Você está na página 1de 234

O Olhar dos esquecidos

Quando acordou o mundo parou


Os Estados fecharam
Os comércios pararam
Quando acordou o mundo parou
Vazia as ruas
Sozinho ficou
Quando acordou seu mundo mudou
Sem trocados
Saudade da Wapixana

Era 15 de março de 2020


Em outro estado a trabalhar
Queria muito ir pra Roraima
Mas lá não podia estar
O coração, sem saber da quarentena
Em Roraima se encontrava
Com aquela a quem ama
Bela índia Wapixana

Se eu fosse um passarinho
Eu poderia para lá voar
E o melhor e mais eterno
É que o vírus eu não ia pegar
Como só pega em humanos
Meu porte atlético ia agüentar.

Como humano eu nasci


Não tive como optar
Mesmo se eu fosse pra Roraima
No mínimo teria que esperar
Uns 15 dias de quarentena
Pro período de incubação passar

Senhor, onde Você estiver


Faço um pedido com cabeça e com pé
Faça esse vírus acabar
Para com isso eu poder
Minha família abraçar
Beijar
Cuidar
Alimentar
Amar!

Esse ano eu ia plantar


No lavrado do cantá
Milho, mandioca e cará
Quem sabe até plantar banana
Contudo por conta do coronavírus
Nem lá fora posso caminhar

Uma certeza eu tenho


Ainda que o mundo físico
Nos prenda, nos amarre e venha nos maltratar
O mundo espiritual, diferentemente,
Este só vem nos libertar
Pois as correntes e grades não podem
Aos sonhos e a alma segurar
Tem 100 anos que não passamos
Por tamanha epidemia
Tenho certeza que vamos
Vencer com maestria
Pois se o mundo inteiro acabar
Macunaima com seus poderes
Novos seres vai criar
A partir do monte Roraima
Nova humanidade vai nascer
Diferente dessa que aí está
Já vai nascer heterogênea
Com certeza vai brilhar
Como as estrelas do céu
Nova terra povoar

O amor, a natureza e o belo


Estes irão reinar
Senhor que orgulho
De Roraima me encantar
De nesta terra nascer
E os que vêm de fora
Só têm muito a agregar
Aumentar a diversidade
A evolução perpetuar

A evolução só foi possível


Devido à diversidade
Chegando a ser incrível
Que se não fosse por ela
Humanidade não existia
Pedra pintada, não pintada seria
A cidade do campo não teria
Graça, cor, aroma, poesia

Deus é amor
Por isso falo com fervor
Que a energia do amor em tudo está
Nas folhas, na natureza, na terra
Inclusive no piquiá
No caçari, no ingá
No buriti, no tamanduá
Em mim e em você
Nos encontraremos com prazer
Poesia não poderá faltar

Vamos nos encontrar no caracaranã


Ou também no cauamé
Só não esquece do canaimé
Para os maus ele afastar
Vamos banhar no baliza
Jauaperi ou anauá
Ou também no murupu
Peixe não irá faltar

Foi bom te conhecer


Agradeço por contigo ter
Estas são palavras simples
Para todo povo escutar
De um homem com saudade
De quem teve que deixar
Em Roraima nossa terra
Mais felicidade tenho lá!
O amor é maior.

Está em todos os lugares do mundo,

e se espalha em segundos.

Para não se contaminar

não podemos nos tocar.

Distanciamento, social

para o bem mundial.

Doença infeciosa,

mas quem se importa?

Se não protegermos nós e nossos familiares,

em breve choraremos,

se não esforçarmos ao extremo.

Síndrome respiratória,

pode fazer você não respirar,

mas com a ajuda de respiradores,

voltemos a respirar.

Se muita gente pegar,

leitos nos hospitais, vão faltar.

Para salvar vidas,


muitas pessoas vão perder,

o seu pão de cada dia.

Comércios fechados,

economia em baixa.

Para evitarmos a morte de muitos,

empresas demitem muitos.

Mas a fome também não mata?

Mata, mas somente pobres,

por isso precisamos de gestos nobres.

Vencermos essa pandemia,

sem mortes de anemia.

Olhar para o alto

e acreditar no salvador.

Lembrando, que toda vez que ajudamos, o próximo.

A “Ele” estamos agradando.

Porque é assim que a Bíblia diz.

Vamos nos isolar,

mas não deixemos de ajudar.

Ainda que fales a língua dos homens,

se não tiver amor, nada serei,

disse o Paulo,
Amor em cuidar.

Amor em ajudar.

Amor ao se distanciar,

por pouco tempo, pois um dia vai acabar.

Sigo amando, mesmos distanciados

e assim prossigamos.
(TEXTO SEM TÍTULO)

Perto
Longe
Mantenha distância
Estamos contaminados
Estamos e somos
Contagiosos
Fique longe
Longe, mais longe de mim
Com a sua falsidade
Com a sua ambição
Seu egoísmo

Longe!
Mas se for por amor
Que nossos corações fiquem próximos
Com a certeza
Que todos seremos curados
Pela bondade
Pelo amor
Pelo carinho
Pelo calor humano
Hoje distantes
Mas em breve juntos!
JUNTOS MAS SEPARADOS

Juntos somos mais fortes


Contudo dada as circunstancias
Juntos, separados, seremos mais fortes
Eu na minha casa
Você na sua casa
Juntos, em uma luta dolorosa
Triste, e longe uns dos outros.
Sem beijos e abraços
Sem afagos, afetos ou amor
Mas, é a melhor saída
Ficar separados, juntos
Lutando bravamente pela vida
Pelo direito de viver
De permanecer
Pelos nossos esposos, esposas,
Avós, pais e filhos;
Juntos, uns pelos outros
Contudo, distantes
Separados, longe
Mas perto, em amor
Eu cuido de você,
Você cuida de mim
Eu aqui em casa
Você em sua casa
Separadamente juntos
Lutando bravamente
Em meio a dor
Olhar de dentro

É estranho estar vivendo este momento


No qual a história está acontecendo...

Pensando bem
A história está sempre acontecendo
Mas alguns momentos ganham status de histórico
E normalmente os que os vivem não têm consciência deles
Até que tudo acabe e vire canção, caso de estudo ou item de coleção

Mas isso é uma pandemia


Algo que acometia a população um vez por século
Muito relacionada à falta de saneamento/higiene
Aos escassos recursos médicos
À falta de informação

Temos isso tudo agora


Nem assim nos livramos da praga
Nem assim a população mundial está em sintonia
Nem assim as mentiras e segredos deixaram de existir
Nem assim os interesses políticos e econôminos foram postos abaixo dos
sociais

É estranho estar dentro da história


Mas ao mesmo tempo é revelador
Sempre pensei em como as pessoas viviam durante as guerras e pandemias
Sobre o que elas pensavam, temiam, desejavam
Agora entendo em parte o que se passava

Entendo toda a incerteza, insegurança


A busca desesperada por informação
O stress com o excesso dela
Os diferentes pontos de vistas
As diferentes formas de viver aquele problema comum

Entendo os outros problemas relacionados


A negação, o medo, a depressão
A preocupação com o outro
O alívio por ser algo visto de longe (quando o é)
A chegada devastadora dos efeitos colaterais

Entendo as orações para que tudo acabe


A esperança de que tudo volte ao normal
Mesmo quando o normal não era ideal
O engrandecimento do que é simples e essencial
Os confortos que o dinheiro traz e a impossibilidade de trabalhar para fazê-lo

Entendo até o deboche, a risada, as comparações


Tudo é surreal e de certa forma igual
E cada um lida com o problema da forma que consegue
Cada um sente a dor de forma diferente
Alguns choram, alguns gozam, outros nem a sentem

Entendo que em certas realidades


Outros tipos de problemas e medos sempre fizeram parte
Que não se pode escolher entre um tipo de risco e outro
Todos se acumulam na calçada
Então que venha mais um, que bata na porta, que carregue tudo e todos

O mundo não começou ontem


Não irá acabar amanhã
Enquanto as gentes gritam, esbravejam
A natureza descansa, respira aliviada
Dia de um, dia de outro, dia de santo, nunca de todos

Mas a gente sempre se reinventa


Chacoalha a poeira da cabeça, enterra nossos mortos
Reencontra nossas fundações, reergue os tijolos
Esquece ou enfurna a dor em alguma curva das nossas vísceras
E volta a sorrir, a reclamar, a produzir, a amar, a viver
ODE À ARCA SALVADORA

A minha casa tem uma cara feliz,


semblante materno; mui doce genetriz.

Brinda-me com olhares muito enternecidos,


um álbum de segredos só nela vividos.

Sempre me acolhe de portas largas e abertas


com o morno hálito das paredes certas.

Presenteia-me quarto e banheiro exclusivos,


varanda ampla e balanços como aditivos.

Tábuas de peroba rosa cobrindo o chão


e o forro alto com tesouras de mourão.

Nos estofados, repouso meus mil cansaços


dessa vivência solitária, sem abraços.

Da natura, o líquido humilde, puro e casto


brota imaculado do chão, no campo vasto.
No seu íntimo, voa um amado fantasma
que me envolve em graça e fé... e me entusiasma.

Que recita em sussurros chamando à memória


nos recantos onde escrevo a minha história.

À margem dos altos verdes enraizados,


imóvel, esconde alguns sonhos malogrados.

Minha moradia olha pelas janelas


e revela a inveja nessas olhadelas.

Suspira pela estrada que recorta os morros


e o ir e vir das rodas ágeis como jorros.

Seu destino, porém, é igual às construções:


parado, submisso ao solo das emoções.

Cumpre tua sina, tua missão sublime,


alicerça a santa função que me redime.

Preciso do teu aconchego, ninho amigo,


útero quente, lar, asilo, forte abrigo!
Bom refúgio contra o Covid dezenove,
abençoo a morada que este mal remove.
Passado

Estamos em novos tempos


Que já ocorreu em outros tempos
O passado mostra a história
Daqueles que estavam certos

Daqueles que estavam errados

Na luta contra doenças

Que cobrem o mundo de medo

Separam entes queridos

E unem desconhecidos

Por uma causa

Causa de salvar o mundo

Salvar pessoas indefesas

Que pelo descaso

Falta de compaixão

Padecem na guerra silenciosa

Governos céticos a ciência

Cegos a história da humanidade

Criam covas profundas

Nos corações dos seus povos

Que temem a morte


De um vírus silencioso

Capaz de destruir economias

Separa líderes dos chefes

Chefes dos ditadores

E assim caminha a humanidade

Porém, lembre-se do passado

A história não erra

Apenas relata os fatos

Nós vencemos as pestes

Nós vencemos as influenzas

Venceremos o Corona

Com a força de todos

Separados em casas

Unidos pelos corações

Que acreditam no amanhã


FAÇA AMOR COM A POESIA

Podem palavras combinadas em harmonia


Soar aos ouvidos, acalentar corações.
Servir à leitura reflexiva, ao lazer, às emoções?

Pode não ser a preferida -. É poesia


E, por mais repetida ou lida.
Mostra mundos em movimento.
Detrás pra frente ou vice-versa,
É poesia que atravessa.
- Vai! Pega o livro da estante
Aproveita esta fase, neste instante.
Sentenciado à quarentena.
Convide a sua pequena de modo sutil, serena.
A vivenciar de forma plena
O orgasmo da poesia.
Dúvidas

A vida é um insumo? Que produto ela compõe?


Questi onar alternati vas interessa a alguém?
Controlar nossas saídas economiza pra quem?
O idoso é descartável? Não vale o que supõe?

A vida é uti lidade, ou valor fundamental?


Há só que viver quem produz, ou traga maior riqueza?
A vida é privilégio do Poder, da realeza?
O velho que não produz, tem um genoma mais letal?

O direito do idoso é valor, ou mais valia?


É o grau de morbidade privilégio, ou franquia?
O jovem, que viva bem mais, tem alguma regalia?

O mundo, pra meu espanto, se põe tais indagações,


como se a vida valesse um punhado de moedas.
Tais questões, se verdadeiras, não salvam os corações.
Privilégios

Os discursos desumanos que nascem com pandemias


nada mais são que sinais duma total insanidade.
Salvar quem nasce depois é hierarquia de idade?
Cronologia da vida também mata as regalias?

Onde foi que esconderam os direitos dos idosos?


Foi num banco de metrô? Em fi la preferencial?
Eu sempre imaginei que fosse a Lei Fundamental
uma fonte de respeitos, não de direitos faltosos.

A qualidade da vida deixou de ser corolário


de um mundo que se diz tão justo e igualitário?
A morte de um preterido é ápice do calvário.

A ciência que se curva a soez conveniência,


por faltarem hospitais e as medidas curati vas,
torna os direitos humanos uma simples excrescência.
Critérios de sobrevida

A vida do paciente é valor subjeti vo?


Benefí cio da ciência é relati vo e fugaz?
Seu direito a tratamento tem fundamento mendaz?
São tristes as indagações que nos negam leniti vo.

A gravidade do caso; existi r infraestrutura;


são iníquas opções a indicar sobrevida.
Orespirar consciente pode ser uma saída
mas, idade, raça, ou berço também dizem da ventura.

Sendo um caso terminal merece só enfermaria?


Para que entes queridos assistam o passamento?
Certamente, tais critérios beiram a velhacaria.

Um carente de UTI somente será contemplado,


cumpridas prioridades que não pensam no seu caso,
pois faltam leitos pra todos e o viver é sorteado.
O zeitgeist moreno?

Escrevo esta carta aos meus amigos


Também aos meus inimigos, se os tiver
Vos escrevo estas linhas apocalípticas
Em tempos raivosos e trevosos
Reminiscências deste inverno quente
Que assola nossas almas

Não quereis vós condenar-me


Por desvairada missiva
Empanturrada pela mais pura
Falta de qualquer reles esperança
Sentimento este, que em algum lugar
Lá no fundo de um canto escuro
Esqueceu-se a humanidade

Se por um istmo, neste breve século XXI


Lançaram às ruas algum fio de esperança
Este sentimento transformou-se em farrapos
Vestindo a horda perambulante de zumbis
Esta classe convicta de seres a ignorar
Toda e qualquer razão, toda a prudência
A defender inominável e abjeto ser

Não basta a pandemia matar a muitos


Assustar a todos, derrubar mercados
Dizimar famílias, temos nós o inominável
Ceifador de sonhos, acumulador de ódio
Disseminador da pior doença avassaladora
A irrigar mentes pequenas com fluído ocre
Fétida verborragia espalhadora de morte

Cobriu-me agora uma sensação aguda


Do pior fim do mundo já visto
Por estas retinas que por aqui habitam
Por detrás daquele olhar vítreo embaçado
Através da boca parecendo anal furo
Por onde saem trevas em perdigotos

Digo-vos, pois, meus caros (e baratos)


A tristeza neste peito impera, ao saber
Que somos conduzidos pela triste figura
Saída dos porões onde se torturavam almas
Um zumbi puro-sangue que não mede esforços
Para transformar a nação em um holocausto

Concluo estas mal digitadas linhas, minha gente


Confessando que fracassamos como nação
Nos perdemos como espécie dita inteligente
Já não tenho certeza se existe aquele ponto
Em que o retorno é possível
Meu estoque de esperança inconsequente acabou.
Resta-me uma dúvida: vivemos o zeitgeist moreno?
P-or que esse vírus teve que chegar?
A- Proteção não existe no meu lar.
N-ão tenho cuidados, ele não sabe amar.
D-ia e noite a prevenção não é lavar as mãos,
E-u aqui tenho que que esfregar o joelho no chão.
M-eus efeitos são choro e tenho medo de pedir socorro.
I-nfinitamente eu sofro, não é o vírus, são socos.
A-manhã quando isso acabar será que aqui ainda vou estar?
O vírus, a máscara
O verme, usa duas máscaras
A mulher sem proteção
mosaico sobre angústia

"o verde é esperança, “se não for

é? hoje, é
o amarelo, sei lá, semana
esespero. que vem ou
o azul, eu não sei. " no mês que
— benedita da conceição vem. é uma
realidade.
devemos
não saia nesta noite aterradora com fervura, cuidar dos
pois a vida deveria ser poupada, ao fim do dia. mais idosos
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura. e daqueles

embora os tolos, nas redes, gritem (a troco de quê?)


que têm
problemas
que seus temores são loucura
de saúde.
porque suas palavras não provaram da consciência esguia, os demais,
eles ainda assim não saem nesta noite aterradora com fervura. logica-
os sãos que, após seu último dia em grilhões, choram pela usura -mente,
tenham cu-
para qual seus vizinhos se entregaram (a troco de quê?), em fútil cortesia,
-idado
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. também, mas
os loucos que abraçaram e louvaram os mitos em vívida altura
têm que
e entendem, tarde demais, como se afligiram em suas travessias
eles sim! saíram nesta noite aterradora com fervura. trabalhar.”
(a troco de quê?!) — jair bolsonaro

os graves, no fim, vendo com um olhar que os transfigura


o quanto a cidade cega, em fugaz sandice, se iludia, “cardi b fez mais que
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. o presidente”
e a ti, quem for, imploro, nesta cúpula mascarada e obscura — baco exu do blues

que me entenda ou maldiga com tua essencialidade bravia


não saia nesta noite aterradora com fervura;
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura.
"o verde é esperança, “se não for
é? hoje, é
o amarelo, sei lá, semana
esespero. que vem ou
o azul, eu não sei. " no mês que
— benedita da conceição vem. é uma
realidade.
devemos
não saia nesta noite aterradora com fervura, cuidar dos
pois a vida deveria ser poupada, ao fim do dia. mais idosos
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura. e daqueles

embora os tolos, nas redes, gritem (a troco de quê?) que têm


problemas
que seus temores são loucura
de saúde.
porque suas palavras não provaram da consciência esguia, os demais,
eles ainda assim não saem nesta noite aterradora com fervura. logica-
os sãos que, após seu último dia em grilhões, choram pela usura -mente,

para qual seus vizinhos se entregaram (a troco de quê?), em fútil cortesia, tenham cu-
-idado
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. também, mas
os loucos que abraçaram e louvaram os mitos em vívida altura
têm que
e entendem, tarde demais, como se afligiram em suas travessias
eles sim! saíram nesta noite aterradora com fervura. trabalhar.”
(a troco de quê?!) — jair bolsonaro

os graves, no fim, vendo com um olhar que os transfigura


o quanto a cidade cega, em fugaz sandice, se iludia, “cardi b fez mais que
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. o presidente”
e a ti, quem for, imploro, nesta cúpula mascarada e obscura — baco exu do blues

que me entenda ou maldiga com tua essencialidade bravia


não saia nesta noite aterradora com fervura;
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura.

"o verde é esperança, “se não for

é? hoje, é
o amarelo, sei lá, semana
esespero. que vem ou
o azul, eu não sei. " no mês que
— benedita da conceição vem. é uma
realidade.
devemos
não saia nesta noite aterradora com fervura, cuidar dos
pois a vida deveria ser poupada, ao fim do dia. mais idosos
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura. e daqueles

embora os tolos, nas redes, gritem (a troco de quê?) que têm


problemas
que seus temores são loucura
de saúde.
porque suas palavras não provaram da consciência esguia, os demais,
eles ainda assim não saem nesta noite aterradora com fervura. logica-
os sãos que, após seu último dia em grilhões, choram pela usura -mente,

para qual seus vizinhos se entregaram (a troco de quê?), em fútil cortesia, tenham cu-
-idado
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. também, mas
os loucos que abraçaram e louvaram os mitos em vívida altura
têm que
e entendem, tarde demais, como se afligiram em suas travessias
eles sim! saíram nesta noite aterradora com fervura. trabalhar.”
(a troco de quê?!) — jair bolsonaro

os graves, no fim, vendo com um olhar que os transfigura


o quanto a cidade cega, em fugaz sandice, se iludia, “cardi b fez mais que
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. o presidente”
e a ti, quem for, imploro, nesta cúpula mascarada e obscura — baco exu do blues

que me entenda ou maldiga com tua essencialidade bravia


não saia nesta noite aterradora com fervura;
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura.

"o verde é esperança, “se não for

é? hoje, é
o amarelo, sei lá, semana
esespero. que vem ou
o azul, eu não sei. " no mês que
— benedita da conceição vem. é uma
realidade.
devemos
não saia nesta noite aterradora com fervura, cuidar dos
pois a vida deveria ser poupada, ao fim do dia. mais idosos
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura. e daqueles

embora os tolos, nas redes, gritem (a troco de quê?) que têm


problemas
que seus temores são loucura
de saúde.
porque suas palavras não provaram da consciência esguia, os demais,
eles ainda assim não saem nesta noite aterradora com fervura. logica-
os sãos que, após seu último dia em grilhões, choram pela usura -mente,

para qual seus vizinhos se entregaram (a troco de quê?), em fútil cortesia, tenham cu-
-idado
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. também, mas
os loucos que abraçaram e louvaram os mitos em vívida altura
têm que
e entendem, tarde demais, como se afligiram em suas travessias
eles sim! saíram nesta noite aterradora com fervura. trabalhar.”
(a troco de quê?!) — jair bolsonaro

os graves, no fim, vendo com um olhar que os transfigura


o quanto a cidade cega, em fugaz sandice, se iludia, “cardi b fez mais que
odeiam, odeiam o mundo cujo esplendor já não fulgura. o presidente”
e a ti, quem for, imploro, nesta cúpula mascarada e obscura — baco exu do blues

que me entenda ou maldiga com tua essencialidade bravia


não saia nesta noite aterradora com fervura;
odeie, odeie o mundo cujo esplendor já não fulgura.
NUVEM CINZA FUMAÇA

NUVEM CINZA FUMAÇA


há uma nuvem carregada invisível
empecilho da respiração fumaça em propagação
invade o entorno, o globo, a nação
a asfixia cerrada abafada contaminada
vírus manifestação

a saudade espreitando de longe o outro amado


o choro pungente a ausência premente
o aperto no peito
a esperança distante

corpos caídos pilhas sem nomes pilhas com nomes


famílias em prantos a ausência a impermanência
a falta pesada
a matéria do corpo abismada
a voz nunca mais ouvida ecos na memória

a história repetida o eterno retorno o corpo vulnerável


a impotência o inominável o passo ainda curto da ciência
mãos a distância mãos acenam ativando o calor o conforto
a reminiscência do abraço o retorno imprevisto
a angústia que procura a casa que tarda
a resposta que falha
GAFANHOTOS

as manifestações pragas invadem supermercados farmácias saqueadas deveras pagas


estoques de alimentos guardanapos enlatados por tempo indeterminado
álcool gel máscaras congelados papel higiênico papel toalha
o estômago da manifestação é feito pra digestão pesada inclusive de celulose
manifestações em bandos ataques às prateleiras um limpa em todo o estoque
garantia de alimentação despensas cheias caso o pior aconteça
ataque aos supermercados farmácias prateleiras alimentos saqueados deveras pagos
trabalhadores apertem o passo pra satisfazer pra suprir a voracidade da manifestação
trabalhadores receberão sua parcela à medida que assumam riscos inerentes à profissão
comerão se porventura sobrar pra gerar só a energia necessária para alimentar a manifestação
sobras socorrerão os mais pobres se porventura restar alimentação é claro em caso de urgência
iminência de quarentena é necessário alimentar a manifestação devoradora isolamento
quarentena toda proteção à manifestação e a toda população à medida que se torne uma ameaça
de transmissão
toda sorte de proteção contra a virulência da manifestação é necessária população trabalhadora
NECROPOLÍTICA

velhos velhos doentes quem se importa com velhos doentes oras estão com o pé na cova
não é problema abreviar a vida não podemos sacrificar a economia
se o país parar a maior parte da população vai sangrar
a nova geração será vítima da recessão da depressão
a economia vai estagnar o caos vai se instaurar
nesse cenário muito mais mortes de jovens no auge da vida
fase produtiva engrenagem da economia morrerão por tiro bala fome
a opção é clara vidas jovens no auge
não morrem jovens dessa doença pelo contrário criam a imunidade necessária
à sociedade autorregulada
a não ser em caso de presença de doenças prévias asma bronquite diabetes fragilidades sabe?
na verdade essas debilidades já levariam naturalmente à morte né
a estatística é clara a mortalidade é baixa
sugiro o isolamento apenas de idosos e comórbidos o afastamento dessa gente da população
um campo de concentração sem ventilação pois veja ventiladores são caros
não podemos sacrificar a maioria por quem infelizmente não sobreviveria o custo é elevado
de qualquer forma não há como parar o vírus mas parar a economia é impossível é o caos
anunciado
um mal maior com efeitos nefastos
estão preocupados em perder os empregos? pois deveriam o vírus é o de menos abrevia vidas
já perdidas que qualquer resfriadinho mataria
vidas antigas frutos do aumento da expectativa de vida da melhoria da medicina não cabem
mais
é peso demais o sistema de saúde não comporta a sociedade não suporta
não há vacina continuemos nossos trabalhos
faremos o necessário parar não dá
fechamentos restrições isolamento sem fundamentos estatísticos necropolíticos
isso é boicote ao mito
Vai passar

Se no momento vivido
A esperança acabar
Não fique agoniado
Deixe a tristeza de lado
Lembre que isso vai passar.

Se preocupe em viver
E do outro bem cuidar
Renove a cada dia
Aquela sua alegria
Lembre que isso vai passar.

Ame mais do que nunca


E assim vais mostrar
Fazendo o que é certo
Sem poder estar perto
Lembre que isso vai passar.

E se acaso você
Chegue a desacreditar
Que esse é só um momento
Desvie seu pensamento
Lembre que isso vai passar.

Olhe pra frente


O que está a lhe esperar
Tudo o que ainda vais fazer
Tudo o que tens para viver
Lembre que isso vai passar.

Nossa força é agora


Sem jamais duvidar
Juntos podemos mais
Que possamos ser a paz
Lembre que isso vai passar.
Sobre viver

Viver

Como ver que está tudo escuro?

Não é sobre viver

É sobre ver

Sobreviver

Nesse mundo de tanta tristeza

Onde pessoas choram e velam seus mortos

Não sabem onde chegar

Só querem viver

Ver

Sobre ver o que pode acontecer

Sem saber

Se haverá um amanhã

Então não se perca

Aprenda a viver
Prevenção

Amorzinho, Amorzinho

Lave bem os teus versinhos

Eu não quero infectar

O meu frágil coraçãozinho.


Dezembro

Uma euforia pegou o povo

E não é paixão

E nem amor

E nem tesão

Tem sabor de medo

E é um medo real

O perfume do pânico é mundial

Oh, Deus! É doençaaaaa....

E é doença de animal.
Diário

Os números estão decorando os jornais

Os corpos estão sendo despintados

Rego a depressão da incerteza

Escrevo para viver

Viver é uma consequência de não responder a morte

Passei a lavar o dia

Isolei-me de tudo

Proibiram ser afetuoso

A indesejada escondesse entre os mais delicados toques

Sorrir, só se for de desespero

Distância, eu tenho até da esperança

Querido diário,

Eu tenho um grande medo

Medo de respirar a minha própria liberdade.


Gente ou coisa?

É mais gente do que nós

Tem identidade e local de origem

Nós, apesar de termos nomes, somos chamados de outra coisa

Ele está sendo desvendado em suas facetas e mutações

Nós mal temos acesso a assistência médica, quem dirá terapia

Ele produz impactos importante na economia

Nós nem temos emprego, quem dirá dinheiro para sermos importantes

Ele vive onde deseja, na mansão, no sobradinho e na floresta

Nós nem temos onde morar

Ele vive com quem quer

Nós nem decidimos como viver, só sobrevivemos

O problema não é só ele ser quem é

É nós sermos quem somos

Ele é mais gente do que nós

E nós, todo dia somos uma coisa diferente, números, consumidores ou mortos

Mas gente, se já fomos, deixamos de ser.


saímos do compasso

entramos em colapso

chuva de mormaço

pandemia e desemprego

culpa e sensação de fracasso

ausência de beijos e abraços

isolamento social superfaturado

imigrantes vagando nas ruas

com a frase "fique em casa"

martelando na cabeça a cada passo

a incerteza é companhia a cada hora do dia

mortes invadem as casas através dos jornais

são milhares de profissionais

doando almas para salvar vidas nos hospitais

em tempos de fragilidade

é preciso ter coragem

para enfrentar tanta letalidade

a saudade é física e escorre pelo rosto

o amanhã é premeditado

aumenta o número de infectados

grande parte da população

ainda segue o jargão de quem diz

que o vírus é só um resfriado

a saudade é dor física e tempestuosa


o amanhã é indesejado

ao cair do dia

mais óbitos e contaminados.


Unidade de medida

Ninguém imaginou a ironia

De que todos nós - agora, tão sós

Estaríamos mais separados do que nunca,

Juntos, enfrentando uma pandemia.

Em um instante, o mundo te ensinou:

Aquele seu controle? Nunca nem funcionou.

E então você lembra do passado (que nostalgia!),

Lembra daquele abraço - tudo o que você queria,

Amigos, amores, família,

Conversas, sorrisos, alegria.

Ah, mas agora você já sabe:

Quando tudo isso passar,

Vai abraçar todo mundo na cidade.

Exceto que… o amanhã não lhe cabe.

Simplesmente acontece:

A vida tem mais curvas que um s.

Já ligou o jornal?

Já viu essas notícias de passar mal?

Famílias sendo destruídas, vidas virando estatística,

Hospitais lotados e todos anestesiados:

Tudo o que nos resta é torcer

Para não sermos os próximos a…

De novo, a ironia: logo você, que tinha tanta pressa,


Agora odeia o vírus por sua velocidade.

Seria inveja?

Não. É peso na consciência:

Planejou tanto sua felicidade,

Fez questão de tudo perfeito (como se pudesse ser feito)

Que só esqueceu um defeito:

Torná-la realidade.

Será que trabalho, aulas, economia vão voltar?

E quem estará comigo até lá?

Ei, você, escute bem o recado.

O futuro não te responde assim.

Deixe o subjuntivo para os verbos,

Pois sua vida não depende de e se’s.

Já os advérbios estão na palma da sua mão:

O longe vira perto com uma ligação.

Suas maiores riquezas cabem no coração

E a pressa importa muito, sim:

Quanto você ainda vai esperar para ser feliz?

Sua vontade não vai resgatar o passado

E o amanhã não é alcançável...

Planeje. Sonhe. Mas não espere.

Tudo o que há é o presente,

E cada segundo é urgente.

Por isso ligue, ria, chore, sinta


Ame, cuide, viva…

Viva!

Tão intensamente

Mas tanto

Que o sempre que cabe no breve -

A tal da vida -

Não tenha como ser medido por uma pandemia.

Se nunca foi…

Por que agora seria?


Imagine a equação ginasial

De um modo que ninguém resolveria

Imagine o teatro e o carnaval

Resistindo inclusive à pandemia

Imagine viver a sós em casa

Mas quase sempre aos olhos de um vizinho

Imagine na tábula mais rasa

A noção brasileira de jeitinho

Imagine qualquer carro vermelho

Contanto que não lembre uma Ferrari

Imagine fitar-se em um espelho

Tão verdadeiro quanto Portinari

Imagine se um reles n’est-ce pas

For tudo que você queira escutar


emergência

os governos estão todos decretando

estado de emergência

espero olhando a janela

o que virá emergir

do mar, do centro da terra

como vi nos seriados japoneses

falsas promessas

dentro da casa aparecem na tela

agora

corpos devolvidos ao barro

qual a emersão

quando o estado é restrito

a dez passos

quatro cômodos

silêncio e tela

na janela

espero o desgoverno

o vulcão

a grande onda

a nos limpar do pó, da fuligem

das outras partículas invisíveis

dos dias
Psicológico de Quarentena

A solidão de ter que suportar a minha própria presença está me matando

O drama do tic tac do relógio

- o tempo mal está passando

mas tenho passado o tempo todo pensando

e pensar tem sido perigoso

Tanto

tempo

ocioso

Tanto

tédio

e todo dia tudo de novo

e nada de novo acontece

Fico presa no presente

repensando o passado

meu inconsciente me pergunta, cansado

quando isso tudo vai acabar

E não é fazendo descaso

mas, meu caro,

eu já não sei

E com um sorriso de canto

no canto da sala

aos prantos imploro

“ô quarentena, acaba”.
Vir-a-ser _ Transcender

Há pouco o mundo era outro

Correria e calendários sem atalhos

Tempo breve, contatos superficiais

Até que um vírus chegou e tudo mudou

Hoje o futuro não é mais o mesmo

A vida mais que nunca, pode ser abreviada a qualquer instante...

Há caos e crise global

Colapsam cidades sem saída

Tempo sombrio, cerco vazio

Até que a cura se descubra, ou a vacina se produza

Futuro segue traçado pelo medo e marcado pela incerteza

A vida vai em suspense cortante – nada mais será como antes...

Há natureza, nós e os outros

Contexto geral e amazônico misturados

Tempo novo, ciclo e desafio

Até que a vida se restabeleça e refaça

Aqui e agora paradigmas se enlaçam

A vida muda e transcende nada permanece constante

Covid-19 & Coragem 20

Os dias são maiores, as percepções mais intensas. Tudo isto me deixa ansiosa
e tensa. Em meio às incertezas, perguntas girando gritam ao redor da vida, que
segue suspensa e sob

suspeição.... o medo paralisa, o temor imobiliza! O que fazer com o prazo, que
segue indiferente à dor da gente, pela dúvida que me ocupa? O que fazer para
responder, aos questionamentos dos meus filhos, quanto à inexorável morte?
O que manter e o que mudar? Tantas divagações para um só vírus!

Am

Dias maiores, vidas mais intensas.

Amazônida,

Embora forte ( nasci no norte), frente ao vírus o que manter, o que fazer, o que
mudar? Estou no limite, a máscara esconde o medo, o álcool esteriliza as
mãos, mas o temor ainda prossegue aqui.

mas os dias são maiores, e a vida mais intensa, há ansiedade, medo e


indiferença.

Em meio à natureza as incertezas seguem suspensas e sob suspeição.... o medo


paralisa, o temor imobiliza! O que fazer com o prazo, que segue indiferente à
dor da gente, pela dúvida que nos ocupa? Sou forte , sou do norte, mas frente
à morte o que manter, que mudar? Tantas divagações para um só vírus
DEVAIR-SE

COMO TEUS PASSARINHOS NA FOTOGRAFIA

VIDA QUIS SER BREVE INSTANTE

ROSEIRA GRANDE QUE TU ERAS

FOSTES PERFURMAR OUTROS CANTOS

ESPREITAR-TE PARTINDO

POR QUE NÃO SOU SÓ TRISTEZA PANDEMONICA?

TALVEZ POR IMAGINAR-TE LIVRE

CORPO NA TERRA, ALMA ETÉREA NAVEGANTE

SENSAÇÃO DE QUE NÃO QUISESTE VER

CORONA MATAR TEU POVO

GANÂNCIA

XAMÃ VENDO O CÉU CAIR

POR TUA VOZ E CORAÇÃO DE URSO

CARINHO AO DIZER-ME ANJA

ESPALHO TEUS ANSEIOS DE IGUALDADE

E ARTE PRA TODA PARTE

SEMENTE BOA

QUIMERA PARA ALÉM DA PANDEMIA

TUAS FLORES VIVAS RESTARAM EM NÓS


DISTANCIAMENTO SÓCIO AMOROSO

Quando tudo isso passar

Aglomeramos em nós

Entre beijos abraços e sexo

Quando tudo isso passar

Aglomeramos em nós

Como as notas em uma música revolucionária

sobre o Che Guevara

Fusíl contra Fusíl

Nada más

Só o teu sotaque em melodia

e da minha boca

como em hinos democráticos de Aldir Blanc

sairá notas surdas

e palavras de apelos

Quando tudo isso passar

Aglomeramos eu e tu

em nós

Seremos carne

Sem pudor

Sem máscaras

Sem vírus

E brotará de nós
sementes de gente

de vida

novamente...
A vida e a pandemia

Do global ao local, a pandemia se difundiu, transversalmente para todos os


cantos, levando preocupações à saúde e à vida social.

Medidas começaram a surgir por meio dos ditos isolamento vertical e


horizontal, a fim de conter o triste contágio desta doença mortal.

A verdade é que ninguém ficou de fora, pois a pandemia chegou no Brasil,


mesmo que aos pouquinhos, logo após ter se encerrado a folia.

Sendo rico ou pobre, bonito ou feio, a dita pandemia passou a afetar a todos,
impactando na saúde, economia e muito mais, gerando mudanças no dia-a-dia.

Frente a dúvidas e polêmicas, as ruas começaram a se esvaziar, as empresas


fecharam as portas e os hospitais em inércia passaram a se encher.

Na batalha contra a pandemia, a sociedade se dividiu entre aqueles que


optaram por parar, a fim do vírus conter, vis-à-vis àqueles que continuaram,
como meio de viver.

Da melhor à menor idade, todos tiveram suas vidas transformadas, deixando


famílias confinadas, distante de qualquer circulação.

Mas se no contexto da emergência sanitária perguntassem, quanto tempo irá


esse terror durar, muitos tiveram distintas respostas, refletindo pura
especulação.

Quem não pode ficar em casa, continuou na labuta tradicional, com máscara e
álcool em gel, se virando para manter distância em um contexto de incerteza.

Com sacrifícios em prol da sociedade e da própria família, a vida daqueles que


precisam sair para trabalhar, se torna arriscada, uma grande dureza.

Quem pode ficar em casa ficou em homeoffice, mas se tinha cascalho, curtiu o
sítio com a família, aproveitando a natureza ou nadando em um belo igarapé.

Mas se o cidadão era desempregado, lá estava em fila, do lado de fora do


banco, à espera dos R$ 600, pertinho de outros cidadãos, vulneráveis, mas em
pé.

Quando em casa, os românticos aproveitaram, no trago de doces drinks e de


beijos ardentes, a cândida beleza do amor, junto à melhor companhia.
Mas frente aos excessos, regados pela cachaça, nas farras da pandemia,
emergiram desde lives da internet a tapas de brigas, que não raro, acabaram na
delegacia.

Se para alguns, a pandemia representou um momento para na inflexão viver a


vida, para outros, novos desafios, a doença e a morte se tornaram motivos de
pressão.

Vida e morte foram peças centrais nesta sopa pandêmica iniciada em Wuhan,
que hoje se torna em um caldo requentado, não mais em ebulição.

Os números da morte se anunciaram por meio de curvas de infinitos picos,


mas com o passar do tempo, a despeito de choros e perdas, majoritária,
continuou a vida.

Vence a vida em sua trajetória cíclica, deixando lições daquela pandemia, para
que a humanidade em sua fragilidade seja no futuro, cada vez mais unida.
ESPERANÇA

Ainda que o silêncio se instaure

E eu não encontre alguém com quem falar

E minhas horas de agonia me revelem

Minha certeza de que não sei viver só

Ainda que a rotina orevaleçca

E a dor da solidão me sentencie

A cada dia mais forte e avassaladora

E meu coração se sinta tão abandonado

Ainda que sozinha eu esteja

Como jamais pudesse imaginar

Meu coração repleto de angústia

Com saudades de poder viver

Ainda assim, estou repleta de esperança

Ainda assim, acredito no amanhã

Ainda assim, minha Fé permanece

O tempo passa e este também passará!


REALIDADE

Agenda esquecida

Anotações perdidas

Eventos cancelados

Feriados esquecidos

Viagens adiadas

Páginas vazias

Dia após dia

Nada a fazer

Nada a viver

Rotina insistente

Solidão persistente

Medos estranhos

Pesadelos confusos

Insônia frequente

Portão trancado

Chave pendurada

Rua vazia

Não há caminhante

Não há caminhão

Tudo parado
Só há solidão

Família distante

Ausência sentida

Lembranças latentes

Saudade presente

Sentimentos alternados

Carências reveladas

A casa parou

A rua parou

O bairro parou

A cidade parou

O estado parou

O país parou

O continente parou

O mundo parou

Silêncio lá fora

Silêncio aqui dentro

Silêncio em mim

Silêncio no silêncio

Silêncio total

Silêncio mortal
METONIMIZANDO: PANDEMONIO ASSOMBRA A PANDEMIA NO
BRASIL

Diante da crise de saúde universal, a inbolsolerância despreza a organização


mundial da saúde.

Enquanto a maioria dos chefes de estado apoia o distanciamento social, aqui, a


hipocrisia dominante aglomera e inbolsolera a verticalização.

Veem a virulência do covid-19 como uma “gripezinha ou resfriadinho” em


plena desaceleração e já sugerem a flexibilização.

A inbolsolerância é assim mesmo, ver, mas não enxerga, ouve, contudo não
escuta, aplaude!

Incrível, a ingratidão aos brasileiros, descaso total no vai e vem das vidas.
Rasos dágua a abotoar rio de paletós nas águas dissolvidas.

Ficar em casa, pois assim, corpos estão a valorizar vidas e evitar a


disseminação da pandemia.

Inconsequente é a zoonose oriunda da mata chinesa capitalista.

Obra da natureza ou insensatez desconfigurada e calculista?

Roraima lagrima com os yanomami perante este cenário genocida e tamanha


monotonia.

Onde tal ciclo evoca meditação a cerca de poder, espaço, clã e sobretudo os
verdadeiros valores da vida.

Tradução perfeita para conjugar o confinar social nessa época vivida.

Tedros adhanon pede bom senso. Mas, há alguns pandemônios espalhados


pelo mundo.

Infelizmente um deles mancha a bandeira verde e amarela num desleixo


profundo.

XADREZ – VIDAS EM CHEQUE

Partiu de Hubei-Wuhan uma zoonose

Lockdown para restringir a metamorfose

O foco agora confina Xangai e Pequim

Rastreia-se o celular do Joaquim

A medida que a Outra Hollywood celestiou

Patrimônios históricos, o País da bota desmoronou

Sars-cov-2 ‘não para’ a setenciar giuseppe sala

A pandemia incinera corpos e avassala


Tanto que a virulência em catalão interage o ego

Dissemina-se em basco, castelhano e galego

Não tem outra solução sem distanciamento social

A enfermidade menciona tack à rigidez ditatorial

Até mesmo a terra do chá desvelou-se reticente

Por omissão Johnson testou covid-19 reagente

Desastroso índice de vitimas fatais a contabilizar

A pandemia a devastar o ocidente num despertar

Quão moléstia capaz de desafiar a 1º economia?

Tornar “the big Apple” o epicentro da pandemia

Assombrar a saúde vulnerável da casa branca

Ditar a regra impelindo Trump à retranca

Um dia o surto a desaguar no Brasil

O tempo a questionar não só o Abril

Vidas são expostas por um acaso sono

Necropolítica de um amargo abandono

A terra, o mar, a natureza, um acenar

O vírus a desestruturar o oxigenar

A Mãe terra a evocar o adormecer

E ensolarar as brisas do amanhecer

Os sussurros das ondas clamam

Os ecos dos banzeiros reclamam

Máscaras dispersam o fantasma capitalista

Silenciam a peste miliciana surrealista.


A SÓS EM SOLO

Ao cair,

Em milésimos de segundos,

Não há habilidade ou controle,

Não há pelo que se postergar ou mesmo suplicar.

A calada fala com silêncio sobre os mais profundos sentimentos. Anuncia o


que nem sempre é desespero.

A calada enfraquece mas também enaltece o que ali dentro não parece, mas se
fortalece.

Naquela noite de temperatura amena,

Nem o som das folhas secas de outono em trabalho com o cruviana

Nem o frio provocado pela força dos poços artesianos que brotam igarapés e
rios.

Nem o calor humano das passaradas aceleradas que parecem quase


ininterruptas como as horas que as calçadas testemunham.

O que não se percebia,

O que altamente consumia,

Agora, somente preexistia.

Havia um entrave do que se pode pensar sobre o que realmente é perder ou


ganhar.

Aquela hora não passava e parecia ser um propósito para trazer outro
movimento

Do qual o pátio, as usinas, as fábricas, prédios, casas, agora mais do que


testemunhar,

Poderiam apreciar.

O que não passaria pelos fios de alta tensão, antenas ou canais de áudio
difusão.
A ascensão dos galhos,

O diálogo entre os sapos,

O voo mais alto do morcego.

O extasiante sossego daquela hora que não passara, talvez fosse para deixar

O novo movimento do mundo pós-pandêmico entrar.

Em que a voz ressoante é a do sabiá onde no extremo norte de um grande


pomar,

Pode reinar.

Talvez para nos mostrar em sua forma nem menos complexa,

Nem mais bela

Como se revela

Em sua resistência

Em revolta

Em essência

A natureza da vida.
PLATAFORMA AUDÍVEL

Nos ecos dos abismos entrincheirados nas grandes cidades brasileiras,

Também conhecidos como periferia

Um estrondo se ouvia, longínquo pairava.

Era o grito de quem faz a raíz crescer

Que das tripas faz o corre,

Endossa encrenca pra não ter porre.

Dispersos no caos apatia

Esses, são os personagens que ao se depararem com uma pandemia,

Malmente tempo havia para entender

E ao que lhe cabia

Tinha que assegurar o pão de cada dia.

E o que era dado como terapia

Fora empenhado numa engenharia que no mundo tem se tornado


fenomenologia: a coletividade dos anônimos.

Em uma guerra fria sem precedente nem dimensão

O inimigo é a ignorância e a indiferença que provocam corrosão.

Na corrida em busca da cura de um vírus letal,

O ato solidário parece ser o herói do marginal.

Mas a cor da pele, ainda assim é um fator de seleção natural

Justificado pelos cadáveres em mutirão,

Na obstrução da condição de moradia

Nas palavras de quem representar uma nação deveria,

Mas não o faz ao afirmar: “e daí, não faço milagre”


Na omissão para melhoria de um SUS

No abastecimento de bolsos de senhores e senhoras

Bem ditos trabalhadores mas vistos como redutores.

Redutores de valores para aqueles que do seu suor e plata, podem se


locupletar.

La plata que faz a máquina funcionar.

La plata que seduz os olhos daqueles que veem no trabalhador pouca


representação

e de um problema coloca dois em diminuição, vírus e natalidade.

Mas, há um incansável aplacado na multidão

Que com ou sem ciência, faz da sabedoria e intuição

Grande arma na mão.

Perante um inimigo invisível que paira no ar, mantendo garras afiadas

Tentando atingir em efeito cascata.

E a mortalidade... ainda parece ser para alguns,

Uma forma de preocupação se abster.

De uma guerra vencer.

De silenciar corpos favelados devastados por uma vida impensada e insensata

Que os flagelados com seus corpos devassos por aniquilação, de certa forma,

Os colocou nessa condição.

Os favelados estão com seus corpos nus,

Ecoando e atacando como uma plataforma audível

Seja com grito em seu lugar de fala, seja com conhecimento

Que perversamente tenta lhe ser tirado e com este é resistente.


Enquanto os flagelados em combustão exercem uma ideia de poder para se
sentirem

Superiores ao que o próprio reflexo os permitem ver.

O incansável na multidão é na verdade, um Fausto no inferno de Dante

Ou talvez um Messias em peregrinação de mais uma missão

Que vê seu ciclo como uma boca esparramada por fome de aprendizado

Pela estupidez de alguém humanamente irreconhecível

Onde tentadoramente é posto entre ficar ao contentamento do destino

Ou traçar um árduo e gratificante caminho.


Escorre pelos olhos

Quando o coração fica cheio

Escorre pelos olhos

Por dor

Por amor

Por vibrar

Seja lá que motivo for

Escorre pelos olhos

Ontem meu coração encheu

Doeu! Doeu tanto, tanto

Que escorreu

Hoje meu coração encheu

Amei! Amei tanto, tanto

Que escorreu

Amanhã, certamente, meu coração encherá

Vibrarei! Vibrarei tanto, tanto

Que escorrerá

Quando o seu coração encher

Deixe escorrer pelos olhos

Por dor

Por amor

Por vibrar

Seja lá que motivo for

Deixe escorrer pelos olhos


A reza

Paciência, paciência.

A jornada pede calma e exige penitência,

pois o labirinto vivo é moldado a mão

e a morte, em sua sanha, não é fome, torna-se pão.

Paciência, paciência,

a flor murchou pelo sol ardido

e esconde-se a primavera no sulco de olhos famintos,

violentados pelo tempo e seu fluir infindo,

despejando sentenças que acusarão os filhos dos teus filhos

e a eles caberá sempre o mesmo veredito,

à revelia, por nascer e ter existido.

Mas paciência, paciência,

o sereno reluz na noite os maus espíritos

e na mata, que se põe verde no raiar do dia,

leva embora a sede e a ânsia de ver novamente

outros dias se afogarem em noites de breu,

suspensas na parede carcomida,

em quadros de memórias perdidas,

flagrantes de almas magras,

de texturas fracas e cores pálidas, quase sem vida.

E mais paciência, quanta paciência.

Doemos perdão aos voantes pródigos.

Da reza brava, as dores, em princípio cortes,


abrem-se em gritos

e mantém suas dores em sigilo,

amarrando o grito na volta do cantar mais bonito.

Oh, paciência, senhora paciência,

de tão profundo, o desabafo ficou contido

e do pouco proferido, ficou nítido o que realmente pediam seus olhos,

que na alegação de seus gemidos,

confundem-se sonhos ainda adormecidos.


Quarta Parede

Estavam o tempo todo no mesmo espaço

No mesmo circuito

Mas talvez eles não perceberam que eram apenas dois

Que ainda podiam se tocar

Só que tudo ficou repelente:

Os olhares, as palavras, o medo, o isolamento, a catástrofe

Tudo se tornou próximo do rompimento:

Os corpos, os encaixes, as vestes, os cômodos, os últimos suspiros

De quem ainda nem tentou respirar

Talvez eles tenham esquecido

O poder de abraçar sem nada dizer

[Faz isso... Abraça!] Posso sussurrar daqui, Deus?

E no fundo, eles tinham convicção que era como andar de bicicleta

Por isso não se importaram

Por isso nem se protegeram entrelaçados

Enquanto os alvéolos estavam aprendendo a abraçar o mundo

(Iludidos...)

Se tornaram vergonhosos

Emudeceram

Foram se adequando

Nem cresceram enquanto rizoma

Mas conseguiram se adequar

Ao que tinha pra hoje


Ah, Deus...

A mera praticidade das coisas

Até porque, estavam no mesmo espaço desde o primeiro sim

E nem assim conseguiram ficar no mesmo circuito

O toque não era obrigatório, caramba

Mas as atitudes acabaram repelindo tudo

Deus, será que da quarta parede eles nos escutam? [Faz isso... Abraça!]

“Eu torço por vocês...”

Né assim que eles dizem lá em baixo?

***

Não sei como nos olharemos depois da porta aberta

No fundo, não normalizei nem as portas trancadas

Apenas sei que daqui consigo avistar com menos turbidez as coisas de lá

Sei que há possibilidades de um dia tentar de novo

Quanto a eles...

Só queria que os incrédulos pudessem voltar

E não concluírem à última sinapse que os levaram ao erro.


panda

há algo diferente

contadores continuam

contando suas histórias e

escritores seguem escrevendo mas

tem tempo que não abraço meus

amigos

há algo diferente

os bancos seguem lucrando

e os médicos continuam sem saber

o que fazer mas as abelhas estão menos

desorientadas nessa semana

há algo diferente

ainda temos a internet e

ainda há pessoas que

recolhem nossos lixos mas

2 homens tiveram uma

experiência homossexual e

ficarão trancados com suas

esposas pelos próximos

3 meses

há algo diferente

as farmácias seguem
vendendo como nunca e

os filmes continuam a

serem projetados mas

um panda penetrou

sua parceira depois

de 10 anos em

abstinência

há algo diferente

continuamos queimando

combustível e procurando

os culpados mas

o himalaia pôde ser visto

a alguns quilômetros de distância como

se sempre estivesse

ali

há algo diferente

você continua sorrindo depois

de bebermos vinho ou

quando te abraço mas agora

realmente consigo dizer

obrigado por estar

aqui
VIVENDO NO PERÍODO DA PANDEMIA DO CORONA VÍRUS

Enfermidade epidêmica amplamente disseminada

Um novo corona vírus

Contaminando de forma inesperada.

Em meio à pandemia

Escrevo esta poesia

Não é um momento inspirador

Tampouco de alegria

Mas uma reflexão com amor, sobre a dor

Neste tempo de agonia.

Antes da contaminação começar

O tempo era pouco pra se usar

Tanta coisa pra fazer, tantos lugares pra passear

Muitas opções de lazer, muita gente pra conversar

Os alimentos pra comer, não faltavam em nenhum lar

Pois todos se dedicavam, todo dia a trabalhar.

O novo corona vírus chegou

e aos poucos mudou

a rotina de todos.

A correria do dia-a-dia

Se transformou em calmaria - em casa

Sem lugar pra onde ir

Alguns sem motivos pra sorrir


e outros com medo de ter que partir.

O mundo que parecia uma imensidão, e tão forte

se mostrava frágil na televisão

Com os anúncios das mortes.

Não é somente o brasileiro

Que está em desespero

É o povo inteiro, de várias nações

sofrendo e morrendo sem explicações.

Das tantas coisas pra fazer,

Muitas estão aguardando

E agora é tempo sobrando

E gente sem está trabalhando.

É casa desarrumada, é roupa pra ser lavada

é comida pra fazer, é criança pra ser cuidada

é notícia na TV do aumento de contaminados

aí você pensa, a pessoa fica é tensa

e não consegue fazer mais nada.

Um dia após o outro

Esperando o vírus desaparecer

Usem máscara para se proteger

E não deixar, esse vírus vencer.

O futuro dá medo

Medo de ficar sem um ente querido

Medo de morrer e ser esquecido


Medo de não poder se despedir

Medo de ir pro respirador

E de lá não resistir.

É grave a situação, e o isolamento social

é a única solução pra evitar a contaminação

pois se povo passar mal, com problemas de respiração

Tem que ir pro hospital

E talvez sair de lá num caixão.

O inimigo é invisível

É difícil com ele lutar

Mas não é impossível

Vamos ter fé em Deus e orar.

Vamos viver o HOJE

Fazer o que pudermos HOJE

Usar máscara HOJE

Ser feliz HOJE

e continuar sonhando

Porque HOJE

ainda estamos respirando.


A cicatriz da herança

Um dia ensinarão nas escolas

sobre a chaga que nos deu o tempo

mas que cobrou o seu preço

arrancando de nossa carne

a tão subestimada liberdade.

Lembrarão que ríamos de Malthus

mas não chegamos a acabar com a fome

que já usávamos os chamados celulares

mas ainda se desconfiavam das vacinas.

Dirão que nosso Príncipe não usava espadas

e apesar disso era ardentemente cruel

duvidarão que em nosso tempo havia amor

porque os mortos ficaram presos

na solidão de seus passados.

Os livros contarão as tragédias que vivemos

detalharão as dores dos homens comuns

até que se percam em páginas amarelas

e sejamos enfim esquecidos

por uma nova cólera


na inficionação do mundo.
Na saúde e na doença.

Em um rio conhecido como branco

nunca houve tanta calmaria

desaguado ao próprio pranto

pela guerra e a pandemia.

Entre a minha casa e a tua

há uma doença profana

que traz a saudade nua e crua

do asa branca ao mecejana.


PAREM

Parem, parem tudo.

Parem, parem o mundo.

Parem as pessoas que trabalham,

As que estudam e as que passeiam.

Em meio a tudo, o meu olhar para o futuro nunca foi tão desfocado.

O ser humano é tão frágil que até algo que não se pode ver

Pode derrubá-lo com ferocidade.

E em meio ao caos há tantos outros caos concomitantes.

Parem, parem tudo. Parem, para poder continuar... Parem.

A rua onde moro está vazia.

Já não mais escuto as cantigas das crianças

E os transeuntes desatentos em suas conversas banais.

Escuto o cantar dos pássaros que me lembra de que há vida,

E enquanto houver vida há esperança.


RECOMENDAÇÕES

O que nos resta na memória

São as lembranças de outrora.

Não adianta nem nos apressar

Devemos esperar o tempo passar.

Proteger o corpo e a mente.

Viver com cuidado decente.

Tentar com paciência nos cuidar

Para que o vírus não possa avançar.

Diversas vidas já foram ceifadas

Nessa guerra de mãos não armadas.

A nossa arma é o conhecimento,

Então não haja como um jumento.

Peço até perdão ao animal,

Os humanos são ignorantes sem igual.

Tem gente que não sossega o facho.

Cuidado! Você pode virar despacho.

Não se torne uma arma viral,

Respeite o isolamento na moral.

Seja, por favor, um cidadão descente

E não uma pessoa inconsequente.


MUTANTES

E o tempo trouxe o silêncio:

tecido na teia atroz da multidão,

solitário na cegueira dos olhos,

feroz no amor que proibimos.

No interdito da indiferença,

há muito nos abandonamos,

há muito nos silenciamos,

impregnando de vazio nossos olhares.

Sacralizamos o espelho,

despedaçamos as flores,

produzimos o espinho

na redoma dos grandes rinocerontes.

À meia-luz de infinitas leis

codificamos o abraço,

quantificamos o desejo

e reificamos nossa humanidade.

Mas, eis, que como rosa no asfalto,

o tempo trouxe o silêncio!


E o silêncio vedou nossos olhos,

lacrou nossas bocas.

E o silêncio secou as palavras,

espalhou sombras nas casas,

amarrou nossas mãos

e escondeu as chaves das portas.

E pela primeira vez tivemos medo!

Percebemos nos espelhos

o mesmo e solitário rinoceronte

intransponível no árido caminho.

E sem olhos, voz, mãos, beijos,

pálidos pelas portas trancadas

nos permitimos uma lágrima

na poeira das janelas mudas.

Criaturas em decomposição,

rostos desfigurados,

fugimos perplexos dos espelhos,

resgatamos nossa memória

e reinventamos a poesia.
Nem sempre

Não é preciso supurar para poder suturar e superar

Não é preciso sempre correr para nunca se atrasar

Não é preciso a cegueira da faca para a fé se amolar

Não é preciso esperar infiltrar para filtrar

Não é preciso jaleco e diploma para ser herói

Não é preciso pandemia para praticar

o si em ti, em nós, em vós, neles.

Não é preciso precisar para providenciar

Não é preciso Covid para convidar

Não é preciso controle para controlar

Não é preciso esperar o canalha falar

Não é preciso contar corpos para cuidar

Não é preciso guerra para poder levar

a bandeira da paz consigo

e ter maior precisão no tiro (ou facada).

Nem sempre é preciso

Nem tudo é possível

Eu posso! Eu preciso?

Ser sempre o impossível

quando só me basta ser possível.


Entre, Músicas

O dia em que a terra parou. Hoje eu não saio.

A vida em seus métodos diz calma.

Longe de tudo, Enquanto o mundo explode

Fim do mundo

Ladeira da preguiça, Apesar de você.

Tristeza pé no chão, Vamos tratar da saúde, eles dizem.

Cuidando de Longe. Longe. Distante demais.

É O que será.

Retiros espirituais, Bom dia tristeza. Tristeza.

Solidão. Liberdade ou Solidão. Dança da solidão. Doce solidão. Só.

Socorro.

Saúde. Respire fundo. Vai passar.

Falta de ar. Febril. Banho. Cansaço. Alucinação.

Coragem pra suportar. A felicidade, É o que interessa.

Tempo de Amor. Eu me lembro. O último dia. Fim de Festa.

Quando bate aquela saudade. Calendário. Segunda feira.

Crer-Sendo.

Amianto. Eu tô bem. Epitáfio.

1-800-273-8255.
A vida é um sopro!

Em pensar que viveria

Por um tempo maior.

Que aguentaria mais adversidades da vida.

Estava enganado...

A vida é um sopro... E como é!

Somos como uma folha verde

Que ao cair do pé, seca e se decompõem

Deixando apenas alguns vestígios

De que um dia existiu...

Sorte daqueles que ainda teve a chance

De deixar marcas e lembranças

Que o vento não levou e nem apagou.

A vida é um sopro!

O Covid-19 soprou vidas pela raiz

Dilacerando o coração de quem as cultivou.

Trazendo a dor ao ser que lutava para viver,

Mesmo que muitas vezes pedia pela morte

Que não aguentava mais respirar.

A que ponto chegou! Sendo o ar o sopro da vida.


Em pensar que desperdiçamos a vida inutilmente

Que deixamos de amar o próximo.

De fazer o bem sem ver a quem!

Guardar mágoas, com orgulho para não perdoar

De deixar a ignorância e a soberba tomar conta do ser interior.

Triste pensar que muitos que tiveram a vida encerrada

Pelo Covid-19, não tiveram a chance de fazer diferente,

De abraçar o irmão pela última vez, perdoar e ser perdoado...

Tendo apenas o corpo empacotado e colocado na vala.

A vida é um sopro!
Novos hábitos

O abraço um dia foi sinal de afeto

Hoje não abraçar é sinal de amor,

Respeito a vida e a saúde do próximo.

O aperto de mãos foi ato de cumprimento,

Trazendo positividade

Mas hoje o não aperto de mãos é prevenção.

Andar com a face ao ar livre foi liberdade

Atualmente usar máscara é se proteger do Covid-19.

Tais hábitos de ontem não são mais os de hoje.

Mas a luta contra o coronavírus é diária, constante e necessária.

As ruas amanheceu vazias...

Com poucos ruídos, dava até para ouvir o canto dos pássaros.

As poucas pessoas que se via estavam mascaradas.

A falta de mobilidade urbana era um problema resolvido.

Mas estava ali o coronavírus

O vírus que fez o mundo parar de resistir ao combate

Através de milhões de vidas marcadas e acabadas.

Que apesar de trazer sofrimento ao mundo

Trouxe sensatez do homem em si colocar no lugar do próximo.


Esperança

A rotina às vezes nos devora,

Não nos deixa ver o que é importante,

Cobre com seu véu o nosso olhar

Torna o amor tão distante...

Mas de repente,

Não mais que de repente...

O mundo gira diferente

E somos forçados a repensar.

Rever a relação com nosso corpo

E nossa mente.

Ressignificar o amigo próximo

E o ausente.

Olhar pra frente,

Pra frente...

E o que vemos?

Saudade daquela carinha sorrindo

Na primeira carteira.

Do motorista atrasado

Toda sexta-feira.

Da fila do mercado,

Do açougue

Da feira...

Da senhorinha brigando

Para sentar no ônibus na sua cadeira...

Falta da conversa boba

Enquanto o ônibus não vem.


Aurora de Luz

Lágrimas gotejando da face do mundo

e risos abafados no peso das dores.

Os soluços gritando em silêncio profundo

nas mãos que se despedem da campa sem flores.

Os gigantes fraquejam frente a um mal imundo,

choram os poderosos diante dos horrores;

e floresce a tristeza num solo iracundo…

Para a morte das trevas, faltam resplendores.

Partículas minguadas zombam da ciência,

os tesouros da Terra pedindo clemência

e o flagelo invisível tecendo o sofrer.

Esperemos que a luz extinga essa plangência,

quando o brilho do sol mostrar sua opulência

no deslumbre da aurora que há de florescer


CANTO DE ESPERANÇA

Quis sobrevoar o Brasil com chuvas de esperança

Quis abraçar estes homens tropicais

Quis confortar os habitantes com amor e melodias

Quis criar toda tecnologia para evitar desastres

Quis a reconstrução imediata da vida

Quis mil silêncios para lembrar as vítimas

Quis unir o mundo num abraço

Quis a extinção das pandemias

Quis a vida, apreciada de paz e segurança

Quis olhar para as crianças

Quis olhar pelos velhos

Quis um olhar de doçura e um abraço de irmão

Em cada homem e cada mulher do planeta !


Trombetas

"Chuva no primeiro de maio é sinal de um bom inverno ano que vem"

Ao ouvir tal devaneio...

[Transcendi]

Como alimentar uma es-perança calorosa

em um ano que abre portais que anuncia a morte em trombetas esverdeadas?

Que a empatia perde pro egoísmo

A maldade floresce na janela

sobe no prédio

e contamina a cidade

A fome programada bate na porta

aumentando filas de corpos nus de

Esperança

Amor

Empatia

Hu

Ma

nos

[voltei]
Agarrei-me a essa profecia:

"Chuva no primeiro de maio é sinal de um bom inverno ano que vem"

Acre[ditei] alto e forte

Gritei à um vencedor de campeonato

Pois es-perança, aqui no meu sertão,

é enraizada na seca

deserto consumado

mas a rega, de amor e paciência,

Faz brotar fé

Acre[ditar]

Que no ano vindouro, será um bom inverno.


Maquinário

Tic

Tac Tac

Tic

Rack
Trim
Ráh

Nada para
Tudo segue

“É uma gripezinha”
A mensagem é certa

Tac

Tic Tic

Tac

Rack
Trim
Ráh

Parou
Stop
Esbarrou
Congestionou
A mensagem é certa,
como a chuva que ainda cai na terra,
É preciso cair em si
Ter coragem de ser
o que tem de ser
E a hora é agora

Mas o maquinário não pensa


Faz rodar a manivela
A trava já não aguenta
A instrução não chegou
no galpão

Tac

Tic Tic

Tac

Rack
Trim
Ráh

Produzir
Comprar
Vender

O maquinário não pensa


Faz rodar a manivela
A trava quebrou
Tac

Tic Tic

Tac

Rack
Trim
Ráh

Tic

Tac Tac

Tic

Rack
Trim
Ráh

Maio
Dia um
Dia do trabalhador
“Que trabalhador?”
A crise doí, pesa
e verga
A crise leva o que restou de nós
Desempregados!
Desempregados!
Crise!
"E daí?"
O maquinário não pensa
Faz rodar a manivela
A trava quebrou
Tac
Tic Tic

Tac

Rack
Trim
Ráh
O maquinário não pensa
Faz rodar a manivela
A trava quebrou

Tic
Tac Tac

Tic

Rack
Trim
Ráh

Falta pão
no banquete do galpão
Aruasufoca

“Vende-se ar”
Mortes! Mortes!
Muitas mortes!
“E daí?”
O maquinário não pensa
Faz rodar a manivela

Tac
Tic Tic

Tac

Rack
Trim
Ráh

Tac

Tic Tic

Tac

Rack
Trim
Ráh
Entre (a)braços

Sem distância dos “entre braços”,

Amei,

Distanciei,

Fotos, grafias, juntei.

Primeiro, cores,

Fortes,

Reluzentes.

No fim, pelo avanço:

Presente. Modernidade.

No começo, pelo amor:

Rústico. Passado.

Preto e branco.

Linha tênue: o ar.

Perde-se pelo amor: suspiros!

Perde-se pela dor: saudades!

Com distância dos “entre braços”,

Amo,

Distancio,

Fotos e grafias, repasso,

Sempre cores,

Fortes, reluzentes,

Preto e branco,
Ainda presente.

Ainda passado.

O ar,

Respiros,

Suspiros,

Saudade que passa,

E retorna: “entre (a)braços”.


Corpos distantes

Pego-me, mais uma vez, desejando você

Desejando estar com você

E, mais uma vez, acabo por viajar

na abreviatura quadricular de sua vida

Olho muitos momentos teus

Vejo seus gostos

Seus amigos

Até seu filme preferido

Parece que você gosta de cozinhar...

UMA PRECIOSIDADE!

Eu preferiria que tudo isso

tu, menino, tivesse me contado

Queria ver as silhuetas de seu rosto mudando

ao contar sobre cada pedacinho de suas

Felicidades

Decepções

T r i s t e z a s

P a i x õ e s

E que os dias encurtassem nessa viagem dentro de ti.

Para, talvez, um dia, nós harmonizássemos nossas silhuetas

contando nossas histórias


verdadeiras e nuas.
23:59

Eu acho que no meu sonho nós éramos super-heróis

Mas já desvaneceu

Não lembro de ter tido um herói

Acho que ele me esqueceu

Cansei dessa vida, onde pausa esse jogo?

Dá para começar de novo?

Desisti das pessoas

exceto uma

Porque a minha química decreta

Que ele é a melhor coisa do mundo

Desprezo essa matéria

Sempre um efeito colateral

Não sou compreensível

Gostaria de não me importar

Mas é inevitável

O que é viver?

Há muitas definições

É sofrer

É uma arte
É arriscar tudo

É um risco

É muito perigoso

É desenhar sem borracha

É melhor que sonhar

É cristo

É adaptar-se

Há muitas citações

23:59

Qual filósofo me ensinará a viver?

Não quero dormir

Não quero nunca mais dormir

Falando com reflexos

Contando meus segredos

Dizendo o que nunca será

Já é meu aniversário

Chegou como eu não queria

Numa pandemia

Abdicar da vontade

Decadente
Dor nos dentes

Dor na barriga

Dor

A Dor que pula e pula

Acho que vou dormir afinal

Sinto-me selvagem

Se eu me matar, quantas torres vão cair?

Raiva dessa cabeça poética

A verdadeira festa começa quando todos vão embora

Estava em crise

Crise alérgica

O bafo é frio e a respiração é lenta

Somos natureza-morta

Mas não sei quem nós somos

Somos maus, mas não somos bons nisso

18 para sempre

Olhando os buracos no meu corpo

Para sempre

(Onde fica o nirvana?)


Abraços

Pensei “Queria beijar ele uma última vez”


Mas a última vez já foi há muito tempo

O Ódio e o Amor andaram lado a lado


Um amado, o outro odiado
Deram as mãos como amantes
E contaram segredos
E a Verdade saiu das bocas tortas
E ela era ofuscante

Eu derramei brigadeiro na cama


Fiquei calado para o meu bem
E a culpa caiu sobre outro alguém
Eu fui verdadeiro no meu drama

Às vezes apenas não nos importamos


E às vezes nós dizemos não nos importarmos
Com o que mais importa

Passarei dias aqui


Como passei naquele lugar
Por um tempo tudo foi perfeito assim
Agora eu nem sei mais andar

Agora eu desejo pedalar


Na rua vazia da madrugada
Os sonhos de zumbis
Podem sucumbir
Assim como as inverdades
Dos filmes e séries

Eu queria tanto não levantar daquele abraço


Eu nem lembrava que ela existia
Só tinha eu e você, e uma ansiedade de que iria acabar
E eu lutava com ela, tentando não lembrar

Esses abraços infinitos


Não importa os tamanhos
Aberto para novos sons bonitos
Isolados, porém unidos

Chega de inverdades
Não mais fatos inventados
Não mais falsas amizades
Chega de rostos mascarados
E A VIDA MUDOU...

De repente tudo mudou

Não se podia abraçar

O mundo mudou de cor

Era diferente o amar

Mesmo um simples toque

Já não se podia dar

O sorriso era diferente

Não era mais escancarado

Era feito com o olhar

Algo meio mascarado

Assim a gente seguia

Cada um no seu quadrado

A rotina se alterou

Na casa da vó ninguém ia

Pra estudar era de casa

Na escola não se comparecia

Tudo era diferente

Aos poucos a gente aprendia

Sentia-se muita falta


Do que antes não era nada

De coisas bem pequenas

De uma simples caminhada

Do encontro com os amigos

De uma palavra trocada

Tempo meio confuso

Aumentava a ansiedade

Antes viver em casa

Não era nossa prioridade

Tudo era muito corrido

Na nossa sociedade

E o tempo apareceu

Para em casa poder ficar

Pra gente reaprender

Pra se autoavaliar

Ver o que realmente importa

Para o novo caminhar

Alguns estavam indo embora

Pro outro lado da vida

Deixando muita saudade

Com a triste partida


Que acontecia apressada

Sem nenhuma despedida

Pra de cada um cuidar

O melhor que se fazia

Era cada um ficar em casa

Evitando como podia

Mesmo com peito apertado

Juntos a gente vencia

Tudo por conta de um vírus

Que os olhos não podiam ver

Coronavírus seu nome

Esse minúsculo ser

Virou uma pandemia

E fez a terra adoecer

Isso tudo é agora

Mas logo vai virar passado

O normal será outro

O padrão será quebrado

Por um tempo ficaremos

Um pouco mais afastado


Enquanto juntos não estamos

Vamos nos reinventando

E por meio das telas

Vamos se conectando

Logo, logo estaremos

De novo nos abraçando!


Passageira de primeira viagem

Bem dizia o coveiro,

os segredos que por aqui passam

são cheios de mágoas

Uns tentaram lutar

Outros sobreviver

Para os passageiros desavisados

Aqui está o preço

da angústia de não prever...

Se as preces ao Salvador

não se fizerem cumprir

que fique escrito bem aqui

Lágrimas solitárias hão de vir

E o perjúrio de não ser forte

Suficiente, Persistente

Me fazem agora um jogador

fora de campo

fora de área

boca de peixe fora d’água

Passageiros rumo a corrida

Da descoberta para pouca resposta


O que eu quero é correr

porque andar já não me é permitido

Acorda homem!

Acorda mulher!

O trem já vai lá

Se agora lá tu não entrar

Nada de bom trará

Vento fustigante

Sol alto lá

A estrada boa para viajar

O que me falta agora

É coragem para acreditar

Que o tempo vai voltar

E a vida simples

Não programada

Pode para sempre continuar

Vai trem

Vai campeão

Vai sorrateiro para o fundo do chão

Eu não te vi, mas insisti

Se aqui jaz

Nesta comunidade cheia de boas histórias


o que poderia desejar?

Senão que continue

nessa sua longa viagem.


SOBREVIVER

Sem espaço para mais corpos,

A solução é apelar para as valas

Já que não se pode fazer mais nada

Medo, pavor

Desespero, pressão e dúvidas!

Crises de ansiedade só tendem a aumentar

E se não se tem previsão

De quando esse colapso irá acabar

Uns conseguem vencer

Outros infelizmente nunca mais voltaremos a ver

Mortes, dores e lágrimas!

A perturbação de ouvir “positivo” não passa,

Levando vidas e sonhos de bilhões de terráqueos

A humanidade continua enfrentando

O seu maior adversário

A preocupação é grande com amigos e família

Mas não se pode mais vê-los,

Para proteger também a própria vida!


Sem demostrar afeto para

As pessoas que ama,

Para não correr o risco de as contaminar;

Sem escola, sem festas, sem visitas,

Sem trabalho, sem dinheiro, sem comida, sem vida!

Sensação de fraqueza, febre e dor de cabeça

A todo instante lutando para sobreviver

Se esforçando ao máximo para não morrer

Se distanciar, não tocar, não abraçar,

Sem carinho, beijo e aperto de mão!

Plantões dobrados e muita oração

Todos batalham em prol de salvação

Esse processo é necessário para que

A humanidade tenha mais uma chance de viver

E impedir que esse vírus continue a crescer

Duas alternativas:

“Sobreviver ou morrer”

Só uma se pode escolher


Versos sobre saudade

Eu costumava reclamar do barulho


Do alarido que produz muita gente junta
Dos abraços muito calorosos de gente feliz
Logo no início da semana

E eu costumava reclamar sorrindo


Porque, na verdade, sempre amei
E sinto saudades

Eu costumava reclamar dos cumprimentos calorosos


De festa grande em lugar pequeno
De foto cheia de gente junta
E bem junta, pra todo mundo caber no quadro

E eu costumava reclamar sorrindo


Porque, na verdade, sempre amei
E sinto saudades

Eu costumava reclamar de abraços coletivos


De dançar com estranhos
De lojas cheias em boas promoções
De cinema lotado logo na estreia

E eu costumava reclamar sorrindo


Porque, na verdade, sempre amei
E sinto saudades

Que ao fim de todo esse resguardo


Eu possa voltar a reclamar livremente, e sorrindo
Das coisas que amo e sinto saudades.
Distopia

Distopia é estar fora do lugar

É estar em condição diferente, anormal

É condição patológica

E pode ser social

Distopia era coisa de literatura

Era cenário distante demais

Era crítica e reflexão

Era quadro médico, e só

Um dia a pandemia chegou

E a vida real entrou nos roteiros dos filmes

Somos a distopia que eles poderiam contar!

E que lições tirariam de nós?

A vivência de uma distopia nos mostrou

Em cada nota de saudade

Em cada harmonia de dor

As coisas notáveis

Foi chocado com a distopia

Que ansiamos pelo mundo ideal


E descobrimos que o mundo ideal

É um mundo cheio de vida.


O Mundo se recolheu
Lá ia o Mundo
Se ia mal ou bem não me compete
Mas ele seguia
Com pressa, ele ia

Indiferente a algumas dores


Desinteressado das alegrias
Tendo como foco seguir depressa
Passou por cima das suas próprias agonias

Mas um dia o Mundo parou


Foi quando viu que estava doente
Passou a andar mais devagar
Se recolheu em casa

Se preocupou com todas as suas partes


Tratou de cuidar de suas próprias feridas
Chorou suas dores
Ai, que época doída

E o Mundo era impaciente


Acostumado a correr voraz
Por amor e por bem de cada célula
Parou, contemplativo

Ah, era o Mundo vazio


Muito antes de entrar em casa ele já era
Corria sem destino
Despreocupado, intempestivo
Era o Mundo vazio
Era sim, muito antes de se recolher
Impondo o ruído do seu vai e vem
Para ignorar os gritos de dor

Era o Mundo vazio


Pensava ele de si mesmo
Agora que estava quieto, pensativo
Até escrevia poemas, até olhava para os filhos

Tratava o Mundo agora de se arrumar


Para sair de casa de novo
“Não é o mesmo depois de tantas dores”
Comentavam os vizinhos

O que ele se tornara agora era um grande mistério


Correrá mais? Correrá menos?
Vai se cuidar? Será melhor?
Será mais bonito?

Seu doutor autorizou


No dia marcado sairia, agora sadio
Lá ia o Mundo, sob o olhar dos curiosos
Lá ia o Mundo novo.
Pergunta

“E quando teu filho te perguntar no futuro, dizendo: Que é isto?” (Êxodo


13:14)

Da próxima vez

Que a sua criança perguntar,

Talvez ecoando

Suas próprias perguntas

Muitas décadas atrás,

Qual é a utilidade

De tanta matemática

Se ela não vai usar

Quase nada daquilo

No dia-a-dia,

No “mundo real”,

Conte a ela

Que ao longo de

Todo o ano de 2020

Progressões geométricas

E funções exponenciais foram,

Da maneira mais concreta possível,

Questões de vida
E de morte.
Libertamente presa

Quero atravessar as grades da janela

Mas não tenho essa magreza

Que me permita fugir

Quero descer correndo as escadas

Degrau por degrau

Até chegar a ti

Liberdade

Quero pular esse muro

Que me separa da rua

Mas sou tão pequena

Então a janela me abriga

E vejo por ela

Uma vida serena

Desisto e volto

Me deito na cama

E essa agonia passa


Mas nem é o sono que bate

É que entre os meus olhos

Sem saber se é sonho ou verdade

Eu vejo um sorriso

Que me abriga ao dormir


INESPERADAMENTE

O frenesi da semana inicia

Os ônibus lotados com estudantes e trabalhadores

Os carros com os ares-condicionados ligados transportando seus proprietários

As ciclovias em plena velocidade

que as pernas – principalmente dos imigrantes – possam movimentar

As idas e vindas despreocupadas daqueles que vão à “escolinha”

O passo apressado do adolescente que – quase sempre – tá atrasado para a


aula

O caminhar das pessoas pelas calçadas com seus pets

O caminhar acelerado dos fitness

O caminhar lento de quem, um dia, já teve pressa

Inesperadamente o vento grita:

- PANDEMIA!!!!

E agora só escuto a VOZ do SILÊNCIO

Não ouço mais

o burburinho dos 46 assentos nem das várias mãos erguidas,

o cantarolar, a notícia, a discussão, o pensamento

a música dentro dos fones, o doce falar espanhol,

a fala infantil ,

a linguagem digital,
a conversa com o “melhor amigo do homem”,

as dicas de exercícios e receitas,

a história nostálgica,

Inesperadamente chega

a incredulidade de que tudo isso seja verdade,

o medo por todos e de todos

a incerteza de quando vai isso passar

Inesperadamente o vento sussurra:

- JÁ PASSOU!!!!

Os ônibus circulam abarrotados de pessoas ,

Os veículos trafegam com seus pares,

As ciclovias movimentam pedais em fluxos bidirecionais,

A criança chega à escola,

O adolescente chega à classe,

As pessoas voltam com os animais para as calçadas

Os atletas fazem os percursos de antes

Mas alguns – inesperadamente - já não caminham mais.


Essencial

Essencial era ir ali

Pegar uma penca de coisas básicas

Deixar nada faltar além de presenças

Sol sempre bom nos passos

Bronze no corpo

Exceto nariz e boca

Tudo comprado

Fila do caixa

Algo desliza acidental no chão

Desce para pegar

Outro também

Solidária figura

Olhares se cruzam no pegar mercadoria

Sorriram por trás das máscaras

Estenderam linha

Se esticam numa rede

Cada um no seu canto

Trocam receitas, confidências

Não veem a hora

Da pandemia acabar

Para se acharem

Dentro de uma abraço


Cisnes

31/03/2020

Cidades silentes

Cisnes voltam a Veneza

Em bando simulam

paz na natureza

O Sol se derrama dadivoso

Luz que a sombra teme

Quem olha da janela

Espera!

Que o Sol cumpre a sua destinação

Não sabe o Sol o que é nação.

Não sabe o Sol o que é coração?

Somam-se as baixas entre as gentes

Não obstante

Refulge no cisne

Benevolente

Indiferente aos corpos empilhados.


Cisnes

31/03/2020

Cidades silentes

Cisnes voltam a Veneza

Em bando simulam

paz na natureza

O Sol se derrama dadivoso

Luz que a sombra teme

Quem olha da janela

Espera!

Que o Sol cumpre a sua destinação

Não sabe o Sol o que é nação.

Não sabe o Sol o que é coração?

Somam-se as baixas entre as gentes

Não obstante

Refulge no cisne

Benevolente

Indiferente aos corpos empilhados.


UM VILÃO INVISÍVEL

Eu vi não querendo ver

Um tempo de grande pavor

Multidões espalhadas

Temporada de muita dor

Muitos querendo não ter

Num instante em que tudo parou

Eu vi que os tempos mudaram

Que as coisas perderam o valor

Que o positivo não se queria

Deu negativo! Comemorou

E a importância de estarmos juntos

Para quem nunca se importou

Eu vi que tudo era um só

Onde sempre se separou

Pois o grito era de todos

E o mundo paralisou

Se isolando com agonia

Se livrando da pandemia

Num cenário de horror

Eu vi o cuidado dobrar

Na limpeza e no toque das mãos

Fique em casa! Diz a frase

Tenha mais prevenção


Porque os efeitos são mortais

Desse vírus tão voraz

Que ataca a população

Eu vi heróis de máscaras

E o invisível vilão no ar

Vi a tristeza nas ruas

E os corações a pulsar

Eu vi bondade e partilha

Vi lealdade no olhar

Em minha visão vi a fé

O inimigo enfrentar

E por mais difícil que seja

Sairemos da peleja

Vamos todos prosperar

Pois o mundo continua firme

Nunca deixou de amar.


Pandemia

todos pareciam dormir

todos pareciam alguma coisa

de antes

foram surgindo entre os becos

nas vielas

pelas avenidas

descerram os morros

subiram os elevados

todos aquietados

pasmos ainda

os passos eram surdos

os quintais foram se desafogando

os braços se despregando

do resto do corpo

tocaram as suas faces

enxugaram as lágrimas
olhei para o capacho

ao fechar a porta por fora

uma recordação

ENTRADA
Há e quem

Há quem lucra

E quem esfalece

Há quem perde

E quem enriquece

Há quem morre

E quem não compadece

Há quem chora

E quem ignora

Há quem respeita

E quem não se endireita

Há quem que vive

E quem sobrevive

Há quem tem de comer

E quem não tem nem onde viver

Há quem perece

E quem se envaidece

Há quem vai pra rua por opção

E quem vai por obrigação

Há quem não tem noção

E quem não tem nem sabão

Há quem ora

E quem ri agora
Há quem resiste

E quem não insiste

Há quem segue rotina

E quem desatina

Há quem luta

E quem se recusa

Há quem trabalha

E quem atrapalha

Há quem é medo abstrato

E quem só é cansaço

Há quem é medo real

E quem não ver jornal

Há quem número é

E quem tem fé

Há quem é nome

E quem é sobrenome

Há quem chora

E quem não se apavora

Há quem sorrir

E quem não quer desistir

Há quem malha no lar

E quem corre pra trabalhar

Há quem tem álcool em gel

E quem acha que o mundo é cruel


Há quem é esperança

E quem acha que é vingança

Há quem é salvação

E quem não quer perder dinheiro não

Há quem quer vida salvar

E quem quer a economia em primeiro lugar

Há quem tá de quarenta

E quem acha que está em férias plenas

Há quem não acredita

E quem se irrita

Há quem se isola

E quem não colabora.

Há quem é morte

E quem não se conforte

Há quem é festa

E quem não se manifesta

Há quem assiste tv

E quem não quer nem ver

Há quem é alegria

E quem se contagia

Há quem é descaso

E quem é prazo

Há quem é amor

E quem é clamor
Há quem cuida

E quem julga

Há quem é despedida

E quem é vida perdida.

Há quem é vítima

E quem é íntima

Há quem é médico

E quem não é ético

Há quem é paciente

E quem não sabe se está doente

Há quem é família

E quem faz vigília

Há quem é rico

E quem é bíblico

Há quem é pobre

E quem cobre

Há quem é trabalhador

E quem é empregador

Há quem se entrega

E quem não tolera

Há quem é cura

E quem é amargura

Há quem é ódio

E quem tá no pódio
Há quem é proteção

E quem é vacilão

Há quem tosse

E quem torce

Há quem está em hospitais

E quem está em funerais

Há quem quer o fim do isolamento

E quem é só lamento

Há quem usa máscaras

E quem são desmascaradas

Há quem é devastação

E quem se ajoelha em oração

Há quem é linha de frente

E quem não é presente

Há quem não tá nem aí

E quem nem consegue dormir

Há quem volta pra casa

E quem não abraça

Há quem é produtividade

E quem é pura ansiedade

Há quem é descansa

E quem é criança

Há quem é vô e vó

E quem está só
Há quem é paz

E quem é capaz

Não há e quem

Se não tiver união também.

Há quem é consciência

E quem só tem classe.


os poderes da arte

"Tomara, meu Deus, tomara,

que tudo o que nos separa

não frutifique, não valha.

Tomara, meu Deus".

(Alceu Valença)

ter a vida regulada

por um microorganismo

que viaja com a morte

agarrada à sua coroa

é só um dia qualquer

disso augusto já sabia

na história do universo

mas a humana odisseia

se quer em conta mais alta

que os germes e suas sagas

e narra-se então entre nós

com nuances apocalípticas

o drama de nossa espécie

a frágil e miserável casta

talvez no cosmo a única


com arroubos de imortal

e é o mesmo augusto

o dos anjos

niilista escatológico

trágico poeta

e tísico

quem nos soprou a lição

segundo a qual nada pode

o ódio voraz da morte

contra os poderes da arte

ameaçados por covid

ou pela sanha do fascio

é a arte quem nos mostra

como voltar a nós mesmos

e embora as interdições

toda ordem de desencanto

nada pode o que nos separa

quando uma canção promove

o encontro de nossas vozes

pois na luta contra a morte

que concerne ao nosso conto


nos domínios do planeta

nossa linguagem e cultura

devem dar a estatura

dos animais que somos

nos momentos mais extremos

em face ao que nos assola


live

ao vivo com hora marcada

lançamos juntos

nosso canto

numa qualquer live animada

antes que seja tarde

ou então que o ar nos falte

ao vivo os vivos se encantam

embriagam-se e dançam

em uníssono pelas telas

pelas redes em que pululam

também o ódio e o medo

gritam a quase plenos

pulmões

ao vivo em tempo real

deitamos à terra o grão

de nossa voz nosso sopro

atravessados por tão triste

alegria tão sonora

e à beira de nossa queda

já nada mais somos

que as sombras

atônitas e extáticas
para sempre irrequietas

de nossos próprios fantasmas


O Coronavírus

Não havia mais tempo para olhar nos olhos

Tudo se resumia em conectar-se com o mundo

Desprezando o carinho de perto e curtindo o de longe

Fechando assim o peito para o simples e singelo!

Na ciranda louca do ter, o ser tornou-se voraz

E, as novidades das manhãs eram velhas à tarde...

A multidão dos quatro cantos do planeta, eufóricos

Corriam atrás de coisas vãs, engraçadas e passageiras..

Ah..mas, algo diferente veio à tona

Surpreendendo o globo terrestre todo

O invisível, sorrateiro e desconhecido

Chegou trazendo pânico aos distraídos humanos!

Seu nome popular... - coronavírus

Ou pode ser chamado... - covid 19

Um vírus fazendo cada um refletir

Sobre o que é mais importante no existir!

Todos em casa,ressabiados

Concentrados nas notícias, pasmos, alertas


O medo tentando aniquilar a paz...

Silêncio.A vida é dádiva divina recorrente

Nova a cada manhã, constantemente...

Assim,os que aqui ficarem a valorizem sob outro prisma

E quebrantados mudem o seu agir

Acalentem a família, o próximo e pratiquem a gratidão

Sim, a esperança é a chama viva do coração.


Escolha

Eu tinha escolha

Mas agora, eu tenho apenas o dever e a obrigação.

Eu tinha escolha, de visitar meus avós, sair com amigos e de abraçar meus
irmãos.

Eu tinha escolha.

E agora? Quem pode derrotar esse monstro?

Esse vilão que roubou nossa paz, mudou a rotina e devastou a tantos.

Nós tínhamos escolha.

Agora, vidas escritas em prosa não passam de números em uma escala.

E a Escolha? Isso não temos mais.


Mar Ecumênico1

Ó mar silencioso, quanto da sua fala,


São lágrimas de um mundo que se cala!
Ao nos cruzar, quantas famílias chorarão,
Quantos filhos em vão rezarão!
Quantos ficarão a esperar,
Aqueles que nunca mais irão chegar!

Valeu a pena? Sempre vale a pena


Mesmo que, demorada seja a quarentena.
Quem quer passar além da dor
Terá que passar por esse torpor.
Aos deuses se ouvem clamores,
Cessem, por favor, todas as dores!

1
Releitura da Poesia de Fernando Pessoa – Mar Portuguez, em decorrência
da pandemia de COVID-19.
CONFINAMENTO

Eu ora bocejo; ora m'espreguiço,


E tento não pensar no que receio.
Como pudesse estar de todo alheio
Ou senão bem distante de tudo isso.

Logo, porém, s'escuta o rebuliço


De vozes findando o meu recreio.
Nem mesmo a solidão que vão pleiteio
Parece m'evitar tal desserviço.

Assim, não há trabalho nem descanso,


Apenas uma espera desmedida,
Entremeada de dúvidas e ranço.

O tempo hoje faz mais parte da vida


E justo quando mais desesperanço
Eu conto ao coração cada batida.
PANDEMIA

Contágio em progressão exponencial


E o planeta a hibernar involuntário.
Mas, quando o solidário é solitário,
Fazer nada é fazer o essencial
-- Ainda que haja mortos no final.

Contagem de doentes em geral


E após fazer dos leitos o inventário:
O invisível parece imaginário,
Mas enche enfermarias no hospital.
-- Ainda que haja mortos no final.

Nas ruas, mais vazias que o normal,


Apenas mascarados sem salário
Vagam em meio ao caos comunitário,
Com risco de contágio, pois, viral.
-- Ainda que haja mortos no final.

E não há solução: Tudo é mortal.


A fome em casa e o vírus no cenário...
A morte se tornou algo ordinário;
Covas nos cemitérios, afinal,
-- Somos milhões de mortos no final.
Ciclos

É com o passar dos séculos,


No ressoar dos ecos,
Que percebemos que todo fim
É um ponto de partida.
E toda chegada, um começo.

O que antes era figura,


Tornar-se-á fundo.
O que era direito
Transformado em avesso.

O que ontem era país,


Hoje se tornou mundo.
A Natureza, fronteiras não conhece,
O Homem, nelas encerrado, adoece.

Um pandemônio caótico
Para os filhos de Adão.
Estranho transe hipnótico,
Castigo, tão amarga redenção?

Na eterna espiral das eras


A Grande Roda gira sem cessar.
O que outrora acima repousava,
Embaixo amanhecerá.
fala-se tanto no amor
o amor
o amor isso, aquilo
o amor ao próximo e o caralho
fala-se tanto no amor
o amor, do amor, ao amor
que a maior atrocidade
é só espanto

precisamos falar do ódio


precisamos falar do ódio
precisamos falar do ódio
do ódio
da raiva
da frustração
cristãos, precisamos falar do ódio
tanto quanto se fala do demônio
precisamos sim falar do ódio
precisamos falar do ódio
do ódio
do ódio

eu vou repetir isso tantas vezes que você vai guardar


eu vou repetir isso tantas vezes que você vai guardar
eu vou repetir isso
este verso
isso
tantas vezes que você vai guardar
eu vou repetir isso tantas vezes que você vai lembrar
vai
vai sim
eu vou repetir isso o que for isso tantas e tantas vezes
que você vai dormir pensando nisso
vai ter suores noturnos
vai acordar aos sobressaltos
eu vou encher a sua cabeça
eu vou repetir isso tantas vezes que você vai duvidar2
eu vou repetir isso tantas e tantas vezes que você não terá dúvidas
2
é real
eu vou repetir isso com muita tranquilidade
eu vou repetir assim:
eu vou repetir isso tantas vezes que você não terá nenhuma dúvida
eu vou repetir isso tantas e tantas e tantas vezes
eu prometo
eu vou encher o seu coração

e só é real o que sentem os outros


apenas é real o que os outros sentem
você ainda não pensa isso, mas pensará quando atravessar uma ponte
será numa tarde abafada
como têm sido as tardes de outono
cairá sobre você o mundo
e de seus delírios verá brotar a dúvida
essa tarde, a tal tarde, se aproxima
e é atraída como que, pelos mesmos mecanismos invisíveis e inexoráveis,
as estrelas estão prometidas às noites
ainda que se mantenham presentes de dia
ainda que tenham brilho
como o sol é para as outras estrelas do nosso céu
nossas obsessões não deixam ver
o que reina logo depois delas
Isolamento

A vida está sucumbindo


Há poucos recursos para combater o mal
A tinta e o papel também sumiram

Da janela vejo o mundo


Ruas
Casas
Curvas

Da janela vi o vazio
O medo
O vírus

Ele matou
Sufocou
Deixou um mundo mais vazio

O silêncio agora toma conta da rua


Da fazenda
Dos corações

A distância tornou-se a cura para o vírus


Ficar em casa
Usar a máscara
Passar nas mãos álcool em gel

Ordens do dia para manter a vida em pé.


PANDEMIA: CADA VEZ MAIS DISTANTE

Cada vez mais distante.

Cada   vez   mais   distante.

Cada     vez     mais      distante.

Cada       vez       mais        distante.

Cada         vez         mais           distante.

Cada           vez           mais             distante.

Cada             vez             mais               distante.

Cada               vez               mais                distante.

Cada                 vez                 mais                  distante.


LÁGRIMA

O vírus se e s p a l h a

como areia fina ao vento

como água esparramada do pote

como lágrima do meu olho atento.


CORRIDA

Correndo pra lugar nenhum


fomos obrigados a pararmos
em nós mesmos. Nos nossos lofts, aps, barracos e mansões. Quando muito,
saímos para alguns megabites de distância
nas nossas redes sociais.
Estamos quedados:
entre paredes brancas, azulejos, barro ou papelões; telas e polegadas.
Estamos no cerco de nós mesmos.
Na margem dos nossos, dos que nos cercam, estranhos: conhecidos de mais.

Observamos o silêncio. O perplexo.


Um ser que se move em muitos, nos deixa paralisados
ante a fragilidade do fio da vida – que a qualquer hora se rompe:
como um corte de energia elétrica
cálice de vidro quando cai
um prato de comida ante a fome.
Some.

E a vida
novamente se refaz
em escuridões e estilhaços
alimentada de uma esperança
(inda que frágil)
Mas – e mais – que gigante
Que jaz vizaz, tenaz: a paz.
DESCOBERTA

Descobrir em casa:
os livros que ficaram por ler
o filho, com a luz do dia
o prazer e o cansaço do sofá
da sala ao quarto, a cozinha.

Ver repetidas vezes a notícia do jornal


repetidas as horas
com celeumas e celulares de pandemia

A reclusão das paredes, portas


pausa compulsória
higiene e profilaxia

As pontes e hiatos
distâncias e nós
caronas e eremitas da infectologia

E nossos olhos esticados no horizonte


com grande desejo
que o Amanhã se remonte

em abraços de calor, carne e osso


beijos e contágios de alegria.
Sentidos

No dia em que o mundo parou


Passei a abrir as janelas
De casa pro sol penetrar,
Da alma para iluminar
A sombra que em tudo pairou.

No dia em que o mundo parou


Toquei com as mãos o meu rosto
E li cada linha da pele
Em braile porque não me fere
Os olhos, o ego e o vigor.

No dia em que o mundo parou


Eu coei um café perfumado
Com cheiro de vó e biscoito
À espera de seu neto afoito
Que, há muito, pra longe voou.

No dia em que o mundo parou


E o doce tornou-se amargo
Busquei desfrutar de mim mesma
Como acidental sobremesa
Que à prima mordida encantou.

No dia em que o mundo parou


Transpus o pesado silêncio
Com histórias nunca contadas;
Meus medos, segredos, risadas
Que outrora a rotina abafou.

No dia em que o mundo parou,


Como quem protesta calado,
Eu pude apurar meus sentidos:
Da boca, nariz e ouvidos,
Das mãos para ao outro estender,
Dos olhos pra nunca esquecer
Aquilo que o mundo mostrou
No dia em que ele acordou.
Sentimento do fim do mundo
ao poeta Carlos Drummond de Andrade

Tenho trinta e oito anos


e o sentimento do fim do mundo.
Estou só em uma casa
que não é minha,
minhas saudades
me chamam por vídeo.
Quero me levantar, o céu
vive, mas as pessoas parecem
mortas e saqueadas,
eu mesma, inclusive,
viciada no placebo que não sacia,
aqui, o pântano ainda canta.
Os camaradas estão dispersos.
Na luta pela paz
esquecemos que a guerra
é contra nós
pobres e flagelados,
a miséria do mundo.
Sinto-me inteira,
com todas as partes que sempre faltaram.
No entanto,
assim como o poeta,
também peço perdão.
Quando os vírus, os ácaros, os vermes passarem,
eu ficarei sozinha
desafinando a meditação
do silêncio, da folha morta, uma alucinação
que me habita
desmascarada.
Neste instante,
afio as palavras
para abrir o amanhecer.
conta-gotas
de rebeldia e beleza

Tomem poesia
conforme a prescrição:
de nove à doze gotas por dia:
faz bem pro coração!

Tomem em voz alta


e sem vergonha.
Degustem suas palavras
de ponta à ponta.

Tomem poesia
de nove à doze gotas por dia.
Faz bem para a humanidade!

Decanta a essência da palavra erodida


semeie suas sementes
nas encostas da saliva.
Das árvores filológicas florescem
outras palavras
e outras formas de vida.

É sério,
mas não basta!
Precisamos tomá-la em voz alta
para banir os males do ofício,
do espírito,
da garganta,
das entranhas…
Para o novo
florescer.
casa-mundo

Que se passa
quando a casa
é o mundo
quando o mundo
é a casa
que se passa?
-
Só,
me ponho
a girar e a rodar,
dançar no ar
até ser Catavento
Outubro
de Nascimento.
-
E se me bate o medo e a tristeza,
canto alto e mostro o meu retrato:
_daqui do caracol
eu vejo o mundo
e sinto muito.
por dentro
tenho asas,
voo leve
sob mim.
lá fora,
pouso as mãos,
subo no muro,
me escalo
no profundo
de um poema
ao sem fim.
Vingança

Onde quer que eu esteja,


aonde quer que eu vá,
dormindo ou acordada,
sinto sua voraz presença.
Falo do coronavírus
que o mundo aterrorizou.
Ele, que tinha um habitat,
que humanos destruíram
e desse modo nos tornando
seu habitat preferido.
A humanidade chora.
Hospitais e cemitérios
igualmente se abarrotam.
Sófrego, busca o mundo
vacinas e remédios.
Mandingas e preces
estão em toda parte.
E quem o derrotou,
traz na alma cicatrizes,
porém a volta à vida
tudo compensou.
Que a Ciência médica
e as preces nos defendam
contra nossa ignorância,
desrespeitando a natureza.
Somos frágeis criaturas.
Que Deus nos proteja.
...
SAÚDE ESPIRITUAL em tempo de PANDEMIA

Em 2020, o mundo faz Silêncio e se esconde da peste.


Todos têm medo e se veem Acuados em suas casas.
Fogem de um vírus que não é Único e exclusivo a alguns.
Até foi-lhe dado um nome Deveras simpático: “Coronavírus”.
Nem parece nome de guerra, mas provoca Enfrentamento de todos os viventes,

porque ele chega a todo Endereço do planeta Terra.


Usando armas simples e Silenciosas: máscara, sabão, álcool,
cada um pode evitá-lo, desde que seu Poder não seja subestimado. Ele é letal.
Exigente, requer do ser humano Isolamento da expressão do carinho físico.
Mas o que ele não sabe, é que nos leva à Reflexão e a cuidarmos não somente da
saúde corporal, como também, nos Induz a combater defeitos espirituais.
Sós, sem burburinho, a alma convida a Tudo: a rasgar a prepotência, o orgulho,
egoísmo... a alimentar-se de humildade, Usar a paciência, o respeito...
Segreda a sermos solidários, Afáveis e corteses nas relações.
Cuidemos do corpo nesse tempo. Libertemos a alma nesse tempo:
Tempo de Pandemia!
Transmutação

Muitas coisas já mudaram para sempre


Talvez o seu tipo de negócio
Talvez a sua profissão esteja ameaçada
Ou quem sabe nunca se valorizou tanto os entregadores
Sim, os que entregam e m sua casa a comida, a bebida, o remédio
Herois que cortam a cidade em meio ao silêncio
Que os anjos os protejam em suas motos, bicicletas por todo o mundo
Um homem decidiu morar dentro do hospital
Era enfermeiro e foi para a guerra, não queria levar para casa os estilhaços das
bombas
Eu escrevo e choro um pouco
Tinha esse choro atravessado na garganta, lágrimas acumuladas, lágrimas que
de céticas, transmutaram-se em medo
Medo de contar mortos, de hospitais
Mas de algum lugar no espaço ou de outra dimensão vinha a esperança em
grandes ventos
E contaminava também as pessoas em larga escala e elas continuavam
sonhando e fazendo planos
Alguns choram suas perdas, outros engolem a seco a arrogância e as ilusões
Outros pedem a Deus que multiplique a já escarça paciência e serenidade para
fazer nada em casa
Os dias se repetem, os olhares entre os seus se repetem, o tédio senta à mesa
na hora do almoço e as pessoas pensam: é isso que temos hoje e seguem
Alguns sofrem mais, outros menos, outros constroem casas de conhecimento
dentro de si e nascem de novo
Ainda não acabou, eis o olho do furacão agora, arrepie-se
E então, todos entenderam de algum modo que precisavam dar as mãos em
pensamento, pois já não era possível dar as mãos de verdade, não agora, não
por enquanto!
Como a vida era bela!

Idas ao zoológico
Que beleza há no diabólico?

Caçar pássaros, prendê-los em gaiolas


Essas almas importam! Idiotas!

Restaurantes lotados de gente


Dentro do prato, alguém geme.

Devastar florestas
Só a vida humana presta?

Poluir as águas
Vidas amaldiçoadas!

Destruir a camada de ozônio


Demônio.

Fartura, abastança
Nas ruas, fome e desesperança.

Participar de festas
E as velas nas ruelas?

Hotéis caros, viagens


E os descamisados nas friagens?

Beijos, abraços
E o choro dos desempregados?

Estudar, conhecer dialetos


E os analfabetos?

A paz impera
E as Guerras?

Ter direitos
E a falta de respeito?

Dias natalícios
E o feminicídio, homicídio, infanticídio, latrocínio…?

Saltitar de euforia
E a pedofilia, zoofilia, necrofilia, xenofobia…?

Ah! Que desgraça de pandemia!


Queremos vacinas!
Olha a chacina!
Nunca matamos!
Enganamos!
Roubamos!

Somos amáveis!
Adoráveis!
Veneráveis!

Amamos o meio ambiente!


A Fauna!
A Flora!

Dividimos o pão!
Estendemos a mão!
Perdão!

Como fomos infectados!


Deletados!
Execrados!

Ah! Que desgraça de pandemia!


Viramos o vírus
E o vírus antivírus?

Como a vida era bela!


Em qual era?
Antes dos seres humanos habitarem a Terra?
“Peste, A”

Torugo - POESIA - DE 19 A 39 ANOS

A ira de Deus

Ou a vingança de Satã?

Santificado seja vossa doença

Vinda do amaldiçoado vírus

Nume dos desertos

Ressurge de tempos em tempos

Para relembrar a humanidade

Que em tempos certos

Ela vem pra relembrar-lhes a fragilidade

A ira de Deus!

A vingança de Satã?

A morte à Ciência

Santificado seja vossa doença,

Amaldiçoado vírus

Nessa época em que cada um divide com suas histórias

Vem o herdeiro da fragilidade

Contar-nos a Verdade

A Peste
Pandemia e Educação: um desafio a vencer

E começa 2020, um novo ano que se inicia e a população faz muitos planos na maior
empolgação.
Docentes da Educação Básica ansiosos começam a pensar nos novos alunos, nos planos
e as habilidades a ensinar nesse novo ano letivo a iniciar.
Discentes animados para novas amizades e aprendizagens. Ficam a imaginar como será
a escola onde vão estudar.
Começa o ano letivo de 2020, todos na maior animação para as etapas da Educação. De
repente muita preocupação: parece que faltou o chão.
Ainda no primeiro bimestre letivo um vírus pelo mundo veio se alastrar, trazendo
incertezas pelo inesperado e desconhecido. Um momento atípico é preciso se adaptar.
Os professores que tinham dias letivos e habilidades da BNCC a cumprir, então
começam a se preocupar. A pandemia do coronavírus chegou para atrapalhar.
Para não afetar os dias letivos e a aprendizagem dos alunos o jeito foi flexibilizar e o
recesso antecipar. Enquanto isso o vírus continuou a se alastrar com vítimas a aumentar.
De repente uma confusão, professores e alunos na escola não podem permanecer. Tem
que repensar, devido a ameaça do coronavírus é necessário não aglomerar para o vírus
não se disseminar.
Pensando na vida como prioridade chega o decreto Estadual para aulas em forma de
EAD. Muitos professores se questionam como fazer?
Internet, celular, computador nem todos os alunos têm em mãos. Como fazer? Onde
clicar? Como vou lecionar?
Transmitir via teleconferência, rádio ou televisão? Qual seria a solução? Virtualizar?
Que comece um novo jeito de ensinar.
Diante do isolamento social os professores passam a se adaptar, focados dia e noite a
planejar. Com a tecnologia começam a se aliar.
Alunos, professores e as habilidades da BNCC não irão mudar. Da sala de aula é preciso
se desapegar, um novo espaço geográfico e ambientes virtuais é importante usar.
Sala de aula no google classroom, grupos no wattsap, vídeo aulas no celular. Para os não
tecnológicos vai uma apostila complementar e a família pode ajudar.
A família que ao professor nunca deu mole, sente dificuldade para ajudar sua prole.
Começa então a questionar: como vou fazer? Não tenho a didática para explicar, não
sou formado para ensinar.
Todos fazem parte da sociedade escolar. Aos poucos sem muito esperar a família entra
no processo e começa o trabalho docente a valorizar. As dúvidas ao professor são
enviadas por vídeos ou mensagem para a questão solucionar.
Ainda tem a opção para aqueles que não conseguem acompanhar, o reforço ao para
escola retornar.
O importante é alcançar a aprendizagem significativa nesse novo jeito de estudar. Essa
pandemia trouxe para a educação um desafio no ensinar. O que era presencial passou a
ser virtual.
Com o isolamento social professores e alunos passam por transformação. Diante de
novas possibilidades o ensino se adequando para novas experiências, descobertas e
informação.
Entre os sintomas do coronavírus estão febre, a coriza e a dificuldade para respirar. Pelo
ar está a se disseminar. Usar máscaras, lavar as mãos com água e sabão são medidas que
auxiliam na proteção.
Com o coronavírus (COVID-19): uma visita sem esperar, geograficamente distante do
professor o aluno passou a estudar. O professor, o aluno, a família e a tecnologia estão
juntos nesse novo caminhar.
De forma integrada todos buscaram solução para durante o período da pandemia atingir
medidas assertivas na Educação. Estudando em casa, essa é a recomendação para conter
a disseminação.
A pandemia veio nos mostrar que podemos estudar independente do lugar. Portanto,
com o ensino remoto também é necessário ter disciplina, atenção e dedicação.
Afugentar a tensão e continuar com o vínculo escolar ampliando o aprendizado
intelectual num envolvimento social nesse mundo virtual.
Não deixe abalar seu emocional, distantes pelo isolamento social vamos de
comunicação, Educação, e interação virtual.
De repente o que todos viam como confusão passa a ser um meio de informação e
interação. Pais e professores em parceria. Resiliência e empatia são palavras do dia.
Não se trata de dizer se a experiência é boa ou ruim. A ideia é repensar, inovar,
flexibilizar e acreditar. Devemos nos unir e a essa pandemia dar um fim.
Diante dessa situação nos fica uma lição com medidas preventivas e educativas
podemos reverter a situação. Que estudiosos pesquisadores criem uma vacina como
prevenção para proteger a população.
Com esse momento doído jamais o trabalho docente passará despercebido. Esperando
tudo normalizar e que todos venham a Educação valorizar.
Diante das dificuldades o ser humano é capaz de reaprender. Mudamos o jeito de
socializar para não deixar de estudar.
Cada um fazendo sua parte sairemos dessa mais fortes. Em tempos difíceis é relevante
coletivamente criar forças e perceber que esse desafio podemos vencer.
Que educação teremos pós pandemia? Não cabe a esse momento julgar é só uma
pergunta que não quer se calar:
VENTO FRIO

Vento frio
Sopra no deserto
Tenho medo
Do destino incerto

O inimigo ronda
Trazendo dor
Destruindo vidas
Causando o terror

Vírus mortal
Inimigo de guerra
Aterroriza o mundo
Assombra a Terra

Preso no meu lar


Tomado de aflição
Tempos impossíveis
De pura indecisão

A morte reina
Impera o mal
Pessoas perecem
No frio caos

Heróis batalham
Na batalha da vida
Enfrentam a guerra
A estrada sofrida.

Tomada por medo


Vejo uma criança
Nos olhos de um menino
Descubro a esperança.
Tempo Incerto

De repente
O mundo parou
Um inimigo invisível
Trouxe o tremor

Impérios da morte
Reinos do horror
Reina o imprevisível
O presente terror

De repente
Um constante temor
De sua estupidez
O homem acordou

Novos caminhos
A humanidade encontrou
Na luta pela vida
A Terra parou

De repente
Ter tudo perdeu o valor
Um sentimento renasceu
O sentimento do amor
Heróis lutam e tombam
Neste tempo de pavor
Enfrentam o vírus
O caos e a dor.

Neste tempo de incertezas


O Sol brilhou
Pois de repente
A esperança despertou.
A GUERRA

Lágrimas derramadas
Na sofrida era
Um vírus mortal
Verdadeira guerra

Dominando o mundo
Causando dor
Impondo a morte
Trazendo o horror

Fronteiras são quebradas


Barreiras destruídas
O vírus feroz
Destrói vidas

Todos temem
O grande perigo
O grande mal
Maior perigo

Heróis lutam
Tombam na jornada
Enfrentando o terror
Cruzam a ultima estrada

Buscando salvam
Perecem e caem
Nas trincheiras da morte
Nos sofridos hospitais

Milhões padecem
Tombam na Terra
Morrem indefesas
Vitimas da Guerra.
PAN

Então só eu num quarto, só eu atendido e eu bem rápido.


É... Só eu e um fardo, sem toques, sem abraços, empacotado.
Só.
Isolado.
Só eu e este fato demorado...
Agonia, tristeza, dor, calor, CALOR, HAUSTOS, HAUSTOS...
Um corpo em pausa.
Chumbado.

Só eu e a vida, suas sutilezas, a sua quintenssência.


Um soco encostado no queixo,
Escorado no braço,
Que apoiado na perna me flagra na
Dissolução dos conceitos.

Só eu e este o mundo,
Um tudo de pessoas que me leem na palavra espelho,
Que vibram feito eu para que a vida vença o caos,
O corpo vença a matéria e a verdade o invisível.

Silencio.

Agora mais calmo.


Uma gota de respaldo.
Os olhos se abrem...
É dia.
É alto.

Entoam pássaros no varal elétrico.


Uma fresta do sol invade a janela.
Borboleta em minha face.

“Achou sua flor, pequenina?”

De minha gota compartilha.


Tão visível, tão linda!
De repente eu, que era só,
Simples aventureiro de idas e vindas,
Descobri, lá no fundo da experiência,
Lá no âmago da sapiência,
Bem no plexo das emoções
O motivo de uma vida brevemente isolada.
Não lave suas mãos

Cara ou coroa? Melhor não apostar,


O inimigo invisível quer te pegar.
De carona com o corona, o fim.
Não brinque, a coisa é seria sim
E isso é algo que podemos evitar
Basta alguns cuidados tomar:
Seja novo, seja velho, atenção!
Lave sempre, a toda hora sua mão,
Evite abraços e beijos desnecessários,
São cuidados preventivos temporários.
Evite circular no meio da multidão,
O isolamento é arma de prevenção.
Se cada um fizer, de fato, a sua parte
Logo, logo, o inimigo pra longe parte
E tudo retorna ao normal novamente.
Portanto, agora seja muito prudente,
O vírus ainda está livre no ar,
Não é brincadeira, não dá pra vacilar,
A vida vale mais do que o freguês.
Não faça como Pôncio Pilatos fez,
Digo isso no sentido figurado,
Pois, apesar do trocadilho,
E sem perder o estribilho
Lavar as mãos é o mais recomendado.
QUARENTENA EM TRÊS ATOS

1º ATO
A Pergunta
Qual o preço de uma vida?
está posto
de qual vida se fala
da minha, da sua
da minha mãe, da sua mãe
do seu pai, já o meu não está mais
dos meus irmãos, dos seus irmãos
de minha família, de sua família
de meus amigos, de seus amigos.
Os meus não tem preço que pague
e os seus ?
Não quero a morte, valorizo a vida
aqui estamos, presenteados fomos
então que seja honrada, cuidada.
Ouço vozes e não vejo o emissor
salve a economia
mesmo que se morra sabe lá quem
as vozes continuam a zumbir em meus ouvidos
querido é a lei da sobrevivência
querem me seduzir com suave e doce som a emitir
relutante digo, quero vida
Vida em Plenitude.
Irá quebrar a economia, insiste o coro das vozes
pergunto eu, de qual economia
da que leva o trabalhador às inúmeras doenças
desta que um grupo se apossa
do bem produzido pelo coletivo ?
E no silêncio mordaz, fico a matutar
a peste sorrateira global
pode nos ajudar a refletir, repensar em ações
mudar o foco do modelo econômico atual
é paradigma não natural
não apareceu do nada, sua existência surgiu da dialética
de um momento histórico-social
devido a poucos, o banquete não é democrático total,
fica privado por ser parcial
deixa o público com fome, sem teto, sem quintal
corroendo os corações, petrificando as relações.
Nela eu, você, nós, somos nada
somos números estatísticos, um gráfico ilustrativo.
Digo às vozes, sonho por mudanças melhores
e o que me dizem, soa piegas
somente se fala e o concreto não se faz, desfaz
palavras que o vento sobra, somem-se sem sinal.
Na ausência do conhecimento científico, tornamo-nos máquinas de um sistema
quarentena nos propicia, planejar o diferente
vejo esperança quebrando pressupostos, na perspectiva do leme mudar a rota
na direção contrária da sociedade contemporânea desigual
criando um novo modelo, capaz de florir o campo
de semear a bonança, de regar a terra seca arrasada
de colher os frutos da suavidade, convidando ao piquenique
incluindo àqueles que muito fazem por nós
àqueles que olham o futuro vizinho, que fantasiam
criando da lama, alegorias e fantasias.
Assim o desfile da folia alegre aproxima
no ritmo do samba, a cantar o enredo
O Amor está a Raiar.

2º ATO
Em Nome do Dinheiro, do Lucro e do Capital
Sinal da cruz
fizeram os mandantes da desigualdade
abençoaram os empossados office-boys
orgulharam do posto almejado
achando democrático eleitoral.
Viam-se no comando
celebram à posse junto aos negociantes
proprietários vestidos de arrogância
lembrando a imagem da cena,
o personagem de Charles Chaplin que dança com o globo na mão
no jogo de um comando
calculam os donos do mundo ou fabricantes do mal?
Ditam as ordens a seus escolhidos
mal sabem que são subservientes, obedecem à cartilha entregue
regulamentando as injustiças aos que produzem o bolo nupcial.
No banquete da elite, ela se lambuzava das camadas de recheios
misturados ao sabor do suor e sangue do cansaço das horas
que longe do lazer faziam os trabalhadores adoecerem.
Do bolo feito, repartido de maneira desigual
da pequena fatia que sobrava
distribuía à maioria no curral e dela as migalhas caídas
a briga acontecia e muitos filhos da pátria pereciam
nem o gosto sentiam daquele bolo descomunal.
Assim permitiu que se fizesse, aglomerasse na festa cultural
divertiam do labor das mãos calejadas
pularam com fantasias confeccionadas pelo imaginário coletivo.
A festa acabou, a bateria silenciou e os office-boys não cuidaram
permitiram a folia de muitos dias, estão a servir a minoria
a tirar o bolo daqueles que o fizeram
restará saber quem contará a história depois da praga passar
que sejam os contadores da alegria, aqueles que visitam doentes
que fazem eles dançarem e sorrirem, vendo no horizonte o apagão
mesmo assim enxergam a esperança que não morreu, mantém o brilho da luz interior.

3º ATO
O (Im)possível Vencerá ?
Amanhã será outro dia, o despertar da consciência
já durante a noite restabelece do não cansaço
o cansaço não realizado, deveras feito o que não pôde.
Os dias passam e do nada a arte enobrece a existência
transforma lágrimas em rios de rosas, pétalas que perfumam
das amarelas que energizam às brancas que pacificam.
No confinamento a prova, a de reviver o não vivido
embutido, incrustrado, fechado feito ostra
não larga da visão de um mundo corrompido
esnoba os menos favorecidos, cai por terra e não levanta
oportunizou, ganhou créditos, descartou.
De certo modo, o feio se embelezou, deu sentido à vida
soube desabrochar de seu ego, egoísmo altaneiro
desceu os degraus do orgulho, aterrissou no chão da imensidão
é chamado a transitar entre diferentes aldeias
um convite ao aprendizado, da cidadania participativa.
Enquanto não chega a hora, mantenha calma
a paz que vem dos confins do mundo inconsciente para dentro do seu eu
do livro amigo que viaja pelas cenas delineadas pelo escritor
da oração que também é alento, o alimento
da conversa clara dos sonhos, que se realizou
pede e agradece por toda a humanidade
unidos pelo sangue, espírito, vivem na morada planetária.
De onde se veio, para onde se vai, encerra a peça encenada
a cortina se fecha ao som dos belos sonoros aplausos acústicos
e os mensageiros aguardam, levam a vida para onde o Belo brotou
o Amor reina e o cotidiano se harmoniza no canto sinfônico dos pássaros com os tons de
azuis.
RESSIGNIFICAÇÃO

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
a escola fechou,
em EaD o professor lecionou,
o aluno estudou,
o pai se descabelou.

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
o governo decretou,
o shopping fechou,
o comércio esvaziou,
o drive thru bombou.

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
o futebol parou,
a novela reprisou,
a tv por assinatura liberou,
a série dominou.

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
o isolamento social se instalou,
a distância aumentou,
a boa lembrança visitou,
a saudade apertou.

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
a rotina de trabalho modificou,
álcool gel passou,
máscara utilizou,
home office consolidou.

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
a live viralizou,
o artista se apresentou,
o internauta se emocionou,
a vovó na net bugou.

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
o hospital lotou,
a U.T.I congestionou,
o sistema de saúde colapsou,
o médico chorou.
Então a pandemia chegou,
o mundo mudou:
a mídia noticiou,
o desconhecido levou,
o ente querido arrancou,
o cemitério abarrotou.

Então a pandemia chegou,


o mundo mudou:
a oração transbordou,
a solidariedade aumentou,
a família ressignificou,
as inter-relações valorizou.

Então a pandemia passou.


O mundo novamente mudou.
E você?
Ah! você se transformou.
Negação

no início eles negaram a ditadura


mas tudo bem, só tínhamos ouvido falar disso
nos livros de história mesmo, história de papel,
sem sangue ou cheiro de cadáveres,
um passado que o preto e branco das fotos
tornava mais vago e distante.

depois eles negaram o fascismo, mas tudo bem,


esse assunto parecia mais ser matéria de filme épico
em que o mocinho sempre vencia no final

depois negaram a ciência, mas tudo bem


afinal não éramos cientistas
e pouco importava se a terra era redonda ou plana
havia coisas mais urgentes a cuidar em nossas vidas

por fim, um dia


eles negaram o que não se podia
disseram que nossos amigos mortos eram, na verdade, hospitais vazios
que nossos pais sem respirador eram um alarme falso
que nossas mães morrendo em portas de hospitais
eram montagem da mídia.
que a falência de milhares de pulmões não passava de uma gripe.

A partir desse dia,


(coisas que morte ensina)
não negar os que negaram essas mortes
é negar os que eram parte de nossas vidas
os últimos números apresentados pela secretaria de saúde

dentre os últimos números apresentados pela secretaria de saúde


havia um que cuidava do pai, e outro que cuidava da mãe

dentre os últimos números apresentados pela secretaria de saúde


havia um que todo ano organizava o bloquinho da rua no carnaval

dentre os últimos números apresentados pela secretaria de saúde


havia um que estava quase conseguindo juntar todo o dinheiro pra comprar aquele
terreno pra família sair do aluguel

dentre os últimos números apresentados pela secretaria de saúde


havia um que tinha medo de deixar os filhos sozinhos no mundo mas que não podia
dizer não àqueles doentes que chegavam aos montes no seu plantão

os últimos números apresentados pela secretaria de saúde são somas de perdas


que não cabem em cálculos ou números
veio um vírus

veio um vírus e virou-nos a vida ao avesso.

veio um vírus e foi parando o tempo, mostrando que ele não era só dinheiro
então viu-se que a vida ávida da economia
não é mais importante que a economia da vida.

veio um vírus e confundiu os ritmos dos dias.

veio um vírus, e, nos isolando, mostrou o valor do encontro

aí veio isso de confinamento, palavra antes só ouvida na tv


confinamento lembra fim, clausura
mas casa é outra coisa; casa é casulo

veio um vírus e foi deixando a gente longe dos outros mas mais pertos de nós mesmos

veio um vírus e foi mostrando pra gente que há templos no tempo e auras nas horas

na tua casa tu cozes e acabas por coser-te


nos livros tu te livras
nos quadros, te vês em outra face

veio um vírus e te ensinou que antes do vôo


é preciso aprender a paciente ciência da lagarta:
amar esse teu casulo, a tua casa
pois ela é o que te faz asa
Vida ou Economia?

O mundo não é mais o mesmo


Mas quando ele foi igual?
Na verdade, fazemos as mesmas perguntas
Enquanto esperamos o nosso final

Mas devo admitir


O século atual começou diferente
O que teve início em dois mil e um
Começou, na verdade, em dois mil e vinte
Nunca enfrentei uma guerra

E não sei que arma usar


Será que desisto da luta?
Ou luto até tudo isso acabar?

Refletindo sobre a minha primeira guerra


Seria ela a pior?
Isso é uma pergunta tola
Ou só mais uma forma para eu não me sentir só?

Mas qual o problema de ficar sozinho?


Todos e nenhum
Vou a todos os lugares
Mesmo não estando em lugar algum

“Ser ou não ser” ainda é a questão?


“Claro que sim”
Respondo a mim mesmo
Pois o que seria de nós sem essa indagação?

Às vezes me pego pensando


“Mas qual é o meu real inimigo?”
Seria o vírus?
Ou aprender a viver comigo?

Será que isso tudo durará para sempre?


Será tudo isso um pesadelo?
Perguntas passageiras?
Ou será apenas mais um novo medo?

Voltemos à realidade
Acordo não querendo levantar
Mas lembro “que sorte a minha poder acordar”

Olho pela janela e não vejo nada


Um nada que antes me tranquilizava
Hoje me abala
Depois de levantar
Procuro respostas ligando a televisão
Vida ou economia?
Eis a nova ilusão

Seremos número ou morte?


Quer saber a verdade?
Seremos os dois
Independente da nossa sorte

Ciência ou ideologia?
Política ou religião?
Pelo que assisti
Ninguém, até agora, sabe para onde ir

Não entendo por que brigar


Qual o motivo da briga?
Ninguém sabe aonde vamos chegar

Pensando melhor
Sabemos aonde vamos chegar
Não sabemos como
Então o que faremos até lá?

Mas para a minha primeira guerra


Já tenho uma solução
Que soberba a minha
Diante de tanta confusão

Mas não me importo


Irei falar assim mesmo
Ciência vai cuidar da ciência
Política da política
E religião da religião

Mas alguns ainda podem questionar


“E a ideologia?”
Vai cuidar dela mesma
Pois, para que mais ela serviria?

Proponho, assim, a separação das invenções


Cada um vai debater com cada uma
Deixando de lado as superstições

Com isso quero criar pontes


Com isso quero criar laços
Que não devem unir iguais
Mas juntar diferentes em muitos embaraços

Pois tudo o que vivemos são consequências


Mas consequência de quê?
Consequências de muros que construímos sem querer
Consequências de muros que construímos mesmo sem perceber
TEMPO DE PARAR

É tempo de confinamento,
É tempo de solidão, reflexão...
De autoisolamento!

É tempo de parar,
De parar a velocidade
Da vida... do nosso tempo!

Não mais os abraços quentes,


Apertos de mãos, os carinhos,
Nem beijos ardentes!

Pois é tempo... há tempo ainda


De parar a vida... o nosso tempo
E frear a morte iminente!!
LÁGRIMAS CALADAS

Pulsam no mundo inteiro


Gritos de pânico, emudecidos...
Olhos tristes em amarguras e sentimentos
Confusos, gritos trazidos pelo vento!

Saudades... idas e vindas impedidas,


Lágrimas caladas na face,
Suspiros interrompidos... soluços
E olhares rasos e vazios!

Nada parece contê-lo...


É como um rio que se avoluma,
Corredeiras abaixo vão arrastando
As margens e os caminhos!

Fúria, trovões e tempestades


Arrasando corações premidos,
Desolação... confinando todos em solidão,
Todos fugindo da sorrateira morte!
NOVOS VENTOS

Não há grades? O que é então


Essa força invisível e estranha
Que sufoca, detém as mãos,
O toque e os abraços de amizade?

O que há com o mundo, então?


Todo esse isolamento, angústias
E fome se alastrando...
Por todos os lares e cidades!

São grades invisíveis e concretas,


Tempos de águas turvas e ventos
Ameaçadores que vem do leste...
Inquietudes de futuro incerto!

Aguardemos por certo


Novo tempo sem ânsias deprimentes,
Novos e límpidos ventos,
A beleza de novas rimas e versos!!
Espero

Essas mesmas paredes


Antes dos quarenta dias
Não eram assim tão brancas – penso que não tinham cor
Também não se moviam tanto
A me comprimir nesse quadrado

Como num antigo filme argentino – ou talvez não tão antigo, mas já de uma outra época
Me ponho a martelar, abrir buracos, criar janelas
Botar mais do céu nessa morada
Aconchegante e opressora
De medo e de tédio

Ouvir melhor o som


Do violino do vizinho
Ver melhor a moça
Que se alonga na varanda
Espalhar melhor o cheiro
Do café de coador
Numa tola esperança
De chegar um convidado

As compras, logo chegarão do mercado


Macarrão, legumes e um pacote de biscoitos
E ainda preso a meus grilhões
Eu me recordo em riso solto:
As mercadorias precisam de seus guardiões
– o velho livro esquecido

E imagino o rosto fresco,


Do menino da entrega
A moça púrpura verdejante,
Numa linda bicicleta
É verde, cor de esperança
Quiçá, vermelha

Espero.
Gestar em quarentena

Já se passaram mais de quarenta dias que soubemos,


Que eu e sua mamãe o formamos.
Você está na barriga da mamãe
E mesmo sem tê-lo nos braços, já te amamos.

O mundo que vivemos hoje


Está passando por uma pandemia.
Por isso estamos de quarentena,
Mas não paramos de pensar em você um só dia.

Mas tudo vai passar amorzinho,


Eu e a mamãe estamos exercitando a alegria.
Até estamos estudando como cuidar de você,
Pedindo sempre a Deus toda sabedoria.

Estamos nos preparando para ter você nos braços,


E já estamos em alerta.
Em outubro poderemos te ter no colo,
Então seremos uma família completa.

Apesar de toda a dificuldade que enfrentamos,


Nós já estamos apaixonados.
Tudo vai passar, estamos de quarentena,
Mas nosso amor nunca estará aprisionado.
O Ponto
Naquele dia de confinamento domiciliar,
Ousei ir até o jardim do quintal,
Nada furtara o verde da grama macia,
Nem a cor e o perfume das rosas,
Nem alterara a semente que nascia,
Nem a beleza das árvores frondosas.

Os pássaros não mudara seu canto,


Nem o zumbido das abelhas na florada,
Os frutos, ainda doces e coloridos,
As formigas em sua lida rotineira,
Os lírios brilhavam como se polidos,
Era a mesma, a imponência da palmeira.

Não havia desespero, incertezas, aflições,


Nada mudara a rotina da natureza,
Apenas nós que imaginávamos ter poder,
Éramos tão niveladamente prisioneiros, pequenos,
Encolhidos, cheios de regras para poder viver,
Cheios de cuidados, sem os quais, morremos.

Voltei para dentro, com uma certeza,


A clausura tão necessária para uma reflexão,
Chamava-nos para o ponto zero da linha,
A natureza lá fora, orava por uma mudança,
Ela sabia que podia continuar sozinha
Mas aguardava achar no homem, esperança.
Dona do jogo
Os amigos, os inimigos,
Simplesmente abaixaram suas armas,
Atônitos, passivos, atados, testemunharam,
A audácia de um inimigo invisível lhes atacar,
Tomar suas praças, seus mercados, seu lugar,
Invadir os ideais, por que tanto lutaram.

Chegou sem disparar um tiro se quer,


Eliminando os resistentes do caminho,
Causando inveja nas bélicas tecnologias,
Projetos, sonhos, estratégias de conquista,
Preferiram fugir para longe de sua vista,
Enclausurou a todos onde havia moradias.

Livre e desenfreada,
Temível, letal e assombração,
Entrou e rompeu continentes,
Levou o homem ao pavor e a loucuras,
Desafiou os sábios a procurarem curas,
Decretou-se o mal que alimenta de seus doentes.

Desafiou os poderosos de dinheiro,


Causou pânico nos mercados de capitais,
Às engrenagens do mundo, alterou,
Sua foice suja, democrática e afiada,
É de igual modo, a todos apontada,
Dá as cartas num jogo, que ela própria marcou.
Nossa calamidade
Carros magros de passageiros,
Ruas magras de andantes,
Pessoas magras de esperança,
Praças magras de mudanças,
Mundo cheio de errantes.

Casas cheias de parados,


Parados magros de fé,
Hospitais cheios de desespero,
O homem magro de dinheiro,
A morte gorda, de pé.

Cemitérios cheios de caixões,


A vida vazia de curativos,
A medicina cheia de esforços vãos,
O mal cheio nas mãos,
O relógio, momentos decisivos.

A ambição cheia de incerteza,


A ciência vazia de entendimentos,
A reflexão clamando pelo Criador,
Deus cheio de amor,
Por uma raça vazia de sentimentos.
Contraditório
Sabia anciã, mãe terra,
Nas reuniões dos homens de “poder”,
Vi suas vísceras expostas, serem discutidas,
“Os maiorais” se fecharem para não ver,
Colocando o progresso acima das vidas.
Ti vi implorar por um freio na corrida,
Ti vi perder para a ambição desgovernada,
Ti vi alertar para um fim eminente,
Ti vi ser ignorada,
Ti vi ainda mais sangrada pelo inconsciente.
Até que como um ladrão chega um invisível,
Toma a liberdade humana, dobra seus joelhos duros,
Freia sua corrida, sangra seus tesouros acumulados,
Impede-os de planejar seus futuros,
Obriga-os a uma reflexão, de como estiveram errados.
Quanta ironia, a natureza, em fim respira,
Por uma inação humana, uma pandemia,
A natureza respira, o homem agoniza,
Por um acaso, o destino, um alívio a ela envia,
Enquanto o homem se dobra aquilo que não conhecia
Quanta ironia, pelo invisível, a mãe sendo salva,
Agora, os filhos que podiam, perecem,
Seus joelhos amolecem reaprendendo a implorar,
A mãe natureza olha e se oferece aos que adoecem,
Mas lá no fundo deve ser grata, ao invisível do ar.
Flores no Jardim

Silêncio! As flores estão morrendo

E não vai sobrar mais nada no Jardim

Silencio! Apenas isso eu entendo

Sobrou só isso para mim.

A terra agora está seca, apenas

Meu jardim não receberá as borboletas

O que dirá, o zumbido das abelhas

Quietas sabem o que aconteceu

Quem regava as flores, agora morreu

Mas quem agora vai cuidar do meu jardim?

Silêncio! As flores morreram para mim

Mas você nunca gostou mesmo delas

Nem quando vivas e nem quando belas

Silencio! As flores estão já mortas

E as abelhas correm tortas

Batendo em todas as portas

E morrendo, é claro, com agrotóxico

E nós com elas, pegando carona

Morrendo aos montes

Com o vírus Corona...


Em casa 24

quando a indesejada das gentes


chegasse
teríamos a mesa posta e todas as coisas em seu lugar
mas gentes indesejadas chegaram antes e romperam o lirismo das coisas cavaram covas
repugnantes cuspiram brados ignorantes e trataram a vida como um baú de ossos como
destroços contaminados sem tempo para campos lavrados e casas limpas
e a consoada foi outra não o jejum delicado a esperar pela última ceia mas a fome do
vírus correndo na veia com parte da plateia ignorando a cruz aplaudindo a morte com
mãos de pus
Em casa 24

quando a indesejada das gentes


chegasse
teríamos a mesa posta
e todas as coisas
em seu lugar

mas gentes indesejadas


chegaram antes
e romperam
o lirismo das coisas
cavaram covas
repugnantes
cuspiram brados
ignorantes
e trataram a vida
como um baú de ossos
como destroços contaminados
sem tempo
para campos lavrados
e casas limpas

e a consoada foi outra


não o jejum delicado
a esperar pela última ceia
mas a fome do vírus
correndo na veia
com parte da plateia
ignorando a cruz
aplaudindo a morte
com mãos de pus
Em casa 29

deito na folha
palavra por palavra
a geometria inútil
deste sentimento
disfarces de metáforas
símiles alegorias
nada basta ou esconde
a morte das cores
na tela destes dias

abraço
simbolicamente
a respiração de cada verso
e sinto o ar escasso
do meu poema
quase morrendo
porque a poesia sabe
da pneumonia dos ponteiros
Em casa 32

um baile de máscaras
sem carnaval
desfila dor
nos supermercados
nas quitandas
nas varandas
nos hospitais
muitas faces
sem espelhos
vendo o enredo
de suas vidas
atravessando
sem fantasia
a avenida
do medo
tem fugido o ouvido
e os olhos
dessa sequência de sons
que aos jornais e mundo move

tem respirado fundo


nariz traqueia pulmão
ao noticiar das estatísticas
pois mesmo ruim em matemática
entende de vidas

tantos os números
que não acreditam os olhos serem pessoas com nome
fosse alguém divulgá-los em memorial
não caberia num post
mas em letras pequenas do diário oficial
não lírico, subjetivo, eu
mas escrito a várias mãos
duzentos mil seiscentos e noventa e seis
duzentos mil seiscentos e noventa e sete
duzentos mil seiscentos e noventa e oito
duzentos mil seis...

tem rejeitado o tato


a todo tipo de toque
e é um tique mesmo, um TOC
ter tudo tão furtado
de sentir na derme
a morte, o aroma

tem respeitado com saudade


o corpo
do corpo, do afago, do contato
não virtual, distante, videoconferenciado
mas virtuoso e com vida
passível de zoom a olho nu
na nudez que só a pele convida

tem enraivecido também


a fala
de quem dirige fazendo
parecer favorável um propenso precipício
o falo
de quem dirige se fazendo
inefável e infindo o mostrar do prepúcio

não goza de liberdade


quem voa em queda livre

mas tem fincado raízes


o pé
que já estava no chão

isolado, agora planta,


sabe do seu papel vegetal
para manutenção do reino animal

contemplando mais o sol e o céu


conhece melhor o seu corpo
e por que do vizinho parece
tão mais verde a família:
clorofila.
13 de abril

décimo terceiro abril


águas escorrem
por estes segundos

a ferida
abre flor
necrosada do poder

vírus verme parasita


festejam
organismo fétido
da sociedade cordial

coronial
14 de abril

último teste para covid-19


confirma:
bailarino sergipano
testa falso positivo

tarde:
artista morre
apedrejado
com uma maçã
enfiada na boca
bondade no cu
15 de abril

abril
des
pe
da
ça
do

o terminal da atalaia
en - tu - pi - do
absorve o suor
(ativo do paciente zero)
formando estalactites
no céu de amianto:
igreja da necropolítica

o mercado é o altar:
carne
dinheiro
óbito
tudo ao gosto-gourmet da mosca
RUA

saio de casa meio fóbica


tudo é um talvez não devesse
mesmo que desde a última vez já tenham se passado quinze dias
e os antúrios estejam em promoção
dizem que os antúrios purificam o ar
quem sabe possam renovar a atmosfera da casa
esse lugar que se transforma num ecossistema
fora do qual eu começo a estar desacostumada a estar
haverá a fase em que serei como os velhos?
aqueles que vão à farmácia e se apressam em voltar
aqueles que nas festas de família olham para os filhos e perguntam
já podemos ir?
sendo que esse ir quer dizer voltar para casa
como se a casa fosse uma máquina que não dispensa
a nossa engrenagem
uma máquina viva
uma ditadora em nome da qual renunciamos qualquer prazer
servi-la com os olhos na televisão, a vassoura em punho, responder no peito aos badalos
do relógio, se houver relógio e sinais
restar assim
com esse senso do pássaro sem penas
com esse corpo mole de asas imaturas
com esse corpo que só responde à fome e é gelatina
saio de casa meio fóbica como
testasse o voo numa árvore de avenida
e vejo a praça vazia de pombas
penso nos filhotes delas,
eles que nunca vimos
como se já nascessem prontos
mas ninguém nasce pronto
saio de casa meio fóbica
porque a cada vez é como se eu nascesse também
de novo
faminta, sem palavras, o ar queimando os meus pulmões...
carrego os antúrios fossem um escudo verde; é frágil tê-los como única certeza
o semáforo obriga-me a parar na esquina,
urge voltar logo
a abstinência já dói
Chora o luto, Ó cidade!

Manaus hoje dorme


ao lado das trincheiras que dormem seus filhos.
É irascível contentar-se com tal lamento.
Não esqueceremos, por essas terras, de clamar:
´´Quem não luta não vence, que a luta
Pelo bem é que faz triunfar``.
O rio corre salgado,
alimentado pelas lágrimas de um povo,
sereno nas ruas e irrequietos mentalmente.
Chora um Centro abandonado,
isolado por tal infortúnio novo.
Caído sobre mata nua,
suspiro de uma Paris inexistente.
A cidade morre hoje
e suas luzes foram apagadas,
mas não eternamente.
As lamparinas voltarão a se acender.
Sentido
O nariz sente sem sentir,
a boca degusta sem diferenciar
amargo, doce, cheiroso ou fedido,
nada consigo separar

O mundo não está cinza,


as cores ainda posso ver.
Nem amargo,
nem com cheirinho de terra molhada,
o mundo está colorido e volumoso,
mas de um gosto vazio,
de um cheiro nada

Às vezes me falta o ar,


não sei se de ansiedade ou de enfermidade,
sei que ar me falta.
Mas o que mais falta me faz
é o cheiro do café,
o gosto do feijão,
o mundo olfativo e
gustativo

Mas sinto sem sentir


invento gosto e sabores
aromas e fedores
só para dizer que posso sentir

Ontem comi carne com gosto de peixe,


senti o doce perfume do óleo,
comi os sabores,
cheirei os gostos

Invento

Invento o que falta,


invento o que sobra.
Crio, recrio, imagino,
morro de excesso,
mas,
agora,
talvez,
de
falta.
Superação

Eu pensei que conhecia você.


Mesmo à distância
pensei que sabia quem você era,
pensei que sabia me proteger.
Por isso, continuei me relacionando,
aproximando-me,
envolvendo-me.
Perdi todo o pudor.
Não tinha medo ou vergonha de desafiá-lo.
Então me descuidei e deixei você entrar.
Por mais que falassem de você
e da dor que poderia causar,
não me importava.

Avisaram-me para manter distância,


evitar abraços,
beijos
e qualquer intimidade.
Dissera-me que eu deveria ficar isolada,
mas, não consegui esperar.

Aos poucos, você invadiu o meu corpo.


No início, não senti nada,
foi acontecendo lentamente.
Primeiro, você me obrigou a trabalhar para você.
Fiz isso de forma tão obediente,
que o trabalho não poderia ter sido melhor.
O tempo foi passando
e você queria cada vez mais.
Meu corpo começou a enfraquecer.
E já não respondia mais.

Você alterou tudo dentro de mim.


Espalhado por todo o meu corpo,
confundindo-se comigo,
parecíamos apenas um.
Tentei reagir,
mas você mostrou a sua força.
Todos pensaram que era o meu fim,
e que nada mais poderia ser feito.
Eu não reagia.
Só obedecia.

Você me matava pouco a pouco, dia após dia.


Quando eu parecia ter sucumbido, você se foi.
Os dias de tristeza e dor,
finalmente, chegaram ao fim.
Lutei.
Renasci.

No fim, senti culpa.


Pensei que coisas ruins não aconteceriam,
por mais próximo que você estava.
Foi só um descuido
e já era tarde demais.
O estrago foi grande,
mas superei.
Sobrevivi.

Você não é o que pensei,


é muito pior e devastador.
Ainda sinto no corpo os males que me causou.
Não se enganem,
o corona só deixa rastros de dor.
O novo depois

“Depois que tudo acabar...”


Esquece: não vamos voltar ao que era...
Um mundo renovado e talvez um pouco triste vai se descortinar
A mãe lembrará da família completa que tivera

Após as guerras do Século XXI


Nada mais ficou igual
Na casa onde antes trabalhava apenas um
As mulheres assumiram seus postos
Em fábricas, lojas, no jornal

Quando pudermos dizer “Corona, te venci”


O mundo já terá mudado
Mais valor terão a família, os amigos, a liberdade
-quem for mais chegado-
Vamos dizer a nós mesmos: vai, alegra-te, sorri!
Essa é a nova realidade.
Desconhecido

Mudou
Esvaíram-se rotinas, horários, dias de sol
Saideiras de sextas, idas ao futebol
Acabou
O estresse da correria, trânsito de rotina
Noitadas no fim de semana, competição doentia
Iniciou
Medo do novo, ansiedade pelo simples nada
Angústia por tudo, tristeza insensata
Vimos o mundo sofrer, agora parece tudo mais perto
Se ficamos muito longe, parece que não fazemos certo
Indiferença não é possível, isso seria insano
Que tipo de gente é essa que não se importa com seres humanos?
Mudou
Enalteceram a ciência, expurgaram a ignorância
De repente vi nossa pequeneza de ser humano agindo feito criança
Procuramos acreditar que éramos donos do mundo
Descobrimos com tudo isso, que não temos controle de tudo
Acabou
Os donos da verdade, com vontades sem limites
Tiveram tapa na cara quem duvidou do COVID
Iniciou
Muito mais solidariedade, felicidades em saber
O quanto, como gente, a gente tem que aprender
Procure olhar nos olhos de quem te entendeu e deu ajuda
Assim perceberá que estamos todos nessa luta
Quando se vê no espelho, sinta-se parte desse novo
Pois a vida é uma só, não temos o tempo todo
COVID-19 surgiu para nos alertar, inertes em um sonho que parecia não acabar
Nos acordou de um pensamento, quase despercebido
Não somos donos do planeta, ele é desconhecido
Vamos ter mais cuidado com os passos que todos damos, vamos amar mais, tentar ser
mais humanos
I–

Frívolo sol que antecede o corpo


A hora extirpada, enraizada, continua
INTERMITENTE
A virtuosa porcelana, trivial jogo de pratos
Deformidade oca entre o ergástulo do aposento
Perdido andarilho por cômodos anômalos
Diluindo a hora em vigília acamada
Descubro-me da veras realidade adornada
E no frio lesivo da ordinária casa vaga
Reflexos desiludidos e inviáveis posto ao dia
Meu eu é minha ímpar companhia.
Os porquês

Com os olhos fracos


E cabelos brancos
Ele se revolta e volta
Sem saber o porquê
As pessoas cochicham
As pessoas falam
Mas ele se irrita e grita
Não quer saber o porquê
Sem saber que a morte
Não precisa de sorte
Pois ela rodeia e norteia
Todos os porquês
E sem acreditar no mal
Que se espreita no sinal
Pra infectar e levar
Sem ele entender o porquê
Nascera a muitos anos
Nunca vira o medo nos cantos
Sua filha suspira e pira
Sem entender seu porquê
Então ele é trancado
Mais melhor que entubado
E ser eleito no leito
Pra morrer ao terem que escolher quem vai usar o respirador. Sem rima. Sem
eufemismo. Por que isso não se enfeita.
CARÁTER PANDÊMICO

A não reincidência

Esperança traz

À inquietante espera

Do coadjuvante!
Agora

e agora
que a palavra não
comporta?

vida lá fora
voraz devora

vida falta
fúria fenda
rocha água
racha contenda

agora que a boca


falha
a pena cala em
palavra
míngua

vida
sem papas
na língua:

fica em casa,
O Fausto Moderno

Condenado por ter sido inútil,


Meus dias eram só lembrar:
Lembrar-me das preocupações fúteis
Antes de a doença espalhar.

Um dia, vida tão monótona,


A vida de um fracassado;
No outro, vida tão monótona
Do mundo silenciado.

Um vírus virou epidemia,


Esta virou devastação;
Depois se espalhou pelo planeta
E virou aniquilação.

Poucos foram os que sobreviveram.


Estes queriam justiça:
Assim eu, jornalista cultural,
Fui cass(ç)ado por preguiça.

Às vezes gosto de me perguntar


Se, caso voltasse atrás,
Teria mudado minhas ações,
As que meu eu passado faz.

Em mais um dia na minha prisão


Eis que recebo visita:
Diz que a vida não tem que ser assim,
Ser chamado de parasita;

Que há uma chance de consertar tudo,


De voltar atrás no tempo;
Que por fim tenho duas escolhas,
Ou falo “não” ou eu tento.

Só há, porém, um único “porém”:


Tenho apenas uma chance,
E se eu falhar, minha alma é dele
Em só um único lance.

Rapidamente sei quem ele é,


E pergunto o porquê disto.
“É porque gosto de apostar almas”,
É só o que me diz Mefisto.

Sendo essa minha uma chance,


Eu acabo por aceitar:
O presente nada me reserva,
Vou é no passado apostar.

Fecho os olhos, e em seguida os abro.


Não há mais barras de cela,
Há um trem e uma luz no fim do túnel.
E ao meu lado, vejo ela.

Ela, que conheci ao visitar


Um besta programa infantil.
Ela, a quem queria ao meu lado
Quando eu estivesse senil.

Ela, a que tanto me criticou


Por só deixar acontecer.
Ela, a que morreu e me deixou
Sem consegui-la esquecer.

Reconheço este trem, lembro-me bem,


Foi no dia em que começou.
Mefisto não me deu muito tempo:
Não mentiu, porém enganou.

Ela ao meu lado, e à minha frente


Há dois atores famosos
A quem eu deveria entrevistar,
Agindo todos pomposos.

À nossa volta, uma excursão


De crianças barulhentas,
E duas professoras cansadas
Que tentam contê-las, lentas.

E então alguém tosse. Todos olham.


O pânico então começa:
Todos tentam achar o culpado,
Não há nada que os impeça.

O medo de estarem condenados


Transforma todos em monstros.
Batem, pisoteiam, lincham, matam,
Aniquilam uns aos outros.

Dessa vez, porém, sei o que fazer:


Num impulso pego ela,
Chamo as crianças, que me seguem,
E então sebo na canela!

Disparamos até outro vagão,


Mas o perigo nos segue:
O outro vagão sabe bem o que houve,
Tem medo que o vírus pegue.

Logo todos nos cercam pra linchar,


Não existe escapatória;
E no meio de toda a multidão
Ouço um riso de vitória.

“Vai desistir?”, gargalha Mefisto.


“Sabe muito bem que quer, sim.
Será bem mais indolor, te garanto.
Aceite que chegou ao fim!”

Sinto minha alma corrompida,


Sinto a tentação de ceder;
A vitória parece impossível,
Tudo que me resta é perder.

Demoro, porém, para responder,


E nisso um milagre ocorre:
Os dois atores entram no vagão,
E o povo até eles corre.

Não é, porém, para assassiná-los:


Correm atrás de autógrafos,
E muitos sacam seus celulares,
Pelotão de fotógrafos.

Rapidamente esquecem o vírus,


E é minha vez de gargalhar:
“Parece que nesta nossa aposta
No fim sou eu quem vai ganhar!”

“Mas não estou apostando contigo”,


Ele responde, piscando,
“Você é só um peão nesse xadrez,
Não vence mesmo ganhando.”

Logo em seguida desaparece,


E então me vejo sozinho,
Tendo que guiar ela e crianças
Por um estranho caminho.

O trem para bem em frente a um shopping,


E todos no vagão descem.
Do outro vagão, nem mesmo um sai:
Violentos, todos falecem.

O lugar é isolado, tem ninguém:


O medo do vírus letal
Fechou todos os lugares assim,
Até com barras de metal.

O trem para, é preciso limpar


Os corpos do vagão morto.
Teremos que nos virar por aqui,
Um lugar estranho, torto.

Caminhamos por ruas vazias


Neste bairro abandonado.
Não há nada aberto para comer
Ou se sentir descansado.

Rapidamente o dia anoitece,


E deitamos ao relento.
Alguém acende uma fogueirinha,
E, deitado, dormir tento.

Todos estão dormindo, menos eu.


Mefisto então aparece:
“E então, me diga logo de uma vez,
Isto tudo te apetece?”

“Não, mas é bem melhor do que era”,


Respondo após muito pensar.
“Desta vez eu fiz ao menos algo,
Não deixei apenas rolar.”

“Isso é verdade”, ele respondeu,


Exibindo seu sorriso.
“Seria uma pena se eu de novo
Fizesse um teste ao teu siso.”

“O que você quer dizer?”, perguntei.


“Você salvou as pessoas
De serem mortas ou assassinas.
Só que né, notícias boas...”

“Fala direito, demônio!”, disse.


“O que tanto você esconde?!”
“Você sabe o ‘o que’ da doença,
Mas não o ‘quem’ ou o ‘onde’.

Fui eu que criei esta doença,


E sou eu quem a transmite!
Mas já aviso para não me culpar,
Antes que você se agite.

Foi Ele que me deu carta branca,


Ele que gosta de apostar.
E é por causa desse prazer d’Ele
Que eu vou todos eles matar.”

Ele então apontou para todos


Que dormiam ao meu lado.
“Você me deu uma nova chance
Só pra me tirar o dado?!”

“Dei-te a chance de agir, seu tolinho,


E de fato você o fez.
Mas agora sou eu que vou agir,
As mortes são minhas mercês.”

“Então tudo isso foi por nada?!”


“O contrário, Ele ganhou.
De sua alma ser dada para mim
Você desta vez se poupou.

“O que me resta agora então fazer?”


“Aproveite sua solidão.
Quem sabe um dia Ele te lembre
E daí eles voltarão.

Agora me dê sua licença,


Que tenho almas a apostar.”
E dizendo isso, ele sumiu,
E para nunca mais voltar.

No dia seguinte, como dito,


Todos eles faleceram.
Mas desta vez, quando tudo acabou,
Os vivos não me prenderam.

Aprendi a continuar vivendo


Sem peso na consciência:
O que matou ela e as crianças
Estava além da ciência.

Porém todo dia rezo a Ele


Para que os traga de volta;
Este desejo de todos rever
Minha cabeça não solta.

Às vezes penso até em Mefisto,


E o desafio a me apostar.
Ele, porém, não é mal(u) perdedor,
Não vai por revanche implorar.

Se minha alma está salva, não sei,


E por vezes me importo não:
Se o que se faz muda alguma coisa,
Só os mortos é que saberão.
Distanciamento

Eu achava que estava distante


que gostava de solidão e isolamento,
mas me encontrei fraco diante
da realidade deste momento.

Eu antes era distante com espaço,


era distante com liberdade,
e faz muita diferença a capacidade,
de termos acesso a um abraço.

Todo dia é uma nova educação,


em que ensino à infantil mente,
e especialmente ao coração,
que tudo vai além do que se sente.

Vai passar, eu sei que vai passar,


e meu distanciamento posterior,
de solitário por escolha, será superior,
porque apreciarei a chance de parar.
PANDEMIOSOS FRAGMENTOS
Sai de máscara
Abraça uma grande amiga
Esquece o perigo

Lembra-se do descuido
Cai a máscara
E fala: fique em casa

Volta pra casa


Lava as mãos com álcool em gel
Finge tranquilidade

Sente uma febre


Dores no corpo e espirros
Apenas mais uma gripe

O mundo sem medo


Morte é natural
Ninguém fica para semente

Acompanha notícias
Máscaras são partes do cuidado
Testar é preciso

Pesquisa pandemia
No Google e no dicionário
E liga pra amiga

Minha querida
A coisa está muito feia com o vírus
Não arrisque a vida

Escreve um conto
Sobre a crônica época de agora
Vazia de poesia

Quem morre na pandemia


Fica sem velório e sem culto
De corpo presente

Os dias são longos


Monótona é a tediosa quarentena
Sem bailes de terceira idade

Nos pensamentos
Divididos em tantos fragmentos
Só restam os sentimentos
CORONA VÍRUS (ASPECTO SOCIAL)

Em tempo de guerra
Nunca pare de lutar
Já diz a letra de uma musica
Portanto temos que nos regrar
E manter-se em isolamento social
Para esse vírus não se propagar

É difícil se manter isolado


Dar uma sensação de prisão
Mas para combater o Covid-19
Temos que superar essa sensação
E tentar mudar nossa rotina
Para evitar o colapso na saúde da nação

Para melhor entendimento


É tempo de refletir
Como um vírus tão pequeno
E que parecia tão longe pôde nos restringir
Trazendo uma insegurança tão real
Na nossa vida, porém não podemos desistir

Vamos valorizar nossa família


Que conosco sempre vai estar
Quem sabe se não é a oportunidade
De seus filhos aproveitar
Passar um dia inteiro com eles
Porque lições temos que tirar

Agora nesta crise


É que valorizamos o abraçar
Esse afeto saudável a o ser
Há certo tempo estava a faltar
É quando vemos nossa pequenez
E sentimos a falta do aproximar

O isso é pra preservar a nós e aos outros


Este Covid-19 veio pra nos ensinar
Uma nova forma de pensar na sociedade
Talvez um despertar
Que precisamos um dos outros
Mas isso em breve vai passar

Mas é preciso olhar para o alto


E em nossa fé exercer
E saber que Deus está a nos olhar
Dele é toda gloria honra e poder
E tenho a convicção que a fé nele
Tudo pode vencer
Murmurejos do
Uraricoera
(poemas escolhidos)

João Caipira de Andrade


Em casa de Asa Branca

Em casa de Asa Branca


a chuva me deixou deste lado
da cortina
uma chuva parcimoniosa de um céu
nublado
que tarda em escorregar,
assim distendendo o tempo
vou deixando ir os dias de mãos abertas
tal qual faço com a agua e os sonhos.
O amor é uma nostalgia e
a felicidade uma quimera
o mundo está feito de cortinas:
cortina o horizonte, cortina a árvore
erguida
cortina a esquina, a grade, a varanda
cortina são meus olhos e minhas
pálpebras
cortina é a imagem dentro de mim
cortina é meu pensamento sobre
essa imagem
em a cortina dança a Cruviana
e eu desvelo véus com a frugalidade
de quem desnuda a uma moça virgem,
em a cortina dança a Cruviana
e eu a contemplo enquanto esperou
veleidade invisível, como a branca luz
da manhã.
Quando chove na Amazônia
parece deter-se o tempo
o mundo inteiro se alaga numa
única laguna
e cada qual recebe sua porção
de eternidade.
Em casa de Asa Branca
espero enquanto desvelo a chuva
espero enquanto contemplo
sem tempo e sem desesperar.
Em casa de Asa Branca
guardo minhas penas azules
e espero que amaine a chuva
como a ave sempre pronta a voar
em casa de Asa Branca
choveu o dia tudo
com sua noite inteira
um a um, inexoravelmente os dias
jaguaretê azul antropófago é o tempo
que devora tanto dormindo como
desperto.
Cruviana

Tento na noite alinhavar um poema


com a boca feita areia
de estuário seco do rio;
tento alinhavar um poema
nesta noite desanuviada de lua sorridente
um pouco astuciosa e perversa
na projeção animada do meu delírio
de febre amazônica.
Não vejo estrelas pela janela
apenas uma careta de Lua de noite maligna
não consigo ver mais nada desde
o averno ardente do meu deliro
torno a vermelho vivo quanto eu observo
e preciso fechar os olhos
para apagar o fogo das
minhas pupilas em chamas.
Deliro em um leito de braças
e lençóis brancos de cinzas,
a febre amazônica consome minhas entranhas
e eu deliro, deliro, deliro um poema
que incinera as palavras
ao pronuncia-las com a sua língua de fogo.
A alma etérea evapora-se
deixando uma bagunça de carne
carbonizada e osso cinzentos,
crematório poético de febre amazônica
que moro e me mora flagrante
como numa pira funerária.
Eu senti a proximidade de uma
presença envolvente
soando as folhas secas
da árvore impassível
que dá sombra à minha janela
nestas quentes tardes de sol inclemente
e juro pela minha voz e pelo fôlego
que a anima
qual é a única coisa divina que eu tenho
que eu não duvidei nem por um momento
que a morte tinha vindo em pessoa;
mas não foi a morte que é feia
e temível como uma caveira
embora pareça sorridente,
foi uma lubrica presença de uma
brisa lisonjeira
que me envolve-o em seu manto
de vento fresco
e acariciou a nudez toda
de meu erotizado corpo ardente
era a Cruviana da floresta
que virou a calos-frios a febre amazônica
e a refrescantes gotas de chuvisco
o suor incessante da minha testa;
nós fizemos o amor a noite inteira
a Cruviana e eu em sua compaixão divina
indo e vindo do delírio ao êxtase.
!Cruviana! !Cruviana!
amante da noite, deusa
da floresta, eu já te adorei
mesmo sem conhece-la sequer
agora te oferendo meu corpo todo
que foi, é e sempre será seu
se eu ainda não deliro,
além da morte.

Canoa fúnebre
A Devair Fiorotti
Uma canoa vai solitária sem remos,
levada pela correnteza do rio Branco,
partiu na noite do dezenove de março;
ela leva o corpo morto de um grande mestre,
cujo coração era tão grande que não cabia em seu
peito.
!Devair Fiorotti! murmura o rio,
!Devair Fiorotti! cantam os pássaros;
enquanto os peixes com escamas de prata
acompanham em procissão fúnebre
a canoa mortuária da sua última viagem.
Quão desolado se sente este paragem Roraimence,
já ninguém transcreverá o Panton Pia dos Macuxí
desmemoriados;
nem o sol da Amazônia coberto de nuvens
quer ver seu rosto com os olhos fechados.
!Devair Fiorotti! murmura o rio,
!Devair Fiorotti! cantam os pássaros;
enquanto a corrente do branco rio leva
ao mar imperturbável da eternidade,
sua canoa fúnebre cheia de lembranças e presságios.

Des-horas sem Calendário


Desde que começou a Pandemia
empecei a reger meu tempo com o
ciclo da Lua
e as noites voltaram a ser longas
e os dias fugazes como um distendido
crepúsculo
já os números não contaram as horas
senão as estrelas.
Estou em meio da cidade e não
estou só, o sei
mas esta paz desumana muito me extasia
ao não ver nenhum veículo passar
pela rua de enfrente de minha varanda
Estou de luto e tenho coberta a boca
e só falo com as árvores e os pássaros
e entrevero solilóquios com o vento,
as vezes também com meu mestre morto.
Já não sei quanto tempo tem decorrido
só sei que vão duas Luas cheias de incerteza
alguém mais terá que contar o numero
de mortos
e faltaram olhos pra ver um novo amanhecer
a cada dia
tenho passado incontáveis noites de insônia
velando a marcha fúnebre da Lua
e posso garantir por experiência da noite
e de a morte
que entre mais escura se manifesta mais
perto está a alvorada.
Des-horas sem calendário, oh! Solidão
nefelibata e taciturna.
Pandemia

Não vou falar o nome da doença

Não vou falar o nome do vírus

A pandemia é real, mortal

Ela veio antes da realização do sonho

Chegou no país, estado, bairro, rua

Espero que ela não encontre o número da minha casa

Espero que ela não encontre o número da sua casa

Ela não escolheu classe social

Ela não escolheu cor da pelo ou preferência sexual

Ela não olha a idade, ela não é preconceituosa

Você também não devia ser

Quem sabe ela vai embora e vemos como é bom poder ficar juntos de todos.

Quem sabe a distância mostre a importância de estar perto.