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Estudos de História Moderna de Portugal

LUIS FERRAND DE ALMEIDA

I N S T I T U T O D E HISTÓRIA ECONÓMICA E S O C I A L
F A C U L D A D E DE L E T R A S DA UNIVERSIDADE D E COIMBRA

COIMBRA
-- -> . 1995 - - , :
o Tratado de Madrid, 9 vols., Ric

ómado Sacramento (1669-] 749), i

| 0 U O e o Sul do Brasil, Porto A l e g J

platina, 1816-1828, 3 vols., Rio J

la politica internacional. Génesis t


O A B S O L U T I S M O D E D. J O A O V
ira, dirig. por (...), vol. I I , t. I I , Ric

Sacramento e a expansão no extre


Brasileira, tomo I , vol. I , São Pai
E sabido que a política de fortalecimento do poder real no nosso País veio de
^eses en Buenos Aires (siglo XVi ro longe, por um caminho complexo, com oscilações e vicissitudes várias, mas
Dando por avançar decisivamente nos fms do século X V I I . O governo de D. João
^rrespondência Comercial do Séc :nitou-se a continuar, acentuando-a, esta já antiga evolução e não é de admirar
- assim tenha acontecido. Portugal seguia a corrente dominante na Europa do
do Sacramento, 1680-1777, 2 vo 00 (ainda que não esqueçamos importantes excepções) e deixava-se deslumbrar,
.cipalmente, pelo exemplo da França de Luís XIV.
onómicas de los Jesuítas en el Rio^ Para além das influências gerais do ambiente político da época, também os
ad.. Buenos Aires, 1968. H ores nacionais tiveram certamente o seu peso, especialmente a chegada, em
lis do Uruguai, Rio de Janeiro, es maciças, do ouro do Brasil, pelas facilidades que deu à Coroa nos planos
^ice-Reinado do Peru (Séculos. nceiro e político. Libertando, em larga medida, o Rei, a partir de certa altura,
necessidade de recorrer aos povos para lhe votarem subsídios, tomou-o
rrande de São Pedro. A Contribuiçà -pendente das Cortes, que não mais reuniram, e possibiUtou o grandioso fausto
is do Simpósio Comemorativo i oco em que frequentemente se envolveu, — natural manifestação externa do
Irande (1776-1976), vol. I I , Rioi olutismo monárquico (').

onia dei Sacramento (1680-18M


" C o m u n i c a ç ã o apresentada em s e s s ã o da Academia Portuguesa da História (25-Outubro-1989),
^io Grande, Rio de Janeiro, 1 ^ jrada no C o l ó q u i o « D . João V e o seu tempo». Publicada em Estudos em Homenagem a Jorge
Primer Colóquio Luso-Espan. „ de Macedo, Lisboa, 1992, pp. 371-386.
ilid, 1973-1974. ) Sobre a história do poder real e do absolutismo em Portugal: A n t ó n i o de S.S. Costa Lobo, O
in História da Sociedade em Portugal no século XVe outros estudos históricos, Lisboa, 1979,
ectos Polémicos da Formação R»-
^07-666; M . Paulo Merêa, O Poder Real e as Cortes, Coimbra, 1923; Edgar Prestage, The Royai
er and the Cortes in Portugal, Watford, 1927; E . de Oliveira França, O Poder Real em Portugal
- - Origens do Absolutismo, S ã o Paulo, 1946; E . Prestage, The Mode of Government in Portugal
. . mg the Restoration Period, in Mélanges d'Etudes Portugaises offerts a M. Georges Le Gentil,
1X4 O Absolutismo dc /). João V
Luis Feira ml c/e A/incida

Ultrapassando estas simples considerações genéricas, p r o c L i r c n i o s , I U M iiinniMi |.i..l..ii|.;ir tributos, s e m ouvir os representantes dos povos, com a alegação de
ver, de modo concreto, quais os caracteres fundamentais do absoUilisiiio imiMliMl Hii • n< i;i e outras dificuldades.
Em primeiro lugar, parece que podemos falar de uma ausência de Imil ^ I 111 1713 lembrava o duque de Cadaval q u e «as leis fundamentais naõ podem
doutrinária oficial. E certo que em obras do tempo se encontram e x p o s t a s * i mi • > l< (• vs lellaxar s e m o concurço de s e u s vassallos unidos em cortes»("). Já dois anos
a clareza concepções absolutistas e também há referências em c s m i n ' ) i|g Biiii", o inesmo Duque tinha considerado ousado lançar um novo imposto s e m a
jurisconsultos e em documentos provenientes da administração, m a s o | i i i i l ) l i > i t l f l n i i u (icaçào dos Três Estados Q). E quando isso veio efectivamente a acontecer, em
está em saber se existiu uma verdadeira doutrina oficial, proposta e deíciul n l , m mm 1? I . ' , o s procuradores dos mesteres na câmara de Lisboa não deixaram de dizer a
tal pelo poder. Ora, até que futuras investigações nos levem, porventura, a iiiiitlif l i i a o V q u e «o privilegio e foro principal dos povos é q u e se não lançará tributo
de opinião, podemos admitir, provisoriamente, que o absolutismo de D. . l o i l u V l l i i i I »t'Mi s e r e m convocados, e V. Magestade jurou guardar o dito privilegio, canonisado
sobretudo, de carácter prático, sem a preocupação de construir uma douli mu I jiiii l o d o s os senhores reis...». Acrescentavam q u e , ficando a continuação da nova
lhe servisse de fundamento e justificação, ao contrário do que veio a siuiilci | | | ^ 1 |iii|'('siçào dependente do soberano, s e m se reunirem Cortes, «parece se revogam
época pombalina. ^ tr. l o t o s e privilégios dos povos, q u e não podem s e r gravados com tributos s e m os

Certamente em relação com esta ausência de base doutrinária oilcial eiiA | j i i o i n c t t e r e m e assentarem...» (").
manutenção teórica dos privilégios do Reino, claramente afirmada, pelo mciiom, ii^l k I; o certo é q u e , até à paz com a Espanha em 1715, no seguimento, aliás, de u m a
duas décadas iniciais do reinado. É verdade que as Cortes não voltaram i i «if M i i i i c a vinda dos últimos anos de D. Pedro I I , foram constantes as justificações
convocadas, mas não foram abolidas e nem sequer esquecidas durante este p c i h M|4| B^MMs para lançar ou fazer continuar impostos s e m celebrar Cortes, com a
muito especialmente enquanto a participação portuguesa na guerra da Succssilo ) | | p i i i mação expressa de q u e não havia a intenção de «alterar ou abolir» os privilégios
Espanha e as suas sequelas económicas e financeiras obrigaram a Coroa a c i mi fty ( I I I i c i n o , m a s sim o desejo de os «conservar ilesos»

.'\a de possível reunião dos Três Estados manteve-se presente nos meios
jiiililicos pelo menos até cerca de 1723, como b e m mostram fontes de diversa
(iii);cm; dela se falou a propósito do juramento do príncipe do Brasil e serviu para
I m p e d i r a realização de alguns planos de D. João V, desde a projectada viagem ao
Lisboa, 1949, pp. 263-270; F.P. de Almeida Langhans, Fundamentos Jurídicos da M(iii,ii>i»t<l^ csiiangeiro até ao restabelecimento da décima
Portuguesa, Lisboa, 1951 (reeditadoem£.vfí<c/o.çí/eD;>c/to,domesmoautor,Coimbra, 1957,pp
• Tão frequente a sua lembrança que, num caso ou noutro, chegou mesmo a ser
-355); Jorge Borges de M a c e d o , / í / w o / w t o m o , in Dicionário H.P.. dirig. por Joel Serrão, vol. 1,1 lnliiH,
1963, pp. 8-14; Martim de Albuquerque, O PoderPo/ítico no Renascimento Português, Lisboii, I ')till| Considerada intempestiva. Quando em 1720 os perigos da situação internacional
Luís Reis Torgal, /deoiogiapolitica e teoria do Estado na Restauração. 2 vols., Coimbra, 19XI I 'ÍN J| lavaram o Rei a ordenar ao Conselho da Fazenda lhe sugerisse meios de aumentar
A n t ó n i o M . Hespanha. História das Instituições. Épocas medieval e moderna. Coimbra,
302-332; J. Borges de Macedo, .Absolutismo, in Polis. Enciclopédia Verbo da Sociedade e do /• v/iii/ii
vol. I , Lisboa, 1983, cols. 36-53; Rui Bebiano, D. J o ã o V:poder e espectáculo. Aveiro, 1987. A \
H e s p a n h a . P o d e r e I n . i t i t u i ç õ e s n o A n t i g o R e g i m e . G u i a d e e s t u d o . Lisboa, 1992; idem,/l,v IV\/P.I,M
(-) Papel do Duque sobre a paz de Castel/a (...) (Lisboa,30-7-17l 3) - A C : Cód.l027g (K-VI-
do Leviathan. Instituições e poder politico. Portugal — .séc. XVII. Coimbra, 1994.
n.273v.
Para o estudo de paralelismos e p o s s í v e i s influências: F . Hartung e R. Mousnier, (^i/i7i/tim
(') Virgínia Rau e M . Fernanda Gomes da Silva, Os Manuscritos doArqinvo da Casa de Cadaval
problémes concernant la monarchie absolue, in Relazioni deiXCongresso Internazionale di Si Irii4t
Storiche, vol. I V , Florença, 1955,pp. 3-55; J. Eliui,Histoiredesinstitutions, t. II, Paris, 1956, pp 11 í iis/vitantes ao Brasil, vol. II, Coimbra, 1958, p. 83, n." 127.
-340,362-381,416-469; G . Durand, ÉtatsetIn.uitutions. XVF-XVIII<^sièc/es. Paris, 1969, pp..' l lii {') Consulta da câmara de Lisboa ao Rei (3-2-1712), in E . Freire de Oliveira, Elementos para a
275-285; John C . Rule (Dirig. por), Louis XIVand the Craft ofKing.ihip, s. 1., 1969; Ragnhild I liilliMI liisioria do município de Lisboa, t. X , Lisboa, 1899, p. 589.
(Dirig. por), Louis XIV and Absoluti.sm, Londres, 1976; Perry Anderson, LÉtat ab.mlutislr .VK|
(^) A . Á l v a r o Oliveira Neves, Cartes do Reino de Portugal. Inventário de documentação existente
origines el .ws voies. trad., 2 vols.. Paris, 1978; P. Goubert, L 'Ancien Regime, vol. II (Les PouyoUH\y
I ) . Lisboa, 1940, pp. 64,408,454; E . Freire de Oliveira, op. cit.. t. X , pp. 582,584-586, 594, e t. X I ,
Paris, 1973;R. Mousnier, La monarchie ab.iolue en Europedu V^ .siècle à nos Jours, Paris 198,',A,
M . Hespanha, Poder e Instituições na Europa do Antigo Regime. Colectânea de textos, Lisboa, I '>H4| I isboa, 1901, pp. 21, 22-23, 44, 83-84; Fortunato de Almeida, História de Portugal, t. V , Coimbra,
F . Olivier-Martin, L'Absolutisme François, Paris, 1988 (reimpressão de um texto de 1951), K l'»28, p p . l 5 , 32.
Bonney, L 'Absoluíi.sme, Paris, 1989. ^ ODocs. 1.2,3,4,5, 7e(9 do apêndice documental; Visconde de Santarém, Q«aí//-oete/«e«torí/£içre/afõe?
IH>liticasediplomaticasdePortugal(...).l.W,?ans,\f,A5,p.Xh\\,noXa\yi.Cúes\.e]jei\.eàosKei
dc Momay, 1714-1720, dissert. de licenc. dactilografada, vol. I , Lisboa, s.d., p. 29.
186 O Absolutismo de D. João V
187
Luís Ferrand de Almeida

O exército e a marinha, o parecer deste órgão foi o de que na sua administração ni\ como sintoma da crescente hipertrofia do poder real.
havia rendimento livre «e que para tributos novos eraõ necessárias Cortes». De for- Deve dizer-se, em todo o caso, que o absolutismo não afastou D. João V dos seus
ma diferente se exprimiu o conselheiro e diplomata José da Cunha Brochado, pa- súbditos, por ter tido, em larga medida, um carácter «paternalista», de acordo, aliás,
ra quem os meios referidos só podiam consistir em novas imposições, considerando com antigas tradições da monarquia portuguesa. No próprio ano da morte do Rei
«inútil e incompetente» trazer à memória do monarca a convocação dos Três [-s- (1750), um seu biógrafo escrevia que ele tinha governado mais com a razão do que
tados, pois esse «costume louvável» (conforme lhe chamava) estava «prezentc o com a autoridade, «como hum prudente Pay na educação de seus filhos» ("'). Aqui
muito prezente» no pensamento de D. João V, que não deixaria de o pôr em prática nos aparece bem clara a concepção paternalista da realeza e com ela também depa-
quando entendesse, sem necessidade de lho lembrarem. E comentava: «No fundo
ramos em páginas de D. Luís da Cunha, designadamente no Testamento Poli-
da coiza o Conselho teve mais que razam; mas este naõ hé o modo de falar a hum
tico Q').
Rey»(^).
Na prática, esta maneira de entender o papel político do monarca traduzia-se não
A discordância no modo, como se vê, não impedia o acordo quanto ao fundo dn apenas em actos excepcionais, como os auxílios prestados à população de Lisboa
questão. Testemunho ainda mais elucidativo é o de um outro diplomata, D. LUÍH durante a epidemia de febre amarela de 1723, ou aos lavradores do Alentejo quando
Caetano de Lima, que por altura de 1723 acabava de escrever a sua Geografia da terrível seca de 1734-1735, mas em procedimentos habituais, designadamente
Histórica, só publicada, no entanto, em dois volumes, com pequeno» a concessão de audiências directas, três vezes por semana, a todos os súbditos que
acrescentamentos de actualização do texto, nos anos de 1734-1736. No capitulo do o desejassem e qualquer que fosse a sua condição social ('^). Essa atitude de geral
tomo I relativo ao «governo Politico de Portugal», o autor dissertava sobre iiN benevolência não impediu D. João V de afirmar, com energia, a sua autoridade real
Cortes, dizendo que nesta assembleia reconheciam os Reis tão grande autoridade c poder absoluto, sempre que o julgou necessário ou conveniente. O biógrafo há
que a faziam juntar «para alli se resolverem os negócios de mayor pezo», como oN pouco citado, Francisco Xavier da Silva, dizia ter ele resistido sempre «ao que via
da sucessão da Coroa, imposição de novos tributos e outros. Referia-se em especial ser offensivo às regalias da sua Coroa», e um viajante francês, de passagem em
às reuniões do tempo de D.Pedro I I e lembrava, por outro lado, que as Cortes do
Lamego tinham «força de ley fundamental, pois que os Povos as aceitarão com hun»
tácito consentimento e que os Reys se sogeitaraõ a observar os seus artigos»(").
Parece, pois, que a ideia das Cortes e da sua importância teimava em não morrer,
Na realidade, e tanto quanto pudemos averiguar até agora, é nos fins da década do ('") Francisco Xavier da Sylva, Elogio fúnebre, e histórico do (...) Fidelíssimo Rey de Portugal,
20 e na de 30 que ela vem a cair no esquecimento. Ao publicar, em 1734, a traduçA») c Senhor D. Joaõ V (...). Lisboa, 1750, pp. 36-37.
de uma obra histórica do abade de Vallemont, «accrescentada com algunian (") «... Os Reys nunca saõ mais Senhores dos homens, que quando mostraò serem os seus

noticias de Portugal» até à referida data, Pedro de Sousa de Castelo Branco \s pays; porque a d o m i n a ç ã o mais segura he aquel la que principia por sogeitar os c o r a ç õ e s »
(Carta de D . L u í s da Cunha à Academia Real da História Portuguesa. Paris, 10-3-1723, in Collecçam
dedicava bastantes páginas aos órgãos de governo do País, mas com total silêncio
dos Documentos e Memorias, cit., t. III p. 87). «... Hum Rei não differe. Senhor, de qualquer outro
a respeito das Cortes. Idêntica ausência encontramos, alguns anos depois (1739), Pai de famílias, mais que em o ser de muitas, e não de huma s ó , mas as o b r i g a ç õ e s s ã o as m e s m a s . . . . »
naDescripçam Corogra/ica de António de Oliveira Freire ("*). Silêncio significativo (Testamento politico. Lisboa, 1820, p. 14). V e r ainda, no mesmo sentido, R. Bluteau, Prosas
1'ortuguezas, 2- Parte, Lisboa, 1728, p. 266. Cfr. Jaime CorXesão, Alexandre de Gusmão e o Tratado
dc Madrid, Parte 1, t. I , Rio, 1952, pp. 371-373.
C) Doe. 6. ('-) Há numerosas fontes relativas à epidemia de 1723 e às providências de D . J o ã o V ; com base
O Geografia Histórica de todos os Estados soberanos de Europa, 1.1, Lisboa, 1734, pp. 250-2 52, nelas preparamos um estudo. Entretanto, ver A . da C . Vieira de Meírelics, Memorias de Epidemologia
Sobre a data da elaboração da obra: Carta de D. Luís Caetano de L i m a (Lisboa, 19-8-1723), iii 1'ortugueza, Coimbra, 1866,pp. 131-139,245. Sobre o auxílio aos lavradores alentejanos: Francisco
Collecçam dos Documentos e Memorias da Academia Real da Hi.<itoria Portugueza f . . t . I l l , 1 .isboii, ,\ da Sylva, op. cit., p. 134; D a m i ã o Faria e Castro, Historia geral de Portugal, e .<!uas conquistas,
1723, pp. 257-260; Joaquim A . Romero Magalhães, O Algane económico: 1600-1773. disscri di" I. X X , Lisboa, 1804, pp. 369-370; Visconde dc Santarém, op.cit.. t. V , p. C C L X I I , nota. Quanlo à s
doutoramento policopiada, vol. I I , Coimbra, 1984, pp. 1072-1077. audiências régias: De.scriplion dc la Villc dc í.isbonnc. Paris, 1730, p. 152; Merveillcux, Memoircs
C) Abade de Vallemont, Elementos da Hi.storia (...). t. I, 4'' imprc.s,sào Iniduzida «e accrescentada iniu iiisiructifs pour un voyageur (...). I. 1, Amslcrdão, 1738, pp. 71, 80-84 (ou a irad. dcsics (cxtos em
algumas noticias de Portugal ate o anno dc 17.34 por Pedro dc Soiisíi dc ( aslcllobníiico», I isboa, 1734, pp 11 -1 (' 1'orlugal dc /). .loão I ' visto por Ires tiirnslciros. Irad., prcl' c iiolas ilc ( aslclo Branco ( havcs,
-441; A. de Oliveira Freire, De.scripçam Corografica do Riynodc 1'orlugal ( J , Lisboa, 1739, pp. 97 l()^ I isboa, 1983, pp. 69 c 147), I I ; I I H isin \a Sylva, «/> cil. p .'l.V
iXS O lli.soliilisnKi dc /> ^
IJIÍS / 'cnainJc/e Almeida

Portugal no ano de 1729, notou que era «cioso da dignidade do seu Trono c ila M I i\c uni deles, o que lhes valeu serem desterrados da corte. A cviticiilc pivociipav.io
qualidade de Rei» ('^). ik- punir abusos e violências levaria mais tarde Matias Aires a escrever cnic I). .lono
Outro francês bom conhecedor da Lisboa joanina escreveu que o monarca i-m V «Ibi o terror da Nobreza arrogante e destemida»("').
igualmente amado e temido pelo povo, mas que os grandes o temiam mais do <|iii' Descontado o exagero, parece claro ter o governo joanino conseguido siihincicr
o amavam. Punha em foco a sua firmeza, acrescentando que ele sabia, meliioi iiui' r disciplinar os sectores mais turbulentos do estado nobiliárquico, o qual, ;ili;is,
os seus predecessores, manter a necessária subordinação do estado populai i' piocurou valorizar e utilizar no serviço do País, com a concessão de tenças e caruos
também da nobreza, «que era outrora — dizia — muito absoluta e q n i i s i -
iiicliopolitanos e ultramarinos. Mas estas mesmas circunstâncias levaram a uma
independentewC"*).
maior dependência da nobreza, sobretudo a da corte, enquanto se fortalecia o poder
Os condicionalismos internos e externos dos três primeiros reinados da dinasi iti ,eal(").
de Bragança proporcionaram aos nobres fiinções e situações de relevo na vidii Tendo em conta o que acabamos de dizer, parece possível falar de um certo
politica e social do País. Sabe-se, no entanto, que, nos primeiros tempos de D. .loilo paralelismo nas atitudes de D. João V em relação ao clero. Assistimos, sem diivitla,
V, era grande o descontentamento nos meios nobiliárquicos, relacionado com o li in
a sua valorização honorífica, social e económica, pormeio de numerosos pri vilégit)s,
da guerra da Sucessão de Espanha (e a consequente perda de cargos militares), c .
liberalidades, fundações e concessões de vária natureza (designadamente no caso
por outro lado, com a concessão de privilégios às dignidades e cónegos da Patriarcal
(la Patriarcal), mas tornando-o mais dependente e alargando o prestígio da Coroa.
em prejuízo dos nobres titulares, especialmente dos condes, levados por isso -
Os biógrafos do Rei Magnânimo não deixaram de pôr em foco a «sua devoção,
segundo o embaixador francês em Lisboa—a fazer «discursos muito livres, para não
dizer mais». Aos discursos seguiu-se um longo memorial de protesto colectivo e zelo do culto Divino», manifestados por miiltiplas formas, frequentemente
dirigido ao Rei, que não o atendeu ('^). espectaculares e esplendorosas. Mas a noção que o monarca e os seus conselheiros
e colaboradores tinham do poder real, da natureza, âmbito e prerrogativas deste,
Por esta época se verificaram alguns casos de indisciplina e desrespeito da
além de preocupações de prestígio internacional, iam reforçar o regalismo régio e
autoridade régia ou das suas normas que provocaram reacção adequada. Para além
a sua capacidade de intervenção, dando lugar a alguns problemas e até a situações
de episódios individuais como os que originaram a prisão dos condes do Prado
de conflito. Í'
(1717) e do Rio Grande (1723), deve recordar-se o caso mais grave daquele grupo
de cerca de 30 nobres que na capital, em 1725, tiraram das mãos da justiça o criado

("') De.scríplíon de la Ville de Lisbonne, pp. 154-159; Merveilleux, Memoires ínstructifs. vol. I ,
pp. 68, 83-85,167-170; Matias Aires, Reflexões sobre a vaidade dos homens (1752), pref. e notas de
(") F . X . da Sylva, op. cit.. p. 235. «II est jaloux de la dignité de son Trone & de sa qualitc de R o i »
J. do Prado Coelho e Violeta C . Figueiredo, Lisboa, 1980, p. 175; Ayres de Carvalho, D. João Ve a
( E . de Silhouette, Voyage de France. d'E.spagne, de Portugal et d'Italie. t. I V , Paris, 1770, p. 173. Cfr.
arte do seu tempo. vol. I , Mafra, 1960, pp. 18, 19-20,36, 77-79, 94; O Portugal de D. João V visto
D . - H . Pageaux, Image.s du Portugal dans le.s Lettres Française.s (1700-1755). Paris, 1971, p. 88).
('") De.scription de la Ville de Lishonne. cit., pp. 152-154. por três fora.steiros. cit., pp. 69-71, 142, 148-149, 181-182; Visconde de Santarém, op. cit.. t. V ,
p. C C L X V I l l , nota; Descriptive List ofthe State Papers Portugal 1661-1780 in the Public Record
('•') « L e s Distinctions que le Roy de Portugal continue d'accorder au C l e r g é de sa Chapelle, au
prejudice des Titrez, et particulierement des Comtes, portent ceux cy a des discours fort libres pour Office London. organiz. por C R . Boxer, vol. I I , Lisboa, 1979, pp. 47, 48, 53, 59, 81; Conde de

ne rien dire de plus. Ils se sont determinez a faire leur representation par ecrit et la doivcnt presenter Povolide, Memórias Históricas, cit., pp. 296-298, 337-338, 352, 356, 371, 372, 393, 398, 401, 404-
en Corps, mais on doute que ce Prince y ait egard» (R. de Mornay ao secretário de Estado dos N e g ó c i o s -405,406,408,412-414,416,421,423-425. E m 1717 foi preso o conde do Prado por ter desacatado
Estrangeiros de França. Lisboa, 2-2-1717 - A . M . A . E . : Correspondancepolitique, Portugal, vol. 52, a d e c i s ã o régia de mandar parar o coche quando se encontrasse na rua com o Patriarca, permitindo-
fl. 36). Cfr. Portugal. Lisboa e a Corte nos reinados de D. Pedro II e D. João V. Memórias Históricas -se ainda fazer comentários « c o n vozes poco respectuosas». No dizer do embaixador espanhol em
de Tristão da Cunha de Ataíde, I." Conde de Povo/ide, com introd. de A . Vasconcelos de Saldanha Lisboa, « h a ô c a s s i o n a d o esta prission comun Sentimiento a toda la nobleza, por no haverse visto
e Carmen Radulet, Lisboa, 1990, pp. 282-285,286,292, 357; M . Celeste Leite dos Reis, op. cit., vol. semejante exemplar desde la revelión acá...» (Capecelatro a Grimaldo. Lisboa, 18-1-1718 — A . G . S . :
I, pp. 62-65. A representação dos condes e a resposta do secretário de Estado Diogo de M . Corte Real, Estado, leg. 7096).
em nome do Rei, podem ver-se em Eduardo Brazão, D. João Vea Santa Sé. As relações diplomáticas (") A l é m das obras citadas na nota anterior, ver: J . Borges de Macedo, Centralização política, in
de Portugal com o governo pontifício de 1706 a 1750. Coimbra, 1937, pp. 427-445; idem. Subsídios
Dicionário H.P., dirig. por Joel Serrão, vol. I, p. 554; idem, Nobreza - Na Época Moderna, ibíd.,\o\.
para a Hi.<itóría do Patriarcado de Lí.sboa (1716-1740), Porto, 1943, pp. 128-142.
I I I , Lisboa, 1968, pp. 156-157.
Luis Ferrand dc Almeida O Absolutismo de D. João V

Se vemos o governo joanino tomar por vezes enérgicas medidas para reprinni portuguesa e só então conseguido (1740), e, finalmente, na concessão pelo Papa ao
aiiLisos e fazer respeitar a disciplina conventual, também nos aparecem casos dc Kci de Portugal e seus sucessores do título de Fidelíssimo (1748).
oposição entre interesses da Coroa e imunidades do clero, designadamente cm O próprio conflito suscitado pela recusa pontifícia de atribuir o chapéu cardi-
matéria fiscal. Assim aconteceu em 1708 com o subsídio para as despesas da gueri a. nalício ao antigo núncio em Lisboa, Mons. Bichi, deve ser visto na mesma
solicitado pelo Rei, autorizado pelo Papa, mas fortemente contestado por vários perspectiva: a da obtenção da paridade com as cortes católicas onde os núncios, ao
sectores eclesiásticos. Se o importante donativo com que o clero ajudou a fmanciar lieixarem o posto, eram elevados ao cardinalato. Como é sabido, a questão chegou
a armada que bateu os Turcos em Matapan (1717) parece não ter suscitado ao corte de relações diplomáticas, por iniciativa de D. João V (1728), situação que
dificuldades, já o mesmo não aconteceu em 1730, quando o estado eclesiástico, cin se manteve por quatro anos. até ser atendida a pretensão portuguesa.
Lisboa, foi abrangido pelo tributo destinado aos gastos com o aqueduto das Aguas Notemos, para terminar este ponto, que também no plano dos contactos entre a
Livres. Como o Patriarca tivesse protestado, ameaçando lançar o interdito sobre as Santa Sé e o clero português o peso das concepções regalistas se tomou sensível,
igrejas da capital, o Rei fez-lhe saber, pela pena do seu secretário Alexandre dc pelo menos em fins do reinado, sob uma forma, embora limitada, de beneplácito
Gusmão, que, se fosse necessário, usaria «dos poderes da Soberania, que Deus lhe régio. Parece ser este o significado de uma circular enviada (em 1748) aos prelados
concedeu para livrar os seus Vassallos destas e outras semelhantes oppressões». das ordens regulares, a fim de não executarem documentos emanados da Cúria
Episódio significativo e quase simbólico, se tivermos em conta os seus romana ou dos seus representantes, sobre religiosos e religiosas dos conventos
intervenientes: a concessão de excepcionais mercês e privilégios à Patriarcal não portugueses, sem passarem pela secretaria de Estado do Reino, «para determinar
impedia o monarca de afirmar, de modo terminante, o seu poder soberano. Defesa depois — dizia o texto — o que for mais do serviço de Deus e utilidade do bem
e exaltação da fé e regalismo estavam intimamente ligados no absolutismo joa- comum...».
nino ('«). Embora invocando razões morais que até podiam ser bem fundadas, vemos o
A esta situação interna iria corresponder, no plano externo, aquilo que o Prof. poder civil a considerar-se competente para declarar, em matérias da vida religiosa,
Borges de Macedo chamou «a conquista da paridade diplomática na Santa Sé», isto o que era mais do serviço de Deus... Nestas circunstâncias, não é de estranhar que
é, a obtenção ou recuperação de todo um conjunto de honras e vantagens jurídico- o próprio D. João V, segundo um autor do tempo, tenha escrito uma obra (hoje
-políticas, tendo em vista a equiparação de Portugal às grandes potências católicas, perdida) sobre «negócios políticos em que a regalia da Coroa ficasse justamente
com o consequente prestígio internacional daí resultante. sublimada»(''').
Esta preocupação manifestou-se ao longo de todo o reinado, mas encontramo- Caracterizado, ainda que brevemente, o absolutismo joanino, importa ver agora
-la esboçada desde o início na instrução para André de Melo e Castro, enviado a que métodos e meios foram utilizados na governação, embora tudo quanto
Roma em missão diplomática no ano de 1707. Ela viria a concretizar-se na fundação
dissemos até aqui já nos forneça alguns esclarecimentos.
da Patriarcal, com extraordinárias prerrogativas; no estabelecimento de restrições E sabido que D. João V começou a reinar muito novo, com 17 anos, revelando,
aos poderes dos núncios no nosso País em matéria de foro eclesiástico e de
intervenção no governo das ordens religiosas; na defesa diplomática do Padroado
do Oriente contra as intromissões da congregação romana da Propaganda; na
obtenção do direito de apresentação dos bispos, pretendido há muito pela Coroa ('•')£. Brazão, D. João Vea Santa Sé. pp. 1 -67,121 -360,413-418; idem, Subsídios para a História
do Patriarcado de Lisboa (17I6-1740); idem, A Diplomacia Portugue.sa nos Séculos XVII e XVIII,
vol. I I , Lisboa, 1980, pp. 159-182; Francisco X . da Sylva, op. cit.. p. 163; Collecçào dos Negócios de
Roma no Reinado de El-Rey Dom José I (..,), parte I, Lisboa, 1874, pp. 228-230 e notas. Luís de
Albuquerque, Um inédito de José da Cunha Brochado, in Arquivo de Bibliografia Portuguesa, Ano
('") Francisco X . da Sylva, op. cit.. pp. 39-118; Fortunato de Almeida, Hi.nória da Igreja em III, 1 9 5 7 , n . ° 1 l , p p . 117-1 \ AnlunesBorges. Do galicanísmo de Luís XIV ao regalismo de D. João
Portugal. 2.^ ed., vol. I I , Barcelos, 1968, e vol. I V , Porto, 1971. Sobre o subsídio de 1707-1708' V. in Lúmen. vol. X X I I I , 1959, pp. 476-481; M . Simoneta Ayres de Carvalho, A Imposição do Capelo
B.G.U.C.:M.v. 519. ns.MA-W; Manuscritos da Ajuda (Guia), vol. I, Lisboa, 1966,p. 1 7 0 ; E Brazão Cardinalício aos Núncios de Portugal (I720-I73I). Incidente diplomático entre D. João Vea Santa
D. João Vea Santa Sé. pp. 13-14; Fortunato de Almeida, op. cit.. vol. I I , p. 120. Sobre o incidente Sé, dissert. de licenc. policopiada, Coimbra, 1970; P. Soares Martinez, História Diplomática de
com o Patnarca em 1730: Visconde de Santarém, op. cit.. t. V , p. C C L X X , nota; J . Cortesão, op cit Portugal. Lisboa, 1986, pp. 185-186,236-237; J . Borges de Macedo, História Diplomática Portuguesa.
Parte I., t. I, pp. 323-324. e Parle II, t. I, pp. 263-268 " Constantes e linhas de força, vol. I , Lisboa, 1987, pp. 259-263.
O AhsolulisDw dc D. João V l'M
Luis Lernmci dc Almeida

de início, certa irresolução e desinteresse pelos negócios do Estado. O tempo c a anteriormente sucedera. '
experiência foram corrigindo estes defeitos, a ponto de, já em 1723, um observador Alguns destes colaboradores vieram a ter tanta ou mais importância do que os
estrangeiro notar que ele era firme nas decisões e actuava mais despoticamente do dos cargos oficiais, como aconteceu com o cardeal da Mota, que, de cerca de 1736
que os antecessores. a 1747, foi «huma espécie de primeiro Ministro», no dizer de D. Luís da Cunha.
Até 1736 governou com o apoio do secretário de Estado Diogo de Mendonça Outros ocuparam também um lugar de maior ou menor relevo no valimento real,
Corte Real, homem de capacidade e experiência, mas com um poder de iniciativa servindo de conselheiros ou executantes: lembremos o cardeal da Cunha, o P.^
e de decisão limitado; só agia por ordem do Rei e este, no dizer de uma fonte da Carbone, Fr. Gaspar da Encarnação e o secretário particular Alexandre de Gusmão(").
época, queria tomar conhecimento de tudo. Havia, é certo, os diversos conselhos, Conselheiros e executantes de um soberano que os sabia ouvir e utilizar, mas
mas com funções essencialmente consultivas, por muito importantes que fossem conservando firmemente o poder decisório e a independência da Coroa. Na
dentro dos respectivos domínios de actuação. E não terá sido certamente por acaso instrução que em 1740 o governo francês deu ao seu novo embaixador em Lisboa
que o Conselho de Estado, verdadeiro órgão «supremo» em que se tratavam «todas dizia-se que o Rei de Portugal governava mais despoticamente do que os seus
as matérias principaes» pertencentes ao «governo do Reyno» (-"), entrou em próximos antecessores; «comunicam-lhe geralmente todos os negócios do seu
acentuada decadência durante o reinado joanino. reino e nada se faz em que ele não tenha anteriormente dado as suas ordens». E o
Após uma fase inicial de grande actividade, já em 1724 se falava da raridade das autor da instrução acrescentava: «Nenhuma pessoa se pode gabar de ter crédito, de
suas reuniões, substituídas por/untas de composição variável, cujos membros eram forma determinada e seguida, no espírito do Rei de Portugal» (").
escolhidos pelo Rei para cada caso. Tão notória foi esta evolução que D. Luís da Esta situação ia ser bastante abalada nos líltimos anos do reinado pela doença do
Cunha, escrevendo por altura de 1736-1737, chamava «despótico» ao governo de monarca, a morte em curto prazo de vários ministros e conselheiros, designadamente
D. João V, lamentava o desprezo pelo «louvável costume» de ter um Conselho de a do cardeal da Mota (1747), e as insuficiências das instituições existentes perante
Estado e considerava tal «reforma» inspirada por ambiciosos animados do desejo novos problemas resultantes da evolução da vida económica e social. A consequência
de «ser mais senhores dos negócios» (^')- lógica foi uma certa crise dos órgãos superiores do governo, com repercussões mais
Ainda que as suspeitas correspondam, porventura, à realidade, não parece que ou menos graves a nível da administração Q*).
esses objectivos tenham sido alcançados, pelo menos de forma a afectar a capacidade Cioso da sua autoridade, D. João V não se resignava facilmente a transferir para
de intervenção e decisão reais. Após a morte de Diogo de Mendonça {1736), criou outrem as mais altas responsabilidades da governação, que estava habituado a
D. João V três secretarias de Estado (Reino, Negócios Estrangeiros e Guerra, assumir. Tentando superar as limitações provocadas pela doença, vemo-lo nesses
Marinha e Ultramar) e pôde contar com a colaboração dos novos secretários, mas anos finais do reinado a dedicar-se, por vezes, aos negócios ptíblicos com um ardor
recorreu também muito a outras pessoas da sua confiança, como por vezes já que preocupava os médicos e surpreendia os agentes diplomáticos estrangeiros.

(-") D. Luís Caetano de Lima, op. a í . , t. 1, p. 252. (--) E . Brazão, D. João V. Subsídios para a história do seu reinado. Porto, 1945, pp. 67-171; J .
(-') InsU-uções inéditas de D. Luis da Cunha a Marco António de Azevedo Coutinho, publ. por P. C o r t e s ã o . op.c;7.. Parte I V , t . I , Rio, 1953,pp. 7-8;De.íc/-/>íívei/.ç?. cit., vol. II, pp. 9 5 , 1 0 2 , 1 2 6 , 1 3 4 ,
de Azevedo e A . Baião, Coimbra, 1930, p. 31. Sobre o sistema de governo de D. João V c o papel e 154.155. 235, 248, 282; L . Teixeira de Sampayo, O Arquivo Histórico do Ministério dos Negócios
e v o l u ç ã o do Conselho de Estado há numerosas i n f o n n a ç õ e s em Visconde de Santarém, op. cit., t. V , Estrangeiros, \n Estudos Históricos, Lisboa, 1984, pp. 170-173; Paulo Merêa, Da minha gaveta. Os
passim. V e r também: Description de la Ville de Lishonne. pp. 148-149; Merveilleu.x, Memoires Secretários de Estado do Antigo Regimen. Coimbra, 1965, pp. 16-17; E . Brazão, A Diplomacia
Ínstructifs. t. I,pp. Ifi-^Q; O Portugal de D..João V visto por três forasteiro.^, pp. 68, 145-147; D. Luis Portuguesa nos Séculos XVlIeXVlII. cit., vol. 11, pp. 199-207: L . Ferrand de Almeida, Alexandre de
Caetano de L i m a , op. cit.. 1.1, pp. 252-293; Conde de Povolide, Memórias Históricas, pp. 372,406; Gu.smão. o Brasil c o Tratado de Madrid (1735-1750), Coimbra, 1990, pp. 44-64.
M . Lopes de Almeida, Portugal na Época de D. João V. Esboço de interpretação politíco-cultural (-') Instrução para o embaixador Chavigny (Marly, 12-2-1740), in Recueil des ínstructions
da primeira metade do século XVIll, in Atas do Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros. données aux ambassadeurs et ministres de France, t. I I I (Portugal), com introdução e notas do
Nashville, 1953, pp. 255-258; Conde de Tovar, O Arquivo do Conselho de Estado, in Anais da Visconde de C a í x de Saint-Aymour, Paris, 1886, pp. 295-296.
Academia P o r t u g u e s a d a H í s t ó r i a , 2 - s é r i e , vol. II, Li.sboa, 1961, pp. 60-62,64; J. Borges de Macedo,
(-") J . Borges de Macedo, A .situação económica no tempo de Pombal. Alguns aspectos, 3." ed.,
Absolutismo, m Dicionário H.P.. vol. I,pp. M-Mi, Descriptive List of the State Papers Portugal, vol.
II, p. 177. Lisboa, 1989, pp. 50-51, 56-57, 60-62; idem, D. João V, in Dicionário H.P.. vol. I I , Lisboa, 1965.
p. 625.
194 O Ah.salutisim) de D . João V IM.S
Luis Ferrand de Almeida

Um destes chegou mesmo a escrever, em 1747, que o Rei não se deixava dominai Era no plano dos direitos adquiridos que surgiam as verdadeiras limitações
pelos ministros e que dele continuavam a emanar todas as decisões (^'). priilicas ao poder. E certo que a tais direitos se podia sobrepor apotestas extraor
Na realidade, porém, controlava cada vez menos uma situação cujas dificuldades diiiaria do monarca, mas só era legítimo invocá-la quando houvesse uma razão tic
se agravavam e que o sistema joanino de governo, desorganizado pelos motivos suprema utilidade pública. «Nos limites em que eram reconhecidos, os direitos dos
referidos, se tomara incapaz de resolver. O fortalecimento do aparelho do Estado, particulares em relação ao poder gozavam de uma tutela jurídica extremamente |
imposto pelas circunstâncias, viria a ser obra de Pombal (-*'). cíicaz, baseada nos meios jurisdicionais ordinários» {-''). Para além do controlo
Esta exposição ficaria incompleta e daria, provavelmente, uma visão deformada prévio realizado pelo chanceler-mor do reino, uma decisão do poder contrária ao
das realidades politicas do país na primeira metade do século X V I I I se não «direito expresso» era nula e podia, a todo o tempo, ser revogada. Os juízes deviam
tivéssemos em conta importantes contributos da historiografia recente, com novas iiegar-se a aplicá-la e o particular lesado podia opor-se à sua execução por meio dc
perspectivas. Nas páginas anteriores tratámos, ainda que de forma resumida, do embargos, expediente que «enfraquecia extraordinariamente a eficácia do poder»,
poder central e, mais precisamente, do poder real no tempo de D. João V, com o que pois os seus actos eram constantemente paralisados (-*').
não se esgota a problemática do absolutismo nesta época. Em relação com esta temática, uma última questão é inevitável, a do papel das
Importa lembrar, antes de mais, que absolutismo não significava necessariamente ( ortes, de tal modo que,«normalmente, falar dos limites do poder real no Antigo
despotismo ou arbitrariedade, como defendiam desde há muito os teorizadores da Regime tem sido falar das relações entre o poder real e as cortes» (-'^). Conforme
política. Para a definição e enquadramento do poder real contribuíram duas noções lambem já foi observado, a historiografia destas assembleias está marcada por
que passaram do período medieval à época modema: a de vicariato divino e a de debates ideológicos, desde a Restauração, o pombalismo, as tentativas de reforma
cargo ou ofício. Mas se o monarca era vigário de Deus e desempenhava uma função da monarquia tradicional e as polémicas entre absolutistas e liberais, prolongadas
cujo fim consistia em realizar a justiça e promover o bem comum, daí resultavam até ao nosso século. Por influência de tais discussões, o problema assumiu,
forçosamente limitações. naturalmente, esta forma: tiveram as Cortes uma função propriamente deliberativa
Entendia-se que o poder do principe estava limitado pela moral e pelo direito ou apenas consultiva? As opiniões dividiram-se, mas houve historiadores para
divino, assim como pelo direito natural e das gentes. Limitava-o também a ijuem as Cortes desempenharam as duas funções, embora em tempos e matérias
constituição tradicional da sociedade, expressa numa ordem natural que, no diversas (-'")•
entanto, se concretizava na ordem j urídica positiva, desde as simples leis, privilégios, Para além dos limites morais e jurídicos já referidos, a mais recente historiografia
foros, usos e costumes, até às chamadas leis fundamentais, só assim expressamente lem vindo a pôr em causa, relativamente aos séculos X V I e X V I I , os conceitos de
designadas no século X V I I , mas cujas raízes históricas vinham de muito longe. absolutismo e de centralização, quando entendidos num sentido muito rigoroso.
Entretanto, se geralmente se considerou o monarca sujeito à lei natural, o
problema das suas relações com a lei positiva não deixou de ser bastante debatido
ao longo do tempo, acabando por prevalecer a doutrina de que o Rei devia
obediência às suas próprias normas e às dos antecessores. Como este dever operava (-') A n t ó n i o M . Hespanha, História das Instituições. Épocas medieval e moderna, Coimbra, 1982,
vi directiva e não vi coactiva, só podia ser objecto de sanções espirituais. De resto, p. 328.
o soberano não ficava impedido de revogar as leis ou dispensá-las em casos (-*) F . P. de Almeida Langhans, Fundamentos Jurídicos da Monarquia Portuguesa, pp. 29-30.56-
particulares, quando o justificasse a equidade ou o bem comum. 57, 61-81, 84. 108. 113-116; J . Borges de Macedo, Ab.solutismo, in Dicionário H.P., vol. I, pp. 9 e
I I ; Martim de Albuquerque, O Poder Politico no Renascimento Português, pp. 123-135, 235-276;
I.. Reis Torgal, Ideologia política e teoria do Estado na Restauração, vol. H, pp. 4-5, 38-43.95-97,
105-109, 124, 242-253; A n t ó n i o M . Hespanha, Hi.storia das Instituições, pp. 310-332; idem, ,4.';
vésperas do Leviathan. pp. 479-487.
(-') A . M . Hespanha, As vésperas do Leviathan, p. 472.
(-') Ofício de Chavigny para o seu governo (28-11-1747), in Visconde de Santarém, op. cit., t. V , ("') U m a boa síntese da história e estado da questão até aos anos 60 pode ver-se em A . Martins
p. 372. Cfr. ibidem, pp. C L X X X I V e n. 1, C C X V nota, C C L X X X V I nota; Descriptive List vol l l ' dc Carvalho, Cortes, in Dicionário H.P.. vol. I, pp. 711-715. Cfr. Martim dc Albuquerque, op. cit..
p. 217.
pp. 312-324; A . M . Hespanha, História das Instituições, pp. 367-370, 375-376, 382-384; idem, .-l.v
(-") .1. Borges dc Macedo, A situação económica no tempo de Pombal. 3" ed., pp. 47- 62. vé.speras do Leviathan, pp. 30-32, All-AlS.

14
1% Luis Ferrand dc Almeida O Absolutismo de D . João V 197

Ultrapassando o tradicional debate sobre o papel das Cortes, procuram-se agora I hiniinado e da Revolução, «o poder político aparecia disperso por uma constelação
novos caminhos e abrem-se novas perspectivas no estudo desta problemática, ^c pólos relativamente autónomos», cuja unidade era mantida, de forma mais
designadamente a apreensão dos meios com que o poder real se podia concretamente .imbólica do que efectiva, pela Coroa ('-).
efectivar e também dos obstáculos e limites que de facto encontrava. Sc um desses pólos estava nos municípios, outro encontrava-se nos senhorios.
Daí a distinção, sugerida por J. Vicens Vives, entre o poder e o mando, — entro I cm-se geralmente considerado que houve um declínio do senhorialismo a partir
o poder teórico e o mando como sua realização prática. É verdade que desde fins lie Uns do século X V , graças à actuação anti-nobiliárquica de D. João I I , mas esta
da Idade Média encontramos nos documentos régios expressões como «de nossa > ;iracterização foi recentemente contestada ou problematizada, tendo em conta a
certa ciência e poder absoluto» e outras que os legistas tinham ido buscar ao direito política de doações nos séculos X V I e XVII e de pouco rigor nas confirmações e
romano renascido, mas trata-se de fórmulas que não podem tomar-se à letra. I c versões à Coroa.
Por outro lado, assiste-se, nos séculos X V I e X V I I , ao avanço da política dc E certo que a doutrina desta época confere ao Rei um papel eminente no sistema
centralização, com a legislação geral (Ordenações), a reforma dos forais no tempo do poder, mas esta hegemonia ideológica não impediu a manutenção, e muitas
de D. Manuel, o numeramento geral da população ordenado por D. João I I I e a vezes até o reforço, dos privilégios jurisdicionais da nobreza.
criação de novos órgãos do poder central. Mas a eficácia deste nas zonas periféricas I Pluralidade de poderes, portanto. Poder municipal, poder senhorial, inas também
do país era fortemente condicionada pela distância, as dificuldades das comunicações poder eclesiástico. Já se escreveu que «a importância da Igreja como pólo político
internas e uma rede burocrática escassa e mal articulada. Contrariamente a uma autónomo é enorme na época modema» (^'). Dos poderes então existentes o da
ideia corrente até há pouco, entende-se hoje que, pelo seu limitado número e igreja era realmente o único a exercer-se com grande eficácia desde os níveis
reduzidas atribuições, o papel dosjuízes de fora e dos corregedores como instrumentos
periféricos internos até ao plano internacional. Essa importância resultava de vários
de centralização foi, até meados do século X V I I I , bem menor do que se tem
factores, que iam da autonomia jurisdicional a todo um conjunto de imunidades,
pensado.
isenções e privilégios, traduzidos, afinal, em força política. A Coroa reconhecia
Embora assumindo-se como absoluta, a realeza não dispunha dos meios para esta autonomia e apoiava a Igreja no desempenho das suas funções, mas preocupava-
que a sua actuação se fizesse sentir, de forma plena, à sociedade que pretendia -se com tão privilegiada situação e procurava minorá-la (^'*).
governar. As já referidas insuficiências da burocracia régia levavam-na a recorrer Assim, para alguma historiografia de hoje o absolutismo dos séculos X V I e
à rede concelhia, delegando nas câmaras alguns dos seus poderes e para elas XVU foi, na prática, bem menos absoluto do que se apresentava em teoria, dados
transferindo parte da administração que de outro modo não podia assegurar. Era o
os condicionamentos do centro pela periferia, as limitações do poder real pelos
que ia acontecer com a cobrança de certos impostos (sisas e décimas), o recrutamento
poderes concelhio, senhorial e eclesiástico. Daí que alguns autores prefiram falar
militar e a guarda da saúde.
de monarquia preeminencial e de poder régio preeminente. Com a função dominante
Com esta transferência de poderes a Coroa fortalecia os grupos sociais que de garantir a justiça e a paz, o papel do Rei não era o de transformar a sociedade,
dominavam a vida dos municípios, a chamada «gente nobre da governança», mas sim «o de conservar, constituíndo-se apenas como árbitro dos conflitos sociais
poderosas oligarquias locais que tendiam a fechar-se pelo casamento endogâmico
c garante dos equilíbrios estabelecidos» Q^).
e a conservar-se nos cargos por sucessão familiar. Dispondo de acentuada autonomia,
é natural que tenham sido «as câmaras bem mais sentidas pelas populações do que
o longínquo monarca absoluto, por mais absoluto que se dissesse e quisesse
ser» (^'). ('-) A . M . Hespanha,/4.Ç véspcra.v í/o Z,ev/a//!í7/j, pp. 296-297.
(^') A . M . Hespanha. A Igreja, in História de Portugal, dirig. por José Mattoso, vol. I V , I ishoa,
Contrariamente à ideia do poder concentrado num pólo único e daí dimanando
1993, p. 287.
para os órgãos que o exerciam na periferia, pode dizer-se que, antes do Despotismo
(") Ibidem, pp. 287-290. A Igreja era «detentora da rede social de poder que melhor apanhavii
todo o território» (J. Roincro M a g a l h ã e s , O pano de fundo, in História de Portugal, dirig. ynn Jusc
Mattoso. vol. I I I , Lisboa, 1993, p. 576).

(") J . Romero M a g a l h ã e s (em colab. com M . Helena C . Coelho), O poder concelhio: das origens (") A . M . WespanW, As vésperas do Leviathan, pp. 488-489. Sobre os assuntos rcsiiini(l;inuiili-
as cortes constituintes, Coimbra, 1986, p. 32. tratados no texto ver: Martim de Albuquerque, op. cit., pp. 277-289, 373-380; A. M, IK'spiiiiliii.
História das Instituições, pp. 255-281; idem, vé.speras do Leviathan, pp. 324-343. 35.^ •MH. I / I
O Absolutismo dc D. .loão V
Luis l-cnaiulde Almeida

lemos mais informações a respeito da Igreja e das suas relações com a Coroa.
Chegados a este ponto é altura de perguntar se o reinado de D. João V significa
continuidade ou ruptura relativamente às formas politicas dos séculos X V I e X V I I . Vimos que o «zelo do culto divino» e o reconhecimento do importante papel
Conforme já tivemos oportunidade de ver ao longo destas páginas, há indícios dc irligioso e social da Igreja não impediram e antes terão inclinado D. João V a
uma crescente afirmação do poder real, considerado como absoluto, de tal modo 11 forçar a política regalista. A coexistência entre poder eclesiástico e poder real não
que várias fontes da época chegam mesmo a falar de «despotismo». Mas até que loi fácil, ao longo do reinado, traduzindo-se com mais ou menos frequência, em
ponto a prática terá correspondido à teoria? situações de tensão e até de conflito, tanto a nível interno como externo. Quando
Escreveu-se recentemente que «a prática política joanina continua a observar, i|uiseram impor a sua vontade, o Rei e os seus conselheiros não hesitaram em
fundamentalmente, o modelo tradicional do exercício do Poder» Q^). E provável i n v o c a r a soberania concedida por Deus e o absolutismo régio, «sem dependência

que assim tenha acontecido, mas só investigações aprofiindadas o poderão confirmar. dc outrem» Q'^).
A primeira metade do século X V I I I , se não estamos em erro, é o período mais Estas dificuldades da Coroa com o poder eclesiástico levam-nos à consideração
desfavorecido quanto a estudos sobre esta matéria, elaborados numa perspectiva de uma problemática de mais vasto âmbito: a da contestação e oposição durante a
actualizada. monarquia tradicional e, particularmente, no período joanino. Elas apareciam,
Notemos, por outro lado, que parece conveniente ter em conta, mais uma vez, antes de mais, a nível de poder central, na corte e nos círculos da nobreza, dando
as diferenças entre o centro e a periferia. E de crer que o poder real não se exercesse origem, por vezes, a «partidos», isto é, facções não organizadas oficialmente, mas
com a mesma eficácia na capital e nas regiões mais afastadas do país. Estamos mal unidas em defesa de determinados interesses sociais e políticos.
informados quanto ao poder efectivo dos municípios nesta época, quanto ao seu Os modos de actuação eram diversos e podiam ir desde o simples «grupo de
grau de autonomia ou de dependência relativamente ao governo central ("). E pressão», como hoje diríamos, às formas extremas da conspiração e do golpe de
apesar de alguns trabalhos recentes, é ainda bastante incompleto o nosso Estado. Não faltaram acontecimentos desta natureza ao longo do século X V I I ,
conhecimento do regime senhorial na primeira metade do século X V I I I e do lugar sobretudo na liltima década do período filipino, durante a Restauração,
que realmente lhe coube na distribuição e no exercício de poderes Q'^). designadamente na sua difícil e agitada fase final, e ainda na regência de D. Pedro,
enquanto a morte de D. Afonso V I (1683) não pôs termo a todas as veleidades do
«partido» afonsistaC*").
-472,487-528; J . Romero Magalhães, O poder concelhio, pp. 29-56; idem. As Estruturas Sociais de Já tivemos ocasião de ver que, no reinado de D. João V, algo se modificou, em
Enquadramento na Economia Portuguesa de Antigo Regime: os concelhos, Lisboa, 1994, pp. 31-39; matéria de poder central, embora, muito provavelmente, ainda numa Hnha de
A n t ó n i o dc Oliveira, Poder e oposição politica em Portugal no período filipino (1580-1640). Lisboa,
1991, pp. 9-45; idem. Poder e sociedade nos séculos XVI e XVII, in Hí.itóría de Portugal, dirig. por
continuidade em relação aos tempos anteriores. A capacidade de intervenção e
J oã o Medina, vol. V I I , Sabadell, s. d. (1994?), pp. 11-47; História de Portugal, dirig. por J o s é Mat- decisão do monarca, no plano mais elevado da governação do país, parece
toso. vol. 111, pp. 61-62. 165-181, 494-499, vol. I V , pp. 9-14, 121-137, 303-362. 381-392, 461-470. apresentar-se agora com força suficiente para não permitir a formação de «partidos»,
("') A . M . Hespanha, Introdução, in Hi.storia de Portugal, dirig. por J . Mattoso, vol. I V , p. 11.
O mesmo autor observa que « o s três s é c u l o s do Antigo Regime não são h o m o g é n e o s , do ponto dc vista
da auto-representação e organização do Poder» e entende que, pelos meados do s é c u l o X V I l l , se
Q'') V e r o que atrás escrevemos sobre a questão com o Patriarca de Lisboa (1730). Quando do caso
verifica « u m a grande cesura com o triunfo de uma v i s ã o da sociedade e do Poder, que j á tem muito
Bichi, que levou D . J o ã o V a cortar relações com Roma e a dar ordem ao niincio Firrao para sair de
mais a ver com o que virá depois do que com os paradigmas p o l í t i c o s anteriores» (Ihid., p. 14). Cfr.
Portugal (1728), este recusou-se a f a z ê - l o sem licença do Papa. A recusa foi considerada « m u i t o lesiva
Nuno G o n ç a l o Monteiro, Os concelhos e as comunidades, no mesmo volume, pp. 315-316. ^
ao poder r é g i o » e uma c o m i s s ã o de letrados entendeu «que S. M . não devia admitir as causas que dá
(-") Os trabalhos de síntese de Luis Vidigal, O Municipalismo em Portugal no século XVIII,
[o núncio'] para n ã o dar cumprimento à sua soberana resolução e menos a de necessitar de licença do
Lisboa, 1989, e Nuno G o n ç a l o Monteiro, Os concelhos e as comunidades, cit., não tratam expressamente
papa para poder sair deste reino, de que S. M . é senhor absoluto, sem dependência de outrem, e pode
do reinado de D. João V . Na perspectiva que nos interessa, há alguns elementos em J . Romero
expulsar do seu reino todos os prelados eclesiásticos que lhe bem parecer, não jurisdicionalmente, mas
M a g a l h ã e s , O/l/ga/-ve económico. 1600-1773, Lisboa, 1988, pp. 323-343.
usando do poder político e e c o n ó m i c o » (Cit. por E . Brazão, D. João Vea Santa Sé, pp. 351-352).
('*) Sobre um dos mais importantes .senhorios e c l e s i á s t i c o s portugueses na é p o c a modema ver a
C") A o informar o seu soberano da morte de D . Afonso V I , por ofício de 13-9-1683, o enviado
tese de doutoramento (policop.) de Maria Margarida Sobral Neto, Regime .senhorial, .sociedade e vida
agrária. O Mosteiro de Santa Cruz e a região de Coimbra (1700-1834). 2 vols., Coimbra, 1991. Num espanhol D . Francisco Davalos acrescentava: «... C o n que sera este Principe (ya R e y ) mas absoluto
plano geral: Nuno G o n ç a l o Monteiro, Poder .senhorial, e.stado nobiliárquico e aristocracia, in de lo que le permitian las contemplaziones que tenia a los parciales de su hermano» ( A . G . S . : Estado,
História de Portugal, dirig. por J . Mattoso, vol. I V , pp. 333-379. leg. 7060, n . M 7 ) .
O Ah.solulisitu) dc I). doiío V
1')')
I.iií.s Icnaiul dc AlmciiUi

lemos mais informações a respeito da Igreja e das suas relações com a Coroa.
Chegados a este ponto é altura de perguntar se o reinado de D. João V signirnii
V i m o s que o «zelo do culto divino» e o reconhecimento do importante papel
continuidade ou ruptura relativamente às formas políticas dos séculos X V I e XVII,
Conforme já tivemos oportunidade de ver ao longo destas páginas, há indícios de icligioso e social da Igreja não impediram e antes terão inclinado D. João V a
uma crescente afirmação do poder real, considerado como absoluto, de tal modo 111 ()rçar a política regalista. A coexistência entre poder eclesiástico e poder real não
que várias fontes da época chegam mesmo a falar de «despotismo». Mas até que loi iácil, ao longo do reinado, traduzindo-se com mais ou menos frequência, em
ponto a prática terá correspondido à teoria? SIInações de tensão e até de conflito, tanto a nível interno como externo. Quando
Escreveu-se recentemente que «a prática política joanina continua a observar, i|iiiseram impor a sua vontade, o Rei e os seus conselheiros não hesitaram em
fundamentalmente, o modelo tradicional do exercício do Poder» E provável invocar a soberania concedida por Deus e o absolutismo régio, «sem dependência
que assim tenha acontecido, mas só investigações aprofundadas o poderão confirmar, lie outrem» (^'').
A primeira metade do século X V I I I , se não estamos em erro, é o período mais Estas dificuldades da Coroa com o poder eclesiástico levam-nos à consideração
desfavorecido quanto a estudos sobre esta matéria, elaborados numa perspectiva (le uma problemática de mais vasto âmbito: a da contestação e oposição durante a
actualizada. monarquia tradicional e, particularmente, no período joanino. Elas apareciam,
Notemos, por outro lado, que parece conveniente ter em conta, mais uma vez, antes de mais, a nível de poder central, na corte e nos círculos da nobreza, dando
as diferenças entre o centro e a periferia. E de crer que o poder real não se exercesse origem, por vezes, a «partidos», isto é, facções não organizadas oficialmente, mas
com a mesma eficácia na capital e nas regiões mais afastadas do país. Estamos mal unidas em defesa de determinados interesses sociais e políticos.
informados quanto ao poder efectivo dos municípios nesta época, quanto ao seu Os modos de actuação eram diversos e podiam ir desde o simples «grupo de
grau de autonomia ou de dependência relativamente ao governo central (^'). E pressão», como hoje diríamos, às formas extremas da conspiração e do golpe de
apesar de alguns trabalhos recentes, é ainda bastante incompleto o nosso Estado. Não faltaram acontecimentos desta natureza ao longo do século X V I I ,
conhecimento do regime senhorial na primeira metade do século X V I I I e do lugar sobretudo na liltima década do período filipino, durante a Restauração,
que realmente lhe coube na distribuição e no exercício de poderes Q^). designadamente na sua difícil e agitada fase final, e ainda na regência de D. Pedro,
enquanto a morte de D. Afonso V I (1683) não pôs termo a todas as veleidades do
«partido» afonsistaC*").
-472,487-528; J . Romero Magalhães, O poder concelhio, pp. 29-56; idem. As Estruturas Sociais de Já dvemos ocasião de ver que, no reinado de D. João V, algo se modificou, em
Enquadramento na Economia Portuguesa de Antigo Regime: os concelhos. Lisboa, 1994, pp. 31 -39; matéria de poder central, embora, muito provavelmente, ainda numa linha de
A n t ó n i o de Oliveira, Poder e oposição politica em Portugal no período filipino (l 5H0-1640). Lisboa,
continuidade em relação aos tempos anteriores. A capacidade de intervenção e
1991, pp. 9-45; idem, Poder e sociedade nos séculos XVI e XVII. in História de Portugal, dirig. por
.loão Medina, vol. V I I , Sabadell, s. d. (1994?), pp. 11-47; História de Portugal, dirig. por José Mat- decisão do monarca, no plano mais elevado da governação do país, parece
toso, vol. 111, pp. 61-62, 165-181, 494-499, vol. I V . pp. 9-14, 121-137, 303-362, 381-392, 461-470. apresentar-se agora com força suficiente para não permitir a formação de «partidos»,
("') A . M . He.spanha, Introdução, in Hi.storia de Portugal, dirig. por J. Mattoso, vol. I V , p. 11.
O mesmo autor observa que « o s três s é c u l o s do Antigo Regime não são h o m o g é n e o s , do ponto de vista
da auto-representação e o r g a n i z a ç ã o do Poder» e entende que, pelos meados do s é c u l o X V I I I , se
C ) V e r o que atrás escrevemos sobre a questão com o Patriarca de Lisboa (1730). Quando do caso
verifica « u m a grande cesura com o triunfo de uma v i s ã o da sociedade e do Poder, que j á tem muito
B i c h i , que levou D . João V a cortar relações com Roma e a dar ordem ao n ú n c i o Firrao para sair dc
mais a ver com o que virá depois do que com os paradigmas p o l í t i c o s anteriores» (Ibid.. p. 14). C f r .
Portugal (1728), este recusou-se a fazê-lo sem licença do Papa. A recusa foi considerada « m u i t o lesiva
Nuno G o n ç a l o Monteiro, Os concelhos e as comunidades, no mesmo volume, pp. 315-316. I
ao poder r é g i o » e uma c o m i s s ã o de letrados entendeu «que S. M . n ã o devia admitir as causas que dá
(") O s trabalhos de sintese de Luís Vidigal, O Municipalismo em Portugal no .século XVIII,
[o núncio] para n ã o dar cumprimento à sua soberana resolução e menos a de necessitar de licença do
Lisboa, 1989, e Nuno G o n ç a l o Monteiro, Os concelhos e as comunidades, cit., não tratam expressamente
papa para poder sair deste reino, de que S. M . é senhor absoluto, sem d e p e n d ê n c i a de outrem, e pode
do reinado de D . João V . Na perspectiva que nos interessa, há alguns elementos em J . Romero
expulsar do seu reino todos os prelados eclesiásticos que lhe bem parecer, não jurisdicionalmente, mas
M!ig3.\\\àes. O Algarve económico. 1600-1773, Lisboa, 1988, pp. 323-343.
usando do poder politico e e c o n ó m i c o » (Cit. por E . Brazão, D. João Vea Santa Sé, pp. 351-352).
(") Sobre um dos mais importantes senhorios eclesiásticos portugueses na é p o c a modema ver a
C") A o informar o seu soberano da morte de D . Afonso V I , por o f í c i o de 13-9-1683, o enviado
tese de doutoramento (policop.) de Maria Margarida Sobral Neto, Regime senhorial, sociedade e vida
agrária. O Mosteiro de Santa Cruz e a região de Coimbra (1700-1834), 2 vols., Coimbra, 1991. N u m espanhol D . Francisco Davalos acrescentava: «... C o n que sera este Principe (ya R e y ) mas absoluto
plano geral: Nuno G o n ç a l o Monteiro, Poder .senhorial, e.stado nobiliárquico e aristocracia, in de lo que le permitian las contemplaziones que tenia a los parciales de su h e r m a n o » ( A . G . S . : E.stado.
Hi.storia de Portugal, dirig. por J . Mattoso, vol. I V , pp. 333-379. leg. 7060, n.e47).
(; Ahsolutismo dc D. .loão V
2(){) Luis Ferrand dc Almeida

Não podemos esquecer, por fim, as fornias de contestação propriamente


O que só vem a suceder nos últimos anos do reinado, quando a doença do Rei o
populares, desde greves a motins urbanos e rurais, com motivações não políticas,
facilitou O -
MO sentido rigoroso do termo, mas sim económico-sociais: crises de subsistências,
Isto não significa, de modo nenhum, ausência total de divergências e de críticas.
i|iicstões de trabalho e pressão senhorial ("'•').
Conforme já foi notado, a sociedade do Antigo Regime, sob uma fachada de
serenidade e harmonia, encobria uma conflitualidade mais ou menos endémica e A terminar, renunciamos a tirar conclusões desta exposição, com excepção de
profunda Na época joanina, ela constituiu «como que um contraponto aos uma: a de que todos estes temas, e em especial os poderes periféricos e as atitudes
progressos do absolutismo» C*'). ou movimentos de oposição, estão a exigir mais vastas e profundas investigações.
O descontentamento e a contestação manifestaram-se a vários níveis e assumiram ( om esta condensada e provisória síntese apenas procurámos reunir alguns dados
formas diversificadas. Existiram, como vimos, nos meios eclesiásticos, sobretudo documentais e sugerir caminhos de estudo para um melhor conhecimento e
por motivos fiscais. Com a nobreza não faltaram, na corte, os incidentes e até os compreensão histórica do absolutismo de D. João V. ,,
conflitos, por questões de precedências e etiquetas, designadamente quando eram
postas em causa as hierarquias estabelecidas C").
Para além desta oposição aberta e por vezes frontal (ainda que, geralmente, em
termos respeitosos), mantinha-se vivo o velho processo das sátiras e pasquins
anónimos, que corriam manuscritos ou apareciam afixados em locais bem visíveis.
Nesses papéis, de linguagem trocista ou violenta, ninguém era poupado, desde o
Rei e a família real a outras personagens importantes, órgãos da governação e certos
grupos sociais ou profissionais.
Tal é o caso da Sátira ao Governo de Portugal (1713), manifestamente
provocada pelo ambiente de mal-estar resultante da guerra da sucessão de Espanha
e da crise de subsistências (1707-1711) que se lhe juntou C"^). Outros exemplos são
as críticas, em prosa e verso, às condições em que foi construído o real edifício dc
Mafra e os panfletos contra Fr. Gaspar da Encarnação, primeiro como reformador
de Santa Cruz de Coimbra e mais tarde como governante do país C"*).

("') J . Cortesão, op. cit.. Parte 1, t. I I , Rio de Janeiro, 1956, p. 434 e Parte II, t. I I , Rio de Janeiro,
1950, pp.218-219.
C") A . M . Hespanha, A resistência aos poderes, in Hi.storia de Portugal, dirig. por J. Mattoso, vol
I V , p.451.
("') A n t ó n i o Filipe Pimentel, Arquitectura e Poder. O Real Edifício de Mafra, Coimbra, 199,',
pp. 49-50.
('''') Muitos e p i s ó d i o s deste género se encontram relatados nas fontes do tempo, das quam
destacaremos apenas as Memórias Históricas, já citadas, do 1- conde de Povolide. Cfr. A n t ó n i o I
Pimentel, op. cit., pp. 53-58.
L . Ferrand de Almeida, Tomás Pinto Brandão e a «Sátira ao Governo de Portugal», Coimbra, 19K2,
C") António F . Pimentel, op. cit., pp. 386-399, does. X - X I I . Num destes papéis de crítica à obra do
Mafra e às levas forçadas de trabalhadores diz-se que « o Principe, ainda que soberano, não tem domiiiio
na liberdade de seus vassallos para os constranger involuntários nas couzas que privativamctilc
pertensem ao gosto do mesmo Principe, e, quando obra absoluto, fica transgressor da L e y natural como , L . Ferrand de Almeida, Motins populares no tempo de D. João V, .nRHL vol. 6, Coimbra.
qualquer particular» (Ihid.. p. 395). Sobre as sátiras contra Fr. Gaspar da Encarnação: A n t ó n i o Pereint 1984. pp. 321-343 (reeditado no presente volume).
da Silva, A questão do Sigilismo em Portugal no século XVIII, Braga, 1964, pp. 152-160 e notas.
202 O Absolutismo de I). .João V
203
Luis /•'ciraiui de Almeida

DOCUMENTOS * iiijíocios mayores, se deven consultar los tres estados dei Reyno, que son companneros con
sus Princepes en las rezoluciones, pues el Ecleziastico es la cabeça para los consejos, la
iiohlcza es el coraçon para los esfuerços y la plebe los pies para los trabajos, y asi como el
I iicrpo humano no puede tener existência sin estas principales par - [fl. 18] tes, asi el cuerpo
místico no se pueden (sic) sustentar sin aquelles estados. Yfinalmentees cierto que lo que
Parecer de autor anónimo sobre o poder real e as Cortes em Portugal (') loca a todos deve tener la aprobacion.
Entre 1706-1713 Pero calle esta errada politica, y esta quazi sogecion de las regalias, pues el Princepe
soberano, que no reconoce superior, tiene el goviemo politico para rezolver, sin que quede
a los vassallos mas que el observar.
[Portugal e a guerra da Sucessão de Espanha]... Em Portugal fueron estas rezoluciones Poner en el arbítrio de muchos las matérias es buscar en la variedad de opiniones solo
tan secretas que mas parecio entonces negocio particular que matheria publica, error I I embaraço y la confuzion. Los consultores hande ser solamente los experimentados. Pues
verdaderamente politico no comunicarse lo que hade tocar a todos con los Consejos, Iniscar las togas para la guerra e los soldados para la justicia es errar el camino de los
con los tribunales y con los hombres dei Reyno. [fl. 17].
asciertos.
Algunos políticos assi lo affirman. Dixe aun que vuestro Rey en sus aciertos segurava
El Pueblo y los dos estados mas dei Reyno no nascieron para árbitros, mas para
las mayores rezoluciones y puede ser que en sus ministros la sadsfacion de las mayores
obidientes, pues el Popular es estranno de las matérias de Estado, el Ecleziastico se busca
einprezas. Contodo, las matherias publicas que tocan a todos les deben ser comunicadas
solo para el espirito y la Nobleza para los exercícios de su valor y efectos de su valentia.
para el arbítrio, aunque no para la rezolucion. Pide la razon que si los affectos (sic) tienen
Las matherias de Estado se de - [fl. 18 v.] ven rezolver por los avizos y por las noticias
de obligar a todos, o por el danno, o por el trabajo, y contribuicion, no deven tener el pezar
de no saber la matheria que tanto les hade tocar, que haze mas terribles los dolores la que se cojen de los reynos estrangeros, que solo los Princepes alcançan. Y no puede sin ellas
ignorância de las cauzas y nunca dexo de ser impaciente el trabaxo, ignorado el desígnio. dcxar de caerse en la inadvertência y en la sin razon. Solo el Princepe, con la ciência
cxprimental, deve rezolver conforme el estado que le es prezente por los avizos, por las
Aunque el arbítrio dei Princepe es soberano para rezolver, no es independente dei
comunicar. No aplica el medico los remédios al enfermo sin que se einforme de Ia dolência occurrencias y por las occaziones. Y como es el mas intereçado en la conservacion, es el voto
y quanto mas tiene de peligroza tanto mas deve tener de circunspecto el que la cura. Mortales mas seguro y mas importante, conveniendo a su suprema regalia la izencion, la libertad en
pueden ser las enfermedades de las Monarquias si no fuere informado de sus sintomas el que el mando y lo absoluto en su império. [...].
tiene a [fl. 17 v.j su cargo la publica salud de sus estados. (Cópia?)
Hay diferencia grande entre el despacho ordinário y las matereas publicas. En estas el (Dias de palácio, desengano de pertendientes, y documentos para los tribunales y
cuerpo politico de la republica es el que padece, el que sufre, el que Ueva el mayor trabaxo
govierno (...) - B.G.U.C.: Ms. 49, fls. 17-19)
y que corre el mayor peiigro, y no es justo que haviendo de Ilevar todo el pezo de la • j

contribucion y de la guerra no se le participe la cauza.


Rezolva el Princepe las matérias, pero sepan todos lo que en ella se descursa, porque
talves se enquentra una advertência de quien no era capas de un consejo.
Voto de D . José de Meneses,conde de Viana,
El Princepe deve aconsejarse o yr a todos y rezolver con los mejores, por no quedar en
sus vassallos la pena de no saber lo que pueden sentir. En la republica, quando se tratan los sobre tributos e Cortes
Lisboa, 16-Janeiro-1713

[...]. Pareceme que achando S. Magestade que ainda lhe hê necessário continuar o tributo
Normas de transcrição: Desdobrámos as abreviaturas e conservámos a ortografia (mas as letras do uzual (o que eu muito duvido que S. Magestade deva fazer, concluindo huma pax, sem
u. V, i, e j são utilizadas com o valor actual). Regularizámos o uso das maiúsculas.
(') O autor, embora escreva em castelhano, é, com toda a evidência, um português que usa a ficção convocar Cortes, assim pello que toca ao Ecclesiastico como ao Secular) deve S. Magestade
de se fazer passar por um estrangeiro chegado a Portugal devido a naufrágio no litoral deste pais. A haver o consentimento daquelle para o mandar///. 78 v] a Roma. Lisboa, em 16 de janeiro
obra foi redigida durante a guerra da Sucessão de Espanha, pois este assunto é tratado longamente e de77/i.
alude-se a «la liga que de prezente perturba toda Europa» (fl. 17). Por outro lado, a referência ao Rei
de Portugal como sendo «nino en la edad» (fl. 37) mostra que se estava nos princípios do reinado
de D. João V.
(Votado Conde Estribeiro-Mor - B.N.L.: Gol. Pombalina, Ms. 230, fls. 78 v.-79).