
quentaram os conceitos estéticos da arte e da literatura.

A Literatura é um mundo aberto ao mesmo tempo às múltiplas reflexões sobre a história do mundo, sobre
as ciências naturais, sobre as ciências sociológicas, sobre a antropologia cultural, sobre os princípios éticos, sobre
política, economia, ecologia (...)
MORIN, Edgar. Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

O que nos leva a ir ao cinema, a um show, à biblioteca, ao museu e, principalmente, a ler um livro? A res-
posta está no reflexo da própria condição humana, no processo de identificação do homem com a arte. Essa atitude
transforma só pelo fato de estarmos refletindo, primeira condição da arte. Esse ponto de partida, independente-
mente de sua presumível qualidade, é uma forma de compreender o mundo que nos cerca.

57
É impossível não se identificar com o eu lírico, a arte, diferindo, por exemplo, de um texto informativo ou
voz do poema, ao lermos versos como este, de Manuel instrucional, o texto literário deve explorar o potencial
Bandeira: significativo e sonoro das palavras, bem como os aspec-
tos ora denotativos, em sua literalidade de dicionário,
O bicho (Manuel Bandeira) ora conotativos em que as palavras adquirem novo sen-
Vi ontem um bicho tido a fim de produzir efeito artístico.
Na imundice do pátio O poder de explorar os sentidos coloca essas
Catando comida entre os detritos. palavras em situações inusitadas, criando imagens com
as figuras de linguagem nas quais o escritor “desenha”
Quando achava alguma coisa,
para o leitor comparações que concretizam as emoções.
Não examinava nem cheirava:
Como no uso da metáfora, que aproxima dois elementos
Engolia com voracidade.
num contexto específico, transferindo de um para outro
O bicho não era um cão, suas características. Como no exemplo a seguir, de Mário
Não era um gato, Quintana, em que a “inspiração” é comparada, por metá-
Não era um rato. fora, a “um pássaro que pousa no livro que lês”.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
Comunicação e linguagem no livro que lês.
A Literatura leva em consideração o emprego de Quando fechas o livro, eles alçam voo
imagens criadas a partir das palavras. como de um alçapão.

A palavra está sempre carregada de um conteú- Eles não têm pouso


do ou sentido ideológico ou vivencial. nem porto;
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. alimentam-se um instante em cada
São Paulo: Hucitec, 1998. par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
Essa linguagem artística respeita alguns parâ-
no maravilhado espanto de saberes
metros, condicionamentos sociais e culturais, que lhe
que o alimento deles já estava em ti...
oferecem a dimensão de suas verdades e o melhor
Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 469.
modo de dizê-las. À análise literária cabe construir um
processo de comunicação segundo o qual “o que” está
sendo dito tenha estreita relação com o “como” está Prosa e poesia
sendo dito. É dessa simbiose que se estabelece uma es-
Prosa e poesia são dois elementos constitutivos
tética específica, atrelada a um contexto específico, e se
nomeia uma dada escola literária específica. desse processo de comunicação literária que ganha for-
mas diferentes. A prosa é mais referencial e se vale do
Tudo o que nos rodeia e que foi criado pela mão uso do texto corrido organizado da esquerda para a di-
do homem, todo o mundo da cultura, diferentemente reita no papel ocidental sem preocupação com a forma,
apenas com o conteúdo e a linhas cheias.
do mundo da natureza, tudo isso é produto da imagina-
Já o poema está primordialmente preocupado
ção e da criação humana.
com a forma e adquire, no decorrer da história, várias
VYGOTSKY, Lev S. Pensamento e linguagem.
São Paulo: Martins Fontes, 1987. estruturas a partir da lógica do verso, que é a linha do
poema, e de um conjunto deles, denominado estrofe. Es-
O essencial em Literatura é estabelecer uma re- tão imersos num trabalho de ritmo e rimas que podem
lação de sentido entre as palavras e os leitores, para ou não seguir padrões de tamanho e convenção. O termo
tanto, os escritores se valem de uma série de recursos “poesia”, “poética” e “poeta” derivam dos termos dos
técnicos que elevam essa linguagem ao conceito de grego poíesis, poiêtikê, poiêtês, que significam criar.

58
O que é gênero literário? Narrados de maneira elevada e com vocabulário
grandiloquente e solene, os assuntos históricos sofrem
influência do imaginário e não se privam de recorrer à
Gênero é o modo como se veicula a mensagem
imaginação, bem como à mitologia.
literária, o padrão a ser utilizado na composição artís-
Na cena inicial da Odisseia, de Homero, é possí-
tica. Há grandes diferenças entre o conteúdo e a forma
vel identificar características primordiais do texto épico,
dos textos. Um poema não se confunde com um conto,
como o pedido de inspiração do poeta às musas para
e um romance segue padrões bastante próprios em re-
contar a história de Odisseu, que passou por terríveis
lação a uma peça de teatro, por exemplo.
provações até desfazer as muralhas de Troia:
Na Antiguidade Clássica, Aristóteles conceituou
conteúdo como elemento constitutivo da representação
Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso
das paixões, das ações e do comportamento humano. A
que muito peregrinou, dês que esfez as muralhas sa-
forma desse conteúdo, a princípio aplicada apenas à po-
gradas de Troia; muitas cidades dos homens viajou, co-
esia, compreende três gêneros: épico, lírico e dramático.
nheceu seus costumes, como no mar padeceu sofrimen-
tos inúmeros na alma,para que a vida salvasse e a de
seus companheiros a volta.
Homero. Odisseia. Tradução de: Carlos Alberto Nunes.
5. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. Coleção Universidades.

A estrutura do poema épico


É dividido em partes, chamadas cantos, que,
por sua vez, são divididos em:
§§ Proposição:
O texto apresenta o tema e o herói.
§§ Invocação:
Odisseu e Penélope O texto pede inspiração à musa (divindade
inspiradora da poesia).
§§ Narração:
O gênero épico Narração das aventuras do herói.
§§ Conclusão ou Epílogo:
Épico é derivado do grego épos que, entre outras Encerramento das aventuras e conclusão
coisas, significa palavra, verso, discurso. Esse gênero, dos feitos heroicos.
também chamado de epopeia, nasceu com a Ilíada e a
Odisseia, de Homero. Oriundo das tradições orais, elas
contam histórias que auxiliam o homem a entender a
As epopeias são divididas em “clássicas ou pri-
trajetória de seus povos. É característica das narrativas
márias” ou de “imitação ou secundárias”.
mais antigas a simbolização dos ideais coletivos de um
povo na figura de um herói imerso numa grande aven-
tura, numa guerra ou num acontecimento histórico. O
eu lírico da epopeia relaciona-se diretamente com a so-
ciedade. A imagem do herói é constituída de uma repre-
sentação de seu povo, cujo comportamento exemplar
vai caracterizá-lo como figura predestinada a cumprir
determinada missão.

59
Epopeias clássicas ou primárias As transformações do herói
A estrutura dos poemas de Homero serviu de inspi- 1. Na Ilíada e na Odisseia, o herói é guiado pelas
ração para outros poetas, como o latino Virgílio, em Eneida divindades.
(19 a.C.), e Camões, em Os Lusíadas (1572). A Odisseia e 2. Na Eneida e em Os Lusíadas, o herói é represen-
a Ilíada, de Homero, são textos clássicos que inspiraram e tante de um povo.
sistematizaram regras e estruturas formais para os demais. 3. Em Robson Crusoé e em O conde de Monte Cris-
to, o herói é humano e individual.

O gênero lírico
Esse gênero nasceu na Grécia antiga, cujos po-
emas eram acompanhados musicalmente pela lira. É o
gênero centrado na expressão do “eu poético” ou “eu
poemático” – voz que fala no poema, não necessaria-
Eneias foge em direção à península Itálica. mente correspondente à voz do autor.
Menos grandiosos que os da epopeia, seus te-
Nesse tipo de texto, os deuses são apresentados
mas dizem respeito ao mundo interior do eu lírico, aos
como seres reais que são tomados por sentimentos hu- sentimentos, ao individualismo, às relações consigo
manos e podem tanto prejudicar como ajudar o herói, de- mesmo. Pronomes e verbos vêm normalmente na pri-
pendendo do seu estado emocional e da preponderância meira pessoa do singular e predominam as emoções,
do tema narrado. Outro aspecto importante é perceber a rimas, ritmo, sonoridade das palavras, metáforas, repeti-
preocupação do poeta em relacionar as ações do herói ções, entre outras figuras de linguagem, que trazem aos
com o povo a que pertence a fim de criar uma divulgação versos musicalidade e suavidade.
da identidade pátria. O gênero lírico é subdividido em: soneto, elegia,
ode, madrigal, écloga etc. São formas poéticas mais
Epopeias de imitação ou secundárias afeitas ao gênero lírico.
§§ Soneto – forma lírica bastante conhecida, é
Entre os anos 30 e 19 a.C., o poeta latino Virgí- composta de catorze versos, com dois quartetos
lio escreveu a Eneida, considerada a “epopeia nacional e dois tercetos.
dos romanos”. No classicismo renascentista, o portu-
guês Luís de Camões escreveu Os Lusíadas, um dos Soneto da fidelidade
mais conhecidos poemas épicos de imitação. Nele, são (Vinicius de Moraes)

reveladas as aventuras e peripécias do herói Vasco da


Gama, primeiro navegante que cruzou o Cabo da Boa De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Esperança, ao sul da África, e levou os portugueses às
Que mesmo em face do maior encanto
Índias por uma nova rota comercial.
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

60
§§ Elegia – poema em tom triste e fúnebre origi- Pouco a pouco se foram
nado na Grécia antiga. Caracterizam as digres- compondo,
sões moralizantes destinadas a ajudar ouvintes fazendo-se paisagem,
ou leitores a suportar momentos difíceis da vida, adquirindo pintas, graça voo.
como a morte de um ente querido ou de uma O gato,
personalidade pública. só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
Elegia na sombra
Fernando Pessoa (2 jun. 1935) nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa O homem quer ser peixe e pássaro,
Um vento frio na nossa nostalgia a serpente quisera ter asas,
E a nostalgia torna-se desgraça. o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
Pesa em nós o passado e o futuro.
a mosca estuda para andorinha,
Dorme em nós o presente. E a sonhar
o poeta trata de imitar a mosca,
A alma encontra sempre o mesmo muro,
mas o gato
E encontra o mesmo muro ao despertar.
quer ser só gato
Quem nos roubou a alma? Que bruxedo e todo gato é gato
De que magia incógnita e suprema do bigode ao rabo,
Nos enche as almas de dolência e medo do pressentimento à ratazana viva,
Nesta hora inútil, apagada e extrema? da noite até os seus olhos de ouro.
Os heróis resplandecem a distância
Não há unidade
Num passado impossível de se ver
como ele,
Com os olhos da fé ou os da ância.
não tem
Lembramos névoa, sombras a esquecer.
a lua nem a flor
tal contextura:
Que crime outrora feito, que pecado é uma coisa
Nos impôs esta estéril provação só como o sol ou o topázio,
Que é indistintamente nosso fado e a elástica linha em seu contorno
Como o pressente nosso coração? firme e sutil é como
(...) a linha da proa de uma nave.
Como – longínquo sopro altivo e humano! – Os seus olhos amarelos
Essa tarde monótona e serena deixaram uma só ranhura
Em que, ao morrer, o imperador romano para jogar as moedas da noite.
Disse: Fui tudo, nada vale a pena. Oh pequeno
imperador sem orbe,
§§ Ode – poema lírico de exaltação e homenagem, conquistador sem pátria,
também originado na Grécia antiga, destina- mínimo tigre de salão, nupcial
do ao canto. Composto de estrofes e de versos sultão do céu
iguais em tom alegre, entusiástico e de louvação. das telhas eróticas,
o vento do amor
Ode do gato na intempérie
(Pablo Neruda) reclamas
quando passas
Os animais foram e pousas
imperfeitos, quatro pés delicados
compridos de rabo, tristes no solo,
de cabeça. cheirando, desconfiando

61
de todo o terrestre, A beleza é um conceito.
porque tudo E a beleza é triste.
é imundo Não é triste em si,
para o imaculado pé do gato. Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

Oh fera independente O que eu adoro em ti,


da casa, arrogante Não é a tua inteligência.
vestígio da noite, Não é o teu espírito sutil,
preguiçoso, ginástico Tão ágil, tão luminoso,
e alheio, – Ave solta no céu matinal da montanha.
profundíssimo gato, Nem é a tua ciência
polícia secreta Do coração dos homens e das coisas.
dos quartos,
insígnia O que eu adoro em ti,
de um desaparecido veludo, Não é a tua graça musical,
certamente não há Sucessiva e renovada a cada momento,
enigma na tua maneira, Graça aérea como o teu próprio pensamento.
talvez não sejas mistério, Graça que perturba e que satisfaz.
todo o mundo sabe de ti e pertences
O que eu adoro em ti,
ao habitante menos misterioso
Não é a mãe que já perdi.
talvez todos o acreditem,
Não é a irmã que já perdi.
todos se acreditem donos,
E meu pai.
proprietários, tios
de gato, companheiros, O que eu adoro em tua natureza,
colegas, Não é o profundo instinto maternal
discípulos ou amigos do seu gato. Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
Eu não.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
Eu não subscrevo.
O que eu adoro em ti, é a vida.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
§§ Écloga – poema ambientado no campo, pastoril
o mar e a cidade incalculável,
a botânica e bucólico.
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática, Écloga IV (v. 52-59)
(Virgílio)
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro, Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra.
o atavismo azul do sacerdote, A última parte desta vida seja-me tão longa,
mas não posso decifrar um gato. que para dizer os feitos não me falte alento!
Minha razão resvalou na sua indiferença, O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos,
os seus olhos têm números de ouro. nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra
e por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo.
§§ Madrigal – composição poética elegante cujos
Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia,
temas invocam atos heroicos e pastoris. dar-se-á por vencido o próprio Pã, por juiz a Arcádia.

Madrigal melancólico
(Manuel Bandeira)

O que eu adoro em ti,


Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.

62
Natureza das rimas Classificação das rimas
§§ Ricas – entre palavras de classes gramaticais §§ Monossílabos: uma sílaba.
diferentes: §§ Dissílabos: duas sílabas.
Cristina e ensina §§ Trissílabos: três sílabas.
§§ Tetrassílabos: quatro sílabas.
§§ Pobres – entre palavras de mesma classe §§ Pentassílabos: cinco sílabas ou redondilha menor.
gramatical: §§ Hexassílabos: seis sílabas.
Precisava esconder sua afeição... §§ Heptassílabos: sete sílabas ou redondilha maior.
Na Idade Média, uma imortal paixão §§ Octossílabos: com oito sílabas.
§§ Toantes – entre sons vocálicos repetidos: §§ Eneassílabos: nove sílabas.
§§ Decassílabos: dez sílabas.
hora e bola; saltava e mata
§§ Hendecassílabos: onze sílabas.
§§ Aliterantes – entre sons consonantais idênti- §§ Dodecassílabos: doze sílabas ou alexandrino.
cos ou semelhantes: §§ Verso bárbaro: mais de doze sílabas.
vozes, veladas, veludosas, vozes/
vagam nos velhos vórtices velozes
Disposição das rimas no poema
§§ Consoantes – entre sons e letras repetidos:
terra e serra; §§ Mistas – sem posição regular:
amoníaco e zodíaco; De uma, eu sei, entretanto 1,
rutilância e infância Que cheguei a estimar 2
Por ser tão desgraçada 3!
§§ Esdrúxulas – entre palavras proparoxítonas: Tive-a hospedada 3 a um canto 1
Do pequeno jardim 4;
É um flamejador, dardânico Era toda riscada 3
uma explosão de rápidas ideias, De um traço cor de mar 2
que com um mar de estranhas odisseias E um traço carmesim 4.
saem-lhe do crânio escultural, titânico!... (Alberto de Oliveira)
(Cruz e Sousa)

§§ Agudas – entre palavras oxítonas: §§ Emparelhadas (AABB):


dó e só; fez e vez; ti e vi No rio caudaloso que a solidão retalha A,
na funda correnteza na límpida toalha A,
§§ Preciosas – entre palavras combinadas:
deslizam mansamente as garças alvejantes B;
múmia e resume-a; réstea e veste-a; nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes B...
águia e alague-a; estrela e vê-la (Fagundes Varela)

§§ Versos brancos – verso sem rimas. §§ Interpoladas ou opostas (ABBA):


Mais de mil anos-luz já separado A,
Irene no Céu
(Manuel Bandeira)
Naquela hora, do meu pensamento B.
O filme de uma vida, ínfimo momento B,
O derradeiro instante havia impregnado A.
Irene preta
Irene boa
§§ Alternadas ou cruzadas (ABAB):
Irene sempre de bom humor.
Amor, essência da vida A,
Imagino Irene entrando no céu: é uma expressão de Deus B.
– Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: Alma, não fique perdida A!
– Entra, Irene. Você não precisa pedir licença. Ele luz os dias seus B.

63
Classificação dos versos §§ Hexassílabos – seis sílabas:
E o/ ca/va/lei/ro/ pa/ssa
§§ Monossílabos – uma única sílaba: an/te a/ som/bria/ por/ta
Ru/a da/ lú/gu/bre/ des/gra/ça
tor/ta (Alphonsus de Guimarães)
Lu/a
mor/ta §§ Heptassílabos ou redondilha maior – sete
Tu/a sílabas:
por/ta
An/tes/ de a/mar,/ eu/ di/zi/a
§§ Dissílabos – duas sílabas: pa/ra/ cor/tar/ na/ ra/iz
Tu,/ on/tem es/ta/ cons/tan/te a/go/ni/a
na/ dan/ça pre/ci/so a/mar/ al/gum/ di/a
que/ can/sa a/man/do,/ se/rei/ fe/liz.
vo/a/vas (Menotti del Picchia)

com as/ fa/ces


§§ Octossílabos – oito sílabas:
em/ ro/sas
for/mo/sas No ar/ so/sse/ga/do, um/ si/no/ can/ta
de/ vi/vo Um/ si/no/ can/ta/ no ar/ som/bri/o
car/mim (Olavo Bilac)
(Casimiro de Abreu)

§§ Trissílabos – três sílabas: §§ Eneassílabos – nove sílabas:

Vem/ a au/ro/ra Ó/ gue/rrei/ros/ da/ ta/ba sa/gra/da,


pre/ssu/ro/sa Ó/ gue/rrei/ros/ da/ tri/bo tu/pi
cor/ de/ ro/sa Fa/lam/ deu/ses/ nos/ can/tos/ de/ pia/ga!
que/ se/co/ra Ó/ gue/rrei/ros,/ meus/ can/tos/ ou/vi!
de/ car/mim (Gonçalves Dias)
as/ es/tre/las
que e/ram/ be/las §§ Decassílabos ou Medida Nova – dez sílabas:
têm/ des/mai/os A/mo/-te, ó/ cruz, /no/ vér/ti/ce/ fir/ma/da
já/ por/ fim
(Gonçalves Dias) §§ Hendecassílabos – onze sílabas:
Não/ te/nho/ na/da/ com i/sso/ nem/ vem/ fa/lar
§§ Tetrassílabos – quatro sílabas:
Eu/ não/ con/si/go en/ten/der/ sua/ ló/gi/ca
O in/ver/no/ bra/da Mi/nha/ pa/la/vra/ can/ta/da/ po/de es/pan/tar
for/çan/do as/ por/tas E a/ seus/ ou/vi/dos/ pa/re/cer/ e/xó/ti/ca.
Oh!/ Que/ re/voa/da (Caetano Veloso)
de/ fo/lhas/ mor/tas
o/ vem/to es/pa/lha §§ Dodecassílabos ou Alexandrinos – doze
por/ so/bre o/ chão/... sílabas:
(Alphonsus de Guimarães) A/ ca/sa/ que/ foi/ mi/nha,/ ho/je é/ ca/sa/ de/ Deus.
Traz/ no/ topo u/ma/ cruz./ A/li/ vi/vi/ com os/ meus
§§ Pentassílabos ou redondilha menor – cinco (Aberto de Oliveira)
sílabas:
§§ Bárbaros – mais de doze sílabas:
Meu/ can/to/ de/ mor/te,
Gue/rrei/ros/ ou/vi Nun/ca /co/nhe/ci /quem/ ti/ve/sse/ le/va/do/
Sou/ fi/lho/ das/ sel/vas po/rra/da.
Nas/ sel/vas/ cres/ci;
To/dos os/ meus/ co/nhe/ci/dos/ têm/ si/do/
Gue/rrei/ros/ des/cen/do
Da/ tri/bo/ tupi cam/pe/ões/ em/ tudo.
(Gonçalves Dias) (Fernando Pessoa)

64
O gênero dramático §§ Tragédia
Conta histórias cujos resultados são destrutivos e
irreversíveis. Em geral baseada em mitos e histó-
A característica e a finalidade primordiais do
rias já conhecidas do público, a tragédia preten-
gênero dramático (do grego drân: agir) é ser levado à
de causar no espectador terror, piedade, catarse,
representação, à “ação”.
enfim: “descarga de desordens emocionais ou
Compreende o gênero teatral, cuja encenação,
afetos desmedidos a partir da experiência estética
no entanto, escapa à alçada da literatura propriamente. oferecida pelo teatro, música e poesia”. Persona-
O eu poético relaciona-se com um tu/vós, segunda pes- gens lutam contra forças mais poderosas que elas,
soa do discurso, a plateia. O texto dramático pressupõe que, em princípio, são vencidas regularmente com
essa plateia, que o vivencia e tem probabilidade de fruir a morte. Sugestão: Édipo Rei, de Sófocles.
emoções mediante a representação do texto.

§§ Comédia
Enfatiza o comportamento ridículo do ser hu-
mano mediante exposição e crítica de costu-
mes sociais. Exemplos: O doente imaginário, de
Molière; A tempestade, de Shakespeare; e Lisís-
trata, de Aristófanes.

§§ Drama
A peça funde tragédia e comédia sem, no en-
tanto, que a história caminhe para resultados
irreversíveis. Em geral, trata de fatos do coti-
diano com final feliz ou não, mas com trajetória
intrigante, de difícil solução. Exemplo: Leonor de
Caracterizam o gênero dramático a ausência de Mendonça, de Gonçalves Dias; e Macário, de Ál-
narrador, o discurso direto – estrutura dialogada – e as vares de Azevedo.
rubricas – instruções que sinalizam ao diretor e aos ato-
§§ Auto
res a postura no palco, o tom de voz etc. Peça teatral curta regularmente com temática
Em vez do narrador, o texto dramático conta a religiosa e moralizante e com finalidade cate-
história pretendida mediante diálogo entre os persona- quética, que discute conceitos abstratos e sim-
gens, que estabelecem com o público uma relação direta, bólicos. Exemplo: O auto da barca do inferno, de
a fim de comprometê-lo emocionalmente com a história Gil Vicente.
contada e os personagens dela. O termo teatro deriva do
grego théatron, que significa “ver”, “contemplar”. §§ Farsa
Esse gênero subdivide-se em tragédia, comédia, Peça teatral de crítica social que apresenta per-
drama, auto e farsa. sonagens e situações caricaturadas sem preocu-
pação com o questionamento de valores.
Exemplo: A farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente.

65
O gênero narrativo §§ Apólogo
Historinha entre objetos inanimados com moral
Oriunda do gênero épico, a narrativa organiza implícita ou explícita. Um apólogo, de Macha-
do de Assis, trata da conversa entre uma agulha
uma história levando em consideração aspectos primor-
e uma linha que discutem sobre a importância
diais de sua estrutura: apresentação, desenvolvimento,
delas. Observe o último parágrafo em que está
clímax e desfecho.
implícita a moral:
Os gêneros narrativos apresentam-se como:
“Parece que a agulha não disse nada; mas um
§§ Conto alfinete, de cabeça grande e não menor experi-
Narrativa curta centrada em um único aconteci- ência, murmurou à pobre agulha:
mento. Apresenta uma ação que se encaminha – Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir ca-
para uma tensão (clímax) entre personagens, minho para ela e ela é que vai gozar da vida,
delimitados num tempo e espaço reduzidos. enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze
Exemplos: Amor, de Clarice Lispector; O menino como eu, que não abro caminho para ninguém.
do boné cinzento, de Murilo Rubião; e A causa Onde me espetam, fico.
secreta, de Machado de Assis. Contei esta história a um professor de melanco-
lia, que me disse, abanando a cabeça:
§§ Novela – Também eu tenho servido de agulha a muita
Narrativa situada entre a brevidade do conto e linha ordinária!”
a longevidade do romance. Exemplos: A hora e
§§ Fábula
a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa;
Difere do apólogo, uma vez que seus persona-
e Os crimes da rua Morgue, de Edgar Allan Poe.
gens são animais. Esse gênero teve ilustres cul-
§§ Crônica tores na literatura ocidental, como Esopo, Fedro
Narrativa breve baseada na vida cotidiana, deli- e La Fontaine, cujas fábulas estão reunidas em
mitada por tempo cronológico curto, em lingua- doze livros.
gem coloquial e leve toque de humor e crítica.
Exemplos: Comédias da vida privada – 101 crô-
nicas escolhidas, de Luís Fernando Veríssimo.

§§ Romance
Narrativa longa que discorre sobre um grande con-
flito central que dá origem a outros secundários,com
preendendo vários personagens em constante
conflito psicológico, envolvidos pela trama que
caminha para um clímax. Exemplos: Grande ser-
tão: veredas, de Guimarães Rosa; São Bernardo,
de Graciliano Ramos; e O senhor dos anéis, de
J.R.R. Tolkien.

§§ Anedota
Relato de um acontecimento curioso ou engra-
çado. Como o provérbio, a anedota, além da
tradição oral, vem inserida em textos literários.
Exemplos: O asno de ouro, do escritor latino
Apuleio, é uma constelação de pequenas aven-
turas picantes.

66
INTERATIVI
A DADE

LER

tt
Livros
O que é literatura – Marisa Lajolo
Definir o que é, o que não é e o que pode ser literatura depende do
ponto de vista, do sentido que a palavra tem para cada um, da situa-
ção na qual se discute o que é literatura.

Literatura para quê? – Antoine Compagnon


Nesta obra, Antoine Compagnon propõe-se a responder à pergunta
que intitula sua aula inaugural no Collège de France – ‘Literatura
para quê?’. O livro pretende ser uma reflexão sobre os poderes da
literatura que colocam em relevo a convicção de que o texto literário
ainda cumpre uma função no mundo do início do século XXI.

Gêneros Literários – Angélica Soares


As manifestações poéticas mais remotas já mostram a tendência
para classificar as obras literárias conforme a realidade que retratam,
pelo uso de mecanismos de estruturação semelhantes.

67
Estrutura Conceitual
Arte Literária

Gênero Épico Gênero Lírico Gênero Narrativo Gênero Dramático

Contam histórias que Gênero centrado na Oriundo do gênero


Conhecido como gênero
auxiliam o homem a expressão do “eu épico, organiza uma
teatral, sua produção é
compreender sua poético” ou “eu lírico” história a partir de
destinada à representação
trajetória características variadas

(Trabalho com (Trabalho com sonetos, (Trabalho com (Trabalho com


as epopeias) elegias, odes...) romance, conto...) textos teatrais)

68 68
0 4
3 0 Trovadorismo: a literatura
da Idade Média

Competência Habilidades
5 15, 16 e 17
Disponível em: <http://www.ricardocosta.com/tags/trovadorismo>

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Contexto
Todo o imaginário feudal de príncipes, princesas, reis e seus reinados são elementos fundamentais para situar
o Trovadorismo na história. Os castelos e sua nobreza, os cavaleiros e seus duelos em guerras e torneios compõem o
cenário da Idade Média, quando se desenvolve essa primeira escola literária após a queda do Império Romano.
Com a tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, capital do Império Romano do Oriente, tem início
a Idade Média. Morto o imperador Carlos Magno, em 814, o poder central ficara enfraquecido e a sociedade passa-
ra a se organizar em torno de grandes propriedades de terra, com o poder centralizado na figura do senhor feudal.
A Literatura portuguesa tem início, de fato, com o Trovadorismo. Antes disso, há documentos de produções
na região e na península Ibérica, mas não de fato portuguesa.

O nascimento da literatura portuguesa


Entre 1139 e 1140, Portugal se separou do reino
de Leão e Castela para se tornar um estado independen-
te. D. Afonso Henriques assumiu o reinado e lutou pela
manutenção da independência de Portugal frente aos
intentos de Castela. Essa separação política não rompeu
os profundos laços econômicos, sociais e culturais com
o resto da península Ibérica. O mais forte desses laços
era a língua: o galego-português. Em 1179, o Papa Ale-
xandre II reconhece a independência do Reino Lusitano.
A origem do Trovadorismo é essencialmente pro-
vençal, do sul da França, e galega, de Castela, em pleno
feudalismo, precisamente dos séculos XII ao XIII.
O primeiro texto literário galego-português foi
a Cantiga da Ribeirinha, também conhecida como
Cantiga da Guarvaia, de Paio Soares de Taveirós. Su-
põe-se ter sido composta em 1198 ou 1189, o mais an-
tigo texto e marca do início do Trovadorismo português.

71
Religião e cultura
Cantiga da Ribeirinha (tradução)
A Igreja Católica cresceu, acumulou vastas extensões
Não há no mundo ninguém que se compare
de terra, enriqueceu e concentrou um significativo poder re- a mim em infelicidade, enquanto a minha vida
ligioso e secular. Essa herança conviveu com mudanças na continuar assim, porque morro por vós e, ai,
ordem social que tiveram expressão também significativa na minha senhora branca e de faces rosadas,
quereis que vos retrate quando vos vi sem manto.
literatura do período.
Mau dia foi esse em que me levantei,
Uma importante manifestação do poder da Igreja me- porque vos vi tão bela! [ou seja: melhor seria
dieval foi seu controle quase absoluto da produção cultural. se vos tivesse visto feia].
Como a circulação dos textos dependia da sua repro- E, minha senhora, desde aquele dia, ai,
tudo para mim foi muito mal,
dução manuscrita, quase sempre feita sob encomenda, a di-
mas vós, filha D. Paio
vulgação da cultura tornava-se ainda mais difícil, uma vez que Moniz, parece-vos muito bem que eu tenha
o número de cópias em circulação era bem pequeno. e vós uma garvaia [manto de luxo] quando
O uso do latim como língua literária, outra herança nunca recebi de vós o simples
valor de uma correia.
do longo período de dominação romana na Europa, também
contribuía para dificultar o acesso aos textos. Poemas e can-
ções eram compostos em latim por monges eruditos que va-
gavam de feudo em feudo para divulgarem suas composições. O poder feudal
A maior parte dessa produção abordava temas religiosos.
A sociedade medieval organizou-se em torno dos
grandes proprietários de terra, os senhores feudais.
Uma pequena corte passou a se reunir com esse
senhor feudal. Dela faziam parte membros da nobreza, ca-
valeiros, camponeses livres e servos. Estavam unidos por
uma relação de dependência pessoal: a vassalagem.
O servilismo dos vassalos a seu suserano e dos fiéis
a Deus deu origem ao princípio básico da literatura medie-
val: a afirmação da total subserviência de um trovador à
sua dama, em se tratando dos temas da poesia, ou de um
cavaleiro à sua donzela, no caso das novelas de cavalaria.

Cantiga da Ribeirinha
No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me vay,
ca já moiro por vos e ay!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraya
quando vus eu vi em saya!
Mao dia me levantei
que vus enton non vi fea!
E, mia senhor, des aquel di’, jay!
me foi a mi muyn mal,
e vos, filha de don Paay
Moniz, e ben vus semelha
d’aver eu por vós guarvaya
pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de vos ouve nem ei
valia dua correa.
(Paio Soares de Taveiros)

72
Circulação e agentes do discurso As cantigas de amor do Trovadorismo desenvolvem
um mesmo tema: o sofrimento provocado pelo amor não cor-
O objetivo da maioria das manifestações artísticas respondido – a “coita de amor”. Como o princípio do amor
medievais era persuadir as pessoas a temer a Deus e sub- cortês é a idealização da dama pelo trovador, os textos não
metê-las à soberania da Igreja. Teatro, pintura, escultura manifestam a expectativa de correspondência amorosa.
e literatura e toda manifestação artística estava a serviço As cantigas satíricas passeiam por muitos temas,
dos ensinamentos religiosos e do comportamento cristão. sempre expressando um olhar crítico sobre a conduta
Nas cortes dos senhores feudais, centros de ati- de nobres, homens e mulheres, nas esferas individual e
vidade artística da Europa medieval, exibiam-se jograis: social. É bastante comum os trovadores ridicularizarem
recitadores, cantores e músicos ambulantes eram contra- um nobre que se envolve com uma serviçal ou que não
tados pelo senhor para divertir a corte. As cantigas apre- percebe a traição da esposa.
sentadas pelos jograis eram quase sempre compostas por
nobres, autodenominados trovadores, uma vez pratican- A vassalagem impressa
tes da arte de trovar. Trovador, do francês trouver, signifi-
na linguagem
ca encontrar, e refere-se ao compositor da cantiga, quem
encontra a música que se encaixa no poema. Outra característica dessa produção literária ma-
Em razão disso, enquanto nos mosteiros e nas nifesta-se na obediência a regras no uso de termos que
abadias circulavam os textos escritos em latim, nos cas- definiam a vassalagem amorosa. Empregava-se uma sé-
telos e nas cortes circulava a literatura oral, produzida rie de termos e expressões para nomear a dama: senhor,
em língua local, voltada para o deleite dos homens e mia senhor, senhor fremosa, em razão da posição que
das mulheres da nobreza com o intuito de legitimar o ela ocupava socialmente.
novo papel social assumido pelos cavaleiros. Além disso, e em razão das castas imóveis e da
sociedade organizada mediante trocas, os cidadãos não
O código do amor cortês ascendiam socialmente e não desenvolviam a intelec-
tualidade. Quase a totalidade da população era anal-
Os termos que definiam as relações feudais fabeta, o que contribuiu muito para que a literatura se
foram transpostos para as cantigas, caracterizando a vinculasse à tradição oral, unindo poesia e música.
linguagem do Trovadorismo: a mulher era a senhora, o
homem era o seu servidor. Eram muito prezadas a gene-
rosidade, a lealdade e, acima de tudo, a cortesia.

73
Tipos de cantiga A linguagem usada é mais refinada, evitam-
-se os refrões e as repetições, e, por serem assim mais so-
fisticadas, chamavam-se cantigas de maestria ou mestria.
As cantigas trovadorescas são divididas em dois
Os termos usados pelo trovador para se referir
grupos: as líricas, que falam de sentimento e são subdi-
à mulher amada são sempre no masculino: mia senhor,
vididas em cantigas de amor e de amigo; e as cantigas fremosa senhor, mia don (dona).
satíricas, intencionalmente críticas e cômicas, também O trovador se queixa da indiferença da mulher
subdivididas em cantigas de escárnio e de maldizer. amada, coita amorosa.
O amor é sempre cortês, mesmo porque a dis-
Cantigas
tância social entre o amante e a amada não permitia
que houvesse atrevimentos de qualquer ordem.

Satíricas Líricas

Cantigas Cantigas Cantigas Cantigas


de maldizer de escárnio de amigo de amor

Líricas
A poesia lírica diz respeito à lira, instrumento
musical da Antiguidade clássica que acompanhava as
canções, expressando sentimentos.

Cantiga d’amor
Cantiga de amor
Quantos an gran coita d’amor
As cantigas de amor são especialmente dedicadas eno mundo, qual hoj’ eu ei,
querrían morrer, eu o sei,
à mulher amada pelo trovador, amor esse que não era o averrian én sabor.
correspondido. Ela pertence a uma classe superior a sua. Mais mentr’ eu vos vir’, mia senhor,
Em função da imobilidade social das castas, esse amor era sempre m’eu querria viver,
proibido e dava origem à “coita”, que significa sofrimento. e atender e atender!
Pero já non posso guarir,
Os trovadores se valem de um eu lírico mas- ca já cegan os olhos meus
culino que é pobre e declara seu amor impossível, por vos, e non me val i Deus
por isso sofrido e submisso à dama. A chamada nen vos; mais por vos non mentir,
“vassalagem amorosa”. enquant’eu vos, mia senhor, vir’,
sempre m’eu querria viver,
Possui poucas repetições de versos e ausência de e atender e atender!
paralelismo por se propor mais elevada e de estrutura E tenho que fazen mal-sen
complexa em linguagem refinada, normalmente de ori- quantos d’amor coitados son
gem provençal. de querer sa morte, se non
ouveron nunca d’amor ben
O eu lírico apresentado é masculino, ou com’eu faç’. E, senhor, por én
seja, o trovador expressa seus sentimentos em relação sempre m’eu querria viver,
à mulher amada que é, invariavelmente, de classe supe- e atender e atender!
rior à do trovador. (Garcia de Guilhade)

74
De origem galega (Ibérica), ela é mais popular e
Cantiga de amor (tradução) por isso mais repetitiva, possui muitos refrões e paralelis-
mo com uma estrutura simples e um amor terreno.
Quantos o amor faz padecer
penas que tenho padecido Esta voz feminina expressa desejo pela ausência
querem morrer e não duvido do amigo (namorado ou amado) e relaciona-se com ele-
que alegremente queiram morrer. mentos da natureza para clamar seu retorno. O ambien-
Porém enquanto vos puder ver,
te campesino corrobora para construir esse sentimento
vivendo assim eu quero estar
e esperar, e esperar! que é sempre compartilhado com a mãe, as amigas e
Sei que a sofrer estou condenado damas de companhia.
e por vós cegam os olhos meus.
Além disso, em função de sua temática, elas são
Não me acudis; nem vós, nem Deus
Mas, se sabendo-me abandonado, também divididas em:
ver-vos, senhora, me for dado. §§ Alvas
vivendo assim eu quero estar Levantou-s’a velida (a bela)
e esperar, e esperar! Levantou-s’à alva;
Esses que veem tristemente e vai lavar camisas
desamparada sua paixão e no alto (no rio)
querendo morrer, loucos estão. vai-las lavar à alva (de madrugada)
Minha fortuna não é diferente; (D. Dinis)
porém eu digo constantemente:
§§ Bailias
vivendo assim eu quero estar
e esperar e esperar! E no sagrado em vigo
bailava corpo velido (uma linda moça) amor ei!
(Martim Codax)

Cantiga de amigo §§ Romarias


Pois nossas madres van a San Simon de Val
As cantigas de amigo falam de uma relação amo-
de Prados candeas queimar (pagar promessas)
rosa concreta que aconteceu entre pessoas simples, que nós, as menininhas, punhemos d’andar (vamos
vivem no campo e partem de um eu lírico feminino. O tema [passear)
central dessas cantigas é o desejo, o que leva a crer que a §§ Barcarolas ou Marinhas
relação amorosa já aconteceu, diferentemente das de amor, Vi eu, mia madr’, andar
que são impossibilitadas pelas castas sociais diferentes. as barcas e no mar,
e moiro de amor!
(Nuno Fernandes Tomeol)

§§ Pastorelas
Oi (ouvi) oj’eu ua pastor andar.
du (onde) cavalgava per ua ribeira,
e o pastor estava i senlheira. (sozinha)
a ascondi-me póla escuitar...
(Airas Nunes de Santiago)

75
1. O eu lírico das cantigas de amigo é sempre
Cantiga de amigo feminino, canta a saudade do amado distante.
2. Há uso de repetições de palavras, de ver-
– Ai flores, ai flores do verde piño,
sos inteiros.
se sabedes novas do meu amigo?
Ai, Deus, e u é? 3. O homem amado é de classe superior à da
Ai flores, ai flores do verde ramo, mulher que canta.
se sabedes novas do meu amado? 4. O amigo/amado, a que se referem as cantigas,
Ai, Deus, e u é? deve ser entendido como amante/namorado.
Se sabedes novas do meu amigo,
5. A mulher queixa-se [à natureza] de ter perdido o
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai, Deus, e u é? amado ou se distanciado dele.
Se sabedes novas do meu amado, 6. Geralmente tais cantigas são dialogadas.
aquel que mentiu do que mi á jurado? 7. A cantiga de amigo se vale de descrição.
Ai, Deus, e u é?
– Vós me perguntades pelo voss’ amigo?
E eu ben vos digo que é san’e vivo Satíricas
Ai, Deus, e u é?
Vós me perguntades pelo voss’ amado? As cantigas satíricas fazem críticas ao compor-
E eu ben vos digo que é viv’ e sano: tamento das pessoas em suas ações sociais, usavam
Ai, Deus, e u é?
o humor e o vocabulário chulo para denunciar alguns
E eu ben vos digo que é san’e vivo,
e será vosc’ant’o prazo saído. nobres e damas.
Ai, Deus, e u é? Além disso, a sátira se estendia a instituições
E eu ben vos digo que é viv’e sano, sociais, censurava os males da sociedade ou dos indiví-
e será vosc’ant’o prazo passado. duos, quase tudo com tom sarcástico, irônico e obsceno.
Ai, Deus, e u é?
Elas podem ser de escárnio ou de maldizer.
(Dom Dinis)

Cantigas de escárnio
Cantiga de amigo (tradução)
– Ai, flores do verde pinheiro, A principal característica da cantiga de escárnio
sabeis notícias do meu namorado? é o fato de ela ser indireta, especialmente por ser de-
Ai, Deus, onde está? clamada no ambiente palaciano. O efeito satírico que
Ai flores, ai flores, do verde ramo, caracteriza essas cantigas é obtido por meio de ironias,
Sabeis notícias do meu amado?
trocadilhos e jogos semânticos. De modo geral, ridicu-
Ai, Deus, onde está?
Sabeis notícias do meu namorado,
larizam o comportamento de nobres ou denunciam as
Aquele que mentiu sobre o que combinou comigo? mulheres que não seguem o código do amor cortês.
Ai, Deus, onde está? A sátira indireta sublima o nome da pessoa cri-
Sabeis notícias do meu amado, ticada e sempre explora os duplos sentidos e os tro-
Aquele que mentiu sobre o que jurou? cadilhos. Seus significados normalmente são implícitos,
Ai, Deus, onde está?
velados e comedidos.
Vós perguntais pelo vosso namorado?
E eu bem vos digo que está são e vivo:
Ai, Deus, onde está? §§ Escárnio (sirventes – moral)
Vós perguntais pelo vosso amado? (Airas Nunes, clérigo compostelano)

E eu bem vos digo que está vivo e são.


Ai, Deus, onde está? Por que no mundo mengou a verdade,
E eu bem vos digo que está são e vivo punhei un dia de a ir buscar;
e estará convosco antes do prazo combinado: e, u por ela fui preguntar
Ai, Deus, onde está? disseron todos: “alhur lá buscade,
E eu bem vos digo que está vivo e são
ca de tal guisa se foi a perder
e estará convosco antes de terminar o prazo:
que non podemos en novas haver
Ai, Deus, onde está?
nen já non anda na irmandade.”

76
Nos mosteiros dos frades regrados
a demandei e disseron-m’assi: Três cancioneiros
“non busquedes vós a verdad’ aqui,
ca muitos anos havemos passados Três cancioneiros concentram boa parte da pro-
que non morou nosco, per boa fé, dução conhecida dos séculos XII, XIII e XIV: Cancioneiro
nen sabemos ond’ela agora esté da Ajuda, Cancioneiro da Biblioteca Nacional e Cancio-
e d’al havemos maiores cuidados.” neiro da Vaticana.
E en Cistel, u verdade soía Os cancioneiros são manuscritos, coletâneas de
sempre morar, disseron-me que non cantigas com características variadas e escritas por di-
morava i, havia gran sazon, versos autores. Os mais importantes são:
nen frade d’i já a non conhocia,
nen o abade outro si estar Cancioneiro da Ajuda
sol non queria que fôss’i pousar,
e anda já fora da abadia. Coleção de poesias em galego-português do fi-
nal do século XIII, influenciadas pela lírica provençal.
En Santiago seend’albergado,
en mia pousada chegaron romeus Recebe o nome de “da Ajuda” por se conservar na bi-
preguntei-os e disseron: “par Deus, blioteca do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa.
muito levade-lo caminh’ errado, É o mais antigo de todos e é também o menos
ca, se verdade quiserdes achar, completo, compreende apenas cantigas anteriores ao
outro caminho conven a buscar, reinado do “rei trovador”, D. Dinis.
ca non saben aqui d’ela mandado.
Ondas do mar de Vigo,
Se vistes meu amigo?
Cantigas de maldizer E, ai Deus, ele virá cedo?
Nas cantigas de maldizer, o trovador utiliza um Ondas do mar levado,
vocabulário agressivo para fazer uma crítica direta e cla- se vistes meu amado?
ra, identificando o nome das pessoas satirizadas. Essa lin-
E ai, Deus ele virá cedo?
Se vistes meu amigo,
guagem de baixo calão, palavrões e até vocabulário eró-
aquele por quem suspiro?
tico aconteciam, pois eram proferidas nas ruas, em praças
E, ai Deus, ele virá cedo?
públicas e feiras livres. Os significados eram explícitos e
Se vistes meu amado,
não poupavam nenhuma instituição social: atacavam o
por quem tenho muito cuidado?
clero, as freiras, os fidalgos e toda a sorte de pessoas que,
E, ai Deus, ele virá cedo?
dentro de suas classes, indiquem decadência moral.

§§ Maldizer Cancioneiro da Biblioteca Nacional


(Afonso Eanes do Coton)
Antes chamado de Cancioneiro Colocci-Brancuti
Marinha, o teu folgar – foi compilado na Itália por volta de 1525-1526. Ad-
tenho eu por desacertado, quirido pelo Estado português e depositado na Bibliote-
e ando maravilhado ca Nacional de Lisboa, em 1924.
de te não ver rebentar; Essa coletânea de cantigas trovadorescas é tam-
pois tapo com esta minha bém conhecida como Collocci-Brancuti.
boca, a tua boca, Marinha;
e com este nariz meu, Em gram coita, senhor,
tapo eu, Marinha, o teu; que peior que mort’é,
com as mãos tapo as orelhas, vivo, per boa fé,
os olhos e as sobrancelhas, e polo voss’amor
tapo-te ao primeiro sono; esta coita sofr’eu
com a minha piça o teu cono; por vós, senhor, que eu
e como o não faz nenhum, vi polo meu gran mal;
com os colhões te tapo o cu. e melhor mi será
E não rebentas, Marinha?
77
de morrer por vós já; cido como “o rei trovador”. Seus poemas encontram-se
e, pois meu Deus non val, coletados no Cancioneiro da Vaticana e no da Biblioteca
esta coita sofr’eu Nacional. D. Dinis é autor de uma das mais conhecidas
por vós, senhor, que eu
cantigas medievais portuguesas: Ai flores, ai flores
polo meu gran mal vi,
do verde pinho.
e mais mi val morrer
ca tal coita sofrer Existem repetições, expedientes típicos das can-
pois por meu mal assi tigas de amigo: a moça enamorada dirige-se à natureza
esta coita sofr’eu (pinheiros) e essa lhe responde às perguntas sobre o
por vós, senhor, que eu namorado.
vi por gran mal de mi Esta é a mais famosa cantiga de d. Dinis, tendo
pois tan coitad’and’eu. gerado, inclusive, a epígrafe de Fernando Pessoa.

Cancioneiro da Vaticana
As novelas de cavalaria
Compilado na Itália no século XV – encontra-se
na Biblioteca do Vaticano.
Chama-se da Vaticana porque foi encontrado na
Biblioteca do Vaticano, em Roma, onde foi preservado.

Levad’, amigo, que dormides as manhãas frias;


todalas aves do mundo d’amor dizian:
leda m’ and’ eu.
Levad’, amigo, que dormide’-las frias manhãas;
todalas aves do mundo d’amor cantavan:
leda m’ and’ eu.
Toda-las aves do mundo d’ amor diziam;
do meu amor e do voss’ en ment’ avian:
leda m’ and’ eu. As novelas de cavalaria são os primeiros ro-
Toda-las aves do mundo d’ amor cantavan; mances, ou seja, longas narrativas em verso, surgidas
do meu amor e do voss’ i enmentavan: no século XII. Elas contam as aventuras vividas pelos
leda m’ and’ eu. cavaleiros andantes e tiveram origem com o declínio do
prestígio da poesia dos trovadores.
Do meu amor e do voss’ en ment’avian;
vós lhi tolhestes os ramos en que siian: Estão organizadas em três ciclos, de acordo
leda m’ and’ eu. com o tema que desenvolvem e com o tipo de herói
que apresentam:
Do meu amor e do voss’ i enmentavam;
vos lhi tolhestes os ramos en que pousavam §§ Ciclo clássico: novelas que narram a guerra de
leda m’ and’ eu.
Troia e as aventuras de Alexandre, o Grande. O
Vós lhi tolhestes os ramos en que siian ciclo recebe essa denominação porque seus he-
e lhis secastes as fontes en que bevian: róis vêm do mundo clássico mediterrâneo.
leda m’ and’ eu.
§§ Ciclo arturiano ou bretão: histórias envolven-
Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavam
do o rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda.
e lhis secastes as fontes u se banhavan:
leda m’ and’ eu. Nessas novelas, podem ser identificados vários
núcleos temáticos: a história de Percival, a história
No final do século XIII, Portugal conheceu os de Tristão e Isolda, as aventuras dos cavaleiros da
“cantares” de D. Dinis (1261-1325), comumente conhe- corte do rei Arthur e a demanda do Santo Graal.

78
§§ Ciclo carolíngio ou francês: histórias sobre o – Senhor, disse o ermitão, cedo o vereis em bom
rei Carlos Magno e os 12 pares de frança. começo.
Dos três ciclos, o arturiano permanece como um Então fê-lo vestir os panos que trazia e foi assen-
dos temas literários mais explorados, sendo objeto de tá-lo no assento perigoso. E disse:
romances, poemas, filmes e óperas até hoje. – Filho, agora vejo o que muito desejei, quando
No trecho a seguir, extraído de A demanda do vejo o assento perigoso ocupado.
Santo Graal, Galaaz chega à Távola Redonda. [...]
O cavaleiro de quem Merlim e todos os profe-
Como Galaaz entrou no paço e acabou o tas falaram. O rei, assim que viu no assento perigoso o
assento perigoso. cavaleiro de quem Merlim e todos os profetas falaram
(A demanda do Santo Graal, manuscrito do século XIII)
na Grã-Bretanha, então bem soube que aquele era o
Eles [...] olharam e viram que todas as portas do cavaleiro por quem seriam acabadas as aventuras do
reino de Logres, e ficou com ele tão alegre e tão feliz
paço se fecharam e todas as janelas, mas não escureceu
que bendisse a Deus:
por isso o paço, porque entrou um tal raio de sol, que por
Deus, bendito sejas tu que te aprouve de tanto
toda a casa se estendeu. E aconteceu então uma grande
viver eu que, em minha casa, visse aquele de quem to-
maravilha, não houve quem no paço não perdesse a fala;
dos os profetas desta terra e das outras profetizaram,
e olhavam-se uns aos outros e nada podiam dizer, e não
tão longo tempo há já.
houve alguém tão ousado, que disso não ficasse espan-
[...]
tado; mas não houve quem saísse do assento, enquanto
isto durou. Aconteceu que entrou Galaaz arma-
do de loriga e brafoneiras e de elmo e de suas divisas de
veludo vermelho; e, após ele, chegou o ermitão, que lhe
rogara que o deixasse andar com ele, e trazia um manto
e uma gamacha de veludo vermelho em seu braço.
Mas tanto vos digo que não houve no paço
quem pudesse entender por onde Galaaz entrara, que
em sua vinda não abriram porta nem janela. Mas do
ermitão não vos digo, porque o viram entrar pela porta
grande. E Galaaz, assim que chegou ao meio do paço,
disse de modo que todos ouviram:
– A paz esteja convosco.
E o homem bom pôs as vestes que trazia sobre
um tapete, e foi ao rei Arthur e disse-lhe:
– Rei Arthur, eu trago o cavaleiro desejado,
aquele que vem da alta linhagem do rei Davi e de José
de Arimateia, pelo qual as maravilhas desta terra e das
outras terão fim.
E com isto que o homem bom disse, ficou o rei
muito alegre. E disse:
– Se isto é verdade, sede bem-vindo. E bem vin-
do seja o cavaleiro, porque este é o que há de dar cabo
às aventuras do santo Graal. Nunca foi feita nesta corte
tanta honra como lhe nós faremos; e quem quer que ele
seja, eu queria que lhe fosse muito bem, pois de tão alta
linhagem vem como dizeis.

79
INTERATIVI
A DADE

ASSISTIR

Filme O sétimo selo - Direção: Ingmar Bergman - 1959

Após dez anos, um cavaleiro (Max Von Sydow) retorna das Cruzadas e encontra o
país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é sensivelmente abalada e
enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte (Bengt Ekerot) surge a sua
frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora.

Filme O nome da rosa - Direção: Jean-Jacques Annaud - 1986

Em 1327, William de Baskerville (Sean Connery), um monge franciscano, e Adso


von Melk (Christian Slater), um noviço, chegam a um remoto mosteiro no norte da
Itália. William de Baskerville pretende participar de um conclave para decidir se a
Igreja deve doar parte de suas riquezas, mas a atenção é desviada por vários assas-
sinatos que acontecem no mosteiro.

Filme Cruzada - Direção: Ridley Scott - 2005

Balian (Orlando Bloom) é um jovem ferreiro francês, que guarda luto pela morte de
sua esposa e filho. Ele recebe a visita de Godfrey de Ibelin (Liam Neeson), seu pai,
que é também um conceituado barão do rei de Jerusalém e dedica sua vida a
manter a paz na Terra Santa.

80
ACESSAR

Sites
cantigas.fcsh.unl.pt

LER

tt
Livros
A lírica trovadoresca. Segismundo Spina

Seria preciso, segundo Segismundo Spina, retomar o mesmo


entusiasmo com que o Romantismo abraçou o mundo
encantado da poesia das catedrais e dos duelos sarracenos
da Idade Média, cujos trovadores formam, no século XII, o
primeiro capítulo da história literária da Europa moderna.

81
INTERDISCIPLINARIDADE
APLICAÇÃO NO COTIDIANO
Artes plásticas
Obras medievais

O sepultamento de Cristo (iluminura medieval) “Madonna e o Menino” de Duccio, pintor italiano do período gótico
(c.1255-1319)

82
Estrutura Conceitual
Idade Média Idade Moderna

Trovadorismo Humanismo Classicismo Barroco

Crescimento da
cultura cristã

Regime Feudal

Arte literária ainda


vinculada à música

83
0 6
5 0 Humanismo e Classicismo

Competência Habilidades
5 15, 16 e 17
© Peter Paul Rubens/Wikimedia Commons

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Humanismo

DORÉ, Gustave. Demônios confrontando Dante e Virgílio. Ilustração para o livro A divina Comédia (Inferno), de Dante Alighieri,
publicado em 1885 – Biblioteca de Artes Decorativas (Paris, França). A ilustração reflete a confiança dos humanistas.
Dante e Virgílio enfrentam os demônios por meio da razão, que os ajuda a afastar as “trevas” do pensamento vinculado à Idade Média.

[...] os humanistas consideravam a Antiguida-


de afastada deles no tempo (tudo o que fosse ve-
lho tinha para eles um interesse especial), mas es-
piritualmente próxima, ao passo que a Idade Média
estava mais próxima no tempo, mas extremamente
distante em muitos aspectos [...].
DRESDEN, Sem. O Humanismo no renascimento.
Tradução de Daniel Gonçalves. Porto: Inova. p. 55.

Cronologia do Humanismo
Início: nomeação de Fernão Lopes, em 1418, como o cronista-mor da Torre do Tombo.
Fim: em 1527, com a chegada do poeta Sá de Miranda, da Itália, com a Medida Nova (verso decassílabo).

Contexto
O Humanismo foi um movimento artístico e in-
telectual que se estabeleceu como uma transição entre
o teocentrismo da Idade Média e o pensamento an-
tropocêntrico do Renascimento, que surgiu na Itália no
final da Idade Média (século XIV). A organização social
passou por uma reformulação, e nas áreas mais longín-
quas aos feudos medievais passaram a surgir pequenas
cidades que funcionavam de forma independente do
poder absoluto dos monarcas, eram os burgos e seus
habitantes, os burgueses.
A lógica dos humanistas era colocar em primei-
ro plano o próprio ser humano, o que os afastava do Monteriggioni - Burgo (Itália)

87
teocentrismo medieval. Muitos camponeses, atraídos Projeto literário
pelas promessas de prosperidade, transferiram-se para
os burgos, estas cidades ou vila medievais normalmente O abandono da subordinação ao Clero e o res-
muradas e associadas a um mosteiro ou castelo, onde gate dos valores clássicos fazem com que ganhe força
começaram a trabalhar como pequenos mercadores. um olhar mais racional sobre o mundo, buscando na
Em função da substituição da sociedade do es- Ciência uma explicação para os fenômenos até então
cambo e das trocas pelo surgimento do comércio e, pri- atribuídos a Deus.
mordialmente, da moeda, o homem se viu rompendo O contexto de produção é o mesmo do Trovado-
com a lógica feudal das castas imóveis. Diante da possi- rismo, mas em função do desenvolvimento intelectual
bilidade de ascensão social passaram a investir mais em vindo da ampliação cultural promovida pela burguesia,
si, num individualismo que colocava o próprio homem os textos passam a ser escritos para ser lidos e não mais
e sua busca por poder e acúmulo em primeiro plano, cantados, como seguia a tradição oral das cantigas. A
partir do início da produção de livros na Europa, sobre-
surgindo, assim, a burguesia.
tudo com a invenção da gráfica, por Johann Gutenberg,
por volta de 1450, a Literatura ganha com obras que
permitem ao escritor se valer de novos recursos técnicos
de escrita e linguagem, sem ficarem presos à oralidade
e à memória, como faziam até então. Para se ter uma
ideia, surge na Alemanha em 1455, o primeiro livro im-
presso por Gutemberg, a Bíblia.

Portugal e sua produção


Lucca – Burgo (Itália) Os reis e nobres da Dinastia de Avis (1385-1580)
tornaram Portugal mais poderoso e rico com o início da
Essas transformações que começaram a ocorrer expansão marítima em Portugal, que surge ao mesmo
na Europa do fim da Idade Média fizeram com que a tempo em que se funda a Torre do Tombo, em 1418,
vida nas cidades fosse retomada e o comércio inten- que foi um importante centro de registro e documen-
sificado, provocando maior interação entre pessoas de tação da época. Destaca-se a figura de Fernão Lopes,
diferentes segmentos da sociedade. A riqueza passou nomeado o cronista-mor da Torre do Tombo, em 1434,
a ser associada ao capital obtido pelo comércio e não sendo responsável por escrever e catalogar as Crôni-
mais à terra, como ocorria na sociedade feudal. cas historiográficas. Surge uma poesia desvinculada da
música, chamada de Poesia Palaciana, com Garcia de
Com o enriquecimento da burguesia, em função
Resende e sua compilação de poetas no “Cancioneiro
do comércio, surge a necessidade de um investimento
Geral”, de 1516.
na própria formação cultural, para que se pudesse admi-
Destaca-se, também, a figura de Gil Vicente na
nistrar a riqueza acumulada. A arte ganha com isso, pois
produção teatral, sendo um importante representante
com a formação intelectual, fruto da lógica comercial, da cultura e sociedade da época.
o burguês passa a investir em cultura, aprende a ler e
a contar, algo que, até então, só era feito pela Igreja e
pelos grandes soberanos. Aos poucos, os leigos come-
Fernão Lopes (Crônica historiográfica)
çam a conquistar um papel importante na produção e, Fernão Lopes é importante pois é a partir do re-
principalmente, na circulação de cultura.
gistro de suas crônicas historiográficas que se marca o
A busca por uma formação levou à redescoberta início do Humanismo em Portugal. Dezesseis anos após
de textos e autores da Antiguidade Clássica, considera- ter sido nomeado o guarda-mor da Torre do Tombo, em
da uma fonte de saber a respeito do ser humano, resga- 1434, ele é nomeado cronista-mor do reino. Ele foi o
tando, assim, a visão antropocêntrica, característica da primeiro grande prosador da Literatura Portuguesa e
cultura greco-latina. contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da

88
Língua Portuguesa moderna ao criar uma visão de mun- nítida no que diz respeito à constituição de uma Língua
do independente das imposições do clero. Portuguesa sem tantas influências provençais e galegas,
fato esse que contribuiu para o aperfeiçoamento da lin-
guagem com técnicas como as aliterações, o jogo de
palavras, a conotação e a ambiguidade. Além disso, ex-
plorou-se o metro fixo das Redondilhas (Medida Velha).

Lopes escreveu três crônicas:


§§ Crônica de El-Rei D. Pedro I: compilação e
crítica dos principais acontecimentos do reino de
D. Pedro I. Nesse volume, encontra-se o relato
do episódio da morte de Inês de Castro, amante
do rei, assassinada a mando de D. Afonso IV, pai
de D. Pedro. Inês de Castro, sob o olhar de Garcia de Resende.

§§ Crônica de El-Rei D. Fernando: reconstitui-


Por conta do desenvolvimento do contexto de circu-
ção do período que se inicia com o casamento
lação literária, ou seja, com mais pessoas sabendo ler, mais
de D. Fernando com Dona Leonor Teles e encer-
se consumia literatura, portanto surgiram alguns escritores
ra-se com a Revolução de Avis.
como Bernadim Ribeiro, Duarte de Brito, Nuno Pereira, po-
§§ Crônica de El-Rei D. João: dividida em duas
rém o mais importante foi Garcia de Resende, pois ficou
partes; a primeira começa com a morte de D.
responsável, além de escrever, por compilar boa parte da
Fernando, em 1383, e termina com a revolução
poesia humanista portuguesa. Esses poemas foram organi-
que leva D. João ao trono português; na segunda
zados em um único volume, o Cancioneiro Geral, em 1516.
parte é descrito o reinado de D. João até 1411.
Fernão Lopes distinguia-se dos demais cronistas
pela importância que dava ao povo. Essa opção Medida Velha
do cronista exemplifica o seu espírito humanista.
§§ Redondilhas maiores: versos com metrifi-
cação de 7 sílabas poéticas.
Garcia de Resende (Poesia palaciana) §§ Redondilhas menores: versos com metrifi-
cação de 5 sílabas poéticas.
A grande novidade da poesia palaciana é que ela
se desvinculou da tradição oral das cantigas trovadores-
cas e foi escrita para ser lida e declamada. Ela consistia A poesia reunida por Garcia de Resende no
em composições coletivas, produzidas para serem apre- Cancioneiro Geral traz algumas diferenças importantes
sentadas nos salões da nobreza, onde aconteciam os em relação à lírica dos trovadores galego-portugueses
Serões. Do ponto de vista temático, esses poemas ainda quanto ao uso de formas poéticas regulares, como:
idealizavam o amor e suas desilusões, mas sem o exage- §§ a trova: composta de duas ou mais quadras de
ro trovadoresco. Do ponto de vista formal, a mudança é versos de sete sílabas e rimas ABAB;

89
§§ o vilancete: composto de um mote (motivo de
dois ou três versos) seguido de voltas ou glosas
(estrofes em que o mote é desenvolvido) de sete
versos;
§§ a cantiga: composta de um mote de quatro ou
cinco versos e de uma glosa de oito ou dez ver-
sos, com repetição total ou parcial do mote no
fim da glosa;
§§ a esparsa: composta de uma única estrofe de
oito, nove ou dez versos de seis sílabas métricas.
Exemplo de poema compilado no Cancioneiro
Geral:

Entre mim mesmo e mim


não sei que se ergueu
que tão meu inimigo sou.

Uns tempos com grande engano Acredita-se que ele tenha nascido por volta de
vivi eu mesmo comigo, 1495. Pouco se conhece de sua vida particular e acre-
agora no maior perigo
dita-se que tenha se mantido distante de exageros e
se me descobre maior dano.
modismos, mas sabe-se que ele legou à sociedade uma
Caro custa um desengano,
vasta obra teatral, com forte caráter moralizante, em
embora este não me tenha matado
quão caro que me custou! que a religião aparece como padrão e referência de
comportamento, a partir da qual se julgam as virtudes e
De mim me sou feito outro, os erros dos humanos.
entre o cuidado e cuidado Viveu a transição dos valores medievais para os re-
está um mal derramado, nascentistas, trazendo, de um lado, a crença teocêntrica na
que por mal grande me veio. providência divina e, de outro, a crítica de costumes, como
Nova dor, novo receio a audácia humanista fundindo o antigo ao moderno.
foi este que me tomou,
assim me tem, assim estou.
(Bernardim Ribeiro)
Ridendo castigat mores
A arte teatral vicentina tem caráter moralizan-
O teatro de Gil Vicente te, pois enfoca os desvios comportamentais inseridos
num contexto em que a religião católica era o padrão
O grande nome do teatro no Humanismo é Gil de comportamento. No entanto, sua crítica sempre se
Vicente, considerado o pai do teatro em Portugal. Escrita voltava para os sujeitos e não para as instituições, prin-
em 1502, sua primeira peça foi Auto da Visitação, em cipalmente as religiosas.
homenagem à rainha D. Maria pelo nascimento de seu A evidente intenção na maioria de suas obras
filho, o futuro rei D. João III. Em seus 71 anos de vida, Gil é criar o riso crítico, usando a máxima latina ridendo
Vicente se manteve em cena durante 34 anos e testemu- castigat mores, ou seja, rindo castiga-se a moral
nhou muitas modificações ocorridas em Portugal, viu, por sem fazer distinção de classe, seja rico, pobre, plebeu
exemplo, seu país sair de uma sociedade agrária e tornar- ou nobre, todos eram sua matéria-prima e recebiam a
-se uma potência naval, comercial e militar. mesma força de suas críticas.

90
O teatro vicentino coloca no centro da cena erros O velho da horta (1512)
de ricos e pobres, nobres e plebeus. O autor denuncia os
exploradores do povo, como o fidalgo, o sapateiro e o A farsa gira em torno dos amores de um velho e uma
agiota no Auto da barca do inferno; e ridiculariza os mocinha que vai até sua horta “buscar cheiros para a panela”.
velhos que se interessam por mulheres mais jovens na O velho a corteja e apaixona-se por ela. Uma
farsa O velho da horta. alcoviteira, aproveitando-se da situação, põe-se a tirar a
Um recurso muito explorado por Gil Vicente é o uso fortuna do Velho e o deixa na miséria.
de alegorias, ou seja, de representações por meio de perso- Leia um trecho:
nagens ou objetos, de ideias abstratas, geralmente relacio-
[...]
nadas aos vícios e às virtudes humanas. Assim, no Auto da
Entra a moça na horta e diz o velho: Senhora, benza-vos
barca do inferno, o agiota traz consigo uma bolsa cheia de
Deus!
moedas que representa, alegoricamente, a sua ganância.
MOÇA: Deus vos mantenha, senhor.
Outro recurso são os tipos sociais, nos quais são
VELHO: Onde se criou tal flor? Eu diria que nos céus.
elencadas figuras que formam um quadro da socieda-
MOÇA: Mas no chão.
de portuguesa da época, como papas, fidalgos, juízes,
VELHO: Pois damas se acharão que não são vosso sapato!
onzeneiros, alcoviteiras, prostitutas, espertalhões, tolos,
MOÇA: Ai! Como isso é tão vão, e como as lisonjas são-
mulheres ambiciosas, clérigos, frades etc.
de barato!
Afastou-se totalmente dos gêneros de grande pres-
VELHO: Que buscais vós cá, donzella, senhora, meu coração?
tígio no teatro da Antiguidade Clássica, ou seja, a tragédia e
MOÇA: Vinha ao vosso hortelão, por cheiros para a panella.
a comédia são caracterizadas por três unidades: ação, tempo
VELHO: E a isso vinde vós, meu paraíso. Minha senhora,
e lugar. Gil Vicente, ao contrário, caracteriza sua obra pela
amplitude temática, maior duração da ação cênica, maior e não a aí?
número de atores em cena e despreocupação com grande MOÇA: Vistes vós! Segundo isso, nenhum velho não
cenário para que possa justapor espaços com mais facilida- tem siso natural.
de. Além disso, misturava no registro de fala tanto o erudito VELHO: Ó meus olhinhos garridos, minha rosa, meu arminho!
como o popular, o dito “elevado” com o “baixo”. MOÇA: Onde he vosso ratinho? Não tem os cheiros colhidos?
As obras de Gil Vicente costumam ser divididas VELHO: Tão depressa vinde vós, minha condensa, meu
em três tipos: amor, meu coração!
MOÇA: Jesus! Jesus! Que cousa he essa? E que prá-
§§ Autos pastoris (éclogas): gênero a que per-
tica tão avessa da razão! Falai, falai doutra maneira!
tencem algumas das primeiras obras do autor.
Mandai-me dar a hortaliça.
Algumas dessas peças têm caráter religioso,
VELHO: Grão fogo de amor me atiça, ó minha alma ver-
como o auto pastoril português;
dadeira!
§§ Autos de moralidade: gênero em que Gil Vi- MOÇA: E essa tosse? Amores de sobreposse serão os da
cente se celebrizou. Suas peças mais conhecidas vossa idade; o tempo vos tirou a posse.
são os da trilogia das barcas (Auto da barca do VELHO: Mais amo que se moço fosse com a metade.
inferno, Auto da barca do purgatório e Auto da MOÇA: E qual será a desastrada que atende vosso amor?
barca da glória) e o Auto da alma. VELHO: Ó minha alma e minha dor, quem vos tivesse fur-
§§ Farsas: peças de caráter crítico, utilizam como tada!
personagens tipos populares e desenvolvem-se em MOÇA: Que prazer! Quem vos isso ouvir dizer cuidará
torno de problemas da sociedade. As mais popu- que estais vós vivo, ou que estais para viver!
lares são a Farsa de Inês Pereira, história de uma VELHO: Vivo não no quero ser, mas cativo!
jovem que vê no casamento a sua chance de as- [...]
censão social, e O velho da horta, que ridiculariza a
paixão de um velho casado por uma jovem virgem.

91
A farsa de Inês Pereira (1523) a jovem aceita a corte de um falso ermitão. A farsa ter-
mina com o marido (cantado por ela como cuco, gamo
A farsa de Inês Pereira é considerada a mais com- e cervo, tradicionalmente concebidos como símbolos
plexa peça de Gil Vicente. Ao apresentá-la, o teatrólogo do homem traído) levando-a às costas (asno que me
português diz: carregue) até a gruta em que vive o ermitão, para um
encontro nada ingênuo.
A seguinte farsa de folgar foi re- Leia um trecho:
presentada ao muito alto e mui poderoso INÊS PEREIRA: Quien con veros pena y muere
rei D. João, o terceiro do nome em Por-
qué hará cuando no os viere? 1
tugal, no seu Convento de Tomar, na era
FALADO: Renego deste lavrar e do primeiro que
do Senhor 1523. O seu argumento é que,
porquanto duvidavam certos homens de
o usou 2 ao diabo que o eu dou que tam mau é d’aturar.
bom saber, se o Autor fazia de si mesmo Oh, Jesus! Que enfadamento, e que raiva, e que
estas obras, ou se as furtava de outros tormento, que cegueira, e que canseira! 3 Eu hei-de bus-
autores, lhe deram este tema sobre que car maneira d’algum outro aviamento 4.
fizesse: é um exemplo comum que dizem: Coitada, assi hei-de estar encerrada nesta casa
Mais vale asno que me leve como panela sem asa que sempre está num lugar?
que cavalo que me derrube. E assi hão-de ser logrados 5 dou dias amargura-
E sobre este motivo se fez esta farsa. dos, que eu possa estar cativa 6 em poder de desfiados?
7
A obra pode ser dividida em cinco partes: a pri-
Antes o darei ao Diabo que lavrar mais nem pon-
meira é um retrato da rotina na qual se insere a pro-
tada; já tenho a vida cansada de jazer sempre dum
8
tagonista; a segunda reflete a situação da mulher na
cabo. 9
sociedade da época, cujos registros são dados pela mãe
Todas folgam e eu não, todas vêm e todas vão
de Inês, pela própria Inês e por Lianor Vaz; a terceira
onde querem, senão eu. Hui! E que pecado é o meu, Oh
mostra o comércio casamenteiro, representado pelos ju-
que dor de coração!
deus comerciantes e pelo arranjo matrimonial-mercantil
Esta vida é mais que morta. Sou eu coruja ou
de Inês com Brás da Mata; a quarta considera o ca-
corujo, ou sou algum caramujo,10 que não sai senão à
samento, o despertar para a realidade, contrapondo-a
porta? E quando me dão algum dia licença, como a bu-
ao sonho que embalava as fantasias da protagonista
gia,11 que possa estar à janela é já mais que a Madane-
e; finalmente, a quinta parte reflete a realidade brutal
da qual Inês, experiente e vivida, procura tirar proveito la 12 quando achou a aleluia.
1. Quem, vendo-vos, sofre e morre que fará se vos não vir?
próprio. A peça apresenta uma situação concreta, com 2. Amaldiçoado seja o trabalho doméstico e quem o inventou.
uma personagem bem delineada psicologicamente e 3. Que trabalho cansativo e sem propósito.
4. Aviamento: solução.
um fio condutor melhor configurado que as produções 5. Lograr: desfrutar, aproveitar.
anteriores de Gil Vicente. 6. Ao afirmar que desfruta (aproveita) os dias presa em casa,
sempre bordando e costurando, Inês ironiza a vida enfadonha a
O enredo é simples: uma jovem sonhadora pro- que está submetida.
7. Desfiados: tecidos para bordar e costurar.
cura, por meio do casamento com um homem que sai-
8. Que vá tudo ao Diabo, não darei nem mais um ponto no
ba tanger viola, fugir à rotina doméstica. Despreza a bordado.
9. Estou cansada de estar sempre cativa, condenada às mesmas
proposta de Pero Marques, filho de um camponês rico, e repetitivas tarefas, como as panelas que estão sempre depen-
homem tolo e ingênuo, e aceita se casar com Brás da duradas em uma mesma posição.
10. Ao comparar-se à coruja e ao caramujo, Inês ressalta,
Mata, escudeiro pelintra e pobretão. No entanto, os so- respectivamente, os seguintes lamentos: não participa da vida
nhos da heroína são logo desfeitos, porque o marido social e é prisioneira da própria casa.
11. Bugia: macaca.
revela sua verdadeira personalidade, maltratando-a e 12. Madanela: Madalena, personagem bíblica.
explorando-a. Brás da Mata vai para a África e lá vem
a falecer. Inês, ensinada pela dura experiência, toma
consciência da realidade e aceita se casar com Pero
Marques, seu primeiro pretendente. Depressa também

92
Auto da barca do inferno (1514) que enganara seiscentos homens, dizendo que tais me-
ninas eram virgens. Brísida Vaz tenta convencer o anjo
O Auto da barca do inferno representa o juízo a levá-la na barca do céu inutilmente. Ela é condenada
final católico de forma satírica e com forte apelo moral. por prostituição e feitiçaria.
O cenário é uma espécie de porto, onde se encontram A seguir, é a vez do judeu, que chega acom-
duas barcas: uma com destino para o inferno, coman- panhado por um bode. Encaminha-se direto ao diabo,
dada pelo diabo, e a outra, com destino para o paraíso, pedindo para embarcar, mas até o diabo recusa-se a
comandada por um anjo. Ambos os comandantes aguar- levá-lo. Ele tenta subornar o diabo, porém este, com
dam os mortos, que são as almas que seguirão para o a desculpa de não transportar bodes, o aconselha a
paraíso ou para o inferno. procurar outra barca. O judeu fala, então, com o anjo,
Os mortos começam a chegar e um fidalgo é o porém não consegue aproximar-se dele: é impedido,
primeiro. Ele representa a nobreza, e é condenado ao acusado de não aceitar o cristianismo. Por fim, o diabo
inferno por seus pecados, tirania e luxúria. O diabo or- aceita levar o judeu e seu bode, mas não dentro de sua
dena ao fidalgo que embarque. Este, arrogante, julga-se barca, e, sim, rebocados.
Durante o reinado de Dom Manuel, de 1495-
merecedor do paraíso, pois deixou muita gente rezando
1521, muitos judeus foram expulsos de Portugal, e os
por ele. Recusado pelo anjo, encaminha-se, frustrado,
que ficaram tiveram que se converter ao cristianismo,
para a barca do inferno; mas tenta convencer o diabo a
sendo perseguidos e chamados de “cristãos novos”. Ou
deixá-lo rever sua amada, pois esta “sente muito” sua
seja, Gil Vicente segue, nessa obra, o espírito da época.
falta. O diabo destrói seu argumento, afirmando que ela
O corregedor e o procurador, representantes do
o estava enganando.
judiciário, chegam, a seguir, trazendo livros e processos.
Um agiota chega a seguir e é condenado ao in-
Quando convidados pelo diabo a embarcarem, come-
ferno por ganância e avareza. Tenta convencer o anjo a
çam a tecer suas defesas e encaminham-se ao anjo.
ir para o céu pedindo ao diabo que o deixe voltar para
Na barca do céu, o anjo os impede de entrar: são con-
pegar a riqueza que acumulou, mas é impedido e acaba
denados à barca do inferno por manipularem a justiça
na barca do inferno.
em benefício próprio. Ambos farão companhia à Brísida
O terceiro indivíduo a chegar é o parvo (um tolo,
Vaz, revelando certa familiaridade com a cafetina – o
ingênuo). O diabo tenta convencê-lo a entrar na barca
que nos faz crer ter havido trocas de serviços entre eles.
do inferno; quando o parvo descobre qual é o destino
O próximo a chegar é o enforcado, que acredita
dela, vai falar com o anjo. Este, agraciando-o por sua
ter perdão para seus pecados, pois em vida foi julgado e
humildade, permite-lhe entrar na barca do céu.
enforcado. Mas também é condenado a ir para o inferno
A alma seguinte é a de um sapateiro, com todos
por corrupção.
os seus instrumentos de trabalho. Durante sua vida en-
Por fim, chegam à barca quatro cavaleiros que
ganou muitas pessoas, e tenta enganar também o dia-
lutaram e morreram defendendo o cristianismo. Estes
bo. Como não consegue, recorre ao anjo, que o condena
são recebidos pelo anjo e perdoados imediatamente.
como alguém que roubou do povo.
O frade é o quinto a chegar cantarolando com O bem e o mal
sua amante. Sente-se ofendido quando o diabo o con-
vida a entrar na barca do inferno, pois, sendo represen- Todos os personagens que têm como destino o
tante religioso, crê que teria perdão. Foi, porém, conde- inferno chegam trazendo consigo objetos terrenos, re-
nado ao inferno por falso moralismo religioso. presentando seu apego à vida; por isso, tentam voltar.
Brísida Vaz, feiticeira e alcoviteira, é recebida Os personagens a quem se oferece o céu são cristãos e
pelo diabo, que lhe diz que seu o maior bem são “seis- puros. O mundo aqui ironizado é maniqueísta: o bem e
centos virgos postiços”. Virgo é hímen, representa a o mal, o bom e o ruim são metades de um mundo moral
virgindade. Compreendemos que essa mulher prostituiu simplificado. O Auto da barca do inferno faz parte de
muitas meninas virgens, e “postiço” nos faz acreditar uma trilogia (Autos da barca da glória, do inferno e do

93
purgatório). Escrito em versos de sete sílabas poéticas,
possui apenas um ato, dividido em várias cenas. A lin-
Classicismo
guagem entre os personagens é coloquial – e é através
das falas que podemos classificar a condição social de
cada um dos personagens.
Leia um trecho:

[Vêm Quatro Cavaleiros cantando, os quais


trazem cada um a Cruz de Cristo, pela qual Senhor e
acrescentamento de Sua santa fé católica morreram em
poder dos mouros. Absoltos a culpa e pena per privilé-
gio que os que assi morrem têm dos mistérios da Paixão
d’Aquele por Quem padecem, outorgados por todos os Detalhe do quadro O Nascimento da Vênus, de Botticelli, Galeria degli
Ufizzi, Florença.
Presidentes Sumos Pontífices da Madre Santa Igreja. E
a cantiga que assi cantavam, quanto a palavra dela, é
a seguinte:] Cronologia do Classicismo
Cavaleiros: À barca, à barca segura, barca bem Início (1527): chegada de Sá de Miranda à
guarnecida, à barca, à barca da vida! Senhores que tra- Portugal, com a Medida Nova.
balhais pela vida transitória, memória, por Deus, memó- Fim (1580): morte de Camões e união da pe-
ria deste temeroso cais! À barca, à barca, mortais, Barca nínsula Ibérica.
bem guarnecida, à barca, à barca da vida! Vigiai-vos,
pecadores, que, depois da sepultura, neste rio está a
ventura de prazeres ou dolores! À barca, à barca, se- Contexto
nhores, barca mui nobrecida, à barca, à barca da vida!
[E passando per diante da proa do batel dos da- Nos séculos XV e XVI, a visão teocêntrica do
nados assi cantando, com suas espadas e escudos, disse mundo, que caracterizou a Idade Média, cede lugar ao
o Arrais da perdição desta maneira:] antropocentrismo, ou seja, o Homem e a Ciência vão
para o centro dos acontecimentos e do universo. O Re-
Diabo: Cavaleiros, vós passais e não perguntais
nascimento marca o apogeu dessa era, que se propõe a
onde vais?
iluminar com a razão as trevas da civilização medieval.
1o CAVALEIRO: Vós, Satanás, presumis? Atentai
com quem falais!
2o CAVALEIRO: Vós que nos demandais? Sequer Comércio
conhece-nos bem: morremos nas Partes d’Além, e não
O fascínio pela vida nos meios urbanos fez com
queirais saber mais.
que a sociedade buscasse cada vez mais os prazeres
DIABO: Entrai cá! Que cousa é essa? Eu não
que o dinheiro podia propiciar. O comércio entre as
posso entender isto!
nações da Europa cresceu e a burguesia mercantil não
CAVALEIROS: Quem morre por Jesus Cristo não
aceitava que a produção agrária estivesse voltada ape-
vai em tal barca como essa!
nas para a subsistência e desejava buscar o comércio
[Tornaram a prosseguir, cantando, seu caminho
exterior entre as nações.
direito à barca da Glória, e, tanto que chegam, diz o
Anjo:]
ANJO: Ó cavaleiros de Deus, a vós estou espe- Renascimento
rando, que morrestes pelejando por Cristo, Senhor dos
O Renascimento foi uma decorrência natural
Céus! Sois livres de todo mal, mártires da Santa Igreja,
do Humanismo. O seu significado nas artes é reflexo
que quem morre em tal peleja merece paz eternal.
de transformações radicais sucedidas no Oriente, ao se
[E assim embarcam.]

94
emancipar do velho sistema feudal. A certeza de que o Na escultura, o que mais chama a atenção é a
ser humano é uma força racional, capaz de dominar e busca pela representação ideal do homem, normalmen-
de transformar o Universo, levou o europeu a uma iden- te retratado nu a fim de exaltar as formas humanas.
tificação com a cultura clássica, que valorizava a vida A arquitetura também teve influência dos traços
terrena. O mundo, as pessoas e a vida passaram a ser clássicos, retratando a figura humana e o conceito de
vistos sob o prisma da razão. beleza dos templos construídos de maneira harmônica,
normalmente coberta por uma cúpula.
Entre os artistas mais importantes da arte renas-
centista estão Leonardo da Vinci (1452-1519), Miche-
langelo (1475-1564) e Rafael Sanzio (1483-1520).

Vista panorâmica de Florença - palco do Renascimento

O palco
A Itália foi onde essa tendência renascentista
apareceu com mais intensidade, sendo o palco deste
retorno ao mundo da Antiguidade Clássica, ou seja, fez
Monalisa, de Leonardo da Vinci. Museu do Louvre, Paris, França.
renascer os ideais de valorização dos gregos e latinos,
desde meados do século XIII, dos esforços individuais,
da perfeição, da superioridade humana e da razão como
parâmetro de observação e interpretação da realidade.

Pietà, de Michelangelo.

Literatura
Pintura, escultura e arquitetura
O poeta Dante Alighieri, autor da Divina comé-
Na pintura, um dos principais traços do Renasci- dia, introduziu o verso decassílabo – chamado de “a
mento foi a noção de perspectiva e a tematização de ele- medida nova”, em contraponto à redondilha, conside-
mentos da Antiguidade Clássica, bem como a humaniza- rada como “medida velha”. O poeta Francesco Petrarca,
ção do tema sacro. A técnica era levada em conta acima de criador do soneto, influenciou vários poetas europeus,
tudo, o sombreado realçava a ideia de volume dos corpos. entre o quais o inglês William Shakespeare e os portu-
Também teve início a utilização da tela e a tinta a óleo. gueses Luís Vaz de Camões e Sá de Miranda.

95
Leia um soneto de Francesco Petrarca: O marco de seu início se dá em 1527, quando o
poeta Sá de Miranda retorna de sua incursão pela Itália
Se a minha vida do áspero tormento
renascentista e introduz em Portugal novas formas de
E tanto afã puder se defender,
composição. Ele trouxe a postura amorosa, o soneto e,
Que por força da idade eu chegue a ver
principalmente, a forma fixa do verso decassílabo cha-
Da luz do vosso olhar o embaciamento,
mado de Medida Nova, o Dolce Stil Nuovo (o doce estilo
E o áureo cabelo se tornar de argento,
novo) criado pelo escritor italiano Francesco Petrarca.
E os verdes véus e adornos desprender,
E o rosto, que eu adoro, empalecer,
Que em lamentar me faz medroso e lento, Tendências fundamentais
E tanta audácia há de me dar o Amor, §§ Criação e imitação
Que vos direi dos martírios que guardo, Retomado do princípio aristotélico da mimese,
Dos anos, dias, horas o amargor. ou seja, da reprodução os comportamentos hu-
Se o tempo é contra este querer em que ardo, manos por intermédio da arte.
Que não o seja tal que à minha dor §§ Racionalismo
Negue o socorro de um suspiro tardo.
O desenvolvimento de um raciocínio completo
sobre os temas abordados, inclusive o amor. Na
Sá de Miranda poesia, essa tentativa de conciliar razão e emo-
ção se apresentou por meio de uma figura de
Em Portugal, considera-se como marco inicial do linguagem chamada “paradoxo”.
Classicismo o ano de 1527, data em que o poeta Sá de
§§ Humanismo e ideal de beleza
Miranda regressou da Itália, de onde trouxe as inova-
Recriação da natureza humana por meio de um
ções literárias do Renascimento italiano, introduzindo-
ideal de beleza, proporção, harmonia e simetria.
-as em Portugal. O encerramento desse primeiro perío-
do clássico ocorre em 1580, ano da morte de Camões e §§ Universalismo
do domínio espanhol sobre Portugal. A busca por novos territórios, expansão marítima.
Além do Classicismo, há dois outros períodos O homem quer se colocar acima da natureza e,
automaticamente, acima de Deus. O planeta Ter-
clássicos: o Barroco, momento em que Portugal é do-
ra passa a ser um espaço de dominação humana.
minado e governado pela Espanha, e o Arcadismo,
que avança até a segunda década do século XIX.

Características do Classicismo
O Classicismo queria recuperar a “classe” dos au-
tores antigos a partir do cultivo dos valores greco-latinos,
inclusive da mitologia pagã, própria dos antigos. Isso
levou os poetas renascentistas a recorrer às entidades
mitológicas para pedir inspiração, simbolizar emoções,
exemplificar comportamentos. Pastores, deuses, deusas
e ninfas estão presentes nas obras de arte e na literatura
renascentista de forma natural, convivendo até mesmo
com tradições cristãs, herdadas da época medieval.
É hora de o ser humano se orgulhar de suas con-
quistas terrenas. O homem descobre que a Terra é redon-
da e passa ter um olhar universalista sobre a realidade.

96
INTERATIVI
A DADE

ASSISTIR

Vídeo Documentário português sobre a obra Os lusíadas

Fonte: Ensina RPT

Vídeo Documentário português sobre Camões

Fonte: Ensina RPT

97
LER

tt
Livros
Lírica – Luís de Camões – Massaud Moisés
Considerado o maior poeta lírico português de todos os tempos, sua
poesia lírica é marcada por uma dualidade: ora revela textos de nítida
herança tradicional portuguesa, ora sua poesia se enquadra na medida
nova renascentista.

Os lusíadas – Edição Comentada por Otoniel Mota


Os Lusíadas é uma obra poética do escritor Luís Vaz de Camões, conside-
rada a epopeia portuguesa por excelência.

Dicionário de Luís de Camões – Vítor Aguiar e Silva


O Dicionário de Luís de Camões, obra concebida sob a coordenação do
prof. Vítor Aguiar e Silva, constitui um vasto e rico Thesaurus da camonís-
tica contemporânea.

98
ARTES PLÁSTICAS

Obras renascentistas

Sepultamento de Cristo de Michelangelo, 1507 Madonna, de Rafael, circa 1505-1506

Episódio - Inês de Castro

Morte de Inês ou Drama de Inês de Castro, de Columbano Bordalo Pinheiro, século XIX

99
Estrutura Conceitual
Idade Média Idade Moderna

Trovadorismo Humanismo Classicismo Barroco

destaque: Processo de enriquecimento


- Gil Vicente da burguesia

Maior contato com obras


produzidas na antiguidade

100
100
0 8
7 0 Classicismo:
Camões épico e lírico

Competência Habilidades
5 15, 16 e 17
© José Veloso Salgado

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Luis Vaz de Camões
Camões teria nascido em 1524 ou 1525, provavelmente na cida-
de de Lisboa (talvez Coimbra ou Santarém), descendente de uma família
da pequena nobreza. Estudou numa das mais conceituadas instituições de
Portugal, a Universidade de Coimbra. Em sua juventude, tornou-se um leitor
voraz de Homero, Virgílio, Ovídio e Petrarca. Lutando contra os mouros em
1549, acabou por perder a o olho direito.
Sua biografia é um tanto quanto nebulosa e cheia de confusões.
Em 1552, foi preso por ter brigado com Gonçalo Jorge, que era oficial
da corte, e sai perdoado da cadeia conquanto servisse militarmente Por-
tugal na Índia. Em 1556 é nomeado “provedor-mor dos bens de defun-
tos ausentes” em Macau, então colônia de Portugal. Durante os nove
anos que passou na cadeia, começou a escrever Os Lusíadas. Acusado
de desviar bens enquanto provedor-mor, vai para Goa a fim de se defen-
der das acusações. Na viagem, seu navio naufraga na foz do Rio Mekong
(Indochina) e diz a lenda que ele se salvou e deixou sua companheira chinesa, Dinamene, morrer afogada, com a
desculpa de salvar o manuscrito de Os Lusíadas, que já estava em sua fase final. Viveu na miséria, foi preso outra
vez, agora em Moçambique, por causa de dívidas, e voltou a Lisboa no ano de 1569 com a ajuda de amigos.
Em 1572 publica Os Lusíadas, sua obra prima, e recebe uma pensão anual de 15 mil réis oferecida por Dom
Sebastião. Morre pobre em 10 de junho de 1580. Curiosamente, o herói da poesia portuguesa expira com o início
do declínio do poderio imperial de Portugal, mesmo ano da União da Península Ibérica, quando o país fica sob o
domínio da coroa espanhola.
Em 1595 é publicada a obra Rimas, com uma compilação de sua obra lírica, de versos redondilhos elabora-
dos à maneira medieval, e também seus sonetos decassílabos de influência petrarquiana.
Leia o poema que Camões escreveu por ocasião da morte de Dinamene:

Alma minha gentil, que te partiste


Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,


Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te


Alg’a cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,


Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
CAMÕES, Luís Vaz de. In: Sonetos.

103
Camões épico
Engenho e arte
A obra épica Os Lusíadas, publicada no reinado
de Dom Sebastião em 1572, é a mais importante epo-
peia em língua portuguesa, teve como modelos estru-
turais as epopeias da Antiguidade: a Ilíada e a Odisseia,
do poeta grego Homero, e a Eneida, do poeta latino
Virgílio. Entretanto, Camões introduziu uma novidade,
pois, em Os Lusíadas, o herói é coletivo, ou seja, é
o povo português; ao contrário do que ocorre nas epo-
peias modelares, em que um relevante herói individual
se sobressai (a exemplo de Aquiles, Ulisses e Eneias).
Essa modalidade de escrita passou a ser chamada de
epopeia secundária.
Na narrativa épica camoniana, o herói, Vasco da Estátua de Luís de Camões, na praça Luís de Camões, Bairro Alto, Lisboa;
Gama, comandante da expedição que buscou o cami- ao fundo o edifício onde se localiza o Consulado do Brasil em Lisboa
Disponível em:<https://commons.wikimedia.org/wiki/
nho marítimo para as Índias, tem seu espaço compar- File:Camoes_2.jpg.
tilhado com os portugueses, o povo heroico português, Acessado em: Dez.2015

como o próprio título da epopeia indica.


Camões era cristão e desejava expressar em seu Estrutura da obra
poema a expansão da fé cristã no mundo. Por isso, a
presença de Deus e a referência a milagres e santos A obra de Camões apresenta 8.816 versos de-
do cristianismo são constantes em sua obra. Contudo, cassílabos, divididos em 1.102 estrofes, todas em oita-
como nas epopeias que Camões tomou por modelo – va-rima, organizada em dez cantos. Cada canto, na epo-
Odisseia, Ilíada e Eneida –, há nela também a presença peia, corresponde a um capítulo das obras em prosa.
dos deuses do Olimpo. Eles interferem na narrativa de Além disso, existem outras cinco partes:
Os Lusíadas procurando auxiliar ou prejudicar os por- 1. Proposição (canto I, estrofes 1 a 3)
tugueses no cumprimento de seus objetivos. Enquanto O poeta apresenta o que vai cantar, ou seja, o
Vênus e Marte, por exemplo, tentam protegê-los, outros tema dos feitos heroicos dos ilustres barões de
deuses, como Netuno e Baco, procuram impedir o cum- Portugal, o herói, Vasco da Gama, e o destino
primento da rota planejada – o primeiro porque zela da viagem.
pelo seu poderio nos mares, e o segundo, pelo seu do-
As armas e os barões assinalados
mínio no Oriente.
Que, da ocidental praia lusitana,
Os Lusíadas conseguiu conciliar, portanto, a mi- Por mares nunca dantes navegados
tologia pagã (fruto do gosto renascentista pelo estudo Passaram ainda além da Taprobana
da cultura pagã) e a mitologia cristã (ideologia pessoal Em perigos e guerras esforçados,
do autor). Isso, porém, valeu a Camões problemas com Mais do que prometia a força humana,
a Inquisição e tratamento com muita reserva por parte E entre gente remota edificaram
dos críticos de sua época. Novo reina, que tanto sublimaram;
barões = homens ilustres
ocidental praia lusitana = Portugal
Taprobana = ilha de Ceilão, limite oriental do mundo conhecido

104
2. Invocação (canto I, estrofes 4 e 5) Por fim, A ilha dos amores (canto IX), com o ero-
O poeta invoca as Tágides, ninfas do rio Tejo, pedin- tismo de seus símbolos, conclamando os portu-
do a elas para inspirá-lo na composição da obra. gueses a contemplarem a “Máquina do Mundo”.
E vós, Tágides minhas, pois criado 5. Epílogo
Tendes em mim um novo engenho ardente,
É a conclusão do poema (estrofes 145 a 156 do
Dai-me agora um som alto e sublimado, canto X), em que o poeta demonstra cansaço e,
Um estilo grandíloquo e corrente,
em tom melancólico e pessimista, aconselha ao
3. Dedicatória ou oferecimento rei e ao povo português que sejam fiéis à pátria
(canto I, estrofes 6 a 18) e ao cristianismo.

O poeta dedica seu poema a D. Sebastião, rei de


Portugal na época em que o poema foi publicado, Episódio de “Inês de Castro”
visto como a esperança de propagação da fé cris- (canto III, estrofes 118 a 135)
tã e continuação dos grandes feitos de Portugal.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo rei, se de tal gente.
superno = supremo

4. Narração (canto I, estrofe 19 até canto X,


estrofe 144)
O poeta relata a viagem propriamente dita dos por-
tugueses ao Oriente. Essa é, portanto, a parte mais
longa do relato e vários são os episódios que nela A morte de Inês de Castro, de Karl Briullov, século XIX.
se destacam. O desenrolar dos fatos começa In Me-
dia Res, ou seja, no meio da ação, quando Vasco da O rei Afonso retorna a sua terra natal, depois do
Gama e sua esquadra se dirigem ao Cabo da Boa intento vitorioso sobre os mouros esperando ser recebido
Esperança. A seguir, alguns dos mais importantes re- com honras de vitória e, principalmente, de paz, mas é
latos da obra. obrigado a contornar uma revolta popular com o triste e
No canto II, depois de terem passado por dificulda-
memorável caso da desventura de dona Inês de Castro.
des no mar, os portugueses, com o auxílio da deusa
Este é considerado um episódio lírico interno ao
Vênus, aportam na África, onde são recebidos pelo
rei de Melinde, que pede a Vasco da Gama que conte texto épico, em que uma verdadeira história de amor
a história de Portugal. Esse é o pretexto encontrado portuguesa é inserida em Os Lusíadas com o claro intui-
por Camões para pôr na fala de sua personagem as to de registrar esta que foi uma das histórias de amor
histórias que envolvem a fundação do Estado portu- mais bonitas e verdadeiras já contadas pela humanida-
guês: a Revolução de Avis, a morte de Inês de Castro de. Leia um trecho:
e a partida dos portugueses para o Oriente.
Traziam-na os horríficos algozes
Esse relato de Vasco da Gama se estende até o canto
Ante o Rei, já movido a piedade;
IV, momento em que os portugueses seguem viagem.
Nele, três episódios merecem destaque: Mas o povo, com falsas e ferozes
§§ o de Inês de Castro, amante do príncipe D. Pe- Razões, a morte crua o persuade,
dro assassinada a mando do rei (canto III); Ela, com tristes e piedosas vozes,
§§ o das críticas do velho da praia do Restelo Saídas só da mágoa e saudade
(canto IV); e Do seu Príncipe e filhos, que deixava
§§ do gigante Adamastor (canto V), que é uma Que mais que a própria morte magoava
personificação dos perigos enfrentados pelos na-
vegantes aos transporem o Cabo das Tormentas.
105
Episódio do “Velho do Restelo” Mas um velho, de aspeito venerado,
Que ficava nas praias, entre a gente,
(canto IV, estrofes 90 a 104)
Postos os olhos em nós, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós o mar ouvimos claramente,
Co’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

Episódio “O gigante Adamastor”


(canto V, estrofes 37 a 60)
Nesse episódio, a esquadra de Vasco da Gama
está contornando a África quando um gigante monstru-
Torre de Belém, Lisboa, Portugal.
oso emerge do mar, proferindo ameaças e profecias de
naufrágios das naus, em decorrência do atrevimento de
O episódio do Velho do Restelo representa um
Vasco da Gama e de sua tripulação ter invadido aquele
conflito ideológico contra os intentos portugueses.
território de domínio do gigante, nunca antes navegado.
Como toda lógica narrativa, o desenrolar da aventura
Vasco da Gama não se intimida e inicia um diá-
passa por processos conflituosos e, nesse caso, ele as-
logo com o gigante, que se identifica como Adamastor.
sume forma de um conflito entre a visão conservadora,
Ele conta que era um Titã e que um dia se apaixonou
daquele que fica, no caso o velho que com seu cajado
por Tétis, mulher do deus Peleu. Enganado por ela, caiu
maldiz as grandes navegações, e os ideias universalistas em uma armadilha, após submetê-la a um “amor for-
dos argonautas portugueses. çoso”, foi condenado por Netuno e como castigo foi
O velho simboliza os ideais medievais e, com suas transformado em uma enorme e imóvel montanha.
palavras, diz que aqueles que quiserem fama e glória aci- Adamastor é, na verdade, uma personificação do
ma dos valores religiosos e, sobretudo católicos, seriam Cabo das Tormentas. O episódio representa a superação
punidos com um futuro negativo. Os portugueses enfren- do medo, dos perigos do mar e das crendices medie-
tam este posicionamento e conquistam os mares apesar vais pelos portugueses que circulavam socialmente. É
das críticas do velho. No entanto, sabe-se que o velho representativo do ponto de vista do engrandecimento
tem sua razão quanto à ambição dos reis portugueses, do povo português que, apesar do temor e do desco-
que colocam acima de qualquer coisa “fama” e “glória” nhecimento, enfrentou os obstáculos e os perigos do
mar, vencendo-os e triunfando.
e que levariam Portugal a sua futura derrocada. O velho é
aquele que fica, que é terra, que conserva posição em de- [...]
trimento da fluidez prática do lançar-se ao mar de Vasco Porém já cinco Sóis eram passados
da Gama e sua esquadra. Leia um trecho: Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Qual vai dizendo: – Ó filho, a quem eu tinha Prosperamente os ventos assoprando,
Só pra refrigério e doce amparo Quando uma noite, estando descuidados
Desta cansada já velhice minha Na cortadora proa vigiando,
Que em choro acabará, penosos e amaro Uma nuvem, que os ares escurece,
Por que me deixas, mísera e mesquinha? Sobre nossas cabeças aparece.
Por que de mim te vás, o filho caro,
Tão temerosa vinha e carregada,
A fazer o funéreo enterramento Que pôs nos corações um grande medo;
Onde sejas de peixe mantimento? Bramindo, o negro mar de longe brada,
[...] Como se desse em vão nalgum rochedo.

106
– “Ó Potestade (disse) sublimada: Episódio “A Ilha dos Amores”
Que ameaço divino ou que segredo (canto IX, estrofes 68 a 95)
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?”
[...]
Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.
Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo As Nereidas (Ninfas) da Ilha dos Amores
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo. Nos cantos de VI a IX, os portugueses chegam
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso, a Calicute, na Índia, e têm problemas com os mouros.
Que pareceu sair do mar profundo.
Preparam-se, então, para voltar para Portugal, mas, de-
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
vido a seus esforços e à sua coragem, são premiados
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!
por Vênus, que lhes oferece uma passagem pela Ilha
E disse: – “Ó gente ousada, mais que quantas dos Amores, onde podem livremente amar as ninfas, li-
No mundo cometeram grandes cousas, deradas por Tétis. Além disso, a Ilha dos Amores celebra
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, a virilidade dos argonautas portugueses com o erotismo
E por trabalhos vãos nunca repousas, de seus símbolos levando-os a refletir sobre a “Máqui-
Pois os vedados términos quebrantas na do Mundo”. Todo o fervor religioso em defesa dos
E navegar meus longos mares ousas, portugueses que tentavam impor aos infiéis mouros sua
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
fé cristã não impediu a utilização do erotismo no episó-
Nunca arados de estranho ou próprio lenho;
dio que foi beneficiado por uma deusa pagã, a Venus,
[...] que durante todo o poema protege os portugueses, em
– “Eu sou aquele oculto e grande Cabo contraposição a Baco (o Dionísio dos gregos), que tinha
A quem chamais vós outros Tormentório, tudo para ser favorável a essa situação, por ser o deus
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo, do vinho, mas que, na obra, é constituído como inimigo
Plínio, e quantos passaram, fui notório. dos portugueses, uma vez que seu desregramento e re-
Aqui toda a Africana costa acabo presentação por chifres e rabo o aproximava da imagem
Neste meu nunca visto Promontório, do diabo utilizada pela Igreja Católica.
Que para o Pólo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende. Oh, que famintos beijos na floresta!
cinco sóis = cinco dias; esquálida = suja, desalinhada; E que mimoso choro que soava
colosso = uma das setes maravilhas do mundo, a está-
tua do deus Apolo, em Rodes, na Grécia; Tormentório = Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Cabo das Tormentas; Ptolomeu = astrônomo grego; Pom-
pónio = geógrafo romano; Estrabo = geógrafo grego. Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manha e na sesta,
Que Vênus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
A Ilha dos Amores, na visão de Jorge Golaço.

107
Camões lírico Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
“Tu, só tu, puro amor” é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
A obra lírica de Camões compreende poemas é um andar solitário entre a gente;
feitos na medida velha e na medida nova. A medida é nunca contentar-se de contente;
velha obedece à poesia de tradição popular, na forma é um cuidar que ganha em se perder.
e no conteúdo. São exploradas as redondilhas, de cinco É querer estar preso por vontade;
ou de sete sílabas (menor ou maior, respectivamente). é servir a quem vence, o vencedor;
Quanto à medida nova, os poemas em medida é ter com quem nos mata, lealdade.
nova são relacionados à tradição clássica: sonetos, éclo- Mas como causar pode seu favor
gas, elegias, oitavas, sextinas. Quanto ao conteúdo, a nos corações humanos amizade,
poesia lírica clássica se relaciona com o petrarquismo. se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Francesco Petrarca foi o responsável por fixar a forma Amor é fogo que arde sem se ver.
do soneto, no século XIV; o conteúdo de sua poesia In: CAMÕES, Luís Vaz de. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1976.

delineia um lirismo amoroso platônico, relacionado in- Dessa forma, o amor que uma pessoa sente por
dissoluvelmente a uma mulher inacessível, Laura, a que outra não passa de uma manifestação particular e im-
dedicou perto de 360 sonetos, no seu Cancioneiro. perfeita de algo superior, universal e perfeito: o Amor-
-ideal, grafado com A maiúsculo.
A lírica amorosa É dessa concepção que advém o amor neopla-
tônico dos humanistas e renascentistas: quanto mais o
O tema amoroso é explorado na lírica camonia- amor por uma pessoa estiver desvinculado de prazeres
na sob dupla perspectiva. Com frequência, aparece o físico-sensoriais e se aproximar do amor-ideal, maior e
mais puro será. É o que se observa nas 1a e 2a estrofes
amor sensual, próprio da sensualidade renascentista,
do soneto de Camões:
inspirada no paganismo da cultura greco-latina. Predo-
mina, porém, o amor neoplatônico, espécie de exten- Transforma-se o amador na cousa amada,
são e aprofundamento da tradição da poesia medieval por virtude do muito imaginar;
portuguesa ou da poesia humanista italiana, em que não tenho, logo, mais que desejar,
o amor e a mulher se configuram como idealizados e pois em mim tenho a parte desejada.
inacessíveis. Se nela está minha alma transformada,
Na poesia lírica camoniana, tal qual no modelo que mais deseja o corpo de alcançar?
legado por Petrarca, o amor é um sentimento que eleva o Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.
homem, tornando-o capaz de atingir o Bem, a Beleza e a
Verdade, de acordo com a filosofia platônica. Para Platão, Mas esta linda e pura semideia,
a realidade se divide em “mundo dos sentidos” e “mundo que, como um acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,
das ideias”. No mundo sensorial, nada é perene; no mun-
do das ideias, tudo é eterno, imutável. O amor ideal, de está no pensamento como ideia:
acordo com Platão, é um sentido essencialmente puro e [E] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
desprovido de paixões, ao passo que estas são essencial-
(Lírica, cit., p.109)
mente cegas, materiais, efêmeras e falsas.
Em Camões, percebe-se o conflito entre o sen- Nessas estrofes iniciais do poema, a realização
timento espiritual, idealizado, e o sentimento de ma- amorosa se dá por meio de imaginação. Não é preciso
nifestação carnal. O amor é, dessa forma, complexo, ter a pessoa amada fisicamente, basta tê-la em pen-
samento. Tendo-a, em si, na imaginação, o eu lírico se
contraditório. Esse duplo enfoque do amor é bastante
transforma na pessoa amada, confunde-se com ela e,
acentuado no soneto Amor é fogo que arde sem se ver.
dessa forma, já a tem.
108
Observe, porém, que, nas duas últimas estrofes, o
A mutabilidade e o mundo
poeta abandona o neoplatonismo e, com uma compara-
ção, manifesta seu desejo físico pela mulher amada: do desconcertante
mesmo modo que toda matéria busca uma forma, o seu
amor puro, amor-ideia, busca o objeto desse amor, ou A perfeição do mundo das ideias é contrastada por
seja, a mulher real. Camões com as imperfeições do mundo terreno. Em sua obra
Esses sentimentos contraditórios, bem como certo lírica, nota-se que a vida humana está condicionada a essas
pessimismo existencial que marca a poesia lírica de Ca- imperfeições, enquanto o espírito busca outros horizontes.
mões, fogem ao espírito harmonioso e racional do Renas-
Desse contraponto, resulta uma visão pessimista da vida, que
cimento e prenunciam o movimento literário do século
brota dos problemas existenciais do próprio poeta, de suas
XVII: o Barroco. Esse período de transição entre Renasci-
frustrações e atribuições.
mento e o Barroco é chamado, nas artes plásticas, de Ma-
neirismo; por isso, alguns críticos consideram como traços Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
maneiristas certas características da lírica de Camões. Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Um amor para sempre Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
O soneto Sete anos de pastor Jacó servia, é uma Diferentes em tudo da esperança;
amostra marcante do amor platônico, que tem duração Do mal ficam as mágoas na lembrança,
idealizada, independentemente de realização física. E do bem, se algum houve, as saudades.
Esse poema de Camões narra o episódio bíblico em que
O tempo cobre o chão de verde manto,
Jacó trabalha para Labão, visando casar-se com sua fi-
Que já coberto foi de neve fria,
lha Raquel, mas acaba recebendo a irmã dela, Lia.
E em mim converte em choro o doce canto.
Sete anos de pastor Jacob servia E, afora este mudar-se cada dia,
Labão, pai de Raquel, serrana bela; Outra mudança faz de mor espanto:
Mas não servia ao pai, servia a ela, Que não se muda já como soía.
E a ela só por prêmio pretendia.
CAMÕES, Luís Vaz de. 200 Sonetos. Porto Alegre: L&PM. 1998.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos


Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Sete anos de pastor Jacó servia.
In: CAMÕES, Luis Vaz de. Lírico. São Paulo: Cultrix, 1976.

No primeiro quarteto, o pastor Jacó serve a La-


bão porque deseja Raquel. O segundo quarteto mostra
o desejo frustrado de Jacó, quando Labão lhe entrega a
irmã mais velha, Lia. Humilde, por um amor ideal, pla-
tônico, o pastor se dispõe a trabalhar outros sete anos,
e assim indefinidamente para comprovar sua fidelidade
amorosa.

109
INTERATIVI
A DADE

ASSISTIR

Vídeo Documentário português sobre a obra Os lusíadas

Fonte: Ensina RPT

Vídeo Documentário português sobre Camões

Fonte: Ensina RPT

110
LER

tt
Livros
Lírica – Luís de Camões – Massaud Moisés
Considerado o maior poeta lírico português de todos os tempos, sua
poesia lírica é marcada por uma dualidade: ora revela textos de nítida
herança tradicional portuguesa, ora sua poesia se enquadra na medida
nova renascentista.

Os lusíadas – Edição Comentada por Otoniel Mota


Os Lusíadas é uma obra poética do escritor Luís Vaz de Camões, conside-
rada a epopeia portuguesa por excelência.

Dicionário de Luís de Camões – Vítor Aguiar e Silva


O Dicionário de Luís de Camões, obra concebida sob a coordenação do
prof. Vítor Aguiar e Silva, constitui um vasto e rico Thesaurus da camonís-
tica contemporânea.

111
INTERDISCIPLINARIDADE
Artes plásticas

Os Portugueses e as Ninfas na Ilha dos Amores (ilustração do episódio do Canto IX de Os Lusíadas de Camões, de Bordalo Pinheiro, século XIX.

Nos ombros de um Tritão ... vai Dione, composição alusiva ao Canto II (est. XXI) de
Os Lusíadas de Camões, figurando Dione e um grupo de ninfas num mar revolto,
perto do casco de uma caravela de Bordalo Pinheiro, século XIX.

112
Estrutura Conceitual
Idade Média Idade Moderna

Trovadorismo Humanismo Classicismo Barroco

Camões Camões
Épico Lírico

Trabalho do Maior produção


autor com a epopeia de sonetos

113
0 0
9 1 Quinhentismo e Barroco

Competência Habilidades
5 15, 16 e 17
© Wikimedia Commons

L C
ENTRE LETRAS
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
H11
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
H24
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
Observe, na tabela abaixo, os períodos literários do Brasil Colônia.

Quinhentismo (1500-1601) Barroco (1601-1768) Neoclassicismo (1768-1836)

O primeiro documento escrito foi a Carta de


Publicação do poema épico Prosopopeia, de Publicação de Obras Poéticas, de Cláudio
Pero Vaz de Caminha, destinada a Dom Ma-
Bento Teixeira. Manuel da Costa.
nuel, rei de Portugal.

Florescimento da chamada literatura de


Poesias lírica, religiosa e satírica, de Atuação do Grupo Mineiro em Vila Rica,
informação, cujo objetivo era descrever
Gregório de Matos, em Salvador, Bahia. Minas Gerais.
para a Corte portuguesa a terra descoberta.

Desenvolvimento da literatura de ca- Oratória doutrinária do padre Antônio


Poesia árcade de Cláudio Manuel da Cos-
tequese, com a finalidade de doutrinar Vieira, em Salvador, Maranhão, e outras
ta (sonetos).
os indígenas. áreas do Nordeste brasileiro.

Tomás Antônio Gonzaga escreve Marília de


Textos de teatro com teor catequético. Sermões, do padre Antônio Vieira
Dirceu.

Poesia épica indianista: O Uraguai, de


Produção de poesia religiosa. Conceptismo e cultismo. Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa
Rita Durão.

José de Anchieta é o principal expoente da


Contexto de reformas religiosas. A natureza é a base temática.
literatura catequética.

Quinhentismo ou Literatura colonial


A literatura brasileira
floresceu em duas fases
O período é didaticamente chamado de Qui-
nhentismo brasileiro e os documentos produzidos
durante esse tempo não podem ser considerados litera-
tura artística, mas manifestações literárias, uma vez
que não são criações de caráter artístico, e sim produtos
de observações ora objetivas, ora subjetivas.
Esse primeiro período da história da nossa lite-
ratura, chamado Quinhentismo, começou em 1500, ano
em que Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de
Pedro Álvarez Cabral, enviou a Dom Manuel I a famosa
Carta. Ela comunica ao soberano o “achamento” (esse
era o termo usado na época) das terras brasileiras. No
século XVI, os textos produzidos no Brasil ligam-se a
Descobrimento, de Cândido Portinari (1956).
duas necessidades práticas principais da empresa colo-
nizadora portuguesa: fornecer informação sobre a nova
terra e converter os indígenas ao cristianismo. Nessa literatura de valor principalmente documental, encontram-se
elementos importantes para a compreensão das origens históricas e literárias do Brasil.
A primeira fase corresponde ao período do Brasil colonial, durante os séculos XVII e XVIII. Naquela época,
uma da primeiras vozes da literatura brasileira foi a do poeta Gregório de Matos e Guerra, instalado em Salva-
dor, no século XVII. Durante o século XVIII, Minas Gerais acompanhou a produção de poetas sediados em Vila Rica
(atual Ouro Preto), Mariana, São João Del-Rei, cidades vinculadas ao ciclo do ouro e pedras preciosas.
A segunda fase da literatura brasileira nasceu na época do Brasil independente, a partir de 1822.

117
Não se pode falar em uma literatura “do Brasil”, Na literatura informativa encontram-se docu-
como característica do país naquele período, mas em mentos, cartas e relatórios de navegantes, administrado-
literatura “no Brasil”, uma literatura ligada ao Brasil, res, missionários e autoridades eclesiásticas. Descrevem
que denota as ambições e as intenções do homem eu- e exaltam a flora, a fauna e os índios do Brasil, bem
ropeu. Divide-se em literatura informativa e litera- como o exotismo e a exuberância de um mundo tropical.
tura jesuítica. O Quinhentismo serviu de inspiração Também predomina o registro referencial da linguagem
literária para alguns poetas e escritores do Romantismo que reflete tal louvor à terra com o emprego exagerado
– Gonçalves Dias, José de Alencar – e do Modernismo – de adjetivos no superlativo, bem como modelos clássi-
Oswald de Andrade, Murilo Mendes. cos e renascentistas que tendem à erudição.
Os textos informativos formam um painel da
Literatura de informação vida dos anos iniciais do Brasil Colônia, dando notícias
dos primeiros contatos entre os europeus e a realidade
A expansão ultramarina europeia levou inúme- da nova terra. A opulência da flora e da fauna impres-
ros viajantes às terras recém-descobertas ou exploradas sionou vivamente o colonizador, enquanto o modo de
da Ásia, África e América com a missão de produzir re- vida dos indígenas foi motivo de muita curiosidade e de
latórios informativos sobre essas terras e aspectos exó- incompreensão – os colonizadores nunca abandonaram
ticos e pitorescos de seus habitantes. Esses relatórios, sua concepção de que eram donos de uma cultura supe-
denominados “crônicas de viagem”, têm caráter mais rior no interior do próprio sistema colonial. Esses textos
histórico do que literário, e a linguagem é predominan- cumpriam, acima de tudo, uma finalidade prática.
temente referencial ou denotativa.
§ Carta, de Pero Vaz da Caminha, escrita em 1500;
A Carta, de Pero Vaz de Caminha, considerada o
§ Diário de navegação, de Pero Lopes de Souza,
primeiro documento da literatura no Brasil, inaugurou a
escrito entre 1530 e 1532, durante a expedição
chamada literatura informativa: manifestações literárias
de Martim Afonso de Sousa;
de considerável valor histórico e profundo caráter docu-
§ História da Província de Santa Cruz e Tratado da
mental sobre o Brasil, escritas por cronistas e viajantes
Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gandavo,
estrangeiros. Descrevem e informam sobre a nova co-
ou Gândavo, publicados, respectivamente, em
lônia portuguesa, salientando a conquista material e a
1576 e 1826;
exaltação da terra nova. Estes relatos visavam a satisfa-
§ Tratado descritivo do Brasil em 1587 ou Notícias
zer a curiosidade e a imaginação dos europeus.
do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, publicado
© Albert Eckhout/Wikimedia Commons

em 1851.
§ Diálogos das grandezas do Brasil (1618), atribu-
ídos a Ambrósio Fernandes Brandão, e a História
do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador, pu-
blicados no século XVII.
Para a história da literatura brasileira, a literatura
informativa adquire importância principalmente como
fonte de temas e formas para momentos literários pos-
teriores: o Romantismo e o Modernismo.

Pero Vaz de Caminha


Escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Cami-
nha escreveu a Dom Manuel, rei de Portugal, no dia 1o
de maio de 1500, a Carta – de inestimável valor histó-
rico e de razoável valor literário –, em que comunica o
Índio tapuia. Eckhout, A. (1610-1666) "descobrimento" do Brasil.

118
Lendo a Carta Segundo trecho
A Carta enviada ao rei Dom Manuel é uma es- Dali avistamos homens que andavam pela praia,
pécie de “certidão de nascimento” do Brasil, pois foi o obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pe-
primeiro documento escrito nestas terras. É o texto que quenos, por chegarem primeiro. Então lançamos fora
marca o princípio da literatura brasileira. os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães
A Carta de Caminha, embora escrita nos primór- das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram
dios da colonização (1500), só veio a ser impressa em entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel
1817, na Corografia Brasílica, pela imprensa Régia do a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele
Rio de Janeiro. começou de ir para lá, acudiram pela praia homens,
quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao
Primeiro trecho chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vin-
te homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma
Senhor, posto que o Capitão-mor desta vossa que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam
frota, e assim os outros Capitães escrevam a Vossa Al- arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o ba-
teza a notícia do achamento desta vossa terra nova, tel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os
que nesta navegação agora se achou, não deixarei de arcos. E eles os pousaram.
também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim Ali não pôde deles haver fala, nem entendimen-
como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar to de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente
e falar – o saiba pior que todos faze! [...] Tome Vossa deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de li-
Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e nho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um
creia bem por certo que, para aformosear nem afear, deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, com-
não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu. pridas, com uma copazinha de penas vermelhas e
[...] pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal
Então seguimos nosso caminho por este mar de grande de continhas brancas, miúdas, que querem
longo até terça-feira de Oitavas de Páscoa, que foram parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Ca-
21 dias de abril, quando topamos alguns sinais de pitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às
terra [...] a saber: Em primeiro lugar um monte gran- naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala,
de, muito alto e redondo e outras serras mais baixas por causa do mar. [...]
ao sul dele; e terra rasa, com grandes arvoredos. Ao
mesmo monte alto pôs o Capitão o nome de Monte Terceiro trecho
Pascoal; e à terra – Terra de Vera Cruz.
A feição deles é serem pardos, maneira de
© Tonyjeff/Wikimedia Commons

avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem


feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem
estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e
nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.
Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos
neles seus ossos brancos e verdadeiros, de compri-
mento duma mão travessa, da grossura dum fuso de
algodão, agudos na ponta como um furador. Metem-
nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes
fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de
xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os moles-
ta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.
Os cabelos seus são corredios. E andavam tos-
quiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de
boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E
Carta original de Pero Vaz de Caminha. um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte

119
para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de Leia também este trecho da História da Província
ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, Santa Cruz, e observe que Gândavo traz aqui uma inver-
mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as
tida noção sobre a língua dos indígenas, além de fazer
orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena,
uma descrição minuciosa sobre o tipo físico do silvícola.
com uma confeição branda como cera (mas não o
era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda
e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais História da Província
lavagem para a levantar.
Estes índios são de cor baça, e cabelo corredio; têm
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado
o rosto amassado, e algumas feições dele à maneira de
em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro
chinês. Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de
mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por
boa estatura; gente mui esforçada, e que estima pouco
estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nico-
morrer, temerária na guerra, e de muito pouca conside-
lau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na
ração: são desagradecidos em grande maneira, e mui
nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa.
desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos
Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram si- por extremo.
nal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a nin- Vivem todos mui descansados sem terem outros
guém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, pensamentos senão comer, beber, e matar gente, e por
e começou de acenar com a mão para a terra e de- isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo
pois para o colar, como que nos dizendo que ali havia conseguinte tornam a emagrecer, e muitas vezes pode
ouro. Também olhou para um castiçal de prata e as- deles tanto a imaginação que se algum deseja a morte,
sim mesmo acenava para a terra e novamente para o ou alguém lhe mete em cabeça que há de morrer tal dia
castiçal como se lá também houvesse prata. ou tal noite não passa daquele termo que não morra.
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta ao rei D. Manuel. São mui inconstantes e mudáveis: creem de ligei-
In: VOGT, Carlos; LEMOS, J.A. Guimarães de. Ironistas e viajantes.
São Paulo: Abril Educação, s.d. (Coleção Literatura Comentada.) ro tudo aquilo que lhes persuadem por dificultoso e im-
possível que seja, e com qualquer dissuasão facilmente
Pero de Magalhães Gândavo o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados à
sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se
Autor de O Tratado da Terra do Brasil e da His- neles não houvera razão de homens: ainda que todavia
em seu ajuntamento os machos e fêmeas têm o devido
tória da Província de Santa Cruz, compostas em louvor
resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha.
ao clima, à terra e à paisagem, e que estimulam a imi-
gração do leitor.
Uma planta se dá também nesta Província, que
da ilha de São Tomé, com a fruita da qual se ajudam
muitas pessoas a sustentar a terra. Esta planta é mui
tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas fo-
lhas que serão seis ou sete palmos de comprido. A fruita
dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepi-
nos, criam-se em cachos. Esta fruita é mui saborosa, e
das boas, que há na terra: tem uma pele como de figo
(ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora quando a
querem comer: mas faz dano à saúde e causa febre a
quem se desmanda nela.
GÂNDAVO, Pero de Magalhães.
História da Província de Santa Cruz.

Ilustração que retrata Pero Magalhães de Gândavo


descrevendo animais novos.

120
A língua de que usam, toda pela costa, é uma: ain- Dentre suas obras,sobressaem os autos Quando no
da que em certos vocábulos difere n’algumas partes; Espírito Santo,se recebeu uma relíquia das onze milVirgens;
mas não de maneira que se deixem uns aos outros de Na Vila de Vitória; Auto de São Lourenço; e o poema De
entender: e isto até a altura de vinte e sete graus, que Beata Virgine Dei Madre Maria (À beata Virgem Maria
daí por diante há outra gentilidade, de que nós não te- Mãe de Deus).
mos tanta notícia, que falam já outra língua diferente. Veio ao Brasil com a segunda leva de jesuítas
Esta de que trato, que é geral pela costa, é mui branda, na esquadra de Duarte da Costa, segundo Governador-
e a qualquer nação fácil de tomar. Alguns vocábulos há -Geral do Brasil. Em 1554, participou da fundação do
nela de que não usam senão as fêmeas, e outros que colégio, onde também foi professor, na Vila de São Pau-
não servem senão para os machos: carece de três le- lo de Piratininga, núcleo da futura cidade que receberia
tras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, o nome de São Paulo. Exerceu o cargo de provincial dos
coisa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem jesuítas, entre os anos de 1577 e 1587. Escreveu cartas,
Lei, nem Rei e desta maneira vivem desordenadamen- sermões, poesias, a gramática da língua mais falada na
te sem terem além disto conta nem peso, nem medida. costa brasileira (o tupi) e peças de teatro, tornando-se
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. representante do Teatro Jesuítico no Brasil.
In: VOGT, Carlos; LEMOS. J. A. Guimarães de, Op. Cit. Sua obra é considerada a primeira manifesta-
ção literária em terras brasileiras. A coleção das obras
Literatura de formação ou jesuítica completas do padre José de Anchieta é dividida em
três gêneros: poesia, prosa e obras sobre Anchieta,
que somam um total de dezessete volumes.
Ao lado da prosa informativa, ocorreram mani-
Leia abaixo A Santa Inês, um dos poemas
festações em poesia e teatro escritas por jesuítas, com
a finalidade de catequizar os índios. A essa produção mais conhecidos de José de Anchieta.
chamamos de literatura de formação, em decorrência Cordeirinha linda,
do aspecto didático que apresenta. como folga o povo
porque vossa vinda
Padre José de Anchieta (1534-1597) lhe dá lume novo!

Cordeirinha santa,
© Benedito Calixto/Wikimedia Commons

de Iesu querida,
Vossa santa vinda
o diabo espanta

Por isso vos canta,


com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Nossa culpa escura


fugirá depressa,
Padre José de Anchieta pois vossa cabeça
Nessa categoria, merece destaque o padre je- vem com luz tão pura.
suíta que veio ao Brasil para desenvolver o trabalho Vossa formosura
missionário de converter os índios ao Cristianismo. Em honra é do povo,
1554, fundou a cidade de São Paulo. Escreveu poemas, porque vossa vinda
crônicas, sermões e textos teatrais, ora didáticos, ora lhe dá lume novo.
lírico-religiosos.
Anchieta dominava bem latim, espanhol, portu- Virginal cabeça
guês e tupi. Sua linguagem era simples e direta. Escre- pola fé cortada
veu a primeira gramática tupi-guarani: Arte de gramáti- com vossa chegada,
ca da língua mais usada na costa brasileira. já ninguém pereça.
121
Vinde mui depressa O texto revela uma visão exuberante da natureza
ajudar o povo, do Brasil, semelhante à manifestada na Carta, de Pero
pois com vossa vinda Vaz de Caminha. Os aspectos enfatizados contemplam
lhe dais lume novo. a flora e a fauna, a grandeza e a variedade do arvo-
Vós sois, cordeirinha, redo e o encantamento pelos pássaros. A riqueza e a
de Iesu formoso, vitalidade do Brasil contrastam com as paisagens de
mas o vosso esposo Portugal. Entre as riquezas do Brasil arroladas no tex-
já vos fez rainha, to, apenas o sândalo, originário da Índia, provavelmen-
Também padeirinha te não existia aqui. O deslumbramento pela natureza
sois de nosso povo, do Novo Mundo marcou época tanto no período Brasil
pois, com vossa vinda, Colônia até o período pós-Independência.
lhe dais lume novo. O poema manifesta o confronto entre o bem e
PORTELA, Eduardo (Org.). o mal com bastante simplicidade. A chegada de Santa
José de Anchieta: poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1959.
Inês espanta o diabo e, graças a ela, o povo revigora sua
Bosques fé. Os versos de cinco sílabas (redondilha menor) dão
ritmo ligeiro ao texto, retomando a métrica das cantigas
Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque medievais. A linguagem é clara, as ideias são facilmente
e não se vê em todo o ano árvores nem erva seca. Os compreensíveis e o ritmo traz musicalidade ao poema, o
arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e gros- que contribui para envolver o leitor/ouvinte, bem como
sura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e sensibilizá-lo para a mensagem religiosa.
o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos
de grande formosura e variedade e em seu canto não
Padre Manuel de Nóbrega
dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos, e
canários de Portugal e fazem uma harmonia quando A pedido de Dom João III, integrou a escala de
um homem vai por este caminho, que é para louvar Tomé de Sousa, primeiro Governador Geral do Brasil, o
ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos padre Manuel da Nóbrega, que chefiou o primeiro gru-
e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. Há mui- po de jesuítas vindos ao Brasil, em 1549.
tas árvores de cedro, áquila, sândalos e outros paus de Ferrenho defensor da liberdade dos índios, fa-
bom olor e várias cores e tantas diferenças de folhas e voreceu os aldeamentos, cultivou a música como auxi-
flores que para a vista é grande recreação e pela muita liar da evangelização, promoveu o ensino primário nas
variedade não se cansa de ver escolas de ler e escrever e fundou, pessoalmente, os
José de Anchieta. Cartas, informações, fragmentos históricos e
sermões. Informação da Província do Brasil para nosso padre –
colégios de Salvador, Pernambuco e São Paulo, origem
1585. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 430-431. da futura cidade, e do Rio de Janeiro, onde exerceu o
cargo de reitor. Depois de colaborar com a expulsão dos
Disponível em <http://warburg.chaa-unicamp.com.br>.

estrangeiros da baía de Guanabara, contribuiu para a


valorização do poder central e para a unificação política
do território nacional.
Seus pensamentos estão expressos nas Cartas,
nos Apontamentos e, sobretudo, no Diálogo sobre a
conversão do Gentio, de sua autoria.

Padre Anchieta, óleo sobre tela, de Cândido Portinari (1954).

122
Barroco ou Seiscentismo da de fiéis, a Igreja fortaleceu o Tribunal da Inquisição,
que passou a investigar crimes contra a fé católica e deu
início à Contrarreforma, com a fundação da Compa-

© Michelangelo Merisi da Caravaggio/Wikimedia Commons


nhia de Jesus pelo espanhol Inácio de Loyola.
Nas artes, em reação ao primeiro período clás-
sico que revolucionou o teocentrismo medieval, à luz
e sob inspiração dos valores terrenos e humanistas da
Antiguidade greco-romana, triunfou o Barroco, que se
opôs ao Humanismo Renascentista em busca do elo
perdido da tradição cristã.

O contexto português:
A dúvida de São Tomé, de Caravaggio.
a união da península Ibérica
Contexto Em 1580, Portugal foi anexado à Espanha,
em razão do desaparecimento do rei português
Os embates religiosos Dom Sebastião – que não deixou descendentes di-
retos –, na batalha de Alcácer-Quibir, na África, em
O movimento denominado Barroco ou Seis- 1578. O rei espanhol Felipe II, um dos parentes mais
centismo aconteceu no segundo período clássico e de- próximos de Dom Sebastião, foi proclamado mo-
signou genericamente todas as manifestações artísticas narca dos lusitanos e deu início à dinastia Filipina
produzidas no século XVII até meados do século XVIII. em Portugal, que se estendeu até 1640.
O estilo barroco sucede o movimento religioso conheci-
do como Reforma Protestante, liderado pelo teólogo Sucessivamente, três reis espanhóis adotaram
alemão Martinho Lutero (1483-1546). o nome Felipe (I, II e III). Foi em dezembro de 1640,
que Portugal retomou sua independência, quando
o duque de Bragança foi coroado rei, com o nome
A Reforma Protestante foi um movimento de Dom João IV, e cujo reinado durou até 1656.
reformista cristão iniciado em 1517 por Martinho
Lutero. Ele apresentou 95 teses, mediante as quais
Na Europa seiscentista, Portugal e Espanha confi-
protestava contra a Igreja Católica. À luz delas, pro-
guraram o modelo de absolutismo católico, que patroci-
pôs uma reforma baseada em cinco princípios:
1. somente a fé; nou a Contrarreforma, recrudesceu a perseguição aos in-
2. somente a Escritura; fiéis pela Inquisição e exigiu obediência ao Index Librorum
3. somente Cristo; Prohibitorum, uma relação de livros proibidos publicada
4. somente a graça; e
5. somente a glória de Deus. pela Igreja Católica.
Lutero denunciou os abusos e equívocos do Sob dominação filipina, o Barroco português foi
catolicismo da época, entre eles atos de corrupção, significativamente influenciado pelo espanhol, principal
como venda de indulgências a troco do perdão dos
foco irradiador dessa estética que expressa a espirituali-
pecados e da salvação eterna. O protestantismo nas-
ceu em decorrência da resistência à Igreja Católica dade e o teocentrismo medievais misturados ao raciona-
lismo e ao antropocentrismo herdados do Renascimento.

A proposta de reformar ensinos teológicos e


comportamentos morais da Igreja, baseados exclusiva-
mente no ensino bíblico, provocou a reação da Igreja
católica, àquelas alturas já sem muito espaço e poder. A
Reforma dividiu os cristãos. Na tentativa de evitar a per-

123
A arte barroca O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
© Michelangelo Merisi da Caravaggio/Wikimedia Commons

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,


Não se diga que é parte sendo todo.
Em todo sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em parte todo,
Assiste cada parte em sua parte.

A ceia em Emaús, de Caravaggio. Não se sabendo parte deste todo,


Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
O barroco português ocorre em uma Europa im- Nos disse as partes todas deste todo.
pactada pelas grandes navegações dos anos 1500, pelas
grandes conquistas, pela explosão da Reforma Protes-
tante e pelo poder monárquico absolutista. Ele traduz o
drama do homem “entre o céu e a Terra”, atormentado Conceptismo (do espanhol concepto, ideia)
pela fé, pela existência após a morte, pelo julgamento de
atos praticados durante o “trânsito terreno”. Linguagem pautada no raciocínio e no pensa-
No final dos anos quinhentos e início dos anos mento lógico, em analogias, histórias ilustrativas etc.
seiscentos, conviem dois modos de ver o mundo: o Argumentos centrados na inteligência e na razão em
paganismo renascentista em decadência e a religiosi-
busca da concisão e da coesão, sempre disciplinados
dade barroca emergente. A expressão plástica barroca
pela lógica e seus mecanismos oferecidos pelos silogis-
caracteriza-se pela exacerbação dos tons mais altos e
mos e sofismas. Tal tendência também recebeu o nome
mais coloridos e das texturas mais ricas: mais decora-
de quevedismo, graças ao estilo marcante do poeta
ção, mais luz e sombra em busca deliberada de efeitos.
Duas tendências de estilo, no entanto, mani- espanhol Francisco Gómez de Quevedo.
festam-se no Barroco: o cultismo e o conceptismo.
Aquele, mais próprio da poesia, e este, da prosa, sem, [...]
no entanto, excluírem-se no conjunto da criação lite- Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda
rária. Uma mesma obra tanto pode pender para uma que passe dos setes anos [...] nunca chega à idade
delas quanto apresentar traços de ambas as tendências. de uso da razão. Usar de razão e amar são duas
coisas que não se juntam. A alma de um menino
Cultismo que vem a ser? Uma vontade com afetos e um
entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo
É a preferência pelo rebuscamento formal da lin- conquista o amor, quando conquista uma alma; po-
guagem em jogos de palavras, figuras de linguagem, rém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém
vernáculo preciosista, efeitos sensoriais – cor, som, teve a vontade, febricitante, que não tivesse o en-
forma, volume, sonoridade, imagens eloquentes e fan- tendimento frenético. O amor deixara de variar, se
tasiosas. Conhecer é descrever mediante sensações for firme, mas não deixara de tresvariar, se é amor.
nada econômicas. Metáforas, antíteses, sinestesias, Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não
trocadilhos, dicotomias e hipérbatos povoam os textos cegasse o entendimento. Nunca houve enfermida-
barrocos. A realidade é retratada de forma indireta, cen- de no coração, que não houvesse fraqueza no juízo.
trada na habilidade verbal do escritor. Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato
A tendência do Barroco cultista também recebeu
o nome de gongorismo, cujo escritor mais eloquente
foi o poeta espanhol Luis de Gôngora.
124
Características do Barroco literário Tendência ao dualismo e ao
culto do contraste
O Barroco se traduz como uma arte tensa que
oscila entre opostos, marcada pela crise de valores, No intuito de aproximar opostos, a visão do uni-
contradições entre o espírito cristão, antiterreno e te- verso dualista é, ao mesmo tempo, mística e sensual,
ocêntrico, e o espírito renascentista, antropocêntrico, religiosa e erótica, espiritual e humana. O homem vive
racionalista e mundano. em conflito com o mundo. Para traduzi-lo, abundam an-
títeses, metáforas, sinestesias e hipérboles.
Conflitos e descontentamentos existenciais

Disponível em <http://interata.squarespace.com>
A indefinição entre o divino e o terreno traduz-se
em conflito e descontentamento existencial humano.
São comuns os temas pessimistas, as advertências so-
bre a brevidade da vida, a ênfase na dor e na vergonha
de permanecer em pecado. A relação com a vida terrena
é pessimista, só minorada com a crença na vida celeste.
O tema da penitência é constantemente enfatizado pelo
martírio da dor.
Detalhe preciosista de igreja barroca.

Ideias em confronto O estilo barroco europeu do século XVII recebeu


denominações particulares em cada país:
No Barroco predomina o gosto pela aproxima- § Espanha – gongorismo, originado do nome do
ção de realidades em oposição; a submissão e a vida poeta Luis de Gôngora (1561-1627).
recatada propostas pela Igreja contrarreformista em § Inglaterra – eufuísmo, derivado do nome da
contraposição aos desejos humanos e materiais, à pos- obra Euphues, or the anatomy of wit, do escritor
sibilidade de ascensão social, propiciada pelo momento John Lyly (1554-1606).
histórico, contrapõe-se a impossibilidade da estrutura § Itália – marinismo, derivado do nome de Gian-
social fechada. Temas constantemente contraditórios, battista Marino (1569-1625).
oscilantes entre matéria e amor, carne e espírito, amor § França – preciosismo, em razão do exagero
ideal e amor humano. da forma preciosista, afetada e extremamente
rebuscada na corte do rei Luis XIV.
© Divulgação

§ Alemanha – silesianismo, estilo característico


dos escritores da região da Silésia.

O Barroco em Portugal
O Barroco português conviveu com um país que
vivia uma crise de identidade, uma vez que estava sob o
domínio político da Espanha. Dois aspectos ressaltam a
produção literária desse período: o esforço dos portugue-
ses de preservar sua cultura e língua e a Contrarreforma,
Cristo bailarino. Madeira com vestígios de policromia.
que deu à produção literária amplo caráter religioso, por
Aleijadinho (1781-1790).
exemplo as obras do padre Antônio Vieira, principal escri-
tor português do século XVII.
Em 1580, dois fatos significativos marcaram a vida
cultural e política de Portugal: a morte de Camões e a pas-
sagem do país para o domínio espanhol (1580-1640).

125
A literatura e as artes portuguesas foram in- A presença estrangeira mais marcante, no entan-
fluenciadas pelas manifestações culturais espanholas, to, foi a dos holandeses. Enviado pela Companhia das
que conheceram nesse período o “século de ouro” – Índias Ocidentais com o fim de controlar o comércio do
Cervantes, Gôngora, Quevedo, Lope de Vega e Calderón açúcar nordestino, o general de origem alemã Johann
de La Barca são importantes escritores desse período. O Maurits, conhecido como conde Maurício de Nassau,
florescimento do Barroco em Portugal não se deu com desembarcou no Brasil, em Recife, em 1637, quando já
a mesma intensidade que na Espanha. Como forma de se estabilizara o domínio holandês nas colônias portu-
resistência política ao domínio espanhol, os escritores guesas, iniciado em 1624.
portugueses procuraram preservar a língua e a cultu- Nassau trouxe consigo uma equipe cultural com
ra lusitanas. Assumiram uma postura saudosista, valo- pintores, arquitetos, escritores, naturistas, médicos, as-
rizando personagens e escritores do passado heroico trólogos etc., com o objetivo de documentar as terras
recente: Vasco da Gama, Dom Sebastião, Camões. ocupadas pela Holanda e angariar investimentos euro-
Influenciado pela Contrarreforma, o Barroco peus para a produção açucareira.
português também ganhou fortes matizes religiosos, Com Nassau, Recife sofreu uma verdadeira re-
bem como em todos os países ibéricos. A atuação da formulação urbana: jardins, lagos, palácio para sua aco-
Companhia de Jesus e do Tribunal da Inquisição, ins- modação na ilha de Antônio Vaz, uma cidade inteira foi
taurado em Portugal em meados do século XVI, com- modelada a seu gosto. A cidade Maurícia, ao lado de
pletaram o quadro cultural lusitano daquele período Recife, entre a foz do rio Capibaribe e Beberibe, emergiu
religioso e austero. sob sua administração.
As marcas desse tempo ficaram registradas em
O Barroco no Brasil pinturas e desenhos de Frans Post, encarregado das pai-
sagens e feitos do Governador-Geral, e Albert Eckout,
O marco inicial do Barroco brasileiro data de
responsável pelo registro dos tipos humanos, da fauna
1601, quando Bento Teixeira publicou o poema épico
e flora da “Nova Holanda”, nome de Pernambuco na-
Prosopopeia, com estrofes em oitava rima e versos de-
quela época.
cassílabos, tal qual Os Lusíadas, de Camões, cujo mode-
Frans Post tinha apenas 24 anos quando che-
lo ele seguiu de perto.
gou ao Brasil. Morador de Recife entre 1637 e 1644,
Embora naquela época não houvesse um público
acompanhou a movimentada campanha do governador,
leitor significativo no Brasil, a poesia barroca ganhou
documentando a paisagem e registrando portos e forti-
impulso com a fundação de várias academias literárias
ficações do Maranhão à Bahia.
entre os anos de 1720 e 1750. Vicejaram por todo o sé-
© Divulgação

culo XVII e início do século XVIII, mas foram sufocadas


pela fundação da academia chamada Arcádia Ultra-
marina, em 1768, e pela ascensão da poesia árcade.

Peculiaridades do Barroco brasileiro


Embora o Barroco brasileiro esteja ligado aos
modelos lusitano e espanhol, peculiaridades diferen-
ciam-no destes.
Durante todo o século XVII, sob o domínio es-
panhol, continuavam a chegar ao Brasil imigrantes
Aleijadinho
atraídos pela riqueza, portugueses e demais euro-
peus, e interessados na exploração da terra. Foi o caso
dos franceses, que tentaram dominar o Maranhão no
começo do século XVII.

126
Um Barroco miscigenado
O mundo colonial brasileiro do século XVII não foi influenciado apenas pelo Barroco português, mas, sobre-
tudo, foi pressionado economicamente, graças à imensa exploração de riquezas naturais, de ouro, principalmente.
Em razão disso, o Barroco brasileiro tornou-se uma manifestação miscigenada das culturas europeia, negra e
nativa. Os espaços do Brasil colonial que lhe serviram de cenário foram principalmente o Nordeste e o estado de
Minas Gerais.
Ligado ao ciclo da cana-de-açúcar, o Barroco nordestino aproximou-se da aristocracia rural, exuberante e
pomposa, e refletiu-se na riqueza das construções eclesiásticas e nas amplas acomodações das casas-grandes.
A cidade de Salvador, na Bahia, ainda conta com cerca de 80 igrejas e vários solares e casarões inspirados
no Barroco.
No século XVIII, o Barroco mineiro sobrepujou o da metrópole portuguesa, notadamente nas cidades au-
ríferas de Minas Gerais. Naquela região, sobressaíram as notáveis obras do escultor e arquiteto Antonio Francisco
Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho, cujo trabalho pautou-se pela experiência com materiais locais – pedra-sabão e
madeira. O pintor Manuel da Costa Ataíde (1762-1830) deixou mostras de seu talento em pinturas e afrescos nos
tetos e laterais de igrejas mineiras.

127
INTERATIVI
A DADE

ASSISTIR

Filme O Brasil de Pero Vaz caminha – Direção: Bruno Laet - 2011

Vencedor do Prêmio SESC Rio de Fomento à Cultura, em


2010 – na categoria Novos Talentos, Cinema Documen-
tário –, O Brasil de Pero Vaz caminha se baseia naquele
que é considerado o primeiro documento histórico e
literário do Brasil: a carta de Pero Vaz de Caminha.

Filme Caravaggio – Direção: Derek Jarman - 1986

A curta vida do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (Nigel


Terry) desde a infância e decepções do início da carreira até os últimos
sucessos, a amizade com um cardeal e a relação destrutiva com um
lutador (Sean Bean) e sua namorada (Tilda Swinton).

Filme 1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO

Vinte anos da vida de Colombo, desde quando se convenceu de que o


mundo era redondo, passando pelo empenho em conseguir apoio financei-
ro da Coroa espanhola para sua expedição, o descobrimento em si da Amé-
rica, o desastroso comportamento que os europeus tiveram com os habi-
tantes do Novo Mundo e a luta de Colombo para colonizar um continente
que ele descobriu por acaso, além de sua decadência na velhice.

128
LER

tt
Livros
Dialética da colonização – Alfredo Bosi
Em capítulos que vão de Anchieta à indústria cultural, Alfredo Bosi, o
conceituado autor da clássica História concisa da Literatura Brasileira,
persegue com sensibilidade as formas históricas que enlaçaram coloniza-
ção, culto e cultura. Dialética da colonização é o resultado deste percurso
sui generis na história do pensamento brasileiro.

O barroco – Victor Lucien Tapié


Dividido em duas seções, "Concepções Barrocas" e "Experiências Barro-
cas", o volume examina esse fenômeno de arte notadamente nos séculos
XVII e XVIII, sem esconder do leitor observações realmente novas e suges-
tivas concernentes ao estilo, que muitos reputam ser de glória, outros
digno dos períodos de decadência, mas que, todavia, emprestou às
cidades históricas de Minas o seu fausto e o ar sempiterno que ressumam.

129
ARTES PLÁSTICAS

Projeto para a fachada da Igreja de São Francisco, em São João del-Rei (Aleijadinho)

Retábulo da capela-mor da Igreja de São Francisco, em São João del-Rei (Aleijadinho)

130
Estrutura Conceitual
Literatura de informação
e literatura jesuítica

Pero Vaz de Caminha e


José de Anchieta

Idade Média Idade Moderna

Quinhentismo
Trovadorismo Humanismo Classicismo
Barroco

Movimento vinculado a
conflitos de cunho religioso

Uso de antíteses
e paradoxos

Cultismo e conceptismo

131