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EXAME NACIONAL DE PORTUGUÊS ________ ___

2006/2007

Sequência 1
Os Lusíadas de Luís de Camões

Sequência 2
Poesia de Fernando Pessoa
- Mensagem
- Pessoa ortónimo
- Alberto Caeiro
- Álvaro Campos
- Ricardo Reis

Sequência 3
Memorial do Convento de José Saramago

Sequência 4
Felizmente Há Luar! de Luís de Sttau Monteiro

Sequência 1
Os Lusíadas de Luís de Camões

Génese, estrutura e classificação da obra


- Data de publicação: 1572 (Renascimento)
- Período de elaboração: de 1545 a 1570
- A obra encontra-se estruturada em 4 partes: Proposição, Invocação, Dedicatória e Narração
- Fontes literárias: Odisseia de Homero, Eneida de Virgílio (…)
- Fontes históricas: crónicas de Fernão Lopes, de Rui Pina, de João de Barros, etc.
- Género narrativo: epopeia*
- Importância atribuída ao que é narrado
- Protagonista: herói colectivo (o povo português)

Contexto histórico-cultural
Situação económico-social:
- momento pós-descobrimentos
- esbanjamento das riquezas obtidas
- crises económicas
- surgimento do tribunal do Santo Ofício
- ameaça do monopólio marítimo
- corrupção dos costumes

Situação cultural:
- desenvolvimento cultural florescente de influência clássica e renascentista
- apologia do ideal humanista
- desenvolvimento científico

Características da obra:
- Acção épica;
- O protagonista;
- Unidade da acção;
- Os episódios;
- O maravilhoso (intervenção dos deuses);
- Modo narrativo;
- Intervenção do poeta;
- Estilo grandioso, solene e decassilábico.
__________________________________________________________________________________________________
*Nota: Epopeia: Uma epopeia, forma literária da Antiguidade Clássica, define-se como uma narrativa,
estruturada em verso, que narra, através de uma linguagem cuidada, os feitos grandiosos, de um herói,
com interesse para toda a Humanidade.

Estrutura externa:
‘Os Lusíadas’ - Dividida em 10 cantos (1102 estrofes) e estruturada em oitavas (estrofes de 8 versos) de
versos decassilábicos (heróico – acentos na 6ª e 10ª sílabas) e com rima ‘abababcc’

Estrutura interna:
1. Partes constituintes (4 partes)

Proposição (Canto I, estrofes 1-3)


Parte introdutória, na qual o poeta anuncia o que vai cantar - os feitos dos portugueses

“Que eu cante o peito ilustre Lusitano.”  Plano do Poeta


“Por mares nunca dantes navegados.”  Plano da Viagem
“Daqueles Reis que foram dilatando.”  Plano da História de Portugal
“A quem Neptuno e Marte obedeceram.”  Plano da Mitologia

Invocação (Canto I, estrofes 4-5; CIII, estrofes 4-5; C. VII, estrofes 78-82; C. X, estrofe 8)
Pede inspiração às Ninfas

Dedicatória (Canto I, estrofes 6-18)


De acordo com os modelos estruturais das epopeias clássicas, a dedicatória não era um elemento
obrigatório. Todavia, Camões opta por dedicar este canto ao jovem D. Sebastião, que reinava na época,
tecendo-lhe um grande elogio e considerando-o a esperança da continuação do império português.
A dedicatória, tratando-se de um discurso em louvor do rei, obedece a uma estrutura organizada de
acordo com os moldes da oratória:
Exórdio: parte introdutória, ou seja, de apresentação do assunto que irá ser cantado
Exposição: exposição do assunto propriamente dito
Confirmação: apresentação das provas de que realmente os feitos do povo português ultrapassam os da
antiguidade
Peroração: reforço da esperança depositada no novo rei e nos feitos gloriosos que irá concretizar
Epílogo: conclusão

Narração (CI, estrofe 19 até ao fim do poema)


Desenvolvimento do assunto da obra, relato da descoberta do caminho marítimo para a Índia pelos
navegadores portugueses liderados por Vasco da Gama, História de Portugal, Intervenção dos Deuses.

2. Planos narrativos (4)

Plano do Poeta – Reflexões, críticas, lamentações (normal/ no fim dos cantos)

Plano da História de Portugal – Plano encaixado


Narração Narração histórica
Plano da Viagem – Plano fulcral

Plano da Mitologia – Plano paralelo Narração Mitológica

- Acção fulcral: Acção núclear da epopeia – a Viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia
- Acção mitológica: Centra-se no conflito entre Vénus e Baco
- História de Portugal: É narrada a História de Portugal desde Viriato a D. Manuel. Com excepção dos
episódios líricos da Formosíssima Maria e de Inês de Castro (C. III), e dos preparativos para a viagem, que
incluem a despedida de Belém e o episódio do velho do Restelo (C. IV), predominam nesta longa narrativa
os feitos guerreiros.
Inicio da Narração
A narração fulcral está numa fase adiantada, os navegadores encontram-se no Oceano Índico,
próximo da costa moçambicana. A acção inicia-se ‘in media res’, por isso, as peripécias da viagem de
Portugal à Costa Oriental de África serão relatadas em analepse, por Vasco da Gama ao Rei de Melinde (C.
V).

Alternância Mar/Terra
Os 10 cantos apresentam uma alternância perfeita entre os elementos Água/Terra:
C. I, II, III C. III, IV C. V, VI C. VII, VIII C. IX, X
Mar Terra Mar Terra Mar/Terra
Viagem de Viagem de
Lisboa à costa regresso a
Armada no Armada em Ocidental de Armada em Lisboa; paragem
Índico Melinde África (analepse) Calecut numa ilha
e viagem até simbólica
Calecut

As personagens
- Plano da Viagem – Vasco da Gama (herói épico)
- Plano mitológico – Vénus (protectora dos navegadores portugueses) / Baco (opositor à viagem dos
portugueses)

Reflexões do poeta
Vertente pedagógica da obra:
C. I, estrofes 105/106 ‘O Homem é o causador de todas as guerras.’
C. V, estrofes 92-100 Fala do sentido da verdade, da glória, das artes e das letras às quais não se tem
atribuido grande importância em Portugal

Resumo
Canto I Canto II Canto III Canto IV Canto V
- Proposição (1-3) - Convite do rei - Invocação a - Crise após a - Partida para a Índia
- Invocação (4-5) de Mombaça (2- Calíope (1-3) morte de D. (1-3)
- Dedicatória (6- 4) - Início do discurso Fernando (1-5) - Viagem no
18) - Desembarque de Gama (3) - D. João I (15- Atlântico até ao
- Início da de dois - Narração da 50) Equador (4-13)
Narração (19) condenados História de - Batalha de - Cruzeiro do Sul /
- 1º Consílio dos portugueses (7- Portugal (de Luso a Aljubarrota (28- Fogo de Santelmo /
deuses (20-41) 9) Viriato) (22-24) 44) Tromba marítima
- Ilha de - Baco mais uma - Reis da primeira - Conquista de (14-23)
Moçambique; vez engana os dinastia / Batalha Ceuta (48-50) - Veloso (30-36)
Visita do régulo; portugueses (10- de Ourique (42-44) - Sonho - Adamastor (37-60)
Ataque traiçoeiro 15) - Afonso IV / profético de D. - Continuação da
de Baco; Vénus - Vénus e as “Fermosíssima Manuel I (67- viagem (61-83)
em auxílio dos Nereidas Maria” (101-106) 75) - Vasco da Gama
portugueses (42- auxiliam os - Batalha do - Preparativos elogia os
102) portugueses (18- Soldado (107-117) da viagem (84- portugueses (86-91)
- Chegada a 24) - Inês de Castro 87) - Camões faz
Mombaça (103- - Súplica de (118-135) - Despedida em considerações sobre
104) Gama à “Divina - D. Pedro I (136- Belém (89-93) os portuguess que
- Considerações Guarda” (29-32) 137) D. Fernando - Velho do desprezam a poesia
do Poeta sobre os - Chegada a (138-143) Restelo (94- (92-100)
perigos que Melinde (73-113) 104)
cercam o homem - Pedido do
(105-106) Mouro (108-113)

Canto VI Canto VII Canto VIII Canto IX Canto X


- Despedida de - Armada na - Na Índia o - Gama vence as - Banquete oferecido
Melinde (1-5) barra de Catual visita barreiras colocadas por Tétis aos
- Viagem de Calecut (1) a armada / contra os portugueses navegadores (1-7)
Melinde para a - Elogio do Referências a (1-12) - Nova invocação a
Índia (6) espírito de figuras - Regresso a Portugal Calíope (8-9)
- 2º Consílio dos cruzada dos históricas (1- (13-17) - Profecia de uma
deuses (38-69) portugueses 42) - Decisão de Vénus em ninfa sobre o futuro
- Os Doze de (2-14) - Regresso do premiar os glorioso dos
Inglaterra (43-69) - Estada na Catual a terra portugueses com a portugueses (10-74)
- Tempestade Índia (23-77) (44) Ilha dos Amores (18- - Tétis mostra a
Marítima (70-79) - Nova - Surgimento 51) Gama a máquina do
- Nova prece à invocação do de Baco (47- - Marinheiros avistam mundo (75-141)
“Divina Guarda” Poeta às ninfas 50) a ilha / descrição da - Despedida da Ilha
(81-83) do Tejo e do - Traição do ilha (52-63) (142-143)
- Vénus intervém Mondego (78- Catual (51- - Desembarque da - Chegada a Portugal
a favor dos 87) 90) armada portuguesa na (144)
portugueses (85- - Resgate de Ilha dos Amores (64- - Lamentações e
91) Gama (91-95) 84) exortações de
- Chegada a - - Téris recebe Gama Camões a D.
Calecut (92) Consideraçõe (85-88) Sebastião,
- Agradecimento s do Poeta - Sentido alegórico da profetizando glórias
de Gama a Deus contra o Ilha (89-92) futuras (145-146)
(93-94) poder do - Exortação do Poeta
ouro (92-99) aos que desejam a
imortalidade (93-95)

Sequência 2
Poesia de Fernando Pessoa

- Mensagem

Génese, estrutura e classificação da obra


- Género discursivo: poema épico-lírico de carácter profético.
- Período de elaboração: 1913 a 1934
- Contexto histórico-cultural do início do séc. XX: conturbação política; descrédito dos valores
tradicionais; mediocridade/estragnação cultural.
- Data de publicação: 1 de Dezembro de 1934
- Intencionalidade comunicativa:
- regenerar o orgulho dos portuguese;
- cantar o passado histórico de Portugal de uma forma simbólica e emblemática, transformando-o num
mito, a partir do qual seja possível reinventar o futuro;
- anunciar um novo império civilizacional, uma Super-Nação mítica.
- Estrutura tripartida: 44 poemas agrupados em 3 partes, por sua vez também subdivididas: Brasão,
Mar Português, O Encoberto.

Título - do primitivo ao definitivo


O meu livro Mensagem chamava-se primitivamente Portugal. (...)
Pus-lhe instintivamente esse título abstracto. Substituí-o por um título concreto por uma razão...
E o curioso é que o título Mensagem está mais certo – à parte a razão que me levou a pô-lo – de que o
título primitivo.
Fernando Pessoa

A estrutura tripartida da obra e o seu significado


No intuito de lutar contra a estagnação de Portugal, promovendo o restabelecimento de uma
identidade e de uma missão humana perdidas no tempo, Pessoa canta o passado histórico da nação que
se transforma num mito e profetiza o renascimento da prosperidade espiritual da pátria.

Os símbolos numéricos
Em Mensagem, Pessoa recorre a uma série de referentes simbólicos que é necessário compreender
para poder interpretar a obra.
O conjunto de poemas de Mensagem está intencionalmente agrupado em blocos de 1, 2, 3, 5, 7 e
12, num total de 44 poemas.

1 – simboliza o Ser por excelência. Representa também a ideia de unidade entre pólos opostos,
remetendo assim para a Totalidade, para a Perfeição e para a comunhão com o transcendente.
2 – simboliza a divisão e a dualidade, seja ela expressaão de contrários ou de complementaridade. O dois
resume o paradoxo da existência: a vida e a morte.
3 – remete para a união entre Deus, o Universo e o Homem e repenta, por isso, a Totalidade. Aparece
também associado a Cristo, cuja figura concentra 3 vertentes: a de rei, a de padre e a de profeta. O três
sugere ainda as fases da existência: nascimento, crescimento e morte. A própria obra está dividida em 3
partes.
5 – é o número da Ordem, do Equilíbrio, da Harmonia e da Perfeição.
7 – corresponde a um periodo temporal unificante, os sete dias da semana e está, por isso, associado à
ideia de completude de um ciclo. O sete é igualmente um número mágico que remete para o poder e para
o acto da criação.
12 – remete para a unidade temporal do ano (12 meses). O doze está ainda associado aos 12 apóstolos
que reflectem, por sua vez, uma forma de estar no Universo diferente, forma essa pautada pela fidelidade
a Cristo, pela fraternidade e pela paz.

Símbolos unificantes
A Mensagem encontra-se repleta de símbolos que contribuem para a sua significação. Alguns deles
assumem uma particular importância, quer por serem recorrentes na obra, quer por deterem uma forte
carga simbólica.
Mostrengo – simboliza as lendas do mar, p desconhecido, os medos, os obstáculos a vencer.
Nevoeiro – representa a indefinição, a incerteza e a hipótese de revelação de novas realidades. É, por
isso, símbolo de esperança e regeneração.
Manhã – simboliza a luz, a vida e o mundo novo.
Noite – simboliza a morte e a inércia e implica a hipótese do renascimento.
Nau – simboliza a viagem, as provaçõs, o caminho a percorrer para atingir movos mundos, novos
conhecimentos e o heroísmo. Está ligada à iniciação, que pressupõe a morte, para se dar lugar a um novo
ser.
Grifo – é uma ave mitológica com bico e asas de águia e corpo de leão. Simboliza a união do terreno e do
celeste, do humano e do divino. A sua simbologua aponta para a construção de uma obra de carácter
divino realizada pelos humanos.
Timbre – simboliza o poder legítimo e remete para a ideia de sagração do herói para uma missão
transcendente.
Coroa – simboliza a realeza, o poder e a perfeição.
Castelos – simbolizam a protecção, a segurança e as conquistas dos heróis. Nesta obra, os castelos
remetem igualmente para a própria fundação da nacionalidade.
Quinas – representam as cinco chagas de Cristo, que é a imagem do sofrimento e da redenção dos
pecados humanos. As figuras históricas focadas no teceiro bloco da primeira parte remetem para a
dimensão espiritual, na medida em que são apresentadas como seres cumpridores de um desejo de Deus,
realizado através das suas próprias vidas.
Campo – adquire a mesma simbologia da terra, enquanto elemento passivo. Está, por outro lado, ligado à
dominante feminina, por se associar à ideia de vida, de fecundidade e de alimento.
Ilha – por ser de difícil acesso, representa um centro espiritual e primordial. Local paradisíaco, a ilha
funciona como uma recompensa, como uma conquista após a superação dos obstáculos e simboliza a
promessa de felicidade na terra.
Terra – aparece, por um lado, associada à ideia de passividade, na medida em que nela se cumpre a
vontade divina. Por outro lado, constitui um símbolo materno, já que está associada à ideia de refúgio. O
regresso à terra equivale ao regresso ao elemento natural do ser humano.

Símbolos herméticos

- A Ordem dos Templários


Origem: ordem religiosa, fundada em Jerusalém, por Hugo de Payens e nove cavaleiros, em 1119, e que
aliava os votos da vida monástica (castidade, pobreza e obediência) à vida militar;
Objectivo: proteger os peregrinos dos lugares santos e combater os inimigos da fé;
Símbolo: o manto branco com uma cruz vermelha usado pelos membros da ordem simbolizava a
Perfeição que perseguiam, após o ingresso na Ordem.

- A Ordem Rosa-Cruz
Origem: associação secreta que surgiu na Alemanha, em 1604;
Objectivo: renovar a Igreja romana e a sociedade;
Símbolo: a insígnia da federação (uma rosa vermelha, no centro de uma cruz, também vermelha)
simboliza a comunhão da realidade com Cristo: o homem, cumprindo uma vontade divina, deveria
procurar o Amor, a Paz e a Perfeição.

- A Maçonaria
Origem: a associação, que se opõe à Igreja de Roma, remonta aos grupos de pedreiros-livres medievais
que, para manterem a unidade da “classe”, comunicavam entre si através de sinais secretos;
Objectivo: construir “catedrais humanas” (o indivíduo, enquanto receptáculo de Deus, deveria
aperfeiçoar-se de forma a honrar o “Grande Arquitecto do Universo”); construir um reino de fraternidade,
amor, solidariedade, responsabilidade e liberdade; instituir o primado da espiritualidade sobre o
materialismo;
Pressuposto: a feitura de um percurso, com vista à obtenção de um grau de espiritualidade cada vez
maior, de um renascimento;
Símbolo: os diferentes símbolos – instrumentos ligados ao trabalho dos pedreiros (círculos, compassos,
esquadros, réguas, níveis, luvas, etc.); símbolos ligados ao sacerdócio (o altar e o livro sagrado) e à
cavalaria (luvas, espadas, etc.) – remetem para a intersecção simbólica da Ordem dos Templários e da
Maçonaria.

Caracterização da obra
• 1ª Parte – ‘Brasão’

A primeira parte da obra, o Brasão,


subdivide-se em 5 partes. Em Brasão faz-se a
localização de Portugal na Europa e em relação ao
Mundo (Primeiro poema – ‘O dos castelos’) e
procura-se atestar a grandiosidade do povo,
evocando os heróis fundadores de Portugal:
‘Ulisses’ o fundador mítico de Lisboa; o pastor
‘Viriato’, chefe da resistência aos romanos; o
conde D. Henrique que deu origem ao condado
Portucalense (inicia a primeira Dinastia
portuguesa); D. Tareja, esposa do conde D.
Henrique; ‘D. Afonso Henrique’, o primeiro rei
português; o rei ‘D. Dinis’; o rei ‘D. João, O
Primeiro’, fundador da dinastia de Avis; ‘D.
Sebastião, rei de Portugal’; o Condestável,
‘Nun’ Álvares Pereira’, herói de Aljubarrota.

Nota: O mito é uma história exemplar e simbólica, que fundamenta e justifica a existência do mundo,
atribuindo-a à acção de seres sobrenaturais. O mito testemunha uma realidade intemporal e funciona
como modelo para a acção humana.

Os Poemas

- O dos castelos
Localização de Portugal na Europa e em relação ao Mundo. Portugal é comparado a uma figura
feminina.
Neste poema, Portugal assume um lugar de destaque promovido por diversos factores. O poema
inicia e termina fazendo referência a Portugal. O título remete para os símbolos da conquista,
pertencentes à bandeira portuguesa, e o último verso que contém 7 palavras, apresenta Portugal como
sendo o rosto da Europa. Sendo o número 7 um número místico, o último verso remete para a completude
e para o poder da criação de Portugal. A expectativa de um futuro que faça ressurgir a glória do passado é
representada pelo olhar insistente e misterioso voltado para o Ocidente, olhar esse dirigido pelo rosto
português. A posição de Portugal, voltada para o futuro, está relacionada com a missão lusa de guiar a
Europa e o Mundo até um Império Espiritual. Aqui reside o nacionalismo profético que percorre toda a
Mensagem.

- Ulisses
Em Mensagem, o mito assume uma função crucial, pois considera-se que é do seu poder
fecundador que nasce a realidade. É o mito que ilumina o herói e transporta o valor das suas acções para
a dimensão do eterno.
- Viriato
Ulisses e Viriato são mitos em que o povo se baseia. A história não é uma sucessão de factos, mas
de símbolos, assim o passado glorioso de Portugal não é estático, interfere no presente e permite contruir
o futuro. Deus escolhe o Homem para ser o símbolo da nação.
- D. Afonso Henriques
É o Pai de todos os portugueses, é o fundador de Portugal.

- D. Dinis
Figura de grande importância para a cultura portuguesa. É conhecido como o Lavrador,
devido ao Pinhal de Leiria que ele mandou ‘plantar’, é feita uma alusão ao facto da madeira usada
posteriormente nas naus dos descobrimentos ser desses pinheiros e também como o Trovador devidos às
suas cantigas e poesias.
Para o carácter profético de mistério do poema contribuem:
- as referências de espaço nocturno e do domínio do oculto (o substantivo noite; o adjectivo obscuro; a
subordinada modal sem se poder ver);
- ideia do futuro, de novidade, de fecundação (a conjugação perifrástica a haver; a expressão trigo de
Império; a expressão caracterizadora por achar; o adjectivo futuro; o gerúndio ansiando);
- as expressões que realçam o estranhamento de sinais sonoros
(a antítese silêncio múrmuro; as personificações fala dos pinhais, voz da terra e rumor dos pinhais; a
sinestesia marulho obscuro).
- D. João, O Primeiro
Fundador da dinastia de Avis. Neste poema, Fernando Pessoa fala no ‘Templo’ – referência à
Ordem do Templo (Templários), instituida em Portugal em 1125, posteriormente a mais rica e poderosa
Ordem de Portugal. Mais tarde passa a ser a Ordem de Cristo.
Segundo Fernando Pessoa, tudo o que de importante houve em Portugal teve o apoio e a iniciativa
da Ordem de Cristo.
- D. Sebastião, rei de Portugal
É a ele que Camões dedica a sua Epopeia e dirige o apelo de continuar a tradição dos antigos
heróis portugueses, para fazer ressurgir a pátria da ‘apagada e vil tristeza’ do presente. Na Mensagem, D.
Sebastião é o mito organizador e articulador da obra, no sentido de que representa o sonho que ressurgirá
do nevoeiro em que Portugal presente está mergulhado, impulsionando a construção do futuro, da utopia.
Fala na 1ª pessoa.
- Nun’ Álvares Pereira
Herói de Aljubarrota. Neste poema é importante ter em conta a simbologia da ‘espada’, sendo um
símbolo da cavalaria, tendo valor profético e detendo o poder de dar luminosidade.
Resumo: A primeira parte da Mensagem encontra-se dividida em cinco partes e dá-nos conta da primeira
etapa da evolução do Império – a fundação de Portugal.
‘Brasão’ começa pela localização de Portugal na Europa, procurando certificar o seu enorme valor
na civilização ocidental. Segue-se a definição de mito como o nada é capaz de impulsionar a construção
da realiade. Depois, apresneta-se o heroísmo e o carácter guerreiro do povo português, não esquecendo
as mães dos fundadores. Efectivamente, em Brasão, são evocados personagens emblemáticos, históricos
ou lendários, cujo esforço exemplar distingue Portugal, Enquanto nação destinada a grandes feitos.
O carácter heróico da acção dos antepassados confere-lhes o valor de mito, fazendo com que
passem a funcionar como símbolos de valores tais como a coragem, o sonho, a concretização do
impossível, o cumprimento de uma missão transcendente.
São esses mesmos valores que servirão de base para a construção de um futuro império sustentado por
valores e atitudes de excelência.
• 2ª Parte – ‘Mar Português’
(Possessio Maris – A posse do mar)

A 2ª Parte da Mensagem, subdividida em 12 poemas, simboliza a essência da vocação de Portugal


para o mar e para o sonho, em Mar Português encontramos os retratos dos heróis portugueses
impulsionadores da expansão portuguesa, os marinheiros que descobriram as terras novas, Diogo Cão,
Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e o mais ilustre de todos, Vasco da Gama. Em Mar Português, é
ainda possível detectar a concepção messíanica que Pessoa possui da história, já que afirma que o
processo de criação implica:

Os Poemas

- O Infante
Neste poema Pessoa exprime a sua concepção messiânica da História logo no primeiro verso:
‘Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.’. Este poema destina-se ao Infante D. Henrique pois foi ele que
impulsionou a expansão marítima. Deus destinou ao Infante a missão de unificar a terra. Na 3ª estrofe do
poema podemos ainda constatar o estado de decadência em que se encontrava Portugal.
- Horizonte
Neste poema fala-se na recompensa dos marinheiros ao atravessarem a ‘linha severa da
longínqua costa’ (horizonte) e encontrando assim novas terras, ‘receberem’ ‘os beijos merecidos da
Verdade.’ (a árvore, a praia, a flor, a ave a fonte) – alusão ao plano da Ilha dos Amores (Os Lusíadas).
- Ascensão de Vasco da Gama
Pessoa engrandece Vasco da Gama divinizando-o, os deuses pasmam, os homens extasiam-se e os
lugares ficam subitamente silenciosos. O poeta dá ao Gama o nome de Argonauta.
- O mostrengo
O processo de expansão marítima exigiu dos portugueses coragem e ousadia, para que
enfrentassem o perigo e o medo do desconhecido e conquistassem novas terras. As dificuldades que os
marinheiros tinham de enfrentar surgem, muitas vezes, representadas por monstros horrendos que
tentam amedrontar os que desafiam o oculto e tentam dominar o mar. É o caso do “Adamastor”, n’ Os
Lusíadas, e do “Mostrengo”, na Mensagem.

O medo e o desejo do povo português

Para além do conjunto de referências relacionadas com a ideia de mistério (fim, mar, noite,
cavernas), impõe-se, no poema, um importante símbolo numérico, associado ao oculto e à trilogia Deus-
Homem-Universo. Efectivamente, o número três abunda no poema, associado à ideia de busca de
conhecimento e de unificação enquanto missão divina.

- Mar Português
Depois de, na primeira estrofe, referir as consequências negativas dos Descobrimentos
Portugueses, o sujeito poético inicia a segunda estrofe com a pergunta retórica ‘valeu a pena?’ que
reforça o tom épico do poema.
A resposta que se lhe segue pretende realçar o lado positivo do empreendimento. Os versos ‘Tudo
vale a pena/ Se a alma não é pequena’ realçam a grandeza da alma humana, disposta a enfrentar
desafios em nome da glória.
Em ‘Mar Português’, ficamos a saber que se concretizaram as profecias do ‘Velho do Restelo’,
relativamente ao sofrimento que os portugueses iriam passar caso decidissem seguir ‘o fraudolento gosto’
da cobiça e da ambição.

- Prece
Tal como o nome do poema indica, aqui o Poeta, em nome do povo português, faz um pedido ao rei
para que Portugal retome os dias de glória que outrota teve.

• 3ª Parte – ‘O Encoberto’

O Encoberto encontra-se subdivido em 3 partes. Os Símbolos, Os Avisos e Os Tempos. Nesta parte


constata-se o estado moribundo do Império Português e anuncia-se a regeneração do ardor patriótico. Á
morte, sucederá o nascimento de um tempo de prosperidade espiritual, O Quinto Império.
A profecia de uma época de regeneração (Quinto Império), girando em torno da figura de D.
Sebastião, tinha já sido explorada, antes de Pessoa, pelo trovador Bandarra, e pelo Padre António Vieira.

Bandarra - Poeta e sapateiro nascido nos princípios do século XVI, em Trancoso, e falecido,
provavelmente, em 1566. Ficou célebre pelas suas Trovas (proibidas pela Inquisição e só publicadas em
1603), que constituíram o ponto de partida para a mais importante tradição messiânica portuguesa, o
Sebastianismo.

Padre António Vieira - Notável prosador e o mais conhecido orador religioso português, o Padre António
Vieira nasceu em 1608, em Lisboa e faleceu na Baía em 1697.
Foi preso pela Inquisição sob a acusação de que tomava a defesa dos judeus. Acreditava nas
possibilidades de um Quinto Império e nas profecias de Bandarra.
O Quinto Império

O mito do Quinto Império


Confrontado com a decadência da pátria e com o entorpecimento do povo português, Pessoa
profetiza o advento de uma era de prosperidade – "O Quinto Império" –, em que Portugal regenerado se
revelará novamente glorioso.

Todavia, a visão portuguesa do Quinto Império não corresponde à figuração tradicional do mesmo,
associada à interpretação do sonho de Nabucodonosor pelo profeta Daniel. Movido por um forte
sentimento patriótico, o poeta afirmava querer contribuir para a criação do «supra-Portugal de amanhã» e
falava na vinda de um outro Camões, um Supra-Camões (que seria por certo ele mesmo), que apareceria
para restituir à Pátria, ainda que não a nível material, a glória perdida.

Neste poema o poeta fala da falta de sonhos e ambições do povo português.

Terceiro – ‘Screvo meu livro à beira-mágoa’


A missão do sujeito lírico é ser uma espécie de profeta que anuncia o sonho, baseado na crença
sebastianista, mantendo assim a esperança, apesar da tristeza.
É assim estabelecida, em termos metafóricos uma associação entre a capacidade de um poeta de
poder anunciar (sopro) e uma profecia (grande anseio).
Nevoeiro
Anuncia-se neste último poema de Mensagem a chegada do momento desejado, como resposta às
perguntas do poema Terceiro ("Quando é o Rei? Quando é a Hora?" ...).
Sobre o poema Nevoeiro e a sua simbologia disse Pessoa: "Por nevoeiro, entende-se que o
Desejado virá encoberto; que chegando, ou chegado, se não perceberá que chegou.", daí o verso "É a
Hora", em forma de aviso e ao mesmo de tempo de apelo.
‘É a Hora!’ de partir, de novamente conquistarmos a distância, de assumirmos o sonho, cumprindo o
nosso destino de sagrados por Deus e portadores do seu sinal – assim a obra nascerá de novo.
Nota: Objectivo da Mensagem (desde ‘Prece’ até ao fim da Obra): que voltemos a ter fé em nós, que
voltemos a criar obra que nos redima em definitivo da ‘vil tristeza’ que ensombra a época de Pessoa e que
já ensombrava a de Camões, dando sentido ao apelo de D. Sebatisão para que fosse grande e desse
‘matéria a nunca ouvido canto’.
- Pessoa ortónimo

Linhas de sentido / Temas recorrentes:


- Fingimento poético;
- Fragmentação do eu. Perda de identidade;
- Nostalgia do bem perdido, do mundo fantástico da infância;
- dor de sentir/pensar, inconsciência/consciência;
- Procura da decifração do enigma do ser;
- Pendor filosófico;
- Obsessão da análise, dor de pensar, lucidez;
- Fuga da realidade para o sonho;
- Incapacidade de viver a vida;
- Inquietaçãom angústia existencial, solidão interior, melancolia, resisnação;
- Tédio, náusea, desencontro dos outros, desamparo;
- Transfiguração da emoçao pela razão.
Estilo:
- Preferência pela métrica curta;
- Influência do lirismo lusitano (reminiscências de cantigas de embalar, toadas de romanceiro, contos de
fadas);
- Gosto pelo popular (uso frequente da quadra);
- Linguagem simples, espontânea, mas sóbria;
- Criação de metáforas inesperadas; uso frequente do paradoxo;
- Versos leves em que recorre frequentemente à interrogação, às reticências.
Através da criação poética, o poeta transforma uma emoção numa construção linguística, intelectualizada.
Ao leitor cabe descodificar este código linguístico, associando-o às suas próprias emoções.
O leitor não sente nem a dor real que pertence ao poeta, nem a dor imaginária que pertence ao criador,
nem a sua própria dor. Apenas sente o que o objectivo artístico lhe desperta.
Fragmentação do “eu”: Pessoa revela um desdobramento de personalidade que o conduz à dispersão em
relação ao real e a si mesmo. A sua capacidade de despersonalização (ser múltiplo sem deixar de ser um)
traduz-se numa tentativa de aumentar a autoconsciência humana e com isso alcançar a finalidade da
arte.

- Albero Caeiro
“poeta bucólico de espécia complicada”
Nasce em Lisboa em 1889. Morre tuberculoso em 1915.
Motivos poéticos:
- panteísmo sensual;
- deambulismo;
- “variedade inumerável da Natureza”;
- “aceitação calma e gostosa do mundo como ele é” (objectivismo);
- misticismo naturalista (“amor pelas coisas em si mesmas”);
- vivência do presente, gozando em cada impressão o seu conteúdo original (epicurismo);
- recusa do vício de pensar (“saber ver sem estar a pensar”); combate à instrospecção e à subjectividade
Características do eu poético:
- vive de impressões, sobretudo visuais (sensacionismo);
- “lírico espontâneo, instintivo, inculto (no sentido académico), impessoal e forte como a voz da Terra”;
- poeta do real objectivo;
- realismo ingénuo (as coisas existem de facto como as vemos).
Características da sua poesia/estilo:
- ausência do biogáfico;
- linguagem corrente, próxima da língua falada e da prosa;
- ausência de rima e de esquema métrico;
- importância dada ao substantivo concreto (ligado ao predomínio das sensações visuais) em detrimento
do adjectivo (quase despojado de valoração subjectiva);
- tendência para a coordenação adversativa;
- prendor discursivo e argumentativo;
- recurso à compração e ao paradoxo (pouca importância dada a figuras como a metáfora, a hipérbole ou
a sinestesia).

- Álvaro de Campos
Nasce em Tavira, em 1890. Engenheiro formado na Escócia.
Motivos poéticos:
Fase decadentista
- “nostalgia do além”;
- “ embriaguez do ópio e dos sonhos”;
- “tédio e horror à vida”.

Fase futurista
- exaltação da civilização industrial;
- “amor ao ar livre e ao belo atroz”;
- “apologia de um novo homem, isento de dor, livre”;
- procura de sensações fortes e modernas.
Fase abúlica
-reminiscência do mundo fantástico ..
- solidão interior, angústia existencial;
- cepticismo e dor de pensar;
- tédio, náusea, desenocntro consigo mesmo e com os outros.
Características do eu poético:
- realismo satírico;
- poeta futurista, sensacionista e por vezes escandaloso (segundo Pessoa);
- defesa de uma estética não aristotélica;
- poeta da “volúpia da imaginação” e da “energia explosiva”;
- lucidez vs. Semi-inconsciência.
Características da sua poesia/estilo:
- presença do biográfico;
- verso: decassílabos agrupados em quadras (“Opiário”);
- verso livre, longo;
- “estilo esfuziante, torrencial” (fase futurista);
- poetização do prosaico (“lâmpadas”, “êmbolos”, etc.);
- estilo exclamativo, anafórico, interjectivo; recurso à reiteração de apóstrofes e enumerações;
- comparações, metáforas e antíteses arrojadas.

- Ricardo Reis
Nasce no Porto, em 1887.
Educado num colégio jesuíta, forma-se em Medicina.
Por ser monárquico, parte para o Brasil em 1919.
Motivos poéticos:
- efemeridade da vida e do tempo (a ameaça permanente do Fatum, da velhice e da Morte e o sfrimento
daí decorrente);
- tema horaciano do carpe diem (epicurismo);
- aceitação calma e serena da ordem das coisas, do Destino (estoicismo);
- busca da ataraxia (ausência de perturbação) e da aponia (ausência de dor) – epicurismo;
- “preocupação em fazer da própria vida uma arte” (tal como os gregos);
- paganismo;
- sentimento de ser estrangeiro do Mundo.
Características do eu poético:
- “amante do exacto, evidencia um espírito grave, medido, ansioso de perfeição”;
- autodisciplinado;
- neoclassicista formal e ideológico;
- moralista;
- epicurista e estóico (à maneira de Horácio);
- poeta da razão e da intelectualização das emoções.
Características formais da sua poesia/estilo:
- preferência pela ode de tipo horaciano;
- irregularidade métrica;
- importância dada ao ritmo como unidade de sentido;
- linguagem erudita, não raras vezes alatinada (no vocabulário e na sintaxe);
- gosto pelo uso do gerúndio;
- uso frequente do imperativo (em consonância com a feição moralista das suas odes);
- estilo laboriosamente construído, pensado.

Sequência 3
Memorial do Convento de José Saramago

O romance Memorial do Convento abriu o caminho da consagração de José Saramago, projectando


a sua obra na crítica e no público e transformando-o no romancista português de maior repercussão
internacional (Prémio Nobel de 1998). Publicado em 1982 e galardoado com os Prémios do Pen Clube e
Literário do Município de Lisboa, Memorial do Convento foi a obra de Saramago mais vendida em Portugal.
Nela, o autor cruza as memórias de uma época passada com elementos ficcionais e manifesta a sua
preocupação com o ser humano – a sua miséria, a sua luta, a sua grandeza, os seus limites.
A acção decorre no início do século do século XVIII, mais propriamente durante o reinado de D. João
V. Este rei absolutista gozou da enorme quantidade de ouro e diamantes vindo do Brasil e mandou
construir um convento em Mafra, como resultado de uma promessa que fez para garantir a existência de
um herdeiro.
“Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente
que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma
vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.” Neste pequeno texto que se encontra na
contracapa do livro temos um bom resumo do que fala esta história. Está presente uma breve
apresentação das personagens principais. O rei – D. João V, “a gente” – o povo, “um soldado maneta” –
Baltasar, “uma mulher que tinha poderes” – Blimunda e “um padre” – Padre Bartolomeu de Gusmão.

Memorial do Convento pode ser simultaneamente classificado como romance histórico, romance de
espaço e romance social. Porquê?

Génese, estrutura e classificação da obra

As Transgressões na obra
Transgressão do código religioso:
- Sumptuosidade do convento (pp.365-6) vs a simplicidade e a humildade (essência dos valores cristãos);
- Recrutamento à força;
- Construção da passarola vs a proibição de ascender a um plano superior/divino (p. 198) - 4 bases de
solidez do projecto: Bartolomeu, Baltasar, Blimunda e Scarlatti;
- A castidade vs as relações sexuais nos conventos (pp. 95,97);
- As estátuas dos santos (p. 344) vs a santidade humana (p. 342);
- Missa, espaço de vivência espiritual (p. 145) vs missa, espaço de namoros e de encontros clandestinos
(pp. 43, 162, 236);
- A benção de Deus vs a benção dos homens;
- Funeral do Infante D. Pedro, espectáculo de pompa e circunstância vs funeral do sobrinho de Baltasar,
manifestação isolada de dor.
Transgressão linguística:
- Inversão de expressões bíblicas;
- Jogos de palavras "os santos no oratório... não há melhor";
- Desconstrução e reconstrução das regras de pontuação;
- Aforismos "Não está o homem livre... com a verdade";
- Confluência de registos de língua:
Popular "Queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda";
Familiar "correram o reino de ponta a ponta e não os apanharam";
Cuidado "Tirando as expressões enfáticas esta mesma ordem já fora dada antes (...)".
Transgressão ficcional:
- A Música vence a Doença;
- A história vence a História;
- O espaço da ficção é o espaço da Utopia, da Liberdade Suprema;
- O Sonho é a Transcendência Humana.

Tempo
Tempo histórico (época ou período da História em que se desenrolam as sequências narrativas):
A acção passa-se no início do século XVIII (1711 – 1739).
Tempo da diegese (tempo durante o qual a acção se desenrola, segundo uma ordenação cronológica e em
que surgem marcas objectivas da passagem das horas, dias, meses, anos…):
1711 – 1739. Ao longo do romance, as referências temporais são escassas e, muitas vezes, deduzidas. O
crescimento e/ou envelhecimento das personagens também nos dá conta da passagem do tempo.
Chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje (I) – deduz-se que
a acção tem início em 1711, pois o casamento real aconteceu dois anos antes, em 1709.
Apenas há seis anos aconteceu, em 1705(II) – confirma 1711 focado anteriormente.
Tempo do discurso (modo como o narrador conta os acontecimentos, podendo elaborar o seu discurso
segundo uma frequência, ordem e ritmo temporais diferentes):
Frequência temporal:
 Discurso singulativo – o narrador conta apenas uma vez o que aconteceu uma só vez.
 Discurso repetitivo – o narrador conta várias vezes o que aconteceu apenas uma vez.
 Discurso iterativo – o narrador conta uma vez o que aconteceu várias vezes
Ordem temporal:
 O narrador conta no presente acontecimentos já passados – analepse anisocronia temporal
 O narrador antecipa acontecimentos futuros – prolepse  anisocronia temporal
 O narrador segue uma ordem cronológica dos eventos – ordem linear  isocronia temporal.
Ritmo temporal:
 O tempo da diegese pode ser maior do que o do discurso – anisocronia temporal (o narrador omite
(elipse) ou sumaria o que aconteceu em determinado período temporal)
 O tempo da diegese pode ser menor do que o do discurso – anisocronia temporal (o narrador procede a
descrições, divagações, reflexões, pausas narrativas)
O tempo da diegese pode ser idêntico ao do discurso – isocronia temporal (exemplo: diálogos).
No “Memorial do Convento” o narrador manipula o tempo a seu belo prazer mas segue uma ordem
cronológica linear havendo, por vezes, algumas anisocronias, sobretudo prolepses (antecipação de
acontecimentos futuros) que reflectem o seu afastamento temporal da intriga:
O número de filhos bastardos de D. João V (IX)
A morte do sobrinho de Baltasar (X)
A morte do infante D. Pedro (X)
A morte da mãe de Baltasar (XII)
A morte de Manuela Xavier e de Álvaro Diogo (XVII e XXIII, respectivamente)
Da mesma forma, adoptando uma atitude distanciada e, não raro, irónica, o narrado tece comentários e
comparações entre épocas históricas diferentes, que marcam a distância entre o tempo da diegese e o do
discurso (prolepses).
Alusão à extinção dos autos-de-fé (V)
A referência às cores da bandeira portuguesa e à implantação da República (XII)
A menção à cor carmesim (XII)
A alusão à revolução do 25 de Abril (XIII)
A indicação do número de frades instalados no convento por altura das invasões francesas (XVII)
A referência ao cinema e aos aviões (XVII)
A alusão a Fernando Pessoa (XVIII)
O distanciamento do narrador relativamente ao tempo da história é, ainda, visível quando este interpela
directamente o narratário, esclarece termos que caíram em desuso e quando simula a voz de um cicerone
(guia os visitantes do convento de Mafra (XIX)), detectando-se aqui a oposição entre dois tempos
diferentes, com o intuito de corrigir a História através da lembrança daqueles homens verdadeiros e dos
quais não há registo histórico oficial.
É de salientar que o narrador tem consciência do desfasamento entre o tempo da história e o da escrita.
Com isso pretende lembrar e enaltecer os homens/heróis que a História quase sempre esquece, através
da oposição entre épocas distintas Vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e
eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz (XIX).
Há momentos em que o narrador recua no tempo diegético para contar acontecimentos situados num
passado, mais ou menos distante, que explicam determinados aspectos da acção no presente (analepses):
Desejo antigo dos franciscanos terem um convento em Mafra (II)
A língua portuguesa ser familiar a Scarlatti há já alguns anos (XIV)
O que aconteceu ao cravo de Scarlatti que se encontrava na quinta do duque de Aveiro (XVI)
No último capítulo há um salto de 9 anos no tempo da diegese em que o narrador sumaria em poucas
páginas o que aconteceu durante este período de tempo. Nesta elipse temporal, o narrador cinge-se
praticamente à peregrinação incessante de Blimunda e ao (re)encontro de Baltasar, 1739, desde o seu
desaparecimento em 1730, omitindo o que de supérfluo para a acção se passou durante estes anos.
Tempo psicológico (tempo subjectivo, relacionado com as emoções, a problemática existencial das
personagens, ou seja, a forma como estas sentem a passagem do tempo, vivendo momentos felizes e/ou
infelizes):
No percurso até Espanha, Maria Bárbara vai observando o que a rodeia e, a partir daí, medita sobre vários
assuntos, nomeadamente sobre o facto de nunca ter visto o convento erigido em honra do seu
nascimento (XXII).

Espaço
Evocação de dois espaços principais determinantes no desenrolar da acção: Mafra e Lisboa.
Mafra: passa da vila velha e do antigo castelo nas proximidades da Igreja de Santo André para a vila nova
em cujas imediações se vai construir o convento. A vila nova cria-se justamente por causa da construção
do convento.
Lisboa: descrevem-se vários espaços dos quais se destacam o Terreiro do Paço, o Rossio e S. Sebastião
da Pedreira.
Portugal beneficiava da riqueza proveniente do ouro do Brasil. D. João V em decreto de 26 de Novembro
de 1711 autorizou que se fundasse, na vila de Mafra, um convento dedicado a Santo António e
pertencente à Província dos Capuchos Arrábidos.
Ludwig, arquitecto alemão, estava em Lisboa, em 1700, contratado como decorador-ourives, pelos
Jesuítas. Foi a ele que entregaram o projecto do Mosteiro, destinado a albergar 300 frades. A traça do
edifício terá sido executada por volta de 1714-1715 ao passo que a igreja, avançada ate ao zimbório, foi
sagrada em 1730. Outras dependências foram construídas para além da igreja: portaria, refeitório,
enfermaria, cozinha, claustros, biblioteca.
Terreiro do Paço: local onde primeiramente trabalha Baltasar na sua chegada a Lisboa, descrição
pormenorizada e sugestiva da procissão do Corpo de Deus, em Junho. É um espaço fulgurante de vida,
com grande importância no contexto da sociedade lisboeta da época.
Rossio: surge no início da obra, relacionado com o auto-de-fé que aí se realiza. A reconstituição do auto-
de-fé é fidedigna, a cerimónia tinha por base as sentenças proferidas pelo Tribunal do Santo Ofício e nela
figuravam não só reconciliados, mas também relaxados, aqueles que eram entregues à justiça secular
para a execução da pena de morte. O dia da publicação do auto era festivo, segundo se pode constatar
das defesas efectuadas. A procissão propriamente dita saía na manhã de domingo da sede do Santo Ofício
e percorria a cidade de Lisboa antes de chegar ao local da leitura das sentenças, numa das praças
centrais. À frente seguiam os frades de S. Domingos com o pendão da Inquisição. Atrás destes os
penitentes por ordem de gravidade das culpas, cada um ladeado por dois guardas. Depois, os condenados
à morte, acompanhados por frades, seguidos das estátuas dos que iam ser queimados em efígie.
Finalmente os altos dignitários da Inquisição, precedendo o Inquisidor-Geral. A sorte dos réus vinha
estampada nos sambenitos (hábito em forma de saco, de baeta amarela e vermelha que se vestia aos
penitentes dos autos-de-fé) para que a compacta multidão que se aglomerava soubesse o destino dos
condenados.
S. Sebastião da Pedreira: local mágico ao qual só acedem o padre, Bartolomeu Lourenço, o Voador,
Baltasar e Blimunda. É lá que se encontra a máquina voadora que está a ser construída em simultâneo
com o Convento de Mafra. A passarola insere-se na narrativa como um mito, do qual o homem depende
para viver, mito proibido mas que se evidenciará e se deixará ver pelo voo espectacular que se realizará,
mostrando que ao homem nada é impossível e que a vida é uma grande aventura. S. Sebastião da
Pedreira era, àquele tempo, um espaço rural, onde não faltavam fontes, terras de olival, burros, noras, e
onde se situava a quinta abandonada. Ali irão as personagens, variadíssimas vezes e pelas razões mais
diversas.
Personagens
D. João V: proclamado rei a 1 de Janeiro de 1707, casou, no ano seguinte, com a princesa Maria Ana de
Aústria e vive um dos mais longos reinados da nossa história. Surge na obra só pela sua promessa de
erguer um convento se tivesse um filho varão do seu casamento. O casal real cumpre, no início da obra,
com artificialismo, os rituais de acasalamento. O autor escreverá o memorial para resgatar o papel dos
oprimidos que o construíram. Rei e rainha são representantes do poder, da ordem e da repressão
absolutista.
Baltasar e Blimunda: são o casal que, simbolicamente, guardará os segredos dos infelizes, dos
humilhados, dos condenados, enfim, dos oprimidos. Conhecem-se durante um auto-de-fé, levado a cabo
pela Inquisição, o de 26 de Julho de 1711 e não mais deixam de se amar. Vivem um amor sem regras,
natural e instintivo, entregando-se a jogos eróticos. A plenitude do amor é sentida no momento em que se
amam e a procriação não é sonho que os atormente como sucede com os reis.
Baltasar Mateus: de alcunha, o sete-sóis, esteve na guerra de sucessão de Espanha, durante quatro
anos, da qual foi dispensado por ter perdido a mão esquerda em combate. De regresso, começa por
trabalhar no açougue no Terreiro do Paço, em Lisboa. Num auto-de-fé conhece Blimunda, a quem se liga
amorosa e espiritualmente. A convite do padre Bartolomeu Lourenço, ajuda a construir a “passarola”,
sonho que passa também a ser seu. Mais tarde, trabalha nas obras do convento de Mafra, primeiro como
servente e, depois, como boeiro. Após a morte do padre, zela pela preservação da “máquina voadora” e,
um dia, por descuido, é levado ao acaso, acabando por ser queimado 9 anos depois num auto-de-fé pela
Inquisição. Trata-se de um homem do povo, analfabeto e humilde, que aceita a vida tal como esta se lhe
apresenta. Ao longo da acção, vai-se dando conta do seu envelhecimento (XIII).
Blimunda: com poderes que a tornavam conhecedora dos outros nos seus bens e nos seus males,
recusando-se, no entanto, a olhar Baltasar por dentro. Vai ser ela quem, com Baltasar, guardará a
passarola quando o padre Bartolomeu vai para Espanha onde, afinal, acabará por morrer. Ela e Baltasar
sentir-se-ão obrigados a guardá-la como sua, quando, após uma aventura voadora, conseguira aterrar na
serra do Barregudo, não longe de Monte Junto, perdido o rasto do padre que desaparecera como fumo.
Quando voltaram a Mafra, dois dias depois, todos achavam que tinha voado sobre as obras da basílica o
Espírito Santo e fizeram uma procissão de agradecimento. Começaram a voltar ao local onde a passarola
dormia para cuidar dela, remendá-la, compô-la e limpá-la.
Um dia Baltasar foi verificar os efeitos do tempo na passarola mas Blimunda não o acompanhou e ele não
voltou. Procurou-o durante 9 anos, infeliz de saudade, na sua sétima passagem por Lisboa encontrou-o
entre os supliciados da Inquisição, a arder numa das fogueiras, disse-lhe "Vem" e a vontade dele não
subiu para as estrelas pois pertencia à terra e a Blimunda.
Povo: todos os anónimos que construíram a História são representados através daqueles a quem o autor
dá nome: Alcino, Brás, Nicanor, etc.
Padre Bartolomeu de Gusmão: tem por alcunha O Voador, gosto pelas viagens, estrangeirado, a
ciência era, para ele, a preocupação verdadeiramente nobre. O rei mostra-se muito empenhado no
progresso do seu invento. A populaça troça dele, Baltasar e Blimunda serão ouvintes atentos das suas
histórias e sermões. A amizade destes dois seres, simples, enigmáticos, mas verdadeiros protagonistas do
Memorial, é tão valiosa para o padre como necessária à representatividade da obra como símbolo de
solidariedade e beleza em dicotomia com egoísmo e poder.
Baltasar, Blimunda e o padre Bartolomeu Lourenço formam um trio que vai pôr em prática o sonho de
voar. Assim, o trabalho físico e artesanal, de Baltasar, liga-se à capacidade mágica de Blimunda e aos
conhecimentos científicos do padre. Todos partilham do entusiasmo na construção da passarola, aos quais
se junta um quarto elemento, o músico Domenico Scarlatti, que passa a tocar enquanto os outros
trabalham. O saber artístico junta-se aos outros saberes e todos corporizam o sonho de voar.
Scarlatti: veio como professor do irmão de D. João V, o infante D. António, passando depois a ser
professor da infanta D. Maria Bárbara. Exerceu as funções de mestre-de-capela e professor da casa real
de 1720 a 1729, tendo escrito inúmeras peças musicais durante esse tempo. No contexto do romance,
para além do seu contributo na construção da passarola é determinante na cura da doença de Blimunda;
durante uma semana tocou cravo para ela, até ela ter forças para se levantar.
Crítica da guerra: absurda, sacrifica homens em nome de um interesse que lhes é completamente
estranho e abandona-os à sua sorte quando doentes ou estropiados.

Narrador
É maioritariamente heterodiegético, quanto à presença, e omnisciente, quanto à ciência/focalização.
No que respeita à sua posição, não raro profere juízos de valor, opiniões, comentários e divagações pelo
que, neste caso, é subjectivo.
Há, no entanto, momentos em que o narrador empresta a sua “voz” a diversas personagens,
adoptando deste modo o seu ponto de vista (focalização interna): e esta sou eu, Sebastiana Maria de
Jesus… (V); e, eu, patriarca, debaixo dele… (XIII); E eu, vosso rei, de Portugal, Algarves e o resto… (XIII)
O estatuto do narrador assume, por vezes, atitudes aparentemente contraditórias: por um lado, há uma
tentativa de aproximação à época retratada não só através da reconstituição do ambiente vivido,
mas também do vocabulário usado; e, por outro lado, há um distanciamento do narrador, perceptível
no recurso a prolepses, à ironia e a uma actualização ao nível da linguagem. (por exemplo, a narração do
cerimonial respeitante aos encontros sexuais entre o rei e a rainha (I), apesar de retratar o ritual próprio
da época, reveste-se de extrema ironia, o que evidencia um narrador distanciado do tempo histórico
apresentado.
No que diz respeito a actualizações ao nível do vocabulário, o narrador não só utiliza termos usado num
tempo posterior ao da diegese, como os que se prendem com a aviação; mas também procura
explicitar conceitos que, na actualidade, sofreram alterações como é o caso da denominação das
refeições: passou a manhã, foi a hora de jantar, que é este o nome da refeição do meio-dia, não
esqueçamos (VIII).
Trata-se, assim, de um narrador que se movimenta entre o passado, o presente e o futuro; detentor de um
vasto conhecimento que lhe permite controlar a acção e as personagens.
O narratário surge no interior da narrativa, como entidade fictícia, a quem o narrador se dirige, explícita
ou implicitamente. É, portanto, o destinatário da mensagem do narrador.
Ao longo do romance, há momentos em que transparece a ideia de que o narrador participa na
acção – Já passámos Pintéus, vamos no caminho… (XXII) – e outros em que o narrador envolve
igualmente um tu, através do uso da primeira pessoa do plural que ora assume contornos de um eu
nacional e/ou colectivo – nem parecemos aquele país civilizado… (X) – ora se trata claramente de uma
interpelação a um narratário a quem dirige a sua mensagem – Blimunda não nos ouve, saiu já de casa
(XXIV).

A Dimensão Simbólica das Personagens


Em Memorial do Convento há dois grupos antagónicos de personagens: a classe opressora, representada
pela aristocracia e alto clero, e os oprimidos, o povo. No primeiro grupo destaca-se a actuação do Rei,
enquanto que no segundo, além de Baltasar e Blimunda, se integram o padre Bartolomeu Lourenço de
Gusmão, perseguido pela Inquisição, pela modernidade do seu espírito científico, e Domenico Scarlatti
que, pela liberdade de espírito e pelo poder subversivo da sua música, é uma figura incómoda para o
Poder. É ainda importante referir que, em Memorial do Convento, as personagens históricas convivem com
as fictícias, conduzindo à fusão entre realidade e ficção.
D. João V
Rei de Portugal de 1706 a 1750, desempenha o papel de monarca de setecentos que quer deixar como
marca do seu reinado uma obra grandiosa e magnificente - o Convento de Mafra. Este é construído sob o
pretexto de que cumpre uma promessa feita ao clero, classe que "santifica" e justifica o seu poder.
É símbolo do monarca absoluto, vaidoso, megalómano, egocêntrico, e mantém com a rainha apenas uma
relação de "cumprimento do dever" e, em alguns momentos, pretende ser um déspota esclarecido, à
semelhança dos monarcas europeus da sua época (favorece, durante algum tempo, o projecto do padre
Bartolomeu de Gusmão e contrata Domenico Scarlatti para ensinar música a sua filha, a infanta Maria
Bárbara). Dado aos prazeres da carne e a destemperos vários (teve muitos bastardos e a sua amante
favorita era a Madre Pauta do Convento de Odivelas). Sacrificou todos os homens válidos e a riqueza do
país na construção do convento.
Maria Ana Josefa
De origem austríaca, a rainha, surge como uma pobre mulher cuja única missão é dar herdeiros ao rei
para glória do reino e alegria de todos. É símbolo do papel da mulher da época: submissa, simples
procriadora, objecto da vontade masculina.
Baltasar Sete-Sóis
Baltasar Mateus, de alcunha Sete-Sóis, deixa o exército depois de ter ficado maneta em combate contra
os espanhóis, conhece Blimunda em Lisboa, e com ela partilha a vida e os sonhos. De ex-soldado passa a
açougueiro em Lisboa e, posteriormente, integra a legião de operários das obras do convento. A sua tarefa
máxima vai ser a construção da passarola, idealizada pelo padre Bartolomeu de Gusmão, passando a ser
o garante da continuidade do projecto, quando o padre Bartolomeu desaparece em Espanha.
Baltasar acaba por se constituir como a personagem principal do romance, sendo quase "divinizado" pela
construção da passarola: "maneta é Deus, e fez o universo. (...) Se Deus é maneta e fez o universo, este
homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar. " (p. 69) - diz o padre Bartolomeu a
propósito do seu companheiro de sonhos. Após a morte do padre, Baltasar ocupa-se da passarola e, um
dia, num descuido, desaparece com ela nos céus. Só é reencontrado, nove anos depois, em Lisboa, a ser
queimado no último auto-de-fé realizado em Portugal.
O simbolismo desta personagem é evidente, a começar pelo seu nome: sete é um número mágico, aponta
para uma totalidade (sete dias da criação do mundo, sete dias da semana, sete cores do arco-íris, sete
pecados mortais, sete virtudes); o Sol é o símbolo da vida, da força, do poder do conhecimento, daí que a
morte de Baltasar no fogo da Inquisição signifique, também, o regresso às trevas, a negação do
progresso. Baltasar transcende, então, a imagem do povo oprimido e espezinhado, sendo o seu percurso
marcado por uma aura de magia, presente na relação amorosa com Blimunda, na afinidade de "saberes"
com o padre Bartolomeu e no trabalho de construção da passarola.
Baltasar é uma das personagens mais bem conseguidas de todo o romance porque descrever a ambição
de um rei, as intrigas duns frades e a loucura de um cientista é relativamente fácil, mas escolher uma
personagem do povo, maneta e vagabunda, que aparentemente não tem muito para dizer e convertê-la
no fio condutor da narrativa e no protagonista duma das mais belas e sentidas histórias de amor, é algo
que só conseguem autores como Cervantes, que de um criado como Sancho Pança criou um arquétipo e
um digno "antagonista" de Dom Quixote.
Baltasar é um homem simples, elementar, fiel, terno e maneta, que confina a capacidade de surpresa com
a resignação típica das pessoas humildes de coração e de condição. Aceita a vida que lhe foi dado viver e
a mulher que o destino lhe ofereceu, sem assombro nem protestos; acata as suas circunstâncias e não
tem medo nem do trabalho nem da morte. Não é um herói nem um anti-herói, é simplesmente um
homem.
Blimunda de Jesus
Blimunda de Jesus é "baptizada" de Sete-Luas pelo padre Bartolomeu de Gusmão ("Tu és Sete-Sóis porque
vês às claras, (...) Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e
bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um" - pág. 94).
Conhece Baltasar quando assiste à partida de sua mãe, acusada de feitiçaria, para o degredo. Logo os
dois se apaixonam, e este amor puro e verdadeiro foge às convenções, subvertendo a moral tradicional e
entrando no domínio do maravilhoso - cf. primeira noite de amor (pp. 56-57).
Blimunda tem um dom: vê o interior das pessoas quando está em jejum, herdou da mãe um "outro saber"
e integra-se no projecto da passarola, porque, para o engenho voar, era preciso "prender" vontades, coisa
que só Blimunda, com o seu poder mágico, era capaz de fazer. Blimunda é, simultaneamente, uma
personagem que releva o domínio do maravilhoso, pelo dom que tem de ver "o interior" das pessoas
(poder que nunca exerce sobre Baltasar: "Nunca te olharei por dentro" - p. 57), porque amar alguém é
aceitá-lo sem reservas. Blimunda encerra uma dimensão trágica na vivência da morte de Baltasar.
Simbolicamente, o nome da personagem acaba por funcionar como uma espécie de reverso do de
Baltasar. Para além da presença do sete, Sol e Lua completam-se: são a luz e a sombra que compõem o
dia - Baltasar e Blimunda são, pelo amor que os une, um só. A relação entre os dois é também subversiva,
porque não existe casamento oficial e porque os dois têm os mesmos direitos, facto inverosímil em pleno
século XVIII.
Como outras personagens femininas de Saramago, também Blimunda tem uma grande firmeza interior,
uma forma de oferecer-se em silêncio e de aceitar a vida e os seus desígnios sem orgulho nem submissão,
com a naturalidade de quem sabe onde está e para quê.
Glória Hervás Fernandez, in Uma leitura espanhola de Memorial do Convento de José Saramago, in revista
Palavras, n.º 21, Primavera de 2002.
Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão
O padre Bartolomeu, personagem real da História, forma com Baltasar e Blimunda o núcleo mágico e
trágico do romance. Vive com uma obsessão, construir a máquina de voar, o que o leva a encetar uma
investigação científica na Holanda. Como cientista ignora os fanatismos religiosos da época e questiona
todos os principias dogmáticos da Igreja. O seu sonho de voar e as suas inabaláveis certezas científicas
revelam orgulho, "ambição de elevar-se um dia no ar, onde até agora só subiram Cristo, a Virgem e alguns
santos eleitos" e tornam-no persona non grata para a Inquisição que o acusa de bruxaria, obrigando-o a
fugir para Espanha e a deixar o seu sonho/projecto nas mãos de Baltasar.
A sua obsessão de voar domina-o de tal forma, que ele não se inibe de integrar no seu projecto um casal
não abençoado pela Igreja e de aceitar e usufruir das capacidades heréticas de Blimunda, que farão a
passarola voar. A passarola, símbolo da concretização do sonho de um visionário, funciona de uma forma
antagónica ao longo da narrativa: é ela que une Baltasar, Blimunda e o padre Bartolomeu, mas também é
ela que vai acabar por separá-los.
Domenico Scarlatti
Artista estrangeiro contratado por D. João V para iniciar a infanta Maria Bárbara na arte musical. O poder
curativo da sua música liberta Blimunda da sua estranha doença, permitindo-lhe cumprir a sua tarefa
("Durante uma semana (...) o músico foi tocar duas, três horas, até que Blimunda teve forças para
levantar-se, sentava-se ao pé do Cravo, pálida ainda, rodeada de música como se mergulhasse num
profundo mar, (...) Depois, a saúde voltou depressa" - pp. 191-2).
Scarlatti é cúmplice silencioso do projecto da passarola ("Saiu o músico a visitar o convento e viu
Blimunda, disfarçou um, o outro disfarçou, que em Mafra não haveria morador que não estranhasse, e (...)
fizesse logo seus juízos muito duvidosos" p. 231).
É, ainda, Scarlatti que dá a notícia a Baltasar e Blimunda da morte do padre Bartolomeu. A música do
cravo de Scarlatti simboliza o ultrapassar, por parte do homem, de uma materialidade excessiva, e o
atingir da plenitude da vida.
Bartolomeu de Gusmão, esse, aliado em diálogo excepcional com o músico Scarlatti, o único que pode de
raiz compreender as suas congeminações aladas, representa a possibilidade de articulação entre a cultura
e o humano, entre o saber e o sonho, entre o conhecimento e o desejo (...) São os caminhos da ficção os
que mais justificadamente conduzem ao encontro da verdade.

Elementos simbólicos
Começando pelo nome das personagens principais, há a referir que em ambas (Baltasar Sete-Sóis e
Blimunda Sete-Luas) é-nos transmitida uma ideia de união, de complementaridade e de perfeição,
traduzidas pela simbologia no número 7. Ambos os nomes representam, também, perfeição, totalidade e
até magia, sugeridas pela extensão trissílaba (e aqui reside a simbologia do número 3, revelador de uma
ordem intelectual e espiritual traduzida na união do céu e da terra).
Vários mutilados surgem na construção do convento, onde se inclui obviamente Baltasar. Tal situação
poderá levar à interpretação simbólica de luta desmedida na construção de algo, como realização de um
sonho. Baltasar, após ter perdido a mão esquerda num episódio bélico, empreende outras lutas: na
construção da passarola e na colaboração na edificação do convento de Mafra. Simbolicamente, a perda
de parte do seu lado esquerdo significou a amputação da sua dimensão mais nefasta, mais masculina,
mais passada; ganhou, assim, uma dimensão mais espiritual, marcada pela perseverança, força, luta e
sentido de futuro que sairá reforçada na associação com Blimunda.
A riqueza interior de Blimunda apresenta-se, simbolicamente, pela força do seu olhar, possuidor de um
poder mágico.
Metaforicamente, surgem as duas mil “vontades” (símbolo de todos aqueles que contribuem para o
progresso do mundo) necessárias para realizar o sonho do padre Bartolomeu. São vontades (nuvens)
estão carregadas de um carácter eufórico (positivo); contudo, de difícil acesso. Só uma personagem como
Blimunda conseguiria interpenetrar neste mundo não material.
Ainda no que concerne à simbologia dos números, o 7 não aparece só associado aos nomes de Baltasar e
Blimunda, como também à data e à hora da sagração do convento, aos sete anos vividos em Portugal pelo
músico Scarlatti, às sete vezes que Blimunda passa por Lisboa à procura de Baltasar, às sete igrejas
visitadas na Páscoa, aos sete bispos que baptizaram D. Maria Bárbara comparados a sete sóis de ouro e
prata nos degraus do altar mor.
O número nove surge também a simbolizar insistência e determinação quando Blimunda procura o
homem amado durante 9 anos. Este número encerra também simbolicamente a ideia de procura pois, o
que realmente acontece a Blimunda após os 9 anos de busca é que reencontra finalmente Baltasar, não
como um encontro físico, mas místico e completo.

Sequência 4
Felizmente Há Luar! de Luís de Sttau Monteiro

As Personagens:
Gomes Freire: homem instruído, letrado ("um estrangeirado"), um militar que sempre lutou em prol da
honestidade e da justiça. É também o símbolo da modernidade e do progresso, adepto das novas ideias
liberais e, por isso, considerado subversivo e perigoso para o poder instituído. Assim, quando é necessário
encontrar uma vítima que simbolize uma situação de revolta que se adivinha, Gomes Freire é a
personagem ideal. Ele é o símbolo da luta pela liberdade, da defesa intransigente dos ideais, daí que a sua
presença se torne incómoda não só para os "reis do Rossio", mas também para os senhores do regime
fascizante dos anos 60. A sua morte, duplamente aviltante para um militar (ele é enforcado e depois
queimado, quando a sentença para um militar seria o fuzilamento), servirá de lição a todos aqueles que
ousem afrontar o poder político e também, de certa forma, económico, representado pela tença que
Beresford recebe (16.000$00 anuais, uma fortuna para a época!) e que se arriscaria a perder se Gomes
Freire chegasse ao poder.
Matilde de Sousa: companheira de todas as horas de Gomes Freire, é ela que dá voz à injustiça sofrida
pelo seu homem. A suas falas, imbuídas de dor e revolta, constituem também uma denúncia da falsidade
e da hipocrisia do Estado e da Igreja. Todas as tiradas de Matilde revelam uma clara lucidez e uma
verdadeira coragem na análise que faz de toda a teia que envolve a prisão e condenação de Gomes
Freire. No entanto, a consciência da inevitabilidade do martírio do seu homem (e daí o carácter épico da
personagem de Gomes Freire) arrasta-a para um delírio final em que, envergando a saia verde que o
general lhe oferecera em Paris (símbolo de esperança num futuro diferente?), Matilde dialoga com Gomes
Freire vivendo momentos de alucinação intensa e dramática. Estes momentos finais, pelo carácter surreal
que transmitem, são também a denúncia do absurdo a que a intolerância e a violência dos homens
conduzem.
Sousa Falcão: é o amigo de todas as horas, é o amigo fiel em quem se pode confiar e que está sempre
pronto a exprimir a sua solidariedade e amizade. No entanto, ele próprio tem consciência de que, muitas
vezes, não actuou de forma consentânea com os seus ideais, faltando-lhe coragem para passar à acção.
Vicente, o traidor: elemento do povo, trai os seus iguais, chegando mesmo a provocá-los, apenas lhe
interessando a sua ascensão político-social. Apesar da repulsa/antipatia que as atitudes de Vicente
possam provocar ao público/leitor, o que é facto é que não se lhe pode negar nem lucidez nem acuidade
na análise que faz da sua situação de origem e da força corruptora do poder. Vicente é uma personagem
incómoda, talvez porque nos faça olhar para dentro de nós próprios, acordando más consciências
adormecidas.
Manuel, Rita: símbolos do povo oprimido e esmagado, têm consciência da injustiça em que vivem,
sabem que são simples joguetes nas mãos dos poderosos, mas sentem-se impotentes para alterar a
situação. Vêem em Gomes Freire uma espécie de Messias e daí, talvez, a sua agressividade em relação a
Matilde, após a prisão do general, quando ela lhes pede que se revoltem e que a ajudem a libertar o seu
homem. A prisão de Gomes Freire é uma espécie de traição à esperança que o povo nele depositava.
Podem também simbolizar a desesperança, a desilusão, a frustração de toda uma legião de miseráveis
face à quase impossibilidade de mudança da situação opressiva em que vivem.
Beresford: personagem cínica e controversa, aparece como alguém que, desassombradamente, assume
o processo de Gomes Freire, não como um imperativo nacional ou militar, mas apenas motivado por
interesses individuais: a manutenção do seu posto e da sua tença anual. A sua posição face a toda a
trama que envolve Gomes Freire é nitidamente de distanciamento crítico e irónico, acabando por revelar a
sua antipatia face ao catolicismo caduco e ao exercício incompetente do poder, que marcam a realidade
portuguesa.
D. Miguel: é o protótipo do pequeno tirano, inseguro e prepotente, avesso ao progresso, insensível à
injustiça e à miséria. Todo o seu discurso gira em torno de uma lógica oca e demagógica, construindo
verdades falsas em que talvez acabe mesmo por acreditar. Os argumentos do "ardor patriótico", da
construção de "um Portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e
defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor", são o eco fiel do discurso político dos anos 60. D.
Miguel e o Principal Sousa são talvez as duas personagens mais execráveis de todo o texto pela falsidade
e hipocrisia que veiculam.
Principal Sousa: para além da hipocrisia e da falta de valores éticos que esta personagem transmite, o
Principal Sousa simboliza também o conluio entre a igreja, enquanto instituição, e o poder e a demissão
da primeira em relação à denúncia das verdadeiras injustiças. Nas palavras do Principal Sousa é
igualmente possível detectar os fundamentos da política do "orgulhosamente sós" dos anos 60.
Andrade Corvo e Morais Sarmento: são os delatores por excelência, aqueles a quem não repugna trair
ou abdicar dos ideais, para servirem obscuros "propósitos patrióticos".

Carácter Apoteótico
Carácter excepcional das personagens:
Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa intransigente dos ideais de liberdade;
Matilde de Melo, pela nobreza moral, pelo conflito que vive entre os seus "humanos" sentimentos e a
progressiva consciencialização do seu dever de verdadeira patriota.
A simplicidade da acção e o despojamento cénico.
O desenlace final: o martírio e a morte de Gomes Freire.

Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60


Tempo da História (século XIX - 1817)
- agitação social que levou à revolta liberal de 1820 - conspirações internas; revolta contra a presença da
Corte no Brasil e influência do exército britânico;
- regime absolutista e tirânico ;
- classes sociais fortemente hierarquizadas;
- classes dominantes com medo de perder privilégios;
- povo oprimido e resignado;
- a "miséria, o medo e a ignorância";
- obscurantismo, mas "felizmente há luar";
- luta contra a opressão do regime absolutista;
- Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia a opressão e a miséria;
- perseguições dos agentes de Bereford;
- as denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento que, hipócritas e sem escrúpulos,
denunciam;
- censura;
- severa repressão dos conspiradores;
- processos sumários e pena de morte;
- execução do General Gomes Freire.
Tempo da escrita (século XX - 1961)
- agitação social dos anos 60 - conspirações internas; principal irrupção da guerra colonial;
- regime ditatorial de Salazar;
- maior desigualdade entre abastados e pobres;
- classes exploradas, com reforço do seu poder;
- povo reprimido e explorado;
- miséria, medo e analfabetismo;
- obscurantismo, mas crença nas mudanças;
- luta contra o regime totalitário e ditatorial;
- agitação social e política com militares antifascistas a protestarem;
- perseguições da PIDE;
- denúncias dos chamados "bufos", que surgem na sombra e se disfarçam, para colher informações e
denunciar;
- censura à imprensa;
- prisão e duras medidas de repressão e de tortura;
- condenação em processos sem provas.

Tempo
Tempo histórico: século XIX.
Tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista.
Tempo da representação: 1h30m/2h.
Tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias.
Tempo da narração: informações respeitantes a eventos não dramatizados, ocorridos no passado, mas
importantes para o desenrolar da acção.

Espaço
Espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores e interiores, mas não há nas
indicações cénicas referência a cenários diferentes.
Espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens, havendo vários espaços sociais,
distinguindo-se uns dos outros pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens.

O título
O título da peça aparece duas vezes ao longo da peça, ora inserido nas falas de um dos elementos do
poder - D. Miguel - ora inserido na fala final de Matilde. Em primeiro lugar é curioso e simbólico o facto de
o título coincidir com as palavras finais da obra, o que desde logo lhe confere circularidade.
- Página 131 - D. Miguel: salientando o efeito dissuasor das execuções, querendo que o castigo de Gomes
Freire se torne num exemplo;
- Página 140 - Matilde: na altura da execução são proferidas palavras de coragem e estímulo, para que o
povo se revolte contra a tirania.
Num primeiro momento, o título representa as trevas e o obscurantismo; num segundo momento,
representa a caminhada da sociedade em busca da liberdade.
Como facilmente se constata a mesma frase é proferida por personagens pertencentes a mundos
completamente opostos: D. Miguel, símbolo do poder, e Matilde, símbolo da resistência e do anti-poder.
Porém o sentido veiculado pelas mesmas palavras altera-se em virtude de uma afirmação dar lugar a uma
eufórica exclamação.
Para D. Miguel, o luar permitiria que as pessoas vissem mais facilmente o clarão da fogueira, isso faria
com que elas ficassem atemorizadas e percebessem que aquele é o fim último de quem afronta o regime.
A fogueira teria um efeito dissuasor.
Para Matilde, estas palavras são fruto de um sofrimento interiorizado reflectido, são a esperança e o não
conformismo nascidos após a revolta, a luz que vence as trevas, a vida que triunfa da morte. A luz do luar
(liberdade) vencerá a escuridão da noite (opressão) e todos poderão contemplar, enfim, a injustiça que
está a ser praticada e tirar dela ilações.
Há que imperiosamente lutar no presente pelo futuro e dizer não à opressão e falta de liberdade, há que
seguir a luz redentora e trilhar um caminho novo.

Elementos simbólicos
Saia verde: encontra-se associada à felicidade e foi comprada numa terra de liberdade: Paris, no Inverno,
com o dinheiro da venda de duas medalhas. "alegria no reencontro"; a saia é uma peça eminentemente
feminina e o verde encontra-se destinado à esperança de que um dia se reponha a justiça. Sinal do amor
verdadeiro e transformador, pois Matilde, vencendo aparentemente a dor e revolta iniciais, comunica aos
outros esperança através desta simples peça de vestuário. O verde é a cor predominante na natureza e
dos campos na Primavera, associando-se à força, à fertilidade e à esperança.
Título: duas vezes mencionado, inserido nas falas das personagens (por D.Miguel, que salienta o efeito
dissuador das execuções e por Matilde, cujas palavras remetem para um estímulo para que o povo se
revolte).
A luz: como metáfora do conhecimento dos valores do futuro (igualdade, fraternidade e liberdade), que
possibilita o progresso do mundo, vencendo a escuridão da noite (opressão, falta de liberdade e de
esclarecimento), advém quer da fogueira quer do luar. Ambas são a certeza de que o bem e a justiça
triunfarão, não obstante todo o sofrimento inerente a eles. Se a luz se encontra associada à vida, à saúde
e à felicidade, a noite e as trevas relacionam-se com o mal, a infelicidade, o castigo, a perdição e a morte.
A luz representa a esperança num momento trágico.
Noite: mal, castigo, morte, símbolo do obscurantismo.
Lua: simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol e por atravessar fases,
mudando de forma, representa: dependência, periodicidade. A luz da lua, devido aos ciclos lunares,
também se associa à renovação. A luz do luar é a força extraordinária que permite o conhecimento e a lua
poderá simbolizar a passagem da vida para a morte e vice-versa, o que aliás, se relaciona com a crença
na vida para além da morte.
Luar: duas conotações: para os opressores, mais pessoas ficarão avisadas e para os oprimidos, mais
pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade.
Fogueira: D. Miguel Forjaz - ensinamento ao povo; Matilde - a chama mantém-se viva e a liberdade há-de
chegar. O fogo é um elemento destruidor e ao mesmo tempo purificador e regenerador, sendo a
purificação pela água complementada pela do fogo. Se no presente a fogueira se relaciona com a tristeza
e escuridão, no futuro relacionar-se-á com esperança e liberdade.
Moeda de cinco reis: símbolo do desrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo,
contrariando os mandamentos de Deus.
Tambores: símbolo da repressão sempre presente.