Você está na página 1de 486

ANAIS DO I SEMINARIO DE GESTÃO SOCIOAMBIENTAL E

POLÍTICAS PÚBLICAS
UNESP – Universidade Estadual Paulista

Reitor
Prof. Dr. Sandro Roberto Valentini

Vice-Reitor
Prof. Dr. Sergio Roberto Nobre

Pró-Reitor de Pesquisa
Prof. Dr. Carlos Frederico de Oliveira Graeff

FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

Diretora
Profª. Drª. Célia Maria David

Vice-Diretora
Profª. Drª. Márcia Pereira da Silva

Comissão Editorial UNESP - Câmpus de Franca

Presidente
Profa. Dra. Célia Maria David

Membros
Prof. Dr. Agnaldo de Sousa Barbosa
Prof. Dr. Alexandre Marques Mendes
Profa. Dra. Analúcia Bueno R. Giometti
Profa. Dra. Cirlene Ap. Hilário da Silva Oliveira
Profa. Dra. Elisabete Maniglia
Prof. Dr. Genaro Alvarenga Fonseca
Profa. Dra. Helen Barbosa R. Engler
Profa. Dra. Hilda Maria Gonçalves da Silva
Prof. Dr. Jean Marcel Carvalho França
Prof. Dr. José Duarte Neto
Profa. Dra. Josiani Julião Alves de Oliveira
Prof. Dr. Luis Alexandre Fuccille
Profa. Dra. Paula Regina de Jesus P. Pavarina
Prof. Dr. Paulo César Corrêa Borges
Prof. Dr. Ricardo Alexandre Ferreira
Profa. Dra. Rita de Cássia Ap. Biason
Profa. Dra. Valéria dos Santos Guimarães
Profa. Dra. Vânia de Fátima Martino
Analúcia Bueno dos Reis Giometti
Maria José de Oliveira Lima
Orlinéya Maciel Guimarães
(Organizadoras)

ANAIS DO I SEMINARIO DE GESTÃO SOCIOAMBIENTAL E


POLÍTICAS PÚBLICAS

UNESP
Câmpus de Franca
2017
COMISSÃO ORGANIZADORA
Profª Drª Analúcia Bueno dos Reis Giometti
Profª Drª Maria José de Oliveira Lima
Ms. Orlinéya Maciel Guimarães

COMISSÃO CIENTÍFICA

Profª Drª Analúcia Bueno dos Reis Giometti


Profª Drª Andréia Aparecida Reis de Carvalho Liporoni
Profª Drª Fernanda de Oliveira Sarreta
Profª Drª Maria Cristina Pianna
Profª Drª Maria José de Oliveira Lima
Ms.Orlinéya Maciel Guimarães

FICHA CATALOGRÁFICA

Seminário de Gestão Socioambiental e Políticas Públicas (I : 2017 :


Franca, SP).
Anais do I Seminário de Gestão Socioambiental e Políticas Públicas
/ I Seminário de Gestão Socioambiental e Políticas Públicas, 22 e 23 de
agosto de 2017, Franca, São Paulo, Brasil; Analúcia Bueno dos Reis
Giometti ... [et al] (Organizadoras). –Franca : UNESP- FCHS, 2018.

486 p.
ISBN: 978-85-7818-101-7

1. Serviço social. 2. Serviço social – Políticas públicas. 3. Educação


ambiental. I. Título. II. Giometti, Analúcia Bueno dos Reis.
CDD – 360
Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Andreia Beatriz Pereira – CRB8/8773
APRESENTAÇÃO

O Grupo de Estudos sobre a Gestão Socioambiental e a Interface com a Questão


Social (GESTA) foi criado em 2002 pelas Profas. Dras. Claudia Maria Daher Cosac e
Analúcia Bueno dos Reis Giometti, com objetivo de abordarem pesquisas referentes a gestão
social e a gestão ambiental que passaram, então, a nortear as pautas de discussões e debates.
O GESTA busca compreender questões socioambientais em função da percepção das
lacunas do Estado no atendimento de carências nesta área. A participação efetiva de alunos
(graduação e pós-graduação) e docentes e pesquisadores da unesp enfatiza a importância da
proposta, buscando soluções compartilhadas, abrangendo investigações junto à sociedade civil
organizada, organizações governamentais, ONGs, empresas.
O grupo obteve grandes avanços por meio de reuniões entre seus membros, eventos e
fóruns de discussões sobre a temática envolvida reunindo autoridades, estudiosos,
pesquisadores e estudantes também de outras instituições de ensino.
Em 2010, o grupo promoveu duas palestras tratando respectivamente das ONGs e
sustentabilidade. Em junho de 2011, participou do "III Congresso de Serviço Social e 18ª
Semana de Serviço Social - A ética na formação e no trabalho do assistente social", cinco
palestras foram ministradas por membros do GESTA. Em 2013, três teses foram
desenvolvidas sobre Terceiro Setor.
Nesse mesmo ano, o grupo começou a repensar suas ações propondo desenvolver uma
ação mais propositiva junto à sociedade, surgindo a idéia de elaborar uma cartilha sobre
gestão e prestar contribuições mais efetivas junto à comunidade. No ano de 2014, por meio de
reuniões, o grupo decidiu desenvolver uma atuação mais direta na comunidade levando
contribuições no processo de gestão junto às organizações de bairros da cidade de Franca.
Este trabalho justifica-se pelo fato de que essas organizações têm dificuldades no processo de
gestão e por isso, muitas vezes, não conseguem atingir seus objetivos.
Com a aposentadoria da Profª Drª Claudia Maria Daher Cosac, a mesma convidou a Profa.
Dra. Maria José de Oliveira Lima, docente do curso de Serviço Social para dar continuidade à
coordenação do grupo junto da docente Drª Analúcia Bueno dos Reis Giometti.
A professora Dra. Maria José de Oliveira Lima, assumindo a liderança do grupo, e a partir
da estratégia de atuação junto as Associações de Bairro da cidade de Franca, elaborou um Projeto
de Extensão, denominado Assessoria e Consultoria na Gestão de Organizações de Bairro, o qual
foi aprovado pela Pró-Reitoria de Extensão da Unesp. Após a aprovação do projeto, os trabalhos
foram iniciados no ano de 2016 e os participantes do GESTA foram convidados a participar na
organização e execução das ações junto às Associações de Bairro da cidade.
Com a intenção de melhor desenvolver o trabalho, as professoras Dra. Maria José de
Oliveira Lima e Dra. Analúcia Bueno dos Reis Giometti, lançaram a proposta de realizar uma
pesquisa sobre a realidade social e ambiental das Organizações de Bairro da Cidade de
Franca, considerando um universo de 37 associações de bairro na cidade de Franca, iniciando
com apenas uma associação, para subsidiar a ação do projeto de Extensão. O projeto de
pesquisa está sendo construído pelos membros do GESTA e, logo em seguida, será
encaminhado para FAPESP visando buscar recursos e financiamentos.
Paralelamente a esse trabalho o Gesta também decidiu em realizar a pesquisa sobre o
Curso de Serviço Social e o perfil dos ingressantes de 1996 a 2016, a partir de documentos
fornecidos pela VUNESP e UNESP visando homenagear o Curso pelos 40 anos de trajetória e
contribuir na construção do conhecimento.
A iniciativa dessa pesquisa foi das lideranças do GESTA, professoras Dra. Analúcia e
Dra. Maria José, que contaram com a participação da maioria dos membros no processo
investigatório.
O Grupo se propõe a aprofundar e expandir seus conhecimentos, tendo como estratégia a
participação em eventos acadêmicos e científicos, elaborar ação constantes de pesquisas
bibliográficas, de campo e documentais sobre as linhas de pesquisa do grupo, quais são:

 Gestão de Políticas Sociais


 Indicadores geopolíticos e os impactos sociais e ambientais
 Indicadores sociais e estratégias de abordagem às demandas sociais
 Indicadores sócio-ambientais e as políticas sociais
 Educação Ambiental

Em 31 de Maio de 2016 o grupo GESTA ministrou um Curso Satélite sobre “Gestão


Socioambiental” através de alguns membros do grupo de pesquisa para os participantes do “V
Congresso Internacional de Serviço Social e II Seminário Internacional de Pós-Graduação em
Serviço social “80 anos do Serviço Social no Brasil: trajetórias de lutas, conquistas e
desafios”, realizado de 31 de maio a 02 de junho de 2016 pelo Departamento de Serviço
Social e pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UNESP/Câmpus de Franca.
Outras ações foram planejadas para o ano de 2016 visando o aprofundamento e
produção do conhecimento. Essas ações são: visitas técnicas ao circuito das águas de Franca
(bacia do rio Canoas, ETA e ETE); visitas intermunicipais Ribeirão Preto, Barretos, e visita à
Cooperativa de Materiais Reciclados de Franca (COOPERFRAN).
Todos conhecimentos apreendidos nas visitas serão discutidos e refletidos a partir de
referencial teóricos e servirão de elementos para a elaboração de novas pesquisas.
Além disso, o grupo se propõe a fazer visitas técnicas periódicas de campo para
conhecer a realidade dos espaços da comunidade local (associações de bairro da cidade de
Franca) e detectar necessidades e demandas.
Em 06 de agosto de 2016 o grupo realizou uma visita na
O grupo atualmente conta com a participação efetiva de 40 participantes: 17
pesquisadores, sendo 6 professoras doutoras da UNESP/Câmpus de Franca e 23 estudantes
(entre graduandos e pós-graduandos).
Destaca na tabela abaixo os trabalhos, resultado de pesquisas de mestrandos e/ou
doutorandos, que foram gerados pelas pesquisas do grupo:

Trabalhos Realizados pelo Gesta


Nome Titulo Titulo do trabalho
Ana Lúcia Scagnolato de Doutor O Perfil do Excluído Social Antendido no Serviço
Almeida Leme de Triagem, encaminhamentos e Auxílios da
Prefeitura Municipal de Piracicaba
André Luis Centofante Alves Doutorado A Gestão Social na Atividade Educacional
Religiosa: o caso da Hallel Escola no Brasil,
André Luis Centofante Alves Mestrado Gestão de Organizações Não Governamentais,
Andréa das Graças S. Camacho Doutorado Associações sem fins lucrativos de atividades
Gimenez Garcia profissionais e clubes de serviços: questão jurídica
e social -cidade de Franca/SP
Angela Marcia de Souza Doutorado Turismo Rural: Uma viagem de Inclusão
Produtiva
Bárbara Oliveira Rosa Mestrado As vozes e as visões dos catadores de materiais
recicláveis sobre o meio ambiente
Edna Maria Campanhol Doutorado As re-ações socioeconômicas em Franca em face
do processo de globalização
Gislaine Alves Liporoni Peres Mestrado A gestão do trabalho no Sistema Único de
Assistência Social
Gislaine Alves Liporoni Peres Doutorado A Consultoria do Serviço Social na Gestão das
Políticas Sociais,
José Alfredo de Pádua Guerra Doutorado Gestão das Fundações e Responsabilidade Social
Roberto Galassi Amaral Doutorado terceiro Setor: a gestão do pensar, sentir e agir
Roberto Galassi Amaral Mestrado A Responsabilidade Social da Empresa: a área de
gestão de pessoas como mediadora entre a
organização e a comunidade
Rosalinda Chedian Pimentel Doutorado O setor elétrico brasileiro nos anos 90: a
valorização do/no espaco e as desigualdades
regionais
Fonte: Arquivos do Grupo GESTA
No ano de 2016 o GESTA desenvolveu a pesquisa sobre o Curso de Serviço Social da
UNESP de Franca, em homenagem aos 40 anos do Curso. Essa pesquisa apresentou e
demonstrou o esforço de estudo, análise e sistematização da pesquisa desenvolvida pelo
GESTA.
SUMÁRIO

A CATEGORIA TRABALHO: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE FORMAÇÃO


PROFISSIONAL NO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL NA UNIVERSIDADE
FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO ........................................................................... 13

A GESTÃO SOCIAL E AS INQUIETANTES CONCEPÇÕES AO SEU ENTORNO .. 27

GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS NO ATENDIMENTO DE CRIANÇAS E


ADOLESCENTES .................................................................................................................. 39

GESTÃO SOCIAL NO BRASIL E O NOVO MARCO LEGAL DAS RELAÇÕES


ENTRE ESTADO E SOCIEDADE ...................................................................................... 53

O PAPEL DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A REPRESENTAÇÃO SOCIAL PARA


AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS .......................................................................................... 69

O PROCESSO DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL: POSSIBILIDADES E DESAFIOS


PARA SUA EFETIVAÇÃO .................................................................................................. 83

OS SISTEMAS SOCIAIS E A BIOÉTICA: CRIMINOLOGIA E A JUSTIÇA SOCIAL


.................................................................................................................................................. 91

POLÍTICAS AFIRMATIVAS E POLÍTICAS DE PERMANÊNCIA ESTUDANTIL . 101

REFLEXÕES SOBRE GESTÃO ........................................................................................ 111

COMO SE FABRICA UM CONVÊNIO DE FINANCIAMENTO? ............................... 119

GESTÃO ESTRATÉGICA NO TERCEIRO SETOR: COMPARAÇÃO ENTRE O


PLANO DE TRABALHO E O RELATÓRIO DE EXECUÇÃO DE ATIVIDADES ... 131

O EMPODERAMENTO DOS SUJEITOS: COOPERATIVA ACÁCIA -


ARARAQUARA, UMA HISTÓRIA DE LUTAS.............................................................. 145

O TRABALHO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NA INTERVENÇÃO


FRENTE A DROGADIÇÃO: EXPERIÊNCIA JUNTO A UMA COMUNIDADE
TERAPÊUTICA NO MUNICÍPIO DE CATANDUVA/ SP ............................................ 155

9
PROJETO COLETIVO RECICLAGEM COMO TECNOLOGIA SOCIAL:
SISTEMATIZAÇÃO DE EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL À LUZ DA TEORIA
CRÍTICA ............................................................................................................................... 167

SERVIÇO SOCIAL E TERCEIRO SETOR: CONTRADIÇÕES E DESAFIOS


INERENTES A CATEGORIA PROFISSIONAL ............................................................ 179

A ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NO ENFRENTAMENTO


DA QUESTÃO AMBIENTAL: REFLEXÕES SOBRE OS DESAFIOS E AS
POSSIBILIDADES À LUZ DA PROMOÇÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
CRÍTICA ............................................................................................................................... 189

A DIMENSÃO EDUCATIVA NO TRABALHO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE


SOCIAL NA VERTENTE DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL: EXPERIÊNCIA JUNTO A
UMA ORGANIZAÇÃO NÃO GOVERNAMENTAL DA CIDADE DE BARRETOS-SP.
................................................................................................................................................ 201

A QUESTÃO SOCIOAMBIENTAL NA CONTEMPORANEIDADE........................... 215

ANÁLISE DA ATUAÇÃO DO PROGRAMA NÚCLEO DE ENSINO DA


UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”-
UNESP, NOS PROJETOS COM VIÉS EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL .................... 229

DETERMINANTES HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL .......................... 245

EDUCAÇÃO AMBIENTAL FRENTE AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


................................................................................................................................................ 261

LEGISLAÇÃO AMBIENTAL BRASILEIRA COM ENFOQUE NA COOPERATIVA


DE CATADORES ................................................................................................................ 275

MÍDIA, SANEAMENTO BÁSICO E POLÍTICAS PÚBLICAS..................................... 291

O CADASTRO AMBIENTAL RURAL COMO INSTRUMENTO DE POLÍTICA


PÚBLICA: O CASO DAS PEQUENAS PROPRIEDADES RURAIS NO ESTADO DE
SÃO PAULO ......................................................................................................................... 305

O OLHAR DOS CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS SOBRE O PODER


PÚBLICOS ............................................................................................................................ 319

O PROGRAMA BATEA - BATATAIS EDUCAÇÃO AMBIENTAL E VIVEIRO


FLORESTAL, DA FUNDAÇÃO JOSÉ LAZZARINI, NO CONTEXTO DAS
POLÍTICAS PÚBLICAS INSERIDAS NA LEI DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL ....... 333

10
OS INCENTIVOS ECONÔMICOS COMO FOMENTO PARA PROCESSOS DE
PRODUÇÃO MAIS LIMPOS PARA UM MEIO AMBIENTE SADIO. ....................... 349

UNIDADE DE CONSERVAÇÃO PARQUE ESTADUAL FURNAS DO BOM JEUSUS:


A HISTÓRIA DO LUGAR E SEU LUGAR NA HISTÓRIA .......................................... 361

URBANIZAÇÃO INSALUBRE: A MIGRAÇÃO GLOBAL PARA AS CIDADES E O


PAPEL DO PLANEJAMENTO URBANO NA SAÚDE E NA QUALIDADE DE VIDA
DA POPULAÇÃO ................................................................................................................ 371

A ATUAÇÃO SOCIOAMBIENTAL DE MICRO E PEQUENAS EMPRESAS NA


CIDADE DE FRANCA SOB O OLHAR DO PROGRAMA ALI ................................... 381

ABORDAGEM QUANTITATIVA DO DESEMPREGO E DO EMPREGO


INFORMAL EM DECORRÊNCIA DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO ............ 397

ATENÇÃO ACOLHEDORA: UMA PRÁTICA QUE OTIMIZA A FREQUÊNCIA


DOS ALUNOS NA UNIVERSIDADE ABERTA PARA MATURIDADE- UNABEM –
UEMG .................................................................................................................................... 407

INDICADORES SOCIAIS: INSTRUMENTO PARA ACOMPANHAMENTO ÀS


FAMÍLIAS ASSISTIDAS NOS CRAS DE POÇOS DE CALDAS – MG ...................... 419

JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE: A RELEVÂNCIA DA INTERVENÇÃO JUDICIAL


PARA ASSEGURAR O DIREITO À SAÚDE DOS PRESIDIÁRIOS (ANÁLISE DA
ADPF 347-DF). ..................................................................................................................... 433

O PAPEL DO ESTADO PARA A PROMOÇÃO DA IGUALDADE DE GÊNERO NAS


RELAÇÕES DE TRABALHO À LUZ DAS INICIATIVAS GOVERNAMENTAIS
FEDERAIS. ........................................................................................................................... 445

PARTICIPAÇÃO POPULAR NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE TRABALHO,


EMPREGO E RENDA ......................................................................................................... 457

PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA: AVANÇO OU RETROCESSO DA


POLÍTICA HABITACIONAL............................................................................................ 473

11
A CATEGORIA TRABALHO: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE FORMAÇÃO
PROFISSIONAL NO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL NA UNIVERSIDADE
FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO

Claudia Caroline Delefrate Pereira*


Maria José Oliveira Lima**

Resumo: A pesquisa tem como objetivo geral analisar a materialização da categoria trabalho
no processo de formação dos egressos do curso de Serviço Social da Universidade Federal do
Triângulo Mineiro (UFTM), bem como contextualizar a formação acadêmica dos discentes
considerando o perfil do egresso, objetivos do Curso, competências e habilidades esperadas e,
identificar as características do processo de formação profissional em Serviço Social, que se
aproximam e/ou afastam da categoria trabalho, a partir da própria vivência e fala dos egressos
e, analisar se há a materialização da categoria trabalho no processo de formação em Serviço
Social. A metodologia é constituída pela retomada da pesquisa bibliográfica e documental
com objetivo de apropriar-se da discussão teórica a partir das categorias, trabalho e formação
profissional; pesquisa de campo, com entrevistas semiestruturadas com os egressos. E a
análise dos dados será composta pela ordenação, dedicado ao contato com o material
empírico, envolvendo a transcrição das entrevistas, e organização das diferentes categorias
apresentadas nas entrevistas; leitura atenta do material coletado nas entrevistas com o intuito
de identificar no processo de formação profissional a dimensão da categoria trabalha para
análise e, análise final dos dados (referencial teórico/revisão bibliográfica e pesquisa
documental/entrevistas) será possível evidenciar como se dá a materialização da categoria
trabalho no processo de formação profissional no curso de Serviço Social na UFTM.

Palavras-chave: Serviço Social. formação profissional. categoria trabalho.

INTRODUÇÃO

A motivação para discutir a categoria trabalho no processo de formação profissional,


deu-se em virtude da compreensão da relevância e centralidade, da discussão da mesma
evidenciado a partir da pesquisa de mestrado, no Programa de Pós Graduação em Serviço
Social da Universidade Paulista (UNESP), em Franca-SP. Parte deste estudo é fruto da
discussão teórica realizada no Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Serviço
Social na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), em Uberaba-MG.
Para tanto se analisou a categoria trabalho e o tema formação profissional, por meio da
discussão acerca dos elementos constitutivos destas categorias, fundamentalmente

*
Mestranda no Programa de Pós Graduação em Serviço Social, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).
Membro do - GESTA/FCHS- UNESP/Câmpus de Franca.
**
Docente do Programa de Pós Graduação em Serviço Social- Mestrado em Serviço Social da Universidade
Estadual Paulista (UNESP). Líder do Membro do - GESTA/FCHS- UNESP/Câmpus de Franca.

13
relacionadas à interlocução teórica com o referencial dialético crítico, orientador das
Diretrizes Curriculares, do Projeto Ético-Político e de formação profissional, a partir da
década de 1990, bem como será realizada a discussão a respeito da percepção da categoria
trabalho com os egressos do Curso de Serviço Social da UFTM, que estão inseridos no
exercício profissional como Assistente Social a respeito da compreensão da categoria trabalho
no processo de formação.

OBJETIVOS

Objetivo Geral
• Analisar a materialização da categoria trabalho no processo de formação dos egressos do
curso de Serviço Social da UFTM.

Objetivos Específicos
• Contextualizar a formação acadêmica dos discentes do curso de Serviço Social da UFTM,
considerando o perfil do egresso, objetivos do Curso, competências e habilidades esperadas;

• Identificar as características do processo de formação profissional em Serviço Social, que se


aproximam e/ou afastam da categoria trabalho, a partir da própria vivência e fala dos
egressos;

• Analisar se há a materialização da categoria trabalho no processo de formação em Serviço


Social, e articular os resultados juntos às dimensões ético político, teórico-metodológica,
técnico-operativa.

JUSTIFICATIVA

A escolha da teoria marxista como direcionamento sistemático da atuação profissional


em Serviço Social advém da apreensão de que o pensamento dialético, segundo Kosik (1969)
é um processo de concretização que procede ao percurso da compreensão do “todo”, e neste
processo de correlações, os conceitos entram em movimento recíproco (construção e
reconstrução) e, mutuamente atingem a concreticidade.

14
“A dialética não é o método da redução: é o método da reprodução espiritual e
intelectual da realidade é o método do desenvolvimento e da explicitação dos fenômenos
culturais partindo da atividade prática objetiva do homem histórico.” (KOSIK, 1969, p. 32.)
O processo do abstrato ao concreto, como método de conhecimento da realidade é a
dialética da totalidade concreta, na qual se reproduz idealmente a realidade em todos os
seus planos e dimensões. A dialética da totalidade concreta não é um método que pretende
conhecer todos os aspectos da realidade e oferecer um quadro real da totalidade, é uma teoria
da realidade e do conhecimento que se torna uma via para apreensão da realidade (KOSIK,
1969, p. 15).
O fato desse conhecimento se dar por via dialética, segundo Kosik (1969), não é um
processo de sistematização fundada sobre uma base imutável, mas sim um processo de mútua
compenetração e elucidação dos conceitos, no qual a abstratividade dos aspectos é superada
em uma correlação dialética, quantitativo-qualitativa e regressivo-progressiva. As partes se
encontram em relação de interna integração entre si, exemplo disso é o todo, que cria a si
mesmo na interação das partes.
E compreender, segundo Kosik (1969), é conhecer a estrutura, dar-lhe um significado
a partir da decomposição do todo, por isso a necessidade da dialética, pois, o processo não é
rápido, nem simples nem de “fora para dentro”, é decompor o que é necessário- principal e o
que é secundário (processo de separação entre fenômeno e essência).
Esse processo de decomposição é naturalizado inclusive tanto no pensamento quanto
nas ações. Ainda segundo o autor, decompor e isolar alguns momentos da realidade não é
desprezar ou excluir os outros, mas sim uma forma de criar um “pensamento comum”. Essa
forma de pensamento é o que compõe a “práxis utilitária humana” é a forma ideológica do
indivíduo agir.
Compreender o processo dialético da inserção do Assistente Social na divisão social e
técnica do trabalho, como especialização do trabalho, é ser capaz de realizar a identificação
das manifestações da questão social como o objeto de intervenção profissional. É o processo
que materializa o reconhecimento do exercício profissional como trabalho e partícipe do
processo de trabalho e, ainda como classe trabalhadora na divisão social do trabalho.
Definir o objeto de intervenção profissional, na relação antagônica capital e trabalho,
significa tomar como objeto de atenção, de preocupação e de intervenção profissional a
dialética, a práxis, o movimento inerente ao processo de trabalho do assistente social e, ainda,
o resultado do mesmo na vida em sociedade. Significa buscar uma intervenção que supere a
15
visão simplificada e aparente das demandas, que por vezes, fragmenta o entendimento da vida
social.
Kosik (1969) afirma que a grande complexidade dos fenômenos que habitam o
cotidiano e a atmosfera comum da vida humana faz com que, seu imediatismo, adquira um
aspecto de natural, construindo uma ambígua relação entre fenômeno e essência, realidade
aparente e real é o que segundo o autor, constitui o mundo da pseudoconcreticidade.
O mundo da pseudoconcreticidade no livro “Dialética do Concreto” demonstra a
tentativa de desmascarar a pretensa concreticidade e sua falsa fluidez através da apreensão da
abstração (método dialético), é a maneira pela qual nós destruímos o mundo da
pseudoconcreticidade e nos deparamos com a totalidade concreta.
A utilização da práxis que revolucionaria como mecanismo de superação da
“coisificação” das construções teóricas, não pode ser aquela que fragmenta os indivíduos,
com bases na divisão social: do trabalho, de classes, e hierarquização social.
Essa “práxis utilitária imediata” é contraditória, que se apresenta como verdades
engendradas pelas ideologias da classe dominante, por isso, o fazer profissional também é um
movimento de pensamento, pois, o autor discute que o percurso entre a caótica representação
do todo, e a rica totalidade da multiplicidade das determinações e das relações, coincidem
com a compreensão da realidade.
Por isso, a dialética não considera os produtos fixados, as configurações e os objetos,
todo o conjunto do mundo material reificado, como algo originário e independente. Da mesma
forma que não concebe o mundo das representações e do pensamento comum, submetem-nos
a um exame em que as formas reificadas do mundo objetivo e ideal se diluam, para mostrar-
nos a realidade como fenômenos derivados e mediatos, como produtos da práxis social da
humanidade (práxis revolucionária) (KOSIK, 1969, p. 50).
Faz-se necessário perceber a totalidade do processo de trabalho do Serviço Social,
pois, este é permeado por inúmeras contradições, marcada por uma determinada historicidade,
em um campo social determinado pelas relações de trabalho.
A individualidade humana encontra-se atravessada por uma diversidade de vetores
externos à interioridade e que permeiam a consciência individual dos seres. Esses vetores
diversos são construídos historicamente, em contextos culturais específicos a cada época e a
cada povo.
Entretanto, o indivíduo que é único e indivisível se constitui, enquanto tal, na trama
das múltiplas relações da sociedade. Não há dicotomia entre indivíduo e sociedade, entre
16
sujeito e objeto, singular e universal. Há uma interdependência entre o sujeito e seu contexto
natural e social. Existe uma forte conexão entre as partes e o todo, ou seja, entre o ser que é
uma parte do universo e todo este conjunto que consolida a vida humana, situando-a no
universo natural, político, ideológico, cultural, social, econômico e mais uma vez humano.
Na perspectiva do materialismo histórico, o processo de humanização acontece na
medida em que é possível para os sujeitos expressarem-se em seu contexto, inserirem-se no
mesmo, por intermédio de suas atividades e criações. A humanização, entretanto, é uma
dinâmica que muitas vezes fica “engessada” nesta sociedade. Inúmeros processos sociais de
exclusão, criados na dinâmica das relações sociais, interditam as possibilidades de inserção do
sujeito em seu meio. Dificultam o acesso das pessoas nas instâncias de defesa de direitos
disponibilizadas sobre a perspectiva social.
A alienação é um produto da (des)humanização das relações sociais que propiciam o
estranhamento do sujeito em seu próprio meio, o não reconhecimento deste sujeito como
pertencente a seu contexto.
“A propriedade privada tornou-nos tão néscios e parciais que um objeto só é nosso
quando o temos, quando existe para nós como capital ou quando é diretamente comido,
bebido, vestido, habitado etc., em síntese, utilizado de alguma forma.” (MARX, 1983, p. 120.)
Na perspectiva marxista, as sociedades baseadas no lucro e no consumo retiram do
sujeito sua dimensão subjetiva e criativa, à medida que tudo se torna mercadológico e objeto.
As coisas do social são objetos a serem consumidos, “engolidos” e aqueles que não têm
acesso ao consumo estão de fora, ficam à margem de alguns processos sociais.

Todas as suas relações humanas com o mundo – ver, ouvir, cheirar, saborear,
pensar, observar, sentir, desejar, agir, amar, em suma, todos os órgãos de sua
individualidade, como órgãos que são de forma diretamente comunal, são, em sua
ação objetiva (sua ação com relação ao objeto), a apropriação desse objeto, a
apropriação da realidade humana. (MARX, 1983, p. 120.)

Para Marx (1983), a maneira como as pessoas se apropriam dos objetos efetiva um
tipo específico de realidade humana, própria das sociedades capitalistas, nas quais, esta
efetivação “é efetividade humana e sofrimento humano”. Na situação dos processos de
alienação, o sujeito encontra-se diante de um estranhamento em relação ao contexto e diante
de si mesmo, situando-se fora, alheio a certas dimensões da vida social. Neste processo,
acontecem inúmeras perdas individuais e subjetivas que se materializam na vida cotidiana e
concreta dos indivíduos.

17
Eis aí o sofrimento referido por Marx (1983), na ocasião da “efetividade da realidade
humana”, onde a existência fica reduzida ao ter – possuir ou não possuir – vai situar a vida
humana em maior ou menor grau de possibilidade de acessar os recursos disponíveis no seu
contexto. Isso se estende a ponto de causar a interdição deste acesso, em milhares de casos da
vida dos sujeitos desta sociedade contemporânea, ainda mediada pelas relações entre capital-
trabalho e suas consequências.
A expressão “gênero humano”, utilizada por Duarte (2000, p. 122), é significativa para
explicitar as relações entre as pessoas, na trama multiforme e dinâmica do campo social. O
indivíduo singular é um ser genérico, ou seja, pertencente ao gênero humano; a vida dos
indivíduos deveria traduzir a universalidade e a liberdade já conquistadas pelo gênero humano.
Cada ser, por condição, tem direito a participar, a fazer parte do seu mundo, de seu contexto e
deveria ser universal o acesso de todas as pessoas ao espaço social construído pelos seres.
O processo histórico de vida e sociabilidade dos sujeitos que são “objetos” das ações
dos assistentes sociais é permeado por diversas culturas, formas de criatividade,
transformação do meio ambiente, são apenas algumas das particularidades desses sujeitos.
Portanto, o profissional comprometido com o Código de Ética do Assistente Social
(promulgado em 1993), que regulamente sua profissão, precisa destacar em sua intervenção
profissional a alienação que entrava a expressão da subjetividade, desloca o sujeito do seu
contexto e do seu próprio eu, e para isso se faz necessário e fundamental, trabalhar com
consciências e com os processos sociais de conscientização.
Para realizar essa discussão, no primeiro momento, foi necessário considerar a
perspectiva e trajetória histórica do Serviço Social, as manifestações da questão social e o
próprio processo de formação profissional em Serviço Social.
No segundo momento, procedeu-se a análise das unidades temáticas do Projeto
Político Pedagógico do Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Triângulo
Mineiro (P.P.P.C.S.S. UFTM) do ano 2010/2, que tratam da categoria trabalho. Identificando
assim as Unidades Temáticas que evidenciavam a referida categoria, posteriormente, parte-se
para a compreensão da materialização dessa categoria, no próprio processo de formação, por
meio das ementas das unidades temática e referências.
A opção metodológica para análise dos dados caracterizou-se pela teoria social crítica,
articulando a análise com as dimensões ético-político, teórico-metodológica, técnico-operativa
da profissão com as unidades temáticas, a partir de uma abordagem qualitativa das mesmas.
Tendo em vista o contato com P.P.P.C.S.S. UFTM 2010/2 durante o processo de
18
formação, optou-se por determinar uma etapa “pré-análise”, que se configurou pela leitura das
ementas das unidades temáticas que pertenciam à grade curricular do curso. Para isso, adotou-
se como metodologia de pesquisa a revisão bibliográfica e pesquisa documental.
Quanto às aproximações conclusivas do ensaio, considera-se o que diz Minayo (2000,
p. 79), “[...] o produto final da análise de uma pesquisa, por mais brilhante que seja, deve ser
sempre encarado de forma provisória e aproximativa.”
Portanto, a análise da categoria trabalho no processo de formação em Serviço Social
na UFTM, evidencia o estabelecimento da articulação entre as unidades temáticas e os
referenciais teóricos da pesquisa, procurando as respostas para os objetivos desta. Ratificando
a necessidade da apresentação e discussão da categoria trabalho como elemento fundante do
ser social; a especificidade do trabalho na sociedade burguesa e a inserção do Serviço Social
como especialização do trabalho coletivo e o trabalho profissional do Serviço Social face às
mudanças no padrão de acumulação capitalista e regulação social.
Como resultado deste estudo, das unidades temáticas analisadas1 disponibilizadas na
Matriz Curricular do curso e específicas da graduação em Serviço Social, amparadas nos
fundamentos filosóficos, teóricos, éticos e políticos, e, sobretudo, mediadas pela compreensão
do trabalho como categoria constitutiva e constituinte do ser social, realizada pela práxis,
apresentaram reais possibilidades da compreensão da categoria trabalho.
Possibilidades essas que se afirmam nas próprias referências bibliográficas utilizadas,
como Karl Marx, Ricardo Antunes, José Paulo Netto e Giovanni Alves, entre outros nomes.
Contudo, entendendo, que apenas a referenciação como fundamento de discussão do
tema proposto não é suficiente, se fez necessário desdobrar a compreensão da dimensão da
categoria nas unidades temáticas de acordo com as suas respectivas ementas.
Além de discutir a categoria, essas unidades, localizá-la no bojo do movimento de
surgimento do Serviço Social como profissão assalariada. Destaca-se, que nos últimos
quarenta anos, o trabalho, enquanto atividade fundamental na constituição de relações sociais
(não apenas daquelas diretamente relacionadas à produção material) tem sido fortemente
questionada, devido tanto às reconfigurações nas formas e processos de trabalho, quanto às
alterações na formação da identidade dos trabalhadores enquanto grupo social.
Foi possível apreender como resultado também, as mudanças na configuração da classe

1
Trabalho e Sociabilidade; Homem, Sociedade e Cultura; Fundamentos Teórico-Metodológicos Ético-Político
Técnico-Operativo do Serviço Social, I, II, III e IV; Ética e Serviço Social; Formação e Trabalho Profissional I
e II; Serviço Social e Processo de Trabalho I e II; Supervisão de Estágio Curricular Obrigatório em Serviço
Social I, II, III e IV.
19
trabalhadora, a sua heterogenização, em consonância com as transformações nas formas de
organização dos processos de trabalho, foram acompanhadas de um extenso e profundo
desmonte do movimento sindical.
A introdução da discussão da categoria apresenta os trabalhadores enquanto classe
social, e seu reflexo como objeto de preocupação central, em boa parte da história da
sociologia, e das referências bibliográficas por autores clássicos, como os citados
anteriormente. No entanto, em contrapartida desse destaque para os trabalhadores, pode-se
constatar a manifestação da sociedade no contexto capitalista, onde o trabalho adquire
configuração e se realiza de modo a negar suas potencialidades emancipadoras, invertendo
seu caráter de atividade livre, consciente, universal e social, propiciando aos indivíduos que
realizam o trabalho não se reconheçam, nele, como sujeitos, incluindo para isso o fenômeno
da alienação.
Destaca-se dentre as análises já realizadas, que nos últimos quarenta anos, o trabalho,
enquanto atividade fundamental na constituição de relações sociais,- não apenas daquelas
diretamente relacionadas à produção material-, tem sido fortemente questionada, devido tanto
as reconfigurações nas formas e processos de trabalho, quanto nas alterações na formação da
identidade dos trabalhadores enquanto grupo social.
A intencionalidade da escolha das unidades temáticas, visualizadas nas ementas e suas
referências, pautaram-se na necessidade da reflexão filosófica com vistas a possibilitar a
identificação do ser social, reafirmando o “ethos” profissional - modo de ser profissional -
especifico do Assistente Social. Somente este profissional, regido pela razão, pode
compreender os ditames do capitalismo imperante e instituir coletivamente uma nova ordem
societária.
Retomar neste momento o estudo e a síntese sobre o processo de formação em Serviço
Social, a categoria trabalho apresentada e discutida pelas várias unidades temáticas presentes
no P.P.P.C.S.S. UFTM 2010/2, é desafiador e ao mesmo tempo oportuniza a (re)significação
e reflexão da centralidade da categoria trabalho na atualidade, para além das "novas"
configurações no interior da categoria profissional, mas para toda a classe trabalhadora e/ou
toda aquela que "vive do trabalho".
Continuar com o objetivo de avançar nesta pesquisa, é sobretudo entender o ato de
pesquisar como um processo, onde o pesquisador tem “[...] uma atitude e uma prática teórica
de constante busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente”, tendo
em vista, a necessidade de sucessivas aproximações com a realidade e objeto pesquisado,
20
numa perspectiva dialética, onde esse objeto, esse estudo, apresenta “uma carga histórica” e
reflete posições frente à realidade (MINAYO, 1994, p. 23).
Apreender a pesquisa em sua íntima relação com a formação profissional e o exercício
profissional, ressaltando a relação de unidade entre teoria e prática, no contexto sócio-
histórico em que a profissão se constrói, consolida-se e se reconstrói, no movimento em que
as contradições e desafios presentes neste contexto se apresentam, instiga a necessidade da
escuta, da materialização ou não dos resultados já obtidos.
A presente proposta, não trata, apenas de enfatizar a ilustração teórica, os resultados de
uma pesquisa bibliográfica e documental- já realizada-, mas fazer o exercício contínuo de
aprofundar criticamente a discussão a respeito e a possibilidade de ampliação e discussão
crítica dos resultados obtidos.
O Serviço Social como profissão sócio-histórica tem em sua natureza a pesquisa como
meio de construção de um conhecimento comprometido com as demandas específicas da
profissão e com as possibilidades de seu enfrentamento.
Contudo, o ato de pesquisar se coloca como um desafio permanente para os
profissionais que se apresentem um perfil crítico, pois, necessitam inicialmente do
reconhecimento do conhecimento como uma das expressões da práxis profissional, como uma
das objetivações possíveis do trabalho humano frente aos desafios colocados pela relação
entre o homem, a natureza e a sociedade.
Neste contexto, a pesquisa ganha significado ontológico, ou seja, existencial e
laborativo, pois faz parte da natureza humana perguntar pelo desconhecido para, através das
possibilidades de respostas, atender às necessidades do homem em suas dimensões individual
e coletiva, produzindo e reproduzindo sua própria existência, não de forma mecânica, mas de
forma complexa, processual, contraditória e histórica.
Segundo José Filho (2006, p. 64) “[...] o ato de pesquisar traz em si a necessidade do
diálogo com a realidade a qual se pretende investigar e com o diferente, um diálogo dotado de
crítica, canalizador de momentos criativos.” A tentativa de conhecer qualquer fenômeno
constituinte dessa realidade busca uma aproximação, visto sua complexidade e dinamicidade
dialética.
Considera-se, portanto, que o processo de pesquisa se constitui em uma atividade
científica básica que, através da indagação e (re)construção da realidade, alimenta a atividade
de ensino e a atualiza frente à realidade. Assim como vincula pensamento e ação já que “[...]

21
nada pode ser intelectualmente um problema se não tiver sido, em primeiro lugar, um
problema da vida prática.” (MINAYO, 2000, p. 17).
Nesse momento, a intencionalidade de prosseguir com a discussão do tema no
mestrado, refere-se à oportunidade de realizar também a pesquisa de campo, o que acredita-se
que propiciará uma maior contribuição e análise aprofundada sobre a discussão da
materialidade do P.P.P.C.S.S. UFTM, entendendo a importância da escuta qualificada a
respeito do papel dos sujeitos.

MÉTODO

A proposta desse projeto pauta-se no método dialético como percurso metodológico,


orientador de todo o processo de investigação e análise. Portanto, ratifica-se que a escolha do
método dialético permanece como forma de orientar e direcionar a realização da pesquisa
proposta, por entender, que a orientação do pesquisador de trabalhar sempre considerando a
contradição e o conflito, o que ainda estar por vir, o “real” o “aparente”, o movimento
histórico, a totalidade e a unidade dos contrários, além de apreender, em todo o percurso de
pesquisa, as dimensões filosófica, material/concreta e política que envolve seu objeto de
estudo (PONTES, 1997).
Desse modo, o conhecimento da realidade não é apenas a simples transposição dessa
realidade para o pensamento, pelo contrário, consiste na reflexão crítica que se dá a partir de
um conhecimento acumulado e que irá gerar uma síntese, o concreto pensado (QUIROGA,
1991.)
Enfatiza-se a necessidade de manter o diálogo com o real, ou seja, apreender a “luz”
das considerações analisadas no resultado do Trabalho de Conclusão de Curso, se a partir da
realidade dos sujeitos, da sua fala, há a materialização da categoria trabalho no processo de
formação em Serviço Social na UFTM.
É com o objetivo de possibilitar vistas ao desvendamento do real e na tentativa de
apreensão da essência da materialização do objeto de estudo no movimento concreto, que a
presente pesquisa consiste em ‘aproximações sucessivas que não são lineares’ com a
formação profissional em Serviço Social, no contexto da UFTM.
E ainda, compreende-se o movimento do real para realizar o caminho de volta até o
objeto, caminho este muito mais rico porque traz consigo novas e múltiplas mediações.
(PONTES, 1997)
22
Segundo Gonsalves (2001, p. 67), a pesquisa de campo é o tipo de pesquisa que
pretende buscar a informação diretamente com a população pesquisada e, exige-se do
pesquisador um encontro mais direto.
A escolha da abordagem qualitativa para o desenvolvimento dessa investigação está
relacionada com a capacidade desse enfoque em compreender que o mundo do sujeito não
pode ser traduzido em números (MINAYO, 2000). A abordagem qualitativa nesse estudo faz
se necessária, tendo em vista que, o objeto de pesquisa visa à apreensão dos fenômenos
independe de números e estatísticas, mas relacionados às percepções dos sujeitos envolvidos
com o processo de formação profissional em Serviço Social.
Entende-se que não há escolhas isentas de interesses, nem conhecimentos espontâneos,
mas sim, uma construção historicamente condicionada pela posição social do cientista social e
pelas correntes de pensamento em conflito na sociedade (MINAYO, 1996).
Portanto, o desenvolvimento da pesquisa se faz, entendendo a realidade social
dinâmica, contraditória, histórica e ontológica, e que implica na utilização de procedimentos
metodológicos que consigam engendrar todos esses pressupostos com a mesma intensidade
como se apresentam quando estão em relação documental.
Desde a criação do curso com a expansão das vagas em Universidades Federais em
virtude do REUNI (Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), em
2009 até o presente momento (2016/1) formaram nove turmas no curso de Serviço Social da
UFTM, perfazendo uma média de 20 alunos por turma, totalizando aproximadamente cento e
oitenta (180) bacharéis em Serviço Social, dentre esse universo total da pesquisa, serão
selecionados como amostra, todos os profissionais que estão inseridos no exercício
profissional.
Para levantar o perfil do universo, foi solicitado, através de Termo de Autorização para
a UFTM, o acesso aos dados de contatos referentes aos egressos. Será solicitada aos sujeitos a
leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido. As entrevistas serão
gravadas, desde que haja autorização do entrevistado, a fim de proporcionar maior segurança
na análise das informações colhidas. A proposta compreende a elaboração de instrumental de
coleta de dados, com roteiro de entrevista semiestruturada.
O processo de pesquisa é constituído por meio das seguintes etapas:
 Retomada da pesquisa bibliográfica e documental com objetivo de apropriar-se da
discussão teórica a partir das categorias, trabalho e formação profissional;
 Pesquisa de Campo: entrevistas semiestruturadas com os egressos;
23
 A análise dos dados obtidos será composta pela ordenação, dedicado ao contato com o
material empírico, envolvendo a transcrição das entrevistas, e organização das
diferentes categorias apresentadas nas entrevistas;
 Leitura atenta do material coletado nas entrevistas com o intuito de identificar no
processo de formação profissional a dimensão da categoria trabalha para análise;
 A análise final dos dados (referencial teórico/revisão bibliográfica e pesquisa
documental/entrevistas) será possível evidenciar como se dá a materialização da
categoria trabalho no processo de formação profissional no curso de Serviço Social na
UFTM.
De acordo com Gomes (2005) a organização e o processamento de dados são um dos
aspectos mais complexos dos estudos analíticos. Considerando essa complexidade, nessa
etapa serão utilizadas as referências teóricas definidas pelas categorias previamente escolhidas
(educação, trabalho, cotidiano e formação profissional).
Serão tomadas todas as providências para garantir a confidencialidade por meio de
identificação dos sujeitos por nomes fictícios, impedindo assim quaisquer riscos de exposição
dos sujeitos. Quanto à descrição dos desconfortos e riscos serão observadas para que a
pesquisa atenda à Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012, que visa a assegurar os
direitos e deveres dos participantes de pesquisas científicas, bem como à comunidade
científica e ao Estado.

RESULTADOS OBTIDOS

Espera-se que com a realização desta pesquisa que a análise final sobre a
materialização da categoria trabalho no processo de formação dos egressos do curso de
Serviço Social da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), possa evidenciar um
processo de formação em Serviço Social articulado às dimensões ético político, teórico-
metodológica, técnico-operativa, em consonância com as diretrizes curriculares da
Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e que ainda
possibilite e fomente o debate na comunidade acadêmica e de profissionais sobre a formação
profissional e suas respectivas categorias centrais.

24
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Espera-se que com a realização desta pesquisa que a análise final sobre a materialização
da categoria trabalho no processo de formação dos egressos do curso de Serviço Social da
Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), possa contribuir na efetivação da
qualidade do processo de formação profissional em Serviço Social, articulando às dimensões
ético político, teórico-metodológica, técnico-operativa, em consonância com as diretrizes
curriculares da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS).
Que ainda possibilite e fomente o debate na comunidade acadêmica e de profissionais sobre
a formação profissional e a construção do conhecimento

REFERÊNCIAS

ALVES, G. Dimensões da precarização do trabalho: ensaios da sociologia do trabalho.


Bauru: Projeto Editorial Práxis, 2013.

ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? São Paulo: Cortez, 1995.

______. Dimensões da crise e metamorfoses do mundo do trabalho. Serviço Social &


Sociedade, São Paulo, ano 17, n. 50, p. 78-85, abr. 1996.

______. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São


Paulo: Boitempo, 1999.

CFESS. Legislação e resoluções sobre o trabalho do/a assistente social. Brasília, DF, 2011.
Disponível em:
<http://www.cfess.org.br/arquivos/LEGISLACAO_E_RESOLUCOES_AS.pdf>. Acesso em:
10 set. 2015.

GOMES, R. et al. Organização, processamento, análise e interpretação de dados: o desafio da


triangulação. In: MINAYO, M. C. S.; ASSIS, S. G.; GONSALVES, E. P. Conversas sobre
iniciação à pesquisa científica. Campinas: Alínea, 2001.

IAMAMOTO, M. V. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação


profissional. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

JOSÉ FILHO, M.; DALBÉRIO, O. (Org.). Desafios da pesquisa. Franca: Ed.


UNESP/FHDSS, 2006.

KOSIK K. Dialética do concreto. Tradução de Célia Neves e Alderico Toríbio. 3. ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1969.
25
LUCKÁS, G. História e consciência de classe. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2003.

MARX, K. Manuscritos econômicos e filosóficos. Tradução de Octávio A. Velho. 8. ed. Rio


de Janeiro: Zahar, 1983.

______. O capital. São Paulo: Difel, 1985. v. 1.

______. Para a crítica da economia política do capital: o rendimento e suas fontes. São
Paulo: Nova Cultural, 2000 (Os Pensadores).

MÉSZÁROS, I. A educação para além do capital (1930). Tradução de Isa Tavares. São
Paulo: Boitempo, 2005.

______. A teoria da alienação em Marx (1930). Tradução Isa Tavares. São Paulo:
Boitempo, 2006.

MIN6.AYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 4. ed. São


Paulo: Hucitec, 1994.

______. Para uma leitura do Método em Karl Marx: anotações sobre a “Introdução” de
1857. Rio de Janeiro: Ed. UFF, 1996.

______. Ciência, técnica e arte: o desafio da pesquisa social. In: ______. (Org.) Pesquisa
social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2000.

PAULO NETTO, J. Capitalismo monopolista e Serviço Social. 7. ed. São Paulo: Cortez,
2009.

______.; CARVALHO, M. L. B. Cotidiano: conhecimento e crítica. 4. ed. São Paulo: Cortez,


1996.

PONTES, R. N. Mediação e Serviço Social: um estudo preliminar sobre a categoria teórica e


sua apropriação pelo Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1997.

QUIROGA, C. Invasão positivista no marxismo: manifestações no ensino da metodologia


no Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1991.

UFTM. Projeto Político Pedagógico do Curso de Serviço Social da Universidade Federal


do Triângulo Mineiro 2010/2 (PPPCSS UFTM). Uberaba, 2010.

26
A GESTÃO SOCIAL E AS INQUIETANTES CONCEPÇÕES AO SEU ENTORNO

Graziela Donizetti dos Reis*

Resumo: O tema Gestão social conquistou maior visibilidade recentemente, sua introdução
na sociedade brasileira ocorreu nos anos de 1990, permeado pela tensão entre dois processos
contemporâneos que marcam a realidade contemporânea. Um dos processos está vinculado a
globalização da economia que possui o poder de mercantilizar e expandir os segmentos de
atuação no âmbito social. O outro processo versa sobre a relação social tardia, que foi
conquistada por meio da cidadania, pela recente, instigadora e desafiante participação da
sociedade civil para vislumbrar um Estado democrático de direitos. Esse debate
contemporâneo nas organizações sociais e acadêmicas sinaliza a importância de ressaltar as
referências que foram e estão sendo construídas para sustentar este campo temático.
Apresenta-se neste presente artigo, a revisão bibliográfica elaborada por meio da produção do
Serviço Social, recorrendo a outras áreas de conhecimento. Esse conteúdo possui viés
investigativo, funda-se na metodologia da análise de conteúdo, ensaiando a sistematização de
um referencial teórico sobre a gestão social visando à aproximação com a temática a ponto de
abrandar as inquietudes provocadas pelo tema. Possibilitando a identificação dos movimentos
que aproximam a gestão social do serviço social e consequentemente do Estado e da
sociedade civil.

Palavras-chave: gestão social. cidadania. Serviço Social.

INTRODUÇÃO

O esforço em torno desse trabalho foi norteado pela perspectiva dialética, na busca
pelo conhecimento que tem a ação como ponto de partida, assim como ressalta Kosik (2002),
é necessário ater-se a apreensão do real , da totalidade concreta, partindo do agudo e
condizente movimento dialético entre o ser, considerando a ontologia e o conhecer,
considerando a gnosiologia.

A realidade social não é conhecida como totalidade concreta se o homem, no


âmbito da totalidade, é considerado apenas e, sobretudo, como objeto e na
práxis-objetiva da humanidade não se reconhece a importância primordial do
homem como sujeito. (KOSIK, 2002, p. 52-53).

A partir desse pressuposto e referencial, no qual somos percebidos e potencializados


como sujeitos que partilham desse processo como outros sujeitos, iniciamos o
aprofundamento acerca da gestão social.

*
Graduanda do curso de serviço social da Universidade Estadual Paulista, UNESP, Câmpus de Franca.

27
Tal desafio incita a busca pela compreensão de que a gestão social é uma construção
social e histórica, constituída na tensão entre os projetos societários de desenvolvimento que
rivalizam na atual conjuntura. Por isso, a gestão social, concebe-se e viabiliza-se na totalidade
do movimento contraditório nos projetos societários, sendo que há dois pontos extremamente
importantes ressaltar, como o desenvolvimento do capital (que acirra as desigualdades
sociais) e o desenvolvimento da cidadania (a população toma ciência dos seus direitos e os
reivindica com maior afinco). Esses dois pontos do desenvolvimento demonstram as
diferentes perspectivas em torno da Gestão Social que estão inseridas no movimento
contraditório da realidade.

OBJETIVOS

Objetivo Geral
Identificar e descrever algumas dentre as várias concepções sobre a Gestão Social para
vincular o seu desenvolvimento à cidadania e o Serviço Social

Objetivo Específico
Os objetivos específicos desse artigo pretendem:
· Descrever os conceitos teóricos vinculados ao tema;
· Caracterizar o movimento contraditório em torno do tema;
· Identificar a dimensão social dentro tema.

METODOLOGIA

O presente ensaio teórico foi elaborado a partir da revisão bibliográfica, corroborando-


se em fundamentação teórica das áreas de Administração, Economia Serviço Social e
Sociologia.

DISCUSSÃO TEÓRICA
As Distintas Perspectivas Sobre a Gestão Social

Na atual conjuntura, diante das condições estabelecidas e determinadas pelo projeto de


desenvolvimento hegemônico, pode-se reconhecer a gestão social que também e possui sua
28
hegemonia, como gestão construída e firmada nas suas perspectivas, torna-se facilmente
confundida e identificada como contrária ao social. Tal concepção é disseminada por Ribeiro
(2000), ao afirmar que a sociedade é contra o capital, considerando as características do
projeto societário do capital.
A gestão que se opõe ao social é concebida como afirmação do capital e não da
cidadania, pois é uma tática que viabiliza a qualificação e eficiência do trabalho realizado nas
organizações voltadas para o campo social, mas visando a supremacia do capital (BARBOSA,
2004, p. 51-76). A reificação da técnica, ganha destaque, pois possibilita a eficiência e
aplicabilidade, por meio de ferramentas e produtos, dentre eles o empreendedorismo, a ação
voluntária, o marketing social, responsabilidade social e projetos que visam o marketing
social. Assim apresenta-se um leque de possibilidades para a comunidade, porém é necessário
ater-se ao fato de que a comunidade e as pessoas que compõem o público alvo desses
produtos são vistas como objetos e não como sujeitos do fazer.
Para Carvalho (2002, p. 229) é notório que o âmbito social necessitava de
instrumentos para qualificar seus processos. Contudo, isso não significa que a perspectiva
posta, deve colocar a tecnologia como ponto central e retirar do cidadão o seu protagonismo,
como tem ocorrido ultimamente. Torna-se perceptível que o aparato tecnológico é inserido no
campo social como mais um objeto do “capital” com o propósito de aprimorar seus meios
para controlar e explorar a classe trabalhadora.
A gestão do social, voltada para o desenvolvimento capitalista é inserida
principalmente por meio do terceiro setor. Sendo que este surge no Brasil e demais países
latinos americanos nos anos de 1990, devido a influencia européia e americana (LANDIM,
1999). A despeito das distinções entre tais origens, o terceiro setor se estabelece no Brasil em
meio à difusão das práticas e valores neoliberais como afirma (MONTAÑO, 2002) que são
cultivadas em conjunto com organizações sociais da sociedade civil, pois expandem-se a
influência de empresas e fundações com viés filantrópico, derivadas do meio mercadológico.
Perante as inúmeras contradições, vislumbra-se junto ao terceiro setor, a dimensão
social que se apresenta como tema público após o chamamento à responsabilidade social,
sendo este requisito de suma importância e valor para enfrentar as expressões da questão
social. Todavia, esse movimento ocorre como estratégia para fragilizar e atenuar a
responsabilidade pública do Estado, sendo suscitada pelo desenvolvimento capitalista que
assume o caráter institucional nas práticas reformistas das instituições sociais, empresariais e
do Estado brasileiro.
29
Processo esse que visa envolver a todos e a cada um, em uma ação que se é
reformista, não é revolucionária, na medida em que propõe que combata os
sintomas da crise sem, no entanto questionar o modelo econômico que
contribui para a sua produção. (CARRION; GARAY, 2000, 203-222).

Por esse motivo, o terceiro setor, torna-se parte constitutiva de uma importante
mediação funcional como afirma (MONTAÑO, 2002) e coloca-se como instrumento do
capital, em razão do qual pode-se explicar a tensão entre o setor público e privado, inserindo-
se hegemonicamente nos processos de privatizações.
As práticas voltadas para o âmbito social apresentam expansiva quantificação em
território nacional, conquistam visibilidade utilizando a solidariedade, valor extremamente
valorizado pela sociedade, porém ela adentra o âmbito social com um caráter despolitizado
das práticas sociais elaboradas com o intuito de tornarem-se políticas públicas, pois são
desconectadas do contexto societário no qual a realidade está posta.
Outra perspectiva da gestão refere-se à participação e apelo daqueles que colaboram,
que são consumidores e clientes, pois isso resulta na retirada da dimensão “cidadã” politizada,
sendo que está é imprescindível para assegurar o prevalecimento dos direitos conquistados em
todo processo social. Tal fato termina reproduzindo as remotas práticas autoritárias que se
contrapõem as propostas democráticas de cidadania especificadas na Constituição Federal de
1988, assim como no documento que propiciou a Reforma do Estado no início dos anos 1990
(PEREIRA, 1997), de acordo com a história , tais conquistas foram sonhadas pelos brasileiros
e ardentemente reivindicadas pelos movimentos sociais e populares.
No âmbito estatal, as organizações e seus trabalhadores são atraídos para a formação e
exercício da gestão social, tendo como ponto de partida os ditames da reforma gerencial
(BEHRING, 2003), pautando-se no aprimoramento da qualidade, competência e eficiência
técnica, visando os resultados que foram obtidos anteriormente e que precisam ser
melhorados. Havia a necessidade de mudanças nessa área, porém não nessa concepção
facilitadora e condizente com os ajustes neoliberais do Estado brasileiro, determinados pela
ordem internacional capitalista e seus leais defensores. Somado a essas novas atribuições do
trabalhador dessa área social, realiza-se uma movimentação estratégica de privatização,
descentralização e focalização das políticas públicas voltadas para o social, remove-se
gradativamente o papel de agente regulador do Estado na área social, sendo que essa foi uma
conquista tardia da sociedade civil. Tal fato ocorre de forma pouco visibilizada e junto aos
retrocessos jurídicos legais que outrora firmaram e afirmaram o Estado democrático de
30
direitos, que se apresentara de forma legítima e legalmente garantidora dos direitos
especificados na constituição de 1988.
Nota-se a comprovação plena da força do capital perante a reestruturação produtiva
que ele impõe e consequentemente define a direção e reestruturação das instituições públicas
e privadas, assim como da vida em sociedade, como afirma Gramsci (1988, p. 396) “[...] os
novos métodos de trabalho são indissolúveis de um determinado modo de viver, de pensar e
de sentir a vida: não se pode obter sucesso em um campo sem obter resultados tangíveis no
outro.”
Partindo dessas pontuações, valida-se a nominação de gestão contrária ao social, assim
como opõe-se aos processos de gestão na área social, pois ratifica-se como implementação
dos valores e propósitos capitalistas. Observa-se com nitidez os valores e propósitos do
modelo de gestão assumido partindo das peculiaridades comparativas ressaltadas por Prates
(1995): a pessoa neste projeto é reconhecida como objeto e não sujeito dessa questão, pois a
técnica e o capital assumem a centralidade, por isso coloca a sociedade como agente
multiplicador da exclusão e exploração. Ou seja, os processos sociais constituem-se em prol
do interesse de uma parcela mínima da sociedade, mas que detém em suas mãos o poder
financeiro, capitalista e que decide e norteia o modo de viver em sociedade.
Frente à concreticidade da realidade da gestão contrária ao social, que se nutre e
também nutre o projeto societário capitalista, erigem-se reações e proposições que constituem
a resistência manifestada no projeto societário que visa o desenvolvimento da cidadania e na
gestão social exemplificando a “[...] tensão dialética sempre superável do já sido e ainda não o
sendo.” (CURY, 2000, p. 31).
Enfatiza-se o processo de conhecimento em que a realidade é construída por meio da
concretização do novo e diferente que ao superar a contradição, acaba superando a si mesmo,
como pontua Cury (2000, p. 31):

A possibilidade existente no movimento das coisas quer dizer que a


possibilidade do novo, daquilo que ainda não é, mas pode ser imanentemente
naquilo que é. E ao abraçar toda a realidade, esse novo possível, concebido de
modo dialético, se inscreve ao mesmo tempo no homem e nas relações que
este mantém com o mundo e com os outros homens.

Esse movimento dialético de pessoas, movimentos sociais, instituições públicas e


privadas e organizações filantrópicas, que se concretizam outros conhecimentos, formas de
saberes e práticas que apontam a necessidade de transformação da sociedade, calcada em

31
valores justos, democráticos, que visam à equidade e igualdade capaz de alcançar a
universalidade da cidadania.

A GESTÃO SOCIAL E O VÍNCULO COM O SERVIÇO SOCIAL

A proximidade com a Gestão Social deriva-se também da produção teórica do Serviço


Social, pois trata-se de uma área de conhecimento intrinsecamente voltada para as demandas
da sociedade e políticas sociais, por isso pretende-se recorrer ao Serviço social como respaldo
para contribuir com esse ensaio teórico. Por isso, buscou-se conhecer as publicações
elaboradas pela categoria profissional e que repercutem como referencial bibliográfico que
norteiam essa temática dentro da profissão.
Nota-se que o tema gestão é torna-se recorrente e que sua focalização refere-se à
organização e intervenção de ações em diversas áreas do campo social e em distintas
dimensões, dentre elas, a sociedade civil, o mercado e o Estado. Para IAMAMOTO (1999, p.
126) o Serviço Social tem assumido desde o início dos anos de 1990, a formulação, avaliação
e recriação de propostas no âmbito das políticas sociais e de organização das forças da classe
trabalhadora e da sociedade civil. Segundo Carrion (2004), essa afirmação sinaliza que o
referencial elaborado pelo serviço Social pertinente a gestão, pode ser caracterizado como
gestão do social.
A aproximação dos referenciais teóricos sobre gestão social voltado para o Serviço
Social sinalizou a necessidade de ter outros fundamentos teóricos para discorrer as linhas
deste trabalho. Por isso buscou-se respaldo também nas áreas de Sociologia, Economia,
Administração além do Serviço Social. Tal diversidade potencializa a interdisciplinaridade.
Bardin propicia uma análise densa dos referenciais teóricos:

Um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando obter por


procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das
mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de
conhecimentos relativos às condições de produção e recepção destas
mensagens. (BARDIN, 1997, p. 42).

O processo analítico foi realizado em duas partes. Primeiro, desenvolveu-se a “análise


temática” (MINAYO, 2004, p. 208), visando à aproximação dos conteúdos centrais
desenvolvidos pelos autores sobre gestão social. No segundo momento, buscou-se a “análise
das relações” (MINAYO, 2004, p. 2004), com o objetivo de relacionar os distintos conteúdos

32
dos autores, utilizando como ponto inicial, a identificação das semelhanças e disparidades dos
subtemas contidos no tema.
Iniciou-se a identificação da gestão social a partir do texto de Tenório que apresenta a
seguinte concepção:

Conjunto dos processos sociais desenvolvidos pela ação gerencial, em vista da


articulação entre as suas necessidades administrativas e políticas postas pelas
exigências da democracia e cidadania para a potencialização do saber e
competência técnica e do poder político da população, [...]. (TENÓRIO, 1998,
p. 84).

Para Singer (1999), em contrapartida, a gestão social refere-se às ações interventivas


que são desenvolvidas em distintas áreas da vida social para a satisfação das necessidades
mínimas da população que se apresentam de inúmeras formas, desde o abandono de incapazes
(crianças e idosos) até a exclusão do mundo do trabalho. A concepção do autor é de que a
gestão social se torna viável por meio das políticas e ações sociais que são articulações
derivadas das múltiplas demandas e organizações voltadas para o desenvolvimento do social
como, governo universidades e entidades não governamentais.
Segundo Carvalho (1999, p. 19-29) a gestão está intrinsecamente relacionada à gestão
das ações públicas voltadas para o social. O ponto de partida são as necessidades e demandas
indicadas pela população por meio de políticas públicas, projetos e programas sociais que
ratifiquem respostas efetivas a realidade dessa população que é composta pela massa (camada
desprivilegiada da sociedade).
Para a autora é essencial ressaltar o protagonismo da sociedade civil, visando
identificar as demandas e necessidades, para que seja possível a proposição e fiscalização de
políticas públicas e ações governamentais voltadas para o social, sendo que estas são
responsabilidade do Estado. Contudo, deve-se atentar para que estas iniciativas não se tornem
meramente imediatas, mas que também sejam pensadas para que o efeito seja não apenas
superficial, mas que a médio e longo prazo repercutam na vida da população de modo que ela
não seja transformada em refém dessas iniciativas e sim que alcance a emancipação.
Todavia, Dowbor (1999) submete a gestão social à metamorfose da sociedade, na qual
a atividade econômica assume o papel central do bem-estar social, priorizando o
desenvolvimento capitalista em detrimento do social. Por isso, o autor essa hipótese sinaliza a
emergência da construção de outro paradigma organizacional, tendo como princípio norteador

33
a reorientação das relações entre o público, o privado e as instituições que compõem o
terceiro setor de forma que abranja as dimensões: sociais, econômicas e políticas.
Entretanto, Fischer (2002) pontua que a área da gestão social pode ser considerada a
área do desenvolvimento social, pois é parte constitutiva de um processo social inserida em
inúmeras origens e interesses, perpassando a mediação entre as relações de poder, de
aprendizagem assim como as conflituosas. Segundo a autora, a fusão entre as dimensões
praxiológicas e epistemológicas somadas, direcionam a uma propositura “pré- paradigmática”
da gestão social. Essa perspectiva de gestão social identifica-se como os sujeitos, os
indivíduos e os grupos coletivos compatíveis entre si e que são mediados pelas redes e
organizações públicas, privadas e do terceiro setor.
Para Minayo (2004) a metodologia é o caminho adequado para promover as
realizações e transformações articuladas por meio das técnicas somadas as concepções
norteadas pelo referencial teórico. Por isso, a análise da temática, tendo como ponto de partida
a apreensão das informações sobre gestão social, permitiu a assimilação das tendências
conceituais da atual conjuntura, oportunizou diálogos entre visões aproximadas e ou distintas
dos autores acima citados.
Observa-se que os propósitos que circundam a gestão social se expressam em três
vertentes, são voltados para as ações sociais públicas e gerenciais com cunho social; são
processos sociais visando o desenvolvimento social e por fim, são ações afirmativas e
transformadoras que visam a emancipação. A gestão social fundamenta-se na interação dos
atores sociais e do comprometimento frente às questões de interesse em comum, pois assim o
foco não se dispersa nas partes, mas se fortalece na interação entre as partes. Por isso, Tenório
afirma:

O conceito de Gestão Social não está atrelado às especificidades de políticas


públicas direcionadas a questões de carência social ou de gestão de
organizações do denominado terceiro setor, mas também a identificá-lo como
uma possibilidade de gestão democrática, onde o imperativo categórico não é
apenas o eleito e ou o contribuinte, mas sim o cidadão deliberativo; não é só a
economia de mercado, mas também a economia social; não é o cálculo
utilitário, mas o consenso solidário; não é o assalariado como mercadoria, mas
o trabalhador como sujeito; não é somente a produção como valor de troca,
mas igualmente como valor de uso; não é tão somente a responsabilidade
técnica, mas, além disso, a responsabilidade social; não é a res privata, mas
sim a res publica; não é o monólogo, mas, ao contrário , o diálogo.
(TENÓRIO, 2008, p. 55, grifo do autor).

34
A gestão social abarca as ações e os processos que agrupa um conjunto de ações nas
concepções: gerencial como apresenta (TENÓRIO, 1998), envolta nas políticas públicas
como ressalta (SINGER, 1999) e intrinsecamente vinculada as políticas sociais como explicita
(CARVALHO, 1999). Assim a gestão social não intervém de forma imediata na
complexificação do desenvolvimento societário, mas atua reconhecidamente como mediadora
do desenvolvimento. A gestão social pode errônea e facilmente ser considerada como
exclusivamente instrumental devido a sua proximidade com os referenciais direcionados para
o empreendedorismo pelos fomentadores do capital. Entretanto, deve-se atentar-se para sua
essencial participação no desenvolvimento societário como assegura Fischer (2002), assim
como os seus movimentos constitutivos e dialógicos que perpassam o poder, o conflito e a
aprendizagem que resultam na transformação, como ressalta Dowbor (1999). Compreende-se
que a gestão social fundamentada na contra-hegemonia do projeto societário disseminado pelo
capital, termina por constituir-se em um processo que visa o desenvolvimento social que
viabiliza o desenvolvimento e emancipação da sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente ensaio teórico propôs-se a oportunizar o conhecimento de referenciais


teóricos e a reflexão acerca dos mesmos, sistematizando a concepção sobre gestão social.
Possibilitou a percepção da gestão social como um conjunto de processos sociais
potencializadores e viabilizadores do desenvolvimento societário, visando a transformação e a
emancipação humana. Fundamenta-se nas práticas e valores que compõem a formação da
democracia e cidadania somando forças para enfrentar as expressões da questão social, para
assegurar os direitos humanos e universais, para afirmar e defender os interesses e espaços
públicos. Possibilitando avistar-se uma nova sociedade que fortaleça a interação entre os
agentes sociais: sociedade civil, sociedade política e econômica, efetivando a participação das
pessoas que historicamente permaneceram excluídas dos processos voltados para os direitos
sociais.
Estes referenciais teóricos sinalizam a práxis da gestão social como mediadora da
cidadania que se opõe à concepção mercantil que erroneamente é direcionada para esse tema.
Pode-se considerar que a gestão social é uma área de conhecimento interdisciplinar, condensa
e expande valorosas produções que podem ser aprofundadas pelo Serviço Social, pois
apresentam consideráveis contribuições para a categoria profissional.
35
Compreende-se o Serviço Social como parte constitutiva da mediação que afirma a
práxis da gestão social, principalmente por meio do conjunto de atribuições e referenciais da
categoria profissional, assim como os compromissos teórico-metodológicos, ético-políticos e
técnico-operativos que visam a afirmação da cidadania, da democracia e do enfrentamento das
expressões da questão social, assim como a gestão social, por isso, percebe-se que as duas
ares se complementam e somam forças. Portanto, a acumulação das competências e
habilidades das duas áreas propiciam uma atuação mais enfática junto à realidade social e à
população desprivilegiada perante a sociedade capitalista e que torna-se a centralidade do
processo e desenvolvimento da gestão social.

REFERENCIAS

BARBOSA, Rosângela Nair de Carvalho. Gestão: planejamento e administração. In.


Revista.Temporalis. n. 8. Porto Alegre: ABEPSS, Gráfica Odisséia, 2004 (p. 51-76)

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Ed. 70, 1977.

BEHRING, Elaine. Brasil em contra-reforma: destruição do estado e perda de direitos. São


Paulo: Cortez,2003.

CARRION, Rosinha; GARAY, Ângela Beatriz Scheffer. Organizações privadas sem fins
lucrativos: a participação do mercado no terceiro setor. Análise, Porto Alegre, v. 11, n.1, p.
203-222, jan./jun. 2000.

CARVALHO, Maria do Carmo Brant. Alguns apontamentos para o debate. In: RICO,
Elizabeth de Melo; RAICHELIS, Raquel (Org.). Gestão Social: uma questão em debate. São
Paulo: Educ/IEE/PUCSP, 1999.

CARVALHO, Ricardo Augusto Alves. Novas tecnologias de gestão - NTGs. In: CATTANI,
Antônio David (Org.). Dicionário crítico sobre trabalho e tecnologia. 4. ed. Petrópolis:
Vozes; Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2002.

CURY, Carlos R. Jamil. Educação e contradição. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

DOWBOR, Ladislau. A gestão social em busca de paradigma. In: RICO, Elizabeth de Melo;
RAICHELIS, Raquel (Org.). Gestão social: uma questão em debate. São Paulo:
Educ/IEE/PUCSP, 1999.

FISCHER, Tânia. Poderes locais, desenvolvimento e gestão: introdução a uma agenda. In:
______. (Org.). Gestão do desenvolvimento e poderes locais: marcos teóricos e avaliação.
Salvador: Casa da Qualidade, 2002.

36
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. v.
1.

IAMAMOTO, Marilda. O trabalho do assistente social frente às mudanças do padrão de


acumulação e de regulação social. In: CAPACITAÇÃO em Serviço Social e política social.
mod. 1. Brasília, DF: Ed. UnB, CFESS, 1999.

KOSIK, Karel. A dialética do concreto. 7. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
LANDIM, Leilah. Notas em torno do Terceiro Setor e outras expressões estratégicas. O
Social em Questão, Rio de Janeiro, OUC, v. 3, n. 4, p. 61-98, jul./dez., 1999.

MINAYO, Maria Cecília de S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 8.


ed. São Paulo: Hucitec, 2004.

MONTAÑO, Carlos. Terceiro setor e questão social: crítica ao padrão emergente de


intervenção social. São Paulo: Cortez, 2002.

PEREIRA Luiz Carlos, Bresser. A reforma do Estado nos anos 90: lógica e mecanismos de
controle. Brasília, DF: Ministério da Administração e Reforma do Estado, 1997. (Cadernos
Mare da Reforma do Estado, v. 1).

PRATES, Jane Cruz. Gestão estratégica de instituições sociais: o método marxiano como
mediação do projeto político. 1995. Dissertação (mestrado em Serviço Social) – Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1995.

RIBEIRO, Renato Janine. A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no
Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

SINGER, Paul. Alternativas da gestão social diante da crise do trabalho. In: RICO, Elizabeth
de Melo; RAICHELIS, Raquel (Org.). Gestão social: uma questão em debate. São Paulo:
Educ/IEE/PUCSP, 1999.

TENÓRIO, Fernando Guilherme (Coord.). Gestão social: metodologia e casos. 3. ed. Rio de
Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 2002.

37
GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS NO ATENDIMENTO DE CRIANÇAS E
ADOLESCENTES

Bruna Alves Gazeta*


Maria José de Oliveira**

Resumo: O presente trabalho traz o tema “Gestão de políticas públicas para o atendimento de
crianças e adolescentes”. A pesquisa tem por objetivo central, compreender as políticas de
atendimento a crianças e adolescentes, tendo em vista o contexto de desmonte das políticas
públicas sociais no Brasil, através da investigação por meio de trabalho de campo que será
desenvolvido em dois bairros da cidade de Franca, visando compreender como estas políticas
estão sendo geridas e como estão sendo concretizadas e efetivadas de acordo com o que o
Estatuto da Criança e do Adolescentes- ECA preconiza. Assim, teremos um diagnóstico da
realidade de como vem sendo tratado a gestão de políticas públicas voltadas para o
atendimento de crianças e adolescentes na cidade de Franca, compreendendo o contexto de
disseminação de valores e práticas Neoliberais que instaurou a contradição entre políticas
públicas e capital e os rebatimentos destas contradições na sociabilidade das crianças e
adolescentes.

Palavras-chave: gestão. gestão social. políticas sociais.

INTRODUÇÃO

A gestão social é compreendida enquanto gestão de ações sociais públicas, tendo por
objetivo gerir ações sociais, visando atender demandas e necessidades, por meio das políticas
sociais, a fim de garantir direitos e atender as necessidades da sociedade civil através da
consolidação das ações e intervenções no campo da transformação social.

Quando falamos em gestão social, estamos nos referindo à gestão das ações
sociais públicas. A gestão do social é, em realidade, a gestão das demandas e
necessidades dos cidadãos. A política social, os programas sociais, os
projetos são canais e respostas a estas necessidades e demandas.
(CARVALHO, 1999, p. 19).

O estudo do tema, tem início no Brasil com professor, Fernando Guilherme Tenório,
“[...] o termo Gestão Social tem sido confundido quase exclusivamente com gestão de
políticas e ou programas sociais.” (TENÓRIO, 2006, p. 134).

*
Bacharel em Serviço Social pela UNESP/Câmpus de Franca; Mestranda em Serviço Social pelo Programa de
Pós-Graduação em Serviço Social da FCHS da UNESP/câmpus de Franca, integrante do GESTA
Unesp/Câmpus de Franca.
**
Doutora em Serviço Social pela Unesp-Franca, Docente do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/Câmpus de Franca; Líder do do GESTA Unesp/Câmpus
de Franca.
39
A gestão social é uma resposta às manifestações das expressões da questão social, ela
representa a agenda do Estado, se concretizando por via das políticas sociais, constituindo-se
por meio da viabilização dos direitos.
A sua concretização se dá pela ação do Estado por meio de órgãos do governo como
os munícipios, os estados e pela União, além das instâncias não-governamentais como
empresas privadas, instituições sem fins lucrativos e ações da sociedade civil.
A Gestão Social é discutida por diversos autores e diversos conceitos são colocados
por estes autores, assim para compreender melhor as concepções de gestão se faz necessário
analisar esses autores.
Tenório (1998), compreende a gestão social enquanto processo gerencial e este
processo de tomada decisões deve ser compartilhada por todos os indivíduos que estão
inseridos na ação, seja em organizações públicas, privadas ou não-governamentais. Assim,
“Assim, gestão social é o processo intersubjetivo que preside a ação da cidadania tanto na
esfera privada quanto na esfera pública”. (TENÓRIO,1998, p. 22).
Dowbor (1999) atribui a gestão social à uma ação de transformação da sociedade, e
essa só se dará com a construção de uma nova organização em que seja redefinido a relação
entre o político, o econômico e o social, para assim construir uma nova gestão. Defende a
ideia que essa transformação deve ser em conjunto com empresários, políticos, organizações
não-governamentais e movimentos sociais a fim de construir uma nova gestão que seja
transformadora.
Fischer (2002) designa que gestão social é a gestão do desenvolvimento do campo da
gestão social, que se constitui por um processo social e que são mediados por relações de
conflito e poder.
França Filho (2008, p. 3) acredita que a gestão das demandas sociais devem ser
desenvolvidas não só pelo Estado como também pela sociedade através de associações.
A partir destes referenciais, a gestão social pode ser compreendida pela noção de ações
que viabilizam direitos, buscando a emancipação dos indivíduos e a superação das expressões
da questão social, tornando a gestão um instrumento de mediação para o acesso aos direitos e
as políticas sociais.

[...] gestão social como um conjunto de processos sociais com potencial


viabilizador do desenvolvimento societário emancipatório e transformador.
É fundada nos valores, práticas e formação da democracia e da cidadania,
em vista do enfrentamento às expressões da questão social, da garantia dos
direitos humanos universais e da afirmação dos interesses e espaços
40
públicos como padrões de uma nova civilidade. Construção realizada em
pactuação democrática, nos âmbitos local, nacional e mundial; entre os
agentes das esferas da sociedade civil, sociedade política e da economia,
com efetiva participação dos cidadãos historicamente excluídos dos
processos de distribuição das riquezas e do poder. (MAIA, 2005, p. 16).

Em um contexto Neoliberal, a gestão social assume um novo papel na sociedade.


Passa a ter a finalidade de ações gerenciais com cunho social realizado por três atores: o
Estado, o Mercado e o chamado Terceiro Setor. Este vem assumindo um papel de gestão pela
atuação da sociedade civil organizada através de organizações não-governamentais sem fins
lucrativos, ou seja, o que deveria ser desenvolvido pelos órgãos estatais vem sendo
desenvolvido por instituições da sociedade civil e pelo mercado. Assim, essas organizações
assumem responsabilidades políticas de cunho Estatal e o Estado se torna mínimo nestas
ações.

[...] o cenário social contemporâneo, a gestão social assume novas


dimensões. No contexto da redução das ações reguladoras do Estado e
encolhimento das funções sociais. Mais ainda, em nome do fortalecimento
da sociedade civil e do estimulo as iniciativas autônomas, comparece com
grande força o discurso da solidariedade que no âmbito da crise do Estado
contemporâneo, ganha contornos de desresponsabilização com as políticas
sociais e repasse de sua execução para organizações não-governamentais,
além da privatização de um conjunto de serviços públicos, que passam a ser
intermediados pelo mercado. (RICHELIES, 1998, p. 117).

Estas organizações estão ocupando um papel na sociedade que deveria ser do Estado.
O Estado transfere sua responsabilidade, não desenvolvendo as ações que lhe compete, assim
as políticas públicas e sua gestão se tornam quase ausentes na agenda do Estado. Isso expressa
claramente o norte do ideário Neoliberal que defende uma atuação mínima do Estado para o
social.
O Neoliberalismo é um modelo de acumulação que se deu com a crise econômica do
pós-guerra em 1973, que propunha um desmonte das políticas sociais com a redução dos
gastos sociais, contenção de recursos, corte de gastos públicos, Estado mínimo, privatização,
terceirização e etc. (SOARES, 2000, p. 35).
A ideologia neoliberal se expande no Brasil na década de 1990 com o presidente
Collor de Melo, que abriu o mercado para produtos e empresas estrangeiras, favorecendo a
economia externa e foi com Fernando Henrique Cardoso que se intensificou essa política de
privilegiar as potências capitalistas.

41
[...] o neoliberalismo é uma ideologia do sistema capitalista que defende o
ajuste dos Estados Nacionais as exigências do capital transnacionalizado,
contrariando, portanto, aos pactos que subordinam o capital a qualquer
forma de soberania popular ou instituições de interesse público; transfere as
obrigações do Estado para a iniciativa privada. (RAMOS, 2012, p. 18).

O resultado desta política econômica que se perpetua na sociedade atual, é um


mercado altamente livre e desigual, um trabalho precário, terceirizado, flexibilizado, levando
a um grande contingente de exército de reserva, baixos salários, subempregos, aumento do
trabalho informal, desemprego, aumento da pobreza, desmonte das políticas sociais e etc.

[...] esse novo modelo de acumulação implica que: os direitos sociais perdem
identidade e a concepção de cidadania se restringe; aprofunda-se a separação
do público-privado e a reprodução é inteiramente devolvida para este último
âmbito; a legislação trabalhista evolui para uma maior mercantilização (e,
portanto, desproteção) da força de trabalho; a legitimação (do estado) se
reduz ao assistencialismo. (SOARES, 2000, p. 40).

No ideário neoliberal o Estado transfere as responsabilidades que são estatais para a


sociedade civil. Assim, a atuação das políticas fica por encargo da sociedade civil ou
empresas e instituições, levando ao desmonte das políticas públicas e dos direitos socialmente
conquistados.

POLÍTICAS SOCIAIS

As políticas sociais são um conjunto de decisões, planos, metas e ações


governamentais, podendo ser de nível nacional, estadual ou municipal, voltadas para a
resolução de demandas de interesse público, na qual, visa garantir subsídios para perpetuar
direitos sociais dando respostas as expressões da questão social.
No Brasil se deu na década de 30, resultante da aproximação dos movimentos sociais e
lutas da classe trabalhadora. Esta se deu como resposta do Estado afim de amenizar os
conflitos e reivindicações que se davam na época.

Políticas públicas são conjuntos de programas e planos vinculados à ação


governamental, dirigidos a intervenção nas áreas social e econômica, por
meio dos quais são traçadas as diretrizes e metas a serem fomentadas pelo
Estado, em especial na implementação dos objetivos e na viabilização de
direitos fundamentais assegurados na Carta Política. (BUCCI, 2012, p. 251).

42
A Constituição Federal de 1988, estabeleceu esse processo que se se tornou um marco
para a cidadania brasileira, com conquistas democráticas, estabelecendo novas diretrizes para
a efetivação das políticas públicas, representando um grande avanço no acesso aos direitos.
Esta garante e prevê a consolidação de direitos civis, políticos e sociais, tendo a
participação da sociedade na formulação e implementação das políticas públicas. A
Constituição estabeleceu novas diretrizes para a efetivação das políticas sociais, representando
um grande avanço no acesso aos direitos.
"Art. 6° - São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a
moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e a infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta Constituição." (BRASIL, 1988).
As políticas sociais no Brasil foram desenvolvidas tardiamente, foi construída de
forma lenta e com caráter assistencialista, seletista, fragmentada, focalista e descentralizada,
longe de uma política universal e emancipatória.
Em 1990, a ideologia Neoliberal se estabelece no Brasil, negando o que foi conquistado
na Constituição Federal, com redução dos gastos sociais, contenção de recursos, corte de gastos
públicos, Estado mínimo, privatização, terceirização e etc. (SOARES, 2000, p. 35).

[...] esse novo modelo de acumulação implica que: os direitos sociais perdem
identidade e a concepção de cidadania se restringe; aprofunda-se a separação
do público-privado e a reprodução é inteiramente devolvida para este último
âmbito; a legislação trabalhista evolui para uma maior mercantilização (e,
portanto, desproteção) da força de trabalho; a legitimação (do estado) se
reduz ao assistencialismo. (SOARES, 2000, p. 40).

Esse Estado que está configurado no ideário Neoliberal só reforça ainda mais as
expressões da questão social, bem como, a desigualdade, desemprego, pobreza e miséria,
causados pela terceirização, flexibilizado, exército de reserva, baixos salários, subempregos,
aumento do trabalho informal, violação de direitos e privatizações.
Resultado deste ideário é o desmonte das políticas sociais e privação de direitos.

POLÍTICAS SOCIAIS PARA CRIANÇA E ADOLESCENTE

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei Federal n. 8.069 de 1990, marca a


concessão do direito na proteção integral à criança e ao adolescente, tornando-se um marco na
proteção da infância e juventude, tendo como base a doutrina de proteção integral que se dá
com a Constituição de 1988.
43
Em 1990, tem-se a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e
consequentemente a revogação do Código de Menores, resultado de grandes mobilizações de
cunho social, dos direitos humanos e dos movimentos populares, trazendo respostas junto a
Constituição Federal de 1988, com o Art. 227, que estabelecia novas diretrizes na proteção e
defesa dos direitos desses sujeitos, “[...] a criança e o adolescente deixam de ser,
juridicamente, 'menores' para serem sujeitos de direitos e pessoas em condição peculiar de
desenvolvimento.” (JANUÁRIO, 2007, p. 22)
O ECA, em suas disposições coloca o Estado, a família e a comunidade como
responsáveis em garantir os direitos fundamentais destes, o que antes era visto como papel
fundante da família, o estatuto vem para romper com este pensamento da família como
responsável, o que levava a uma culpabilizacao das famílias.

Art. 3º - A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais


inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei,
assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e
facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual
e social, em condições de liberdade e de dignidade. (BRASIL, 1990).

O Estado, a família e a comunidade são responsáveis em garantir e defender os direitos


das crianças e dos adolescentes. O Estado tem atribuição em gerir, elaborar e efetivar políticas
públicas a fim de garantir os direitos estabelecidos não só no ECA como também na
Constituição Federal.

Art. 4º - É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder


público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à
vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
(BRASIL, 1990).

Assim, o Estado tem que garantir políticas públicas que defendam e asseguram todos
os direitos estabelecidos no Art.4° do Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas a pergunta
que fica é como que vem sendo efetivadas, concretizadas e geridas esses direitos no contexto
do desmonte das políticas sociais.

44
OBJETIVO GERAL E ESPECÍFICOS

Conhecer o processo de Gestão de Políticas Públicas voltadas para o atendimento de


crianças e adolescentes na cidade de Franca, compreendendo o contexto de disseminação de
valores e práticas Neoliberais que instaurou a contradição nas políticas públicas e os
rebatimentos desta contradição na sociabilidade das crianças e adolescentes. Por meio da
análise e diagnostico dos impactos das ações dos conselhos da criança e do adolescente sobre
a sociedade civil, identificando junto aos conselhos de direitos, as principais demandas na
cidade de Franca e a analisar o processo de gestão dessas políticas, preconizando um debate
da efetivação das políticas públicas voltadas para o atendimento à crianças e adolescentes,
indagando a contradição Gestão em tempos de desmonte das políticas públicas no Brasil.

METODOLOGIA

A pesquisa científica tem por objetivo a elaboração de conhecimentos, na busca para a


construção do conhecimento científico podendo contribuir para a transformação e
compreensão da realidade.

[...] pesquisa é toda atividade voltada para a solução de problemas; como


atividade de busca, indagação, no âmbito da ciência, elaborara um
conhecimento, ou um conjunto de conhecimentos, que nos auxilie na
compreensão desta realidade e nos oriente em nossas ações. (PÁDUA, 1997,
p. 29).

A pesquisa é uma forma de caminhar ao conhecimento, afim da compreensão da


realidade do mundo, “nada pode ser intelectualmente um problema, se não tiver sido, em
primeiro lugar, um problema na vida prática”, ou seja, nenhum estudo se dá sem
embasamento a algum questionamento da realidade concreta.
O estudo se concentrará na abordagem qualitativa,

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se ocupa,


nas Ciências Sociais, com um nível de realidade que não pode ou não deveria
ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com um universo dos significados, dos
motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes. Esse conjunto
de fenômenos humanos é entendido aqui como parte da realidade social, pois
o ser humanos se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e
por interpretar suas ações dentro e a partir da realidade vivida e partilhada com
seus semelhantes. (MINAYO, 1993, p. 22).
45
Esta se baseia nas relações humanas, pois, vai além de números e busca compreender
as subjetividades e especificidades de seus sujeitos, apoiada na pesquisa bibliográfica e na
pesquisa de campo, por meio de coleta de dados, entrevistas e análise dos dados obtidos, para
um apreensão real da ação prática se apoiando na ação teórica.

PESQUISA BIBLIOGRÁFICA

A pesquisa bibliográfica é uma instância da investigação científica que parte de


estudos exploratórios, através de materiais constituídos por artigos científicos e realizada por
autores específicos dos temas abordados na pesquisa.
A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao
investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que
poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna particularmente importante quando o
problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço (GIL, 1994, p. 65).
Esta tem o embasamento teórico como responsável por fornecer base para a pesquisa
de campo, instaurando um método teórico-prático.

TRABALHO DE CAMPO

A pesquisa de campo tem por sua finalidade compreender as particularidades


indagando entender e transformar a realidade, assim

O trabalho de campo permite aproximação do pesquisador da realidade sobre


a qual formulou uma pergunta, mas também estabelecer uma interação com
os “atores’’ que conformam a realidade e, assim, constrói um conhecimento
empírico importantíssimo para quem faz pesquisa social. (MINAYO, 2012,
p. 61).

É um método de investigação, em que se apresenta como uma forma de aproximação


com aquilo que desejamos conhecer, “[...] mas também de criar um conhecimento, partindo
da realidade presente no campo.” (MINAYO, 2004, p. 13).
Se dará por meio de entrevistas, coleta de dados e análise dos resultados, objetivando
analisar como a gestão social e como as políticas públicas voltadas para o atendimento de

46
crianças e adolescentes vem sendo designadas na cidade de franca, tendo dois bairros da
cidade investigados, assim teremos um resultado da viabilização destas políticas.

O CENÁRIO DA PESQUISA

A pesquisa se dará no município de Franca/SP, na região sudeste do Estado de São


Paulo, em dois bairros da cidade.
Um dos bairros escolhidos, foi o bairro Vila São Sebastião, sua escolha se deu devido
a uma pesquisa realizada no ano de 2015, pela pesquisadora deste projeto, a pesquisa de
referência se deu no trabalho de campo com adolescentes que estavam cumprindo a medida
socioeducativa liberdade assistida. A maior parte dos adolescentes que vinham cumprindo
esta medida, moravam neste bairro da cidade de Franca, o que leva a questionar se as políticas
voltadas para estes jovens e para estas crianças que se tornarão adolescentes estão sendo
concretizadas e o porquê do envolvimento de tantos jovens deste bairro em atos infracionais.
A escolha se dá devido a um reflexo das expressões da questão social, vivenciadas por
adolescentes do bairro Vila São Sebastião.
O segundo bairro escolhido, foi o bairro Portinari, na qual, o grupo de assessoria e
consultoria na gestão de organização não-governamentais, realiza um trabalho de extensão,
tendo como responsável a orientadora deste projeto de pesquisa, assim, a pesquisa e o grupo
ganham suporte para compreender as demandas, vulnerabilidades e como vem sendo geridas
as políticas de atendimento a criança e adolescentes destes dois bairros na cidade de Franca, e
consequentemente refletir se estes dados fazem parte somente da realidade da cidade de
Franca ou estes refletem o contexto da sociedade brasileira.

SUJEITOS DA PESQUISA

Os sujeitos participantes da pesquisa serão órgãos e instituições prestadoras de


serviços e atendimentos voltadas para crianças e adolescentes, sejam elas públicas ou
privadas, bem como, o CRAS Oeste que atende o bairro Vila São Sebastião e o CRAS Norte
que atende o bairro Portinari, CREASS que atendem estes dois bairros.

Os sujeitos/objetos de investigação, primeiramente, são construídos


teoricamente enquanto componentes do objeto de estudo. No campo, eles
fazem parte de uma relação de intersubjetividade, de interação social com o
47
pesquisador, daí resultando num produto compreensivo que não é a realidade
concreta e sim uma descoberta construída com todas as disposições em mãos
do investigador: suas hipóteses e pressupostos teóricos, seu quadro
conceitual e metodológico, suas interações, suas entrevistas e observações,
suas inter-relações com os colegas de trabalho. (MINAYO, 2012, p. 63).

Os Assistentes Sociais que atuam nas instituições também serão sujeitos da pesquisa,
bem como, nos CRAS, CREASS e membros dos Conselhos Municipais da criança e do
adolescente.

ENTREVISTA

A entrevista, ferramenta utilizada para maior aproximação entre pesquisador e sujeito


do estudo é entendida,

[...] como forma privilegiada de interação social está sujeita á mesma


dinâmica das relações existentes na própria sociedade. Quando se trata de
uma sociedade ou de um grupo marcado por muitos conflitos, cada
entrevista expressa de forma diferenciada a luz e a sombra da realidade,
tanto no ato de realiza-la como nos dados que aí são produzidos. Além disso,
pelo fato de captar formalmente a fala sobre determinado tema, a entrevista,
quando analisada, precisa incorporar o contexto de sua produção e, sempre
que possível, ser acompanhada e complementada por informações
provenientes de observação participante. (MINAYO, 2012, p. 66, grifo do
autor).

Como abordagem metodológica do trabalho de campo a entrevista “serve com um


meio de coleta de informações sobre um determinado tema cientifico”. As entrevistas serão
semi-estruturadas, com perguntas já formuladas, e temas livres, com aprofundamento da
história de vida, esse método possibilita “um diálogo intensamente correspondido entre
entrevistador e informantes”, além da observação participante, na qual possibilita a apreensão
de diversos fenômenos que não apreendidos pelas perguntas (MINAYO, 2004, p. 27).
As entrevistas terão perguntas pré-definidas, a escolha do questionário aberto para
captação das respostas.

[...] consiste em um conjunto de questões pré-elaboradas, sistemática e


sequencialmente dispostas em itens que constituem o tema da pesquisa, com o
objetivo de suscitar dos informantes respostas por escrito ou verbalmente sobre
assunto que os informantes saibam opinar ou informar. É uma interlocução
planejada. (CHIZOTTI, 1991, p. 51).

48
As entrevistas se darão com membros dos Conselhos Municipais, gestores municipais
e instituições de atendimento de crianças e adolescentes, com intuito de compreender e ter
uma apreensão da realidade e da efetividade das políticas públicas voltadas para estes sujeitos,
o que corresponde a uma resposta se os direitos estão sendo assegurados. Estas se farão
através da análise de conjuntura para além de dados e números, buscando um desvelamento
da realidade e sua apreensão.

FORMA DE ANÁLISE DOS RESULTADOS

A proposta de análise dos resultados se dará como denomina Minayo, o método


hermenêutico-dialético, “[...] essa compreensão tem, como ponto de partida, o interior da fala.
E, como ponto de chegada, o campo da especialidade histórica e totalizante que produz a
fala.” (MINAYO, 1998, 22).

[...] análise de conteúdo, enquanto método, tornasse um conjunto de técnicas


de análise das comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e
objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, isto porque a análise de
conteúdo se faz pela prática. (BARDIN, 2009, p. 51).

Com base nas informações coletadas por meio dos métodos utilizados será possível
problematizar e interpretar os resultados obtidos na pesquisa como um todo, baseado em um
contexto e dados obtidos pelo trabalho de campo refletindo acerca dos resultados em uma
perspectiva de totalidade e livres de conceitos e pré-conceitos já definidos, afastando do
imediato e rompendo com a pseudoconcreticidade.
A práxis, como fundamento na busca da apreensão da realidade, conciliando o saber
prático e teórico, na busca do saber teórico e dando embasamento para a atuação prática,
visando uma compressão real da totalidade que a pesquisa propõe.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Essa pesquisa será de grande relevância para compreender como a gestão de políticas
públicas voltadas para o atendimento de crianças e adolescentes estão sendo garantidos tendo
em vista um estatuto que garante e defende os direitos fundamentais inerentes à pessoa
49
humana, direitos como: saúde, alimentação, educação, esporte, lazer, profissionalização,
cultura, dignidade, respeito, liberdade, convivência familiar e comunitária. Esses dados
revelarão a realidade e a efetividade destas políticas, mostrando a realidade de Franca e o que
vem sendo concretizado e o que pode ainda ser feito para se concretizar, a fim de assegurar
que os direitos das crianças e adolescentes sejam materializados e efetivados.
A efetivação destas politicas significam que o Estado está garantindo e concretizando
direitos socialmente conquistados, caso contrário, os direitos estão sendo violados,
repercutindo na camada mais vulnerável da sociedade. Torna-se importante apontar desafios,
dificuldades e problemas associados ao processo de gestão das políticas para possibilitar
propostas de superação dos limites e concretização e acesso de direitos.

REFERÊNCIAS

BEHRING, E. R.; BOSCHETTI, I. Política social: fundamentos e história. São Paulo:


Cortez, 2006 (Biblioteca básica de serviço social, v. 2).

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 1998.

______. Estatuto da criança e do adolescente. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2010.

BUCCI, M. P. D. Direito administrativo de políticas públicas. São Paulo: Saraiva, 2012.

CANSADO, A. C. Fundamentos teóricos da gestão social. 2011. Tese (Doutorado em


Administração) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, 2011.

CARVALHO, Maria do Carmo Brant. Alguns apontamentos para o debate. In: RICO,
Elizabeth de Melo; RAICHELIS, Raquel (Org.). Gestão social: uma questão em debate. São
Paulo: Educ/IEE/PUCSP, 1999.

CHIZZOTTI, A. Pesquisa em ciências e sociais. São Paulo: Cortez, 1991.

DOWBOR, L. A gestão social em busca de paradigma. In: RICO, Elizabeth de Melo;


RAICHELIS, Raquel (Org.). Gestão social: uma questão em debate. São Paulo:
Educ/IEE/PUCSP, 1999.

FISCHER, T. Desenvolvimento e gestão: introdução a uma agenda. In: ______. (Org.).


Gestão do desenvolvimento e poderes locais: marcos teóricos e avaliação. Salvador: Casa
da Qualidade, 2002.

FRANÇA FILHO, G. C. Definindo gestão social. In: ENCONTRO NACIONAL DE


PESQUISADORES EM GESTÃO SOCIAL, 1., Juazeiro do Norte, 2007. Anais.... Juazeiro
do Norte: Ed. NPGA/CIAGS/UFBA, 2007.

50
GAZETA, B. A.; SOARES, A. C. N. Igualdade de gênero: quando e onde? In:
CONGRESSO INTERNACIONAL DE MENTALIDADES E TRABALHO: Ética e
Sociedade na Contemporaneidade, 1., Franca, 2014. Anais.... Franca: Ed. Unesp/FCHS, 2014.

GIAQUETO, A. Caminhos para a proteção integral da criança e do adolescente: o caso


de Franca. 2004. Tese (Doutorado em Serviço Social) - Faculdade de História, Direito e
Serviço Social, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Franca, 2004.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1989.

IAMAMOTO, M. V. A questão social no capitalismo. Revista Temporalis – Associação


Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. Ano 2. Nº 3 (jan/jul.2001). Brasília:
ABEPSS, Grafline, 2001.

KOSIK, Karel. Dialética do concreto. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

MAIA, M. Gestão Social: reconhecendo e construindo referenciais. Textos & Contextos,


Porto Alegre, n. 4, p. 1-18, dez. 2005.

MONTAÑO, C. Terceiro setor e questão social: crítica ao padrão emergente de intervenção.


4. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

MORAIS, E. Contexto histórico do Código de Menores ao Estatuto da Criança e do


Adolescente? Mudanças necessária? [S.l.], 3 jun. 2009. Disponível em:
<http://www.webartigos.com/artigos/contexto-historico-do-codigo-de-menores-ao-estatuto-
da-crianca-e-do-adolescente-mudancas-necessarias/19148/>. Acesso em: 16 mar. 2015

NOGUEIRA, P. L. Comentários ao Código de Menores. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1988.

TENÓRIO, F. G. Gestão social: uma perspectiva conceitual. In: Revista de Administração


Pública, Rio de Janeiro: EBAP/FGV, v. 32, n. 5, set./out./1998, p. 7-23.

51
GESTÃO SOCIAL NO BRASIL E O NOVO MARCO LEGAL DAS RELAÇÕES
ENTRE ESTADO E SOCIEDADE

Thaís Gaspar Mendes da Silva*


Hellen Thaiane Romeiro Leite**
Paula Fonseca do Nascimento Viudes***

Resumo: O presente artigo, fruto de pesquisa bibliográfica, é resultado das discussões


realizadas na disciplina de Gestão Social e Serviço Social do Programa de Pós-Graduação em
Serviço Social da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP),
campus de Franca - Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Seu objetivo consiste em
pontuar as implicações do novo marco legal e regulador - Lei nº 13.019/2014, que trata das
relações entre Estado e sociedade no tocante aos processos de gestão social no Brasil. Nesse
intuito, buscou-se abordar o papel do Estado brasileiro no contexto de consolidação da
democracia e de garantia dos direitos sociais e como se estruturaram os mecanismos
(atribuições e normas de regulação) de efetivação da gestão das políticas públicas a partir das
reformas do Estado, implementadas desde os anos 1990, que possibilitaram maior
protagonismo da sociedade civil organizada, notadamente, do chamado “Terceiro Setor”.
Nesse contexto, é sancionado em outubro de 2014 o marco regulatório das organizações da
sociedade civil, que altera a regra das parcerias entre a administração pública e as
organizações da sociedade civil e entendida, como mecanismo de legitimação da transferência
das ações estatal para as organizações do “terceiro setor”.

Palavras-chave: gestão social, terceiro setor, novo marco legal.

INTRODUÇÃO

Abordar a temática da Gestão Social no Brasil significa percorrer um conjunto de


reflexões sobre a trajetória do Estado brasileiro. Ao longo da história, o Estado assume as
mais variadas feições num processo constante de transformações para que se possa conformar
à dinâmica social. O modo de produção capitalista e as especificidades do processo histórico
marcado pelo passado escravista e patrimonialista, contribuíram na delimitação das relações
entre o Estado, a sociedade e o mercado e nas formas de enfrentamento às questões sociais, na
organização e na implementação das políticas públicas.
No final da década de 1970 e nos anos de 1980, emerge um novo quadro
sociopolítico, que inicia um campo de potencialidades significativas para a redefinição de

*
Doutoranda em Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP/Câmpus de
Franca. Mestre em Serviço Social e Política Social - Universidade Estadual de Londrina (UEL). Docente em
Serviço Social pela Universidade Estadual do Paraná - UNESPAR/Paranavaí.
**
Mestre em Serviço Social e Política Social - Universidade Estadual de Londrina (UEL).
***
Doutoranda em Geografia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP/Câmpus
Presidente Prudente.
53
correlação de forças no Brasil. O processo de modernização conservadora implantado pela
ditadura militar foi responsável pela aceleração da urbanização da sociedade e de
industrialização, o que provocou um novo quadro das relações sociais e de organização
sociopolítica, além das interferências internacionais (crise mundial) associadas com as
articulações de movimentos sociais que traduziram um modo peculiar de condução do Estado
(LEITE, 2012).
Durante a década de 1990, o Brasil consolidou e organizou institucionalmente seu
compromisso com o regime democrático, em especial, a partir da Constituição Federal de
1988, criou-se um Estado de Direito no país, com responsabilidades sociais e com grandes
avanços em relação aos direitos sociais, possibilitando a vigência de princípios
universalizantes, de liberdades e direitos, sob a competência do Estado, bem como introduziu
mecanismos para a participação popular. Nesse sentido, o Brasil defrontou-se com suas
insuficiências e com o peso de seu passado, apesar de contar com um ganho incontestável de
transparência.
A partir da década de 1990, veio à tona uma série de questões sobre o papel do
Estado na garantia de direitos. Nesse momento, foi se consolidando a argumentação daqueles
que defendiam a redução da intervenção estatal nas políticas sociais, defendendo um
protagonismo maior de entidades e organizações não-governamentais, reconhecidas como
integrantes do chamado “terceiro setor”.
Assim, destacamos no presente texto o objetivo de apresentar as implicações do novo
marco legal e regulador - Lei n. 13.019/2014, que trata das relações entre Estado e sociedade
no tocante aos processos de gestão social no Brasil. Fruto de pesquisa bibliográfica, entendida
como aquela “[...] desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente
de livros e artigos científicos” (GIL, 2008, p. 50), é resultado das discussões realizadas na
disciplina de Gestão Social e Serviço Social do Programa de Pós-Graduação em Serviço
Social da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de
Franca - Faculdade de Ciências Humanas e Sociais.
O texto está dividido em três seções: a primeira trata da Reforma do Estado a partir
do final da década de 1970 e as novas configurações da gestão social no cenário de
desresponsabilização do Estado brasileiro; na segunda seção, o texto apresenta um debate
sobre o terceiro setor sendo aqui compreendido, a partir de uma perspectiva crítica, como
fenômeno funcional ao processo de reestruturação do capital, inserido nas contradições da
sociedade capitalista contemporânea. Na terceira seção apresentamos a Lei n. 13.019/2014
54
chamada de Novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil que trouxe
algumas mudanças nas parcerias entre a Administração Pública e as organizações da
sociedade civil.

REFORMA DO ESTADO E GESTÃO SOCIAL NO BRASIL

O modo como os contextos sociais se apresentaram e as crises econômicas na virada


dos anos 1980 para os anos 1990 nortearam a formatação do papel do Estado na garantia dos
direitos sociais, na medida em que se consolidavam o regime democrático e se aprofundavam
medidas para frear o retrocesso econômico-financeiro.

O Estado não teria mais como manter seu perfil estrutural, muito menos seus
encargos e atribuições. Forçado a agir num ambiente desterritorializado,
altamente dinâmico e competitivo, repleto de riscos e turbulências pouco
previsíveis, o Estado teria apenas a opção de se converter a si próprio para
ter condições de auxiliar o desenvolvimento econômico e proteger os
cidadãos da fúria das desigualdades. (NOGUEIRA, 2011, p. 45).

Embora a delimitação das responsabilidades do Estado fosse recente, com a


promulgação da Constituição Federal de 1988, um amplo processo de reforma teve início,
implicando na redução do seu âmbito institucional e da redefinição do seu papel, "[...] o papel
do Estado é fundamental para o processo de desenvolvimento econômico e social, porém não
enquanto agente direto do crescimento senão como sócio, elemento catalisador e
impulsionador desse processo." (BANCO MUNDIAL, 1997, p. 1 apud SIMIONATTO,
1999).
Essa reorientação de sua responsabilidade diminuiu intensamente a sua ação como
Estado provedor das políticas sociais e rebate na diminuição dos recursos públicos na área
social, uma vez que, a redução dos gastos públicos é um dos componentes necessários ao
fortalecimento das políticas macroeconômicas e incide diretamente sobre as políticas públicas
de corte social.
Dentre os que defendiam essa reforma do Estado, argumentava-se que era “[...]
necessária e urgente, no sentido de convertê-lo em moderno, ágil e transparente instrumento
de justiça social.” (SILVA, 2004, p. 168). O Estado passou a ser entendido aqui não mais
como o provedor de serviços públicos, mas como promotor e regulador, o que implicaria em
transformações profundas em sua estrutura: novos instrumentos de gestão, novos âmbitos de

55
conflito, novos atores, novas instituições, novas formas de responsabilização e nova cultura
política-administrativa (BENTO, 2003, p. 108).
Diante deste cenário, abriu-se espaço para o fortalecimento das iniciativas de
natureza privada na execução das funções públicas - a complementaridade e mixagem entre o
Estado, sociedade civil e o mercado - e para a proliferação das organizações públicas não
estatais, e da responsabilidade civil do empresariado. O debate sobre a gestão social, no
contexto da Reforma do Estado assumiu novas direções.
Para Carvalho (1999, p. 19), gestão social correspondia à “[...] gestão das ações
sociais públicas e à gestão das demandas e necessidades dos cidadãos.” As demandas
constituem-se como direito dos indivíduos que é igual ao fundamento da política pública,
“[...] a prioridades contempladas pelas políticas públicas são decididas pelo Estado, mas
nascem na sociedade civil.”
A partir desse entendimento, a expressão ‘gestão social’ referia-se primordialmente
às ações no âmbito do Estado. No entanto, “[...] precisamente no contexto da reforma do
Estado, sob a égide do pensamento neoliberal, há o deslocamento da gestão social da esfera
público-estatal para a esfera privada.” (SILVA, 2010, p. 31). Então, o uso da expressão, que
remetia a políticas públicas, generalizou-se, paradoxalmente, em um clima de desobrigação
do Estado quanto à gestão do social e da interpelação ao empresariado e às organizações da
sociedade civil para que assumam crescentemente responsabilidades do poder público
(SILVA, 2010).
No tocante a relação Estado/Sociedade Civil/Mercado houve uma divisão de
responsabilidades em que as ações passam a serem compartilhadas entre as três esferas para a
implantação de decisões e respostas às necessidades sociais:
- O Estado não se coloca como principal responsável pela proteção social, havendo
uma distribuição entre os setores não-governamentais “[...] as populações da região
terminaram por ser incentivadas a não esperar mais nada do Estado, a buscar viabilizar-se por
si mesmas, no mercado ou na dinâmica comunitária, num contexto de luta pela vida, esforço
pessoal e voluntarismo.” (NOGUEIRA, 2011, p. 50).
- Privatizam-se as ações econômicas e algumas políticas sociais exercidas pelo
Estado assentadas na eficiência do gasto público, introduzindo mecanismos de mercado na
gestão pública.
- O mercado seria mais competente que o Estado no provimento de certos serviços
básicos, convertendo “[...] direitos de cidadania, por exemplo, em serviços (educação, saúde e
56
previdência social) a serem providos (e vendidos) pelo mercado ou pelo setor público não
estatal.” (NOGUEIRA, 2011, p. 151).
Nessa ótica, a gestão social se dá a partir da parceria entre as três esferas e se
expressa pelo papel compensatório das políticas públicas, retirando o seu caráter universal,
assumindo uma perspectiva focalista, na medida em que visa atender os segmentos
populacionais mais vulneráveis.

O projeto neoliberal, visando à redução (não eliminação) da intervenção do


Estado na área social – a partir da concepção global de que o bem-estar
social pertence à dimensão privada (família, comunidade e mercado) e de
que ao Estado cabe apenas o atendimento residual para os indivíduos que
não conseguem ter suas necessidades atendidas no campo privado -, propõe
estratégias para o desenvolvimento de políticas sociais baseadas,
principalmente, na privatização, focalização e descentralização (LAURELL,
1995; SOARES, 2000; DRAIBE, 1990). [...] nesse quadro, o apelo à
solidariedade da sociedade, via voluntariado e parcerias com a sociedade
civil, e programas de renda mínima se apresentam como instrumentos
adequados para operacionalização das estratégias de intervenção social.
(SOUZA FILHO, 2011, p. 151).

Emerge nesse contexto um protagonismo maior de entidades e organizações não-


governamentais, reconhecidas como integrantes do chamado “terceiro setor”. O que se
verifica, “[...] é a transferência dos serviços sociais para a sociedade civil, sob o discurso
ideológico da 'autonomia', 'solidariedade', 'parceria' e 'democracia', enquanto elementos que
aglutinam sujeitos diferenciados.” Opera-se a despolitização das demandas sociais, ao mesmo
tempo em que se desresponsabiliza o Estado e responsabiliza os sujeitos sociais pelas
respostas às suas necessidades sociais (ALENCAR, 2009, p. 455).

TERCEIRO SETOR: ELEMENTOS PARA SUA COMPREENSÃO

É preciso compreender que a noção de “terceiro setor” reúne no mesmo debate uma
ampla gama de autores com perspectivas teórico-políticas diversas. Pode-se dizer que, há duas
tendências que prevalecem na contemporaneidade, cujas direções se distinguem e se articulam
a projetos societários diferentes: uma tendência dominante ou conservadora e uma tendência
crítica e de totalidade.1

1
Importante destacar de início, que a linha adotada por esse artigo se assenta na tendência crítica e de totalidade.
Contudo, antes de apresentar os elementos críticos referentes ao “terceiro setor” optou-se também por
apresentar brevemente, o discurso defendido pela tendência dominante/conservadora que tem clara inspiração
pluralista, estruturalista ou neopositivista, funcional com os interesses de classe (burguesa).
57
A partir da tendência dominante ou conservadora, o “terceiro setor” é constituído
pela sociedade civil organizada para responder e intervir no contexto das sequelas da questão
social. A defesa é de que nem o Estado, nem o mercado dão conta dos inúmeros problemas
sociais emergentes, cabendo então, à sociedade civil a intervenção no social, a partir da
exaltação dos princípios e valores do voluntarismo e da solidariedade.
Assim, o “terceiro setor” é entendido como alternativa de resposta à questão social,
uma vez que, “o Estado é inimigo da democracia e da liberdade e um provedor corrupto e
ineficiente de bem-estar social, sendo que em seu lugar a ‘sociedade civil’ é a protagonista da
democracia e da melhoria social” (PETRAS, 1999, p. 19 apud DUARTE, 2008, p. 58). Nessa
linha, segundo Fernandes2 (1994, p. 19 apud DUARTE 2008, p. 55), o “terceiro setor” surge
como uma “terceira possibilidade”:

Surge no mundo um terceiro personagem. Além do Estado e do mercado, há


um ‘terceiro setor’. ‘Não-governamental’ e ‘não-lucrativo’, é, no entanto,
organizado, independente, e mobiliza particularmente a dimensão voluntária
do comportamento das pessoas. As relações entre o Estado e o mercado, que
têm dominado a cena pública, hão de ser transformadas pela presença desta
terceira figura – as associações voluntárias.

A partir da perspectiva crítica e de totalidade, o “terceiro setor” é compreendido


como um “fenômeno fluído e funcional ao processo de reestruturação do capital, inserido na
perspectiva de totalidade e nas contradições da sociedade capitalista contemporânea”, que
representa claramente os interesses da classe dominante e, assim, serve como estratégia de
consenso e hegemonia (DUARTE, 2002, p. 60). O conceito não se instala como fenômeno
isolado, mas, tem como ponto de partida o movimento e as tendências das transformações do
capital como um todo, como fenômeno partícipe das transformações gerais e como produto
delas, que apresenta forte funcionalidade com o atual processo de reestruturação do capital
(MONTAÑO, 2007).
De acordo com Montaño (2007, p. 53), o termo “terceiro setor” não é neutro. Ele
surge nos Estados Unidos em 1978 e, por sua procedência norte americana, explica-se o
predomínio do voluntariado, decorrente da cultura política e cívica daquela nação baseada no
individualismo liberal. No Brasil, ele passa a ser usado a partir da década de 1990, no
contexto de reestruturação do capital e do Estado, desenvolvido sob orientação neoliberal

2
Rubem Cesar Fernandes é um dos teóricos que defende a perspectiva tendência dominante/conservadora.

58
“[...] cunhado por intelectuais orgânicos do capital, sinalizando clara ligação com os
interesses de classe, nas transformações necessárias à alta burguesia.”
Ainda, segundo o autor, a noção de “terceiro setor”, é construída a partir de um
recorte do social em esferas, onde o “terceiro setor” (sociedade civil) se constituiu em um
espaço situado ao lado do Estado (público) e do Mercado (privado). Nessa esfera, estão
incluídas entidades de natureza distinta como ONGs, fundações empresariais, instituições
filantrópicas e atividades do voluntariado, instituições essas, de fins públicos de origem
diversa (estatal e social) e de natureza distinta (privada e pública). Resumidamente,
considera-se como “terceiro setor” a esfera “não-governamental”, “não-lucrativo” e “esfera
pública não estatal” materializado pelo conjunto de “organizações da sociedade civil
consideradas de interesse público”.
Contudo, segundo Montaño (2007, p. 55), não há “[...] acordo, entre teóricos e
pesquisadores, sobre as entidades que integrariam este ‘terceiro setor’.” Para o autor, o
conceito reúne, no mesmo espaço, organizações formais e atividades informais, voluntárias
e/ou individuais; entidades de interesses político, econômico e singulares; coletividades das
classes trabalhadoras e das classes capitalistas; cidadãos comuns e políticos ligados ao poder
estatal. Assim:

Este conceito, mais do que uma “categoria” ontologicamente constável na


realidade, representa um constructo ideal que, antes de esclarecer sobre um
“setor” da sociedade, mescla diversos sujeitos com aparentes igualdades nas
atividades, porém com interesses, espaços e significados sociais diversos,
contrários e até contraditórios (MONTAÑO, 2007, p. 57, grifo do autor).

No debate sobre o “terceiro setor”, a partir da perspectiva crítica e de totalidade,


pode-se dizer que o desenvolvimento do “terceiro setor” se consiste em uma nova modalidade
de intervenção às sequelas da questão social, gestado no interior da estratégia neoliberal de
reestruturação do capital. Sua origem está ligada, a forte crítica que se faz das políticas sociais
universais, contratualistas e constitutivas de direito de cidadania (MONTAÑO, 2007).
Essa valorização do “terceiro setor” em detrimento do Estado como responsável pela
gestão e intervenção no campo das políticas sociais, tem proporcionado “a hegemonia das
tendências de despolitização da “questão social”, remetendo o seu enfrentamento ao âmbito
privado, à sociedade civil”, que segundo Alencar (2009, p. 456) é “[...] identificada pelo
conjunto de organizações privadas, muitas vezes heterogêneas e díspares quanto à sua
natureza e âmbito de atuação.”

59
Alencar (2009, p. 456) pontua que, no processo da “contrarreforma do Estado”
brasileiro, os direitos sociais passam a ser “transmutados em “direito moral”, sob os princípios
abstratos da “ajuda mútua” e “solidariedade” calcados na transferência dos serviços sociais
para o “terceiro setor”.
Essa desresponsabilização do Estado, pela via da privatização das políticas sociais, se
deu também, pelo desenvolvimento do “terceiro setor”, que, como dito anteriormente, coloca
em cena no Brasil uma nova modalidade de gestão social assentada na divisão de
responsabilidades entre Estado, sociedade civil e Mercado, onde a ação se dá de forma
compartilhada entre as três esferas. O Estado não mais se coloca como o principal responsável
pela proteção social, há uma distribuição entre os setores não-governamentais, pela via da
privatização das ações econômicas e de ações sociais.
Como forma de regulamentar no país a atuação dessas instituições que compõem o
“terceiro setor”, aprovaram-se, de acordo com Montaño (2007, p. 200) legislações que tem
ajudado à criação e operação de entidades privadas “[...] com ‘interesse público’, ‘não-
governamentais’ e ‘sem fins lucrativos’, como corolário e justificativa para o processo
neoliberal de desresponsabilização do Estado.”
No Brasil, foram promulgadas diversas leis e decretos, que de forma direta ou
indireta, legislam sobre os tipos de organização que compõem o “terceiro setor”. E
regulamentaram a constituição das suas atividades. Dentre elas, Montaño (2007, p. 203) cita:
- Lei n. 91 de 28/08/1935. Esta reconhecia como de utilidade pública as sociedades
civis, associações e fundações, constituídas no país, com o fim exclusivo de servir
desinteressadamente à coletividade. Foi regulamentada pelo Decreto nº 50.517, de 02 de maio
de 1961 e revogada pela Lei n. 13.204, de 2015.
- Lei n. 9.608, de 18 de fevereiro de 1998 (BRASIL, 1998a), que dispõe sobre o
Serviço Voluntário, “[...] considerado como atividade não remunerada prestada por pessoa
física a entidade pública, [...] não gera vínculo empregatício, nem obrigação de natureza
trabalhista, previdenciária”;
- Lei n. 9.637, de 15/05/98 (BRASIL, 1998b), ela qualifica como organizações
sociais pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, cujas atividades sejam
dirigidas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológico, à proteção e
preservação do meio ambiente, à cultura e à saúde. “Articulada pelo ex-ministro Bresser
Pereira, promove uma verdadeira transferência de atividades estatais para o setor privado”;

60
- Lei n. 9.790, de 23/03/99, qualifica pessoas jurídicas de direito privado, sem fins
lucrativos, como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), e institui e
disciplina o termo de parceria, a ser firmado entre o Poder Público e as Oscip, destinado ao
vínculo de cooperação entre as partes. É regulamentada pelo Decreto nº 3.100, de 30/06/99 e
alterada pela MP n. 2.123-29, de 23/02/01.
Além das normas que legislam sobre os tipos de organização e que regulamentaram a
constituição do “terceiro setor” no Brasil, é sancionado no ano de 2014, a Lei n. 13.019,
alterada pela Lei n. 13.204, de 2015 que “Institui normas gerais para as parcerias entre a
administração pública e organizações da sociedade civil, em regime de mútua cooperação,
para a consecução de finalidades de interesse público e recíproco.” (BRASIL, 2015). Essa
legislação é conhecida como o novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil
(MROSC) e será tratada a seguir.

NOVO MARCO LEGAL E REGULATÓRIO DO “TERCEIRO SETOR”

O Chamado Novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil,


fundamentado através da Lei n. 13.019/2014, traz uma série de mudanças para a formalização
de parcerias entre as organizações da sociedade civil e a Administração Pública.
A Lei n. 13.019/2014 estabelece o regime jurídico das parcerias entre a
administração pública e as organizações da sociedade civil, em regime de mútua cooperação,
para a consecução de finalidades de interesse público e recíproco, mediante a execução de
atividades ou de projetos previamente estabelecidos em planos de trabalho inseridos em
termos de colaboração, em termos de fomento ou em acordos de cooperação; define diretrizes
para a política de fomento, de colaboração e de cooperação com organizações da sociedade
civil segundo a Lei n. 13.204, de 14 de Dezembro de 2015 que altera a Lei n. 13.019, de 31 de
julho de 2014.
Também deve ser analisada a Portaria Ministério da Justiça n. 362/2016, que
considerou as alterações trazidas pela Lei nº 13.014/2014, entre as quais a revogação da Lei n.
91, de 1935, que tratava do título de Utilidade Pública Federal (UPF). Com a mudança, o
título de UPF deixa de ser condicionante para contratualização ou para acesso a benefícios no
nível federal. Em suma, título de UPF deixa de existir. Esta Portaria esclarece que a
qualificação de OSCIP não será mais renovada através do sistema CNES de prestação de
contas, orientando sobre os critérios e os procedimentos a serem observados para os pedidos
61
de qualificação, bem como processamento, manutenção, cancelamento e perda de
qualificação.
Assim, o Ministério da Justiça (MJ) fará o credenciamento das organizações,
mediante a concessão de certidão de qualificação, e tal documento atestará a manutenção da
organização qualificada como OSCIP. Segundo informações do próprio Ministério da Justiça,
os principais pontos trazidos pela Portaria são: 1. A organização não precisará mais apresentar
relatórios anuais de atividades no CNES; 2. A organização deverá informar as alterações
estatutárias, mudança de sede, mudança de razão social e/ou alteração de suas finalidades; 3.
Será fornecida a qualificação para organizações que desejam firmar Termos de Parceria com o
Poder Público.
Assim, para obter a certidão de manutenção da qualificação, é necessário acessar o
sítio eletrônico do Ministério da Justiça e fazer o pedido, acompanhado de declaração de que
a OSCIP tem seu cadastro atualizado.
Em seu Art. 2º da Lei n. 13.204/2015 considera-se organização da sociedade civil:

a) entidade privada sem fins lucrativos que não distribua entre os seus
sócios ou associados, conselheiros, diretores, empregados, doadores ou
terceiros eventuais resultados, sobras, excedentes operacionais, brutos ou
líquidos, dividendos, isenções de qualquer natureza, participações ou
parcelas do seu patrimônio, auferidos mediante o exercício de suas
atividades, e que os aplique integralmente na consecução do respectivo
objeto social, de forma imediata ou por meio da constituição de fundo
patrimonial ou fundo de reserva; b) as sociedades cooperativas previstas na
Lei no 9.867, de 10 de novembro de 1999; as integradas por pessoas em
situação de risco ou vulnerabilidade pessoal ou social; as alcançadas por
programas e ações de combate à pobreza e de geração de trabalho e renda; as
voltadas para fomento, educação e capacitação de trabalhadores rurais ou
capacitação de agentes de assistência técnica e extensão rural; e as
capacitadas para execução de atividades ou de projetos de interesse público e
de cunho social. c) as organizações religiosas que se dediquem a atividades
ou a projetos de interesse público e de cunho social distintas das destinadas a
fins exclusivamente religiosos (BRASIL, 2015, grifo nosso).

Com a entrada em vigência da Lei n. 13.204/2015, passa a existir no Brasil as


seguintes modalidades de parceria entre a Administração Pública e as organizações da
sociedade civil: Termos de Colaboração, Termos Fomento e Acordo de Cooperação.

Termo de Colaboração: instrumento por meio do qual são formalizadas as


parcerias estabelecidas pela administração pública com organizações da
sociedade civil para a consecução de finalidades de interesse público e
recíproco, propostas pela administração pública que envolvam a
transferência de recursos financeiros; b) o Termo de Fomento: instrumento
62
por meio do qual são formalizadas as parcerias estabelecidas pela
administração pública com organizações da sociedade civil para a
consecução de finalidades de interesse público e recíproco, propostas pelas
organizações da sociedade civil, que envolvam a transferência de recursos
financeiros; e c) Acordo de Cooperação: instrumento por meio do qual são
formalizadas as parcerias estabelecidas pela administração pública com
organizações da sociedade civil para a consecução de finalidades de
interesse público e recíproco que não envolvam a transferência de recursos
financeiros (ONOFRIO, 2016, p. 5, grifo nosso).

Esta Lei se aplica a todas as organizações da sociedade civil, entendidas como as


pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos (que não distribuem os seus resultados
entre seus dirigentes, associados e colaboradores, destinando-os integralmente às suas
finalidades estatutárias) e que tenham interesse em celebrar parcerias com a Administração
Pública. A todos os entes da Administração Pública (União, Estados e Municípios) que
tenham interesse em celebrar parcerias, sob a forma de Termo de Colaboração ou Termo de
Fomento, com entidades do terceiro setor. Para tanto, eles devem regulamentar a Lei n.
13.019/14 por meio de Decreto.
Um novo instituto inserido no ordenamento jurídico por meio da Lei n. 13.019 de
2014, alterados pela Lei n. 13.204 de 2015 é o chamado Procedimento de Manifestação de
Interesse Social, que é um mecanismo legal que busca em seu cerne incentivar a participação
ativa do cidadão na consecução e no cumprimento das políticas públicas.
Segundo o Art. 18, podem as organizações civis, os movimentos sociais, e os
cidadãos como um todo, apresentar propostas ao poder público, para que este de fato faça
avaliações acerca da possibilidade de se realizar um chamamento público (que é o mecanismo
também instituído pela Lei, para a contratação destas parcerias), buscando a celebração de
parcerias que interessem a população de um modo geral.
Caberia à população ainda apresentar um verdadeiro relatório apontando os
diagnósticos de realidade social que se quer modificar, aprimorar ou desenvolver, sendo
ainda, quando possível, necessária a apresentação da indicação da viabilidade dos custos, dos
benefícios e dos prazos de execução da ação pretendida. Há assim um verdadeiro avanço em
termos de participação popular da coisa pública.
O procedimento não vincula a Administração Pública a realizar o chamamento
público para o cumprimento destas ideias, mas já mostra a abertura dada ao cidadão, e em
especial aos movimentos sociais para a participação mais eficaz neste meio.
A Lei ainda traz vários outros requisitos e formalidades, dentre as quais a exigência
de elaboração de um plano de trabalho que deve ser apresentado no ato de celebração de
63
parceria, com toda a descrição do objeto dos termos de colaboração ou de fomento, com
prazos, metas, quantidade de recursos empregada, definição de parâmetros, entre outros
previstos no Art. 22 da referida lei; deve ainda haver um procedimento simplificado similar à
licitação pública tradicional, mas com algumas peculiaridades específicas previstas na lei dos
Artigos 23 ao 32, denominado Chamamento Público.
As instituições terão que se adequar para poder atender aos critérios estabelecidos na
lei. Todas essas alterações legislativas podem fazer com que se torne necessária à alteração
dos Estatutos Sociais das várias instituições parceiras do Estado.
Vale lembrar que tal Lei foi promulgada no dia 31 de julho de 2014, tendo seus
efeitos postergados várias vezes, sendo fixados pelo Art. 88 em 540 dias da publicação desta
para parcerias no âmbito Federal e Estadual, e no caso dos municípios, entrando em vigor em
1º de janeiro de 2017.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo como objetivo pontuar as implicações do novo marco legal e regulador - Lei
n. 13.019/2014, que trata das relações entre Estado e sociedade no tocante aos processos de
gestão social no Brasil, foi necessário realizar o debate sobre a Gestão social no contexto da
Reforma do Estado brasileiro, ocorrida principalmente após a década de 1990 e como esse
contexto de transformações profundas na capacidade de intervenção do Estado, abre caminho
para a adoção de novos formas gestão, dentre elas, o fortalecimento de iniciativas de natureza
privada na execução das funções públicas, a partir de relações de parcerias entre Estado,
sociedade civil e o mercado.
Uma das formas de parceria entre Estado e Sociedade civil, como apontado no
decorrer desse trabalho, deu-se pelo fortalecimento e exaltação das instituições de caráter
privada, sem fins lucrativos e que prestam serviço público, àquelas que compõem o chamado
‘terceiro setor”.
Cabe registrar aqui, que o “terceiro setor” mesmo sendo compreendido como
funcional ao processo de reestruturação do capital, que representa claramente os interesses da
classe dominante e como estratégia de consenso e hegemonia, hoje ocupa papel de destaque
na organização da sociedade. As instituições que compõem esse “terceiro setor” estão
presentes em quase todos os municípios brasileiros, e são responsáveis atualmente pela
execução de muitos serviços nas mais diversas áreas.
64
A grande questão colocada é que a retração do Estado quanto à responsabilidade no
enfrentamento da questão social, mediante a transferência de responsabilidades do Estado
para o “terceiro setor”, altera substantivamente a orientação e a funcionalidade da gestão das
políticas sociais, que primordialmente deveriam ser executadas no âmbito do Estado, uma vez
que, entendemos por gestão social, o conceito trazido por Carvalho (1999), que nos remete à
gestão das ações sociais públicas e à gestão das demandas e necessidades dos cidadãos e esse
remete a responsabilidade do Estado.
Assim, a aprovação de um conjunto de novas leis que regulam o “terceiro setor” abre
possibilidade de garantir legalmente essa transferência de responsabilidades do Estado para a
sociedade civil, ou mesmo para o mercado. Essas regras nos impõem a necessidade de uma
leitura aprofundada acerca de seus objetivos e da própria funcionalidade do Estado. Muitas
vezes, sob o discurso ideológico da garantia de maior eficiência, de provimento de mais
segurança jurídica ao trabalho realizado pelas organizações e de maior transparência na
destinação dos recursos públicos, desloca-se a noção do campo do direito para o campo da
“ajuda”, ao entregar sob a responsabilidade não governamental a gestão das políticas sociais,
que deveria ser exclusivamente de responsabilidade do Estado.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, Mônica. O trabalho do assistente social nas organizações privadas não lucrativas.
In: CFESS; ABEPSS. (Org.). Serviço Social: direitos e competências profissionais. Brasília,
DF, 2009.

BENTO, Leonardo Valles. Governança e governabilidade na reforma do Estado: entre a


eficiência e democratização. Barueri: Manole, 2003.

BRASIL. Lei n. 91, de 28 de agosto de 1935. Determina regras pelas quais são as sociedades
declaradas de utilidade pública. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 4 set. 1935.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1930-1949/L0091.htm>. Acesso
em: 2016.

______. Lei n. 9.608, de 18 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre o serviço voluntário e dá


outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 fev. 1998a. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9608.htm>. Acesso em: 2016.

______. Lei n. 9.637, de 15 de maio de 1998. Dispõe sobre a qualificação de entidades como
organizações sociais, a criação do Programa Nacional de Publicização, a extinção dos órgãos
e entidades que menciona e a absorção de suas atividades por organizações sociais, e dá
outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 maio 1998b. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9637.htm>. Acesso em: 2016.

65
______. Lei n. 9.790, de 23 de março de 1999. Dispõe sobre a qualificação de pessoas
jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, como Organizações da Sociedade Civil de
Interesse Público, institui e disciplina o Termo de Parceria, e dá outras providências. Diário
Oficial da União, Brasília, DF, 24 mar. 1999. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9790.htm>. Acesso em: 2016.

BRASIL. Lei n. 13.019 de 31 de julho de 2014. Estabelece o regime jurídico das parcerias
entre a administração pública e as organizações da sociedade civil, em regime de mútua
cooperação, para a consecução de finalidades de interesse público e recíproco, mediante a
execução de atividades ou de projetos previamente estabelecidos em planos de trabalho
inseridos em termos de colaboração, em termos de fomento ou em acordos de cooperação;
define diretrizes para a política de fomento, de colaboração e de cooperação com
organizações da sociedade civil; e altera as Leis nos 8.429, de 2 de junho de 1992, e 9.790, de
23 de março de 1999. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 ago. 2014. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13019.htm>. Acesso em:
2016.

______. Lei n. 13.204, de 14 de dezembro de 2015. Altera a Lei no 13.019, de 31 de julho de


2014, “que estabelece o regime jurídico das parcerias voluntárias, envolvendo ou não
transferências de recursos financeiros, entre a administração pública e as organizações da
sociedade civil, em regime de mútua cooperação, para a consecução de finalidades de
interesse público; define diretrizes para a política de fomento e de colaboração com
organizações da sociedade civil; institui o termo de colaboração e o termo de fomento; e altera
as Leis nos 8.429, de 2 de junho de 1992, e 9.790, de 23 de março de 1999”; altera as Leis
nos 8.429, de 2 de junho de 1992, 9.790, de 23 de março de 1999, 9.249, de 26 de dezembro
de 1995, 9.532, de 10 de dezembro de 1997, 12.101, de 27 de novembro de 2009, e 8.666, de
21 de junho de 1993; e revoga a Lei no 91, de 28 de agosto de 1935. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 15 dez. 2015. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2015/lei/l13204.htm>. Acesso em: 2016.

CARVALHO, Maria do Carmo Brant. Gestão social: alguns apontamentos para o debate. In:
RICO, Elizabeth de Melo; DEGENSZAJN, Raquel Raichelis (Org.). Gestão social: uma
questão em debate. São Paulo: EDUC; IEE, 1999.

DUARTE, Janaína Lopes do Nascimento. A funcionalidade do terceiro setor e das ONGS no


capitalismo contemporâneo: o debate sobre sociedade civil e função social. Libertas, Juiz de
Fora, v. 8, n. 1, jan./jun 2008. Disponível em:
<https://libertas.ufjf.emnuvens.com.br/libertas/search/titles?searchPage=4>. Acesso em: ago.
2016.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

LEITE, Hellen Thaiane Romeiro. Gestão do SUAS: retrato da sua operacionalidade na região
da Alta Paulista. 2012. 119 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) - Universidade de
Londrina, Londrina, 2012.

MONTAÑO, Carlos. Terceiro setor e questão social: crítica ao padrão emergente de


intervenção social. São Paulo: Cortez, 2007.

66
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Um Estado para a sociedade civil: temas éticos e políticos da
gestão democrática. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

PEREIRA Luiz Carlos, Bresser. A reforma do Estado nos anos 90: lógica e mecanismos de
controle. Brasília, DF: Ministério da Administração e Reforma do Estado, 1997. (Cadernos
Mare da Reforma do Estado, v. 1). Disponível em:
<http://www.bresserpereira.org.br/documents/mare/cadernosmare/caderno01.pdf>. Acesso
em: ago. 2016.

SILVA, Ademir Alves da. A gestão da seguridade social brasileira: entre a política pública
e o mercado. São Paulo: Cortez, 2004.

SIMIONATTO, Ivete. Crise. Crise, reforma do Estado e políticas públicas. Juiz de Fora,
1999. Disponível em: <http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=106>. Acesso
em: ago. 2016.

SOUZA FILHO, Rodrigo de. Gestão pública e democracia: a burocracia em questão. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2011.

67
O PAPEL DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A REPRESENTAÇÃO SOCIAL PARA
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Pamela Cristina Borelli*


Célio Bertelli**
Bárbara Fadel***

Resumo: Debates no mundo todo a respeito das mudanças climáticas mostrou que é
preocupante o legado ambiental que estamos deixando no planeta, e que o aquecimento global e
mudanças climáticas não são assuntos recentes. Buscando respostas para o enfrentamento da
crise ambiental coloca-se a educação como o instrumento que promove valores, ideias e
sensibiliza quanto à preservação do meio ambiente. Estimula a sociedade a se tornar pró-
ambiente, levando em consideração a reprodução das heranças culturais, mostrando que o
processo educativo não é neutro, desprovido de valores e ideologias, a educação constrói a
sociedade de acordo com suas escolhas e valores e vontades políticas, determinando a ordem
social. A proposta do artigo é procurar relacionar problemas ambientais e a discussão sobre o
tema Mudanças Climática em diferentes grupos dentro de uma mesma comunidade. Tenta
elucidar se existe relação entre o nível de escolaridade, idade e a consciência sobre a
preservação e o entendimento sobre o que está acontecendo local e globalmente, e quais serão
as soluções propostas por esse grupo de pessoas para melhorar o meio ambiente. Para isso foi
realizada em uma pesquisa qualitativa de natureza básica, de objetivo explicativo, e
procedimento bibliográfico survey, entrevistas com dez pessoas, de idades entre 10 a 60 anos. O
referencial teórico se baseia no discurso de Gadotti (2008), UN (2014), Jacobi et al. (2011).

Palavras chaves: educação ambiental, representação social, mudanças climáticas.

INTRODUÇÃO

As mudanças climáticas e o aquecimento global não são assuntos recentes, e o atual


modelo de economia coloca os países ainda em desenvolvimento como provedores de matéria
prima para satisfazer o consumo de países desenvolvidos. No caso do Brasil, sua maior
contribuição para o aquecimento global é o desmatamento que abre espaço para os campos de
cultivo de monoculturas. Existe um grande potencial para as florestas dos trópicos servirem
de sumidouros de carbono, por isso a preservação e conservação de áreas verdes são
recomendadas por entidades internacionais, e como ferramenta para a conservação é
importante entender qual o papel da educação ambiental perante os moradores que estão
próximos a elas dentro das cidades, assim como entender a forma como essas pessoas lidam
com esses remanescentes.

*
Mestranda do Programa de Pós-graduação Uni-FACEF/Franca-SP.
**
Mestranda do Programa de Pós-graduação Uni-FACEF/Franca-SP.
***
Docente do Programa de Pós-graduação Uni-FACEF/FRANCA-SP.

69
A proposta do artigo é procurar relacionar problemas ambientais prioritários com as
possibilidades de participação de diferentes grupos dentro de uma mesma comunidade,
investigando as questões sociais de um grupo de moradores de um bairro na cidade de Franca-
SP, com relação às mudanças do clima e a preservação de áreas verdes, avaliando o nível de
sensibilização e responsabilidade dos cidadãos sobre seus encargos perante a notável questão
do clima que vivemos hoje. O artigo consiste em relacionar o nível de instrução recebida pela
educação formal e o conhecimento prévio adquirido informalmente, fora da escola, aquele
que carregamos da sociedade e que agrega à cultura de uma população. Para isso será
realizada em uma pesquisa qualitativa de natureza básica, de objetivo explicativo, e
procedimento bibliográfico survey, através de um levantamento com interrogação direta das
pessoas no qual se deseja conhecer o comportamento. O referencial teórico se baseia no
discurso de Gadotti (2008), UN (2014), Jacobi et al. (2011).

OBJETIVOS

Objetivo Geral
Relacionar problemas ambientais prioritários com as possibilidades de participação de
diferentes grupos dentro de uma mesma comunidade na busca de alternativas para a discussão
sobre o tema Mudanças Climáticas.

Objetivo Específico
Avaliar o nível de sensibilização e responsabilidade dos cidadãos sobre seus encargos
perante a notável questão do clima que vivemos hoje. Relacionar o nível de instrução recebida
pela educação formal e o conhecimento prévio adquirido informalmente, fora da escola.
Verificar o nível de responsabilidade desse grupo de pessoas frente às mudanças que a cidade
vem sofrendo com a expansão imobiliária e aumento da população e diminuição de áreas
verdes, e a opinião deles em como essa situação poderá afetar suas vidas, oferecendo suas
visões sobre o futuro. Compreender quais são os fatores que interferem na adoção de condutas
para a preservação do meio ambiente e como a falta de uma natureza saudável pode afetar a
saúde e a rotina das pessoas. Tenta elucidar se existe relação entre o nível de escolaridade,
idade e a consciência sobre a preservação e o entendimento sobre o que está acontecendo
local e globalmente, e quais serão as soluções propostas por esse grupo de pessoas para
melhorar o meio ambiente.
70
METODOLOGIA

Serão investigadas as questões sociais de um grupo de moradores de um bairro na


cidade de Franca-SP, com relação às mudanças do clima e a preservação de áreas verdes que
está próximo a eles, avaliando o nível de sensibilização e responsabilidade dos cidadãos sobre
seus encargos perante a notável questão do clima que vivemos hoje. O artigo consiste em
relacionar o nível de instrução recebida pela educação formal e o conhecimento prévio
adquirido informalmente, fora da escola, aquele que carregamos da sociedade e que agrega à
cultura de uma população.
Busca-se verificar o nível de responsabilidade desse grupo de pessoas frente às
mudanças que a cidade vem sofrendo com a expansão imobiliária e aumento da população e
diminuição de áreas verdes, e a opinião deles em como essa situação poderá afetar suas vidas,
oferecendo suas visões sobre o futuro. Assim como entender quais são os fatores que
interferem na adoção de condutas para a preservação do meio ambiente e como a falta de uma
natureza saudável pode afetar a saúde e a rotina das pessoas. Tenta elucidar se existe relação
entre o nível de escolaridade, idade e a consciência sobre a preservação e o entendimento
sobre o que está acontecendo local e globalmente, e quais serão as soluções propostas por esse
grupo de pessoas para melhorar o meio ambiente.
Para isso será realizada em uma pesquisa qualitativa de natureza básica, de objetivo
explicativo, e procedimento bibliográfico survey (GIL, 2002) através de um levantamento
com interrogação direta das pessoas no qual se deseja conhecer o comportamento. Serão
realizadas entrevistas com moradores do Bairro Santa Mônica em Franca-SP, onde existe uma
mata que é considerada área de preservação ambiental, e que como muitas têm sofrido pressão
da urbanização e vem sendo degrada.
Serão entrevistadas dez pessoas, com idades entre 10 a 60 anos, há o cuidado de
englobar a maior faixa etária possível, desde crianças já alfabetizada até pessoas adultas, com
níveis de escolaridade diferentes, do fundamental primeiro ciclo incompleto ao superior. A
escolha dos entrevistados será aleatória, respeitando a liberdade de participação.
Será elaborado um questionário, preservando a opinião exclusiva dos entrevistados,
garantindo ser relatada a história de vida de cada um acerca das situações relacionadas sobre o
clima, com perguntas que questionavam se os entrevistados sabem o que são mudanças
climáticas e como ela afeta suas vidas, e qual a visão de futuro perante as mudanças que estão
71
ocorrendo. A quem eles atribuem a responsabilidade das mudanças no clima e quais as
possíveis soluções. De forma mais regionalizada, será perguntado ao grupo qual a influência
que a mata próxima ao bairro tem com o clima local e qual a importância desse fragmento de
mata para a cidade. Questionará também o lado afetivo das pessoas sobre as áreas verdes,
perguntando se é possível a mata estar mais bem conservada e se as pessoas gostariam de ter
maior contato a natureza próxima a elas.
Por fim, se indagará como as pessoas poderão contribuir para que a mata do bairro
esteja melhor e quais os benefícios que as pessoas poderiam ter com uma área melhor
preservada e a relação disso com a saúde.

DISCUSSÃO TEÓRICA

Debates no mundo todo a respeito das mudanças climáticas, provocados pela divulgação
de documentos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC1) mostrou
que é preocupante o legado ambiental que estamos deixando no planeta, e que o aquecimento
global e mudanças climáticas não são assuntos recentes, e o alerta está sendo dado desde a
década de sessenta (GAGOTTI, 2008).
Para Gadotti (2008), sustentabilidade é o “sonho do bem viver”, e este é o equilíbrio
entre os seres e o ambiente, harmonizados com suas diferenças, tomando a consciência que o
sentido de nossas vidas não está separado do futuro do nosso planeta. Então, percebendo a
degradação que provocamos no planeta, temos agora que racionalizar entre a crença de que
nossa cultura tecnológica será capaz de nos tirar da crise ambiental sem mudar nosso padrão
de consumo, e nosso ideal ecológico, que alimenta a esperança de uma relação saudável com
o planeta.
Buscando respostas para o enfrentamento da crise ambiental coloca-se a educação como
o instrumento que promove valores, ideias e sensibiliza quanto à preservação do meio
ambiente. Estimula a sociedade a se tornar pró-ambiente, levando em consideração a
reprodução das heranças culturais, mostrando que o processo educativo não é neutro,
desprovido de valores e ideologias, a educação constrói a sociedade de acordo com suas
escolhas e valores e vontades políticas, determinando a ordem social. A educação entra com o
papel de conservar a ordem social, reproduzindo esses valores e ideologias e interesses, se

1
Intergovernmental Panel on Climate Change

72
comprometendo com a renovação cultural da sociedade desenvolvendo suas potencialidades
(LIMA, 2009)
Com a ameaça de que podemos ser responsáveis pela destruição de todas as formas de
vida do planeta, como vem sendo mostrado nos relatórios do UN (2014), adquirimos a
consciência de que além de uma ação local, precisamos de uma ação global, e que essa última,
parte de várias ações locais que juntas formam o todo; uma nova globalização, onde a Terra
deixou de ser um fenômeno geográfico e se tornou um fenômeno histórico. Promover a
sustentabilidade é educar para vivermos no cosmo, ampliando nosso conhecimento sobre o
planeta.
Em 2008 e 2009 a Internetional Alliance os Leading Education Institutes (IALEI),
pesquisou o tema “Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável”, onde houve o
envolvimento de dez países inclusive o Brasil. Nessa pesquisa teve como resultado dez
relatórios, três deles tinham relação com a educação para o desenvolvimento sustentável de
maneira mais ampla, visando abordar o papel da educação perante as urgências das alterações
do clima. Nesses relatórios questiona-se, se a educação pode contribuir para lidarmos com as
necessidades de mitigar e adaptar nossos padrões às mudanças climáticas e de que forma essa
contribuição se daria. Uma nota importante aos relatórios é que nos últimos anos a CCE
(Climate Change Education) adquiriu características próprias, mostrando como a questão
sobre educação e meio ambiente ainda se encontra no início (JACOBI et al., 2011)
Gaudiano e Cartea (2009) citado por Jacobi et al. (2011), comentam que os relatórios da
AILEI mostram que ainda há diferenças entre países ricos e os que ainda se encontram em
desenvolvimento. Nesse sentido, aponta a principal barreira para as mudanças sociais
pautadas na complexidade da natureza estrutural do problema sobre as mudanças climáticas.
No Brasil o governo federal se interessa em qualificar o sistema educacional através de
um envolvimento maior sobre o tema Mudanças Climática, porém essas iniciativas são
diferenciadas de acordo com cada região do país, e os dados locais e regionais sobre os
projetos e suas implementações são insuficientes. E sobre o ponto de vista de formação
inicial, ainda existe um enorme espaço vazio em termos de pesquisas, intervenção e
metodologias inovadoras e debates. Para suprir essa lacuna, a opção adotada é a importância
no aprofundamento cientifico sobre o clima e meio ambiente. Desse modo, pode-se fazer a
ponte entre o conhecimento cientifico e a didática para o desenvolvimento de valores e
atitudes pró-ambiente. No Brasil, as pesquisas sobre Mudanças Climáticas ainda estão
adquirindo posição estratégica nos programas de ciências e tecnologia, combinando a
73
educação e o conhecimento científico, com o foco em relacionar os desafios de adaptar e
desenvolver programas educativos que incluam a diversidade regional (JACOBI et al., 2011)
No atual modelo de economia do mundo, os países ricos exploram ao máximo a
natureza para satisfazer suas necessidades supérfluas, enquanto os países mais necessitados a
deterioram para promover-se com o mínimo requerido para subexistir. E nesse contexto
defende-se que a Educação Ambiental não seja reduzida a uma visão naturalista e
conservadora, ela não pode perder o seu papel social. As questões ambientais não se resolvem
somente com a luz da ciência, mas está associado à cultura, o social, os valores das
organizações políticas e econômicas.
A Educação Ambiental tem como nova marca uma função social da educação para o
futuro, em busca de uma sociedade sustentável. Orientando cidadãos comprometidos na
construção de uma sociedade multicultural e intercultural, que aproxima da realidade,
entendendo como uma conquista sobre o próprio egoísmo e os dos demais, pode ser
modificada pela autonomia e seu sentido de responsabilidade. Não faz parte do processo
histórico do Brasil, a sociedade participar de forma significativa das discussões e das tomadas
de decisões que pautem o meio ambiente. A história nos mostra que o Brasil foi construído
em modelos paternalista, onde a sociedade abdica de suas reivindicações transferindo suas
responsabilidades para as classes dominantes. Contudo, nos últimos vinte anos, houve um
crescimento na consciência, debates e discussões, que mudaram o rumo do país, e sem
duvida, com reação das classes mais poderosas. De fato, hoje se pode falar seguramente que
existem meios da população expor sua opinião, e conduzir o seu próprio futuro, tomando
conhecimento e praticando seus direitos e deveres, deixando bem claro que participar não
significa, o quanto se toma parte, mas como se toma parte de uma reivindicação, baseando-se
em reflexões que cada um faz mais sentido em situações que não necessariamente afetaria a si
próprio. Sabendo que cada um possui experiências anteriores e vivencias que formam suas
personalidades psicossocioculturais, cada individuo se torna agente transformador dos
resultados da participação, e sua capacidade criadora permite e constitui a necessidade
humana básica e universal de transformação. Porém, a potencialidade de participação deve
estar a serviço de um processo coletivo, em que a população irá conquistar autonomia por
meio de uma presença ativa e decisória. A população deve provar que grupos são capazes de
se mobilizar e organizar e alcançar seus objetivos sociais (PHILIPPI JUNIOR; PELICIONI,
2006).

74
Existe um campo vasto em que a sociedade pode exercer sua participação, um exemplo
seria os Conselhos de Meio Ambiente, que são fóruns que permite a participação da sociedade
civil organizada, é uma instância aberta à formulação de propostas que garantem diretrizes e
estabelecem meios e prioridades nas atuações voltadas a atender as necessidades dos
componentes da sociedade. Outra forma, mais simples, porém igualmente eficaz, para aqueles
que não são permitidos muita vezes se conduzir até os Conselhos Ambientais, seriam os
conselhos de bairro, que discutem de forma pontual os problemas da população, e que
exercem igual força quando organizado e decidido. Afinal, não é somente de responsabilidade
dos governos, que elabora leis e as aplica, a responsabilidade de controlar a qualidade, no
caso do meio ambiente para a população, o compartilhamento da responsabilidade com a
comunidade aciona instrumentos para a defesa de direitos e deveres. A participação do
homem como o agente transformador se deve à medida que é educado para se conscientizar e
assumir suas responsabilidades. A educação ambiental é um processo de educação política
que possibilita a aquisição de conhecimento e habilidades, e forma atitudes que vão
transformar os cidadãos para a sociedade sustentável. E em razão da complexa questão que é
o meio ambiente, é necessário que os processos de educação proporcionem igual condição
para as pessoas em adquirir conhecimento e as manifestar, possibilitando desenvolver atitudes
para tornar sua opinião expressiva nos processos decisórios, para que os indivíduos membros
de conselhos e fóruns tenham os instrumentos para compreender a complexidade, não
somente dos aspectos biológicos e físicos, mas adquira as mudanças de comportamento por
meio da participação responsável, e que pratique também a prevenção e não somente a
mitigação para os problemas ambientais. A participação da sociedade permite que sejam
capazes de perceber claramente os problemas e determinar soluções e prover meios de
resolvê-los. Seria possível responder ao desafio das mudanças climáticas, com tantas
evidencias de que o mundo está aquecendo? Para o UN (2014), sim. No caso seria preciso
adaptações e mitigações dos impactos ambientais, e que deveriam ser postas em práticas
imediatamente. Os especialistas não sabem mensurar os custos e a efetividade das medidas de
adaptação e mitigação, e lembram que essas dependem das condições socioeconômicas de
cada nação, bem como a oferta de tecnologia e informação. Mas é fato que a humanidade
convive com as situações que precisem de adaptação ao meio ambiente desde a antiguidade, e
lembrando os estudos históricos, a capacidade de adaptar está associada intimamente com o
desenvolvimento social e econômico das nações. Porém, valem ressaltar que mesmo as
nações mais desenvolvidas ainda sim são vulnerável às mudanças no clima; como a onda de
75
calor que provocou a mortalidade principalmente da população mais idosa no Hemisfério
Norte em 2003, e o furacão Katrina, que em 2005 arrasou Nova Orleans, nos EUA.
O UN (2014) aponta possíveis caminhos para a mitigação, e partindo para o objeto de
estudo desse artigo; uma vez que a maior contribuição para o efeito estufa no Brasil, que
causa as mudanças no clima e o setor que mais gera desmatamento, é a agricultura e o
desmatamento. O UN (2014) lembra que não existe uma lista de práticas que possam ser
aplicada universalmente, mas melhorar as práticas agrícolas pode aumentar os sumidouros de
carbono no solo, reduzir as emissões de gases do efeito estufa, além de contribuir com
matérias-primas de biomassa para uso energético. No entanto, sua contribuição para a
mitigação depende da demanda de bioenergia por parte do transporte e da oferta de energia,
disponibilidade de água, e condições da terra. Para o Brasil, um dos desafios para mitigação
dos efeitos das mudanças climática, também é a redução do desmatamento e a recuperação de
áreas já devastadas. Sabemos que mitigações relacionadas com as florestas podem reduzir de
forma considerável as emissões por fontes e aumentar a remoção de CO2 por sumidouros com
custos baixos.
Nos relatórios do UN (2014), 65% do potencial total de mitigação das florestas estão
localizados nos trópicos, e cerca de 50% desse potencial poderia ser alcançado reduzindo as
emissões decorrentes do desmatamento. Seria, portanto, interessante para países como o
Brasil, adotar opções de mitigação planejadas. Essas mitigações poderiam ter benefício em
termos de geração de empregos, geração de renda, preservação da biodiversidade e a
conservação das bacias hidrográficas, oferta de energia renovável e redução da pobreza.
O UN (2014) também recomenda que os governos voltem suas políticas de governo
para melhorar os incentivos para a aplicação das mitigações, visto que existe uma grande
variedade de políticas e instrumentos que podem ser adotados, sua aplicabilidade, claro
depende da nação em questão. É fundamental também, aplicar critérios de avaliação dos
instrumentos dos governos como: a eficácia ambiental, eficácia em relação aos custos, se
beneficia o maior número de pessoas, e a viabilidade institucional. Medidas de avaliação dos
instrumentos podem ser adotadas perante a constatação da eficácia ou não de seus
instrumentos. Principalmente se a política climática do país estiver integrada à política de
desenvolvimento, acordos voluntários entre indústria e governo ou até mesmo organizações
não governamentais e governo, podem contribuir para que medidas de mitigação possam ser
postas em prática. Lembrando que campanhas de conscientização também surtem efeito

76
positivo na mobilidade das pessoas em prol às políticas de inovação e também ao emprego de
novas tecnologias menos poluidoras (PHILIPPI JUNIOR; PELICIONI, 2006)
O presente artigo vem propor diminuir a lacuna existente sobre as informações
relacionadas à observação e a sensibilidade da população de forma regionalizada sobre meio
ambiente, mudanças climáticas e preservação. O artigo visa observar e debater a relação entre
a sociedade, com as áreas verdes de preservação na cidade de Franca (SP), mostrando o grau
de sensibilização e conhecimentos teóricos e práticos com relação à diversidade biológica,
preservação, consciência ambiental e mudanças climáticas. Busca entender qual é a percepção
de futuro das pessoas com relação aos recursos naturais próximo a elas, a quem é atribuído à
responsabilidade de preservar, e o grau de comprometimento das pessoas frente ao meio
ambiente.

RESULTADO

Foram entrevistadas dez pessoas, com idades entre 10 a 56 anos, houve o cuidado de
englobar a maior faixa etária possível, desde crianças já alfabetizada até pessoas adultas, com
níveis de escolaridade diferentes, do fundamental primeiro ciclo incompleto ao superior. Cada
morador residia em áreas diferentes do bairro, tanto vizinhas como em ruas mais afastadas da
mata.
Através de uma observação dos participantes foi constatado no primeiro momento, que
as pessoas mais novas (dez anos de idade), não souberam responder as questões a respeito do
que é mudança no clima, e não souberam dizer quais são essas mudanças nem como ela pode
interferir na vida delas. Quando questionado, eles disseram que não foi apresentado o tema a
eles, nem mesmo na escola, mostrando que educação ambiental não é um tema prioritário
abordado no Ensino Fundamental Ciclo I no Estado de São Paulo tanto em escolas públicas
quanto particular. Os jovens em questão, responderam mais a respeito da vontade de estar
mais próximo a natureza e como ela pode trazer bem estar para elas.
Entre os adolescentes, eles não mostraram afinidade em relação ao tema, mesmo já
tendo ouvido, principalmente na escola, o que é mudanças climáticas e como ela influência o
meio biótico no nosso planeta. Eles não souberam dizer como a mudança no clima pode
influenciar futuramente a vida deles, mas tem conhecimento que o efeito estufa está
aumentando a temperatura do planeta. Eles atribuem as causas da mudança no clima
principalmente aos carros e a emissão de CO2, dizendo que as soluções dos problemas
77
ambientais no Brasil se resolveriam diminuindo a emissão dos gases dos veículos, mas não
souberam mencionar como as matas podem influenciar positivamente, nem como o
desmatamento contribui negativamente para o clima. Quando perguntado para os jovens, qual
a sensação que eles teriam ao ver a mata próxima do bairro totalmente devastada, eles não
souberam explicar, e também não souberam dizer o que poderiam fazer para contribuir para a
preservação da área verde próximo a eles mesmo dizendo que estariam dispostos caso fosse
necessário a movimentação popular para a preservação. Porém, mesmo dizendo que não
sabiam responder a algumas perguntas, consideram importante ter conhecimento para que
haja preservação, dizendo que somente quando sabemos o que existe na natureza é que
podemos preservá-la.
Quanto aos adultos jovens, com nível de escolaridade entre o Ensino Médio Completo e
Superior Completo, o que foi observado é que pessoas com maior nível de instrução são mais
pessimistas em relação ao futuro, comparando aos que tem somente nível médio. Todos
souberam explicar, cada um com seu conhecimento, sobre mudanças no clima e como pode
afetar a vida no planeta. Todos mencionaram que está mais difícil prever o tempo, e para
aqueles que trabalham expostos diretamente ao clima, disseram que este ano em particular o
clima está pior por conta do tempo seco, o sol, e a pouca chuva. Pessoas com nível superior
atribuem o problema do clima não a uma pessoa ou uma nação, mas a toda forma de consumo
do mundo, disseram que a forma de consumir está acabando com as matérias-primas e os
recursos naturais, renováveis ou não. Já pessoas com nível médio atribuem o problema às
pessoas, sem mencionar o que fazem para piorar a situação, mas ambos dizem que a tendência
ainda é piorar, se não for mudado o comportamento e nossa relação com a natureza. Ambos
relatam que a falta de educação e interesse das pessoas em preservar é o maior vilão para
conquistarmos um ambiente saudável. Quando questionados se sabiam explicar como a mata
pode influenciar no clima, foram citados os serviços ambientais: água em quantidade e
qualidade, qualidade do ar, chuvas. Sendo que um dos entrevistados lembrou que uma das
desvantagens de morar próximo a mata é o fato das pessoas jogarem entulhos em lugares
indevidos, posteriormente colocarem fogo, o que acaba trazendo bichos para dentro das casas,
além de ficarem próximo a fumaça devido às queimadas, e acabam trazendo problemas
respiratórios principalmente às crianças e idosos. No grupo dos adultos jovens, eles relataram
que se sentiram tristes e teriam uma sensação de falta de proteção caso a mata fosse
derrubada, lembraram que o processo de regeneração de uma floresta é lento, e se sentiriam
impotentes se a mata fosse derrubada por não saber se um dia voltariam a ver reflorestada.
78
Todos disseram que precisa haver maior organização, tanto em leis, quanto em
conscientização para que haja maior planejamento na preservação do meio ambiente, e mais
uma vez foi mencionado que quando se tem maior conhecimento sobre natureza, mais se pode
preservar. E foi lembrado ainda que atualmente, com a mudança no padrão de vida das
pessoas, que saíram das fazendas para morar nas cidades, a população jovem não reconhecem
as espécies que fazem parte da natureza, mesmo próximo a elas, e que as pessoas no Bairro
Santa Mônica são privilegiadas por terem quase na porta de casa a oportunidade de estarem
em contato diretos com a natureza.
No grupo das pessoas adultas, que possuem escolaridade desde o Fundamental I
incompleto ao Ensino Médio, com idade até 56 anos, todos já ouviram falar e souberam
explicar as mudanças no clima, lembrando mais uma vez que não está sendo possível prever o
clima com tanta exatidão, há maior extremo na temperatura, invernos muito rigorosos, e
verões muito quentes, e mencionaram principalmente a falta de chuva nos dias atuais.
Disseram ainda que essa mudança no clima afeta diretamente a saúde das pessoas e que essa
inexatidão causa medo sobre o futuro, insegurança quanto aos recursos naturais e alimentos, e
prejuízos financeiros. Esse grupo atribui a culpa do problema climático à população em geral,
lembrando que não é somente culpa dos governantes, mas sim das pessoas que não cuidam,
não tem respeito ao patrimônio natural do país. Como solução, alguns sugeriram colocar nas
escolas o tema educação ambiental, para que seja mais discutido o assunto com as pessoas,
para que aja melhor compreensão da natureza. E explicando como as matas influenciam no
clima, sugeriram também como solução, o reflorestamento e lembraram que quando havia
mais vegetação o clima era mais agradável, que o ar era melhor, havia mais chuvas. E
disseram que se as pessoas preservassem mais a natureza, teríamos hoje mais qualidade de
vida, e que o bairro logo quando foi inaugurado havia mais árvores, o clima era mais
agradável. Disseram ainda que se a mata do bairro fosse derrubada ficariam muito tristes e
desapontados e que sentiriam falta da área verde que está próxima a eles. Acreditam que para
a mata estar melhor era preciso retirar a tubulação da elevatória de esgoto da SABESP que
desce pela mata, é preciso proteger as nascentes de água, deveria conscientizar a população a
não jogar lixo e posteriormente fogo, para melhorar a qualidade do ar no bairro, e criar leis
que projetam a natureza. Todos do grupo em questão lembraram que o maior contato com a
natureza é uma terapia para as pessoas e que melhora a saúde, diminuindo o estresse,
possibilitando o lazer, e disseram que o contato dos jovens com a mata é uma grande

79
oportunidade para as novas e futuras gerações conhecerem a natureza e principalmente terem
respaldo para preservação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Muitos estudiosos da área de Educação Ambiental frisão a necessidade de se ampliar a


divulgação do tema ambiental nas escolas. Assim como quando se fala em representação
social, se diz que as respostas que apresentamos diante dos estímulos do meio que nos cerca,
pode nortear nossos comportamentos e ações, então, a educação ambiental não deveria
somente ser colocado aos alunos como tema transversal, mas sim como uma disciplina que
faça parte da grade curricular para estar presente na vida das pessoas desde cedo. Para que
assim possa arraigar a consciência da preservação e o entendimento da complexidade que
cerca o tema. Principalmente porque a comunicação é ferramenta da representação, e todo
comportamento social é fruto das representações. O que ficou claro na pesquisa, que as
crianças e jovens desse grupo estudado não têm, ou têm pouca afinidade com o tema
ambiental, não sabendo dizer como a falta de um ambiente de qualidade pode afetar suas
vidas. Parte dessa falta de consciência ambiental também pode encontrar origem na
representação social, já que houve ao longo das décadas mudanças no comportamento das
pessoas que se adaptaram a vida na cidade, longe do meio rural, buscando a natureza somente
como forma de lazer, e deixando de compreender de forma ampla como a natureza provê os
recursos para sua subsistência. Precisa-se ampliar em primeiro lugar a oferta de conhecimento
sobre meio ambiente e suas interelações para as crianças e melhorar a sensibilização dos
adolescentes. No entanto educar os jovens e as crianças, para viverem em sociedade tendo a
compreensão de preservar o meio em que vivem é um projeto a médio e longo prazo.
Os dados apresentados nesse trabalho mostram que as pessoas adultas de forma geral
conhecem e tem acesso aos meios de comunicação que permitem a elas conhecer os processos
teóricos e científicos do meio ambiente. Todos, cada qual com seu modo de entender,
conhecem os efeitos do consumo exagerado e o padrão de vida insustentável da humanidade.
Indica, porém que as pessoas entrevistadas nesse trabalho exercem a educação crítica, mas
não desempenham a transformação e a emancipação, pois embora tenham a consciência quais
são os problemas ambientais do bairro, e saiba dizer qual seria a solução, nenhum, se
prontificou a ser o agente transformador, e sim pareceram esperar alguém que fosse o agente

80
transformador e implantasse as mudanças necessárias para a melhoria das condições
ambientais no bairro.
Acredita-se, com o resultado desse trabalho, que a educação ambiental já passou pela
sua fase inicial de inserção na sociedade, mas falta a apropriação do conhecimento, que faz o
indivíduo o agente de transformação; assim como falta a cultura de posse dos bens naturais
que os cercam. Esse padrão de cultura pode ter explicação pelo modelo paternalista que ainda
circula pela população, onde se espera das autoridades competentes a iniciativa para a solução
dos problemas e a subsistência da população.

REFERÊNCIAS

GADOTTI, M. Educar para sustentabilidade. Inclusão Social, Brasília, DF, v. 3, n. 1, p. 75-


78, out. 2007/mar. 2008.

Gil, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002

JACOBI ET. AL., Mudanças climáticas globais: a resposta educação. Revista Brasileira de
Educação, Rio de Janeiro, v. 16, n. 46, p. 135-269, jan./abr. 2011.

LIMA, G. F. C. Educação ambiental crítica: do socioambientalismo às sociedades


sustentáveis. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 35, n. 1, p. 145-163, jan./abr. 2009.

PHILIPPI JUNIOR, A., PELICIONI, M. C. F. Educação ambiental e sustentabilidade.


Barueri: Manole, 2005. (Ambiental; 3).

UN. Framework Convention on Climate Change. Compilation and Synthesis Report. New
York, 2014. Disponível em:
<http://unfccc.int/national_reports/annex_i_natcom/compilation_and_synthesis_reports/items/
2736.php>. Acesso em: 15 set. 2015.

81
O PROCESSO DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL: POSSIBILIDADES E DESAFIOS
PARA SUA EFETIVAÇÃO

Catia Aparecida Spagnol*


Gabrielle Stéphany Nascimento Sgarbi**
Maria Cristina Piana***

Resumo: O intuito de nosso estudo é compreender e analisar a temática participação social,


seu percurso histórico, os desafios e possibilidades para sua efetivação na contemporaneidade.
Compreende-se que o processo de participação social prediz a participação efetiva da
sociedade civil nos processos de organização, reivindicação e tomada de decisões. Almejando
atender a esse objetivo, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu a criação de conselhos
gestores, que constituem-se como relevantes instâncias deliberativas. Contudo, apesar dos
aparatos legais que hoje buscam assegurar o processo de participação social como direito a
todos os cidadãos, buscando sua efetivação, a participação social enfrenta diversos desafios
que perpassam a gestão participativa, como processos lentos e burocráticos, que requerem o
empenho e paciência de profissionais que estejam a frente de tal processo, assim como a luta
por parte da sociedade civil com intuito de superar desafios e legitimar os direitos sociais
conquistados a duras penas ao longo da história. O estudo utilizará abordagem qualitativa,
bem como, na pesquisa bibliográfica, com intuito de contribuir na discussão acercado
processo de participação social.

Palavras-chave: participação social. gestão participativa. cidadania.

INTRODUÇÃO

A participação social almeja integrar o indivíduo à sociedade, fazendo com que esse
possa participar de questões no âmbito governamental que rebatem diretamente na sua
realidade social concreta.
Compreende-se a participação como um processo social, político e sobretudo
educativo, para que essa ocorra é necessário que os indivíduos estejam conscientes das

*
Mestranda do Programa de Pós-graduação em Serviço Social pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da
Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP/Câmpus Franca. Membro do Grupo de Estudos e
Pesquisa sobre Família “Padre Mario José Filho” no Centro Universitário da Fundação Educacional de
Barretos. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa do Serviço Social na área da Educação (GEPESSE), e do
Grupo de Estudos e Pesquisa: Práticas de Pesquisa: perspectivas contemporâneas (PRAPES) da UNESP
Franca. Docente da Fundação Educacional de Barretos.
**
Mestranda do Programa de Pós-graduação em Serviço Social pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
da Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho”/UNESP/Câmpus Franca. Membro do Grupo de Estudo e
Pesquisa sobre Formação Profissional (GEFORMSS). Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa: Práticas de
Pesquisa: perspectivas contemporâneas (PRAPES), UNESP Franca. Bolsista da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
***
Docente do curso de graduação em Serviço Social e do Programa de Pós-graduação em Serviço Social pela
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” –
UNESP/Câmpus Franca. Tutora do Programa de Educação Tutorial em Serviço Social (PETSS).
Coordenadora do Núcleo de Estudo e Extensão sobre Crianças e Adolescentes (NECRIA).
83
possibilidades e dos desafios acerca realidade social que vivenciam, podendo refletir e
questionar a mesma com uma perspectiva crítica.
Ademais, a participação social pode ser exercida por meio de oficinas socioeducativas,
mobilizações, passeatas, conselhos, fóruns e associações assistenciais de bairro, com intuito
de organizarem-se e reivindicar ações em defesa dos direitos sociais, dos interesses da
população visando o bem comum de todos.
Para Souza (2000, p. 81) “[...] a participação é linguagem comum nas diversas
camadas da população em que pese existirem interesses e preocupações contraditórias e
antagônicas. ”
Na década de 1950, a participação social esteve mais presente nas discussões do país,
pois nesse momento o ideal desenvolvimentista tomava conta do Brasil. “ Os indivíduos
buscavam organizar-se, pois presenciava-se o agravamento da questão social, da qualidade de
vida, da pobreza, do desemprego, da educação, da saúde, do meio ambiente. ” (SILVA, 2004,
p. 10)
A partir da década de 1960, devido ao árduo período de ditadura militar que assolava o
Brasil, a participação social ficou caracterizada pelo seu posicionamento político e social, pois
nesse momento as mobilizações marcaram o país, fizeram-se presentes buscando o bem
comum para a população por meio da organização e reivindicação dos indivíduos pelos seus
direitos.
Já a década de 1980 foi marcada pelas conquistas, ressaltamos a Constituição Federal
de 1988 como um avanço. Para Nogueira, (2004, p. 141) “A Constituição de 1988, ressoava
vibrações da luta contra a ditadura e trouxe relevantes elementos de democracia
participativa.”
A década de 1990, foi considerada como um período de avanço, pois diversas questões
travadas em luta pela população foram regulamentadas em lei. Nesse período surge a proposta
dos conselhos “[...] os conselhos foram propostos numa conjuntura de mobilização da
sociedade.” (BRAVO; MENEZES, 2012, p. 274).
Diante do breve exposto histórico acerca da participação social, compreende-se que
essa deve ser considerada como um direito de todos os indivíduos, pois é oriunda da
organização, reivindicação e luta do povo brasileiro.
Para possuirmos conquistas relevantes referentes a participação social, é necessário
que os indivíduos se organizem e reivindique seus direitos, buscando o que é melhor para
todos, esse é um campo de luta política, social e educativa.
84
OS TIPOS DE PARTICIPAÇÃO E A DEMOCRACIA

Fazendo um retrospecto, Nogueira (2004) ressalta que os países que finalizaram o


período ditatorial na década de 1980 conseguiram um grande incentivo à participação, tendo
em vista o processo de redemocratização pelo qual passaram. Dessa forma, o referido autor
nos revela que:

[...] ainda que nem toda participação seja imediatamente política, não há
participação que não se oriente por algum tipo de relação com o poder –
tanto com o poder de outros atores quanto com o de determinados centros
organizacionais e decisórios. (NOGUEIRA, 2004, p. 129).

Nogueira (2004) classifica quatro tipos de participação, que podem variar de acordo
com aspectos históricos e sociais, além do grau de consciência coletiva, dentre elas podemos
citar:A participação assistencialista, que possui de cunho filantrópico e solidário, e pode estar
relacionada à igreja ou a ações comunitárias, geralmente visa atender a população em situação
de vulnerabilidade social. A participação corporativa que possui o intuito de atender aos
interesses de grupos sociais ou de categorias profissionais específicos, como as associações e
os sindicatos trabalhistas que lutam por melhores condições de trabalho. A participação
eleitoral que está diretamente vinculada a governabilidade, emanando seus efeitos sobre o
coletivo. Essa participação reflete diretamente na vida da população podendo beneficiar os
prejudicar a mesma. E a participação política que envolve a comunidade como um todo e
pressupõe a sua relação com o Estado.

Por intermédio da participação política, indivíduos e grupos interferem para


fazer com que a diferença e interesses se explicitem num terreno comum
organizado por leis e instituições, bem como para fazer com que o poder se
democratize e seja compartilhado. É essa participação, em suma, que
consolida, protege e dinamiza a cidadania e todos os variados direitos
humanos. (NOGUEIRA, 2004, p. 133).

Contudo, no que diz respeito ao campo da democracia representativa liberal, tais


modalidades de participação configuraram-se como um desafio.
Esse fato ocorre devido a interesses particulares adversos à democracia, exigência por
mais participação da sociedade, maior conhecimento especializado e aspectos relacionados à
tecnologia da informação acabaram por banalizar os efeitos da política, contribuindo para a
decadência da democracia representativa e a emergência da democracia participativa.
85
OS DESAFIOS À PARTICIPAÇÃO NA GESTÃO PÚBLICA

As formas de organização dos diversos grupos sociais são fundamentais para que estes
possam somar forças no processo de reinvindicação, visando conquistas e ampliação dos
direitos sociais.
No entanto, hodiernamente, observa-se um processo de descaracterização daquilo que
é público em comparação ao que é ofertado pelo setor privado, contribuindo, de certa forma,
para um processo de desmobilização.
De acordo com Nogueira (2004), a questão da crescente insatisfação da sociedade em
relação à gestão pública está ligada à qualidade inferior na oferta de serviços públicos.
Dessa forma, tal insatisfação também pode configurar-se como uma “campanha
contra o Estado”, uma vez que ao invés de haver uma melhoria de tais serviços existe o
movimento inverso, ressaltamos a privatização em diversas área como a educação e a saúde.
Porém, podemos observar que somente a previdência social ainda aparece como
exclusividade do Estado, enquanto a saúde está sujeita aos efeitos da privatização e a
assistência social vem sendo relegada às Organizações não-governamentais (ONG’s), e às
corporações que pretendem mostrar o seu lado da “responsabilidade social”, que na maioria
das vezes se configura como uma estratégia de mercado, restringindo direitos sociais e
trabalhistas.
Nesse ínterim chegamos a um paradoxo, pois ao mesmo tempo em que há a decepção
de uma parcela da sociedade em não poder usufruir dos bens públicos que lhes cabem por
direito, também existe a outra parcela que nutre o desejo de participar, ainda que tal
participação implique em um caminho burocrático.
A burocratização tende a tornar os processos lentos e por vezes ineficientes para
propiciar as respectivas respostas as demandas oriundas da luta da população, limitando e até
impossibilitando o efetivo processo de participação social.
A esse respeito, crescem as estratégias para “dinamizar a burocracia”, incorporando
tecnologias da informação ao processo, na tentativa de oferecer um feedback mais rápido à
sociedade.
No entanto, devemos nos questionar até que ponto os sistemas informatizados
atendem às necessidades da população de forma ágil, tendo em vista as constantes situações

86
em que a “falta e/ou queda” no sistema tornaram um atendimento mais demorado ou até
mesmo prejudicado.
Os problemas que perpassam a gestão pública podem ser potencializados com a
liberação do mercado e estratégia de globalização capitalista, pois podem contribuir
dinamizando a concepção que o Estado gasta muito com o social e que a intervenção do
Estado deveria ser mínima, ocasionando posteriormente a redução dos gastos sociais.
Na gestão participativa o Estado possui autonomia, porém não pode abusar desta
autonomia, como se estivesse desvinculado da sociedade.

A gestão participativa opera em termos descentralizados e fomenta parcerias,


dentro e fora do Estado, isto é, entre as organizações públicas e a sociedade
civil. Não promove a diminuição da intervenção estatal em benefício de uma
maior liberdade de iniciativa e de uma maior intervenção da sociedade civil.
(NOGUEIRA, 2004, p. 147).

A participação social, deve ser concebida como um direito de todos, mas ela também
possui desafios e esses também perpassam a gestão participativa, entre os desafios temos os
processos lentos e burocráticos que por vezes limitam o processo de participação, entretanto,
conforme afirma Nogueira (2004, p. 149),

A gestão deve operar para além do formato burocrático, para produzir


resultados efetivos que não se limitem ao administrativo e estejam abertos a
transformação social. Mas deve dar a devida importância as questões
administrativas e organizacionais, realizando também uma reforma
administrativa. Portanto, não devemos eliminar a burocracia, mas a inserção
de novos elementos, procedimentos e ideias para dinamizá-las.

Conforme afirma Nogueira (2004, p. 151), “[...] a gestão deve fazer com que suas
operações fiquem articuladas, ela depende de profissionais qualificadas que dominem o
campo técnico-científico. Os novos gestores são bons intelectuais, mais que bons
burocráticos.”
Outro desafio é que a comunidade possua uma cultura que depende da educação para a
cidadania. Os cidadãos possam possuir consciência sobre suas vivências. Pois, a construção
da consciência social faz-se fundamental no processo da participação.
É notório que vivenciamos um momento histórico permeado por desigualdades sociais
profundas, diversas transformações societárias que precarizam as condições de trabalho e
acarretam prejuízos principalmente para a classe trabalhadora.

87
Presencia-se também a realidade do mercado de trabalho competitivo e individualista,
no qual possui um alto teor de exigências para os profissionais, e no que se refere a área da
gestão participativa, não é diferente.
Ressaltamos que os profissionais dessa área devem possuir uma educação continuada,
ser qualificados, dotados de conhecimento técnicos e científicos.
Diante desse contexto neoliberal ao qual estamos inseridos, torna-se evidente a
existência da correlação de forças na sociedade capitalista, a luta de classes, a disputa e/ou
distribuição de poder.
Segundo Demo (2001, p. 19) “[...] o espaço de participação precisa ser conquistado,
centímetro por centímetro, o que ocorre muitas vezes é que não podemos andar a metro,
mesmo porque todos os processos participativos profundos tendem a ser lentos.”
Sabe-se que no decorrer da história do Brasil, a população foi e está sendo prejudicada
até os dias atuais, possuindo seus direitos negados em detrimento de um grupo restrito que
detém o capital, e por vezes preocupa-se com seus interesses particulares, chegando a desviar
verbas públicas (corrupção).
Infelizmente essa realidade acarreta diretamente diversos prejuízos para a população e
para participação social.
Para caminharmos no campo da participação social, faz-se necessário criar estratégias
de enfrentamento e lutar, conquistando este campo aos poucos em defesa dos direitos sociais.

OBJETIVOS

Geral
Compreender e analisar o processo de participação social, seus desafios e possibilidades
almejando sua efetivação.

Específicos:
 Investigar como efetiva-se o processo de participação social.
 Identificar os desafios e as possibilidades que perpassam a participação social.
 Analisar as estratégias de enfrentamento aos desafios.

88
METODOLOGIA

O estudo possui o intuito de compreender o processo de participação social, seus


desafios e possibilidades almejando sua efetivação. A pesquisa será de natureza qualitativa,
pois, conforme afirma Minayo:

A pesquisa qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos,


aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais
profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser
reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 1992, p. 21).

O estudo será desenvolvido por meio da pesquisa bibliográfica que fundamentará o


conhecimento teórico acerca da temática.
Para Minayo (1992, p. 53) “A pesquisa bibliográfica coloca frente a frente os desejos
do pesquisador e os autores envolvidos em seu horizonte de interesse. Esse esforço em
discutir ideias e pressupostos tem como lugar privilegiado de levantamento em bibliotecas e
arquivos. ”
Espera-se que o presente estudo contribua para a construção de conhecimento e
possíveis debates no que se refere a participação social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por vezes, a participação social é considerada como um processo que não irá efetivar-
se, porém é um processo de conquista vinculada a cidadania, que supõe a organização,
reivindicação, processo de luto em prol dos direitos sociais e superação de desafios,
almejando o bem comum da população.
Compartilhando da visão de Chaves e Nogueira (2005) “A participação da sociedade
civil é importante na construção de um novo projeto societário, que tenha a sustentabilidade
como pressuposto.”
Contudo, torna-se necessários que nós, enquanto assistentes sociais, possamos criar
estratégias de enfrentamento aos desafios que perpassam o processo de participação social.
Por meio de questionamentos, debates e reflexões acerca do processo de gestão e
participação social, com intuito de realizar uma análise crítica acerca da realidade social e
política do país, e de nossa própria atuação profissional.

89
Ressaltamos que, o profissional deve buscar contribuir e/ou criar um espaço de
participação social no seu ambiente de trabalho, envolvendo os usuários, identificando suas
demandas diárias, suscitando uma visão crítica acerca da participação, desmistificando a ideia
dos direitos adquiridos como uma dádiva por meio de atividades socioeducativas e debates,
pois dessa forma o profissional está contribuindo no processo de luta pelos direitos daquele
cidadão.

REFERÊNCIAS

BRAVO, M. I. S.; MENEZES, J. S. B. (Org.). Saúde, Serviço Social, movimentos sociais e


conselhos: desafios atuais. São Paulo: Cortez, 2012.

CHAVES, M. P. S. R. Uma experiência de pesquisa-ação para gestão de tecnologias


apropriadas na Amazônia: o estudo de caso do assentamento de Reforma Agrária Iporá.
2001. Tese (Doutorado em Política Científica e Tecnológica) – Universidade Estadual de
Campinas, Campinas, 2001.

DEMO, P. Participação é conquista: noções de política social participativa. 5. ed. São


Paulo: Cortez, 2001.

MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo:


Hucitec-Abrasco, 1992.

NOGUEIRA, M. A. Um Estado para a sociedade civil: temas éticos e políticos da gestão


democrática. São Paulo: Cortez, 2004.

______.; NOGUEIRA, M. G. Desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento: uma


reflexão sobre as diferenças ideo-políticas conceiturais. Somanlu, Manaus, ano 5, n. 1, p.
129-143, jan./jun. 2005.

SILVA, M. L. C. O 1º Seminário de teorização do serviço social em Araxá: seu contexto


histórico, significação e influência: um quase depoimento. Debates Sociais, Rio de Janeiro, n.
63/64, p. 23-24, 2004.

SOUZA, Maria Luiza. Desenvolvimento de comunidade e participação. 7. ed. São Paulo:


Cortez, 2000.

90
OS SISTEMAS SOCIAIS E A BIOÉTICA: CRIMINOLOGIA E A JUSTIÇA SOCIAL

Helen B. Raiz Engler*


Leonardo H. Cardoso de Andrade**
Isabelle Narduchi da Silva***

Resumo: O presente artigo apresenta um debate entre os pressupostos Bioéticos, na


perspectiva dos Sistemas Sociais, com os pressupostos das teorias que guiaram o
desenvolvimento das sociedades capitalistas, buscando trazer a tona os valores e princípios
morais imputados pelo sistema social, como base para o comportamento do Agente Social,
frente as condições materiais perpetradas por este mesmo sistema. Como base da discussão
trazemos as características das sociedades contemporâneas apontadas pela sociologia e pela
economia. Como problema à ser discutido, as ocorrências do fenômenos social do Crime e
suas consequências maléficas para a sociedade, ceifando vidas e impulsionando a violência
cotidiana. De onde podemos observar a contradição entre os valores imputados pela ciência
econômica no sistema social, exercendo grande pressão na sociedade, fomentando valores
contrários aos pressupostos da Bioética e da construção de uma sociedade livre e evoluída.

Palavras-chave: bioética. sistemas sociais. justiça social.

INTRODUÇÃO

As sociedades contemporâneas desenvolveram-se a partir dos paradigmas de


pensamento desenvolvidos após as revoluções burguesas, industriais e cientificas, carregando
em suas instituições, os valores perpetrados por estas revoluções. Estes valores desenvolvidos
a partir destas revoluções desenvolveram toda base do pensamento moderno e, pós-moderno.
Muitas destas revoluções facilitaram nossa vida em sociedade, porém alguns
problemas ainda persistem em nossa vida social, como por exemplo as diversas ocorrências
de violência presentes nos dias de hoje. Esta violência, em nosso País, o Brasil, apresenta
algumas importantes facetas à serem exploradas, como por exemplo a violência da elite
brasileira nos processos de corrupção, ou como na outra ponta do extrato social, com os
marginalizados e a vida no crime.

*
Livre Docente, Doutora, Mestre e Graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho. Docente Adjunto da UNESP - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho –
Unesp/Câmpus de Franca/SP. Pesquisadora/coordenadora de grupo registrado no Diretório de Grupos de
Pesquisa: Núcleo de Pesquisa ; Mentalidades e Trabalho: do local ao global. Coordenadora do Comitê de Ética
e Pesquisa-CEP.
**
Doutorando em Serviço Social pela Faculdade de Ciências Humanas e Socais – UNESP/Câmpus de Franca;
Mestre em Desenvolvimento Regional pelo Centro Universitário Municipal de Franca – Uni-FACEF;
Graduado em Administração de Empresas com ênfase em Comércio Exterior.
***
Mestranda em Serviço Social pela Faculdade de Ciências Humanas e Socais – UNESP/Câmpus de Franca;
graduada em Direito pelo Centro Universitário Educacional de Barretos.

91
Nas últimas décadas, após 1980, nosso país avançou muito em relação à mortalidade
infantil, porém a partir das décadas de 2000 e 2010, o fenômeno da mortes por violência com
armas de fogo, tem assolado este desenvolvimento, nos levando ao problema da mortalidade
dos jovens, que tem alcançado patamares epidêmicos, segundo a classificação da Organização
Pan-Americana de Saúde (OPAS) com índices acima de 8 mortes para cada 100 mil
habitantes.
Entendendo a sociedade de como um organismo vivo, ou seja, como um Sistema
Social, não podemos deixar de lado a exploração destas importantes evidências de ineficiência
de nossas instituições democráticas, buscando assim, avançar na compreensão de nós,
enquanto seres coletivos. O que nos coloca de frente com as questões da Ética e da Bioética.

BIOÉTICA E SOCIEDADE

Em pleno século XXI, com grandes avanços tecnológicos e descobertas a cerca


do universo e da vida, muitas questões sociais ainda se colocam presentes, dentre elas: o
crime e a violência cotidiana. Do ponto de vista da Bioética, estas questões relacionam-se
com a justiça social e a dignidade do ser humano em sociedade. Primeiramente, gostaríamos
de destacar o conceito de Bioética que nos faz refletir sobre nossa natureza.

Entender a natureza biológica dos humanos é ver-nos como uma espécie a mais no
planeta, resultado dos mesmos processos e padrões evolutivos que deram origem a
todas as demais espécies, com características únicas, exclusivas, ao lado de outras
compartilhadas com outras espécies, porque foram herdadas de ancestrais comuns
(TRAJANO, 2017, p. 50).

Quebrando desta maneira, com a noção hierárquica da superioridade de espécies, em


detrimento e outras, que foi transportado para o seio da sociedade, permitindo a distinção e a
diferenciação social e hierárquica (TRAJANO, 2017). Essa percepção errônea em torno da
natureza da vida e, do ser humano, trouxe consigo alguns vieses, que permearam a história do
desenvolvimento das sociedades contemporâneas, refletindo em diversas instituições sociais.
Estas instituições, como, a Família, a Religião, o Estado, entre outras, podem ser vistas
como a base estrutural da sociedade, por onde são organizados os mecanismos de reprodução
e desenvolvimento cultural (HARRIS apud SAMPAIO; ANDERY, 2010). Assim, como mola
propulsora deste processo de desenvolvimento, temos a questão dos valores sociais e morais

92
presentes no sistema social, ou seja, a ética como condição necessária para as sociedades se
desenvolverem (MATURANA, 1985)1.

Uma vez expresso e codificado o conjunto de valores e metas, ele constituirá


a estrutura das percepções, intuições e opções da sociedade para que haja
inovação e adaptação social. À medida que o sistema de valores culturais
muda – frequentemente em resposta a desafios ambientais –, surgem novos
padrões de evolução cultural. (CAPRA, 2006, p. 185).

O segundo ponto que gostaríamos de destacar, refere-se a como o indivíduo é visto


dentro deste sistema social. Do ponto de vista da Bioética, o ser humano, assim como na ética
de Kant, é um Fim, e não um Meio, portanto, necessita de Dignidade em sua vida social
(FERRARI, 2017). Em relação à dignidade temos a questão da autonomia da vontade, que
também fora observada na teoria econômica de Amartya Sen (2010), onde o Agente Social,
exerce papel fundamental no desenvolvimento econômico e social. Nesta perspectiva, o
desenvolvimento das sociedades tem como pano de fundo, as liberdades instrumentais2 do
Agente Social (SEN, 2010).
Esta liberdade instrumental, condiciona o comportamento do Agente Social, pois está
associada à Autonomia que este agente encontra em sua realidade cotidiana. Estas questões
por sua vez, estão relacionadas ao conceito de justiça social, onde a presença das
desigualdades perpetradas pelo sistema econômico, tem contribuído para a ocorrência destes
fenômenos.

SISTEMAS SOCIAIS E CRIME

Na perspectiva das sociedades como sistemas, o Agente Social, é por definição a


menor célula de ação dentro de uma sociedade (LUHMANN, 2012). Como menor célula de
decisão, seu comportamento e suas ações, impactam diretamente no desenvolvimento da
sociedade em que está inserido (SEN, 2010). Assim, as condições de ação que os agentes
sociais encontram, em sua realidade cotidiana, são fundamentais para entendermos, o
processo de desenvolvimento social.

1
Versão espanhola correspondente à publicação feita por Talleres de Investigación en Desarrollo Humano
(TIDEH), tradução do original publicado pela Revista Delfín.
2
Liberdades instrumentais são aquelas que conferem a liberdade de fato, ou seja, uma educação libertadora,
confere a liberdade instrumental de pensar e criticar; uma economia de emprego pleno com nível de renda
equilibrado, confere a liberdade instrumental de escolher a profissão que se queira, não tendo como ponto
central da escolha o valor do salário (SEN, 2010).
93
Segundo a teoria dos Sistemas Sociais, as diferenciações inerentes ao sistema social,
possibilitam a criação de subsistemas, que são formados pelo reconhecimento de semelhanças
nos outros, ou seja pelo reconhecimento de si, no outro (LUHMANN, 2012; MATURANA,
1985). Estes grupos por sua vez, fomentam seus próprios valores morais, através de suas
autoreferências, que são colocadas em contraste com as referências externas, de outros
grupos, em um processo denominado autopoiesis (LUHMANN, 2012; MATURANA;
VARELA, 2003).
As sociedades contemporâneas estão baseadas em sistemas funcionais de classes
socioeconômicas e, assim, estabeleceram suas estruturas sociais obedecendo a lógica
econômica imputada pelo sistema. As assimetrias entre as classes socioeconômicas, deste
ponto de vista, fomentam diferenciações entre grupos sociais, podendo criar barreiras
perceptivas entre os desiguais. Estas barreiras estruturais, por sua vez, podem causar desvios
nos comportamentos individuais, principalmente nos momentos em que se encontram grandes
diferenciações (LUHMANN, 2012; FURTADO, 1964).

En nosotros, los seres humanos, este acoplamiento estructural recíproco se da


espontáneamente en muchas circunstancias diferentes, como expresión de nuestro
modo de ser biológico actual, y aparece ante un observador como una pegajosidad
biológica que puede ser descrita como el placer de la compañía, o como amor, en
cualquiera de sus formas. Sin esta pegajosidad biológica, sin el placer de la
compañía, sin amor, no hay socialización humana, y toda sociedad en la que se
pierde el amor, se desintegra. (MATURANA, 1985, p. 7).

Segundo a afirmação acima, os Sistemas Sociais necessitam do amor, ou seja, o


reconhecimento do outro como alguém igual a si mesmo, com as mesmas necessidades e
desejos. E nos diz ainda que, sem a presença desse sentimento, não há possibilidades de
manutenção e evolução social.
Como principio organizador este reconhecimento reciproco, as camadas sociais,
inerentes à nossa realidade, organizam seus espaços, com base no princípio valorativo
imputado pelo paradigma social estabelecido. Nas sociedades contemporâneas, os
pressupostos considerados para a organização social, fomentaram uma ontologia do ser
competitivo, com base nas premissas darwinianas da seleção natural (CAPRA, 2006).

A promoção do comportamento competitivo em detrimento da cooperação é


uma das principais manifestações da tendência autoafirmativa em nossa
sociedade. Tem suas raízes na concepção errônea da natureza, definida pelos
darwinistas sociais do século XIX, que acreditavam que a vida em sociedade
deve ser a luta pela existência regida pela “sobrevivência dos mais aptos”.
94
Assim a competição passou a ser vista como a força impulsora da economia
[...]. (CAPRA, 2006, p. 43).

Assim, a competição passou à ser a base do comportamento das sociedades


contemporâneas. Neste paradigma social, os indivíduos devem sempre competir por melhores
condições, fomentando, assim, conflitos de interesses entre grupos sociais, como por
exemplo, entre empregados e empregadores. Deste ponto de vista, cada subsistema criado a
partir da divisão social do trabalho, tenderá à desenvolver sua próprias estratégias de ação,
assim como seus próprios valores morais (LUHMANN, 2012).
Em uma sociedade caracterizada pelos padrões de consumo, ou seja, onde as pessoas
se inserem na sociedade, pelos produtos que consome (BAUMAN, 2008), aqueles que ficam à
margem destes padrões de consumo, impostos pelos sistema, encarnam os demônios da
sociedade (BAUMAN, 1998). Estes agentes sociais, por se encontrarem em situações de
vulnerabilidade socioeconômica, tendem a aceitar o uso de estratégias de risco, como o uso da
violência, para conseguirem o que desejam (FOX; HOELSHER, 2012; MUGGAH, 2012).

Uma sociedade que valoriza mais o ter do que o ser, em que leis protegem o
patrimônio em detrimento da vida e em que os direitos humanos são negados
no trabalho, na rua, na escola, em casa, nas relações mais simples, é uma
sociedade que está desenvolvendo em seu interior o princípio da violência.
(BARCHIFONTAINE, 2017, p. 73).

Tendo as condições socioeconômicas como base do sucesso social, as populações que


se encontram em altos níveis de vulnerabilidade social, são expostas à violência estrutural da
sociedade e, tem como resposta à essa condição os atos fora da lei (MINAYO, 1994). Do
ponto de vista da Bioética, ou seja, a partir de um conceito filosófico de humanidade, que não
aceita hierarquias de importância (TRAJANO, 2017), estas ocorrências de violência social,
geralmente ligadas à vida no crime, podem ser consideradas como uma doença social que
atrasa o desenvolvimento da qualidade de vida, ou da felicidade.
A objetivação do ter individualista, em detrimento ao ser coletivo que somos,
individualiza nossa realidade conjunta e, nos coloca frente à contradição social exposta por
estruturas sociais iniquas, que provocam a mistanásia, ou seja, a “[...] morte de pessoas cuja a
vida não é valorizada.” (BARCHIFONTAINE, 2017, p. 72).
Assim, ao criar distinções socioeconômicas, o sistema social, cria condições para o
surgimento de subsistemas que irão encarnar os pesadelos sociais da violência, pois sendo
este tipo de ação, ligada à categoria meio-fim (ARENDT, 2006), esta será uma das únicas, se

95
não a única, oportunidade de alguns indivíduos realizarem suas vidas, buscando os objetivos
propostos pelo sistema social.

METODOLOGIA

O presente artigo, trata de um debate teórico em torno das ocorrências do fenômeno


social do Crime, na perspectiva da Bioética e dos Sistemas Sociais. Este debate visa trazer a
tona a discussão dos valores e princípios morais, presentes nas teorias sociais e econômicas e
seus reflexos na realidade cotidiana das sociedades.
Em questão a Justiça Social vivenciada pelos Agentes Sociais, trazemos a perspectiva
da Bioética, que compreende a noção de Dignidade inerente do ser humano (FERRARI,
2017), e a autossuficiência como condição da felicidade do ser (ARISTÓTELES, 1991).
Na perspectiva dos Sistemas Sociais, trazemos a noção de subsistemas funcionais que
operam por acoplamento estrutural, sendo operacionalmente fechados e energeticamente
abertos, trocando energia e informação com o meio-ambiente (LUHMANN, 2012;
MATURANA; VARELA, 2003). Esta perspectiva auxilia na compreensão da complexidade
do sistema social e sua operação através de valores e princípios, que são imputados através da
cultura das sociedades. Entende-se que os Agentes Sociais, pelas características do sistema,
podem atuar em um, ou mais, subsistemas simultaneamente, pois estes sistemas operam nos
níveis de consciência, através dos processos de comunicação linguística estabelecidos
(LUHMANN, 2012).

DISCUSSÃO

Conforme fora apresentado as sociedades contemporâneas, apresentam um forte viés


para a valorização do ter, em detrimento do ser, conforme fora observado por Bauman (2008),
na sociedade de consumo. Nesta Sociedade, as pessoas são transformadas em mercadoria
(POLANYI, 2000), e vistas como meio para atingir os fins determinados pela sociedade.
A partir das revoluções burguesas e industriais, tivemos na economia um paradigma
competitivo, conforme afirma Capra (2006), como mola propulsora da evolução das
sociedades, ou do desenvolvimento econômico e social. Desde então, as relações sociais
obedeceram a lógica imputada pela economia, que direcionou nosso comportamento para a
acumulação de riqueza. Conforme afirma Polanyi (2000) o homem e a terra foram colocados
96
à venda, assim as questões apresentadas pela Bioética e perspectiva da dignidade do Agente
Social, como um fim e, não um meio para atingir-se objetivos, não foram observadas.
A base da teoria Econômica, desde estas revoluções foi o liberalismo fundado por
Adam Smith (2011) “Riqueza das Nações” e, (1999) “Teoria dos Sentimentos Morais”, que
apresentam a natureza humana com base na propensão ao egoísmo e, a luta por melhores
condições. O que de fato justificou a exploração do homem, pelo homem. Estes paradigma
fundamentou a divisão social do trabalho e, serviu de base funcional para que as sociedades
contemporâneas pudessem se desenvolver, colocando todos em disputa pelas oportunidades
de trabalho presentes nas sociedades.
Conforme observado por Amartya Sen (1999; 2010) a teoria econômica deste período,
obedeceu muito mais questões de engenharia ligadas à produção de riqueza, do que questões
éticas, relacionadas ao bem viver. Desta maneira os conceitos de Qualidade de Vida,
obedeceram a mesma lógica, indicando apenas padrão material de vida, e não o bem estar
ligado ao que nos indica Aristóteles (1991) sobre a Felicidade, como Autossuficiência, ou
como diria Kant, como a Dignidade (apud FERRARI, 2017).
Assim Políticas Econômicas e Sociais obedeceram a lógica dos indicadores de padrão
de vida, pois via de regra, estes indicadores avaliam a eficiência da aplicação de tais políticas
na sociedade. Porém, estas Políticas foram incapazes de solucionar os problemas da
desigualdade, assim como afirmavam que ocorreria, após o crescimento do bolo total da
riqueza.
O que vemos hoje, conforme constatado por Thomas Piketty (2014), é uma sociedade
onde a distância entre o mais rico e o mais pobre, continua crescendo e, ainda pior, as
dificuldades de ascensão socioeconômica são enormes, em função das diferenças da renda do
trabalho e, da renda dos rentistas que, detém capital especulativo.
Os subsistemas criados por essa injustiça social, por sua vez, fomentam valores
diferenciados entre os grupos sociais, conforme observado por Luhmann (2012). Assim,
conforme observado por Fox e Hoelsher (2012) e Muggah (2012), os grupos sociais que
encontram dificuldades de ascensão social, tendem a aceitar estratégias de risco para
conseguirem o que desejam, gerando aquilo que Bauman (1998) classificou como “O mal-
estar da pós-modernidade”, ou seja, a cegueira moral e a violência.
Assim, a falta desta base Bioética nas Instituições Sociais que servem de base para a
estruturação, manutenção e reprodução, das sociedades, como proposto pela perspectiva dos
Sistemas Sociais, fundamentou oportunidades para a ocorrência de fenômenos sociais, como o
97
crime, pela falta de valorização do ser, em detrimento do ter, colocando em competição, em
bases hierárquicas de poder, os Agentes Sociais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando as questões da Bioética como fundamentais para o


desenvolvimento das sociedades, podemos perceber que, ao considerar pressupostos
egoísticos e competitivos na natureza humana, as teorias sociais e econômicas, imputaram
uma lógica contrária aos valores e princípios morais capazes de fomentar desenvolvimento
econômico e social verdadeiro. Ao dinamizar está lógica, que tem em suas características a
diferença socioeconômica, criou-se oportunidade para o aparecimento de fenômenos sociais,
que podem ser considerados, do ponto de vista da bioética, como mistanásia, ou seja,
condições para a morte de indivíduos na miséria. Porém estes mesmos indivíduos,
condicionados à tal situação de vulnerabilidade social, não irão aceitar estas condições
lutando à sua maneira para conseguiram se inserir nestas sociedades.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. Sobre la violencia. Tradução de Guilhermo Solana. Madrid: Alianza,


2006.

ARISTOTELES. Ética a Nicômaco; poética; seleção de textos de José Américo Motta


Pesanha. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W. D. Ross. 4
ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Os Pensadores).

BARCHIFONTAINE, Christian de Paul de. Bioética e sistema carcerário ou prisional. In:


HOSSNE, Willian Saad; PESSINI, Leo; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul (Org.).
Bioética no século XXI: anseios, receios e devaneios. São Paulo: Loyola, 2017.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução de Maura Gama, Cláudia


Martinelli Gama; revisão técnica Luís Carlos Fridman. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

______. Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Tradução de


Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 2006.

FERRARI, Maria Auxiliadora Cursino. Dignidade e respeito em face da vida: fundamentos da


bioétca. In: HOSSNE, Willian Saad; PESSINI, Leo; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul
(Org.). Bioética no século XXI: anseios, receios e devaneios. São Paulo: Loyola, 2017.

98
FOX, Sean; HOELSCHER, Kristian. Politcal order, development and social violence.
Journal of Peace Research, Oslo, v. 49, n. 3, p. 431-444, 2012. Disponível em:
<http:\\jpr.sagepub.com/contente/49/3/431>. Acesso em: 23 out. 2014.

FURTADO, Celso. Dialética do desenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura,


1964. 184 p.

HOSSNE, Willian Saad; PESSINI, Leo; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul (Org.).


Bioética no Século XXI: anseios, receios e devaneios. São Paulo: Loyola, 2017.

LUHMANN, Niklas. Theory of society. Translated by Rhodes Barrett. California: Stanford


University Press, 2012. v. 1.

MATURANA, Humberto. Biologia del fenómeno social. [S.l.], 1985. Disponível em:
<http://matriztica.cl/wp-content/uploads/Biologia-del-fenomeno-social.pdf>. Acesso em: 15
maio 2017.

______.; VARELA, Francisco. De máquinas y seres vivos: autopoiesis, la organización de lo


vivo. Buenos Aires: Lumen, 2003.

MINAYO, Maria Cecília de S. A violência social sob a perspectiva da Saúde Pública.


Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 10, supl. 1, p. 7-18, 1994. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/csp/v10s1/v10supl1a02.pdf>. Acesso em: 18 set. 2015.

MUGGAH, Robert. Researching the urban dilemma: urbanization, poverty and violence.
Ottawa, 2012. Disponível em:
<http://www.idrc.ca/EN/Programs/Social_and_Economic_Policy/Governance_Security_and_
Justice/Pages/ArticleDetails.aspx?PublicationID=1096>. Acesso em: 21 set. 2015.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Tradução de Monica Baumgarten de Bolle.


Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Tradução de Fanny


Wrobel. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

SAMPAIO, Angelo Augusto Silva; ANDERY, Maria Amanlia Pie Abib. Comportamento
Social, Produção Agregada e Prática Cultural: Uma análise Comportamental de Fenômenos
Socais. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, DF, v. 26, n. 1, p. 183-192, jan./mar. 2010.
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ptp/v26n1/a20v26n1.pdf>. Acesso em: 4 dez. 2015.

SEN, Amartya. Sobre ética e economia. Tradução de Laura Teixeira Motta; revisão técnica
Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

______. Desenvolvimento como liberdade. Tradução de Laura Teixeira Motta; revisão


técnica Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia da Letras, 2010.

SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. Tradução de Lya Luft; revisão Eunice
Ostrensky. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

99
SMITH, Adam. A riqueza das nações. Tradução Maria Teresa Lemos de Lima. Curitiba:
Juruá, 2011.

TRAJANO, Eleonora. Bioética e ciência: natureza biológica dos humanos e ciência no século
XXI. In: HOSSNE, Willian Saad; PESSINI, Leo; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul
(Org.). Bioética no Século XXI: anseios, receios e devaneios. São Paulo: Loyola, 2017.

100
POLÍTICAS AFIRMATIVAS E POLÍTICAS DE PERMANÊNCIA ESTUDANTIL

Orlinéya Maciel Guimarães*

Resumo: Esse artigo apresenta uma proposta de investigação cientifica que tem por objeto de
pesquisa as ações afirmativas e as políticas de permanência estudantil na UNESP e propõe um
debate sobre a questão contraditória das Ações Afirmativas adotadas no Brasil através de
levantamento de dados tanto dos ingressantes, como o acompanhamento do percurso
acadêmico dos estudantes que compõe este contingente.

Palavras-chave: ensino superior. permanência estudantil. política de ações afirmativas. perfil


da educação superior. universidade pública.

INTRODUÇÃO

Esse artigo apresenta uma proposta de investigação cientifica que tem por objeto de
pesquisa as ações afirmativas e as políticas de permanência estudantil na UNESP e propõe um
debate sobre a questão contraditória das Ações Afirmativas adotadas no Brasil.
O universo do ensino superior é composto por um contingente de pessoas oriundas de
diversos contextos sociais, com bagagens intelectuais e culturais bem como com expectativas
e perspectivas diferentes acerca do percurso acadêmico. Está constituído por docentes e
discentes, tanto calouros como veteranos e, portanto, as perspectivas vão sendo moldadas na
medida em que este percurso é trilhado, uma vez que, ao adentrar no Ensino Superior, muitos
trazem as questões de ascensão profissional como principal objetivo e, no decorrer deste,
deparam-se com outras realidades o que, certamente é um fator transformador do caminho.
Assim, estas primeiras impressões e expectativas podem ser totalmente modificadas ou não.
Olhar para esta realidade é perceber que, em razão das mais variadas formas para este
acesso à Universidade, existem histórias e modelos socioeconômicos e culturais que
influenciaram, não só na escolha do curso, mas também a vida acadêmica.
Neste contexto podemos entender que cada indivíduo, dentro das suas perspectivas
buscou, antes, formas de conseguir este feito, seja ele por meio de apoio familiar de forma

*
Mestre em Planejamento e Análise de Políticas Públicas da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais,
Universidade Estadual Paulista - campus de Franca. Membro do Grupo de Pesquisa GESTA – Gestão
Socioambiental e a Interface com a Questão Social.

101
financeira, por meio de políticas financeiras para custear o Ensino Médio ou cursinhos
populares, ou até mesmo pelo esforço pessoal em realizar os estudos em horários alternados
do trabalho para obter este acesso. Eliminando aqui, desde já, a questão da meritocracia, uma
vez que tal assunto não faz parte das análises deste trabalho, uma vez que, esta palavra
significa uma conquista por mérito, e aqui, trataremos do percurso e não do “como” este
indivíduo conseguiu chegar até a Universidade.
Assim, sendo, o olhar é para o histórico socioeconômico e cultural por detrás de cada
indivíduo para chegar à Universidade.
Neste movimento, partindo do perfil do ingressante no Ensino Superior, pretende-se,
portanto, entender como a Política de Ação Afirmativa (reserva de vagas para ingressantes do
Ensino Médio Público) estabeleceu este vinculo e quais as consequências deste para atingir
estas mesmas expectativas, tanto profissionais como no tocante ao envolvimento com a
Universidade.
Sabendo que, uma vez dentro do contexto universitário, muitos optam por
engajamentos políticos, outros pelo caminho da pesquisa cientifica, obtendo destaques
importantes para sua futura vida profissional e há outros que simplesmente passam pela
Universidade.
Pretende-se, portanto, caracterizar e encontrar um perfil específico dos ingressantes
pelo processo de reserva de vagas, procurando chegar à sua essência, reproduzindo-se a
realidade pesquisada no plano do pensamento, enquanto real pensado (KOSIK, 1995) deste
processo no que concerne ao envolvimento destes como um todo, mapear como se dá as
questões do Ensino, pesquisa, extensão, amadurecimento acadêmico, transformação sócio-
cultural e perspectivas pensadas do além da Universidade.

AÇÕES AFIRMATIVAS E POLÍTICAS DE PERMANÊNCIA ESTUDANTIL

Ações afirmativas são políticas públicas que pretende reservar recursos financeiros
para beneficiar grupos de pessoas socioeconomicamente carentes, que tem como pressuposto
igualar as diferenças destes grupos, dando-lhes a igualdade de oportunidades, facilitando ou
garantindo-lhes o acesso ao Ensino Superior.
Para se entender as ações afirmativas de forma ampla e consciente é necessário
questionar o passado e entender o mecanismo do processo de exclusão social, a historia de um
país que passou pela escravidão e a segregação racial e social desde o inicio.
102
Consistem em políticas públicas (e também privadas) voltadas à
concretização do princípio constitucional da igualdade material e à
neutralização dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de
origem nacional, de compleição física e situação socioeconômica (adição
nossa). Impostas ou sugeridas pelo Estado, por seus entes vinculados e até
mesmo por entidades puramente privadas, elas visam a combater não
somente as manifestações flagrantes de discriminação, mas também a
discriminação de fundo cultural, estrutural, enraizada na sociedade. De
cunho pedagógico e não raramente impregnadas de um caráter de
exemplaridade, têm como meta, também, o engendramento de
transformações culturais e sociais relevantes, inculcando nos atores sociais a
utilidade e a necessidade de observância dos princípios do pluralismo e da
diversidade nas mais diversas esferas do convívio humano” (GOMES, 2001,
p. 6-7)

Estas políticas não é exclusiva do Estado, haja vista que as organizações privadas ou
Organizações não Governamentais (ONGs) participam ativamente destas, dando suporte ou
complementando este acesso já que estas políticas não conseguem abranger a necessidade
como um todo, então cursinhos populares e outras ações complementam este acesso.
O principal objetivo das ações afirmativas é garantir um tratamento universal por parte
do Estado a todos. Conforme o caput do Artigo 5o da Constituição Federal: “Todos são iguais
perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade.” (BRASIL, 1988).
Assim, criou-se a noção de que a justiça nada mais é do que tratar todas das pessoas de
maneira igualitária, contudo, tal ação não significa tratamento igual. Se todos somos
desiguais, certamente tratar todos da mesma forma gera a desigualdade.
Entendendo que, principalmente nas questões sócio-culturais e econômicas somos
diferentes, e estas Políticas vêem ao encontro deste tratamento desigual como uma estratégia
de correção destas desigualdades, criando a oportunidade a uma categoria de pessoas da
sociedade para que sejam inseridas no contexto da do Ensino Superior.
Existem vários tipos de ações afirmativas que já ocorrem nos países como Estados
Unidos, Índia e África do Sul, assim, estas políticas, segundo pesquisas demonstram que
houve um aumento significativo da população negra que ingressou na educação superior.

Nos Estados Unidos [...] A percentagem de negros e negras matriculada


passou de 13%, em 1967, para 30,3%, em 2000, naquele país. A população
negra matriculada no ensino superior representava 4,4% do total em 1966;

103
dez anos depois, a proporção para 9,6%. Universidades dos Estados Unidos.
(LOPES, 2006, p. 27).

Quanto as Políticas de Ações Afirmativas, estas foram criadas no Brasil pela Lei
Federal n. 12.711, de 29 de agosto de 2012 que dispõe sobre o ingresso nas universidades
federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências.
A partir daí as Universidades Federais iniciaram, de forma obrigatória, a inserção de
estudantes em cursos de gradação por este sistema.
No Estado de São Paulo, as Universidades Estaduais Paulistas – USP, Unesp e
Unicamp, o Governo determinou, por meio do Programa Paulista de Inclusão Social no
Ensino Superior (PPISES) que fossem implementadas as ações afirmativas a fim de promover
a inclusão da parcela de estudantes socialmente menos favorecidos nos seus cursos de
graduação mediante o acolhimento, em 50% de suas vagas, de alunos oriundos de escolas
públicas, guardando, dentre estes, a parcela de 35% dos grupos étnicos preto, pardo e índio
(PPI).
Após estudos e discussões no Conselho de Reitores das Universidades Estaduais
Paulista (CRUESP) – formularam o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior
Público Paulista (PIMESP).
Em especial, a Universidade Estadual Paulista – Unesp – foco e ambiente de nossa
pesquisa, resolve implementar o programa, a partir de 2014, iniciando com 15% dos
estudantes ingressantes, 2015 – 25%, 2016 – 35%, 2017 – 45% e 2018 com 50%, sendo que
35% deste percentual é destinado para alunos autodeclarados pardos, pretos e indígenas (PPI)
Considerando, portanto que para vários cursos de graduação da Unesp, certamente a
inserção de alunos oriundos de escolas públicas já se fazia, sem necessidade de políticas
próprias, em percentuais relevantes, já para cursos considerados elitistas, como Direito,
Medicina e Engenharias, estas ações afirmativas foram realmente necessárias.
Segundo informações levantadas nos relatórios da Vunesp, observa que somente no
vestibular de 2014, quando do inicio do ingresso pelo sistema de reserva de vagas houve
registro de alunos nos cursos de Medicina, Direito e Engenharias oriundos da escola publica.
Considerando que em 2013 não havia política de reserva de vagas para alunos do
Ensino Público, e em 2017, obrigatoriamente 45% das vagas foram reservadas. Observa-se
que, para estes cursos o fato de haver uma política de reserva de vagas foi imprescindível para
a inclusão destes estudantes.

104
Na pesquisa, analisaremos tão somente o Curso de Graduação em Direito, pela questão
logística para que as entrevistas e levantamento de dados sejam mais acessíveis.
Até este momento na pesquisa, teremos, portanto um perfil e características destes
estudantes que será capaz de nos trazer informações importantes não só do perfil, mas
também de como esta política os auxiliou neste processo e do processo propriamente dito.

Assim, a contradição se constitui enquanto motor permanente da relação


dinâmica entre processos, ou seja, a força motriz do próprio processo normal
e não apenas a forma de passagem de um estágio a outro. É princípio do ser
e só é possível apreendê-la na realidade enquanto base dos processos.
(LUKÁCS, 1972, p. 24).

Em contra partida, temos as questões de ordem econômica, que interferem e muito


neste percurso, e com a Política de Permanência Estudantil podemos entender que dentro
desta categoria de estudantes há os que necessitam e possuem o direito de usufruir desta
política, a fim de dar continuidade aos estudos.
É importante ressaltar que as categorias “[...] exprimem [...] formas de modos de ser,
determinações de existência, frequentemente aspectos isolados de [uma] sociedade
determinada [...].” (PAULO NETTO, 2009, p. 14), e podem ser consideradas como
ontológicas e reflexivas.
Tendo, portanto o perfil do ingressante pela Política de Ação Afirmativa, fica menos
complexo entender esta necessidade de incluí-lo na Política de Permanência Estudantil,
complementando, portanto, os dados obtidos pelo primeiro momento, olhando para o
movimento destas políticas compreender o universo destes estudantes e como estas políticas
de fato contribuem para o desenvolvimento socioeconômico e cultural.
Ademais, a política de ação afirmativa já contempla o auxilio financeiro, contudo, não
significa que o estudante oriundo da escola pública, necessariamente possui um perfil
socioeconômico desfavorável. Portanto a pesquisa quer entrar neste contexto e analisar
também este pressuposto.
Já o Programa Nacional de Assistência Estudantil, oficialmente, foi estabelecida pelo
Governo Federal via Decreto n. 7.234, de 19 de julho de 2010, com a finalidade de “[...]
democratizar as condições de permanência dos jovens na educação superior pública federal.”
(BRASIL, 2010).

105
Na Unesp ainda não possui uma Política de Permanência Estudantil, mas desde 1986
já existiam algumas ações que integravam os objetivos da Permanência. A partir da década de
1980, aos poucos a UNESP foi criando várias ações características de permanência.
Inicialmente foi criado um programa que previa monitoria nos cursos de graduação
com um auxilio, além de outras atividades de ensino, pesquisa e principalmente a extensão
que são contempladas com auxílios financeiros.
Para outros estudantes ainda é concedido o auxilio aluguel, caso não seja possível uma
vaga na Moradia Estudantil da Unidade.
Assim sendo, através de levantamento de dados pretende-se analisar como este aluno
do PIMESP consegue sua permanência na Universidade, considerando, portanto, que teremos
grupos destes alunos que, mesmo tendo ingressado pelo sistema de reserva de vagas não
necessariamente estarão aptos ao processo de permanência, então a questão é como eles
conseguem esta permanência e também qual o seu envolvimento e expectativas em relação ao
curso escolhido.

METODOLOGIA DA PESQUISA

Pesquisa é o procedimento racional e sistemático que tem como meta proporcionar


respostas aos problemas propostos para a investigação. A pesquisa científica exige um
mergulho nos conhecimentos disponíveis e a utilização cuidadosa de métodos, técnicas e
outros procedimentos científicos que envolvem inúmeras fases, desde a adequada formulação
do problema até a satisfatória apresentação dos resultados (GIL, 1996).
Este trabalho constitui-se em um estudo de caso, dedicado a responder quem são os
estudantes que ingressam na Universidade, e de que forma as políticas de ingresso e
permanência estudantil colaboram para o percurso acadêmico e a transformação destes
indivíduos quando entra em contato com o universo acadêmico e, como é a trajetória desses
estudantes ao longo deste período.
Considerando que não seria possível em tão pouco tempo realizar o levantamento em
todos os 155 cursos de graduação oferecidos pela Unesp distribuídos nas 34 unidades
localizadas pelo interior do Estado de São Paulo. Opta-se, portanto, em selecionar uma
amostra através de um recorte no campus de Franca. Justifica-se por ser o único campus que
possui o curso de Graduação em Direito que é um dos cursos cuja política de reserva de vagas
é bem relevante. Mas, também, pelo fato da autora estar diretamente relacionada

106
profissionalmente à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. O estudo de caso é a estratégia
escolhida ao se examinar acontecimentos contemporâneos, mas quando não se podem
manipular comportamentos relevantes (YIN, 2001, p. 25).
A pesquisa consiste em um estudo de caso de alunos de graduação da Faculdade de
Ciências Humanas e Sociais, campus de Franca da Unesp, do curso de Graduação em Direito
que ingressaram pelo processo seletivo do vestibular, e que o acesso se deu pela política de
reserva de vagas no período de 2014 a 2018.
O recorte de período proposto decorre pelo fato que esta política foi aplicada a partir
de 2014 e, ainda, pelo curso ter o prazo mínimo de cinco anos, ter contato com os formandos
em 2018. Justifica-se, então, o período de tempo considerado nesta pesquisa. Serão
consultados os documentos: registros acadêmicos, processos seletivos de auxílios
permanência.
Segundo Manning (1979 apud NEVES, 1996, p. 1) é necessário este recorte na
pesquisa qualitativa, de modo a permitir que os dados analisados pudessem apresentar uma
evolução:

O desenvolvimento de um estudo de pesquisa qualitativa supõe um corte


temporal-espacial de determinado fenômeno por parte do pesquisador. Este
corte define o campo e a dimensão em que o trabalho desenvolver-se-á, isto
é, o território a ser mapeado. O trabalho de descrição tem caráter
fundamental em um estudo qualitativo pois é por meio dele que os dados são
coletados.

A partir dos dados coletados, a pesquisa trará quem são estes estudantes e suas
condições socioeconômicas quando do seu ingresso na Universidade, após este levantamento,
será possível realizar entrevistas periódicas e sistemáticas para compor o universo do percurso
acadêmico, contemplando informações acerca das questões a serem investigadas: (1) durante
o percurso acadêmico (tempo que esteve vinculado à Unesp), de modo a avaliar como ocorreu
a adaptação no universo acadêmico, suas percepções, expectativas, dificuldades e
necessidades; e (2) ultimo ano acadêmico, de modo a avaliar o impacto pedagógico ao que se
refere à absorção e vivencia acadêmica, considerando suas expectativas futuras.
Deste modo a presente pesquisa traz importantes contribuições para uma reflexão
inicial sobre as políticas de reserva de vagas e permanência estudantil, base para discussões
mais amplas.

107
Pretende-se, então, compreender a integração destas políticas e o real impacto na vida
destes estudantes, analisando o seu objetivo geral e a sua implementação no âmbito do
campus de Franca da Unesp, considerando os atores envolvidos neste processo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho procura promover uma reflexão sobre as políticas de acesso ao Ensino
Superior, considerando que estas ações fazem parte das Instituições de Ensino, juntamente
com os Governos Federais e Estaduais para amplicação deste acesso aos estudantes das
camadas mais socioeconomicamente não privilegiada.
O foco da pesquisa está justamente em procurar entender a relação da política de
ingresso (Política de Ação Afirmativa) com a política de permanência estudantil existente na
Universidade Estadual Paulista – Unesp, sua implementação e manutenção destas políticas,
além de olhar para os estudantes que foram contemplados com para que possamos entender
este universo.
Para compreender “como” e “de que forma” esta política se desenvolve no âmbito da
Universidade é necessário conhecer não só as políticas, mas também para o estudante e seu
percurso acadêmico para identificarmos como este processo se efetiva no universo acadêmico.
Em suma, o estudo pretende observar, analisar e avaliar estas políticas olhando o
processo como um todo.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União,


Brasília, DF, 5 out. 1988. Anexo. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 7 jul.
2014.

______. Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas universidades
federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências.
Diário Oficial da União, Brasília, DF, 30 ago. 2012. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm>. Acesso em:
2016.

______. Decreto n. 7.234, de 19 de julho de 2010. Dispõe sobre o Programa Nacional de


Assistência Estudantil – PNAES. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 jul. 2010.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-
2010/2010/decreto/d7234.htm>. Acesso em: 2016.
108
CALADO, S. S.; FERREIRA, S. C. Análise de documentos: métodos de recolha e análise de
dados. Lisboa, 2005. Disponível em: <http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/ichagas/ mi1/
analisedocumentos.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2014.

FUNDAÇÃO VUNESP. Relatório [anual] vestibular Unesp. São Paulo: Fundação Vunesp,
2016. Disponível em: <https://www.vunesp.com.br/Institucional/EstatisticaVestibular>.
Acesso: 30 maio 2017.

GIL, A. C. Métidos e técnicas da pesquisa social. 6. ed. São Paulo. Altas. 1999

GOMES, J. B. B. Ação afirmativa & princípio constitucional da igualdade: o direito como


instrumento de transformação social: a experiência dos EUA. Rio de Janeiro: Renovar, 2001.
KOSIK, K. A dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

LOPES, C. (Org.). Cotas raciais: por que sim? 2. ed. Rio de Janeiro: Ibase : Observatório da
Cidadania, 2006. Disponível em:
<http://www.ibase.br/userimages/ibase_cotas_raciais_2.pdf>. Acesso em: 30 maio 2017.

LUKÁCS, G. Ontologia do ser social: os princípios ontológicos fundamentais de Marx. São


Paulo: Ciências humanas, 1979.

NEVES, J. L. Pesquisa qualitativa: características, usos e possibilidades. Caderno de


Pesquisas em Administração, São Paulo, v. 1, n. 3, p. 1-5, 1996.

PAULO NETTO, J. Introdução ao método da teoria social. In: CFESS;ABEPSS. Serviço


Social: direitos e competências profissionais. Brasília, DF, 2009.

YIN, R. Estudo de caso: planejamento e método. Porto Alegre: Bookman, 2001.

109
REFLEXÕES SOBRE GESTÃO

Ana Luiza Cruz Abramovicius *


Aurélia Garcia Gomes **
Barbara de Freitas do Amaral ***
Maria José de Oliveira Lima ****

Resumo: O conceito de gestão se entende a respeito da condução dos destinos das


organizações, na qual leva em consideração o todo em relação com as suas partes,
promovendo maior efetividade do conjunto. A pesquisa de modo geral passa a refletir e
compreender que a gestão tem a lógica de ser orientada pelos princípios democráticos, sendo
caracterizada pela importância da participação consistente das pessoas nas decisões sobre
orientação, organização e planejamento. Permitindo superar a limitação da fragmentação e da
descontextualização e construindo a visão em conjuntos, a partir da qual se desenvolvem
ações mais articuladas e mais consistentes. A participação é imprescindível ao processo de
gestão.

Palavras-chaves: gestão. democracia. capitalismo.

INTRODUÇÃO

A pesquisa tem por finalidade refletir sobre a gestão e a importância da gestão


democrática. Para tanto houve o cuidado com o entendimento do histórico da gestão presente
na vida em sociedade e com a compreensão das caracterissticas técnicas e humanas, refletindo
e compreendendo a sua lógica democrática.
Gestão determina orientações estratégicas de futuro, na qual mobiliza pessoas em
equipes e estabelece a devida articulação para maximizar os resultados.
O conceito de gestão se entende e resulta em respeito à condução dos destinos das
organizações, que leva em consideração o todo em relação com as suas partes, de modo a
promover uma maior efetividade do conjunto. Aparecendo como superação das limitações do
conceito de administração, resultando mudanças de paradigmas, isto é, de visão de mundo e
óptica com que se percebe e reage em relação à realidade. Elaborando planos de ações,
definindo objetivos e metas a serem alcançadas, estabelecendo o trabalho que será realizado e
os responsáveis por ele, sendo o processo utilizado para atingir seus objetivos.

*
Graduanda em Direito pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/câmpus de Franca.
**
Graduanda em Serviço Social pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/câmpus de Franca.
***
Graduanda em Direito pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/câmpus de Franca.
****
Doutora em Serviço Social pela UNESP FRANCA, docente do Programa de Pós-Graduação em Serviço
Social e Curso de Graduação em Serviço Social da UNESP/câmpus de Franca.

111
O objetivo geral da pesquisa é refletir e compreender que a gestão tem a lógica de ser
orientada pelos princípios democráticos, sendo caracterizada pelo reconhecimento da
importância da participação consistente e esclarecimento das pessoas nas decisões sobre
orientação, organização e planejamento. Portanto ela permite superar a limitação da
fragmentação e da descontextualização, assim construindo a visão e orientação de conjuntos,
a partir da qual se desenvolvem ações mais articuladas e mais consistentes.
Para identificar o seu processo é preciso complementar a importância das estruturas
em que se impõem o trabalho profissional, revelando desta forma a necessidade de condução
capacitada da gestão. O processo de gestão deve argumentar em todos os níveis das
organizações, sejam privadas, públicas e até mesmo pertencente ao terceiro setor. Um aspecto
importante é se identificar para aquela finalidade proposta, independente da função exercida,
pois a questão da vocação é o mesmo que aptidão para desempenhar determinada atividade.
O gestor precisa ganhar visão completa das organizações para a sua administração de
serviços, assim efetuado com sucesso a sua função e desenvolvendo características gerenciais,
como liderança, firmeza no processo de decisões, uma boa comunicação, visões estratégicas
futuras e principalmente a ética profissional.
Focando sempre na integridade dessas habilidades obtidas, como algumas
características essenciais que seria a honestidade, a ética, a confiabilidade, a responsabilidade
e comprometimento para com um todo, frisando as pessoas envolvidas nestas organizações,
sendo participantes diretas ou indiretas.
Segundo André Luis Centofante Alves "Independente de todas as características
mencionadas, ainda cabe ao gestor desenvolver competências gerenciais classificadas em três
categorias: conhecimento, habilidades e atitudes." (ALVES, 2015, p. 79). A habilidade
técnica e humana em cada profissional "[...] envolve a capacidade de compreender e lidar com
a complexidade total de organização e de usar o intelecto para formular estratégias, analisar
problemas e tomar decisões." (MAXIMIANO, 2000, p. 42).
Definindo como imprevisível a competência da gestão, pois se completa com a ação
que é o seu ponto de referência para um todo, não adiantando planejar excelentes programas
ou projetos, não contendo um profissional com as características apresentadas, e vice e versa,
com um ótimo profissional e um programa ou projeto falho. A participação é imprescindível
ao processo de gestão.

112
VISÃO HISTÓRICA DA GESTÃO

Historicamente existem fatos de gestão em impérios, nações e cidades. Sendo


investigado até os dias atuais é constatado uma forte contribuição para o desenvolvimento
econômico e social com o passar dos tempos. Entretanto:

[...] esses predecessores empreendiam, sob condições escravistas ou outras formas


de trabalho cativo, tecnologia estacionária e ausência da necessidade capitalista de
expandir cada unidade de capital empregado, e deste modo era marcadamente
diferente da administração capitalista. (BRAVERMAN, 1980, p. 65).

Desta forma não significa que o esforço da coordenação humana no trabalho


cooperativo não existisse, pois bem antes do capitalismo encontramos este fato presente nas
administrações, exemplos disso são obras arquitetônicas, como canais de irrigação, as
pirâmides do Egito, entre vários outros, tanto na era medieval quanto antes era envolvido uma
quantidade gigantesca de trabalhadores em torno de uma mesma gestão.
O Egito antigo é um modelo clássico, pois há mais de 4.000 anos a.C. foi uma das
grandes civilizações existentes, onde mantinha um governo organizado na qual a disciplina, o
planejamento e a hierarquia sempre estavam em destaque. A criatividade marcou o império
egípcio, o empreendedorismo da gestão pode ser encontrado nas construções das cidades e
nos seus monumentos, além das áreas medicinais, culturais e artísticas.
Um exemplo primário de empreendedorismo e gestão no Egito Antigo é sobre Moisés,
que retirou Hebreus da escravidão por volta de 1.500 a.C. mesmo após conduzir milhares de
pessoas por volta de quarenta anos, ele venceu as adversidades e chegou em seu objetivo
final, liderando a multidão por meio de uma administração com questões de construção,
alimentação, legislação, saúde, comunicação, economia, entre vários outros. Podendo se
acreditar que ele tenha sido o primeiro a dar início a um processo de descentralização de
funções e divisões de trabalho, dividindo com a população a responsabilidade e a gerência de
tarefas e pessoas, se tornando o primeiro administrador da história da humanidade.
Na Idade Média a gestão era utilizada para definir quem gerenciava grandes projetos
de produção, na qual os sujeitos não assumiram os riscos dos projetos, apenas administravam
tecnicamente. Na maioria das vezes os recursos eram advindos do governo do país.
Um exemplo do final da Idade Média é Marco Polo (1254 - 1324), foi um dos
pioneiros a percorrer a Rota da Seda (espaço entre a Ásia e a Europa utilizado para comércio),
Polo assinava contratos com as capitais de ambas, sendo que por conta das suas viagens
113
aventureiras o Ocidente recebeu mais informações geográficas do Oriente, sendo que este fato
jamais havia ocorrido.
Em meados do século XVII Richard Cantillon, economista Irlandês, foi o primeiro a
diferenciar a gestão "daquele que faz acontecer no capital" para "aquele que fornece o capital",
assim investindo em projetos.
No século XIX o economista francês Jean-Baptiste Say colocou o empreendedorismo
dentro do desenvolvimento econômico, assim iniciando a gestão na economia. O austríaco
Joseph Alois Schumpeter (1883 – 1950), foi um dos maiores economistas do século,
reconhecia a gestão como uma forma de se criar novos produtos e serviços, assim organizando
novos recursos materiais.
O século XX foi o maior inovador, por conta da quantidade de gestores
empreendedores nas inovações revolucionárias do mundo, exemplos disso são: Sergey Brin e
Larry Page (Google), Bill Gates (Microsoft) e Steve Jobs (Apple, Pixar, NeXT).
Segundo Chiaventao em seu livro Gestão de Pessoas, o autor define através de gráfico
modelo gestão em diferentes séculos e eras.

MODELOS DE GESTÃO EM DIFERENTES SÉCULOS


Século XX Século XXI
Estabilidade Melhoria Contínua
Comando e controle de cima para baixo Liderança
Rigidez Organizacional Flexibilidade permanente
Informações em segredo Informações compartilhadas
Necessidade de certeza Tolerância á ambiguidade
Foco na organização inteira Foco no ambiente competitivo
Orientação para o mercado nacional Foco internacional
Competição por mercados atuais Hiper Concorrência por mercados futuros
Fonte: (CHIAVENATO, 2010, p. 39).
MODELOS DE GESTÃO EM DIFERENTES ERAS
ERAS Era Clássica Era Neoclássica Era da Informação
PERÍODOS 1900 – 1950 1950 – 1990 Após 1990
Estrutura organizacional Burocrática, funcional, Mista, matricial, Fluida, ágil e flexível.
predominante. centralizadora, estratégias de negócios.
inflexível.
Cultura organizacional Foco no passado e nas Foco no presente e no Foco no futuro e no
predominante. tradições. atual. destino.
Ambiente Organizado. Estatístico, poucas Aceleração das Com intensas mudanças.
mudanças. mudanças.
Modos de lidar com as Pessoas como fatores Pessoas como recursos Pessoas como seres
pessoas. de produtos inertes e organizacionais que humanos proativos.
estatísticos. devem ser
administrados.
Administração de Relações industriais. Administração de Gestão de Pessoas.
pessoas. recursos humanos.
Fonte: (CHIAVENATO, 2010, p. 40).

114
Em décadas anteriores, marcadas pelo conservadorismo, a gestão tinha um papel de
lentidão nos processos de mudanças e seu autoritarismo, funcionava em torno da conservação
e permanente de processos sociais estabelecidos, em detrimento da efetivação de seus
objetivos.

GESTÃO NO SÉCULO XXI

A gestão se torna cada vez mais necessária por conta do momento histórico em que
nos encontramos, considerando que a concorrência, a tecnologia e a globalização estão cada
vez mais avançados e geram impactos profundos nas questões sociais, econômicas e políticas.
Para Tenório (20016, p. 11):

Desde o fim da II Guerra Mundial, o mundo passou pelas mais profundas


transformações de sua história. Assistimos à emergência de novos centros de poder
econômico e político, a revolução nas comunicações, ao aumento da produtividade
industrial e agrícola, assim como da urbanização. Este mesmo desenvolvimento
produziu o aumento da pobreza, da violência, de doenças e da poluição ambiental,
além de conflitos religiosos, étnicos, sociais e políticos.

A gestão define e planeja as metas para os trabalhadores e quem seriam estes


responsáveis, após todo o planejamento, encontramos a organização que estabelece o trabalho
que será realizado. O controle tem o intuito de garantir que as metas definidas sejam
concluídas.
Segundo Alves (2015, p. 77):

O gestor tem que ganhar visão completa da organização enquanto referência para a
administração dos seus serviços. Para que efetue com sucesso a sua função é preciso
desenvolver algumas características gerenciais como: liderança, autoridade, senso de
organização administrativa, disciplina, firmeza no processo de tomada de decisões,
boa comunicação, visão estratégica.

Contudo Alves (2015, p. 78), pontua:

[...] faz parte dessas habilidades algumas características pessoais tais como:
honestidade, a ética, a confiabilidade, o bom procedimento, a responsabilidade e o
comprometimento para organização como um todo, incluindo o respeito às pessoas
que dela participam.

A neutralização de sua resistência para as condições de trabalho que foram impostas


pelo capital, é sempre buscada pela gestão que essencialmente controla o trabalho. Braverman
115
cita "[...] o controle é, de fato, o conceito fundamental de todos os sistemas gerenciais, como
foi reconhecido implícita ou explicitamente por todos os teóricos da gerência."
(BRAVERMAN, 1980, p. 68).
Paro (2012, p. 81), pontua sua visão sobre a gestão na qual é inevitável não passar pela
valorização do capital e até mesmo o processo de exploração da força de trabalho: “A
necessidade da gerência, enquanto controle do trabalho, se deve ao fato de ser o processo de
produção capitalista, inevitavelmente, processo de valorização do capital e, ao mesmo tempo,
processo de exploração da força de trabalho”
A transformação do trabalho se torna um fenômeno geral na sociedade capitalista, se
restringindo apenas às empresas produtoras de bens, sendo que a gestão é apenas um
complemento, com uma forma exclusiva e predominante. Seria mais correto apresentar no
capitalismo moderno, o capitalismo verdadeiro que passa a não ser o empresário individual,
mas a empresa em si.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A gestão realizada atualmente é um produto de longa evolução histórica e consigo tem


marcas das condições sociais e dos interesse políticos da sociedade como um todo. Para
melhor entendê-la é precisa estudá-la desde o início, independente de qualquer estrutura
social. Desta forma encontramos uma gestão voltada para o capital, pontuando que em seu
sentido geral e histórico ela foi determinada pelas relações econômicas, políticas e sociais que
vivenciam o modelo capitalista. Por isso a importância de abstrair determinações
historicamente situadas, para captá-la em sua essência e o que ela tem de específico.

Do ponto de vista da práxis humana, total, que se traduz na produção ou autocriação


do próprio homem, a práxis criadora é determinante, já que é exatamente ela que lhe
permite enfrentar novas necessidades, novas situações. O homem é o ser que tem de
estar inventando ou criando constantemente novas soluções. Uma vez encontrada
uma solução, não lhe basta repetir ou imitar o que ficou resolvido; em primeiro
lugar, porque ele mesmo cria novas necessidades que invalidam as soluções
encontradas e, em segundo lugar, porque a própria vida, com suas novas exigências,
se encarrega de invalidá-las. Mas as soluções alcançadas tem sempre, no tempo,
certa esfera de validade, daí a possibilidade e a necessidade de generalizá-las e
entendê-las, isto é, de repeti-las enquanto essa validade se mantenha. A Repetição se
justifica enquanto a própria vida não reclama uma nova criação. O homem não vive
um constante estado criador. Ele só cria por necessidade; cria para adaptar-se a
novas situações ou para satisfazer novas necessidades. Repete, portanto, enquanto
não se vê obrigado a criar. Contudo, criar é para ele a primeira e mais vital
necessidade humana, porque só criando, transformando o mundo, o homem – como

116
salientaram Hegel e Marx através de diferentes prismas filosóficos - faz um mundo
humano e se faz a si mesmo. (SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 1977, p. 247-248).

Nas sociedades de classes, o poder está confinado na minoria, que tem servido a classe
dominante para se prolongar o máximo de domínio. Contudo não significa que a gestão não
possa transformar este contexto a favor das classes subalternas, desde que suas
potencialidades sejam aproveitadas nos seus interesses. Sendo necessário uma gestão elevada
de caráter espontâneo progressista, sendo uma práxis reflexiva revolucionária, frisando a
importância no processo de conhecimento das condições concretas em que a gestão se
enquadra na sociedade.
O capitalismo não muda o processo de trabalho. O produtor agora empregado pelo
capital, continua seu oficio da mesma maneira, quando lhe tinha condições objetivas de
trabalho. Os instrumentos de trabalhos sao os mesmo, onde se cumpre a mediação do homem
e o objeto de trabalho. A diferença se encontra e a quem pertence o produto de seu trabalho, o
capitalista detém a propriedade dos meios de produção.
Os primeiros tempos de capitalismo tem por base a produção da mais valia absoluta
"[...] expressão material da subsunção formal do trabalho ao capital" (MARX, 1978, p. 56), na
qual se conjuga de forma extrema, além de prolongar a permanência do trabalhador e o
serviço do capital. Com a luta incansável dos trabalhadores por melhorias nas suas condições
de trabalho, o capitalismo passa a disponibilizar meios mais efetivos para a sua expansão
contínua, mediante o aumento da produtividade do trabalho.
Marx entendeu e explicou uma espécie particular de cooperação para que assim tenha
a divisão manufatureira do trabalho "[...] forma de trabalho em que muitos trabalham
planejadamente lado a lado e conjuntamente, no mesmo processo de produção ou em
processos de produção diferentes, mas conexos." (MARX, 1983, p. 259).
A concorrência conclui que desde os primeiros tempos capitalistas, vem aumentando o
número de produtores que trabalham cooperativamente, o esforço humano coletivo vem se
tornando uma tarefa mais complexa, na qual envolve quantidades crescentes de pessoas que
manipulam volumes cada vez maiores de produção.

REFERENCIAS

ALVES, A. L. C. Gestão de Organizações não governamentais. Curitiba: CRV, 2015.

BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.


117
CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas o novo papel dos recursos humanos nas
organizações. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

LUCK, H. Gestão educacional uma questão paradigmática. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

MARX, K. O capital. Sao Paulo: Ciências Humanas, 1978. L. 1.

______. O capital: critica da economia politica. Sao Paulo: Abril Cultura, 1983.

MAXIMIANO, A. C. A. Introdução a administração. 5. ed. Sao Paulo: Atlas, 2000.

PARO, V. H. Gestão democrática da escola pública. 3. ed. Sao Paulo: Atica, 2008.

______. Administração escolar introdução critica. 17. ed. Sao Paulo: Cortez, 2012.
PAULO NETTO, J. Introdução ao estudo do método de Marx. Sao Paulo: Expressão
Popular, 2011.

SÁNCHEZ VÁZQUEZ, A. Filosofia da práxis. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

TENÓRIO, F. G. Gestão de ONGs principais funções gerenciais. 10. ed. Rio de Janeiro: Ed.
FGV, 2006.

118
COMO SE FABRICA UM CONVÊNIO DE FINANCIAMENTO?

Lecy Sartori*

Resumo: Este trabalho analisa a política de financiamento estabelecida no convênio de


cogestão entre a Secretaria Municipal de Saúde de Campinas e o Serviço de Saúde Dr.
Cândido Ferreira (SSCF) desde 1990. Meu intuito é descrever o modo como a fabricação do
convênio foi atravessado por normatizações ministeriais que visam fazer a gestão de contratos
públicos de financiamento de empresas privadas. De forma mais especifica, pretendo destacar
a ação estatal por meio de uma técnica de governo mediada por práticas de auditoria que
direcionam o investimento do recurso para a política de saúde mental. A etnografia foi
realizada (entre os meses de março de 2011 e maio de 2012) na Comissão de
Acompanhamento do Convênio, na Comissão de Moradias, nas reuniões da equipe do Serviço
Residencial Terapêutico (SRT), (em novembro e dezembro de 2016) no Centro de Atenção
Psicossocial Infantil (CAPSi) Carretel e no Centro de Convivência (CECO) Espaço das Vilas.
O recurso do convênio foi investido na reforma do modelo psiquiátrico que produziu a
reabilitação dos internos, o Projeto Terapêutico Individual e uma rede de serviços. Com esta
comunicação, pretendo destacar as atualizações normativas do repasse financeiro e descrever
seus efeitos na forma de organização institucional. A Lei Orgânica da Saúde por meio do
decreto n. 7.508/2011 regularizou os contratos de financiamentos de Organizações Não
Governamentais (ONGs), que em seus efeitos transformou o SSCF, considerado um ente de
cooperação, em uma instituição prestadora de serviços. Segundo os profissionais do SSCF,
interlocutores dessa pesquisa, as novas normas governamentais produzem a diminuição do
financiamento, da autonomia institucional, da qualidade da assistência e demissões de
profissionais capacitados. Além disso, o repasse de recurso mediante ao “chamamento
público” não prevê o financiamento de inovações das práticas e a produção de saberes sobre a
assistência.

Palavras-chave: etnografia. política de financiamento em saúde mental. gestão e auditoria.

INTRODUÇÃO

Este trabalho analisa a política de financiamento estabelecida por meio de um


convênio de cogestão entre a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Campinas e o Serviço

*
Doutora em antropologia pelo Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de
São Carlos (UFSCar). Pós-doutoranda do Instituto de Saúde e Sociedade da Universidade Federal de São
Paulo (UNIFESP). Professora substituta do Departamento de Educação, Ciencia Politica e Políticas Públicas
da UNESP/Câmpus Franca.

119
de Saúde Dr. Cândido Ferreira (SSCF). O primeiro convênio que o SSCF firmou com a
Prefeitura é datado de 1990.
A Lei municipal no 6.215, de 9 de maio de 1990 (publicada no dia seguinte), autorizou
a Prefeitura Municipal de Campinas a celebrar convênio com o Sanatório Dr. Cândido
Ferreira — antigo Sanatório para Doentes do Arraial de Sousas e atual Serviço de Saúde Dr.
Cândido Ferreira, localizado no distrito de Sousas, município de Campinas. A Lei do
Convênio, como os meus interlocutores se referiam a ela, afirma, em seu artigo 2 o, que o
objetivo do convênio é a “administração conjunta” dessa instituição, “[...] que passa a se
integrar ao Sistema Municipal de Saúde e atender clientela universalizada”; e, em seu artigo
5o, que ele “[...] terá prazo de validade de 1 (um) ano, a partir da data de sua assinatura,
podendo ser prorrogado por prazo indeterminado” (PREFEITURA MUNICIPAL DE
CAMPINAS, 1990). Com o respaldo da lei, em 23 de julho daquele ano foi assinado o
Convênio de Cogestão da saúde mental, que, em sua cláusula primeira, reitera o mesmo
objetivo (PREFEITURA MUNICIPAL DE CAMPINAS; CASA DE SAÚDE DR.
CÂNDIDO FERREIRA, 1990).
O investimento financeiro por meio do convênio possibilitou aos profissionais do
SSCF promoverem a reforma em seu modelo de assistência. As mudanças mais visíveis se
referem ao processo de humanização1, que implicava na reforma dos espaços de confinamento
manicomial para proporcionar um local de habitação, e mesmo de morte, que fosse higiênico
e confortável para os internos2; na extinção progressiva de práticas violentas, quando usadas
para punir os pacientes3 (cela forte, camisa de força, lobotomia e eletrochoque); em
modificações no ambiente hospitalar, que produziram, entre outras coisas, a extinção da
separação dos pacientes por gênero e a instauração de novas formas de intervenção
terapêutica. Essas práticas não investiam na reprodução da ala hospitalar, no encerramento
manicomial, na cura dos transtornos mentais ou em tratamentos coletivos e disciplinares. De

1
A humanização, segundo a Política Nacional de Humanização (PNH), é um jogo ético (ao produzir um
compromisso e uma responsabilidade), estético (ao produzir subjetividades autônomas) e político (ao
participar como sujeito autônomo, implicado e responsável pela gestão do SUS). A PNH orienta as práticas em
saúde, que devem ser formuladas a partir dos aspectos subjetivos dos seus cidadãos, considerando as suas
necessidades sociais e os seus desejos, e afirma o “Compromisso com a democratização das relações de
trabalho e valorização dos trabalhadores da saúde, estimulando processos de educação permanente em saúde.”
(BRASIL, 2008, p. 22).
2
Internos são as pessoas que residem no hospital psiquiátrico.
3
Nesta tese, os substantivos usuário, morador, paciente,em itálico, são termos acionados pelos meus
interlocutores para se referirem às pessoas cuidadas em serviços da rede de assistência do SSCF.
Paciente,aqui, não tem o sentido depreciativo de pessoa passiva e doente; ele é assistido e participa do seu
processo de tratamento. Redede assistência e profissionais, em itálico, referem-se, respectivamente, aos
serviços gerenciados pelo SSCF e às pessoas que neles trabalharam/trabalham.
120
forma geral, para que a reforma no modelo assistencial fosse possível, o SSCF investiu em
ações de reabilitação4dos internos e na produção da subjetividade dos profissionais, na
intenção de capacitá-los para atuar nesse novo contexto de práticas.
Em seu estatuto, o SSCF é descrito como uma associação de assistência de caráter
público regida pelo direito privado. Isso é o mesmo que afirmar que o SSCF oferece
atendimento gratuito orientado pelos princípios de controle social do SUS, mas não se
submete às normas jurídicas do direito público.
Durante a pesquisa de campo, acompanhei as negociações do convênio renovado em
maio de 2012, com vigência de doze meses e início previsto para junho daquele ano. O
convênio era composto pelos seguintes documentos: Termo do Convênio; Plano de Trabalho
do Programa de Parceria na Assistência em Saúde Mental; Balanço Econômico-Financeiro;
Relatório de Atividades 2011 e Plano de Ação e Metas das Atividades a Serem Desenvolvidas
Durante o Ano de 2012.O Termo do Convênio era um contrato, seu texto era formatado em
cláusulas numeradas e divididas em blocos (Do Objeto, Das Condições Gerais, Da Comissão
de Acompanhamento, Dos Distritos de Saúde, Das Atribuições, Dos Recursos, Da
Autorização de Pagamento, Do Controle, Avaliação e Fiscalização). O Plano de Trabalho do
Programa de Parceria na Assistência em Saúde Mental (ao qual meus interlocutores se
referiam como Plano de Trabalho) descrevia as metas por meio de indicadores (qualitativos e
quantitativos) de acompanhamento, que seriam examinados mensalmente pelos integrantes da
Comissão de Acompanhamento do Convênio. O Balanço Econômico-Financeiro, que
continha os dados contábeis do ano anterior, já fora aprovado por uma auditoria externa e
apresentava os indicadores de custo-efetividade dos projetos assistenciais (custos
operacionais, custo por setor, custo por tipo de despesa, custo por usuário, resumo da folha de
pagamento, relatório de custo por convênio). O Relatório de Atividades e o Plano de Ação e
Metas das Atividades a Serem Desenvolvidas Durante o Ano de 2012 detalhavam as
atividades desenvolvidas em cada serviço e os objetivos futuros.
Ao todo, foram estabelecidos seis convênios de financiamento na saúde mental: o de
1990 e, em seguida, foram ratificados os contratos em 1996, 2000, 2002, 2007 e 2012. Como
uma das obrigações dele decorrentes, o SSCF encaminha relatórios mensais e/ou semestrais
para o Ministério da Saúde e para a Secretaria de Saúde, e a prefeitura apresenta um relatório

4
A Declaração de Consenso em Reabilitação Psicossocial da Organização das Nações Unidas define o
procedimento de reabilitação como um processo que auxilia a criação de oportunidades e/ou de ações que
previnem ou reduzem as incapacidades associadas a desordem mental (WORLD HEALTH ORGANIZATION,
1996, p. 2).
121
anual ao Conselho Municipal de Saúde, referente à prestação de contas. A periodicidade dos
relatórios (mensais e/ou semestrais) consta no Plano de Trabalho dos serviços de saúde —
tratam-se de documentos elaborados por cada um deles sobre a assistência realizada, que
serve como dado para a elaboração da prestação de contas. Além dos relatórios, outros
documentos podem ser solicitados pela Secretaria de Saúde.
O documento do convênio é elaborado anualmente pelos gestores do SSCF junto com a
Coordenação Municipal de Saúde Mental, depois é negociado com os administradores
daquela secretaria e apresentado ao Conselho Municipal de Saúde. Se aprovado por este, é
encaminhado ao prefeito para a assinatura.No convênio votado em maio de 2012 (no valor
mensal de quatro milhões, trezentos e oitenta mil, trezentos e setenta e seis reais e trinta e dois
centavos), o SSCF assinou um novo contrato de financiamento.
Durante a pesquisa de campo, arede de assistênciaem saúde mental de Campinas era
composta por diferentes serviços e dividia-se entre os gerenciados pelo SSCF e os
gerenciados pela prefeitura. Os de responsabilidade daquele eram os seguintes: os centros de
Atenção Psicossocial (CAPS III) Esperança, Estação e Antônio da Costa Santos, os centros de
Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAPS Ad) Independência e Antônio Orlando,
os centros de convivência Casa dos Sonhos, Rosa dos Ventos e Espaço das Vilas, o Núcleo de
Oficinas e Trabalho, o Núcleo de Retaguarda5, o Núcleo de Comunicação (Rádio Online
Maluco Beleza, jornal impresso C@ndura e as atividades do Ponto de Cultura Maluco
Beleza), o Cândido Fumec6 e o SRT. Essa configuração da rede atendia mais de sete mil
usuários (SERVIÇO DE SAÚDE DR. CÂNDIDO FERREIRA, 2013b, p. 5).

OBJETIVOS

Objetivo Geral e Específico

O objetivo geral deste texto é apresentar como se configura o convênio de cogestão.


Além disso, procuro descrever o modo como essa relação de produção de convênios de

5
Em maio de 2009, o Núcleo de Retaguarda foi organizado como unidade de internação, agregando o Núcleo
Clínico, o Núcleo de Atenção à Crise (NAC) e o Núcleo de Atenção a Dependentes Químicos (Nadeq). Uma
única equipe circula entre esses três espaços de internação do SSCF em Sousas (SERVIÇO DE SAÚDE DR.
CÂNDIDO FERREIRA, 2012b).
6
Antigamente Cândido Escola e hoje Fundação Cândido Fumec, essa instituição foi criada com o objetivo de
formação dos profissionais, e funcionava em uma sala de aula no interior da ala Paraíso (uma das alas do
hospital psiquiátrico do SSCF). Em vista do crescente interesse pelo curso de alfabetização, principalmente
dos pacientes, foram criadas turmas para eles, e a escola acabou sendo deslocada para fora da instituição.

122
financiamento foi atravessada por normatizações ministeriais que visam fazer a gestão de
contratos públicos de financiamento de empresas privadas que atuam no campo da saúde.
De forma mais especifica, pretendo destacar a ação estatal por meio de uma técnica de
governo mediada por práticas de auditoria que direcionam o investimento do recurso. Com
isso, pretendo destacar as atualizações normativas do repasse financeiro e descrever seus
efeitos na forma de organização institucional.
Trata-se de explorar, principalmente, a atualizações normativas apresentada no
Decreto n. 7.508/2011, da Lei Orgânica da Saúde,que regularizou os contratos de
financiamentos de Organizações Não Governamentais (ONGs), que em seus efeitos
transformou o SSCF, considerado um ente de cooperação, em uma instituição prestadora de
serviços.

METODOLOGIA

A metodologia empregada foi a pesquisa de campo realizada na Comissão de


Acompanhamento do Convênio, na Comissão de Moradias, nas reuniões da equipe do Serviço
Residencial Terapêutico (SRT), num curso de capacitação para os profissionais desse serviço
e num evento comemorativo dos 20 anos de sua implementação.
Neste texto exploro os dados de pesquisas de campo realizadas, primeiramente, na
pesquisa de doutorado entre os meses de março de 2011 e maio de 2012. Além do material
etnográfico mais recentes coletado na pesquisa de pós-doutorado nos meses de novembro e
dezembro de 2016, no Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) Carretel e no Centro
de Convivência (CECO) Espaço das Vilas. As duas instituições compõem a rede de
assistência do SSCF.

DISCUSSÃO TEÓRICA

Nesta parte, apresento como a ação estatal por meio de uma técnica de governo
mediada por práticas de auditoria direcionam o investimento do recurso destinado à saúde
mental. Aciono o termo governo no mesmo sentido analisado por Foucault (2011, p. 53) e
descrito como uma estratégia, um mecanismo, um procedimento para dirigir os homens; suas
táticas compõem o Estado e acionam dispositivos de segurança para avaliar os custos,

123
administrar os riscos, antever os acontecimentos e controlar a população, que se transforma
em alvo das políticas (FOUCAULT, 2006, p. 303).
Em junho de 2012 foi assinado um novo convênio de financiamento entre a Prefeitura
de Campinas e o SSCF, no qual este assumiu, também, a gestão compartilhada de outros
serviços de saúde mental. Em uma reunião realizada em março daquele ano, André Fonseca
(Diretor Financeiro do SSCF), ao falar sobre a privatização que havia sido proposta pela
prefeitura, disse que se a instituição não assumisse os novos serviços de referência da rede de
saúde mental poderia colocar-se em risco, pois isso poderia acarretar o rompimento da
parceria com a prefeitura — havia a possibilidade de esta encontrar outra instituição para
firmar um convênio. Por outro lado, existia o risco de aceitar a administração dos serviços e
perder a autonomia de decisão, já que, mesmo contratados pelo SSCF, os profissionais
estariam fixados à estrutura organizacional da Secretaria de Saúde. A instituição estava
pensando nesse rearranjo como uma estratégia,acreditando que, ao aceitar fazer a
administração, teria maior poder de negociação com a secretaria, uma vez que aumentaria o
número de trabalhadores da saúde mental sob a sua gestão.
Em uma reunião do Colegiado Gestor, em julho de 2011, os atores discutiram a
possibilidade de o SSCF estabelecer o convênio e a sustentabilidade deste. Em sua exposição,
Fonseca afirmou:

Reitero que o caminho mais efetivo para a manutenção dos projetos é o


aprofundamento na relação de cogestão com a Secretaria e que isso significa
diminuir a margem de autonomia. Por outro lado, instâncias como o DGDO
[Departamento de Gestão e Desenvolvimento Organizacional] não têm se
aproximado de espaços como o Conselho Diretor para ajudar a instituição a
encontrar caminhos e respostas para as necessidades que estão em discussão. Como
não se paralisar nessa conjuntura? Se perdermos a autonomia aumenta a nossa
solidão. (Ata da reunião do Colegiado Gestor do SSCF, 11/7/2011).

Nessa reunião, a gestora de um centro de convivência afirmou que era importante a


“instituição ter uma certa autonomia e que isso não invalida a relação de cogestão”, e que os
profissionais deveriam ser cautelosos com as resoluções discutidas nos distritos como eram
com o convênio: “[...] não devemos perder de vista que estar próximos dos distritos na
condução dos combinados é essencial.” (Ata da reunião do Colegiado Gestor do SSCF,
11/7/2011). Participar da reunião do distrito e acompanhar os acordos eram tão importantes
quanto assegurar a autonomia na relação de convênio.
Telma Palmieri, presidente do Conselho Diretor do SSCF, me contou, em uma
conversa informal, que no começo do convênio a instituição era mais autônoma: na década de
124
1990, apresentava a prestação de contas referente ao convênio e não era obrigada a esclarecer
todos os gastos antecipadamente, por meio de um projeto; os profissionais eram mais livres
para assumir certos riscos e direcionar o uso do recurso para outros projetos que o convênio
não previa; e o recurso podia ser investido em um problema mais urgente e reposto no projeto
de financiamento seguinte. Pude depreender, por nossa conversa, que naquela época eram
investidos mais recursos nos projetos de reforma e na inventividade dos profissionais, e,
consequentemente, ocorreram mudanças mais visíveis no modelo de assistência psiquiátrica e
a criação de novos serviços.
No Convênio de Cogestão renovado em 2012, além da prestação de contas, o SSCF
planejou a destinação do recurso em um plano de trabalhoanual, ou seja, previu os gastos, que
foram avaliados como um investimento da administração pública. O orçamento foi verificado
e a negociação girou em torno da aplicabilidade do recurso. De fato, nessa configuração, a
mudança na forma de acessar o financiamento permitia aos administradores municipais
requisitarem informações e questionarem determinados gastos, na intenção de reduzir os
custos. Havia insistência dos gestores da instituição em explicitar a necessidade do recurso
para manter uma rede de assistênciade qualidade e, principalmente, investir em novos
projetos, que emergiam das experiências locais e, por vezes, não estavam contemplados nas
portarias ministeriais.
Esse jogo nas negociações apresenta uma mudança na forma de o SSCF acionar o
financiamento e explicita uma maneira de fazer política por meio da burocracia formatada no
texto do Convênio de Cogestão. Além disso, a política de financiamento em saúde é
atravessada por práticas de visibilidade, de avaliação, de transparência e pela sistematização
de práticas de auditoria que aumentam o controle estatal sobre a distribuição do recurso
público. Ao acionar a estratégia da transparência, meus interlocutores apresentavam os dados
exigidos pelas normatizações ministeriais, e seu objetivo era expor o bom funcionamento
institucional para afirmar que o SSCF era confiável e estava apto a receber recurso público.
Vê-se como o Ministério da Saúde governa ao conduzir as ações da Reforma
Psiquiátrica: monitorando a gestão dos recursos através da avaliação do desempenho
institucional e acionando práticas de cálculo a partir dos indicadores de desempenho com o
objetivo de mensurar e, ao mesmo tempo, de reformar organizações de saúde pública. Assim,
ele intensifica a produtividade institucional e direciona a conduta dos trabalhadores em saúde
mental, que são legitimadas por ações de transparência e de responsabilização. Vemos, aqui, o

125
funcionamento do que alguns antropólogos chamam de “cultura de auditoria” (STRATHERN,
2000a; SHORE, 2009).
Em suas análises sobre a “cultura de auditoria”, Strathern (2000b) expõe o
funcionamento de técnicas e princípios de avaliação, de auditoria financeira e de transparência
que eram acionados no sistema acadêmico do Reino Unido, e descreve como o sistema de
avaliação intensificou as suas práticas e investiu não apenas no exame individual, mas
também na avaliação do desempenho da estrutura organizacional, considerada responsável
por viabilizar um bom desempenho dos alunos (STRATHERN, 1999, p. 19). A prática de
avaliação implicava na produção de um sentimento de confiança tanto nas pessoas nela
envolvidas como para mostrar que a instituição era confiável; em contrapartida, ao expor a
transparência para afirmar ser a instituição confiável, poderia despertar falta de confiança
(STRATHERN, 2000c, p. 310). No meu campo de pesquisa, o pedido de auditoria externa, se
acionado no discurso dos gestores do SSCF, afirmava que este era confiável, mas, se a sua
necessidade fosse atestada pela Secretaria de Saúde, isso era visto como desconfiança dela em
relação aos processos de gestão do recurso público (cf. Ata da reunião do Colegiado Gestor do
SSCF, 11/07/2011).
De fato, acionar o documento de auditoria era atestar a transparência das ações éticas
referentes às demonstrações contábeis — e os atores da Comissão de Acompanhamento do
Convênio o acionavam como estratégia política para certificar que o SSCF cumpria com
aquilo que estava combinado no convênio.As práticas de auditoria não são apenas o
aperfeiçoamento de técnicas gerenciais que procuram otimizar as relações de cuidado e a
organização institucional, mas ações de uma política de controle gerencial e de regulação das
novas experiências de Reforma Psiquiátrica.
No caso do SSCF, as práticas de auditoria aumentaram o controle e promoveram um
rearranjo institucional visando produzir documentos que tornem visíveis os processos que
atestam a sua eficiência para receber o financiamento. Em um primeiro momento, tem-se a
impressão que o aumento de tecnologias de cálculo e de avaliação diminui a autonomia do
SSCF com relação à destinação do financiamento para os projetos assistenciais. A constatação
de que o aumento das formas de avaliação e controle diminui a autonomia institucional já foi
analisada por teóricos da cultura de auditoria.

126
Os estudos antropológicos sobre a “cultura de auditoria”7 (STRATHERN, 2000b)
apontam para a conexão entre os exames das atividades, as formas de quantificação numérica
dos resultados e a sua escrita, que disponibiliza os dados para as inspeções (STRATHERN,
1999, p. 17). De acordo com Shore (2009), a auditoria não é só uma prática, mas uma “[...]
idéia, um processo e um conjunto de técnicas gerenciais.” (SHORE, 2009, p. 48; grifo do
autor) disseminados em diferentes contextos e utilizados para “[...] medir e monitorar
virtualmente todos os aspectos da vida social e profissional.” (SHORE, 2009, p. 29).
A partir da expansão das práticas de avaliação, os profissionais executam o exame das
intervenções de cuidado, de sua atuação,da organização e do funcionamento da equipedas
moradias com a finalidade de produzir práticas de governo mais eficazes para a reabilitação
dos internos. A reforma institucional produziu o encontro entre a disseminação de técnicas de
auditoria e as práticas clínicas, ou melhor, no desenvolvimento e na experimentação da
relação de cuidado aconteceu a expansão de práticas de auditoria no SSCF.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apresentei, neste texto, a configuração do convênio de cogestão do SSCF. Descrevi


como essa relação de parceria estabelecida com a prefeitura de Campinas incide sobre a
organização institucional. Destaquei o modo como as normatizações estatais direcionam as
ações da reforma institucional por meio de técnicas de governo e práticas de auditoria que
dirigem a forma de investimento do recurso público. Isso implica, segundo meus
interlocutores de pesquisa, em uma diminuição da autonomia da instituição, diminuição do
recurso de uma forma geral e também o recurso destinado para a elaboração de novas
práticas, saberes e ações criativas acionadas para resolver os problemas institucionais
cotidianos.
No mês de maio de 2017, a prefeitura municipal de Campinas publicou o
“chamamento público” para empresas privadas assumirem a assistência de serviços desaúde
mental. O SSCF recorreu e aguarda os desdobramentos de sua nova configuração como uma
instituição prestadora de serviços.

7
As primeiras publicações que analisaram e detalharam a cultura de auditoria datam do fim da década de 1990:
ver Strathern (1999), Shore e Wright (1999), e os trabalhos apresentados na coletânea Auditcultures:

127
REFERÊNCIA

BRASIL. Ministério da Saúde. HumanizaSUS: documento base para gestores e trabalhadores


do SUS. 4. ed. Brasília, DF, 2008. (Série B. Textos básicos de saúde). Disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/humanizasus_gestores_trabalhadores_sus_4ed.pd
f>. Acesso em: 5 jun. 2015.

FOUCAULT, M. Estratégia, poder-saber. Organização e seleção de textos, Manoel Barros


da Motta; tradução de Vera Lucia Avellar Ribeiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006.
(Ditos e escritos, 4).

______. Do governo dos vivos: curso no Collège de France, 1979-1980: excertos. Tradução e
transcrição de Nildo Avelino. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Centro de Cultural Social; Rio de
Janeiro: Achiamé, 2011.

PREFEITURA MUNICIPAL DE CAMPINAS; CASA DE SAÚDE DR. CÂNDIDO


FERREIRA. 1990. Convênio que entre si celebram a Prefeitura Municipal de Campinas
e a Casa de Saúde Dr. Cândido Ferreira, para estabelecimento de um funcionamento e
gerenciamento comum de suas atividades. Campinas, 23 jul. 1990. Disponível em:
<http://www.candido.org.br/dmdocuments/2013/09/convenio_sscf_1990.pdf?sscfdt=1386070
844029>. Acesso em: 12 jun. 2015.
SARTORI, Lecy. A política de financiamento de uma tecnologia de cuidado: etnografia do
processo de reforma psiquiátrica do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira. 2015. 291f. Tese
(Doutorado em Antropologia Social) - Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2015.

SERVIÇO DE SAÚDE DR. CÂNDIDO FERREIRA. Relatório de atividades 2011 e plano


de ação e metas das atividades a serem desenvolvidas durante o ano de 2012. Sousas:
Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, 2012.

______. Relatório de atividades 2012 e plano de ação e metas das atividades a serem
desenvolvidas durante o ano de 2013. Câmpinas, 2013. Disponível em:
<http://www.candido.org.br/files/2013/relatorio_final_atividades_candido_ferreira_2012.pdf>
. Acesso em: 11 jun. 2015.

SHORE, C. Cultura de auditoria e governança iliberal: universidades e a política da


responsabilização. Revista Mediações: Dossiê: C&T – Análises sobre a cultura da avaliação
na produção acadêmica, Londrina, v. 14, n. 1, p. 24-53, jan./jun. 2009.

______.; DURÃO, S. From a political anthropology to an anthropology of policy: interview


with Cris Shore. Etnográfica, Lisboa, v. 14, n. 3, p. 595-614, out. 2010. Disponível em:
<http://etnografica.revues.org/220>. Acesso em: 16 maio 2013.

______.; WRIGHT, S. Audit culture and anthropology: neo-liberalism in British higher


education. The Journal of the Royal Anthropological Institute, London, v. 5, n. 4, p.557-
575, 1999.

anthropologicalstudies in accountability, ethicsandtheacademy, organizada por Strathern (2000).

128
STRATHERN, M. “Melhorar a classificação”: avaliação no sistema universitário britânico.
Novos Estudos, São Paulo, n. 53, p. 15-31, mar. 1999.

______. Accountability… andethnography. In: ______. (Ed.). Audit cultures:


anthropological studies in accountability, ethics and the academy. London: Taylor & Francis
e-Library, 2000a.

______. New accountabilities: anthropological studies in audit, ethics and the academy. In:
______. (Ed.). Audit cultures: anthropological studies in accountability, ethics and the
academy. London: Taylor & Francis e-Library, 2000b.

______. The tyranny of transparency. British Educational Research Journal, Oxfordchire,


v. 26, n. 3, p. 309-321, 2000c.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Psychosocial rehabilitation: a consensus statement.


Genève, 1996. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/handle/10665/60630>. Acesso em: 13
jun. 2015.

129
GESTÃO ESTRATÉGICA NO TERCEIRO SETOR
COMPARAÇÃO ENTRE O PLANO DE TRABALHO E O RELATÓRIO DE
EXECUÇÃO DE ATIVIDADES

José Alfredo de Pádua Guerra *


Marcelino Rodrigues de Assis Matos**

Resumo: Entidades do terceiro setor são organizações sem fins lucrativos que prestam
serviços de essencialidade públicos. Tem por objetivo melhor a qualidade de vida da
sociedade em que esta inserida. Essas entidades não possuem por pretensão substituir ou
tomar o lugar do Estado, ao contrário, buscam atuar como parceiras do mesmo. Por prestar
serviços de essencialidade públicos, justo que o Estado ao reconhecer a entidade como
parceira ajude-a na consecução dos seus fins, concedendo a mesma ajuda financeira, ou seja,
repassando recursos públicos. Importante ressaltar que dentre as principais exigências para
que haja o repasse público as entidades do terceiro setor é a elaboração do Plano de Trabalho,
o qual é o instrumento que vincula toda a execução. A falta de observação do plano de
trabalho com a execução é uma das causas que mais acarreta advertências pela fiscalização do
controle externo e em muitos casos até a proibição de recebimento de novos repasses pela
entidade, além de outras punições, como por exemplo: a devolução do recurso recebido e
gasto em inconformidade com o plano de trabalho em questão. Neste trabalho propõem-se
analisar com base em documentos de prestação de contas da entidade do terceiro setor
enviadas ao órgão concessor dos repasses, ou seja, o órgão público, se o cronograma proposto
no plano de trabalho e a execução descrita no relatório de atividades enviadas possuem
compatibilidade ou se existe alguma divergência que possa implicar apontamentos pelo órgão
fiscalizador, ou seja, o controle externo.

Palavra Chave – Repasses Públicos ao Terceiro Setor, Plano de Trabalho, Gestão Estratégica

Diante da escassez cada vez maior de recursos e diante de várias crises econômicas
que afetam constantemente as organizações, torna-se inadmissível que entidades do terceiro
setor, as quais são entidades sem fins lucrativas, quando recebedoras de recursos públicos,
tenham suas contas desaprovadas por falta de observação ao plano de trabalho proposto ou
por erros advindos de má gestão. Os recursos recebidos do Estado na maioria das vezes são o
combustível que move essas entidades, portanto é preciso que haja ótimo planejamento e uma
ótima execução desses recursos. É preciso que a gestão do terceiro setor se torne cada dia
mais estratégico, a fim de, melhor planejar, executar e controlar suas ações. E nesse intuito,

*
Professor Doutor e Orientador do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional e Políticas Públicas.
Centro Universitário Municipal de Franca (UNI-FACEF).
**
Mestrando do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional e Políticas Públicas. Centro
Universitário Municipal de Franca (UNI-FACEF).

131
este trabalho irá comparar nos documentos de prestação de contas, entidade do terceiro setor
ao órgão concessor Estado, se o cronograma descrito no plano de trabalho esta compatível
com o relatório de atividades desenvolvidas, e em caso de incompatibilidade mencioná-las.
Justifica-se o estudo uma vez que incompatibilidades entre planos de trabalho e execução dos
gastos quando constatados pode ocasionar desagradáveis surpresas dentre várias, cita se:
devolução do valor dos recursos em incompatibilidade com o plano; proibição da entidade de
receber novos recursos públicos, enquanto não der providência às solicitações, multas aos
gestores, etc.

Objetivo Geral

Comparar o plano de trabalho de uma entidade do terceiro setor com o seu relatório de
execução de atividades e analisar se o proposto no cronograma do plano de trabalho é
compatível com a execução menciona no relatório de atividades.

Objetivos Específicos

1 – Analisar o Plano de Trabalho proposto pela entidade do terceiro setor ao órgão concessor
de repasses públicos;
2 – Analisar o Relatório de Execução de Atividades da entidade do terceiro setor enviada ao
órgão concessor de recursos públicos (prestação de contas);
3 – Analisar se o Plano de Trabalho proposto e o Relatório de Execução estão compatíveis
entre si;
4 – Demonstrar possíveis divergências se houver que possam implicar em apontamentos pelo
órgão fiscalizador, o controle externo.

Metodologia

O trabalho será realizado com base em pesquisa documental e referencial


bibliográfica. Através da pesquisa bibliográfica pretende-se comentar um pouco sobre os
seguintes assuntos: repasses públicos ao terceiro setor; gestão estratégica no terceiro setor e
plano de trabalho. Já a pesquisa documental tem como pretensão comparar o plano de
trabalho (proposta da entidade terceiro setor para formulação de parceria – subvenção com o
132
Estado) e o relatório de atividades apresentado pela mesma (documento de prestação de
contas – referente à relação dos gastos executados com os repasses advindos da parceria –
subvenção). Após o levantamento dos dados, os mesmos tendem a ser analisados e discutidos,
a fim de verificar se o que foi executado no relatório de atividades está em conformidade com
o que foi proposto no plano de trabalho.

Repasses Públicos ao Terceiro Setor

O Governo na qualidade de arrecadador de impostos é o principal responsável por


gerir as necessidades da sociedade, criando mecanismos que busquem satisfazer as
necessidades destas, aplicando o valor que arrecadou na busca de melhorar a qualidade de
vida da população. Porém, seja por falta de recursos suficientes, seja por falta de eficiência,
ou por qualquer outro motivo, nem sempre o que acontece é que o Governo consegue suprir
essas necessidades.
O mercado por se originar de recursos privados e estar direcionado na obtenção de
lucro aos donos do capital, apesar de hoje em dia muito se direcionar as questões sociais,
também por si só não consegue suprir essas necessidades.
Tendo por base a preocupação com as necessidades humanas e da sociedade, surge o
“Terceiro Setor”, o qual Almeida, Espejo (2012, pág. 9) menciona que “é composto pelas
entidades privadas que atuam em atividades complementares às atividades públicas, visando o
bem comum da população, assim como amenizar os problemas sociais existentes”.
Estas entidades nasceram com o objetivo de prestar serviços públicos com maior
eficiência, visando a satisfazer as necessidades da população. Porém, por serem entidades
privadas que prestam serviços públicos e por não visarem lucro, seus recursos financeiros são
escassos e os mesmos tendem a necessitar de ajuda financeira do Estado para ajudarem a
mesma a cumprir com a sua missão.
Segundo Maia (2014, pág. 19):
O terceiro setor para dar cumprimento aos seus objetivos estatutários e se expandir,
em regra, necessita da ajuda do Estado. Porém, para o repasse de recursos públicos,
várias etapas devem ser superadas, pois, em que pese o fato dessas instituições
atuarem de modo auxiliar a Administração Pública no desempenho de seu mister,
fato é que há de se ter responsabilidade em relação ao erário, devendo se acautelar
na remessa de auxílio, subvenção, contribuição a essas instituições, que devem estar
devidamente qualificada para o recebimento. O ajuste pode assumir várias formas
(convênio, contrato de gestão, termo de parceria, ou outro), o importante é que haja
um plano de trabalho bem definido e que algumas regras sejam observadas.

133
Alguns preceitos a serem observados, Segundo o Tribunal de Contas do Estado de São
Paulo (2016, pág. 40):

I – o valor do repasse só pode contemplar o custo efetivo para atendimento das


demandas e cumprimento das metas;
II – o poder público deve calcular o custo per capita do atendimento e repassar
verbas de acordo com o volume previsto para atendimento/realizações, cujos preços
sejam compatíveis com os do mercado e/ou os fixados setorialmente;
III – a entidade não pode ser “sustentada” pelo Poder Público;
IV – o valor dos repasses presta-se, tão somente, a custear os serviços públicos por
ela assumidos e realizados;
V – na fase de planejamento do repasse, que deve necessariamente anteceder a
celebração do ajuste (Convênio, Contrato de Gestão ou Termo de Parceria) e,
mesmo antes da elaboração da lei que aprova o repasse (Auxílio, Subvenção ou
Contribuição), o Poder Público deve avaliar e efetivamente demonstrar, por meio de
relatório circunstanciado no processo próprio, as vantagens econômicas da
delegação das atividades às entidades.
VI – a administração deve comparar os custos e demais recursos que estão sendo
previstos para desenvolver a atividade a ser delegada, com os que utilizaria se as
mesmas atividades fossem realizadas diretamente, por sua própria estrutura,
devendo, para tanto, ter como parâmetro as séries históricas das mesmas atividades
realizadas por suas unidades, conforme o caso.
VII – o que importa e valida a “parceria” é a comprovação de que, naquele momento
e sob aquelas circunstâncias, obter o serviço de forma indireta é o que representa a
maior vantagem para a Administração.

Ainda segundo o Tribunal, os ajustes legalmente autorizados, se firmados, necessitam


ser precisos quanto ao seu objeto, bem como fiéis ao estabelecimento claro das metas a serem
atingidas e ainda, à existência de fato e sustentabilidade do ente parceiro, fatores estes que
permitirão acompanhamento e avaliação dos órgãos públicos e da sociedade sobre:

1 – A efetiva confiabilidade na prestação dos serviços;


2 – O atingimento dos indicadores para a aferição do cumprimento dos programas
aprovados nas peças de planejamento do governo;
3 – A otimização dos recursos;
4 – A excelência dos serviços prestados;
5 – A segurança para elaboração de pareceres conclusivos sobre a aplicação dos
recursos repassados.

Cabe aos órgãos públicos a obrigação de acompanhar e de fiscalizar os repasses


realizados às entidades do terceiro setor, assim como a sociedade por se tratar de recursos
públicos possui também o direito e o dever de fiscalizar e acompanhar a realização dos gastos.
As entidades do terceiro setor precisam cada vez mais se especializar e estar aptas a
receber repasses públicos, pois estes em alguns casos são essenciais para a sobrevivência da
entidade. Cabe aos gestores das entidades esquecer a velha forma de administrar, onde a
preocupação era apenas as receitas suprirem as despesas, e especializarem-se no sentido de
tornarem-se gestores estratégicos, terem a mente sempre focada em planejar, executar,
134
direcionar e controlar cada vez melhor os recursos e proporcionar cada vez mais melhor
qualidade de vida a população e a sociedade.

Gestão Estratégica no Terceiro Setor

Organizações privadas, organizações sem fins lucrativas e porque não falar em


organizações governamentais, todas elas independente de seu objetivo final necessitam de
recursos financeiros para sobreviver.
E toda organização para se ter vida longa e saudável necessita de uma boa dose de
gestão. Normalmente são os gestores os responsáveis por tomar as principais decisões. E é a
gestão a responsável por formular e implementar a estratégia da organização.
Segundo Santos (2007, pág. 326) “o processo de gestão estratégica é composto por
vários elementos e desenvolve-se de forma essencialmente seqüencial, em dois sub-processos
distintos e sucessivos: a formulação da estratégia e a implementação da estratégia”.
Entidades do terceiro setor são organizações sem fins lucrativos, ou seja, não possuem
por objetivo a pretensão de lucro, mas sim, o de melhorar a qualidade de vida das pessoas e da
sociedade.
Essas entidades normalmente trabalham com recursos próprios, frutos do seu trabalho,
recursos de doações de terceiros, estas podem ser: vinculadas ou não, e com os repasses
públicos cedidos pelo Estado.
Os recursos próprios e as doações não vinculadas há liberdade de gasto pelo gestor, já
os repasses recebidos pelo Estado encontram-se vinculadas nas propostas de trabalho.
As instituições do terceiro setor, ao proporem parcerias com o Estado em receber
recursos públicos e em contrapartida executar um serviço essencialmente de origem público,
necessitam formular sua estratégia, ou seja, elaborar o seu plano de trabalho o qual descreverá
como a entidade irá utilizar o recurso recebido pelo Estado de forma eficiente e eficaz, ou em
outros casos quando o Estado é o que propõem a parceria é ele próprio que formula o plano de
trabalho e impõe suas condições, cabendo a entidade aceitar ou não a parceria.
Após a formulação da estratégia, torna-se necessário a implantação da estratégia, ou
seja, executar o que foi formulado e descrito no plano de trabalho.
Santos (2007, pág.328) “Dito de outra forma, a gestão estratégica pode entender-se
como processo contínuo e dinâmico de planejamento, organização, liderança e controle,

135
através do qual as organizações determinam “onde estão”, para “onde querem ir” e “como é
que lá irão chegar”, e agem em conformidade com o caminho traçado”.
Os gestores responsáveis pelas instituições do terceiro setor também devem ter ideia
desse conceito, o de planejar, organizar, liderar e controlar, ou seja, nas entidades do terceiro
setor deve haver o planejamento contínuo no intuito de sempre melhorar cada vez mais as
vidas das pessoas para as quais prestam serviços e de certa forma melhorar a vida da
comunidade e da sociedade.
Organizar as ações planejadas e colocá-las em práticas, tendo sempre em vista que os
recursos financeiros são escassos e que alguns são vinculados, como é o caso dos repasses
públicos recebidos e, portanto, reaprender a trabalhar todos os dias com os seus recursos
próprios e os recursos vinculados.
Liderar e controlar as ações também se faz necessário, uma vez que é preciso ter em
mente sempre os planos e programas que forma traçados e executá-los de forma a garantir a
exatidão do que foi proposto.
No caso dos repasses públicos recebidos é necessário que haja sempre o
comprometimento em executar apenas o que foi proposto no plano de trabalho, pois ao fim do
processo a entidade terá de prestar conta dos recursos recebidos e caso o gasto realizado esteja
em desacordo com o acordado no plano de trabalho, a prestação pode acarretar em não
aprovação, e isso pode gerar serias conseqüências para a entidade, dentre elas a solicitação de
devolução dos valores em desacordo e proibição de receber novos repasses até a tomada das
providências solicitadas.
O gestor das entidades do terceiro setor deve ter em mente que não basta apenas
gerenciar as entidades, é necessário gerenciar de forma estratégica. Estudar e planejar as ações
que serão executadas com recursos vinculados e estudar e planejar as ações que serão
realizadas com os recursos próprios, a fim de que a soma dos recursos seja suficiente para se
ter um resultado de excelência na prestação de seus serviços e melhorar cada vez mais a vida
das pessoas e da sociedade.

Plano de Trabalho

O plano de trabalho é instrumento onde são descritas o cronograma de atividades o


qual a entidade recebedora de repasses públicos irá executar os devidos recursos, e nele
deverá constar:

136
Art. 22 – Deverá constar do plano trabalho de parcerias celebradas mediante termo
de colaboração ou fomento:
I – descrição da realidade que será objeto da parceria, devendo ser demonstrado o
nexo entre essa realidade e as atividades ou projetos e metas a serem atingidas;
II – descrição de metas a serem atingidas e de atividades ou projetos a serem
executados;
III – forma de execução das atividades ou dos projetos e de cumprimento das metas
a eles atreladas;
IV – definição dos parâmetros a serem utilizados para aferição do cumprimento das
metas (LEI Nº 13.019, DE 31 DE JULHO DE 2014).

Importante ressaltar a importância da descrição das metas, pois, pressupõe-se que para
haver uma parceria é preciso que haja um objetivo comum por ambas as partes. Para
consecução dos objetivos é preciso que haja um planejamento e nesse planejamento devem
estar estipulados as metas que devem ser atingidas com o recurso público recebido. Além
disso:

O plano de trabalho pode ser proposto de 2 formas:


Art. 16 – O termo de colaboração deve ser adotado pela administração pública para
consecução de planos de trabalhos de sua iniciativa, para celebração de parcerias
com organizações da sociedade civil que envolvam a transferência de recursos
financeiros.
Art. 17 – O termo de fomento deve ser adotado pela administração pública para
consecução de planos de trabalho propostos por organizações da sociedade civil que
envolvam a transferência de recursos financeiros. (LEI Nº 13.019, DE 31 DE
JULHO DE 2014).

O art. 16 da referida lei cita que o órgão concessor de recursos públicos é que possui a
iniciativa de propor um plano de trabalho, cabendo a entidade recebedora do recurso, realizar
os gastos de acordo com o estipulado no plano de trabalho.
Nesse caso a entidade fica restrita aos desejos do órgão concessor, pois não há
liberdade desta em se manifestar quanto à elaboração do plano.
No art. 17 percebe-se que a entidade é que tem como função realizar e descrever o
plano de trabalho e propor ao órgão concessor a elaboração do contrato.
Nesse caso, a entidade recebedora realiza um plano de trabalho de acordo com as suas
reais necessidades, propondo ao poder concedente de recursos públicos que seja um parceiro
na consecução de suas finalidades, colaborando com repasses públicos.
Deverá haver divulgação do plano de trabalho como consta o Art. 10 da Lei
13.019/2014 onde menciona que: “A administração pública deverá manter, em seu sítio
oficial na internet, a relação das parcerias celebradas e dos respectivos planos de trabalhos, até

137
cento e oitenta dias após o respectivo encerramento” (LEI Nº 13.019 DE 14 DE JULHO DE
2014).
Através da divulgação do plano de trabalho, inicia-se um processo de transparência
desde o início, ou seja, o plano é o primeiro passo a ser analisado pelos contratados, e aceitos
por ambos, inicia-se a fase de preparação da documentação para elaboração do termo do
contrato.
Busca-se através desta divulgação dar maior transparência a fim de assegurar a quem
de interesse informações as quais ele poderá conferir através da averiguação das ações da
entidade recebedora se estas estão de acordo com o pactuado no plano de trabalho, podendo
questionar a execução da mesma a qualquer tempo caso perceba qualquer tipo de
irregularidade na aplicação dos recursos.
Ressalta-se que por esta lei entrar em vigor apenas a partir de janeiro de 2017, como
cita o Art. 88, 1º Para os Municípios, esta lei entra em vigo a partir de 1º de janeiro de 2017
(LEI Nº 13.019 DE 14 DE JULHO DE 2014).
A divulgação dos planos de trabalhos para os municípios começa a ser válida para os
contratos firmados a partir de 1º de janeiro do referido exercício, ou seja, 2017.

Levantamento dos Dados e Discussão

Após breve apresentação das ideias centrais do trabalho, faz-se necessário levantar
alguns dados e analisá-los, a fim de propor uma breve discussão quanto ao cronograma
proposto (plano de trabalho) e o relatório de atividades (execução das atividades com os
repasses adquiridos dos órgãos públicos).

Tabela 1: Cronograma de desembolso Proposto no plano de trabalho da entidade.


Total co-financiamento Federal 2016: R$ 36.960,00
Despesas Jan Fev Mar Abr Mai Jun
Material de Consumo:
Combustível;
Manutenção predial e de 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00
equipamentos;
Prestadores de Serviços e
Gêneros Alimentícios
Total (R$) 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00

Despesas Jul Ago Set Out Nov Dez


Material de Consumo: 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00

138
Combustível;
Manutenção predial e de
equipamentos
Prestadores de Serviços e
Ggêneros alimentícios.
Total (R$) 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00 3.080,00

Total co-financiamento Estadual 2016: R$ 59.205,36


Despesas Jan Fev Mar Abr Mai Jun
Material de Consumo:
Alimentação, 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78
Higiene,
Limpeza e Expediente.
Total (R$) 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78

Despesas Jul Ago Set Out Nov Dez


Material de Consumo:
Alimentação, 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78
Higiene,
Limpeza e Expediente.
Total (R$) 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78 4.933,78

Total Recursos Municipais 2016: R$ 200.000,00


Despesas 3º 4º
1º trimestre 2º trimestre trimestre trimestre
Material de Consumo:
Vestuário e calçados, cama, mesa
e banho ; 50.000,00 50.000,00 50.000,00 50.000,00
Material de expediente, e
Pagamento de prestadores de
serviços.
Total (R$) 50.000,00 50.000,00 50.000,00 50.000,00
FONTE: elaborado pelo autor

Tabela 2: Relatório de Atividades


PLANILHA PARA SECRETARIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL 2016
RECURSO FEDERAL
1º TRIM 2º TRIM 3º TRIM 4º TRIM TOTAL
Receita 1.620,00 15.400,00 9.080,00 6.320,00 32.420,00
Juros Bancários - 28,02 24,53 8,78 61,33
Total da Receita 1.620,00 15.428,02 9.104,53 6.328,78 32.481,33
Mat. Limpeza (LAVANDERIA) 259,6 73,87 333,47
Gás de Cozinha 400 362,84 762,84
Manut. Veículos (Combust.e Out.) 311,74 434,57 746,31
Mat. Manutenção (Tintas e Outros) 1.360,40 5605,39 1.430,00 3.047,52 11.443,31
Mat. Consumo (Apar. Barba, Botas Limpeza) 386,72 562,34 646,2 1.595,26

139
Mat. Enfermagem e Medicamentos 3113,76 3.215,45 1.893,28 8.222,49
Despesa. Administrativa (auditoria) 2057,2 2.375,73 4.432,93
Mat. Escritório 71,6 1.184,95 34 1.290,55
Mão-de-Obra (Jardineiro) 250 250 500
Energia Elétrica 1241,45 2.221,13 3.462,58
TOTAL GERAL DESPESAS 1.620,00 13.126,12 11.551,34 6.492,28 32.789,74
RECURSO ESTADUAL
1º TRIM 2º TRIM 3º TRIM 4º TRIM TOTAL
Receita 43 24.668,70 14.801,11 9.867,40 49.380,21
Juros Bancários 3,14 48,16 7,82 19,62 78,74
Total da Receita 46,14 24.716,86 14.808,93 9.887,02 49.458,95
Alimentação (Supermercado) - 20.022,10 9.697,55 12.618,98 42.338,63
Limpeza - 4.260,04 785,1 1.633,20 6.678,34
Descartável - 442,5 - - 442,5
TOTAL GERAL DESPESAS - 24.724,64 10.482,65 14.252,18 49.459,47
RECURSO SUBVENÇÃO
1º TRIM 2º TRIM 3º TRIM 4º TRIM TOTAL
Receita 44.381,02 36.429,57 43.965,96 40.140,50 164.917,05
Juros Bancários 13,83 79,44 108,92 12,79 214,98
Total da Receita 44.394,85 36.509,01 44.074,88 40.153,29 165.132,03
Funcionários (Alessandro/Jorge) 13.763,95 13.937,63 13.694,74 18.412,73 59.809,05
FGTS 4.480,98 2.308,18 6.125,61 4.908,64 17.823,41
Darf/INSS 1.137,95 124,97 4.966,21 4.451,86 10.680,99
Mão-de-Obra (Jardineiro) 750 540 500 500 2.290,00
Plano Funerário 399 415 415 166 1.395,00
Telefone (Internet, voz fixa e Móvel) 868,56 610,05 687,08 335,01 2.500,70
Alimentação 3.029,38 2.110,77 5.140,15
Gás de Cozinha 800 960 1.760,00
Mat. Limpeza (LAVANDERIA) 518,5 768,5 1.287,00
13º salário 11.219,59 2.353,00 13.572,59
Manut. Veículos (Combust.e Out.) 349,98 339,16 190,24 879,38
Mat. Manutenção (Tintas e Outros) 702 90,3 1.500,00 1.653,34 3.945,64
Mat. Consumo (Apar. Barba, Botas Limpeza) 37,45 74,04 111,49
Mat. Procedimento Enfermagem 2.591,50 1.722,45 4.313,95
Energia Elétrica 2.690,22 1.406,06 1.115,68 116,99 5.328,95
Desp. Administrativa (Auditoria e outros). 5.115,60 2.672,82 6.039,80 4.539,60 18.367,82
Processo Trabalhista 11327/50 3.000,00 3.000,00 3.000,00 3.000,00 12.000,00
TOTAL GERAL DESPESAS 39.397,62 26.281,62 53.293,22 42.233,66 161.206,12
FONTE: elaborado pelo autor

Tabela 3: Comparação entre os itens propostos com os executados de acordo com os Recursos
Federais:
Plano de Trabalho Relatório de Atividades
I – Material de Consumo; Energia Elétrica
II – Manutenção Predial e de Equipamentos; Mat. Manutenção (Tintas e Outros)
140
Gás de Cozinha
Manutenção de veículos (Combust.e Out.)
Mão de Obra (Jardineiro)
III – Prestação de Serviços
Despesa. Administrativa (auditoria)
IV – Gêneros Alimentícios
FONTE: elaborado pelo autor

Quanto à prestação dos recursos de origem federal, pode-se perceber que a execução
descrita relatório de atividades está compatível com o proposto no plano de trabalho. Levando
em consideração que nesta análise se observa apenas os itens propostos, os quais são mais
relevantes para critério de fiscalização.

Tabela 4: Comparação entre os itens propostos com os executados de acordo com Recursos
Estaduais:
Plano de Trabalho Relatório de Atividades
I – Material de Consumo; Descartável
II – Alimentação; Alimentação (Supermercado)
III – Higiene e Limpeza Limpeza
IV – Expediente
FONTE: elaborado pelo autor

Quanto à prestação dos recursos de origem estadual, através da comparação entre o


proposto no plano de trabalho com a execução mencionada no relatório de atividades, que não
há divergência entre os mesmos. Portanto acredita-se que não haverá nenhum problema com a
fiscalização e com o parecer do analisador das contas.

Tabela 5: Comparação entre os itens propostos com os executados de acordo com Recursos -
Subvenção Municipal
Plano de Trabalho Relatório de Atividades
Mat. Consumo (Apar. Barba, Botas Limpeza)
Mat. Procedimento Enfermagem
Energia Elétrica
Telefone (Internet, voz fixa e Móvel)
I – Material de Consumo;
Mat. Limpeza (LAVANDERIA)
Manut. Veículos (Combust.e Out.)
Alimentação
Gás de Cozinha
II – Vestuário (Cama, mesa e banho)
Mão-de-Obra (Jardineiro)
III – Prestação de Serviços Desp. Administrativa (Auditoria e outros).

IV – Material de Expediente Mat. Manutenção (Tintas e Outros)

141
Funcionários (Alessandro/Jorge)
Darf/INSS
FGTS
13º salário
Plano Funerário
Processo Trabalhista 11327/50
FONTE: elaborado pelo autor

Ao comparar a prestação de contas dos recursos recebidos referente os repasses


públicos subvenção municipal, percebe-se que o relatório de atividades apresenta alguns itens
não previstos no cronograma previsto de despesa no plano de contas.
Pagamento de Funcionários, INSS, FGTS, 13º Salário, Plano Funerário, apesar de
terem sido gastos na entidade e de forma a dar continuidade nas atividades da entidade por
não constarem na programação de despesas do plano de contas da entidade, podem servir de
apontamento pelo órgão fiscalizador.
Além disso, destaca-se um item que chama atenção apenas em observar, o item
referente ao Processo Trabalhista nº 11327/50, pois, entende-se que os recursos públicos
repassados as entidades devem ser gastos no desenvolver das atividades e dos projetos
relacionados ao objeto fim.
Nesse caso os valores julgados referente a processos trabalhistas e outros, deveriam ter
sido pagos com recursos próprios da entidade e não os de parceria com o órgão público.
Cabe mencionar o valor poderá ser apontado pelos órgãos de fiscalização externa
quando analisar a prestação de contas referente ao repasse de subvenção municipal:
1 – Funcionários: (Alessandro / Jorge) – R$ 59.809,05;
2 – Pagamento de INSS: (DARF) – R$ 10.680,99;
3 – FGTS – R$ 17.823,41;
4 – 13º Salário – R$ 13.572,59;
5 – Plano Funerário – R$ 1.395,00;
6 – Processo Trabalhista nº 11327/50 – R$ 12.000,00.
Total de R$ 115.281,04, do total repassado de R$ 164.917,05. Cabe ressaltar que os
responsáveis pelo recebimento da prestação de contas e conferência por parte do órgão
público concessor poderá apontar essas incompatibilidades e solicitar a correção dos mesmos
em tempo hábil, evitando assim, que uma possível fiscalização externa solicite a devolução

142
desses recursos, caso conste que os mesmo foram gastos de forma incompatível com o plano
de contas.

Considerações Finais

Após analisar os itens relacionados ao cronograma de despesa apresentado no plano de


trabalho da entidade do terceiro setor recebedora de repasses públicos e comparados com o
relatório de atividades enviadas pela mesma, ao órgão público concessor, percebe-se que
alguns itens expostos no relatório não se encontram presentes no plano de trabalho, gerando
com isso uma possível incompatibilidade de execução. A soma os itens incompatíveis dá-se
no valor de R$ 115.281,04, sendo que o órgão público repassou R$ 164.917,05. Desses itens
incompatíveis destaca-se o valor Processo Trabalhista nº 11327/50, o qual além de gerar
apontamento pode ocasionar pedido de devolução por se tratar de um item que deveria ser
pago com recursos próprios da entidade e não com recursos de repasses públicos, pois estes
devem ser executados com o propósito de contribuir com a finalidade do objeto proposto, ou
seja, manutenção e desenvolvimento das atividades da entidade.
Percebe-se a importância de uma gestão estratégica, gestão que seja capaz de planejar
os gastos e executar de acordo com o programado, a fim de evitar futuros aborrecimentos. A
gestão estratégica deve planejar com cuidado e cautela o plano de trabalho, pois após
aprovado o recurso público repassado permanece vinculado no mesmo. E a não obediência ao
mesmo pode gerar serias conseqüências, inclusive a proibição de recebimento de novos
repasses públicos enquanto a entidade não regularizar a situação.

REFERÊNCIA

ALMEIDA, Veronica Ebele de, ESPEJO, Armando. Contabilidade no terceiro setor.


Curitiba, PR: IESDE Brasil, 2012. Edição online. Disponível em:
https://books.google.com/books?isbn=8538728687. Acesso em: 5 de janeiro de 2017.

BRASIL, LEI Nº 13.019, DE 31 DE JULHO DE 2014. Estabelece o regime jurídico das


parcerias entre a administração públicas e as organizações da sociedade civil. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13019.htm, Acesso em: 21
de jan de 2017

MAIA, Cleusa Aparecida da Costa, O Repasse de Recursos Públicos ao Terceiro Setor,


Disponível em:
http://semanaacademica.org.br/system/files/artigos/artigoo_repasse_de_recursos_publicos_ao
_terceiro_setor.pdf, Acesso em 16 de set de 2016.

143
TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DE SÃO PAULO. Manual Básico de Repasses
Públicos ao Terceiro Setor. São Paulo, 2016. Disponível em:
https://www4.tce.sp.gov.br/sites/tcesp/files/repasses_publicos_terceiro_setor.pdf. Acesso em
22 de janeiro de 2017.

SANTOS, António J. Robalo. Gestão Estratégica: Conceitos, modelo e instrumentos.


Escolar Editoria, 2007. Edição on line. Disponível em:
https://books.google.com/books?isbn=9725922298. Acesso em: 10 de maio de 2017.

144
O EMPODERAMENTO DOS SUJEITOS: COOPERATIVA ACÁCIA -
ARARAQUARA, UMA HISTÓRIA DE LUTAS

Regina Célia de Souza Beretta*


Carlos André Rodrigues**

Resumo: O presente trabalho objetivou mostrar a relevância de se cuidar do meio ambiente,


mas acima de tudo de estimular ações voltadas à economia solidária, como cooperativas para
o enfrentamento a desigualdade e exclusão social. Para tanto foi realizada uma pesquisa
documental e online sobre os aspectos sócios históricos que definiram o surgimento da
Cooperativa Acácia em Araraquara, discutindo os elementos que terminaram a sua história de
lutas, a luz do referencial teórico, abordando a preservação do meio ambiente, a participação
social e o empoderamento dos sujeitos. A sociedade capitalista está pautada em uma cultura
consumista e destrutiva que resulta em uma degradação continua do meio ambiente e de
relações trabalhistas. A lógica do capital é a lógica do mercado, sem valorização de outras
possíveis formas de vida. No capitalismo globalizado e neoliberal, verifica-se um crescimento
da produção dos bens de consumo descartáveis, que traz ao debate uma nova problemática
econômica, política e social: a devastação do ambiente associada à precarização das relações
trabalhistas, que recriam outros problemas sociais, que tornam a vida das populações mais
vulneráveis insustentáveis, resultando no fenômeno social do aumento da pobreza e do
desemprego. O texto demonstra a trajetória da Cooperativa Acácia, sua organização e formas
de empoderamento dos sujeitos em situação exclusão social, evidenciando como catadores
saíram da informalidade e da situação de desemprego e pobreza extrema.

Palavras chaves: Cooperativa, empoderamento, meio ambiente.

Introdução

A discussão das condições de sustentabilidade do planeta é relativamente recente, bem


como o reconhecimento de que os determinantes sociais e econômicos influenciam as
condições de saúde e de vida no planeta.
A primeira Conferencia Internacional de Promoção da Saúde, realizada em 1986 no
Canadá, denominada Carta de Otawa, já revelava uma preocupação em garantir nos países
industrializados, em crescimento e urbanização desordenados, condições mais saudáveis de

*
Assistente Social- doutora pela UNESP/Câmpus de Franca. Docente/pesquisadora Programa em Promoção da
Saúde – Strictu Sensu da Universidade de Franca/UNIFRAN
**
Ciências Contábeis- UNIPAM- Mestrando do Programa em Promoção da Saúde – Strictu Sensu da
Universidade de Franca/UNIFRAN

145
vida, com a implantação de políticas públicas de acesso equitativo e um novo padrão de
desenvolvimento.
“O termo desenvolvimento sustentável surgiu a partir de estudos da Organização das
Nações Unidas sobre as mudanças climáticas, como uma resposta para a humanidade perante
a crise social e ambiental pela qual o mundo passava a partir da segunda metade do século.
XX.” (BARBOSA, 2008. p. 01).
Outro documento importante que analisa as condições de sustentabilidade do planeta é
a Agenda 21. Esse documento detalhou as estratégias e ações para o século 21, e foi elaborado
pela Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no
Rio de Janeiro em 1992, conhecida como “Rio 92”. O encontro realizado, contou com a
presença de 179 países e representou um pacto entre os lideres mundiais, no sentido de
promover um desenvolvimento sustentável para o planeta, buscando conciliar
desenvolvimento econômico, progresso e justiça social.
A Agenda 21 foi sistematizada a partir de três anos de pesquisa e análise, e enfatizou
os problemas sociais, uso da terra, ocupação, água, serviços de educação saúde e sociais, além
do crescimento urbano. O relatório considera que a pobreza pode ser evitável e o
desenvolvimento sustentável deve oportunizar o atendimento das necessidades básicas a todos
e melhores condições de vida, com equidade e participação social.
O relatório chamou a atenção do mundo sobre o significado dos impactos do
desenvolvimento econômico, para o planeta, na devastação do meio ambiente, no descontrole
populacional e no aumento da violência, das desigualdades e miserabilidade.

Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no
respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e
numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da
Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande
comunidade da vida, e com as futuras gerações. (CARTA DA TERRA, 2002, p. 1).

Apesar da consciência de que o meio ambiente possui limites, o desenvolvimento


tecnológico e econômico avança com um padrão de consumo, que destrói e compromete a
natureza e o planeta.
A lógica do capital é a lógica do mercado, sem valorização de outras possíveis todas as
formas de vida. A sociedade capitalista está pautada em uma cultura consumista e destrutiva
que resulta em uma degradação continua do meio ambiente e de relações trabalhistas.

146
Infelizmente as metas preconizadas pela Agenda 21, não avançaram em decorrência
dos desafios resultantes das crises econômicas mundiais do capitalismo, nos países
industrializados.

Existem transformações radicais na forma de ser do proletariado mundial que


expressam alterações na dinâmica da produção do valor por conta do aumento da
composição orgânica do capital e a manifestação efetiva da desmedida do valor. Esta
mudança crucial na relação capital constante/capital variável é a chave heurística
capaz de explicar o surgimento da nova precariedade salarial, expressão social do
modo de organizar a exploração e dominação do capital no plano do consumo da
força de trabalho como mercadoria no século XXI. (ALVES, 2016.p. 01).

O crescimento da produção dos bens de consumo descartáveis traz ao debate uma nova
problemática econômica, política e social: a devastação do ambiente associada à precarização
das relações trabalhistas, que recriam outros problemas sociais, que tornam a vida das
populações mais vulneráveis insustentáveis, resultando no fenômeno social do aumento da
pobreza e do desemprego.
Muitos trabalhadores sem opção de vida percebem que sua auto-estima torna-se
também um produto descartável, restando-lhe como única opção para sua sobrevivência,
despojar-se de sua própria dignidade para “catar o que a sociedade descartou”.
Essa questão representa hoje a necessidade de um indispensável esforço conjunto
de várias áreas do conhecimento para obtenção de melhores condições de vida e de trabalho
para a população.

É claro que mudanças radicais no modo de ser precisamente assim do capital


produzem importantes reverberações nas esferas socioculturais e político
institucional do mundo do trabalho, exigindo dos analistas sociais a capacidade de
articular, numa perspectiva dialética, a objetividade e subjetividade do mundo do
trabalho, ou seja, dinâmicas estruturais do sistema do capital. (ALVES, 2016, p. 17).

A garantia do desenvolvimento sustentável do planeta é papel de todos nós da


sociedade civil e do Estado devendo ser viabilizada urgentemente, por meio de programas
sócios educativos voltados ao respeito e a recuperação da natureza, na garantia de direitos e
na busca da cidadania.
A melhoria das condições de vida do planeta é papel do Estado e sociedade civil.
Pensar estratégias de respeito à natureza e de inclusão social é parte dessa tarefa. Assim, os
trabalhadores descartáveis, encontram eventualmente estratégias de sobrevivência em uma
sociedade, hostil, competitiva, firmada no lucro e na exploração do trabalho e da natureza.

147
Este presente texto retoma uma experiência exitosa de trabalhadores que viviam
como catadores no lixão de Araraquara, os aspectos sócios históricos do surgimento da
Cooperativa Acácia de material reciclado em Araraquara, discutindo sua legitimação e seu
reconhecimento público, como instituição não governamental. O significado social da
Cooperativa Acácia evidencia-se não apenas pelo reconhecimento, seleção e venda de
material, mas também na preservação das condições ambientais da cidade, mas especialmente
no empoderamento e emancipação dos sujeitos.

Objetivo Do Trabalho

O presente trabalho objetivou mostrar por meio da historia da Cooperativa Acácia a


relevância de se cuidar do meio ambiente, mas acima de tudo de estimular ações voltadas à
economia solidária, como cooperativas para o enfrentamento a desigualdade e exclusão social.

Metodologia

Pesquisa documental e online sobre os aspectos sócio histórico que definiram o


surgimento da Cooperativa Acácia, discutindo os elementos que terminaram a sua historia de
lutas, a luz do referencial teórico que aborda a preservação do meio ambiente, a participação
social e o empoderamento dos sujeitos.

Cooperativa Acacia de Araraquara

Em decorrência das transformações socioeconômicas mundiais no mundo do trabalho,


aumento do desemprego, o trabalho de informal dos catadores de materiais recicláveis, vem
aumentando dia a dia. A reciclagem de material surge como estratégia de sobrevivência de
famílias em situação de vulnerabilidade e risco social, pelo não acesso aos serviços públicos
fundamentais, baixa ou nenhuma renda, preconceito, insuficiência de escolaridade, entre
outros.
Em Araraquara, por mais de 10 anos, muitos sujeitos se deslocavam para a área de
aterro em Araraquara (lixão), sob a responsabilidade do Departamento de Água e Esgoto de
Araraquara, para retirar do lixo, material para o seu sustento e de sua família. Freqüentemente

148
estavam expostos a variados perigos para sua saúde, com risco de contaminação de doenças e
acidentes, ou outros.
Diante dessa situação a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo – CETESB1
notificou o município para tomar providencias, para não somente retirar os catadores, mas
também reativar a antiga Usina de Reciclagem e Compostagem de Lixo. Esse foi o pontapé
inicial para que o poder público iniciasse um trabalho de organização dos catadores.
Em 2001 foram mobilizadas a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e
de Assistência Social, que em parceria com o Departamento de Água e Esgoto de Araraquara-
DAAE deram início ao cadastro e a sensibilização desses sujeitos. Nas imediações do lixão
viviam 35 catadores e suas famílias há cerca de 10 anos.
Foram realizados inicialmente levantamentos socioeconômicos para melhor
entendimento do cotidiano das famílias, que foram atendidas nas principais demandas de
alimentação e vestuário, encaminhadas posteriormente para diversos serviços da saúde e da
educação. Foram cadastradas todas as famílias e incluídas em programas sociais do governo
federal, estadual e municipal. Houve a seguir uma ampla capacitação dos catadores abordando
temas fundamentais como direitos sociais, noções de segurança do trabalho, prevenção de
doenças e acidentes, vacinação, entre outros.
A Associação Acácia dos Trabalhadores de Materiais Reaproveitáveis de Araraquara
se constituiu juridicamente no ano de 2002. Gradativamente foram modificadas as condições
de trabalho, por meio do convênio com o DAAE. Esses trabalhadores passaram a trabalhar
nas dependências da Usina de Reciclagem de Lixo, com capacitações continuadas, em
melhores condições de trabalho, para a separação dos materiais recicláveis.
Em 2006, a Associação Acácia conquistou nova configuração social e tornando-se a
Cooperativa Acácia de Catadores, coleta, triagem e beneficiamento de materiais Recicláveis.
No mesmo ano ocorreu a aprovação da Lei Municipal 6.496, autorizando a celebrar convênio
com a Cooperativa Acácia de Catadores, Triagem e Beneficiamento de Materiais Recicláveis
de Araraquara, objetivando o desenvolvimento de projetos e ações relacionadas à coleta,
triagem e o beneficiamento dos materiais recicláveis. (ACÁCIA, online, 2017).
Assim a cooperativa foi legalmente constituída e pode prestar serviços de coleta
seletiva e receber pagamento por esses serviços, o que viabilizou muitas melhorias garantindo
condições mais dignas de trabalho e de vida aos trabalhadores.

149
Atualmente os 170 cooperados estão divididos em dois grupos, um circula pelas ruas
de porta em porta recolhendo o lixo reciclável e outro que realiza a separação de alguns
materiais, na Usina de Compostagem e Reciclagem do Lixo, que serão prensados e vendidos.
A Coleta Seletiva em Araraquara hoje atinge 100% da população e processa cerca de
380 toneladas por mês. Há ainda no município a coleta em pontos fixos (PEV) e bolsões de
entulhos.
A arrecadação da cooperativa é 76% proveniente do material reciclado e prestação de
serviços no município, além de subsídios financeiros oriundo do governo e de outras
instituições. A cooperativa mantém parcerias com a Prefeitura Municipal, a Secretaria do
Municipal do Meio Ambiente, o DAAE que paga pelos serviços de coleta, e conta ainda com
o apoio e realiza projetos com o BNDS, FUNASA, Banco do Brasil, UNESP Araraquara,
UNIARA, SESI, SENAI, Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, entre
outras.
É fundamental entender a importância desse trabalhador no final da cadeia produtiva
de materiais recicláveis, minimizando os efeitos da devastação dos resíduos ao meio
ambiente. Porém é preciso buscar a intersetorialidade, as pactuações, por meio de implantação
e/ou implementação de políticas públicas favoráveis à saúde e ao meio ambiente
(CARDOZO, 2009).
Ao pensar no meio ambiente, nas condições de vida é preciso que o Estado desenvolva
ações integrativas e da intersecção de todos os setores sociais, que possam ser profícuos no
empoderamento dos sujeitos, para a mudança da realidade. Assim entender o conceito de
empoderamento ajuda a pensar concretamente, como esse processo pode ocorrer:

Há dois sentidos de empoderamento mais empregados no Brasil: um se refere ao


processo de mobilizações e práticas que objetivam promover e impulsionar grupos e
comunidades na melhoria de suas condições de vida, aumentando sua autonomia; e o
outro se refere a ações destinadas a promover a integração dos excluídos, carentes e
demandatários de bens elementares à sobrevivência, serviços públicos etc. em
sistemas geralmente precários, que não contribuem para organizá-los, pois os
atendem individualmente através de projetos e ações de cunho assistencial (GOHN,
2004, p. 24).

Em um sentido ou no outro se verifica que os catadores por meio da Cooperativa


Acácia foram empoderados, inicialmente motivados pelo Estado e por profissionais de
diferentes áreas a buscarem outras condições de vida. Houve ainda a integração dos excluídos,

1
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo – CETESB é a agência do Governo do Estado responsável
pelo controle, fiscalização, monitoramento e licenciamento de atividades geradoras de poluição, com a
150
que viviam há mais de 10 anos em condições subumanas, no sentido de organização enquanto
classe social subalternizada e excluída.
Segundo Herriger (2006) por meio do empoderamento, as pessoas renunciam ao
estado de tutela, de dependência, de impotência, e transformam-se em sujeitos ativos, que
lutam para si, com e para os outros por mais autonomia e autodeterminação, tomando a
direção da vida nas próprias mãos (HERRIGER, 2006, p.16).
A luta da Cooperativa Acácia relatada aqui sucintamente representa parte do processo
de engajamento social desses sujeitos, que ainda continuam sendo explorados pelo sistema,
que é excludente.
Apesar dos avanços alcançados pela cooperativa de um modo geral, há um longo
caminho a se percorrer. Todo o processo desde a coleta, separação de reciclados até a venda,
passa por atravessadores e pela desvalorização da força de trabalho, pela característica da
mercadoria comercializada, entre outros.
Embora tenha ocorrido um grande avanço no empoderamento dos sujeitos, ainda estão
presentes outros fatores a serem superados a dependência em relação ao poder público, a
eliminação dos intermediários com a comercialização direta com a indústria para obter
melhores preços.
A experiência exitosa de Araraquara infelizmente é uma das poucas no país. É preciso
construir uma rede de sustentabilidade nas cidades, que possam contribuir para a preservação
do meio ambiente e possam ampliar a inclusão social e econômica dos catadores.

Considerações Finais

O presente trabalho mostrou a relevância de se cuidar do meio ambiente, mas acima de


tudo de estimular ações voltadas à economia solidária, como estratégia de enfrentamento a
desigualdade e exclusão social.
A economia solidária é uma perspectiva de desenvolvimento econômico e social com
base em novos valores culturais e novas práticas de trabalho e relação social, que visa à
sustentabilidade, justiça econômica, social, cultural e ambiental e democracia participativa
(SINGER, 1999).

preocupação fundamental de preservar e recuperar a qualidade das águas, do ar e do solo.

151
Para o autor a economia solidaria se constitui por meio dos empreendimentos
econômicos solidários, que abrangem grupos informais, associações, cooperativas formadas
por sujeitos em situação de desemprego e vulnerabilidades.
A cooperativa é uma das formas de organização dessas classes excluídas do mercado
de trabalho e surge como forma de produção e distribuição alternativa ao capitalismo.
A cooperativa tem estimulado a geração de renda e trabalho e as parcerias com o poder
público, possibilitando a melhoria da renda dos cooperados. Contribui para a inclusão de
trabalhadores excluídos do mercado formal pelo sistema capitalista, estimula a colaboração, a
participação, valorizando o ser humano e enfrenta as desigualdades sociais.
Com a Cooperativa Acácia os catadores saíram da informalidade e da situação de
desemprego e pobreza extrema.
Na realidade atual a economia solidaria surge como estratégia de inclusão social e
desenvolvimento, mas deve superar o caráter assistencial, promovendo a emancipação dos
sujeitos.
Essa iniciativa contribui para superar as deficiências do Estado e do mercado,
incapazes de responder aos problemas estruturais como má distribuição de renda, a
desigualdade, o desemprego e a pobreza resultantes do capitalismo neoliberal globalizado.

REFERÊNCIAS

ALVES, G. Crise do capitalismo global, desmedida do valor e as mutações orgânicas da


totalidade viva do trabalho. Notas críticas sobre o capitalismo do século XXI. Cadernos do
CEAS, Salvador, n. 239, p. 681-697, 2016.

ANNIBELLI, M.B. A ordem econômica brasileira e o cooperativismo. Revista Eletrônica


do CEJUR, v.1, n.3, p.222- 234 2008.

ARARAQUARA. Acácia. Nossa historia. Disponível em:


http://www.acaciacoleta.com.br/news/historico-de-coleta-seletiva-na-cidade-de-araraquara-
de-2008-a-2013/Acesso em: 09 de jun. 2017.

BARBOSA, G. S. O desafio do desenvolvimento sustentável. Revista Visões. 4ª Edição, n.


4, V. 1 - Jan/Jun 2008. Disponível em:
http://www.fsma.edu.br/visoes/ed04/4ed_O_Desafio_Do_Desenvolvimento_Sustentavel_Gise
le.pdf Acesso 30 jan 2018.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Carta da Terra. Disponível em:


http://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/carta-da-terra. Acesso
em: 09 jun, 2017.

152
CARDOZO, M. Percepção de riscos ambientais de trabalhadores catadores de materiais
recicláveis em um aterro controlado do município de Duque de Caxias. 2009. 108f.
Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca,
Rio de Janeiro, 2009

GOHN, M. Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais. Saúde e


sociedade, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 20-31, mai./ago. 2004.

HERRIGER, N. Empowerment in der sozialen Arbeit: eine Einführung. 3. ed. Stuttgart:


Kohlhammer, 2006.

SINGER, P. Globalização e desemprego: diagnóstico e alternativas. São Paulo, Contexto,


1999.

PIRESA, L. L.; SANTOS, L. M. L. Avanços e Desafios das Cooperativas de Catadores de


Materiais Recicláveis e Resíduos Sólidos de Londrina. UNOPAR Cient., Ciênc. Humanas.
Educ., Londrina, v. 15, n. 2, p. 177-185, Jun. 2014

153
O TRABALHO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NA INTERVENÇÃO
FRENTE A DROGADIÇÃO:
EXPERIÊNCIA JUNTO A UMA COMUNIDADE TERAPÊUTICA NO MUNICÍPIO
DE CATANDUVA/ SP

Marilene Frade Alves*

Resumo: O presente artigo relata breves reflexões relacionadas à experiência profissional do


Assistente Social vivenciada em uma Comunidade Terapêutica no município de
Catanduva/SP no âmbito de acolhimento para mulheres com transtornos decorrentes do uso,
abuso ou dependência de substâncias psicoativas. O trabalho e a intervenção do Serviço
Social contribui para efetivação dos direitos sociais e o desenvolvimento dessa Organização
Não Governamental que permite a implantação de políticas e projetos sociais na busca de
melhoria no acolhimento ao tratamento terapêutico.

Palavras-chave: Trabalho; Comunidade Terapêutica; Serviço Social

INTRODUÇÃO

O trabalho é definido como a atividade sobre a qual o ser humano emprega sua força
de trabalho para produzir os meios para o seu sustento. (Marx,1985).

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza,


processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla
seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de
suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo – braços e pernas,
cabeça e mãos –, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes
forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a,
ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. (Marx, 2004b, p. 211).

Profundas transformações no mundo do trabalho foram presenciadas nos países de


capitalismo avançado, podendo afirmar diante disso, que a classe trabalhadora sofreu a maior
crise do século na década de 1980, que além de atingir sua materialidade, teve intensas
repercussões na sua subjetividade. (ANTUNES, 2009, p. 17).
Antunes (2009) expressa que o trabalho é também um primeiro momento preliminar
de liberdade e aponta que:

[...] há em Marx o reconhecimento de que o trabalho é expressão viva da


contradição entre positividade e negatividade, uma vez que, dependendo dos modos

*
Aluna de Pós Graduação do Curso de Docência no Ensino Superior da Faculdade de Educação São Luís.
Graduada em Serviço Social pelo Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos. Membro de
Pesquisa do Grupo Gesta – Gestão Socioambiental e a Interface da Gestão Social.
155
de vista, da produção e da reprodução social, o ato laborativo pode tanto criar como
subordinar, tanto humanizar como aviltrar. É tanto instrumento de liberação como
fonte de escravidão. Pode tanto emancipar quanto alienar. Isso depende,
essencialmente, da forma como são plasmadas as relações sociais de produção.
Assim tem sido ao longo da história humana. Muito antes do capitalismo.
(ANTUNES, 2009, p. 265).

No entanto, a reflexão irá se direcionar ao que referimos Organizações Não


Governamentais (ONGs), entendendo-se que são Instituições que desenvolvem a
responsabilidade que era do Estado, o qual em forma de estratégia do Sistema, terceiriza o
trabalho para a sociedade civil.
Segundo Montaño:

A perspectiva hegemônica, em clara inspiração pluralista, estruturalista ou


neopositivista, isola os supostos “setores” um dos outros e concentra-se em estudar
(de forma desarticulada da totalidade social) o que entende que constitui o chamado
“terceiro setor”: estudam-se as ONGs, as fundações, as associações comunitárias, os
movimento sociais etc., porém desconsideram-se processos tais como a
reestruturação produtiva, a reforma do Estado, enfim, descatam-se as
transformações do capital promovidas segundo os postulados neoliberais.
(Montaño, 2005, p. 51).

Assim, entendemos que:

Nossa abordagem sobre o “terceiro setor” não parte do conceito de um fenômeno


isolado, mas, por ter como ponto de partida o movimento e as tendências das
transformações do capital como um todo, chega ao “terceiro setor” como um
fenômeno partícipe dessas transformações gerais, como produto delas. (Montaño,
2005, p. 52).

Além disso:

Ser financeiramente sustentável exige muitas coisas de uma ONG. É preciso ter
missão e visão relevantes e expressivas, além de uma organização e uma equipe
competentes para buscá-las. Também requer eficiência e confiabilidade, bem como
produtos e serviços que as pessoas procurem e valorizem. (PEZZULLO, 2004, p.
23).

Também como proposta de Organizações Não Governamentais, temos as Cts –


Comunidades Terapêuticas, que segundo a Federação Brasileira de
Comunidades Terapêuticas FEBRACT (2009), são Instituições privadas, sem fins lucrativos e
financiadas, em parte, pelo poder público. Oferecem gratuitamente acolhimento para pessoas
com transtornos decorrentes do uso, abuso ou dependência de drogas.

156
O livro "As origens da Comunidade Terapêutica sem drogas: uma história
retrospectiva", defende a ideia de que elas existem há mais de dois mil anos. (GLASER,
Frederich B. apud FEBRACT, 2011).
O indivíduo busca nas drogas o que a sociedade não oferece.
Na concepção de Leon:

A expressão “comunidade terapêutica” conota uma comunidade capaz de remediar,


restaurar ou curar. Mas a distinção profunda entre a CT e outros tratamentos reside
no uso da comunidade como método para mudar a pessoa inteira. (LEON, 2003, p.
100).

Compreende-se que a Comunidade Terapêutica não se destina a todo tipo de


dependente químico, pois o tratamento deve ser aceito voluntariamente e o residente é o
principal ator de sua cura, ficando a equipe com um posicionamento de proporcionar apoio,
ajuda e orientação. (GOTI, 1990).
Ao contrário de quando surgiram essas comunidades, antes conhecidas como “Casas
de Recuperação”, o acolhimento ao tratamento terapêutico era de regime totalmente fechado
e, com o passar do tempo, a concepção foi se modificando e abrolhou a ideia de trabalhar o
residente (assim chamado dentro do período de tratamento) na inserção a sociedade, sendo
possível realizar passeios como forma de lazer, participação em eventos externos, cursos para
prepará-lo no egresso ao trabalho e mais períodos de ressocialização – quando o mesmo passa
o final de semana em casa junto à família.

Objetivo Geral

Refletir sobre a Comunidade Terapêutica e relatar a experiência do Serviço Social


vivenciado no município de Catanduva/SP.

Objetivos Específicos

 Refletir o trabalho frente ao acolhimento de mulheres decorrentes do uso, abuso ou


dependência de substâncias psicoativas em uma Comunidade Terapêutica na cidade de
Catanduva/SP;
 Relatar os desafios e as dificuldades do profissional do Serviço Social neste espaço;
 A atuação profissional do Assistente Social.
157
Metodologia

A Metodologia Científica indica a direção a seguir, somada a meta e o estudo. Traz


consigo métodos que possibilitam compreender a realidade. (BARROS; LEHFELD, 2007, p.
1).
Entendemos por metodologia o caminho do pensamento e a prática exercida na
abordagem da realidade. [...] Da forma como tratamos neste trabalho, a metodologia inclui as
concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a construção da
realidade e o sopro divino do potencial criativo do investigador. (MINAYO, 1994, p. 16).
O propósito desta pesquisa é realizar um estudo exploratório, salientando caminhos
percorridos, de aprendizagem e uma visão crítica.
Esta pesquisa tem como objetivo a atuação profissional do Assistente Social em uma
Comunidade Terapêutica na cidade de Catanduva/ SP, aprimorando conhecimento e sendo
flexível na realização do trabalho desenvolvido.
A realização do estudo foi através da experiência profissional vivenciada nesta
Comunidade Terapêutica no município de Catanduva/ SP, sendo possível colher informações
referente a este espaço.
O universo desta pesquisa está constituído pela Assistente Social que trabalhou
diretamente no acolhimento de mulheres decorrentes do uso, abuso ou dependência de
substâncias psicoativas.
A partir desse universo, serão elaborados critérios para a seleção da amostra.

Universo da Pesquisa

Segmento Tipo de Atendimento Pública ou Privada Cidade


Comunidade Mulheres Privada Catanduva/ SP
Terapêutica

Amostra

Instituição Tipo de Atendimento Quantidade de Assistentes


Sociais
Comunidade Terapêutica Acolhimento de mulheres para 01
tratamento terapêutico

158
A Intervenção do Serviço Social

As atribuições e competências do profissional de Serviço Social são orientadas e


norteadas por direitos e deveres constantes no Código de Ética Profissional e na Lei de
Regulamentação da Profissão, que devem ser observados e respeitados tanto pelo profissional
quanto pela instituição empregadora. (CFESS, 2001).
Iamamoto (2008) alega o Serviço Social ser considerado trabalho diante da reflexão a
qual a profissão está inserida na divisão sociotécnica do trabalho social, tornando-se domínio
público.
Considera uma especialização do trabalho coletivo em um processo de produção e
reprodução das relações sociais. (IAMAMOTO, 2004).
Assim, sintetiza:

Entretanto, o assistente social afirma-se socialmente como um trabalhador


assalariado, cuja inserção no mercado de trabalho passa por uma relação de compra
e venda de sua força de trabalho especializada com organismos empregadores,
estatais ou privados. Sendo os assistentes sociais proprietários de sua força de
trabalho qualificada, não dispõem, todavia, de todos os meios e condições
necessários para a efetivação de seu trabalho, parte dos quais lhes são fornecidos
pelas entidades empregadoras. (IAMAMOTO, 2004, p. 96, grifo do autor).

Entende-se que o Assistente Social é um trabalhador assalariado, sendo explorado pelo


Sistema Capitalista e que exerce um trabalho alienado. Na verdade, a profissão surge para
responder as demandas das relações do Capitalismo e o profissional passa a conviver com as
mais diversas expressões da questão social.
Na Comunidade Terapêutica, o Assistente Social também está à submissão de uma
situação de precarização, com uma grande demanda de usuários acolhidos, o qual muitas
vezes, se encontravam em situação de rua, ou que a família já não aceita residir em casa
devido ao constante uso de substâncias psicoativas.

O assistente social, ao atuar na intermediação entre as demandas da população


usuária e o acesso aos serviços sociais, coloca-se na linha de intersecção das esferas
públicas e privadas, como um dos agentes pelo qual o Estado intervém no espaço
doméstico dos conflitos, presentes no cotidiano das relações sociais. Tem-se aí um
dupla possibilidade. De um lado, a atuação do assistente social, pode representar
uma “invasão da privacidade” através de condutas autoritárias e burocráticas, como
extensão do braço coercitivo do Estado ou da empresa. De outro lado, ao desvelar a
vida dos indivíduos, pode, em contrapartida, abrir possibilidades para o acesso das
famílias a recursos e serviços, além de acumular um conjunto de estudos sociais. O
Serviço Social atua numa zona de fronteira entre o público e o privado.
(IAMAMOTO, 2008, p. 357).
159
Está atribuído ao Assistente Social a tarefa de enfrentamento com funções que não
cabe ao profissional, todavia, sua crítica e avaliação favorecem a análise do planejamento,
elaboração e implementação de projetos e a busca de novas proposições para a melhoria de
atuação.
Contraditório à contextualização do Serviço Social, nos deparamos com uma
perspectiva de assistencialismo e uma visão ideologicamente religiosa, junto à realização de
um trabalho administrativo que devido à precarização das condições financeiras, fica inviável
a contratação de maior número de funcionários para a atuação neste espaço organizacional.
Segundo Iamamoto (2004), os Assistentes Sociais não detêm todos os meios para
efetivar seu trabalho, dependem de recursos previstos nos programas e projetos da instituição
que o requisita e o contrata.

Ainda que disponha de relativa autonomia na efetivação de seu trabalho, o


assistente social depende, na organização da atividade, do Estado, da empresa,
entidades não governamentais que viabilizam aos usuários o acesso a seus serviços,
fornecem meios e recursos para sua realização, estabelecem prioridades a serem
cumpridas, interferem na definição de papéis, e funções que compõem o cotidiano
do trabalho institucional. Ora, se assim é, a instituição não é um condicionante a
mais do trabalho do assistente social. Ela organiza o trabalho do qual ele participa.
(IAMAMOTO; CARVALHO, 2005 p. 63).

Conforme o pensamento de Costa (1998), o trabalho do Assistente Social não se


desenvolve independentemente das circunstancias históricas e sociais que o determinam.

A não consideração desse processo de subordinação, aliada a uma frágil discussão


sobre as particularidades da prática profissional nos diferentes espaços sócio
ocupacionais, constituem uma das variáveis que interferem na tensão existente entre
as exigências do mercado e a idealização dos profissionais sobre as suas ações
profissionais. (COSTA, 2000, p. 63).

Baseada nesta compreensão, Marilda Iamamoto no livro “Serviço Social em tempo de


capital fetiche”, argumenta o trabalho desse profissional ser perpassado por tensas relações
entre projeto ético político profissional e estatuto assalariado. Essa tensão decorre da
dimensão de trabalho útil e ao mesmo tempo abstrato que marca essa atividade.
As atividades desenvolvidas deste Assistente Social na Comunidade Terapêutica se
caracterizam no acolhimento para tratamento de mulheres com uso, abuso ou dependência de
substâncias psicoativas, considerando a demanda estar apresentando um alto índice de
indivíduos usuários de drogas; O acompanhamento psicossocial dos usuários e suas
respectivas famílias, com vistas ao processo de aproximação, fortalecimento ou construção de
160
vínculo familiar; atendimento individual e em grupo; Atuação nas relações sociais;
Administrativo; Relatório e Monitoramento de Vagas, encaminhados semanalmente para os
Programas Sociais e Financiados, assim como Admissão e Altas Terapêutica, à Pedido,
Administrativa e por Evasão, relatados diariamente quando ocorre; Planilha matriz, relatório
dos usuários e listas de presença entregues mensalmente aos mesmos; Articulação com a rede
socioassistencial, saúde e saúde mental, INSS, Fórum, acesso ao mercado de trabalho através
de cursos profissionalizantes, entre outros; Elaboração de relatórios técnicos e ofícios;
Atualização de Prontuários com informações e procedimentos realizados; Apoio na seleção
dos colaboradores da equipe de trabalho; Prover reuniões junto à equipe técnica e demais
colaboradores para discussão de trabalhos desenvolvidos, planejamentos e/ou aplicação de
novas medidas organizacionais.

Experiência junto a uma Comunidade Terapêutica

Nos dias atuais é comum nos depararmos com usuários das mais diferentes drogas,
sendo elas: maconha, cocaína, crack, êxtase, anfetaminas, LSD, benzodiazeínico, metadona,
cogumelos alucinógenos, solventes ou inalantes, em todas as idades, presentes nas mais
diferentes classes sociais, causando assim, transtornos tanto ao usuário quanto a sua família e
até mesmo a sociedade. Além desses, temos o álcool, que é uma substância depressiva, sendo
que,+ toda região que tem vascularização, favorece o efeito e ação da droga. (FEBRACT,
2001).
Contudo, Krupnick L. e Krupnick E., destacam:

Os problemas dos dependentes de álcool e outras drogas não são sofridos em


isolamento, pois virtualmente todo dependente químico afeta outros –
especialmente o que vivem próximo a eles. Aliás, a dependência química é
comumente chamada de doença familiar. Costuma existir um envolvimento tão
grande e tão visível entre os familiares e os problemas e sintomas do doente, que o
termo Codependência foi inventado para descrever tal situação. Embora não
existam duas famílias iguais, ou que respondam à dependência química da mesma
forma, há temas, sentimentos e comportamentos comuns que prevalecem em quase
toda a familiar que abriga um paciente (Krupnick; Krupnick, 1995, p.31).

O primeiro passo para um acolhimento em Comunidade Terapêutica é a


conscientização de que “sozinho não consigo me libertar do vício das drogas”. Em seguida,
solicitar vaga social e agendar data para acolhimento, salvo quando está em estado
emergencial.
161
No ato deste acolhimento, o qual acontece juntamente à triagem (ou quando possível, a
triagem é realizada com antecedência), é desvendado o período para a conclusão do
tratamento terapêutico onde geralmente, a permanência são de 180 dias. É orientado quanto às
regras e normas de convivência, o cronograma de atividades diárias, horários de contato
telefônico com familiares e datas previstas para visitas, entre outros, que houver necessidade.
Colocar em prática a atividade física, como hábito diário. Não existe recuperação sem
renúncia.
No espaço, acontece 6 refeições diárias, sendo elas, café da manhã, lanche da manhã,
almoço, café da tarde, jantar e lanche da noite junto ao devocional antes de cada refeição.
No momento do acolhimento, também é orientado aos familiares a importância na
participação dos encontros no “Amor-Exigente”, para dar continuidade no acompanhamento
pós-tratamento, considerando que é uma recuperação constante. Todo processo de recaída
começa com o pensamento e não o comportamento.
O Amor-Exigente – programa de prevenção e orientação contra drogas – tem a
perspectiva de ajuda mútua direcionada às famílias de dependentes químicos, em resposta a
uma necessidade social.

O Amor-Exigente mostra como corrigir o que não está bem no lar e na família. É,
principalmente, um programa de prevenção, mas também age sobre a recuperação.
O Amor Exigente não só ajuda jovens quimicamente dependentes como serve para
qualquer jovem ou casal de pais com problemas. Se você anda nervoso, exausto,
atrapalhado, desgostoso ou simplesmente aborrecido com a família, o Amor
Exigente é para você. (MENEZES, 1996).

A característica de manipulação é muito acentuada no dependente químico e a família


começa a ceder incontrolavelmente. O primeiro fator para ser tratado é o comportamento,
num processo em longo prazo para mudança do estilo de vida e a decisão de ir para a CT é do
indivíduo.
A prevenção é o primeiro eixo, pois poderia ser evitado, considerando que nos dias
atuais, nos deparamos o tempo todo com propagandas de bebidas alcoólicas na TV e as
crianças e adolescentes acompanhando.
Prevenir não é extinguir a possibilidade, sendo assim, devem-se considerar algumas
ocasiões que se tornam complicadas para quem já passou por dependência quando surge
momentos de happy hour ao final do expediente de trabalho, comemorações, festas no final de
ano, entre outros. Por vezes, a família também precisa ser tratada para conseguir lidar com o
dependente em tratamento. É na crise que se cresce. Quem usa não enxerga o perigo.
162
Considerando que a droga tem a função de automedicação, vale ressaltar que a CT não
utiliza medicamento para o tratamento terapêutico.
Para criar uma CT, existe várias culturas e diferentes métodos, porém, a ampla
diversidade dificulta e não defende o que é de fato o trabalho, como a questão da religião que
é bem presente e nos deparamos com diversos dogmas contestados pela Igreja Católica,
Evangélica, Espírita, entre outras.
Acredita-se que a espiritualidade é a base dos valores compreendida como uma
filosofia da vida baseada numa convivência pacífica, no respeito e no amor próprio, no amor a
natureza e do ser humano.
Segundo pesquisas, associado ao uso das substâncias psicoativas, as mulheres tem
mais comorbidades psiquiátricas do que os homens, isso se dá através de transtorno de
personalidade, depressão, transtorno bipolar, transtornos de ansiedade, entre outros.
É primordial o trabalho em rede, contando com o apoio da saúde pública através UBS
(Unidade Básica de Saúde), CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial) e Farmácia de
Autocusto, UPA (Unidade de Pronto Atendimento); rede da Assistência Social, contando com
a colaboração do CRASS (Centro de Referência da Assistência Social) e CREAS (Centro de
Referência Especializado da Assistência Social); cursos profissionalizantes com o apoio do
SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), Poupatempo para aquisição de
documentos pessoais; Centro de Reabilitação através de Palestras Antitabagismo.
É de grande importância participar da reunião dos Conselhos, como COMAD –
Conselho Municipal de Política sobre Drogas; CMDCA – Conselho Municipal dos Direitos
da Criança e do Adolescente e COMAS – Conselho Municipal da Assistência Social, para
fazer política pública e batalhar pelos direitos dos dependentes.
Utiliza-se rifas e eventos como jantar e bazar beneficente para arrecadação de verbas
para complemento de renda e efetuar pagamento de despesas mensais.
A equipe técnica realiza contato familiar na mediação de laços rompimentos, haja
vista, que devido a conflitos familiares houve o envolvimento com as drogas, ou devido o
envolvimento com as drogas, acontece os conflitos familiares.
É de fundamental importância, a equipe acreditar no tratamento para a recuperação de
todos os residentes e estimular a participação em todas as atividades propostas e, contudo,
estar preparada para a mediação de conflitos, para que quando houver, se houver, propor às
partes envolvidas abandonar essa postura em momento de fúria. Em forma de correção,
pontuar o comportamento e não a pessoa em si.
163
A CT é um lugar onde se acredita que as pessoas podem mudar inclusive que o grupo
pode promover mudança e os indivíduos podem assumir responsabilidades.
Ter consciência de que não se modifica ninguém, apenas colabora e faz seu melhor.
Não pronunciar que todos são iguais e sim, que a Comunidade é comum a todos.

Considerações Finais

Destes fatos históricos relacionados, o que chama a atenção é a minimização do


Estado, que passa a transferir suas responsabilidades para as Organizações Não
Governamentais.
É necessário que o Assistente Social rompa com a atividade burocrática e rotineira,
onde um dos maiores desafios é desenvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir
propostas de trabalho criativas. “Enfim, ser um profissional propositivo e não só executivo”.
(Iamamoto, 2004, p. 20).
É preciso resistir e lutar bravamente contra o uso de substâncias psicoativas dentro do
núcleo familiar, isso se torna um desafio.
A espiritualidade dentro de nós se chama “capacidade de amar”, por isso, o dia mais
importante é hoje!

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo Luis Coltro. Os Sentidos do Trabalho: ensaio sobre a afirmação e a


negação do trabalho. 2 ed. São Paulo: Boitempo, 2009.

BARROS, Aidil Jesus da Silveira; LEHFELD, Neide Aparecida de Souza. Fundamentos de


Metodologia Cientifica. 3. ed. São Paulo: Pearson, 2007.

CFESS. Serviço Social na Educação. Grupo de estudos sobre o Serviço Social na Educação.
Brasília: DF, 2001.

COSTA, Maria Dalva Horácio da. O trabalho nos serviços de saúde e a inserção dos (as)
assistentes sociais. Serviço Social e Sociedade nº 62. São Paulo, Cortez, mar. 2000, pp. 35-
72.

FEBRACT. Drogas e Álcool: prevenção e tratamento. Ed. Komedi, 2001.

______. Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas, 2011. Disponível em:


<febract.org.br/?navega=comunidades>. Acesso em: 05/05/2017.

164
GOTI, Maria Elena. A Comunidade terapêutica: Um desafio e a droga. Ed. Nova Visão,
1990.

IAMAMOTO, Marilda Villela; CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no


Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 10. ed. São Paulo: Cortez; Lima
(Peru): CELATS, 2005.

______, Marilda Villela. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação


profissional. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2004.

______. Serviço Social em Tempo de Capital Fetiche: capital financeiro, trabalho e questão
social 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2008.

KRUPNICK, L. KRUPNICK, E. Do desespero à decisão: Como ajudar um dependente


químico que não quer ajuda. São Paulo: Bezerra, 1995.

LEON, Deorge de. A Comunidade Terapêutica: teoria, modelo e método. São Paulo:
Loyola, 2003.

MARX, Karl. O Capital. Vol. 1/1. 22. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004b.

______. O Capital: crítica da economia política. Tradução por Regis Barbosa e Flávio R.
Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1985a. Livro 1, v.1, t.1. (Os economistas).

MENEZES, Mara Sílvia Carvalho de. O que é Amor Exigente. 22. ed., São Paulo: Loyola,
1996.

MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa Social. 23. ed. Petrópolis/ RJ: Vozes, 1994.

MONTAÑO, Carlos. Terceiro Setor e a Questão Social: crítica ao padrão emergente de


intervenção social. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

PEZZULLO, Susan. Desenvolvendo sua Organização: um guia de sustentabilidade para


ONGs. 2. ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2004.

165
PROJETO COLETIVO RECICLAGEM COMO TECNOLOGIA SOCIAL:
SISTEMATIZAÇÃO DE EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL À LUZ DA TEORIA
CRÍTICA

Pâmela Mara de Oliveira *

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo sistematizar experiências e saberes vividos
durante um trabalho realizado no Projeto Coletivo Reciclagem do Instituto Coca-Cola Brasil,
onde a presente autora atuou como analista ambiental. Em documentos veiculados a respeito
do projeto, consta que, por meio das ferramentas da Teoria do Valor Compartilhado, procurou
desenvolver uma tecnologia social voltada para apoiar cooperativas e associações de
catadores e catadoras de materiais recicláveis. Da experiência direta puderam ser constatadas
diversas contradições dentro deste projeto, a partir das quais foi realizada uma análise crítica e
aprofundada dos fatos sucedidos. A metodologia utilizada foi a abordagem qualitativa por
meio da sistematização de experiências e usado como marco teórico o materialismo dialético,
trazendo uma reflexão crítica da realidade vivida, indicando as incoerências dentro do
empreendedorismo social na forma como ele é implementado. Este trabalho permitiu
compreender as relações paradoxais embasadas no sistema capitalista, a partir da extração da
mais valia - aquilo que permite explorar ainda mais as forças de trabalho e a produção
coletiva de trabalhadores e trabalhadoras. O projeto se mostra muito mais atrelado a um
marketing social e ambiental, que a uma proposta de transformação da realidade das pessoas
envolvidas.

Palavras-Chave: Coletivo Reciclagem. Tecnologia Social. Valor Compartilhado.

Introdução

A geração de resíduos produzidos e descartados pela sociedade configura-se um dos


maiores problemas da atualidade. As deficiências do gerenciamento dos resíduos têm
ocasionado a escassez dos recursos naturais, a degradação ambiental e o esgotamento de
espaço físico para seu armazenamento. Em vista disso a reciclagem tornou-se uma alternativa
para reduzir os impactos ambientais gerados.
Essa atividade e as condições socioeconômicas do país contribuíram para que algumas
pessoas se tornassem catadores e catadoras de materiais recicláveis, estando à margem da
economia e sobrevivendo por meio da catação e a venda do material reciclável, evidenciando
a desigualdade social no Brasil. Conforme afirma Carolina Benicio Santana (apud SANTOS e

*
Mestranda do Prograda de Programa de Pós-graduação em Planejamento e Análise de Políticas Públicas –
UNESP/Câmpus de Franca.

167
MANFRIN, 2011) é nesse quadro do trabalho informal que se encontram os catadores e
catadoras de materiais recicláveis, caracterizados como a população sobrante, ou seja,
vulnerável e marginalizada, pois não conseguem se inserir nos processos formais de trabalho.
Segundo Santos e Manfrin (2011), esses trabalhadores e trabalhadoras estão
desprovidos de uma proteção social e de uma intervenção eficaz do poder público, além de
atuar em um tipo de trabalho insalubre e de alta periculosidade, encontrando-se nos índices de
extrema pobreza.
Os catadores e catadoras de materiais recicláveis podem atuar de forma autônoma e
dispersa nas ruas, lixões e aterros, como também de forma coletiva por meio da organização
em cooperativas e associações. Muitos ainda trabalham sob condições precárias e conforme
afirma Magera (2003) é um trabalho exaustivo, visto que as condições a que estes indivíduos
estão submetidos em troca do recebimento de um valor irrisório da venda dos materiais, é
insuficiente para sua própria reprodução como catador e catadora.
No ano de 2007 foi instituída a Lei 11.445, que estabelece diretrizes nacionais para o
saneamento básico e em 2010 foi sancionada a Lei nº 12.305 que institui a Política Nacional
de Resíduos Sólidos, que reforça a idéia de que os resíduos devem ser tratados de forma
integrada, articulando as dimensões econômicas, técnicas, ambientais e sociais, e que a
participação dos catadores e catadoras deve ser garantida. (BRASIL, 2010).
No entanto, os desafios para a inserção desses trabalhadores são muitos, um deles diz
respeito à disputa entre o poder público e as empresas para determinar quem é responsável
pelos custos da reciclagem no Brasil (MAIA, 2013). A externalização dos custos de produção
do sistema econômico capitalista não é contabilizada ou considerada pelas empresas – a
natureza é vista como contingência.
A cadeia da reciclagem é definida como o descarte pós-consumo, a coleta, triagem,
enfardamento, comercialização, logística de transporte e beneficiamento dos produtos para o
mercado (SANTOS et. al., 2010). O trabalho de catação, separação e triagem dos materiais
advindos dos resíduos recicláveis correspondem a 89% do processo acima citado e é realizado
pelos milhares de catadores e catadoras como forma de sobrevivência, sendo que às indústrias
fica apenas 11% do trabalho (MNCR apud SEVERI, 2014).
Todavia, os catadores e catadoras estão inseridos na cadeia da reciclagem de forma
precária e em situação de subordinação aos outros elos da cadeia, ficando os grandes lucros
deste processo com as indústrias. Os benefícios econômicos não são compartilhados de forma

168
equitativa e somado a isso ainda sofrem com as oscilações de preços dos materiais recicláveis
no mercado.
Mas afinal, quem paga a reciclagem? Uma considerável parcela do setor privado
não quer assumir o gasto com as externalidades do processo produtivo, no entanto, a União
deseja que as companhias assumam a parte dos custos da limpeza urbana relacionada à coleta
de embalagens (MAIA, 2013). Conforma afirma Maia (2013), “as maiores empresas da
cadeia, entre elas Coca-Cola, Nestlé, Unilever e Wal-Mart, são contra”, empresas essas,
reunidas na Coalizão Embalagens1 e apoiadas pelo Compromisso Empresarial para
Reciclagem (CEMPRE), tentam evitar o custo adicional.
Pretende-se, nesse artigo, refletir sobre como estas empresas buscam aliar interesses
concorrentes, ou seja, investir na logística reversa e aumentar seus rendimentos utilizando
estratégias baseadas na Teoria do Valor Compartilhado (Creating Shared Value), defendida
por Michael E. Porter e Mark R. Kramer. Os autores desta teoria defendem que o Valor
Compartilhado não é responsabilidade social, filantropia ou mesmo sustentabilidade, mas uma
nova forma de obter sucesso econômico, através de um conjunto de práticas operacionais que
expandem a competitividade da empresa ao mesmo tempo em que favorecem melhorias nas
condições econômicas e sociais das comunidades na quais atuam (ARABE apud SPITZECK).
Um número crescente de empresas adotou iniciativas com a teoria do Valor
Compartilhado e é mediante esse contexto que esse artigo irá trabalhar. Desta forma este
trabalho busca apontar algumas das contradições dentro do empreendedorismo social, baseado
em experiência e saberes vivenciados dentro do Projeto Coletivo Reciclagem, criado pelo
Instituto Coca Cola Brasil.

Objetivo Geral

 Sistematizar experiências e saberes vividos durante um trabalho realizado no Projeto


Coletivo Reciclagem do Instituto Coca-Cola Brasil.

Objetivos Específicos

1
Assinado no dia 25 de novembro de 2015, o Acordo Setorial criado pela Coalizão Embalagens é um marco na
busca de alternativas para ampliar a reciclagem pós-consumo no país. A Coalizão é formada por 22 entidades
do setor - produtores, importadores, usuários e comerciantes, com apoio do Cempre, da Confederação
Nacional das Indústrias (CNI) e da Confederação Nacional do Comércio (CNC) - que se responsabilizaram
pelos estudos e a formulação da proposta que foi submetida à análise do governo e consulta pública
(CEMPRE).
169
 Levantar incoerências dentro do Projeto Coletivo Reciclagem como forma de
empreendedorismo social e a maneira como foi implementado;
 Identificar elementos que apontem a contradição entre o marketing social e os
objetivos ocultos no sistema capitalista.

Metodologia

A metodologia utilizada nesta pesquisa foi a abordagem qualitativa, através da


sistematização de experiências (HOLLIDAY, 2006), além de pesquisa bibliográfica e de
documental.
Buscou-se a sistematização de experiências, pois o objetivo é falar de práticas
concretas (HOLLIDAY, 2006) e foi escolhido o materialismo dialético como marco teórico
para análise por ser um instrumento que busca observar através de uma concepção da
realidade social, indo até as origens dos processos históricos e os seus rebatimentos na
sociedade atual (CASTANHO 1996). Afirmava Corbisier (1968) apud Castanho (1996), que a
dialética é precisamente a lógica da contradição, tornando-nos capazes de compreender e
explicar os movimentos da história.
É indispensável no atual sistema das relações capitalistas de produção, a interpretação
dialética dos fenômenos sociais presentes, onde se observa as contradições (DINIZ e SILVA,
2008), questões essas necessárias para compreensão e explicação que será construída aqui por
meio das experiências vividas pelos analistas ambientais2, (também chamados de analistas de
campo) dentro do Projeto Coletivo Reciclagem.
De acordo com Holliday (2006), a sistematização é uma forma de interpretação crítica
de uma ou mais experiências que, a partir de seu ordenamento e reconstrução, descobre ou
explicita a lógica do processo vivido. Portanto, aqui serão narradas as experiências e descritos
os processos, atentando-se no rigor crítico que é indispensável para realmente “sistematizar”.
Portanto aqui neste trabalho buscar-se-á conduzir à reflexão teórica e crítica dos
conhecimentos e experiências vividas dentro das práticas sociais concretas a fim de
compreender a lógica das relações e contradições dentro do Projeto Coletivo Reciclagem,
localizando as incoerências existentes.

2
Os analistas ambientais eram os responsáveis por aplicar a metodologia do Projeto Coletivo Reciclagem junto
às cooperativas e associações de materiais recicláveis que estavam inseridas no projeto.
170
Projeto Coletivo Reciclagem: Reflexões Sobre Práticas

O método de explanar a própria experiência oportuniza ao sujeito reconstruir sua


trajetória, possibilitando novos sentidos, estabelecendo uma relação dialética entre
experiência e narrativa, mediada pelos processos reflexivos (RODGERS, 2002; CUNHA,
1997). Aqui serão elucidadas experiências vividas dentro de um projeto desenvolvido pelo
Instituto Coca-Cola Brasil que visa apoiar catadores e catadoras de materiais recicláveis.
O Instituto Coca-Cola Brasil (ICCB) é uma organização fundada em 1999 com o
objetivo de promover a transformação social do país, desenvolvendo e operando programas
sociais que visam o empoderamento dos indivíduos e a geração de renda e tem como sócio-
fundadores a Coca-Cola Brasil e seus fabricantes de bebidas (COCA-COLA BRASIL, 2016).
No ramo da reciclagem, a Coca-Cola Brasil desenvolveu, através do ICCB, o
programa Coletivo Reciclagem, anteriormente conhecido como “Reciclou, Ganhou”, e tem
como objetivo “empoderar e profissionalizar cooperativas de reciclagem e fortalecer sua
inserção na cadeia formal, gerando mais eficiência, trabalho em rede, renda justa e ambiente
digno aos catadores”.
O projeto foi desenvolvido pelo ICCB com objetivo de apoiar cooperativas e
associações de catadores e catadoras de materiais recicláveis em todo Brasil, e para a
operacionalização do projeto o ICCB contratou o Instituto Doe seu Lixo (DSL), que por sua
vez em parceria com a Socitex – Cooperativa de Trabalho Misto Ltda, selecionava os
analistas para implementação deste, e foi no ano de 2012 que a autora deste trabalho iniciou
suas atividades dentro do projeto como analista ambiental.
Durante o programa “Reciclou, Ganhou” não havia contato direto do ICCB com os
analistas de campo, todavia mediante a transição e reestruturação do projeto que aconteceu
em 2013, ocorreu uma aproximação. Alguns analistas de campo foram selecionados e
convidados a participar do treinamento piloto no Rio de Janeiro e dentre os selecionados a
autora deste trabalho.
O projeto piloto trouxe uma nova metodologia de trabalho e foi aplicado nas
cooperativas e associações de catadores e catadoras pelos analistas de campo presentes
durante o treinamento. Foram obtidos os resultados esperados pelo ICCB permitindo a
extensão da metodologia no ano 2014 para as demais organizações participantes do projeto, o
que oportunizou um segundo encontro, momento este em que todos e todas analistas de
campo que atuavam no projeto puderem se conhecer.
171
As cooperativas e associações de catadores e catadoras de materiais recicláveis para
que pudessem participar do programa tinham que cumprir um dos requisitos determinados
pelo mesmo, a disponibilização mensal dos dados de produção. Durante o decorrer do projeto
foram observadas contradições e incoerências a partir da dinâmica real de trabalho realizado
pelos analistas de campo, permitindo tornar possível a identificação de pontos críticos a serem
discutidos. Esses elementos foram importantes para compreender a construção do
conhecimento prático-profissional (MARCOLINO e MIZUKAMI, 2008).
O contrato de trabalho entre os analistas de campo e o projeto não foi diretamente pelo
ICCB, sendo intermediado pelo Instituto DSL que por meio da Cooperativa Socitex,
localizada no município do Rio de Janeiro, elaborou um termo de adesão voluntária, tornando
os analistas sócio-cooperados para trabalharem no projeto. O projeto abrangia organizações
em nível nacional e eram aproximadamente quarenta analistas de campo distribuídos em
diversos municípios do Brasil, localizados em diferentes estados.
Os analistas quando selecionados foram informados que trabalhariam apenas para o
Projeto Coletivo Reciclagem, em vista disso as demais atividades executadas pela
Cooperativa Socitex não eram conhecidas por esses profissionais. A remuneração mensal dos
analistas era fixa e recebiam um valor semanal conforme o roteiro de visitas que elaboravam
para execução de suas atividades. Não tiveram acesso aos documentos legais da cooperativa,
como o estatuto social, regimento interno, dados de produção, receitas e nunca foram
chamados para assembléias sejam elas ordinárias e/ou extraordinárias, contradizendo a Lei n°
12.690/ 2012, que dispõe sobre a organização e funcionamento de cooperativas de trabalho.
Dentre as maiores vantagens de ser uma cooperativa no Brasil estão a não incidência
de determinados impostos, a flexibilização dos vínculos empregatícios e o acesso a fomentos
e créditos específicos. O art. 90, da lei de 1971 nos dá um exemplo disso quando anuncia que
“qualquer que seja o tipo de cooperativa, não existe vínculo empregatício entre ela e seus
associados”.
Diante do exposto os analistas começaram a perceber a situação na qual se
encontravam e a reivindicar seus direitos, como resultado das reivindicações foi recebido por
email uma carta circular dizendo que a Cooperativa Socitex com o apoio do Instituto DSL
iriam estruturar o orçamento do projeto a fim de colocar em vigor um plano de “retiradas”
diferenciadas (remuneração mensal), em razão do tempo que os cooperados e cooperadas
(analistas de campo), tinham na associação e em exercício de suas atribuições no Projeto
Coletivo Reciclagem do Instituto Coca-Cola Brasil. Os critérios adotados foram a partir de
172
categorias: Pleno (até completarem dois anos), Sênior (até completarem 4 anos) e Máster
(mais de 4 anos).
Os analistas de campo atuavam diretamente com as organizações que faziam parte do
projeto através de visitas técnicas semanais, quinzenais, ou conforme o número de
cooperativas e associações que eram responsáveis. As atividades desenvolvidas eram seguidas
de um cronograma de execução e registradas por meio da elaboração de relatórios semanais
de visitas e relatórios mensais referente aos dados de produção dos empreendimentos. Eram
aplicados questionários, elaborados planos de ação, oficinas que abordavam o tema gênero, e
realizadas reuniões semanalmente com a coordenação do projeto por meio de uma plataforma
online chamada Rede Coletivo, que foi criada para facilitar a comunicação entre analistas e a
equipe do ICCB.
A metodologia do Projeto Coletivo Reciclagem foi a partir de um questionário
aplicado nas organizações a cada ciclo de seis meses, e tinha como objetivo levantar
informações sobre as cooperativas e associações de catadores e catadoras de materiais
recicláveis. O questionário gerava um diagnóstico detalhado que levava em conta aspectos da
formalização, gestão, coleta, triagem e produção. Essas informações eram utilizadas para
identificar o nível em que as organizações se encontravam por meio de gráficos e indicadores.
Após a análise dos resultados obtidos através do diagnóstico era elaborado um plano de ação
com metas mensuráveis em conjunto com os catadores e catadoras e posteriormente a
definição do plano, era decidido em conjunto a “recompensa” que a organização receberia ao
atingir a meta.
As organizações quando conseguiam alcançar a meta estabelecida recebiam uma
recompensa no valor de R$5.000,00 e estas metas eram medidas, analisadas e comunicadas
pelo (as) analistas, que por sua vez se esforçavam para que fossem alcançadas, e no mínimo
garantir as recompensas para as organizações.
Este valor de R$5000,00 não era repassado diretamente para os empreendimentos,
ficando como exigência do ICCB a compra de equipamentos e/ou itens no valor estabelecido.
Dessa forma, as cooperativas e associações não tinham autonomia plena de utilização do
dinheiro, muitas vezes precisando da verba, porém só podendo receber em forma de produtos.
Este projeto recebeu em 2015 o prêmio de Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil.
No entanto aqui é possível observar uma das contradições do projeto, cabendo
ressaltar que os catadores e catadoras devolvem para a cadeia produtiva os resíduos
produzidos pelas empresas e, no entanto, não são remunerados pelos serviços prestados. Por
173
outro lado se observa no contexto as relações de solidariedade entre analistas e catadores (as),
buscando compreender o trabalho um do outro. Ambos trabalhadores (as) explorados dentro
de uma cadeia de Valor Compartilhado, que por um lado usava a mão de obra análoga à
escravidão dos catadores e catadoras de seus resíduos de embalagens, e por outro realizava o
financiamento de um projeto social que também explorava seus trabalhadores e trabalhadoras,
como fica evidente na forma de “contratação” dos analistas de campo.
O Projeto Coletivo Reciclagem com objetivo de trocar experiências entre analistas de
campo e alinhar a metodologia, realizava anualmente treinamentos desenvolvidos e
executados pela equipe do ICCB. No ano de 2016 o encontro anual foi cancelado, mesmo
após os analistas receberam as passagens aéreas via email e a data que aconteceria o
treinamento. Após o cancelamento, os analistas receberam recomendações via email dos
coordenadores da Cooperativa Socitex, solicitando que não mais enviassem emails
diretamente para a equipe do ICCB, equipe essa que foi mantido contato direto desde o
projeto piloto em 2013.
Em novembro de 2016 os analistas receberam orientação através de um email dizendo
para não efetuarem as compras referentes às recompensas que iriam para as organizações que
atingiram suas metas no ciclo do segundo semestre, que por sua vez ficaram sem receber,
mesmo passando seus dados de produção. No dia primeiro de dezembro todos e todas
analistas de campo receberam outro email enunciando que a Cooperativa Socitex não estaria
mais à frente da operacionalização do Projeto Coletivo Reciclagem para o ICCB, e que
tampouco saberiam informar de que forma ou por quem o projeto seria operacionalizado.
Todavia, a equipe do ICCB não entrou em contato com os analistas de campo nem através de
emails, nem por qualquer outro meio de comunicação, não houve nenhum pronunciamento,
ficaram em silêncio.
Diante do contexto apresentado estaria o Projeto Coletivo Reciclagem contribuindo
com o empoderamento dos indivíduos e a geração de renda?
O empoderamento envolve um processo de conscientização, a trajetória de um
pensamento acrítico para uma consciência crítica. Não obstante, isso não se dá no vazio, numa
posição idealista (BAQUERO, 2012), “a conscientização é um processo de conhecimento que
se dá na relação dialética homem-mundo, num ato de ação-reflexão, isto é, se dá na práxis”
(FREIRE, 1979 apud BAQUERO, 2012). Conscientizar não significa manipular, conduzir o
outro a pensar como nós, conscientizar é o ato de compreender a realidade através de um
olhar mais crítico.
174
Embora historicamente o empoderamento esteja associado a formas alternativas de se
trabalhar as realidades sociais, os movimentos sociais independentes, formas cooperativistas,
formas de democracia participativa e autogestão, esse termo foi incorporado no discurso
neoliberalista3 (BAQUERO, 2012).
Não seria esse projeto uma forma de marketing social e ambiental? Social, pois seu
objetivo é criar uma imagem positiva da empresa através de ações “construtivas” à sociedade,
e ambiental por que é uma estratégia de marketing voltada para vinculação da marca a uma
imagem ecologicamente consciente.
Por fim, é substancial citar aqui que toda essa conjuntura culminou em um inquérito
civil promovido pelo Ministério Público do Trabalho, que resultou em um Termo de Ajuste de
Conduta (TAC), com objetivo de cumprir as leis trabalhistas no tocante aos direitos dos
analistas de campo que trabalharam para este projeto.

Considerações Finais

É fundamental observar as contradições que o capitalismo produz, portanto para que


esse trabalho não se limitasse à teoria se propôs através do materialismo dialético sistematizar
experiências vividas no campo de atuação profissional, procurando demonstrar as
incoerências existentes no empreendedorismo social por meio de reflexão crítica e análise dos
elementos apresentados.
Através da experiência profissional constatou-se a precarização do trabalho dos
analistas e a exploração dos catadores e catadoras de materiais recicláveis no que diz respeito
às atividades prestadas por este setor às empresas, permitindo a disseminação e socialização
das experiências vividas, podendo proporcionar instrumentos relevantes e viáveis para a
compreensão da realidade, onde as questões operacionais foram cruciais para determinar o
tipo de política social que vem sucedendo.
Neste contexto a análise dessa tecnologia social é extremamente relevante, tanto pela
sua dimensão como por sua forma de implementação, pois para o avanço destes projetos é
necessário um forte combate à ideologia neoliberal que orienta e determina as diretrizes dos
programas sociais.

3
Neoliberalismo é um conjunto de ideias políticas e econômicas capitalistas que defende a não participação do
estado na economia, onde deve haver total liberdade de comércio, para garantir o crescimento econômico e o
desenvolvimento social de um país.

175
Este trabalho permitiu compreender as relações que estão embasadas pela contradição
capitalista a partir da extração da mais valia - aquilo que permite explorar ainda mais as forças
de trabalho e a produção coletiva, condição social vivida dentro do capitalismo.
Trata-se de um uso inadequado de determinada forma de organização e de seu
respectivo arcabouço jurídico e burocrático, e essas tais práticas fraudulentas é que, em geral,
organizações não governamentais e cooperativas no Brasil são comumente associadas à
corrupção ou mal-vistas pela grande população, portanto é preciso em nome do verdadeiro
cooperativismo, evidenciar essas fraudes acometidas pelas falsas cooperativas, para que
deixem de lesar trabalhadores e trabalhadoras precarizando direitos, além de prejudicar a
imagem das autênticas cooperativas.
Conclui-se que a experiência profissional atravessada pela autora no Projeto Coletivo
Reciclagem gerou uma análise crítica que culminou em um projeto de pesquisa de mestrado,
que visa aprofundar a exploração deste contexto, principalmente no que diz respeito às
políticas públicas voltadas para catadores e catadoras de materiais recicláveis.

REFERÊNCIAS

ARÁBE, M. P.; SPITZECK, H. H.. GRS Insigth Criando Valor Compartilhado. Fundação
Dom Cabral. Disponível em:
https://www.fdc.org.br/professoresepesquisa/nucleos/Documents/sustentabilidade/centro_sust
entabilidade/grs_insight_criando_valor_compartilhado.pdf. Acesso em 16 maio 2017.

BAQUERO, R. V. A.. A Situação das Américas: Democracia, capital social e


empoderamento. Empoderamento: instrumento de emancipação social? Uma discussão
Conceitual. Revista Debates. Porto Alegre, v. 6, n. 1, p.173-187, jan.-abr. 2012.

BRASIL, Lei nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971, Define a Política Nacional de


Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas, e dá outras
providências. Disponível em: https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/109412/lei-
5764-71#art-90. Acesso em 01 junho 2017.

______. Lei n° 12.305, de 2 de agosto de 2010, institui a Política Nacional dos Resíduos
Sólidos, altera a Lei n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 e dá outras providências. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm. Acesso em 16
maio 2017.

______. Lei n° 11.445, de 05 de janeiro de 2007, instituiu a Política Nacional do Saneamento


Básico. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-
2010/2007/lei/l11445.htm. Acesso em 16 mai. 2017.

176
______. Lei n°12.690, de 19 de julho de 2012, dispõe sobre a organização e funcionamento
de Cooperativas de Trabalho. Disponível em: http://www.normaslegais.com.br. Acesso em 18
mai. 2017.

CASTANHO, S. M. E. Atualidade do Método Dialético. Revista da Faculdade de Educação,


PUCCAMP. Campinas. V. 1. n. 1, p. 13-21. Agosto/1996.

COALIZÃO EMBALAGENS: O que foi feito e perspectivas para o futuro. Disponível em:
http://cempre.org.br/informa-mais/id/53/coalizao-embalagens--o-que-foi-feito-e-perspectivas-
para-o-futuro. Acesso em 17 mai. 2017.

COCA-COLA BRASIL. Tecnologia Social: trabalho do Instituto Coca-Cola Brasil segue


metodologias e técnicas que geram impacto em larga escala. Disponível em:
http://www.cocacolabrasil.com.br/packages/tecnologia-social-trabalho-do-instituto-coca-cola-
brasil-segue-metodologias-e-tecnicas-que-geram-impacto-em-larga-escala. Acesso em 17
mai. 2017.

______. A força do trabalho em rede: como funciona o Instituto Coca-Cola Brasil.


Disponível em: http://www.cocacolabrasil.com.br/packages/a-forca-do-trabalho-em-rede-
saiba-como-funciona-o-instituto-coca-cola-brasil. Acesso em 17 mai. 2017.

______. Coletivo Reciclagem: programa gera empoderamento, mais eficiência e renda para
cooperados. Disponível em: http://www.cocacolabrasil.com.br/packages/coletivo-reciclagem-
programa-gera-empoderamento-e-renda-para-cooperados. Acesso em 15 mai. 2017.

CUNHA, M.I. Conta-me agora. As narrativas como alternativas pedagógicas na pesquisa e no


ensino. Revista Faculdade de Educação, v.23, n.1-2, 1997. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
25551997000100010&lng=pt&nrm= iso. Acesso em 18 mai. 2017.

DINIZ, C. R.; SILVA, I. B. O método dialético e suas possibilidades reflexivas.


Metodologia Científica. Campina Grande, Natal: UEPB/UFRN - EDUEP, 2008.

HOLLIDAY, O. J. Como sistematizar experiências. Tradução de: Maria Viviana, V.


Resende. 2. ed. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2006.
Iniciativas de sucesso são premiadas pela Fundação Banco do Brasil. Seis experiências
venceram o Prêmio de Tecnologia Social e outras 12 também receberam o reconhecimento.
Publicada em 11/11/2015. Disponível em: http://www.ogirassol.com.br/geral/iniciativas-de-
sucesso-sao-premiadas-pela-fundacao-banco-do-brasil. Acesso em 18 mai. 2017.

INSTITUTO DOE SEU LIXO. Disponível em: http://www.doeseulixo.org.br/sobre-nos/o-


instituto/. Acesso em 17 mai. 2017.

MAIA, S. Quem paga a reciclagem? Carta Capital, edição 774, nov. 2013. Disponível em:
http://www.cartacapital.com.br/revista/774/quem-paga-a-reciclagem-5951.html. Acesso em
17 mai. 2017.

177
MARCOLINO, T.Q.; MIZUKAMI, M.G.N. Narrativas, Processos Reflexivos e Prática
Profissional: apontamentos para pesquisa e formação. Interface - Comunicação, Saúde,
Educação, v.12, n.26, p.541-7, jul./set. 2008.

PORTER, M.E.; KRAMER, M.R..Creating Shared Value. Harvard Business Review, fev.-
mar., p. 62-77, 2011.

RODGERS, C. Defining reflection: another look at Jonh Dewey and reflective thinking.
Teach. Coll. Rec., v.104, n.4, p.842-66, 2002.

SANTOS, M. C. L. et. al. Frames de ação coletiva: uma análise da organização do


Movimento Nacional de Catadores de recicláveis no Brasil (MNCR). In. SCHERER-
Secretaria Nacional de Formação Política do Partido Comunista Brasileiro. O que é
neoliberalismo? Qual a diferença entre liberalismo e neoliberalismo? Disponível em:
http://www.pcb.org.br/portal/docs/neoliberalismo1.pdf. Acesso em 18 mai.2017.

SEVERI, F. C. Os catadores de materiais recicláveis e reutilizáveis na Política Nacional de


Resíduos Sólidos. Revista Direito e Práxis, vol. 5, n.8, 2014, pp.152-171.

WARREN, I.; LUCHMANN, L. H. H. Movimentos Sociais e participação: abordagens e


experiências no Brasil e na América Latina. Florianópolis: UFSC, 2011.

178
SERVIÇO SOCIAL E TERCEIRO SETOR: CONTRADIÇÕES E DESAFIOS
INERENTES A CATEGORIA PROFISSIONAL

Ana Carolina Bernardes Borges Silva*


Helen Caroline dos Santos Barbosa**

Resumo: Este artigo discute sobre o Terceiro Setor perpassando contradições e desafios
inerentes ao Serviço Social. Com análise bibliográfica de autores que estudam tal temática,
questionamos as contradições que englobam o terceiro setor e os desafios que são colocados
aos assistentes sociais. Estas reflexões propõem também experiências que englobaram o
campo de estágio das autoras do trabalho. Com a atual política neoliberal e a
desresponsabilização do Estado frente ao que foi concedido na Constituição Federal de 1988
no campo da Seguridade Social com a privatização de serviços públicos, vivenciamos a cada
dia o crescimento do Terceiro Setor, e a inserção dos profissionais nestes espaços socio-
ocupacionais. A prática profissional dos assistentes sociais no Terceiro Setor são rodeadas
por contradições e desafios constantes impostos no dia a dia, tendo em vista que são em sua
maioria espaços no âmbito privado. Se faz necessário frente as demandas e a atual política
neoliberal que rege a nossa sociedade, o Serviço Social deve se apropriar dos conhecimentos
teórico metodológico, ético político e técnico operativo, para desenvolver a práxis profissional
de acordo com o projeto ético político da profissão e alcançar a efetivação do seu trabalho.
Com base em pesquisas bibliográficas correlacionando com experiência de estágio de uma
das pesquisadoras, iremos fazer uma breve discussão sobre a temática. Não à o propósito de
esgotar o assunto, mas sim fazer reflexões sobre as contradições e desafios da relação entre
Terceiro Setor e Serviço Social, afim de conhecer e compreender sobre o tema proposto para
discussão.

Palavras Chaves: Terceiro setor, ONG’s, Serviço Social.

Introdução

Este estudo advém de reflexões e discussões que perpassaram estágio realizado na


área do terceiro setor por uma das autoras do trabalho. Para além, é também fruto de estudo de
vários autores que discutem tal temática. Tem como objetivo refletir sobre as contradições e
desafios da relação entre terceiro setor e Serviço Social. Se caracteriza como ensaio teórico,
com pesquisa bibliográfica de autores que trazem a sua contribui ção sobre o assunto
problematizado.

*
Assistente Social, mestranda do Programa de Pós Graduação em Serviço Social pela UNESP/Câmpus de
Franca, bolsista da CAPES e membro do GESTA UNESP/Câmpus de Franca SP.
**
Assistente social pela Prefeitura Municipal de Taquarintinga S.P. no Centro de Referência de Assistência
Social (CRAS), mestranda do Programa de Pós Graduação em Serviço Social pela UNESP/Câmpus de Franca,
e membro do GESTA da UNESP/Câmpus de Franca SP.

179
O surgimento do terceiro setor deve-se ao fato da desresponsabilização do Estado e a
sua omissão frente as políticas sociais. Um dos discursos para a reforma do Estado são as
crises que a políticas sociais trouxeram para os fundos públicos, transferindo as
responsabilidades do meio social para a sociedade civil e as organizações não
governamentais.
A partir da década de 90, há aumento no surgimento das instituições de Terceiro
Setor, e consequentemente inserção dos profissionais nestes espaços socio-ocupacionais.
Muitas vezes, tal inserção se da de maneira alienada, sem críticas, realizando um trabalho
contraditório. Por isso, se faz essencial o profissional trabalhar de acordo com o projeto ético
político da profissão.
É neste cenário que as pesquisadoras apresentam uma breve revisão bibliográfica
sobre o assunto e a importância da necessidade de se conhecer sobre tal, para poder realizar
um trabalho efetivo nestes espaços, sem seguir bases assistencialistas e olhar conservador que
o próprio sistema capitalista nos remete a "acreditar".
Trabalhar com a efetivação da práxis profissional dos assistentes sociais, é possível
superar os desafios profissionais impostos pela sociedade, pressupondo também que "[...]
romper obstáculos, planejar estratégias, articulando forças com outros profissionais
envolvidos no cenário das instituições (políticas públicas e privadas) para enfrentar a
radicalidade das questões sociais e assim defender a vida humana acima de tudo".
(MARTINS, 2011, p. 54 apud MATTOS, 2015, p. 78).
Discorrer sobre o terceiro setor é um grande desafio, visto que, existem inúmeras
contradições circundando o mesmo. Autores que tratam sobre o tema trazem vários
questionamentos passíveis de grandes reflexões.

Objetivo Geral,

Refletir sobre as contradições e desafios da relação entre terceiro setor e Serviço


Social.

Objetivos Específicos
Apresentar o que é o Terceiro Setor;
Discutir sobre as contradições apresentadas pelo Terceiro Setor;
Compreender os desafios inerentes ao Terceiro Setor e o Serviço Social.
180
Metodologia
Este trabalho se caracteriza como ensaio teórico, com pesquisa bibliográfica de
autores que discutem a temática problematizada.

Discussão Teórica
Estado e a “força”para o terceiro setor

A sociedade contemporânea vivencia um cenário social, político e econômico, onde


se concentra um plano de disputas e interesses individuais, regidos por um grupo de pessoas
que possuem um poder determinado pela concentração de capital. Nesta concepção de
interesses, o Estado é organizado e pensado, sendo colocado a disposição do capital, não
fazendo oposição a exploração do trabalho pelo mesmo, mas apenas regulando e mantendo o
status quo.
Segundo Bobbio (1987), para Engels a formação do Estado se deu exclusivamente
por via econômica, onde a sociedade civil surge através da divisão de terras (propriedade
privada). Nesta divisão de terras, e de trabalho, surgem a divisão das classes, aqueles que
detém terras e os que não. A função do Estado é justamente manter o poder de uma classe
sobre a outra, sendo o mediador das relações sociais.
A formação do Estado pela lógica liberal apresenta características de um Estado
policial e repressor, cabendo a ele proteger o direito à vida, à liberdade individual e os direitos
de segurança e propriedade privada.
No final da década de 1980, o Brasil passava por uma crise de dívida externa e
interna, e esgotamento do modelo desenvolvimentista. A burguesia brasileira desejava um
novo modelo de desenvolvimento econômico, com a inserção do país no mercado
internacional e um novo padrão de acumulação. Diante disso, foi implantado no Brasil, o
neoliberalismo.
Com a implementação do ideário neoliberal, que é “[...] uma reação teórica e política
ao modelo de desenvolvimento centrado na intervenção do Estado.”, a burguesia brasileira
passa a ser subordinada aos países imperialistas no desenvolvimento econômico, político e
cultural. (TEIXEIRA, 1998, p.195) Tal subordinação, não foi uma imposição desses países,
mais sim um interesse interno da burguesia brasileira em reproduzir as relações ideológicas e
de exploração do capital.
Neste quadro, a burguesia brasileira associou-se conscientemente à burguesia
internacional para a manutenção de seus interesses econômicos e políticos, bem
181
como limitou a participação dos trabalhadores com vistas a impedir qualquer
possibilidade de construção de uma “revolução contra a ordem” ou mesmo uma
“revolução dentro da ordem” que não fosse controlada e conduzida por seus
quadros dirigentes. (LIMA, 2007, p. 80)

O neoliberalismo no Brasil é mercado pela abertura do mercado internacional com a


redução das barreiras alfandegárias; redução do Estado Intervencionista marcado pelo
desmonte de direitos conquistados pelos trabalhadores; privatização de setores siderúrgicos,
Companhia Vale do Rio, a Petrobrás e suas subsidiárias, como também outros setores da
saúde e educação. (LIMA, 2007, p. 91)
Com a lógica de um Estado mínimo, e no seio dos movimentos sociais fruto de
reivindicações da classe trabalhadora por melhores condições de vida, é que surgem as
políticas sociais como forma de amenizar os conflitos e ter o controle da população,
preservando a ordem social existente.
Segundo Simões (2013) as políticas sociais são pensadas no gerenciamento da
pobreza, de distribuição de renda, onde o Estado investe de acordo com o que arrecada,
visando os mínimos sociais.
Diante disso cabe salientar que as conquistas/ concessões relacionadas a Política
Social, evidencia- se consequências e condições contemporâneas com o ideário neoliberal e
com a contrarreforma do Estado, onde o mesmo vai se distanciar de suas responsabilizações
sociais e se tornar omisso aos interesses da classe trabalhadora. Há nas políticas sociais
algumas características embasadas: como a desresponsabilização do Estado e do Setor
Público, passando para a sociedade e para o terceiro setor; a privatização e a mercantilização
dos serviços para aqueles que possam adquirir; e uma política voltada para o pobre dos
pobres. (BEHRING, 2009)
Neste cenário de contrarreformas atual político brasileiro, e a omissão do Estado
perante as suas responsabilidades, o Terceiro Setor ganha força no Brasil.

Constituição Federal 1988 e terceiro setor

O Brasil especificamente na década de 1990, com o avanço neoliberal, depositou


uma maior atenção ao aspecto econômico em detrimento do social; haja vista, que tal ofensiva
se estabeleceu próxima ao estabelecimento da Constituição Federal de 1988, a qual se
caracterizou enquanto um avanço no âmbito dos direitos sociais e da democracia.

182
Ao considerar o avanço democrático que a Constituição Federal de 1988 representou,
e o ataque neoliberal que se fez presente logo em seguida sobre os direitos sociais oriundos da
Constituição cidadã, observa-se que o Brasil pouco experimentou a efetivação de seus
direitos, do estabelecimento de uma democracia, e de ter o estado enquanto provedor dos
direitos sociais no trato da questão social. Isso pelo fato de que a onda neoliberal
responsabilizou o estado pela crise econômica brasileira e como estratégia para ascensão do
aspecto econômico centrou-se na privatização do estado, economia globalizada, redução de
gastos sociais e contrarreforma do estado, que representou o estado mínimo para o aspecto
social e máximo para o econômico; logo comprometendo as políticas sociais, ao alterar a
relação entre estado e sociedade.
Duarte faz uma ressalva a ascensão do capitalismo mundializado que ocorreu no
início da década de 1990, sob comando do capital financeiro e forte influência do projeto
neoliberal. O Estado brasileiro inicia então um processo de ajuste econômico e redução de
políticas sociais com apelo a participação da sociedade civil, desconsiderando as conquistas
históricas da classe trabalhadora.
Este distanciamento da dimensão de direitos sociais, representa um retrocesso em
relação aos direitos que os cidadãos conquistaram através de sua luta, ao desconsiderar todo o
processo histórico em que movimentos sociais se fizeram presentes, resultando na
Constituição Federal de 1988.

Definindo o Terceiro Setor

De acordo com os estudos de Montaño (2005, p. 53 apud Landim 1999), o conceito


terceiro setor tem origem norte americana, “contexto onde associativismo e voluntariado
fazem parte de uma cultura política e cívica baseada no individualismo liberal”. Montaño
explica que a terminologia foi construída mediante um recorte social em esferas: O Estado
representa o primeiro setor, o segundo setor é aqui representado pelo mercado ocupado pelas
empresas privados com fins lucrativos, e a sociedade civil compõem o terceiro setor, o qual
desempenham ações de caráter público.
Assim, conforme aponta o autor se o Estado está em crise e o mercado tem uma lógica
lucrativa e nenhum destes podem dar respostas as demandas advindas da sociedade, o terceiro
setor seria a materialização entre eles, “o público porém privado”.

183
Deste modo, o terceiro setor, surgiu na década de 80 sendo que não existe um
consenso entre teóricos e pesquisadores sobre sua origem, características e composição no que
tange as entidades e também sobre as organizações não governamentais, as organizações sem
fins lucrativos, as organizações da sociedade cível, instituições filantrópicas entre outras, que
de fato compõem esse campo.

Entraves do terceiro setor

De acordo com Alencar (2009), o chamado terceiro setor se apresenta aparentemente


“uma cortina de fumaça” como sendo um espaço de participação da sociedade, todavia o
mesmo representa a fragmentação das políticas sociais e das lutas dos movimentos sociais.
Logo, sociedade civil (terceiro setor) é chamada de “co-responsabilização” das questões
públicas junto ao Estado, acarretando assim na desresponsabilização do Estado.
Nesta mesma direção Alencar (2009) aponta que as ações a serem executadas pelo
estado acabam sendo colocadas em “xeque”, considerando que é o mercado que determina o
espaço do Estado, colocando em jogo a regulação pública do mercado e dos direitos.
Com isso o Estado tem diminuído cada vez mais suas funções seguindo uma lógica
liberal em que o indivíduo deve buscar para si e suas famílias condições de sobrevivência no
mercado.
Questões como a setorialização da realidade social entre estado, mercado e sociedade
civil, privatização das políticas sociais e focalização do atendimento (serviços pontuais, com
segmentos específicos) refletem a contradição do 3º setor quando assume o que é de dever do
Estado.

Relação do Serviço Social com o Terceiro Setor

O Serviço Social nasce na década de 1930 no seio do sistema capitalista, quando à o


aumento da concentração populacional em zonas urbanas devido ao surgimento das industrias, e
consequentemente acarretando diversos problemas sociais como o desemprego. O profissional
desenvolvia um trabalho assistencialista, como forma de ajustamento do indivíduo na
sociedade, culpabilizando-o pela sua situação.
A profissão vai ganhando maturidade, se aperfeiçoando e buscando novos horizontes
para conseguir dar resposta aos problemas sociais. Atualmente o Serviço Social é sustentado

184
por um projeto ético político constante no Código de Ética e na Lei de Regulamentação da
Profissão (Lei nº 8662 de 13 março de 1993), reconhecendo a questão social como o seu
objeto de intervenção profissional.
Trabalhar com a efetivação da práxis profissional, é possível superar os desafios
profissionais impostos pela sociedade, pressupondo também que "[...] romper obstáculos,
planejar estratégias, articulando forças com outros profissionais envolvidos no cenário das
instituições (políticas públicas e privadas) para enfrentar a radicalidade das questões sociais e
assim defender a vida humana acima de tudo". (MARTINS, 2011, p. 54 apud MATTOS,
2015, p. 78).
Entendendo o Serviço Social como uma profissão que intervém no processo de
produção e reprodução social, no enfrentamento entre o trabalho e o capital, intervindo
diretamente na vida do sujeito, o Serviço Social sente os rebatimentos das modificações das
funções do Estado no seu cotidiano profissional, em que são colocados para os profissionais
condições de trabalho cada vez mais complexas, e os espaços sócios-ocupacionais ditando
seus interesses. (DUARTE, 2010).
Nas últimas décadas, as ONG’s vêm se tornando um forte campo de atuação
profissionais para o Serviço Social e materializando muitos limites, desafios e possibilidades
de trabalho, não deixando de ser um cenário de disputa de forças entre os interesses
institucionais dos objetivos profissionais. (DUARTE, 2010).
Nesta perspectiva, o processo de desresponsabilização do Estado com a transferência
de serviços sociais para o terceiro setor repercute diretamente no trabalho do profissional do
serviço social, tanto no seu espaço profissional, como nas condições e relações de trabalho
(poder institucional), surgindo também novas funções e competências para o Assistente
Social.

Contradições e desafios entre o Serviço Social e o terceiro setor

Em meio ao cenário contraditório da sociedade capitalista com o neoliberalismo, o


profissional de Serviço Social vem se adequando as novas demandas postas na sociedade,
para poder assim efetivar o que é proposto no projeto ético político, buscando uma sociedade
mais justa e igualitária.

185
A luta do Serviço Social por direitos, trabalho e socialização da riqueza no Brasil é
uma luta contra a “economia política da iniqüidade” e constitui uma mediação
importante na luta histórica pela emancipação humana, pois os direitos, na
sociabilidade capitalista, se inserem em um processo complexo e contraditório [...].
Lutar por Direitos, Romper com a Desigualdade, queremos provocar reflexão e
indignação com a barbárie que se reproduz cotidianamente em nosso pais, e
mobilizar a sociedade para defender. (CFESS, 2009, p. 2).

Pensar que o Estado cadê vez mais vem se distanciando de suas responsabilidades
previstas na Constituição Federal de 1988, assegurando assim a Seguridade Social (Saúde,
Previdência e Assistência); e saber que mediante ao que é assegurado em lei, o profissional
estar sendo cadê vez mais inserido no terceiro setor.
Embora sabemos que a sua inserção nestes espaços sejam contraditórios ao que a
profissão vem buscando e lutando para que sejam efetivados todos os direitos e que o Estado
cumpra seu real papel e não seja omisso, como o profissional pode buscar que seu trabalho
seja efetivado sem se distanciar do seu projeto ético político?
Nestes espaços do Terceiro Setor, se faz essencial buscar cadê vez mais parcerias e
aproximações com o Estado para responder as demandas que são postas no dia a dia de
trabalho. Foi sancionada a Lei nº13.019 de 31 de Julho de 2014, que diz respeito sobre
parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil, conforme esta
mencionado no:

Art. 1o Esta Lei institui normas gerais para as parcerias entre a administração
pública e organizações da sociedade civil, em regime de mútua cooperação, para a
consecução de finalidades de interesse público e recíproco, mediante a execução de
atividades ou de projetos previamente estabelecidos em planos de trabalho inseridos
em termos de colaboração, em termos de fomento ou em acordos de
cooperação. (BRASIL, 2014)

A Lei é um marco na questão da relação do Estado com o Terceiro Setor, porém não
se deve mascarar e acreditar que tal estabelecimento de relações seja a salvação. É apenas um
passo para que as relações sejam concretizadas, não se tornando apenas um único meio.
Não é nossa intenção aqui contextualizar e discutir a tal lei referida, mas sim elencar
que existe uma lei que regulamenta, e que através dela tanto sociedade quanto aos
profissionais que atuam nestes espaços, manifestem-se e lutem para que os direitos e deveres
do Estado enquanto mediador das relações sociais cumpra seu papel em nossa sociedade.

186
Considerações Finais

Quando o terceiro setor foi escolhido como tema para tal síntese, já se imaginou o
quão desafiador seria discorrer sobre o tema, visto que há diversas opiniões, contradições,
enfim passível de uma grande discussão.
Para tanto, pode-se concluir que o terceiro setor existe, ele está presente fortemente
na nossa sociedade, como uma forte desresponsabilização do Estado de suas atividades e a
sociedade civil assumindo tais responsabilidades.
É uma realidade e fica claro que o Serviço Social é afetado com tal situação, mas há
inúmeras possibilidades de enfrentamento, mesmo atuando em um espaço tido como terceiro
setor, o profissional lute e reforce o projeto ético político da profissão, o código de ética,
enfim.
Mediante a todo o contexto elencado no cenário atual político brasileiro, percebe-se
as contradições e desafios postos aos profissionais de Serviço Social no dia a dia do trabalho
profissional no Terceiro Setor. Espaço contraditório ao que se preconiza na Constituição
Federal de 1988, como dever do Estado de garantir e se responsabilizar pelos serviços
públicos.
Mesmo diante da omissão do Estado, passando para a sociedade civil e para o setor
privado a organização de tais serviços que deveriam ser públicos, não se deve cegar e abraçar
a causa como naturalidade. É nestes espaços que o profissional deve adentrar e lutar para que
o Estado se aproxime cada vez mais, para que assim o serviços possam haver maior
abrangência na sociedade e qualidade no que esta sendo ofertado. E mesmo que se consiga a
efetivação compromissada destes serviços para a sociedade civil, os assistentes sociais não
devem se alienar e assim buscar sempre a práxis profissional.

REFERENCIAS

ALENCAR, M. M. T. de. O trabalho do Assistente Social nas organizações privadas não


lucrativas. In: CFESS; ABEPSS. (Org.) Serviço Social: direitos sociais e competências
profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS/CEAD-UNB, 2009.

BRASIL. Lei nº13.019, de 31 de Julho de 2014. Estabelece o regime jurídico das parcerias
entre a administração pública e as organizações da sociedade civil, em regime de mútua
cooperação, para a consecução de finalidades de interesse público e recíproco, mediante a
execução de atividades ou de projetos previamente estabelecidos em planos de trabalho
inseridos em termos de colaboração, em termos de fomento ou em acordos de cooperação;
187
define diretrizes para a política de fomento, de colaboração e de cooperação com
organizações da sociedade civil; e altera as Leis nos 8.429, de 2 de junho de 1992, e 9.790, de
23 de março de 1999. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 01 de agosto de
2014. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2014/lei/l13019.htm>. Acesso em: 08 de jun. 2017.

BEHRING, E. R.. Política Social no contexto da crise capitalista. In Serviço Social: Direitos
Sociais e Competências Profissionais. Brasília, CFESS, ABEPSS, 2009.

BOBBIO, N. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 14 ed. 1987.

CFESS, Conselho Federal de Serviço Social; ABEPSS, Associação de Ensino e Pesquisa em


Serviço Social. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais; MIOTO, Regina
Célia. Orientação e acompanhamento social a indivíduos, grupos e famílias. Brasília:
CFESS/ABEPSS, 2009.

DUARTE, J. L. N. Cotidiano profissional do assistente social: exigências profissionais,


identidade e autonomia relativa nas ONGs. Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 9, n. 1, p. 66
- 76, jan./jun. 2010.

LIMA, K. Contra-reforma na educação superior: de FHC a Lula. São Paulo: Xamã, 2.007.

MATTOS, B. N. O Serviço Social contracenando com a arte para desvelar a realidade.


2015. 184 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) - Universidade Estadual Paulista.
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais - UNESP, Franca, 2015.

MONTAÑO, C. Terceiro Setor e Questão Social: crítica ao padrão emergente de


intervenção social. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

SIMÕES, C. Teoria & Critica dos direitos sociais: o Estado social e o Estado democrático
de direito. São Paulo: Cortez,2013.

TEIXEIRA, F. J.S. et al. Neoliberalismo e reestruturação produtiva: as novas


determinações do mundo do trabalho. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1.998.

188
A ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL NO ENFRENTAMENTO
DA QUESTÃO AMBIENTAL: REFLEXÕES SOBRE OS DESAFIOS E AS
POSSIBILIDADES À LUZ DA PROMOÇÃO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
CRÍTICA

Tatiana Ferreira dos Santos *


Isabelle Narduchi da Silva **
Helen Barbosa Raiz Engler***

Resumo: Diante dos reflexos da apropriação privada do homem, dos recursos naturais e do
esgotamento destes, juntamente com as contradições inerente ao capital, são demandadas
saídas para reparação e diminuição dos impactos causados pela exploração desordenada, que
repercutem diretamente no meio ambiente. Profissionais de diversas áreas dedicam-se
cotidianamente no enfrentamento da questão ambiental, dentre eles, o assistente social. Desta
forma, o presente escrito objetiva evidenciar as possibilidades de atuação profissional do
assistente social no enfrentamento da questão ambiental, no que se refere à promoção de
educação ambiental crítica, e os desafios inerentes ao cotidiano profissional que dificultam a
prática essencialmente crítica e transformadora interligada as bases do projeto ético político
profissional, bem como promover reflexões que possibilitem a superação dos desafios
inerentes a práticas de educação ambiental no cotidiano profissional do assistente social. Para
tanto, utilizou-se enquanto procedimentos metodológicos a pesquisa do tipo bibliográfica e
documental, em que foram analisados autores que dialogam sobre a perspectiva da atuação do
assistente social no enfrentamento da questão ambiental, e leituras que embasam reflexões
sobre o processo histórico e as relações sociais de produção. Assim, diante das considerações,
para que os(as) assistentes sociais atuem na perspectiva de reafirmar o projeto profissional, é
necessário intencionalidade na atuação no movimento da luta da classe trabalhadora,
formação permanente e principalmente, atuação crítica transformadora.

Palavras Chave: Meio Ambiente, Atuação Profissional, Capitalismo.

INTRODUÇÃO

O alastramento dos reflexos da apropriação privada do homem, dos recursos naturais e


do esgotamento destes, refletem em escala planetária, em paralelo à onda da cultura do
consumo exagerado e a obsolescência das mercadorias. Diante disso, ao tempo em que se
acompanha as contradições inerente ao capital, são demandadas saídas para reparação e
diminuição dos impactos causados pela exploração desordenada. Assim, profissionais de

*
Doutoranda em Serviço Social pela Faculdade de Ciências Humanas e Socais – UNESP/Câmpus de Franca.
**
Mestranda em Serviço Social pela Faculdade de Ciências Humanas e Socais – UNESP/Câmpus de Franca;
graduada em Direito pelo Centro Universitário Educacional de Barretos.
***
Livre Docente, Doutora, Mestre e Graduada em Serviço Social pela UNESP/câmpus de Franca Docente
Adjunto da UNESP/ Câmpus de Franca/SP. Pesquisadora/coordenadora de grupo registrado no Diretório de
Grupos de Pesquisa: Núcleo de Pesquisa ; Mentalidades e Trabalho: do local ao global. Coordenadora do
Comitê de Ética e Pesquisa-CEP.

189
diversas áreas dedicam-se cotidianamente no enfrentamento da questão ambiental, dentre eles,
o assistente social.
O arcabouço com base na teoria social marxista em conjunto com o projeto
profissional, subsidia criticamente a prática profissional do assistente social, possibilitando
uma leitura profunda da realidade e consequentemente uma atuação transformadora,
principalmente quando este profissional está inserido em uma equipe multidisciplinar e
atuando de maneira interdisciplinar.
Sendo assim, propagar valores, ideias sustentáveis, a luta coletiva contra as injustiças
ambientais e sociais, as práticas educativas ligadas à autorreflexão e emancipação humana não
é exclusividade de nenhum profissional, mas sim, responsabilidade de todos os sujeitos em
busca da construção de uma sociedade justa.
Nessa perspectiva, o presente escrito objetiva evidenciar as possibilidades de atuação
profissional do assistente social no enfrentamento da questão ambiental, no que se refere à
promoção de educação ambiental crítica, e os desafios inerentes ao cotidiano profissional que
dificultam a prática essencialmente crítica e transformadora interligada as bases do projeto
ético político profissional. O escrito objetiva também promover reflexões que possibilitem a
superação dos desafios inerentes a práticas de educação ambiental no cotidiano profissional
do assistente social.
Para tanto, utilizou-se enquanto procedimentos metodológicos a pesquisa do tipo
bibliográfica e documental, em que foram analisados autores que dialogam sobre a
perspectiva da atuação do assistente social no enfrentamento da questão ambiental, bem
como, leituras que embasam reflexões sobre o processo histórico e as relações sociais de
produção. O escrito justifica na necessidade de compartilhar reflexões sobre a atuação
profissional do assistente social em meio às contradições do capital sob a égide da questão
ambiental. Para tanto, é apresentado, de maneira breve, a contextualização da eclosão da
questão ambiental, as possibilidades de atuação profissional no enfrentamento da questão
ambiental, os desafios inseridos nesse enfretamento e por fim, perspectivas para a superação
dos desafios inseridos no cotidiano profissional com base no projeto ético político da
profissão.

190
Entre Incongruências e Meandros: Reflexões Sobre a Questão Ambiental

A capitalização e mercantilização da natureza, em meio a exploração e apropriação do


trabalho vivo, evidenciaram o sentido claro e lógico dos caminhos do sistema de produção
capitalista insustentável. Com o passar dos anos, com a disseminação do capitalismo mundial,
o consumo desenfreado, a desvalorização do trabalho vivo, lucros acentuados e as altas taxas
de juros tornar-se-iam parte das relações sociais que reproduziriam a lógica do capital,
impregnando-a na cultura, na moral e na educação de distintos povos e nações.
Neste sentido, Iamamoto (2014) afirma que,

[..] a natureza dá lugar ao espaço produzido. Verifica-se a regressão, degradação e


transgressão no nível das relações de família, de amizade, da vida social de grupos
parciais, do meio ambiente, assim como a produção de novas relações no âmbito de
segmentos sociais como a juventude, os idosos, as mulheres e os trabalhadores
(IAMAMOTO, 2014, p.50).

Portanto, para Iamamoto (2014), em meio ao sistema de produção capitalista, a


natureza cede espaço à produção, conjecturando na clara alteração das relações sociais e
socioambientais, interferindo nos antigos e novos arranjos familiares, intervindo nos diversos
seguimentos da sociedade e da natureza.
De acordo com Mészáros (2011),

[...] devemos ter em mente [...] as realizações problemáticas do sistema do capital de


uma estratégia autocontraditória que ingênua ou assustadoramente ignora as
exigências de um adequado “domínio do homem sobre suas condições de existência
orgânica e inorgânica” como a precondição necessária de um domínio humano
socialmente viável sobre as forças da natureza (MÉSZÁROS, 2011, p.609).

Para o autor, é necessário compreender que o modo de produção capitalista e as


implicações desta tem causado consequências eminentes que não devem ser ignoradas ou
isoladas ao âmbito ambiental ou social, mas em sua totalidade.
Na reprodução da vida social, o homem por meio do trabalho, constrói cultura, meios
de satisfazer suas necessidades e criar novas necessidades de forma individual, partindo do
ser, bem como de forma coletiva. Essa reprodução da vida social só é possível através da
natureza, onde o homem a transforma (por meio do trabalho) suprindo as necessidades.
Assim, por entremear em sua base a economia (e dentro dela o trabalho) como forma de
reproduzir e se desenvolver socialmente, que o homem constrói novos complexos de
categorias.
191
Conforme o homem constrói processos de sociabilidade no movimento de criação de
novas categorias, em um complexo que permeia o ser social, ele encontra nas forças
produtivas a forma de impulsionar o seu desenvolvimento e crescimento econômico. Vale
destacar que todo esse processo perpassa momentos e construções históricas. Então, é no
capitalismo que se perpetua as categorias do ser social dominante que estruturam a sociedade.
A naturalização da propriedade privada, da divisão social do trabalho, antagonismos de
classes, advieram de construções históricas que permeiam a totalidade social (ANDRADE,
2011).
Nessa dinâmica, permeada por crises e pela instauração do modo de produção
capitalistas, o homem produz e reproduz, transformando a natureza por meio de sua força de
trabalho, as relações inerentes ao modo capitalista de reproduzir.
Assim, em meio às contradições próprias do sistema capitalista de produzir, ao mesmo
tempo em que se demanda por saídas para os conflitos e desigualdades sociais e ambientais,
potencializa-se as produções e a devastação da natureza. Desta forma, o segmento voltado ao
desenvolvimento sustentável compõe a política de industrias e empresas que propõem
desenvolver medidas “verdes” para conquistar selos e aumentar a produção alimentando o
capital e potencializando as desigualdades e a apropriação privada dos recursos naturais.

O desenvolvimento das forças produtivas porta uma contradição fulcral: ao mesmo


tempo em que demonstra o imenso potencial de expansão dos horizontes do gênero
humano, o faz mediante a degradação das condições de vida de segmentos
majoritários da sociedade e da depilação dos bens naturais, colocando em risco a
reprodução da vida no planeta. (SILVA, 2013, p.23)

A partir do trabalho, utilizando-se da natureza, o homem desenvolve-se construindo


novas categorias, satisfazendo suas necessidades e compondo complexos sociais mais
heterogêneos. Para Andrade (2011), nessa dinâmica, a economia constitui um elo que permeia
todas as partes que compõe o ser social, sendo que o trabalho se insere nela. Por perpassar
todas as categorias que compõem o ser social, a economia se constitui em forma unitária e
dialética que compõe a necessidade de reprodução social, ou seja, a própria vida
(ANDRADE, 2011).
Para Layrargues (2006), essa concepção de questão ambiental subsidia a visão de
justiça distributiva, ou seja, não se prende às bases ecológicas apenas no sentido de questionar
isoladamente o problema do lixo, por exemplo. Essa concepção da questão ambiental se
detém na realidade, “tornando a gestão de conflitos socioambientais democrática e

192
participativa a maior bandeira de luta ecologista libertária e progressista” (p.82). Para o autor
supracitado, a categoria trabalho juntamente com a cultura, “compõem o diálogo material
entre o plano simbólico quanto aos determinantes da crise ambiental, rompendo assim a
perspectiva reducionista [...]” (LAYRARGUES, 2006, p.79).
Nesta dinâmica entre a apropriação privada da natureza e do homem, o trabalho
constitui mediação essencial, segundo as palavras de Silva (2010):

Afigura o trabalho uma mediação essencial desta relação, uma vez que, através
deste, o homem se apropria da natureza, submetendo-a, modificandoa, ao passo que
cria os meios para reprodução da vida e da sociedade. O trabalho constitui, assim,
dimensão fundamental da sociabilidade humana visto que possibilita uma “dupla
transformação”: à medida que intervém na natureza, transformando-a, o homem
transforma a si próprio (SILVA, 2010, p.54).

Assim, na dinâmica das relações sociais de produção, o homem se torna estranho a ele
mesmo e a natureza. Nesta relação, o ser humano se configura enquanto mercadoria (através
da sua força de trabalho) e visualiza os outros homens como tal, reproduzindo, em suas
relações sociais, a dinâmica do capital. Trabalhar para produzir mais, consumir mais,
descartar mais e ser descartado enquanto mercadoria. Nessa dinâmica, o homem se afasta da
sua própria natureza e se torna estranho a si próprio e aos outros homens.
As discussões sobre a questão ambiental e sua dimensão tiveram início das décadas de
1960 e 1970, apresentadas pelos movimentos ambientalistas. No Brasil, esses movimentos
tiveram expressão a partir da década de 1970 (ARAÚJO, 2004). A temática passou a ser
debatida através de conferências e encontros que já apresentavam grandes impactos
socioambientais em escala planetária. As conferências e reuniões entre países, organizações
não governamentais, entidades ambientais e sociais, pesquisadores e representações
comunitárias passaram a apresentar os impactos do desenvolvimento e crescimento
desordenado e as consequências que poderiam acarretar no futuro.
Em meio às discussões dos efeitos degradantes da natureza perante às transições do
modo capitalista de produzir, o fordismo e o keynesianismo, em 1973, já não conseguiam
mais conter a crise capitalista por apresentar, segundo Harvey (2014), rigidez diante da
concorrência e competitividade no mercado industrial. A grande resseção no ano supracitado
é um exemplo disso.
Com a expansão do mercado cultural, as linhas de consumo se expandem a outro
patamar. Neste período, de forma acrescida, o mercado da moda, da beleza, da estética, da
música e da arte ganham escopo de mercadoria passando a integrar os bens de consumo em
193
massa. Além do mercado cultural, com a expansão tecnológica e automotiva, aos moldes do
modo da acumulação flexível, esta tendência marcada por volta da década de 70 e 80 do
século passado, nos remete à teoria do fetiche da mercadoria pensada por Marx (2014).
Desta forma, em escala mundial, o consumo desenfreado e a produção em massa nos
permitem visualizar em que patamar de exploração e degradação ambiental iremos alçar com
a forma como nos relacionamos socialmente e ambientalmente.

As Possibilidades de Atuação Profissional no Enfrentamento da Questão Ambiental:


Reflexões Sobre a Promoção de Educação Ambiental Crítica

O arcabouço teórico e metodológico que ampara a atuação profissional do assistente


social permite compreender a questão ambiental interligada à dinâmica da vida social. Nesse
sentido, é pertinente destacar que o enfrentamento da questão ambiental não ocorre de
maneira isolada. Ao realizar a leitura da realidade, o profissional enxergara as contradições
inerentes ao modo de produzir socialmente em uma dimensão de totalidade, interligando as
expressões da questão social de forma articulada e a considerar a problemática da saúde, do
território, da educação, do saneamento básico, das relações familiares, por exemplo.
Desta forma, mesmo destacando a atuação do assistente social em duas perspectivas: a
gestão socioambiental e a educação ambiental, o enfrentamento da questão ambiental pode
ocorrer de forma articulada a outras expressões da questão social, por outros caminhos que
não necessariamente estejam diretamente destacados enquanto educação ambiental ou gestão
socioambiental.
No que se refere à gestão socioambiental, o profissional atua na elaboração,
planejamento e avaliação de políticas e projetos socioambientais. Segundo Nunes (2013) no
gerenciamento de projetos ambientais “destaca-se, ainda, a participação do assistente social
no âmbito de estudos de impacto ambiental (EIA), elaborados, principalmente, para efetuar
ações de remanejamento de população atingida por determinada obra” (NUNES, 2013,
p.205). Segundo a autora, o profissional pode atuar nos conflitos gerados pela construção de
obras que ocasionam em grandes impactos ambientais, cabendo aos profissionais de Serviço
Social a garantia dos direitos sociais.
O espaço para atuação na gestão socioambiental é bastante extenso. Organizações não
governamentais vêm executando programas e projetos para grandes empresas receberem
certificações para extração de recursos naturais. Nesse espaço, o assistente social também é
chamado para desenvolver projetos de mitigação em comunidades próximas a unidades
194
operacionais de industrias. Junto à uma equipe multidisciplinar, o profissional desenvolve
ações que visam garantir os direitos da população residente da indústria, bem como garantir a
certificação para continuidade da extração dos recursos naturais.
No que se refere à educação ambiental, conforme Araújo (2003), na educação
ambiental crítica as relações sociais, ambientais e a questão social são consideradas em sua
totalidade, cuja uma das vias para o enfrentamento da questão ambiental advém da prática
educativa sob um viés emancipatório. Nesta vertente, ao visualizar a questão ambiental, os
sujeitos são convidados a mergulhar na essência da questão através de reflexões críticas
baseadas na história e em uma conjuntura política, social, econômica e cultural, evitando,
assim subjugações ingênuas e, consequentemente, aguçando o olhar crítico sobre a realidade.
Corroborando com Loureiro (2006), sob uma perspectiva da educação ambiental
crítica/emancipatória, está se configura não como única ou exclusiva forma para superação da
questão ambiental eminente na sociedade moderna, mas a junção de caminhos para sua
superação. Através da imersão ao orbe acobertado por um sistema produtivo alienador, o
pensamento crítico configura-se uma das formas para superar e adentrar na essência da
questão, permitindo-nos enxergar a sua história em sua totalidade, compreendendo novas
formas para se pensar uma sociedade com equidade social e justiça ambiental.
Segundo Loureiro (2012), a educação ambiental crítica-transformadora segue as
seguintes premissas básicas:

 o pressuposto de que a natureza é uma unidade complexa e a vida o seu processo


de auto-organização. Nada há fora desta e suas estruturas são definias em seu
próprio movimento espaço-temporal;
 a certeza de que somos seres naturais, com especificidades que nos distinguem,
mas não nos separam da natureza e de que redefinimos nosso modelo de existir na
natureza pela própria dinâmica das relações sociais na história;
 o entendimento de que somos seres sociais que se fundam pela atividade humana
no mundo, tendo o trabalho como momento determinante;
 a definição de educação como práxis e processo dialógico, crítico, problematizador
e transformador das condições objetivas e subjetivas que constituem a realidade;
 a finalidade de buscar a transformação social, o que engloba indivíduos, grupos e
classes em novas estruturas institucionais, como base para a construção de distintos
modos de se viver na natureza. (LOUREIRO 2012, p.38 e 39).

Para Guimarães (2007), a educação ambiental é um “[...] processo educativo voltado


para a participação de seus atores [...] na construção de um novo paradigma que contemple as
aspirações populares de melhor qualidade de vida socioeconômica e um mundo
ambientalmente sadio. ” (GUIMARÃES, 2007, p.14).

195
O pensamento crítico vem dando suporte nos últimos anos para promoção da
Educação crítica, principalmente no que se refere à emancipação e liberdade dos sujeitos.
Essa perspectiva de pensamento propõe-se a adentrar nas contradições e conflitos existentes
nas relações sociais de produção, refletir sobre elas e contestá-las através da emancipação e
libertação dos sujeitos autocríticos e autoconscientes. Não é diferente na educação ambiental,
que antes de ser educação ambiental é, sobretudo, Educação.
A consciência histórica é de fundamental importância para o pensamento crítico, ao
ponto em que se torna “objeto de análise do presente que tinha o objetivo de iluminar as
possibilidades revolucionárias que existiam em uma dada sociedade. ” (GIROUX, 1986,
p.56).

A teoria crítica dirige a educação para um modo de análise que enfatiza as rupturas,
descontinuidades e tensões na história, todas as quais se tornam valiosas na medida
em que enfatizam o papel central da ação humana, ao mesmo tempo que revelariam
o hiato existente entre a sociedade atual e a sociedade como poderia ser. (GIROUX,
1986, p.57).

Nesse sentido, para o autor a teoria crítica fornece à educação bases que se focalizam
nas tensões históricas, valorizando-as ao ponto em que se propõem, com centralidade na ação
humana para a transformação da sociedade.
Nessa seara, a educação ambiental, posta ao profissional de serviço social, perpassa
por uma educação ambiental interligada com o compromisso social na medida em que a
relaciona e a entremeia com as relações sociais (LAYRARGUES, 2009). Essa relação
indissociável permite ao profissional visualizar a educação ambiental como forma de
enfrentamento de conflitos socioambientais capaz de promover uma transformação social que
visa a justiça socioambiental e acesso a direitos socialmente justos aos sujeitos.
Partindo do código de Ética da profissão, o(a) assistente social atua também no
atendimento emergencial em casos de catástrofes ambientais, na sensibilização com os
usuários em diversos contextos, seja na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis,
seja no manejo adequado de caramujos africanos, dentre práticas pedagógicas
sensibilizadoras, às práticas pedagógicas que permeiam uma dimensão política.
Alguns desses exemplos de abordagens envolvem a área ambiental e necessitam um
entendimento crítico reflexivo ao abarcar um contexto histórico, econômico e político
inerente aos usuários e ao ambiente em que ele vive; mesmo quando se trata da área da
assistência social, saúde, habitação ou jurídica, para atuar no enfrentamento da questão

196
ambiental, independe de espaço sócio ocupacional, a questão ambiental perpassa todas as
estruturas sociais.

Os Desafios Inseridos na Prática Profissinal do Assistente Social no Enfrentamento da


Questão Ambiental

A visão compartimentalizada do conhecimento ainda é comum em diversas profissões,


assim como a formação apoiada na fragmentação do saber. Este paradigma do conhecimento
muito se difere da formação crítica que considera a totalidade inerente às relações sociais de
produção. O pensar compartimentalizado, ou pensar em partes, exime a dimensão global que
constrói as relações sociais e toda a “teia” que compõe essas relações.
No entanto, a fragmentação do saber vem de um contexto histórico que se enraizou na
sociedade principalmente no surto industrial, quando várias profissões foram criadas e a
necessidade de novas especializações subdividiram as áreas do conhecimento sob influência
da corrente positivista. Desta forma, o quebra-cabeça do conhecimento em que cada peça
significa uma especialização do saber não permite enxergar a realidade em sua totalidade.
Esta linha de fragmentação do saber fundiu-se à cultura da compartimentalização presente nos
currículos escolares com as estruturas curriculares organizadas em disciplinas que, muitas
vezes, não dialogam com a realidade, formando o aluno reprodutor do saber fragmentado
(OSWALDO, 2011).
Apesar da eminente expansão da questão ambiental de forma planetária oriunda das
contradições do modo de produzir capital, ainda é comum práticas conservacionistas,
preservacionistas que tendem a atribuir a culpa aos sujeitos pelos grandes impactos
ambientais na sociedade. Esse é um dos desafios postos à nossa profissão. Driblar práticas
conservadoras que desconsideram a realidade.
Sobre as tendências elencadas acima, Araújo (2003) explica sobre a visão
preservacionista que norteia a preservação do ambiente, desconsiderando aspectos sociais que
permeiam a vida humana, nesta visão é comum condicionar a culpa pela degradação
ambiental única e exclusivamente ao homem. Na tendência conservacionista já é possível
considerar timidamente as relações sociais e a questão ambiental em sua essência, porém,
apesar de ser em uma pequena dosagem, essa vertente advém do pensamento antropocêntrico,
cuja tendência apresenta indícios ecológico-naturalistas. Ou seja, defende que o problema da
sociedade são os próprios homens (ARAÚJO, 2003).
197
Segundo Freire (1979) nenhuma educação é neutra e todo ato de educar é político. Se
o (a) assistente social, fundamentado na tradição marxista, conduz o usuário a preservar,
como também conduz à reflexão crítica das contradições e conflitos ambientais, orientando o
cidadão no sentido de mobilização e reflexão, coletivamente, na resolução de problemas e
situações em que a própria comunidade pode contribuir em ações concretas, há grandes
chances da atuação do profissional ser crítica. Porém, caso a condução seja preservar no
intuito de promover lugares de “natureza intocada”, exaurindo a participação humana na
complexa teia de relações sociais e ambientais, tratando a natureza como parte distante do
homem, então, esta ação será preservacionista e conservacionista.
Nesse sentido, Segundo Silva (2010, p.151), um dos maiores desafios para o serviço
social contemporâneo é “desvelar a natureza teórica e política das propostas de educação
ambiental nas quais a profissão é convocada a intervir.”. Segundo a autora, ainda faltam
aproximações necessárias que estreitem o entendimento de que a questão ambiental e a
questão social estão interligadas e para o enfrentamento destes é necessária uma abordagem
profissional crítica que compreenda a totalidade complexa das relações socioambientais.

Algumas Considerações

A compreensão da questão ambiental enquanto desafio para a superação de injustiças


sociais, garantia e defesa de direitos e conquistas, somados durante anos de luta dos
trabalhadores, precisa estar claramente difundida na profissão. Longe de armadilhas que
levam à departamentalização do saber, conduzindo a atribuição de atuar na questão ambiental
à profissionais especializados em ciências naturais. Esta responsabilidade também é nossa, a
garantia de direitos consubstanciadas nas políticas sociais também percorrem à área ambiental
e nos compete intervir onde os direitos forem violados ou ameaçados.
A prática pedagógica incumbida na atuação profissional do(a) assistente social na
defesa da equidade, justiça social e emancipação dos sujeitos contempla os princípios
fundamentais do código de ética profissional, envolvendo o projeto ético-político da
profissão, na luta pela mudança societária.
Assim, para que os(as) assistentes sociais atuem na perspectiva de reafirmar o projeto
profissional, é necessário intencionalidade na atuação no movimento da luta da classe
trabalhadora, formação permanente e principalmente, atuação crítica transformadora,
respeitando o saber dos sujeitos envolvidos, colaborando para a construção de processos
198
emancipatórios em que os sujeitos sejam autores de suas próprias histórias e compreendam de
forma crítica a realidade, a fim de motivá-los a também transformá-las, no sentido da
construção de uma nova sociabilidade.

REFERÊNCIAS

ARAUJO, M.I.O.; BIZZO, N. O discurso da sustentabilidade, educação ambiental e a


formação ambiental de professores de biologia. ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS,
Barcelona, n. Extra, p.1-5, 20054. Disponível em
https://ddd.uab.cat/pub/edlc/edlc_a2005nEXTRA/edlc_a2005nEXTRAp262dissus.pdf
Acesso em: jan. 2016.

ARAÚJO, M.I.O. A dimensão ambiental nos currículos de formação de professores de


Biologia. 2003, Tese (Doutorado em em Educação Científica e Formação de Professores)
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Orientador Nelio Marco Vincenzo
Bizzo. São Paulo, SP, 2003.

ANDRADE, M.A. Trabalho e Totalidade Social: o momento predominante da reprodução


social na Ontologia de Lukács., 2011. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) da
Universidade Federal de Alagoas. Orientador Sérgio Afrânio Lessa Filho Maceió, Al, 2011

BOURCKHARDT, V. Fundamentos da análise marxista sobre a temática ambiental e o


Serviço Social. 2010 Disssertação (Mestrado em Serviço Social) Universidade Federal de
Santa Catarina, Centro Sócio Econômico. Orientador, Hélder Boska de Moraes Sarmento. -
Florianópolis, SC, 2010.

CFESS. Lei 8.662, de 1993, que regulamenta a profissão de Assistente Social. Disponível
em < http://www.cfess.org.br/arquivos/L8662.pdf > Acessado em março de 2017.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 7ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

GIROUX, H. Para além das teorias de reprodução: Teoria crítica e resistência em


educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1986.

GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. Campinas, SP: Papirus, 1955. –


(Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico); 8ª ed. 2007.

IAMAMOTO, M.V. Os espaços sócio-ocupacionais do assistente social. In Serviço Social:


direitos sociais e competências profissionais. 2009. Disponível em:
<http://www.cressrn.org.br/files/arquivos/FH41e7O0eM1MvI8g3552.pdf > Acessado em jun.
2014.

LAYRARGUES, P.P. Educação Ambiental com compromisso social: o desafio da


superação das desigualdades. In. LOUREIRO, C.F.B.; LAYRARGUES, P. P.; CASTRO, R.S.
(org.); Repensar a educação ambiental: um olhar crítico. – São Paulo : Cortez, 2009.

199
LOREIRO, C.F.B. Complexidade e dialética: contribuições à práxis política e emancipatória
em educação ambiental. Educ. Soc., Campinas, vol. 27, n. 94, p. 131-152, jan. /abr. 2006.
Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/es/v27n94/a07v27n94.pdf>. Acessado em: abril de
2015.

________________. Trajetórias e fundamentos da educação ambiental. –4. Ed. –São Paulo:


Cortez, 2012.

MARTINS, E.B.C. Educação e Serviço Social: Elo para a construção da cidadania.São


Paulo: Ed. Unesp, 2012.

MARX, K. O capital: Crítica da economia política: Livro I parte1. –32ª ed. –Rio de Janeiro :
Civilização Brasileira, 2014.

MÉSZÁROS, I. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição; tradução Paulo Cezar
Castanheira, Sérgio Lessa. –1.ed. revista. –São Paulo: Boitempo, 2011.

NUNES, L.S. A questão socioambiental e a atuação do assistente social. Revista Textos &
Contextos. Porto Alegre, v. 12, n. 1, p. 196-212, jan./jun.2013. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/viewFile/13337/9623> Acesso
em 22 de maio de 2017.

OSWALDO, Y. Gestão da carreira profissional: uma perspectiva holística. São Paulo:


Livrus, 2011.

SILVA, M.G. Questão ambiental e desenvolvimento sustentável: um desafio ético-político


ao serviço social. – São Paulo: Cortez, 2010.

SILVA, A.G.M. Atuação do Assistente Social no âmbito da questão socioambiental;


2012; Trabalho de Conclusão de Curso; (Graduação em Serviço Social) - Universidade
Federal de Santa Catarina; Orientador: Letícia Soares Nunes. 2012.

200
A DIMENSÃO EDUCATIVA NO TRABALHO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE
SOCIAL NA VERTENTE DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL: EXPERIÊNCIA JUNTO A
UMA ORGANIZAÇÃO NÃO GOVERNAMENTAL DA CIDADE DE BARRETOS-SP.

Antonio Inácio da Silva*


Camila Barbosa Vieira**
Maria José de Oliveira Lima***

Resumo: A dimensão educativa do trabalho profissional do assistente social tem importante


papel no contexto social, haja vista que a individualização tem tornado o cidadão uma pessoa
distante dos seus semelhantes, ora vivendo para o trabalho, ora vivendo seus próprios
interesses. Os idosos representam uma fração expressiva da sociedade no século XXI, um
público que tem sofrido pela dificuldade ao acesso a direitos e até mesmo em se reconhecer
como cidadão. Assim, vale destacar a importância de ações socioeducativas junto aos idosos
de uma Organização não Governamental (ONG) na cidade de Barretos. Por ser uma educação
informal a EA mostra-se pertinente a ser trabalhada com os mais diversos públicos podendo
ser utilizada em todas as etapas da vida do cidadão.

Palavras-chave: Trabalho Profissional; Serviço Social; Dimensão Educativa.

Introdução

A sociedade do século XXI regida pelo contexto capitalista tem demonstrado que
isolamento e dilapidação de direitos socialmente e historicamente conquistados estarão
presentes por muito tempo nesta nação. Desta forma, as expressões da questão social tem
atingido toda a sociedade das mais diversas maneiras, violência, desemprego, dificuldade de
acesso aos direitos, isolamento, relações sociais e ambientais mais flageladas e impactadas
pelo sistema.
A presente pesquisa teve a intenção de compreender o trabalho socioeducativo do
profissional assistente social junto a uma Organização não Governamental (ONG) na cidade
de Barretos, o público escolhido foram idosos por se tratar de uma parcela que sofre os
rebatimentos dessa sociedade capitalista em seu cotidiano de vida de forma mais aguçada e

*
Assistente Social, Graduado em Serviço Social pelo Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos
– UNIFEB (2012), Pós-Graduado em Gestão de Saúde Pública pelo Instituto Educacional ALFA e Mestrando
em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista – UNESP/Câmpus de Franca e Membro do GESTA.
**
Assistente Social, Graduada em Serviço Social pelo Centro Universitário da Fundação Educacional de
Barretos – UNIFEB (2012), Pós-Graduada em Educação em e para Direitos Humanos pela Universidade de
Brasília – UNB e Mestranda em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista – UNESP/Câmpus de
Franca. e Membro integrante do GESTA.
***
Graduada, Mestre e Doutora em Serviço Social, Docente do Departamento de Serviço Social da
UNESP/Câmpus de Franca-SP, Líder do GESTA.
201
perversa. Assim espera-se contribuir com este importante público que mesmo tendo barreiras
que os afastam de seus direitos, haja vista o atual contexto político e econômico, se mantém
ativos buscando seu direito de participação e cidadania em espaços de efetivação de direitos,
como é o caso da ONG.

Objetivo Geral

Compreender a dimensão educativa do trabalho profissional do assistente social com


o viés de educação ambiental junto aos idosos atendidos por uma organização da sociedade
civil da cidade de Barretos-SP.

Metodologia

A metodologia científica, segundo Barros e Lehfeld (2007), nada mais é do que o


caminho do estudo, ou seja, um conjunto de métodos que possibilitam maneiras de encontrar
soluções nesse caminhar para o conhecimento da realidade.
Foi desenvolvido um levantamento teórico necessário à fundamentação e
desenvolvimento deste trabalho. Foi assim, realizada uma pesquisa interventiva, em que
foram registradas todas as ações desenvolvidas em diário de campo e analisadas com base na
análise de conteúdo e leitura a partir do proposto nos objetivos inicias.
A proposta de estudo adotou uma abordagem qualitativa que, segundo Minayo
(2004), lida com questões particulares da pesquisa, trabalha com a realidade, aspecto que não
pode ser palpável ou contado, e sim significados, crenças e valores.
A pesquisa adotou o método pesquisa-ação, e buscou além de analisar a realidade
posta de forma qualitativa, mas também intervir e contribuir com a realidade, como Barbier
(2002, p. 54) contribui ao relatar que “O pesquisador não provoca, mas constata-o, e seu papel
consiste em ajudar a coletividade a determinar todos os detalhes mais cruciais ligados ao
problema, por uma tomada de consciência dos atores do problema numa ação coletiva”.
Considera-se que pesquisar a dimensão educativa do trabalho profissional do
assistente social nesta perspectiva interventiva possibilitou ao pesquisador dados efetivos que
contribuíram para melhor compreensão do objetivo proposto inicialmente. Compreendendo a
importância da pesquisa interventiva para as pesquisas sociais com abordagem qualitativa,
recorremos às contribuições de Thiollent (1947, p. 39) que aponta que, “A relação entre

202
conhecimento e ação está no centro da problemática metodológica da pesquisa social voltada
para a ação coletiva”.

O Serviço Social e a Dimensão Educativa com Viés da Educação Ambiental

A origem da profissão de Serviço Social está intimamente vinculada à caridade, seu


surgimento se deu no seio da igreja com práticas caritativas e educativas Em se tratando de
Brasil, o Serviço Social começa a surgir nos primeiros anos da década de 1930, iniciado por
“setores da burguesia, fortemente respaldados pela Igreja Católica tendo como referencial o
Serviço Social europeu”. (MARTINELLI, 2011, p. 122).
Após 80 anos de lutas e profundas transformações a profissão assume o
compromisso com a classe trabalhadora, e se empenha na erradicação de todas as formas de
preconceito, prova deste importante momento histórico na profissão foi o Código de Ética do
profissional que o orienta no seu cotidiano profissional dando norte às suas ações, e ainda
assim passa por constante revisões, visando estar em sintonia com uma sociedade que é alvo
das expressões da questão social. Outro importante instrumento é o projeto ético-político:

A dimensão política do projeto é claramente enunciada: ele se posiciona a favor da


equidade e da justiça social, na perspectiva da universalização do acesso a bens e a
serviços relativos às políticas e programas sociais; a ampliação e a consolidação da
cidadania são explicitamente postas como garantia dos direitos civis, políticos e
sociais das classes trabalhadoras. Correspondentemente, o projeto se declara
radicalmente democrático – considerada a democratização como socialização [...].
(NETTO, 1999, p. 16).

A certeza de que o modo de vida capitalista exige pauperização e exércitos reservas


numa sociedade gigante, traz o importante desafio de se re-pensar a profissão. Como elaborar
estratégias para o enfrentamento de um sistema tão presente mundialmente, que apesar de
fazer o consumo se tornar explosivo, consegue manter milhões à margem da sociedade, e
quem consegue se manter no mundo do consumo, acaba se tornando um ser isolado,
consciente apenas de seu pequeno mundo. Os direitos existem para toda a sociedade, e não
apenas a um pequeno grupo, assim:

A luta do Serviço Social por direitos, trabalho e socialização da riqueza no Brasil é


uma luta contra a “economia política da iniqüidade” e constitui uma mediação
importante na luta histórica pela emancipação humana, pois os direitos, na
sociabilidade capitalista, se inserem em um processo complexo e contraditório [...].
Lutar por Direitos, Romper com a Desigualdade, queremos provocar reflexão e

203
indignação com a barbárie que se reproduz cotidianamente em nosso país, e
mobilizar a sociedade para defender. (CFESS, 2009, p. 2).

A necessidade da aproximação com a parcela menos favorecida da sociedade é uma


ação que deve ser realizado com o máximo de dedicação, pois muitos serviços oferecidos
atualmente, seja na área da Assistência, Saúde ou até mesmo na Educação trazem condições
para usufruí-los, em muitos casos miserabilidade absoluta. Ou ainda, a invasão da vida
pessoal do usuário dos serviços em que muitos casos podem causar constrangimentos ao
indivíduo, assim sendo, a capacidade de trabalhar a dimensão educativa em suas ações o
qualificam em sua tarefa de dialogar com usuário dos serviços, pois a:

[...] função pedagógica do assistente social em suas diversidades é determinada


pelos vínculos que a profissão estabelece com as classes sociais e se materializa,
fundamentalmente, por meio dos efeitos da ação profissional na maneira de pensar
e de agir dos sujeitos envolvidos nos processos da prática. (ABREU, 2011, p. 17).

Vale ressaltar que essa importante estratégia profissional permite não somente
ensinar, mas também aprender. O contato com pessoas em diversas situações de vida muitas
vezes permite aprender deixando o ato educativo em segundo plano. Esse importante
momento de aprendizado soma para ambos, pois permite ao usuário a liberdade de contar e
explanar suas experiências de vida, esse fato acaba por contribuir na ação educativa
demonstrado que uma pedagogia de ensino eficiente deve ser que:

[...] proponha uma pedagogia crítico-dialógica, uma pedagogia da pergunta [...]


qual se destaca apreensão crítica do conhecimento significativo por meio da relação
dialógica. [...] que estimula [...] perguntar, a criticar, a criar, onde se propõe a
construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico,
científico, mediados pelas experiências do mundo. (FREIRE, 2005, p. 83).

Afinal, esse importante momento de ensinar e aprender, acaba por tornar todos
educando e educadores, essa rica experiência só é bem sucedida quando torna possível a
comunicação, ou melhor dizendo, a participação de todos. E, por se tratar de uma organização
que busca atender aos interesses da sociedade substituindo de certa forma o Estado, realizar a
atividade permitindo ao usuário o máximo de liberdade em suas falas é certeza de trabalho
concreto, pois o esforço para tornar o sujeito protagonista de suas muitas histórias tem
encontrado caminho.
Entre tantas atribuições e desafios, o profissional de Serviço Social encontra na
educação ambiental (EA) ferramenta de suma importância para fortalecer sua intervenção
204
profissional. A EA é regulamentada pela lei 9795/99, entre tantas legislações ambientais à
disposição da sociedade brasileira, todas com sua devida importância, representa a que mais
alternativas oferecem para ser desenvolvida através do trabalho educativo, seja por ser um
componente essencial “[...] devendo estar presente [...] em todos os níveis e modalidades do
processo educativo [...]” (BRASIL, 1999). Assim sendo, é preciso despertar a ética ambiental,
torná-la presente no cotidiano de todo cidadão, pois:

A ética ambiental analisa nossos deveres morais diante dessas questões: quais os
direitos e obrigações que temos quanto ao meio ambiente, e os temos por quê?
Parece que temos obrigações de cuidado ambiental derivadas do respeito aos que,
como nós, vivem hoje, aos que viverão no futuro e, também, as entidades do próprio
ambiente. (AZEVEDO, 2010, p. 2).

Diante esta importante definição sobre ética é possível verificar que uma ferramenta
que permite trabalhar a ética e com um público que pode colaborar imensamente nesta
caminhada torna a escolha da educação ambiental componente assertivo do processo de
trabalho do assistente social, pois a aquisição de saberes pelos assistentes sociais com o
campo da educação ambiental não é somente bem-vinda como também é necessária
permanente.
Por ser uma profissão que luta por melhor qualidade de vida, principalmente ao que
se refere ao cotidiano do cidadão, saúde, educação, lazer, habitação e etc. É necessário pensar
um ambiente sadio, e o acesso a essa forma de qualidade de vida deve ser acessada por toda a
sociedade. Dessa forma, é importante compreender que quando um profissional crítico como
o assistente social assume o trabalho com a EA esta pode ser entendida com dupla função.

Neste caso, trata-se de localizar a ação pedagógica no interior das múltiplas


dimensões que compõem a temática do meio ambiente – dimensão econômica,
social, geopolítica, cultural e ecológica – questionando os pilares da organização da
sociedade capitalista e sua natureza predatória do meio ambiente. Nestes termos, a
educação ambiental tem como objetivo a formação de uma consciência crítica, do
ponto de vista ambiental, posto que seja capaz de, criticamente, compreender a
desigualdade social, a padronização cultural e o fetichismo da política como
dimensões de uma mesma totalidade complexa. (SILVA, 2011, p. 138-139).

A capacidade transformadora da EA representa peça fundamental para o


enfrentamento das mazelas impostas pelo capitalismo, seja por ser uma educação que une que
desenvolve vários aspectos da cidadania, a ética e a preocupação com meio ambiente, local o
qual fazemos parte dele não podemos ser separados, devendo portanto, preservá-lo e torná-lo
possível para as gerações futuras.
205
A Dimensão Educativa do Trabalho Profissional do Assistente Social na Vertente de
Educação Ambiental: Experiências Em uma Organização Não Governamental Da
Cidade De Barretos-SP

Compreende-se, apoiados em uma perspectiva crítica, que o sistema societário, já


inserido em seu estágio de desenvolvimento de sociedade para o consumo, tem flagelado
ainda mais as condições da vida humana em todas suas dimensões, seja ela social, econômica,
saúde e também o meio ambiente.
Estabeleceu-se com esta pesquisa o objetivo de desenvolver ações de caráter
educativo, crítico, fundamentados pela Educação Ambiental, visando o fortalecimento e
fomento do exercício da cidadania, bem como estímulo da reflexão crítica sobre a importância
da preservação do meio ambiente.
O universo da pesquisa-ação foi uma Instituição não Governamental da cidade de
Barretos-SP que tem suas ações interventivas no âmbito da Política de Assistência Social,
através da Proteção Social Básica, por meio do Serviço de Convivência e Fortalecimento de
Vínculos.
A amostra para a execução da pesquisa-ação foi o os idosos da Oficina de Artesanato
Socioambiental. A escolha foi estratégica e com fins de garantir a extensão deste trabalho a
demais indivíduos, com intento deste público de pessoas idosas serem multiplicadores desta
ideia crítica, uma vez que a pessoa idosa, dentro deste cenário conjuntural, cada vez mais vem
representando papeis educativos em seu círculo de convivência.
Este cidadão tem assumido na contemporaneidade a responsabilidade e a função de
educar membros familiares, netos, filhos mais jovens, sendo assim o sujeito indicado para
construir novos caminhos e propagar uma nova trajetória de vida consciente ao meio ambiente
e a vida humana.
As reflexões que se seguem identificam os sujeitos envolvidos como “beneficiário”
para facilitar a apresentação e analise da pesquisa-ação desenvolvida. A pesquisa foi realizada
com 15 beneficiários, dentre elas 13 pessoas do sexo feminino e 2 pessoas do sexo masculino,
dentre elas, pessoas de 60 a 83 anos. Em relação à alfabetização e ensino, 1 beneficiária não
possui leitura e escrita, os demais 90% tem o ensino fundamental apenas. O grupo apresenta
diversidade de etnia, sendo 40% negros, 30% pardos e 30% brancos.

206
A questão do gênero é algo a ser pontuado, uma vez que a demanda majoritária pela
atividade de artesanato na Instituição tem sido de pessoas do gênero feminino. A amostragem
foi contemplada por todos os idosos participantes nesta atividade.
Foram realizados, quatro encontros de Educação Ambiental com enfoque dos
Direitos Humanos, Cidadania e Participação Ativa no decorrer do mês, vinculados à oficina
de Artesanato Socioambiental. Foi exposto ao grupo selecionado para amostra que seria
seguida uma programação que daria subsidio a uma pesquisa (pesquisa-ação) e todos se
posicionaram favoravelmente ao planejamento apresentado para o decorrer da pesquisa
Nesta perspectiva foram elencados quatro (4) textos para trabalhar de forma
dinâmica com o grupo, desenvolvendo educação não-formal em direitos humanos na temática
da Educação Ambiental. O material sócio-pedagógico oportunizou fomentar e estimular o
desenvolvimento participativo do grupo.
No primeiro momento foi realizada a acolhida dos participantes sobre a concepção
individual sobre a relevância do Artesanato Social?

 Por que aprendemos à fazer coisas novas sem gastar muito, utilizamos
produtos que seriam jogados fora, e não teriam mais utilidade. (Beneficiária 1).

 É importante, pois além de aprender algo, contribuir com a minha vida, no


aspecto de conhecimento e até de renda, eu em pequena escala contribuo com a
comunidade na questão de diminuir o lixo jogado ao meio ambiente. (Beneficiário
2).

A partir do que foi exposto pelos participantes foi realizado a pergunta, por que seria
importante a oficina trabalhar na perspectiva de reutilizar e reaproveitar produtos em vez de
fazer coisas novas?

 Depois que comecei a participar desta atividade, comecei a desenvolver um


novo olhar para os produtos que antes olhava somente como lixo. Hoje olho e já os
visualizo restaurados. (Beneficiária 5).

 Percebi que cada um pode colaborar com o meio ambiente de forma criativa,
depois que conheci a professora de artesanato, e conheci todo esse contexto,
comecei a mudar até meu posicionamento em casa. (Beneficiária 11).

Na sequência reflexiva, foi perguntado aos participantes: além dos aspectos já


elencados, entendendo a atual situação que se vivencia, quando se fala de meio ambiente, o
que se entende?.

207
Alguns participantes elencaram que meio ambiente é natureza, outros disseram que
meio ambiente é todo ambiente existente na natureza, na cidade etc. outros citaram o exemplo
da problemática da água com a relação do homem frente à degradação deste “meio”
ambiental.
Foi realizado um debate crítico reflexivo e relacionado às atividades desempenhadas
na oficina como uma das possíveis ações para alcançar uma cidadania ecológica consciente.
Falou-se sobre o consumo, o grupo chegou à conclusão de que consumir é inevitável, mas que
cada um pode se reeducar perante a este consumo e o descarte dos produtos consumidos.
Para complementar o socioeducativo foi utilizado como material sócio-pedagógico o
texto “Construindo a Paz Ecológica” (Mauri Luiz Heerdt). Foi feita a leitura do material em
grupo e discutido os aspectos apontados no texto, depois do debate todos chegaram a uma
mesma conclusão, do grupo caminhar neste período com metas para mudança de
comportamento. Ficando pactuado neste primeiro encontro que eles iriam começar por eles
(em casa), sendo estipulada como meta grupal a consciência no consumo e em passar para os
netos a importância dos aspectos discutidos neste encontro, levarão o texto para fortalecer a
reflexão em casa, assim partilharão no próximo encontro.
O segundo encontro foi iniciado com a partilha da meta coletiva estipulada na
semana anterior.

 Li o texto em casa com meus netinhos de 7 e 8 anos, foi muito importante até
para a cooperação semanal, pois eles compreenderam a partir do nosso momento de
conversa a importância de economizar água por exemplo, pois é um bem que temos
e que ele já está sendo ameaçado. (Beneficiária 5).

 Eu já pedi a colaboração dos meus netos e filhos, na reunião do almoço de


domingo, cortei os pedaços do texto, numerei a sequência e pedi para todos lerem
para mim. Depois disso foi muito rico, pois meus netos que são adolescentes
contribuíram muito sobre a temática e os netos que são crianças (6 e 7 anos) ficaram
empolgados e todos sensibilizados com a temática, estou cumprindo minha meta, eu
e minha família. (Beneficiária 9).

Na sequência foi feita a proposta de leitura grupal de um novo material para discutir
sobre a temática, onde utilizou-se do texto “Educação Ambiental” (Mauri L Jeerdt; Paulo De
Coppi). Após a leitura grupal do material, foi colocado para os participantes expor os aspectos
que mais acharam importante na leitura.

 Acredito que é importante essas ações de educação ambiental em todos os


espaços, pois igual aqui, está fazendo com que nós refletimos com aspectos que as
vezes não estaríamos atentados mais. (Beneficiária 3).

208
 Pra mim foi importante aprender que meio ambiente não é só áreas verdes, ar,
água. Meio Ambiente, como coloca o texto “ecologia implica numa sociedade mais
justa, onde haja: habitação sadia e digna, melhores condições de trabalho, água de
qualidade, alimentos saudáveis...” isso faz imaginar ainda mais a importância de
todos fazer sua parte. (Beneficiária 8).

Conforme parte do texto “Começar em Casa [...] Educação Ambiental começa em


casa, na rua, na praça, no bairro... Só a partir disso, é possível integrar uma luta para a solução
dos grandes problemas ecológicos do planeta.
Sendo assim o grupo utilizou dos tópicos ABC do Meio Ambiente e as perguntas
finais do Para Refletir. Ficando para o grupo as metas semanais, o repasse do material em
casa e a segunda entendendo que a Educação Ambiental - EA começa em casa e as perguntas
para refletir, pensar em casa quais são os problemas ecológicos onde cada um reside?
No terceiro encontro também se iniciou com a partilha das metas estipuladas no
encontro anterior. Este momento inicial foi muito rico, pois todos partilharam sobre
problemáticas ambientais que identificam no bairro, onde apontaram que existe um grande
agravante de aspecto ambiental no território, sendo a existência do maior distrito industrial da
cidade localizado anexo ao bairro.

 Além de alto descarte de lixo nesta região da cidade potencializado pelo


Distrito Industrial temo agravante da poluição do ar pelas indústrias. Nossa cidade já
está inserida em uma região de muito corte de cana e a polução das empresas
internas, faz com que as crianças cresçam com fortes complicações respiratórias.
(Beneficiária 3).

 Nosso bairro é um bairro muito grande, com muita gente morando, isso gera
muito lixo, vejo em praças muitos entulhos, caçambas, moveis etc. e esses lixos ali
permanecem, pois a coleta não leva. Gera poluição, doenças, como é o caso da
dengue, além de atrair bichos que transmitem doenças. (Beneficiária 8).

O grupo conversou muito sobre a temática do lixo e da poluição, pensou-se o que


poderia ser feito para trabalhar juntamente com as duas temáticas junto a empresas e foi
separada assim três grupos de cinco (5) pessoas para buscar, dentre as empresas do Distrito
Industrial ou do território parcerias, ficando de trazer no próximo encontro o que foi
conseguido.
Em consonância até com o que foi exposto pelos Beneficiários, foi preparado um
material sócio-pedagógico para dar sequência no assunto levantado, o “Lixo”.

209
Foi feita uma leitura grupal para continuar a programação de educação ambiental
para pensar mais amplo no assunto “Lixo”, utilizando do texto “O que estamos fazendo com o
lixo doméstico?” (BRANCO, 2010).
Dentro da perspectiva debatida com o texto, acordaram levantar os parceiros, e
deram a ideia de cada um trazer no próximo encontro um neto ou pessoa próxima (criança e
adolescente) para fecharmos a programação da intervenção em Educação Ambiental.
No quarto e último encontro para subsidiar a pesquisa, foi iniciado com a abordagem
das metas do último encontro:

A). Levar para este encontro um neto ou outra criança e/ou adolescente, todos os 15 presentes
levaram netos, dentre eles crianças e adolescentes.

B). Levantar parceiros no território para desenvolver ações junto aos projetos da Instituição,
um grupo levantou um parceiro:
1. Loja de Produtos Herbalaife (Doação dos Potes Plásticos mensalmente para
desenvolver produtos na Oficina de Artesanato Socioambiental);
2. Empresa de Embalagens plástica: Doação de Brinquedos e Livros para a
Comemoração do Dia das Crianças na Instituição;
3. Empresa de Insumos Agrícolas, colaborar com a orientação para a construção da
Horta Orgânica que será realizada por intermédio dos beneficiários de Penas e Medidas
Alternativas.

C). Sobre as perguntas do material sócio-pedagógico da semana passada, as respostas


apresentadas:

1. O que mais as pessoas jogam fora?


Alimentos, Latas, Garrafas, Plásticos, Papéis, Fezes de Animais, Folhas de Alvores.

2. Poderiam ser reciclados ou reaproveitados?


Garrafas, Plásticos, Papéis, Folhas de Arvores e Plantas, Latas.

3. O lixo está sendo bem acondicionado nos sacos?


Nem sempre, a maioria das pessoas mistura todo o lixo.
210
Em função das respostas apresentadas foi iniciado um debate reflexivo entre o grupo
e foi gerada uma inquietação no grupo, que colocaram querem futuramente fazer uma
campanha educativa sobre o lixo no bairro.
Em sequência, foi realizado um meio círculo intercalando as pessoas entre Criança
X Adolescente e idosos, na sequência realizada a leitura grupal do material sócio-pedagógico,
o texto “De onde vem o lixo?” (BRANCO, 2010).
Em seguida para complementar o proposto para reflexão e Dinâmica foi transmitido
um vídeo sobre educação ambiental em relação ao lixo, material disponível no sitio eletrônico
Youtube.
Foi realizado a dinâmica e fechado o proposto pelo planejamento interventivo em
EA, na perspectiva de ir além, de interagir idosos com crianças e adolescentes. Foi muito rica
essa troca de saberes entre as gerações.
Estes encontros foram de reflexões intensas e se pode perceber que os participantes
se envolveram muito com a proposta, modificaram aspectos de seus comportamentos que
contribuíam para o não desenvolvimento sustentável do meio ambiente e ainda atingir o
objetivo inicial, quando se procurava contagiar membros familiares, fazer destes Beneficiários
(idosos) multiplicadores dos princípios de uma cidadania mais ecológica, isso fica evidente no
relato deles sobre o quanto modificaram sua visão sobre o meio ambiente e a importância em
preservá-lo.

Considerações Finais

O trabalho socioeducativo, presente na profissão desde a sua origem, sofreu


importantes mudanças que deixaram a marca de um profissional qualificado, pois renega a
caridade para enxergar um “direito” que pertence ao cidadão e deve ser usufruído em sua
plenitude.
Neste contexto, o trabalho realizado com os idosos nesta ONG demonstrou que sua
direção tem contribuído com os seus usuários, fato que pode ser confirmado ao refletir acerca
dos dizeres “trabalhar com os outros e não para os outros”. A participação dos usuários
demonstrou que eles não querem somente aprender, mas também participar de todo o
processo educativo que lhes foi apresentado confirmando a importância desta pesquisa que
teve como foco principal desenvolver ações socioeducativas na perspectiva da educação

211
ambiental, onde suas ações são tão significativas que perpassam por toda a sociedade em
todos os momentos de sua vida.
O desafio de se trabalhar em Organizações Não Governamentais sem fins lucrativos,
tem propiciado há muitos profissionais, grandes revelações acerca do público com qual se
trabalha. Em muitos momentos durante o estudo e a execução interventiva deste trabalho foi
se verificado que a população deste bairro se mostrou disposta a interagir com algo novo, a
cidadania, a preservação ambiental, o cuidado com a saúde e outras tantas ações muitas vezes
só precisam de uma fagulha para despertar o interesse e a realização de se promover junto ao
cidadão. Desta forma, conhecer o público com o qual se trabalha foi de fundamental
importância para que a pesquisa atendesse seus objetivos.
Os idosos se mostraram participativos e extremamente interessados no conteúdo
oferecido, provando que a dimensão educativa no trabalho social tem grande potencial e
impacto na vida das famílias e da comunidade em que se intervém. Ações como estas devem
estar constantemente presentes na agenda de construção de cidadania e participação popular,
certeza permanente de que um país democrático tem inserido em sua rotina esses valores,
sempre abertos para que todos possam participar e propagar a cidadania.
Refletir acerca do trabalho desenvolvido a partir da arte possibilitou aos envolvidos
maior proximidade com a questão, como também o fortalecimento do exercício da cidadania,
conscientização e participação ativa. A participação das ações propostas pela atividade por
meio da Educação Ambiental tem outro fator de extrema relevância que é o aprendizado e a
conscientização trazida por essa modalidade.

REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO PROMOCIONAL DA FAMÍLIA. Estatuto Social, 2013. Barretos-SP,


2013.

______. Projeto Social: “Sempre é Tempo com Amor-Exigente”. 2015. Barretos-SP, 2015.

______. Regimento Interno. 2015. Barretos-SP, 2015.

ABREU. M. M. Serviço Social e a organização da cultura: perfis pedagógicos da prática


profissional. São Paulo: Cortez, 4. ed. 2011.

212
AZEVEDO, F. A. de. Ainda uma vez a ética e a ética ambiental. Revista Intertox de
Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, São Paulo, v. 3, n. 2, p. 2-9, mar./jun.2010.
Disponível em: http://www.intertox.com.br/documentos/v3n2/rev-v03-n02-01.pdf>. Acesso
em 15 Abr. 2017.

BARBIER, R. A pesquisa-ação. Brasília: Ed. Plano (Série Pesquisa em Educação), 2002.

BARROS, A. J. da S; LEHFELD, N. A. de S. Fundamentos de Metodologia Cientifica. 3.


ed. São Paulo: Pearson, 2007.

BENELLI, S. J. Entidades Assistenciais Socioeducativas: a trama institucional. Petrópolis –


RJ: Vozes, 2014.

BRANCO. S. Meio Ambiente e Educação Ambiental na Educação Infantil e no Ensino


Fundamental. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

BRASIL. Presidência da República. Subchefia para assuntos Jurídicos. Lei n° 9.795, de 27 de


Abril de 1999. Dispõe sobre a Educação ambiental, Institui a Política Nacional de Educação
Ambiental. Brasília. 1999. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm>. Acesso em: 05 Maio 2017.

CENDALES, L.; MARIÑO, G. Educação não-formal e educação popular: para uma


pedagogia do diálogo cultural. São Paulo: Loyola, 2006.

CFESS, Conselho Federal de Serviço Social; ABEPSS, Associação de Ensino e Pesquisa em


Serviço Social. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais; MIOTO, Regina
Célia. Orientação e acompanhamento social a indivíduos, grupos e famílias. Brasília:
CFESS/ABEPSS, 2009.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo:


Paz e Terra, 31 ed. 2005.

HEERDT, M. L. Construindo a paz: reflexões, ações, testemunhos, teatros, dinâmicas, e


mensagens para construir um mundo pacífico através da solidariedade. São Paulo: Mundo e
Missão, 2005.

HEERDT, M. L.; COPPI, P. de. Como Educar Hoje? Reflexões e propostas para uma
educação integral. São Paulo: Mundo e Missão, 2005.

IAMAMOTO, M. V. Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação


profissional. 24 ed. São Paulo: Cortez, 2013.

MARTINELLI, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. 16 ed. São Paulo: Cortez, 2011.

MINAYO, M. C. S (Org.). Pesquisa social: teorias, métodos e criatividade.23. Ed.


Petrópolis: Vozes, 2004.

213
PAULO NETTO, J. A construção do Projeto Ético-Político do Serviço Social In:
Capacitação em Sérico Social e Política Social. Brasília, CFESS/ABEPSS/CEAD/UNB,
1999.

SILVA, M. das G. e. Questão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: um desafio ético-


político ao Serviço Social. São Paulo, Cortez, 2010.

THIOLLENT, M.. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 2. ed. 1986. (coleção
temas básicos de pesquisa-ação).

214
A QUESTÃO SOCIOAMBIENTAL NA CONTEMPORANEIDADE

Analúcia Bueno dos Reis Giometti *


Tatiane Pereira da Silva **

Resumo: Com a crise ecológica contemporânea, a sociedade mundial se deparou com o maior
desafio no que tange à necessidade de mudar as suas ações frente a esta questão. Diante disso,
esse artigo enseja apresentar a trajetória do estudo sobre a questão socioambiental e as suas
múltiplas expressões a partir do contexto sócio-histórico estabelecido pela relação do gênero
humano com o meio ambiente. Foi utilizado para as reflexões acerca dessa temática, o método
Dialético, mediante a pesquisa bibliográfica e documental para analisar as manifestações
advindas da questão socioambiental na contemporaneidade, bem como das suas
consequências para a humanidade. Neste preâmbulo consideramos imprescindível que na
atual conjuntura societária venha ser estabelecida por conotações que emane a
sustentabilidade das ações antrópicas e o meio ambiente para que o ciclo de vida no Planeta
Terra se perpetue.

Palavras-chave: Questão socioambiental; gênero humano; sustentabilidade.

Introdução

A crise ecológica atual é a confirmação de que as mudanças ambientais se


intensificaram nas últimas décadas. Esse fenômeno hoje, sobretudo, se trata de um dos
problemas mais preocupantes na atualidade, pois um dos principais panoramas dessa crise
permeia o aquecimento do sistema planetário, onde poderá se modificar as condições naturais
dos ecossistemas da Terra, as quais são essenciais para a continuidade da sua biodiversidade e
da vida humana.
Desse modo, o presente ensaio abrange parte do conteúdo da pesquisa bibliográfica
realizada para a construção da dissertação de Mestrado do curso de Pós-graduação em Serviço
Social da Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” – UNESP/FCHS,
concluída no ano 2016 e intitulada Questão socioambiental e suas inter-relações com o
Serviço Social.

*
Doutora em Geografia pela UNESP/Campus Rio Claro. Professora do Departamento de Pós-gradação em
Serviço Social da UNESP/Câmpus de Franca.
**
Doutoranda em Serviço Social pela UNESP/FCHS. Professora MS em Serviço Social do Instituto Municipal
de Ensino Superior de Bebedouro “Victório Cardassi”.

215
Com isso, pretendemos apresentar reflexões teóricas acerca da relação que o homem
foi constituído ao longo da história até a contemporaneidade pela questão socioambiental e
suas múltiplas expressões, pois foram surgindo concomitantemente sob as ações antrópicas
estabelecidas com o meio ambiente.

As Pegadas do Homem na Terra: Uma Reflexão Sócio-Histórica

O estudo acerca da relação do gênero humano com o meio ambiente viabiliza


apreensão sobre as inter-relações dos organismos vivos existentes no planeta Terra, pois:

A natureza é o corpo inorgânico do homem, ou seja, natureza na medida em que não


é o próprio corpo humano. O homem vive da natureza, ou também a natureza é o seu
corpo, com o qual tem de manter-se em permanente intercâmbio para não morrer.
Afirmar que a vida física e espiritual do homem e a natureza são interdependentes
significa apenas que a natureza se inter-relaciona consigo mesma, já que o homem é
uma parte da natureza. (MARX, 2006, p. 116, grifo nosso).

As pegadas do homem na Terra são uma parte da sua biodiversidade, “[...] nas quais o
homem é, antes de tudo, parte do grande organismo da natureza, concebido como totalidade
viva e divina [...].” (MULLER, 1996 apud MONTIBELLER-FILHO, 2001, p. 30). E, a partir
disso, somos representados por laços de interdependência com a natureza.
A evolução da humanidade desde os primórdios incide sobre a relação do homem com
a natureza como parte sublime nesse processo. Desse modo, para desprendermos essa relação
na atualidade, faz-se necessário realizar uma reflexão a partir de uma perspectiva sócio-
histórica, para termos a possibilidade de compreender a trajetória do percurso que determinou
a interação do homem com a natureza, assim como afirma Meszáros (2011, p. 96) que:

Para entender a natureza e a força das restrições estruturais prevalecentes, é


necessário comprar a ordem estabelecida do controle sociometabólico com os seus
antecedentes históricos. [...] no que diz respeito ao intercâmbio produtivo dos seres
humanos com a natureza e entre si.

Nessa trajetória, salientamos que, dentre as espécies de animais viventes nos


ecossistema terrestre, o ser humano é o que possui maior capacidade de criar condições
adaptáveis para a sua sobrevivência.
Diante disso, para desenvolver condições favoráveis a sua espécie, o ser humano
necessita dos recursos da natureza para conseguir manter a subsistência, sobremodo, o homem

216
precisa dos elementos naturais que disponham de energia, abrigo e alimentação, assim como
“[...] a água, ar limpo, alimentos, solos férteis, regulação dos climas e outros [...].” (BOFF,
2015, p. 13) para suprir as suas necessidades básicas.
No passado remoto, o homem primitivo, considerado pré-histórico, mantinha a cultura
da caça e captava energia somente para o seu aquecimento e provimento dos alimentos através
da queima de madeira, porém isso acontecia de modo pacífico com a natureza. À medida que os
homens deixaram de viver como nômades para desenvolverem outro manejo da vida, passam a
se agrupar e criar novas técnicas e ferramentas para superar as dificuldades na aquisição de
comida e abrigo, oportunizando o desenvolvimento das técnicas de agricultura.
Neste estágio, ocorreu o crescimento populacional, gerando a economia para produção
de excedente agrícola e pastoril. Com acréscimo dessa população também surge o comércio,
e, mediante esse processo de civilização se manteve a “[...] construção pelos seres humanos
de um espaço próprio de vivência, diferente do natural, se deu sempre à revelia e com a
modificação do ambiente natural.” (DIAS, 2011, p. 1).
Ademais, Dias (2011, p. 3) afirma que essas atividades foram realizadas pelo ser
humano no entorno do ciclo natural, que pela sua interferência ocasionada na natureza acabou
por modificá-la para satisfazer suas necessidades. E esse processo é chamado de trabalho, que
ao desenvolvê-lo materialmente, o homem passa a ser capaz de sofrer a transformação do seu
modo de pensar, podendo melhorar sua condição de existência e qualidade de vida, pois
“Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua
própria natureza.” (MARX, 1996a, p. 297).
Com o ambiente modificado a partir do cultivo de vegetais e a domesticação de
animais, foram sendo desenvolvidos mecanismos e ambientes de ordem cultural para uma
produção que fosse excedente às suas necessidades. Diante das alterações da condição natural,
outras necessidades também determinaram que os territórios habitados fossem cercados, para
a proteção contra as ameaças e perigos advindos do ambiente exterior, constituindo-se nesse
momento a propriedade privada.
O aumento da população humana pela aglomeração dos povos antigos viabilizou a
construção das cidades, que, em maior intensidade, seu crescimento também culminou na
destruição dos ambientes naturais (paisagens naturais: matas, florestas e campos). Com a
propriedade privada e a população crescendo, o homem foi à busca de novas terras habitáveis,
acometendo a expansão pela dominação da posse da terra já conquistada por outros homens,
como também a dominação desses homens.
217
A dominação da Terra em si, para Marx, assumiu um significado complexo,
dialético, derivado do seu conceito de alienação. Ela significava tanto a dominação
da terra por aqueles que monopolizavam a terra, e, portanto os poderes elementares
da natureza [...] sobre a vasta maioria dos seres humanos. Assim a alienação da
Terra, e daí a sua dominação [...]. (FOSTER, 2014, p. 109).

Assim foram, com o tempo, alterados os ambientes naturais, a partir da Antiguidade, por
meio de construções urbanas e com a apropriação da Terra. Porém, a infraestrutura das cidades
era precária ao ponto de suscitar grandes epidemias e doenças que ocasionaram a morte de
milhares de pessoas. A partir do século IV, com as invasões bárbaras e a decadência do Império
Romano fundamenta as mudanças econômicas e sociais, as quais foram introduzindo o sistema
da propriedade privada e de produção no início da Idade Média. Foi-se então, caracterizando
um novo sistema econômico, político e social, denominado sistema feudal1. Este período, na
Europa, também ficou conhecido como a época Medieval, em que a população era praticamente
campesina e mantida sob a influência da ideologia da Igreja Católica.
Posteriormente, do século XIV ao XVI, o movimento conhecido como Renascimento2
marca a transição do feudalismo (por sua decadência e destruição) para o regente modo de
produção capitalista3.
Todavia, a partir do século XVI, sucedeu a Revolução Científico-Tecnológica,
demarcando as diversas transformações da vida humana na sociedade, cultura, economia,
política e religião. Com isso, aos poucos foi se constituindo a época moderna, regida pela
sociedade burguesa, através do modelo urbano e mercantil.

1
“Feudalismo é um sistema sociopolítico baseado numa economia rural e caracterizado pela dispersão do poder
através de uma variedade de domínios semi-independentes chamados feudos, mantidos sob a condição de
prestação de serviço pela massa campesina. A organização política é dominada pelos – senhores – das grandes
propriedades, sendo a economia determinada pela subordinação uns dos outros por uma hierarquia de vínculos
de dependência.” (FEUDALISMO..., 1986, p. 474).
2
“Renascimento é a retomada ao estilo clássico de inspiração Greco-romana pelo pintor Giotto no séc. XIV, que
rompe com a arte predominante do período medieval. O traço característico é o humanismo e considera-se que
o movimento inicia de meados do séc. XV, sobre tudo nas cidades Estados italianas como Florença, a meados
do da modernidade.” (JAPIASSÚ, 2008, p. 239).
3
“Capitalismo designa um sistema de desenvolvimento econômico a serviço da produção do capital – tendo na sua
gênese e expansão uma ocupação das condições de produção e reprodução do capital em si, que numa dada fase
de reestruturações demarca os conceitos para a “produção capitalista” e “produção do capital”. Ocupa-se do
modo de funcionamento da sociedade capitalista, das condições de origem (caráter privado e mercado livre) e
desenvolvimento da produção de capital, marcado pela particular fase: a produção para a troca (mediação e
dominação do valor de uso pelo valor de troca) é dominante; a força de trabalho em si é tratada como
mercadoria; a motivação para o lucro é uma força reguladora fundamental para a produção; o mecanismo de
extração da mais-valia é apropriado privadamente pelos membros da classe capitalista; possui interativos
econômicos de crescimento e expansão, tende a produção do capital à integração global, por intermédio da lei do
mercado internacional, como um sistema de dominação e subordinação econômica. Um sistema fadado a ordem
reestrururativa de acordo a livre iniciativa dos indivíduos.” (MESZÁROS, 2011, p. 1029, grifo do autor).

218
Para tanto, no século XVIII, a Terra sofreu as mudanças mais decorrentes desse
pensamento concomitantemente com outra grande Revolução, que, sob a influência da
construção ideológica do Iluminismo4, consolidava a era moderna5 através da “[...] grande
transformação da capacidade produtiva humana.”, conhecida como Revolução Industrial.
(DIAS, 2011, p. 5).
Mediante isso, o empirismo, o mecanicismo, o racionalismo e o tecnicismo
designaram e intensificaram profundamente o pensamento de ciência moderna. Desse modo, o
paradigma moderno no processo capitalista de (re)produção enxerga e toma os recursos
naturais apenas como mercadorias para o fornecimento de matéria-prima para produção de
bens e fontes de energia, em que o homem experimenta um sentimento de exterioridade,
separando-se da natureza pela sua subjugação.
Com a globalização do paradigma moderno ocasionada pela mundialização do modo
de produção capitalista, vieram consigo grandes problemas sociais e ambientais, pois o
processo produtivo, da acumulação capitalista, traz em seu bojo o processo industrial e a
urbanização forçada e desordenada da população camponesa que, ao serem transformados em
grandes polos urbanos e industriais sem infraestruturas adequadas acabam prejudicando o
meio ambiente e a saúde humana.
Com vistas disso, as várias questões advindas da exploração no processo industrial
denotam “[...] a possibilidade de esgotamento dos recursos naturais e seus reflexos no
crescimento econômico.” (DIAS, 2011, p. 7). Estas questões acabam refletindo imensamente
na condição natural do meio ambiente.

A exploração industrial do meio ambiente manteve-se sem contestação durante todo


o século XIX e a maior parte do século XX. A visão equivocada de que os recursos
naturais eram ilimitados e estavam à disposição do homem somente começou a ser
questionada e exigiu maior reflexão da humanidade na década dos anos 70 [...]
quando os processos de deterioração ambiental e a possibilidade de esgotamento de
determinados recursos naturais se tornaram evidentes. [...] Um dos problemas mais
visíveis causados pela industrialização é a destinação dos resíduos de qualquer tipo

4
“Iluminismo é um movimento filosófico, também conhecido como Esclarecimento, Ilustração ou Século das
Luzes, que se desenvolve particularmente na França, Alemanha e Inglaterra no séc. XVIII, caracterizando-se
pela defesa da ciência e da racionalidade crítica, contra a fé, a superstição e Omã religioso. Possui uma
dimensão literária, artística e política. No plano político, defende as liberdades individuais e o abuso do
poder.” (JAPIASSÚ, 2008, p. 142).
5
“A modernidade institui, assim, como o modelo explicativo do real, fundando no primado da razão, ou seja, na
capacidade do homem em formular teorias científicas a partir de leis objetivas. Essa forma de pensar do
projeto epistemológico da tradição racionalista inaugurada por Descartes e da perspectiva empirista iniciada
por Francis Bacon. Será, no entanto, o filósofo alemão Immanuel Kant quem ampliará as reflexões acerca das
possibilidades da razão na organização e sistematização dos dados empíricos de forma mais científica.”
(SIMIONATTO, 2009, p. 88).

219
(sólido, líquido ou gasoso) que sobram do processo produtivo, e que afetam o meio
ambiente natural e a saúde humana. (DIAS, 2011, p. 7).

Dentre essas e outras questões, isso tem sido o principal fator para as manifestações
dos impactos ambientais6 decorrentes dos impactos advindos do sistema capitalista de
produção, pois, entre as suas causas e consequências, repercute o aumento em níveis cada vez
maiores do desequilíbrio ecológico.

Durante os últimos 200 anos é que se agravou o problema ambiental na Terra, com a
intensificação da industrialização e o conseqüente aumento da capacidade de
intervenção do homem na natureza. Essa situação é facilmente verificável pela
evolução do quadro de contaminação do ar, da água e do solo em todo o mundo e
pelo número crescente de desastres ambientais. (DIAS, 2011, p. 13).

Ao delinear este breve ensaio sobre as pegadas do homem na Terra, podemos


apreender que as manifestações da questão ambiental são os reflexos produzidos pela relação
que o homem tem estabelecido com a natureza. “[...] Os perigos agora se estendem por todo o
planeta; mas também no fato de o sistema do capital global ter atingido seu zênite
contraditório de manutenção e saturação [...].” (MESZÁROS, 2011, p. 95, grifo nosso).
Desse modo, desde as suas causas às suas consequências, a hegemonia da ciência moderna
pelo seu modelo de desenvolvimento econômico tem sido determinante para a questão
socioambiental que presenciamos na contemporaneidade.

Desvelando a Questão Socioambiental na Contemporaneidade

É impossível refletir a dimensão social sem pensar o ambiental. Pois o social e o


ambiental não estão em campos diferentes na sociedade capitalista. Desse modo, a expressão
“socioambiental” refere-se aos processos sociais resultantes da relação da sociedade com o
meio ambiente. Sobremodo, a atual conjuntura mundial revela que a crise ecológica advinda
“questão ambiental” contemporânea está vinculada ao modo de (re) produção capitalista, onde
tal crise, por estarem atrelada as atividades/ações antrópicas, oprime e devasta vorazmente os

6
“Qualquer alteração significativa no meio ambiente em um ou mais de seus componentes provocada por uma
ação humana. Qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada
por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente,
afetem: a saúde, a segurança e o bem estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as
condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; a qualidade dos recursos ambientais.” Resolução nº 001
(CONAMA, 1986).

220
recursos naturais pela exploração inesgotável dos seus ecossistemas e, com isso, colocando
em risco a vida do ambiente planetário.

[...] gritam as florestas, abatidas em todas as partes do mundo sob a voracidade


produtivista, pois no lugar de árvores frondosas e centenárias pasta gado para carne
de exportação. Gritam os rios contaminados pelos agrotóxicos da monocultura de
soja, do fumo, dos cítricos e outras. Gritam os solos contaminados por milhões de
toneladas de pesticidas. Gritam os ares envenenados por gases de efeito estufa.
Gritam as espécies, dizimadas aos milhares a cada ano. Gritam inteiros ecossistemas
devastados pela supreexploração de seus bens e serviços. Grita a humanidade inteira
ao dar-se conta de que pode ser eximada da face da Terra por dois tipos de bombas:
pela bomba ecológica representada pelo aquecimento global, que não acaba e
aumentar ano após ano. Enfim, grita a Mãe Terra contra a qual está levando uma
guerra total: no solo, no subsolo, no ar, nos oceanos, em todas as frentes; guerra da
qual não temos qualquer chance de ganhar, pois nós precisamos da Terra, mas ela
não precisa de nós. (BOFF, 2015, p. 5).

Destarte, atualmente, a questão socioambiental vem se tornando o principal painel de


discussões dos mais diversos organismos sociais de todo mundo, em decorrência da
preocupação com o futuro do planeta. Assim, temos visto que “Nas ultimas décadas, todo um
conjunto de práticas sociais voltadas para o meio ambiente tem instituído tanto das legislações
e dos programas de governo quanto às diversas iniciativas de grupos, de associações e de
movimentos ecológicos.” (CARVALHO, 2012, p. 24).
Em referência a isso, é importante citarmos a publicação de Francisco 7 (2015), na
inédita Encíclica Sobre o Cuidado da Casa Comum, por se tratar de um documento atual,
autêntico, de representação social, de cunho filosófico e sócio-histórico sobre as reflexões e
discussões a respeito desta temática num âmbito mundial, em que foram traçados elementos
de ordem científica da realidade global no que tange à relação humana com o meio ambiente,
a qual denominou de – Casa Comum – para os presentes e futuros herdeiros da Terra.

Estas contribuições dos Papas recolhem a reflexão de inúmeros cientistas, filósofos,


teólogos e organizações sociais que enriqueceram o pensamento da Igreja sobre
estas questões. Mas não podemos ignorar que, também fora da Igreja Católica,
noutras Igrejas e Comunidades cristãs – bem como noutras religiões – se tem
desenvolvido uma profunda preocupação e uma reflexão valiosa sobre estes temas
que a todos nos estão a peito.
[...]
As reflexões teológicas ou filosóficas sobre a situação da humanidade e do mundo
podem soar como uma mensagem repetida e vazia, se não forem apresentadas
novamente a partir dum confronto com o contexto atual no que este tem de inédito
para a história da humanidade. Por isso, antes de reconhecer como a fé traz novas
motivações e exigências face ao mundo de que fazemos parte, proponho que nos

7
Em latim FRANCICUS (Papa), nascido como Jorge Mario Bergoglio na cidade de Buenos Aires - Argentina,
em 17 de dezembro de 1936. É 266º Papa da Igreja Católica e atual Chefe de Estado do Vaticano, abdicando
ao papado em 28 de fevereiro de 2013.
221
detenhamos brevemente a considerar o que está a acontecer à nossa casa comum.
(FRANCISCO, 2015, p. 7, 17).

Em escala mundial, temos assistido a confirmação sobre as mudanças ambientais,


principalmente a partir do aumento significativo dos desastres ecológicos. Isso se refere à
degradação ambiental entre as mais variadas formas de manejo inadequado dos recursos
naturais; da produção em larga escala de mercadorias descartáveis; da urbanização
descontrolada; das ações humanas de uma sociedade deseducada e uma sociedade advinda
dos diferentes fatores econômicos, políticos, tecnológicos, sociais e culturais. À vista disso,
segundo Loureiro (2002, p. 46), “A dinâmica capitalista é base estrutural dessa degradação,
qualificada pela urbanização, pelo industrialismo e pelo modelo antropocêntrico, inerente ao
iluminismo [...].”
Dessa forma, o sistema de produção capitalista hegemônico é o que espolia o social e
interfere no ciclo natural dos sistemas ambientais, que, sob influência do pensamento
mecanicista e reducionista cartesiano (fundamentos da ciência moderna), não incluem a
biosfera como elemento primordial para continuação genuína do Planeta Terra. Dentre as
diversas elucidações acerca das questões que permeiam a degradação ambiental, enfatizamos
que o: “[...] ambiente humano e ambiente natural degradam-se em conjunto [...].”
(FRANCISCO, 2015, p. 37).
Outros fatores também revelam a apreensão desta degradação através das inconstantes
manifestações das problemáticas defrontadas com: “[...] a mundialização financeira, a
‘acumulação por espoliação’, a ideologia do progresso técnico e a obsolescência programada
[...].” (SILVA, M. G., 2010, p. 32, grifo do autor).
Para tanto, Adorno e Horkheimer (1985, p. 24) evidenciam que o paradigma da ciência
moderna descende a racionalidade como meio de dominação da natureza frente à organização
da vida socioambiental. Pois o poder da razão submete o pensamento para apreender a
natureza, a fim de empregá-la para a sua própria dominação.
Desse modo, esse modelo tem subjugado a natureza para gerar uma dinâmica cíclica
da produção para o consumo e o consumo para a produção, porém, em decorrência disso tem
resultado catastróficas crises cíclicas.

[...] as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero


explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses
imediatos.

222
[...] o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão
humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente.
(FRANCISCO, 2015, p. 11, 83).

Consequentemente, ao sermos dominados e alienados pelo paradigma moderno, “[...]


por causa da revolução tecnológica, da informatização e da robotização, são dispensados,
precarizados, e os trabalhadores excluídos [...].” (BOFF, 2015, p. 28) para atender o modo
de (re)produção capitalista. Pois, de acordo com Marx (1996b, p. 133) “A produção
capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo social ao minar,
simultaneamente, as fontes de toda a riqueza: a terra e o trabalhador.” Destarte, “Este
comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e
consumo.” (FRANCISCO, 2015, p. 47).
Desse modo, estamos condicionados a um estilo de vida imposto e subordinado por
uma geração que não conhece e não se relaciona com a natureza, a não ser para a sua própria
satisfação (conforto e consumo).
Ao apreendermos essa crise anunciada pelo aumento dos desastres ecológicos nas
últimas décadas, também devemos compreender que isso está atribuído acrescente
destruição e depredação da natureza. “Hoje a Terra se encontra em fase avançada de
exaustão [...].” (BOFF, 2015, p. 28), que em níveis cada vez maiores, evidenciam a escassez
e o esgotamento dos recursos não renováveis; o aumento nos níveis de aquecimento do
sistema climático; os efeitos advindos dos dejetos industriais e diversos poluentes
acrescidos à Terra.
Com essa (re)produção da questão ambiental, desvela-se que estamos destruindo a
natureza e exterminando a sua biodiversidade ao poluirmos os seus rios, os seus oceanos, os
seus solos e os seus ares, contaminando a terra com as sobras do processo produtivo e
produzindo resíduos sólidos demasiadamente, pois, “A terra, nossa casa, parece transforma-se
cada vez mais num imenso depósito de lixo.” (FRANCISCO, 2015, p. 19). Com isso, temos
presenciado nessa voraz degradação mundial a atravessada trajetória do problema gerado pela
cultura do descarte dos resíduos sólidos e industriais.
Outro fator sobre os problemas no campo ambiental está ligado ao estilo e à ordenação
da vida urbana e rural, onde o homem urbano é aquele que convive com o processo industrial,
alta escala de poluição, construções de cimento desfigurado do ambiente natural, conflitos
socioeconômicos, e as contradições do estilo de vida nas cidades ascendem à questão urbana.
Já o homem do campo convive com a precária condição de vida, domínio e posse de terras,

223
produção a serviço do capital, produção de alimentos em larga escala, usos de agrotóxicos,
desmatamentos, extração ilegal da madeira, e, etc..., das quais se tornam prerrogativas
determinantes para a questão agrária.
Essa violência estrutural, da qual determina a separação homem-natureza, separa o
urbano do rural e separa o social do ambiental, e também é a mesma que gera a questão
urbana, a questão agrária e a questão ambiental, “[...] cada qual assinalado por características
bem definidas, mas também marcado por uma forte articulação mútua.” (LOUREIRO, 1995
apud NASCIMENTO, 2012, p. 175).
Diante desse processo, estendem-se a questão urbana, a questão agrária e a questão
ambiental através da sua gênese nas sequelas das mais variadas manifestações da questão
socioambiental no âmbito local, regional e global. Para tanto, esta questão é originada pela
questão social8, advinda das contradições elementares da dinâmica do modo de produção
capitalista, onde a sociedade subdividida em classes sociais9 tem sido alienada por uma parte
da classe dominante para que a subjugação movimentada no mundo das aparências venha
perdurar a dominação da natureza.
Sobre a contínua (re)produção da questão social no processo de acumulação de capitais,
“[...] também o é em relação à ‘questão ambiental’, cuja expressão mais emblemática é a
incessante produção de descartáveis.” (SILVA, M. G., 2010, p. 76, grifo do autor).

[...] os níveis de degradação ambiental nas sociedades anteriores ao capitalismo não


chegaram a configurar um quadro de ameaças à sustentabilidade planetária, tendo
em vista que o objetivo precípuo da produção não residia na formação do excedente
com vistas ao mercado, e, consequentemente, à obtenção do lucro. O baixo nível de
eficácia da técnica, observado nas sociedades que antecederam o mundo burguês –
para as quais a natureza aparece como uma fonte de magia e mistérios – não
possibilitou o efetivo domínio da natureza. (SILVA, M. G., 2010, p. 48).

Ao mencionar o aspecto “mudanças” para a evolução da humanidade, podemos


remeter a isso como algo bom e desejável para a sociedade, mas quando estas mudanças se
transformam na deterioração e destruição da natureza, e, consequentemente, da vida humana,

8
“Questão social apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura,
que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente
social, enquanto a apropriação de seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade.”
(IAMAMOTO, 2005, p. 27, grifo do autor).
9
“Chamam-se classes a grandes grupos de homens que se diferenciam pelo seu lugar no sistema historicamente
determinado de produção social, pela sua relação (na maioria dos casos confirmada e precisada nas leis) com
os meios de produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e, por conseguinte, pelos meios de
obtenção e pelo volume da parte da riqueza social de que dispõem. As classes são grupos de homens em que
uns podem apropriar-se do trabalho dos outros graças à diferença do lugar que ocupam num sistema da
economia social.” (LENIN, 1977, p. 13).
224
também se tornam questionáveis. É questionável no sentido que esse mesmo sistema que
aliena, domina e explora os homens é o mesmo sistema que também polui, depreda e destrói
a natureza.

A lógica que explora as pessoas, as classes e submete os povos aos interesses de uns
poucos países e poderosos é a mesma que depreda a Terra e espolia suas riquezas
naturais, sem solidariedade para com o restante da humanidade e para as futuras
gerações. (BOFF, 2015, p. 9).

Por isso que das promessas do tão sonhado crescimento econômico só tem restado o
chamado mito do progresso, pois a sociedade vivencia o crescimento da degradação da vida
através da lei das desigualdades, tendo nas suas maiores expressões o aumento da violência,
da pobreza e da miséria entre os povos. Para tanto, não maldizemos a busca pelo progresso,
mas os ditames que resultam o poder que explora e domina os homens e ao mesmo tempo
destrói o ambiental. “A natureza tem seus limites, nós seres humanos inclusive. Estamos
ultrapassando os limites suportáveis [...].” (AGOSTINI, 1996, p. 2), e com isso, pauperizando
cada vez mais a vida socioambiental.

[...] a utopia dos mercados livres e da globalização tornam-se a referência. Mas o


vazio e a crise pairam no ar. Sente-se um mundo fragmentado, seu sentido se
perdendo nessas fraturas, com múltiplos significados, orientações e paradoxos.
Juntas, ciência e técnica não param de surpreender e revolucionar. A capacidade de
produzir mais e melhor não cessa de crescer. Mas esta ciência vencedora começa a
admitir que seus efeitos são perversos. [...] Nesse mundo de poder, produção e
mercadoria, o progresso traz consigo desemprego, exclusão, concentração de renda e
subdesenvolvimento. (DUPAS, 2001, p. 102).

Além do mito do progresso, na pós-modernidade10 a humanidade também estará


sujeita e fadada à ambiguidade, dicotomia e mito do desenvolvimento sustentável como
método alternativo para sustentar os interesses econômicos através da atual denominação
estabelecida pela economia verde. Pois, “O Deus que falhou, na imagem da onipotência
tecnológica, é agora recomposto e novamente apresentado sob o disfarce do interesse
ecológico universal [...].” (MESZÁROS, 2011, p. 987, grifo do autor).

10
“[...] a pós-modernidade, enquanto idéia, não seja recente, sua expressão no âmbito do conhecimento pode ser
verificada com maior intensidade a partir da metade dos anos de 1970. No campo filosófico, as primeiras
reflexões aparecem na obra A condição pós-moderna, de Jean-François Lyotard. Nela, o autor concebe a
sociedade não como um todo orgânico ou um espaço de conflitos, mas como uma “rede de comunicações
linguísticas”, uma “multiplicidade de jogos”, não mais apreendidas através das formas de conhecimento
próprias do pensamento moderno.” (SIMIONATTO, 2009, p. 92, grifo do autor).

225
Quanto mais fragmentados estamos pelas incorporações alternativas das quais
sustentam o sistema capitalista11 diante do “[...] binômio produção de mercadorias-destruição
do meio ambiente [...].” (SILVA, M. G., 2010, p. 25), mais distante estará a nossa consciência
ambiental. Desta maneira, temos visto a desqualificação do bem-estar humano e do equilíbrio
do sistema ambiental, dado que o homem, ao interferir na vida da natureza, também dispensa
riscos para a vida da própria espécie humana.

Considerações Finais

Com a questão socioambiental posta na contemporaneidade, é importante dizermos que


avanços adjacentes a esta questão vêm acontecendo no âmbito da legislação ambiental, porém
numa dimensão lenta em relação ao processo de (re)produção capitalista, por isso, pouco tem
avançado sua aplicabilidade na comunidade mundial. Pois persiste a resistência e a falta de
adesão à sustentabilidade ambiental versus ao desenvolvimento produtivo por alguns dos países
ricos e pela parte da classe dominante que ainda visam a manter os interesses de ordem
econômica.
Por essas e outras razões, vivemos as incertezas de um futuro ambientalmente
sustentável, e, com as possíveis chances de a Terra aos poucos sucumbir diante de tão
acelerada destruição ambiental. Sobremodo, hoje, somos desafiados a enfrentar essa questão e
munirmos as forças para movimentar a conscientização humanitária sobre isto. O destino do
planeta vai depender do que fizermos agora para mitigar e frear os legados da produção
econômica para outra que mantenha a sustentabilidade socioambiental.

REFERÊNCIAS

ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos.


Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

BOFF, L. Ecologia: grito da terra, grito dos pobres: dignidade e direitos da Mãe Terra. ed.
rev. e ampl. Petrópolis: Vozes, 2015.

11
“As transformações societárias desencadeadas nas ultimas décadas do século XX e seus desdobramentos no
início do século XXI, sob o domínio do capitalismo financeiro e da sua afirmação enquanto sistema
hegemônico, exacerbaram os problemas e contradições em todas as esferas da vida social.” (SIMIONATTO,
2009, p. 92).

226
CARVALHO, I. C. M. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. 6. ed. São
Paulo: Cortez, 2012.

CONAMA. Resolução nº 001 de 23 de janeiro de 1986. Diário Oficial da União, Poder


Legislativo, Brasília, DF, 17 fev. 1986. Seção 1.p. 2548-2549. Disponível em:
<http://www.mma.gov.br/port/conama/legislacao /CONAMA _RES_CONS _1986
_001.pdf>. Acesso em: out. 2015.

DIAS, R. Gestão ambiental: responsabilidade social e sustentabilidade. 2. ed. São Paulo:


Atlas, 2011.

DUPAS, G. Ética e poder na sociedade da informação: de como a autonomia das novas


tecnologias obriga a rever o mito do progresso. 2. ed. São Paulo: Ed. UNESP, 2001.

FEUDALISMO. In: SILVA, B. (Coord.). Dicionário de ciências sociais. Rio de Janeiro: Ed.
Getúlio Vargas, 1986.

FOSTER, J. B. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Tradução de Maria Tereza


Machado. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

FRANCISCO (Papa). Carta Encíclica: sobre o cuidado da casa comum. Roma, 2015.
Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/dam/francesco /pdf/encyclicals/documents/
papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf>. Acesso em: ago. 2015.

IAMAMOTO, M. V. Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação


profissional. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

______.; M. V.; CARVALHO, R. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de


uma interpretação histórico-metodológica. 18. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

JAPIASSÚ, H. Dicionário básico de filosofia. 5. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

LENIN, V. I. A Luta de Classes. Obras escolhidas em três tomos. Lisboa: Ed. Avante;
Moscovo: Progresso, 1977.

MARX, K.. O capital. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova
Cultural, 1996a. L. 1. t. 1.

_______.; Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin


Claret, 2006.

MESZÁROS, I. Para além do capital: rumo a uma teoria de transição. Tradução de Paulo
Cesar Castanheira e Sergio Lessa. São Paulo: Boitempo, 2011.

MONTIBELLER-FILHO, G. O mito do desenvolvimento sustentável: meio ambiente e


custos sociais no moderno sistema de mercadorias. Florianópolis: Ed. UFSC, 2001.

227
NASCIMENTO, N. S. F. A questão agrária, urbana e ambiental na Amazônia Brasileira:
notas para o debate. Temporalis, Brasília, DF, ano 12, n. 24, p. 171-189, 2012. Disponível
em: http://periodicos.ufes.br/temporalis/article/viewFile/3145/3287>. Acesso em: fev. 2016.

SILVA, M. G. Questão ambiental e desenvolvimento sustentável: um desafio ético-político


ao Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2010.

SIMIONATTO, I. Expressões ideoculturais da crise capitalista na atualidade e sua influência


teórica-prática. In: CFESS; ABEPSS (Org.). Serviço Social: direitos sociais e competências
profissionais. Brasília, DF, 2009.

228
ANÁLISE DA ATUAÇÃO DO PROGRAMA NÚCLEO DE ENSINO DA
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO”-
UNESP, NOS PROJETOS COM VIÉS EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Analúcia Bueno dos Reis Giometti*

Resumo: Na década de 1980, o Brasil consolidou sua Política Nacional de Meio Ambiente,
criando a Lei n. 6.938, que afirma ser a Educação Ambiental um instrumento didático
fundamental na defesa do meio ambiente. Foi neste cenário que, há vinte e nove anos, foi
lançada, na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho (UNESP), uma proposta
de criação do Programa Núcleo de Ensino, com a finalidade de incentivar ações que
estimulassem parcerias da escola pública e sociedade com o universo universitário. A UNESP
lançou o Programa do Núcleo de Ensino (PNE), criado em 1987, a fim de estabelecer laços
entre a universidade e a comunidade, através da atuação de alunos e professores nas escolas
da rede pública de ensino. Através desse Programa, a Reitoria da UNESP buscou incentivar e
aprimorar o ensino público e gratuito de excelência, com vistas a qualificar seus alunos e
prepará-los para o exercício da profissão. Para alcançar esta meta, buscou-se o
comprometimento deste programa com ações em Educação Ambiental que demonstrassem
preocupação com o (re)equilíbrio do planeta, visando minimizar a degradação ambiental e ao
mesmo tempo buscar a sustentabilidade dos ecossistemas através da conscientização do
cidadão em seu papel crítico.

Palavras-chave: Educação Ambiental, Programa Núcleo de Ensino.

Introdução

Na década de 1980, o Brasil consolidou sua Política Nacional de Meio Ambiente,


criando a Lei n. 6.938, que afirma ser a Educação Ambiental um instrumento didático
fundamental na defesa do meio ambiente, indicando-a para estar presente em todas as séries do
ensino, assim como determina em seu artigo 2º:

Art 2º - A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação,


melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar,
no País, condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança
nacional e à proteção da dignidade da vida humana, atendidos os seguintes
princípios:
I - ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio
ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e
protegido, tendo em vista o uso coletivo;
[...]

*
Docente do quadro permanente da Pós-Graduação em Serviço Social da Faculdade de Ciências Humanas e
Sociais- FCHS da UNESP/Câmpus de Franca. Lider do Grupo GESTA.

229
X - educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a educação da
comunidade, objetivando capacitá-la para participação ativa na defesa do meio
ambiente. (BRASIL, 1981).

Este cenário possibilita que se criem condições para que a Educação Ambiental surja

[...] não como uma simples ‘ferramenta’ para resolver os problemas do meio
ambiente, mas sim, como uma dimensão essencial da educação fundamental, em que
diz respeito a uma esfera de interações que está na base do desenvolvimento pessoal
e social. (SAUVÉ, 2005, p. 317).

No Brasil, a Educação Ambiental está no bojo da Constituição Federal de 1988, no


inciso VI do Artigo 225, disposto da seguinte forma:

Art. 225 - Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e
futuras gerações.
[...]
VI - promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a
conscientização pública para a preservação do meio ambiente. (BRASIL, 1988).

Onze anos mais tarde desta deliberação legislativa, em 1999, a Educação Ambiental
foi normatizada através da Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), Lei n. 9.795, e
posteriormente, regulamentada pelo Decreto n. 4.281, em julho de 2002.

Logo, a política estabeleceu que a Educação Ambiental deve ser promovida em


todos os setores da sociedade, no âmbito formal da educação, nas escolas,
universidades, instituições de ensino, entre outros, como também informal, ou seja,
no nosso cotidiano, como em casa, no ambiente de trabalho e em espaços de
encontros coletivos, como lugares de lazer e/ou reunião. (GIOMETTI, 2013, p. 3).

Foi neste cenário que, há vinte e nove anos, foi lançada, na Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho (UNESP), uma proposta de criação do Programa Núcleo de
Ensino, com a finalidade de incentivar ações que estimulassem parcerias da escola pública e
sociedade com o universo universitário.

A proposta, simples em seus princípios, inovadora em sua prática, além de


expressar, desde a sua origem, o princípio da indissociabilidade na universidade,
entre ensino, pesquisa e extensão, envolvia a participação de agentes sociais
relacionados ao ensino/aprendizagem, tanto da universidade, como da escola
pública, docentes e graduandos da Unesp, docentes e estudantes da educação básica.
(MENDONÇA; LEITE; VIEIRA, 2010, p. 7).

230
Com este paradigma sendo consolidado, a UNESP lançou o Programa do Núcleo de
Ensino (PNE), criado em 1987, a fim de estabelecer laços entre a universidade e a
comunidade, através da atuação de alunos e professores nas escolas da rede pública de ensino,
tendo como principais objetivos:

Incentivar o ensino e a pesquisa de caráter disciplinar ou interdisciplinar nas unidades


de Educação Infantil, Fundamental e Médio do Sistema Público de Ensino;
Promover ações educativas e inclusivas junto aos movimentos sociais;
Produzir material didático-pedagógico;
Promover intervenções de melhoria na realidade das escolas. (CENTRO DE
ESTUDOS E CULTURAS DO MUNDO RURAL, 2015).

Como um Programa de Ensino da UNESP, associado e vinculado à Pró-Reitoria de


Graduação,

[...] este programa institucional, criado em 1987, tem por objetivo estabelecer uma
relação da Universidade com a sociedade, visando uma integração para socializar os
conhecimentos ali desenvolvidos, como também a população trazer a demanda
social existente na comunidade. Deste modo, a UNESP busca estar presente na
comunidade local que a mantém, desenvolvendo uma relação horizontal e de mão-
dupla. (GIOMETTI, 2013, p. 4).

Este Programa visa:

[...] a produção de conhecimento na área educacional e a formação inicial e


continuada do educador, pautadas pela articulação entre ensino, pesquisa e extensão,
e nos princípios da cidadania e da justiça social. O Núcleo de Ensino é um programa
de responsabilidade da Pró-reitoria de Graduação (PROGRAD), com o objetivo de
trabalhar com os cursos de graduação no desenvolvimento de práticas educacionais
nas escolas de educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, visando à
melhoria compreendida em termos de:
Competência do profissional a ser formado pela Unesp;
 Competência das equipes técnico-administrativas;
 Competência dos docentes, no que diz respeito às suas tarefas de educadores,
vista também pela ótica do ensino das disciplinas que lecionam e da aprendizagem
dos seus alunos;
 Desenvolvimento de programas, cursos, oficinas pedagógicas e de outras
atividades relevantes à educação e ao desempenho do profissional;
 Desenvolvimento de temas significativos para a Educação e para a política
educacional do Brasil.
 Estabelecer parcerias com prefeituras, diretoria de ensino, escolas estaduais e
municipais, sindicatos e movimentos sociais dispostos a transformar a dinâmica da
educação.
 Estimular, desenvolver e manter o trabalho em equipe e multi-equipe, no
sentido de possibilitar estudos teóricos e práticos, em diferentes especialidades
significativas para a Educação.
 Congregar equipes do campus universitário que desenvolvam trabalhos
relativos à educação; sejam esses trabalhos subvencionados por agências de fomento
ou não. (UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA, 2005, p. 3).

231
Com este perfil, os projetos apresentados anualmente, podendo ser (re)apresentados
uma única vez, possibilitam o desenvolvimento de atividades e trabalhos de pesquisa e/ou de
ação didático-pedagógica que contribuem para a melhoria da realidade escolar. Uma maneira
de estimular a abrangência de temas relevantes no cenário educacional do Brasil se faz “[...]
sistematizando-os, de modo a constituir tanto um referencial para ações didático-pedagógicas
para o sistema educacional, quanto um referencial teórico, passível de subsidiar propostas
pedagógicas significativas para políticas educacionais” (UNIVERSIDADE ESTADUAL
PAULISTA, 2005, p. 4).
No contexto dos objetivos dos Núcleos de Ensino, “[...] trabalhar com os cursos de
graduação no desenvolvimento de práticas educacionais nas escolas de educação infantil,
ensino fundamental e ensino médio, visando à melhoria, em termos de competência do
profissional a ser formado pela Unesp” (UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA, 2005,
p. 3), é o grande diferencial a ser destacado.
Através desse Programa, a Reitoria da UNESP buscou incentivar e aprimorar o ensino
público e gratuito de excelência, com vistas a qualificar seus alunos e prepará-los para o
exercício da profissão. Para alcançar esta meta, buscou-se o comprometimento deste
programa com ações em Educação Ambiental que demonstrassem preocupação com o
(re)equilíbrio do planeta, visando minimizar a degradação ambiental e ao mesmo tempo
buscar a sustentabilidade dos ecossistemas através da conscientização do cidadão em seu
papel crítico.
Com este caminho a ser trilhado, o primeiro passo foi a seleção e análise dos Projetos
apresentados ao Programa do Núcleo de Ensino da Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD)
da UNESP, e para isto foi necessário fazer uma pesquisa documental no acervo da
Coordenação do Programa Núcleo de Ensino. Assim teve início a leitura, interpretação e
análise dos projetos, visando um olhar qualitativo e não só quantitativo dos assuntos
abordados.
Do ponto de vista da abordagem do problema, a pesquisa classifica-se como
qualitativa. Silva e Menezes (2001, p. 20) citam que a pesquisa qualitativa “[...] considera que
tudo pode ser quantificável, o que significa traduzir em números opiniões e informações para
classificá-los e analisá-los.”

232
Conforme Oliveira (1999, p. 116), a abordagem qualitativa “[...] difere do quantitativo
pelo fato de não empregar dados estatísticos como centro do processo de análise de um
problema.”

Discussão e Resultado da Análise Documental

Com a criação dos Polos Regionais do Núcleo de Ensino da UNESP, em 1987, os


primeiros câmpus a aderirem foram: Araraquara, Botucatu, Franca, Jaboticabal, Rio Claro e
São Paulo. Com o intuito de conhecer o histórico de atuação do Núcleo de Ensino na área da
Educação Ambiental foi realizada uma busca nos registros arquivados na PROGRAD, junto
ao Programa do Núcleo de Ensino.
Hoje, a UNESP conta com dezessete polos espalhados pelos câmpus de Araraquara,
Assis, Bauru, Botucatu, Franca, Guaratinguetá, Ilha Solteira, Jaboticabal, Marília, Ourinhos,
Presidente Prudente, Registro, Rio Claro, Rosana, São José do Rio Preto, São Vicente e São
Paulo.
Nestes câmpus da UNESP atuam os Núcleos de Ensino, em parceria com as Diretorias
Regionais de Ensino da Secretaria de Estado da Educação e as Secretarias Municipais de
Educação, que, trabalhando conjuntamente, possibilitam o desenvolvimento de projetos que
têm sobre sua coordenação geral um professor universitário responsável pela gestão local dos
trabalhos apresentados no câmpus. Sob sua coordenação estão engajados professores
universitários responsáveis pela coordenação dos projetos, alunos universitários bolsistas que,
conjuntamente com as escolas (professores da escola pública) e instituições parceiras, são
responsáveis pela implantação dos projetos.

Os projetos, em geral, propiciam a produção de artigos científicos, de material


didático e de outros aplicativos com diversas formas de abordagem, tendo como
objetivo prioritário a melhoria do ambiente de ensino. (PINHO; OLIVEIRA;
SAGLIETTI, 2010, p. 65).

As pesquisas mostraram que no ambiente do Núcleo de Ensino foram desenvolvidos


projetos que demonstraram preocupação em elaborar materiais didáticos como subsídios aos
temas de Educação Ambiental. Salete Souza (2007, p. 111), reafirma esta importância quando diz
que:

233
[...] utilizar recursos didáticos no processo de ensino- aprendizagem é importante
para que o aluno assimile o conteúdo trabalhado, desenvolvendo sua criatividade,
coordenação motora e habilidade de manusear objetos diversos que poderão ser
utilizados pelo professor na aplicação de suas aulas. [...] Recurso didático é todo
material utilizado como auxílio no ensino-aprendizagem do conteúdo proposto para
ser aplicado, pelo professor, a seus alunos.

Maurício Santos (2014) define material didático como um processo que inclui toda a
organização do plano de aula que irá culminar em ações de construção pedagógica, visando
facilitar o aprendizado. Na sua opinião:

[...] na sala de aula o professor necessita de muita criatividade para criar um canal de
comunicação com os alunos, todo recurso à sua disposição pode e vai ser utilizado,
mas o material didático a nosso ver necessita ser mais elaborado. Assim
consideramos material didático não só o recurso disponível, mas também a proposta
didática do professor, pois muitas vezes desvinculamos o recurso do uso. Ao
trabalharmos a ideia de produção de material didático levamos em conta um
processo de pesquisa onde o professor elabora ou organiza recursos didáticos de
forma a atender um objetivo especifico e ao mesmo tempo define os percursos a
serem seguidos na aula, o que costumamos chamar de sequência didática ou plano
de aula. (SANTOS, M. C., 2014, p. 5).

Com este enfoque mostrando a importância de se construir e utilizar material didático,


foi realizado um levantamento junto aos projetos que apresentaram viés em Educação
Ambiental, com a intenção de verificar a produção e contribuição dos mesmos na construção
de materiais didáticos visando um diferencial no ensino das escolas parceiras. O resultado foi
a catalogação de projetos que descreveram a produção de materiais didáticos ao longo do
período analisado.
Os dezessete câmpus parceiros do Núcleo de Ensino, durante 14 anos, foram
(re)apresentando, através de seus departamentos, projetos com viés em Educação Ambiental,
totalizando 83 participações, quando a análise recai em quantas vezes os câmpus participaram
em sua totalidade. Destes, em 47 câmpus houve a descrição da confecção e aplicação de
materiais didáticos, o que corresponde a 57% do total geral. Este índice indica que mais da
metade dos câmpus elencaram ações com práticas pedagógicas voltadas à confecção de
materiais didáticos quando descreveram as intervenções nas escolas parceiras.
O ano que acusou maior produção foi o de 2013, desenvolvendo grande variedade de
materiais didáticos, tais como: vídeos, maquetes, cartilhas, cartazes, exposições, jogos
didáticos, técnicas de pinturas, etc. Este ano foi seguido por 2014 e 2009. Nestes dois anos
citados a variedade de material proposto é descrita pelos seguintes itens: questionários,

234
maquetes, cartazes, exposições, jogos didáticos interativos, livros de apoio didático, material
audiovisual, estojos ambientais e construção de aparelhos científicos meteorológicos, etc.
É interessante assinalar que 2002, 2005 e 2015 foram os anos com menor produção de
material didático em todo o período estudado, com ausência no primeiro e 1 câmpus cada, nos
dois últimos. Mas, mesmo assim produziram vídeos didáticos, maquetes e jogos didáticos.
Outro dado a ser levantado é que em todos os anos houve a construção de maquetes, o que
transformou este material didático no mais produzido neste intervalo de 14 anos de estudo.
Segundo Lombardo e Castro (1997), a construção de maquetes proporciona um
aprendizado que estimula o olhar bidimensional (categorias: latitude e longitude) representado nos
mapas pelo relevo, para o tridimensional (categorias: latitude, longitude e altitude) proporcionado
pela representação das curvas de nível, o que possibilita construir a visada da paisagem como
vista do alto. Conforme o autor salienta, o aprendizado vai do concreto para o abstrato,
possibilitando a construção da base cartográfica que poderá ser complementada com os mais
variados usos e temas.
Este levantamento mostrou que a maioria dos projetos desenvolvidos nos Núcleos de
Ensino esteve ligada à concepção de que “[...] não basta conhecer o mundo (teórico), é preciso
transformá-lo (práxis)”. (PIMENTA, 2012 apud MELLO, M. C. O., 2012, p. 119). Podemos
destacar que há o reconhecimento de que a prática:

[...] é tida como verdade independente da teoria. Como sabemos, não há oposição
absoluta entre teoria e prática. Há uma relativa dependência entre teoria e prática, se
entendermos que a atividade prática exige ações que ainda não foram projetadas,
pensadas. Portanto, a teoria (projeto de uma prática inexistente) determina a prática
real e efetiva. E se por outro lado, a teoria ainda não está em relação com a prática
porque adianta-se a esta, essa relação poderá surgir posteriormente sob nova teoria e a
partir de nova prática. Assim, teoria e prática são indissociáveis. (MELLO, M. C. O.,
2012, p. 119).

Tendo em mente o roteiro proposto para análise, passou-se à etapa de classificação e


agrupamento dos projetos. Para isto, houve a preocupação de verificar em cada um dos 127
projetos com a temática em Educação Ambiental quantos eram identificados pelos seus
coordenadores como tendo o perfil nesta área. Isto trouxe a informação de que 95
coordenadores indicaram que seus projetos atendiam aos princípios da Educação Ambiental,
sendo enfáticos na categorização de enquadrá-los como projetos de Educação Ambiental.
Trinta e dois coordenadores classificaram seus projetos apenas utilizando termos que
expressavam o conjunto de ideias trabalhadas na Educação Ambiental, sendo elas: degradação
e conservação ambiental; biodiversidade, recuperação e preservação ambiental; problemas
235
ambientais; responsabilidade ambiental; degradação e desequilíbrio ambiental; impacto,
desequilíbrio e intervenção ambiental; intervenção na questão social e questão ambiental;
conservação e preservação do meio ambiente; preservação local e global. Todos eles
indicaram que trabalharam sob a ótica da retomada do equilíbrio dinâmico dos espaços
ambientais. Este enquadramento mostrou que 75% dos coordenadores foram incisivos em
afirmar que seus projetos são de Educação Ambiental e os outros 25% contextualizaram seus
projetos nos moldes da Educação Ambiental (Tabela 1).

Tabela 1 - Enquadramento do Perfil dos Projetos de Educação Ambiental pelos


Coordenadores (2002–2016)
ANO Definidos pelo Coordenador como Projetos que Expressam o Conjunto TOTAL DOS
Projetos de Educação Ambiental de Ideias Trabalhadas em Educação PROJETOS
Ambiental
2002 01 01
2003 04 04
2004 05 05
2005 03 02 05
2006 03 03 06
2007 10 10
2008 07 05 12
2009 09 03 12
2010 06 03 09
2011 10 02 12
2012 09 03 12
2013 08 02 10
2014 09 03 12
2015 04 02 06
2016 07 04 11
TOTAL 95 32 127
Fonte: A partir de documentos da Pró-Reitoria de Graduação (2002-2016). Elaborada por Analúcia Bueno dos
Reis Giometti.

Buscando uma melhor compreensão dos assuntos trabalhados no ambiente escolar


pelos coordenadores e alunos bolsistas, foi elaborado um quadro com os assuntos tratados e
desenvolvidos por ano de aplicação no Programa do Núcleo de Ensino da UNESP. Para a
confecção deste quadro foram elencados os principais temas abordados no ano de análise,
podendo um mesmo projeto desenvolver mais de uma temática ou a mesma temática ter sido
desenvolvida por mais de um projeto.
A finalidade principal desta informação é mostrar quais os assuntos de Educação
Ambiental foram mais tratados no ambiente do Núcleo de Ensino da UNESP. Interessante
observar que a relação de temas abrange uma quantidade restrita de assuntos socioambientais,
podendo afirmar que a grande maioria gira em torno de bacias hidrográficas, solos, biomas,
236
biodiversidade, noções de preservação e conservação do entorno da escola ou do município,
preocupação com o lixo e contaminação e tratamento da água.
Ao analisar os conteúdos propostos e trabalhados nos projetos, foi possível classificá-
los e agrupá-los segundo a temática abordada.
Neste viés, no primeiro grupo, intitulado “Revertendo a Poluição”, podem-se separar
os trabalhos que deram ênfase ao segmento lixo, mostrando a preocupação com a coleta e
destino dos resíduos sólidos urbanos e os impactos gerados no meio ambiente, provocando a
poluição da água e do solo com o descarte irregular. Houve preocupação em discutir a
poluição hídrica com o descarte dos resíduos in natura nas bacias hidrográficas, revelando a
necessidade de mudança de comportamento em relação a estes despejos. Houve grande
preocupação em evidenciar que há necessidade de tratamento da poluição por efluentes
sólidos e líquidos antes de serem lançados nos recursos hídricos e nos solos.
Num segundo agrupamento, caracterizado pelo título “Sustentabilidade Ambiental”,
estariam os projetos que trabalharam os conceitos de sustentabilidade ambiental e de como é a
relação do homem com seu meio ambiente. Muitos visaram à releitura do entorno da escola,
buscando despertar o interesse dos alunos para a compreensão da realidade local e global.
Procuraram dar destaque às práticas sustentáveis despertando o olhar dos alunos para os
problemas ambientais e, principalmente, os desastres e degradação ambiental.
O terceiro, reconhecido com o nome de “Equilíbrio Ambiental”, formado por
projetos que desenvolveram as temáticas: ecossistemas, biomas, paisagem natural, mostrando
preocupação com a diversidade biológica do planeta ou do local onde estava inserida a escola,
sempre dando ênfase à minimização dos impactos através da conscientização do cidadão,
levando-o a práticas educativas através da Educação Ambiental e estimulando mudanças de
comportamento.
Os assuntos tratados neste estudo mostraram uma grande preocupação com a
biodiversidade aquática e terrestre, principalmente brasileira, com destaque para a
biodiversidade do entorno das escolas localizadas nas proximidades de áreas de preservação
dos ecossistemas brasileiros presentes no estado de São Paulo. Os câmpus com localização
privilegiada em bacias hidrográficas importantes para o sistema hídrico do estado procuraram
destacar esta localização geográfica e seus habitats, realçando a presença de seres vivos que
precisam ser preservados para o equilíbrio ambiental. Neste grupo estariam os projetos com
viés ético e que buscam a construção da cidadania.

237
Uma quantidade bastante expressiva de projetos deu destaque à temática solo,
buscando conscientizar o cidadão sobre as práticas de preservação e conservação do meio
ambiente, com a finalidade de manter equilibrados os ecossistemas. A associação desta
temática com o elemento água e possíveis usos e utilizações do solo, buscando práticas
sustentáveis, caracteriza projetos que seriam enquadrados neste quarto agrupamento,
reconhecido como “Equilíbrio Dinâmico”.
Por fim, o quinto e último agrupamento, denominado “Construindo pontes
pedagógicas”, incluiria os projetos que buscaram contribuir com a formação e
conscientização dos professores em Educação Ambiental. Não foram esquecidas as temáticas
que envolveram trabalhos em empresas buscando despertar a responsabilidade socioambiental
e também aqueles cujos temas envolveram a legislação ambiental brasileira.
Com a inclusão da temática ambiental nos currículos escolares, através da Educação
Ambiental, abriu-se o precedente de que fica a critério do professor a aplicação e
desenvolvimento dos assuntos que envolvem a sustentabilidade ambiental.

Não há possibilidade de sucesso de um projeto de mudança se o professor se sentir


como agente passivo desse processo, sem qualquer controle sobre ele; é necessário
que a mudança se constitua por princípios coincidentes com os que o professor
esteja buscando. (TRIVELATO, 1994, p. 152).

Neste sentido, Trivelato (1994) levanta a discussão sobre a necessidade da tomada de


consciência e do conhecimento do professor sobre os problemas ambientais no momento de
encontrar soluções para reverter o desequilíbrio ambiental local e global e para desenvolver,
em sua disciplina, ações de cunho ambiental. Desse modo, a implantação da Educação
Ambiental depende do grau de conhecimento do professor sobre a temática ambiental; de seu
engajamento nos processos de reversão do desequilíbrio ambiental; da sua postura ética e da
abertura dos conteúdos a serem desenvolvidos em sala de aula.
O próximo passo foi o de analisar os conteúdos trabalhados pelos coordenadores dos
projetos com viés ambiental, por ano analisado.
Ao tomar conhecimento das ideias dos projetos, através dos seus objetivos e da
descrição detalhada das propostas de cada um dos 127 projetos em estudo, estabeleceu-se a
área de interesse a ser investigada, permitindo descrever com precisão o recorte dos assuntos
abordados e o viés metodológico que norteou os trabalhos, pois foram consideradas as
premissas gerais, e, como tal, o ponto de partida dos trabalhos a serem realizados nas escolas

238
parceiras. Com este estudo foi possível observar se os trabalhos abordavam o viés ambiental
na perspectiva crítica, contribuindo para a formação de um cidadão mais crítico e ativo.
A Educação Ambiental crítica se fundamenta em uma visão diferenciada, que traz
aspectos inovadores na (re)leitura da ação humana sobre a base natural. Com esta visão
epistemológica uma nova concepção entre natureza e sociedade é tecida através de uma
perspectiva educativa que leva em conta a visão holística da crise ambiental. Para reverter os
desequilíbrios ambientais decorrentes da ação humana vem se desenvolvendo esta proposta
transformadora, que visa à gestão equilibrada do meio ambiente, buscando atingir a
sustentabilidade ambiental.
Se os objetivos trabalhados não resultarem em ações ambientais que reflitam na
natureza uma harmonia com o homem em sua atuação individual e coletiva, visando sanar os
problemas atuais e futuros, não se pode considerar que houve Educação Ambiental nos
moldes críticos. Para atingir esta concepção a Carta de Belgrado enfatiza os objetivos a serem
alcançados: tomada de consciência na busca de soluções; difusão de conhecimento sobre o
meio ambiente despertando uma responsabilidade crítica; atitudes visando difusão de valores
sociais; aptidões para resolverem os problemas; capacidade de avaliação para saber qual o
melhor caminho a ser tomado; participação na busca da melhor solução para resolução dos
problemas (Carta de Belgrado) (SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO
AMBIENTAL, 1975).
Tendo em mente este viés, buscou-se nos projetos do Núcleo de Ensino os que
mostrassem este perfil. Dos 127 projetos analisados, 80 descreveram ações que os definiam
como projetos na perspectiva crítica, correspondendo a 63% do total geral de projetos. Desde
o ano de 2003 já apareciam projetos nesta perspectiva (2 projetos): 1°) A relação homem-
natureza: estimular o consumo consciente; 2°) Formar cidadãos que atuam conscientemente
na sociedade identificando problemas ambientais urbanos decorrentes das atividades
humanas, resgatando a memória ambiental do bairro, trabalhando os conceitos de reeducar,
reutilizar e reciclar.
No período de 14 anos de estudos verificou-se que os 47 projetos que não se
adequaram à visão crítica apresentaram características que os qualificaram com viés da
Educação Ambiental mais voltada para a análise do espaço geográfico local ou global,
preocupados em desenvolverem materiais didáticos ou mesmo fazerem leituras de um ou mais
elementos da paisagem natural ou cultural, sem, entretanto, se preocuparem em explicar ou

239
propor mudanças de atitudes, conscientização da reversão da degradação visando à
preservação da vida no planeta.
Estes projetos demonstraram, em suas ações, a preocupação em trabalhar o meio
ambiente num processo de descobertas, apontando a importância de conhecer o espaço natural
e humano. Os anos de 2007 e 2008 foram os que se destacaram como os de maior número de
projetos com viés de descrição dos elementos humanos e naturais num levantamento de suas
características, portanto, fora do debate crítico. Os assuntos tratados neste viés giraram em
torno da formação de monitores; da pesquisa-ação no ambiente do entorno da escola;
produção de materiais didáticos; mapeamento ambiental local; visita a parques; a utilização
do lúdico para a construção de conhecimento.
Numa análise comparativa entre a produção de projetos com viés crítico e de projetos
que não apresentaram este perfil, podemos elencar:
1. Maior número de projetos não críticos: 2002, 2004 e 2008;
2. Maior número de projetos críticos: 2005, 2006, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013,
2014 e 2016;
3. Igual número entre as duas correntes metodológicas: 2003, 2007 e 2015.

Considerações Finais

Percebeu-se, no decorrer do trabalho, que os discursos e discussões acerca das


dificuldades de encontrar soluções globais para as questões relacionadas à sustentabilidade e
ao meio ambiente têm acontecido de forma sistemática, buscando sempre aliar o
desenvolvimento das sociedades à prevenção de possíveis danos ambientais.
A maioria das soluções apontadas para que este desenvolvimento sustentável seja
viável recai sempre, em última instância, na Educação Ambiental. Esta vem adquirindo
importância no cenário nacional, através do aprimoramento de suas técnicas, da
implementação de políticas públicas e legislações mais efetivas, apontando sempre o educar
ambientalmente como solução, na medida em que nos traz novos pontos de vista para
questões e relações jurídicas.
Sem ignorar as vitórias já obtidas, ainda há muito por fazer pela Educação Ambiental. É
um processo lento e contínuo, que visa mudar atitudes há muito enraizadas, abrindo-se para um
novo paradigma, não só no discurso, mas também no processo de reflexão-ação sobre a trajetória

240
socioambiental. Acredita-se que é este o caminho que poderá levar a uma modificação no quadro
atual de degradação ambiental.
Conforme já dito, para ter efetividade o processo de educar ambientalmente tem que
partir da realidade encontrada, mas não prescindir da ética, do esforço, da solidariedade, da
liberdade. Ele afeta a totalidade da pessoa, objetiva desenvolver atitudes e competências
definidas como consciência, conhecimentos, atitudes, aptidões, capacidade de avaliação e de
ação crítica no mundo.
A Educação Ambiental é vista também como uma educação política, que tem o
objetivo de criar novos comportamentos nos seios das organizações e dos grupos sociais,
conquistando espaços, visando assim à formação da cidadania.
A característica educacional marcante da Educação Ambiental assenta-se na premissa de
que não se constitui uma única disciplina, mas se interconecta a todas as disciplinas, pois deve
abordar e interagir com a dinamicidade do meio ambiente socioeconômico, com suas
interligações éticas, culturais, espirituais, físicas e biológicas.
As diretrizes oriundas da Constituição Federal, da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação e ainda do decreto regulamentador da Política Nacional de Educação Ambiental nos
fornecem as bases para que a Educação Ambiental seja formalizada e efetivada.
A grande dificuldade, porém, ocorre na hora de se aplicarem os projetos de Educação
Ambiental nas escolas de Ensino Fundamental Ciclo I e II, e no Ensino Médio, onde os
professores têm dificuldade de trabalhar em equipes multiplurais. A grade de disciplinas é
estanque, seccionada, não permitindo que várias áreas do conhecimento desenvolvam, ao
mesmo tempo, trabalhos que permitam a compreensão da totalidade da paisagem geográfica,
o que dificulta a implementação dos projetos em Educação Ambiental. Diante desta realidade,
os projetos do Núcleo de Ensino que são desenvolvidos no viés da Educação Ambiental
procuram se adequar à realidade tanto das escolas parceiras como da própria Universidade,
que também não costuma desenvolver ações inter e multidisciplinares.
Tratar as questões socioambientais através da perspectiva transversal e por meio de
projetos individualizados e extracurriculares propicia a (re)leitura e a desconstrução da
estrutura educacional vigente, pois a temática ambiental é adaptada, descontínua e periférica
às exigências dos PCNs. Como consequência, sofre a resistência dos professores, que relutam
em debatê-la e transformá-la em uma prática permanente.
Enquadrando-se a temática ambiental Meio Ambiente como tema transversal abre-se a
possibilidade de trabalhar os conceitos em várias disciplinas e séries. Porém, encaixar este viés
241
dentro do sistema educacional tradicional, sequencial e conteudista dependerá exclusivamente do
professor em sua prática educacional, o que é um desafio para quem precisa ministrar os
conteúdos disciplinares incluídos no plano diretor da escola. Assim se formam várias frentes de
trabalho a serem administradas pelos docentes que têm dificuldades de lidar com este modelo
transversal e de assumir estas práticas pedagógicas num modelo efetivo e prioritário.
Desenvolver pesquisas nos moldes da pedagogia por projetos seria o ideal quando se
pensa nas questões ambientais. Por sua complexidade, porém, exige-se que não só uma área
de conhecimento aplique ações que visem trabalhar a sustentabilidade do planeta, mas sim um
conjunto de áreas, cada uma delas desenvolvendo projetos dentro de suas especificidades e
em parceria.
Caminhando nessa direção, a pesquisa analisou os conteúdos dos projetos
apresentados ao Programa Núcleo de Ensino da Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho” (UNESP), projetos estes que buscam intervir na realidade da escola parceira,
criando possibilidades de expansão do conhecimento para fora dos espaços escolares. Várias
foram as preocupações desta análise, em especial a de avaliar as temáticas apresentadas, com
a finalidade de separar e destacar apenas as referentes à Educação Ambiental.
Ao analisar estes conteúdos, constatou-se que a grande maioria visou temáticas
voltadas as práticas de conscientização, ações de preservação e reequilíbrio dos ecossistemas.
Com esta postura os projetos desenvolvidos alcançaram os objetivos da Educação Ambiental
elaborados na conferência de Tbilisi: consciência do meio ambiente; conhecimento sobre os
problemas; comportamento visando valores, interesse e preocupação com o meio ambiente;
habilidades para resolver problemas; participação das ações necessárias para atingirem os
objetivos de resolução de problemas.
Desta forma, buscou-se nos projetos do Núcleo de Ensino os que mostrassem este
perfil. Dos 127 projetos analisados, 80 descreveram ações que os definiam como projetos na
perspectiva crítica, correspondendo a 63% do total geral de projetos.
Os projetos trabalharam temas de relevância nas questões ambientais, sob a
responsabilidade do coordenador do projeto, pois é ele que define as ações que serão
trabalhadas pelos alunos bolsistas, colaboradores externos, comunidade escolar e professores
parceiros da universidade.
Em raras exceções os projetos desenvolvidos não foram estruturados a partir da
realidade e potencialidade da região onde a escola está inserida. Com este perfil, não se
perdeu a possibilidade de contextualizar o projeto e articulá-lo ao Projeto Educativo da
242
Escola, o que possibilitou a mobilização da comunidade escolar a trabalhar, segundo suas
áreas do conhecimento.
O papel do Núcleo de Ensino, de possibilitar a construção de uma educação cidadã,
conscientizadora, crítica, atuante e responsável pela construção de um presente com vistas a
um futuro socialmente justo e sustentável, que leve a uma transformação social e política,
com vistas a enfrentar e reverter as mudanças socioambientais contemporâneas apresentadas
no nosso dia a dia, é a meta esperada de uma atitude de reflexão crítica.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União,


Poder Executivo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 12 abr.
2014.

CENTRO DE ESTUDOS E CULTURAS DO MUNDO RURAL. Programa Núcleos de


Ensino da Unesp da Pró-Reitoria de Graduação – PROGRAD, Câmpus de São José do Rio
Preto. São José do Rio Preto, 2015. Disponível em:
<http://www.cecmundorural.com.br/?p=1084>. Acesso em: 10 maio 2016.

GIOMETTI, Analúcia Bueno dos Reis. Análise dos projetos desenvolvidos pelo núcleo de
ensino da Unesp, voltados para a educação ambiental (2002-2012). CONGRESSO
NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 11.; SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, 2.; SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE
PROFISSIONALIZAÇÃO DOCENTE, 4., 2013. Curitiba. Anais... Curitiba: Ed. PUCPR :
Champagnat, 2013.

MELLO, Márcia Cristina de Oliveira. Da teoria à prática do ensino de geografia. In:


GIOMETTI, Analúcia Bueno dos Reis (Org.). Caderno de formação: formação de
professores didática dos conteúdos. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012. (Curso de
Pedagogia).

MENDONÇA, Sueli Guadalupe de Lima; BARBOSA, Raquel Lazarini Leite; VIEIRA,


Noemi Ramos. Apresentação. In: ______.; ______.; ______. (Org.). Núcleos de ensino da
Unesp: memórias e trajetórias. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010.

OLIVEIRA, Silvio Luís de. Tratado de metodologia científica. São Paulo: Pioneira, 1999.

PINHO, Sheila Zambello de; OLIVEIRA, José Brás Barreto de; SAGLIETTI, José Roberto
Corrêa. A formação de professores e os Núcleos de Ensino da Unesp. In: MENDONÇA, Sueli
Guadalupe de Lima; BARBOSA, Raquel Lazarini Leite; VIEIRA, Noemi Ramos (Org.).
Núcleos de ensino da Unesp: memórias e trajetórias. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010.

243
SANTOS, Mauricio Caetano dos. A importância do material didático na prática docente. In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOGRÁFOS, 4., 2014. Vitória. Anais eletrônico...
Vitória: AGB, 2014. Disponível em:
<http://www.cbg2014.agb.org.br/resources/anais/1/1404098564_ARQUIVO_AImportanciada
ProducaodeMaterialDidaticonaPraticaDocente.pdf>. Acesso em: 2 set. 2016.

SAUVÉ, Lucie. Educação ambiental: possibilidades e limitações. Educação e Pesquisa, São


Paulo, v. 31, n. 2, p. 317-322, maio/ago. 2005.

SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL. Carta de Belgrado.


Belgrado, 1975. Disponível em:
<httphttp://www.mma.gov.br/port/sdi/ea/deds/pdfs/crt_belgrado.pdf>. Acesso em: 18 abr.
2016.

SILVA, Edna Lúcia da; MENEZES, Estera Muszkat. Metodologia da pesquisa e elaboração
de dissertação. Florianópolis: Ed. UFSC, 2001.

SOUZA, Salete Eduardo de. O uso de recursos didáticos no ensino escolar. Arquivos do
Mudi, Maringá, n. 11, supl. 2, p. 110-114, 2007. Disponível em:
<http://www.dma.ufv.br/downloads/MAT%20103/2015-II/slides/Rec%20Didaticos%20-
%20MAT%20103%20-%202015-II.pdf>. Acesso em: 13 jan. 2015.

TRIVELATO, Silvia Luzia Frateschi. Perspectiva para formação de professores. In:


ESCOLA DE VERAO DE PRATICA DE ENGENHARIA, FISICA, QUIMICA E
BIOLOGIA, 3., 1994, Serra Negra. Cadernos de Textos. São Paulo: FEUSP, 1994.

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA. Pró-Reitoria de Graduação. Normas


orientadoras dos núcleos de ensino. São Paulo: Ed. UNESP, 2005.

244
DETERMINANTES HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Andréa Aparecida da Silva Anitelli*


Analúcia Bueno dos Reis Giometti**

Resumo: O trabalho a seguir se trata de parte integrante da pesquisa teórica (correspondente


ao primeiro capítulo) realizada para a concretude da Dissertação de Mestrado de
responsabilidade da autora principal, sob orientação da professora em tela. Com vistas à
crescente degradação ambiental que permeia a realidade que vivenciamos, torna-se
indispensável a realização de pesquisas acadêmicas e de produções científicas que abordem
tais questões e as suas consequências, bem como possíveis maneiras de freá-las. Assim sendo,
compreende-se a necessidade e a importância da Educação Ambiental como ferramenta de
enfrentamento desta questão. Diante disto, o presente trabalho apresenta uma abordagem
histórica a respeito das mudanças ocorridas com o avançar dos anos no ambiente natural,
chamando a atenção para a influência negativa do homem (ser social) inserido neste contexto,
que por meio de suas ações, vem degenerando o planeta Terra, somado ao modo de produção
capitalista, principal responsável pela dominação e espoliação da natureza (e do próprio
homem); discorre brevemente a respeito dos movimentos ambientalistas, os quais foram
imprescindíveis para o início da Educação Ambiental, a qual tem se mostrado ampla e
complexa, dispondo de variados aspectos, mas que em seu aspecto crítico, tem sido a forma
mais pertinente de se trabalhar. À luz destes referenciais, finaliza-se com evidências acerca da
Educação Ambiental não formal, o espaço de atuação das ONG’S.

Palavras- chave: degradação ambiental. movimentos ambientalistas. educação ambiental.

*
Mestranda na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/Câmpus de Franca Membro do Grupo
GESTA.
**
Livre-Docente em Educação Ambiental pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Brasil
(2017). Profa. Dra. Livre Docente do quadro permanente da Pós-graduação em Serviço Social da Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/Câmpus de Franca - São Paulo/ Brasil.Membro do grupo GESTA.

245
Introdução

Smith (2011) faz uma projeção do mundo para 2050, nos levando a pensar que se a
deterioração ambiental continuar como está agora (e como vem ocorrendo ao longo dos anos),
não será apenas o clima que apresentará grande alteração, mas que a população humana e
todos os seres vivos também continuarão sofrendo as consequências desta exploração
desenfreada e impensada, algo que desembocará diretamente na escassez de recursos naturais.

Mas, afinal, para que nos damos ao trabalho de projetar 40 anos no futuro? Para
imaginar como seria o mundo em 2050, precisamos estudar de perto o que está
acontecendo hoje, e por quê. Forçando nossas mentes a adotar uma perspectiva
abrangente, podemos identificar fatores que poderiam parecer benéficos no curto
prazo, mas que geram consequências indesejáveis no longo prazo, e vice-versa.
Afinal, fazer coisas boas (ou pelo menos, coisas menos ruins) no longo prazo é um
objetivo válido. Eu certamente não acredito que o futuro seja predeterminado:
grande parte do que acontecerá ou não daqui a 40 anos depende das ações ou
inações que serão tomadas entre hoje e 2050. (SMITH, 2011, p. 7, grifo nosso).

Como é possível notar, o referido autor também nos apresenta a ideia da intervenção
humana (seja positiva ou negativa) no ambiente natural, dando indícios de que as ações
tomadas pelo homem podem modificar o meio ambiente. Diante disto, vivemos uma relação
de interdependência com a natureza, onde preservá-la, é sinônimo de preservar a vida
humana.
Stengers (2015)1, afirma que:

A mudança climática global deixou de ser uma previsão alarmista. A exploração


descontrolada dos recursos da Terra começa a mostrar sua dimensão trágica: secas,
inundações, envenenamento por pesticidas, poluição, desigualdades sociais
crescentes são problemas que já não podem ser tratados de forma isolada.

Neste sentido, a autora propõe uma reflexão “[...] diante da situação em que se
encontra a relação entre o homem e o mundo.” (STENGERS, 2015). Nos chama a atenção o
fato de que a relação homem-natureza tem se mostrado deficitária, influenciando diretamente
(e negativamente) na relação do homem consigo mesmo. Marx (1996a, p. 297), aponta que
“[a]o atuar, por meio desse movimento, sobre a [n]atureza externa a ele e ao modificá-la, ele
modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza”.

1
Informação retirada da orelha da obra.

246
Para a compreensão da atual crise ecológica, bem como do pensamento
contemporâneo a respeito da questão socioambiental, é imprescindível que se realize uma
breve análise de seus determinantes históricos, ensejada através do conhecimento
epistemológico acerca do estudo de fontes consagradas, no que tange aos registros sobre a
relação do homem com a natureza, fazendo um estudo sobre as modificações ocorridas e
construídas socialmente.

[...] simultaneamente ordem das coisas e hábito social, e toda mudança grave na
ordem humana é também uma alteração da natureza, pois em cada período da
história da humanidade forma-se um Weltanschauung2 da qual vão emergir as
diferentes representações, científica, estética e moral da Natureza. (Lenoble, 2002,
p.23 apud RAMOS, 2010, p.68).

É preciso estudar o passado para entender o presente e refletir sobre este período atual
(ações ou inações, como proposto por Smith) para possibilitar a imaginação do futuro. Para
tanto, será apresentada uma sucinta retrospectiva acerca das constantes mudanças na
concepção de natureza, ocorridas com o avançar dos anos. Será abordado como se deu o
processo de desvalorização da natureza, o qual culminou na atual crise ecológica,
comprometendo a sustentação das gerações futuras na Terra.

Para entender a natureza e a força das restrições estruturais prevalescentes, é


necessário comparar a ordem estabelecida do controle sociometabólico com os seus
antecedentes históricos [...] no que diz respeito ao intercâmbio produtivo dos seres
humanos com a natureza e entre si. (MÉSZÁROS, 2011, p. 96, grifo nosso).

Conceber a forma como a concepção de natureza foi se modificando com o avançar da


raça humana, nos permitirá entender porque hoje a mesma (a natureza) é vista como algo
dissociado dos seres humanos.
No primeiro período da filosofia grega (período pré-socrático), é possível notar que a
natureza era vista como objeto de contemplação e parte integrante do ser, sendo assim,
entendida como a própria existência humana, logo, preservada pela população da época.

Sem examinar em detalhes cada uma das teorias desenvolvidas [...], pode-se dizer,
esquematicamente, que elas se aproximam na tentativa de reconhecer e reunir a
pluralidade do Universo através de elementos ou substâncias arquetípicas: o ar, a

2
Weltanschauung é um substantivo feminino composto de duas palavras alemãs: Welt – mundo, e Anschauung –
concepção, percepção, intuição. Weltanschauungen é sua forma plural. As diversas traduções do conceito são
cosmovisão, biocosmovisão, concepção de mundo, mundividência, visão de mundo e percepção de mundo,
dentre outras possíveis em português, e as já bem conhecidas worldview e life-worldview, em inglês.
(OLIVEIRA, 2008, p. 33).
247
água, a terra, o fogo. Tais elementos davam origem aos fenômenos naturais,
formavam os diferentes seres e toda a multiplicidade da natureza.
Uma característica do período em questão é que o conhecimento produzido não
visava à transformação da natureza, mas sim, ao alcance de uma espécie de
saber contemplativo, no sentido de criar harmonia dos homens com a physis, ou de
descobrir as regras que ela ditava aos homens. (RAMOS, 2010, p. 73 grifo nosso).

De acordo com Bornheim (1985, p. 17 -18):

Sabe-se que a primeira tentativa de pensar racionalmente a natureza, considerada de


início como a totalidade de tudo o que existe, deveu-se aos filósofos pré-socráticos
[...] A questão toda se concentra, portanto, no modo como a natureza se faz presente
para o homem; ou melhor; no modo como o homem torna a natureza presente.
À physis pertencem o céu e a terra, a pedra e a planta, o animal e o homem, o
acontecer humano como obra do homem e dos deuses e, sobretudo, pertencem à
physis os próprios deuses. [...] Estas parecem ser as notas fundamentais da physis,
possibilitadoras da “física” pré-socrática. Pensando a physis, o filósofo pré-socrático
pensa o ser, e a partir da physis pode então aceder a uma compreensão da totalidade
do real: do cosmos, dos deuses e das coisas particulares, do homem e da verdade, do
movimento e da mudança, do animado e do inanimado, do comportamento humano
e da sabedoria, da política e da justiça.

Porém, com o avançar dos séculos, a dicotomia entre homem e natureza foi se
acentuando e no início do século XVII, o meio ambiente passou a ser visto apenas como
matéria. Ao se consolidar o surgimento da razão e da ciência neste século, adota-se uma nova
visão do espaço natural: ele passa a ser mecanicista e funcional.
A paisagem natural e a paisagem antrópica passam a compor dois aspectos
diferenciados e dicotômicos na análise proposta pelo homem, que se distancia cada vez mais
da natureza, colocando em evidência a ciência, que avança rapidamente e passa a explicar
todos os fenômenos que ocorrem na paisagem geográfica.

Tendo cedido em sua autonomia, a razão tornou-se um instrumento. No aspecto


formalista da razão subjetiva, sublinhada pelo positivismo, enfatiza-se a sua não-
referência a um conteúdo objetivo; em seu aspecto instrumental, sublinhado pelo
pragmatismo, enfatiza-se a sua submissão a conteúdos heterônomos. A razão tornou-
se algo inteiramente aproveitado no processo social. Seu calor operacional, seu papel
de domínio dos homens e da natureza tornou-se o único critério para avaliá-la.
(HORKHEIMER, 2002, p. 29 apud ROSA, 2015, p. 20).

Já no século XVIII, incide a Revolução Industrial, reputada, por diversos autores,


como o acontecimento de maior influência para a degradação ambiental, devido à sua
associação ao início do modo de produção capitalista.

248
Com o grande avanço da ciência e sendo cada vez maior a valorização da razão neste
século, o Iluminismo surge com a ideia de tornar a natureza útil ao homem, por meio da “[...]
grande transformação [d]a capacidade produtiva humana.” (DIAS, 2011, p. 5),
compreendendo que este último seria capaz de “construir”, ele mesmo, a civilização.
No início do século XX, a teoria crítica de Adorno e Horkheimer afirma que o desejo
despertado no homem de dominar o espaço natural, vem de sua necessidade de soberania
sobre os elementos naturais, os quais são vistos como simples objetos de espoliação. Para tais
pensadores, a divisão entre sujeito e objeto é fator determinante para que se distancie o ser
humano da natureza, pois esta é subjugada aos desígnios humanos, que por meio da técnica
atinge os objetivos propostos na sua apropriação dos fatores naturais.
Sobremodo, podemos depreender o século XX como o século da “coisificação” da
natureza e também das pessoas, pois em seu bojo, incide até mesmo o homem, que com o
processo de expansão capitalista a todo vapor, passa a ser apenas mais um objeto.

Essa lógica de produção capitalista, onde tempo é dinheiro - “Time is Money” termo
advindo da produção fabril em massa, com a invenção da produção em série, das
esteiras, do tempo cronometrado e do controle na chegada e saída dos funcionários
(o afamado bater cartão), implantados respectivamente através do Taylorismo,
Fordismo e do Toyotismo – (além do desrespeito aos Direitos Humanos, com
maior índice de acidentes de trabalho, devido tamanha exploração dos
trabalhadores), traz consigo o desrespeito total aos recursos naturais, agredindo-os e
destruindo-os, de forma completamente insustentável. (SILVA; TROMBETA, 2011,
p. 23, itálico, grifo do autor; negrito, grifo nosso).

Há então a total desvalorização do sujeito, onde, além de dominar a natureza, o


homem passa a dominar o próprio homem. Para Francisco (2015, p. 37, grifo nosso):

O ambiente humado e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos


enfrentar adequadamente a degradação ambiental, se não prestarmos atenção às
causas que têm a ver com a degradação humana e social. De facto, a deterioração
do meio ambiente e a da sociedade afectam de modo especial os mais frágeis do
planeta.

Diante do texto apresentado até o momento, percebe-se que até este período, os bens
naturais eram vistos como fonte inesgotável e a degradação ambiental era analisada dentro de
uma escala local, porém, a multiplicação dos fenômenos ambientais destrutivos causados
pelas atividades antrópicas, tais como: o aquecimento e a acidez das águas oceânicas; a
degradação e desertificação dos solos; a escassez da água potável; a poluição do ar; e talvez o

249
mais preocupante deles, o aquecimento global, fenômeno este responsável pelo aumento da
temperatura do planeta que habitamos, ocasionando, impreterivelmente, o derretimento das
geleiras e o aumento do nível do mar, acarretaram cada vez mais alterações em cadeia que,
como consequência, passaram a afetar a qualidade de vida de todos os habitantes do planeta
Terra e ganharam repercussão mundial.
Nota-se desta forma a necessidade de mudança do paradigma vigente da época, pois
“[e]m escala mundial, [havia] a confirmação sobre as mudanças ambientais, principalmente a
partir do aumento significativo dos desastres ambientais” (SILVA, 2016, p. 27). Para
Giometti et al. (2010, p. 97):

[...] este acréscimo ocorre com vistas a manter o atual estágio de desenvolvimento
técnico-científico da sociedade contemporânea, ávida do consumismo e inebriada
pela melhoria de suas condições materiais de existência. Destarte, o meio natural
tem-se ressentido de tal demanda e corriqueiramente vem demonstrando as suas
contrariedades frente às intervenções antrópicas.

É dentro deste contexto que surgem os movimentos ambientalistas3.

Quadro 1- Síntese dos Movimentos Ambientalistas


Ano Acontecimento Descrição
Grupo formado a partir da união entre pessoas influentes, foi o primeiro
a preocupar-se com a degradação ambiental e a discutir o uso dos
1968 Clube de Roma recursos naturais para o crescimento econômico.
Com repercussão mais ampla e a participação de 113 países, é
1972 Conferência de considerada um marco político e acontecimento histórico de âmbito
Estocolmo mundial; propôs o conceito de Ecodesenvolvimento.
Propôs nova ética planetária e o Encontro Internacional em Educação
1975 Congresso de Ambiental. Primeiro a apontar a necessidade de uma educação
Belgrado ambiental.
Evento revolucionário para a Educação Ambiental, estabeleceu seus
1977 Conferência de princípios orientadores e seu caráter interdisciplinar, crítico, ético e
Tbilisi transformador.

Ano Acontecimento Descrição


1987 Relatório Definiu e difundiu o conceito de desenvolvimento sustentável.
Brundtland
Consolidou as deliberações defendidas até o momento e elaborou a
Carta da Terra (aprovada e publicada no ano 2000), a qual aponta
desafios futuros para a raça humana, com princípios fundamentais para
1992 ECO 92 uma sociedade mais justa, sustentável e pacífica; e a Agenda 21,
documento que trata das mudanças para com o meio natural e da
atuação das ONG’s (dentre outros) na educação ambiental.
Documento que objetivou a diminuição (5,2% entre os anos de 2008 e
1997 Protocolo de 2012), de gases poluentes causadores do efeito estufa e consequente

3
Acerca dos movimentos ambientalistas, vale salientar que “Ambientalismo é o conjunto de ações teóricas e
práticas visando à preservação do meio ambiente.” (MONTIBELLER-FILHO, 1999, p. 13).

250
Kyoto aumento do aquecimento global.
Avaliou os progressos e as falhas existentes na implementação e nos
2012 Rio + 20 resultados dos principais encontros já realizados sobre o
desenvolvimento sustentável.
Fonte: Elaborado por Andréa Aparecida da Silva Anitelli (2017).

OBJETIVOS

Objetivo geral
Propor discussões acerca da Educação Ambiental enquanto política pública de
enfrentamento da degradação do meio ambiente.

Objetivos específicos
 Apresentar, por meio de uma abordagem histórica, as transformações ocorridas no
ambiente natural;
 Discorrer sobre os movimentos ambientalistas que levaram ao surgimento da
Educação Ambiental;
 Evidenciar a Educação Ambiental não formal – a atuação das ONG’s.

Metodologia

O presente trabalho possui caráter teórico e para a sua concretude utilizou-se da leitura
e análise de um referencial a respeito da temática ambiental, o qual foi composto por
substancial pesquisa bibliográfica, eletrônica e documental, sendo estas de natureza
qualitativa e exploratória.
A pesquisa pautou-se no método materialismo histórico dialético, uma vez que
buscou-se por uma compreensão diferente e crítica da realidade vivenciada, problematizando
as contradições às quais somos submetidos cotidianamente.

Discussão Teórica

Contexto histórico e vertentes da Educação Ambiental


Através do quadro apresentado nas páginas seis e sete, é possível notar que todos os
movimentos ambientalistas ocorridos desde meados da década de 1960, desembocaram na

251
Educação Ambiental (EA), tendo esta a sua história intrinsecamente ligada à história de tais
movimentos.
Para Duailibi e Araújo, (2004, p. 3), levou um tempo para que uma das possibilidades
de enfrentamento aos problemas ocasionados pela utilização dos recursos naturais fosse
associada às mudanças comportamentais, logo, vistas como um caso educacional. Sendo
assim, “[s]ó em 1965, foi utilizada pela primeira vez, a expressão ‘Educação Ambiental’
(Environmental Education), durante a ‘Conferência de Educação’, da Universidade de Keele,
na Grã – Bretanha.” No entanto, esta expressão foi definida apenas no ano de 1977, durante a
Conferência de Tbilisi:

“Uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação, orientada para a


resolução dos problemas concretos do meio ambiente, através de enfoques
multidisciplinares e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da
coletividade.” (DUAILIBI e ARAÚJO, 2004, p. 8).

Porém, atualmente não há apenas um conceito quando se fala em EA, pois alguns autores
vêm se debruçando em estudos relacionados ao tema e classificando-o de formas
diferenciadas de acordo com a maneira como é trabalhado. Sendo assim:

Guimarães (2004) classifica em duas, as vertentes dentro da educação ambiental, a


educação ambiental tradicional (por vezes chamada também de conservadora), que
segundo o mesmo autor defini-se por ser hegemônica, e possuidora de uma visão
mecanicista da ciência, simplificadora dos fenômenos complexos da realidade, além
de não poder ou não querer revelar as relações de poder que estruturam a sociedade
atual (luta de classes, relações de gênero, identidade, minorias étnicas e cultuais,
relação norte-sul). Na concepção de Guimarães, esta educação ambiental tradicional,
não tem potencial de alavancar as mudanças necessárias para a superação da atual
crise socioambiental. Ele define então a educação ambiental crítica como contra-
hegemônica, com a característica de ser interdisciplinar relacionada com a teoria da
complexidade e com o objetivo de desvelar as relações de dominação que
constituem a atual sociedade, sendo esta, uma proposta que pode e deve fazer um
contraponto em relação ao que vem sendo realizado como o que identificamos como
sendo a educação ambiental conservadora. (GUIMARÃES, 2004 apud DIAS, 2012,
grifo nosso).

De acordo com Lima, foi entre os anos de 1980 e 1992, que se constituiu a ideia de que
degradação ambiental e crescimento econômico estavam indissociados.

[...] foi nesse período, de meados da década de 1980 até a Rio 92, que se gestou e
ganhou importância o discurso de DS4, fruto do aprofundamento e cruzamento da
crise ambiental. Significa dizer [...] que amadurecia a consciência de que os
problemas do crescimento econômico e da degradação ambiental não eram

4
Desenvolvimento Sustentável.
252
diferentes nem concorrentes, mas simplesmente causa e efeito de uma mesma e
inseparável equação. (LIMA, 2009, p. 157).

Destarte, e visto que somos parte de uma sociedade capitalista, a tendência é de que
tal degradação aumente cada vez mais, portanto, para Tonet ( 2015, p. 489, grifo nosso):

O agravamento dos problemas ambientais trouxe à tona muitas preocupações. Em


pouco tempo organizaram-se campanhas publicitárias, estudos, congressos, eventos
promovidos por governos e propostas de enfrentamento desses problemas. Entre
estas ações também está a proposta de educação ambiental. Tanto fora como
dentro da escola.

Consequentemente, para melhor se aplicar ações de proteção ao meio ambiente, é


necessário conhecer e compreender alguns conceitos da EA, antes de praticá-los.
Para Machado (2013), a EA se trata da relação entre ser humano e meio ambiente e
partindo deste pressuposto, há a possibilidade da existência de três vertentes:

 Perspectiva ambiental: problematiza a degradação ambiental e a sua implicação para


a manutenção da vida no planeta. Foca na prevenção dos problemas ambientais.
 Perspectiva educativa: problematiza as ações antrópicas. Foca na mudança de valores
e de postura do homem para com a natureza.
 Perspectiva pedagógica: problematiza a educação em si. Foca em diferentes modos
de educar e ensinar, objetivando a resolução dos problemas ambientais.

Pautando-se em Lima (2009), pode-se afirmar que a EA foi estabelecida no Brasil a


datar das décadas de 1970 e 1980, compreendida como setor político e pedagógico
diversificado, a qual contou com numerosas contribuições, fossem elas de caráter filosófico,
científico, ou de movimentos sociais.

No caso brasileiro, foram, sobretudo, decisivas no primeiro momento de sua


constituição, as pressões dos organismos internacionais sobre o governo para
instituir órgãos e políticas públicas ambientais, a ação da sociedade civil por meio
dos movimentos sociais e das ONGs e as iniciativas pontuais e pioneiras de escolas
e educadores inspirados por essa motivação renovadora. (LIMA, 2009, p. 149).

O autor ainda apresenta uma abordagem sócio-histórica sobre os momentos que


antecederam a EA e os momentos em que ela se constituiu:

253
Do ponto de vista político e institucional, o país vivia um período autoritário que se
iniciara com o Golpe Militar de 1964 e só retornaria ao estado democrático de
direito com a eleição indireta de um presidente civil em 1985, por meio da coalizão
formada em torno da candidatura Tancredo Neves. Nesse clima de liberdades
restritas, tanto a crítica e o debate político não prosperavam como a própria
abordagem da questão ambiental sofria influências conservadoras. Isso porque a
questão ambiental se desenvolvia e subordinava a uma orientação maior de governo
de perfil desenvolvimentista, tecnocrático e autoritário, que demarcava claramente o
sentido e os limites do que era possível avançar nessa área [...] a EA brasileira, em
seus primórdios, foi orientada por uma visão hegemônica de perfil conservacionista,
tecnicista, conservadora e apolítica. (LIMA, 2009, p. 149).

Ficando claro que a EA é um ato político, é necessário primeiramente compreender o


poder do Estado e da Política, para a partir de então, propor uma mudança, uma vez que “O
foco de uma educação dentro do novo paradigma ambiental tenderia a compreender, para
além de um ecossistema natural, um espaço de relações socioambientais historicamente
configurado” (CARVALHO, 2001, p. 45).
Tendo em mente que a EA se trata, basicamente, de um instrumento de transformação
da realidade social, iremos agora nos aprofundar e diferenciar a EA comportamental e a EA
crítica, como também será possível visualizar que estas possuem diversas outras
nomenclaturas.
A EA apresentada como comportamental por Layrargues, e como corrente
conservacionista ou recursista por Sauvé, também é conhecida como EA convencional ou
tradicional, e é duramente criticada por estes autores, uma vez que apenas reproduz uma ideia
de meio ambiente saudável, mas não transforma o indivíduo para a prática. Assim, a EA
conservadora foca no efeito da degradação ambiental, não em sua causa, além de culpabilizar
o indivíduo pelas transformações ocorridas no meio natural, sem pensar o sistema político no
qual está inserida.
A tendência é de que grandes empresas e o poder público adotem o discurso da EA
conservadora, pois, desta forma, se mostram “politicamente corretos” e “preocupados” com
os impactos que suas atividades causam ao meio ambiente, o que é, na verdade, uma grande
falácia, uma vez que tais corporações apenas visam o lucro, sem pensarem no fator humano e
no impacto negativo causado na vida das pessoas.
Entrando na concepção de educação ambiental crítica, Layrargues e Lima, 2011,
definem que:

A educação ambiental crítica, tipicamente brasileira, surge da educação popular de


Paulo Freire e da pedagogia crítica, que tem seu ponto de partida na teoria crítica
marxista e neomarxista de interpretação da realidade social. Associa também

254
discussões trazidas pela ecologia política que insere a dimensão social nas questões
ambientais, passando essas a serem trabalhadas como questões socioambientais.
(LAYRARGUES; LIMA, 2011 apud DIAS, 2012).

Para Carvalho (2001), uma EA transformadora, de fato, vai além de enxergar o meio
natural como simples fator biológico. Na EA de caráter transformador, busca-se pela
compreensão da totalidade do ambiente socialmente construído, enxergando e interagindo as
bases naturais e sociais, com as suas manifestações sociais, políticas e culturais, como parte
de um todo complexo, daí, o socioambiental.
Na EA popular, a qual possui caráter crítico, o ser humano não é visto apenas como
indivíduo dissociado da vida em sociedade, mas sim como um ser completo, que está em
constante relação com outros seres, ou seja, um ser social.

Educação Ambiental não formal - a atuação das ONG’s

Antes de nos debruçarmos a respeito da EA não formal, faz-se necessário um breve


esclarecimento a respeito da EA formal. EA formal é aquela desenvolvida nas escolas, sejam
públicas ou particulares, como um dos eixos transversais dos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCN’s).

O conjunto de documentos dos Temas Transversais comporta uma primeira parte em


que se discute a sua necessidade para que a escola possa cumprir sua função social,
os valores mais gerais e unificadores que definem todo o posicionamento relativo às
questões que são tratadas nos temas, a justificativa e a conceitualização do
tratamento transversal para os temas sociais e um documento específico para cada
tema: Ética, Saúde, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual,
eleitos por envolverem problemáticas sociais atuais e urgentes, consideradas de
abrangência nacional e até mesmo de caráter universal. (BRASIL, 1997, p. 45, grifo
nosso).

Já a EA não formal, é definida pela Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA),


Lei 9.795/1999, artigo 13, como “as ações e práticas educativas voltadas à sensibilização da
coletividade sobre as questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da
qualidade do meio ambiente”. Ressalta-se que esta lei possibilitou a implementação da EA em
seu aspecto não – formal, ou seja, fora do âmbito escolar, o qual é comumente ocupado pelas
ONG’s, devido a sua maior proximidade com a comunidade, com vistas ao trabalho
socioambiental. Lima, 2009, p. 156, aponta que:
Destacada no quadro da página sete, a atuação das Organizações Não Governamentais
(ONG’s), teve seu fortalecimento marcado pela ECO 92.
255
Um importante momento para o fortalecimento das ONGs foi o ano de 1992, quando,
paralelamente à RIO 92, realizou-se o FÓRUM GLOBAL, um significativo evento onde a
participação da sociedade civil foi altamente expressiva, reunindo milhares de ativistas de
todo o Planeta, em uma grande tenda armada na cidade do Rio de Janeiro.

Este evento assinalou o avanço da sociedade civil organizada e sua preocupação


com as questões ambientais, sobretudo pela ampla participação de entidades de
diferentes naturezas, como universidades, organizações sindicais, associações
comunitárias, ongs, de todo o mundo, que ali defenderam conjuntamente seu direito
de ter voz nas decisões governamentais cujas implicações interferem no cotidiano de
cada um dos humanos e na construção do futuro da humanidade. (DUAILIBI e
ARAÚJO, 2004, p. 12).

Mesmo com o destaque obtido após a RIO 92, a atuação das ONG’s possui, ainda nos
dias atuais, pouca visibilidade.

Considerações Finais

Pode-se concluir que o maior desafio da prática da EA (seja ela em seu campo formal
ou não-formal), é torná-la, além de uma atividade educacional, uma discussão política,
momento este em que não mais precisará ser denominada de EA. Conforme apontado por
Smith, no início deste trabalho, para que a EA possa “surtir efeito”, não bastam simples
palestras, é preciso ação por parte de todos.
Layrargues (2002) e Tonet (2015) vão além de sugestões de práticas educacionais e
compartilham do pensamento de que é necessário transformar a sociedade, como um todo (no
que tange ao sistema político vigente), para proteger a natureza, uma vez que acreditam que
apenas reformar o pensamento dos cidadãos, não será o suficiente. Partindo deste princípio,
Tonet (2015, p. 487,488), aponta que:

Ora, a transformação da natureza é a principal fonte de produção de mercadorias e,


portanto, de acumulação de capital. Nada pode impedir que o capital transforme a
natureza em mercadorias uma vez que a busca do lucro é a sua lei suprema. Além
disso, é da essência do capitalismo a concorrência dos capitalistas entre si na busca
do lucro.
Esta lógica perversa resulta, necessariamente, no esgotamento dos recursos naturais,
na devastação indiscriminada da natureza e nas mil formas de agressão e destruição
da própria vida humana. Independente de boas intenções de indivíduos, de grupos
sociais, de empresas e/ou de governos, as leis do capitalismo continuam a reger a
256
vida humana enquanto existir esta forma de sociabilidade. É uma enorme ilusão
pensar que se pode humanizar o capital, pois humanizá-lo significaria obrigar os
capitalistas a produzir tendo em vista a satisfação das necessidades humanas e não o
lucro.

Ou seja, a EA é apenas o pontapé inicial para uma transformação societária, que


permite uma mudança paulatina nos pensamentos e valores da sociedade civil, visando o
cumprimento de um objetivo maior: diminuir o poder do capital.

REFERÊNCIAS

BORNHEIM, G. A. Filosofia e Política Ecológica. Revista Filosófica Brasileira, v. 1, n.2,


dezembro de 1985, p. 17-24.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais:


introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. –
Brasília: MEC/SEF, 1997. 126p.

______. Lei n. 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a
Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Poder Legislativo, Brasília, DF, 28 abr. 1999. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9795.htm>. Acesso em: 11 abr. 2017.

CARVALHO, H. F.; FERNANDES, N. B. G.; LOPES, A.F. Educação Ambiental: Uma


Abordagem das Correntes de Sauvé. Disponível em: <http://www.itr.ufrrj.br/sigabi/wp-
content/uploads/5_sigabi/Sumarizado/61%20-
%20EDUCA%C3%87%C3%83O%20AMBIENTAL%20UMA%20ABORDAGEM%20DAS
%20CORRENTES%20DE%20SAUV%C3%89.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2017.

CARVALHO, I. C. M. Qual educação ambiental? Elementos para um debate sobre


educação ambiental e extensão rural. Agroecol. E Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.2,
n.2, abr./jun. 2001.

DIAS, M. R. A Atuação do Assistente Social como Educador Ambiental nos Projetos de


Trabalho Técnico Social (PTTS). 2012. 126 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) -
Faculdade de Ciências Humanas e Sociais Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho”, Franca, 2012.

DIAS, R. Gestão ambiental: Responsabilidade Social e Sustentabilidade. 2. ed. São Paulo:


Atlas, 2011.

257
DUAILIBI, M.; ARAIJO, L. Oficina de educação ambiental para gestão, São Paulo;
FEHIDRO/SMA, 2004.

FRANCISCO (Papa). Carta Encíclica: Sobre o Cuidado da Casa Comum. Roma, 2015.
Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco /pt/encyclicals/documents/papa-
francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html>. Acesso em: 12 fev. 2017.

GIOMETTI, A.B.R. et al. Prática e método de ensino para o conteúdo diferenciado a respeito
do aquecimento global. In: ______.; FONSECA G.A.; SILVA, M. P. (Org.). Ensino e
práticas pedagógicas: a proposta do Núcleo de Ensino da UNESP Franca. Franca: Ed.
UNESP/FCHS, 2010.

LIMA, G. F. C. Educação ambiental crítica: do socioambientalismo às sociedades


sustentáveis. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 35, n.1, p. 145-163, jan./abr. 2009.

MACHADO, G. B. Conceitos da Educação Ambiental. Disponível em:


<http://www.portalresiduossolidos.com/conceitos-da-educacao-ambiental/>. Acesso em: 12
abr. 2017.

MARX, K. O capital. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova
Cultural, 1996a. L. 1. T. 1.

MÉSZÁROS, I. Para além do capital: rumo a uma teoria de transição. Tradução de Paulo
Cezar Castanheira e Sérgio Lessa. São Paulo: Boitempo, 2011.

MONTIBELLER-FILHO, G. O mito do desenvolvimento sustentável. Florianópolis: Ed.


UFSC, 1999.

RAMOS, E. C. O processo de constituição das concepções de natureza. Uma contribuição


para o debate na educação ambiental. Ambiente e Educação v. 15, n. 1 (2010).

ROSA, B. O. As vozes e as visões dos catadores de materiais recicláveis sobre o meio


ambiente. 2015. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Faculdade de Ciências
Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2015.

SILVA, A. A. ; TROMBETA, I. Serviço Social e Meio Ambiente: preservação ambiental e


qualidade de vida na sabesp do município de Franca/SP. 2011. 101 f. Trabalho de Conclusão
de Curso (Graduação em Serviço Social) - Faculdade de Ciências Humanas e Sociais
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2011.

SILVA, T. P. Questão Socioambiental e suas Inter-Relações com o Serviço Social. 2016.


Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2016.

258
SMITH, L. C. O mundo em 2050: como a demografia, a demanda de recursos naturais, a
globalização, a mudança climática e a tecnologia moldarão o futuro. Rio de Janeiro: Elsevier,
2011.

STENGERS, I. No Tempo das Catástrofes - resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo:
Cosac Naify, 2015.

TONET, I. Educação e meio ambiente. Rebela: Revista Brasileira de Estudos


latinoAmericanos, Florianópolis, v. 5, n.3, p. 479-491, set./dez. 2015.

259
EDUCAÇÃO AMBIENTAL FRENTE AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Henrique Freitas Alves*

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo discutir os moldes da implementação da


educação ambiental no Brasil, a qual por vezes perde seu caráter crítico e revolucionário,
sendo relegada ao papel de aplicar a sustentabilidade no modo de produção capitalista
vigente. A crítica feita se baseia na análise da Política Nacional de Educação Ambiental, a
qual deixa em seus artigos os objetivos que se tem na introdução da educação ambiental no
país, bem como na revisão de outras obras acerca do assunto, dando-se preferência a autores
brasileiros. A discussão se dá em torno da problemática da associação desta área com o modo
de produção capitalista, sob a forma do “desenvolvimento sustentável”. Atrelar o
ambientalismo e suas reivindicações com o status quo pode acarretar diversas problemáticas
que devem ser ressaltadas. Assim, este é o objetivo principal do presente trabalho.

Palavras-chave: Educação Ambiental; Sustentabilidade; Desenvolvimento Sustentável.

Introdução
O atual cenário ecológico demanda profundas reflexões acerca do futuro do mundo,
dessa forma, iniciaremos o trabalho apresentando um breve histórico dos problemas
ambientais.
O imperialismo capitalista é tratado como a principal causa da árdua degradação
ambiental, pois possui lógica de explorar o máximo possível elementos naturais a fim de gerar
o maior lucro econômico possível, sem levar em conta os danos tanto imediatos quanto
futuros que tais ações provocarão no mundo. E não foi somente no aspecto econômico que o
sistema capitalista transformou a relação com a natureza. As relações de poder e dominação
social alteram a forma como nos relacionamos com os meios naturais, a relação de dominação
do ser humano sobre a natureza advém das relações de dominação presente dentro da
sociedade hierárquica capitalista. A ação humana cria nova natureza, portanto cria também
uma nova relação humana com a natureza.
A ofensiva capitalista já provocou, e continua à, mudanças drásticas na relação
sociedade-natureza, esta última foi incessantemente modificada aos moldes da sociedade de
mercado, por isso à importância de uma análise crítica da história, a necessidade de ressaltar
os discursos silenciados pelas narrativas da modernidade, ou seja, ressaltar as vozes daqueles

*
Graduando em Relações Internacionais, UNESP/Câmpus de Franca.

261
que sofrem os impactos, e não mais adotarmos a história através da narrativas dos povos
dominantes.
Além disso, a humanidade possui uma dívida ecológica histórica e que continua a
crescer rapidamente desde a imposição da estrutra moderno-colonial pelo sistema capitalista.
Após a Revolução Industrial, os impactos ambientais que já eram causados pelas políticas
imperialistas ocidentais a partir da exploração extrema de recursos naturais de,
principalmente, áreas africanas, asiáticas e latinoamericanas, e do completo extermínio da
população nativa, cresceram de maneira insustentável para o meio ambiente. O avanço
tecnológico voltado para o domínio do ser humano sobre a natureza, guiado pelo pensamento
antropocêntrico moderno, possibilitou a criação de mecanismos capazes de alterar, quando
não destruir completamente, o equilíbrio ambiental que culminam em um caminho sem volta.
Existem vários exemplos do uso de tecnologia para modificar a natureza e/ou destruí-la.A
bomba atômica é o melhor exemplo de destruição instântanea e massiva da natureza, contudo,
as estruturas políticas de certo modo impedem (ou retardam) seu uso. Entretanto, uma
tecnologia amplamente disseminada pelo mundo devido à pressões mercadológicas, que
auxilia na busca incessante pelo máximo de lucro possível com o menor custo e segurança
necessários, que provoca também inúmeros impactos sociais, é a utilização de transgênicos.
Originado pela engenharia genética da biologia, os transgênicos são responsáveis
diretos pelo aprofundamento do desaparecimento da diversidade ambiental e cultural. As
consequências desse produto são incontáveis, desde o genocídio à populações indígenas e
camponesas provocado, além da matança comanda pelos produtores industriais, pelo fim da
diversidade, devido a mutação genética dos trangênicos e também do uso de agrotóxicos, de
frutas, legumes, grãos e plantas medicinais (várias espécies destas foram extintas antes
mesmo de encontradas pelas sociedades modernas) que eram a base da vida desses povos.
Portanto, o capitalismo possui a lógica da exploração dos recursos naturais e a
utilização de tecnologias que otimizem este processo. Dessa forma, quando falamos em
desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade, entramos em uma profunda contradição
conceitual. Para que haja desenvolvimento dentro do sistema capitalista é necessário uma
grande escala de produção e alto consumo, o que por sua vez acarretará em grande quantidade
de recursos naturais destinados à produção e resultará em uma quantidade de resíduos nocivos
ao meio ambiente através do consumismo. Não é possível alinharmos um sistema que
necessita de um consumo desenfreado e incessante para que possa alcançar os níveis de
sucesso desejado com uma noção de respeito ao meio ambiente, com responsabilidade no uso
262
dos recursos naturais. Assim, por definição própria, desenvolvimento capitalista e
responsabilidade socioambiental são incongruentes. Por isso, o conceito de sustentabilidade se
mostra contraditório quanto ao caráter do movimento ambiental na medida em que
transparece a função de alinhar os meios de produção capitalista à preservação ambiental.
A educação por si só é um campo extremamente complexo de estudo e prática, e surge
enquanto um processo transformador da realidade. Portanto, dentra da atual conjuntura, a
educação ambiental ganha uma importância enorme, e se torna mais um campo de conflito
ideológico. Analisando a Política Nacional de Educação Ambiental brasileiro, vemos que
mais uma vez a lógica de mercado está implícita na formulação das diretrizes curriculares do
país. O viés emancipador da educação se perde quando a vinculamos aos interesses
profissionalizantes capitalista. A educação ambiental tem em sua essência o caráter
revolucionário do movimento ambientalista, alinhá-la ao conceito de sustentabilidade como
faz as diretrizes curriculares nacionais possui grande problemáticas, as quais serão discutidas
neste trabalho.

Objetivo Geral e Específico

O presente trabalho tem como objetivo destacar a relevância do enfoque crítico dentro
da questão ambiental, discutindo o tratamento e a busca pela solução dentre os problemas
deste âmbito. Para tanto, busca-se fomentar o debate acerca do significado da termo
“sustentabilidade”, quais os objetivos implícitos na propagação deste conceito, vinculado a
sua natureza capitalista de desenvolvimento, porém com a tentativa de camuflar as
problemáticas deste sistema.
Além disso, busca-se enfocar o rumo da educação ambiental que vem sendo
implementada no país, seja dentro do espaço formal da pratica de ensino, seja em espaços
alternativos. Dentro dessa discussão, ressalta-se que as diretrizes definidas pela Política
Nacional de Educação Ambiental vem sendo propagada dentro e fora das salas de aula,
sobretudo através do discurso midiático e a formação de um senso comum acrítico, sem que
seja devidamente aprofundada a complexidade das questões ambientais atuais. O objetivo do
presente trabalho está em problematizar a propagação do discurso individualista sobre as
possíveis soluções para a crise ambiental vivida a fim de afastar a sociedade da discussão
sobre responsabilidade governamental, como por exemplo a constante exaltação do uso
racional da água no âmbito doméstico, que, ainda que seja importante ressaltar, em uma visão
263
macro não representa a maior parcela responsável pela escassez de recursos naturais, uma vez
que o grande culpado é a má gestão socioambiental.

Metodologia

Para atingir os objetivos traçados anteriomente são necessários conhecimentos da


problemática do desenvolvimento sustentável e do papel do Estado na sua implementação,
bem como estudo do malefícios causados por este sistema. Assim, pretende-se analisar a
literatura especializada sobre o tema por meio de levantamentos bibliográficos, consultando
livros, periódicos e artigos pertinentes ao tema proposto. Além disso, é de suma importância
para o andamento da pesquisa avaliar dados oficiais do governo brasileiro sobre tal temática,
como a Política Nacional de Educação Ambiental, além de outras informações disponíveis
também em sites oficiais de organizações internacionais, organizações não-governamentais,
entre outros, relacionadas a presente pesquisa.
Uma questão importante a discussão proposta pelo tema deste projeto é quais os
critérios utilizados nas pautas ambientais das políticas públicas, o que é definido como
causador da degradação ambiental a nível global, discutindo se o enfoque individualistas se
justifica pelo projeto político e ideologico por trás da implementação de tais ações. Assim,
será analisado o papel da sociedade, especialmente as camadas mais desfavorecidas, e de que
maneira a ecologia pode possibilitar a emancipação e fortalecimento dos movimentos
reivindicatórios destas populações, a quem historicamente são destinado a maior parcela do
ônus ambiental ocasionado pelo sistema capitalista com a participação do Estado.

Discussão Teórica

James O’Connor afirma em Es posible el capitalismo sostenible que estamos diante de


uma grande questão mundial: em que termos serão definidos os conceitos de desenvolvimento
sustentável ou de capitalismo sustentável?
O’Connor nos atenta para o viés chamativa do próprio termos sustentabilidade, e como
este abarca diferentes classes sociais, mantendo-se dificilmente contestável.

El significado más elemental de “sostener” es “apoyar”, “mantener el curso”, o


“preservar un estado de cosas”. ¿Qué gerente corporativo, ministro de finanzas o
funcionario internacional a cargo de la preservación del capital y de su acumula-

264
ción ampliada rechazaría asumir como propio este significado? Otro significado es
el de “proveer de alimento y bebida, o de medios de vida”. ¿Qué trabajador urbano
mal pagado, o qué campesino sin tierra rechazaría este significado? Y outra
definición es la de “persistir sin ceder”. ¿Qué pequeño agricultor o empresario no se
resiste a “ceder” ante los impulsos expansionistas del gran capital o del estado,
enorgulleciéndose por su “persistencia”? (O’CONNOR, 2002, p. 10)

Para iniciar a discussão traçada, O’Connor define que a questão que permeia a
sustentabilidade e seu significado, é primeiramente ideológica, antes mesmo de se referir ao
âmbito ecológico. O problema da sustentabilidade do capitalismo sustentável circunda três
sentidos: ser sustentável do ponto de vista de manter a acumulação capitalista na atual escala
global; proporcionar os meios de sobrevivência aos povos do mundo; e, por fim, “y
“sostenerse sin ceder” por parte de aquellos cuyas formas de vida están siendo subvertidas por
las relaciones salariales y mercantiles”. (O’CONNOR, 2002, p. 10)
Desta forma, percebe-se que nenhum dos três sentidos listados refere-se
específicamente a sustentabilidade ecológica da natureza em si, a preservação de seus
recursos naturais e a manutenção destes, a partir de uma nova relação do ser humano com
esta, substituindo a vigente relação de poder e hierarquia capitalista, onde a terra é mais um
produto a ser explorado a fim de gerar ganhos econômicos. O desafia da sustentabilidade para
o capitalismo se baseia predominantemente em manter sua estrutura de acumulação e
exploração, apenas adicionando elementos que possivelmente demonstrem um impacto
ambiental menor do que o atual, ou ao menos um impacto menos perceptível.
Voltando a obra analisada, O’Connor descreve uma situação que comprova
exatamente o que foi dito acima. Na região da Baía de Monterrey, na California, ocorreu a
diminuição dos níveis dos aquíferos, bem como a salinização das águas, algo que representa
diversos impactos socioambientais. Isto foi causado pela excessiva extração de águas
subterrâneas. Assim, o autor faz a seguinte questão: Isso constitui uma crise? E a resposta
dada: em termos econômicos, não, se a região importa água. É por casos como este que a
definição de capitalismo sustentável ou de desenvolvimento sustentável se mostra
completamente vazia e contraditória.

El capitalismo tiende a la autodestrucción y a la crisis; la economía mundial crea una


mayor cantidad de hambrientos, de pobres y de miserables; no se puede esperar que
las masas de campesinos y trabajadores soporten la crisis indefinidamente y, como
quiera que se defina la “sostenibilidad”, la naturaleza está siendo atacada en todas
partes. (O’CONNOR, 2002, p. 11)

265
Ainda assim, o que vemos constantemente é a abdicação da preservação ambiental em
prol do crescimento econômico, e não somente por parte dos Estados e empresas, mesmo
grandes organizações ambientalistas estão dispostas a isto, sendo um dos motivos de não
vermos ataques diretos as grandes indústrias e as questões estruturais. Predominantemente os
interesses e direitos da população pobre se mantém deslocada das discussões
instituicionalizadas. A sustentabilidade do sistema econômico vigente poderia passar por
questões como o aumento de impostos sobre matéria-prima poluentes (carbono, petróleo) ou
então em investimentos maciços na produção de energías limpas como a solar. Contudo, estas
medidas não estão sendo colocadas em nenhuma parte do mundo, e por um motivo: não são
economicamente lucrativas. E o próprio movimento ambientalista não pressiona neste sentido,
por serem, na maioria das vezes, apoiados pelas próprias empresas, que possuem o intuito de
mostrarem-se ao mundo seu selo verde.

En un nivel superficial, el problema simplemente consiste en cómo presentar una


imagen verde verosímil a los consumidores y al público -por ejemplo, la industria
química norteamericana planeó gastar diez millones de dólares en 1992 para
presentarse a sí misma como ambientalmente razonable y amistosa (New York
Times, 12/8/1992). Se trata también de cómo reformar la producción de modo que se
ahorren energía y materias primas, lo que constituye un problema esencialmente
económico. Lejos de ser un problema para el capital en su conjunto, la eficiencia en
el uso de la energía y de los materiales durante un período de lento crecimiento es
económicamente deseable, y quizás lo sea también en lo ecológico. Para citar un
caso, el 75% del aluminio producido por empresas norteamericanas proviene de
envases y otros productos reciclados. Otro caso es el de nuevas prácticas en la
industria de la madera, que produce postes y vigas a partir de árboles demasiado
pequeños para ser convertidos en tablas, utilizando así lo que de otra manera sería un
desecho. Del mismo modo, la retórica del “reciclaje” y los precios (selectivos)
pueden ser utilizados para facilitar nuevas olas de obsolescencia planificada bajo el
estandarte de la amistad hacia el ambiente -legitimando así el consumismo y
preservando la rentabilidad. (O’CONNOR, 2002, p. 15)

As corporações buscam a solução do problema ambiental de maneira totalmente


oposta ao que os ambientalistas possuem. A discussão é puramente econômica, e de qual
maneira será possível encontrar novos modos de exploração da natureza, a fim de permitir a
acumulação “sustentável” de capital. Além disso, a própria premissa básica de
sustentabilidade capitalista é totalmente contraditória, na medida em que o capital necessita de
taxas de consumo elevadas constamente, o que por sua vez demanda recursos naturais e mão-
de-obra. As taxas de demanda de recursos naturais não são acompanhadas pela reposição
natural destes, gerando uma superexploração do mesmo, impactando o meio ambiente. E
ainda, consumo resulta em produção de resíduos sólidos (lixo), e as quantidades em escala
mundial são insustentáveis do ponto de vista ambiental, visto que o seu descarte, mesmo
266
quando feito de maneira dita apropriada, produz poluentes e inutiliza o solo da região. Em
suma, o capitalismo sustentável só é possível se o mesmo abandonar sua premissas básicas e
toda a sua estrutura, ou seja, a sustentabilidade do capitalismo é uma falácia produzida para
que o mesmo possa se manter enquanto sistema econômico e político vigente.
É dentro desta perspectiva que se torna urgente analisarmos a inserção da educação
ambiental nas diretrizes do Estado. Ainda que seja representativo quanto a um avanço na
importância dada a essas questões, a forma pela qual o poder público, o status quo, abarcam a
educação ambiental, que possui um viés revolucionário e emancipador, pode tornar-se mais
uma ferramenta de manipulação e coerção, vide o caráter impositivo do Estado burguês.
Contudo, é importante salientar que a introdução desta na pauta das políticas públicas possui
diversos benefícios para a diminuição da degradação ambiental, entretanto o que se discute é
até que ponto a ações implementadas discutem o tema com a profundidade e crítica
necessárias, visto que estabelecer uma normatividade e “regras de convívio”, que são
historicamente as soluções adotadas pelos detentores do poder, é o oposto do que o
movimento ambientalista procurou/a promover dentro da sociedade. A discussão e a
construção coletiva quanto ao meio ambiente e nossa relação para com este se perdem e são
abafadas pela imposição das normas estatais, tidas como corretas e detentoras da verdade.
Enquanto as raízes da educação ambiental anseiam pela emancipação social a partir da
ecologia, a institucionalização desta trás consigo um caráter policial, colocando a própria
sociedade como vigilante dela própria.
Além disso, a história da ecologia política é destacada pela participação dos pobres,
como destaca os autores Héctor Alimonda, com o ecologismo popular ou dos pobres, e
Martínez-Alier, que se refere ao ecologismo que nasce por razões sociais dos pobres na luta
pelo fim da desigualdade socio-economica-ambiental. Ecologismo dos pobres é, para
Martínez Alier, quando os pobres lutam contra o Estado ou propriedade capitalista para
manter o controle dos recursos ambientais e outros serviços que precisam para sua
subsistência. É um conceito que procura abarcar fatores sociais e suas ações que demonstram
a importância da meio natural da a vida humana, algo esquecido pela lógica de mercado que
instaurou-se na modernidade. A desigualdade na incidência de danos ambientais é um dos
principais focos da ecologia política.
Foi exatamente nesse cenário de crise ambiental ocasionada pelo crescimento do
modelo capitalista de desenvolvimento adotado no contexto internacional que surge, no
século XX, as proposições de Educação Ambiental. A situação calamitante proporcionou a
267
intensificação das discussões acerca da relação que este sistema econômico mantinha com a
natureza. Apoiado pela ciência moderna utilitarista, semeou-se mundialmente a dominação do
ser humano sobre a natureza, afirmando o caráter antropocêntrico que se pretendeu disseminar
onde o papel do meio ambiente se torna servir as necessidades humanas, ou seja, propagou-se
a noção do uso “racional” utilitário dos bens naturais com a finalidade de serem úteis ao
desenvolvimento da sociedade.
Dessa forma, a necessidade latente de discutir tal temática propiciou o debate dentro
da sociedade acerca da degradação ambiental causada pelo poder público e privado, a fim de
aumentar e agariar a participação social na discussão de consciência ambiental. Assim, a
Educação Ambiental surge para suprir essa lacuna deixada.
É importante ressaltar que, como já foi dito anteriormente, a crise ambiental instaurada
não foi sentida em sua totalidade igualmente por todas as camadas sociais. Especificamente
no caso brasileiro vemos cotidianamente que a injustiça ambiental é predominante. A
vulnerabilidade socioambiental presente no país pode ser observada constamente quando está
em discussão algum problema ambiental específico. Quando houve recetemente o
racionamento de água no Estado de São Paulo, vimos que o corte no fornecimento foi feito
sumariamente em regiões periféricas, locais que historicamente abarcam as populações pobres
e houve ampla divulgação na mídia sobre a diminuição do uso doméstico da água. A escassez
de água na região ocorreu devido a má gestão ambiental ao longo dos anos, e, ainda assim, o
consumo doméstico não representa a totalidade do destino deste recurso, visto que o
agronegócio é o principal destinatário da água, e, inclusive, representa uma enorme
quantidade de desperdício desta pela não utilização dos métodos adequados, em prol do ganho
financeiro. Mesmo assim foram as populações periféricas que sofreram com o racionamento.
Outro caso recorrente no país é em relação aos deslizamentos de terra em épocas de
fortes chuvas. O desenvolvimento brasileiro e dos seus municípios nos moldes feitos provoca
o aumento da desigualdade social, que por sua vez resulta no surgimento de favelas e
povoamento de regiões sem infraestrutura básica para a instalação residencial. Dessa forma,
essas áreas renegadas pelo poder público e a população que vive ali estão sujeitas aos
desastres ambientais recorrentes anualmente. Por fim, mais uma caso que necessita ser citado
foi o desastre ambiental na cidade de Mariana, em Minas Gerais. Passado mais de um ano do
ocorrido, a empresa responsável pelo caso não foi devidamente punida, e uma das
justificativas encontradas é a parceria da mesma com o Estado brasileiro, ou seja, vemos mais
uma vez o suporte estatal para o setor privado e não para a população afetada.
268
Neste cenário, vemos a importância da Educação Ambiental. Estes povos renegados
pelo poder público e que se encontram em situação de vulnerabilidade socioambiental
precisam encontrar alternativas para lidar com suas respectivas situações. Dessa forma, a
Educação Ambiental pode ser uma grande aliada desse processo, pois além de auxiliar no
entendimento da localidade e do contexto vivído pela população, tem o caráter reivindicatório
e revolucionário fruto das lutas ambientalistas, com a massiva participação popular. Assim, a
educação ambiental tem o propósito de emancipar sociedade, alinhando-se aos princípios de
Paulo Freire, do educando entender-se enquanto parte transformadora da realidade presente e
apoiar-se nisso em sua luta contra os causadores deste processo, seja público ou privado.
Assim, a Educação Ambiental é fundamental para essas camadas sociais, na medida
em que a conjuntura vivida demanda o contato com o local de vivência, saber se colocar e
modificar este. A aproximação do(a) educando(a) com a realidade próxima é uma questão-
chave no processo de educação popular dentro da filosofia freireana, A partir desse contato se
torna possível o aprofundamento nas questões cruciais para entender o problema e buscar a
solução necessária, partindo, sobretudo, de um viés crítico de análise.
Essa discussão se faz necessária devido a recorrência de tentativa de individualização
no tratamento deste tema, atribuindo ao consumo pessoal e seu policiamento como o melhor
caminho a se seguir para enfrentar a crise ambiental. Esse discurso divulgado amplamente por
setores governamentais e privados através da grande mídia tem como objetivo exatamente
isentar as grandes indústrias e empresas da responsabilidade ambiental que possuem, pois
grande parte de recursos naturais como a água é destinada prioritariamente para estes setores,
mesmo que isto implique em racionamento para a população. Dessa forma, a Educação
Ambiental, com seu caráter crítico, procura estabelecer a discussão acerca da complexidade
das questões ambientais e, assim, construir uma nova visão sobre suas soluções, sobressaindo
da individualismo e análisando o coletivo, a gestão ambiental.
Além disso, o processo educacional partindo da perspectiva de Paulo Freire é de suma
importância na construção de uma Educação Ambiental abragente e efetiva, isto pelo fato de
que para se entender a realidade socioambiental é essencial a vivência daqueles que residem
nos respectivos locais destacados, uma vez que esta se posiciona enquanto fator fundamental
no entendimento de como aquele território se transforma conforme as mudanças de caráter
socioambiental ocorrem. Assim, a troca de conhecimento entre educando e educador, ou
melhor dizendo, o processo de construção coletiva de conhecimento se mostra enquanto parte

269
indissociável da Educação Ambiental crítica na busca para reverter o cientificismo
antropocêntrico e com o objetivo de redefinir a relação sociedade-natureza.

Considerações Finais

A filosofia de Paulo Freire e sua pedagogia possuem em sua essência os requisitos


necessários na formulação de uma Educação Ambiental crítica com viés emancipatória para
as camadas populares que historicamente são renegadas pelo Estado dentro do modelo
capitalista. Para que este objetivo possa ser cumprido a rigor, é fundamental que tenhamos
uma criticidade na análise das questões ambientais, principalmente quando nos referimos as
ações no status quo para ludibriar a opinião pública, tendo como maior exemplo a propagação
do conceito de desenvolvimento sustentável.
Para trazermos essa discussão para o cenário brasileiro, necessita-se analisar a Política
Nacional de Educação Ambiental, implementada em 1999 no segundo governo de Fernando
Henrique Cardoso. No artigo 4º da referida lei, temos o seguindo trecho: “a concepção do
meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o
sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade.”(BRASIL, 1999) Assim,
temos nas raízes da institucionalização da Educação Ambiental brasileira suas diretrizes
ligadas ao aspecto econômico, sobretudo ao desenvolvimento sustentável. Por isso o tema em
discussão neste trabalho se mostra totalmente necessário para que possamos redefinir os eixos
da ecologia no país. Como já foi discutido, a articulação dos setores público e privado a fim
de atribuir um selo verde da sustentabilidade para fomentar o discurso capitalista se coloca
enquanto o oposto do que a construção do movimento ambientalista objetiva. Para tanto, a
introdução desta discussão no cerne da Educação Ambiental, com a criticidade necessária, é
imprescindível para a construção coletiva de uma nova ecologia popular.
Neste sentido houve um certo avanço no cenário brasileiro com a concepção do
Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA) de 2014, durante o governo de Dilma
Rousseff. Neste documento ocorre uma mudança no enfoque proposto para as diretrizes da
Educação Ambiental brasileira. O ProNEA inicia estabelecendo a história da ecologia e de
que maneira esta foi incorporada na pauta política do país, além de salientar sua importância
propõe, ainda, a reformulação da educação partindo de uma perspectiva próxima a de Paulo
Freire, fomentando a introdução de uma abordagem abrangente na discussão ambiental, como
podemos observar:
270
A educação ambiental deve se pautar por uma abordagem sistêmica, capaz de
integrar os múltiplos aspectos da problemática ambiental contemporânea. Essa
abordagem deve reconhecer o conjunto das inter-relações e as múltiplas
determinações dinâmicas entre os âmbitos naturais, culturais, históricos, sociais,
econômicos e políticos. Mais até que uma abordagem sistêmica, a educação
ambiental exige a perspectiva da complexidade, que implica em que no mundo
interagem diferentes níveis da realidade (objetiva, física, abstrata, cultural, afetiva...)
e se constroem diferentes olhares decorrentes das diferentes culturas e trajetórias
individuais e coletivas.(BRASIL, 2014)

Contudo, apesar deste avanço na abordagem da Educação Ambiental brasileira, o


ProNEA inteiro é pautado pelo objetivo de um “Brasil Sustentável”. As diretrizes do
programa estão vinculadas a propagar a ideia de desenvolvimento sustentável, isto em um
país onde a desigualdade social é uma das principais características. Assim, ainda que busque
avançar na complexidade da discussão ambiental, o programa brasileiro peca ao vincular a
ecologia com o desenvolvimento aos moldes do sistema capitalista. Portanto, para que
possamos avançar no processo educacional acerca da ecologia no país, é imprescindível que
se discuta a problemática deste vínculo e, inclusive, da institucionalização e centralização da
Educação Ambiental ao Estado e suas parcerias privadas, que historicamente procuram
manter o status quo vigente em detrimento das necessidades básicas da população. O caráter
revolucionário do movimento ambientalistas e, consequentemente, da Educação Ambiental se
perde quando se torna associado ao poder.

Referencias
ALIMONDA, H. La colonialidad de la naturaliza: uma aproximación a la ecologia
política latinoamericana. ALIMONDA, H. (coord.). La naturaleza colonizada: ecologia
política y mineria em América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2011, p. 21-58.

ALMEIDA, André Koutchin de; MICHELS, Ido Luiz. O Brasil e a economia-mundo: o


caso da carne bovina. Ensaios FEE,Porto Alegre, 2012, v. 33, n. 1, pp. 207-230.
Atlas da carne: fatos e números sobre os animais que comemos. Rio de Janeiro: Heinrich
Böll Foundation, 2015.

BARCHI, Rodrigo. Educação ambiental e (eco)governamentalidade. Ciênc. educ. (Bauru),


Bauru , v. 22,n. 3,p. 635-650, Sept. 2016 . Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-
73132016000300635&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 05 jun 2017

BARCHI, Rodrigo. Entre a atividade política e a ação policial: sobre a institucionalização das
relações que envolvem a educação e o meio ambiente. Pro-Posições, Campinas , v. 25,n. 3,p.
229-247, Dec. 2014 . Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
73072014000300012&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 05 Jun 2017.

271
BARROS-PLATIAU, Ana Flávia; VARELLA, M. D. e SCHLEICHER, R. T. Meio ambiente
e Relações Internacionais: perspectivas teóricas, respostas institucionais e novas
dimensões de debate. Revista Brasileira de Política Internacional. V. 47, n. 2, 2004, p. 100-
130.

BRANDAO, Antonio Salazar Pessoa; REZENDE, Gervásio Castro de; MARQUES, Roberta
Wanderley da Costa. Crescimento agrícola no período 1999/2004: a explosão da soja e da
pecuária bovina e seu impacto sobre o meio ambiente. Econ. Apl., Ribeirão Preto , v.
10, n. 2, p. 249-266, June 2006 . Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-
80502006000200006&lng=en&nrm=iso>. acesso em 14 Nov 2016.

BRASIL. Lei no 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a
Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Diário Oficial [da
República Federativa do Brasil], Brasília, DF, v. 137, n. 79, 28 abr. 1999, seção 1, p. 1-3.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Educação. Programa Nacional de
Educação Ambiental. Brasília: MMA e MEC, 2014. 4ª Ed. 112p.

COSTA, César Augusto; LOUREIRO, Carlos Frederico. A interdisciplinaridade em Paulo


Freire: aproximações político-pedagógicas para a educação ambiental crítica. Rev. katálysis,
Florianópolis , v. 20, n. 1,p. 111-121, Apr. 2017 . Disponivel em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S14149802017000100111&lng=en
&nrm=iso>. Acesso em 05 Jun 2017.

COSTA, Rafael Nogueira; MACHADO, Carlos José Saldanha. Social and Environmental
Vulnerability In: Environmental Education Practiced Within The Federal Licensing in Macaé
(Rio de Janeiro, Brazil). Ambient. soc., São Paulo , v. 20,n. 1,p. 127-146, Mar. 2017 .
Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141453X2017000100127&lng=en
&nrm=iso>. Acesso em 05 Jun 2017.

Da-Silva-Rosa, Teresa et al . A Educação Ambiental como estratégia para a redução de riscos


socioambientais. Ambient. soc., São Paulo , v. 18,n. 3,p. 211-230, Sept. 2015. Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
753X2015000300013&lng=en&nrm=iso>. acesso em 05 Jun 2017.

ECKERSLEY, Robin. Green Theory. In: DUNNE, T.; KURKI, M.; SMITH, S. International
Relations Theories: discipline and diversity. Oxford: Oxford university Press, 2013.
GOODLAND, Robert; ANHANG, Jeff. Livestock and Climate Change: What if the key
actors in climate change are...cows, pigs, and chickens? Published in World Watch
Magazine, November/December, Volume 22, No. 6

HOFSTATTER, Lakshmi Juliane Vallim; OLIVEIRA, Haydée Torres de; SOUTO, Francisco
José Bezerra. Uma contribuição da educação ambiental crítica para (des)construção do olhar
sobre a seca no semiárido baiano. Ciênc. educ. (Bauru), Bauru , v. 22,n. 3,p. 615-633, Sept.
2016 . Disponivel em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-
73132016000300615&lng=en&nrm=iso>. acesso em 05 June 2017.

272
IANNI, O. Imperialismo y Cultura de la Violencia en América Latina. México DF: Siglo
XXI Editores, 1971.

MARTINEZ-ALIER, J. Ecologismo dos pobres. São Paulo: Contexto, 2007.Capítulo 4:


Ecologia política: o estudo dos conflitos ecológicos distributivos, p. 89-118. Capítulo 11: As
relações entre a ecologia política e a economia ecológica, p. 333-357.

NABAES, Thais de Oliveira; PEREIRA, Vilmar Alves. Ontologia Ambiental: o


reposicionamento do Ser no horizonte da Racionalidade Ambiental. Educ. rev., Curitiba , n.
61,p. 189-204, Sept. 2016 . Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
40602016000300189&lng=en&nrm=iso>. accesso em 05 Jun 2017.

O’CONNOR, J. Es posible el capitalismo sostenible? In: ALIMONDA, H. (compilador).


Ecologia política, naturaleza y utopia. Buenos Aires: Clacso, 2002.
PORTO-GONÇALVEZ, C. W. A globalização da natureza e a natureza da globalização.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. Parte V – 6. O meio ambiente como mercadoria
IV: as contradições da mercantilização da vida e outros caminhos.

RATTO, Cleber Gibbon; HENNING, Paula Corrêa; ANDREOLA, Balduíno Antonio.


Educação Ambiental e suas Urgências: a constituição de uma ética planetária. Educ. Real.,
Porto Alegre, 2017 . Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-
62362017005002101&lng=en&nrm=iso>. access on 05 June 2017.

RUBIN, Luciane; WAQUIL, Paulo. Estrutura exportadora do agronegócio e impactos


socioeconômicos para os países do cone sul. Rev. Econ. Sociol. Rural, Brasília , v. 51, n.
1, p. 137-160, Mar. 2013 . Disponivel em <http://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0103-20032013000100008&lng=en&nrm=iso>. access on 14 Nov.
2016.

SANT’ANNA, F. M. e RIBEIRO, W. C. A governança da ordem ambiental internacional.


In: RIBEIRO, W. C. Governança da Ordem Ambiental Internacional e inclusão social.
São Paulo: Annablume, Procam, IEE, 2012.

SILVA, Winnie Gomes da; HIGUCHI, Maria Inês Gasparetto; FARIAS, Maria Solange
Moreira de. Educação ambiental na formação psicossocial dos jovens. Ciênc. educ. (Bauru),
Bauru, v. 21,n. 4,p. 1031-1047, Dec. 2015 . Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-
73132015000400015&lng=en&nrm=iso>. acesso em 05 Jun 2017.

SOUZA, VANESSA MARCONDES DE. Para o mercado ou para a cidadania? a educação


ambiental nas instituições públicas de ensino superior no Brasil. Rev. Bras. Educ., Rio de
Janeiro , v. 21,n. 64,p. 121-142, Mar. 2016 . Disponivel em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-
24782016000100121&lng=en&nrm=iso>. acesso em 05 Jun 2017.

273
TRIGUEIRO, A. (coord.). Meio ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão
ambiental nas suas áreas de conhecimento. Rio de Janeiro: Sexante, 2003, p. 183-197.

WALLERSTEIN, I. The inter-state structure of the modern world system. In: SMITH, S.;
BOOTH, K.; ZALEWSKI, M. International Theory: positivism & beyond. Cambridge:
Cambridge University Press, 1996. p. 87-107.

274
LEGISLAÇÃO AMBIENTAL BRASILEIRA COM ENFOQUE NA COOPERATIVA
DE CATADORES

Bárbara Oliveira Rosa*

Resumo: O artigo trata sobre a legislação ambiental brasileira, tendo como enfoque os
catadores de materiais recicláveis. Assim, o artigo trata não só sobre as legislações, mas
também sobre como funciona a Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis de Franca
e Região – COOPERFRAN. A pesquisa se destinge como bibliográfica, pesquisando livros e
legislações; documental, pesquisando documentos e jornais da época da formação da
cooperativa, como também uma pesquisa de campo, visto que acompanhamos a realidade e o
funcionamento da COOPERFRAN.

Palavras-chave: Legislação ambiental, catadores de materiais recicláveis, cooperativa.

Introdução

A necessidade de uma legislação ambiental surgiu com a degradação da natureza,


sendo que sem a natureza não há vida na terra, assim a sua preservação surgiu também como
uma necessidade de manutenção do capital. Dependemos da natureza para existir, o homem
só tem vida se tiver meios naturais que o possibilite viver.

Mesmo que o homem do século XXI não precise mais caçar, coletar e até produzir
como o homem primitivo, ele precisa, como ser social, investir e envolver-se numa
atividade de intercâmbio orgânico com a Natureza, em sua forma natural e
socialmente construída, para satisfazer suas múltiplas necessidades de vida.
(ALVES, 2007, p. 75).

No Brasil, foi, a partir da década de 80, que as leis começaram a ganhar uma
preocupação mais incisiva com o meio ambiente. A Política Nacional do Meio Ambiente, Lei
nº 6.938/81 (BRASIL, 1981), é um exemplo disso, esta surge no Brasil no ano de 1981,
regularizando a preservação da natureza de maneira geral, aumentando a fiscalização, sobre
diversas atividades, como por exemplo, a exploração de madeira, a construção de

*
Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Serviço Social da UNESP/Câmpus de Franca. Membro do
Grupo GESTA.

275
hidrelétricas, entre outros, tornando obrigatório o licenciamento ambiental, que fiscalizava
atividades que colocassem em risco o meio ambiente.
Outra lei desse período foi a Lei da Ação Civil Pública ou Lei nº 7.347/85 (BRASIL,
1985), na qual os danos ao meio ambiente eram devidamente encaminhados ao Poder
Judiciário. Mas, o grande marco para a legislação ambiental foi a Constituição Federal de
1988, contemplando um capítulo dedicado inteiramente ao meio ambiente. No capítulo VI -
Do meio ambiente (Art. 225), o poder público e a coletividade se tornam os responsáveis por
defender e preservar o meio ambiente: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao
Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações.” (BRASIL, 1988).
Em 1999, surge outra lei, que vem contribuir com a fiscalização da degradação
ambiental, é a Lei de Crimes Ambientais, nº 3.179/99, (BRASIL, 1999) que criminalizava
pessoas ou empresas que contribuíam com a poluição da água, ou com corte ilegal de árvores,
entre outros. Já em 2000, surge o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza
(SUNC), Lei nº 9.985/2000 (BRASIL, 2000), que foi de suma relevância, visto que definia os
critérios e os princípios para a criação e funcionamento das Unidades de Conservação
Ambiental, que são

[...] espaços territoriais e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais,


com características naturais relevantes, legalmente instituídos pelo Poder Público, com
objetivos de conservação e limites definidos, sob-regime especial de administração, ao
qual se aplicam garantias adequadas de proteção da lei. (Art. 1°, I).

A primeira definição legal de meio ambiente aparece na Política Nacional do Meio


Ambiente, Lei nº 6938/81, que o define como “[...] o conjunto de condições, leis, influências e
interações de ordem física, química e biológica que permite, abriga e rege a vida em todas as
suas formas.” (Art. 3º, I). Em 2002, com a resolução do Conselho Nacional de Meio
Ambiente (CONAMA), nº 306/2002, surge uma definição mais ampla: “Meio ambiente é o
conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química, biológica,
social, cultural e urbanística, que permite e abriga e rege a vida em todas as suas formas.”
Assim, entende-se por meio ambiente essa diversidade de seres vivos e não vivos, que
constituem a vida na Terra, é o conjunto de fatores físicos, químicos, biológicos, econômicos,
culturais e sociais que constituem a vida, deixando a visão restrita que deveria pensar em
preservação apenas visando à natureza, enquanto fauna e flora, mas percebendo que
276
econômico, político, cultural e social se relacionam, interferem e também fazem parte da
natureza.

A ciência moderna mudou a concepção que o homem tinha da natureza. Esta, por
sua vez, também descobriu-se através do desenvolvimento da ciência.A concepção
de natureza como algo morto, sem vida, era predominante até o século XVIII. Ela
foi revolucionada pela ciência moderna, que buscou formular leis universais,
simples e imutáveis que dessem conta de explicar os fenômenos naturais.
(CAVALCANTE, 1995, p. 203).

Assim, a legislação ambiental brasileira, como as demais políticas públicas, constitui-


se por meio de um paradoxo, pois,ao mesmo tempo em que contribui com a preservação do
meio ambiente, compactua ou regulariza o modo de produção vigente, não interferindo na
estruturação da produção, mas apenas reformando-a.

Desenvolvimento

Uma questão, que vamos priorizar em nossa discussão, são as legislações que
contemplem os resíduos sólidos, principalmente as que contemplem a reciclagem, já que os
catadores de materiais recicláveis, nossos sujeitos de pesquisa, utilizam-se dela.
Para Magera (2003) e Miura (2004), o crescimento do número de catadores é
resultado, principalmente, do aumento do desemprego e das exigências do mercado formal,
que acaba excluindo os sujeitos por sua idade, condição social e baixa escolaridade.
A atividade de catação ganhou visibilidade política a partir da criação do Movimento
Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR),que surgiu em1999,tendo
suafundaçãoem2001, culminando com o “1º Congresso Nacional de catadores de Materiais
Recicláveis.”Segundo Mendes (2009), o encontro reuniu mais de 1600 catadores, catadoras,
agentes sociais e técnicos. O movimento buscava fortalecer a consciência de classe, o
reconhecimento dos catadores, buscando direitos para os mesmos, como nos mostra o site
oficial do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis:

O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) é um


movimento social que, há cerca de 10 anos, vem organizando os catadores e
catadoras de materiais recicláveis pelo Brasil afora. Buscamos a valorização de
nossa categoria de catador que é um trabalhador e tem sua importância. Nosso
objetivo é garantir o protagonismo popular de nossa classe, que é oprimida pelas
estruturas do sistema social. Temos por princípio garantir a independência de classe,
que dispensa a fala de partidos políticos, governos e empresários em nosso nome.
(MNCR, 2013).

277
Com a luta do movimento, os catadores vêm dispondo de novos direitos e de
reconhecimento público do seu trabalho. Após a Constituição Federal de 1988, o Estado
assumiu a responsabilidade da gestão dos resíduos sólidos e, com isso, passaram a surgir
legislações que contemplavam os catadores de materiais recicláveis. As leis federais que
surgiram para contribuir com os catadores são: a Política Nacional de Resíduos Sólidos, o
Decreto Pró-catador e as Diretrizes Nacionais para Saneamento Básico.
A Lei nº 11.445 (BRASIL, 2007), Diretrizes Nacionais para Saneamento Básico, foi a
primeira lei a ser aprovada que contribuía com as cooperativas de catadores, regulamentando
a contratação de associações ou cooperativas de catadores. Outra lei, que veio contribuir com
os catadores de materiais recicláveis, foi o Programa Pró-catador, Decreto de nº 7.405
(BRASIL, 2010b), este denomina o Comitê Interministerial para Inclusão Social e Econômica
dos Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis e dispõe sobre sua organização e
funcionamento. Este decreto substituiu o Comitê Interministerial de Inclusão Social dos
Catadores de Lixo, de 2003.

Art. 1º Fica instituído o Programa Pró-Catador, com a finalidade de integrar e


articular as ações do Governo Federal voltadas ao apoio e ao fomento à organização
produtiva dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis, à melhoria das
condições de trabalho, à ampliação das oportunidades de inclusão social e
econômica e à expansão da coleta seletiva de resíduos sólidos, da reutilização e da
reciclagem por meio da atuação desse segmento. (BRASIL, 2010b).

Também em 2010, criou-se a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei nº


12.305(BRASIL, 2010a), esta altera a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (BRASIL,
1998). O principal princípio dela é a minimização dos resíduos por meio de incentivos às
práticas ambientalmente adequadas de reutilização, reciclagem, redução e recuperação dos
resíduos sólidos. Seus principais objetivos são: promover a inclusão social de catadores nos
serviços de coleta seletiva e fomentar a implantação do sistema de coleta seletiva nos
municípios brasileiros.
Assim, a política nacional tem contribuído com a reciclagem e com os catadores,
como se observa na própria Lei: “[...] incentivar a criação e o desenvolvimento de
cooperativas e associações de catadores de materiais recicláveis que realizam a coleta e a
separação, o beneficiamento e o reaproveitamento de resíduos sólidos reutilizáveis ou
recicláveis.” (BRASIL, 2010a). E complementa dizendo que o Estado deve: “Fomentar
parcerias das indústrias recicladoras com o Poder Público e a iniciativa privada nos programas
278
de coleta seletiva e no apoio à implantação e desenvolvimento de associações ou cooperativas
de catadores.” (BRASIL, 2010a).
Porém, antes dessas atuais legislações, “[...] o que predominou na gestão de resíduos
sólidos no Brasil foi um esforço dos governos e empresas para esconder o lixo, resolvendo a
questão estética sem uma preocupação com a dimensão ambiental do problema.” (SILVA, M.
G., 2010, p. 113). Atualmente os empreendimentos de reciclagem são uma alternativa que o
poder público se utiliza para resolver o problema do lixo e ao mesmo tempo para gerar
emprego, assim os catadores atendem as demandas municipais, resolvendo um problema
público que são os resíduos sólidos.

A ação do catador e o trabalho por este desenvolvido são aceitos pelo Estado, pelas
empresas e pela sociedade como uma alternativa ao crescente desemprego,
tornando-se objeto de uma política voltada para geração de renda. Mais, ainda, a
realização da catação é absorvida como parte da política ambiental para
minimização dos efeitos causados pela incomensurável produção de resíduos sólidos
em ambientes urbanos, alçando esta atividade à condição de entre público. No
entanto, não é reconhecida a centralidade do papel do catador na “cadeia de lixo”,
fato que o destitui do estatuto de trabalhador, e portanto, gerador da riqueza
socialmente produzida, reforçando um dos traços centrais do capitalismo
reestruturado. (SILVA, M. G., 2010, p. 132).

Segundo Barbosa (2007), a política pública, se constitui contraditoriamente neste


contexto, contribui para o fortalecimento político, na garantia de direitos para os catadores,
porém propagam e regularizam o trabalho informal, conformando com uma política de
“Estado Mínimo” sem a promoção de empregos assalariados e sem garantir os direitos
sociais.
Nesse cenário, os catadores não têm o devido reconhecimento, ficando a mercê de
políticas públicas que não atendem suas reais demandas, ou, até mesmo, sofrendo com
medidas punitivas,como as instituídas em Campinas e São Paulo“[...] a proibição da circulação
de carroças de tração animal, em Campinas, ou de tração humana, em São Paulo.” (WIRTH,
2013, p. 87).

Considerações Finais

A história da Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis de Franca e Região


(COOPERFRAN) se mistura com a Prefeitura Municipal de Franca. A cooperativa surgiu no
ano 2000, sendo que três a quarto anos foram dedicados à formação e preparação da mesma,

279
efetivando-se de fato em 2005. Esta se consolida como uma parceria entre Prefeitura
Municipal de Franca e a Pastoral do Menor e da Família.
A Pastoral do Menor já desenvolvia um trabalho de reciclagem na cidade, segundo o
jornal da cidade, Comércio da Franca, do ano de 2001, em anexo. A Pastoral e os responsáveis
pela reciclagem tiveram desentendimentos quanto à prestação de contas do dinheiro da
reciclagem, o que gerou problemas e até a abertura de uma fiscalização por parte da Prefeitura.
Segue títulos da reportagem:
ILUSTRAÇÃO 1 – Reportagem, do Jornal “Comércio da Franca”

Fonte: Comércio da Franca, 2001

Em 2000, a Prefeitura Municipal de Franca realizou uma pesquisa, constatando 237


catadores atuantes na cidade. Esta pesquisa foi incentivada pela campanha “Criança no lixo
nunca mais” do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e realizada pelo
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) (JUNTA,
2005). Assim, após a pesquisa, a Prefeitura iniciou com um processo de cooptação de
catadores e capacitação, oferecendo suporte para que estes formassem a cooperativa. A
Prefeitura Municipal de Franca organizou um grupo 70 catadores e contribuiu com o espaço
físico, os equipamentos e maquinários necessários, além de uniformes e equipamentos de
segurança individual. Junta (2005) afirma que o processo de reuniões e discussões para
formar a cooperativa durou cerca de quatro anos até a constituição da cooperativa, este
processo foi acompanhado pela Secretaria de Assistência, tendo uma assistente social
responsável.
Faz quinze anos que a cooperativa está em funcionamento e depois de sua formação
ainda manteve uma parceria com a Pastoral do Menor e da Família, mesmo com todo o
problema anterior de corrupção e sumiço de dinheiro, sendo que 25% do que a cooperativa
recebia era encaminhado para Pastoral. Atualmente, a presidente da cooperativa parou de
repassar o dinheiro a Pastoral e o rompimento com a parceria se encontra em trâmites
judiciais.
280
Essa parceria é regulamentada pela Lei Municipal 6.323, de 27 de dezembro de 2004,
alterada pela Lei 6.525, de 13 de março de 2006. A princípio, a parceria estabelecia a divisão
de 50% para a Pastoral, depois passaram para 25%, além disso, a Pastoral se responsabilizava
pela venda do material reciclável e tinha uma prensa maior da qual a cooperativa dependia.
Os catadores não concordavam com essa parceria, como se vê pela pesquisa de 2013: em um
dos relatos o entrevistado vê a Pastoral do Menor não como um parceiro, mas sim como um
concorrente.

Para melhorar eu acho que nós tínhamos que ter uma prensa, um prensa de fardo de
500 kg, de material né. Cada fardo de 500 Kg, ter uma prensa boa né. Para nós
competirmos com a Pastoral lá em baixo. Porque, do contrário, a gente não dá conta,
aquelas “prensinhas” lá, não dá conta de fazer tudo o serviço.

E outro entrevistado completa:

E que tirasse esses vinte cinco por cento, porque nós vem trabalhar aqui porque nós
precisa, e tira vinte cinco por cento para dá. Eu acho que quem trabalha aqui é, todo
mundo, gente humilde, né. Vamos dizer pobre, não vou falar pra você que a gente
tem alguma coisa, tem gente ali que depende disso aqui para comer.

Assim, por meio dessas falas, percebemos que os cooperados não gostavam de
depender da Pastoral, pois dela dependiam da prensa grande e da venda do material. Também
não concordavam que fossem subtraídos25% do lucro para a Pastoral, retirados do montante
que cada um recebe, o que representa uma quantia expressiva de dinheiro que, na
contabilidade final, faziam-lhes falta. A parceria com a Prefeitura Municipal de Franca e com
a Pastoral do Menor deveria ajudar a emancipá-los economicamente, a cooperativa deveria ser
responsável pela venda do material e deveria enxergar essas entidades como parceiras e não
como concorrentes.
O terreno e a manutenção dos equipamentos são de responsabilidade da Prefeitura
Municipal de Franca. Esta, por meio de uma parceria com a empresa que recolhe o lixo no
município, a Leão-leão, recolhe o material reciclável na cidade e também retira o rejeito, o
que não é reciclável no final da esteira. A prefeitura também contribui com passes de ônibus
dentro da cidade, com uniformes e equipamentos de segurança. A Prefeitura Municipal de
Franca, no caso, ora tem uma postura de omissão, sobrecarregando, culpabilizando os
trabalhadores da cooperativa, ora tem uma postura paternalista, clientelista, que reforça, ainda
mais, a dependência da cooperativa.

281
Na cooperativa, o trabalhador deixa de ser empregado e passa a ser cooperado, este
não tem salário, tem retirada, o lucro da cooperativa é dividido igualmente entre os
cooperados. As decisões são tomadas coletivamente em assembléias: as ordinárias são para
decisões do cotidiano da cooperativa, as extraordinárias são para outro tipo de decisões, como
exemplo, para eleição de um novo presidente. Há uma diretoria que é constituída
democraticamente, composta por seis pessoas que ocupam cargos de secretários, tesoureiros,
presidente e vice-presidente. Para serem válidas, as assembléias têm que conter, no mínimo,
metade dos cooperados mais um, também deve ser registrada no livro de Ata.
Outras peculiaridades da cooperativa são as sobras, constituídas pelo dinheiro que
sobra das retiradas e da manutenção do empreendimento, ou este dinheiro é dividido entre
eles ou vai para o Fundo Único da Cooperativa. As Cotas Partes seriam como um
investimento em que cada trabalhador faz antes de entrar na cooperativa. O que regulamenta
essas questões é o Estatuto Social, uma lei que organiza a cooperativa, explica sobre as
eleições, os cargos da diretoria, como vai ser as retiradas. Outro documento importante é o
Regimento Interno que regulamenta o funcionamento da cooperativa, o horário de entrada e
de saída dos cooperados e outras questões internas.
Segundo dados obtidos por meio do Grupo de Extensão Democracia Econômica
(GEDE), as retiradas da COOPERFRAN ocorrem quinzenalmente, esse valor se altera de
acordo com o que a cooperativa produziu naquela quinzena, sendo em média R$300,00 a
R$400,00reais. Os cooperados trabalham oito horas diárias, com parada de uma hora para
almoço, normalmente; pela localização afastada, os cooperados almoçam na própria
cooperativa, sendo a única refeição dos mesmos. O refeitório, por ser pequeno, na hora de
almoço, não contempla a todos, sendo que alguns almoçam espalhados pela cooperativa. Os
cooperados chegam às 5 horas da manhã, alguns vêm de outras cidades da região. Já outros
vêm dos bairros com o ônibus circular. O ônibus da cidade só vai até a cooperativa em dois
horários: às cinco horas para levar os cooperados e às dezessete horas para buscá-los.
A triagem de materiais ocorre posterior à coleta seletiva. A atividade dos cooperados é
determinada pela chegada dos caminhões que trazem o material reciclável e despejam o
material de 15 a 20 vezes por dia, com o auxílio de um guincho que passa pela esteira (mesa
mecanizada), onde ocorre a separação do material. O material atrai ratos, urubus e cachorros;
o cheiro é característico e forte, devido aos gases que o material reciclável produz. O teto do
barracão não consegue cobrir todo material, sendo que, quando chove, este tem seu preço
desvalorizado no mercado.
282
Foto 1 - Chegada do material reciclável na Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis
de Franca e Região (COOPERFRAN).

Fonte: Foto tirada por Bárbara Oliveira Rosa, em 2012.

Os cooperados ficam em frente à esteira, uma esteira fordista, esta dita o tempo e o
movimento dos mesmos. Cada trabalhador separa um tipo de material: o papel branco, papel
colorido, o papelão, a caixa de leite, o plástico (sacos e sacolas), o jornal, a garrafa pet, a
latinha, o vidro, o metal, o cobre, embalagens de óleo, plástico duro, plástico mole e o ferro.
Na esteira, só trabalham mulheres, uma, em cada lado da esteira, é responsável por um
material, são responsáveis pela triagem, enquanto os homens ficam nos trabalhos
considerados pesados como na prensa, manobrando o guincho e na alocação de fardos.

A divisão sexual do trabalho é considerada como um aspecto da divisão social do


trabalho, e nela a dimensão opressão/dominação está fortemente contida. Essa
divisão social e técnica do trabalho é acompanhada de uma hierarquia clara do ponto
de vista das relações sexuadas de poder. (HIRATA, 2002, p.280).

Assim, por meio da observação do cotidiano e do processo de trabalho dos


cooperados, podemos perceber que a mulher fica responsável pelas atividades consideradas
mais leves, que é a esteira, que não precisa de esforço físico. Porém, esta acaba cumprindo
uma atividade monótona, repetitiva e estressante que é separar os tipos de materiais na esteira,

283
exigindo da cooperada habilidade manuais e agilidade para acompanhar o ritmo da máquina.
Wirth (2013, p. 169), em seu estudo, mostra a divisão sexual do trabalho em duas
cooperativas, mostrando a naturalização da divisão sexual de tarefas nas cooperativas de
reciclagem:

Os trabalhos considerados pesados, que demandam grande força física concentrada e


nos quais se utilizam maquinário, como a alimentação das mesas de triagem, a
prensagem, o manejo dos fardos no estoque e o carregamento de caminhão, são
considerados masculinos nos dois empreendimentos. O trabalho da triagem, descrito
como uma função que demanda atenção, capricho, habilidades manuais finas como
tato e agilidade é, e sempre foi, majoritariamente feminino nas duas cooperativas.

O fato de os homens serem responsáveis pelo maquinário se justifica por demandar


maior força física, assim, Wirth (2013) nos traz reflexões sobre os homens serem estimulados
a se desenvolver fisicamente, além do fato de a tecnologia não ser projetada para as mulheres,
“O equipamento mecânico geralmente é produzido e montado de um modo que o torna muito
grande e pesado para ser utilizado por uma mulher comum.” (WAJCMAN, 1998, p. 255 apud
WIRTH, 2013, p.170).

Foto 2 - Esteira, onde ocorre a separação dos materiais recicláveis na Cooperativa de


Catadores de Materiais Recicláveis de Franca e Região (COOPERFRAN)

Fonte: Foto tirada por Bárbara Oliveira Rosa, em 2015.

284
Depois de separados, esses materiais são prensados. A cooperativa possuí pequenas
prensas e conta com a prensa grande que pertence a Pastoral. Depois de prensados, os
materiais são vendidos para intermediários.

O trabalho realizado pela associação de catadores e cooperativas, como a coleta e a


triagem é, em geral, absorvido pelos elos da cadeia produtiva posicionados acima
dessas organizações. Após a separação por tipo (plástico, papelão, vidro, alumínio,
etc), os materiais são vendidos para atravessadores e sucateiros, que são
intermediários entre as organizações populares (ou catadores individuais) e as
indústrias recicladoras. Os preços praticados obedecem a padrões internacionais e
são “ditados pela Bolsa de Valores de Londres”. (MNCR, 2009, p. 55 apud WIRTH,
2013, p. 98).

Foto 3 - “Bags”, material prensado para a venda, na Cooperativa de Catadores de Materiais


Recicláveis de Franca e Região (COOPERFRAN)

Fonte: Foto tirada por Bárbara Oliveira Rosa,em 2012.

Como vimos as principais legislações promovem a reciclagem, incentivam o


Município a fomentar cooperativas de catadores, além de propor a participação social dos
catadores por meio de trabalho em associações e cooperativas. Porém, as políticas públicas se
constituem de maneira contraditória, como observamos na cooperativa COOPERFRAN. Ao
mesmo tempo em que gera empregos e utiliza a reciclagem como uma alternativa para a
problemática do lixo, acaba sendo um espaço em que os catadores fazem um trabalho de
responsabilidade pública, sem direitos trabalhistas, expostos a doenças, no qual se atende mais
o interesse público que o interesse do coletivo.
285
Há duas legislações que regulamentam a cooperativa COOPERFRAN: o Estatuto
Social, uma lei que organiza a cooperativa, explica sobre as eleições, os cargos da diretoria,
como vai ser as retiradas; outro documento importante é o Regimento Interno que regula o
funcionamento da cooperativa, o horário de entrada e de saída dos cooperados e outras
questões internas.
Na legislação e por meio da observação, percebemos a invisibilidade da cooperativa
para o poder público, além de outras questões, como uma distorção entre o “Estatuto Social” e
a “Cooperativa Real”. No “Estatuto Social”, o Fundo Único tem valores altíssimos, que
seriam uma reserva da cooperativa, o que se torna um agravante, pois a cooperativa nunca
consegue ter este fundo, porque os cooperados conseguem tirar apenas seus salários.
Outro ponto é a cota parte, um trabalhador que começa a trabalhar na cooperativa, não
tem o dinheiro da cota parte para poder entrar no empreendimento, por isso, este é
regularizado posteriormente ou parcelado, como vemos, no anexo, o Estatuto Social da
Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis de Franca e Região.
Os catadores ficam expostos a doenças, sem direitos trabalhistas (porque é uma
cooperativa), além de terem que contribuir, por conta própria, ao Instituto Nacional do Seguro
Social - INSS, fato que está acontecendo recentemente na cooperativa.

REFERÊNCIAS

ALVES, G. Dimensões da reestruturação produtiva: ensaios de sociologia do trabalho 2.


ed. Londrina: Praxis; Bauru: Canal 6, 2007.

BARBOSA,R.N.C.A economia solidária como política pública: uma tendência de geração


de renda e ressignificação do trabalho no Brasil. São Paulo: Cortez, 2007.

BORTOLI, M.A. Processos de organização de catadores de materiais recicláveis: lutas e


confirmações. Revista Katálysis, Florianópolis, v.16, n.2, p.248257, jul./dez. 2013.
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rk/v12n1/13.pdf>. Acesso em: 10jun.2013.

BRASIL. Lei n. 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio
Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências.
Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 2 set. 1981. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6938.htm>. Acesso em: 3 out. 2014.

______. Lei n. 7.347, de 24 de julho de 1985. Disciplina a ação civil pública de


responsabilidade por danos causados ao meio-ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de
valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico e dá outras providências. Diário

286
Oficial da União, Brasília, DF, 25 jul. 1985. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/leis/L7347orig.htm>. Acesso em: 3 out. 2014.

______. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988.

______. Lei n. 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e


administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras
providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 fev. 1998. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9605.htm>. Acesso em: 3 out. 2014.

______. Lei n. 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art. 225, § 1o, incisos I, II, III e VII
da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e
dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 jul. 2000. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9985.htm>. Acesso em: 3 out. 2014.

______. Decreto nº 5.940, de 25 de outubro de 2006. Institui a separação dos resíduos


recicláveis descartados pelos órgãos e entidades da administração pública federal direta e
indireta, na fonte geradora, e a sua destinação às associações e cooperativas dos catadores de
materiais recicláveis, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 out.
2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-
2006/2006/Decreto/D5940.htm>. Acesso em: 3 out. 2014.

______. Lei n. 11.445, de 5 de janeiro de 2007. Estabelece diretrizes nacionais para o


saneamento básico. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 8 jan. 2007a. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/l11445.htm>. Acesso em: 3
out. 2014.

______. Lei n. 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos


Sólidos; altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Diário
Oficial da União, Brasília, DF, 3 ago. 2010a. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm>. Acesso em: 3
out. 2014.

CAVALCANTE, C. Desenvolvimento e natureza: estudos para uma sociedade sustentável.


São Paulo: Cortez, 1995.

CAVALCANTE, S. Profissão perigo: percepção de riso à saúde entre os catadores do Lixão


do Jangurussu. Revista Mal Estar e Subjetividade, Fortaleza, v. 7, n. 1, p. 211-231, mar.
2007.

CMMAD. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1988.

COCKELL, F. F. et al. Triagem de lixo reciclável: análise ergonômica da atividade. Revista


Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 29, n. 110, p. 17-26, 2004.

ISO. Environmental management systems-requirements with guidance for use: ISO


14001: 2004. [Geneva], 2004.

287
JUNTA, V. S. Educação ambiental e socioeconomia solidária: a experiência da cooperativa
de catadores de materiais recicláveis de Franca. 2005. Trabalho de Conclusão de Curso
(Bacharelado em Serviço Social) - Faculdade de História, Direito e Serviço Social,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, 2005.

MAGERA, M. Os empresários do lixo: um paradoxo da modernidade. Campinas: Átomo,


2003.

MENDES, R. C. L. Os catadores e seletores de material reciclável: o social e o ambiental


na lógica do capitalismo. 2009. Tese (Doutorado em Serviço Social) - Faculdade de História,
Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca,
2009.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Conselho Nacional de Saúde. Comissão Nacional de Ética em


Pesquisa. Resolução CNS nº 196, de 10 de outubro de 1996. Diário Oficial da União,
Brasília, n. 201, p. 21082, 16 out. 1996. Seção 1. Disponível em:
<http://conselho.saude.gov.br/web_comissoes/conep/aquivos/resolucoes/23_out_versao_final
_196_ENCEP2012.pdf>. Acesso em: 2015.

MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolução


CONAMA n. 307, de 5 de julho de 2002. Diário Oficial da União, Brasília, DF, n. 136,
Seção 1, p. 95-96, jul. 2002.

MIURA, P. C. O. Tornar-se catador: uma análise psicossocial. 2004. Dissertação (Mestrado


em Psicologia Social) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2004.
Disponível em: <http://www.sapientia.pucsp.br/tde_arquivos/25/TDE-2009-09-
09T13:34:15Z-8342/Publico/Paula%20Miura%20completa.pdf>. Acesso em: 3 out. 2014.

MOVIMENTO NACIONAL DOS CATADORES DE MATERIAIS


RECICLÁVEIS.Secretaria Nacional do MNCR. Cartilha de formação. São Paulo, 2005.

______.A crise financeira e os catadores de materiais recicláveis. Mercado de Trabalho:


Conjuntura e Análise, Brasília, DF, n. 41, p. 55-58, nov. 2009. Disponível em:
<http://www.mncr.org.br/artigos/a-crise-financeira-e-os-catadores-de-materiais-reciclaveis>.
Acesso em: 1 dez. 2010.

______. Sobre o movimento: o que é o movimento. São Paulo,6 set. 2013. Disponívelem:
<http://www.mncr.org.br/sobre-o-mncr/o-que-e-o-movimento>.Acessoem:16jul.2013.

SALES, Priscilla. Reunião com a Pastoral não apresenta resultados. Comércio da Franca,
Franca, 7 jun. 2001. p. A8.

______. Coleta seletiva: aplicação de recursos não seria fiscalizada. Comércio da Franca,
Franca, 14 jun. 2001, p. 10.

______. Dinheiro do lixo desaparece na burocracia. Comércio da Franca, Franca, 16 jun.


2001. p. A10.

288
______. Prefeitura ignora evidências e mantém repasse à Pastoral. Comércio da Franca,
Franca, 20 jun. 2001. p. A10.

SILVA, M. G. Questão ambiental e desenvolvimento sustentável: um desafio ético político


ao Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2010.

WIRTH, I. G. Mulheres na triagem, homens na prensa: questões de gênero em


cooperativas de catadores. São Paulo: Annablume : Fapesp, 2013.

289
MÍDIA, SANEAMENTO BÁSICO E POLÍTICAS PÚBLICAS

Silvia Aline Silva Ferreira*


Gabriela Araújo Correia**

Resumo: o presente trabalho tem por objetivo compreender como a mídia tem retratado o
descaso das políticas públicas de saneamento básico no país, apresentando um breve contexto
da realidade brasileira frente às diretrizes da Política Nacional de Saneamento, aprovada em
janeiro de 2007. Tal estudo justifica-se pelo fato de a ausência de políticas públicas de
saneamento básico serem responsáveis pela potencialização da situação de pobreza e de
contaminação de crianças e adultos em todo território nacional, especialmente nas regiões
mais pobres. Desta forma, podemos afirmar ser de suma importância a garantia de políticas
públicas de saneamento básico para garantia da qualidade de vida da população e também
para preservação ambiental.

Palavras Chaves: Saneamento Básico, Mídia, Políticas Públicas.

Introdução
Segundo dados do IBGE (2016), o Brasil conta com cerca de 206 milhões de pessoas
em todo território nacional, com as maiores taxas concentradas nas regiões Norte e Centro-
Oeste. Nas últimas décadas, a população rural perdeu 2 milhões de pessoas e reduziu para
15,6% do total da população brasileira. Já a população urbana ganhou 23 milhões de
habitantes e representa 84,4% do total dos brasileiros (IBGE, 2011). No entanto, a
urbanização ocorreu de forma desigual, com grande desigualdade entre as classes sociais e
entre as regiões. Assim, devido a imensa territorialidade do país e as desigualdades
socioterritoriais, os estados brasileiros não ofertam serviços de saneamento básico de forma
linear. Infelizmente, mesmo o Brasil sendo a sexta economia do mundo, o país apresenta
índices de cobertura de saneamento básico de países subdesenvolvidos.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), saneamento é o controle de
todos os fatores do meio físico do homem, que exercem ou podem exercer efeitos nocivos
sobre o bem-estar físico, mental e social. É possível compreender o saneamento básico como
fundamental para a manutenção da vida na terra e ainda como a capacidade de inibir, prevenir
ou impedir a ocorrência de doenças associadas ao meio ambiente em que estão expostos.

*
Mestranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, UNOESTE – Presidente Prudente.
**
Mestranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, UNOESTE – Presidente Prudente

291
A oferta de saneamento abrange serviços de abastecimento de água às populações;
coleta, tratamento e disposição adequada de esgotos sanitários, resíduos líquidos industriais e
agrícolas; acondicionamento, coleta, transporte e destino final dos resíduos sólidos; drenagem
urbana; controle de vetores de doenças transmissíveis e controle da poluição ambiental –
água, ar, solo, acústica e visual.
A ausência de saneamento nas áreas mais pobres agrava as condições epidemiológicas
da população. Sobre isso, destaca-se também a ausência de habitação segura à mais de 1
bilhão de habitantes no mundo. A população pobre é a que mais sofre com ausência de
serviços de saneamento básico, devido ao fato de estarem concentradas em áreas de risco, sem
condições adequadas de urbanização, sem serviços de coleta de esgoto, sem coleta de
resíduos, entre outros. Esse cenário potencializa o criadouro de insetos e mosquitos
transmissores de doenças.
A diarreia, por exemplo, que com mais de quatro bilhões de casos por ano é uma das
doenças que mais aflige a humanidade, causa 30% das mortes de crianças com menos de um
ano de idade. Entre as causas destacam-se as condições inadequadas de saneamento
(GUIMARÃES, CARVALHO e SILVA, 2007).
Frente a este problema, o presente trabalho objetivou compreender, através de revisão
bibliográfica e análise sistemática de sites e portais, como a mídia tem retratado o descaso das
políticas públicas de saneamento básico no país, apresentando um breve contexto da realidade
brasileira frente às diretrizes da Política Nacional de Saneamento, aprovada em janeiro de
2007.

Contextualizando Saneamento Básico

O saneamento básico é um direito assegurado pela Constituição Federal de 1988 e


definido pela Lei nº 11.445/2007 como um conjunto de serviços, infraestrutura e instalações
operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem
urbana, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais. Suas atividades estão baseadas em:

abastecimento de água potável: constituído pelas atividades, infra-estruturas e


instalações necessárias ao abastecimento público de água potável, desde a captação
até as ligações prediais e respectivos instrumentos de medição; b) esgotamento
sanitário: constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações operacionais de
coleta, transporte, tratamento e disposição final adequados dos esgotos sanitários,
desde as ligações prediais até o seu lançamento final no meio ambiente; c) limpeza
urbana e manejo de resíduos sólidos: conjunto de atividades, infra-estruturas e
292
instalações operacionais de coleta, transporte, transbordo, tratamento e destino final
do lixo doméstico e do lixo originário da varrição e limpeza de logradouros e vias
públicas; d) drenagem e manejo das águas pluviais urbanas: conjunto de atividades,
infra-estruturas e instalações operacionais de drenagem urbana de águas pluviais, de
transporte, detenção ou retenção para o amortecimento de vazões de cheias,
tratamento e disposição final das águas pluviais drenadas nas áreas urbanas
(BRASIL, 2007).

A mesma lei estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico e para a


Política Federal de Saneamento Básico e aponta como princípios fundamentais:

“I - universalização do acesso; II - integralidade, compreendida como o conjunto de


todas as atividades e componentes de cada um dos diversos serviços de saneamento
básico, propiciando à população o acesso na conformidade de suas necessidades e
maximizando a eficácia das ações e resultados; III - abastecimento de água,
esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo dos resíduos sólidos realizados de
formas adequadas à saúde pública e à proteção do meio ambiente; IV -
disponibilidade, em todas as áreas urbanas, de serviços de drenagem e de manejo das
águas pluviais adequados à saúde pública e à segurança da vida e do patrimônio
público e privado; V - adoção de métodos, técnicas e processos que considerem as
peculiaridades locais e regionais; VI - articulação com as políticas de
desenvolvimento urbano e regional, de habitação, de combate à pobreza e de sua
erradicação, de proteção ambiental, de promoção da saúde e outras de relevante
interesse social voltadas para a melhoria da qualidade de vida, para as quais o
saneamento básico seja fator determinante; VII - eficiência e sustentabilidade
econômica; VIII - utilização de tecnologias apropriadas, considerando a capacidade
de pagamento dos usuários e a adoção de soluções graduais e progressivas; IX -
transparência das ações, baseada em sistemas de informações e processos decisórios
institucionalizados; X - controle social; XI - segurança, qualidade e regularidade;
XII - integração das infra-estruturas e serviços com a gestão eficiente dos recursos
hídricos.”

De acordo com dados publicados por pesquisas nacionais, a evolução de implantação da


política de saneamento tem caminhado a passos lentos e a saúde das pessoas tem sido afetada.
Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS 2014, atualmente
cerca de 35 milhões de brasileiros não tem acesso a água tratada. Sendo que o Sudeste atinge
o percentual de 91,7% de cobertura de água tratada e no Norte o índice é de 54,51% de água
tratada. O Brasil ocupa 11° Ranking latino-americano, atrás do Peru, Bolívia e Venezuela em
distribuição de água tratada para população. Somente 48,6% da população brasileira têm
acesso à coleta de esgoto. Portanto 52,4% da população, ou seja, mais de 100 milhões de
brasileiros não tem acesso a coleta de esgoto.
Outro dado alarmante é que aproximadamente 3,5 milhões de brasileiros, nas 100
maiores cidades do país, despejam esgoto irregularmente, mesmo tendo redes coletoras
disponíveis, seja por questões culturais ou até mesmo pela falta de ligamento do esgoto
residencial com a tubulação da rua. O SNIS 2014 identifica ainda que cerca de 20%, ou seja,

293
4 milhões de habitantes ainda não têm acesso a banheiro, fazendo suas necessidades
fisiológicas a céu aberto. A ausência de banheiros adequados para a população potencializa a
contaminação fecal-oral de doenças entre a população em geral.

Contaminação da água

O Brasil apresenta hoje um quadro de urbanização avançado, com aproximadamente


75% de sua população, ou 111 milhões de pessoas, vivendo em núcleos urbanos. A
urbanização não foi acompanhada por investimentos em infraestrutura, especialmente as
relacionadas ao saneamento. As periferias das regiões metropolitanas apresentam grande
carência, tanto em abastecimento de água quanto em coleta e tratamento do esgoto. Vale
ressaltar que, nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, a urbanização ocupou boa parte das bacias
hidrográficas, criando condições de conflito entre grandes usuários de água, como é o caso
dos setores de energia hidrelétrica e de saneamento (BORSOI, TORRES, 1997).
A concentração urbana, os avanços tecnológicos e a globalização contribuíram
exponencialmente para o agravo das condições ambientais. Segundo Borsoi e Torres, 1997, p.
2:
A água é considerada um recurso ou bem econômico, porque é finita, vulnerável e
essencial para a conservação da vida e do meio ambiente. Além disso, sua escassez
impede o desenvolvimento de diversas regiões. Por outro lado, é também tida como
um recurso ambiental, pois a alteração adversa desse recurso pode contribuir para a
degradação da qualidade ambiental. Já a degradação ambiental afeta, direta ou
indiretamente, a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades sociais
e econômicas; a fauna e a flora; as condições estéticas e sanitárias do meio; e a
qualidade dos recursos ambientais.

O “Ranking do Saneamento Básico nas 100 Maiores Cidades”, divulgado em 2016 pelo
Instituto Trata Brasil, apresenta que 79 municípios contam com alto índice de perda na
distribuição de água, igual ou superior à 30%, tendo sete cidades com perdas acima de 60%.
Outro problema que também preocupa é a coleta de esgoto, que é quando ocorre uma
interligação entre residências e demais estabelecimentos e indústrias a uma rede de coleta de
esgoto. Para que o mesmo não seja despejado em locais inapropriados, ele passa por um
tratamento em uma estação antes de retornar ao meio ambiente. Porém, o retrato atual no
Brasil mostra que pouco menos da metade da população têm acesso a este serviço. Em duas
cidades do Pará, sendo elas Ananindeua e Santarém, por exemplo, não existe coleta de esgoto.

294
No que corresponde ao ranking de água tratada, entre os dez piores está o município de
Ananindeua, no Pará, que conta com o preocupante número de apenas 26,89% da população
com água tratada.
Segundo Instituto Trata Brasil, o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento
(SNIS 2014) aponta que apenas 40% do esgoto do país são tratados e que a média de
tratamento de esgotos das 100 maiores cidades do país é de 50,02% e que apenas 10 dessas
cidades tratam acima de 80% dos seus esgotos. Ainda de acordo com o mesmo instituto, a
região Norte do Brasil tem apenas 14, 36% do seu esgoto tratado; Nordeste apenas 28,8%;
Sudeste e Sul tem 43,9% e Centro-oeste 46,37% do esgoto tratado. Observando a imensidão
territorial e também populacional do país, percebe-se o quanto é necessário avançar na oferta
de saneamento básico para população.
Observando a imensidão territorial e também populacional do país, percebe-se o quanto
é necessário avançar na oferta de saneamento básico para população. Frente a estes dados,
cada vez mais os rios, lagos, mananciais e lençóis freáticos estão sendo contaminados pela
falta de tratamento do esgoto e a população está exposta as diversas doenças oriundas da água
contaminada. Atualmente 50,08% do lixo coletado ainda é depositado em vazadouros a céu
aberto, o que pode significar contaminação do solo e de lençóis de água.
A Portaria 36/90 define os padrões de potabilidade da água, como sendo “conjunto
de valores máximos permissíveis das características das águas destinadas ao consumo
humano”. As principais impurezas presentes na água são:

Características físicas: está associada, em sua maior parte, à presença de sólidos na


água. Esses sólidos podem ser maiores, estar suspensos ou dissolvidos (sólidos de
pequenas dimensões); características químicas: podem ser interpretadas como
matéria orgânica e inorgânica (mineral); características biológicas: seres presentes
na água (BOVOLATO, 2012, p. 11).

A partir de 1970, com a aprovação do Plano Nacional de Saneamento (PLANASA) e


com o Banco Nacional de Habitação, o país passou a se preocupar com o tratamento das
águas, de forma que a partir deste momento ocorreu a estruturação de instituições e
financiamentos de saneamento básico em todo território brasileiro. No decorrer dos anos,
novas legislações foram sendo criadas, como a Lei de Saneamento Básico (Lei 11445, de
2007) e a Lei de Resíduos Sólidos (Lei 20305, de 2010), que estabelecem compromissos de
toda a sociedade, obrigando os municípios a desenvolverem os planos municipais de
saneamento e de resíduos.

295
Reflexo do descaso na saúde da população

A grande maioria da população que não recebe o serviço de saneamento básico, estão
suscetíveis a diversas doenças causadas pelas más condições oriundas da falta de tratamento
de água e esgoto. A exposição a vírus, bactérias e condições insalubres aumenta a incidência
de doenças que podem levar a morte. Pesquisas do Instituo Trata Brasil, revelam que 7
crianças morrem todos os dias no país por falta de saneamento. São 2.500 crianças mortas
todos os anos por ausência de saneamento básico. Segundo informações do mesmo instituto, a
diferença de aproveitamento escolar entre crianças que têm e não têm acesso a saneamento
básico é de 18%.
Outra pesquisa do Instituto revela que as principais vítimas da falta de saneamento são
as crianças na faixa etária entre 1 e 6 anos, com probabilidade 32% maior de morrerem por
doenças relacionadas a falta de acesso a esgoto coletado e tratado de forma adequada.
O Instituto Trata Brasil, comprova que a implantação de rede de esgoto reflete
positivamente na saúde e na qualidade de vida do trabalhador, gerando o aumento da sua
produtividade e renda. A pesquisa revelou que, por ano, 217 mil trabalhadores precisam se
afastar de suas atividades devido a problemas gastrintestinais ligados a falta de saneamento. A
cada afastamento, perde-se 17 horas de trabalho em média. A probabilidade de uma pessoa
com acesso à rede de esgoto faltar às suas atividades por diarreia é 19,2% menor que uma
pessoa que não tem acesso à rede.
Por outro lado, ao ter acesso à rede de esgoto, um trabalhador aumenta a sua
produtividade em 13,3%, permitindo assim o crescimento de sua renda na mesma proporção.
O estudo também apurou que em 2009, de acordo com o DATASUS, dos 462 mil pacientes
internados por infecções gastrintestinais, 2.101 faleceram no hospital. Cada internação custa,
em média, R$ 350,00.
As principais doenças citadas pelo Portal do Saneamento Básico, 2016, são: febre
tifoide; cólera, leptospirose, disenteria bacteriana, parasitoides. Essas doenças normalmente
acometem infecções intestinais, disenterias, esteatorreia e diversos outros sintomas
extremamente incômodos ao doente. Além disso, sua incidência pode prejudicar
consideravelmente o desenvolvimento do indivíduo, tanto físico quanto intelectual, po