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Clyde T.

Francisco

INTRODUÇÃO AO
VELHO TESTAMENTO

Tradução de Antônio Neves de


Mesquita

2a edição
1979

JUERP

A
Todos os direitos reservados. Copyright (c) 1967 da Broadman Press,
Nashville, Tennessee, cedido para a edição em Português da Junta de
Educação Religiosa e Publicações.
Tradução autorizada do original em inglês: Introducing the Old
Testament

221.1
Fra-lnt Francisco, Clyde T
Introdução ao Velho Testamento. Tradução de Antônio Neves de Mesquita.
2* edição. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosa e Publicações,
1979. 288p.
A meu pai, L. T. Francisco, cujo
Título original em inglês : Introducing the Old Testament 1. Velho
Testamento — Introdução. I. Título. amor à Bíblia serviu-me de
inspiração.
CDD — 221.1

Capa de Walter Karklis Número de Código para Pedidos: 21.711


Junta de Educação Religiosa e Publicações da
Convenção Batista Brasileira
Caixa Postal320 — CEP: 20000
Rua Silva Vale, 781 - Cavalcânti - CEP: 21.370
5.000/197» Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Impresso em gráficas próprias


APRESENTAÇÃO

Este é o primeiro livro que sai da pena do autor e é de esperar-se


não seja o último. Ele é um estudioso de grande futuro, segundo
revelam os seus assentamentos de estudante, tanto na Universidade de
Richmond como no Seminário Batista do Sul, situado em Louisville. Tem
acentuada paixão pelos estudos do Velho Testamento, e muito se pode
aguardar de um moço que se dedica a ensinar aos outros as mesmas
verdades que lhe inflamaram o espírito.
A natureza e propósito deste livro estão claramente indicados no
título: Introdução ao Estudo do Velho Testamento. Não se pode esperar
que seja um estudo exaustivo desta matéria, mas apenas uma
introdução às investigações desta importante parte da Bíblia. Por isso,
consideramos o livro de grande vantagem aos principiantes destes
estudos no Velho Testamento, embora não deixemos de reconhecer que
será útil, de igual modo, a todos os que desejam ter um substancial
conhecimento desta matéria.
O autor é professor de Interpretação do Velho Testamento no
Seminário Batista do Sul, Louisville, e foi para os seus estu dantes que o
livro foi primariamente escrito, mas ao mesmo tempo será de grande
utilidade aos outros professores da matéria que desejem ter uma
compreensão adequada dos problemas que giram em torno desta parte
da Bíblia.
Todos reconhecemos que muito foi "escrito", na Lei de Moisés e
nos Profetas e nos Salmos, a respeito de Cristo e das coisas que Cristo
mesmo disse, "que deveriam cumprir-se". 0 conhecimento do Velho
Testamento torna-se indispensável a todos os estudantes que desejam
entender esta mensagem e o Ministério do Senhor Jesus. Portanto,
pensamos que é de grande valor e importância um livro como este.

Ellis A. Fuller
Presidente do "Southern Baptist Theological Ssminary",
Louisville, Ky.

3
pêro. Depois de feitos estes exames, com o rigor desejado, podemos estar
certos de que algumas verdades seguras e profundas terão sido
consolidadas. A Introdução ao Velho Testamento procura apresentar as
verdades eternas que puderam sobreviver ao combate dos eruditos e
críticos.
As citações das Escrituras contidas neste livro são tiradas da
versão de Almeida, por ser a mais popular entre nós. As citações de
PREFÁCIO autores aqui referidos serão acusadas em notas de rodapé, e de todos
eles tivemos a devida permissão.

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17
Í N D I C E
UMA PALAVRA SOBRE ESTA TRADUÇÃO
Pégina*
APRESENTAÇÃO .....................................................................................................
para breve descanso
PREFACIO................................................................................................................
UMA PALAVRA SOBRE e estudo, entrei em
contato com diversos
ESTA TRADUÇÃO..............................................................................................
11 seminários e alguns
INTRODUÇÃO — A professores. Assisti,
igualmente, a
NATUREZA DO VELHO
algumas aulas.
TESTAMENTO
Passei mais de um
mês no Seminário
PARTE I — O Teológico Batista do
PENTATEUCO........................................................................................................
Sudoeste, no Texas,
O Livro d»
e um mês ou mais
Gênesis....................................
no Seminário
35
O Livro do
Teológico Batista do
Sul, em Louisville,
Êxodo................................................................................
49 Ky. Num e noutro,
O Livro de mantive
Levítico............................................... conversações com
53 professores de alto
O Livro de
gabarito que, não
Número».......................................................................
67 obstante, foram
O Livro de muito solícitos com o
professor brasileiro.
Deuteronômio ..................................................................................................
59 Foi num destes
PARTE II — ESTUDOS contatos, no
NOS LIVROS
Seminário de
HISTÓRICOS.................................................................................................
Louisville, que me
• 67
O Livro de
encontrei com o Dr.
Josué........................................ Clyde Francisco,
7
1 moço culto e
O Livro de inteligente, que
Juíze*........................................ muito me
75
impressionou,
O Livro de especialmente pela
Rute.............................................. sua simplicidade. É
79
característica dos
Os Livro» de
homens de valor a
8amuel............................................
humildade, pois a
81
Primeiro »
presunção só medra
Segundo Rei»......................................... em espíritos
83 medíocres.
Primeiro e
Nesse contato,
Segundo Crônicas......................................................................
95 verifiquei que o
Esdra» e Sylabus for the
Neemia»......................................... Testament (Silabo do
97
Velho Testamento),
O Livro de do falecido professor
Ester.................................................................................
99 Dr. J.R. Sampey,
Sumário da havia sido
História de Israel — desenvolvido num
931-722 a. C...........................................................................................
101
livro precioso. Logo
Sumário da me veio à mente
História Hebraica — traduzi-lo para os
722-330 a C............................................................................................
estudantes dos
107
PARTE III — ESTU DOS
seminários no Brasil,
e — por que não
NOS PROFETAS..........................................................................
111 dizê-lo? — para
Obadia» . . . todos os crentes,
. especialmente
11i
professores das
Joel........................................................................................................
Jonas...................................................... Escolas Bíblicas
123 Dominicais. Obtida,
Amó».....................................................................................................
com prazer, aliás, a
Oséia»...................................................................................................
devida autorização,
Miquéia»................................................................................................
voltei com o livro em
Isaia.......................................................................................................
inglês para o Brasil.
Naum.....................................................................................................
Sofoniaa................................................................................................
Logo que me foi
161
possível, iniciei a
Habaeuqu».............................................................
166 tradução, mas tinha
Jeremia»...................................................... outra obra a
1
69
traduzir, à qual
Ezequiel.................................................................................................
185 deveria dar
preferência. Esta
Daniel....................................................................................................
Ageu.......................................................................................................
obra já se encontra à
Zacarias.................................................................................................
venda, tendo por
203
título — A Bíblia e as
Malaquias..............................................................................................
207
Civilizações Antigas.
PARTE IV — ESTUDOS Feita essa tradução,
enquanto esperava a
NOS LIVROS POÉTICOS..........................................................................................
211 possibilidade da
publicação, iniciei a
O Livro d» Jó.........................................................................................
215 tradução desta. As
O» Salmos . . ...............
minhas ocupações
................................................................ sempre foram
227
O» Provérbio»..................... muitas, e o tempo
245 para tais
O Livro d»
Eclesiaste» . . . . empreendimentos se
resumia aos
O Cântico dos sábados.feriadosea
Cântico»..............................................
um ou outro
256
momento vago.
O Livro da»
Lamentações . . Nesse meio
tempo, solicitei do
Cartas Cronológicas do
Dr. Eliézer Corrêa de
Mundo Antigo e do Reino
Oliveira uma ajuda
de Israel...................................................................................................................
na tradução, o que
Quando em ele de bom grado
1952 fui aos EE.UU. aceitou. Creio que o

18
trabalho deve
pertencer aos dois,
em partes iguais.

Poucas
observações tenho a
fazer quanto ao
escopo desta
tradução.
Procuramos ser fiéis
ao texto original,
pois, modéstia à
parte, no que nos
toca, manejamos bem
o inglês. Não incluí
na tradução a
bibliografia, por estar
toda em inglês e estes
livros não serem
encontrados no
Brasil.

Estou certo de
que, dando a lume
esta obra, estou
prestando relevante
serviço,
especialmente aos
estudantes do Velho
Testamento. A
carência de livros de
texto nos seminários
é simplesmente
calamitosa. Nem sei
bem como se faz um
curso sem

19
INTRODUÇÃO

se poder manejar o inglês e o francês, e sem ter, no vernáculo, livros


adequados. Já agora, com as duas traduções aqui referidas e outras, há
sensível melhora neste particular.
Sou grato ao Dr. Almir S. Gonçalves, Diretor do Departamento de
Livros da Casa Publicadora Batista, pelo interesse tomado na publicação
dos meus livros, incluindo esta tradução. Se o tempo e a capacidade me
ajudarem, espero poder terminar outros que estão começados.
Igualmente, desejo apreciar a ajuda de minha esposa, na colaboração
dos acentos e na revisão geral em que ela é mestra.
Rio de Janeiro, GB, 16 de maio de 1966

Antônio Neves de Mesquita

P.S. Com especial prazer chamo a atenção do leitor para a tábua


cronológica no fim do volume. Trata-se de um trabalho penoso, pois
dependeu de muita investigação, mas de grande utilidade para os
amantes da História. Como declarei no fim do trabalho, a primeira parte,
desde os albores da civilização até o Reino de Saul, é minha, e já foi
usada no livro Povos e Nações do Mundo Antigo, tendo agora sofrido
algumas alterações.
A NATUREZA DO VELHO TESTAMENTO

Não obstante ser a Bíblia o livro mais vendido no mundo inteiro,


nem por isso todo povo tem perfeito conhecimento dela, muito
especialmente no Brasil. Lida pelos pregadores e mesmo pelos crentes,
dela se valendo muitos para reforçar as suas opiniões em matéria de
moral e mesmo filosofia, ainda assim se pensa que a Bíblia é livro para
ser interpretado por especialistas em matéria de exegese. Este ponto de
vista é especialmente verdadeiro quanto ao Velho Testamento. Até certo
ponto, são responsáveis por tais idéias os intérpretes inexperientes, que
procuram colocar o Velho Testamento dentro do Novo ou vice--versa,
ignorando a situação histórica de cada parte. Se o V.T. é apenas o Novo
em hieróglifos, então é muito mais fácil ler apenas o Novo Testamento e
desprezar o Velho. Qualquer estudo feito à margem da história do Velho
Testamento é a mesma coisa que tirar-lhe a vida e formar um esqueleto.
Muitos dos críticos têm dado sua contribuição a esta maneira de
entender o Velho Testamento e de criar uma antipatia de todo
desnecessária. Muitos deles decompuseram-no em pedaços, como se
estivessem fazendo um estudo anatômico, tiran-do-lhe toda a conexão
histórica e destruindo a verdade ou rele-gando-a a um plano de segunda
categoria. Um grande escritor disse: "eles começaram com um canivete e
terminaram com um machado" (x); ou como outro afirmou: "eles foram
atiçados pelas fascinantes cavilações da vaidade humana." ( 2) Todavia,
valiosa contribuição foi feita ao estudo do Velho Testamento no sentido
de que é impossível interpretar uma passagem deslocada do seu lugar e
do sentido histórico; e o estudo destes críticos tem sido feito de tal modo
que todo o peso e o valor das verdades espirituais foram totalmente
negligenciados. A sua ênfase evolucionista levou-os à convicção de que
apenas pequenas porções do Velho Testamento são dignas de estudo: as
dos profetas do oitavo século antes de Cristo, quando o Velho
Testamento alcançou o seu ponto culminante. Entretanto, para os
escritores do Novo Testamento, o Velho tinha outro valor muito diferente.
Não se detiveram apenas nos livros do Velho Testamento que

12 20
mais se aproximavam dos ensinos de Jesus, mas contemplaram a história
dos hebreus no seu todo, culminando com a revelação de Deus ao Israel
espiritual, por meio da encarnação do Filho. Em Jesus mesmo
encontramos essa atitude. Ele sempre considerou as Escrituras como um
todo e nunca como uma compilação.
Outros, por sua vez, diminuem o Velho Testamento, quando o
comparam com o Novo Testamento. Afirmam que, sendo o Novo
Testamento o cumprimento do Velho, o estudo das Escrituras judaicas é
de pequena valia. Tal opinião é tão estulta como a do estudante que
imaginasse começar o seu estudo da linguagem do Velho Testamento
numa classe de Hebraico adiantado, na suposição de que somente num
estudo avançado é que se pode compreender a revelação completa. A
verdade é que, para se compreender o hebraico, tem de se passar pelo
vale preliminar da iniciação desta língua. Do mesmo modo, os que pre-
tendem entender o Novo Testamento ignorando o Velho são passíveis de
penalidades, pelas injustiças e incompreensões de suas interpretações.
Tal atitude tem levado muitos eruditos a interpretar o Novo Testamento
segundo a literatura e pensamento gregos, ignorando ou pretendendo
ignorar o conceito e a natureza hebraica, que lhe deram origem. Esta tem
sido a característica feição da história do pensamento cristão. Nos últimos
anos, entretanto, a maior ênfase da erudição neotestamentária tem sido
posta na unidade essencial da Bíblia. Como um escritor muito bem disse:
"Nenhum progresso ou compreensão do cristianismo primitivo será
possível, a menos que a arca da exegese do Novo Testamento seja
reconduzida de sua matroca nas terras dos filisteus ao porto seguro das
Escrituras clássicas do Velho Testamento, à Lei e aos Profetas." (3)
Contrariamente, o Velho Testamento não deve ser estudado independente
do Novo, porque é este que abre a porta de muitos mistérios do Velho
Testamento, inclusive do plano e propósito que presidiram a sua reve-
lação.
Talvez a maior dificuldade que uma pessoa que deseja compreender
o Velho Testamento encontre seja justamente a inadequada compreensão
de sua literatura. O meio pelo qual os escritores comunicaram os seus
pensamentos foi a linguagem. A arte de falar é a principal bênção pela
qual as idéias de uma pessoa podem ser comunicadas a outra. A
linguagem, por sua vez, tem suas formas definidas, as quais levam
consigo suas leis e seus modos de interpretação. Se um escritor bíblico
usou um tipo particular de literatura, o seu pensamento deve ser in -
terpretado de acordo com as leis universais da linguagem, daquele modo
de expressão. A menos que uma pessoa seja capaz de determinar se certa
passagem é uma ousada imaginação poética ou apenas prosaica
declaração de um fato científico, a sua interpretação deve,
necessariamente, ser precária. Se tal fato não puder ser devidamente
determinado, o significado da passagem deve permanecer em dúvida.
Uma vista de olhos à Bíblia em português revelará que bem pouco
auxílio poderá obter um leitor para descobrir o tipo de. literatura de uma
passagem qualquer. Se abrirmos a Bíblia em qualquer ponto,
verificaremos que ela foi arbitrariamente dividida em capítulos, livros e
versos. Não compreendendo que os capítulos e versos foram colocados
para facilitar a leitura, o leitor comum concluirá que aquelas divisões
sempre fizeram parte da Bíblia, sabendo nós, entretanto, que o original
não tinha nem capítulos nem versos. Certamente tais coisas ajudam a
compreender as Escrituras, mas a literatura sagrada sofreu muito por
causa de tal desmembramento. Imagine-se o que aconteceria se os
poemas de Tennison fossem editados em capítulos e versos, sem qualquer
consideração para com o arranjo original. Entretanto, foi justamente isto
que aconteceu com a Bíblia.
Há alguns que consideram o estudo literário das Escrituras como
desaconselhável, como se a admiração da beleza de uma flor prejudicasse
a apreciação do seu admirável odor. Antes de qualquer coisa poder ser
admirada, deve ser capaz de atrair. 0 manejo teológico das Escrituras tem
destruído muito da sua beleza e atração. Necessitamos renovar a
apreciação da beleza das narrativas bíblicas, porque isso é o mesmo que
abrir a porta à realização da revelação fundamental. É uma tragédia da
moderna civilização que os estudantes dos colégios e universidades
tenham sido ensinados a apreciar as belezas e sublimidades das obras de
Byron e Shakespeare, Browning e outros, e tenham permanecido
inteiramente ignorantes da grandeza e magnitude da maior literatura que
o mundo já conheceu, só porque esta se encontra na Bíblia. Se tal
literatura estivesse em qualquer outro livro, o mundo inteiro se curvaria
ante ela.
Nem sempre foi assim em nosso mundo moderno, e especialmente
no mundo da língua inglesa. Um professor americano, de inglês, escreveu
que o mais importante acontecimento na História Inglesa não foi a
destruição da Invencível Armada Espanhola nem a batalha de Waterloo,
mas a tradução da Bíblia. "Foi no século 16 que a tradução da Bíblia para
o vernáculo inglês teve lugar, por meio de Tyndale Coverdale, e tornou os
ingleses o povo do Livro, e este livro é a Bíblia. Os hábitos mentais do
povo inglês tornaram-se hebraicos." (4)

14 21
Saintsbury fala da Versão autorizada de 1611, como sendo o campo Estado do Texto Hebraico
de treinamento de todo homem e toda mulher de língua inglesa, nos mais
nobres usos da sua língua. A sua fraseologia é evidente nos discursos de Durante mais de dois mil anos, os judeus tiveram o encargo de
Patrick Henry e no grande discurso de Lincoln. James Russel Lowell e preservar as suas Escrituras Sagradas, e devemos dizer que eles foram
Nathaniel Hawthorne foram famosos pela influência que demonstraram extremamente zelosos em conservar-lhes a pu-
1 17
haver recebido da Bíblia. Pfeiffer ( ) fez uma lista das expressões, na lín-
gua inglesa, recebidas da literatura hebraica, tais como "lamber o pó", reza original. Nenhum esforço e sacrifício mesmo foi poupado para que o
"suor do rosto", "fel e cupim", "amontoar brasas de fogo", "terra que mana sagrado texto fosse mantido incorruptível. A isto deve-se adicionar que,
leite e mel", "estrelas no caminho", "cana quebrada", "osso do meu osso e por mais de uma vez, as Sagradas Escrituras estiveram em grande
carne da minha carne", "olho por olho", "panelas de carne", "a pele do perigo. Antíoco Epifânio (cerca de 167 a.C.) queimou todas as cópias de
meu dente", "a pequena nuvem", "como a palma da mão", "tiradores de manuscritos que pôde encontrar. Durante o terrível cerco de Jerusalém
madeira e carregadores de água", "a esposa do teu seio". Uma apreciação pelos romanos, em 70 A.D., muitos outros foram também destruídos.
das belezas da literatura do Velho Testamento nunca destruirá o seu Não obstante o zelo e cuidado na conservação e pureza do texto,' admite-
interesse religioso; pelo contrário, o encorajará e fomentará. se que alguns erros tivessem sido cometidos na transcrição dos
É de esperar que os estudos contidos neste livro contribuam para manuscritos antes da época de Esdras e seus escribas. Como se sabe, os
um melhor entendimento da natureza do Velho Testamento. A manuscritos antigos eram copiados à mão e não haveria cuidado que
importância das Escrituras hebraicas no plano gracioso da salvação bastasse para evitar um ou outro erro. Todavia, podemos dizer que
nunca poderá ser superestimada. Suas personalidades, Uma vez bem nenhum manuscrito clássico apresenta a pureza que nos dão os
conhecidas, são incomparáveis como lições da sua experiência com Deus. manuscritos sagrados. Sabemos que os manuscritos, depois de
copiados, eram submetidos a uma revisão rigorosa, para os escoimar de
"Os céus e a terra passarão, mas a Palavra de Deus permanece para
qualquer engano intencional.
sempre."
0 manuscrito completo mais antigo que possuímos da Bíblia
Princípios de Interpretação hebraica data do ano 1000 A.D. mais ou menos, mas alguns dos
A discussão precedente deu ênfase a certos métodos que o manuscritos que possuímos são do século quarto da nossa era, escritos
estudante deve seguir na interpretação do Velho Testamento, quer seja em grego. Existem alguns fragmentos de manuscritos em grego e
uma passagem quer seja o seu todo. O estudo deve ser feito com todo o hebraico datados do século segundo. Recentemente, foi descoberto um
cuidado. Ao tentar interpretar uma passagem ou descobrir a significação manuscrito completo de Isaías em hebraico, cuja data está sendo fixada
2
de um trecho das Escrituras hebraicas, devem determinar-se os entre 200 a.C. e 100 a.C.( )
seguintes pontos, expostos na ordem de sua importância. O texto Massorético moderno, com as suas muitíssimas e variadas
1. A posição histórica do escritor. Isto inclui a história da época citações e diferentes leituras, tudo isto posto à margem, é uma indicação
e as condições sociais e religiosas prevalecentes. Tanto quanto possível, da necessidade da crítica textual do V. Testamento. S. Baer e Franz
deve-se conhecer a vida particular do autor e, se possível, os seus Delitzch, de tempo em tempo e por mais de vinte anos, publicaram, em
antecedentes. parte, uma edição do texto Massorético e CD. Ginsburg é o autor de uma
publicação completa do mesmo texto. Kittel, por sua vez, publicou uma
2. A língua original em, que o autor se expressou. É impossível
edição completa da Biblia hebraica. As notas de rodapé que ele
traduzir uma língua noutra, porque toda tradução implica numa
interpretação. 0 conhecimento do hebraico é essencial a quem quiser apresentou falam bastante do estado do antigo texto nas versões antigas
uma exposição sadia do Velho Testamento. No caso de não se poder obter e sobre as opiniões dos críticos modernos. Esta é a melhor edição da
tal conhecimento, o estudante deve munir-se dos melhores comentários Bíblia hebraica para estudo crítico.
possíveis sobre o texto hebraico. Os antigos hebreus escreviam sem vogais. Este era o texto usado
3. O contexto da passagem. Os escritores sagrados não nas sinagogas, em forma de rolos. Mais ou menos no sexto século A.D.
escreveram cada versículo no vácuo, mas certamente seguiram a lógica e (acreditam alguns que fosse no oitavo), o atual sistema de pontuação do
a razão, passando de um verso a outro. Cada versículo deve relacionar-se texto, chamado de vogais, foi inventado pelos escribas Massoretas, e as
com os outros, de que faz parte. Cada passagem deve ser estudada à luz cópias das Escrituras, desde essa época, vêm todas acompanhadas
que o livro mesmo oferece; e cada livro deve ser examinado com todos os dessa pontuação. As Bíblias hebraicas modernas seguem o sistema
demais, em sua relação com a revelação progressiva do Velho palestínico de pontuação, usando vogais ou pontos acima das letras, no
Testamento. centro e embaixo. O sistema babilónico era superlinear. A ausência de
vogais deu margem a muita ambigüidade, depois que o hebraico deixou
4. A natureza da literatura. Como foi sugerido na seção anterior, de ser língua falada, e por isso mesmo foram inventados estes sinais. A
o tipo de literatura em estudo é da maior importância para a boa
Septuaginta oferece-nos bastantes evidências de que o texto era lido e
compreensão de uma determinada passagem do Velho Testamento.
entendido de modos diferentes, ao tempo em que foi feita (cerca de 280
5. As relações existentes com o seu futuro cumprimento. a.C).
O estudo critico do Velho Testamento, com a sua ênfase sobre a história
apenas, tem levado muitos a contentarem-se com esta conclusão. Nem As Antigas Versões
Jesus nem os escritores do Novo Testamento procederam dessa forma. 1. A Versão Grega
Assim como a vida de um homem torna explícita as suas tendências da
infância, o Novo Testamento revela as verdades escondidas no Velho. (1) A Septuaginta foi, talvez, a primeira versão das Escrituras
Muitas verdades, que nem os próprios autores nem os expositores hebraicas. O Pentateuco foi traduzido no Egito, em cerca de 250 a.C.
judaicos descobriram em muitas declarações do Velho Testamento, só se Josefo dá-nos uma história muito interessante desta tradução, mas
tornaram claras em Jesus Cristo. Deve-se ter todo o cuidado para não ler muitos críticos admitem que há muita fantasia nela. Todavia, o fato de
numa passagem do V.T. os ensinos que só o Novo contém; não obstante, que as Sagradas Escrituras, pelo menos o Pentateuco, foram traduzidas
deve ficar.claro que Jesus é a chave do bom entendimento dos sonhos no Egito não sofre qualquer dúvida. Os Profetas e os Hagiógrafos foram
dos profetas. Portanto, deve-se determinar primeiro o que a passagem traduzidos mais tarde. O grego da LXX afasta-se muito do grego clássico.
teria significado para o escritor e para a sua geração. Depois, procurar Os livros da Bíblia foram traduzidos por diferentes pessoas, e enquanto
saber que relação terá com o plano eterno de Deus, que o próprio escritor algumas conheciam bem o grego e o hebraico, outras parece que
talvez não compreendesse mas que agora, para os que vivem na pleni- conheciam sofrivelmente estas línguas e algumas parece que não
tude da luz da revelação, é claro. estavam muito familiarizadas com qualquer delas. A maioria delas foi
perfeitamente fiel ao original hebraico, mas algumas fizeram apenas
Línguas Originais paráfrases. O Pentateuco é a parte mais bem traduzida, e o livro de
Daniel é o pior de todos. Os apóstolos citaram freqüentemente esta
Todo o Novo Testamento se encontra em grego, qualquer que tenha tradução nas suas Escrituras, isto é, a Septuaginta, e o Novo Testamento
sido o possível original de Mateus (*), Tiago e outros escritores grego (koinê) foi antecipado, na sua maior parte, por estas traduções
neotestamentários. O Velho Testamento foi escrito por homens que gregas.
falaram e escreveram hebraico. O hebraico é a língua original do Velho
Testamento, exceto 6 capítulos em Daniel (2:4-7:28); mais ou menos três (2) As outras versões gregas do Velho Testamento foram feitas
de Esdras (4:8-6:18; 7:12-16), e um verso em Jeremias (10:11). Todos entre 100 e 200 A.D. por judeus. Não é possível dar as datas exatas, e
estes capítulos se encontram em aramaico, língua irmã do hebraico. Se das traduções mesmas apenas fragmentos chegaram a nossos dias. (1) A
qualquer pessoa desejar ler toda a Bíblia no original, deve aprender
grego, hebraico e aramaico. 2Em 194» foram encontrados alguns rolos, escondidos num pote, em unia caverna junto do Mar Morto, e
entre e!es se encontra um do profeta Isaias. Jâ agora, pois, podemos dizer que temos um manuscrito d* um
grande livro do Velho Testamento, cuja data deve oscilar entre 200 a-C. e 100 d.C. Colmparado este Ms. com
outros mais recentes que pos-MtaoB, verifica-se a perfeição e conservação do texto desde esta época UUO
1R.H. Pfeiffer, Introduction to the Old Testament (third edition, N. York: a.C.) e 1000 d.C. A conclusão é que a Bíblia hebraica foi zelosamente preservada de erros através de
Harper and Brothers, 1941), p. 15 milênios. (Nota do tradutor^

22
versão de Áquila data, provavelmente, do meado do segundo século A.D. o Daniel que escreveu este livro não foi o Daniel caldeu e sim outro
É uma tradução literal. Os judeus citavam esta tradução em oposição aos Daniel, talvez do tempo dos Macabeus, e como o Cânon já estaria
cristãos, que usavam sempre a Septuaginta. (2) A versão de Teodósio per- fechado a este tempo, foi o livro apenas adicionado à terceira parte. Esta
tence ao fim do segundo meado do segundo século, e assemelha-se muito maneira de interpretar a posição do livro de Daniel não parece correta,
à LXX. (3) A de Simaco foi feita perto do fim do segundo século e foi uma pois os judeus sempre consideraram este livro como produto do Daniel
tentativa para se fazer uma versão suave; em muitos aspectos é apenas da Caldeia, e a opinião dos judeus deve valer mais que a dos críticos
uma paráfrase. modernos, que pouco sabem das coisas daqueles dias.
A obra Hexaplos de Orígenes pertence ao terceiro século (cerca de
230 A.D.) e compreende, além da tradução do texto hebraico e grego, as
quatro versões gregas mencionadas acima. Sumário da História do Cânon do Velho Testamento («)
Infelizmente, apenas fragmentos da monumental obra chegaram até nós.
Admite^se que Orígenes talvez nem tivesse conseguido terminar esta Ao examinarmos as evidências a respeito da inclusão de Um livro
magnum opus. entre os considerados sagrados pelos judeus, devemos observar as três
divisões em que se agrupa a Biblia Hebraica,como já notamos acima. A
2. Versões Siríacas
(6) Embora o termo "Cânon" não tenha sido aplicado aos livros do Velho Testamento até o quarto século
A.D., o conceito de canonicidade era muito mais antigo.
A Versão Siríaca foi feita, provavelmente, entre 150 e 200 A.D.,
para servir aos cristãos de língua siríaca. A Peshitta, feita um pouco mais
tarde, é considerada a versão modelo daqueles dias. Lei, por sua própria natureza e antiguidade, deveria ocupar o primeiro
lugar. Quando ela foi considerada como divina instituição, não sabemos.
3. Os Targuns Sabemos, sim, que Moisés recebeu de Deus a maior parte do material
nela contido, e que este material foi desde logo considerado autorizado.
Muito antes de Cristo, as Escrituras hebraicas foram, pro- Alguns profetas, especialmente Oséias e Amós, pertencentes ao oitavo
vavelmente, traduzidas oralmente, por meio de intérpretes públicos, nas século, revelam-se familiares com os ensinos do Penta-teuco, e quando o
sinagogas. Feitas em aramaico, talvez datem do primeiro século da nossa Deuteronômio foi encontrado no templo, por ocasião da reforma de
era. Josias, foi também considerado divinamente inspirado, pelo povo e pelo
(1) O Targum de Onkelos é uma tradução quase literal do rei. Isto em 621 a.C.
Pentateuco em aramaico; não se sabe a data em que teria sido feita, mas
acredita-se que pertença ao período entre o primeiro e o terceiro séculos Ao tempo de Esdras e Neemias (cerca de 400 a.C), a Lei tinha
da nossa era. aceitação universal como livro inspirado entre os judeus. Certamente,
deve ter sido assim considerado por muitos anos ou séculos antes, mas
(2) O Targum de Jonatas, sobre os Profetas, foi, provavelmente, não temos informações diretas a respeito disso, pelas seguintes razões:
feito no terceiro século da era cristã.
1. O Pentateuco Samaritano data do cisma realizado por ocasião
4. Versões Latinas da reconstrução da cidade de Jerusalém, quando, ao que se acredita, foi
levado para lá pelo renegado Sambalate. Logo, devia ser considerado
(1) A Versão Latina Antiga deve pertencer ao segundo século como Escritura, muito tempo antes. Os samaritanos sustentam datar de
cristão, e é uma tradução literal da Septuaginta e não do hebraico.
722 a.C; os críticos, porém, negam-lhe esta idade, por considerações da
(2) A Versão de Jerônimo, conhecida mais tarde como a Vulgata natureza do manuscrito. Todavia, mesmo que o manuscrito do
Latina, foi terminada em 450 A.D. É uma admirável peça de literatura, Pentateuco Samaritano seja de data posterior, nada impede que o texto
mesmo que não seja uma versão acurada, diretamente feita do verdadeiro seja muito mais antigo.
texto hebraico, como o Concílio de Trento afirmou. Jerônimo conhecia
bem tanto o grego quanto o hebraico, mas por causa da influência que a 2. A Lei foi lida por Esdras, desde a alva até ao meio--dia; isto
LXX exercia entre o povo, fez uma versão que se poderia chamar de inter- não deve ser entendido no sentido de apenas um dia de sol (Neem. 8:3).
mediária entre os dois textos. A Versão Douay, Versão Inglesa feita da Esta leitura não importou na sua canonização, como querem fazer
Vulgata, para uso dos cristãos ingleses, é a versão autorizada pela Igreja entender alguns críticos, mas apenas levou o povo a reafirmar a sua
Católica, assim como a Versão de Figueiredo o é para os católicos fidelidade à Lei dos seus pais. Por causa de sua infidelidade a esta
brasileiros. mesma Lei é que eles tinham sido levados em cativeiro. E, agora que se
O valor destas antigas versões é duplo: (1) Para fins de investigação preparavam para recomeçar a sua história, convinha que se dessem
textual. Ocasionalmente, elas testificam do estado do verdadeiro texto, conta da sua importância na vida nacional.
nos lugares em que este tinha sido corrompido. (2) Auxiliam muito na
interpretação. Toda tradução compreende, de certo modo, um 3. Os escritos pós-exílicos, durante e depois de Esdras,
comentário; e estas primitivas versões nos auxiliam a compreender a todos se referem à Lei, com especial reverência (Mal. 4:4). Con-
Bíblia, pois são os mais antigos comentários existentes. cluímos que a Lei era há muitos anos considerada canónica, e a
sua inobservância tinha dado causa aos sofrimentos do povo.
Divisões do Velho Testamento
Os Profetas deviant ter sido o segundo grupo de livros a ser aceito
como divinamente inspirado. No prólogo ao Eclesiástico, Jesus ben
A divisão que os judeus fazem do Velho Testamento compreende
Siraque (cerca de 132 a.C.) escreve que os judeus tinham já três divisões
três partes:
na sua Bíblia Hebraica: a Lei, os Profetas e os outros livros. No mesmo
livro de Eclesiástico, Jesus ben Siraque, o avô (cerca de 180 a.C),
1. A Lei: os cinco livros de Moisés. Esta parte sempre foi a mais menciona Jeremias, Isaías, Ezequiel e os doze Profetas Menores, e dá
altamente distinguida pelos judeus e considerada como o fundamento da
evidências de que o Cânon já estava fechado naquela época. Muito
Bíblia.
naturalmente os profetas individualmente, desde há muito, tinham sido
considerados inspirados, o mesmo se podendo dizer dos demais livros
2. Os Profetas: (1) Os primeiros profetas — Josué, Juízes, Samuel que receberam a sua aceitação pelo povo, como inspirados, em virtude
e Reis; e (2) os últimos profetas ■— Jeremias, Ezequiel, Isaías e os doze da função dos seus autores. Assim temos provas de que, como Cânon, a
profetas menores. Bíblia Hebraica estava completa no ano 180 a.C. Quantos anos ou
séculos antes teria ela sido assim considerada, não sabemos.
3. Os Escritos (Hagiógrafos), compreendendo: (1) Os Livros
Poéticos: Salmos, Provérbios, Jó; e (2) os Cinco Rolos: Cânticos, Rute, Os Escritos ou Hagiógrafos foram o último grupo de livros a ser
Lamentações, Eclesiastes e Ester. (3) Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas. aprovado como um todo. A referência definida de Jesus ben Siraque (avô)
A maneira de contar os livros, por parte dos judeus, também nos oferece a "outros livros" indica isso perfeitamente. A inclusão de qualquer livro
algumas diferenças. Contando Esdras e Neemias como um livro, e os nesta seção, nesta época ou mesmo posteriormente, não significa que ele
doze profetas como um também, faziam eles o seu Cânon de 24 livros. fosse escrito depois, porque bem poderia até estar escrito há muito.
Reunindo Juízes e Rute, Lamentações e Jeremias, faziam 22 livros, jus-
tamente o número das letras do seu alfabeto. O livro de Daniel, que se Quando foi concluída a terceira parte da Bíblia Hebraica? As
encontra na terceira parte, e, portanto, entre os chamados Escritos, não referências que temos em Macabeus, Josefo e em o Novo Testamento
foi considerado profético. Pensam uns que o livro é mais história que indicam que Jesus e os Apóstolos possuíam o Velho Testamento
3
profecia e o seu autor foi mais político que profeta. Outros acham que, substancialmente, como nós o temos hoje. ( ) A data da versão dos LXX
sendo um livro apocalíptico e histórico, ficaria melhor entre os
Hagiógrafos. É certo que os críticos têm outra opinião, para explicar a
3Cf. Mat. 23:35. Zacarias não foi o último mártir no Velho Testamento do ponto de vista do tempo. Seu
colocação deste profeta entre os livros da terceira coleção. Dizem eles que martírio é profetizado em Crônicas. No Cânon hebraico, Crônicas é o último livro. Essa referência prova que
Jesus possuía o Cânon atual. Compare a nossa expressão: "de Gênesis a Malaquias".

23
pode esclarecer este assunto; todavia acreditam alguns que ela não foi concepção da natureza do Além destes dois
terminada antes do ano 100 antes de Cristo ou mesmo mais tarde. Velho Testamento. Logo, documentos, ele descobriu
deve se aplicar o termo que havia mais dez, me-
Não há qualquer evidência de que os livros Apócrifos, que adequadamente. É, nores. O livro intitulava-se:
aparecem na Vulgata Latina, tivessem sido incluídos na coleção sagrada entretanto, no campo da "Conjecturas a Respeito do
dos judeus. Jerônimo mesmo, que fez a versão, nega esta validade. crítica histórica que a Memorando Original Que
pendência tem persistido. A Moisés Teria Usado na
O estudante deve notar que, até ao primeiro século da era cristã, negação da credibilidade do Composição do Livro de
não havia qualquer corpo organizado com o encargo de determinar quais Velho Testamento, no Gênesis". Mais tarde, em
os livros que deviam ou não deviam ser sagrados. Não há qualquer tocante a sua autoria e 1782, Eichhorn, erudito
evidência de que já alguma vez existisse tal grupo de homens. O Concilio inspiração divina, tem alemão, publicou uma obra
de Jânia (A.D. 90, 118), composto de eruditos judeus, não determinou a inevitavelmente levantado a intitulada "Introdução ao
extensão do Cânon hebraico, como pretendem certos críticos. O que eles oposição dos que crêem na Velho Testamento", na qual
discutiram foi a respeito de certos livros que já se encontravam lá, e esta autoridade e inspiração das não só apreciava a
discussão não versou sobre a autoria de alguns livros que se achavam no Escrituras; e os dois campos discussão de Astruc, mas
Cânon. Discutir a autoria de um livro e a canonicidade do mesmo livro têm terçado as suas armas lhe dava certa ênfase,
são assuntos fundamentalmente diferentes. O mundo inteiro deu a sua com o máximo de mestria. aduzindo certos argumentos
aprovação ao Cânon hebraico muitos séculos antes de os críticos A crítica do novos, tais como diferenças
começarem a discutir Pentateuco é a tarefa mais de estilo etc. Tanto Astruc
tais assuntos. Livro após Velho Testamento, é comum importante que qualquer como Eichhorn, não obstan-
livro foram aceitos pelo povo ler-se ou ouvir-se falar do estudante do Velho te dividirem o Gênesis em
como inspirados, dentre Hexateuco, para incluir o Testamento pode enfrentar, diversos documentos,
dezenas de outros que assim livro de Josué, que os porque desta depende todo o sustentaram a autoria
não foram considerados, e a mesmos críticos acreditam mosaica do mesmo livro,
resto dele. Extremamente
base para esta aceitação (de ser uma necessária assim como do Pentateuco.
difícil, requer paciência,
uns) e rejeição (de outros) conclusão das narrativas De modo geral, estas
indústria e habilidade, para
teria dependido do caráter históricas encontradas nos especulações nenhum mal
que" os argumentos pró e
dos mesmos livros e seus cinco livros universalmente tinham em si quanto à
contra sejam devidamente
autores, relacionados com a atribuídos a Moisés. A nós, credibilidade dos livros
pesados e o valor real final-
passada revelação divina. tal inclusão se afigura de sagrados, embora ao mesmo
Deus mesmo deve ter tido a mente determinado.
todo contrária à história Entretanto, muitos que se tempo fossem o estopim que
sua parte nesta seleção, mesma, porque não julgam sábios têm oferecido incendiou o campo da crítica
como a teve em tantos acreditamos tenham os SEIS um testemunho bem pobre moderna.
outros assuntos, de modo livros sido o resultado de um
que a formação do Cânon da sua capacidade para tal
processo histórico, tendo 2. A Hipótese
hebraico e neotestamentário tarefa. Alguns têm
sido penosamente Fragmentária
não foi um processo colecionado uma multidão
elaborados por escribas, de fatos desconexos, sem Em 1800, Alexandre
histórico propriamente dito,
sacerdotes, redatores e capacidade para colocá-los Geddes decompôs o
mas um ato divino, quer na
tantos outros, através de em ordem e demonstrarem o Pentateuco em um
chamada dos seus autores
muitos anos, mas pura e seu valor na debatida considerável número de
quer na seleção dentre
simplesmente os livros que questão; e o estudante documentos ou fragmentos
muitos outros livros
Moisés escreveu ou ditou a comum fica impossibilitado, sem lógica e sem nexo,
existentes.
seus amanuenses. O livro de por sua vez, de formar uma destruindo até a ordem
Josué pertence a outra opinião segura. cronológica. Seguiram--se-
época e a outro autor, e deve lhe Vater (de 1802 a 1805) e
A opinião dos judeus
P ser colocado como parte da Hartmann (em 1831), que
e cristãos, por mais de dois
A literatura do reino. ensinaram que o Pentateuco
mil anos, sempre foi
R era constituído de um
unanimemente em favor da
T A AUTORIA DO grande número de pequenos
autoria mosaica do documentos pós-mosaicos, a
E PENTATEUCO
Pentateuco, e foi somente que foram feitas adições, de
I
O criticismo bíblico entre 1650 e 1750, um tempos em tempos, até se
compreende duas seções século, portanto, de crítica tornarem nos cinco livros
O distintas: (1) Baixo moderna, que as primeiras que atualmente possuímos
dúvidas foram levantadas como o Pentateuco. Com tal
PE Criticismo, consistindo do (a)
por Hobbes, Peyrerius, publicação estava destruída
criticismo textual, que é uma
NT busca em torno da história Spinosa, Richard Simon e Le a unidade de toda a obra e
do texto, até se determinar a Clerc. Para facilitar o posta em dúvida a sua
AT sua maior aproximação com estudo, dividiremos o autoria. Entretanto, as
assunto em diversas seções,
EU o texto original, e (b) o
chamando a atenção do
evidências internas do
criticismo lingüístico, que Pentateuco eram e são
CO compreende o exame das estudante para o fato de que demasiado patentes para
raízes, o significado das apenas daremos os pontos que tal hipótese pudesse ser
palavras e o idioma; (2) O principais de cada escola. aceita.
Os cinco livros de Alto Criticismo, que consiste 1. Primitiva 3. A Hipótese
Moisés são conhecidos, (a) da crítica literária, que Hipótese Suplementar
desde épocas ime moríais, procura resolver os Documentária
como a Lei ou a Lei de problemas de datas em que Estava aberto o
Moisés. Eles contêm os man- determinado livro foi escrito Francisco Astruc, caminho para esta hipótese,
damentos e ordenanças que e o seu autor, e (b) da crítica médico francês, publicou
e o seu autor foi De Wette,
constituem a base da histórica, que investiga a uma obra em 1753, que deu
comunidade hebraica, e os que em 1805 escreveu um
sua credibilidade. início ao moderno
judeus os consideravam movimento crítico da Bíblia. livro, que fez época, a
superiores a quaisquer ou- O termo Alto Ao ler o livro de Gênesis, ele respeito do Deuteronômio,
tros. O Pentateuco pode ser Criticismo (ou Alta Crítica ) é notou que o mesmo se dando este livro como
classificado como história, usado, muitas yezes, sem compunha de dois pertencente ao tempo do rei
porque os códigos qualquer cuidado, pelos documentos principais: um, Josias e escrito um pouco
legislativos que nele se controversistas, como si- a que deu o nome de Eloís- antes da sua notável re-
encontram estão vitalmente nônimo de radicalismo tico, e outro, que chamou de forma religiosa, em 621 a.C.
ligados com a história do literário. O chamado alto Jeovístico, porque no Bleek, em 1830; Tuch, em
período mosaico. Em virtude crítico bem pode ser primeiro é empregado 1838; Staehelin, em 1843, e
das conclusões a que ultraconservador, Eloim, como o nome de
dependendo apenas de sua Knobel, em 1852, deram
chegaram alguns críticos do Deus, e no outro, Jeová.
mão forte a esta especulação

24
e fundaram a escola Ao considerarmos aceitar coisa alguma da Nota: Mais uma
conhecida como Hipótese estes pontos de vista dos Bíblia. Se a história é palavra. O estudante
Suplementar. Segundo esta críticos a respeito do forjada, se os milagres são incipiente nestes estudos
escola, o documento Eloim Pentateuco, temos de impossíveis, nada fica da perguntará: Como foi
considerar diversas coisas, a Bíblia que mereça aceitação. possível a homens de
ou Eloís-tico formava a base
fim de verificarmos a Nem mesmo um livro, como elevada cultura chegarem a
do Pentateuco, e o
procedência de suas tantos outros livros antigos, formular tais questões a
documento Jeová ou ela é. respeito da Bíblia? Numa só
conclusões. Ei-las:
Jeovístico fora tecido no palavra, poderíamos
primeiro, formando os dois a 1. Sobre a 3. Negação de uma responder: Eram incrédulos,
base do Pentateuco. Através credibilidade da narrativa do revelação especial aos
e, ao homem irregenerado,
dos séculos, novas adições Pentateuco. Di- autores do Velho
as coisas divinas se lhe
zem que é uma "história Testamento. Segundo esta afiguram como estultícia (I
foram feitas aos
forjada". Que o opinião, as Escrituras do Cor. 2:14). Depois, na sua
documentos, terminando na
Deuteronômio foi in- Velho Testamento não se época não existiam os co-
cristalização do atual
ventado pelo partido dos podem mesmo colocar ao nhecimentos da história que
conjunto de livros lado de muitas obras
profetas, para reforçar a o estudante moderno tem.
denominado Pentateuco. antigas. A verdade,
idéia de cen- No século 18, nada se sabia
Todos estes críticos negaram entretanto, é que elas não só
tralização. O nome de Moisés da antiga Assíria, Babilônia,
a autoria mosaica do mesmo foi inventado para dar força devem ser colocadas ao lado Pérsia e outros países
Pentateuco. à da melhor literatura antiga, orientais e, por conseguinte,
Restava saber como narrativa, mas ele nada mas ser consideradas nada se conhecia da sua
poderia ser o chamado tinha a ver com a história infinitamente superiores, história. Depois que as
documento original, mesma. (Al- tanto em sua natureza modernas investigações
separado do resto da obra. guns destes críticos mesma, como em seu arqueológicas trouxeram à
chegaram até a negar a propósito, pois foram luz aquelas velhas
Uma vez tirada toda a ma-
existência histórica escritas sob a inspiração de civilizações, provando, uma
téria de que se compunha o
de Moisés.) O documento Deus e sob a sua direção. por uma, as afirmativas da
documento Eloim, ficava
sacerdotal, que inclui o livro Cabe-nos, pois, não somente Bíblia em relação àqueles
então o outro documento, negar as conclusões destas povos, a história
de Leví-
Jeová, com os acréscimos escolas, mas examinar o que propriamente dita da Bíblia
tico e todo o material
feitos durante séculos, mas, legislativo de Êxodo e a Bíblia diz de si mesma. assumiu uma outra feição.
feita esta operação, o que Números, foi com- Entre muitas outras coisas, Já agora não se poderá dizer
ficava não tinha sentido nem posto para assegurar a aduzimos aqui as seguintes, que Tiglate-Pileser, da
nexo, do mesmo modo que o aceitação do sistema que o estudante completará Assíria, e muitos outros dos
documento Eloim em si só sacerdotal, por parte em seu próprio estudo: seus compatriotas eram
também não dava sentido do povo; e, quanto a Moisés, personagens fantásticos,
completo a coisa alguma. também nada teve a ver com
1. A evidência inventados pelos escritores
interna do Pentateuco é bíblicos. Se esta história
Tentando explicar a origem es-
clara quanto a Moisés como fosse conhecida no século
do Pentateuco, segundo o sas coisas.
seu autor (Êx. 17:14; 24:4; 18, talvez jamais se tivesse
seu modo de ver, Tais conclusões por 34:27; Núm. 33:1-2; Deut. especulado tanto a história
terminavam por destruir parte destes críticos, além de 31:9-24). Através destes do Velho Testamento.
toda conexão histórica e serem incoerentes, livros, a expressão "Deus
cronológica. Não somente contradizem toda a história falou a Moisés" ocorre
isto, mas, separando os bíblica e toda a religião de freqüentemente, inclusive
chamados dois documentos, Israel, bem como o conceito em Levítico.
verificaram que em ambos de que a Bíblia é o livro
havia referência a eventos inspirado de Deus. Tais 2. A evidência
motivos não são dignos de externa de que Moisés foi o
comuns, isto é, um fato autor do Pentateuco é
homens inspirados por
mencionado no chamado flagrante (Jos. 1:7 e seg.;
Deus, e toda a crença da
documento Eloim era Juí. 3:1; II Crôn. 25:4; Esd.
inspiração e revelação vem
também encontrado no 6:18; 7:6; Mal. 4:4; Mat. 8:4;
abaixo. Vale dizer que tudo
documento Jeová. Como Mar. 7:10; 10:5; Luc. 20:37;
quanto os israelitas creram,
fazer tal separação? Keil e João 5:45-47; 7:19).
através dos séculos, é falso e
Hegstenberg, e outros mais improcedente. Devemos Temos feito uma
tarde, defenderam a unidade admitir que muitas coisas análise muito ligeira destas
e autenticidade do escritas no século sexto, por escolas de crítica bíblica e,
Pentateuco. Posteriormente, exemplo, pertenceriam a vez por outra, fizemos a
surgiu a idéia de que o livro eras anteriores, mas eram nossa apreciação a suas
de Josué pertencia à mesma certamente seguras e de falsidades. Todavia, parece-
escola e à mesma história; todo em todo críveis. nos que mais uma palavra
ainda a respeito do assunto
portanto, em lugar de 2. A impossibilidade não será considerada
Pentateuco, deveríamos do sobrenatural no Velho excessiva, dada a sua
dizer "Hexateuco". Testamento. Muitos dos relevante importância. Não
cumento, atribuído ao autor modernos eruditos têm temos que nos preocupar
J, se encontra linguagem verdadeira aversão ao tanto com as fontes de
que nao pareça ser do sobrenatural. Tudo que se informação dos escritores
referido autor, o recurso é refere a milagres ou sagrados, mas com a ins-
manifestações da Divindade
imaginar que outro autor piração que Deus lhes deu.
é por eles refugado como
também trabalhou neste Se crermos que Deus
indigno de aceitação. En-
documento, e assim deve ele inspirou a Moisés e a outros
tretanto, se não pudermos
ser mencionado como 32, escritores sagrados, pouco
aceitar o sobrenatural e,
ou seja, o segundo autor. temos de nos preocupar com
conseqüentemente, os
Esta última teoria é quase os fatos que usaram. Jamais
milagres, não podemos
uma volta à Hipótese seremos capazes de
aceitar a revelação da Divin-
Fragmentária, pois destrói a entender o primeiro capítulo
dade nem tampouco a
unidade dos livros e os de Gênesis; sabemos,
encarnação de Jesus e a sua
apresenta como uma colcha porém, que a sua doutrina é
ressurreição. Noutras
feita de retalhos. verdadeira.
palavras, não podemos

25
Efetivamente, parece incrível, também, que se procurasse destruir
a história do povo judaico, sem a menor consideração por suas crenças
tradicionais. Mas o historiador que superestima as suas opiniões às dos
outros está sujeito a cair nesta fraqueza. Foi o que aconteceu. Os
grandes cérebros germânicos e franceses, alguns ingleses também,
superestimaram as suas próprias opiniões e desprezaram as crenças e
tradições dos outros povos, especialmente as dos judeus. Além disso,
sabemos a que extremos pode ser levado um homem quando entra no
caminho do erro. Como vimos, o primeiro foi Astruc, admitindo que o
livro de Gênesis não representava uma história única, mas duas fun-
didas, e tão imperfeitamente que se podia descobrir os traços distintos
de cada uma. Nada havia de mal nesta conclusão. Moisés poderia bem
ter usado narrativas correntes entre o seu povo, pois que, de modo geral,
o que ele nos legou em forma autori-zável andaria oralmente entre o
povo. Certamente, a história da criação do mundo e do homem, a queda,
o dilúvio e tantos outros fatos eram do conhecimento do povo em geral;
alé os babilônios e outros orientais tinham conhecimento destas mesmas
histórias. Quando se deu a dispersão da humanidade, certamente
também se dispersaram os conhecimentos das coisas primitivas, e, onde
quer que o homem chegasse, chegariam estas narrativas. Isto, portanto,
é coisa muito natural. Entretanto, bastou que Astruc levantasse a ponta
do véu, para que outros descobrissem outras coisas e chegassem às
conclusões fantásticas a que chegaram. Uma vez dado um passo em
falso, outros terão de ser dados. Quando procuraram descobrir até que
ponto as chamadas duas narrativas iam, toparam com diversas dificul-
dades, isto é, não podiam descobrir a parte que pertenceria a uma e a
outra, e daí o terem, então, derivado para a teoria de que o Pentateuco
era obra não de um homem ou mesmo de uma narrativa ou duas, mas
de muitos homens e muitas narrativas. Efetivamente, depois do capítulo
8 de Gênesis, é bem difícil separar as narrativas, porque, em verdade,
não há narrativas, mas uma só. Entretanto para satisfazer aos seus
pontos de vista, tiveram de descobrir diferenças de estilo e de palavras e
então construíram esse emaranhado, que foi referido como J.E.D.P. e Jl,
E2, RI, R2, e assim por diante. ( 8) Afinal, quando não puderam atribuir a
um determinado escritor certa frase, atribuíram-na a um "redator','isto
é, escritor, que teria feito uma edição diferente de determinado livro ou
teria feito adições a ele
Apraz-nos dizer que esta crítica teve o destino que merecia. A
Bíblia voltou a ocupar o seu lugar entre os grandes centros literários do
mundo, e não é fácil encontrar hoje um homem em dia com os mais
modernos conhecimentos da história, da arqueologia e da biologia, que
ainda se compraza em dizer a seus alunos que o homem é o produto da
evolução ou que a história da Bíblia é lenda. Tudo isto pertence ao
passado.

26 33
O LIVRO DE GÊNESIS

Os judeus dividem os seus livros sagrados em três partes: a Lei,


compreendendo os cinco livros de Moisés; os Profetas, abrangendo todos
os livros, desde Josué a Malaquias; e os Escritos ou Hagiógrafos,
incluindo todos os chamados livros poéticos (noutra página já vimos que
Daniel e Crônicas foram incluídos na terceira parte). Os Rabinos dão ao
primeiro livro da Bíblia o nome de Bereshith (no princípio), tirado da
primeira palavra do livro de Gênesis. A nossa palavra "Gênesis" vem da
língua grega, tendo sido incorporada ao Latim, significando "origem" ou
principio. Os primeiros onze capítulos de Gênesis são uma introdução a
todo o livro e até mesmo a todas as Escrituras, pois tratam das origens
do universo e da raça humana. Se não tivéssemos na Bíblia estes onze
capítulos, jamais poderíamos esperar explicação para muitos dos
problemas do espírito humano, e muitas questões, referentes à teologia e
amoral, jamais poderiam ser verificadas. A doutrina da criação, a queda
do homem, a eleição e a providência encontram nestes capítulos a sua
cristalina explicação. Se um teólogo qualquer tentasse dar toda a
teologia do livro de Gênesis, produziria o mais notável livro publicado
depois da própria Bíblia. Deve-se notar também que o tempo abrangido
na história deste livro é muito maior que o de todo o resto da Bíblia.
O arranjo do livro mostra que o seu autor tinha um plano bem
delineado da história que ia abordar. A palavra toledhoth (gerações) é o
termo usado para iniciar cada seção do livro, e as dez toledhoth são
precedidas de uma admirável introdução, como 1:1, 2:3. As dez
toledhoth são: as origens dos céus e da terra (2:4-4:26), origens de Adão
(5:1-6:8), de Noé (6:9-9:29), dos filhos de Noé (10:1-11:9), de Sem (11:10-
26), de Tera (11:27--25:11), de Ismael (25:12-18), de Isaque (25:19-
35:29), de Esaú (36:1-37:1) e de Jacó (37:2-50:26).
Gênesis não é um livro qualquer de textos a respeito da história
da humanidade; ao contrario disso, centraliza os seus ensinos
diretamente sobre o plano divino e a sua obra redentora. Compreende
um esquema dos primeiros passos da raça humana, nos primeiros
capítulos, para concluir com os movimentos do pequeno grupo da
familia hebraica. Não é, portanto, um tratado de história, e não é
tampouco o último tratado sobre ciência. Nada diz a respeito do método
seguido na criação, deixando o campo livre à ciência, na investigação
deste profundo mistério, declarando apenas, e enfaticamente, que Deus
foi a fonte de
toda a criação e que o plano era a criação da raça humana, em santo qualquer idéia politeísta, mas apenas o costume hebraico de pluralizar
companheirismo e serviço com Ele. as palavras, para lhes dar maior ênfase, e indicar transcendência ou
O livro de Gênesis é de princípios religiosos, e não se deve procurar excelência. ' Através de todo o primeiro capitulo, esta é a palavra que
nele mais do que isso. Escrito muito antes de as ciências modernas ocorre para designar Deus, e parece-nos muito próprio esse uso, devido
iniciarem a sua investigação, a sua linguagem não é a de um tratado de ao fato de que se trata do Deus Criador, portanto, majestoso, onipotente.
ciência, mas a do trato comum na vida humana. Gerações se têm detido "Criou" é uma palavra que descreve atividade divina e nunca é usada
atentamente nas páginas deste maravilhoso livro, e os homens, que têm para atividade humana. Acreditam os lexicógrafos que ela significa "criar
buscado diligentemente a explicação para suas hipóteses no reino das sem o uso de material preexistente", o que, no caso vertente, é verdade.
ciências e da teologia, têm queimado as pestanas sobre as suas páginas. Deus criou tudo do nada. Ele é a origem da matéria.
Se a história que este livro nos relata não tivesse sido escrita com tanta 1:2. Este versículo tem sido explicado de muitos modos. Pensam
sabedoria, há muito ele teria sido feito em pedaços e atirado ao ridículo, alguns que se trata de uma catástrofe loao depois da criação, e outros
especialmente por alguns intérpretes menos cuidadosos. Mesmo que ele vão ao ponto de admitirem que a dita catástrofe resultou da queda de
tivesse sido achado de acordo com a ciência de uma determinada época, Satanás. Nada disso parece ser verdade. O versículo 1 declara o ato do
na seguinte teria sido considerado antiquado e fora do campo científico. Criador, e o versículo 2 estabelece o que era o universo depois de criado,
Entretanto, tem atravessado todas as épocas e resistido a todos os antes de a forma e a vida surgirem. A terra em que vivemos compreende
estudos e investigações da ciência, quaisquer que sejam os seus o primeiro ato do Criador (cf. Apoc. 21:1).
progressos, de época em época. 1:5. A palavra "dia" (em hebraico Yom) não deve ser limitada,
As ciências físicas têm contribuído muito para alargar o nosso necessariamente, a um período de 24 horas. É, muitas vezes, empregada
campo de conhecimentos a respeito da imensidade dos espaços. As a respeito de períodos, como as muito conhecidas frases dos profetas:
fotografias estelares têm trazido ao nosso conhecimento inumeráveis "naquele dia". "Dia do Senhor" e outras. O sol, que determina os nossos
mundos antes ignorados e, acreditamos, ainda não foi dita a última dias de 24 horas, não surgiu antes do quarto dia (1:16).
palavra neste sentido. Também o tempo tem sido grandemente dilatado. 1:6. "Expansão" é melhor palavra que "firmamento". 1:26. "Façamos o
Já se falam de dez milhões de anos ou de seis bilhões, como a idade do homem" bem pode ter referência à Trindade, no sentido de que, para criar o
universo; e quem poderá saber exatamente quantos anos tem? Com tais homem, as três pessoas da Divindade tomaram parte. Outros pensam
descobertas, a grandeza do Criador aumenta em nosso espírito e as que se refira aos anjos (cf. 3:22 e veja Estudos no Livro de Gênesis, do
nossas mentes se sentem insignificantes diante dele. O valor do livro de Tradutor).
Gênesis nada perde com estas descobertas, especialmente se 1:27. "A nossa imagem" significa natureza espiritual; e é neste
conservarmos em mente a sua origem. Na verdade, ele mesmo favorece ponto especial que o homem difere dos animais. Mesmo que haja muitos
estas investigações. Um dos fatos mais notáveis da nossa era, em pontos semelhantes em relação com a anatomia, a natureza espiritual do
relação com o livro de Gênesis, é a sua concordância com a ciência homem o destaca infinitamente de todos os outros animais.
moderna, sob o princípio do processo criativo, do mais simples para o 1:28. "Frutificai e multiplicai-vos." As relações sexuais não eram
mais complexo, do mais baixo para o mais alto, antecipando, destarte, em pecado no Jardim do Éden. O crescimento da raça humana, por meio do
milhares de anos, a moderna teoria científica. Podemos descansar, que nascimento de filhos, era parte do plano criador de Deus. O abuso e a
jamais haverá sério conflito entre este livro religioso e a verdadeira ciência. ilegalidade destas relações é que constituem pecado.
As tentativas de alguns homens insignificantes, para demonstrarem o
1:29. Inicialmente, o homem e os animais eram vegetarianos.
contrário, sempre terminaram e terminarão em completo fracasso.
Nota do tradutor: O estudante notará ainda que, na criação, Deus
Na arqueologia também tem havido extraordinário desenvolvimento. segue o método progressivo, partindo da relva cripto-gâmica, erva que dá
Os eruditos já falam em civilização de 5.000 anos e mais antes de Cristo; semente, árvore frutífera etc. Na ordem animal, a mesma coisa. Dos mais
as maravilhosas similaridades entre os fatos que nos legaram essas simples seres marinhos aos grandes monstros, se vê ordem. Vieram
civilizações e as narrativas bíblicas dos começos da raça humana, mesmo depois as aves, depois os animais terrestres, os grandes quadrúpedes e,
quando comparadas com as da Babilônia e Assíria, dão-nos um admirável por fim, o homem, como a coroa da criação. Não há qualquer indicação
parentesco. Como se pode explicar tal semelhança? Vejamos: que trate de evolução das espécies, porque cada espécie tem em si os ele-
1. Alguns pensam em coincidência acidental ou desenvolvimento mentos de sua própria reprodução. Deus agiu com ordem, método e
espontâneo. Nenhum homem criterioso pode aceitar tais coincidências. nada mais, e procurar neste método satisfação a doutrinas de todo
As coisas devem ter outra explicação. alheias ao ensino bíblico c pura especulação sem base científica.

2. As narrativas babilónicas teriam sido derivadas das hebraicas; 2:4. Deste versículo em diante, Moisés começa a usar o nome
mas aquelas são muito mais antigas, para poderem derivar-se das mais Jeová para designar Deus. Este nome não deveria ser escrito assim, e
novas. esta grafia é pura especulação de muitos críticos. A palavra hebraica
3. As narrativas hebraicas teriam sido derivadas das babilónicas. original não tinha vogais, mas apenas consoantes, que são as seguintes:
Muitos críticos assim pensam, e há possivelmente alguma verdade nisso. YHWH ou, segundo outro modo de ler os caracteres hebraicos, JHVH. O
Abraão veio da Babilônia e deveria conhecer muita coisa da civilização da nome era muito sagrado e, de acordo com o segundo mandamento, os
sua terra. Entretanto, isto ainda não explica o problema. judeus deixaram de pronunciá-lo. Sempre que o nome ocorre numa
passagem, o leitor lê Adonai (Senhor). Quando os massoretas inventaram
4. As narrativas hebraicas e babilónicas teriam uma origem as vogais para o texto consonantal, não sabendo eles como pronunciar o
comum, quer fosse tradição oral ou escrita. Cremos que esta seja a sagrado nome, puseram-lhe as vogais do nome Adonai, visto ser este o
verdade. A raça humana começou algures nas bacias do Tigre e do nome sempre usado. Como o leitor vé, colocando-se as vogais hebraicas
Eufrates. Dali se espalhou pelos quatro cantos da terra. Onde quer que do substantivo Adonai nas consoantes JHVH, forma-se uma palavra
fossem, es'es homens levariam consigo as tradições dos acontecimentos estrangeira, Jehovah, de todo estranha ao sentido para os hebreus. O
dos primeiros dias, e daí encontrarem- se por toda parte, relatos mais ou que seriam as atuais vogais do nome sagrado, ninguém sabe, mas
menos parecidos sobre a criação do homem, a queda, o dilúvio etc. Sendo seriam, mais ou menos, a e e, fazendo Yahweh ou Jahveh, pois se supõe
a Babilônia o centro dos primeiros anos da vida humana, é presumível e que esta seria a pronúncia do sagrado nome. A verdade é que ninguém,
natural que ali se encontrem estes mesmos fatos, mais bem delineados nem judeu nem gentio, sabe como o Nome seria pronunciado. Daqui em
que em qualcruer outro ponto do globo. Entre tantas diferenças, as diante, usaremos esta grafia para o nome Jeová.
tradições babilónicas e bihlicas são bem acentuadas. A revelação divina
dada a Moisés livrou as narrativas bíblicas do politeísmo, tão comum a 2:8 seg. Encontramos aqui um outro problema ligado ao lugar do
todos os antigos povos, e determinou a elaboração destes fatos de um Éden. Apenas dois rios, dos quatro mencionados no texto sagrado, são
modo único e inconfundível no eterno plano de Deus. conhecidos. Pensam alguns que o Dilúvio teria mudado o curso destes
rios ou teria feito desaparecer dois deles. De qualquer maneira, é
Tanto os judeus como os cristãos sustentam que Moisés foi o autor
evidente que o jardim ficava algures no vale da Mesopotâmia.
do maravilhoso livro de Gênesis. Alguns eruditos em assuntos do Velho
Testamento, como já vimos, acreditam numa composição literária baseada 2:15. O trabalho existia antes mesmo da criação do homem; e
em três (outros, quatro) documentos, todos eles muito posteriores ao depois dele continua a existir. Após a queda é que o trabalho se tornou
tempo de Moisés, tais como J (Jeovistico) e E (ElnísHco), pertencendo penoso, e o pão passou a ser conseguido com o suor do rosto.
ambos ao tempo do oitavo século a.C, e P (Sacerdotal), cerca de 500 a.C.
Este ponto de vista baseia-se apenas em supostas diferenças: (1) dos 2:17. Por que Deus colocou a árvore proibida no Jardim? Para
nomes de Deus; (2) diferenças de estilo, teologia etc; e (3) duplicidade de provar a obediência de Adão. Em si, a árvore não era boa nem má. Um
narrativas de um mesmo acontecimento. Nota do tradutor: Deixamos de símbolo apenas.
entrar em outros pormenores aqui, por já termos dado bastantes 2:18. O propósito divino, na criação da mulher, foi dar uma
informações no capítulo anterior. Deveremos apenas dizer que, depois de ajudadora, companheira, ao homem. Ela não é sua escrava nem sua
muitos estudos e discussões a respeito destas teorias, o assunto está senhora. É sua inspiração.
voltando aos termos primitivos, e não seria de admirar que estas diversas 2:24. O plano divino foi o casamento. Nenhuma previsão foi feita
escolas viessem a ser de todo desacreditadas. para o divórcio (cf. Deut. 24; Mar. 10:11).
Notas sobre Gênesis 1-12 3:6. "Deu a seu marido". Onde estaria Adão. quando Eva foi
1:1. "No princípio". Esta palavra não tem artigo no original hebraico. tentada? Estaria ausente? Em caso afirmativo, fez mal. Estaria presente?
"Deus" (a palavra hebraica é Elohim) é o plural do substantivo. Não tem Fez pior.

36 28
3:15. O fundamento desta promessa é a redenção. Alguns Capítulo 10. Este capitulo trata especialmente da distribuição da
contendem que o versículo descreve o eterno conflito entre o homem e a terra pelos filhos de Noé. Jafé estabeleceu-se na Ásia Menor e tomou
serpente, sem aualquer esperança de vitória, quer para um quer para o conta da Europa. Cão imigrou para a África e a Palestina, ficando alguns
outro lado, desde que é o calcanhar que a serpente sempre morde, e a descendentes na Babilônia, os quais mais tarde deram as grandes
cabeça, sua parte mais vulnerável. Se o versículo, em si, não tiver civilizações da Caldeia e imigraram para o Oriente. Sem ficou mesmo na
qualquer segurança, quanto à prometida e desejada redenção, o contexto Babilônia. Dele vieram os semitas, que deram os hebreus e os árabes.
dá esta promessa. Deus jamais será derrotado nos seus planos. Nos Capitulo 11. A Torre de Babel foi uma expressão do orgulho e
fracassos humanos, Êle provê um meio de saida, de maneira que o seu arrogância humanos, com o fim, talvez, de se prevenirem contra outro
propósito se cumpra. Nunca as astúcias da serpente se igualarão à dilúvio.
sabedoria divina.
3:22. A vida eterna não foi concedida ao homem na criação; tinha de 11:7. A confusão das línguas evitou a cooperação num pro-ieto
ser alcançada ou obtida. Depois da queda, o mesmo homem se tornou rebelde, e também prejudicou os esforços em prol da paz (cf. Sof. 3:9).
indigno dela, e jamais poderá gozá-la, enquanto não for feita expiação pelo 12:1-3. O estudo do restante de Gênesis revela que as promessas
seu pecado. feitas por Deus a Abraão, em 12:1-3, resultaram no concerto feito mais
4:3 seg. Por que foi o sacrifício de Caim rejeitado e o de Abel aceito? tarde com o mesmo Abraão, nos capítulos 15 e 17, o que trouxe, por sua
Porque Abel tinha fé e Caim era descrente (Heb. 11:14). Note-se também vez, a circuncisão. Ainda desse concerto resultou a promessa da posse de
que Abel ofereceu o melhor que tinha. Parece que não se trata de Canaã, de um nome mui desejado, de uma posteridade numerosa, de
conteúdo ou da qualidade do sacrifício, porque mais tarde foi feita uma grande nação, de um favor divino, tanto para si mesmo, como para
provisão para oferta de cereais e outros frutos da terra, juntamente com seus amigos, e do juízo divino sobre os seus inimigos. Tudo isto con-
os animais. Como sacrifícios pelos pecados, só animais limpos eram templava o grande ideal: "Em ti serão benditas as nações da terra." Este
aceitáveis, mas parece que estes sacrifícios não tinham tal propósito. Por é o elemento fundamental e o propósito final da concessão da promessa.
outro lado, a legislação mosaica ainda não tinha sido estabelecida. Este concerto aparece cinco vezes no Velho Testamento, variando os
4:15. O sinal que Deus pôs em Caim foi para proteção e não para termos ligeiramente: três vezes com respeito a Abraão (12:13; 18:18:
condenação, como alguns supõem. Não foi deste sinal que resultou a 22:18), uma vez em relação a Isaque (22:4), e, uma vez, a Jacó (28:14). Os
diferença de pigmento de algumas raças humanas. elementos desta aliança, reunidos, podem ser resumidos nas palavras:
4:17. Quem foi a muiher de Caim? Esta pergunta tem sido feita "Em ti e na tua semente serão benditas todas as nações da terra." A esta
milhares de vezes, e nem sempre com boas intenções. Adão e Eva tiveram promessa os escritores do Novo Testamento se referiram muitas vezes,
filhos e filhas (Gên. 5:4). Para que a raça humana se espalhasse pela especialmente Paulo, em Gál. 3:16. O seu verdadeiro cumprimento
terra, os primeiros irmãos teriam de casar com as irmãs; os primos realizou-se em Cristo (veja Sal. 72:17).
casariam com as primas. O incesto é um terrível pecado, pelos prejuízos Nota do tradutor: Além do esboço que o autor oferece, sobre os
que acarreta à progénie. Naqueles dias, no entanto, tais perigos seriam personagens patriarcais, eu gostaria de dar algumas outras informações,
atenuados pelo fato de que a raça humana estava na infância, e também mas receio que isso vá aumentar muito o volume do livro e torná-lo de
os casos não se repetiriam com freqüência, de modo a fazer perigar a dificil aquisição pelo povo. Os esboços apresentados facilitarão bastante
família humana. o estudo.
4:19. Lameque, da linhagem de Caim, foi o primeiro po-lígamo.
A VIDA DE ABRAÃO
Capítulo 5. A longevidade dos patriarcas tem sido um assunto
muito debatido, e não poucos têm impugnado este relato e a sua 1. Do nascimento de Abraão à partida para Canaã (11:27-12:4).
historicidade. As explicações que se têm oferecido compreendem os 1) Infância em Ur dos Caldeus, cidade sumeriana, de grande
seguintes pontos: (1) Os anos não eram como os nossos. Esta explicação cultura, especialmente devotada à idolatria. Esta cidade é uma das mais
não procede. (2) Os anos mencionados não se referem a vidas individuais, antigas da Mesopotâmia e foi o centro do comércio nos dias de Abraão.
mas a famílias. Também esta não parece ser a verdade. (3) A raça humana
era muito jovem; o pecado ainda não tinha produzido todos os seus frutos. 2) Viagem para Harã, ao norte da Mesopotâmia. Morte de Tera e
Podia-se viver muito mais que agora. estabelecimento ali de um ramo da família abraâmica.

5:24. O destino de Enoque faz-nos pensar na possibilidade da vida 2. Da partida para Canaã até ao nascimento de Ismael (12:
depois da morte. Como deve ser admirável, mesmo depois de se passar 5-16:16).
pela morte!
1) Primeira moradia em Canaã.
5:27. Matusalém registra a vida mais longa que se conhece, mas
tudo que dele se sabe é que morreu. Enoque viveu apenas um terço da sua a. Permanência breve em Siquém. Yahweh (Jeová) apa-
existência. Por isso, o que interessa não é tanto a extensão da vida, mas a rece a Abrão e este edifica um altar.
sua qualidade. b. Segunda estada, perto de Betei, ereção de um altar c
oferecimento de culto.
6:2. Há duas interpretações a esta Escritura: Os anjos entraram em
conúbio com as mulheres, resultando, dessa união, os gigantes. Não há c. Dirige-se ao Egito, através do País do Sul (Neguebe).
qualquer possibilidade de tal união, pois isso importaria em uma outra 2) Abrão mora no Egito. Note-se a sua fraqueza, quanto
humanidade. Além disso, não tendo os anjos corpo, como poderia ser feita a Sara, e a desgraça que se seguiu. Também não edificou ali
tal união? A segunda é que os filhos de Sete, a geração piedosa, qualquer altar. Que teria havido na vida do Patriarca?
escolheram as belas mulheres da descendência de Caim, e dessa união
resultaram os gigantes, chamados na Bíblia Naphelim, que tanto pode ser 3) Abrão volta a Canaã.
uma pessoa agigantada fisicamente, como pecaminosamente. O sentido
hebraico para "filhos de Deus" é filhos bons ou filhos de Sete. Filhas dos a. Passa pelo País do Sul e dirige-se a Betei, a antiga
homens são mulheres carnais ou filhas de Caim. O hebraico tem poucos sede do culto. Ali renova a sua comunhão com Deus. Contenda
adjetivos, e muitas vezes usa a expressão "filho de", para designar entre os pastores de Abrão e os de Ló. Separação entre o tio
qualidade, e não descendência. e o sobrinho. Deus novamente aparece e renova as promessas de
que a terra lhe seria dada na pessoa dos seus herdeiros.
6:3. O conflito entre espirito e carne termina sempre pela destruição
b. Muda-se para Hebrom, uma das mais antigas capi-
desta. De acordo com o dito divino, a sua destruição viria 120 anos mais tais do mundo oriental, e constrói ali um altar.
tarde. Estes 120 anos não podiam referir-se à vida dos patriarcas, porque
eles viveram muito mais que isso. Portanto, deve referir-se ao Dilúvio. (a) Quatro reis caldeus invadem a Palestina, entre os quais se
encontra Hamurabi (Gên. 14:1), Ló é levado cativo. Abrão salva Ló e paga
6:4. Nefilrm significa, como já vimos, em hebraico, "caídos" ou o dízimo dos despojos a Melquisedeque.
"caidores", que tanto pode significar gigantes, como gente moralmente (b) A promessa entre Yahweh e Abrão é renovada, sendo
decaída. Resultaram da miscigenação dos filhos de Deus com as filhas dos então revelado que a sua posteridade seria escrava, em terra estranha,
homens (Veja Núm. 13:33). por 400 anos.
6:9. Noé estava inteiramente ao lado de Deus. A palavra perfeição
ou perfeito tem mais idéia de disposição do que de perfeição moral. (c) Sara, para apressar o cumprimento da promessa, dá a sua
6:15 seg. A arca tinha o comprimento de 160 metros por 26,5 de escrava, Agar, a Abrão. Fuga desta para o deserto. Triste conseqüência,
largura e 16 metros de altura. Era, pois, um grande navio. de quem quer apressar o cumprimento de uma coisa que só Deus pode
cumprir.
9:3. Noé podia agora comer a carne dos animais, porque a vida deles
3. Do nascimento de Ismael ao nascimento de Isaque (17:
lhe pertencia. Se não fosse a arca, teriam desaparecido da terra.
1-20:18).
9:13. Certamente, esta não foi a primeira vez que o arco--iris
apareceu, mas foi a primeira em que surgiu com um sentido especial. 1) Renovação e concerto entre Yahweh e Abrão. Mudança do
nome deste para Abraão.
9:20. seg. A Biblia descreve os homens justamente como são. O
perfeito, como Noé, achou gostoso o vinho e embriagou-se.

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2) O concerto outra vez renovado, com a promessa do nascimento
de Isaque.
3) Destruição de Sodoma e Gomorra, sendo Ló salvo da catástrofe.
4) Abraão muda-se para Gerar, no sul da Palestina. Ali renova-se a
cena da negação de Sara, como sua mulher. Permanece no país dos
filisteus por muito tempo, mudando-se, certamente, de lugar em lugar,
atingindo as imediações de Berseba, 30 milhas distante de Gerar.
5) Nascimento de Isaque, o herdeiro da promessa.
4. Do nascimento de Isaque à morte de Sara (21:1-23:20).
1) Agar e Ismael são despedidos da casa de Abraão, e Deus
os encontra.
2) Concerto entre Abraão e Abimeleque em Berseba.
3) Deus manda Abraão sacrificar Isaque. Partida para o monte
Moriá, em Jerusalém. Sublime fé e dedicação de Abraão a seu Deus.
4) Morte de Sara e seu sepultamento em Hebron, na caverna de
Macpela.
5. Da morte de Sara à morte de Abraão (24:1-25:18).
1) Abraão procura a esposa para Isaque, na terra dos seus
parentes em Arã.
2) Casamento de Abraão com Quetura. Não se sabe quando Abraão
casou com Quetura, mas deve ter sido muitos anos antes, porque os filhos
dela aparecem, agora como herdeiros, juntamente com Isaque. Não serra
de esperar que um homem que se considerava velho, muitos anos antes
de Isaque nascer, se casasse agora, quando Isaque já era homem feito.
Isaque foi o herdeiro principal, de acordo com a lei patriarcal, mas os
outros filhos de Abraão também herdaram.
3) Morte de Abraão.
A VIDA DE JACÓ

1. Sua vida em Canaã (25:19-28:9).

1) Jacó e Esaú são gêmeos, sendo Jacó o segundo.


2) Jacó era caseiro, enquanto Esaú era caçador. Por isso, Rebeca,
sua mãe, tinha por ele perfeita afeição. Por meio de um prato de lentilhas,
comprou de Esaú os direitos da primogenitura.
3) Rebeca e Jacó, ardilosamente, conseguem a bênção de Isaque
para Jacó.
4) Por causa desta traição, Jacó é obrigado a fugir de casa e vai
refugiar-se na casa do tio em Padã-Arã.
2. A fuga de Jacó e sua moradia em Harã (Arã) (28:10-31:21).
1) O sonho em Betei. Jacó barganha com Deus: se Deus o
abençoar, lhe dará os dízimos de tudo que ganhar.
2) Em Harã ama a Raquel, sua prima, e concorda em trabalhar
sete anos para casar com ela. Era costume dar o dote ou arras, ao ser
pedida a moça; e como ele era pobre, trabalhou sete anos para pagar o
dote. O tio Labão, irmão de Rebeca, engana Jacó e dá-lhe, no dia do
casamento, Leia, irmã de Raquel. As moças estavam cobertas com o véu e
o embuste seria fáciL Jacó concorda em trabalhar mais sete anos, para
poder ganhar a sua querida Raquel.
3) O nascimento dos onze filhos de Jacó, e a sua riqueza posterior,
enganando também a Labão.
3. Volta a Canaã (31:22-35:29).

1) A fuga de Harã. Não podendo suportar a vida de enganos com


Labão, decidiu fugir.
2) O encontro de Labão com Jacó, e os deuses domésticos
roubados.
3) Jacó luta com o anjo, e este muda-lhe o nome para Israel.
4) Preparativos para o encontro com Esaú. Depois fazem as pazes.
5) Vem morar em Siquém. A desgraça de Diná.
6) Volta a Betei. Profundas mudanças no espírito de Jacó.
7) Nascimento de Benjamim e morte de Raquel.
8) Jacó vem morar com Isaque. Ele e Esaú sepultam o pai. Este foi
o seu último encontro. Daqui em diante a história de Jacó se funde com a
de José.

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