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EDIÇÃO POPULAR

PARA COMMEMORAR O TRICENTENÁRIO

DE

LUIZ DE CAMÕES
príncipe: dos poe:tas peninsul.ars-s
COMEDIAS
DE

LUIZ DE GAMÕES

EDITOR
A. L. LEITÃO

^ •

LISBOA
Typographia Luso-Hespanhala
Z','}, Travessa (lo Tabral, '.i'ò
Digitized by the Internet Archive
in 2010 with funding from
University of Toronto

http://www.archive.org/details/comediasdeluizdeOOcam
COMEDIAS
DE

LUIZ DE GAMÕES

EDITOR
A. L. LEITÃO

^ '

LISBOA
Typographia Luso-Hespanhola
Z'.'}, Travpssa do Cabral, '.io
1 .'
I . X !' '•

^~rr- o f^^
ELPiEI SELEOGO

INTERLOCUTORES

Ko Pi*oi«èço

O Mordome, ou Dono áa Casa.


Martim Chincliorro. —
Ambrósio, Escudeiro.
Lançarote, Moço.

El-Rei Seleuco. — A Rainha Estratonica.


O Príncipe Antiocho. — Leocadio, Pagem do Príncipe Antioolio.
Frolalta, Criada da liainlia Estratonica.

Hum Porteiro da Cana. Huma Moça da Camará.

Hnm Physico, ou Medico. Sancho, Moço do Physico.
Alexandre da Fonseca, hum dos Músicos.
PROLOGO
Diz logo o Mordomo, ou Dono dci Casa.

Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz


representar huina Farça ; e diz, que por nào se encontrar com outras já
feitas, buscou uns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi
arrazoado satisfazer. E diz que quem se delia nào contentar, querendo
outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros
da Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua
Nova em casa do Boticário ; e nào lhe faltará que conte. Porém diz o
Autor que u ou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra.
se não parecer bem a todos, o Autor diz que entende delia menos que
todos os que lha puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos:
aos quaes diz que responde com hum dito de hum Philosopho, que diz:
Vós outms estudastes para praguejar, e eu para desprezar praguentos. Eu
com tudo quero saber da Farça, em que pooto vai. Lançarote?
Moço
Senhor.
Mordomo
Sào já chegadas as figuras ?

Moço
Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.

Mordomo
Como assi ?

Moço
Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão
de çapato, que nào sahisse fora do couce. Ora vierão huns embuçade-
tes, e quizerào entrar por força ei-lo arrancamento na mão
; derâo
:

huma pedrada na cabeça ao Anjo, e rasgarão huma meia calça ao Er-


mitão e agora diz o Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma
;

cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não porem huma estopada na cal-
ça. Este pantufo se perdeo alli mande-o v. m. Domingo apregoar nos
;

púlpitos que não quero aada do alheio.


;
DE LUIZ DE CAMÕES

Mordomo
Se elle fora outra peça de mais valia, tu botaras a consciência pela
porta fora, para o metteres em tua casa.

Moço
Oh ! se o elle fora, mais consciência seria tomá-lo a seu dono, qnem
o havia mister para si.

Mordomo
Ora vem cá vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que
:

temos cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá,
e que traga comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sobre o
Canto-chão botemos nosso contra-ponto de zombaria. Ouves, Lançaro-
te ? ir-lhe-has abrir a porta do quintal, porque mudemos o vinte aos
que cuidào de entrar por força.

Indo-se o Moço diz :

Chichelo de Judeo, assi eomo foste pantufo, que te custava ser hu-
ma bolsa com hum par de reales, que sào bons para Escudeiro hypo-
erita ; que são pouco, e valem muito ?

Mordomo
Moço, que estás fazend© que não vás ?

Moço
Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fora
aquelle tempo, em qu3 corriào as moedas dos sambarcos, sempre deste
tiraria para humas palmilhas. Mas já que assi he, diga-me v. m. que
farei deste?

Mordomo
Oh fideputa bargante ! esperae, que est 'outro vo-lo dirá.

Faz que lhe atira com outro pantufo: vai-se o Moco^ e diz o Mordomo:

Não ha mais máo conselho, que ter um villão d'estes mimoso, por-
que logo passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu
amo. Mas tomando ao que importa vossas mercês he necessário que
;

se cheguem huns para os outros, para darem lugar aos outros Senhores
que hão de vir; que de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar
em palanques, será bom mandar fazer outro alvalade e mais, que me
:

hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar, porque eu não sei quem
me quer bem, nem quem me quer mal: este sú desgosto tèe hum Auto,
; '

4: COMEDIAS

qiie he como oíiicio de Alcaide : ou haveis deixar entrar a todos, ou vos


hào de ter por villào ruim.

Entra Jlartim Chinchorro. /aliando com o 'Escudeiro Ambrósio, ediz:

Martim
''•
,
. Ç.ÇLtre^y., m. < Ir-ai .

'

Ambrósio
Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias: e por isso vou
diante. Beijo as màos a v. m. A
verdade he esta, passear em casa jun-
cada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas além •,

disto Auto para esgaravatar os dentes esta he a vida, de que se ha de


:

fazer consciência.
Mordomo
Senhor, o descanço dizem lá, que se ha de ter em quanto homem
puder, porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé,
que seu nome he.
Martim
Ora pois. Senhor, o Auto que tal dizem que he ? Porque hum Auto
enfadonho traz mais sòmno comsigo que huma pregação comprida.
Mordomo
Senhor, por bom mo venderão, e eu o tomei á cala de sua boa fama.
E se tal he, eu acho que, por outra parte, nao ha tal vida, como ouvir
hum villào, que arranca a falia da garganta, mais sem sabor que huma
pera-pào, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como Apos-
tolo, mais piedosa que huma lamentação.
Martim
Para estes taes he grande peca rapaz travesso com molho de junco,
porque nào andem mais ao coscorrào, mais roucos que huma cigarra,
trazendo de si enfadamento.
Moço
O pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escu-
iá Senhoras-,
deiro. Ora hi quem dó mais? que ainda vos veja todas a mim
sus, ha
ás rebatinhas: ora sus, venliào de mano em mano, ou de mana em mana.

Mordomo
Moço, falia bem ensinado.

Meço
Senhor, nào faz ao caL^o ;
que os erros por amores tèe privilegio de
oedeiro.
DE LUIZ DE CÁMUKS »5

Ambrósio
Ó ripaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por en-
trar. I iUiiti .'

Moço
Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.
^^ •'
Ambrósio
Oh que salgado moço I Zombas de mi V Vem cá. Donde és natural ?

Moço
D'onde qwer que me acho.

Ambrósio
Pergunto-te onde nasceste.
'•
Moço • •

Nas mãos das parteiras.

Ambrósio «ií» &d 4íují«í* okí l orao >

Em que terra ?

•iii.oq ti. Moço •• ^ •'


'

Ioda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, var-


rida daquella hora, que uào havia palmo de terra nella.

Martim
Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho és?
He para ver com que disparate respondes.
Moço
A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.

Martim.
Vem cá. De teu tio ! E isso como ?
'^

o 'Moço

vHjComo? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não enten-


tem. Meu pae era Clérigo, e os Clérigos sempre chamão aos filhos so-
brinhos; e daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.

Martim. >í5-irffrnH-:r

Ora ''" ®
te digo que és gracioso. Senhor, donde houvestes est*; ?
!

COMr.DIAS

Mordomo
Aqui me veio ás mãos sem pios nem nada e eu por gracioso o to-
;

mei ; e mais tèe outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós,
ou como eu, ou como o Chiado.
Ambrósio
Nà# quanté disso nós hav^mos-lhe de vêr fazer alguma cousa, em
!

quanto se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que


vêraios a este ?

Mordomo
Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste ámoça Briolanja, por
amor de mi
Moço
Senhor, si, direi; mas aquella trova nào he senão para quem a en-
tender.

Martim
Como ! tão escura he ella ?

Moço
Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu nao sei escre-
ver senão com carvão; e porém diz assi:

Por amor de vós, Briolanja,


Ando eu morto,
Pezar de meu avô torto.

Martim
Oh como he galante í Que descuido tão gracioso Mas ! vem cá: que
culpa te têe teu avô nos desfavores que te tua dama dá ?
Moço
Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguém, não pezarei eu an-
tes dos meus parentes, que dos alheios ?

Mordomo
Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas,
que trombeta de Sereníssimo de la Valia.
Moço
A volta, Senhores, he mui funda; e pa:ece-me. Senhores, que nem
àe mergulho a entenderão. £ por isso mandem assoar os engenhos, e
. .

DE LUIZ DE CAMUES i

metào mais hiuiía sardinha no entendimento; e pode ser que com esta
servilha lhe calçai'á melhor: e todavia paira assi:

Vossos olhos tao daninhos


Me tratarão de feição,
Que não ha em nifu coração
Em que atem dous réis de cominhos.
Meu bem anda sem focinhos
Por vós morto,
Pezar de meu avô torto
Martiin
Ora bem : que tèe de ver os cominhos com o teu coração?

Moço
Poig, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella,
não se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha da-
ma era tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.
Martim
E aquella regra que diz, Meu hem anda sem focinhos, me dá tu a
entender; que ella não dá nada de si.
Moço
Nunca vossas mercês ouvirão dizer. Meu bera e meu mal lutarão li nm
dia; meu bem era tal, que meu mal o vencia f Pois d'esta luta foi ta-
manha a queda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os
focinhos e por hcarem tão esfarrapados, que lhe não podião botar pe-
;

daço; p-jr conselho dos Phvsicos lhos cortarão por lhe nelles não salta-
rem erpes; e daqui ficou: Meu bem anda sem focinhos, como diz o texto.
Ambrósio
Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de
S. Nicoláo.
Martim
Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para
Lógico
Moço
Que, Senhor ! Natural para loja ! Si, mas não tão fria como vossas
mercês.
Mordomo
Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui
por baixo desta mesa, e oaçamos este Representador, que vem mais
amarrotado dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em
terra, e o tira da arca de cedro.
o COMEDIAS

Martim
Senhor, elie parece que aprende a cirurgião.
Ambrósio
Maia parece ourinol capadu, que anb a de amores com a menina do'»
olhos verdes.
Mordomo
Emfim, parece figura de Auto em verdade.
Kntra o Representadur

He lei de direito, assaz verdadeira.


Julgar por si mesmos aquillo que vem :

. Peloquo, se cuidào que zombo de alguém.


Eu cuido que zombào da mesma maneira.
E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer
seu próprio engano, por grande que seja. Ora, senhores, a mim me es-
quece o dito todo de ponto em claro mas nào sou de culpar, porque
:

nào ha mais que três dias que mo derào. Mas em breves palavras direi
a vossas mercês a summa da obra ella he toda de rir, do cabo até á
:

ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzellas que vào fugidas


de casa de seus pães, e vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas
vem logo oito mundano.s, metidos eni hum covào, cantando: Queiii o.v
amores tòc em Cintra: e despois de c;uii.arc'm farào huma dança de es-
padas; cousa muito para vêr: entra mais El-E,ei D. Sancho bailando
os machatius, e entra logo Catharina Real com huns poucos de parvos
n'huma joeira: e semeá-los-ha pela casa, de que nascerá muito manti-
mento ao riso. E nisto fenecerá o Auto, com musica de chocalho e bu-
zinas, que Cupido vem dar a huma rdfeloeira a quem quer bem e ir- :

se-hao vossas mercês cada Imm para suas pousadas, ou consoarão cá


comnosco disso que ahi houver. Ora pois ficareis m
vaniim laboravorunt,
porque atégora zombei de vós. por me forrar do erro da representação,
como quem diz, digo-to, ardes que mo digas. i^^W-ja «t. -f •

Ambrósio
Ora vos digo, Senhores, que se as figuras sào todas taes, que acor-
tariSo em errar os ditos ainda que me parece que este o nào fez, senào
:

a ser mais galante. Mas se assi he, ella é a melhor iuvençào que eu vi:
porque jágora representações, todas he darem por praguentos; e sào tào
certas, que he melhor erra las, que acertá-las.

Xordomo
Parece-me que entrão as figuras de sIpo: vejamos se síiio tào galan-
tes na prática, como nos vestidos.
; :

DE LUIZ DE CAMÕES

Rei
Entra El- Bei Hdtiico, com a Rai-
nha Esfratonica. I
Novidades lhe chamais !

I Folgo, Senhora, que achais


Na velhice novidades.
Rei j

Rainha
Senhora, desque a ventura I

Me quiz dar- vos por mulher, Senhor, dias ha que sento


Em
i

Me sinto emraeninccer 1 o Principe Antiócho


Porqu'em vossa formosura Certo descontentamento :
I

Perde a velhice seu ser. I


Dera alguma cou-a a troco
Hum liomem velho, cansado, Por saber seu sentimento.
Não t?e força, nem vigor, Vejo-lhc ainarello o rosto.
Para em si sentir amor Ou de triste, ou de doente :

Se não he qu'estou mudado Ou elle anda mal disposto,


Com ser vosso n'outra côr. Ou lá t?e certo desgosto
Muito grande dita tem Que o nào deixa ser contente.
A mulher que he formosa. Mande, Senhor, vossa Alteza
A chamá-lo por alguém.
Rainlia Saberemos que mal tem,
Senhor, griínde mas porém
:
Se he doença de tristeza,
Se a tal he virtuosa, De que nasce, ou de que vem.
Quer-lhe a ventura mor bem. Rei
Rei Certo qu'eu me maravilho no o.V/ ,

Do que vos ouço dizer.


Si, mas porém imnca vemos Que mal p-Vlê nelle haver ?
A natlireza esmerar Ide dizer a meu lillio ,<.<)qtn:
Adonde haja que taxar; Que me veiiha logo ver.
Que quando ellg, faz extremos,
Y.xntudo (|uer-se cxtremur. JElainha
Eu como qiiem sente
fallo '
' apioq 1:1

Se curar nào se procura


Em vós esta culidade, Huma cousa destas tais,
Pelo que vejo, presente: Vem despois a crescer mais.
E se me esta mostra mente, Quando ja níío se acha cura,
Mente- me a mesma verdade. Toda a cura he por demais.
Huma 8Ó tristeza tenho
Que nào t^-e a nieniiiice,
Entra o Pi-íncipe Aniiocha^ com seu
Que no mor contentamento
O trabalho da velliice pagem par nome Leocadio.
Me embaraça o sentimento.
Principe
Rainha
Leocadio, se és avisado,
Senhor, novidades tais E nào te falta saber,
Far-mo hào crer de verdade... Saber-me-has dar a entender,
; ! ! ; !

10 COMEDIAS

Quem ama desesperado, Quero-me chegar a ElRei


Que fim espera de haver? Meu pae, que ja m'está vendo.
Mas onde vou ? Na o m'enteudo.
Pagem Com que olhos eu olharei
Senhor, não. Hum pae, a quem tanto otFendo?
Mas porém porque razào Que novo modo de antolhos !

Lhe avem sabê-lo, ou de que? Porque neste atrevimento


Devera meu sentimento
Príncipe Para elle não ter olhos,
Pergunto-te a couclusào Nem para ella pensamento.
Não me perguntes porque.
Porque he minha pena tal, Chega onde. está ElRei
E de tao estranho ser,
Que me hei de deixar morrer Rei
E por não cuidar no mal
O não outío de dizer. Filho, como andais assi?
Que maneira de tormento Que tanto desgosto tomo
Tão estranho e evidente, De vos ver como vos vi
Que nem cuidar se consente
Príncipe
Porque o mesmo pensamento
Ha medo do mal que sente. Não sei eu tanto de mi,
Que possa saber o como.
Pagem Dias haja, Senhor, que ando
Não entendo a Vossa Alteza. Mal disposto, sem suber
Este mal que pessa ser ;
Príncipe Que se nelle estou cuidando-,
Assi importa á minha dor. Quasi me vejo morrer.

Pagem Rei
E porque razão, Senhor? Pois, filho, será razão
Que meus Physicos vos vejão.
Príncipe
Príncipe
Para que seja a tristeza
Castigo do meu temor. Os Physicos, Senhor, não ;

Porque ordena Que os males qu'em mi estão,


O Amor, que me condena, São curas que me sobejão.
Qne se haja de sentir, Rainha
E sem dizer nem ouvir.
Bem-aventurada a pena Deite-se; que na verdade
Que se pode descobrir ! Hum corpo, deitado e manso,
Oh caso grande e medonho Descansa á sua vontade.
Oh duro tormento fero !
Príncipe
Verdade he isto, qu'eu quero?
Não he verdade, mas sonho Senhora, esta enfermidade
De que acordar não espero. Não se cura com descanso.
: ; !

DE LUIK DB CAMUES 11

Hainlia Moça
Todavia, bom será Jesu Quem
! 'stá ahi ?
Que lhe facão huma cama. Porteiro
Príncipe Ja vós, mana, éreis mamada :

fHum coxim abastará. Para vos levar furtada


Que assi não descansará Nunca tal ensejo vi.
O repouso de quem ama.) E vós estais descuidada!

Rei Moça
Vamos, filho, para dentro. E meus descuidos que fazem?
Em cama se faz
quanto a :
Porteiro
Repousae como capaz
Que a mi me dá cá no centro Vossos descuidos ? cadella
A pena que assi vos traz. Ah minh'alma Sois tão bella,
!

Qu'esse3 descuidos me trazem


Vão -se, e vem huma moça afazer Dous mil cuidados á vela.
a cama e diz Pois sou vosso ha tantos armos,
Mana, tirae os antolhos,
Moça E vereis meus tristes dannos.
Mimos de grandes Senhores, Moça
E suas extremidades,
Me hão de matar de amores. Não tenhais esses enganos.
Porque de meros dulçores Porteiro
Adoecem.
Então logo lhes parecem Nem vós tenliais esses olhos ;

Aos outros, que são mamados ;


Que de vossos olbos vem
E os que são mais privados. Esta minha pena fera.
Sobre elles estremecem. Moça
Certo (e assi Deos me ajude !)
Que são muito graciosos, De meus olhos? Assim era.
Porque de meros viçosos.
Porteiro
Não podem com a saúde.
Mas deixallos. Moça, que taes olhos tem.
Porque darão nos vallos,
elles Nenhuns olhos vêr devera.
Donde mais não se erguerão, Moça
Inda que lhe dem a mão
Os seus privados vassallos.
E porque?
Porteiro
Entra um Porteiro da Cana, e ba- Porque cegais
te primeiro e diz :
A quantos olhos olhais,
Postoque por vós padecem.
Porteiro
Olhos, que tão bem parecem,
TraZ) traz. Porque não os castigais?
!

12 COMEDIAS

Moça I Moça
I

Deos dê siso, pois de vós Cego no saber andais.


Tirou o qne aos outros deu.
, Porteiro
Porteiro
Xo siso, mas não tào louco
Desatae-me lá esses nós. Como vós, mana, cuidais.
Que Diais siso quero eu, Ora dizei, duna má :

Que nào ter siso por vós? Que nào amais, quem vos ama?
Moça Moça
Fallaií d'arte eu vos prometo
; Ouvistes vós cantar ja,
Que a resposta vem á vela. Velho maio, em minha cama?
Isso é úlho de pauella. Ja m'entendereis.
Quauto ha já que sois discreto?
Porteiro U
Porteiro
Ha, ha.
Quanto ha já que vós sois bella ? Senhora, estaes enganada;
Que com huma capa e espada,
Moça E com este capuz tora. . .

Dais -me logo a entender


Que eu sou feia, a meu ver.
Moça
Ora bem : tirae-o ora.
Porteiro 3
E fazei huma levada.
E isso porque o entendeis ?
Porteiro
Moça Não se m'eu hoje alvoroço,
:

Porque? Porque me dizeis Achar-me-heis d"outra feicâo. *


Que de meu parecer
S'')

Vos procede o que sabeis. Aqui tira o capuz \*

Porteiro Porteiro
He verdade. Tenho má disposição?
Estas obras são de moço,
Moça Se as montras de velho sâo.
Pois bem sento
Moça
Que o vosso saber é vento.
Fica a cousa declarada, Tendes mui gentis meneios. .^.j

Meu parecer nào ser nada. Porteiro ^^


Porteiro
Não, Senhora ; faço extremos. ;A
Olhae aquelle argumento :
Moça
Além de bella, avisada!
Oh nem tanto, nem tào pouco Passeae ora, veremos
Vede vós o que fallais. Se tendes tão bons passeioSf xã^T
!

DE LUIZ DE CAMÕES 13

Porque já o ÃrríÓf orSena


Porteiro
A dar a meu mal sabida;
Tudo, Senhora, faremos. Porque o íim da minha vida
Meça O seja da minha pena.
Não tarde, para tomar
Virae ora a essoutra mào. Vingança de meu querer,
Pois nào pe pode dizer
Porteiro
Que nào tèe ja que esperar,
Esta dispo8Íçuo víicle-a- Xem com que satisfazer?
Que tenho gentil feiçào. Os Physicos vem e vào,
Sem sabereín minhas mágoas.
Moça Nem o pnlso me acharào;
Tendes vós inui boa rédea, E se o querem vér nas ágoas.
Soôreis ancas ? As dos olhos lho dirào.
Se com sangrias também
Porteiro
Procurào-me vér curado:
Isso nào. O temor de meu cuidado
O mais do sangue me tem
Moça Nas veias todo coalhado.
Por certo que tendes ^aça Quero-me aqui fucostar,
Em tudo quanto fizerdes. Que ja o esprito me cae.
Fazei mais o que souberdes. Leocadio, vac-me chamar
Os Músicos de meu Pae;
Porteiro
Folgarei de ouvir cantar.
Nào sei cousa que nào faça,
Senhora, por me quererdes. Aqui Hd deito.. <:',i..o que repousa,
e falia dizendo assi:
Moça
Tendes vós muito bom ar. Senhora, qual desatino
]Me trouxe a tanta tristura?
Porteiro
Foi, senhora, por ventura
Mais qu'isto faz quem quer bem. A força do meu destino,
Como vossa formosura?
Meça B=ím conheço que nao posso
I-vos asinha, que vem Ter tào alto pensamento:
O Principe a -n deitar. Mas disto só me contento,
Que se paga com ser vosso
Porteiro
O mór mal de meu tormento.
Nunca huma pessoa tem
Hum'hora para fallar Entrào os Mu.ricos e diz Alexandre
Entra o Princrpf. ci.m o seu Pagetn da Fon.-eca., Jiuia delles:
Leocadio e diz:
Alexandre
Principe Senhor, de quo se acha mal
Seja a morte apercebida; O principe, ou que mal sente?
; ; ;

u COMEDIAS

Qu'eu cuido que esta fadiga.


Pagrem Que o faz com que desespere
Senhor, sei que está doente; Y por mas tormento quiere
Mas sua doença he tal, Que se sienta, y no se diga.
Qu'entender se não consente. Alexandre
Os Physieos vem e vào,
Huns e outros a meude, Pois, Senhor meu, isso asselle,
Sem o poderem dar são. Porque a pena, que sabeis,
Quanto mais cura lhe dão, Que eu cuido que está nelle,
Então tèe menos saúde. Dar-lhe-ha penas cruéis,
O Pae anda era sacrifícios Pues no hay quien la consuele.
Aos deoses, que lhe dem Porteiro
A saúde que convém;
Dizendo que por seus vícios Folgo, porque m'entendeis.
O mal a seu fílho vem. Pagem
Eu suspeito qu'isto são
Alguns novos amorinhos, Hemo-nos, Senhores, de ir,
Que terá no coração. Porque nos está 'sperando.
Alexandre Porteiro
Amores com quem serão,
! Pois eutambém hei de ir;
Que lhe não dem de focinhos? Que não me posso espedir
Donde vejo estar cantando.
Porteiro
Príncipe
Senhores, que lhe parece
Da doença de Antiôcho? Cantae, por amor de mi,
Alguma cantiga triste
Alexandre
Que todo meu mal consiste
Diga -lha quem lha conhece Na tristeza em que me vi.

Pagem Porteiro
Que toma morrer a troco Mande-lhe cantar hum chiste.
De callar o que padece
Alexandre
Porteiro
Chiste não, que he deshonesto,
Isso he estar emperrado E não tèe esses extremos :

Na doença; que he peor. Outro canto mais modesto


Tèe-no os Physieos curado? Porém não sei que diremos.
Alexandre Pagem
Oh que de mal dei amor
! Gaoleão o dirá presto.
No ha, SeCor, sanador. Porteiro
Porteiro
Dá licença V. Alteza
Fallais como exprimentado; Que diga minha tenção ?
: : :

DE LUIZ DN CAMÕES 15

Príncipe Porteiro
Dizei : seja em canto- chào. Vós cuidareis qu'eu que raivo.

Porteiro Alexandre
Pois crede qu'he subtileza, Todavia tèe máo saibo.
Qu'o8 Anjos a comerão. Ora mal lhe corre o officio.
Digão esta :

Príncipe
Enforquei minha esperança,
E o Amor foi tão madraço, Tá, não vá mais por diante
Que lhe cortou o baraço. A zombaria, que he má
Cantae qualquer delias ja ;
Alexandre
Qu'esse Porteiro he galante.
Não me parece essa boa. Ninguém o contentará.

Porteiro Aqui cantão, e acabando, diz o


Haja eu perdão,
Porque não a entenderão.
Pagem
Parece que adormeceo.
Alexandre
Porteiro
Entender
Pois será bom que nos vamos.
Porteiro
Alexandre
Bofe qu'he boa :

Não lhe cahis na feição? Senhor, quer que nos vejamos ?

Alexandre Porteiro
Dizei ora outra melhor, Senhor vir-me-ha do Ceo :

Ck)m que nos atarraqueis. Releva-me que o façamos.

Porteiro Entra a Bainha com huma sua


Criada par nome Frolalta, e diz
Ora esperae, e ouvireis
Se a esta não dais louvor. Rainha
Quero que me degoUeis.
Frolalta, como ficava
Antiôcho em te tu vindo ?
Cantiga
Frolalta
Com vossos olhos Gonçalves, Ficava-se despedindo
Senhora, captivo tendes Da vida qu'então levava,
Este meu coração Mendes. E assi seus dias cumprindo.
Alexandre Rainha
Essa parece mui taibo, Oh grave caso d'amor ?

Porque mostra bom indicio. Desesperada affeiçào !


;

16 COMEDIAS

Oh amor sem redempçào, Porque, se queres sentir,


Que alli te fazes maior A huma mulher discreta
Onde tens menos rasào !
Tudo se ha de descobrir
No mais alto e fundo pego O dia qu'eatrei aqui,
Alli tens maior porfia : Que a Seleuco recebi.
Rasào de ti nào se fia. Lego nesse mesmo dia
Quem a ti te chamou cego, No Príncipe filho vi
Mui bem soube o que dizia. Os olhos com que me via.
Por ventura liia chorando ? Este principio soffri-lho,
Para vêr se se mudava
Frolalta Antes mais se accrescentava :

Chorando hia c chamando Eu amava-o como filho,

Ao Amor, Amor cruel ;


E eile d'outr'arte me amava.
E em, Senhora, se deitando Agora vcjo-o no fim
Lhe cahio este papel. Por se me níto declarar.
E pois ja que a isso vim,
Rainha A morte que o ícvar,
Que papel ? Me leve também a mim.
Porque ja que minha sorte
Frolalta Foi tào crua e desabrida,
. Este, Senhora. Que me nào quer dar ganida ;

Sejamos juntos na morte.


Rainha Pois o nào somos na vida.
Amostra, que quero lê-lo. Oh quem me mandou casar,
Agora acabo de crê-lo ^ Para vêr tal crueldade I

Que ao que mostra per fora, Ninguém venda a liberdade,


Pois nào pode resgatar
Aqui lhe lançou o sello.
Onde não tee a vontade.
Aqui Ic o painel Que nào ha mor desvario.
Oh estranha pena fera !
Que o forçado casamento
Desditosa vida chara !
Por alcançar alto assento;
Que, emtím, todo o senhorio
Oh quem nunca cá viera,
Está no contentamento.
E com seu Pao niio casara,
Ou em casando morrera !
Não sei se o vá vêr agora.
Se será tempo conforme,
Frolalta Ou se imos a deshora.
Aindaque eu peca sào, Frolalta
Senhora, tudo bem vejo.
Despois iremos, Senhora,
Attentf", que na eleioJio
Que agora dizem que dorme.
O que lhe pede o desejo
Nào consente o coração. Entra o Physico a tomar-lhe opid-
so, e tomando -o diz :
Rainha
Physico
Frolalta. pois qu'és discreta
Nada te posso encobrir •,
Su madrasta oyó nombrar.
LUíZ DK CAMÕES 17

Y el pulso se le aiteró : Embíeme aoá el ropoii.


Esto uo entiendo yo. Que no bailo mi vestidura.
Porque para le alterar Physico
El corazou le obligó.
Pues que el corazon «e altere, Que embie el ropon acá ?
Es porque en un uiomento Parece que os desmandais.
Algun uuevo venciíniento
Sancho
De afícion terrible le hiere,
Que causa tal movimiento. Que vaya, Senor? ha, ha.
Pues que aíicion cabe así Que buenos dias hayais.
Con madrasta ? Digo yo,
Entra o moço embrulhada em huma
Dos razones hay aqui :

manta.
La una dice, que si, Physico
La otra dice, que no.
Empero yo determino Di como vienes así
De exprimentar la verdad. Con la manta, y para qué?
Y hacer una habilidad. Sancho
Que declare es agua, ó \'iuo
Esta su enfermedad. Yo, Senor, se lo diré:
Porque toda esta mailana Por venir presto vesti
Tengo estudiado su mal, : Lo que mas presto me hallé:
8in ver causa efectuai Porque viendo que èl me Uama,
De su dolência inbumana. Dormiendo yo sin afan,
Ni otra de su metal. ;
Salte presto de la cama.
Llamar quiero este asncjon : Que parezco un gavilan,
Mas aun debe de dormir, i
Hermoso como una dama.
Segun que es dormilon,
Sancho V ó Sanclio ? Physico
Sancho Mas es tu bovedad tanta.
Ah Seíior.
Que vienes desta facion?

Physico Sancho
Ea, aun estás dormieudo ? De mi vestido se espanta?
Sanclio , De noche sirve de manta,
' Y de dia de ropon.
Estoyme, Reijor, vestiendo,
Physico
Physico
Embióme ElRey á llamar
Paes vellaco y sin cahor. Utra vez.
No me respondes dormieudo V
Vestios presto, ladron.
Sancho
Oh qué mozo, y que ventura I Y á mi?
Sancho Physico
(Mas qué amo y qu»* cabron I) Y áti!
2
! ! ,

18 COMEDIAS

Empero, Senor, haré


Sanolio
La peor cara que pudiere.
Y él'qué presta allá sin mi?
Physico
Physico Ea, bovo, vé corriendo,
Qaé puedes tu aprovccliar? , Y ensilla la mula ayna.

Sancho Sancho
Yo se lo dii*c de aqui: , Véngala ensillar mejor.
Si por la ventura quiere
Physico
Para que le dé coní>ejo.
Guando doliente estuviere: . Oh velhaco, y sin sabor I

Di^ro, coma, si pudiere, !


Sancho
Y beba buen vino auejo;
Porque este es el licor j
Y'o por cierto no lo eutiendo.
Que dá fuerza. y es sabroso;
'

Pêro una medicina


Que seguu dicen, Sciior. Le he de pedir, Dios queriendo.
Vinvm íietificat cor !
(Porque ando atribulado,
Hominis, y le es proveehoso. I
Y no sé parte de mi
Coa este nuevo cuidado)
Physico
I

j
Para un sayo esfarrapado,
Ya sabes la medicina, {
Que me dicen hay alli.
Que Avicena nos refiere. Physico
Sancho Ora ensilla: y nunca viva,
j

Pues, Senor! porque es divina. I


Pues sufro tus desatinos.
Pêro ElRey qué le quiere,
Sancho
Qué manda, ó qué djelermina? ;

Phj^sico Seôor, pasion no reciva:


Ya cavalga Calaínos
El Príncipe está doliente.
A la sombra de una oliva.
Sancho
Oh mesquino Y qué mal ha?
I
Aqui salie holindo com a almofada
Physico e acorclu o Frincipe e diz:

Y á ti, necio, que te vá?


Sancho Príncipe
Oh Senor, que es mi parientc Oh bella vista e humana,
Physico Por quem tanto mal sostenho
Oh Princoza Soberana!
Gracioso el bovo está.
Como? nos braços vos tenho,
Y pues dime por tu í'é: Ou este sonho m'engana?
Llorarás si se muriere ?
Pois como, sonho, também
Sancho Me queres vir magoar?
No, Senor, no lloraré; E para me atormentar
DE LUIZ DE GAMÕES 19

Mostras -me a sombra do bem Principe


Para assi mais m'enganar?
Não tenho outro mantimento.
Assi que, com quanto canso,
Ja nào posso achar atalho.
Nem outro contentamento,
Senão o cm que imagino.
Pois que o somno quieto e manso,
Que os outros toe por descanso,
Me vem a mi por trabalho. Aqui eatra a Rainha t diz:

Pois ha hi tantos enganos


Que condemnào minha sorte; Rainha
Não o tenho ja por forte,
Como se sente, Senhor?
Se á volta de tantos danos
Viesse também a morte.
Tem a febre mais pequena?
Principe
Aqui eiiira ElBei com o Physico, t Responda-lhe minha pena.
diz:
Physico
Rei (Conocido es su dolor.
Andae e vede se achais Ora sea en hora buena,
O rasto deste segredo, Tomada está la tristeza
Que me dizem que alcançais; I
A manos.) Qué sentió?
las
Ainda que tenho medo ;
(Usaré de subtileza.)
Que lhe seja por demais.

Physico Diz contra ElRei:

Plega á Dios qne aqueste sea Cúmpleme que solo yo


Para salud y remédio Platique cou Vuestra Alteza.
Desta dulencia tan fea.
Yo buscaré todo el mcdio. Rei
Que presto sano se vea. Cheguemos-nos para cá.

Rainha
Aqui lhe toma o Physico o pulso
Nào deve desesperar^
Quem fim, se bem attentar.
Aflejen, Senor, sus ais. Para tudo o tempo dá
Como se halla en su peaar ? Tempo i)ara se curar.

Principe Principe
Como me acho perguntais? Que cura poderá ter
E como se pode achar Quem têe a cura, Senhora,
Quem sempre se perde mais? No impossível haver ?
Physico Rainha
(La respuesta abre el camino.) Ficae-vos, Senhor, embora,
Imagina de contino? Que vos nào sei responder.
20 COMEDIAS

Rei
Vai .se a llainha
Ora bem pouco defeito !

Rei
He pequice conhecida,
Quando deixa de ser feito :

Neste mal, que nào couiprendo, Porque com elle dais vida
Que meio dais de conselho ? A quem vos dará proveito.
Physico Physico
Senor, nada entiendo dello ;
Cuan facilmente aporfia
Y snpuesto que Io entiendo, Quien en tal nunca se vió !

Yo quisiera no eiitendello. Del cousejo que me dió,


Vuestra Alteza que haria
Rei
Si agora fuese yo ?
Porque ?
Rei
Phj^sico
A mulher que eu tivesse
Porque lie entendido Dar-lha-hia. Oxalá
Lo mas maio de enender, Que elle a Rainha quizesse !

Para lo que pnede ser,


Porque anda, Senor, ijordido Ph3'-sico
De amores por ani mugcr. Pues dela, si le parece,

Rei Que por ella muerto está.

Santo Deos que tal amor


I I
Rei
Lhe dá doenoa tào fera ! Que me dizfis?
Que remédio achais melhor?
Physico
Physico
La verdad.
Forçado será que muera,
Rei
Porque no muera mi honor.
Sem dúvida, tal sentistes-?
Rei
Physico
Pois como ! a hum só herdeiro
Deste Reino nào dareis 8iu duda, sin falsedad.
Vossa mulher, pois podeis Pues, Senor, ahora tomad
;

Que tudo faz o dinlieiro ? Los conspjos que me distes.


Pois este nào o engeiteis ; Rei
Dae-lha, porque eu espero
Certamente, qu"eu o via
De vos dar dinheiro honra, *-.

Em tudo quanto fallava.


Quanto eu j)ara elle quero.
Como o vistes ? porque via ?
Physico Physico
No tira el mucho dineio Ncl pulso, que se alterava
La mancha de la deshonra. Si la via, ó .si la oia.
:

DE LUIZ DE GAMUK3 21

Rei Porteiro
Que maneira ha de haver ? Isso como?
Qii'eu certo me maravilho.
Pasrem
Possa mais o amor do filho,
Do que pode o da mulher. Não o sei :

Finalmente hei -lha de dar, j


Porque dizem que a amava,
Que a ambos conheço o centro. E que só por ella andava
Quero-o ir alevantar, j
Para morrer e ElRei ;

E iremos para dentro Deo-a a quem a desejava.


Neste caso praticar.
Porteiro
Diz contra o Príncipe Se o casa por querer bem
Com a moça, a quem elle ama.
Levantae-vos, filho, dhi Direi eu que a mim me iuflama
O melhor que vós puderdes, O amor mais que a ninguém.
E vinde-vos para aqui ;
Pagem
Porque, emfim, o que quizerdes
Tudo havereis de mi. Pois pedi-Ihe a nossa dama.
Pagem Porteiro
Ah Senhores, oulá, ou ? Por São Gil. que ei-los cá vem,
Elle peia mão com ella.
Porteiro
Viestesem conjunção Entra ElRei, e Antiocho com. a
A melhor que pode ser :
Rainha pela mão, e diz :
Haveis aqui de fazer
A tosquia a hum rifão.
Rei
Pagem Que mais ha hi que esperar ?
Deixae-me, Senhor, dizer : Olhae qu'estrariheza vai I

Haveis isto de acabar, O muito amor ordenar,


Coração, hi bugiar, Ir-se o filho namorar
No esteis preso en cadeuas, D'huma mulher de seu Pai I

Que pois o amor vos deo penas, Querer bem foi sua dor,
Que vos lanceis a voar. Negar -lha será crueldade ;

Assi que ja foi bondade


Porteiro
Usar eu de tal amor,
Por certo que bem comprou. E de tal humanidade.
Elhi deixou de reinur
Pagem Como fazia primeiro
Ora sabeiso que vai ? Por se com elle casar;
Antiocho que casou E por amor verdadeiro
Com a muíher de seu Pai, Tudo se pôde deixar.
E o mesmo Pae o ordenou. Eu que nella tinha posto
22 COMEDIAS

Todo o bem de meu cuidado, j


Porqu'em tào grandes extremos.
Deixei mais que ella ha deixado; I Extremos se hão de fazer.
Que mais se deixa uo gosto. Hajào cantos para ouvir,
Que 110 poderoso estado. Jogos, prazeres sem fundo;
Mas ja que tudo isto vemos, Porque, se quereis sentir.
Hajào festas de prazer, Deste modo entrou o mundo.
As que melhor possào ser ;
E assi ha de sahir.
Aqui vem os MiUiicos e cantão^ e depois de cantarem^ sahem-se todas as
figuras, e diz
Martim Chinchorro

Ora, Seulior, tomemos também nosso pandeiro, e vamos festejar


os noivos ; ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta
lie a inór festa que pode ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na
volta das figuras nos acolheremos. Moço, accende esse móiho de cavacos,
porque faz «'scuro nào vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos
fique o ruço e as canastras. .

Estacio da Fonseca

Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de ti-
ções na mào e perdoem o máo gasalhado. Mas daqui em diante sir-
;

vào-sc desta pousada e nào tenhào isto por palavras, porque essas e
;

plumas, o v«'tito as leva.


os AMPHÍTRíOES

INTKPiLOíXTURKS

Amphitrião. — Alcmena, sua Mulher.— Callisto.



Feliseo.— Sosea, Moço de Auiphitnão. B remia, sua Criada.
Belíerrão, Patrào. — Aurélio, Primo de Alcmena.
Hum Moço de Aurélio. —Jiipiter. — Herciirio.
ACTO I

8CENA 1 Venha hoje alguma nova :

Xíto receba alteração.


Krdro. AlcKfsna. saudosa do mari- Que a verdadeira aíFeiçào
do, qiK he na f/uerra, e Bromia. Na longa ausência se prova.
Alcmena
Alcmena
Dizei logo a Feliseo
Ah Senlior Ainphitriào. Que chegue muito apressado
Oiide está todo ineu bem ! Ao cães. c busque mêo
Pois meus olhos vos nfio vem, j
De saber se algum recado
Fallarei co'o coraçào, Do porto Pérsico vêo :,

Que dentro n'alraa vos tem. j


E mais lhe haveis de dizer.
Ausentes duas vontade>, i
(Isto vos dou por officio'
Qual corre mores pericros. D'alguma nova saber.
Qual soffre mais erueldadcs. Em quanto eu vou faz^ir
Sc v<'t5 entre os inimigos, I Aos Deoses o sacrifício.
Se eu entre as saudades V !

Que a ventura, que vos fraz


Tào longe de vossa terra, SCENA IL

Tantos desconcertos faz.


Que se vos levou á guerra. 1 Bromia
Nào me cjuiz deixar em paz. 1
Saudades de uiinh'ama.
Bromia. quem com vida ter. j
Chorinho" e dovoròes.
Da ^ida ja desespera, I
Sacrifícios e oraçòes,
Que lhe j)oderás dizer? : Me hào de hmçar n'huma cama,
Certamente.
Bromia i

j
Nós mulheres de semente
Que nunca se vio prazer, I
Somos sedenho mui tosco :

Senào quando nào se espera. Com qualquer vento rjue vente,


Y^ por tanto nào devia i
Queremos forçadamente
De ter triste a phantasia : Que os Deoses vivào comnosco.
Porque Vossa .Mercê creia. I Quero Feliseo chamar.
Que o prazer sempre salteia j
E dizer-lhe aonde ha de ir.
Quem delle mais desconfia. I
Mas elle comcwme vir,
Eu tenlio no coração, I
Logo ha de querer rinchar,
Do Senhor Amphitriàe De travesso.
.

DK LUIZ DE OAMOKS 25

Eu que flf zombar nfio cesso,


Feliseo
For licar com elle em salvo,
Lanço-lhe hum e outro reciôsso •,
Dae ao demo essa tença©,
Aos seus íurto-llie o alvo ; Usae antes de corttís,
E então elle fica avesso. Cahi vós nesta razào.
Porque o melhor de.-tas d;inoa.s.
Bromia
Com huns viudlvos assi,
He trazô-los por uqiii Do p'risro fogem os péy.
O cheiro das esperanças, Do diabo o coraçíjo.
Por viver. Feliseo
Ha-03 homem de trazer
Nos amores assi morno?, Dizeis -me que nessa bríga
Si'» para ter que fazer : Do meu coração fugis.
E despois ao remetter
Bromia
Lançar-lhe a capa nos cornos.
Feliseo, se estais á mào, Ainda qu'eu isso diga. .

Chegae cá, vem como hum gamo :


Feliseo
Bem sei que não chamo em vâo.
Ah minha doce inimiga I

Bem .«into que me sentis.


SCENA III Mas para que me chamais ?

Bromia
Feliseo < Bromia
Manda-vos minha Senhora
' Que chegueis daqui ao cais,
Feliseo
E algumas novas saibais
ChamaÍ8-me ? também vos chamo; D'Amphitriil.0 nesla hora.
Porém eu ouço, e vós nuo :
Feliseo
Senhora, que me mat;iis,
!Se vós ja nunca me ouvis, Quem as não sabe de si,,
Ou me ouvis, e vos callais, D'outrem como as saberá ?
Dizei porque me chamais
:
Bromia
So me vós a mim fuíris ? j

i
]Sào as sabeis vós de mi ?
Bromia
1 Feliseo
Eu vos fujo ?
I

Feliseo j
M4 trama venha por ti.

]
Duna feiticeira mál
Fupris, digo, 1
Porque nào me ólluis direito,
De dar a meus inales cabo. j
Cadella, que assi me cortas?

Bromia I
Bromia
Sabei que desse p^^rigo i
Porque vos quero dar portas
NAo fujo como de imigo, Que s'eu olhar d'outro geito,
Fujo como do diabo. Trarei cem mil vidas mortas.
.

26 COMEDIAS

Feliseo Bromia
E pois para que me
andais Is-vos fazendo d'hun8 sengos. .

Enganando ba cem mil anos?


Feliseo
Broinia
Perdóneme Dios si peco.
Dou-vos vida com enganos.
Bromia
Feliseo
Nesses dentinhos frauiengos
Nesses euganinhos tais Conheço que sois hum peco
Acho cruéis desenganos. De todos quatro avoengos.
Bromia Feliseo
Quant 'esses vos quero eu dar: Tudo vos levo em capelo,
Vós cuidais que estais na sella? Ja qu'estais tanto em agríiço.
Pois podeis-vos descer delia; Porém, fallando singelo,
Qu'eu nunca vos pude olhar. A furto desse máo zelo,
Quereis-me dar hum abraço?
Feiiseo
Bromia
Jogais comigo ;i panella?
Tendes-me ha tanto captivo, Ora digo que nào posso
E desenganais- me agora? Usar comvosco de fero:
Tudo isto he o que privo. Tomae-o.
Assi que he isso. Senhora, Feliseo
Dochelo morto, dochelo vivo? Ja o niío quero.
Se me vós desenganais Porque esse abraço vosso,
No cabo de tantos anos, Sabei que he engano mero.
Direi, se licença dais,
Dais-me vida com enganos. Bromia
Desenganos, ja chegais. Oh! vós sois d liuns sensabores.
Mas se isso havia de ser, Abraço pedis assim?
Dizei, má desconhecida_. b'eu remango d'uia chapim. .

Desterro de meu viver,


Que vos custava dizer Feliseo
Amor, vae buscar tua vida? Tudo isso sào favores:
Zombae, vingae-vos de núm.
Bromia
Zombais? Fallais-me coprinhas?
Bromia
Vós de furioso touro
Feliseo As garrochas nào sentis.
Rir-vos-heis se vem á mito: Feliseo
Copras nào, mas isto sào Vedes, com isso só mouro:
Aníiias y pasiones minhns Quando cuido que sois onro,
Dos bofes e coracào. Acho-vos Ioda ceitis.
DE LUIZ DE CAMUiCS

Bromia
SCENA IV
Emfim, sanha de villào
Vos fez perder hum bom dia. Feliseo só

Feliseo
Phantasias de donzellas,
Jagora o eu tomaria; Não ha quem como eu as quebre;
Quereis-mo dar? Porque certo cuidão ellas,
Que com palavrinhas bellas
Bromia Nos vendem gato por lebre.
Ora não. Esta têe lá para si
Cocei-vos eu todavia. Qu'eu sou por ella finado;
Feliseo E crê que zomba de mi;
E eu digo-lhe que si,
Pois, Senhora, a quem vos ama Sou por ella esperdiçado.
Sois tão desarrazoada, Prezci-se d'humas seguras;
Quero tomar outra dama; E eu não quero mais Fraudes:
Que uuo dig-ão os d'Alfama Dou-lhe trela ás travessuras.
Que não tenho namorada. Porque destas coçaduras
Bromia. Se fazem as chagas grandes.
Deixae-me. Qu'estas, que andào sempre á vela>
Feliseo Estas vos digo eu que coço;
Porque de firmes na sella,
Vós me deixais.
Crem que falsão a costella,
Bromia E ficào pelo pescoço.
Deixae-me. Que quando ^^
-tas damas tais
Feliseo Me cachão, então recacho.
Mas disto agora nó mais-
Zombais de mi? Quero-me ir daqui ao cais
Bromia Vêr se algumas novas acho.
Deixae-me. Pois m'engeitais.
Eu me ausentarei daqui SCEXA V
Onde me mais não vejais.
Jujyiter e Mercúrio
Feliseo
Boa está a zombaria! Júpiter
Bromia Oh grande e alto destino!
Não são essas minhas manhas. '
Oh potencia tão profana!
Feliseo Que a setta d'hum menino
Faça que meu ser divino
Porém is-vos todavia?
j
Se perca por cousa humana!
Bromia j
Que m'aproveitão os ceos,
Voyme á las tierras estraiias j
Onde minha essência mora
Adó ventura me sruia. i
Com tanto poder, se agora
28 COMEDIAS

A qnem me adora por deos, Mas tu, que dos sabedores


Sirvo eu como a senhora? Tanto avante sempre estás.
Oh quào estranha aíieiçào! Se deos és dos mercadores,
Quem em baixa cousa vai pôr Sê-lo-has dos amadores,
A vontade e o coraçno, Pois tal remédio me dás.
Sabe tào pouco d' Amor, Ponha se logo em effeito:
Quão pouco Amor de razão. Que nào soffrc dilação
Mas que remédio hei de ter Quem o fogo têe no peito;
Contra mulher tào terribil, E tu vae logo direito
Que se nào pode vencer? Aonde anda Amphitriào.
Mercúrio
SCENA VI
Alto Senhor, teu poder
O difficil faz possibil.
Feliseo e CalUsto
Jupiter
Feliseo
Tu nào vês qu'esta mulher
Se preza de virtuosa? I
Ad(5 bueno por aqui,
Tào longe do acostumado?
Mercurio I

Callisto
Senhor, tudo pode ser:
j

Que para quem muito quer, Mais longe vou eu de mi,


Sempre a afteiçào lie manhosa. D'ir perto de meu cuidado.
Seu marido está aumente
Feliseo
Na fiTuerra. longe d'áqui;
Tu, qu"és Jupiter potente, No andar vos conheci.
Tomarás sua forma em ti:
Callisto
Que o farás mui facilmente.
E eu me transformarei j
E vós onde vos lançais,
Xa de Sosea, criado seu: '
Com A ossa contemplação?

E ao arraial me irei. Feliseo


Onde logo saberei
Como se a batalha deu. Eu chego daqui ao cais
E assi poderás entrar, A saber de Amphirrulo:
Em lugar de seu marido: Nào sei se vou por demais.
E parM que sejas crido,
Callisto
Poderás também contar.
Quanto eu lá tiver sabido. Porque por demais dizeis?

Jupiter Feliseo
Quem íirde em tamanho fogo Porque nada alli ha certo.
Tira-lhe a virtude a cor
Callisto
De subtil e sabedor;
E quem fora está do jogo ! Novas lá nào as busqueis,
Enxerga o lanço raelhor. i
Que aqui as tendes mais perto.
!

Di: LUIZ DE CAMUKS 29

Feliseo Feliseo

Pois dae-mas jú, se as sabeis. Com hum Mercíidor, que veio


Agora do P^gypto, rico.
Callisto
Callifeto
Hum navio lie já clieg-ado
água no bico.
Isso traz
A barra, que vem de lá;
Esse homem he parvo, ou feio?
Traz de Amphitristo recado,
Diz que o deixa embarcado Feliseo
Para se vir para cá.
Têe vencido aquelle Rei-, Pois vedes? disí-e me pico.

E lhe <uvi,
diz, se<íuiiiio
E em pago d 'esta traiçào,

Qu'esta noite será aqui.


Afora outros mil descontos
Que traz comsigo a affeiçào,
Feliseo Sempre os signaes d'estes pontos
Trarei no meu corâçào.
Essas novas levarei
A Alcmena, que torne em gi. Callisto
Porque ella tèe maior guerra Viste-la mais?
Co'os temores de perdello,
Qu'elle co'o Rei dessa terra. Feliseo
Senhor, vi.
Callisto
Na janellinha da grade;
Onde amor lançar o sello, Passei, e disse-lhe assi:
Nenhuma cousa o desterra. Casada sem piedadi;,
Porqu'inda que o pensamento Porque nào a haveis de mi?
Vos íique, Senhor, em calma,
Callisto
Por morte ou apartamento;
Sempre vos lá íicào n^alma Que vos disse?
As pegadas do tormento.
Feliseo
Feliseo Lá no centro
Isso hum segredo mero,
lie Lh'cnxerguei pouci. alegria:
A que o Amor nos obriga: E como quem lhe dohia.
Por isso em caso tào fero. Metendo- se para dentro
Senhor, nunca ninguém diga, I
Disse : Ja pasó folia.
Ja lho quiz, e nào lho quero. Callisto
Eu quiz bem a hnma mulher, I

Que vós conhecestes bem, Ah má sem conhecimento !

E, com muito lhe querer, Quem lhe dc^se mil chofradas


Casou- se.
Feliseo
Callisto
Senhor, como sno casadas,
Oh! c com quem? Casáo-se co"o esquecimento
Qne ainda o uào p'<sso crer. Das cousas que sAo passadas.
.

ao COMEDIAS

Callisto Feliseo
Lembranças de vos deixar Ora olhe vossa mercê.
Picar-YOS-hào como tojo3.
Feliseo Volfa

Senhor, haveis d'assentar Olhae em quão fundos váos


Que onde amor ros qner matar, Por vosso causa me affógo.
Siempre alhi miran \os ojos. Que outro me ganha no jogo,
Hum motete lhe mandei E eu triste pago os páos.
Hum dia, estando com febre, Olhos travessos e máos,
Só da paixão que tomei. Inda eu veja o meu cuidado
Callisto Por esse vosso trocado.

Pois vejamos quem toe lebre. Callisto


Nào mais, qu"isso me degola.
Feliseo
Feliseo
Senhor, eu vol-o direi.
Senhor, eu haja perdão.
Mofe
Callisto
Vós por outrem, e eu por vós^ Fizestes esse rifão
Vós contente, e eu penado; Em algum jogo de bola V
Vós casada, eu cansado. E foi-ihc elle ter á mão?
Poios santos de minha dona I

Feliseo
Callisto
Digo-vos que o vio, e lho leo
Senhor, vós só o fizestes? Hum moçozinho d'eseola.
Feliseo Callisto
Si, que ninguém me ajudou. Está isso assi do Coo.
Callisto
Sabe ella jogar a bola?

Se vós só o compuzestes, Feliseo


Crede, que extremos dissestes. Não.
Nunca Orlando tal fallou. Callisto
Senhor, fizestes -lhe pé ? Pois não vos enteudeo.
Feliseo Ora eu já cheguei a ler
Petrarca, e crede de mi
Senhor, si; e todo hum anno. . Que nunca tal cousa vi.
Vós zombais.^se nfío m'engano? Onde mora o bom saber,
Callisto
Logo dá sinal de si.
l : ^^^í
Onde casada puzcstcs.
Nilo.mas dou- vos minha fé Dizei, porque não dissestes
Que nunca vi tào bom panno. La que yo vi por mi mal.
DE LUIZ DE CAMÕES 31

Callisto
Feliseo
Na rua, Senhor, jazia ?
Kenunciav.i o metití;
E era era tempo de lama ?
Qu'em rifòeszinhos como estes.
Ha-se-de pôr tal com tal. Feliseo
Que a trova trigo-tremez
Senhor, quem falia a quem ama,
Ha de ser toda d'hum pauo; De si mesmo se não fia:
Que parece muito íngrez Haveis do mentir á dama.
N'lium pelote Portuguez
Todo hum quarto Casíelhauo. Callisto
Ouvi outra também minha, Yoita disso?
Que fiz a certa tenção.
Feliseo
Clara, leve, bonitinha.
De feição, que esta troyinha, Singula'-,
He trovinha de feição. Senão que he muito sentida ;

Como eu hum dia me visse Far-vos-ha, Senhor, chorar.


Morto, e a mão na candéa,
Callisto
E ella não me acodisse ;
Fiz-lhe esta, porque sentisse Oh I diga, por sua vida ?

Que dava os fios á téa.


Feliseo
E o propósito he
Andar eu hum dia só ; Farei o que me mandar.
E paru que houvesse dó
De mi e de minha fé, Valia
Lamentei-lhe como Jó.
Porque não haa delle mágoa,
Callisto
Odura mais que ninguém.
Andastes, Senhor, mui bem. Que anda o triste que não tem
Quem lho de Imma vez d'âgoa ?
Feliseo
Não lhe negues teu querer.
Ora, Senhor, attentai, Pois te não custa dinheiro \

E vede o saibo que tem ; Que, emfim, por derriídeiro


Se he para a vêr aiguera. A t-irra te ha de comer.
Callisto Callisto
Ora dizei. Tal trova nunca se vio.
Feliseo Agorentaste-la ja?
Ei-la vai. Feliseo

Trova Senhor, não ; ainda está


Como a sua mãe pario ;

Coração de carne crua. E não está muito má.


Vê-lo teu amor aqui,
Callisto
Que esmorecido por ti
Jaz no meio desta rua ? He trova, que t?e por seis ;
32 COMEDIAS

Nào a posso mais gabar.


Callisto
Mas, pois, tal cousa fazeis,
Sealior, não ni'ensinareis O roer, Senlior, he vosso.
Donde vem tào bem trovar ?
Feliseo
Feliseo Pois eu, por mais que zombemos,
Hei de ser vosso e revosso.
Nào he a consa tào pequena,
Callisto
Como, Senhor, a fizestes.
Essa que agora dissestes. Oh!... Escusae vos de d'extremo8,
Mas porém vou dar a Alcmena Qu'isso, Senhor, me atarraca.
Estas nov:is que me destes. Mas nós nos encontraremos,
Despois, Senlior, nos veremos; E sobre isso envidaremos
Ficae ja roeuão esse osso. Dous reales mais de saca.

ACTO II

SCEXA I
Júpiter
Júpiter e 2íercurio transjormadosj Não o faz senão o Amor,
Júpiter na forma de Amphitrião, Que n'isto pôde mais qu'eu.
Mercúrio na de Sosea escravo,
Mercúrio
Jnpiter
Ja, Senhor, te fiz menção
Mercúrio, pois sou mudado Como deo Amphitrião
N'esta forma natural, A ElRei Ter ela a morte;
Olha e nota com cuidado. Que, na guerra igual, a sorte
Se está em mi o pintado Pode mais que o coração.
Apparente co'o real. E despois ue ser tomada
Toda a Cidade, com gloria
Mercúrio
D'AmplritriAo bem ganhada,
Quem tilo prr.prio se transforma. Como em i^iual de victoria.
Tenho por opinião, Esta copa lhe foi dada.
Que na tal transformação Por cila bebia Elllei,
Lhe prestou natura a forma, Em quanto a vida (jueria;
Com que fez Amphitrião. E eu, por(|Ue te cumpria,
Júpiter
A seu escravo a furtei,
Que n'huma caixa a trazia.
Pois tu no gesto o na còr í^sta poderás levar
Estás Sosea escravo seu. A Alcmena, por lhe mostrar
Verdadeiro, o que he fingido;
Mercúrio
E d(:st'arte serás crido.
Muito mais f.irás. Senhor. Sem mais oiiíro ardil buscar.
DK LUIZ DE CAMÕES 3S

Jijpitor Bromia
Pois tudo tons ordenado Senhora, nào zombo, nào.
Por tão nova e subtil arte;
Como me vires entrado, Alcmena
Irás dar este recado
Vejo eu Amphitriào,
A Phebo de minha parfe: Ou a vista me atfigura
Que faça devagar
mai'*
O qu'stá no coração?
Seu curso neste Hemispherio,
Que o que soe acostumar; Jupiter
Qu'esta noite bei de ordenar Olhos, diante dos quais
Hum caso de alio inyâterio. Desejei mais este dia.
E á Esphera m:iis alta Que nenhuma outra alegria.
Mandarás que fixa esteja, Senhora, nunca creais
Porque a noite maior seja: Que lhe minta a phantasia.
Porque snmpre o tempo falta,
Onde a alegria Le sobeja. Alcmena
E terás taman])o tento. Oh presença mais querida
Que como isto se ordenar, Que quantas formou Amor!
Venhas aqui vigiar, Isto he verdnde. Senhor?
Porque meu contentamento Acãbe-se aqui a vida,
Ninguém mo possa estorvar. Por não ver prazer maior.
Mercúrio
Jupiter
Seja feito sem debate
Tudo como convém.
te Pois esta hora de vos ver
Alcançar, S>tuhora, pude;
Jupiter
Para mais contente ser,
Pois nào parece ninguém,
Confonnem co'este prazer
Como homem de casa bate, Novas de vossa saúde.
E muda a falia também.
Mercúrio, hatpndo á porta Alcmena
O de la casa, en buena hora, Vida foi pezada e crua
Darmehan de eenar aqui"? A sauue qu'eu sostinha;
Bromia dentro Qu'em quanto, Senhor, a tinha,
Temer perigo na sua,
Sosea parece que ouvi:
Me fez descuidar da minha.
Alviçaras,minha Senhora,
Que na falia o conheci. Mercúrio

SCENA IT
Y mi Senora Alcmena,
pvreSj
Pese demónio rualvado.
ai

Alc/iíe/uí, Jiroiiiia, Jai^iter No dirá á un su criado,


e Muraurio Vengais Sosea norabuena?

Alcmena Alcmena
Zombaib, Bromia, por ventura? Sejais, Sosea, bem chegado.
. . .

;34 COMEDIAS

Cuando coiwigo riíieron;


Bromin.
Que aunque me despojaron.
Bem mal cri eu. *[ne pude.sfse Si uuo de seda llevaron.
yér-te. Sosca. hoje af|ui. Otro de azote» me dieron.

Mercúrio Alomena
Pues tambien yo no ciei Senhor, uâo posso gostar
Que eu mi vida te viese. De gosto, que he tão imrnenso,
Segiin las mue.rfep í|ue vi. Senão muito devagar:
Faça-me mercc d'entrar,
Alcniena
E contar-mo-ha por extenso.
Muito, Senhor, folgarei
Com novas do veneirnoriío. SCENA III

Júpiter
Me.revno c liromiu
De tudo quanto pasàeí.
Por vos dar conkíJitaiAeuto. Mercúrio
£m summa vos contarei.
Trago. Senhora, a victorla Yo tambein te contaria.
D'aquelle Rei íílo temido. Bromia, si quedas atrás,
Com fama chira o notória. Que una noche enojartehaí«V
. . .

Porém maior foi a gloria Bromia


De me ver de vós \encido. QueV
Sem me terem resistência, Mercúrio
Os Grandes me obedecerão.
Como El Rei morto tiveríio: Sonaba. que te tenia. .

Em sinal de obediência No me atrevo á deeir mas.


Esta copa me trouxerào. Bromia
ElEei por ella bebia: Dize.
(Ella. e tudo o mais hc nosso) Mercúrio
Por onde claro se AÍa,
Pardies, na diré.
Qne tudo me obedecia. Sou aba.
1 .

Pois tinha nome de vo^^o.


Bromia
Mercúrio Bem: que sonhavas?
Si, rnasluego do rondou
Mercúrio
Ija fortuna dió la vuelta.
Que cuando en la cama e:?tavas
Alem ena Que yo. eníin recorde.
. .

Como?
Mercúrio Bromia
Fuc gran perdiciou. Pois tudo isso receavas?
Porque en aqnella revuelta.
Mercúrio
Me hurtaron nii jnbon.
Pêro bien mo lo pagan^n. S;»be Dio? qnéjyo acá siento:
QP.
DE LUIZ DE CAMÕES

Sola una alma vive eu doa, Canta


La cual anda dentro en vos.
Dongolondron, con dongolondrera,
Bromia Por el camino de Otera,
E que quer ella cá dentro? Rosas coge en la rosera,
Dongolondron. con dongolondrera,
Meronrio
Tambien eso sabe Dios. Falia
Cuando yo vengo á pensar
SCENA IV Que uno matarme quisiera,
No bago tino tt^^nblnr,
MercTirio Porque creo ?i n.iriera.
No pudiera mas cantar.
Bem se poderá enganar Porque estando á un rincon
Bromia, segundo ora estou, De adó quede,
la casa
Como Alcmena s'enganou; Senti muygrande ronron,
Mas cumpre-me ir ordenar Y mirando, que mire?
O que meu Pac me mandou. Vi que era un gran raton.
E porque seja guardad<a Empero yo nunca sigo.
Esta porta e vigiada Sino consejos muy sanos:
De toda a gente nascida, Que en estes casos levianos,
Me será cousa forçada. Quien desprecia el enemigo.
Ser tão depressa a tomada, Mil veces muere á sus manos.
Quão prestes faço a partida. Pêro mi Senoi- allí
Mato ai Rcy de los Glipazos:
SCENA V Yo como muerto le vi,
Juro á mi l"é, que le di
Sosea, cantando Mas de dos mil cuebillazos.
Y por me librar de afan,
Amphitrion esforzado Me voy siempre á cosa hecha
Bravo vá por la batalla, Probar mi mnno derecba;
Siete cabezas llevaba, Que aquel es bueu capitan,
De las mejores que ha bailado. Que dei tiempo se aprovecha.
Que quien ha de pelear.
Falia Ha de buscar tiempo y hora.
Pêro quiero caminar.
Quien viene de tierra agena, Que me muero por contar
Y de la muerte escapo, Todo aquísto á mi Senora.
La razon le permitió
Que cante como sirena, SCENA VI
Como agora bago yo.
Y pues canto tan gentil, Mercúrio e. Sosea
Fuera muriera.
llanto si
Merourio
Quiero cantar como quiera. i

Una y o*;ra, y mas de mil. i


Mil vezes comigo vejo,
Que digan desta manera: [
Para que meu Pac se affoute;
!

3G COMEDIAS

Pois em tào pequeno eijí^ejo Sosea


]yhe mandei tatbar a noute
A medida do desejo. A quien oigo aqui liablar?
E pois que como possante. Mande Dios no sea alguuo
A mi tudo se reporta, Que me quiera aporrear.
Chego agora neste instante Mercúrio
A estorvar qu'este bargante
Me não chegue a esta porta. La carne de algun humano
Me seria rnuy sabrosa.
Sosea
Sosea
No que miedo, ó locura,
S'j

Ncsíô pecho se me cria: Oh qué voz tan temerosa


Por D os que se me afigura, Hombres comes, ó mi hermano ?
Que lia mucho que es noche escura, No mejor otra cosa?
es
8in (juc venga el claro dia. Carne humana es muy mezquina.
Mas sabed, que pienso yo Oh no comas deso, nó!
Que el sol que no se acordo Antes carne de gallina.
De con el dia venir, Pêro se mas se avecina,
Que á noche cuando cenó Qué mas gallina, queyo?
Algun buen vino bebió,
Mercúrio
Que le hace tanto dormir.
Una voz de hombre; ahora
Mercúrio
A la oreja me volò.
Ja scnles comprida a noute.
Sosea
Qu'eu assi mandei fazer ?
Pois mais te quero dizer, Pésetc quien me paríó:
Que sentirá." muito açoute. La voz traigo boladora ?
Se cá quizeres vir ter. Ella quisiera ser yo.
Porém, pois este bargante Pues mi voz pudo volar
Tce medroso coração, Do la pudieses oir ;

Quero-me fingir ladrão, Por contigo no rcuir,


Ou phantasma, e por diante Me debiera de prestar
Nào irá, se vem á mào. Las alas para huir.
E com tudo se passar,
Mercúrio
A faliaquero mudar
Na sua do tal feiçuo, Qué buscas Cibo esa puerta,
Que couces, e porfiar, Hombre ? Sé que eres ladron.
l^he façào hoje assentar
Que sou Sosea, e elle nào.
Sosea
Ay (jue el alma tengo muerta I

Oh Júpiter me
convierta
Falia Castelhano
Las tripas en corazon!
Mercúrio
No vco pasar ningnno.
P2n quien yo me pueda hartar. Quien eres? quieres hablar?
1>E LUIZ DE CAMOF.S 37

Sosea Sosea
Soy quien mi voliintad qulere. Si me dás por la verdad,

Mercúrio
Que me harúb por la mentira ?

Mercúrio
Pieneas que puedas buriíir?
Sosea
Y que verdad es la tuya V
Que te quiero dar castigo.
Y tú puédesme quitar
Sosea
Queyo sea quien quisiere?
Si no í-oy Sosea que digo,
Mercúrio
Que Júpiter me destruya.
Osas bablar tan osado. Mercúrio
Don vellaco bovarron V
Dí, quieu eres? Mirad el falno enemigo :

Tomad este bofeton,


Sosea Que yo soy Sosea, y no tos.
Un criado
Sosea
Del Senor Amphitrion,
Por nombre Sosea llamado. Tú Sosea?
Mercúrio
Mercúrio
Sosea por Dios,
Pienso que seso perdiste.
el
Escravo de Ampliitriou.
Como te llamas, mal hombre?

Sosea Sosea

Sosea soy, si no me oiste. De modo que tiene dos?


Mercúrio
Mercúrio
No tendrú, aunque tú quieres;
Como? en persona tan triste
Que á mi solo conoció.
Osas d'en3uciar mi nombreV
Estos puíios Uevarás, Sosea
Pues tener mi nombre quieres.
Pues luego de quein soy yo?
Quiéresme dicir quien eres ?
Mercúrio
Sosea
Si tú no sabes quien eres,
O Seíior, no me
dés mas, Quieres que yo lo sepa? No.
Que yo seré quien tú qnisiere.s
Sosea
Mercúrio me de hacer crer
Enfin, lias
Con tan nueva falsedad Que yo no soy quien ser solia?
Andais por esta Ciudad,
Mercúrio
Delante de quien os mini?
Pues 8Í sois Sosea, tomad. Quien solias tú de ser ?
38 COMEDIAS

Sosea Sosea
Tregods me lias de prometer, Soy un hombre, eu quien tu dás.
Djrtelohé sin porfia.
Mercúrio
Mercúrio Díme pues, qué nombre Las.
Prometo.
Sosea
Sosea
Como quiercs tú que diga,
Xo me darás ? Para qué no me dés más ?
Mercúrio Mercúrio
No, si no íuere razon. No me has de hablar contrahecbo.
Sosea Sosea
Pues, hermano, tú sabrás Toda mi vida pasada
Que mi amo Amphitrion. . . Sosea fuy, y con despecbo
Ahora soy qué No nada;
. . . '?
Mercúrio
Que tus manos me han deshecho.
Tu amo ? Puis llevarás.
Mercúrio.
Mi amo es, que tuyo no.
Cuyo eres, pucs las siontes,
Sosea Dejando consejos vanos?
Ay que un brazo mo ijuebró ! La verdad; que si me mientes,
Dás con la lengua en los dientes,
Mercúrio
Y yo dóyte con las manos.
Mas que luego te matase.
Sosea
Sosea
No conoecs Amiihitrion ?
Ojalá Dios ordenase
Mercúrio
Que tú ahora fueses yo,
Y yo que te desmeinbrase ! Hombre sin soso te llamo.
Tau fuera estás de razou !
Mercúrio
Piensas de mi, bovarron,
Esa tu tema tau loca, Que no conozco a mi amo ?
Punos te la han de quitar.
Sosea
Díme, dí, ver^iicuza poça,
Qué hablas ? En su casa couociste
Uno, que es Sosea llamado,
Sosea
Hombre despreciado y triste?
Que puedo bablar,
Mercúrio
Si me has quebrado la boca?
Dosa suerte lo dijiste ?
Mercúrio
Yo soy triste y despreciado ?
Di quien eree, sin fatiga. Pues sabe que te lleg«j
!!: LLl/. li;: CAJIOKS

A \d Uj«\eri>i tu ívr^auu.
&oaoÀ
Sosea
Pues logo si yo uo soy yo. I
Y deí?pu.

Aunque nadie me niató; Morovan


Soy Itiejío cosa ninguna.
^íjiy repus^ido
Oh dioses, que desooncierto I
A dormir me éché u o ú^iuJo.
Yo por ventiiia soy inucrto, I

Desde cl sol liasta la luna.


O muriómo l;i iwzoii ?
j

Yo no soy de Aiiiphirriou ? i Scaea


El DO me mandou dei puerto ?
(Todo lo tiene conlado.
Yo sé que no estoy Joeo.
Eníin. tengo .iveriguado
De mi madre no nací ?
Que yo no >oy cosa ninguua)
No ando? No liablo aqui? Pues de todo on un instante
Mercurio Me has achado de mi fuera,
Paes sioyiegíi ab'ira un poço, Aconsejamos si qui'.'ra,
Que yo tambicri dir/; de mi. Quien sern daqui lulelante,
Yo no jíé quo víi áoy yo ? Pues no soy quien de antes era.
Yo no to Ui CGU mis manos ? Mercúrio
Mi Seíior no me llevó
A la cuerra, adó mau» Cuando yo ao sev quisiere
Aqucl R^iy de los Thebauos V Ese. que tú ícv deseas,
De?pues que yv- Sosea no fuere.
Sosea
Darlehé. si re j)luguiere,
Yo est) nuiy bion !•> s^. Licencia que iodo seas.
Empero tú qaé bacias Y acógete hn^tfo, amigo.
Cuando la batalla vias ? A buscar tu nouibro, digo.
Mercúrio Pues Dios vida te dejó;
Que el .Sosea queda comigo.
Escacha: yo lo diré,
Y cesaran tus portías. Sosea
Cuando mi Senor andaba
Pues contigo quedo yo,
Peleando, y derramaba
Dios quede, henn.-mo, contigo.
La sangre de alj^an mezquino;
Ahora quiero ir allá
Con una bota de vino
Yo Ia mia acrescentaba. Adó mi Seilora está,
Contarle corno es venido
Sosea Mi Seiíor. Mas, oh perdido I

(Diop io que yo hacia^ Si un otro yo ti ene allá,


Con todo, saber queria Todo lo terna sabido.
8ola una cosa, si puedo: Mercúrio
Tu pecho entoncos sentia ?

Mercúrio
Ah hombr
Sv-^sea
Del beber grande alegria,
Y dei peiear o;ríin tn?cd<i. .Mi vov: ío'.!»'».
40 COMEDIAS

Mercurlo Sosea
Aonde vuelves yliora ? Altos dioses soberanos I
Sosea Pues me no valen las uianoi?.
Aqui me valgau los pie^. í V/f.
Por Dios no sé onde vo,
Porque .si yo no t^fty jo, Mercurio
Ni Alcinena es mi Seilora. Desta arte enseíjau aqui
Mercurio A hurtar el nombre ageno?
Adonde vas'
Sosea SCEXA vn
C'.'H mensaje Sosea
Del Senor Aniphitrion
Para AlcrnenR. Ay Diuír. como nie acogi V

Mercurio
O Júpiter alto y bueno.
Cuau cerca la muerte vi .'

Adó, salvaje ? Quiérome ir á mi Sfjuor


Pues quebraste la omeuaje, Contarle qiiantí- hé juizado ;

Alii verás tu perdic-ioji. y cl me dirá de iriatío.


Yo doyte consejos sanos. Si yo soy .^u servidor.
Y porfias otra vez? Eu que ço3:i rrir- !u' <^.'>rnHdo.

ACTO ni
SCENA í
Para a frota visitar :

E despois quando tornar.


Tornarei mais desejoso.
tTupifer e Ali-uifua
Que pois ta o bom captiveiro
Júpiter
Me tèe presa a liberdade,
Eu lhe prometto em verdade
Toda a pessoa disrretu Que tome ainda pritueiro.
Terá, Senliora, as-entado. Que mo peca a saudade.
Que um bem muito (l<'<f judo
Se ha de alcajiçar por dieta.
Alcmena
Para ser sempre estimado. Aindaqup eC possa ir
E quem alcançiido tem Mais asinha do que creio.
Tamanho contPutamento: Como hei dou consentir
Por conservá-lo coMvem Que se haja de partir
Qup tome por niiiritimcnto Na n esma noite que veioV
A fome de tanto bem. Júpiter
E por isso hei de tomar
Este tempo tào ditoso Forcada he minha ti-roada,
:

DÊ I.IIZ DX CAMOE» 41

Mítô muito cedo virei


Sosea
Porque desque foi checada
A este porto a Arma/Ja, Ver se á dicha me quede
Ainda a nào visitei. Durmiendo por la galera.
Alcmena Amphitrião
Pois, Senhor, tào pouco esfais Pois me
queres fazer crer
Com quem vistcí* inda figora? Huma doudice tào rasa,
Faça-se como mandais. Mais quero de ti í>aber:
Como nao entraste em casa
Júpiter
D' Alcmena miuhu mulher?
Vós mevereis cá, Senhora,
Primeiro do que cuidais.
Sosea
Aunque Sosea quisiese,
SCENA XI La verdad no negará :

Aquel yo que allá e.-tn,


Amphitriujj e Sosea
No quiso que á casa fuese
Estotro yo. que iba allá.
Amphitriào
y con fúria tan crecida
A mi se vino aquri hombre.
Emfim tu, que eatás aqui, Que yo me puse cu huida,
Estavas ja lá primeiro ? Y ansí le dejé mi nombre,
Por me dejar él la vida.
Sosea
Senor, crea que es ausí.
Amphitrião

Ampliitrião
Quem seria tào ousado.
Que tanto mal tf^ fizesse V
Eu nunca entendi de ti,
Sosea
Qu'eras também chocarreiro.

Sosea Yo mismo Soscii llamado,


Que á casa era ya Ucgado,
Senor, yo que estoy presente; Antes que de acá partise.
No soy Sogea su criado V Amphitrião
Ampliitrião
Tu chegaste antes de ti V
Creio que nao certamente, Este he gentil disparate.
Porque Sosea era avisado, Sosea
E tu és mui diftorenlc.
Sosea Pues mas le digo daqui,
Que vengo huyendo do mi,
Paes, Sefior, si en mi so a é
Porque yo mismo no me mate.
Que no soy (luien de antes era,
Vuélvome. ^ Amphitrião
Amiphitrião Eráo dous, ou era hum só.

Va para queV Quem te fez assi fugir V


; !

42 kOMEDlAS

Sosea
SCENA III
Pésetfi quien me parió :

Digo, que era un solo ye :

Mil veces lo hé de decir? Axcm.ena


Puede ser que naceria Que fado, que nascimento
De aquel liornbre otro alguno, De gente humana na-cida,
Como aquel de iní nacia Que d'e&casso e avarento.
Porque aunque faese él uno, Nunca consentio na vida
Por mas de cuatro tenia. Perfeito contentamento
El tenia mi aparência, Amphitrião, que mostrou
Empe r o yo nunca vi Hum prazer tÀo desejado
Tal fuerza, ni tal potencia : A quem tanto o desejou ;
Esta sola diferencia Na noite, que foi chegado,
Le tengo hallado de mi. Nessa mesma se tornou !

Amphitrião De se tornar tào asinha


Sinto tanto entristecer
Pudeste delle saber O sentido e ;ilma minha
Cujo era? Que certo que me adivinha
Sosea Algum novo desprazer.
Mas parece este que vem,
Qnien? aquel yo ?
Se nào estou enganada:
Tuyo, Seilor, dijo ser,
Se elle he, venha com bem,
j

Amphitrião !
Pois que com sua tornada
Nunca eu tive mais que hum só, i
Tào tran^foruada me tem.
I

E esse nào quizera ter.


SCENA IV
Sosea
Pues, Seiior, si el bien doblado
! AmnliUrlào. Ah mena e Sosea
Te le muestra agora Dios, i

Dobe ser de ti aíabado ; Amphitrião


Pues de uno solo criado }

Te ha hecho {igora dos. I


Com que palavra?. Senhora,
i Poderei engrandecer
Amphitrião Tào sublimado prazer,
1

Antes para que conheças, I


Como he vêr chegada a hora,
Que cousa he ni:ío s.^rvidor. i Em que vos pudesse ver ?
Me pezará se assi for ; Certo grào contenlamento
Que de tào ruins cabeças, Tive (\(^ meu vencimento;
Quantas mais, t^nto peor. ]\Ia8 maior o liei (hj mim,
E ja que sào tào incertos De me vêr posto no lim
Teus ditos para se crer ; De tào longo apartamento.
Muito melhor deve ser
Que deixe teus desconcertos, Alcmena
E vá ver minha mulher. Ja eu disse o (pie sentia
})\: I.U17. DR tA>i'>;íj 43

De vinda tilo desejada. Que n.lo tenha os cabos trietec.


Mas dipa-me todavia : Quantos males d'improviso
Como iiílo foi vêr a Armada, Que causão grandes mudança-^ I

Que me disse hoje este dia? Que mulher de tanto aviso,


Agora minhas lembranças
Amphitrião A tèe fúru de juizo!
Delia venho eu iuda agora
Alcmena
Desejoso de vos ver,
Muito mais que de vencer. QuereÍ3-me fazer cuidar
Mas que me dizeis, Senhora. Que poderia sonhar
Que hoje me ouvistes dizer ? O que peios olhos vi?
Nunca vos eu mereci
Alcmena Quererdos-me exprimentar.
Se nào estava remota,
Amphitrião
Certamente que lhe ouvi,
Quando hoje partio daqui, Postoque he para pasmar
Que tornava a vêr a frotn. Vêr hum caso tào estranho,
Porque era forçado assi. Todavia hei de attentar,
Se poderei concertar
AmphitriáG Hum desconcerto tamanho.
Sosea.
Quando dizeis que vim cá?
Soaea
Alcmena
Seiior, aqui estoy yo.
Esta noite que passou.
Ampliitrião
Amphitrião
Tu ouve^ tal desconcr-rto V
Dae-me algueio que aqui se achou,
Sosea
Que me visse.
Grandes orejas íjanú,
Alcmena
Pues estando eu casa oyó
Qwien estava alhl nel puerto ! Esse que hi está,
Sosea que comvo.soo andou.
Amphitrião
Amphitrião
Quando dizei», que m'ouvistesV
Sosea, podes -te lembrar,
Alcmena
Que hontem me vistes aqui ?
Hoje, quando vos partistes.
Sosea
Amphitrião
Nunca yo supe de mi
D'or.ao? Que me pudiese acordar
Alcmena De aquello que nunca vi.

Daqui, de me vêr. Alcmena


Amphitrião Ora eu éreo, e he assi,
Nunca vi grande prazer^ Que arabos vindes conjuradofi,
J4 COMEDIAS

Para zombardes tle mi;


Mas eu darei l)oje aqui
Alcmena
Sinaes que sejào provados. Más vós me fazeis sandia.

Amphitriâo Amphitriâo
Que sinaes pôde alii haver Ora quero perguntar :

De mentira tào notória, Que fiz sendo aqui chegado ?


Que nem foi, nem pôde ser?
Alcmena
Alcmena
Puzemo?-nos a cear.
Donde vim em eu a saber
Xovas de vossa victo.-iaV Amphitriâo
Amphitriâo E despois de ter ceado?
Que novas ? Alcmena
Alcmena Fomos -nos ambos deitar.
Dir-vo-las-hei,
Assim como mas contastes: Amphitriâo
Que na batalha matastes Nunca queira Deos que possa
Aquelle soberbo Rei. Achar-se na minha honra
E tudo desbaratastes: Nenhuma falta nem mossa :

Não fazendo resistência Seja isto doudice vossa,


X'uma batalha tao crua, Antes que minlia deshonra.
Dando-vos obediência,
Vos derão huma copa sua. Sosea
Lavrada por excellenciíi.
Bien lo supe yo entender.
Amphitriâo Que era esto cncantaciones :
Sosea he culpado só Y ahora me habrá de crer
Nestes ar^ontecimeutos Que dos 8oseas puede haber.
Pues hay dos Amphitriones.
Sosea
Seiior. son «'lu-aniamientos, Alcmena
Porque aquel hombre, que es yo, Com me quererdes tentar
Le contaria estos cuentos. Tào torvada me fizestes.
Ampliitrião
Que me nào pôde lembrar
Que vos mandasse mostrar
Quem he esse, que vos deu A copa que me hontcm destes.
Taes novas, saber queria?
Alcmena Ampiíitriâo
Quem mo per,!;'-u))ta. Eu ? copa ? Se isso ahi ha.
Que estou doudo cuidarei.
Amphitriâo
Quem? Eu !
Sosea
Quereis-me fazer sandeu ? Senor. bien ^ruardada está.
DK LUIZ DE CAMÕES 45

No lleve ^^ia y-> In pena


Alcmena j

Del n)al que hizo cl otro yo.


Bromia ?
i

Bromia, de dentro Ampliitrião


Senhora. Ora eu uào sei entender
Alcmena Tal caso, nem lhe acho fundo :

Com tudo venho a dizer.


Dae cá Que ha tantos males no mundo,
A copa que hoiitem vos dei.
Que tudo se pode crer.
j

Sosea Se vos trouxer quejn vos diga


Como esta noite dormi
Pues yo pari otro yo, i

Na náo, crereis que he assi ?


Y vós otro Amphitrion,
No es rauoha admirucion, Alcmena
Si la copa otra parió,.
Nenhuma cousa me obriga
Ni aun fuera de razon. [

! A que nào creia o que vi.

Ampliitrião
SCENA V j

i
Se o Patruo :'.í|ui vier,
Que he homem d'autoridade.
Amjj/iitruío, Alcmena^ Sosea i

Crereis o oiiC vos disser?


e Bromia
Alcm.ena
Bromia Sim, que ninguém pode haver
Eis-aqui a copa vem, Que me negue esta verdade.
Testimunho da vodade. Ampliitrião
i

Ampliitrião Eu estou em concriisào


Uh estranha novidade ! D'hoje desembaraçar
i Tào enleada que.-^tíío :

Alcmena A náo me qnf-ro tornar


i

Poder-me-ha dizer alguém I A trazer cá BeltV-rrào.


Que o que digo he falsidade? Sosea, até minha tomada
Fica nesta casa cm vela;
AmpMtriâo Qu'eu armarei tal cilada
Sosea, quando hontem cá vinhas, . A quem ma a mim tT-e armada,
Poder-ine-ha,'5 ne^irar, ladrão, Que venha hoje a cahir nella.
Que lhe d«2ste as novas minhas.
E mais a copa que tiulias SCENA VI
Guardada na tua niào ?

Sosea Alcjnp.iia f. Bromia


Senor, que no pude, no, Alcmena
Ver á mi Senora Alcmena:
Si aqucl <í.«o acá ordeno, Oh mulher triste e suspensa
46 COMEDIAS

Da mais alta confusão [ Sem culpa do que padeço,


Que nunca vio coraçrio I j
Seja o que fOr; queu conheço
Em que mereces a oííensa. Que a verdade me porá
Que te faz Amphitriào? No qu"eu pola ter mereço.
Sempre de mi foi amado. Bromia ?
Tanto quanto em mi se sente.
Bromia
Co'o coraçíio tào liado,
Que se de mi era ausente. Senhora.
Nelle o via tígurado.
Alcmena
E pois mulher, que cumprisse
Melhor qu'eu fidelidade, Hi mandar
Não a vi, nem quem me visse A Feli»eo, que vá
Que dos limites sahisse Meu primo Aurélio chamar;
Hum pouco da honestidade. Que lhe quero perguntar
Pois porque he tào maltratada Que conselho me dará.
Innocencia tào singolla? E pois que Amphitriào
Que a pena mais apertada. Vai buscar somente quem
He a culpa levantada Lhe ajude a sua tenção,
Ao coração livro d'ella. Quero eu ter aqui também
Mas ja que minh'alma, está Quem me defenda a razào.

ACTO IV
SC ENA i Alcmena
Parece que toma cá
Júpiter. Alcmena e Soseu. Amphitriào, que ja se se hia:
Não sei a que tornará.
Júpiter Senão se lhe peza ja
Grão desconcerto íT-c feito
Dos enganos que tecia.
Amphitriào com Alcmena ! Júpiter
Qualquer dclles X^q direito:
Eu sou o que venço o preito, Senhora, não haja error
E ambos pagão a peiui. Que tantos males me faça.
Quero me ir lá desfazer Porque se o contrario for,

Tào trabalhosa demanda. j


Pequeno será o amor,
Por nos tornarmoí: a ver:
' Que manencória desfaça.
Porque, emfim, quem muito quer j E pois com tanta alegria
Com qualquer desculpa abranda. ;
De tantos perigos vim,
E pois ja que a aíieiçào ' Pezar-me-ha se achar no fim,
Ha de mudar tào asinha, I
Que uma leve zombaria
Quero ir alcançar perdão j
Vos possa aggravar de mim.
Da culpa, que sendo minha. Alcmena
Parece d'Amnhitrião. '
Com palavras de deshonra
!

DK I.LIZ DC CAMOiíS

Nilo se lia de tr:iíHr quojn aina^ Que, pois desculpa não tem
Nem zombaria se clutmM, Coração que tanto quer,
Pòr exprimentur a honra, You-me; que não será bem
Pôr cm tal periíro a farna. Que quem vós não podeis ver.
Bem tive eu para mim, Que possa mais vér ninguém.
Que era aquillo experiência. Se íilgum'hora meu cuidado
i
Vos der dôr, em que pequena:
Júpiter Peço-vos, pois fui culpado,
I

Errei no que commetti: Que vos não peze da pena


Bem me bv.sta a penitencia De quem vos foi tão pezado.
De quanto me rrependi.
; E despois que a desventr.ra
E se fizalgum error, Puzer este coração
Com que vosso amor se mude Debaixo da sepultura.
De quem vo-lo tTe maior: As letras na pedra dura
Não exprimentei virtude, Vossa dureza dirío.
Mas exprimentei amor. Isto vos hei de dizer,
Que se com caso tào vário Que m'ensinou minha. dor:
Folguei de vos agastar, Se quizerdes leda ser,
Foi amor accresceiítfir; Nunca experimenteis amor
Porque ás vezes liuni contrário Em quem vol-o não tiver.
Faz seu contrário avisar. Deixae-me ir; não me tenhais.
Daqui vem, que a leve múçron Alcmena
Firmeza e auírmentn.
atiei-íòes
Como bem se vé na frágoa, Amphitrião, não choreis
Onde o fogo se accresceuta, Amphitrião !

Borrifando-o com pouca ágoa.


JupitTer
Se hum mal grande se alovantu
N'hum coração que maltrata, Que quereis,
A affeiçào se desbarata; Ou para que nomeais
Porque onde a água he tanta Homem, que vêr não podeis ?
O fogo d'amor bc mata. Alcmena
E pois tive tal tonçAo,
Perdoae, Senhora, a culpa Amphitrião, s^eu causei
D'e8te vosso coração. Com manencória pequena
Cousa, com que o magoei;
Alcmena Eu quero cahir na pena
Dessa culpa que lhe dei.
Ni\o se alcança assi perdão
n'erro que não tce desculpa. Júpiter

Júpiter Sempre serei magoado


Se vossa má condição
Ora pois assi tratais Me não perdoa o passado.
Quem em tanto risco pôí
Alcmena
O amor que vós negais,
Eu m'ausentarei do vós Perdoo, e peço perdão
Onde maÍ8 rae não vejais. De lhe não ter perdoado.
;

48 COMEDIAS

Mas, porém, se che^a cá,


Sosea
Ja pode ser que se vá
No peráouo, Seiíora,
le Mais confuso do que vem.
Hasta que coii devocion
Tainbien rae pida perdon;
Que bien se \ne acuerda ahora SCENA III
Que me lui llarnado ladron.
Mercúrio '' Amphitríào
Júpiter
Sosea? Ampliitriào
Sosea
Quiz-nos nossa natureza
.Seíior.
Com tal condi cào fazer,
Jnpiter Que já temos por certeza
Xão haver grande prazer.
Vae buscar Sem mistura de tristeza.
O Piloto Belferruo;
Este decreto espantoso.
Dir-llie-lias, se desembarcar, Que instituio nossa sorte,
Que me parece razào He tal e tào rigoroso,
Que venlia hoje cli cear. Que ninguém antes da morte
Sosea Se pode chamar ditoso.
Com esta justa balança
Si, Seílor, voy á la hor;i.
O fado grande e profundo
Júpiter Nos refreia a esperança.
Porque ninguém n'este mundo
De uenlunna qualidade Busque bem- aventurança.
Cure de fazer demora. Eu, que cuidei de viver
E nós vamos-nos, Senhora, Sempre contente de mi
Confirmar nossa amizade. (Jom tamanho ll«^i vencer.
Venho achar mii-.ha mulher
SCENA II De todo fora de si.
Mas d'outra parte que digo ?
Que s'he verdade o que vi,
Mercúrio
E o ijue ella diz be assi.
Grandes )*evolías vào lá, Virei a cuidar comigo
Grandes acontecimentos ! Qu'eu sou o fora dç'^-mi.
Cumpre-mc que esteja cá, Quero ver se a acho ja
Em quanto meu pae esiá Fora de t;To seccos nós.
Em seus desenfadamentos. Ode casa
Porque vi Amphitriào
Vir da não mui apressado
Mercurio
;

E tendo corrido c andado, Odeallá?


Nào pôde acliMr Belferrào, Quien sõisV
Que lhe era bom escusado.
Parece-me
Amphitríâo
«jue virá
Ver 80 lhe abre aqui alguém Abrf*.
:

DE LUIZ DE CAMÕES 49

Mercurio Mercúrio
Hauto Dios !
;
Si no te vuelves de aqui,
Pues no os conocen acá j
A grau peligro te ofreces.

Amphitriâo I Amphitriâo
Oh que gentil desvario ? j
Velhaco, não me conheces,
Abri -me ora se quizerdes. • Ou estás fora de ti?

Mercurio
Mercurio
Bonito venis, amor.
No haré, que en mi confio !

Quien sois, que hablais tan osado ?


Que de fuera dormiredes, ;

Que no comigo, amor mio. Amphitriâo


(Que cancion para oir!)
I

i Abre, que sou teu Senhor.


Amphitriâo
Mercurio
Ah
i

Sosea zombas de mi?


!

(Ora quero-me fingir Vuélvase de osotro lado,


Que ainda o hSo conheci, i
Y conocerlehé mcjor.
Por ver se me quer abrir)
Amphitriâo
Ah Senhor, nâo abrireis?
Sosea moço.
Mercurio
Mercurio
Qué quereis, hombre, por Dios ?
Asi me llamo,
Amphitriâo Huélgome que lo sepais;
Empero digo que os vais.
Duas palavras de vós.
Que Amphitriíío es mi amo;
Mercurio Vos id buscar quien seais.

Tengo dicho mas de seis, » Amphitriâo


E ahora me
pedis dos?
Pois quero saber de ti:
De fuera podeis dormir, Eu quem sou?
Que entrar no podeis acá.
Mercurio
Amphitriâo
Y quien sois vós?
Ora acabae, abri lá. Como 03 Uaman?
Mercurio Amphitriâo
Digo que no quiero abrir Abri.
Dije dos palabras ya.
Mercurio
Amphitriâo
A vos os llaman Abri ?
Ora sus, bargante, abri. Pues, Abri, andad con Dios.
!

.)*> C0MÊDIA8

En uno son dos tinidos.


Amphitrião
Y en dos cuerpos repartidos:
Quem hu. que possa soffrer Yo soy él. y él es yo.
í"m sua honra tal destroce, De un padre y madre nacidos.
Que para me endoudecer
^íe tre neorado a mulher,
Belferrâo
K asrora me nega o moço ? Esse tu que láestás.
Mercúrio Táo velhaco he coma ti ?

Mira el encantador Sosea


Como se lastima e Hora. Mas aun p'enso que es mas:
Y fuese tomar ahora Por dehmte y por detrás
La forma de mi Senor. Todo se parece á mi.
Para enganar mi Senora. Y fue gran merced de Dio.s
Pues esperad, y no os vais. Ayuntar á nu' mas uno.
Por un espacio poqueiao; Que peor fuera de nos,
Verná quien representais. 8i Dios me hiciera ninguno.
Y él os hará que volvais Que no de uno hacer dos.
El falso gesto á su dueijo.
Belferrâo
Amphitrião
Assi que, se te jDerdeste
Vae, vel'iaco, e chama cá Vieste a cobrar mais hum:
Esse falsf- feiticeiro; Mui gentil conta fizeste.
Que se elle lá dentro está. Pois que perdido soubeste
Esta espada julgará Que eras dous, sendo nenhum.
Qual de nós he o verdadeiro.
Sosea
8CENA IV Pues teneis por abusion
Verdad tan clara, y tan rasa^
ÁrnpJdfriâo, S^sei, e BelfeiTao Aunque pone admiracion;
<^iera Dios, que allá en casa
Belferrâo
No halleis otro Patron.
< >ra Minguem presumira
Amphitrião
Que pouco sise;
titdiaí tào
Pois vás achar dimprovifo O Patrào. que fui buscar.
Tao bem forjada mentira. Parece que vejo vir
Que me faz cahir de riso. Nào sei quem o foi chamar;
Htim moço, que alevantou Mas que me ha de aproveitar
Tal graça, nunca nasceo: Se me nào querem abrir?
Porque vos jura que achou Ah Belferrâo!
Que ou elle em dons se pcrd/^o.
Belferrâo
Oti de hum dous se tornou.

Sosea
Ah Senhor!
Ja sinto que fui cidpado;
Patron, que no burlo, no: Porque quem he convidado,
DE LUIZ DE CAMUES 51

8e tào vagaroso for, Esperae, dir-se-vo.s-ha,


Merece não ser chamado. Mas será por outro son.

Ampliitrião Sosea
A vós quem vos convidou V Ah Senor Amphitrion,
Porque matándome está,
Belferrão Sin delito, y sin razon ?
Sosea, por mandado seu.
Amphitrião
Amphitrião Agora que vos eu dou
Disso Patrão, não sei eu, Me chamais Amphitrião,
Que Sosea já me negou, E para me abrirdes não.
E ja se não dá por meu. Belferrão
E alguém vos foi dizer
se
Qu'eu vos chamo á minha mesa: Este moço em que peccou?
Mal vos dará de comer Porque pena sem razão?
Quem de todo lhe é defesa Não mais por amor de mi.
A casa, e mais a mulher. Amphitrião
Belferrão Não, que nào sou seu Senhor:
Eu sou hum encantador.
Quem he esse tão ousado,
Não o dizeis vós assi,
Que vos isso faz, Senhor ?
Ladrão, perro, enganador?
Amphitrião Sosea
Sosea, creio que enganado Porque fuy presto á llamar
Por algum encantador, j
Por su mandado ai Patron,
Que a honra me tèe roubado. 1
Me quiere ahora matar ?
Belferrão Amphitrião
Se elhi aqui comigo vem, Quem vo-lo mandou buscar?
Isso como pode ser?
Sosea
Amphitrião Si no hay otro Amphitrion,
Ah que a ira que vou ter.
! Vuestra merced sin dudar.
Tão cega a vista me t^m, t

Que mo não deixava ver. Amphitrião


Porque razão, cavalleiro, Eu te mandei ?
Não me abris quando vos mando?
Vós fazeis-vos chocarreiro ?
'

Sosea
Si Sonr.r,
Sosea
Si otro no.
Vo Seuor? y como? y cuando V
Amphitrião
Amphitrião
Outro ha aqui,
Quereis-lo saber primeiro? Por quem tu zombei de mi ?
O^J COMEDIAS

Pois SÓ desse encantador Por su bondad qne me valai


Me quero vingar em ti. Pues porque Sosea me llamo,
Yo miíimo, y dcspucs mi amo,
Sosea Me dieron venida mala !

Oli Júpiter, á quien bramo

ACTO V
SCENA I
Que este era el verdadero,
Y esse que allá queda, no?

Jajjiter, Belferrão, Sosea e Amphi- Ampliitrião


triào. Bargante, aonde te vás?
Fazes teu Senhor sandeu?
Júpiter Pois espera, c levarás.
Quem he o tào atrevido,
Júpiter
Que aqui ousa de fazer
Tào revoltoso arruido O lá. tornae por detrás,
Com meus moços, sem temer, Não deis no moço, que he meu.
Que fui sempre tào temido ? Ampiiitriâo
Quem aqui faz uniiio,
Toma mui grande despejo. Vosso V

Belferrão Júpiter
Oh grande admiração ! :Me«.
Vejo eu ourro Amphitrião, Ampliitrião
Ou he sonho isto que vejo?
Pôde isto haver,
Sosea
Que outrem minhas cousas tome ?
2S'o mirais hi eneantacion, Vós galante haveis de ser,
<>Ju.e aquel hizo á tal Seiior? O que me tomais o nome,
El que sale. Belfc-ron, Casa, moços e mulher.
Es el eierto Amphi trion. Eu vos farei conhecer
Que estotro es encantador. Com quem tendes esse trato.
Júpiter Júpiter
Sosea ?
Sosea ?
Sosea
Mi Seuor, ya vó. Sosea
Júpiter Senor.

Patrâoj só por vós espero. Júpiter


Sosea Vae dizer,
No os lo dicia yo, Que apparclhem de comer,
!

DE LUIZ DE CAMÕES 53

Em quanto este doudo mato.


Belferrão
Belferrão
Eu não sinto onde consista
Oh Senhor, nao seja ussim, A cura desta doença,
Haja em vós concerto algum I Que ha tão pouca diíferença,
E senào, pois aqui vim, Que aquelle em que ponho a vista,
Farei que só tome em mim P©r esse dou a sentença.
Ob golpes de cada hum. Mas, Senhor, vós que ordenastes
Que o juiz d'isto fosse eu,
Júpiter Quando se a batalha deu.
PatrSo, vossa boa estrelia Dizei, que m'encommendaste3
Me fará deixar com vida Que ficasse a cargomeu?
Quem me não merece telly. Júpiter
Amphitrião Dei-vos cargo. qu'estivesse
Toda a Armada a bom recado,
Nao a tenho eu merecida.
E, se mal nos succedesse.
Pois que vos deixo com ella.
Que para os vivos houvesse
Belferrão O refugio apparelhado.
O homem que for sisudo, Belferrão
N'huma tàp grande questão Ora vós quantos dobrões
Ha de tomar por escudo Esse dia mVntregastes?
A justiça,e a razào;
Amphitrião
Que estas armas vencem tudo.
E pois essa natureza Três mil; e vós os contastes.
Muitos homens faz ignaes,
Belferrão
©ê qualquer de vós sicrnaís
De quem he, para certeza Ambos sois Amphitriòes
Da forma que ambos mostrais. Pelos sinaes que mostrastes.

Júpiter Júpiter
Sou contente de mostrar Para ser mais conhecida
Poios sinaes que vos dou, A tenção d'este sandeu,
Que aào estes sem faltar. Vede est'outro sinal meu.
Que he neste braço a ferida
Amphitrião
Que me ElRei Terela deu.
Que sinaes podeis vós dar,
Belferrão
Para que sejais quem sou ?
Mostrse, vós. Senhor, também.
Júpiter
Amphitreão
Estes, que log-o vereis
Se são vãos, sf^ de raiz. Aqui o podeis olhar.
Patrão, vós sede juiz,
Belferrão
Que vós logo enxergareis
Qual mais verdade vos diz. i Oh cousa para espantar
!

54 «OMEDIAS

Que ambos a ferida tem Em que minh'alma se abraza.


D"hiiin tamanho, cm hum lugar Que me faz endoudecer,
E nào me ajuda a romper
SCENA II As paredes desta casa !

E porque ? Nào tenho eu


Forças, que tudo destrua ?
Júpiter, Amphitrião e Sosea
Pois que tanto a salvo seu.
Outrem aclio que possua
Sosea A melhor parte do meu ]
Dice mi Seuora Alcmena Eu irei hoje buscar
Que no se ha de así de eí^tar Quem me ajude a vir queimar
(,'on uu bobo á razonar, Toda esta casa sem pena,
Que se le eufria la cena. Donde veja ardor Alcmena,
Júpiter Com quem a vejo enganar.
Belferrão, vamos cear.
SCENA IV
Amphitrião
Belferrão, nâo me deixeis. Aureho e Mo<j'>
Como ? também me negais?
Aurélio
Júpiter
No hallo á mis males culpa.
Andae, nao vos detenhais, Para que merezca pena
Vamos comer, se quereis, La causa que me condena.
Xâo ouçais hum doudo mais.
Moço
Ampliitrião
Ah máos ! me
ordenais
assi
Essa está gentil desculpa
Offensa tão mal olhada ? Para hoje dar a Alcmena;
Eu farei, se mesperuis, Tèe-no mandado chamar.
Com que todos conheçais E elle está tão descuidado !

Os fios da minha espada. Aurélio


Jupiter Moço, queres- me matar ?

As portas prestes fechemos, Que desculpa posso eu dar


Nào entre este doudo cá. Melhor qu'este meu cuidado ?
Sosea Moço
De fuera se dormirá: E não há mais que fazer V
Entre tanto que cenemos, Com isso a boca me tapa
Puede pasearse allá. Para mais nada dizer ?
Aurélio
SCENA III
Ora dá-me cá essa capa,
Amph.itriâo só , E vamos ver o que quer :

Não trates de mais razão,


Oh ira para nào crer, Pois não ha quem te resista.
Di: LUIZ DE CAMUi:i3 .>,)

Que vejo? outra novação ! E tudo t^e ja por seu


Adúltero e def^honcrito :

Moço Tee-nie tomado o meu. gesto,


Qti« Le ? E faz-lhe crer que .sou f^n.
Aurélio
Ou me meute a vista, Aurélio
Ou eu vejo Auipbitriào. Contais hum caso d'espanto I

Moço E poi.s não podeis entrar,


JDefeudei-uie por em tanto,
Eu ouvi a Feliseo, Que eu hei de lá chegar
Quando cá trouxe o recado, Para vêr quem pode tanto.
(Jomo elleera chegado,
E quiz-me dizer que veo SCENA Vi
J^^o siso desconcertado.

Aurélio Amphitrião sò

Isso quero eu ir saber, Se vêr deshonra tão clara


Pois que tal cousa se sua. Me não tivera o sentido
Totalmente endoudecido,
SCENA V Que gravemente chor-ira
Vêr tão grande amor perdido I

Aurelw e Amphitrião E quando vejo a verdade


Do nosso amor e amizade
Aurélio Desfeita com tanta mágoa.
Senhor, póde-se dizer Enchem- se- me os olhos d'ágoa,
Que a vinda seja mui boa ?
E a alma de saudade.
Asai que quiz minha estrella,
Amphitrião Para nunca ser contente,
Kssa não pode ella ser. Que agora, estando presente
Viva mais saudoso d'ella,
Aurélio Que quando delia era ausente.
Porque não ? Esta porta vejo abrir
Com Ímpeto demasiado,
Amphitrião Que poderei presumir,
Porque i)e roubada Que vejo Aurélio sahir.
.Minha honra sem temor, Como homem desatinado?
E minha casa tomada,
E vossa Prima enganada SCENA VII
Por hum grande encantador.
Amphitrião, Aurélio^ Belferrò.'»
Aurélio
Isso he certo ?
Aurélio
Amphitrião
Oh estranha novidade !

E manifesto : Oh cousa para não crer I


56 COMEDIAS

Belferrão
Do raio que nos cegou.
Estes acontecimentos
Venho cego de verdade, Xào sào de liumana pessoa.
Que DHO puderào soíFrer Vós ouvis a voz que soa ?
Meus olhos a claridade. Escutac. esíae attentos ;
Vejamos o que pregoa.
Sosea
Júpiter, de dentro
Oh que vengo ciego
triste,
Con raros, y com visiones ! Amphitriào, qu"em teus dias
Y destas encantaciones. Vês tamanhas estranhezas,
Si nuesrra casa arde em fuego. Xào t'espantem phantasias,
Hau se de arder mis colchones Que ás vezes grandes tristezas
Parem grandes alegrias.
Aurélio
Júpiter sou munifesto
Vamos a Amphitriào Nas obras de admiração.
Contar-lhe cousas tamanhas. Que por mi causadas são :

Quiz-me vestir em teu gesto,


Amphitriào Por honrar tua geração.
Que vai lá? que cousas vào ? Tua mulher parirá
Aurélio
Hum filho de mi gerado.
Que Hercules se chamará,
Maravilhas tão estranhas, O mais valente e esforçado.
Que me treme o coração. Que no mundo se achará.
Porque aquelle homem, que assi (.'cm este. teus successores
Tantos enganos teceo, Se honrarão de serem teus ;
Como era cuusa do Ceo, E dar-lhe-hão os.escriptores,
Tanto qu'eu appareci, Por doze trabalhos seus,
Logo desappareceo. Doze milhões de louvoVes.
E em desapparecendo E dessa illustre fadiga
Com ruído grande e horrendo. Colherás mui rico fruito :

Toda a casa allnmiou ;


Emfim. a razão me obriga
E de arte nos infiammou, Que tão pouco delle diga,
Que nos vimos acolhendo Porque o tempo dirá muito.
FILODEMO

INTERLOCnORES

Filodemo. — Vilardo, seu Moço. — Dionysa.


Solina, sua Moça. — Venadoro.
Monteiro. — Diiriano, — Hum Pastor.
Amigo de Filodemo.

Hum Bobo, Filho do Pastor. Florimena, Pastora.
Dom LusidardOj Pae de Venadoro.
Doloroso, Amigo de Vilardo. — Três Pastore^».
ARGUMENTO
Hum Fidalgo Portuguez, que acaso audava uos Reinos de Dina-
marca, como por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o
amor de huma filha d'ElRei, foi-lhe necessário fugir com ella em huma
galé, por quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo che-
gados á costa de Hespanha, onàe elle era senhor de grande patrimó-
nio, armou-se-llie grande tormenta, que sem nenhum remédio, dando a
galé á costa, se perderão todos miseravelmente, senão a Princeza, que
em huma taboa foi á praia: a qual, como cheaasse o tempo de >ieu
parto, junto de huma fonte pavio duas crianças, macho e fêmea e nào
;

tardou muiio que hum pastor Castelhano, que naquellas partes morava,
ouvindo os tenros gritos dos meninos, lhe acudio a tempo que a Màe
ja tinha espirado. Crescidas, emfim, as crianças debaixo da humanidade
e criação daquelle pastor, o macho que Filodemo se chamou á vontade
de quem os baptizara, levado da natural inclinação, deixando o campo,
se foi para a cidade, aonde jDor musico e discreto, valco muito em casa
de D. Lusidardo, irmão de seu Pae, a quem muitos annos sc-rvio sem
saber o parentesco que entre ambos havia. E como de seu Pae não ti-
vesse herdado nada mais que os altos espirites, namorou-se de Diony-
sa, filha de seu Senhor e Tio, que incitada ao que por suas obras e
boas partes merecia, ou porque ellas nada engeitão, lhe não queria mal.
Aconteceo mais, que Venadoro, Filho de D. Lusidardo, mancebo fra-
gueiro, e muito dado ao exercício da cara, andando hum dia no campo
após hum cervo, se perdeo dos seus e indo dar em huma fonte, onde
;

estava Florimena. Irmãa de Filodemo (que assim lhe pozerão o nome)


enchendo huma talha de água, se perdeo de amores por ella, que se
não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava, até que seu
I^ae o não foi buscar, O qual informado pelo pastor (|ue a criara (que
era homem sábio na Arte Magica) de como a achara e como a criara,
não teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua Filha, e Pri-
ma de Filodemo e a Venadoro seu Filho, com Florimena sua Sobri-
;

nha, Irmãa de Filodemo pastor; e também pela muita renda que tinha
e de seu Pae ficara, de que elles erão verdadeiros herdeiros. Das mais
particularidadesi da Comedia, fará menção o Auto, que he o seguinte.
:

DE LUIZ DE CA.VOKS Õ9

ACTO I

Filodemo
StENA I Porque ?
Viiardo
Filodemo e Vilar do
Porque ha dasscntar
Que se nào for com pào quente,
Filodemo
Nào ha át desatferrar.
Moço Yilardo ?
Filodemo
Viiardo
Ora hi pelo que vos mando,
Ei-lo Tae. Villào feito de fermento.

Filodemo Saht Viiardo


Fallae era má, fallae, Triste do que vive amando
E sabi cá para a sala. Sem ter outro mantimento,
O villáo como se cala ! Qu'estar só phantasiando !

Só hua cousa me desculpa


Viiardo Deste cuidado que sigo,
PoiíN, Senhor, sahi a meu Pae, Ser de tamanho perigo,
Q«e quando dorme nào fala. Que cuido que a mesma culpa
Me íica sendo castigo.
Filodemo I

Trazei cá Lum;i cadeira Vem o moQO. e assenta-se, na cadei-


Ouvis, villào ? ra Filodemo, e diz ávojite :
Viiardo
Ora quero praticar
Senlior, sim. Só comigo hum pouco aqui ;

(Sc m'ella não traz a mira, Que despois que me perdi.


Vejo-lh'eu ruim maneira.) Desejo de me tomar
Estreita conta de mi,
Filodemo
Vae para fora, Viiardo.
Acabae, villào ruim. Torna cá vae-me aaber
:

Que moço para Eervir Se se quer já lá erguer


Quem tèe as tristezas minhas ! O Senhor Dom Lueidardo,
Quem pude£í;e assi dormir ! E vem-mo logo dizer.

Viiardo
Yai-ge o mo<^o
Senhor, nestas manhãzinhas
Nào ha hi senào cahir : Ora bem, minha ousadia,
Por demais he trabalhar Sem azas, pouco segura.
Qu'e8te somno se me ausente. Quem vos deo tanta valia,
:

60 COMEDIAS

Que subais phantasia


fi Com seu damno se confonne,
Onde nào sobe a ventura ? Pezar de quem me parlo ;

Por ventura eu não nasci Que ainda o sol não sahio :

No mato, sem mais valer, Se vem á mão, também dorme.


Que o gado ao pasto trazer ? Elln quer-se levantar
Pois donde me veio a mi Assi pela manhãzinha I

Saber-me tào bem perder ? Pois quero-o desenganar :

Eu, nascido entre pastores. Nem por muito madrugar


Fui trazido dos currais, Amanhece mais asinha.
E d'entre meus n.iíuruis Filcdemo
Para casa dos Senhores,
Donde vim a valer mais. Traze-me a viola cá.
E agora logo tào cedo
Vilardo
Quiz mostrar a condição
De ruetico e de villào I (Voto a tal que me vou rindo.)
Dando-me ventura o dedo, Senhor, também dormirá.
Lhe quero tomar a mào !

Mas oh qu"isto nào he assi.


!
Filodemo
Nem sio villàos meus cuidados, Traze-a, moço.
Como eu delles entendi Vilardo
Mas antes, de sublimados,
Os não posso crer de mi. Si, virá.
Porque como hei de crer Se não estiver dormindo.
Que me faça minha estrella Filodemo
Tào alta pena soíFrer,
Que somente pola ter Ora hi polo que vos mando :

Mereço a gloria delia ? Não gracejeis.


Senão se amor, d'attentado. Vilardo
Porque me não queixe d'elle,
Tèe por ventura ordenado Eis -me vou :

Que mereça o meu cuidado, Pois, pezar de São Fernando !

Só por ter cuidado n'elle. Por ventura sou eu grou ?


Sempre hei d'cstar vigiando? Scúie.

SCENA II Filodemo
Ah Senhora, que podeis
Vilardo e Filoãemo
Ser remédio do que peno,
Quão mal ora cuidareis
Vilar do
Que viveis e que cabeis
O Senhor Dom
Lusidardo j
N"hum coraçã(; tào pequeno !

Dorme com todo o convento ;


! Se vos fosse apresentado
E elle com o pensamento I
Este tormento (mti que vi^o,
Quer estar fazendo alardo Creríeis que foi ousado
De castellinhos de vento ! ! Este vosso, de criado
Pois tào cedo ae vestio, '
Torna -se vosso captivo V
Dí: LCIZ de CAMÕES 61

Viiardo
SCENA III
:
Ja venho.
Filodemo e Vilar do
!

j
Filodemo
Vilar., o
:
Qu'eu só desta phantasia
Ora eu he verdade
creio, se ;
Me sostenlio e me mantenlio.
Qu'estou de todo acordado,
Que meu amo he namorado Vilardo
;

E a mi dá- me na vontade
Quamanha vista que tenho,
Que anda iiuni pouco abalado.
Que vejo a esíreila do dia Sahe. I

E se tal ho, eu da.ria


,

Por conhecer a donzella


A raçào dMioje este dia
Porque a desenganaria,
;
SCENA IV
Somente por ter dó delia.
Havia-lhe perfcuntar :

Filodemo, cantando
Senhora, de que comeis ? ;

Se comeis d'ouvir cantar. !


Adó sube cl pon.-^amionto,
De fallar bem, de trovar, Seria uaa gloria immeusa
Em boa hora casareis. I

Si allá fae:<e quieii lo piensa.


Porém se vós comeis pào. I

Tende, Senhora, re.^auardo ;

Qu'ei8-aqui está Yilardo, !


Falia
Qu'he como hum camaleão. i

Por isso, bus, fazei fardo. Qual espirito divino


E se vós sois das gamenhas, Me fará a mi sabedor
E houverdes d'attentar Deste meu mal, se he amor,
Por mais que por manducar, Se por dita desatino ?
Mi cama soa duras penas. Se he amor, diga-me qual
Mi dormir siampre es velar. Pôde ser seu fundamento,
A viola, Senhor, vem !
Ou qual he seu natural,
Sem primas, nem derradeiras :
I
Ou porque empregou tão mal
Maíí sabe o que lhe convém ? Hum tâo alto pensamento.
Se quer. Senhor, tanger bem, Se he doudice, como em tudo
Ha de haver mister terceiras. A vida me abraza c queima,
E se estas cantieras vessas ; Ou quem vio n'hum peito rudo
Nào forem para escutar, i
Desatino tão sisudo,
E quizordes espirar ; '
Que toma tito doce teima ?
Ha mister cordas mais grossas, Ah Senhora Dionysa,
Porque nào possuo quebrar. ;
Onde a natureza humana
Se mostrou tào soberana !

Filodemo
O que vòs valeis me avisa,
Vae para fora. Mas o qu*eu peno m 'engana.
:

62 COMEDIAS

Como desjnda eia camisa


SCENA V Se ergueo por vos escutar.
Filodemo
Solina e Filodemo
Em camisa levantada !

Solina Tão ditosa he minha esrrella !

Ou mo dizeis refalsada?
Tomado estais vós agora,
Senlior, eo'o furto nas màos.
Solina

Filodemo Pois bem me defendeo ella


Que vos não dissesse nada.
•Solina, minha Senhora,
Quantos pensamentos vãos Filodemo
Me ouviríeis lançar fora ? Se pena de tantos annos
Solina Merecer algum favor,
Para cura de meus dannos
Oh Senhor, quào bem que soa Fartae-me desses engannos.
O tanger de quando em quando !
Que não quero mais de Amor.
Bem sei eu huma pessoa.
Que ha ja huma hora, e boa, Solina
Que vos está escutando. Agora quero eu fallar
Filodemo Neste caso com mais tento :

Quero agora perguntar :

Por vida vossa, zombais ? E de siso his vós tomar


Quem lie ? quereis-mo dizer ? Hum tão alto pensamento ?
Solina Certo é minha maravilha,
Se vós isto não sentis
Nâo o haveis vós de saber, Bem vós como não cahis
:

Bofe se me não peitais. Que Dionysa qn'hc filha


Filodemo Do Senhor a <}uem servis?
Como ? Vós nao attentais
L)ar-vos-hei quanto tiver, Os Grandes, de qu'he pedida ?
Para taes tempes como estes. Peço- vos que me digais
Qnem tivera voz dos Ceos, Qual é o fim que esperais
Pois escutar me quizostes ! \este caso, em vossa vida.
Solina Que razão boa, ou que côr
Podeis dar a esta affeição ?
Assi pareça eu a Deos,
Dizei- me vossa íenção.
Como lhe vós parecestes.
Filodemo
Filodemo
Onde vist-^s vós amor
A Senhcra Dionysa
Que se guie por rnzão?
Quor-se ja alevantar?
Se quereis saber de mi
Solina
Que fim, ou de que theor
Assi me veja eu casar. O pretendo em minha dor
!

DE LUZ UK CAM"K.- r>:;

>S'ou neste amor quero fim.


Solina
Sem fim me :^itormente Amor.
Maa vós com gloria fingida Aqvielle máo pezar,
Pretendeis de m'enganar. Que anfhontem comvosco hia.
Por assime tratar:
mal ;
Quem se fo.^se em vós fiar
Assi que me
dais a vida i
O que vos dissp o outro dia,
Somente per me matar. ! Tudo lhe fostes contar.
Filodemo
Solina
j Que lhe contei ?
Eu digo- vos a rerdade.
i
Solina
Filodemo
I
Já lh*esqueceV
verdade fujo eu,
\)<i

Porque se o Amor me deu Filodemo


Pena de tal qualidade, i Por certo qu estou remoto.
Aasaz me custa do meu.
Solina
Solina
Hi, quG sois hum cesto roto.
Pólgo muito de saber
Que sois amante tJio fino.
Filodemo
Filodemo Esse homem tudo merece.
Solina *
Pois vos quero dizer.
iiiais
Que ás vezes no imaginar Vós sois muito seu devoto.
Xào ouso de m"csteuder. Filodemo
Xa liora que imaginei Senhora, não hajais medo :

Xa cauíja de meu tormento, Contae-m'isso. e far-mc-hei mado.


Tamanha gloria levei,
Que por ouças desejei Solina
De lograr o pensamento. i Senhor, o homem sisudo.
Solina Se em taes cousas toe segredo,
Saiba que alcançará tudo.
Se me vós a mi jurardes A senhora Dionysa
De me terdes em segredo Crede que mal vos njío quer :

lluma cousa. mas hei medo


. .
j
N;To vos posso mais dizer.
De logo tudo contardes. Isto tende por balisa

Filodemo Com que vos saibais reger.


Qu'em uiulheres, se attentais,
quem O querer está visibil;
Solina E se bem vos governais,
Nilo desespereis do mais,
Aquelle enxovedo. Pf.rque. emfim, tudo he possibil.

Filodemo Filodemo
Qnril V Senhora, pôde isso ser?
! : :!

(Á COMEDIAS

Solina Solina

8i, «jiie tuiío o inundo tem : Si, que tudo são enganos
Olhaé ivXo o saiba algucm- Em tudo quanto fallais.

File demo Filodemo


E qne maneira liei de ter Xão quero que me creais
Para crer tamaulio bem? Crede o tempo; que ha dous anos
Que vos serve, e inda mais.
Solina
Solina
Vós, Senhor, o sabereis;
E já que vos descobri Senhor, bem sei que m^eugano;
Tamanho se.uiedo aqui. Mas a vós, corno a irmão,
Uma mereê me fiireis Descubro este coração :
Em que me vai muito a mi. Sabei que a Duriauo
Tenho sobeja affeição.
Filoãemo Oihae que Uie não digais
Senhora, a tudo me obrigo Isto que ^os aqui digo.
Quanto fôr em minha mào. Filodemo
Solina
Senhora, mal me {ratais
Pois dizei a vosso amigo Inda que sou sou amigo,
Que não gaste tempo em vâo, Sabei que vos.^o sou mais.
Nem queira amores comigo.
Porque eu tenho parentes, Solina
Que me podem bem casar;
E ja que vos confessei
E mais que nào quero andar
}
Aque^^tas fraquezas minha^^,
Agora em boca de gentes í Que he tanto que de mi sei;
A quem s'elle vai gabar.
i Fazei vós nas cousas minhas
Filodemo O qu'eu nas vossas farei.
Senhora, mal conheceis Filodemo
O que vos quer J3uriano :

Sabci-o, se o não sabeis,


Vós enxergareis Senhora,
Qu'em sua alma sente o dano O qu'eu por v«'>s sei fazer.

Do pouco que lhe quereis; Solina


E que outra cousa não quer,
Que ter- vos sempre servida. Como me deixo esquecer
Aqui estivera agora
Solina Fallando té Mnoitecer.
Pola sua negra vida, 1 Vou- me; e olhae quanto vai
Í880 havia eu bem mister. O que passou entre nós.
Filodemo Filodemo
Vós sois desagradecida E porque vos ides vósV
:

DE LUIZ DE CAMÕES 65

Solina SCENA VII


Porque parece ja mal
Estar aqui ambos sós. Vilardo, só
E mais vou vestir agora Ora boa está a cilada
A quem vos dá tào má vida. De meu amo com sua ama.
Ficae-vos, Senhor, embora. Que se levantou da cama
Filo demo Por ouvi-lo! Está tomada;
Nessa ide vós, Stmhora, Assi a tome má trama.
Que já vos tenho entendida.
E mais crede que quem canta,
Ainda descantará;
E quem do leito, onde está,'
SCENA VI Por ouvil-o se levanta,
Mor desatino fará.
Filodemo, só Quem havia de cuidar,
Ora se pôde isto ser Que dama formosa e bella
Do qu'esta moça me avisa, Saltasse o demónio nella,
Que a Senhora Dionysa, Para a fazer namorar
Por me ouvir, se fosse erguer De quem nào he igual delia ?
Da sua cama em camisa! Que me dizeis a. Solina ?
E diz que mal me nào quer. Como se faz Celestina,
NSo queria maior gloria; Que por nào lhe haver inveja
Mas o que mais posso crer, Também para si deseja
Que nem para lhe esquecer O que o desejo lh'ensina !
Lhe passo pela memoria. Crede que se me alvoroço,
Mas ter Solina também, Que a hei de tomar por dama;
Em Duriano o intento, E nào será grão destroço.
He levar-me a lenha o vento; Pois o amo quer a ama,
Porque s'ella lhe quer bem, Que a moça queira o moço.
Para bem vai meu tormento. Vou-me; que vejo lá vir
Mas foi-se este homem perder Venadoro, apercebido
Neste tempo, de maneira, Para a caça se partir:
Por huma mulher solteira, E voto a tal, que he partido
Que não me atrevo a fazer Para ver e para ouvir.
Que hum pequeno bem lhe queira. ;
Que he razào justa e rasa
Porém far-lhe-hei hum partido, '

Que seu folgar se desconte


Porqu'ella náo se querelle ; Em quem arde como brasa;
Que se mostre seu perdido, Que se vai caçar ao monte.
Inda que seja fingido, Fique outrem caçando em casa.
Como lh'outrem faz a elle.
E ja que me satisfaz, SCENA VIII
E tanto n'Í6to se alcança.
Dê -lhe fingida esperança: Venadoro só
Do mal que lhe outrem faz,
Tomará n'ella vingança. Aprovada antiguamente
6Ç COMEDLAS

Foi, e milito de louvar Que imnea caçou veado.


A occupaçâo do caçar, Vejamos que me ha de duv.
E da mais autigua gente
Havida por singular. Venadoro
He o mais contrário officio
Que tèe a ociosidade, Dar- vos -hei quanto tiver:
Màe de todo o bruto vício: Mas ha-se d'exprimentar.
Por este limpo exercício Para se poder julgar
Se reserva a castidade. As manhas que pode ter.

Este dos grandes Senliore?


^r Monteiro
Foi sempre muito estimado;
E he grande parte do estado Pode assentar qu'este cão,
Ter monteiros. caçadores, Que tèe das manhas a chave.
Como officio qu'he prezado. Bem feito ? Em admiração.
Pois logo porque razào Pois em ligeiro ? He huma ave
A meu pae ha de pezar Em commetter? Hum leão.
De me ver ir a caçar ? Com porcos ? Maravilhoso.
E tâo boa occupaçjio Com veados ? Estremado.
Que mal pode causar ? Sobeja-lhe o ser manhoso.

SCEXA IX Venadoro
Pois eu ando desejoso
Venadoro e o Monteiro D'irmo8 matar hum veado.

Monteiro Monteiro
Senhor, venho alvoroçado,
Pois, Senhor^ como não vae?
E maÍ8 com muita razão.
Venadoro Venadoro
C?omo assi V
Vamos, e vós mui ligeiro
Monteiro O necessário ordenae;
Que mo he chegado Qu'eu qurro chegar primeiro
O mais extremado cão. Pedir licença a meu pae.

ACTO II

SCENA 1

Dnriano
Pois não creio eu em S. Pisco de páo, se hei de pôr pé em ramo
verde, té lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto de
trezentos cruzados com ella, porque logo lhe não mandei o setim para
as mangas, fez de mim mangas ao demo. Não desejo eu de saber, senão
DK LUI8 DB CAMOBS 67

qual é o galante que me sucnedeo; que se vo-lo eu colho a balravento,


eu lhe farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tee cortado
á minha. Ora tenho assentado, que o amor d'e3ta3 anda com o dinheiro,
como a maré cora a lua: bolsa cheia, amor em águas vivas; mas se vasa,
vereis espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavào
como o peixe na água.

SCENA II

Filodemo e Durianu

Filodemo
O lá cá sois vós ? Pois agora hia eu bater essas mouta?, para vêr
!

se me sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, é necessário


que vos tire como huma alma.
Duriano
Oh maravilhosa pessoa Vós he certo que vos prezais de mais certo
!

em casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mào,


os pensamentos com os fwcinhos quebrados, de cahirem onde vós sa-
beis. Pois sabeis, ÍSenhor Filodemo, quaes sào os que me mátào? Huna
muito bem almofadados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio;
e se prezão de brandos na conversação, e de fallarem pouco e sempre
comsigo, dizendo que nào darão meia hora de triste pelo thesouro de
Veneza; e gábào mais Garcilasso que Boscão; e ambos lhe sahem das
mãos virgens; e tudo isto por vos meterem em consciência que se nHo
achou para mais o grão C^ipitão Gonçalo Fernandes. Ora pois desen-
gano-vos, que a mór rapazia do mundo farão altos espiritos: e eu não
trocarei duas pescoçadas da minha &c., depois de ter feito a tosquia a
hum frasco, e failar-me por tu e fingir-se-me bêbada, porque o não pa-
reça, por quaiitos Sonetos estão escriptos pelos troncos das árvores do
valle Luso, nem por quantas Madamas La uras vós idolatrais.

Filodemo
Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.
Duriano
Aposto que adivinho o que quereis dizer ?

Filodemo
Que?
Duriano
Que se me me nSo acudíeis com o batel, que me hia meus passos
contados a hereje de amor.
S9 COMEDIAS

Filodemo
Oh que certeza tamanha, o muito peccador nào se conhecer por esse!

Duriano
Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opi-
nião Mas tornando a nosso propósito, que he o para que me buscais ?
!

que se he cousa de vossa saúde, tudo farei.

Filodemo
Como templará el destemplado ? Quem poderá dar o que não têe'
Senhor Duriano? Eu quero vos deixar comer tudo: nào pode ser que a
natureza não faça em vós o que a razào nào pode: o caso he este*, dir-
vo-lo-hei; porém he necessário que primeiro vos alimpeis como marme-
lo, e que ajunteis para hum canto da casa todos esses máos pensamen-
tos; porque segundo andais mal avinhado, damnarcis tudo aquillo que
agora lançarem em vós. Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda
a outra cousa que nào he servir a Senhora Diouysa; e postoque a des-
igualdade dos estados o nào consinta, eu não pretendo delia mais que
o nào pretender delia nada, porque o que lhe quero, comsigo mesmo
se paga; que este meu amor he como a ave Phenix, que de si só nasce,
e não de outro nenhum interesse.

Duriano
Bem praticado está isso; mas dias ha que eu nào creio em sonhos.

Filodemo
Porque?
Duriano
Eu porque todos vós-outros os que amais pela passiva,
vo-lo direi :

dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama
que amál-a; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo,
atoado a trezentos Platòes, mais çafado que as luvas de hum pagem
d'arte, mostrando razoes verisimeis e apparentes, para nào quererdes
mais de vossa dama que ve-la; e ao mais até fallar com ella. Pois índa
achareis outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defen-
derão ajusta por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne)
se a qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada
entre dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sobre pedra e eu ja
:

de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e
que ella ha de ser paciente, e eu agente, porque esta he a verdade.
Mas, com tudo, vá v. m. co'a historia por diante.
Filodemo
Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os
Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na
DE LUIZ DE CAMÒE3 69

mào, bem trinta oii quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensa-
mento, senào quando me tomou á traição Solina; e entre muitas pala-
vras que tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantara da
cama por me ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando qiiasi
hora e meia.
Duriano
Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos nao fazia tanto
avante.
Filodemo
Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi
para mi o maior bem do mundo; que eu estava já concertado com mi-
nha pena a sotfrer por sua causa, e não tenho agora sojeito para tama-
nho bem.
Duriano
Grande parte da saúde he para o doente trabalhar por ser sào. Se
vos deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado,
nunca chegareis onde chegou Rui de Sande, Por isso boas esperanças
ao leme; que eu vos faço bom que ás duas enxadadas acheis água. E
que mais passastes?
Filodemo
A maior gi-aça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por
vós; e me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que vós mere-
cêsseis.
Duriano
Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse
amor? porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros
enojos que dizer poderia, no sen sino corredores dei amor, e a cilada
em que ella quer que eu caia.
Filodemo
Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que
lho quereis.
Duriano
Nào. quanté dessa maneira me ofiereço a romper meia dúzia de
. .

serviços alinhavados ás panderetas. que bastem assentar-me em soldo


pelo mais fiel amante que nunca calçou esporas e se isto não bastar,
;

salgan las palabras mas sangrientas dei corazon, entoadas de feição


que digào que sou um Manci:is, e peor ainda.
Filodemo
vida. Vamos vêr se por ventura apparece, porque
Ora dais-me a
Venadoro, irmão da Senhora Dionysa, he fói-a á caça; e sem clle fica a
! ;

7Q COMETMkB

casa despejada e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar que todo


; ;

o seu passatempo he enxertar e dispor, e outros exereicios d'agricultura,


naturaen a velhos: e pois o tempo nos vem á medida do desejo, vamo-
nos lá; e se puderdes fallar, fazei de vós mil manjares, porque lhe fa-
çais erêr que sois mais esperdiçado d 'amor que um Braz Quadrado.

Duriano
Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil mara-
vilhas, com que vosso feito venha á luz.

Solina
SCENA III Eu o disse?

Dionysa
Dyonisa e Solina,
Eu não o ouviV
Dionysa Como mo quereis negar?

Solina, mana. Solina


Solina E pois isso que releva?
Que se perde nisso agora?
Senhora.
Dionysa
Dionysa
Que se perde! Assi, Senhora,
Trazei-me cá a almofada ;
Folgareis vós que se atreva
Que a casa está despejada,
A contá-lo lá por fora?
E estavaranda cá fora
Que se lhe meta em cabeça
Está melhor assombrada.
Alguma parvoa tenção?
Trazei a vossa também
Que faça, se vem á mâo,
Para estarmos cá lavrando
Algua cousa que pareça?
Em quanto meu pae nào vem,
Estaremos praticando, Solina
Sem nos estorvar ninguém. Senhora, nào tce razào.
Solina Dionysa
Este he o mesmo lugar Eu sei mui bem attentar
Onde estava o bem logrado, Do que se ha de ter receio,
Tal que de muito enlevado E do que he para estimar.
Se esquecia do cantar
Por se enlevar no cuidado. Solina
Não he o demo tào feio
Dionysa
Como alguém o quer pintar;
Vós, mana, sois mui ruim E uào se espera isso delle,
Logo lhe fostes contar Que nao he ora tào moço.
Que me ergui polo escutar. ¥é Vossa Mercê asselle
. !; ;

TJB LUIZ DE C AMUES 71

Que qualquer áet^redo nelle


He como huma pedra em poço. I
Dyonisa
Deixae-o vós doudejar.
Dionysa
I

! Se meu pae ou meu irni-j,


E eu que segredo quero 1 O vierem a aventar,
Co'huin criado de meu pae? ! Não ha elle de folgar.
Solina
Solina i

Deus metterá nisso a mio.


E vós, mana, lazei-^ fero?
I

Ao diante vos espero,


j
Dionysa
Se adiante o caso vae.
I
Ora hi polas almofadas.
Dionysa i
Que quero um pouco lavrar,
Por ter em que me occupar
O madraço! quem o vir j

Qu'em cousas tào mal olhadas


Fallar de siso co'ella. .
I

Nâo se ha o tempo de gastar.


Então vós, g-entil donzella^
Folgais muito de o ouvir? Solina
Solina Que cousa somos mulheres !

Como somos peri irosas !


Si, porque me falia nella;
E mais estas tào viçosas
E eu como ouço fallar
Qu'estâo á boca qite queres ?
Nella,como quem nâo sente,
Pólgo de o escutar.
E adoecem de mimosas !

Se eu nâo caminho agora


Só para lhe vir contar A seu desejo e vontade ;
O que delia diz a gente; Como faz esta Senhora,
Qu'eu nào quero nada delle.
Fazem-se logo nessa hora
E mais, porque está fallando ? Na volta da honesiidade.
Nâo m'e3teve ella rogando Quem a vira o outro dia
Que fosse fallar com elle?
Hum poucochinho agastada,
Dionysa Dar no chào com a almofada,
E enlevar a phantasia,
DÍ6se-vo-lo assi zombando. Toda n'outra transformada
Vós logo tomais em grosso Outro dia lhe ouvirão
Tudo quanto me escutais. Lançar suspiros a molhos,
Parvo? que vê-lo nâo posso. E com a imaginação
Cahir-lhe a agulha da mao,
Solina
E as lagrimas dos olhos.
Ella alli, e o cào co'o osso! Ouvir-lhe-heis á derradeira
Inda isto ha de vir a mais. A ventura maldizer,
Pois que tal ódio lhe tem, Porque a foi fazer mulher.
Fallemos, Senhora, em ai; Então á\z que quer ser Freira
Mas eu digo que ninguém E nâo se sabe entender.
Merece por querer bem Então gaba-o de discreto,
Que a quem lho quer, queira mal. De musico e bem disposto,
72 COMEDIAS

De bom corpo e de bom rosto. Logo lhe ameaga a vida,


Quanté entào eu vos prometo, Logo se mostra nessa hora
Que nao têe delle dessròsío. Muito segura de fora,
Despois, se vem a attentar, E de dentro está sentida.
Diz que he muito mal feito Bofe, segundo vou vendo.
Amar homem deste gcito ;
Se esta postema vier.
E que nào pôde alcançar Como eu suspeito, a crescer,
Pôr seu desejo em effeito. Muito ha que delia entendo
Logo se faz tao Senhora. O fim que pode vir ter.

SCENA IV
Duriano e Filodemo

Duriano
Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos entretanto cuidarei o ;

como hei de fazer; que nào ha mór trabalho para limna pessoa que
fingir-se.
Filodemo
Dar-lhe-heis esta carta ; e fazei muito com ella que a dê á Senhora
Dionysa; que me vai nisso muito.
Duriano
Por mulher de tào bom engenho a tendes V

Filodemo
E porque me perguntais isso?
Duriano
Porque ainda hontem entrou pelo a, b, c, e ia quereis que leia carta
mandadeira fa-la-heis cedo escrever matéria junta.
:

Filodemo
Nào lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe
fallais; mas lingi que de puro amor a andais buscando a temix)s que
façào á vossa tençào.
Duriano
Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei m<*lhor as pancadas a
estes vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vÓ3
entretanto acolhei- vos a sagrado, porque ei-la lá vem.

Filodemo
Olbae lá fazei que a nào vedes,
: e fingi que fallais comvosco i

que faz a nosso caso.


: .

DE LUIZ DE CAMÕES 73

Duriano
Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remédio de tristes Ia terrible pena :

mia no la espero remediar. Pois nào devia assi de ser, poios santos
Evangelhos mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangre-
!

jos, andào ás vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque


suelen aflojar cu ando más duelen.)

Solina
SCENA V Logo me a mi parecia
Que era elle o que passeava.
Solina e Duriano
Duriano
Solina, com a almofada E eu mal adivinhava
Que me viesse este dia,
Aqui anda passeando
Que ha tantos que desejava.
Duriano, e só comsigo
Se huns olhos por vos servir,
Pensamentos praticando
Daqui posso estar notando
:
Com o amor que vos conquista,
Se atreverão a subir
Com quem sonha, se lie comigo.
Os muros da vossa vista,
Duriano Que culpa tèe quem vos vir ?
Ah quào longe estará agora E se esta minha aíFeiçào,

Minha Senhora Solina Que vos serve de giolhos,


De saber que estou bem fora Não fez erro na tençào,
De ter outra por senhora, Tomae vingança nos olhos,
Segundo o amor determina !
E deixae o coração.
Porém se determinasse Solina
Minha bem -aventurança
Que de meu mal lhe pe;cassc, Ora agora me vem riso.

Até que nella tomasse Assi que vós Senhor,


sois,

Do que lhe quero vingança ! . .


De siso meu servidor ?

Solina Duriano
(Comigo sonha por certo. De porque o siso
siso não,

Ora quero-me mosttar, Me tòe tirado o amor.


Assi como por acerto Porque o amor, se attentais,
Chegar-me-hei mais ao perto, N'hum tào verdadeiro amante
Por ver se me quer fali ar.) Não deixa siso bastante ;
f
Sempre esta casa ha doestar Senão se siso chamais jj

Acompanhada de gente. A doudice tão galante.


Que nào possa homem passar !
Solina
Duriano Como Deos está nos Ceos, av.d
A traição vindes tomar Que se he verdade o que terao',^,, o
Quem ja feridas nào sente ? Que fez isto Filodemo.
74 COMEDIAS

Duviano Solina
Mas fê-lo o dém© ; que Deos He bem : que fallar he eaae ?
Nâo faz mal tanto em extremo.
Duriano
Solina Dentro na vossa alma, digo,
Bem. Vóg, Senhor Duriano, Lá andasse, e lá morresse !

Porque zombareis de mim ? E mal vos parece,


se isto
Dae-me a morte por castigo.
Duriano
Eu zombo ? Solina
Solina Ah máo I Como sois malvado !

Eu não monsíauo. Duriano


Duriano
vós como sois malvada,
iȒas
S'eu zombo, inda em meu dano Que de hum pouco mais de nada
Vejais vós mui cedo a fim. Fazeis hum homem armado.
Mas Senhora Solina,
vóSj Como quem'stá sempre armada ?

Porque me querereis mal ? Dizei-me, Solina, mana.


Solina Solina
Sou mofina. Qu'he isso ? Tirae lá a mâo ;

Duriano Oh ! vós sois máo cortezào.

Oh ! real. Duriano
Aasi que minha mofina
He minha imiga mortal.
O que vos quero m'(-ngana,
Mas o que desejo uào.
Dias ha queu imaffino
Não ha aqui seuào paredes,
Qu'em vos amar e servir
As quaes nào fallão, nem vem.
Não ha amador mais fino ;

Mas sinto que de mofino Solina


Me fino sem o sentir.
Está isso muito bem.
Solina BeD> e vós. Senhor, nào vedes
:

Bem derivais quanté a,6r':


:
Que poderá vir alguém ?
A' popa o dito vos veio. Duriano
Duriano Que vos custào dous abraçoft ?
Vir-me-ha de vós, porque creio
Solina
Que vós fallais dentro em mi,
Como esprito em corpo alheio. Nào quero tantos de8pej'>s.
E que em estas pios
as8Í
Duriano
A eahir. Senhora, vim :

Bem parecerá entre nós, Pois que farào meus desejos,


Pois vós andais dentro <jrn mim, Que querem ter-vos no-? braços,
Que ande eu também dejitro em vós. E dar-vos trezentos beijos ?
m: LLI25 DB ca>ioí:s 75

Solina Duriano
Olhae que pouca vergonha ! Por amor de mi. Senhora,
Hi-vos d'hi, boca de praga. Não fareis huma cousinha ?

Duriano Solina
Eu nâo sei certo a que ponhíi j
Digo que vades embora.
Mostrardes-me a triaga, 1
Que cousa ?
£ virdes-me a dar peçouha. Duriano
Solina Esta cartinha.
Ora ide rir á feira, Solina
E não sejais dessa laia. Que carta ?
Duriano Duriano
-^-'^
Se vedes minha canseira, '
De Filodemo '

Porque lhe não dais maneir.'; V A Dionysa vossa arna.

Solina Solina
Qne maneira ? Dizei, que tome outra dama,

Duriano
E dê os amores ao demo.
Duriano
 da sais..
Não andemos pola rama.
Solina
Senhora, (aqui para nós)
Por rninha alma, hei de vos dar Que sentis dolla com elle ?
Meia dúzia de porradas.
Solina
Duriano Grandes alforges sois vós !
Oh que gostosas pancadas I
Pois hi-ihe dizer que appelle.
Mui bem vos podeis vingar, Duriano
Qu'em mim sâo bem empregadas.
Fallae, que aqui'5tamos sós.
Solina
Solina
Ao diabo, que o eu dou.
Qualquer lionesta se abala,
Como me dooo a mão !
Como sabe que he querida.
Duriano EUa he por elle perdida :

Nunca n'outra cousa falia.


Mostiao cá, minha aíFeiçâo,
Que Oesa dor me magoou Duriano
Dentro no meu coração. Ora vou dar-lhe a vida.

Solina Solina
Ora bi*voã embora asinha. E eu não lhe disse já
;

76 COMEDIAS

Quanta aííeição lh'ella tem ? '


Que isso a mi também me toca
Mas agora hi-vos embora.
Buriano
Não se fia de ninccuein. Duriano
Nem crê que para elle ha Essas mãos beijo. Senhora,
No mundo tamanho bem. Em quanto não posso a boca.
Solina
SCENA VI
Dir-vos-hia de mim lá
O que lh'eu disse zombando ?
Solina que traz a almofada,
Duriano e Dlonysa
Não disse, por S. Fernando ! Solina
Solina Já Vossa Mercê dirá
Qu'estive muito tardando.
Ora ide-vos,
Dionysa
Duriano
Que me vá !
Bem vos deti vestes lá.
Bofe que estava cuidando
E mandais que torne V Quando ?
Em não sei que.
Solina
Solina
Quando eu cá vir lugar.
Que será?
Vo-lo mandarei dizer.
Aqui somos (Quanfé agora
Duriano Está ella transportada.)

Se o quizerdes buscar, Dionysa


Não vos deve de faltar,
Que rosnais vós lá, Senhora ?
Se não faltar o querer.
Solina
Solina
Não falta Digo que tardei lá fora

Duriano Em buscar esta almofada.


Que estava ella agora só
Dae-me um abraço Comsigo phantasiando ?
Em sinal do que quereis ?
Dionysa
Solina
Bofe que estava cuidando
Tá, que o não levareis. Qu'he muito para haver dó
Duriano Da mulher que vive amando.
Que hum homem pode passar
De quanto serviços faço A vida mais occupado :

Nenhum pagar me quereis V Com passear, com caçar,


Solina Com correr, com cavalgar.
Forra parte do cuidado.
Pagar-vos-hão algum'hora. Mas a coitada
: .

DE LUIZ DE CAMÕES Tl

Da mulher sempre encerrada, Dionysa


Que não tèe contentamento,
Nào toe desenfadamento, E essa donde nasceo ?
Mais que agulha e almofada? Solina
Então isto vem parir No meu cesto de costura
Os grandes erros da gente :
Não sei quem m'alli meteo.
Forão mil vezes cahir
Princezas d'alta semente. Dionysa
/Lembra -me que ouvi contar Mostrae-me não hajais medo,:

De tantas aftei coadas Mana. Eu que vos descbri..


Em baixo e pobre lugar,
Solina
Que as que agora vão errar
Podem ficar desculpadas. E se ella vem para mi.
Logo quer vêr meu segredo ?
Solina Não a veja vá-se d'ahi. :

Ei-la-ahi.
Senhora, a muita affeiçâo
Nas Princezas d'alto estado Dionysa
Não he muita admiração ; Cuja será ?
Que no sangue delicado
Faz amor mais impressão. Solina
Mas deixando isto á parte, Não sei certo cuja he.
Se m'ella quizer peitar,
Prometto de lhe mostrar
Dionysa
Huma cousa muito d'arte. Si ; sabeis.
Que lá dentro fui achar. Solina
Nào sei, bofe.
Dionysa
Dionysa
Que cousa?
Solina Ora a carta mo dirá.

Cousa d'esprito Solina


Pois leia Vossa Mercê.
Dionysa
Algum panno de lavores? Abre Dionysa a carta e lê-a

Solina Se para merecer minha pena me


Inda ella não deo no fito ? não falta mais que viver contente
Cartinha sem sobre-escrípto, delia, já logo ma podeis consentir;
Que parece ser de amores, pois que de nenhuma outra cousa
vivo triste, senão por não ser para
Dionysa
tão doce tristeza. Se tendes por
Essa he a boa ventura ? oflensa commetter tamanha ousa-
dia por maior a devíeis ter, se
Solina ;

a não comraettesse; que amor acos-


Bofe que mo pareceo. tumado he fazer os extremos á me-
n COMEDIAS

dida das affeiçoes, e as affeições á Mas praza a Deus, se assi for,


medida da causa delias. Pois logo, Que inda este meu arreceio
nem o meu amor pode ser pouco, Se não conrerta em temor.
nem fazer menos: se este nào bas-
tar para consentirdes em meu pen-
Solina
samento, baste para me dardes o Ja vós, ja sedes,
que pelo ter mereço; e senão mui- Peixes, nas redes.
tas graças ao Ainor, que me soube Senhora, quem mais confia,
dar hum cuidado, que com tê-lo Mais asinha a cahir vem:
se paga o trab;ilho de soffrê-lo. Natural he o querer bem;
Solina
Que o amor n'alma se cria,
Sem o sentir quem o tem.
Quanta parvoíce diz ! Filodemo, no que ouvi,
Tèe-lhe sobeja affeiçâo;
Dionysa
E postoque que o creia assi,
Ora muito boa está ! Ou eu sonhei, ou ouvi,
Como vós, mana, sois má ! Que era d'alta geração.
Kão sejaes vós tão biliz; Logo na phisionomia,
Que bem vos entendo já. Nas manhas, artes e geito,
Cuja he? Mostra mui grande respeito:
Solina
Nem tão alta phantasia
Não se pòe em baixo peito.
E eu que sei.
Dionysa
Dionysa
Tudo isso cuido, e vi
E quem o sabe? Mil vezes miudamente;
Solina Mas estas mostras assi
O demo. São desculpas para mi,
E não para toda a gente.
Dionysa
Solina
Certo que he de quem temo ;

Que os ditos que nella achei O seu moço vejo vir


Sào todos de Filo<iemo. A nós, seu passo contado:
Este homem, que atrevimento Este he muito para ouvir.
He este que foi tomar? Que diz que me quer servir
Qual será seu fundamento? D'amores esperdiçado.
Que mil vezes me faz dar
Mil voltas ao pensamento. SCENA VII
Nào entendo d'elle nada.
Mas inda qu'isto he assi
Vilardo, Solina e Dionysa
Disso que delle entendi,
Me sinto tão alterada,
Que me Vilardo
arreceio de mi.
Eu inda agora não creio Senhora, o Senhor seu pae,
Que é verdade este amor; Mesmo de Vossa Mercê,
IJE LUIZ DK CAMOEíí 79

Ja lá para casa vae:


Por is80, Senhora, andae. SCENA VIII
Que elle me mandou
n'hura pé,
E diz que fosse jantar
O Monteiro, hum Pastor e hum
Vossa Mercê mesmameute. i

Bobo.

Solina
Monteiro
E ja veio do pomar? Perdeo-se por esta brenha
Venadoro, meu Senhor,
Dionysa Sem que novas delle te^ha:
Queira Deos que inda não venha
Oh quem pudera escusar Desta perda outra maior.
De comer, nem de ver gentel Contra esta parte daqui
(Nenhuma cór de verdade Des pós htim cervo correo,
Tenho do que m'elle manda.) Logo desappareceo:
Como da vista o perdi,
Vilardo
O gosto se me perdeo.
S'ella pem vontade anda. Eu, e os mais caçadores,
Eu lhe emprestarei vontade,
Corremos montes e covas;
Emprestem'ella a vianda. Falíamos com lavradores
Deste valle, e com pastores,

Solina Sem licharmos delle novas.


Quero ver nestes casais
Vá, Senhora, por não dar Que cobre aquelle arv redo.
Mais em que cuidar á gente. Se acharei pastores mais,
Que me dem alguns sinais
Dionysa Que me possão tornar ledo.

mas não por jantar:


Irei,
Chama
Que quem vive «'escontente
Mantem-se de imaginar. O dos casaes, o de lá :

Ah pastores, não fallais ?


Vilardo Pastor
Pois também cá minhas dores Quein sois, ó lo que buscais ?
Me não deixão comer pào; Monteiro
Nem come minha affeiçào
Senão sopadas d'amore8, Ouvis ? Chegae para cá.

E mil postas de paixão. Pastor


Das lagrimas caldo faço,
Do coração escudella; Dicid vos lo que mandais.
Esses olhos são panella Bobo
Que coze bofes e baço,
Com toda a mais cabedella. No vayais adó os liamó,
80 COMEDIAS

Padre, sin .saber quien es. Pastor


Pastor Dios 08 guarde! Qué cosa es
Esa porque voceais?
Porque ?
Monteiro
Bobo
Dar-m'heis novas, ou sinais
Porque este es
D'hum Fidalgo Portuguez,
Aquel ladron que hurtó
Se passou por onde andais?
El asno dei Português.
Y se vais adó estan, Bobo
Os juro ai cuerpo sagrado
Yo so' Hidalgo Português
De San Pisco, y San Juan, Que manda su Seiíoriaí
:

Que tambien os hurtarán,


Que sois asno mas honrado. Pastor
Pastor Cállate: oh que néscio es?

Déjame ir, que me llamó. Bobo


Bobo Padre, no me dejarés
Ser lo qne quisiere un dia ?
No, por vida de mi madre;
Que si allá vais, rauerto so',
Ah Santo Dios verdadero !

Y desta vez quedo jo,


Ko seré lo que otros son ?
Sin asno, triste y sin padre.
Digo ahora que no quiero
í

Ser Alonsico, el vaquero.


Monteiro
Pastor
Vinde, que vo-lo encommendo,
Cállate ya, bobarron.
E em vossas mãos me ponho.
Bobo Bobo
No que dijo en comiendo.
vais,
Ya me callo: ahora un poço
Eneomiendoos ai demónio !
He de ser lo que yo quisiere.
Pastor
Ao Monteiro Seiior, diga lo que quiere.
Porque este uíochacho «s loco,
Y es?o es lo que andais haeiendo ? Y muero porque no muere.
Pastor Monteiro
Déjame ir adó está, Digo, que se por ventura
Que no es cosa que me espant». Sabeis o que ando buscando:

Bobo
Hum Fidalgo, que caçando
Se perdeo nesta espessura
No quereis sino ir allá ? Após hum cervo andando.
Pues echadle pan delante, Tenho esta parte corrida,
Puede ser amansará. Sem delle poder saber:
DE LUIZ DE CAUOK8 81

Trago a alegria perdida ;


Monteiro
E se de todo a perder, Quero-me ir lá saber.
Perca-se tambcin a vicia. Ficae-vos a Deos, pastor.
Porque só polo buscar
'J^enlio trabalhos assas.
Pastor
Dios 08 livre de dolor.
Bobo EODO
(Yo 110 puedo callar mas.) Y á nos dé siempre comer
Pan y sopas, (ju'cs mejor.
Pastor Mirad lo que os liotiíico :

(Como no puedes callar? En aquel valle, acullá,


Quítate allá para trás.) Anda pacieudo un burrico,
Cuanto por aquesta tierra, Hidalgo, manso, y bonico ;
No siento nueva ninguna. Puede ser que ese será.
Monteiro Pastor
Oh trabalhosa fortuna! Calla, y acaba de andar.
Pastor
Bobo
Ya ando.
Mas detrás daquesta sierra Pastor
Ifallareis,por dicha, alguna ;
Quieres callar ?
C^ue unas choças de vaqueros
Bobo, que tan poço sabe !
Portugueses allí estaii ;

Y ahí muchas veees vau Bobo


Cazadores Cavalleros : No diceis que ande y acabe '?

Puede ser que lo sabrau. Ando, y no quiero acabar.

ACTO III

SCENA I Junto desta fonte pura.


Segundo a muitos ouvi,
Florimena, pastorcij com um iwtei D'altos parentes nasci
que vai á fonte. Foi com quiz a Ventura,
.

Mas uào como eu mereci.


Florimena O dia que fui nascida.
Por este formoso prado Minha màe do parto forte
Tudo quanto a vista alcança Foi sem cura fullecida:
Tào alegre está tornado, E o dia que me deu vida
Que a qualquer desesperado Lhe dei eu a ella a morte.
Pode dar certa esperança. Do mesmo parto nasceo
O monte, e sua aspereza. Meu irmào, que entre os cabritos
De flórea se veste ledo; Comigo também viveo;
Reverdece o arvoredo, Mas,assi como cresceo.
Somente em minha tristeza Crescerão nelle os espritos.
Está sempre o tempo quedo. Foi-SG buscar a cidade;
82 COMKDIAS

Teve jiiizo e saber; I


Que aqui me guarda a Ventura
Eu fiquei, como mulher, I
Alguma ventura má.
E niio tive faculdade , i Ou ganhado, ou bem perdido,
Para poder mais valer. Faça, emfim, o que quizer,
A hum pastor obedeço Qu'eu o fim d'isío hei de ver;
Por pae. que d'outro níío sei; I
Que ja venho apercebido
E, p(>la màe que matei, I
A tudo quanto vier.
A huma cabra conheço, Qh que formosa serrana
L)e cujo h^ite mamei. A vista se me off*erece !

Mas porém, ja qu'este monte Deosa dos montes parece;


Me obriga e meu na!?ciu.ento, E se he certo que he humana,
Quero, pois quer meu tormento, O monte nào a njerece.
Encher a taliia na foiíte Pastora tào delicada,
Que co'os olhos accrescento. De gesto tào singular,
Fiúfie que eudie a talha Parece-me qu'em lugar
De porguntar pola Cítrad.T,
SCENA II l'or mim lhe hei de perguntar.
Atéqui sempre zombei
De qualquer outra pessoa
Venadoro e Fl.orimena
Que atlei coada topei;
Mas agora zombarei
Venadoro De quem se nào affeiçoa.
Pois que me vim alongar Serrana, cuja pintura
Ijos caminhos e da gente, 'J'anto a alma me moveo,
Fortuna, que o consente, Dizei-me: Por qual ventura
ÍSedevia contentar Andareis n*eata espessura,
De me ter tHo descontente. ^íerecendo estar no CeoV
Porém, segundo adivinho,
Por tào espesso arvoredo. Florimena
Por tào áspero rochedo. Tamanho inconveniente
Quanto mais bunco o caminho, Andar na serra parece?
Tanto mais dVlle me arredo. Pois a ventura da gente
O cavallo, como amigo, Sempre he mui differcnte
Ja cansado me trazia: Do que, ao parecer, merece.
deixou-me todavia;
]\ías
Que \v.i\\ pudera comigo Venadoro
Quem conisíigo não podia.
Quero-me aqui assentar Tal resposta é manifesto
A sombra, nesta hervinha. Nào se parecer co'as cabras.
Porque canso Ja de andar; Pois nào vos parece honesto
Mas inda a fortuna minha Saberdes matar co'o gesto,
Nào cansa de me cansar. Senào inda com palabras ?
Junto desta fonte pura No mato tudo he rudeza.
Nào &ei quem cuido qu'está; Ha tal gesto e discrição ?
Mas no coração me dá Nào o creio.
; : ; ;!

DE LUIZ DE CAMÕES 83

E não vos pareça espanto


Florimena Qu'em vos vendo nie rendi
Porque nSo? Porque quando me perdi,
Não suppvirá natureza Nuo cuidei de ganhar tanto.
Onde falta criaçào? Florimena
Venadoro Senhor, quem na serra mora
Ja Ioga nisso, Senhora. Também entende a verdade
Dizeis, se mio sinto mal, Dos enganos da cidade:
Que do vosso natural Yá-se embora, ou fique emboia,
Nào era serdes pastora. I Qual for mais s-.a vontade.
Florimena Venadoro
Digo, mas pouco me vai. Oh lindíssima donzella,

Venadoro
A quem a ventura ordena
Que me guie como estrella
I^ois quem vos pôde trazer Quereis -me deixar a pena,
A conversação do monte? E levar-me a causa delia?
Florimena
E ja que vos conjurastes
Vós e Amor para matar-rac.
Perguntae-o a essa fonte; Oh não deixeis d'escuíar-me !

Que as cousas duras de crer, Pois a "N-ida me tirastes,


Hum as faça, outro as conte. Xào me tireis o queixar-me !

Queu, cm sangue e em nobreza


Venadoro
O claro Ceo me extremou
Esta fonte, que está aqui. E a fortuna me dotou
Que sabe do que dizeis? De grandes bens c riqueza,
Que sempre a muitos negou.
Florimena Andando caçando aqui,
I

Senhor, mais não pergunteis, '


Após hum cervo ferido,
Porque outra cousa ue uii Pennittio meu fado assi,
Sabei que não sabereis. Que andando dos meus perdido,
De vós agora sabei, Me venha perder a mi.
O que não tendes sabido: E porqu'inda mais passasse
8e quereis água, bebei; Do que tinha por passar,
Se andais por dita perdido. Buscando quem m'ensinasse,
Eu vos encaminharei. Por que via me tornasse.
Acho quem me faz ficar.
Venadoro Que vingança permittio
Senhora, eu não vos pedia A fortuna n"hum perdido!
Que ninguém m'encaminhas8e ;
Oh que tyranno partido.
Que o caminho qu'eu queria, Que quem o cervo ferio.
Se eu agora achasse, Vá como cervo ferido I

Mais perdido me acharia. Ambos feridos n'hum monte,


Não quero passar daqui Eu a elle, outrem a mi
; !

84 COMEDIAS

Huma differença ha aqui, j


E pois Amor se quiz ver
'

Qu"elle vai sarar á fonte, }


Da livre vida vingado,
E eu nella me feri. • Em que eu sohia viver ;

E pois que tào transformado i


Faça em mi o que quizer,
Me tce vossa formosura, l
Que aqui vou ao jugo atado.
Hum de nós troque o estado,
Ou YÓs para o povoado, SCENA IV
Ou eu para a espessura.
Florimena Dom Lusidardo, o Monteiro e Fi-
lodemo
Dos arminhos he certeza,
Se iUe a cova alguém çujar, Lusidardo
Morar dentrar:
fora. antes
D*estimar nmito a limpeza Oh Santo Deos verdadeiro,
Pola vida a vai trocar: A quem o mundo obedece !

Também quem na serra mora Meu filho nao apparece.


Tanto estima a honestidade, E que me dizeis, Monteiro?
Que antes toma ser pastora. Monteiro
Que perder a honestidade
A truco de sor Senhora. Digo-lhe que m'eniristece.
Se mais quereis, esta fonte Qu'eu corri por esses montes,
Vos descubra o mais de mim: Bem quinze léguas, on mais,
O que ella vio, ella o conte E busquei pelos casais,
Porque eu vou-mc para, o monte, Por serras, montes e fontes,
Porque ha ja muito que vim. Sem vêr novas, nem sinaes.
Toda a gente que levou,
SCENA III Buscando-o, muito cansada
Pelo mato anda espalhada;
Mas ainda ninguém tornou,
Venadoro Que soubesse delle nada.
O linda minha inimiga, Lusidardo
Gentil pastora, esperae!
Pois que tanto amor mo obriga, Oh fortima líunca igual
Consenti-me que vos siga; Quem me fará sabedor
Vá o corpo onde alma vae. De meu filho e meu amor?
E pois por vós me perdi, Que se ho muilo grande o mal,
E neste estado Amor pôs Muito mór hc o temor.
Os olhos com que vos vi, Quem tolhe que nao achasse
Pois 03 deixaste sem mi. Algum leào temeroso
Oh nâo os deixeis sf^m vós! N'algum monte cavernoso,
Porque a Fortima me disse Que sua alma fartasse
Que nas serras, onde andais. Em seu corpo tao formoso?
Em estes extremos tais. Quem ha que saiba, ou que visse,
Não era bem que vos visse Que das montanhas erguidas
Para nào ver de vós mais. Algum monstro nào sahisse.
,

DE LUIZ DE CÂMUES 85

E com seu sangue tingisse Oh que asno Português,


As hervas nellas nascidas? Que loco por Fiorimena,
Oh filliovai-mȒ a lembrar
! Deseó zamarra agena,
Quantas vezes os mandava Y dame por enterés
Que deixásseis o caçarl Una zamarra tan buena !

Não cuidei de adivinhar Como yo vi la bobilla


O que Fortuna ordenava. Andar com él en questioneS;
Eu buscar-vos
irei, filho, Y parár.sele amarilla,
Por esses montes, por hi, Díjele: Florimenilla,
Ou a perder-me, ou cobrar-vos ;
Andais en dongolondrones?
Que morte que qniz matar-vos, El me dijo :Matalote,
Quero que me mate a mi. Xo tengais dello desmayo.
Onde fostes fenecido, Y en esto, como un rayo,
Seja também vosso pae; Tomóme mi capirote,
Ser-me-ha acontecido, Y dióme su capÍRayo.
Como a virote que vce Capirote, en buena fé,
Buscar outro que he perdido. Si vos, cuando em mi entrastes,
Vós 80 haveis de ficai Capisayo vos tornastes,
Filodemo, encarregado Que yo por eso cantaré,
Para esta casa guardar; Pues ansi me mejorastes.
Que do vosso bom cuidado
Tudo se pôde fiar. Canta
Ide-vos a fazer prestes.
Mandae cavallos sellar ;
Lyrio, lyrio, lyrio loco,
Pois achá-lo nào pudestes; Con qué ? Con capirotada.
Ir-m'heis buscar o lugar Por liablar con la golosa
Onde da vista o perdestes. De amores, mirad la cosa !

Zamarilla tan hermosa.


SCENA Y Que me ha dado tan honrada,
Con qué ? Con capirotada.
O Bobo com o vestido de VenadorOf
Folia
a quem dera o seu.
Yo entonces respondi :

Canta
Seiíor.dame pan y queso,
Los muchachos dei Obispo Mas despues que lo entendi,
No comen cosa mimosa, Dije á ella Dale un beso,
:

Ni zanca d'arana, ni cosa mimosa, Que él me dió zamarra á mi.


Ahora me mirarán
Talla
Cuantos á la eglesia fueren ;
De su sayo colorado i
Y aquellos que no me quieren,
Tan lozano me vestiu, Ahora me rogarán.
Que yo ya no soy yo, Sabeis porque no querré ?
Ya per otro estoy trocado ;
Porque estou ahidalgado ;
Que este Bayo me troco. Y cuando fuere rogado,
86 COMEDIAS

Cantando re.-ponderé,
Bobo
Que ya estoy otro tornado.
Dicid, padre, tambieu vos,

Canta e baila
No quereis casar comigo?
Casemos ambos i^dus.

Soropicote, picote, mozas, Pastor


Ahora cjuiero amores con vosotrai. Vé, y haz lo que te digo.

Bobo
SCEXA VI Responde, padre, por Dios.
Pastor
O Pastor e o Bobo
Vé y vuelve apresado.
luego,

Pastor Anda. Xo quieres andar ?

Ilijo Alonsillo. Bobo


Bobo Pues que me babeis empujado.
Juro á mi de desandar
Hijo Aloiieillo Todo cuanto tengo andado.
Pastor Pastor
Xo me quieres escuehar ?
Trabajoso es este insano !

Bobo Nunca liace lo que quereis.

Pues déjame suspirar. Bobo


Pastor Ora no os apasioneis,

Escúcliame aliora, asnillo, Mi padrecico lozano :

Lo que te quiero mandar. Que burlaba, no lo veis ?

Vete ai valle de lus rosas, Pastor


Y di á Anton dei Lugar
Que si puede acá llegar, Vete dabi.
Porque tengo muclias cosas Bobo
Que importan para le hablar.
Porque es aqui Uegado Ilémc aqui.
A' este valle un liombre bom'ado, Pastor
Mancebo de casta buena.
Que amores de Florimena Vé donde te dije.
Le traen loco y penado. Bobo
Dice que quiere casar
Con ella, que su tormento Ya vengo.
No le deja reposar ;
Oh que padrasto que tengo,
Y que venga festejar Que asi me manda por ahi,
Tan diclioso casam) ento. Siendo camino tan luengo !
1>K LUIZ DK OA>;uKá «7

ACTO, IV
j
Dionysa
SCENA 1. ! Ah mana I qiie tenho ukhIo,
\ Que s'eu em tal consentisse
Que h'go o mundo o sentisse,
Dionysa e Solina.
I
Porque mnica houve segiedo.
Que, emíim, se nào descobrisse.
Dionysa
I
Solina
Oh Solina, minha auniga, Se en tantas dobras tivesse
Que todo este coração
:

Como quiuitas houve erradas,


Tenho posto em vossa mào ;
1

'

Sem que o mundo o soubásse,


Amor me manda qne diga, A' fé qu'eu enrirju<;cesse,
Vergonha me diz que nào.
I

Que farei V
E fosse das mais bonrad.is.

Como me descohrirci ? Dionysa


Porque a tamanho tormento
Mais remédio lhe nào sei, i
Sabeis que tenho em vontade ?

Que entre-la lo a'o soírrimento.


j
Solina
Meu pae muito entristíicido
Se vai pela serra erguida, I Que podeis. Senhora, ter?
Ja da vida aborrecido, i Dionysa
Buscando fillio perdido.
<>
Fallar-lhe, só para ver
Tendo
;

a filha cá perdida !
'

Se he por ventura verdade


8em cuidar.
Foi a casa encommendar I
O que dizeis que me quer.
A quem destruir lha quer : .
j
Solina
Olhae í(Tio gentil sjsber,
Bofe, mana, dizeis bem,
Que vai comigo deixar j

Quem me nào deixa viver. E eu o mandarei chamar,


j
Conio para lhe rogar
Solina ! Que hum annel, que lá me tem,
Senhora, em tanto desi;òsto

Que mo mande concertar.


Nào posso meter a mào ;
I

Dionysa
Mas como diz o rifào, j

Mais vai vergonha no rosto, \ Dizeis mui bem.


Que mágoa no coraçào.
Solina
E bofe, se eu tanto amasse,
E viflse tempo c saxào, Vou me lá
Sem seu pae, som seu irmào, I Chamar moço á sala*,
o seu
Que a nuvom triste tirasse I
E s'esle parvo vem cá,
De cima do coracào. }
Com elle hum pouco rirá,
!

88 COMEDIAS

Que sempro atriores me fala. Porque sou vosso e revosso,


Vilardo,moço? Por vida de quanto quero.
Solina
SCEXA 11
Feros está cheia a nia.
Ora estou bem aviada !

Yilardo e Soliua
Vilardo
Vilardo
Cupido, por vida tua.
Quem clKima? Que a não faças tào crua,
Pois que te nào faço nada
Solina
Amor. Amor, mas te pido,*^
Vera cá, moço; eu te cliamo. Que quando se for deitar,
Qn'he de teu amo ? Que le digas ai oido:
Devieis-vos de lembrar
Vilard.0
Neste tempo de hum perdido.
Ah
qui dama I
Solina
Per,£i'initais-me mon amo,
por
K nào por lium que vos ama ? E tu ja fazes coprinhas?
Aiuda tu trovarás?
Solina
Vilardo
¥^quem he esse amador.
Que quer ter comigo passo? Q:iem eu ? Por estas barbinhas,
Será ellc algum madrasso ? Que se vós virdes as minhas,
Que digaia que nào sào más.
Vilardo
Solina
Eu sou o mesmo, quo o amor
Me quebra pelo espinhasso. Ora, pois me quereis bem,
E irais vós sabei de mi, Dizei-me huma.
Se eu a dizê-lo me alrevo, Vilardo
Que desque osses olhos vi,
Que yo m como, ui !)el)0, Ei-la aqui;
Ni liago vida siu íi. E veja o saibo que tem;
E mais para namorado Porque esta írovinlia assi,
Nào sou ora tào madraço. Ssúba qu'lie troAa do assem.
Solina
Trova
Sois muito desmazelado.
Passarinhas, que voais
Vilardo
Nesta manliàa tào serena,
Mas de delicado
jiutes, Sabei que só minha pena
Caio pedaço a pedaço. Pôde encher mil cabeçais.
E maia eu soíFrer ijuo posso Solina
Quo façais tnnto fero,
riic

Qu'o3tou ja posto no osso, O rifão está salsrado.


DD LUIZ DE CAMUE3 ,«9

Essa pena te dou eu ?


Solina
Vilar do
Ora hi, chamae logo lá
Vós e Amor, que de malvado, Vosso amo que venha cá.
Me toe melhor empennado, Porque he cousa que importa.
Que nenhum virote seu. Vilardo
P«is se me ouvireis cantar I

Logo ?
Solina
Solina
E tu és também cantor ?
Logo nessas horas.
Vilardo
Vilardo
Canto melhor que hum açor. Nao estarei aqui mais V
Quereis que vos venha dar
Musiqueta de primor, Solina
E que vos maude tanger Nào. Ainda ahi estais ?
Muito melhor que ninguém ? Vós haveis mister esporas.
Solina Vilardo
Ja isso quizera ver. Irei, porque me mandais.
Vilardo
Qnorer-me-heis, se o eu fizer,
SCEXA III.

Algum pedaço de bem ?


O Paafor^e Venadoro com elh: afei-
Solina toPastor.
Querer-te-hei trinta pedaços.
Pastor
Vilardo
Mms de un mez qí ya pasado
E esse querer dará fruito. Que en esta sierra ;in(hiis ;
Que me tire destes laços V Y mal mirado
es caso

Solina Que andeis guardando ganado


Por una que tanto amais.
E que fruito ? Y sios determinais
En querer casar con ella,
Vilardo Juro á mi que nada errais ;

Y'^ eso es para habella,


si
Dous abraços.
Fn vano cabras guardais.
Solina Y'a Tne distes vnestra fé
(Sábenlo estas tierras todas) :

Esse fruito custa muito, Yo con ella me engane.


Vilardo Que lufigo mandar llamé
Quien festojase las bodas.
Esse he o amor qu'cm vós lia ? Y agora dicia con pena.
Pezar de minha mâe torta í Que es dura cosa casar :
90 COMKDIAS

Pues volveos nora buena,


Que no babeis de enganar SCENA IV.
Con palabias Florimena.
Venadoro *o
Venadoro
O ribeiras tao formosas,
Qne se lui de ter coraçíio
Valles, campos pastoris,
Para taniiinlio temor?
Porque vos nào revestis
Que em mim pegando estão. De novas flores e rosas,
De huma parte a razào, Se minha gloria sentis ?
E d'outra parte o Amor. Puvqne nào seccais, abr»>lhos ?
Também vejo que perdella E vó-, água, que regando,
Será minha perdição;
Os olhos his alegrando.
Que bem me diz a aíteieito, Correi,que também meus olhos
Que pouco iaco por e!la. D'alegrcs estào manando.
Pois nào desfaço em quem suo. Ah quem espero
pastora, etn
Poder viver descansado !

Pastor Comtigo guardarei gado,


Que ja eu sem ti nào quero
Dígoos. si por bajeza Nenhuma alteza d'estado.
Dicis que no os conviene,
Diga o que quizer a gente,
Darns hé una certeza, Tudo terei nMnima palha,
Que en angre y en nobleza.

Porque cMk claro e evidente


Tanto como vos la ticne. Qne nào ha honra que vaiha
Contra a vida descontente.
Venadoro

Pastor, digo que daqui


SCENA V.
Farei tudo que quizerdes ;
E se mais quereis de mi, Três Pastores hailaiido, e cantando
Digo que vos dou o si de ferreiro, niante do Pastor, que
Para tudo o que quizerdes. traz Florimena.

Pastor . Pastor
Pues el amor os oblij^a
Dios os de su bendicion ; A' que hagais tan buena liga,
Y pues que casais con ella, Tomando á Dios por testigo.
Yo os afirmo en conclusion, Daqui os la entrego, amigo.
Que aun de vos y mas delia Por muger y por amiga.
Verná gran gí-neracion.
Yo mti voy por elia, liijo, Venadoro
Tomadla así mal compuesta ; Consentis nisto, Senhora ?
Verná quien liaga la fiesta ;

Que en placer y rcgocijo Florimena


Nos festfje esta floresta. Senhor, em tudo consente.
!

DF. LUIZ DE CAMUES *


Aquelle pastor louçào
Venadoro Com huma moça pela mão?
Oh grande contentamento ! Se Venadoro nao he,
Nem eu o Monteiro sâo.
Florimena
Pastor
Saiba que nunca íégora
Lhe houve inveja ao tormento. Quien veo ai lá asomar.
Que se viene á nuestras bodas ?
Pastor
Bobo
Así lo dices, bobilla ?
Oh mala dolor os duela
!
Xo los dejemos llegar,
Pêro no es maravilla Que nos vernan á roubar,
Quien consiente ansí la silla, Juro á mi, las migas todas.
Consienta tambien la espuela. Lusidardo

SCENA YI Oh Venadoro, meu filho!


Es tu este ?

Tornão a bailar e cantar, e acaha- Venadoro


do, entra D. Lvsidardo, e o Mon-
Tal estou,
teiro, que andão em busca de Ve
Que cuido que este não sou.
nadoro.
Lusidardo
Lnsidardo Certo que me maravilho
Três dias haja qne ando De quem tanto te mudou.
Por esta larga f^speesura Como estais assi mudado
A Venadoro buscando ;
No rosto e mais no vestido !

E o que delle vou achando


He como quer a Ventura. Venadoro
Monteiro Ando ja n'outro trocado,
Tanto, que fiquei pasmado
Senhor, cuido que lá vejo
De como fui conhecido.
Huns lavradores cantar.
!

Vossa Mercr vem


;
E se
Lusidardo ! Para me levar d'aqui,
Mais ha de levar que a mi;
Hi diante perguntar.
E ha de ser quem me tem
Monteiro Todo transformado em si.

Cumprido he seu desejo, Bobo


Se a vista nâo m'en£ranar.
Eso porque lo entendeis?
Lusidardo
Por las migas por ventura?
Como assi ?
Voto á tal no llevareis :

Monteiro
Por mas y por mas que andeis
EUe nào vê No hareis tal travesura.
:

92 COMEDIAS

Y' despues uu gran deseo


Venadoro De saber esto tome.
Esta formosa donzella Como yo fuese enseSado
Em mi teve tal poder. De chico á la mágica arte
Que folguei de me perder ;
Por mi padre, que es finado ;

Pois, emíim, vim achar nella Muy conoscido y nombrado


O que não cuidei de ser. 1
Soy por tal en toda parte.
Tanto em mi pode este amor, 1
con yervas de la sierra,
Y'^0

Que a tenho recebida; Animales y otras cosas


E se o erro grave for, Haré, si el arte no se yerra,
Aqui quero ser pastor :
Que desciendan á la tierra
Deixe-me ter esta vida. Las estrellas luminosas.
Soy, en fin, certificado
Lusidardo Que la madre de los dos
He certo tal casamento ? Fué Princeza de alto estado,
Y por um caso nombrado
Venadoro La trajo á esta tierra Dios.
El macho, como creció,
Tenha-o por cousa segura.
Deseoso de otro bien,
Lusidardo A' la Corte se partió
La hembra es esta por quien
Oh grande acontecimento !
Yuestro hijo se perdió.
D'est'arte sabe a ventura Y' si mas quiere, Senor,
Aguar hum conteutameato !
De mi arte, prestamentc
Dello le haré sabedor;
Pastor
Mas ha de ser de tenor
Olgame, Seííor, á mi, Que no lo sepa la gente.
Como hombre sábio, discreto, Lusidardo
Porque acaeció así,
Y lo que supo hasta aqui Mas vamos-nos, se quereis.
Lo puede tener por cierto. Que nào soffro dilação,
Muchos aiios son corridos A minha casa, e entào
Que en esta fuente abicrta, Lá disso me
informareis,
En estos valles floridos Que caso he de admiração.
Hallé dos niíios nascidos, E vós, filho, não cuideis
y á su madre casi muerta. Que a gloria de vos achar
Los ninos chicos crie, Não he tanto d'estimar,
(Y desto cierto me nrreo) Qu'em qualquer 'stado que esteis,
Y á la madre sepulte-, Não folgue de vos levar.
DE LUIZ Di: CAMUKS 03

ACTO V
^lerecieis degradado
Por justiça, com pregão
SCENA I Que dissesse For ousado.
:

E eu também merecia
Solina, Dionysa e Filodemo Metida a grave tormento.
Pois que, como náo devia,
Solina
Vim a dar consentimento
A tào sobeja ousadia.
Eis Filodemo lá vem :

Filodemo
Asinha acudio ao leme.
Senhora, se m.e atrevi,
Dionysa
Fiz tudo o que Amor ordena ;
Isso he de quem quer bem ;
E SC pouco mereci,
Mas não sei se o vio alguém, Tudo o que perco por mi,
Porque quem espera teme. Mereço por minha pena.
Agora me quizera eu E se Amor pôde vencer.
Daqui cem mil ieguas ver. Levando de mi a palma,
Eu nào lho pude tolher
Filodemo ;

Que os homens nào tce poder


Folgara eu assi de ser, Sobre os affectos da alma.
Porqu'estc cuidado meu E ainda que pudera
Fora mais de agradecer. Resistir contra o mal meu,
Que quando por accidente Saiba qp.e o nào fizera 5

A Fortuna desastrada Qae pouco valera eu,


Vos apartasse da gente Se contra vós me valera.
N'um deserto, onde somente Nào deve logo ter culpa
Das feras fosseis guardada ;
Quem se vencco d'armas tais :
Lá por ferro, fogo e íigoa Assi que n'isto, e no mais,
Buscar minha morte iria ;
Tomo por minha desculpa
A voz ronca, a língua fria, Vós mesma que me culpais.
Tamanho mal, tanta mágoa E se este atrevimento
As montanhas contaria. Com tudo fór de culpar,
Lá, mui contente e ufano Acaliae do me matar ;

De mostrar amor lào puro, Que aqui tenho hum soffrimento


Poderia ser que o dano. Que tudo i)óde passar.
Que nào move hum peito humano, E se esta penitencia,
Que movesse hum monte duro. Que faço em me perder.
Algum bem vos m.erecer,
Dionysa
Fique em vos.-a consciência
Nesse deserto apartado O que me podeis dever.
De toda a conver.saçâo Que dizeis a isto, Senhora?
94 COMEDIAS

Dionysa Solina
Senliora, por não errar,
En, que vos posso dizer?
Já nào tenho em rui poder. Nào quero que fique em mim.
Segundo me sinto agora, Esla noite no jardim
Para poder responder. Ambos podem praticar
Respondei-llie vós, Solina, Como isto venha a bom fim.
Pois que a vós me entreguei. Lá poderão ajustar
Entr'ambos o parecer ;
Solina Qu'eu nào m"hei nisso úq achar,
Bofe nJio responderei :
Que nào quero temperar
Veja ella o que determina. O que outreni ha de comer.
Dionysa Dionysa
Vós vedes a torvação,
Xào o vejo, nem o sei.
Que lá nessa casa vae?
Solina
Dolina
Pois eu também nito sei nada. Dá-me cá no coraçào
Dionysa Que he vindo o Senhor seu pae
Com o Senhor seu irraào.
Porque ?
Dionysa
Solina
Filodemo, hi-vos embora,
Do que
eu fizer, Fallae despois com Solina.
8e despois se arrepender.
Dirá qu'cu fui a culpada. Solina
Vamos-nos também, Senhora,
Dionysa
Receber seu pae lá fora;
Eu só quero a culpa ter. Nào venha sentir a mina.

SCENA ir

\ilardo o Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Músicos

Vilardo

Assi que te contava. Doloroso, distas em que sempre andao rugin-


do as sedas.
Doloroso
Avante, que bem sei que o nào dizeis polas sedas de Veneza.
Vilardo
Ja sabeis que esta nossa Solina he tào Celestina, que nào ha quem
a traga a nós.
DE LUIZ DE CAMÕES '
^
Doloroso
Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e
tomará quatro espaldciradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que
huma mulher de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti?
porque Cítas taes sào como homens sitíudo.s; se de noite se achào em
algum arruido. onde possào fugir sem serem conhecidos, facilmente o
fa?em; e ao outro dia f^uem ha de cuidar que hum tào honrado havia
de fugir? Outros dizem: bem pode ser, porque noite e.scura he capa de
judeus e de envergonhados.
Vilar do
Mui gentil comparação he está. Mas assi que te dizia, o outro dia
assi zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei ou-
tros dous meus amigos, que logo hào de vir aqui ter comnosco.

Doloroso
Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Níto seja de siso;
porque será a maior parvoíce do mundo, porque nào concerta com a
parvoice que tu finges.
Vilar do

A musica nào he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem
com hum câo de busca pude achar umas nesperas por toda e. ta terra.
Doloroso
Nem as acharás senào alugadas; mas eu não sou de opinião que teus
amores tecustem dinheiro. Ora ja 1 apoarecem os outros companheiros,
'i

e eu também ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa,


por que daqui iremos á porta da minlia padeirinha, porque ando com
ella ii'hum certo requerimento.

Vilardo

Vossas Mercês vem ao próprio; boa seja a vinda. As guitarras vem


temperadas ?
Doloroso
Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a justiça entretanto.

Vilardo
Ora sus: fazei fazei como se temperásseis cabeçs de pescada com
seu ligado e bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho
pasto na. sua Missa nova.
96 COMEDIAS

Xesie pasòO se dá a musica com todos citicdro, hum tange guitarra^ otdro
pentem, outro telliinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor
diz Vilardo:

Eátae ussi quedos, que eu sinto quem quer que be.

Doloroso
Justiça, pelo corpo de tal Ora sus: aqui não ha outro valhacouto
I

que uos valha que por os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras.

SCEXA III

lílonteiro s6

Como he gracioso este mundo, e como he galante E quào gracioso


!

seria quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pesco-


ço, porque nào podessem entender n'elle ?iíeirinhos, Ahnotacés da lim-
peza, trabalhos, esperanças, temores, com. toda a outra cabedella de en-
fadamentos ! Ora notae bem de quantas cores teceo a Fortuna esta
manta d'Alcntejo: perdeo-se Veuadoro na caça, eis a casa toda en-
volta como rio: o pae enfadado, a irmà triste, a gente desgostosa; tu-
do, emíim, fora do couce; e o galante aposentado nos matos com tra-
jos mudados como camaleão, decepado dos pés e das màos, por huma
serranica d'Alentejo: e veio acaso a sahir de maneira tora da madre,
que a recebeu por mulher; e rapa óleo e chrisma de quem he, e renega
todas as lembranças de seu pae; pois tanto tomou ao pé da letra o que
Deus disse: Por esta deixarás teu jjae e mãe. E attentae isto por
me fazer mercê: cuidareis que este caso era soliis ijeregrinus: sabei que
os nào dá a fortuna senào aos pares, como quedas. Dionysa mais mimosa
e mais guardada de seu pae que bicho de seda, moça sem fel como
pombinha, que nos annos não tinha feito ainda o enequim: mais for-
mosa qu- huma manha de S. Joào, mais mansa que o rio Tejo, mais
branda que hum soneto de Garcilasso, mais delicada que hum pucari-
nho de Natal; ernfim, que por meia hora de sua conversação se poderá
soíFrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida, com
tanto que dissesse o prcgào o porque; porque vos nào íieis em casta-
nhas (nào sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola manga
a falia da garganta; ma.^, com tudo, nào ha quem se tenlia) seu pae a
achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo
que perdera, que do quo alli jDerdia: eu, coitado de mi, que meta os
dentes nos cabeçaes se desejar ave de penna.
DE LUIZ DE CAMÒF.g S7

SCENA IV
Duriano e o Monteiro

Duriano, como cantando


Ti ri ri, ti ri rao.

Monteiro
Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos sào esses? Onde he
p4 à ida agora?
Duriano
Vou assi como parvo, porque o melhor he nào saber homem nada
de si.

Monteiro
Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar
do tempo que ficou só em casa ?
Duriano
Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa. se nilo
he isso caso para sahir com elle u desafio.

Monteiro
Porque?
Duriano
Porque nâo basta que lhe dê a Fortuna gostos tào medidos sobre
o funil,que lhe pòe nos braços Diouysa, a mais formosa dama que
nunca espalhou cabellos ao vento, senào ainda para o assegurar em
sua boa ventura, lhe vem a descobrir, que he filho de nào sei quem,
nem quem uào.
Monteiro
Esses sào outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi
já sobre isso nào sei que fábulas.

Duriano
Dir-vo-lo-hei pasmareis, que nào he menos que Priucipe, e peor
;

ainda. Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo


que aggravado dei Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?

Monteiro
Tudo isso ouvi já.

7
98 COMEDIAS

Duriano
Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de
Dinamarca lhe íizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais
moça e como era bom justador, manso, discreto, galante, partes que
•,

a qualquer mulher abalào, desejou cila de vêr geração delle senào ;

quando, livre-nos Deos se lhe começou d'eneurtar o vestido; e porque


!

estes sirgos nào se desistem em nove dias, senào em nove mezes, foi-
Ihe a elle então necessário acolher-se com ella, porque não colhessem a
ella com elle : acolheu-se em huma galé e vede la Princeza em huma
;

galera nueva, con el marinero á ser mariuera. Finalmente, vindo nave-


gando todo esse Oceano Germânico, bancos de Fraudes, mar d'Ingla-
terra, e trazidos á costa d"Hespanlia, mio os quiz a Ventura deixar gozar
do repouzo que nella buscavâo deo-llie subitamente tamanha tormenta
:

que sem remédio deo a galé á costa, onde feita pedaços, morrerão to-
dos desastradamente, sem escapar mais que a Princeza com o que tra-
zia na barriga, a quem parece que a Fortuna guardava para dar o des-
canso, que a seu pae e mãe negara. Sahio fínahnente a moça na praia,
tal qual o temeroso naufrágio deixaria huma Princeza mais delicada
que hum arminho ; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e
despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, despois de ter per-
dido toda a esperança de ter algum remédio, derão-lhe as dores de parto
junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas crianças, ma-
cho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da delicada
mulher nào pudesse sustentar tantos e tão desacostumados trabalhos,
facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar, deixando
vivos aquelles dous retratos delia e de smi pae, que por causa de seus
nascimentos a vida lhe tirarão, como acontece a viboras. E como as
crianças fossem destinadas ao que vedes, não faltou hum pastor que
as criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos de maneira
:

que, por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo,
e a femia he a serrana Florimena, mulher que he ja de Vcnadoro.

Monteiro
Estranhas cousas me que logo de seu pae herdou Fi-
coutais. Assi
lodemo namorar a filha do Senhor que serve não haverá logo por mal
:

o Senhor Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por so-
brinhos.
Duriano
Sabei que chora de prazer cora clles, que ja diz que acha que Filo-
demo se parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.

Monteiro
Dac-iUe a entender, como se crco tão de ligeiro o Senhor Dom Lu-
sidardo de quem isso contou.
DE LUIZ DE CAMÕES 99

Duriano
No caso nao ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certi-
ficou todo o caso e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer mui-
;

tas festas solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Fi-
lodemo, que o mesmo parentesco t(*e com a Senhora Dionysa, estào fora
de crer tamanho contentamento ; cuido que zombào delle.
Monteiro
Ora deixa-me a vêr o rosto a esse velhaco de Filodemo ; pois de
ir
meu matalote se metornou »!:enlior. Creio que vem o Senhor Dom Lu-
sidardo : dissimulemos.
feCENA V
Dom Lusidardo com Venadoro, que traz FLorimena i)da mão, e Filodemo
a Dionysa.
Lusida.rdo
Quem não ficará pasmado
De vér que por tal caminho
Tèe a Ventura ordenado
Filodemo, meu criado,
Vir 8cr meu genro e sobrinho !

Quem não pasmará agora


De vêr a veatura minha,
Que tèe tornado u'hum'hora
Florimena. huma pastora,
Ser minha nora e sobrinha !

Dem-se graças ao Senhor,


Cujo segredo he profundo ;

Pois que vé*mos que quiz dar


A ventura e o amor
Por prazeres deste mundo.
o (D

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