OBSERVATÓRIO BATISTA
Igrejas e crentes
pós pandemia -
Como será a volta?
Lourenço Stelio Rega comunidades e Igrejas evangélicas es- Quanto ao sexo, tivemos: Masculino: crentes de Bereia que conferiam tudo
palhadas pelo país. 52,9% e feminino: 47,1% o que ouviam com as Escrituras (At
Logo após a declaração da pande- Como serão, então, os crentes e O destaque de hoje fica para a per- 17.11,12);
mia pelo novo coronavírus, em meados as Igrejas pós quarentena? Foi a per- gunta dirigida somente a membros da • Os 9,6% que entenderam não ter
de março de 2020, buscamos avaliar gunta chave quando se imaginava que Igreja (não para pastores): “Você assistiu encontrado expositores melhores
o cenário que estaria e estava sendo ela finalmente iria nos dar trégua na sermões, mensagens e/ou exposições apontando para quantidade que indica
construído diante da vida eclesiástica metade final do ano passado. Isso me bíblicas de outros expositores além de preocupante volume de fragilidade no
e em geral. Nesta coluna foram escri- levou a elaborar um questionário com seu pastor?” Onde obtivemos 2.127 res- púlpito. Se menos de 10% dos pregado-
tos inúmeros artigos com o objetivo de o objetivo de fazer prospecção no am- postas com a seguinte apuração: Sim: res não conseguem atender melhor que
ajudar aos colegas pastores, líderes e biente evangélico em nível nacional. 85,8% e não 14,2% os demais ouvidos/assistidos, então a
membros das Igrejas. Desejando cópia Colocado o questionário na Internet e E para quem respondeu “sim” apon- tendência poderá ser a migração des-
é só me escrever (rega@batistas.org). feita a divulgação em diversos setores, tamos outra indagação: “Se sim, esco- tas pessoas para outras comunidades
Ainda estamos em um vai e vem so- foi possível obter diversos indicadores lha a melhor resposta”, com a seguinte ou Igrejas, a não ser que o atendimento
bre o término da quarentena diante do que deverei divulgar nas próximas se- apuração: pessoal e pastoral possa ser mais do
complexo quadro em nosso país, agra- manas. Foram 3.067 participantes es- • 28% - Encontrei expositores melho- que suficiente para compensar o que
vado pelo colorido político que tem sido
palhados pelo país, com 40 itens para res que meu pastor acontece pelo púlpito;
dado ao tema. Não é possível delinear respostas. • 9,6% - Não encontrei expositores • Se para 62,4% que encontraram
com segurança se estamos, no momen- Hoje vou divulgar alguns itens ge- melhores expositores semelhantes a situação
to, no final da primeira fase da contami-
rais e dois interligados para demonstrar • 62,4% - Os expositores que assisti/ pode dar indicativa positiva, pois seu
nação pelo Sars-Cov2, se na segunda a importância deste levantamento de ouvi eram semelhantes pastor segue alguma tendência da
fase ou mesmo em alguma onda de informações de campo com diversos maioria, mas também poderá não ser
novas mutações do vírus. indicadores. O que isso aponta para nós pasto- tão segura assim, pois seu pastor
Logo no início desse período, o ami- Dos participantes tivemos a colabo- res, pregadores e líderes? Para início de precisará se manter bem atualizado
go jornalista Neriel Lopes convidou di-ração das seguintes denominações: conversa, posso dar algumas sugestões. com suas mensagens, além de manter
versos líderes evangélicos para “lives” • 89,2% - Batista Por exemplo, com a pandemia/quaren- bom nível de qualificada comunicação.
sobre o tema e daí pudemos contribuir • 3,9% - Assembleia de Deus tena, conforme descrevo no capítulo do Uma “disputa” que vai demandar mui-
com um capítulo para a publicação do • 2% - Presbiteriana livro citado neste artigo, surgiu a demo- to trabalho e atualização constante,
primeiro livro evangélico sobre a pós- • 0,6% - Metodista cracia digital, de modo que os crentes de certo modo manter a “tropa” mais
-pandemia (“Cristianismo Pós-pandemia • 0,3% - O Brasil Para Cristo tiveram maior descortinamento do aces- dedicada;
- impacto e oportunidade”, organizado • 1,1% - Cristã Evangélica so a outros pregadores/preletores e isto • 28% apontando que existem prega-
pelo próprio Neriel e publicado pela Edi- • 1,2% - Outra Igreja não pentecostal implica também em alguns indicadores dores melhores é nível preocupante que,
tora Vida). Fiquei encarregado do capítu- • 1,7% - Outra Igreja pentecostal importantes: na volta da quarentena poderá trazer
lo 3, com o título “Novos desafios com • Há pregação e ensino da Bíblia para de imediato o afastamento do crente
a virtualização do sagrado - rupturas e Tivemos a participação de 16 Esta- além do domingo, do templo, do púlpi- de sua comunidade ou Igreja ou, pelo
descobertas no tempo da quarentena dos da Federação, destacando-se to e do pastor de sua Igreja, portanto, menos, a busca por outras alternativas,
pelo coronavírus”, em que foi possível • 35,4 % - São Paulo redução ou perda da exclusividade do a não ser que o acolhimento e o atendi-
desenhar seis referenciais ou paradig- • 15,1% - Rio de Janeiro líder local; mento pastoral tenha elevado nível de
mas que foram construídos ao longo • 7,2% Bahia • A exclusividade fragilizada leva ao qualidade.
da nossa história evangélica, dentro e • 5% - Paraná próximo passo, em que pregações/pa-
fora do país, que modelaram e forma- • 4,9% - Minas Gerais lestras/sermões podem ser objeto de São alguns indicadores que já apon-
taram a cultura eclesiástica dando-lhe • 4,5% - Espírito Santo comparações entre preletores/prega- tam caminhos preocupantes para a vol-
sustentação para seu funcionamento dores; ta da quarentena e outros indicadores
e legitimação, que, com a quarentena, Quanto à idade: • O crente fica exposto a outras al- poderão ser obtidos. O que é possível
foram fragilizados, pois perderam, em • Até 18 anos - 0,6% ternativas teológico-doutrinárias para sugerir é que pastores e líderes busquem
grande parte, sua sustentação, abrindo • de 18 a 29 anos - 9% além do que é pregado e ensinado em com humildade dialogar com seu povo
oportunidade para um cenário novo no • de 30 a 39 anos - 17,1% sua Igreja indicando que, se não rece- para ouvir dele o que espera para esse
ambiente eclesiástico, que tem sido bem • de 40 a 49 anos - 26,6% beu as ferramentas necessárias para in- retorno.
atendido por diversos líderes e Igrejas, • de 50 a 59 anos - 29,1% terpretar e compreender a Bíblia, estará Se você tiver mais sugestões de indi-
mas, infelizmente não é possível ob- • de 60 a 70 anos - 14,8% sujeito a acessar a alternativas teológi- cadores que foi possível obter destes da-
servar o mesmo em gigante espaço de • acima de 70 anos - 2,8% cas variadas deixando de ser como os dos me escreva: rega@batistas.org. n
Igrejas e crentes pós pandemia - como será a volta? (parte 2)
Lourenço Stelio Rega
Vamos continuar a apresentar mais alguns detalhes que puderam ser obtidos no
levamento de indicativos sobre como será a visão e percepção em geral dos crentes na
volta da quarentena por meio de um questionário que disponibilizamos pela Internet há
alguns meses, com mais de 3 mil respostas.
Hoje vamos dedicar tempo em demonstrar como os respondentes reagiram com
relação à sua ocupação com a mídia seja televisiva, seja nas redes sociais e buscar
oferecer alguns indicadores que serão úteis a líderes, pastores e igrejas para que se
preparem adequadamente para receber de volta
aos irmãos que ficaram por quase um ano sem a
participação presencial nos cultos e atividades de
suas igrejas, que, aos poucos, já estão voltando à
essas atividades.
Em média quantas horas por dia você
assistiu ou tem assistido televisão durante a
quarentena?
· Não tenho assistido televisão: 18,4%
· Menos de 1 hora: 26,1%
· De 1 a 2 horas: 33,6%
· De 3 a 4 horas: 16,8%
· 5 horas ou mais: 5,1%
Em média quantas horas por dia você
acessou ou tem acessado redes sociais/internet?
· Não tenho acessado: 0,8
· Menos de uma hora: 12%
· De 1 a 2 horas: 34,7%
· De 3 a 4 horas: 31,3
· 5 ou mais horas: 21,2%
Como você utilizou ou tem utilizado seu
tempo durante o isolamento? [Aponte os 5
primeiros em quantidade de tempo utilizada].
Considerando igual ou superior a 30% obtivemos:
· 31,8% Dedicando tempo para reflexão pessoal
· 32,2% Culto doméstico
· 33,8% Leitura de livros e/ou artigos
· 37,3% Acessado redes sociais
· 39,4% Assistindo "lives"
· 40,8% Assistindo filmes
· 58,8% Estudo da Bíblia
· 62,7% Trabalhando
Buscando descobrir como as pessoas ocuparam seu tempo apresentamos a
seguinte pergunta: “Quais as atividades/hobbies você mais tem praticado durante
esse período? [Indique mais de uma resposta se necessário]”.
· 29,2% Meditar
· 38,1% Cozinhar
· 44,8% Assistir streaming digitais [Netflix, Amazon Prime, HBO Go, Globo Play etc]
· 54,1% Ler
Qual é o melhor período do dia em que você se sente bem?
· 47,5% manhã
· 29,9% noite
· 16% tarde
· 6,5% madrugada
Então, o que você poderia deduzir sobre
qual os melhores horários para os cultos e
atendimentos virtuais? Quais os momentos em que a
pessoa está mais disposta?
E ainda vamos relembrar do que
mencionamos no artigo passado: "Somente para membros da igreja (não para
pastores) Você assistiu sermões, mensagens e/ou
exposições bíblicas de outros expositores além de seu
pastor? 85,8% para “SIM” e 14,2% para “NÃO”.
O que podemos aprender com estes indicadores? São
diversas possibilidades para as quais precisamos estabelecer
estratégias e ações.
Em primeiro lugar é possível ver o deslocamento da
atenção das pessoas para o mundo e alternativas digitais,
Uma espécie de “virtualização do sagrado”. Isso pode nos dar
a pista de que a busca por informações, estudos e até significação da vida e decisões
começa a deslocar do púlpito e até mesmo da fidelização de apenas ao pastor da igreja
para outras fontes. Me parece que agora as opções são variadas e terá a atenção quem
vier mais atender as demandas da pessoa e saber utilizar a mídia digital.
A partir disso também será necessário refletir que a cultura eclesiástica criada
sobre a autoridade do púlpito e do pregador/pastor/clero se fragiliza. Mas também que a
demanda das pessoas poderá deslocar a preocupação temática para o campo da
autoajuda em que a pessoa poderá demandar mais a busca por um Deus-garçom-serviçal
do que um Deus-Criador-Redentor-Restaurador. Então o foco poderá ser a busca por
atender as demandas de seu projeto pessoal de vida no lugar de um projeto-de-Deus-
para-sua-vida.
Outra possibilidade, que não estava na pesquisa, mas já é notada, é que a cultura
eclesiástica de centralização da vida e até da busca da significação da vida no templo e
nas atividades nele centralizadas, bem como as estruturas eclesiásticas e, por que não,
do Cristianismo circunscrito em apenas um dia da semana, se deslocam para o lar ou
outro lugar, de modo que o templo deixa de ser o “lugar sagrado” [Teologia do Antigo
Testamento especialmente] e outros locais passam a ser legitimados para a adoração e
vivência do sagrado, como no lar, no escritório, na condução. Mas também aponta para
uma linha temporal mais ampla alcançando qualquer dia da semana e, de certo modo, até
podendo descongestionar o domingo, que de dia de descanso e celebração, acabou se
tornando em dia de cansaço e agitação.
Se considerarmos o tempo médio diário em que as pessoas têm passado nas
redes sociais, poderemos notar que o maior peso fica entre 1 e 4 horas, mas 5 horas ou
mais também é algo significativo. Então, a volta para o presencial não poderá mais
desconsiderar o hábito do acesso ao digital, portanto as atividades híbridas (presenciais e
virtuais) poderão ser a tônica no desenvolvimento do atendimento aos membros da igreja
buscando a criatividade e os melhores recursos de modo que o digital deverá ser tornar
em área importante na orçamentação das igrejas. O período em que a pessoa se sente
melhor também deve ser considerado, pois significa que estará mais disposta a participar.
Mas também dar suporte às pessoas, capacitação para interpretar a Bíblia,
preparar seus próprios estudos bíblicos e devocionais e, mais uma vez, a autoridade
única do púlpito/pregador/clero, fica em outro plano. Mas isso é bom, pois será a
oportunidade para devolver ao crente o direito de acessar a Bíblia, compreendê-la etc.
Outro importante indicador aponta para tratamento de temas que tragam solução e
significação de vida para o crente para além das estruturas eclesiásticas, indicando que
existe algo além do domingo, do templo, do púlpito, que é a vida diária de cada pessoa.
Em outro artigo escrevi sobre a “Teologia da Segunda Feira” para explicar isso. Também
a indicação de livros, artigos e outras leituras se tornará essencial, pois o crente tem
descoberto que consegue estudar a Bíblia mesmo longe de seu pastor, da estrutura e
atividades eclesiásticas. E aí aquele jargão de que a “igreja é a cara do seu pastor” fica
fragilizado, mesmo porque quem é o cabeça da igreja é Jesus Cristo, portanto a face da
igreja deverá ser a dele, de modo que, no planejamento da igreja, em vez de a visão ser a
do pastor, será colegiada em que o pastor será o líder da visão, em vez de ser seu
proprietário ou o “homem” da visão. Isso inclui a necessidade de valorizar o engajamento
de cada membro da igreja para exercer seus dons e talentos, mas também para participar
da construção da visão e futuro da igreja. Aliás, quando uma pessoa participa de algo fica
mais fácil engajá-la.
Já estou recebendo outras reflexões sobre esse tema pelo e-mail
rega@batistas.org. Envie também suas percepções.
PONTO DE VISTA O JORNAL BATISTA Domingo, 28/02/21 15
OBSERVATÓRIO BATISTA