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Copyright 2020 Raul Meneleu Mascarenhas

Não é permitido a reprodução desta obra, parcial ou


integralmente, sem a autorização do autor.
Coordenação editorial; Capa; projeto gráfico; Comunicação Visual
e Revisão:
O próprio autor
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
ISBN nº 978-65-00-02669-6 .
Título:  LAMPIÃO: Nordeste, Coronéis, Capangas e Jagunços 
Subtítulo:   Nordeste, Coronéis, Capangas e Jagunços 
Formato:  Livro Digital 
Veiculação:  Digital 
Meneleu, Raul
Lampião: Nordeste, Coronéis, Capangas e Jagunços / Raul
Meneleu Mascarenhas
Apresentação de Geraldo Duarte
Os direitos para publicação desta obra em língua portuguesa
estão reservados por Raul Meneleu Mascarenhas
1 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

ÍNDICE Páginas

Índice ..................................................................................................... 1
Apresentação ......................................................................................... 3
Dedicatória ............................................................................................. 4
Prefácio .................................................................................................. 5
Palavras do autor ................................................................................... 6
Colcha de Retalhos da Literatura .......................................................... 7
O cangaço não foi mercenarismo .......................................................... 8
Leituras antigas, visões novas ............................................................... 9
Um mal, uma enfermidade crônica ........................................................ 10
Diferenças entre Capanga, Jagunço e Cangaceiro ............................... 19
Lampião na Bahia; Visita Chapada Diamantina .................................... 19
Cangaço: banditismo de honra .............................................................. 24
A origem da palavra Sertão ................................................................... 35
A organização política e social do sertão .............................................. 38
A Solidariedade do Sertanejo ................................................................ 39
Os Conflitos Familiares .......................................................................... 41
Governo Flexível à Política dos Coronéis .............................................. 41
O fim da República Velha ...................................................................... 42
As revoltas camponesas ........................................................................ 43
A revolta individual ................................................................................. 45
Os Movimentos Messiânicos ................................................................. 46
O massacre de Caldeirão de Santa Cruz do Deserto ........................... 49
O banditismo de honra .......................................................................... 53
O Nascimento do Cangaço .................................................................... 54
Lampião Usado por cangaceiros e coronéis ......................................... 61
Lampião gostava de ler? ....................................................................... 66
A liderança de Lampião ......................................................................... 67
O fraco contra o forte ............................................................................. 68
A religiosidade de Lampião ................................................................... 70
Lampião se torna o "Rei do Cangaço" ................................................... 73
O arquétipo do homem livre .................................................................. 74
Forças Volantes ..................................................................................... 75
Banditismo de honra de Lampião .......................................................... 76
Um novo estilo de vida para o Cangaço ................................................ 77
A preocupação com sua imagem .......................................................... 78
Lampião Capitão e a Coluna Prestes .................................................... 78
A convocação de Lampião .................................................................... 82
A caminho de Juazeiro .......................................................................... 84
O Sonho de um Sonhador ..................................................................... 87
Lampião soube utilizar métodos de comunicação ................................. 88

RAUL MENELEU MASCARENHAS 1


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ÍNDICE Páginas

A Imprensa .................................................................................. 92
O caso Richard Jewell ........................................................................... 97
O Caso Wallace ..................................................................................... 99
Dúvidas sobre o caso Wallace .............................................................. 99
Livros às vezes não são confiáveis ....................................................... 100
Lampião – Sangue em Belmonte (Em 3 versões) ................................. 115
Foi bom ou mal Lampião ter existido? ................................................... 123
Houvesse "Justiça" não haveria Lampião ............................................. 125
Zé Saturnino, o inimigo № 1 (1915-1917) ............................................. 127
LAMPIÃO, Justiça abandonada por falta de justiça .............................. 144
Palavras finais do autor ......................................................................... 151
Outros links interessantes ..................................................................... 153
Autópsia da cabeça de Lampião e artigos jornalísticos ......................... 154
Historiadores contestam a versão oficial.................. 157
Autópsia não foi definitiva ...................................................................... 160
Lampião, Lages, Lombroso: uma autópsia do Rei do cangaço ............. 162
Menções Honrosas ................................................................................ 175
Bibliografia ............................................................................................. 176

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3 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

APRESENTAÇÃO*
Suor e sangue no tempo do cangaço - Geraldo Duarte*
1974. Fortaleza. Raul Meneleu conclui Curso Secundário. Dinâmico e
empreendedor recebe e aceita convite visando gerenciar, em São
Sebastião do Passé, Bahia, a Fazenda Esperança, de seu tio Antônio,
agropecuarista. Mala na mão, Carteira de Trabalho no bolso e o adeus
emocionado dos familiares.
Novo viver. Novos costumes. Lendas. Crenças. Mitos. Histórias fatuais e as
de ouvir dizer. Verdades. Mentiras. Cenário ainda desenhado no mesclar
de suor e sangue do período do cangaço (1919 – 1938).
A curiosice, transformada em pesquisas de campo, documentais,
testemunhais, fotográficas, cinematográficas, de gravuras, audiofônicas e
técnicas mais, analógicas e digitais, o acompanham desde então.
Aposentado de grande empresa nacional fez-se escritor, produtor e editor
de livros e-book, fotógrafo, cineasta, blogueiro, acadêmico literário e,
hoje, considerado autoridade em estudos populares e científicos relativos
ao cangaceirismo da época de Lampião.
“Não mostro que Lampião foi bandido ou herói. Os fatos e as ações estão
à disposição para cada um ter opinião própria.” – replica enfático.
Suas obras, em e-book e gratuitas: “Cangaceirismo e Folclore”,
“Quadrante 45: Uma Viagem no Tempo”, “Crônicas do Cangaço” e
“Lampião na Capela”.
Tem o blogue “Caiçara dos Rios dos Ventos”, com 500 artigos publicados
e, cerca de 200, tratam do tema. Também seu canal “TV Maria Bonita”, no
You Tube, assomando quase 2 milhões de visualizações.
Raul está lançando “Lampião: Nordeste - Coronéis, Capangas e Jagunços”,
produção literária, técnica e inédita no gênero, pois com cliques
encaminhará o ledor a linhas do tempo, documentações, jornais, mapas,
fotos, filmes, vídeos, entrevistas, comentários, citações de autores vários,
observações comparativas e críticas, bem como demais formas
tecnológicas facilitadoras e propositivas de compreensões simultâneas.
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.
Diário do Nordeste de Fortaleza-CE. Caderno OPINIÃO pg 23 data 03/03/2020

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4 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Dedicatória

Dedico esses lampejos literários, críticas sem


maledicências, confrontações de casos expostos, à
CORRENTE DA AMIZADE *, título da confraria de
intelectuais potiguares que uma vez por ano reuniam-se na
Serra do Martins, Rio Grande do Norte, para
confraternizarem a amizade. E entre eles estava meu
Velho e querido Pai, Francisco Meneleu e o amigo
Raimundo Nonato (Autor de “Lampião em Mossoró”), que
entre suas correspondências chamava meu Velho Pai de
LAMPIÃO DE CASCA DE MELANCIA*, por seu
envolvimento na famosa Intentona Comunista de 1935 em
Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Meu pai diz, em seu livro, “Coisa Julgada e Cartas de


Amigos” como Raimundo Nonato assinava suas cartas:

O Jagunço.

Raul Meneleu

* Membros da confraria: Vingt-Un Rosado; Raimundo Nonato; Raimundo Soares


de Brito; Renato Rebouças; Enélio Lima Petrovich; Josinete Câmara; Zenaide de
Almeida; José Gonçalves Pinheiro e Juvêncio Cunha Filho, o Pucunino.

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Prefácio

O prefácio de um livro é um elemento fundamental na composição


da obra literária. Por isso, ele não pode ser negligenciado. O
momento de abrir a leitura e degustar o que está por vir é uma
ótima oportunidade para cativar o leitor e fazê-lo criar boas
expectativas em relação às páginas seguintes. É o que faço nesse
momento.

Ao lê-lo poderá usar tablets, computadores ou Iphones, para


acessar os links indicados (caminhos) para meus documentários de
pesquisa de campo, onde gravei locais das ações de Lampião para
meu canal Youtube TV MARIA BONITA e também para artigos do
meu Blog “Caiçara dos Rios dos Ventos”.

Os ledores poderão consultar em meio eletrônico pelos endereços


(links), escrevendo-os. Ainda disponibilizo links para outros locais
da internet, principalmente Youtube, tais como documentários da
PM da Bahia e de amigos autores de livros sobre Lampião.

Está bastante elegante, com fotos também. A leitura será fácil


pois o corpo da letra é 14,0 pois por experiência própria vejo a
dificuldade de pessoas de mais idade para ler.

Nesse livro, faço comentários sobre outros escritos de outros


autores e dou minha opinião. Também mostro com dois episódios
de reportagens da imprensa, uma dos EUA e outra daqui do Brasil,
que as notícias muitas vezes não são fundamentadas na realidade,
mostrando com isso que algumas, dos ano 20 em diante, sobre
Lampião, podem ser contestadas, levantando dúvidas. Estou
fazendo breve comentário sobre aquele caso da Escola Base em
São Paulo, faço apenas uma menção de links para a reportagem.

Nesse trabalho de pesquisas, não mostro nem que Lampião foi


bandido ou se foi herói. Os fatos e as ações dele é que estão à
disposição para cada um formular sua opinião.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 5


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Mostro as origens do Cangaço pelas lentes da sociologia, tomando-


se o domínio dos coronéis e seus efeitos contributivos para o
fator. Faço também confrontos de disparidades dos casos de
Lampião, que foram escritos por autores diferentes, com o intuito
de mostrar aos leitores que partes do histórico se contradizem.

Palavras do autor

Querem saber? Nós nordestinos, principalmente os que moram no


sertão, temos uma das histórias mais incríveis da nossa epopeia,
que marcou-nos e todos sabem “nem que seja” um pedacinho dela.
É a história de Lampião. Está marcada em nossas mentes. Uns mais,
outros menos é claro.

Aqui faço um apanhado, dentro do assunto sobre Cangaço,


Capangas, Jagunços e Coronéis, com comentários e textos dos
autores indicados na bibliografia. Aqui narro partes de suas
histórias, enquanto nas minhas pesquisas feitas em campo, nas
reuniões anuais de historiadores e escritores nos encontros do
Cariri Cangaço (http://cariricangaco.blogspot.com/), de meu dileto
amigo Manoel Severo, Curador e Administrador desse magistral
empreendimento que reúne todos os amantes desta Saga
genuinamente nordestina, onde visitamos os locais em que Lampião
agiu, com visitas guiadas pelos pesquisadores e pessoas locais que
viveram o acontecimento, onde sempre estamos a aprender sobre
estas histórias genuinamente nordestina, entre as tantas
existentes, conforme faço um apanhado de algumas mais à frente,
tais como os massacres de Canudos e do Caldeirão de Santa Cruz
do Deserto.

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7 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Lampião, o mais famoso dos cangaceiros


do Sertão, desafiou, durante cerca de
vinte anos, não apenas as autoridades
nordestinas, mas também o poder central
do governo brasileiro.
A forma de banditismo da qual se valia,
era uma realidade histórica e social
inerente ao Sertão Nordestino.
É igualmente objeto de um conjunto de
representações, que variam de acordo Foto tirada por Lauro Cabral, em Juazeiro,
com os interlocutores, com as épocas, as Março de 1926

origens geográficas e as posições


políticas dos envolvidos.

Painel de Gilvan de Assu – Restaurante Avenida, Mossoró

Doravante em Vossa leitura, verás diversos argumentos,


avaliações de textos escritos por outros autores, citação ipsis
litteris de partes de livros e reportagens de periódicos diários e
links para você leitor, ter ampla visão dos assuntos. Também o
leitor encontrará as incoerências da literatura do cangaço, com
relatos desencontrados em determinados assuntos. Vamos lá
então?

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8 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

O cangaço não foi mercenarismo

O cangaço não pode ser confundido com


o mercenarismo da capangagem a serviço
dos coronéis locais, se bem que
geralmente os coronéis aliavam-se com
cangaceiros para suas investidas contra
seus inimigos. Jagunços do Contestado.
Foto: Klas Gustav Jansson

O capanga era subalterno do coronel ou de quem lhe pagasse, já o


cangaceiro era um aliado momentâneo com propósitos definidos e
eram a expressão de uma barbárie hereditária numa região
atrasada; como um banditismo que impõe suas próprias leis, face à
carência dos poderes públicos e à ausência de uma justiça
imparcial na região, constituía-se de um banditismo de vingança e
honra, uma revolta dos pobres contra o sistema latifundiário. O
cangaço foi também uma das manifestações que fizeram os
autores de História do Nordeste se situarem quando se tratou de
construir uma nação "moderna". É igualmente um dos fenômenos
dos quais os representantes do poder se serviram para forjar essa
nação, de acordo com representações que elaboravam.

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Leituras antigas, visões novas

Recentemente
em minhas leituras, que
confesso estavam preguiçosas, pelos
“descaminhos” das redes sociais e que a
tempo enxerguei seu descompasso com a
criatividade literária. WhatsApp, Facebook,
Instagram tornaram-se incentivo à minha
veia “laissez faire” aprendida nas visitas
prolongadas e estadias nas terras de Víctor
Hugo; trivialidades e blá blá blás, convescotes eletrônicos, com
raras exceções de cunho cultural, o que não condeno, pois cá pra
nós é muito gratificante, mas nos deixam preguiçosos em leitura
de livros.

Pois bem, deparei novamente na releitura de Élise Grunspan, esta


francesa que aprendeu a amar a saga nordestina, com esse
belíssimo trabalho, formidável livro “Lampião, Senhor do Sertão”.
Bem... deparei novamente com aquela famosa carta de um
sertanejo chamado Oleron Barretto, publicada no jornal "A Voz do
Sertão", da cidade pernambucana de Triunfo, do dia 10 de maio de
1936, mostrando sobre o lugar e a importância do banditismo na
sociedade sertaneja; e como esse afetava a população.

Carta essa, em oposição antecipada e não sabida, aos escritos do


padre Frederico Bezerra Maciel que tanto elogiou Lampião quando
em sua sextologia “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado” onde ele
diz:
“... deve de existir, recalcado, algo de monstruoso no espírito vesgo daqueles que
consideram esse homem um monstro! Como é fácil condenar! Por que não
enxergam nele, com olhos alimpados, a delicadeza de seus sentimentos artísticos e
humanos?"

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Um mal; uma enfermidade crônica

Oleron Barretto considerou como como sendo um mal, uma


enfermidade crônica, para o qual não se pode vislumbrar nenhuma
prescrição terapêutica, porque a população do sertão e o
banditismo pareciam que andavam juntos. Procurando na origem
desse fenômeno os elementos estruturais que permitiriam
ultrapassá-lo, o autor da carta convocava aqueles que real e
profundamente, encarnavam o combate ao mal a ser extirpado a
todo custo.

A seus olhos, Lampião, era aquele a quem as escrituras sagradas


proclamam como sendo daqueles que “professam a religião, mas
agem com crueldade sobre seus semelhantes" – quer dizer:
arvorava-se em defensor dos fracos e oprimidos, mas os oprimia
também, expressando isso através de sua personalidade
conturbada, indicando que ele o mal, precisava ser definitivamente
extirpado.

Ele escreveu (sic):


"De tantos máos individuos a que temos conhecido, qual delles pode merecer
de nós a pecha de bandido?
Unissonamente, em côro, todos dirão – Lampeão!
Sim, eu tambem o digo: esse bipede, criatura inferior ao tigre e a panthera,
porque estes lhe dão uma egregia licção quanto ao sentimento familiar, é sem
duvida alguma a vergonha e a humiliação de nossa propria igual
individualidade. Lampeão, não ha negar, detentor de um coração que se
vulcanisa n'um vesuvio de crimes, é em verdade um raro bandido. Ele gera e
se nutre do crime."

Sim amigos, pergunto qual o lado que estaríamos se vivêssemos


naquele tempo?

- Ao de “maus indivíduos” ou de “bons indivíduos”?

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Quem seriam os maus e os bons indivíduos?


Deixemos a resposta com o leitor, depois de ler até o final do
livro.

Não se pode fugir da realidade existente naqueles tempos. Não


iremos aqui discutir se Lampião foi herói ou bandido. Sei que ele
foi mais um injustiçado, coisa que na realidade a história diz que o
foi. Abandonado pelos em autoridade, quando levou o caso inicial
dos roubos do gado “miunça” que foram roubados de sua família,
pelo empregado de Zé Saturnino e que não obteve justiça. Passou
a ser perseguido e até mesmo emboscado. Quando um de seus
irmãos foi ferido por tiros disparados por gente de Saturnino e
até mesmo preso, onde andava a justiça?

Nenhum de nós sofrendo de injustiças, poderemos nos arvorar


em justiceiros, se civilizados formos e cumpridores das leis.
Lampião o fez. Quando viu-se derrotado injustamente, passou a
fazer de seu rifle sua justiça. O problema foi que nessa atitude
“bandeou-se” para o lado do roubo, que fez as autoridades o
buscarem juntamente com seus irmãos por seu primeiro roubo,
mesmo estando seu pai e mãe ainda vivos. A história todos
conhecem.

Continuemos com as palavras escritas naquele jornal “pelo


habitante do sertão nordestino” (sic):
"Esse homem que pela manhã fita o sol pelo orificio do cano longo de seu
fuzil matador, que a noite banha a folha fria de seu punhal nos raios
merencorios do luar, que mira farto de goso e sem remorso algum, ao corpo
inanimado de sua presa, que conta sob gargalhas de seu bando as linhas
douradas, numero de victimas, incrustadas na coronha de seu fuzil, que faz
hygiene do mechanismo de sua arma com agua de colonia e aromatisa as
balas ponte agudas com perfume semelhante aos preferidos pelas filhas de
Jericó, esse Lampeão que semeia a dor e à viuvez, a orphandade e o algoz

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das donzelas, a violação dos lares e o exterior de corações paternos, é na


realidade um bandido cuja compleição psychologica analysada por
apropriados scientistas, daria ao mundo um laudo singular pelo valor de uma
rara entidade peormente conhecida, por superior aos de mais tarados typos
deIinquentes. Todas as suas forças psychicas são controladas para manter
o afan do ódio contra todos que não oram pela sua plataforma. Elle professa
a religião da crueldade e tanto rejubila-se com a sua horda sanguinária sobre
os destroços da vida de um moço gentil, como canta com igual entusiasmo a
canção dos finados, por sobre a fronte gelada de um ancião, vitimado por sua
sanha.”

A violência sofrida pelo Sertão em razão do Cangaço, a imensa


perturbação, a perda de equilíbrio ligados a essa forma de
banditismo, tudo isso revelou a falta de coesão de um país à
procura de sua unidade. O padecer do Sertão fez o Brasil por
inteiro confrontar-se com suas carências e um "anarquismo" que
procurava por todos os meios obliterar. Para a imprensa brasileira,
tanto a do Nordeste, quanto a do Sul, desde o início dos anos vinte,
Lampião encarnou a violência de uma sociedade atrasada.

Ele era o produto genuíno de uma região considerada como


retardatária, distante de toda civilização, perigosa para a
coerência nacional. Essa ideia, precisamente, de coerência
nacional, lugar comum e caro às elites políticas e intelectuais
brasileiras desde o século XIX, foi fortalecida a partir da
Revolução de 30 e mais ainda sob o Estado Novo. Lampião encarnou
a face negativa da modernidade, devastou uma região cujas
fronteiras imaginava-se impenetráveis, uma região que parecia
dissociada do país e da nação. Ao mesmo tempo, ele revelou as
falhas de uma sociedade que se desejava moderna e unificada.

Pondo-se de lado certos a priori carregados de ideologia


Lambrosiana, cabe aí um discurso marcado pelo sofrimento e por
uma emoção muito forte.

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13 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Assim era concebida a imagem de Lampião pela maioria de seus


contemporâneos, que viam nele mais do que um simples bandido que
assolava uma região árida e miserável do Nordeste brasileiro: um
perturbador extremo, herói de uma grande tragédia da qual foi
ator, autor e diretor; e que perdura mesmo depois de sua morte.
“Um personagem tão excepcional como Virgulino-Lampião só pode ser
compreendida em relação com o lugar de sua origem, de sua vida e de sua epopeia
– o sertão. Essa região tão particular do Nordeste brasileiro tem características
geográficas, socioeconômicas, históricas e políticas próprias que não são estranhas
à gênese de fenômenos como cangaço. O sertão é, ao mesmo tempo, um espaço
geográfico, um território percebido como impenetrável e também um lugar
imaginário que se construiu no decorrer dos séculos em função dos olhares que
sobre ele se lançaram. É um território cujas limitações geográficas se modificaram
com o correr do tempo, como se essa região se construísse e se elaborasse sem
cessar.”

Diz-nos Rui Facó, fazendo perguntas retóricas:


“... que seriam simples criminosos esses milhares, dezenas de milhares de pobres
do campo que se rebelavam nos sertões, durante um tão largo período de nossa
história? Seriam apenas os "retardatários" da civilização, como os qualificava
Euclides da Cunha? Evidentemente, não. Constituiriam, se assim fosse, uma
percentagem de criminosos de todo anormal, desconhecida em qualquer país, em
qualquer época histórica. Eram muito mais frutos do nosso atraso econômico do que
eles próprios retardatários.”

Continuando com Facó, podemos enxergar que o cangaceirismo


surgiu em gritos de revoltas dos homens do campo, por falta de
condições de sobrevivência, sua e de seus familiares. Até chegar
aos tempos de Lampião, os cangaceiros eram produtos da
exploração do latifúndio:
“Num meio em que tudo lhe é adverso, podia o homem do campo permanecer inerte,
passivo, cruzar os braços diante de uma ordem de coisas que se esboroa sobre ele?
Euclides da Cunha já compreendera que o homem do sertão "[...] está em função
direta da terra" (Os sertões, 13ª ed., pág. 141).

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Se a terra é para ele inacessível, ou quando possui uma nesga de


chão vê-se atenazado pelo domínio do latifúndio oceânico,
devorador de todas as suas energias, monopolizador de todos os
privilégios, ditador das piores torpezas, que fazer, senão revoltar-
se? Pegar em armas, sem objetivos claros, sem rumos certos,
apenas para sobreviver no meio que é o seu.

Então, espantados, os homens das classes dominantes não sabem


explicar por que ele se revoltou. Ele, sempre tão cordato e humilde
mesmo, que não falava ao senhor sem tirar da cabeça o largo
chapéu de palha ou de couro, tomar de uma arma, tornar-se
cangaceiro, arregimentar companheiros de infortúnio e formar um
grupo — um bando. Por que?

As tentativas de explicação dos fatores do cangaço datam, talvez,


do início mesmo do fenômeno. Mas vejamos opiniões de alguns
autores que estudaram o processo em sua plena florescência.
Euclides da Cunha, sabe-se, atribui-o ao fator racial, atavismos
étnicos, "o meio físico dos sertões em todo o vasto território que
se alonga do Vasa-Barris ao Parnaíba, no ocidente", e ao que chama
de "estigmas degenerativos de três raças" (Idem, pág. 93).

Euclides da Cunha baseia-se, entre outros autores, em Nina


Rodrigues. As teses deste cientista baiano parecem ter sido a
fonte de inúmeras opiniões errôneas sobre as causas do
cangaceirismo e do misticismo dos sertanejos. Nina Rodrigues
afirmava que "a criminalidade do mestiço brasileiro [está] ligada
às más condições antropológicas da mestiçagem no Brasil" (As
raças humanas e a responsabilidade Penal no Brasil, Salvador,
1957, pág. 158).

Vários autores nordestinos, sem dar atenção às causas


econômicas e sociais, recorrem à explicação, para eles a mais
fácil, adotada por um cientista: a mestiçagem. Era uma atitude

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fatalista. Como a mestiçagem constituía um fato irremovível, seus


resultados no Nordeste — o cangaço e fenômenos correlatos —
jamais teriam remédio... Esse ponto de vista ainda iria influenciar,
muitos anos mais tarde, o autor de um dos livros de maior
repercussão sobre o Juazeiro e o Padre Cícero, Lourenço Filho.
Considera ele, depois da visita que fez ao Cariri, na década de 20,
que "certas condições biológicas levam ao banditismo" (O Juazeiro
do padre Cícero, 2ª ed., São Paulo, s/d., pág. 162).

E para anomalias como o Juazeiro, aconselhava (em 1926):


"Os remédios estão aos olhos de todos, e eles se resumem, numa palavra, em maior
liberdade política aos escravizados Estados do Norte, em distribuição de justiça e
educação".

É interessante observar como até mesmo conhecedores da


situação local, homens nascidos e criados ali, narram fatos e
episódios diante dos quais se supõe que tirarão as conclusões
lógicas — e no entanto a conclusão é contrária à própria realidade
descrita. É o caso, entre outros, de Xavier de Oliveira, filho do
Cariri. Reconhece ele textualmente: "o homem honesto e
trabalhador de outrora é um bandido agora, por causa de uma
questão de terra" (Beatos e cangaceiros, Rio, 1920, pág. 24).

Acrescentava quanto às condições de trabalho: "No Cariri, em certa


cidade, há o que se chama feira de trabalhadores. Centenas de
homens, reunidos em praça pública, enxada ao ombro, prontos para
o trabalho. Chega o fazendeiro, escolhe os mais robustos (é como se
escolhesse bois para o corte) e os leva à roça. Os outros, em número
de centenas, ficam sem trabalhar, e sem comer, eles, suas mulheres
e seus filhos" (Idem, págs. 28-29).

Dá o testemunho de sua própria experiência pessoal: "Esta mão


que ora traça essas linhas, muitas vezes, vai para doze anos, aos
que tinham a ventura de se empregar, pagou quinhentos réis ($500)
por dia inteiro de trabalho!..." E "eram onze horas de trabalho" (Idem,
pág. 29).

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Para termo de comparação: em 1912, um kg de carne, em


Fortaleza, custava de 600 a 800 réis, e um litro de feijão, o mais
próximo possível do valor atual, levando em consideração os
valores da inflação. Mas vale lembrar que a conversão, mesmo
próxima, não é exata. O valor aproximado é o seguinte:

1 Real (Réis) - R$ 0,123

1 Mirréis (Mil Réis) - R$ 123,00

Estes homens — é a conclusão lógica — tinham forçosamente que


ser revoltados. Sem terras, sem ocupação certa, a mais brutal
exploração de seu trabalho, revoltar-se-iam qualquer que fosse a
dosagem de seu sangue, sua origem racial, o meio físico que
atuasse sobre seu organismo. Mas Xavier de Oliveira concluía
pedindo... a ajuda do Exército para exterminar o cangaço.

Fez desta reivindicação uma cruzada durante sua vida. Nos


principais focos de banditismo — opinava ele — desde Pajeú de
Flores até Riacho do Navio, dos sertões de Pernambuco ao Cariri,
deviam instalar-se regiões militares — e tudo estaria resolvido.
Para outro nordestino, Gustavo Barroso, o cangaço seria extinto
nos sertões com estes remédios: "comunicações, transportes,
instrução e justiça" (Cit. por A. Montenegro, História do
Cangaceirismo, pág. 22).

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E um jurista eminente, originário também da região onde atuavam


os cangaceiros, ensinava uma terapêutica, em geral, justa, mas sem
indicar como devia ser aplicada: "Os meios preventivos — escrevia
Clóvis Bevilacqua — que consistem na criação de um ambiente
desfavorável à germinação desta planta nociva, o que se obterá
melhorando as condições de vida das classes desprovidas de bens
materiais, difundindo a instrução, sobretudo a educação moral; e
assegurando a justiça a todos"

Pois bem meus amigos... a questão foi esclarecida muito bem por
Rui Facó:
“...predominam simples efeitos de causas profundas: ausência de justiça,
analfabetismo, precariedade de comunicações e transportes, baixos salários.
Quando tudo isto já resultava da tremenda desigualdade social, do débil
desenvolvimento do capitalismo, do lentíssimo incremento das forças produtivas, da
concentração da propriedade da terra, que dava poder econômico ilimitado a uma
insignificante minoria de latifundiários.”

A grande massa dos habitantes da região não dispunha de


recursos normais para viver, nem mesmo a possibilidade de vender
com segurança sua força de trabalho. Quando o conseguia era em
condições tais que correspondiam à semi-servidão.

Como poderia haver justiça, simples recursos jurídicos, sem falar


em justiça social, para explorados e oprimidos em tais condições?
O aparelho judiciário estava sob o controle direto dos coronéis
locais, o juiz lhes era um dependente, muitas vezes menos do que
isso, um lado. (Ver, a propósito, o romance-sátira de Jáder de
Carvalho. Sua majestade, o juiz).

Diz Xavier de Oliveira, em 1919:


"No sertão não há lei, não há direitos, não há justiça [...] Quanta vez, ali, não é
removido de uma para outra comarca, um juiz que proferiu uma sentença contra um
político influente, cabo eleitoral ou chefe de bando do presidente ou do governador
do Estado?... ".

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E narra episódios de demarcações de terras mandadas fazer por


certo magistrado sob uma chefia local, e desfeitas pelo mesmo
magistrado quando o município se encontrava sob outro governo.
Como poderia, pois, haver alfabetização, instrução, educação
popular? Além disso, para que?
“O interesse do grande proprietário da terra é manter no obscurantismo a população
local. Ele quer braços servis e não cabeças que pensem. Ninguém necessita de
saber ler e escrever para pegar numa enxada. O Governo do Estado ou do município
não dispunha de verbas para gastar com escolas. As verbas iam para o bolso dos
potentados locais, seus familiares e apaniguados. Mesmo que fundassem escolas
— a não ser uma ou duas, na sede do município, para os filhos dos ricos ou dos
remediados — os filhos dos pobres não poderiam frequentá-las.
Não podiam comprar as coisas mais elementares, como um par de sapatos ou uma
roupa, quanto mais livros e material escolar. E quando seus pais tinham trabalho
garantido ou um lote de terra para plantar, necessitavam de sua ajuda, desde a mais
tenra idade, nos duros labores da terra.”

Desta forma, quando lemos “Cangaceiros


e Fanáticos - Gênese e Lutas“ de Rui Facó,
temos uma visão melhorada sobre o
Cangaço.
Já o Cangaço de Lampião, veio a dar-se
pelo fator de injustiça judicial, entre
autoridades da lei, conforme vimos
anteriormente.

Dos três elementos gerados direta ou indiretamente pelo


latifúndio semifeudal, (Fanático religioso, o Cangaceiro e 0
Capanga) sobrevive até os nossos dias, aquele que é o seu filho
dileto: O Capanga. Continua ele a manter guarda nas grandes
fazendas, embora hoje os coronéis tenham sido substituídos por
seus filhos, que tornaram-se políticos. O Capanga defendia,
inicialmente contra os índios, depois contra os posseiros, mais
tarde contra os cangaceiros e os fanáticos, hoje procura defendê-

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19 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

la contra os sem terras e que rondam, em número crescente, os


grandes latifúndios improdutivos.

Diferenças entre Capanga, Jagunço e Cangaceiro

O capanga estava ligado ao chefe político ou ao fazendeiro que o


contratava para seus serviços. Era uma relações de dependência,
de submissão, estava sempre pronto para usar a qualquer momento
as armas para defender os interesses de seu contratante.

O comportamento, às vezes criminoso do capanga, dependiam da


situação do chefe ao qual ele servia. Se esse chefe não estava
envolvido em lutas políticas ou conflitos locais, o capanga cuidava
da propriedade de seu chefe ou fazia serviços de diversas tarefas
pacíficas, permanecendo sempre disponível se houvesse um
conflito armado.

O jagunço, ao contrário, era um profissional que escolhera a luta


armada como modo de vida e não desejava fazer outra coisa. Para
o jagunço, a noção de chefe não tinha a mesma conotação pessoal
que para o capanga. O jagunço era um mercenário isolado, que
oferecia seus serviços a quem lhe pagasse mais, tipo o pistoleiro
de hoje que são usados como assalariados do crime político nos
sertões.

Lampião na Bahia; Visita Chapada Diamantina

Quando Lampião visitou a


cidade de Lençóis, Chapada
Diamantina, esteve com seu
grande amigo, o coronel
Horácio de Matos, o maioral
dos garimpos e o mais pode
roso chefão de jagunços da
Bahia. Praça Horácio de Matos, Lençóis.

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A bela e aprazível cidadezinha da Chapada Diamantina de Lençóis,


na década de 20 era considerada a "capital das Lavras". Com seu
vice-consulado da França, era apontada como "Vila Rica da Bahia".

Depois de todo esse progresso, porém, a região transformou-se


no maior centro do coronelismo e da jagunçada na região da Bahia,
com sua complexa estrutura de poder, que geralmente tinha início
no plano municipal, exercido com hipertrofia privada – a figura do
coronel – sobre o poder público — o Estado —, e tendo como
caracteres secundários o mandonismo, o filhotismo (ou
apadrinhamento), a fraude eleitoral e a desorganização dos
serviços públicos — e abrange todo o sistema político do país,
durante a República Velha.

A década de 20 foi o auge do barbarismo na região, pouco afeitos


à civilidade e à lei: uma época dos chamados "cabras valentes",
onde o modo de resolver conflitos era na base do "revólver na
cinta" e das gatas-bravas (mulheres guerrilheiras). Foi nesse
cenário, que Lampião esteve nessa cidade, quando de passagem
pela Bahia, conhecendo cada palmo de terreno para a sua guerra
que sabia por certo, viria.

Segundo depoimentos, Lampião "variando as posições de


perspectiva, deslumbrava-se, extático, diante do fantástico
espetáculo nunca por ele contemplado" e hoje penso em minhas
visitas na década de 70, apenas 42 anos nos separando desse
passado, antes do auge do barbarismo nessa região, vendo também
pela primeira vez essa descomunal beleza. Fiquei emocionado!

Ver este vasto território da Chapada Diamantina, onde aliava meu


trabalho, com minhas pesquisas sobre os escravos, filhos de
escravos, religiosidade, etc. O via também como Lampião deve ter
visto e se assombrado com os enormes aglomerados de gigantescas
elevações de granito, "corcovadas e rotundas, tabuladas e bizarras, às vezes
mal-assombradas como o morro do Pai Inácio, tomando a forma de castelos feudais,
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fortalezas medievais, majestosas proas de embarcações, mirantes e promontórios


ciclópicos, uma acrópole erguida pela natureza para os deuses da mitologia!".

Vi sim! Todo esse cenário visto tanto pelo Padre Escritor


Frederico Maciel quanto por Lampião. Deleitei-me em desbravar
essa terra linda e maravilhosa. Banhei-me em suas cascatas e
cachoeiras. E como Lampião, me deleitei com as flores silvestres
sendo visitadas pela lindas e majestosas borboletas.

Frederico Bezerra Maciel em seu relato poético sobre o


momento em que Lampião viu essa força divina trabalhando
perante seus olhos, disse:
"Causariam espanto, qual mundo lunar, aquelas paisagens vagueiras, de
impressionante solidão, não fosse o condão de fada ter atapetado os convales e
prados de miríades de flores silvestres, variegadas e multicoloridas, sobre as quais
esvoaçavam inquietas e ligeiras, enxames de borboletas de todos os matizes.
Os cangaceiros achavam muita graça quando Lampião, por várias vezes, a modo
de criança, saía colhendo pelo campo umas florzinhas muito abundantes, de cor
azul, campanuladas, parecendo pequenas açucenas de estames amarelos,
popularmente chamadas milondas, e, as mãos cheias, jogava-as contente para o
alto em agradecimento ao Criador de tanta beleza imensamente grande!
De certo, naqueles momentos, se lembrava com ternura e saudade do seu "tempo
de inocente", quando "brincava nos cerrados" do seu "sertão sorridente". Recordava,
embevecido, a Serra Vermelha, doirada à luz do sol nascente e enfogueirada nos
arrebóis... a caatinga florida e cheirosa no inverno... os areais brancos do riacho São
Domingos em cujas águas mergulhava e nadava feito peixe... as noites inconsúteis
cheias das doces claridades do luar... tanta e tanta lembrança tão longínqua!"

E o Padre arremata: "Ah! deve de existir, recalcado, algo de monstruoso no


espírito vesgo daqueles que consideram esse homem um monstro! Como é fácil
condenar! Por que não enxergam nele, com olhos alimpados, a delicadeza de seus
sentimentos artísticos e humanos?"

Voltemos aos homens valentes daquela região e vejamos o que já


foi sinônimo de jagunço. Lutador por ideal ou profissão, jagunço
não era o mesmo que cangaceiro. Era "soldado" porque serviam a
um "coronel" sertanejo, a serviço de uma causa e de um chefe, cujo

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mando era a força, não a lei ou o reconhecimento da população,


que, segundo o mito, desconhecia o medo no campo de batalha. No
entanto, era apenas mais um pobre, excluído, da história do Brasil,
servindo ao poder local, muitas vezes contra a lei e o Estado de
Direito.

Mas as notícias jamais chegavam ao governo central. Não era de


interesse para os coronéis a não ser as que lhes interessavam! É
tanto que, até hoje, há forças no Nordeste brasileiro que
enaltecem os coronéis, como se isso fosse motivo de orgulho para
o país. Fazem isso por interesse pessoal, já que muitas vezes são
descendentes daqueles oligarcas que conseguiam e se mantinham
no poder pela violência, o assassinato e o roubo.

Horácio de Matos, que dominou a região das Lavras Diamantinas,


foi o último e o maior de todos os chefes dos jagunços. O próprio
governo de Epitácio Pessoa foi obrigado a assinar com ele um
acordo de pacificação, e a Coluna Prestes teve de sair do país
depois que invadiu os seus domínios, tal como sempre ocorre com
os governos brasileiros, que não podem contra as milícias
particulares até a presente data.

O interesse de Lampião em ganhar a Chapada Diamantina, não


eram as belezas assoberbadas e pitorescas da natureza; de seus
sentimentos artísticos e humanos e nem das Lavras Diamantinas,
com suas zonas de mineração e nem a procura de pedras preciosas
nos "veios" ou linhas de diamantes.

Nesse ponto lembrei de uma de minhas passagens pela Chapada


Diamantina, quando em conversa com um dono de pequeno
restaurante onde parei para almoçar. Falava ele dos tempos
gloriosos dos diamantes. Disse-me que, "cansou de levar as
"pedras" para os EUA e as escondia no cós de sua camisa de linho
indiano.

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Disse-me que ainda tinha um “garimpozinho” e convidou-me a ir


até lá. Era o ano de 1975 e eu sozinho naquelas pairagens, extensão
de território que percebia a partir da experiência visada, admirei
toda a paisagem que me circundava e senti que haveria de sentir
pairagens dentro de mim... estudando e pesquisando os hábitos
daquela região, tive receio de ir. Perdi a oportunidade, mas quem
sabe o que ganhei?

Pois bem... Lampião sabia o que queria. Tem pessoas que acham
que ele queria ficar rico. Nada disso! Lampião era um guerreiro
valente em busca de alcançar o vento. Ali era a terra dos coronéis
que mandavam na Bahia. Não eram os coronéis das caatingas. Ali
residiam os jagunços "mandiocas" do coronel Horácio de Matos, de
Lençóis e os "mosquitos" do coronel Fabrício de Oliveira, estava
nas terras de antigas lutas de conquista onde giravam as famosas
"gatas bravas", guerrilheiras masculinizadas, cabelos cortados à
escovinha, chapéu de couro, armadas de punhal e pistola, sobre as
quais Lampião, talvez com o tempo, quando da entrada no cangaço
das mulheres, lembrasse que eram inferiores às cangaceiras, de
vez que aquelas, “as gatas bravas”, perderam as características e
os sentimentos de feminilidade. Já as cangaceiras, entre elas a
famosa e bonita Maria do Capitão, tão linda, feminina e faceira,
eram superiores pelo carinho e amor a seus homens!

Seu interesse era duplo: tático e político. Era um General.


Conhecer o território para campo de ação e refúgio; estabelecer
contatos com os coronéis-chefões para lhes obter o apoio em
dinheiro e material bélico.

Em seu livro "Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado" O Padre diz:


"Foi assim que, de primeiro, atacou a cidade de Morro do Chapéu, cometendo
depredações. E daí, sempre bordejando a cordilheira do Sincorá, atingiu Palmeiras,
às margens do riacho Grande, Mais adiante tomou refrescante banho salutar nas
águas limpíssimas do "engrunhado" ou rio subterrâneo que corta a gruta de Pratinha,
uma das muitas, pequenas ou imensas, todas encantadoras e misteriosas,
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existentes nos recôncavos das serras. Em Lençóis, esteve com seu grande amigo,
o coronel Horácio, o maioral dos garimpos e o mais poderoso chefão de jagunços
da Bahia, que, em desde os primeiros dias de setembro de 1928, lhe vinha dando
proteção. É evidente que isto por política do famanaz coronel Horácio a modo de
dividir a atenção das autoridades quanto às lutas de conquista das lavras
diamantíferas. Por seu lado, beneficiava-se Lampião deste jogo, de parte a parte
consciente”.

Nessa oportunidade, o coronel


convidou Lampião para se engajar como
chefe de toda a sua jagunçada. A
resposta foi dada com altivez:
- "Sou cangaceiro e não capanga!"

Admitia assim, Lampião, a diferença de conceito entre os dois


termos. “Descendo, entrou nas terras de Andaraí, onde imperava o
coronel Aurélio Gondim, passou ao largo da grande quantidade de
"montoeiras" de antigas lavragens, em Mucugê, do coronel Douca
Medrado." E daí ganhou o mundo baiano, fazendo estripulias.”

Cangaço: banditismo de honra

A maioria dos autores e


pesquisadores do cangaço
concordam em que o cangaço era a
forma de banditismo de honra. A
entrada no cangaço de indivíduos
oriundos de famílias modestas,
criadores de animais ou de
Artista João Miguel da Silva - J. Miguel
Bezerros, Pernambuco. pequenos proprietários de terra,
correspondia geralmente à necessidade de vingar uma afronta, de
reparar uma injustiça para reconquistar sua honra ou a de sua
família. Diante da violência sofrida, do ataque de um direito que
ele julgava fundamental, sua moral impõe-lhe a resposta pela
violência. Muito se tem falado nos paradoxos da chamada moral
sertaneja. No caso de Lampião e da maioria dos cangaceiros foi
assim. Que no entanto, por ocasião do cumprimento de pena ou do
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perdão presidencial através do indulto, os cangaceiros despiram-


se totalmente de suas indumentárias e armas. Foram restituídos à
sociedade e se tornaram trabalhadores.

Muito interessante alguns dizerem que o cangaceiro não roubava,


que “tomavam pelas armas”. Dentro desse quadro todo próprio, a
vingança tende a revestir a forma de um legítimo direito do
ofendido. Os cangaceiros saíam da legalidade seja por terem
tentado matar ou terem matado por vingança, seja por terem
tentado defender sua honra achincalhada ou a de alguém de sua
família próxima ou, por extensão, a de seus parentes, depois do
assassinato de um membro de sua família, de conflitos ligados ao
roubo de gado ou à violação de um território. Vítimas da
parcialidade da justiça a serviço dos potentados locais e
desejando fazer justiça pelas próprias mãos, entram no cangaço
para reencontrar sua respeitabilidade.

O cangaceiro, vivendo então na clandestinidade, excluía-se


voluntariamente da sociedade para criar os meios de recuperar
sua honra e a de sua família e reintegrar-se, em seguida, a essa
mesma sociedade. Essa atitude vingativa tinha um sentido no seio
dessa sociedade: o sertanejo identificava-se de bom grado com
essa personagem de bandido de honra, dotado de virtudes e
qualidades heroicas, encarnando a valentia e a liberdade.

Portanto o cangaço era, em geral, uma fase transitória na vida do


sertanejo que pegava em armas, e deixa de sê-lo quando Lampião
se torna o “Rei do cangaço”, distanciando-se progressivamente das
virtudes e valores do banditismo de honra. - (blog canoadetolda).

O povo sertanejo nunca admirou criminosos. Algumas pessoas são


enganadas por aqueles que querem "branquear" a história de
bandidos e querem confundir os incautos com a admiração que o
sertanejo tinha e tem por homens valentes. Isso sempre foi assim.

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A sua formação, criados de forma mais "guerreira" - digamos


assim - o predispõe para reconhecer aqueles que têm coragem de
enfrentar o sistema, que os explora - e que também explora não
só nas relações financeiras, mas também em autoridade, quando as
injustiças são sentidas. Essa é a história inventada pelos poetas
cordelistas, pois sabendo que o povo admira e exalta a valentia,
criam em suas mentes férteis de poetas, pedras brutas e calhaus
em joias valiosas de ouro e diamantes

Segundo Luís da Câmara Cascudo, "durante séculos, enquistado e distante


das regiões policiadas e regulares, o sertão viveu por si mesmo, com seus chefes e
milicianos. As primeiras sesmarias, no longínquo século XVII, trouxeram o sesmeiro
com seus trabalhadores que eram, nos momentos em que a indiada assaltava,
homens de armas." e isso trouxe anomalias sociais e injustiças.

E continua dizendo que foram "os mais ricos que deram os sargentos-
mores, os capitães-mores das ribeiras, títulos honoríficos mas de ação moral segura
para a disciplina da região. Os fazendeiros tiveram necessidade de tropa pessoal,
fiel e paga, para a defesa de propriedades visadas pelos adversários políticos."

E continua:
"A justiça, cara, lenta e rara, era vantajosamente substituída pelo Trabuco, numa
sentença definitiva e que passava em julgado sem intimação do procurador-geral.
Abria ensancha a uma série de lutas ferozes, de geração a geração, abatendo-se
homem como quem caça nambus. Das emboscadas, tiroteios, duelos de corpo a
corpo, assaltos imprevistos nas fazendas que se defendiam como castelos, batalhas
furiosas de todo um bando contra um inimigo solitário e orgulhoso em seu destemor
agressivo, nasciam os registos poéticos, as gestas da coragem bárbara, sanguinária
e anônima."

A aura poética foi a grande culpada - digamos assim - se bem que


não existe barreiras para a poesia, para o romance e nem para o
cinema - mas a grande questão é como separar a inspiração irreal
da verdade.

Por exemplo, um dos focos poéticos dos cantadores de feira,


tanto no sertão de outrora, quanto na modernidade, faz que os

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poetas cordelistas enfoquem sempre que os cangaceiros


tornaram-se "fora da lei" por conta de injustiças cometidas contra
eles ou familiares. Lógico que em alguns casos, isso aconteceu sim.
Mas em outros, esses cangaceiros antes que a "lei dura" ao
combate do banditismo chegasse a eles ou seus familiares, com a
sanha desnaturada de violência, já tinham cometido malfeitos.

Daí isso tornava-se indistinto para a maioria, pois como fazer


distinção do cangaceiro do homem valente? No cangaço não
sobrevivia quem era "frouxo". Só os valentes sobreviviam aos
ataques de uma polícia que era violenta; e tornavam-se admirados,
não por seus roubos e assassinatos, mas por não demostrarem
medo, até que um dia eram mortos e daí se já eram cantados em
vida, quando mortos viravam fontes de enaltecimento pelos poetas
cordelistas do sertão.
"Raramente sentimos, nos versos entusiastas, um vislumbre de crítica ou de
reproche à selvageria do assassino. O essencial é a coragem pessoal, o
desassombro, a afoiteza, o arrojo de medir-se", nos alerta Câmara Cascudo.

O sertão nordestino nos mostra que temos muito dos povos


ibéricos, principalmente de Portugal e Espanha, e sua presença no
mundo. De matriz globalmente latina, os ibéricos tiveram uma
profunda influência no planeta a partir do século XV, inaugurando
a expansão ultramarina europeia e espalhando as suas culturas e
as suas línguas por todos os continentes, mas especialmente pela
América Latina. Por sua vez, além de seus costumes, trouxeram
também outros que em suas aventuras de busca de rotas
comerciais adquiriram. Daí as tradições cantadas, indumentárias
de couro dos vaqueiros, as armas brancas. Tudo isso veio de lá, de
terras ultramarinas.

O canto das aventuras dos heróis, onde a poética que tudo pode,
transformou o cangaceiro nordestino, por sua valentia em tais. Em
todos os povos existe isso. Na Inglaterra com Robin Hood, em

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Portugal tem Zé do Telhado, na França com Pierre de la Brosse, na


Itália com Gasparone, com Bonnacchocia, com Nino Martino, com o
napolitano Perella, o corso Romanetti cujo enterro, em Ajaccio, a
29 de maio de 1926, foi acompanhado por 30.000 pessoas e a
polícia teve de ser recolhida, "por precaução" aos quartéis, para
evitar "conflitos com o Povo". (Gustavo Barroso — "Almas de Lama
e de Aço", p. 110.)
"Não é doutra origem o halo popular que sempre cercou Ciro Annichiarico, dom
Gaetano Vardareili que se fez padre ou Louis Mandrin, contrabandista e assaltador,
adorado pelos aldeões franceses que o têm como herói legítimo. Como o cangaceiro
é a representação imediata da coragem, o sertanejo ama seguir-lhe a vida
aventurosa, cantando-a em versos." (Luis da Câmara Cascudo - "Vaqueiros
e Cantadores" pg 161)
Criando Deus o Brasil,
desde o Rio de Janeiro,
fez logo presente dele
ao que fosse mais ligeiro:
O Sul é para o Exército!
O Norte é prá Cangaceiro! ...

Antônio Silvino, o "Rei do Sertão", durante vinte anos de domínio


absoluto, era tido pelos cantadores como um ser infeliz, obrigado
a viver errante por ter vingado a morte de seu Pai.

Eu tinha quatorze anos,


quando mataram meu pai.
mandei dizer ao cabra:
Se apronte que você vai
Se esconda até no inferno
de lá mesmo você sai.

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29 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Para Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, a história é a


mesma:
Assim como sucedeu
ao grande Antônio Silvino,
sucedeu da mesma forma
com Lampeão Virgolino,
que abraçou o cangaço
forçado pelo destino .

Por que no ano de Vinte


seu Pai fora assassinado
da rua da Mata Grande,
duas léguas arredado.
Sendo a força de Polícia
Autora deste atentado ...

Lampeão desde esse dia


jurou vingar-se também,
dizendo: — foi inimigo,
mato, não pergunto a quem...
Só respeito neste mundo
Padre Cisso e mais ninguém! ...

A exaltação dos cantadores pelas façanhas de Antônio Silvino


chegara ao delírio. Subia das gargantas um hino áspero, selvagem
e tremendo de glória rude, tempestuosa e primitiva.

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30 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Cai uma banda do céu,


seca uma parte do mar,
o purgatório resfria,
vê-se o inferno abalar ...
As almas deixam o degredo,
corre o Diabo com medo,
o Céu Deus manda trancar!

Admira todo o mundo


quando eu passo em um lugar.
Os matos afastam os ramos,
deixa o vento de soprar,
se perfilam os passarinhos,
os montes dizem aos caminhos:
Deixai Silvino passar! ...

Assim mesmo inda há lugar


que eu passando tocam hino,
o preto pergunta ao branco,
pergunta o homem ao menino:
— Quem é aquele que passa?
E responde o povo em massa:
— Não é Antônio Silvino?

Pergunta o vale ao outeiro


o ima à exalação,
o vento pergunta à terra,

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31 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

e a brisa ao furacão,
respondem todos em coro:
— Esse é o Rifle de Ouro,
Governador do Sertão! ...

E a Lampião afirmam, nos versos que lhe são continuamente


dedicados:
O cangaceiro valente,
nunca se rende a soldado,
melhor é morrer de bala,
com o corpo cravejado,
do que render-se à prisão,
para descer do sertão,
preso e desmoralizado...

Para Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, a história é a mesma.


A exaltação dos cantadores pelas façanhas dos valentes. Preso a
28 de novembro de 1914, Antônio Silvino, o "Rifle de Ouro" tornou-
se um homem digno da viva simpatia que o cercou. O Governo
Federal indultou-o e, a 19 de fevereiro de 1937, o "Rei do Sertão",
velho, encanecido, risonho, mas impassível, deixou a prisão. Herda-
lhe a fama o sinistro Lampião, cangaceiro sem as tradições da
valentia pessoal, de respeito às famílias que sempre foram
apanágios do velho Silvino.
"A gesta do Cangaceiro faz ressaltar as grandes e pequenas figuras do "cangaço".
Desde o negro Vicente que confessava:
Eu sou negro ignorante
só aprendi a matar,
fazer a ponta da faca,

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limpar rifle e disparar,


só sei fazer pontaria,
e ver o bruto embolar.

Câmara Cascudo também fala de outros bandidos famosos, "... de


valentia louca e não menor arrogância. Cirino Guabiraba, da Serra
do Teixeira, Paraíba, sabendo que ia ser cercado por dez homens
comandados pelo delegado Liberato:
Cirino disse sorrindo:
— Com isso eu não tomo abalo,
dez homens contra mim só
são dez pintos contra um galo,
para eu matar eles todos,
basta os cascos do cavalo! ...

E morreu em luta, um contra dez, arrancando os intestinos


varados a bala de latão e chumbo grosso.

O sertão guarda a lembrança dessas dinastias de facínoras,


heróis e bandidos, e deles evocava suas gestas e valentias. Até que
surgiu alguém, um cantador chamado José Patrício que em seus
verso entoados nas feiras do Interior paraibano, mostrava com
crueza, a ausência daqueles valentes, pois estavam mortos:
Então, me diga onde estão
os valentões do Teixeira?
onde estão os Guabirabas?
Brilhantes, de Cajazeiras?
Aonde vivem estes homens
que eu não os vejo na feira?

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33 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

E como o sertanejo deduz de toda luta um aspecto moral, um


direito preterido, um patrimônio violado, os poetas populares
dizem que é o desrespeito às minorias, que nunca se fizeram sentir
ante a arbitrariedade dos governadores, um dos motivos da eterna
guerra. Daí o endeusamento aos valentes, confundindo com as
injustiças que alguns sofreram, com sua luta como se fosse pela
justiça social.
Este governo atual Julga
que a oposição
não tem direito ao Brasil,
pertence a outra nação...
Devido a isso é que o rifle
tem governado o sertão! ...

E os cangaceiros convencem-se de seu papel de justiça social,


defendendo pobres e tomando dinheiro aos ricos. Lampião
confessa:
Porém antes de eu ser preso,
Hei de mostrar o que faço,
dar surra em cabra ruim
roubar de quem for ricaço.
Só consinto em me pegar
no dia em que alguém pisar
em cima do meu cangaço ...

Quando Antônio Silvino percorria o Nordeste com seu bando, os


cantadores, aludiam, com uma naturalidade espontânea, ao seu
"serviço" social:
O forte bate no fraco,
o grande no pequenino,

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34 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

uns se valem do Governo,


outros de Antônio Silvino,
O rifle ali não esfria
sacristão não larga sino...

Como nos diz Câmara Cascudo: "A gesta é uma poesia de ação. De luta e
de movimento. Não há a sensação da paisagem da natureza e do cenário. Verso
descrevendo esses elementos denuncia inteligência semiletrada e nunca a
produção se destina aos lábios dos cantadores. Os cangaceiros são as figuras
anormais que reúnem predicados simpáticos ao sertão. A coragem, a tenacidade, a
inteligência, a força, a resistência eram elementos para a exaltação." (Luis da
Camara Cascudo - "Vaqueiros e Cantadores" pg 164)

E como isso afetava de sobremaneira o povo sertanejo, esses


predicados foram os preferidos dos poetas cordelistas e cabe aos
pesquisadores e historiadores, desfazerem o mito criado.

Os poetas, escritores, cineastas profissionais ou amadores,


exercendo atividades criativas e técnicas, podem tudo. Podem
contar a história como foi e é, mas também podem viajar na ficção,
deixando que suas mentes vagueiem na criação de situações que
nunca ocorreram, ou enfeitarem a narrativa e o visual, com a
percepção ficcional.

Já os historiadores e pesquisadores, ao fornecerem material


colhido, devem ser isentos e registrarem literalmente o que
ocorreu, deixando tudo como aconteceu, fazendo apenas a
narrativa que encontraram, sem envolvimento emocional de pender
para quaisquer lado. Apenas a realidade do passado e presente
interessa para tais.

Muitos livros trazem como objetivo principal trazer


esclarecimentos considerados extremamente valiosos no que se
refere à história. E na história do cangaço na época de Virgulino
Ferreira da Silva, o célebre "Lampião", não pode ser diferente. Os

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35 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

historiadores e pesquisadores, de posse desse material, e que


também se tornam escritores, devem mostrar o real papel de
homens e mulheres envolvidos na saga, como bem o diz Manoel de
Souza Ferraz, o Manoel Flor, um dos principais combatentes
de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião; quando mostra que
o cangaço "foi exaltado pela literatura popular sertaneja, mormente em sua forma
mais difundida, a poesia. Nela, até os criminosos reconhecidamente empedernidos
podiam ser glorificados nas ilusões do cancioneiro.”
A origem da palavra Sertão

Há duas versões para explicar a


origem da palavra Sertão,
durante a colonização do Brasil
pelos portugueses. A primeira
sustenta que ao saírem do litoral
brasileiro e se interiorizarem,
perceberam uma grande A seca no sertão de Ivan
diferença climática nessa região Acervo Fundação Joaquim Nabuco

semiárida. Por isso, a chamavam de "desertão" ocasionado pelo


clima quente e seco. Logo, essa denominação foi sendo entendida
como "de sertão", ficando apenas a palavra Sertão. A segunda
versão, mais confiável, descreve a palavra como sendo derivada da
palavra latina “sertanus”, que significa área deserta ou desabitada,
que por sua vez deriva de “sertum”, que significa bosque.

Durante muito tempo seus limites territoriais foram pouco claros;


o sertão se definia primeiro como uma zona "interior", e depois
passou a ser visto negativamente como o invertido da região
litorânea do Nordeste: zona árida, pouco povoada, assolada pela
miséria e pela seca, exposta à violência, ao banditismo, à injustiça,
ao fanatismo religioso, isolado da civilização.

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36 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Por sua vez, certos autores dirão nesse território fechado está
preservado um mundo desaparecido, que nele sobrevivem
costumes e uma linguagem que remontam ao século XVI.

Nas representações, o sertão tem, portanto, uma dupla


identidade: região atrasada, de cultura arcaica, e ao mesmo tempo
memória viva, "quadro arqueológico da sociedade brasileira", na
expressão de Luís da Costa Pinto.

Essa região estende-se por oito Estados do Nordeste brasileiro:


Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas,
Sergipe e Bahia. Cobre uma superfície de Um milhão de
quilômetros quadrados, perfazendo um oitavo do território
brasileiro.

Quando se está no Nordeste do Brasil, o sertão principia ao se


avançar para oeste, para o interior das terras e quando se chega
às vastas regiões castigadas pela seca, onde cresce uma vegetação
quase sempre cinzenta ou prateada.

Distinguem-se três tipos de vegetação:

1 - A caatinga,

2 - Os cerrados

3 - Os cerrados fechados.

O vaqueiro no sertão de J. Miguel


Acervo Fundação Joaquim Nabuco
Ali onde as chuvas são escassas, estamos na caatinga ou região
árida, recoberta de arbustos e de árvores que não ultrapassam os
seis ou sete metros de altura, de cactos e outras plantas
espinhosas. A vegetação é insuficiente para os rebanhos. Na

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linguagem popular, o termo geral caatinga, de origem indígena,


significava apenas que o terreno estava aberto por causa da falta
de água e dos arbustos espaçados.

Lampião e seus homens viviam principalmente nos cerrados, zonas


de solo argiloso que conservam melhor a umidade, onde, entre as
árvores mais ou menos nodosas, crescem gramíneas que
constituem excelentes pastagens para o gado, que pasta até os
galhos dos arbustos. Os cerrados fechados, isto é, terras onde a
vegetação e as árvores são mais densas, serviam de esconderijo
para os bandidos. Eles se escondiam com maior dificuldade nos
cerrados ralos, onde os arbustos, distantes uns dos outros,
ofereciam maior visibilidade e facilitavam a circulação.

Foi essa região que Lampião e seus cangaceiros devastavam,


pilhavam; percorreram e dominaram durante perto de vinte anos,
até serem exterminados pelas forças policiais, no dia 28 de julho
de 1938. Seus cadáveres, decapitados, foram transportados de
cidade em cidade até chegarem ao Instituto Nina Rodrigues de
Salvador, onde foram expostos e submetidos a estudos
frenológicos, uma pseudociência que alega que a forma e
protuberâncias do crânio são indicativas das faculdades e aptidões
mentais de uma pessoa.

Com frequência o sertão foi qualificado como "quadrilátero da


fome" ou "polígono da seca", território hostil que contrasta
fortemente com a paisagem luxuriante e acolhedora do litoral
nordestino. É um território frequentemente devastado por
períodos de seca que podem estender-se por vários anos, às vezes
seguidos de chuvas torrenciais tão devastadoras quanto as secas.

Nessas condições, o trabalho da terra e a criação de animais –


principais atividades econômicas da região – impõem uma
capacidade de improvisação diante de um cotidiano instável e num

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meio ambiente permanentemente agressivo, que tornam


necessários os agrupamentos e as relações de dependência entre
indivíduos, razão pela qual a família, no sentido estrito e no sentido
amplo, desempenha aí um papel essencial.

A organização política e social do sertão

A organização política e social do sertão articula-se em torno do


fazendeiro, que é dono de sua terra. Ao redor do núcleo central
constituído pela família de um fazendeiro gravitam outras células
familiares, ligadas a ele por laços de subordinação, de serviços e
de compromissos mútuos. De fato, instaura-se uma hierarquia
entre o fazendeiro, que possui a terra e o gado e que não raro
detém o poder político, o vaqueiro, responsável pelo gado e que
possui ele mesmo algumas reses, e o morador, ligado ao fazendeiro
por um contrato verbal, que cultiva uma terra cedida por ele
mediante certos compromissos ou serviços e que, de certo modo,
é propriedade dele.

Entre esses diferentes grupos existem muitas vezes laços de


parentesco simbólicos baseados no sistema do compadrio. Eles
atenuam as clivagens sociais, humanizando-as, conferindo-lhes
uma "coloração afetiva", perpetuando essas clivagens e
preservando nelas as relações de autoridade. Durante a monarquia
o povo do sertão era ajustado, isto é, submetido a um chefe
político regional que era proprietário das terras e detinha todos
os poderes. Em troca de seu trabalho, o sertanejo recebia uma
proteção de tipo patriarcal. Os proprietários de terras tinham
direitos sobre o indivíduo, mas também deveres, como o de
alimentá-lo durante a seca ou protegê-lo quando irrompiam brigas
entre famílias. Essa situação pouco mudou com o passar do tempo.

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A Solidariedade do Sertanejo

Não se deve nunca subestimar os laços de solidariedade que unem


os membros de um mesmo grupo de parentesco. Mesmo quando
este se dispersa e aparentemente se divide pelo sertão afora, eles
permanecem fortes e se impõem no momento das secas ou por
ocasião das lutas entre famílias que se tornaram inimigas.

O poder de um indivíduo na sociedade se mede pelo número de


homens que dependem dele. É esforço contínuo para manter
relações de dominação, de dependência e de trocas mútuas. Jean
Orecchioni nos diz que as hierarquias no interior de cada grupo,
cuja célula de base é a família no sentido amplo do termo, se
baseiam no "poder efetivo", isto é, no por isso que as relações
sociais se inscrevem em um peso que representa um indivíduo na
sociedade, no crédito moral do qual usufrui, na extensão da
autoridade da qual dispõe, na eficácia dos meios que pode
empregar para impor sua vontade, fazer respeitar sua pessoa e
seus bens, assegurar a proteção de todos aqueles que gravitam ao
seu redor, pelos quais ele é responsável. Tais são as principais
noções que o conceito de prestígio comporta - aquele famoso
prestígio que parece ser o valor por excelência em função do qual
se organiza toda essa sociedade. A perda do prestígio é a
desmoralização, verdadeira palavra-chave que perpassa todos os
fatos pelos quais se manifesta o enfraquecimento da posição de
um indivíduo: ser preso em razão de um delito, por exemplo, é uma
desmoralização, uma falta de consideração, o sinal de que a pessoa
não vale nada; ser recrutado pelo exército, durante o Império,
também era uma desmoralização; ter um favor recusado, em vários
casos, é outra. E isso vale não somente para o preso ou para os que
são recrutados ou despedidos (se o fato vem a ser conhecido), mas
também para aquele a quem ele está ligado, de quem é "cliente" no
sentido romano - e que ele chama, com efeito, seu "patrão". Este

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vai, aliás, interceder a favor de seu protegido, deixando bem claro


que lhe fizeram uma afronta pessoal e que deve ser reparada o
mais rápido possível. E é pelo sucesso de sua intervenção que se
medirão o seu prestígio, o crédito que lhe é concedido "em cima" e
aquele, portanto, que lhe pode ser concedido "embaixo". O
controle político de uma região se consegue não raro pela violência
e caracteriza-se pelas lutas mortais entre facções rivais. A
violência é constitutiva dos laços políticos, e só através dela é que
se estabelece a dominação de um território. Ser destituído do
poder em um município significa não somente perder o "prestígio"
mas também ser afastado da comunidade pelos que detêm o poder
judiciário e policial.

As formas de violência no sertão são inseparáveis do modo de vida


de seus habitantes tanto no exterior como no interior de um grupo.
A violência pode manifestar-se sob a forma de conflitos entre
vizinhos, de lutas sangrentas entre famílias rivais ou de conflitos
políticos entre potentados locais, os coronéis, para a dominação de
uma região. A marca da violência está presente desde a
colonização portuguesa, quando o domínio do sertão passava pela
luta contra os índios pela apropriação de um território. A violência
foi rapidamente legitimada em uma sociedade nascente para se
tornar o único recurso moralmente tolerado.

Uma das hipóteses da legitimação da violência seria a ausência de


representação do poder do Estado no sertão e a predominância do
poder privado ligado à posse da terra. No período que nos
interessa, essa delegação existe, mas os representantes do poder
(justiça, principalmente polícia) ou estão submetidos aos
potentados locais – os coronéis -, ou são obrigados a se retirarem,
impotentes para exercer suas funções.

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Os Conflitos Familiares

Desde a colonização do Brasil no século XVI o sertão foi palco de


lutas entre famílias inimigas sequiosas por enriquecer seu
patrimônio e estender sua dominação política a determinada
região. Sob o Império, e muito mais a partir da segunda metade do
século XIX, os conflitos entre famílias visavam principalmente ao
controle político das câmaras municipais; dessa forma os
potentados locais eram capazes de ocupar funções no governo de
cada província. Essas lutas pelo poder dividiam a comunidade local
em facções políticas rivais, que envolviam para cada uma delas não
só um chefe de clã mas também todos os sertanejos sob sua
dependência.

No Império, o governo central não tinha uma política definida com


relação a essas lutas de clãs. Ás vezes arbitrava conflitos ou
tentava uma reconciliação entre dois campos adversos propondo
um tratado de paz, mas essas iniciativas eram muito raras.

Governo Flexível à Política dos Coronéis

Nas palavras de Amaury de Souza: “Ao adotar uma estratégia altamente


flexível para com estas lutas, o governo central e os seus representantes, os
presidentes das províncias, habilitavam-se a endossar a doutrina do fato
consumado, aceitando qualquer vencedor como o legítimo representante da
comunidade. Ao assim fazer, confinava a violência aos níveis mais baixos do
sistema, reduzindo as lutas pelo poder político a um problema exclusivamente local,
cuja solução deveria ser encontrada pelos clãs. A autoridade dos chefes locais era
a contraparte estratégia governamental.
A sociedade do sertão organizava-se em torno da noção de poder privado, do
exercício privado de uma certa forma de justiça na qual o respeito da lei
consuetudinária prevalecia sobre a lei instituída.
No seio da comunidade do sertão, a ação governamental limitava-se ao recebimento
dos impostos e nunca interferia nas decisões dos clãs; não existia nenhum código,
nenhuma lei escrita. Era o chefe político que encarnava a lei. Em um município as
forças de polícia estavam diretamente sob as ordens do juiz de paz, que por sua vez

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era eleito localmente, escolhido entre os notáveis. Essa situação reforçava de


maneira evidente o poder dos potentados locais – os coronéis – em detrimento do
poder da administração central.”

No sertão os cargos de coronel eram reservados aos chefes


políticos do município. Desde fins do século XIX, o termo coronel
designava um proprietário de terras que, dominando politicamente
um município, exercia um poder de tipo patriarcal sobre parte da
população. Seu poder era determinado pelo número de pessoas que
trabalhavam para ele e aos quais assegurava a proteção em troca
de votos, mas também pela quantidade de homens armados de que
dispunha para garantir o seu poder.

Em 1900, nove anos após a promulgação da Constituição de 1891,


que lançou as bases da República e reforçou a autonomia política e
administrativa dos Estados federados do Brasil, assistimos, sob a
presidência de Prudente de Morais, ao estabelecimento de
acordos entre os chefes locais e os dirigentes dos governos de
diferentes Estados da Federação; os potentados locais, ou
coronéis, em virtude do poder que exerciam sobre a população
local, garantiam certa quantidade de votos em favor do candidato
ao cargo de governador: é o chamado "voto de cabresto"; os
governos, em troca, lhes deixavam certa liberdade de ação na
região e lhes permitiam o controle do aparelho governamental em
nível local. Esses chefes controlavam, entre outras coisas, a
magistratura e a polícia. Essa política foi chamada de "política dos
governadores".

O fim da República Velha

A Revolução de 1930 pôs fim à República Velha e ao sistema


oligárquico sobre o qual ela repousava. Quando tomou o poder, no
dia 3 de novembro de 1930, Getúlio Vargas lançou as bases de um
Estado centralizado; sem realizar eleições, entre 1930 e 1932
nomeou quase todos os governadores federais, chamados a partir

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de então de interventores; quase todos eram militares ligados à


Aliança Liberal, o partido de Vargas. Para o Nordeste os
interventores não podiam ser do Estado que iriam dirigir, isto é,
não deviam ter laços políticos com as oligarquias locais.

No sertão, uma das primeiras decisões dos interventores


consistiu em desarmar os chefes políticos locais, prender alguns
deles e despojá-los de seus poderes discricionários. As intenções
do governo eram claras: tratava-se de concentrar o aparelho
administrativo e policial nas mãos do Estado. O governo
revolucionário substituiu os prefeitos hostis, reforçou o controle
do financiamento dos municípios e centralizou a justiça. O Estado
Novo, ditadura imposta por Getúlio Vargas em 1937, completou
uma primeira etapa de centralização do Estado e pôs o poder
judiciário sob o controle do poder central.

Entretanto, o esforço permanente do poder central para


controlar e dominar o sertão revelava-se muitas vezes ilusório,
pois sua margem de manobra era limitada: os potentados locais
continuavam a dominar a vida política, pois o aparelho judiciário e
policial e a população do sertão permaneciam, em grande parte, sob
sua dependência.

As revoltas camponesas

Essa população já se rebelara algumas vezes no passado; as


revoltas camponesas nunca eram dirigidas contra os coronéis, e
sim contra um poder central anônimo e distante. Citemos, por
exemplo, a insurreição que eclodiu em 1852 na região de Pau
d'Alho, conhecida em Pernambuco pelo nome de “Revolta dos
Marimbondos".

O Levante dos Marimbondos, ou Guerra dos Marimbondos em


1852, foi um levante nas províncias do Nordeste, em especial
Pernambuco, Ceará, Alagoas e Rio Grande do Norte, de pequenos

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agricultores inconformados com a promulgação, em 1851, do


Regulamento do Registro dos Nascimentos e Óbitos no Império e
da lei que instituía a realização de um censo.

Tal regulamento visava a registrar civilmente a população


brasileira, todavia, os sertanejos, livre e alforriados, viam na
passagem do registro da igreja para o Estado como um meio de
reverter a sua situação, levando-os novamente ao cativeiro. Em
decorrência do levante, o Império desistiu de sua implantação, que
só veio a se concretizar depois da Proclamação da República
Brasileira.

No Estado da Paraíba, esse mesmo movimento, recebeu o nome


de "Ronco da Abelha”.

Citemos ainda a revolta dos "Quebra-Quilos" após a instituição do


sistema métrico adotado no Brasil em 1862 e tornado obrigatório
em 1873. Camponeses e pequenos comerciantes do sertão e do
interior do Nordeste (Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba,
Pernambuco, Alagoas) organizaram-se em grupos e enfrentaram a
polícia local.

Invadiram os mercados, destruíram os instrumentos de medida


"do governo" e depois atacaram os arquivos municipais, os arquivos
dos notários e as repartições de arrecadação fiscal, incitando a
população a se recusar a pagar os impostos. A resposta foi terrível.
Mais de mil soldados enviados ao Estado da Paraíba cometeram
todo tipo de violência e prenderam todos os homens em idade de
trabalhar, o que resultou em desastrosas perdas para a economia.

Esses movimentos expressaram a recusa da população sertaneja


a aceitar as reformas ou um sistema de valores impostos do
exterior por um governo distante e para eles, sociedade do sertão
possa parecer profundamente injusto, não deixando nenhuma

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45 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

margem de manobra, nenhuma liberdade ao indivíduo isolado, essa


ordem não tinha sentido para qualquer sertanejo.

A revolta individual

A revolta individual de um sertanejo atingido em sua honra ou


privado injustamente dos seus bens, que luta para restabelecer
seus direitos diante de um inimigo que ele conhece bem, que tem
os mesmos códigos que ele, não tem nada de semelhante com a
revolta coletiva dirigida contra as medidas que vêm de certa forma
"do outro lado do mundo" ou "do outro lado da fronteira". Se nos
colocamos de um lado ou de outro dessa fronteira, não podemos
nos esquivar à clivagem entre o "aqui" e o "lá", a qual não cessa de
se construir desde que essa terra longínqua ou estrangeira se
chame sertão.

Mas foi incontestavelmente quando irromperam movimentos que


se pôde qualificar de messiânicos que o poder central se chocou
com uma organização totalmente autônoma, ao mesmo tempo
distante do jogo político e da economia local e fora do seu
controle. Foram movimentos populares não-violentos.

"Aqui, muito mais que sublevação, trata-se de secessão", diz Jean


Orecchioni, e é certamente por causa dessa característica de
secessão que a repressão foi tão violenta, tão radical.

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Os Movimentos Messiânicos

Esses movimentos caracterizam-se


pela emergência de um ou diversos
profetas, espécies de messias que
anunciavam o fim dos sofrimentos
para um povo arruinado pela miséria.

Os Profetas do Sertão
Em torno de chefes carismáticos reuniram-se fiéis e formaram
comunidades que viveram em autarquia, isoladas da comunidade do
sertão. Jean Orecchioni enumera no Brasil dezoito movimentos
desse tipo desde 1817, a maioria dos quais se desenvolveu no
sertão do Nordeste. Temos o movimento de Canudos, com o qual
se chocou a República recém-instalada, dominada pela figura
carismática de Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido como
Antônio Conselheiro, Santo Antônio dos Mares, Santo Antônio
Aparecido ou Bom Jesus Conselheiro.

No dia 13 de junho de 1893, Antônio Conselheiro e seus fiéis


instalaram-se em Canudos, em plena caatinga do sertão baiano, nas
margens do rio Vaza-Barris. Essa localidade, cercada de colinas,
foi rebatizada de Belo Monte. Pouco a pouco a povoação organizou-
se, desenvolveu-se economicamente e acolheu milhares de fiéis
(fala-se em 25 mil, com um número considerável de ex-escravos.
Canudos torna-se a localidade mais importante da Bahia depois da
capital, mas também um lugar onde se implantou um sistema de
autonomia econômica e de vida comunitária que mantinha, ao
mesmo tempo, relações comerciais com as demais comunidades dos
arredores. A constituição de uma milícia chamada Guarda Católica
mostra como era importante defender e reivindicar essa terra –
terra prometida - apropriada pela comunidade.

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Em dois anos, os proprietários rurais da região tinham perdido


grande parte de sua mão-de-obra, que se instalou em Canudos. Para
as elites políticas republicanas, a existência dessa comunidade
contrariava os projetos de "modernização" e "unificação nacional"
e revelava as diferenças profundas que existiam entre dois
mundos e duas culturas estranhos uns aos outros: os do sertão e
os do litoral. Para a nascente República, somente a erradicação
desse movimento de contestação permitiria instalar a autoridade
pública nessa região considerada arcaica por suas elites. O que
deveria ser uma luta do Brasil republicano contra uma "seita
político-religiosa" converteu-se na luta fratricida mais terrível
que o Brasil jamais conhecera.

A Guerra de Canudos começou em novembro de 1896. Foram


necessárias quatro expedições militares que reuniram, no final,
contingentes de soldados e de oficiais de todos os Estados do
Brasil para erradicar esse movimento.

Ninguém teria imaginado a força de convicção e o ardor guerreiro


dos fiéis de Antônio Conselheiro. Os combates foram terríveis; os
soldados que chegaram a esses territórios desconhecidos e hostis
- mal equipados, ignorando totalmente um meio que eram incapazes
de dominar, falando o tempo todo de sua volta ao "Brasil" quando
os combates terminassem - perpetraram atrocidades
proporcionais à singularidade do inimigo sertanejo. Era preciso
apagar, principalmente, todo traço físico e material dessa
comunidade. Ou melhor, voltar a se apropriar dessa terra que, aos
olhos da República, tinha sido usurpada.

De Canudos não deveriam restar nem cidade, nem locais


simbólicos, nem combatentes. Canudos caiu no dia 5 de outubro de
1897, mas não se rendeu, e no dia 6 suas 5.200 casas estavam
arrasadas. Antônio Conselheiro, morto antes do assalto final, foi
retirado da fossa onde o tinham enterrado e fotografado com o

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fim de estabelecer sua identidade de maneira indubitável – a


fotografia opondo seu caráter irrefutável à força da crença que
nega a morte dos heróis. Decapitou-se o cadáver. A cabeça,
verdadeiro troféu de guerra, foi transportada de cidade em
cidade até Salvador, onde a turba em júbilo pôde, finalmente,
expressar sua satisfação por ter vencido o obscurantismo e o
fanatismo. Em seguida a cabeça de Antônio Conselheiro foi
conduzida ao Laboratório de Medicina Legal de Salvador para que
Nina Rodrigues - discípulo brasileiro de Lombroso – fizesse
estudos frenológicos com o objetivo de identificar nela uma
possível degenerescência. Essa providência prenunciou o destino
do cadáver de Lampião.

Ao evocar a Guerra de Canudos e a erradicação do movimento


chefiado por Antônio Conselheiro, seus contemporâneos utilizam
frequentemente a noção de desequilíbrio. Desequilíbrio mental do
chefe carismático que trouxe o caos que, de repente, tomou conta
de toda a região. A resposta ao caos foram a violência, a
brutalidade extrema e a mutilação dos instigadores desse
desequilíbrio, como se não pudesse haver, diante do sertão ou no
sertão, outra forma de discurso além da violência.

O sertão apareceu aos olhos dos contemporâneos de Canudos, e


mais tarde aos olhos dos contemporâneos de Lampião, como uma
região vergada "sob o peso" de múltiplos fenômenos adversos,
onde a população, às voltas com a seca devastadora, a miséria, as
lutas políticas fratricidas e o banditismo endêmico, oscila entre a
resignação, a desesperança e a revolta.

Vejam o documentário “Canudos - O massacre dos pobres”


https://www.youtube.com/watch?v=LPoF7GPPEc4&feature=youtu.be

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O massacre de Caldeirão de Santa Cruz do Deserto

Outro movimento messiânico foi


o de Caldeirão da Santa Cruz do
Deserto ou Caldeirão dos
Jesuítas, movimento messiânico
que surgiu nas terras do Crato,
Ceará.

Sobrevivente do Caldeirão de Sta.


Cruz
A comunidade era liderada pelo paraibano de Pilões de Dentro,
José Lourenço Gomes da Silva, mais conhecido por beato José
Lourenço.

José Lourenço trabalhava com sua família em latifúndios do


sertão da Paraíba. Decidiu migrar para Juazeiro do Norte, onde
conheceu o Padre Cícero e ganhou sua simpatia e confiança. Em
Juazeiro, conseguiu arrendar um lote de terra no sitio Baixa
Dantas, no município do Crato. Com bastante esforço de José
Lourenço e os demais romeiros, em pouco tempo a terra prosperou,
e eles produziram cereais e frutas. Diferente das fazendas
vizinhas, na comunidade toda a produção era dividida igualmente.

José Lourenço tornou-se líder daquele povoado,


e se dedicou à religião, à caridade e a servir ao
próximo. Mesmo analfabeto, era ele quem dividia
as tarefas e ensinava agricultura e medicina
popular. Para o sítio Baixa Dantas eram enviados
por Pe. Cícero

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Todos os pobres e miseráveis, enfim, pessoas que precisavam de


ajuda para trabalhar e obter sua fé. Após o surgimento da Sedição
de Juazeiro, da qual José Lourenço não participou, suas terras
foram invadidas por jagunços. Com o fim da revolta, José Lourenço
e seus seguidores reconstruíram o povoado.

Em 1921, Delmiro Gouveia presenteou Padre Cícero com um boi,


chamado Mansinho, e o padre o entregou aos cuidados de José
Lourenço. Os inimigos de Padre Cícero, se aproveitaram disso
espalhando boatos de que as pessoas estariam adorando o boi como
a um deus. Por conta disso, o boi foi morto e José Lourenço foi
preso a mando de Floro Bartolomeu, tendo sido solto por influência
de Padre Cícero alguns dias depois

Isso como acontece até os dias de hoje, quando a situação dos


pobres vem a ter uma melhoria. Os "donos do poder" têm medo de
perder suas fortunas amealhadas com o "mais valia" dos pobres,
ou seja, sua mão de obra, seu trabalho, seu suor que irriga suas
fortunas.

Beato Lourenço e o jornalista Hildebrando Spínola

Foi uma luta pouco conhecida, que ocorreu no sertão do Ceará:


uma comunidade sertaneja, formada por camponeses que
partilhavam o trabalho e os produtos da terra, foi encarada como

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uma ameaça pelas oligarquias; a repressão militar contra ela


envolveu, pela primeira vez, o uso de aviação militar no Brasil.

No Nordeste a economia se baseava na agricultura e o homem do


campo via no latifúndio explorador o seu único meio de
sobrevivência, marcado por secas e o trabalhador rural sem opção,
ofertava mão-de-obra barata que o empobrecia e enriquecia cada
vez mais o seu patrão. A única saída dessa situação era entregar-
se a fé proclamada pelo messianismo religioso com a esperança de
dias melhores ou ao cangaço. É nesse cenário de miséria e pobreza
que surgem figuras messiânicas como Antônio Conselheiro e José
Lourenço.

No caso dessa comunidade religiosa, que assim como Canudos,


incomodou os coronéis da região, que exigiram providências do
governo Getúlio Vargas. Havia o medo que o beato José Lourenço
se transformasse em um novo Antônio Conselheiro. O Caldeirão de
Santa Cruz do Deserto, localizada no município de Crato, Cariri
Cearense era uma comunidade – que chegou a ter mais de duas mil
pessoas – liderada pelo beato José Lourenço, descendente de
negros alforriados e discípulo de Padre Cícero, que ousou desafiar
o poder dos latifundiários.

Ele propôs um sistema de trabalho coletivo e divisão dos lucros


para a compra de remédios e querosene, que alimentava as
lamparinas em um tempo em que ainda não havia luz elétrica. Além
disso, acolhia os flagelados da seca de 1932, que assolou o
Nordeste.

Os jornais - sempre eles -, iniciaram uma campanha de denúncias


contra a comunidade, acusando-os de profanos e fanáticos.

Em 1936, o Caldeirão foi invadido pelas tropas do tenente José


Góis de Campos Barros que, com muita violência e excesso,
expulsaram todos os moradores, saquearam e destruíram o sítio.

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José Lourenço conseguiu fugir, se refugiando na Serra do


Araripe com outros camponeses.

Severino Tavares, membro da comunidade, foi preso, mas jurou


vingança. Dito e feito: quando saiu da prisão, juntou alguns ex-
moradores do Caldeirão e atacou as tropas comandadas pelo
capitão José Bezerra. Isso foi o estopim para o conflito. Em 1937,
tropas de todo o estado foram enviadas para a serra do Araripe e
até aviões foram usados para bombardear a Serra. O número de
mortos é estimado entre 700 a 1000 camponeses.

José Lourenço conseguiu escapar do bombardeio e, após muitas


negociações, voltou para o Caldeirão. Mas não ficou muito tempo,
os padres salesianos o expulsaram e ele foi morar em Exu,
Pernambuco, onde faleceu em 1946, vítima da peste bubônica.

O documentário O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto (1985, 96


minutos), de Rosemberg Cariry, conta a história a partir de
depoimentos dos remanescentes e dos símbolos da cultura popular.
Vejam o vídeo nesse link
(https://www.youtube.com/watch?v=D5ypWasqXo0&feature=emb_logo)

O massacre do Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, que o Brasil


- O Brasil elitista, não viu.

Comunidade religiosa liderada pelo beato José Lourenço, dividia


produção e lucros. Foram acusados de comunistas, e massacrados
pelas forças militares em 1937.

A comunidade religiosa do Caldeirão, liderada pelo beato,


descendente de negros alforriados e discípulo de Padre Cícero,
ousou desafiar o poder do latifúndio e propor uma sociedade mais
justa e humanitária, mas foi brutalmente reprimida pelas forças
do estado. O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, no município de
Crato, Cariri Cearense, era composto por milhares de camponeses

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e romeiros que viviam na comunidade, trabalhavam coletivamente


e dividiam o lucro com a compra de remédios e querosene e outros
gêneros.

A comunidade chegou a ter mais de mil moradores e recebeu


flagelados da seca de 1932 que assolou o nordeste.

Foram bombardeados pelas forças do Governo Federal e da


Polícia Militar do Ceará e enterrados em vala comum. O episódio
pode ter sido o maior massacre da história brasileira, com mais de
mil mortos.

Hoje, com mais de oitenta anos depois, os corpos dos romeiros


ainda não foram encontrados e não existe um documento oficial
que registre o acontecimento. O Exército nega o massacre.

Em 2008, a ONG cearense SOS Direitos Humanos entrou com um


pedido na justiça pedindo a procura, identificação, enterro digno
e indenização dos descendentes dos mortos no Caldeirão. A ação
foi arquivada, mas a ONG pediu novas buscas à Justiça. Sempre a
justiça também. Lenta e abusiva, deixando sempre para traz
feridas abertas, que demoram a curar.

O banditismo de honra

Mas voltemos aos bandidos que assolavam o nordeste e os


sertanejos.

Um dos males que flagelaram durante décadas foi o banditismo


organizado ou banditismo de honra.

É verdade também que as zonas do litoral e do agreste nordestino


tinham conhecido, do mesmo modo, formas de banditismo de
grupo. Durante todo o período da colonização holandesa no
Nordeste, menciona-se a presença de grupos de bandidos
formados por desertores estrangeiros, por escravos e por

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brasileiros. Alguns chefes de bando eram holandeses, como o


célebre Abraham Platman, originário de Dordrecht, ou Hans
Nicolae, que aterrorizou a Paraíba à frente de trinta homens.

Tanto os escritos eruditos como os populares citam o célebre


José Gomes, alcunhado "O Cabeleira", originário de Pernambuco,
que disseminou o terror na segunda metade do século XVIII e foi
enforcado no Recife em praça pública.

Quando a zona litorânea do Nordeste se estruturou, foi instalado


um sistema administrativo repressivo. O banditismo retornou a
essa região para ganhar o sertão, onde se desenvolveu aquilo que,
a partir da segunda metade do século XIX, haveria de converter-
se no cangaço.

O Nascimento do Cangaço

Na realidade, não se sabe ao certo como nasceu o cangaço. As


informações colhidas em inúmeras obras que se debruçaram sobre
essa forma de banditismo não se referem a fontes históricas
irrefutáveis. Ainda que a sociedade sertaneja funcione baseada
principalmente na comunicação oral, existem documentos que na
maior parte são judiciários: registro de reclamações, autos de
ocorrência recolhidos por magistrados ou textos de julgamentos.
Há também certidões de estado civil, como também documentos
relacionados com heranças e vendas de terras.

Mas os autores que trataram do cangaço deram pouca importância


a esses documentos. Privilegiaram os testemunhos verbais, as
narrativas e tudo o que diz respeito à chamada "cultura popular",
da qual a literatura de cordel faz parte, como se o sertão não
pudesse possuir vestígios escritos de sua própria história.

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Além disso, até um período recente poucos historiadores


brasileiros estudaram essa região; a história do Nordeste é quase
que exclusivamente a história do litoral do Nordeste.

Etimologicamente, a palavra cangaço viria de canga, jugo, e


designaria, no "falar sertanejo", segundo nos diz Franklin Távora
em sua obra O Cabeleira, escrita em 1876, "o complexo das armas
que costumam trazer os malfeitores. O assassino foi à feira
debaixo do seu cangaço – dizem os habitantes do sertão.".

Para Gustavo Barroso, "o bandoleiro antigo sobrecarregava-se de


armas, trazendo o bacamarte passado sobre os ombros como uma
canga. Andava debaixo do cangaço".

Segundo Jean Orecchioni, os documentos mais antigos que fazem


referência ao termo cangaceiro datam, aproximadamente, de
1870: trata-se das Cenas Populares de Juvenal Galeno, obra
publicada em Fortaleza em 1871, e do trecho de um célebre
desafio, considerado histórico, que opôs Romano Caluête a Inácio
da Catinguera em Patos, na Paraíba. Um trecho desse desafio, no
qual aparece o termo cangaceiro, foi transcrito por Rodrigues de
Carvalho em sua obra Cancioneiro do Norte, publicada em 1903.

Jean Orecchioni cita também a obra Sertanejos e Cangaceiros,


publicada em 1934: seu autor, Abelardo Parreira, originário do alto
sertão de Pernambuco, afirma, sem indicar os documentos que lhe
serviram de fundamento, que já em 1844 havia "grupos de homens
armados, usando o nome de cangaceiros", espécie de milícias
privadas encarregadas por seus protetores e mandantes de
expulsar certas tribos indígenas. Finalmente, a obra Dona Guidinha
do Poço, de Oliveira Paiva, cuja ação se desenrola no Ceará em
meados do século XIX, faz alusão à "boa velha lei dos cangaceiros".

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Para Jean Orecchioni, a extraordinária preocupação com o


realismo que demonstra o tempo todo o romancista Oliveira Paiva,
nesta narração detalhada de um caso de adultério e de assassinato
que ficou célebre em Quixeramobim, torna pouco improvável um
anacronismo de linguagem.

É no início do século XX que, em algumas obras, o termo cangaço


define não apenas o conjunto de armas e de atributos guerreiros
exibidos por um bandido do sertão mas também um modo de vida,
uma forma particular de existência. O cangaceiro torna-se então
aquele que vive no cangaço e pelo cangaço.

Para Gustavo Barroso, escritor originário do sertão e


estabelecido na região litorânea, “[...] o cangaceiro do Norte é selvático e
feroz, sofrendo de um descalabro nervoso – produto da ancestralidade e do
cruzamento étnico.”

Cangaceiro é o homem que vive "debaixo do cangaço". O cangaço


não é somente, na linguagem sertaneja, o armamento do bandoleiro
é, também, o seu modo de vida nômade, desregrado e sanguinário.

O termo cangaceiro estende-se a todas as modalidades do


criminoso nos sertões: é o salteador, o sequaz de atrabiliário e
cruel dono de fazenda, de ignorante e perverso chefete político;
um criminoso perseguido pela justiça, muitas vezes vítima da
exacerbação de ódios políticos, que vive pelos matos às ocultas,
exercendo vinganças, cometendo desatinos, matando inimigos
descuidados nas largas estradas solitárias.

Muitos autores relacionam o desenvolvimento "epidêmico" do


cangaço com os períodos de seca que, debilitando
significativamente os potentados locais, deixavam o campo livre
para o banditismo e para as manifestações espontâneas de revolta
e fanatismo religioso.

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A seca de 1877-1879 ocorreu após mais de trinta anos de chuvas


regulares que permitiram ao sertão desenvolver-se de maneira
considerável. Três anos de seca bastaram para destruir a vida
econômica de uma parte do sertão, provocando a morte de cerca
de 300 mil pessoas e forçando milhares de sertanejos a abandonar
a região.

Foi então que os grupos de cangaceiros se teriam multiplicado,


colocando em perigo a propriedade e os bens dos próprios
sertanejos.

Os senhores rurais e suas milícias, que até então constituíam um


obstáculo ao desenvolvimento epidêmico dos bandos
independentes, não puderam assegurar a própria proteção nem a
dos sertanejos. Para Frederico Pernambucano de Mello, foi
certamente essa atitude que rompeu o equilíbrio precário que
existia entre a população e os cangaceiros.

A seca de 1877-1879, talvez a maior de todos os tempos,


representa momento bem eloquente ao demonstrar esse jogo de
substituição momentânea do banditismo endêmico pelo epidêmico
mais desabrido, a suscitar empenhos de governo igualmente
especiais, em consequência do forte alarido do povo, multiplicado
pela imprensa.

Na Fala com que encerrou a sessão e abriu a segunda legislatura


da Assembléia Geral do Brasil do ano de 1879, lamentava o
Imperador a quebra "em alguns lugares" da segurança individual e
da propriedade. Ás causas notórias – dizia ele aos parlamentares
– “por mais de uma vez trazidas ao vosso conhecimento, acresceram outras
provenientes da calamidade da seca e consequente mudança da condição e hábitos
da população. O governo empenha-se em combater essas causas e acredito que
cessando os efeitos daquele flagelo e mediante a enérgica repressão ao crime, seja
mantida a segurança individual e respeitada a propriedade.”

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“Na superposição das causas extraordinárias oriundas da seca e como tal


transitórias, àquelas de caráter ordinário e crônico – "causas notórias", segundo as
imperiais palavras - se contém toda a estrutura da criminalidade rural tornada
epidêmica. A história nos mostra que esse beijo trágico une condições socioculturais
básicas a uma causalidade episódica deflagradora. A fixidez das primeiras, opondo-
se à mutabilidade da segunda, que tanto pode ser uma seca como agitação política
ou qualquer outra convulsão socialmente traumática responsável pelo afrouxamento
das estruturas sociais e consequente inibição do aparelho repressor.” Nos diz
Frederico Pernambucano de Mello. “Não esquecer o importante indicador
representado pela quebra nesses momentos do compromisso tácito de coexistência
entre o homem do sertão e o cangaceiro", arremata.

Alguns autores aventaram a possibilidade de haver uma relação


entre o cangaço e o recurso a um mercenarismo violento para
resolver litígios particulares. Mas importa ressaltar que, num
primeiro momento, o colonizador e depois o grande proprietário de
terras recrutaram mercenários para impor seu poder sobre as
imensas terras que eles ocupavam e para controlar a mão-de-obra.
E isso lhes era indispensável, criando assim tipos de milícias
privadas.

Citemos, a partir de meados do século XIX, os jagunços, os


capangas e os cabras.

Em 1900 apareceu também o “Peito Largo”, encarregado de


resolver disputas políticas e de expulsar os moradores
indesejáveis. Esse mercenarismo foi portanto, para garantir um
sistema econômico, político e social e permitir a consolidação dos
poderes locais.

A meu ver práticas violentas dos latifundiários foi o motivo do


surgimento do Cangaço. Compreendo desta forma como sendo
o cangaço um grito de protesto pela justiça parcial posta em
prática favorecendo àqueles que eram da elite social.

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Não creio que diante da concentração de riqueza, tenha havido


protestos, pois o Coronel de cada região era também um
trabalhador e procurava multiplicar seus ganhos com novos
investimentos. Se isso fosse feito de forma honesta e não
houvesse a sede de poder, não por suas riquezas, os trabalhadores
com menos posse e aqueles que até mesmo lhes vendiam o dia, não
teriam motivos para revolta.

Acontece que os coronéis, quase sem exceção, não agiam com


imparcialidade e orientavam as autoridades de seus domínios a
agirem de forma parcial para todos que protestavam e agiam
contra tais desmandos. Era implantado a total ausência do Estado
de direito, para o controle social exercido pela política
coronelística.

O trabalho traz uma reflexão sobre o cangaço configurando-o


como uma questão social nordestina, pelo fato de ter surgido
desde a monarquia, entrando pela velha República e tendo o seu
clímax até 1938 na nova República implantada por Getúlio Vargas.
O cangaço teve um grande crescimento no final do século XIX,
época de seca na Região Nordeste, onde a fome e miséria imperou,
além dos conflitos sociais gerados pelo latifúndio que explorava o
homem do campo, impondo sobre ele um peso em que ele para
libertar-se teria que ser não subserviente à elite agrária e ao
coronelismo político.

Como os direitos sociais se tornaram inexistentes, como já o eram


antes, a lei do mais forte era a que imperava, de modo que a justiça
era aplicada para perseguir. Desta forma para ser efetivada a
justiça, pensava o sertanejo perseguido, que alcançaria somente
através da coragem pelas armas e de suas ações vingativas.

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Também não podemos esquecer que o cangaço surgiu a partir


de outros fatores, tais como os conflitos familiares. Juntando
com a desigualdade social, injustiças e, ausência de política
agrária, tornou-se uma um caldo grosso que deu muita
indigestão:

- Era uma questão social sim!

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Lampião Usado por coronéis e cangaceiros

Lampião não foi somente usado pelos coronéis, mas também foi
usado e ludibriado por outros cangaceiros. Vejamos em dois casos:

1. Na morte de Manuel Gilo e familiares.


2. O ataque à cidade potiguar Mossoró.

No primeiro caso, vemos a história nos ser contada no mesmo


local dos crimes contra essa família, que tive o privilégio de
conhecer e ser recebido hospitaleiramente.

Comitiva do Cariri Cangaço no local da antiga casa dos Gilo

Em seu livro As Cruzes do Cangaço, no capítulo 3 - Fazenda Tapera


- O presságio de uma chacina - os escritores Marcos Antônio de
Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, trazem para nossos dias,
detalhes não vistos por outros autores, onde mostraram um dos
maiores erros de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, quando
atacou e chacinou parte da família Gilo, inclusive seu patriarca, por
acreditar em uma mentira preparada por um inimigo de Manoel
Gilo, Horácio Novaes, que lhe tinha furtado alguns animais.

Esse episódio da história do Cangaço, nos é narrada em diversos


livros de autores famosos dessa saga, mas porém Marcos e
Cristiano “enveredaram pelos caminhos da caatinga, varando estreitas trilhas ao
meio dos espinhos e batendo às portas dos remanescentes familiares dos atingidos
pela sanha perversa de Lampião e seus sequazes, entrevistando-os para
descobrirem detalhes não tocados pelos livros e entrevistarem inclusive alguns da

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época que ainda estão vivos, desta inditosa família, coisa que nenhum historiador
ou pesquisador fizera até então.”

Trago aqui, um documentário de 48 minutos, feito por ocasião de


minha visita, juntamente com diversos escritores, pesquisadores
e apreciadores da história do cangaço, à Fazenda Tapera, onde
fomos recebidos pelos descendentes da família Gilo, que
hospitaleiramente nos acolheram nessa visita.

Foto da Comitiva do Cariri Cangaço à antiga casa da família Gilo


https://www.youtube.com/watch?time_continue=1418&v=BJVTZdHzNSw&feature
=emb_logo

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Aqui, na Fazenda Tapera, Marcos e Cristiano, juntamente com um


bisneto de “Mané Gilo” e outros pesquisadores, nos relataram em
visita guiada, e nos conduziram para o cenário do pavoroso
combate onde morreram parte da família, soldados e civis que os
socorreram e alguns cangaceiros.

Por que Lampião não se informou direito?


Foi logo lá de primeira, atacando um inocente, acatando proposta
e não conferindo diretamente com Manuel Gilo sobre a carta
escrita?

Se deixou enganar por aquele cangaceiro que roubava o velho Gilo


e tinha ficado com raiva por conta do patriarca ter tomado certas
atitudes contra ele, denunciando-o às autoridades. Sim, foi tolice
ataque pavoroso que fez àquela família. Eram pessoas humildes.

Provando que Lampião não tinha espírito de luta social, pelos


pobres, como atualmente muitos querem “branquear” sua história
para parecer isto, que uma das maiores besteiras que lampião fez
foi atacar pessoas pobres. Não podemos dizer que por exemplo as

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famílias de Nazaré do Pico eram ricas. Um pedacinho de terra não


os faziam ricos. O próprio Lampião, como Virgulino, sabia disso.

Um pequeno documentário de nossa visita à Fazenda Jenipapo no


dia 27 de maio de 2016 por ocasião do Seminário Cariri Cangaço
na cidade de Floresta em Pernambuco., onde a amiga Mabel
Nogueira; e Netinho Flor nos relataram alguns históricos que
marcaram lembranças da família em relação ao cangaço.

Fazenda Jenipapo
https://www.youtube.com/watch?v=lpP8mvfjAqw&t=69s

No caso de Nazaré, intrigas familiares prevaleceram. Intrigas


foram se avolumando e o ódio prevalecendo. Quando estive na
fazenda Jenipapo, de Gomes Jurubeba, onde a amiga Mabel
Nogueira em frente á casa principal ainda deteriorada por
ataque de Lampião, dissertou sobre essas rixas contra sua
família, inclusive estou indicando através de um link, um
documentário em vídeo quando da sua palestra, Mabel falando a
respeito das intrigas de Lampião.

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Uma homenagem especial à amiga MABEL NOGUEIRA

Segundo caso

No segundo caso, que teve a


empreitada conversada com
Lampião, onde o coronel
menino do sertão cearense
usando o cangaceiro Massilon,
para convencer Lampião a
atacar Mossoró, nos é contada
no livro “Vida e morte de Isaías Arruda” pelo autor e historiador João
Tavares Calixto Júnior:

“Na penúltima semana de maio de 1927 Lampião chega com a horda ao sítio
Ipueiras. Já conhecia Isaías da época em que se hospedou na Serra do Mato em
Missão Velha. Voltava da Paraíba de jornada fracassada e logo fora apresentado a
Massilon, por intermédio de José Cardoso, que lhe contou sobre a proeza de Apodi,
salientando a “eficiência” de Massilon e a alta quantia arrecadada. Entraram
Massilon e um magote de outros cinco na horda do rei do cangaço, nessa ocasião,
e tendo em vista essa necessidade, já que estava desfalcado, o bando, não hesitou
muito em acatar o pedido, apesar da desconfiança.”

E mais na frente encontramos a declaração:


“A começo, o terrível cangaceiro não demonstrou muita disposição de entrar no
negócio, alegando que se tratava de uma grande cidade, situada numa planície, o
que facilitaria a defesa. Além disso, o bandido não dispunha de gente suficiente para
a empreitada... Houve mesmo resistência de Lampião em aceitar o desafio. Julgava
imprudente. Era uma cidade grande demais para o denodo. É o que conta o
cangaceiro Jararaca em entrevista a O Correio do Povo (19 de julho de 1927, p.5)...

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Àquela altura, Massilon Leite era um dos principais cangaceiros de Lampião.


Corrobora com isto o jornalista Luiz Carlos Lisboa, da Academia Paulista de Letras,
que no Jornal do Brasil de 13 de dezembro de 1964 (p.4, cad. B), traz minucioso
apanhado sobre a invasão de Mossoró e intitula a narrativa do episódio como sendo:
“A maior façanha do cangaço”. Para o autor, do mesmo modo, fora Massilon quem
entusiasmara a Lampião, falando das riquezas da cidade potiguar e das facilidades
que encontrariam ao tomá-la.”

Vemos então nesses dois casos, a influência recebida por


comparsas, onde Lampião fora praticamente enganado pelas
informações.

Lampião gostava de ler?

Muito se fala que lampião gostava muito de ler os jornais, revistas


e livros. Mas creio que isso não tenha sido frequente pois ele não
tinha o conhecimento suficiente para fazer análises de políticas
atuais e informações atualizadas. É o caso citado acima, de não
conhecer uma cidade como Mossoró, a maior cidade do Rio Grande
do Norte. Por conta de não ter uma visão, deixou-se convencer por
Massilon que estupidamente achava que conseguiria com cerca de
100 homens vencer aquela cidade.

Já os coronéis que apoiavam lampião, queriam tirar alguma


vantagem disso para poderem avançar nos bens alheio, atacando
até mesmo outros coronéis. Não restam dúvidas que aqueles que o
temiam, mas tinha por assim dizer, “bala na agulha”, denunciavam
realmente a Lampião ou qualquer outro movimento que eles vissem
que iria prejudicar os seus negócios.

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A liderança de Lampião

Em relação a questão de liderança de lampião não temos dúvida


nenhuma. Ele foi um formidável líder, agia como um general em
campo de batalha, usando estratégias ao ponto de altas algo
autoridades da Polícia Militar acharem que em algumas ocasiões
deveria ter pessoas de alta patente ali do lado dele, instruindo que
tomasse certas atitudes, que Lampião executasse certas táticas.

Inteligente e carismático no comando do grupo, Lampião de


alguma maneira veio a sentir que um bando de 80 ou cem homens
custava caro, então dividiu o grupo em sub grupos. Essa foi uma
das maiores, senão a maior estratégia de Lampião. De uma cartada
só, como se diz no popular, matou dois coelhos com um tiro só, pois
entre suas fileiras tinha outras lideranças ascendentes sobre
outros cangaceiros.

Assim sendo, escolheu a tais homens, que não restam dúvidas,


eram mais aguerridos e de sua confiança e distribuiu entre eles
aqueles que ele notava que aceitavam a liderança de tais homens.
Dessa forma, manteve vários grupos sob seu comando, distribuídos
em diversos locais, dando a impressão de que o mesmo grupo
estava em vários lugares ao mesmo tempo, uma vez que quando
praticavam algum ataque, as táticas eram as mesmas, com pouca
variação; cantavam, praguejavam, urravam e as roupas eram das
mesmas características. Desta maneira para a população e
autoridades, era Lampião quem os atacava.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 67


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O fraco contra o forte


"O cangaço levou ao extremo uma prática guerreira herdada dos indígenas, também
utilizada pelos chamados capitães do mato, do período holandês. É a guerra do
fraco contra o forte, utilizada ainda hoje pelas Forças Armadas Brasileiras, nas
campanhas e treinamentos na selva. Seria a única maneira das Forças brasileiras
obterem sucesso numa eventual guerra contras as forças hegemônicas
interessadas no nosso território e nossas riquezas", afirma Frederico
Pernambucano de Mello.

Este método de guerra móvel, que os estudiosos chamam de


Guerra Brasílica, conhecida como guerra do açúcar, foi uma
estratégia militar utilizada em 1630 por Matias de Albuquerque,
quando os holandeses atacaram o nordeste brasileiro a fim de se
fixarem na região com interesse no comércio açucareiro, os luso-
brasileiros, bem como os negros e indígenas, planejaram inúmeras
guerrilhas contra os holandeses e batizaram o local onde se
reuniam de Arraial do Bom Jesus, cuja função foi de posto central
de apoio às guerrilhas realizadas até 1654.

Eram baseada nas emboscadas e que já obteve grande sucesso


ainda no século XVII, quando os brasileiros venceram o exército
dos países baixos, considerado o mais forte e bem equipado da
época.

Mas onde Lampião aprendeu isso? Será que obteve conhecimento


desses episódios? Provavelmente não! Era inerente tais
circunstâncias preocupar-se com o abastecimento alimentar e
bélico do seu grupo. Era a chamada manutenção da boca e da arma.
E ele adotava um sistema tático que na terminologia militar é
chamado de Emprego da Reserva, mas ele chamava de
“retaguarda”. Baseava-se no destacamento de 30% dos homens do
seu grupo para ficar adejando como satélite em volta do grupo
principal, objetivando captar o avanço da força atacante e contra-
atacar pela retaguarda. O líder dessa força, enquanto vivo, era seu

RAUL MENELEU MASCARENHAS 68


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irmão Antônio Ferreira, que veio a falecer por um “Sucesso”,


conforme o leitor pode constatar nesse meu documentário,
“LAMPIÃO: A Morte de Antonio Ferreira - O Corpo”
(https://www.youtube.com/watch?v=1gOr_ZjLBps)

Com essa tática eles venciam forças com destacamentos de até o


dobro dos seus homens, numa bem sucedida adaptação de
procedimentos militares à guerrilha.

Por exemplo a tática que ele usou da Serra Grande. Naquele


grande combate o oficial que estava à frente das forças policiais
achava que alguém de formação militar estava orientando Lampião.

A seu amigo, Padre José Bulhões, vigário de Santana de Ipanema,


comentou Lucena a batalha do Poço Branco:
— "Figurei, em dado momento da luta, que Lampião queria mesmo acabar comigo,
Depois, diante de seus estratagemas, me veio uma dúvida: Não é possível! Seria
mesmo Lampião o comandante? Ou esses cabras estão sendo comandados por
algum oficial estrategista de alta patente, egresso do exército?!...”

Classificou também ele, a retaguarda de Antonio Ferreira de


“manobra magistral”.

Alguns historiadores em suas dissertações a respeito de Virgulino


Ferreira, O Lampião, procuram mostrar que ele não era um
guerrilheiro enquanto pensamento político e têm razão, pois se
tornou cangaceiro pelas circunstâncias de rixas familiares e não
por política partidária e alguns chegam a afirmar a maldade dele
já estava no sangue desde jovem.

O que quero demostrar aqui, é que ele poderia até não ser um
militante político que partiu para a luta armada, mas que era um
guerrilheiro estrategista de primeira, ninguém pode duvidar.

Chegou até mesmo a ser reconhecido por um oficial combatente


seu, onde desde a primeira batalha entre os dois, narrada por

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Frederico Bezerra Maciel em sua sextologia ‘Lampião, Seu Tempo


e Reinado’ no segundo livro ‘A Guerra de Guerrilhas’ onde o
Tenente José Lucena e Lampião ficaram temendo-se mutuamente
.De sua parte José Lucena temendo e receando a sagacidade de
Lampião e da parte do temível cangaceiro, respeitando a força do
Tenente pelo poderio bélico e também sagacidade, pois nunca
andava fora das estradas reais, usando dessa tática para não
aventurar-se ‘no mato’, território do cangaço.

Ver meu artigo LAMPIÃO - O Guerreiro que corria atrás do


vento em https://meneleu.blogspot.com/2014/10/lampiao-o-guerreiro-que-
corria-atras-do.html

A religiosidade de Lampião

Muitas vezes eu fico admirado com determinados tipos de


pessoas religiosas que ao tratarem de determinados assuntos,
ficam em total desencontro com as suas crenças religiosas. O
exemplo aqui, vai ser Lampião. Quando o fotógrafo amador
Benjamin Abrahão acompanhou lampião fazendo alguns vídeos,
deve ter ficado espantado diante dessa contradição de
religiosidade de Lampião. Ele por certo comparou com a vida
errante e criminosa que Lampião levava, matando e roubando e ao
mesmo tempo, se ajoelhando no meio do caminho junto com os seus
cangaceiros pra rezar cultos das quais ele próprio dirigia.

Foi por ocasião de uma série de reportagens que o jornalista Vítor


do Espírito Santo fez a respeito de Lampião e sua religiosidade em
1932 dizendo que Lampião evocava rituais de proteção mágicas e
os empregava tanto pra si quanto para os cangaceiros; para se
protegerem das forças policiais e de todo mal. Então suponho que
essa questão não seria uma questão de piedade religiosa e sim,
seria uma forma dos cangaceiros e de Lampião em verdadeiras
superstições tentarem negociar com os Santos e Deus. Assim o

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jornalista via Lampião principalmente no papel da autoridade


religiosa que ao mesmo tempo era chefe dos cangaceiros que
passava aos comandados que possuía poderes sobrenaturais e
divinos ao oficiar suas rezas.

O jornalista em "Os Artificios Empregados por Lampeão para


Iludir os Seus Cabras e esconder-se da Repressora", Diário de
Pernambuco, 21/1/1932 evoca a imagem de Lampião veiculada pelo
padre Matto Grosso, vigário de Uauá, situada no sertão da Bahia.
Num dos seus sermões este sacerdote declara publicamente que
Lampião tinha uma missão na terra. Indignado com essa mensagem
dada em púlpito na igreja, que Lampião era um "enviado de Deus” o
jornalista faz o protesto em sua matéria.

Então a conclusão que chegamos é que essa imagem messiânica


dada pelos padres, Lampião de certo agradeceu, ao ponto de,
quando os encontrava nas estradas, ajoelhava-se e beijava suas
mãos.

Um sacerdote era para ele sagrado. “Se nas suas marchas pelas estradas
encontra um padre, desce da montaria, ajoelha-se no caminho, beija-lhe o que lhe
é estendida, e oferece ao sacerdote a sua ajuda e dos seus homens” escreveu o
jornalista.

Para muitos jornalistas e escritores daquela época de Lampião,


ficava difícil ver essa questão dele em determinados momentos
mostrar piedade cristã com a então vida criminosa que levava e
seus gestos de religiosidade.

Se formos pensar bem, seria até mesmo considerado um


sacrilégio esses atos religiosos dele. Mas quando analisamos esses
atos religiosos, podemos fazer suposições apenas pois tais não são
convincentes. Daí surge a pergunta: será que ele queria
impressionar seus homens e fazer isso para manobra-los com
rituais de proteção?

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Como sertanejo, ele sabia da religiosidade do povo. Não seria


diferente com seus homens do bando, dos quais ele queria talvez
investir-se de uma missão sagrada, quando contrito. Dizem que
“...ao meio dia, transfigura-se e erguia o único olho bom para o céu, e exclamava
súplice:
- Meu Deus! Quando terminará a missão que me destes na terra? Já é tempo de ter
concluído o meu trabalho!”

Sinceramente estou ainda para acreditar que Lampião tivesse


dito isto!

Os cangaceiros creem naquela força e um terror místico deles se


apodera, tornando cada vez maior a admiração e respeito. Os
cangaceiros acreditam na "força" de Lampião não por estes
repentes religiosos dele, que o próprio Benjamim Abraão gravou
ao rezar junto com o bando, debaixo de um umbuzeiro, mas
acreditavam em sua liderança pelos repentes que tinha em
adivinhar determinadas situações que os punham em risco.

Diz-nos Vitor, "um terror místico deles se apodera, reforçando o respeito que
nutrem por seu chefe".

Segundo o jornalista, opinião pessoal dele, “nenhum deles jamais


duvidou de que se tratava de um estratagema destinado a fazer
que o acompanhem "eternamente" e o respeitassem sempre mais.
O misticismo de Lampião seria, para esse jornalista, um simulacro
ao qual a comunidade sertaneja e alguns de seus padres deram sua
caução.

Essa imagem messiânica de Lampião leva o jornalista a denunciar


o abismo que separa dois mundos estranhos: o litoral civilizado e o
sertão bárbaro, prisioneiro de um catolicismo ancestral e de um
paganismo primitivo.

Nessa mesma reportagem, diz que Lampião sempre que penetrava


numa cidade, a primeira visita era invariavelmente à Igreja:

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“Só, inteiramente desacompanhado e desarmado o bandido penetra nos templos e


ai se recolhe alguns minutos em reza. Vendo-o, nessas ocasiões, ninguém dirá que
aquele indivíduo quase preto, de olhar meigo, longos cabelos a cair-lhe sobre as
espadas, cabeça pendida sobre o peito, é o autor de tantos crimes, é o veículo de
tantas misérias e de tantos lutos.

Quer provar o jornalista que Lampião utilizava essa psicologia para


consolidar ascendência que exercia sobre seus Homens.

Creio que Lampião era um religioso com traços de fanatismo, como


a maioria católica do sertão nordestino, àquela época.

Lampião se torna o "Rei do Cangaço"

Distanciando-se progres-
sivamente das virtudes e valores
do banditismo de honra, Lampião
passou a roubar tanto ricos
quanto pobres.

Uma das características do cangaceiro era a ausência de patrão.


Ele agia no seio de um bando e nunca estava subordinado a um
chefe ou a um patrão.

Lembro bem de uma interferência salutar feita pelo amigo e


escritor Sousa Neto, no Cariri Cangaço de São José do Belmonte,
em palestra do Historiador Valdir José Nogueira sobre o ataque e
morte do coronel Gonzaga, onde relatou que, a esposa do coronel
Gonzaga, dona Martina, ao ver o grupo de cangaceiros invadindo
sua casa e um dos cangaceiros querer mexer com umas das moças
e o cangaceiro Cajueiro interferir incisivamente para que não
houvesse a agressão, perguntou-lhe quem era o chefe ali. Cajueiro
lhe respondeu: “Dona Martina, aqui nóis num tem chefe.”

Os amigos poderão conferir no Canal TV MARIA BONITA no


YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=qc8f4P9ex4w&t=2s)
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pondo em evidência com o então testemunho gravado e em mãos


do amigo Souza Neto, que cangaceiro não tinha chefe ou patrão, e
que Lampião naquele ataque não era o líder, embora aquele incursão
tenha sido efetuada a mando de Sinhô Pereira, que já tinha se
afastado do cangaço. Lampião com a morte traiçoeira do
cangaceiro Baliza, veio a realmente ser entronizado no posto de
Chefe e iniciar seu reinado.

O arquétipo do homem livre

Alguns historiadores e escritores, fascinados, viram em Lampião


o arquétipo do homem livre. Embora estivessem ligados a certos
potentados locais, os cangaceiros mantinham a liberdade para
romper sua aliança a qualquer momento. Nenhuma autoridade podia
cercear sua independência. O chefe de grupo tratava de igual para
igual o coronel e o potentado local. Isso levou Frederico
Pernambucano de Mello a afirmar que os cangaceiros eram tipos
de coronéis sem terras que pelas armas exerciam o seu poder, um
poder indiscutível.
“Os cangaceiros não tinham projeto nem visão política revolucionária, nem mesmo
espírito reformista. Permaneciam arraigados numa concepção paternalista das
relações sociais. Improdutivos, vivendo da pilhagem, extorquindo a população dos
vilarejos que atravessavam, os cangaceiros progressivamente se organizaram como
uma micro sociedade no interior de sua própria sociedade, com um código de honra
particular, comportamentos sociais rigorosos e rituais de iniciação originais. De um
futuro cangaceiro exigiam-se o espírito de independência, a capacidade de dominar
o meio ambiente, a consciência e o respeito aos valores morais do sertão, uma
verdadeira autonomia e o senso de livre-arbítrio, sem contar a firmeza de caráter e
o senso de honra.
“O recurso à violência estava enraizado na tradição do sertão, impregnando o
universo cultural dessa região: indiscutivelmente, uma relação entre a violência e
todas as formas de heroísmo sempre existiu, veiculada e legitimada pela literatura
popular e as canções de gesta.
Os folhetos de cordel, da mesma maneira que as canções de gesta, tinham uma
predileção pela figura simbólica do herói que encarnasse as virtudes de um território,

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defensor da honra do grupo ao qual estava filiado, defendendo de corpo e alma uma
forma de justiça com o mais puro respeito pela tradição de sua região que o compeliu
a lavar o sangue com sangue.”

Admitindo que sua margem de manobra estava extremamente


reduzida, o poder central tentou reforçar a capacidade repressiva
para com aqueles que defendiam a lei consuetudinária e que, com
isso, colocavam em perigo a eficácia, senão a legitimidade da lei
institucional. Desde o século XIX, magistrados enviados aos
povoados do sertão vinham muitas vezes das cidades do litoral
acompanhados por destacamentos de polícia; as práticas da justiça
consuetudinária, ou seja, as práticas repetidamente, como um
costume usual, costumeiro, habitual no que diz respeito aos
costumes de um povo, foram perdendo sua legitimidade e passaram
a ser consideradas práticas criminosas tanto pelo poder central
como pelos detentores do poder político.

Forças Volantes

Nos diferentes Estados do Nordeste, o problema, na verdade,


era anular todo particularismo regional. No início do século XX
organizam-se um modo específico de lutar contra o cangaço e
reprimi-lo. Oriundas da Polícia Militar, essas Forças Volantes eram
corporações móveis adjuntas às forças de polícia locais, afetas a
um município ou a um território maior. Suas tarefas eram auxiliar
os magistrados, fazer reinar a ordem e perseguir os criminosos.

A mobilidade desses destacamentos conferia-lhes grande


liberdade de ação e muita eficácia no cumprimento de sua tarefa,
que consistia principalmente em dificultar o conluio ou os arranjos
entre polícia e criminosos e entre os chefes locais que protegiam
os cangaceiros e a polícia. Desde o início dos anos de 1920, as
Forças Volantes estavam presentes em todo o território do
sertão, tinham-se especializado na luta contra o cangaço e muitas
vezes exerciam sobre a população pressões iguais às exercidas

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pelos cangaceiros. Chegavam a perpetrar exações e violências que


ombreavam com as de seus adversários. Tudo isso foi demonstrado
por escritores e jornalistas depois de 1926, quando Lampião se
torna uma personagem pública. Algumas dessas unidades,
compostas principalmente de sertanejos, tidas como
representantes do Estado de direito, estavam pessoalmente
implicadas na luta contra Lampião.

Jovens das famílias da cidade de Nazaré em Pernambuco no combate a Lampião


Famílias inteiras que tinham sofrido as violências de Lampião
passam a integrar essas Forças Volantes. Desde o fim dos anos de
1920, e principalmente sob o regime de Getúlio Vargas,
intensifica-se o recurso a um sistema de conscrição de civis
sertanejos para lutar contra o cangaço. As Forças Volantes
tornam-se um refúgio para pessoas perseguidas por Lampião.

Banditismo de honra de Lampião

Em princípio, Lampião provém da tradição do banditismo de honra.


Segundo versões geralmente admitidas, ele teria entrado para o
cangaço com dois dos seus irmãos para vingar o assassinato de seu
pai, assim como seu ilustre antecessor Antônio Silvino. Mas hoje
se sabe que não foi esse o propósito, pois Lampião e seus irmãos
antes da morte do pai, já estavam incorporados ao Grupo de Sinhô

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Pereira e já enveredavam pelos caminhos dos roubos e violências.


Mas não deixou de ser “banditismo de honra” pois desmoralizado
pela falta de justiça, pelas perseguições de Zé Saturnino, comprou
um rifle e passou a fazer parte do grupo de cangaceiros de Sinhô
Pereira.

Tendo-se tornado chefe do bando em 1922, (Vide YouTube


https://www.youtube.com/watch?v=qc8f4P9ex4w&t=2s) sempre se
proclamando como membro do banditismo de honra e de vindita,
Lampião diferencia-se em muitos pontos de todos os cangaceiros
que o precederam.

Um novo estilo de vida para o Cangaço

Ao mesmo tempo que afirma seu pertencimento à sociedade


tradicional, na qual está profundamente arraigado, Lampião,
bandido e chefe de grupo, está na origem de uma cultura que
poderíamos qualificar de paralela, com seus rituais, seus valores e
seus emblemas. Introduz um estilo de vida bem especifico: é ele
quem dota os cangaceiros de uma vestimenta particular
indissociável da imagem que doravante se faz deles. E é ele quem
introduz as mulheres no grupo, recriando dessa forma uma vida
familiar com seus códigos próprios. Chegou mesmo a substituir o
padre, passando a dirigir os ofícios religiosos entre seus
companheiros.

Lampião fez do cangaço um modo de vida e até mesmo uma


profissão; percorreu um território à frente de um grupo que
contou até com cem homens, ao passo que os bandos de seus
antecessores raramente ultrapassavam quinze pessoas; desafiou
as forças policiais e até mesmo os governadores de diferentes
Estados do Nordeste.

Enquanto seus antecessores percorriam uma região limitada do


sertão, à procura de inimigos, Lampião se afirma como o "Rei do

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Cangaço", o "Senhor Absoluto do Sertão", procurando assegurar o


domínio sobre uma vasta zona e sua população.

A preocupação com sua imagem

Lampião distinguiu-se de seus antecessores sobretudo por ter


sido o primeiro a preocupar-se com sua imagem e empenhar-se em
difundi-la. Depois que se tornou um personagem público, foi o herói
de numerosos poemas de cordel, de toda uma gesta que evocava
sua entrada para o cangaço, os momentos importantes de sua vida,
seus atos de bravura, seu destino excepcional e trágico, espécie
de voz popular que o acompanha e o inscreve em uma tradição épica
própria do sertão. Ele não é o primeiro cangaceiro a ser objeto de
tal heroicização na literatura de cordel e nas canções de gesta.

Antônio Silvino, seu ilustre predecessor, também foi cantado em


inúmeros poemas. Entretanto, Lampião é uma personagem muito
mais complexa, nos diz Elise Jasmin, e a literatura de cordel
testemunha sua singularidade e ambivalência, traduzindo em
inúmeros poemas sua profunda dualidade: anjo e diabo, bom e
cruel, vítima do destino e assassino sádico, amante apaixonado e
criminoso implacável. Quando consultamos seu nome na internet
encontramos aproximadamente 2.610.000 resultados.

Lampião Capitão e a Coluna Prestes

Você sabia que o Padre Cícero fez um cartão de recomendação


para Lampião, aos engenheiros de uma indústria de transformação
do côco de babaçu no maranhão?

O padre Cícero com o seu prestigio já tinha retirado do sertão do


nordeste para outras plagas longínquas o famoso Sinhô Pereira, o
cangaceiro mais valente da Ribeira do pajé, no dizer de Lampião.
Entretanto ficou o Padre desgostoso por ele ter passado o bando
para o jovem Virgulino Ferreira da Silva já então famoso com o
apelido de Lampião.
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Queria o velho padre que também Virgulino deixasse o Cangaço.


Quem vocês acham que foram os culpados por Virgulino não ter se
corrigido após receber a patente de Capitão?

A oportunidade Virgulino teve. Mas por conta de insubordinação


dos pernambucanos e alagoanos, oficiais das fileiras das forças
policiais, por não aceitarem essa patente, não quiseram reconhecer
a patente. Lampião sabedor disso, não deu combate aos revoltosos
da Coluna e voltou-se ao preparo para enfrentar tais policiais.

Os jornais e escritores famosos como Leonardo Mota, quem


trouxe a história do agrônomo Pedro de Albuquerque Uchoa ter
assinado a patente de capitão de Lampião, e que hoje muitos dizem
que fora dada ilegalmente, o que através de raciocínios lógicos
podemos entender que a patente era válida. Os oficiais de
Volantes alagoanos e pernambucanos, tiroteiaram com Virgulino e
esse foi engolfado novamente pelas forças policiais, onde alguns
enxergaram que se não houvesse Lampião, não haveria ganhos
financeiros. E muitos que sugavam os cofres públicos com o motivo
de combaterem o Cangaço, insubordinaram-se contra essa
patente. E outros, nutriam ódio mortal a Lampião por brigas de
família.

Virgulino tinha até então, simpatias pela Coluna Prestes. Ciente


disso o Padre Cícero escreveu a Floro Bartolomeu, deputado
legalista, e ao Ministro da Guerra general Setembrino de Carvalho,
aliado seu por ocasião da deposição de Franco Rabelo, da
Presidência do Ceará. Dizia-lhes o Padre sobre esse perigo de
Lampião aliar-se com os revoltosos. Dizia aos dois, sobre o
aproveitamento de Virgulino Ferreira da Silva nos Batalhões
Patrióticos, como oficial, pois sua capacidade de estratégia e
conhecimento profundo da geografia do sertão seria de
aproveitamento estratégico, pois tiraria Lampião do cangaço e

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este serviria doravante ao Estado. Teria que ter uma patente à


sua altura.

O assunto foi levado ao Presidente da República


Artur Bernardes e aprovado por este, sem
restrição.

Mas os discursos virulentos contra o padre Cícero


era muito grande naquela época. Choveu na
imprensa ataques sobre essa questão.
Artur Bernardes
Mas como podemos ver, isso da patente era oficial mesmo! No
jornal “O Globo”, edição de 24 de abril de 1931, portanto, pós-
advento da Revolução de 1930, trouxe essa notícia:

“[...] Todos aquelles que estudaram o problema concluem que os cangaceiros do


nordeste vivem sob o patrocínio dos grandes proprietários que, por intermédio deles,
servem a política. O caso de Lampião é typico. Até o governo federal no tempo de
Bernardes precisou dos seus serviços”

Vejam amigos, Lampião e seu bando foram armados e fardados em


1926, no Juazeiro do Ceará, e isso mostra que Lampião e seus
acompanhantes foram momentaneamente reconhecidos como
representantes do Estado, vindo desta época o uso de
fardamentos entre os bandos e a patente de “capitão” do chefe
maior do cangaço.

Foi sim, o Presidente do Brasil, Artur Bernardes quem se valeu


de Lampião e aprovou sua patente, por sugestão do padre Cícero.
A imprensa inimiga do padre, fazia-lhe ataques como podemos ver
no ano seguinte, em um artigo do Diario de Pernambuco de 15 de
julho de 1927 onde nos dá uma ideia do que representava a cidade
de Juazeiro para a imprensa:
“Juazeiro é uma nodoa na civilização do Brasil. Não há argumento que justifique a
existência daguelle burgo de supersticiosos analphabetos e de cangaceiros de todos
os matizes sob o patranato de um padre suspenso de ordens, em virtude de
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intrujices que offendem a santidade da Egreja. E quando se sabe, pela narrativa


documentada de testemunhas insuspeitas, que ali não existe outra autoridade civil
ou religiosa e que os réos dos maiores latrocinios não são atingidos pela justiça
ordinaria do Estado... O prestigio do dono de Joazeiro estende-se a todo o Ceará.
Não ha ali outra entidade politica que influa tanto sobre as deliberações do governo
local. Padre Cicero faz deputados, secretarios de Estado. Elle mesmo já foi vice
governador e elegeu-se deputado em substituição a um dos seus afilhados de muita
estima. [...] Effetivamente, o bando do capitão Virgolino já não existiria a esta hora,
se não encontrasse o apoio do cangaço politico. E este um dos fatores decisivos da
criminalidade associadas em terras brasileiras.” (CIC)

Era dessa forma que parte da imprensa tratava do padre e do


povo de Juazeiro.

Mas voltemos sobre o assunto da patente: Esse aproveitamento


de Lampião já havia sido exposto pelo jornalista J. Matos Ibiapina
e quem fez esse registro foi o historiador Abelardo F.
Montenegro.

Conta a história que, os revoltosos entraram no Ceará, frustrando


seriamente o deputado comissionado no posto de general pelo
Presidente Artur Bernardes. Floro Bartolomeu cometera um erro
de estratégia, embora este fosse um homem inteligente. Por conta
disso a doença que já o asfixiava prosperou de forma contundente,
forçando-o a buscar cuidados médicos na Capital da República.

Este era o homem que estava trazendo para o cenário de guerra


que se avizinhava, mil e setecentos contos de réis em dinheiro e
grande quantidade de material bélico com poderes para nomear os
seus lugares-tenentes, e com a missão federal de organizar e
comandar as tropas de resistência anti-revolucionária da
legalidade.

Mobilizou uma grande força improvisada, a que denominou


"Batalhão Patriótico", com cerca de mil homens. Composta de
romeiros, devotos e jagunços, sob o comando de Silvino de
Alencar, nomeado coronel. Instalando o Quartel-General em
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Campo Sales, a três léguas da fronteira do Piauí pois achava que a


invasão seria feita por aí.

Enquanto isso, em Juazeiro, mostra a história, que cerca de dois


mil homens se concentravam para sua defesa.

Floro, deixara de convocar Lampião, segundo o historiadores, por


ter sabido que Lampião lhe fizera críticas quanto à capacidade dos
comandantes de seu Batalhão Patriótico. Os jornais de Fortaleza
faziam galhofas desse “seu” batalhão.

Em 18 janeiro de 1926 a Coluna atingiu a cidade de Picos, a


dezesseis léguas, em linha reta horizontal, dos limites do Ceará,
vindo a alcançar a cidade de Arneiroz no dia 25 do mesmo mês,
isso a 145 km de onde o “general” Floro Bartolomeu achava-se com
suas forças. Isso deixou o homem mais doente ainda.

Convocação de Lampião

Quando Floro Bartolomeu se convenceu que precisava


urgentemente de Lampião, mandou procurá-lo para entregar-lhe,
com a patente de Capitão, um dos comandos da vanguarda
patriótica.

Diz-se que o Coronel Pedro Silvino advertiu a Floro:


"Lampião é bandido!"
- "A História, replicou Floro agastado, está cheia de bandidos que se regeneraram,
tornando-se grandes homens e até fundadores de impérios e nações. Lampião
bandido? E a polícia o que é?..."

Em cartão oficial, com o timbre do Batalhão Patriótico expediu


Floro uma ordem de convocação urgente de Lampião. Tal
documento foi levado a Juazeiro pelo rábula José Ferreira de
Menezes Longe. Entregue ao Padre Cícero, que, também, o assinou.

Mas onde encontrar Lampião?

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Foi chamado João Ferreira, que admitiu que seu irmão estava
pelas zonas do Pajeú ou do Navio. Lembrou-se, então, o padre de
escrever uma carta ao Coronel Né Pereira, da Carnaúba, em Vila
Bela, E, diante da recusa de João Ferreira em servir de portador,
foi incumbido o tenente Francisco das Chagas Azevedo,
comandante da 3ª. Companhia do Batalhão Patriótico. Então, esse
é outro argumento sobre a validade da patente. Um oficial,
tenente de patente, comandante de Companhia, foi usado e aceitou
de bom grado, levar o convite para Lampião.

Cada vez mais se agravando o estado de saúde de Floro, depois de


brigas entre seus oficiais, pois terminou rompendo com Pedro
Silvino, substituindo-o pelo Coronel Mousinho Cardoso, a quem, no
dia 5 de fevereiro, determinou se deslocasse para a Paraíba a
modo de deter o avanço dos invasores revolucionários.

E, no dia seguinte, abandonou de vez Campos Sales e seguiu de


automóvel para Juazeiro, onde despediu-se do Padre Cicero e
tomou o trem para Fortaleza, donde embarcaria, a bordo do navio
"Itassucê", para o Rio.

Um argumento poderoso que uso para afirmar a legalidade da


patente de Lampião divide-se em duas vertentes. A primeira é o
cartão oficial, com o timbre do Batalhão Patriótico expedido por
Floro sobre a ordem de convocação de Lampião. A segunda é o
mensageiro tenente Francisco das Chagas Azevedo, comandante
da 3ª. Companhia do Batalhão Patriótico que foi em busca de
Lampião, na fazenda Carnaúba onde apresentou-se como emissário
oficial, ao Coronel Né Pereira.

Imediatamente foi enviado positivos, por diferentes direções,


para encontrar Lampião. De logo, o encontraram, perto da serra
do Pico em Nazaré. Conta a história que Lampião suspeitando de

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cilada de traição, recusou a atender ao chamado. Mas depois que


examinou bem a assinatura do Padre Cícero, cujo letra lhe era
familiar, foi que decidiu ir ao Juazeiro.

A caminho de Juazeiro

Aqui, resolvo registrar ipsis lítteris o registro da ida de Lampião


à Juazeiro, no terceiro livro da sextologia do Padre Frederico
Bezerra, “A Guerra de Guerrilhas” por admirar a forma que esse
escritor possuía em relatar a história:
“Sem detença, botou-se Lampião, agora com quarenta e nove homens, no riscado
das veredas, rescaldadas pela soalheira, em direção da Jerusalém do Cariri.
Atravessando espichões de léguas tiranas pelos espaços abertos da catinga,
calcinada e silenciosa, do município de Belmonte...
- o sol ferrado encandeando o céu azul-opalino carecente de nuvens.
- aqui e acolá, cruzes toscas de madeira, infincadas em rumas de pedras, na beira
das estradas, e enfeitadas de flores e fitas multicores desbotadas baloiçantes de
seus braços...
- os cercados, traçados de varas desnudas e secas, ou embuçados no manto verde
dos melões-de-são-caetano salpicados de frutos vermelhos e doces...
- a gadaria malhando modorrenta nos pátios das fazendas; rebanhos de caprinos,
com pais de chiqueiro, soltos, de cambau no pescoço; cabras pastorando, ao
balanço dos chocalhos e abaitadas tetas; cabritos escaramuçando felizes e
ensaiando escorneios elementares.
Em manhã nevoenta, os galos roucos amiudando, subiu Lampião o Araripe pelas
contorções bruscas dos caminhos abrancaçados pelo sulfato de cálcio dos cristais
de gipsita (gesso).
A chapada arenosa, seca, coberta de piquizeiros e mandiocais.
Ao longo do sopé, no entanto, abundam fontes inesgotáveis.
Lampião penetrou nesse rincão cearense do Cariri.
Uma chuva miúda umedeceu os cavaleiros e suas montadas, mas de logo serenou
e recolheu-se.”

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Às três horas da tarde, entrou o Rei do Cangaço, em Macapá, com


seu grupo. Viajando em meus pensamentos, os vejo, e minha alegria
de admirador não do bandido que era, mas de um homem que fez
sua história e deixou gravado nos corações dos nordestinos, e
porque não dizer, do Brasil e do mundo quase todo, na escrita e na
tradição boca a boca. Todos montados, firmes e olhando pra
frente com seus corpos retesados, garbosos, trotando
pomposamente, em desfile como sendo os salvadores do povo
cearense contra a coluna que queriam destruir as terras de ‘Padim
Ciço”.

Lampião com porte de majestade, o Rei dos cangaceiros ia na


frente, em um cavalo que imagino branco, mas que segundo o povo,
era ruço. Estava ladeado à sua direita por seu irmão Antônio e à
esquerda por seu Lugar-Tenente o cangaceiro Sabino, “os três
puxando a fila dupla, marchando de costado, com vinte e três pares de cavaleiros e
fechada por Luís Pedro, sozinho.”

“Ao parar a tropa quase que real, defronte da casa do Tenente Barroso. Desceram
dos cavalos e formando um semicírculo e segurando suas montarias, onde após os
cumprimentos, cordiais e de estilo, o “Tenente Barroso passou em revista a tropa
lampiônica. Um a um, foram, minuciosa e demoradamente, apresentados por
Lampião, os seus guerrilheiros e explicada a origem de seus nomes de guerra: —
Antônio Ferreira (seu irmão), Sabino (lugar-tenente), Seu Chico, Maçarico, Aragão,
Jurema, Nevoeiro, Pinica-Pau, Tenente, Mormaço, Cobra Verde, Andorinha, Moita-
Brava, Açucena, Cuscuz, Luís Pedro, Moreno, Três Pancadas, Três Cocos,
Chumbinho, Pensamento, Juriti, Meia Noite, Criança, Cancão, Coqueiro, Sabiá, Chá
Preto, Barra Nova, Bentevi, Lasca Bomba, Azulão, Gato Bravo, Beija Flor, Bom
Devera, Pai Velho, Maquinista (literato e secretário), Cravo Roxo, Jararaca,
Candeeiro e seu irmão Vareda, Serra do Mar, Lua Branca e seu irmão Vinte e Dois,
Colchete, Delicadeza, Fogueira, Arvoredo e Cajueiro.”

Maioria dos cangaceiros, cabras acostumados aos combates era pernambucanos.


Uns de Vila Bela, outros de Floresta e do Pajeú de Flores. Mais alguns de Triunfo.
Tirante Pai Velho sendo o mais idoso, o resto da cabroeira entre 18 e 30 anos de
idade. “E com exceção de alguns curibocas e dois negros, os demais de cor branca,
ou amorenados. Na residência de uma idosa senhora, D. Generosa, se reuniram
Lampião e seu Estado Maior (Antônio Ferreira, Sabino e Luís Pedro) juntamente
com os Tenentes Luís Rodrigues Barroso e Veríssimo Alves Gondim (comandante

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de volante), o sargento Antônio Gouveia e outros agaloados componentes da polícia


militar cearense, para uma conversa informal, amistosa e animada, servida de
galinha assada e regada a vinho cerveja. Lá fora, cangaceiros, soldados e povo em
perfeita harmonia. Quase consumido o estoque de cigarros, fósforos, bolachas,
vinho e perfume da bodega do comerciante Moisés Bento, que gostava de
"despachar" os cangaceiros, fregueses esses bons pagadores.”

Positivamente Lampião não gostava de dever a ninguém, exceto


sua ira revoltada contra o sistema que o oprimia e por isso
requisitou, pagando corretamente, todas as galinhas dos quintais
para mantença de seu bando. Depois, no meio da rua, ordenou
Lampião ao sanfoneiro tocasse "Mulher Rendeira". E, enquanto
improvisava loas, os cabras, em roda formada, xaxavam e
cantavam o famoso estribilho:

— "Olê Mulé Rendêra , ô, mulé rendá, Chorô pru mim num fica
Saluçô vai no borná"

“Inda que a vibração dos acordes desta canção guerreira contagiasse os militares,
contagiou mais ainda todo o povo. De súbito, entusiasmados, todos imitavam os
alegres visitantes...
As horas foram inesquecíveis para aquele povo, de alegria e festa, as que Lampião
veio trazer àquele pedaço de sertão perdido no Cariri! Durante as despedidas,
entregou Lampião ao Tenente Veríssimo um bonito revólver niquelado "Chimite"
("Smith and Wess"), para ser oferecido, como presente, a seu amigo ausente -
Capitão Honorato dos Santos Carneiro, da polícia do Ceará.

Ordeiramente aqueles homens prosseguiram na viagem, passando por Porteiras,


indo pernoitar no sítio Laranjeiras, cujo proprietário, Antônio Pinheiro, fez troca dos
animais cansados e inferiores do grupo, fornecendo outros melhores.”

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Desta localidade, Lampião e seu bando, partiram como salvadores


da pátria e com peitos estufados de orgulho patriótico, entoavam
o hino "Olê Mulé Rendêra , ôlê mulé rendá...”.

O Sonho de um Sonhador

Trago aqui, um sonho que tive, a respeito da ida de Lampião a


Juazeiro, para incorporar-se ao Batalhão Partriótico:

Parece que eu estava lá. Em minha mente buliçosa, viajava antes


que um piscar de olhos estalasse, vendo aquela alegria contagiante.
Lembrou-me, mal comparando, e que Deus me perdoe, do Rei Davi,
quando voltava à Jerusalém com a Arca da Aliança, recuperada dos
Filisteus, onde o povo cantava e tocava seus instrumentos
cantando e louvando a Deus por Davi a ter recuperado.

Marchei junto com eles sem que eles me notassem. E notei a


satisfação no rosto de Virgulino Ferreira da Silva, que queria
se ver livre de Lampião, e esta era sua oportunidade. Queria
ser uma pessoa comum. Era seu sonho e eu no meu sonho,

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entrava no seu sonho. Queria criar seu gadinho e ter sua roça
de algodão e macaxeira. Talvez até mesmo em seus sonhos
proféticos, tenha visto no futuro, sua Maria Bonita, esperando
por ele, para criarem em paz os seus filhos.

Infelizmente os homens de poder e os invejosos, não deixaram,


uma pena...

Esse artigo, que dei o nome de“Lampião a caminho de


Juazeiro, a Cidade Santa” - LAMPIÃO convocado para fazer
parte do Batalhão Patriótico do Juazeiro do ‘Padim Ciço’.

Vocês encontram nesse endereço:


https://meneleu.blogspot.com/2014/10/lampiao-caminho-de-juazeiro-
cidade-santa.html

Nele tem os jornais onde com cliques em cima das fotos, podem
ser lidos.

Lampião soube utilizar métodos de comunicação

Lampião foi o primeiro cangaceiro - e essa é a sua grande


originalidade – a cuidar de seu personagem; utilizou métodos de
comunicação – principalmente a imprensa e a fotografia, que não
faziam impor a imagem que queria dar de si mesmo. Concedeu
entrevistas, deixou-se fotografar por várias vezes, instando para
que as imagens fossem difundidas na imprensa do Brasil inteiro ou
distribuídas à população do sertão.

Chegou mesmo a participar, em 1936, da filmagem de um


documentário (https://www.youtube.com/watch?v=O33Flqcp5B4&t=7s)
consagrado à sua vida e à do seu grupo na caatinga. Essa elaboração
de imagens pela imprensa, pela fotografia e pelo cinema repercutiu
nos diferentes protagonistas da luta contra o cangaço que,
principalmente por via da imprensa, devolveram regularmente
contra imagens a Lampião, como veremos argumentos em duas

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reportagens atuais e que servem para olharmos o passado. A


margem desse sistema de imagens e contra imagens coloca-se o
problema extremamente interessante dos interlocutores.

A pesquisadora francesa Elise Grunspan-Jasmin analisa em


entrevista ao jornal O POVO de Fortaleza, a construção da imagem
de Lampião através das fotografias publicadas na imprensa da
época.

O vulto de Lampião fazia rebuliço quando notícias anunciavam sua


aproximação. Assim foi por mais de 20 anos, num enfrentamento
aberto contra o poder de repressão estatal. Um enfrentamento
que ganhou dimensões espetaculares na imprensa, principalmente
através da publicação de fotografias. De um lado dessa disputa
estavam cangaceiros e o próprio Lampião, que pousavam
imponentes nas imagens ao mesmo tempo em que a captura do
bando, pelas forças policiais, parecia impossível. Doutro, registros
das volantes, de acordos governamentais e cangaceiros mortos.

A autora do livro Lampião – Senhor do Sertão, a francesa Elise


Grunspan-Jasmin, analisou as cerca de 200 fotografias relativas
ao cangaço, reunidas em diferentes arquivos públicos e coleções
privadas do Nordeste brasileiro, e escreve na entrevista abaixo
sobre a ascensão e queda do homem que já morreu mito:
O espelho de Lampião
Pedro Rocha da Redação
O POVO – Que momento marca a entrada de Lampião na imprensa?
Elise Gruspan-Jasmin – Sua incorporação aos Batalhões Patrióticos, em 1926,
marca o início de sua vida pública, sua ruptura definitiva com a sociedade do sertão,
à qual não se reintegrará nunca mais, e, principalmente, a sedução de um
enfrentamento com o Brasil inteiro por intermédio da imprensa. Foi, a partir de então,
que instaurou-se um diálogo entre Lampião e interlocutores que ora eram seus
admiradores, ora seus inimigos. A imprensa e a fotografia veiculam essa imagem de
Lampião, o que, para a época, é extremamente inovador. O ano de 1926 registra

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uma virada na vida de Lampião. A incorporação de Lampião aos Batalhões


Patrióticos devia, na verdade, ser seguida de uma anistia e da obtenção oficial da
patente de capitão. Sabemos que não foi nada disso. As promessas não foram
mantidas: ao sair de Juazeiro, Lampião continuava a ser um criminoso perseguido
pelas forças policiais, e sua patente de capitão não tinha estritamente nenhum valor.
Acho que foi depois do episódio de Juazeiro que Lampião tomou consciência da
influência dos jornais sobre a construção da sua imagem, mas renunciou à relação
direta com a imprensa. É a partir dessa traição que se constrói e se elabora a última
imagem do cangaceiro Lampião, a de um homem que, descobrindo que não voltará
a pertencer à sociedade do sertão, vai, doravante, enfrentá-la e desafiar o Brasil
inteiro.
OP – Como esse momento se diferencia das fotos feitas dez anos depois por
Benjamin Abrahão?
Elise – Em 1936, ele é o “Rei do Cangaço”, se deixa ver, se exibe no seu universo
familiar. Ele não tem mais, desde muito tempo, a esperança de reintegrar à
sociedade. As fotografias de Benjamin Abrahão testemunham da organização de
uma vida com suas próprias leis, códigos, costumes. Lampião é, ao mesmo tempo,
chefe de grupo e chefe de família e deixa parecer sobre as fotografias todos os
momentos de uma vida que ele encenou. Nas fotografias feitas por Benjamin
Abrahão, Lampião vai diferenciar-se: tomará distância em relação aos códigos
tradicionais em vigor até então no cangaço, cuidando de sua aparência e
organizando uma verdadeira cenografia entorno de sua pessoa e de sua atividade.
Ele passa a cuidar dos detalhes de seu vestuário: imensos chapéus decorados com
medalhas, correias recobertas com peças de ouro, fruto de suas pilhagens, alforjes
bordados com cores soberbas, punhais imensos incrustados de pedras etc. Agora
ele é reconhecível entre todos.
OP – Lampião tinha um senso estratégico e consciente do uso de sua imagem?
Elise – É uma questão muito delicada. Analisando a iconografia do cangaço, a gente
não pode escapar a tentação de pensar que Lampião, de uma certa forma,
instrumentalizou a fotografia para construir sua lenda e, até mais, fez da fotografia
um dos elementos da sua manipulação das mídias. Eu, pessoalmente, acho que
Lampião, certamente, sem instrumentalizá-la ou manipulá-la, entendeu o impacto
que a fotografia podia ter na construção da seu personagem e na interação que ele
podia ter com os seus adversários.
OP – Houve uma reação deliberada dos adversários? As fotos se diferenciam em
que dos retratos de cangaceiros?

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Elise – Na leitura dos jornais do litoral do Nordeste, assim como os do sul do País,
fica evidente que a fotografia teve um papel considerável na demonstração de poder
de cada um dos campos. Algumas fotografias representam as autoridades
governamentais e policiais dos diferentes estados do Nordeste em reuniões
estratégicas, conferências de imprensa ou jantares oficiais organizados nas
diferentes capitais do Nordeste. A repressão do cangaço já não é mais unicamente
um problema das volantes em ação no sertão. Essas imagens registradas na
imprensa reforçam a ideia de uma participação ativa das personalidades políticas
das grandes cidades do litoral na elaboração de planos de combate contra o
cangaço. Visam contrabalançar a infinidade de artigos criticando o pouco
envolvimento dos políticos das grandes cidades do litoral frente ao drama que sofria
o sertão. Paralelamente às imagens de reuniões oficiais, aparecem nos jornais, a
partir de 1935, fotografias que mostram oficiais ou soldados das forças volantes em
campanha contra o cangaço no sertão. Os oficiais e soldados das volantes –
particularmente os da força de Nazaré, inimigos irredutíveis de Lampião – são quase
sempre retratados em uniforme de campanha. Seu traje, embora não seja ricamente
enfeitado, assemelha-se, em diversos aspectos, ao dos cangaceiros, permitindo
identificar a região de onde provêm os personagens e os códigos de identificação
das roupas dos combatentes. Esse tipo de fotografia foi privilegiado na imprensa da
época até a morte de Lampião, por reposicionar a relação de forças entre Lampião
e seus adversários em um contexto regional claramente determinado.
OP – Nessa disputa, o que representa a famosa foto das cabeças decapitadas em
Angicos?
Elise – Foi nessa ocasião que a encenação e a iconografia macabra do cangaço
teve seu auge. Em uma espécie de resposta à alegação de poder e invulnerabilidade
do célebre cangaceiro, decapitaram-no e exibiram sua cabeça e a de seus
companheiros como troféus, a fim de mostrar aos olhos do mundo que esse corpo
fechado, impermeável às balas e às facas, podia ser fragmentado. Essa fotografia,
exibindo numa encenação elaborada, cadáveres profanados e mutilados, coloca o
público diante de uma violência que desperta a sensação de ausência de limites.
Tudo parece ser permitido, em uma espécie de derrapagem descontrolada. A
imagem aqui é destituída de seu poder de sacralização do sujeito, e não passa de
um objeto difamador, que sugere exclusão, uma despossessão post-mortem.
OP – Quais as interpretações que podemos fazer a partir dessa “encenação
elaborada” a qual você se referiu?
Elise – A fotografia das 11 cabeças cortadas revela uma composição bastante
elaborada. As cabeças dos 11 cangaceiros mortos em Angicos pela volante de João
Bezerra foram dispostas sobre um lençol branco, estendido sobre os degraus da
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igreja de Santana do Ipanema. Em torno dessas cabeças estão distribuídas, em


cuidadosa simetria, armas, cartucheiras, bornais e chapéus dos cangaceiros, além
de duas máquinas de costura. A disposição das cabeças não é aleatória: a de
Lampião foi isolada das demais, e aparece em primeiro plano, na base da
composição, como para dizer que Lampião – o chefe, o instigador, o arquiteto, o rei
do cangaço – agora estava reduzido ao comando de um grupo de cabeças
decepadas. Em segundo plano, logo acima da cabeça de Lampião, encontra-se a
de Maria Bonita, entre as de Quinta-Feira e Luís Pedro. As cabeças dos outros
cangaceiros foram colocadas mais acima: são as de Mergulhão, Elétrico e Caixa de
Fósforo. No topo estão as cabeças de Adília, Cajarana, um desconhecido e
Diferente. Todas estão etiquetadas e exibem o nome de cada cangaceiro. Os
símbolos da riqueza e da força guerreira dos cangaceiros estão presentes,
compondo o fundo de uma natureza-morta macabra. Esses detalhes – bordados,
ornamentos, peças de ouro – sugerindo brilho, luminosidade que se perdeu para
sempre, contrastam violentamente com as cabeças cortadas, remetendo o
observador, inapelavelmente, ao ato de decapitação e à profanação dos cadáveres.
A Imprensa

- A quem se dirige Lampião quando concede entrevistas à imprensa


ou quando distribui suas fotografias, à população?

- Aos sertanejos, às forças policiais que o perseguem no sertão,


às autoridades políticas locais ou a todas as autoridades do Brasil?

- A quem se dirigem os jornalistas do litoral e do sertão que


relatam os crimes cometidos por Lampião, as exações das Forças
Volantes ou o sofrimento infligido à população do sertão?

- Quem está por trás do discurso desses jornalistas? São eles


atores na luta contra o cangaço?

A ideologia mal velada que se infere das palavras de certos


jornalistas do litoral, a virulência de certas acusações faz pensar
que eles são os intérpretes do poder estabelecido. Para apoiar
esse questionamento, importa levar em consideração tudo o que
subentende a opinião pública, considerando a maneira pela qual o
discurso é modelado segundo o interlocutor, quer se trate da

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população do litoral ou da do sertão, mas também do próprio


Lampião, de quem se sabe, lia avidamente tudo quanto se escrevia
a seu respeito.

A partir do momento em que Lampião se converteu em personagem


público, o que coincidiu a primeira entrevista concedida ao jornal
O Ceará em março de 1926, instaurou-se um diálogo entre Lampião
e todos os protagonistas dessa história, cada qual remetendo ao
outro a imagem que ele fazia de si mesmo e expressando, ao mesmo
tempo, o que ele próprio gostaria de representar aos olhos do
outro.

Dois grupos defrontaram-se ao mesmo tempo que se operou uma


transição de um para outro por meio da imprensa.
“Na medida em que Lampião está na origem da elaboração de seu personagem e,
ao mesmo tempo, em que continua sendo o objeto de representações múltiplas,
trata-se de ver como se instaura e evolui a dinâmica, esse jogo de representações
contraditórias.
Lampião nunca deixou de expor aos olhos dos outros e de impor à sociedade uma
certa imagem de si mesmo. Por sua vez, a sociedade apropriou-se dessa imagem,
criando metamorfoses a partir dela, ao sabor das circunstâncias ou construindo uma
outra.”

Essa dinâmica de construção e desconstrução da sua imagem abre


caminho para a elaboração do mito Lampião. Ele é o herói de uma
história sempre reelaborada, construída e propagada não somente
pelo e no sertão, como também por e em outras regiões do Brasil.

Lampião, personagem real, viveu e realizou ações cuja


representação foi deformada e amplificada pelo imaginário
coletivo. Hora um herói, hora um ser monstruoso. Isso transparece
nos testemunhos que se pretendem os mais objetivos e se percebe
também nos relatos, nos artigos de jornais, nas obras que lhe são
consagrados e principalmente na literatura de cordel. A voz
popular deforma, amplifica e transmite os ditos e as ações do

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herói e tenta dar, por meio dessas mesmas amplificações e


deformações, uma coerência à construção de uma história que se
torna intemporal.
“São inúmeros os documentos sobre a vida de Lampião, sua história, os atores do
drama de que ele foi instigador: artigos de jornais, testemunhos orais de
contemporâneos de Lampião ou posteriores à sua morte, obras críticas ou
romanceadas, autos de processos, telegramas enviados pelas forças de polícia,
memórias de diferentes protagonistas, fotografias e poemas de cordel. Essa
documentação farta, cheia de contradições, reflete diferenças de sondagem
segundo a especificidade cultural ou regional, o contexto político ou histórico,
segundo as posições ideológicas ou a implicação pessoal de quem dá a informação,
divergências que fazem viver o personagem e o desmultiplicam.”

Os documentos, em sua maioria, pertencem ao universo do relato


ou da narração: há os que pretendem contar a "história", os que
denunciam, os que querem restabelecer uma verdade que eles têm
como a verdade, os que creem compreender e querem comunicar o
que consideram irrefutável, os que se concentram em um momento
determinado, os que julgam, os que reabilitam e os que constroem
a narração de sua própria história pela história de Lampião.

Ante uma história que não para de crescer e de se transformar,


onde situar-se como historiador? Como fazer justiça a todos os
locutores que são também os atores dessa história? Fazer
repercutir suas vozes, abrir-lhes espaço e ao mesmo tempo
analisar seu discurso tentando revelar a sua polissemia; essa é a
tarefa do historiador quando ele "constrói" a sua biografia de
Lampião.

O papel da crença, numa região onde o relato e a palavra têm tanto


ou maior valor quanto um documento escrito – mesmo que oficial -
não deverá ser negligenciado. Lampião desafiou as forças da
ordem e durante quase vinte anos menosprezou os diferentes
governos do Nordeste e até mesmo o Governo central.

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Esse clandestino não cessou de se exibir e de proclamar sua


onipotência a uma sociedade incapaz de compreender de onde
vinha essa invulnerabilidade e de responder a ela. Se alguns
destacaram principalmente sua pujança guerreira, sua valentia,
seu ardor no combate ou suas qualidades de estrategista, a
maioria, tanto entre os sertanejos como entre os habitantes do
litoral, preferiu apelar para o sobrenatural ao explicá-lo. Esse
herói seria dotado de poderes mágicos, recorreria à bruxaria para
vencer seus inimigos, alguns dizem até que teria selado um pacto
com o diabo e se tornado imortal depois de reinar como senhor do
sertão.
“A noção de invulnerabilidade vinculada à pessoa de Lampião está associada a todo
um discurso sobre o corpo, numa perspectiva tanto descritiva como metafórica.
Ao corpo de Lampião, corpo real, corpo figurado, corpo simbólico, corpo coberto de
proteções mágicas que o "fecham", corpo que se transforma à medida que os
sofrimentos o atingem, respondeu o corpo ferido da sociedade, que tentou
reencontrar sua unidade matando Lampião e seu bando e se apropriando dos seus
cadáveres.”

Nertan Macêdo, em sua magnífica obra consagrada a Lampião,


evoca assim o lado inquietante do personagem: descreve um
guerreiro semelhante a uma besta selvagem, totalmente ligado à
natureza, à terra, ao território que o cerca, próximo, ora dos
assustadores animais noturnos, provocando repulsa e terror
fóbico, ora de animais dóceis e selvagens, ágeis e indomáveis.

Um corpo, diz Nertan Macêdo, que parece expressar e revelar


uma tristeza e uma selvageria que remontam à noite dos tempos:
“Triste e magro é o país dos nordestinos. Triste e magro é o sertão desse país. Tão
magro e triste como o seu herói predileto, o Capitão Virgulino Ferreira da Silva, de
alcunha Lampião, cujo nascimento, vida e morte narraremos no decorrer desta triste,
magra narração...
Esmalhado d'ouro, nas teias do azul, era o capitão Virgulino espesso, profundo,
luminoso. Movia-se como uma aranha, voava como um morcego, pulava como um

RAUL MENELEU MASCARENHAS 95


96 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

cabrito. Nas caminhadas era lento, cauto, destro. Ósseas articulações, cartilagens,
glenas encouradas, tanto se assemelhava a um novilho arisco e curtido como a uma
serpente faminta, enrodilhada na pedra. Quem o visse gelava. Mais ainda, depois
da morte do irmão Antônio, quando abandonou os cabelos ao crescimento e as
unhas se lhe tornaram garras recurvas, aduncando-se, como bicos numerosos, de
aves esfaimadas.
As mãos impressionavam, dirá, mais tarde, um cronista, que ouvia dos raros que
testemunharam a sua presença, passando-lhe rente à sombra, esguia e triste. Como
ele, eram, também elas escuras, espessas, profundas, da escuridão da pedra dos
fundos das cacimbas enlodadas. [..]
Era isto sim, da cor da dureza do bronze. Semeara-o a mão de Deus nesses campos
de abandono e tristeza. Tristeza incomensurável, vazia. Semente da noite, a
germinar, no fundo da terra, e rebentando ante um sol imenso e luminoso quando o
dia se fez. Garrancho que se levanta em forma de tíbia, fêmur, macérrimo osso, nos
cerrados amplíssimos.
Era um osso, bem o sabemos”

Sim amigos, perguntei no início: qual o lado que estaríamos se


vivêssemos naquele tempo? Ao de “maus indivíduos” ou de “bons
indivíduos”? Quem seriam os maus e os bons indivíduos? Pois bem,
a resposta vou deixar para cada um de vocês. Se me perguntarem
o POR QUE? Lhes direi através destas duas matérias: (poderia me
estender colocando outros exemplos de como a Imprensa pode
construir ou destruir. Lembram da Escola Base em São Paulo?
(http://www.justificando.com/2014/12/10/da-serie-julgamentos-
historicos-escola-base-a-condenacao-que-nao-veio-pelo-judiciario/)

Sim amigos, a Imprensa tanto pode construir como destruir. Nas


páginas seguintes temos dois exemplos. Um que não paira dúvidas
nenhuma; e outro com dúvidas abundantes.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 96


97 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

O caso Richard Jewell

Clint Eastwood nos lembra que


fatos podem não corresponder a
verdade por o caso Richard
Jewell
Pôster do filme
https://www.youtube.com/watch?time_continue=65&v=VLDPvYZgM0Q&feature=
emb_logo

1 - O ator e cineasta Clint Eastwood nos lembra que fatos podem


não corresponder à verdade.

Novo filme de Clint Eastwood, “O caso de Richard Jewell” é um


convite para lembrarmos que fatos não correspondem,
necessariamente, à verdade e até podem esconder a realidade.

Para além do conhecido episódio, que foi a responsabilização de


um inocente e a consequente ruína de sua família, pelo atentado a
bomba nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, a história suscita
reflexão mais do que oportuna para muitos brasileiros que relutam
em aceitar a tragédia das “fakenews” para o país e do que ficou
conhecido como Vaza-Jato.

Para os mais simplistas sei que é difícil não aceitar fatos como
verdades e realidade. São os que acreditam nos reflexos imediatos
de uma suposta verdade a partir de episódios noticiados, além de
imagens veiculadas, as tais imagens que valem enganosamente por
mil palavras. Como se os fatos refletissem de forma clara e
inequívoca o real em todos os seus contornos, a exemplo dos nossos
espelhos em casa.

Ora, nem os espelhos refletem a realidade como vemos.


Certamente, o que vemos do nosso rosto no espelho não é o mesmo
que outras pessoas veem. Vemos de formas diferentes as mesmas

RAUL MENELEU MASCARENHAS 97


98 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

coisas, movidos por ideologia, história, pensamento, conhecimento,


desejo e limitações diversas.

Entretanto, não se defende aqui a ideia de certo pragmatismo do


fim do século XIX, nos Estados Unidos, que acabou se delineando
em outras vertentes na Europa na primeira metade do século XX,
em relação, por exemplo, à busca da verdade científica. Qual seja,
a que defende a postura segundo a qual a verdade seria aquilo que
desejamos acreditar que seja.

Contra certos relativismos pós-modernos, devemos lembrar que


os avanços da ciência em diferentes ramos do conhecimento
servem para qualquer quadrante do mundo. E nos processos
epistemológicos, ainda somos sujeitos diante de objetos a serem
conhecidos, objetos que estão fora de nós e precisam ser vistos
de forma distanciada, caso procuremos evitar falsificações. A
descoberta de novas bactérias, sem dúvida alguma, serve para
prevenção de doenças na Inglaterra como no Congo.

O velho problema é quando o sujeito se confunde com o objeto,


como se costuma dizer em ramos da ciência social como na história,
economia, ciência política, psicologia e outras.

Mais ainda o problema se agrava e se torna nevrálgico no


jornalismo, atividade, assim como no Direito, cuja base de
justificação é a busca da verdade, mas qual verdade? A verdade
que precisa compor uma notícia, ou a verdade crua do que
realmente acontece ou aconteceu em determinada situação?

No caso do jornalismo, que foi justamente o episódio retratado


por Eastewood, nas articulações com o FBI para se chegar ao autor
do atentado, o filme nos impacta mais pela crueza da manipulação
dos fatos do que pelos próprios fatos em si. Inevitável a viagem
para a qual o filme nos faz embarcar das Olimpíadas de Atlanta,
na década de 1990, para os dias atuais no Brasil, com toda a

RAUL MENELEU MASCARENHAS 98


99 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

estupefação dos fatos, da mentira – e pior, da aceitação da


mentira como verdade.
Reportagem do Jornalista Álvaro Miranda no link
https://jornalggn.com.br/artigos/clint-eastwood-nos-lembra-que-fatos-
podem-nao-corresponder-a-verdade-por-alvaro-miranda/

O Caso Wallace

2 – A segunda matéria é sobre o documentário BANDIDOS NA TV


série documental da Netflix.

A história de Wallace Souza, ex-


deputado federal e ex-
apresentador do programa Canal
Livre, na cidade de Manaus, capital
do Amazonas.

A equipe do Canal Livre estava presente em todo tipo de


acontecimento com rapidez surpreendente, e isso fez o programa
se tornar líder de audiência na faixa em que era exibido, no horário
do almoço. Seus repórteres muitas vezes chegavam à cena de um
crime antes mesmo que a polícia.

Dúvidas sobre o caso Wallace

"Bandidos na TV" mostra os argumentos de Wallace, que sempre


negou envolvimento com os crimes e se dizia vítima de perseguição
política. Há momentos, porém, em que se tem a impressão de que
o apresentador é um chefe mafioso, imagem oposta à que ele
constrói discursando, principalmente na tribuna, para se defender.

Com o passar dos capítulos, o espectador vê sua própria convicção


oscilar: ora acredita na inocência de Wallace Souza, ora se
convence de sua participação nos crimes. Por fim, nada é
respondido, e o que fica é um grande ponto de interrogação. Teria
o apresentador encomendado os crimes que noticiou, sim ou não?

RAUL MENELEU MASCARENHAS 99


100 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Reportagem é do Jornalista Alfredo Henrique no link


https://f5.folha.uol.com.br/cinema-e-series/2019/06/bandidos-na-tv-o-caso-do-
apresentador-acusado-de-encomendar-mortes-por-audiencia.shtml

Livros às vezes não são confiáveis

Alguns autores de livros cometem erros tanto por seguir apenas


os livros de autores digamos assim, famosos, como por não
fazerem pesquisas cruzadas com os registros oficiais. Dou aqui
alguns exemplos de autores do passado onde encontramos relatos
não condizentes com a história. O primeiro é Leonardo Mota com
seu livro “No Tempo de Lampião” 2ª edição pg 22 onde diz que
quem matou o cangaceiro Sabino Gomes, foi o próprio Lampião. Na
verdade Sabino foi morto em tiroteio pela volante do sargento
Hercilio Nogueira, que ao ver o vulto, provavelmente de Sabino,
atirou, iniciando então um tiroteio cerrado por parte das volantes.
Quanto aos cangaceiros, que estavam sem munição, só tinham um
recurso, fugirem. Virginio e Ezequiel foram rastejando pelo mato,
encontraram Sabino baleado, o carregaram para fora do cerco, por
uma vereda, seguidos pelos demais companheiros e foram se
encontrar com Lampião.

O estado de Sabino era grave. Na fuga, a fim de despistar a


polícia, Lampião deixou o ferido escondido e despistando a
Volante, as levou para longe. deixando de propósito indícios de sua
passagem, de modo a levar a força para bem longe do local onde
estava o ferido. Depois, Ezequiel, Virginio, Luís Pedro e Mergulhão
voltaram por outro caminho para pegar o companheiro e levaram-
no para os lados do Riacho do Cardoso, ainda nas matas da Fazenda
Piçarra.

Lampião fez o que foi possivel para salvar o amigo. Ele próprio
encarregou-se do tratamento, lavando diariamente os ferimentos
com diversos tipos de infusão. Se for relatar erros nos livros de
Leonardo Mota, encontraremos muitos, pois suas reportagens

RAUL MENELEU MASCARENHAS 100


101 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

eram baseadas nas conversas com os sertanejos, que as contavam


por “ouvir falar” e o jornalista as reproduzia e enviava para seu
jornal.

Outro livro que encontrei disparidades, foi Nertan Macedo, que


escreveu o livro “Lampião. Nesse livro ele fala da entrevista que
teve com o então Sr. Eronides de Carvalho, ex-interventor e
governador de Sergipe, que fez as famosas fotografias de
Lampião e seu pequeno bando, quando esses estiveram em Sergipe.

Vamos aos meus argumentos, que os repito aqui, mas que estão em
meu ebook “Lampião na Jaramataia e Borda da Mata - A Foto
Comprometedora” que os amigos poderão encontrar nos Arquivos
do Grupo de Facebook “Ebook Cangaço e Nordeste”
(https://www.facebook.com/groups/443128926284815/)

Inicio com uma pergunta: Se Eronides de Carvalho, tivesse já


amizade com Lampião, conforme alguns historiadores dizem, que
lhe foi apresentado no ano de 1929, ano em que ainda era tenente
e fotografara seu bando em diversas poses, por que disse que era
capitão?

Lampião invadiu a cidade de Capela, em Sergipe, pela segunda vez,


no mês de outubro do ano de 1930 e o Tenente Eronides assumia
mesmo por apenas três dias o governo revolucionário, e a pedido
do major e ex-deputado estadual Major Honorino Leal, que solicita
ajuda ao Interventor e esse o manda combater Lampião com o
apoio do Estado, isto relativo ao custo das despesas financeiras.

Isso não foi traição?

RAUL MENELEU MASCARENHAS 101


102 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Foto de Eronides Carvalho Eronides Carvalho

Nesta foto do bando, onde aparece o primeiro da direita para a


esquerda, o cangaceiro menino, Volta Seca.

Através desta foto podemos situar a foto entre 1929 a 1931. E se


tiver sido em 29, tem o dedo da traição. E se Lampião, brigou com
poderosos coronéis por causa de traição, quanto mais com um
Tenente. A não ser que Lampião não soubesse dessa traição. O que
duvido muito. Há indícios suficientes para não ter sido em 1930,
pois ele estava só preocupado com a Revolução. Só resta então o
ano de 1931, pois o fogo da Maranduba se deu no início de 1932,
quando Volta Seca foi preso. Mas mesmo assim Eronides era
Tenente e não capitão. As histórias estão desencontradas nesses
dois fatores: data da foto e a patente de Capitão. O resto, é cair-
se no "acho" e "acho" não é história, é conjectura. O fogo da
Maranduba que se deu em 9 de janeiro de 1932 e logo após se deu
a prisão de Volta Seca, no dia 21 de fevereiro início de 1932,
quando Volta Seca foi preso, logo após o combate, pois tinha
desertado do bando. Tal prisão foi feita pela Volante Alagoana do
Tenente José Joaquim.

Eronildes, como mostra alguns historiadores, estava se


recuperando de uma doença, e se já era Capitão, este
descanso para recuperação da doença se dera após abril de
1933, pois neste mês e ano fora promovido a capitão pelo

RAUL MENELEU MASCARENHAS 102


103 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Exército, data totalmente diferente das que historiadores


afirmam para o encontro de Eronides e Lampião, pois indicam
agosto de 1929.

Em 27 de novembro indicam que existiu a famosa conversa, que


foi registada por muitos autores e que Nertan Macêdo registra no
seu livro LAMPIÃO tanto na terceira edição de 1970 quanto na
quarta de 1972, que possuo em minha biblioteca. Não existe
registro de data, onde encontra-se a visita e a conversa:
"Lampião desmontou à distância e veio caminhando, sòzinho, enquanto o grupo se
detinha, cêrca de uma vintena de cangaceiros.
Estendeu a mão para o médico, dizendo:
- Bom dia, doutor. Eu sou o Capitão Virgulino Ferreira da Silva Lampião. Venho fazer
uma visita de boa paz ao senhor.
O doutor sorriu ao cumprimento, indagando: Então como devo chamá-lo: capitão ou
coronel? Porque eu também sou capitão e deve haver aqui uma hierarquia.
Como oficial do Exército não posso ser comandado pelo senhor...
Lampião compreendeu a malícia e replicou: Pois desde já o senhor está promovido
a coronel."

Por que Nertan Macêdo, escritor de renome, membro da


Academia Cearense de Letras, tendo como patrono Clóvis
Beviláqua, membro do Instituto Histórico do Cariri e membro
correspondente do Instituto do Ceará e do Instituto Histórico e
Geográfico de Goiás, iria inventar isso?

A entrevista de Nertan foi com o próprio Eronides. Portanto foi


o proprio Eronides que relatou esse caso. O livro foi lançado em
1962 e Eronides faleceu em março de 1969. Por que não desmentiu
essa história?

Não tenho nenhuma base pra dizer que data. O que sei, é que em
seu discurso, na posse, ele fala de uma doença e que o povo de

RAUL MENELEU MASCARENHAS 103


104 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Aracaju o tratou bem. Pode ter tido diversas doenças em diversas


ocasiões como qualquer um de nós as teve.

Vamos por parte:


1 - Se foi 1929 ele mentiu pra Lampião e ai vou concordar com o
Confrade Sálvio Siqueira que comentou para mim, que foi pra não
ficar por baixo, com a patente de Lampião.

2 - Se foi novembro de 1929 e já existia uma amizade, como falam


os historiadores, ele traiu Lampião em outubro 1930.

3 - Lampião odiava traições. Por que aceitaria essa?

4 - Quando o governo passou do General José Calasans para o


Capitão Maynard, Eronides foi para a oposição. Nesse ínterim
como Tenente pode ter ido diversas vezes à fazenda do pai. Pode,
ter conhecido Lampião. (vejam que não afirmo).

5 - Se apenas passou a ser Capitão em 1933 logo pode ter


acontecido essa visita após 33.

Nertan Macêdo inclusive fala sobre as fotos que o capitão


Eronides de Carvalho fez, o que tenho dúvidas que não foram
feitas em 1929 pelos argumentos cruzados em análise de
documentos oficiais e livros de Nertan Macêdo e outros autores.
Mesmo que tais fotografias, que foram presenteadas ao jornalista
Luiz Antonio Barreto pelos seus familiares, que afirmaram terem
sido tiradas em 1929, ainda tenho dúvidas.

Talvez a família lembrasse da sustentação das entrevistas que


Eronides dera a diversos jornais, referindo-se à data de 1929.

Por exemplo, esta que ele deu no O Jornal (RJ) de 29 de julho de


1938 que o repórter ouviu Eronides de Carvalho, interventor
Federal do Estado de Sergipe que estava hospedado no quarto

RAUL MENELEU MASCARENHAS 104


105 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

105, do Palace Hotel. Eronides desconhecia sobre a morte de


Lampião.

Também o jornal Correio de Aracaju de 05/08/38: Os Diários


Associados ouviram o Sr. Eronides de Carvalho, interventor
federal no estado de Sergipe, desconhecia até então a morte de
Lampião.

Foi quando falou ao repórter que a fotografia tinha sido feita por
ele.
- "Esta fotografia foi feita por mim. Achava-me, em 1929, numa fazenda sergipana,
em tratamento de saúde, quando Lampião chegou à casa-grande. Estava cansado
e vinha sendo perseguido pela polícia pernambucana. À tarde pedí para Lampião
posar para minha Kodak. O pedido foi atendido sem objeção de espécie alguma.
Lampião estava mal-humorado e apresentava roupas bastantes sujas."

Eronides em 1938 era Interventor nomeado por Getúlio Vargas e


Ele jamais iria afirmar que essa foto ele tirara no espaço tempo
da revolução. Se o fizesse iria ficar muito exposto. As fotos não
podem ter sido feitas em 1929 pois existe outros argumentos que
exponho mais a frente.

Quando foi registrado a pose em que Lampião está com


perneiras, previsivelmente compunham o uniforme de (Capitão?)
Eronides, Nertan Macêdo diz que na hora da despedida, "o doutor
lhe deu de presente um par de perneiras do Exército" e lhe disse:
"Na qualidade de Capitão o senhor não pode andar sem perneiras."

Pois bem, alguns pesquisadores dizem que Eronildes foi


apresentado a Lampião em agosto de 1929, durante os dias em que
se restabelecia de uma enfermidade na fazenda Jaramataia,
propriedade de seu pai, no município de Gararu. Essa afirmativa,
choca-se com a história do maior conhecedor de Lampião em
Sergipe Alcino Alves Costa.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 105


106 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Alcino em seu famoso livro “LAMPIÃO em Sergipe”, traça o


histórico desde o inicio de sua entrada em Sergipe.

Foi e 1 de março de 1929 por volta das 17h que ele entra na cidade
de Carira, na época distrito de Frei Paulo.

Foi uma visita pacífica. Segundo Alcino, Lampião não sabia que
naquele dia estava se apossando de Sergipe.

Acompanhem meu raciocínio:


No mês seguinte, 19 de abril de 1929, entrou em Poço Redondo.
Se dirigiram para a casa de China do Poço onde estava hospedado
o Padre Artur Passos que iria celebrar missa no arruado. Foi nessa
ocasião que Lampião listou o nome dos nove cangaceiros que o
acompanhavam.

Deixou Lampião a cidade de Poço Redondo e no dia 21 de abril


estava na povoação Saco do Ribeiro e na manhã do dia 22 segue
para a cidade de Pinhão onde aconteceu o primeiro combate em
terras sergipanas. Foi com a Volante da Bahia comandada pelo
Tenente Manoel Campos de Menezes, onde ficaram feridos o
comandante da Volante e o cangaceiro Luis Pedro. Daí Lampião
chegou ao fim desta visita de dois meses a Sergipe, voltando para
a Bahia.

Sete meses se passaram, diz o historiador Alcino Alves da Costa,


para Lampião voltar a entrar em Sergipe.

Era novembro de 1929 quando passeou pelas ruas da cidade de N.


S. das Dores e no mesmo dia entra pela primeira vez em Capela.

Foram visitas amigáveis. Estava à vontade. Tranquilo.


Vejam que a data de agosto de 1929 que alguns autores dizem que
foi quando Lampião foi apresentado a Eronides já foi engolida.
Lampião em agosto de 1929 diz Alcino, não estava em Sergipe.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 106


107 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Mas, se ele depois de passar por Aquidabã, suponhamos que tenha


ido à cidade de Canhoba?

Suponhamos que tenha feito visita ao dr. Eronides em 27 de


novembro de 1929 onde foram registrados os momentos em que o
cangaceiro posa de perneiras que compunham o uniforme do
Tenente Eronides?

Em 1929 Eronildes ainda era tenente e não capitão!


Será que Antônio Caixeiro já era coiteiro de Lampião em
novembro de 1929?

Lampião, estava em Sergipe pela segunda vez em novembro de 29,


diz Alcino Alves.

Significa então que, se adotarmos 27 de novembro para tais


fotos, a visita do cangaceiro se deu de forma amigável e Lampião
não estava fugindo das forças pernambucanas, sujo e maltrapilho,
como Eronides disse em reportagens de jornais um dia depois da
morte dele.

Vamos então analisar a foto que Lampião está com Volta Seca.
Mais um detalhe que podemos ter idéia do tempo em que a foto foi
feita por Eronides, onde Volta Seca aparece nela, é o comentário
do escritor Archimedes Marques, feito em conversa comigo,
quando disse:
"... acontece que Volta Seca foi preso um dia depois do fogo da Maranduba, 09 de
janeiro de 1932 ou seja, como ele poderia estar numa foto tirada por Eronides depois
que ele já era capitão, depois de 1933?" (CIC)

Então com esse comentário, podemos supor que a foto não se deu
depois que Eronides foi promovido a Capitão.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 107


108 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Isso pacifica a questão da patente. A perneira, imitando as


polainas de combate americanas que servem para proteção das
pernas e do frio fora doada de presente a Lampião.

Eram
do Tenente, pois não
existe perneiras especiais
para patentes, como podemos
ver nessa imagem do Exército
Brasileiro, onde a Guarda de
Honra e a Banda de Música
por ocasião da Aula Inaugural
Guarda de Honra e Banda de Música
do Curso de Formação de
Sargentos/2014 usaram réplica do uniforme histórico usado pela
Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a 2ª Guerra
Mundial.

Pelos argumentos apresentados por mim, as fotos tidas como de


1929, estão comprometidas pelo exposto nos livros e nos arquivos
oficiais.

Claro que parentes quando entregaram as fotos podem ter dito


que eram de 1929, talvez por Eronides sempre afirmar isso para
não ter problemas com seus superiores. Inclusive na entrevista
tanto a jornais quanto a Nertan Macêdo, que não fez o cruzamento
de informações ou não ter esses dados que temos à hoje à nossa
disposição.

Ele jamais iria afirmar que essa foto ele tirara no espaço tempo
da revolução. Se o fizesse iria ficar muito exposto.

No capítulo EM JARAMATAIA DE GARARU, o escritor Nertan


Macêdo fala que corria o mês de agosto. Não diz de que ano.
Lembremos-nos que Alcino Alves diz que Lampião não estava em
Sergipe nesse mês.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 108


109 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Nesse capítulo ele repete a conversa entre os dois capitães. E


Eronides é promovido por Lampião a Coronel.

Escreve que Corisco fazia parte do bando. Corisco não fazia parte
do bando da foto questionada, pois esses foram os cangaceiros
Lampião, Moderno, Zé Baiano, Arvoredo, Ezequiel, Calais,
Revoltoso, Mourão e o menino Volta Seca.

Mariano foi omitido. Na foto original ele aparece à esquerda de


Ezequiel, segundo o jornalista Kiko Monteiro. E por ai vai... as fotos
podem até terem sido feitas em novembro de 1929. Mas continuo
ainda com dúvidas.

À nossa disposição temos muitas variáveis deste evento. A


história tem muitos fatos escondidos. E no CANGAÇO eu quase
não acredito cem por cento nas "verdades cangaceiras".

Precisam ser muito bem detalhadas as histórias. Por isso não me


atrevo a afirmar que acredito no que o sr. Fulano ou Beltrano disse,
e nem os cangaceiros sobreviventes.

Claro que tem algumas verdades!


Em 10 de novembro de 1937 Getúlio Vargas implantou o Estado
Novo, decretando a suspensão das eleições e o fechamento do
Legislativo e dos partidos políticos.

Partidário do novo regime, Eronides foi confirmado no posto,


convertido em interventor federal em Sergipe.

Na nova fase de sua gestão, vários estudantes foram presos e


condenados pelo Tribunal de Segurança Nacional, encarregado do
julgamento dos opositores do Estado Novo.

Eronides foi acusado pela oposição e entre as acusações estava a


de ser coiteiro de Lampião. O médico sergipano Antônio Samarone,
membro da Academia Sergipana de Medicina, em artigo no seu blog

RAUL MENELEU MASCARENHAS 109


110 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

nos conta que na "história de Sergipe registra a proteção dada ao


cangaço, pelo coronel Antônio Ferreira de Carvalho, o lendário
“Antônio Caixeiro”, pai do Governador Eronides de Carvalho, no
município de Canhoba. O governo de Eronides de Carvalho de 1935
a 1941 foi altamente repressivo com os movimentos e organizações
dos trabalhadores.

Sua posse coincide com a Intentona Comunista de 1935. Censurou


a imprensa, reprimiu a oposição, castigou os trabalhadores. Ao
mesmo tempo, protegia o Cangaço e os coronéis, entre os quais o
seu próprio pai.

As denúncias chegavam diretamente ao Presidente da República,


expediente comum e que era estimulado nos Estados, que não raro
interpelava o interventor sobre a procedência destas. Maynard e
seu grupo não exitavam em lançar mão desse expediente, assim
haviam denúncias de compra de fazendas; fornecimento de gado
de modo irregular aos matadouros; utilização de terrenos públicos
para permanência de gado da família do Interventor e outras
denúncias similares.

O próprio Maynard fez chegar ao conhecimento do Governo


Federal irregularidades, tais como: a participação da polícia em
jogo no Estado, o desvio de dinheiro depositado no Banco do Brasil,
venda clandestina de algodão, etc.

Face a essas acusações, o Presidente da República forma uma


comissão para investigar a veracidade dos fatos e Dr. Carlos Mário
Faveret é indicado como presidente da mesma.

Em Sergipe, Carlos Faveret ouve várias personalidades,


registrando em seu relatório a veracidade de muitas acusações.

Apesar de Eronides de Carvalho ter tentado impedir os trabalhos


dessa comissão, Vargas não estava mais disposto a tolerar a

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111 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

improbidade de alguns de seus auxiliares e de nada valeu a


intervenção do General Góis Monteiro, padrinho e protetor de
Eronides de Carvalho, para mantê-lo no Poder.

Finalmente, em 1941, março precisamente, o capitão Eronides de


Carvalho vai ao Rio de Janeiro em busca de uma audiência com
Getúlio Vargas, porém, sem sucesso, lá permanece até os fins de
maio, sem, contudo, ser recebido pelo Presidente da República. Ali
mesmo escreve uma carta ao Presidente colocando seu mandato à
disposição e se dizendo “na paz da consciência e na tranquilidade de espírito
de haver servido a V. Excia. Com lealdade (...) ”.

Vargas, responde-lhe em cartas datada do mês de junho do mesmo


ano, dizendo-se de seu apreço pelo “patriótico desprendimento que
evidenciam da sua parte, depois de haver prestado a Sergipe e ao seu Governo
meritório e reais serviços”.

Com a renúncia do Dr. Eronildes de Carvalho, estava consumada a


sua queda.

O capitão Milton Azevedo assume, em um mandato tampão, até o


retorno do major Augusto Maynard Gomes.

Após a renúncia em 1941, fixa residência no Rio de Janeiro. Foi


nomeado para Juíz do Tribunal de Segurança Nacional e em 1944,
é nomeado Tabelião do 14º Ofício de Notas e Notas do Rio de
Janeiro. Morre em 18 de março de 1969.

Outro exemplo de disparidades encontradas nos livros, foi a


respeito do tiro no pé que Lampião tomou ao deparar-se com
quatro soldados de volante. Chamei esse artigo de LAMPIÃO:
Um tiro no pé (dos historiadores) -
https://meneleu.blogspot.com/2019/12/lampiao-um-tiro-no-pe-dos-historiadores.html

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112 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Em São José do Belmonte, existe um platô na serra do Catolé,


com um conjunto de cavernas em que Virgulino Lampião, rei dos
cangaceiros, recorreu como esconderijo natural para se recuperar
do balaço que levou no pé, precisamente no calcanhar, que discute-
se até hoje, se foi o direito ou o esquerdo. Isso se dera no ano
1924 em refrega com soldados. A história é implacável com quem
escreve sobre ela. Nesse episódio temos algumas versões, isso só
para mostrar o quanto é confuso diversos casos envolvendo
Lampião.

Irei citar aqui, algumas versões que li em livros de historiadores.

Iniciando com "SERROTE PRETO,


LAMPIÃO seus sequazes" escrito por
Rodrigues de Carvalho, onde na página 224 da
segunda edição diz textualmente:
"...estava a quadrilha encafuada havia mais ou menos um
mês. Esconderam-se a fim de tratar do ferimento que
Lampião recebera no pé esquerdo, em tiroteio travado
com elementos da família Gomes Jurubeba. Ou mais
precisamente com Odilon Flor, o seu inimigo mais acirrado
dentre os membros da aguerrida familía."

Este episódio, vem sendo descrito pelo autor, a respeito do cerco


feito pelo famoso Sargento Quelé, sob as ordens do comandante
da volante, o tenente Chico de Oliveira. Mais detalhes os amigos
poderão consultar a partir da página 222 da referida edição. Um
relato bem contado, pois o informante tinha sido o famigerado e
perverso cangaceiro do bando de Lampião chamado Marcos
Passarinho. Marcos esclareceu detalhes muito importantes em que
o próprio Clementino ignorava completamente. Como por exemplo
o fato de Lampião esteve na iminência de ser preso por se entregar
ao sargento.

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113 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

O tenente Oliveira era homem destemido, porém sem nenhuma


experiência de que eram capazes os cangaceiros e sua
periculosidade. E além desse desconhecimento de causa, a
impetuosidade e a imprudência nele apontava para um desastre à
vista, o que reclamou o sargento Quelé quando de retorno à cidade
de Princesa, quando ao caudilho José Pereira, prefeito e
organizador da campanha de repressão ao banditismo, pediu-lhe
que não o designasse mais para servir em uma volante com o
tenente impetuoso e suicida, em diligências daquela natureza. O
relato vai até a página 232.

Nesse primeiro relato que deixo bem registrado, fala da


recuperação do tiro levado no calcanhar e que tal tiro fora
desferido por Odilon Flor, em outra ocasião, tratado como autor
genérico.

VAMOS AGORA ao segundo relato encontrado. Este refere-se ao


tiro no calcanhar de Lampião. Lembre-se que no primeiro relato, o
tiro foi desferido por Odilon ou um dos nazarenos e na serra do
Catolé, Lampião estava se recuperando do tiro e quando fugiu do
ataque do sargento Quelé, na fuga, não suportou e a ferida veio
abrir-se com o esforço:

Nos relata o livro RAPOSA DAS CAATINGAS, do Confrade José


Bezerra Lima Irmão, na página 144 sob o título "Lampião é ferido
na lagoa do Vieira e escapa por pouco na serra das panelas" que o
mesmo se encontra com quatro membros que estavam desgarrados
da volante de Teophanes Ferraz, que fizera um chamamento geral
para todas as volantes perseguidoras de Lampião fossem lhe dar
apoio, pois este se encontrava na região. O relato do livro diz:
"O major Teófanes Ferraz Torres, que vinha no rastro do bando, desconfiou que
Lampião estivesse acoitado por ali, Despachou mensageiros para Vila Bela e outras

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114 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

cidades, solicitando reforços. Logo acorreram as volantes dos tenentes Alencar e


Ibraim e do sargento Clementino Quelé.”

No dia 23 de março de 1924, enquanto aguardava a volta de


Livino, Lampião, acompanhado dos cabras Moitinha e Juriti, foi
pegar uns mantimentos encomendados a um coiteiro nas
proximidades da Lagoa do Vieira, no lado paraibano, ao leste da
Pedra do Reino. No caminho, por volta das 10 horas, toparam com
quatro integrantes da volante de Teófanes Torres que tinham se
desgarrado da tropa - o Anspeçada Manoel Amaro de Sousa e os
soldados Manoel Gomes de Sá (Sinhozinho), Antônio Brás do
Nascimento (Antônio Pequeno) e João Demétrio Soares. Na troca
de tiros, uma bala acertou a cabeça do cavalo em que Lampião
estava montado e o animal ao cair prendeu a perna direita de
Lampião sob o seu corpo. O Anspeçada Manoel Amaro foi atingido
por um tiro no rosto.

Os outros, vendo que Lampião estava com uma perna presa sob o
cavalo, rodearam pelo mato a fim de matá-lo. Percebendo a
manobra, Juriti mandou que Moitinha ficasse atirando para lhe dar
cobertura e foi correndo socorrer Lampião. Moitinha, atirando de
ponto, feriu gravemente dois soldados, pondo os três para correr.
Juriti chegou sem perigo aonde Lampião se encontrava, pegou o
burro pelo pescoço e virou-o para o outro lado.

Quando os outros cangaceiros escutaram os tiros, vieram em


socorro e, tomando todas as precauções para não deixar pistas,
levaram Lampião para um esconderijo à distância de uma légua,
num trecho da Serra das Panelas, ao lado do Barro, no lado
pernambucano, município de Vila Bela. O local foi escolhido pelo
cangaceiro Cicero Costa, que era daquela região, assegurando que
ali não havia risco de serem descobertos. O coito ficava num lugar
onde há vários "caldeirões" de pedras acompanhando uma grota
que separa a Serra das Panelas da Serra do Caldeirão.

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115 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Como Lampião não podia correr, pois a perna estava ferida, Juriti
saiu arrastando-o... O lugar é conhecido como Grota do Caldeirão.

Cicero Costa de Lacerda tinha prática na aplicação de primeiros


socorros, sendo considerado o "médico" do bando - sabia até
extrair bala e costurar ferimentos. Com uma faca, rasgou a calça
de Lampião, para descobrir a perna ferida, e fez uma avaliação
preliminar.

- Esse horrô de sangue na perma não é nada, foi só um arranhão O


qui me preocupa mermo é o firimento no carcanhá. Isso foi bala de
fuzi. E eu acho qui o pé tá turcido..."

CONCLUSÃO: Alguns historiadores afirmam que o tiro teria sido


dado peio sargento Quelé ou pelo major Teófanes Torres. Porém
a participação de Quelé foi no tiroteio, alguns dias depois, na
Serra das Panelas, onde Lampião se recuperava de ferimento
recebido na Lagoa do Vieira (Lampião não foi ferido na Serra das
Panelas - nesta apenas houve agravamento do referido ferimento.
Quanto ao major Teófanes Torres, este sequer se encontrava na
área por ocasião dos dois tiroteios - chegou depois.

LAMPIÃO - SANGUE EM BELMONTE (Em 3 versões)

As versões dos acontecimentos variam de uma forma contundente


na história de Lampião e seus inimigos. Para um leitor desatento,
que não registre em sua memória o que leu em diversos livros sobre
os episódios vividos por aqueles da época e narrados pelos
escritores, por certo ao conversar sobre os assuntos, em algum
momento, poderá ouvir outra versão do acontecido. Temos
disparidades e citarei aqui apenas três ou quatro livros, de autores
que merecem todo o nosso respeito, e que colheram informações
de fontes diferentes.

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Em O Canto do Acauã, na página 157 da sua


segunda edição, revista e ampliada, temos a
narrativa do histórico episódio sobre Ioiô
Maroto e a morte do coronel Gonzaga, narrada
por sua autora, Marilourdes Ferraz, que nos
conta:

"... Apenas quatro meses depois do grande assalto à Água Branca o olho de lince de Virgulino
mirou a riqueza de Luís Gonzaga Lopes Gomes Ferraz, residente em São José do Belmonte.
Esse senhor gozava do apreço e admiração das pessoas da terra por sua capacidade de
trabalho e probidade. Igual à imensa maioria dos sertanejos, teve um difícil começo na vida;
foi almocreve e iniciou suas atividades comerciais junto a seu pai, Cândido, e ao seu irmão,
João, ainda na vila de São Francisco.
Quando ali não foi mais possível permanecer, os comerciantes partiram e entre eles estavam
Gonzaga e Francisco Pita, mais conhecido por Chico Pita. Este, transformar-se-ia em industrial
no agreste pernambucano, mas Gonzaga não foi tão longe, ficando ali mesmo no sertão, em
São José do Belmonte, onde seria atingido pela violência na segunda quinzena de outubro de
1922.
Ampliando suas atividades comerciais, Gonzaga conseguiu reunir bens consideráveis depois
de longos anos de extenuante trabalho, movido pelo desejo de assegurar o futuro de sua
família. Além de comerciante, era também fazendeiro, industrial, proprietário de uma usina de
beneficiamento de algodão e de armazéns. Efetuava transações com couro de caprinos e com
algodão, prestava assistência aos agricultores da região através de pequenos financiamentos
e não se recusava a auxiliar parentes e amigos. Foi ele que ofereceu uma boa quantia como
ajuda financeira para a construção da igrejinha de Nazaré.
Gonzaga há muito tempo vinha atendendo às exigências dos cangaceiros, fornecendo-lhes
dinheiro, tecidos e objetos, para ser deixado em paz, até que sobreveio o incidente que o levou
a cair no desagrado dos bandoleiros. Estava ausente de casa quando chegou um mensageiro
com uma relação de pedidos a serem atendidos; sua esposa, indignada, negou-se a atender
às exageradas solicitações, com um comentário final que o irritou: "Que fossem trabalhar como
meu marido sempre o fizera.
Antes mesmo desse episódio, ainda em maio daquele fatídico ano de 1922, parte
do grupo de Sebastião Pereira, incluído Lampião, interceptou na estrada um
comboio de tecidos para Gonzaga, proveniente de Arcoverde; a mercadoria foi
arrebatada e fartamente distribuída entre os componentes do bando e moradores
das proximidades a fim de silencia-los enquanto outra parte foi queimada. O
comerciante sofreu com isso enormes prejuízos; depois disso, temendo outros

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117 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

assaltos e como medida de precaução, reuniu um grupo de homens armados para


a sua segurança. Foi então que ocorreu outro fato desagradável.
O tenente Montenegro, comandante de uma força volante do Ceará que estava no
encalço de Sebastião Pereira em terras pernambucanas, recebeu uma carta
falsamente escrita em nome de Gonzaga,(vejam a segunda versão*) na qual se
denunciava Crispim Pereira, mais conhecido por "Yoyô Maroto", como colaborador
dos cangaceiros. Esse oficial, sem pistas ou sem informações sobre o grupo, foi
levado a acreditar na carta-denúncia e antes de regressar ao Ceará passou pela
casa de "Yoyô", procedendo a uma rigorosa arguição que levou "Maroto" a passar
por sério vexame.
Inconformado com o acontecido, Gonzaga logo entrou em contato com "Maroto"
para explicar-lhe a sua inculpabilidade no caso. Este simulou acreditar na inocência
de Gonzaga, tanto que dias depois lhe tomou emprestada uma máquina de
descaroçar algodão. Foi nesse tempo que o comerciante resolveu dispensar o
pessoal armado que se encontrava à sua disposição encarando com incredulidade
um boato que então corria sobre um suposto ataque contra ele, promovido por seu
compadre "Yoyô Maroto" juntamente com Lampião.
E o ataque aconteceu realmente. No dia 20 de outubro, às cinco horas da manhã, a
residência de Gonzaga estava cercada por numeroso grupo de cangaceiros
liderados por Lampião e "Yoyô Maroto". Gonzaga pelejou com todo empenho
ouvindo os golpes de machados contra as portas, que foram arrebentadas. Quando
os facínoras conseguiram entrar, Gonzaga refugiou-se no sótão, mas uma tábua do
assoalho cedeu e ele caiu no meio da horda, que o liquidou friamente. Seguiu-se o
saque, estendido a um armazém vizinho pertencente a Gonzaga; as mulheres da
casa foram violentamente despojadas de suas jóias.
Foi então que o cangaceiro Zé Terto, apelidado de "Cajueiro", vendo aquela situação
constrangedora para as mulheres, reuniu-as num compartimento e postou-se à
entrada em guarda, não permitindo que os companheiros tentassem outras
violências. Aliás, era esse o comportamento habitual de "Cajueiro" durante os
assaltos, proteger as mulheres contra ataques sexuais; dizia relacionar essa atitude
com seus próprios sentimentos de respeito à sua mãe.
Os cangaceiros aquartelados na casa invadida respondiam agora ao tiroteio do
bravo sargento José Alencar de Carvalho, que mesmo enfermo estava à frente de
seu pequeno destacamento composto por oito soldados, tentando impedir que o
assalto se estendesse a outras casas e estabelecimentos comerciais. Também
extraordinária foi a atuação do parente e vizinho de Gonzaga, Manuel Gomes de Sá;
juntamente com os filhos, João e Antônio, também sustentou a resistência,

RAUL MENELEU MASCARENHAS 117


118 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

disparando contra os cangaceiros desde o início. O bando não conseguiu suportar


por muito tempo o tiroteio cerrado do famoso sargento Alencar e bateu em retirada;
deixava três mortos (Antônio "da Cocheira", "Baliza¹" e "Berdo") e seis feridos (entre
os quais "Yoyô Maroto" e Cícero Costa).
A facção contrária perdeu, além de Gonzaga, o soldado Heleno; houve um ferido,
João Gomes de Sá. O trauma provocado pelo trágico desaparecimento de Gonzaga
levou sua esposa, Martina, a retirar-se do sertão com sua família, fixando residência
no Sudeste do país. Com ela seguiu a família de seu cunhado, João Lopes Gomes
Ferraz. Gonzaga, que foi também prefeito de São José do Belmonte, deixou os
seguintes filhos: José, médico na Marinha Mercante (falecido); Napoleão, químico
(falecido); Laércio, funcionário do Banco do Brasil; Ramiro e Otacílio, dentistas; e as
filhas Nair, Diva, Maria de Lourdes e Edy (as duas últimas falecidas)."
¹ - Segundo Baliza (Dic. Biográfico Cangaceiros e
Jagunços pg 66 - Renato Luís Bandeira.

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119 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

* A segunda versão:

Já no livro de José Bezerra Lima Irmão,


Lampião a Raposa das Caatingas, a tratativa
entre Gonzaga e o tenente Montenegro deu-
se não por causa de carta anônima, e sim por
um conchavo, pois a política afasta até
mesmo irmãos, quanto mais compadres.

Nos tópicos "Lampião faz justiça à sua maneira" na pg 122 sobre


o "Desagravo a loiô Maroto e a morte do coronel Gonzaga, o autor
cita sua fonte no escritor Billy Jaynes Chandler em seu livro
Lampião o rei dos cangaceiros.

Desagravo a Ioiô Maroto — a morte do coronel Gonzaga


"Dando seguimento ao seu projeto de vingança, o próximo passo de Lampião foi o
cumprimento da promessa feita a Sinhô Pereira (Vejam que existe menção a esse
caso, quando é contestado pelo Historiador e escritor Souza Neto, escrito na página
76 deste livro.) com relação aos maus-tratos infligidos à família de Crispim Pereira
de Araújo, conhecido como Ioiô Maroto. O episódio era ainda resquício das
desavenças históricas entre as famílias Pereira e Carvalho. Ioiô Maroto, fazendeiro
em Belmonte, Pernambuco, parente de Sinhô Pereira, havia tido um problema com
o coronel Luís Gonzaga Gomes Ferraz (coronel Gonzaga), prefeito (intendente)
daquela cidade, ligado à família Carvalho, porque, apesar de serem compadres e
amigos, Ioiô votara contra sua chapa na eleição para prefeito.
Aborrecido com o fato, Luís Gonzaga aproveitou o ensejo da passagem de uma
força policial do Estado do Ceará que tinha andado por Pernambuco à procura de
jagunços de Zé Inácio do Barro e fez um conchavo com o comandante, o tenente
Peregrino Montenegro, para que a volante fosse à fazenda São Cristóvão, de Ioiô
Maroto, e desse uma surra nele. Os soldados fizeram mais que isso: saquearam a
casa, maltrataram o fazendeiro e fizeram propostas obscenas às mulheres da
família. Ioiô, profundamente desgostoso, sentindo-se desmoralizado, deixou de ir à
cidade, não tirava a barba nem cortava o cabelo.

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120 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Lampião procurou Ioiô Maroto e disse ao que vinha. Maroto ponderou que não queria
vingança, entregava tudo a Deus. Lampião insistiu: — Eu prumiti a Sinhô Perera que
risurvia esse negoço, e vou risorvê. Vá tirá essa barba e corta esse cabelo, seu
Maroto! Quero qui o sinhô vá cumigo, pra vê a coisa! Vão se arrependê do dia qui
pensaro qui o sinhô nun era home!
O coronel Luís Gonzaga, também conhecido como Major Gonzaga, além de
fazendeiro era também comerciante, dono do maior armazém da cidade, vizinho da
sua residência, na praça da igreja. Lampião entrou em Belmonte com uns 70
cangaceiros na madrugada de 20 de outubro de 1922. Levava em sua companhia o
jovem Tiburtino Inácio de Sousa, vulgo Gavião, filho de Zé Inácio do Barro, amigo
de todas as horas de Sinhô Pereira. Chovia muito. Gonzaga e os vizinhos acordaram
com uns estrondos, que a princípio pensaram ser trovões — eram os cangaceiros
derrubando o portão do muro e em seguida a porta da cozinha a golpes de machado.
Um vizinho foi correndo avisar ao sargento José Alencar de Carvalho Pires,
conhecido como Sinhozinho Alencar, tido como sujeito valente, dotado de uma
pontaria invejável. Embora na cidade só houvesse 7 soldados, alguns moradores se
juntaram à polícia e logo começaram a atirar dos telhados e janelas das casas
próximas. Os primeiros a entrar na casa foram Livino e Cajueiro. Na sala de jantar,
toparam com dona Martina, mulher de Luís Gonzaga. — Cadê o Majó Gonzaga? —
perguntou Livino. — Tá aí... — respondeu a mulher, assustada. Os cangaceiros
espalharam-se pela casa, vasculhando cada cômodo — casarão enorme, com um
corredor central, quartos de um lado e do outro.
Livino entrou no quarto do casal, olhou atrás da porta, debaixo da cama, escancarou
os armários. Nada do homem. Ao ouvir um ruído no sótão, Livino subiu a escada,
forçou a porta e meteu a cabeça para espiar lá dentro. Mas o sótão era muito escuro.
Gonzaga, de pijama, com uma pistola Browning na mão, recuou para o fundo do
compartimento. Por azar, uma tábua do assoalho arrebentou e ele estatelou-se no
chão, na sala da frente. Com uma perna quebrada, ele entrou num quarto e tentou
saltar a janela, mas foi agarrado e arrastado de volta à sala.
Ioiô Maroto aproximou-se manejando o rifle cruzeta. Gonzaga arregalou os olhos,
levantou os braços, as mãos espalmadas e trementes, suplicando clemência. Ioiô
deu-lhe três tiros — dois no coração e um no meio da testa. Lampião abaixou-se,
tirou a aliança do coronel e enfiou nela o próprio dedo médio. Contemplou a valiosa
joia e calculou: — Esta vale pelo meno um conto de réis... Jogou em cima do corpo
roupas e lençóis, e tocou fogo. Dona Martina despejou um balde de água sobre o
corpo, debelando as chamas, de modo que o morto ficou apenas chamuscado.

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121 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Um cangaceiro chamado Vereda ia arrastando Abgail (Biga), filha de Gonzaga, para


um quarto, mas foi impedido por Cajueiro: — Você nun vai fazê isso, Vereda, só se
me matá premero. Quais foi as orde qui nóis recebeu? Depois disso, dona Martina
e a filha foram postas na despensa, e o cangaceiro Fiapo foi encarregado de
protegê-las até o momento da retirada."
A terceira versão:

Trago agora para os amigos, a


terceira versão que comento. Billy
Jaynes Chandler em seu livro Lampião
o rei dos cangaceiros, na referência
que faz ao assassinato de Luiz
Gonzaga, diz que não se sabe ao certo
se Maroto pediu a Lampião para - se
vingar, ou se Lampião, ao ouvir o que
tinha acontecido a seu amigo acorreu
e induziu-o a agir, pois contam as duas
histórias. Uma versão conta que
Sebastião Pereira, antes de deixar o
cangaço, pediu a Lampião, na
despedida, para matar Gonzaga.
Diz o relato Billy Jaynes Chandler:

"Lampião... Uns dois meses depois, matou, de novo, por vingança, desta vez em
Pernambuco. Foi um dos crimes mais famosos do princípio de carreira, pois a vítima
foi um chefe político muito conhecido, Coronel Luís Gonzaga de Souza Ferraz. (A
narração da morte de Gonzaga se baseia principalmente numa entrevista com João
Primo de Carvalho, Belmonte, 30 de julho de 1975. O Diário de Pernambuco deu
uma pequena nota, no dia 21 de outubro de 1922. Ver também Wilson: Vila Bella P
338-340. )
Gonzaga, que morava na cidade Belmonte, em Pernambuco, perto da fronteira com
Ceará, não era inimigo pessoal de Lampião, mas este ajudou a matá-lo, por causa
do amigo, Ioiô Maroto.
Maroto era parente de Sebastião Pereira, que um dos companheiros de Lampião no
cangaço, enquanto que Gonzaga pertencia à família dos Carvalho, inimigos
tradicionais de Pereira. Durante anos, Gonzaga viveu armando intrigas contra os

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122 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Pereira, também morou em São Francisco, a cidade natal de Sebastião Pereira. Mas
o que realmente provocou o assassinato, foram os maus tratos que Maroto sofreu
nas mãos de uma força da polícia do Ceará, que tinha vindo para Pernambuco, para
caça aos bandidos. Em Belmonte, o comandante fez amizade com Gonzaga. No
caminho de volta ao Ceará, os soldados passaram por São Cristóvão, a fazenda de
Maroto e o maltrataram, bem como à sua família. Além de saquear a casa e
dependências, eles insultaram Maroto e fizeram propostas obscenas às mulheres
da família. Maroto pôs a responsabilidade da afronta a Gonzaga."

E continua Billy Jaynes:


"Não se sabe ao certo se Maroto pediu a Lampião para - se vingar, ou se Lampião,
ao ouvir o que tinha acontecido a seu amigo acorreu e induziu-o a agir, pois contam
as duas histórias. Uma versão conta que Sebastião Pereira, antes de deixar o
cangaço, pediu a Lampião, na despedida, para matar Gonzaga.
De qualquer modo, Lampião e Maroto, à frente de setenta homens, chegaram a
Belmonte, uma pitoresca cidadezinha situada num planalto, numa região de serras,
na madrugada do dia 20 de outubro. Ao entrarem na cidade ainda adormecida,
pensaram que não precisavam se preocupar, pois haviam só sete soldados no
destacamento da polícia. O bando então se encaminhou para a casa de Gonzaga,
situada na praça principal. A futura vítima era um fazendeiro abastado, e homem de
negócios, e seu armazém, o maior da cidade, ficava pegado à casa.
É evidente que o assalto foi por vingança, mas uma vingança que trazia lucro. Ao
tentarem entrar na casa, os cangaceiros foram recebidos à bala. Isto serviu para
alertar a polícia e outras pessoas na cidade. Seguiu-se, então, um tiroteio que durou
umas quatro a cinco horas. Quando terminou, Gonzaga estava morto e seu
armazém tinha sido saqueado. Maroto estava vingado. Terminado o trabalho, o
bando teve que abrir seu caminho à bala, porém, com vítimas: quatro ou cinco
cangaceiros morreram.
Maroto nunca pagou pelo crime. Na confusão que se seguiu, a polícia não estava
em condições de processá-lo, e portanto, ele continuou a viver em paz, e bem
protegido, na sua fazenda, a uns dez quilômetros da cidade. Quando as condições
melhoraram e finalmente foi aberto um processo contra ele, deixou a região e se
refugiou na casa dos Feitosa, em Inhamuns, Ceará. Os Feitosa tinham adquirido a
fama de dar proteção aos fugitivos da lei, de mais prestígio.
Alguns anos antes, mais ou menos em 1905, os Feitosa tinham também dado
proteção a vários membros da família de Antônio Silvino, quando estavam sendo
perseguidos pela polícia de Pernambuco. Seus descendentes, assim como os de

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Maroto, ainda vivem em Inhamuns. Os descendentes de Maroto se misturaram com


os Feitosa."

Vemos assim três versões mais ou menos iguais, se


complementando em informações, mas com alguns conflitos. Nessa
avaliação não me arvoro em opinar o que está certo ou errado, pois
sei que até mesmo grandes historiadores e pesquisadores, colhem
suas investigações na procura da verdade, buscando-as nas
indagações a pessoas que viveram à época ou que ouviram a história
de quem esteve presente, também averiguando jornais, revistas, e
livros, explorando e indagando. E que a mente humana é falha em
guardar os acontecimentos ao longo dos anos que se passaram.

Escrever sobre o cangaço é um desafio. Quando cruzamos


informações dos diversos livros, vemos nesse caldo de
informações, imprecisões. Recentemente em pesquisas
comparando escritos, verificamos inconsistências gritantes que
são repetidas por diversos autores, levando sem maldade, ao erro,
estudantes da história do cangaço.

FOI BOM OU MAL LAMPIÃO TER EXISTIDO?

No meu entendimento a importância do cangaço se deu no


confronto de uma classe desprestigiada e humilhada em busca de
justiça com aqueles que os injustiçavam. Eram em sua grande
maioria, pobres que foram injustiçados de alguma forma e por não
terem amparo da justiça pois esta, estava invariavelmente nas
mãos do coroneis e políticos. Na questão de lampião, eles não eram
pobres assim como os pobres que aderiram a Antônio Conselheiro,
que em sua maioria, eram pessoas de religiosidade fanática.

No caso de Lampião, sabemos que a índole belicosa da mãe, teve


uma influência desastrosa nos filhos e estes por serem rapazes de
boa aparência, despertava a inveja de seus vizinhos, ao ponto de
virar rixas.

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124 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Quando essas rixas foram parar na Justiça o outro lado foi mais
contemplado por questões de parentescos com as autoridades e
como eram mais bem situados financeiramente, foram
contemplados com as decisões. Conto mais abaixo em comentários
de dois livros.

Nestas decisões de autoridades os irmãos Ferreira foram


tomando ódio e começaram a pender para tomarem o lado da
vingança que geralmente posso dizer, quase sempre, quem se vinga
de forma violenta ou não transgride as leis. Não foi diferente. Os
irmãos Ferreira, principalmente Virgulino Ferreira, deixou de
trabalhar tanto na propriedade do pai quanto na pequena empresa
de almocrevia que o pai tinha, com um plantel de mulas onde
carregava itens dos vários negócios de sua clientela.

Largou tudo isso, pois a família empobrecida pelos conflitos, teve


que mudar-se algumas vezes por conta destas violentas
perseguições de seus inimigos. Então chego à conclusão que,
realmente os irmãos foram injustiçados, juntamente com os
familiares. Por conta disso mesmo antes dos pais morrerem, já
estavam no cangaço.

Mas analisemos mais um pouco, indo ao início da República.


Lampião cresceu na crise da República Velha. A negação da justiça
e a persistência dela traz a revolta para os oprimidos. Isso se deu
no passado e se dá hoje no presente. Lá naqueles anos, o país saindo
de uma Monarquia e entrando na República surgiram as
autoridades dos coronéis.

Na proclamação da República em 1889 em diante foi implantado


no Brasil o regime federalista, e este veio a favorecer a uma

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125 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

grande autonomia às províncias, fortalecendo as oligarquias


regionais.

O poder dessas oligarquias regionais de coronéis veio a ser mais


fortalecida com a política dos governadores iniciada pelo
Presidente Campos Sales, o quarto presidente da República.
Através da Política dos Estados, obteve o apoio do Congresso
através de relações de apoio mútuo e favorecimento político entre
o governo central, representado pelos presidentes da república e
os estados, representados pelos respectivos governadores, e
municípios, representados pelos coronéis.

O poder de cada coronel era medido pelo número de aliados que


tinha e pelo tamanho de seu exército particular de jagunços.

Nos estados mais pobres, como Ceará, Paraíba, Rio Grande do


Norte, Sergipe e Alagoas os coronéis não eram suficientemente
ricos e poderosos para impedir a formação de bandos armados
independentes. Foi nesse ambiente que nasceu e prosperou o
bando de Lampião, nos anos 1920, coincidindo o seu surgimento
com a crise da República Velha.

Todos conhecem a história de Lampião. Mas nem todos entendem


a política daquela época e o que levou tanto a ele quanto a muitos
outros, enveredarem pelo caminho fora da lei.

Houvesse "Justiça" não haveria Lampião

Esse relato da história de Virgulino Ferreira da Silva, é um relato


comum até os dias de hoje, onde infelizmente não progredimos
como é desejado por todo homem e toda mulher que vive nesse
país. Infelizmente ainda impera o poderio da riqueza, muitas vezes
amealhada pela injustiça de alguns ao povo pobre e sofrido,
principalmente ainda no sertão dos poderosos e ainda vivos
coronéis, vestidos com o manto de políticos.

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126 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Foi-nos relatada por um dos maiores estudiosos do cangaço, em


especial a Lampião, mostrando-nos que se tivesse havido justiça
naquela época, não haveria Lampião. Que não nos enganemos em
achar que ele era um herói, ou um bandido. A meu ver era uma
mistura desses dois adjetivos, pois quando leio os livros de
pesquisadores honestos em expor o cotidiano de lampião e os
atores de sua vida, admiro-o pelo senso de justiça e ao mesmo
tempo, critico-o pela selvageria e falta de respeito em
determinadas ocasiões de sua vida.

Esse é um relato bem próximo da vida de Lampião e como começou


o 'emparedamento' para ele tornar-se um fora-da-lei, para que seu
principal inimigo, o primeiro, o número um, que começou tudo,
completasse a sua vingança. Por mais que se tente desculpar ou
mesmo aliviar a inimizade deles, nós poderemos ver que a inveja é
a mãe da injustiça e pela história vemos sua perversa perseguição
a esta família de pobres trabalhadores, acuados no sertão
pernambucano.

Tomemos a pesquisa feita pelo Padre Maciel, autor de uma das


maiores obras sobre o cangaceiro. Não irei tecer comentários
finais do artigo do Padre Maciel, para que o leitor possa tirar suas
próprias conclusões.

E nós neófitos, aprofundemos nosso conhecimento dos fatos


pesquisados por 30 anos pelo autor de 'LAMPIÃO, Seu Tempo e
Seu Reinado - As Origens' em seu livro Um, da sextologia no
capítulo 7:

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127 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

ZÉ SATURNINO, O INIMIGO № 1 (1915-1917)

Os atores

Ao pé da Serra Vermelha, distendiam-se, outrora, três fazendas


homônimas, que se distinguiam pelo nome de seus proprietários*

1: Serra Vermelha de Manuel Ferreira de Lima, Serra Vermelha


de João Nogueira e Serra Vermelha de Cândido Martins José.

A do primeiro crescia nas vistas e se avantajava das mais em toda


a ribeira: mais de oitocentas cabeças de gado, criações sem conta,
engenho de madeira, moente e corrente, para o fabrico de
rapadura. Manuel Ferreira de Lima, vulgo "Ferreira Catendo", era
fazendeiro incansável e empreendedor. Comprara muitos chãos
aos Pereiras, já em decadência por razões de lutas com os
Carvalhos (cfr. cap. 6, Adendo 1, A, 4, b). Evidentes suas
qualidades morais de honestidades e honradez. Casou-se em
segundas núpcias com D. Joana Lopes, "D. Joaninha", tia pelo lado
materno dos irmãos Ferreiras. Vizinhos seus, de um lado - João
Nogueira. Homem completamente diferente do primeiro. Soberbo
e ambicioso: queria Ser o maior fazendeiro daquela ribeira e com
pretensões à chefança política da mesma. Daí por que, criminoso,
mandara matar o Padre Pereira que lhe frustrara os intentos (cfr.
cap. 4 e 5). E se mordia de inveja e despeito diante da crescente
prosperidade de seu vizinho, com quem jamais pôde brigar, dado o
bom senso e tenência do próprio Manuel Ferreira de Lima.
* A fazenda Serra Vermelha, de Manuel Ferreira de Lima, media 400 braças de
largura por uma légua e meia de comprimento. As fazendas Serra Vermelha, de
João Nogueira (400 braças x 11/2 légua), a Pedreira, de Saturnino Alves de Barros
(400 braças x 1 légua), contavam para mais de mil cabeças de gado. José Ferreira
possuía na Ingazeira apenas umas trinta reses. Seu forte era a almocrevia.

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128 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

É de se notar que nessa inveja e nesse despeito de João Nogueira


se encontram as raízes ocultas que estimularam Zé Saturnino a
abrir questão e fazer sustança dela com os Ferreiras. O vizinho
do outro lado, ao nascente — José Ferreira da Silva, ou
simplesmente "Zé Ferreira", da fazenda Ingazeira. Com trabalho
e esforço seu e a ajuda de Manuel Ferreira de Lima, botou nela
prosperação: umas trinta reses, alguns animais, abastança de
miunça, roçados de algodão-mocó e de legume, e sobretudo uma
tropa de doze fortes burros, bem arreados, de almocrevar. Tudo
isso dava mantença, aumentação e melhoração a uma família de
onze pessoas, marido, mulher e nove filhos.

Pegada com a Ingazeira, pelo lado do norte, a fazenda Pedreira,


acrescida com a fazenda Maniçoba. Pertencera ao finado
Saturnino Alves de Barros, ou "Saturnino da Pedreira", casado com
D. Alexandrina, "D. Xanda". De seus dois filhos, um se tornaria
célebre — José Alves de Barros, conhecido por Zé Saturnino.*
Alto, magro, esperto, trabalhador. Mas, segundo testemunhos
fidedignos de familiares seus e de quem com ele lidaram, era
"prepotente e arreliado", "gostava de provocar e afrontar os
mais", "de pisar no cangote". "De maus bofes", era "odiento e
vingativo", "jamais lhe conseguindo a própria mãe moderação nas
contendas e dificuldades mais comuns". Inda hoje, encanecido e
pisado pelo tempo e pelas lutas, por remorsos e pavores, se trai no
ódio sopitado e insatisfeito contra os irmãos Ferreiras, apesar de
mais de trinta anos já mortos! Indubitavelmente, servindo também
de instrumento à inveja e ambição de seu sogro, João Nogueira,
foi ele, como se verá, o causador da transformação do vaqueiro-
almocreve Virgulino no cangaceiro Lampião.
* Rodrigues de Carvalho, natural de Carnaíba, na ribeira do Pajeú, no seu livro
"Serrote Preto", p. 99, escreve: "José Saturnino era um indivíduo de instinto
perverso, espírito tacanho... Desde que viu o vizinho (José Ferreira da Silva)
prosperando, não pôde mais esconder o seu despeito, demonstrando a propósito de

RAUL MENELEU MASCARENHAS 128


129 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

tudo a mais sórdida inveja". Nertan Macedo, em "Capitão Virgulino Ferreira


Lampião", primeira edição, p. 160, transcrevendo o trecho supramencionado do
"Serrote Preto", endossa, com muitas testemunhas de vista e contemporâneas, o
conceito geral da personalidade negativa de Zé Saturnino, que José inhamuns
chama de "maldito homem". Cedo adquiriu Zé Saturnino o apelido de Zé Muié,
confirmado por seu cunhado Vicente Moreira (cfr. cap. 10, Diário de Guerra e nota
14), no episódio da Favela, em Floresta (cfr. cap. 32) e pela voz geral de soldados,
de cangaceiros e até de autoridades, segundo Davi Jurubeba e outros entrevistados.
A afoiteza de Zé Saturnino estava antes na cobertura que lhe davam os cabras que
possuía: Zé Guedes e seu irmão Antônio Guedes, vulgo "Batoque", Tibúrcio, os três
Beneditos (Olímpio, Manuel e José), Zé Caboclo... e mais que todos, os dois, Zé
Cipriano e Vicente Moreira, cangaceiros (vindo o primeiro do grupo de Sinhô Pereira)
e, depois, cunhados seus pelo casamento com suas irmãs, respectivamente Sinhá
e Mariquinha.
O drama

A questão, começada e sustentada por Zé Saturnino contra 'os


irmãos Ferreiras, não se originou de uma causa única, de um
"chocalho", como simploriamente houve quem dissesse. Mas de uma
longa série de causas ou co-causas que se encadearam num
entrecho crescente até o rompimento definitivo, com suas
funestas consequências para toda a região do Nordeste.

Já conhecida a causa oculta, íntima e estimulante — a inveja e


ambição de João Nogueira. Resta saber agora as causas
manifestas, ou melhor especificando:

— Qual a causa primeira?

— Quais as causas subsequentes?

— Qual a causa determinante?

É o que se verá daqui por diante, a modo de três atos


apresentados dentro de uma seqüência cronológica. De primeiro,
eram muito cordiais as relações entre os Ferreiras e Zé Saturnino.
Chegou mesmo José Ferreira a escolher D. Xanda para madrinha

RAUL MENELEU MASCARENHAS 129


130 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

de apresentação no batizado de Virgulino. E, quando rapazes,


Virgulino e Zé Saturnino compareceram juntos, em São Francisco,
como testemunhas do casamento de Amélia (filha de Salvador)
com o moço Emídio Germano, feitor das terras de Manuel Ferreira
de Lima.

Cercas das divisas

Infalivelmente zonas de atrito os limites de terras. Entre nações


por causa de contrabandos, entre propriedades por invasão de
animais, até de quintal- para quintal por qualquer nada.

O arame farpado, fator de direitos (delimitando as


propriedades), do segurança (evitando depredações e estragos) e
de paz social, era desconhecido. Apareceu no sertão somente a
partir de 1920. Antes, as propriedades eram cercadas somente
com paus e varas. Uso, aliás, continuado até os dias que são hoje
pela facilidade de matéria-prima disponível no próprio terreno e
economia de mão-de-obra.

Na variedade da tessitura dos tipos de cercas*, condicionados à


segurança e duração requeridas, mostram-se os cerqueiros
extremamente hábeis, exibindo interessante arte rústica nos
quadros rurais da paisagem sertaneja. Com o tempo, porém, a
madeira, ressequida ou apodrecida, torna a cerca vulnerável,
especialmente aos terríveis caprinos. O bode fura, a ovelha
penetra, a rês derruba, o animal entra, destiorando semeaduras e
roçados. Coisas justificáveis por parte dos proprietários da
Ingazeira e Pedreira, compreensivos e amigos. E, no caso de sério
prejuízo, as compensações se realizavam dentro do clímax das
boas relações existentes. "Oxente! O diaga é bicho. Ninguém pode
dá juízo a bicho..."

RAUL MENELEU MASCARENHAS 130


131 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

* Há vários tipos de cercas: — de pau-a-pique: vertical, de madeira grossa ou varas;


— de faxina: varas finas e flexíveis entrecruzando com outras mais grossas; —
deitada: com varas horizontais; — de ramo: horizontal entrelaçada de garranchos;
— de pedra: onde abundam pedras soltas; — meia-cerca: metade inferior de pau-a-
pique ou pedra, completada com arame farpado; — de arame: arame farpado. O
arame farpado foi introduzido no sertão em 1920. Dado o seu custo, não é acessível
senão a bolsas privilegiadas. Faz-se, essa última cerca, de nove arames para não
deixar passar nada. Os primeiros quatro arames de 15 em 15 centímetros, para não
passar bode, ovelha e miunça; o quinto arame com 20 centímetros; o sexto com 25;
e os três últimos a 30 centímetros para o gado não meter a cabeça. Usam-se para
estacas de sustento do arame esticado: aroeira, angico, catinga de porco,
imburana... Sousa Barros, no seu livro "Cercas Sertanejas", apresenta 25 tipos.
Origem da questão: um romance de amor (1915)

O velho Terto de Inajá costumava contar*, na sua feitura de


sertanejo probo, que fora uma questão de amor que dera origem
às divergências entre os Ferreiras e Zé Saturnino. Quando no viço
de seus dezessete anos, gostara Virgulino de uma jovem, Santina
Lopes da Silva, a quem chamaria — "sua prenda querida" e "flor
mimosa do sertão", em famosos versos de fina sensibilidade
amorosa (cfr. cap. 6). O porém da história foi ter aparecido uma
avança, da mesma idade de Virgulino e parente de Zé Saturnino, o
qual se tomou de paixão encegueirada pela mesma donzela, apesar
de não correspondido e até mesmo de ter levado vários cortes de
repulsão. Num dia de sol ipiaça, arado pela roedeira do ciúme, foi
ele esperar Virgulino, que ia desprecatado em caminho do
bebedouro da fazenda. Todo raposeiro, fez-lhe perguntas
ciumentas e, por que tal e por que vira, arrepiou-se amolestado
para dar-lhe. Não foi de sorte nem de sustança na empreitada,
apanhou muito de incoiar de queda e de arroxear no tapa-olho.

Por esse motivo, ficaram os parentes do moço apanhado (e


provavelmente o próprio Zé Saturnino) queixosos, ressentidos,
abafados. Os recalques nos sertanejos se acentuam, com o
isolamento em que vivem. Seu campo de imagens é- reduzido ao

RAUL MENELEU MASCARENHAS 131


132 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

pequeno e invariável mundo que os cerca. Donde a facilidade de


fixação de lembranças, principalmente de fatos quentes. Não
esquecem, seja o bem, seja o mal. De uma faúlha tudo pode ser
fatível: Mesmo de dentro da cinza pode gerarem incêndios.
Questão apenas de oportunidade, somente.

A imagem dessa jovem de tal modo se fixou durante quinze anos


no coração de Virgulino que jamais, todo esse tempo, amou
nenhuma das tantas mulheres, machão que ele era, com quem
palpitava até deixando filhos. Somente em 1930 iria encontrar em
Maria Bonita a réplica de sua Santina numa identidade de beleza
com a imagem estereotipada no seu espírito que o desconcertaria
no momento da primeira impressão. Para se ligar a ela chegou a
modificar a estrutura do cangaço! E dedicou-lhe sinceramente
fidelidade de amor a toda a prova (cfr. cap. 45).
* Esse fato foi também relatado por Pedro Rosa de Morais, conhecedor da vida de
Lampião, o qual se hospedava em sua casa toda a vez que passava pelo Espírito
Santo. Nasceu ele, Pedro, nessa vila, criou-se em Olho D'água do Coxo, situada
perto da fazenda Beldroega. Assassinado, em dias do carnaval, no mês de fevereiro
de 1938, em Pão de Açúcar, AL.
Prisão do morador de Zé Saturnino

O tio materno dos irmãos Ferreiras, Manuel Lopes, ainda moço e


muito disposto, fora nomeado inspetor de quarteirão, cargo
equivalente hoje ao de comissário de polícia. Autoridade sem
vantagem financeira. Estendia-se sua jurisdição pelas fazendas
daquela ribeira: Matinha, Pedreira, São Miguel... Sua função:
dirimir questões de terra, resolver problemas por causa de
cacimbas, de cerca fora dos limites... E, também, repressiva
contra malfeitores, principalmente ladrões de bode, apelidados de
"onças de dois pés". Vez por outra, saía em diligência, sempre por
iniciativa própria, em face de denúncias, ou para proteção de sua
propriedade e família. Não dispondo de milicianos, fazia-se

RAUL MENELEU MASCARENHAS 132


133 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

acompanhar de um ou mais sobrinhos seus, armados de rifles


calibre 44, muito comuns. Corria o mês de agosto dessa era de 15
de grande seca. Um solão brabo vigorando no céu escampo,
diáfano, sem azul, esturricando as cacimbas e secando os pés de
pau. Os bichos berrando de desespero nos apertados da fome e da
morte.

Levas de retirantes, esmulambados e famélicos, no arrasto


penoso da vida, varando o sertão, sem destino e sem um derréis, o
coração desarriado das esperanças e o olhar parado ante a visagem
apavorante da seca. Começaram os Ferreiras a estranhar o sumiço
danado de bodes e cabras. Supondo tratar-se, não de necessitados
por fome, que eram sempre acolhidos e atendidos, mas de
aproveitadores do alheio, Manuel Lopes, valendo-se de sua
autoridade e na qualidade de também prejudicado, resolveu,
acompanhado de seu sobrinho Virgulino e dois cabras, fazer uma
diligência à cata dos possíveis ladrões e dos caprinos.

Após infrutíferas batidas pelas redondezas e atendendo a várias


denúncias de outros também prejudicados, incursionou pela
fazenda Pedreira, dando um cerco num grupo de casebres de
moradores de Zé Saturnino. Na de Zé Caboclo, depois de acurada
busca, Virgulino deu de fé que a terra, sob um enorme pilão de
braúna, na cozinha, estava revolvida de fresco. Retirando, com um
ferro de cova, ou cavador, as primeiras camadas de terra,
encontrou grande quantidade de peles de bode enterradas,
verificando pelo sinal das orelhas tratar-se de animais
desaparecidos da sua fazenda e pertencentes a seu pai e a seu tio.

Manuel Lopes prendeu Zé Caboclo e o negro criminoso, de nariz


achamurrado, chamado Tibúrcio* indigitados responsáveis,
conduzindo-os sob escolta para a Ingazeira. Onde os manteve
detidos e amarrados no tronco por um ou dois dias, ao cabo do que,
a pedido de José Ferreira, os mandou embora, advertindo-os de

RAUL MENELEU MASCARENHAS 133


134 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

que, no caso de fazerem por onde, de reincidência, tomaria


medidas severas.
* Esso negro Tibúrcio, mais tarde, juntamente com outros dois, Batoque e Zé
Guedes, todos os três moradores de Zé Saturnino, foram à fazenda Serra Vermelha,
da viúva 1), Joaninha Ferreira, e roubaram o paiol de milho, juntas de bois mansos,
queijos... o lovarion para a fazenda Pedreira! (Lampião deu fim a ele — cfr. cap. 20).

Com dias, numa feira, em Vila Bela, comunicou Manuel Lopes,


pessoalmente, o ocorrido a Zé Saturnino e pediu-lhe expulsasse
elementos tão indesejáveis. Zé Saturnino manifestou, de logo, o
seu desagrado em torno do acontecido, negou expulsar seus
"homens de confiança", achando se efetivara uma "invasão
indébita" de sua propriedade com prisão de moradores sem sua
licença; coisa que implicava em grave ofensa à sua reputação e à
sua honra. Manuel Lopes recusou essa interpretação errônea. dos
fatos, havendo entre os dois forte alteração, terminando, porém,
sem maiores consequências em face da intervenção de pessoas
amigas. Todos em casa dos Ferreiras, no entanto, acharam que o
incidente não estava encerrado.

Realmente, desse fato inicial outros foram se sucedendo e


somando até chegar a resultados trágicos. Socorrendo-se da
política, conseguira Zé Saturnino a demissão de Manuel Lopes do
cargo de inspetor de quarteirão. E, em consequência da falta de
autoridade, estabeleceu-se, para começar, a má vizinhança. De
quando em vez, apareciam cabras surradas, bodes de orelhas
cortadas, ovelhas com perna quebrada, carneiros de roncolho....

Era o bicho de uma propriedade penetrar na outra adversa e


acontecer tudo isso, de parte a parte; sem que ninguém visse, mas
se sabia e adivinhava quem.

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A primeira briga

A 8 de setembro, véspera da tradicional festa da Padroeira de


Vila Bela, Nossa Senhora da Penha, todo engangento
desprecatado, fora Antônio Ferreira, no seu esquiparador melado
de estampa, buscar um parelho que mandara costurar por Anízia
Novais (casada com João Araújo Cavalcanti, conhecida por Anízia
da Ipueira, sítio localizado na mel sido do caminho entre Pico e
Nazaré.

De volta, numa curva do caminho, ainda perto da casa costureira,


vinha, em sentido contrário, o cabra Zé Cabloco, também a cavalo.
Assim que viu Antônio, deu um urro medonho e partiu a galope para
cima dele, se atracando os dois, mesmo amontados, descendo
agarrados e rebolando pele numa luta feroz. Em dado momento, Zé
Cabloco conseguiu sujicar Antônio, montando-lhe em cima.

E quando deu de garra da pajeuzeira para sangrar Antônio, este,


reunindo, num esforço supremo, as forças todas juntas do instinto
de conservação, danou um supetão , no cabra, que, despregado, caiu
ao lado, de borco, afocinhando o chão e quebrando-se a faca numa
pedra. Antes que tivesse dado tempo a Antônio de puxar de sua
faca, e alarmado, também com os gritos de mulheres ali chegados,
Zé Caboclo, num de repente, pulou feito gato, no osso de seu cavalo
e correu, embrenhando-se na catinga.

Antônio pegou a roupa e pisou para casa. Em chegando, avoou o


liforme em cima da mesa e disse não ir mais à festa. Entrou no
quarto e saiu limpando o rifle e botando bala. A mãe interrogou a
causa e o por que daquilo tudo. O filho lhe contou apressado o
acontecido e saiu vexado no rumo da casa da avó para ver o irmão
Virgulino, modo de pegar o cabra. Em vão esgravetaram e fizeram
indagação por todos os cantos.

— "Sujeito chia e titica! Se encafedeu!" — gritava Antônio.

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José Ferreira, ao chegar, tratou de abrandar o ânimo afuleimado


de Antônio, dizendo e convencendo não ter havido desfeita. E
resolveu que naquele ano ninguém iria à festa. Essa a primeira
briga que um dos irmãos Ferreiras tivera. Contava Antônio vinte
anos de idade.

A política no meio

Sempre juntas no sertão: seca, questões e política. Deflagrada a


campanha para sucessão ao governo do Estado. No páreo: Dantas
Barreto para reeleição e Manuel Borba na oposição. Os Carvalhos
de cima, no situacionismo. Seguidos por João Nogueira e Zé
Saturnino. Os irmãos Ferreiras, com seu pai José Ferreira e seu
tio Manuel Lopes, acompanhavam Mário Alves Pereira Lira*
votando na chapa borbista. Aliás, era a primeira vez que Virgulino,
Antônio e Livino votavam, exercendo assim um direito civil de
cidadãos. Zé Saturnino e seu sogro não viram com bons olhos essa
votação dos Ferreiras no partido oposicionista. Assim, não deixou
de haver motivação política na questão entre os dois
adversários.**
* Mário Alves Pereira Lira, de Recife, fixou-se em Vila Bela, casando-se com uma
Carvalho. Político influente, eleito prefeito municipal no período 1916-1920.
** Antes de Manuel Lopes, Luis do Tiú (Tiú localidade entre Vila Bela e Serra
Vermelha) fora nomeado inspetor de quarteirão; instigado e acompanhado por seus
correligionários, os Nogueiras, da política dos Carvalho, esteve em diligência através
das propriedades dos Ferreiras, prendendo moradores, apreendendo armas,
ocasião em que Manuel Ferreira Lima foi conduzido à casa do velho João Nogueira.
Fatos subseqüentes (1916-1917).

Cada dia mais aumentando a tensão entre as partes adver-sas,


passando as hostilidades a ter um caráter ostensivo, de atritos
pessoais.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 136


137 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

a) Ninguém no Pajeú como Antônio Ferreira para amestrar cavalo


e botar passo de esquipa, de baixo, de meio, de trote, de galope
'em animais. Certa vez, botava ele pisada ou carrego no seu bonito
cavalo, quando, de passagem, Zé Saturnino, pilhérico e ofensivo,
lhe fez indagação:

— "Quanto quê pela grélha?" Antônio, abodegado, respondeu ao


insulto:

— "Grélha é a mãe!"

b) Ocultamente, Neneco Nogueira, solteirão, filho de João


Nogueira fez capação-de-volta numas grelhas de escancho
deixando-lhes os culodinos, atrofiados. Os animais pertenciam à
Ingazeira. Os Ferreiras descontaram cortando pelo cotó as caudas
e crinas dos cavalos da Pedreira.

c) De novo eleições. Desta vez para prefeito do município. Saindo


eleito Mário Alves Pereira Lira para o período de 1916 a 1920.

Pela segunda vez os irmãos Ferreiras votaram acompanhando o


candidato vencedor.

d) 1917.

Zé Saturnino tirou uns chocalhos dos burros dos Ferreiras.


Estes, notando a falta, tiraram chocalhos das vacas e cabras dele.
Voltou Zé Saturnino, retirou os seus chocalhos e saiu amassando
quanto chocalho encontrava nos animais dos Ferreiras.

Desta vez houve discussão forte e quase se pegavam. E como


resposta à sua reclamação acusando aos Ferreiras pelo
desaparecimento de chocalhos, Zé Saturnino, sofreado e
estarrecido, ouviu de Virgulino:

— "Ladrão é você que roubou os chocalhos de nossos burros!"

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138 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

e) Não foi difícil a Zé Saturnino arranjar sua nomeação para o


ambicionado cargo de inspetor de quarteirão. Tendo conhecimento
de que os irmãos Ferreiras estavam ausentes, aproveitou a ocasião
para, acompanhado de cachimbos, correr e desarmar o velho Zé
Ferreira. Encontrou apenas um bacamarte ou clavinote de festejar
São João, uma espingarda lazarina de caçar e um facão de usar no
mato. Era dia de São Pedro.

E assim por diante, numa progressão perigosa e imprevisível de


consequências. O certo é que ninguém queria ficar por baixo. E a
situação não explodiu, mais cedo, em graves hostilidades por
viverem os Ferreiras muito por fora, carguejando.

Fundação de Nazaré

Resolvera o velho professor Domingos Lopes Soriano de Sousa


criar um povoado na chã de sua fazenda Algodões, à margem
esquerda do riacho Carqueja, assim chamado o riacho da Ema
naquele trecho.

Lugar bem assentado, mesmo na confluência do dito com o seu


afluente Ipueira e favorecido pelo caminho que liga Vila Bela a
Floresta, ausente de oito léguas exatamente entre as duas.

A moradia-escola da fazenda, construída ao sul do local escolhido,


serviria de esquadro, na direção norte, para o riscado das duas
linhas perpendiculares, longas de cento e vinte metros, e paralelas,
separadas por vinte metros, que formariam o arruado. No fim do
traçado, ficaria a capela com a porta da rua olhando para a casa
do professor. Entusiasmado com a iniciativa e sendo solicitado, o
vigário de Vila, Bela, então regendo Floresta, Padre Zacarias Paiva,
batizou a futura localidade com o nome de Nazaré.*
* O Padre José Kehrle, vigário de Floresta, levou da Matriz para a capela de Nazaré
uma imagem de. Nossa Senhora das Dores. Diante dos protestos dos florestanos -
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139 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

n imagem voltou e em seu lugar foi comprada a de Nossa Senhora da Saúde, que
lá está.

O professor sabia o que queria. Por isso, valendo-se de seu tato e


respeitável prestígio de mestre-escola, conseguiu interessar os
amigos no projeto. Assim, Antônio Gomes Jurubeba, da fazenda
Jenipapo, Pedro Tomás, da Lagoa do Mato, Raimundo Nogueira, do
Pico e outros, logo no início de agosto, começaram a construir suas
casas no cordeamento, muito embora nelas não residissem e as
ocupassem somente nos dias de feira e de Missa.

A família Ferreira, de pronto, aceitou o convite do professor, seu


grande amigo, tornando-se co-fundadora de Nazaré. Vieram fixar-
se no incipiente arruado: João Ferreira, da fazenda Batata,
Cândido Ferreira, da fazenda Caibros e D. Joaninha, da fazenda
Serra Vermelha, assim que, em fins de novembro de 1917,
enviuvara de Manuel Ferreira de Lima.*

A minúscula feira estabelecida em 1919, sem paga de imposto, às


quartas-feiras, funcionava, debaixo da latada de mato junto da
quixabeira em frente à casa de Florisbela, da fazenda Olhões,
chamada vulgarmente Zolhões. Com a feira vieram os comerciantes
de Floresta, João Novais e João Gominho, se estabelecer com
pequenas lojas filiais de fazendas e miudezas.

* Quem primeiro se transferiu para Nazaré foi D. Joaninha (Nanã). Seguida,


sucessivamente, de Cândido, Noberto e João. Nazaré ia crescendo devagarinho e
tranquila.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 139


140 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Causa determinante (12 a 15 de outubro de 1917)

Enquanto isso, na ribeira do São Domingos, a questão levantada e


conduzida por Zé Saturnino chegava ao desfecho. Mandara fazer
Zé Saturnino em sua propriedade uma broca no mato, cercando-a
para situar um roçado. O caso, porém, é que, na construção da
cerca, foram sobraçados bons tacos de terra da Ingazeira — o
primeiro passo da invasão para a predeterminada tomada da
fazenda.

Os Ferreiras, certos de seu direito de propriedade,


desmancharam a cerca, encoivararam a madeira e tocaram fogo. O
gado da Ingazeira, pastoreando por essa fronteira aberta, invadiu
a broca de Zé Saturnino. Isso, na terça-feira, 12 de outubro.

Zé Saturnino tendo ido ao campo vaquejar notou as reses dos


Ferreiras. De volta, todo arrebatado e no seu modo ríspido de
falar, recomendou ao cabra, seu morador, Olímpio Benedito: —
"Quando os Ferreira vinhé juntá o gado na broca, chame o Chico
Morais Arves (outro morador) e infinque bala neles. O rifle tá aqui
no canto cum a cartucheira". No dia seguinte, 13, pelas seis da
manhã, os três Ferreiras, encourados em trajes de vaqueiro e
desarmados, chegaram para rever o gado.

Olímpio, que estava trabalhando de foice na broca, correu, deu


garra do rifle e chamou Chico Morais, que não quis ir. Olímpio deu
três tiros, de mesmo, com o objetivo de atingir os rapazes, não
acontecendo porque era a primeira vez que atirava de rifle.

No outro dia, 14, os Ferreiras, desta vez armados, vieram


vaquejar. Ao avistarem alguns moradores de Zé Saturnino,
meteram fogo neles, que saíram correndo.

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141 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

No dia 15 de outubro, sexta-feira, os três Ferreiras, agora


seguidos de um seu agregado, Luís Gameleira, vieram, na mesma
hora, seis da manhã, de novo armados e prevenidos, para a faina
diária de recolher o gado. Foram vistos, de longe, ao passarem o
aceiro da broca, por um morador da Pedreira, que correu a avisar
Zé Saturnino, o qual estava batendo tijolo para sua casa. Zé
Saturnino disse a seus cabras: — "Vamos dá uns tiro naqueles
mocó?" (chamara os Ferreiras de mocós). Entrou em casa e retirou
armamento com munição para Zé Caboclo, os três Beneditos
(Olímpio, Manuel e José), 'Paizinho e Dionísio vaqueiro.

Aos quais se uniram João Nogueira e seu filho Zé Nogueira,


presentes na ocasião. Emboscaram-se num serrote da Lagoa
D'Agua Branca, ao pé da serra Vermelha, nos limites da Pedreira
com a Ingazeira. Quando os Ferreiras estavam na mira de suas
armas, fizeram fogo de surpresa, ficando, de início, Antônio
Ferreira ferido com um balaço, que lhe pegou na região do apêndice
e saiu na reata da calça, na altura dos rins. O tiroteio rompeu
violento e rápido, durante apenas dez a quinze minutos, retirando-
se os Ferreiras sem que os inimigos tivessem coragem de lhes
seguir no encalço.

Pela primeira vez na vida, os irmãos Ferreiras atiraram em gente!


Antônio com vinte e dois anos de idade, Livino com vinte e um e
Virgulino com dezenove. Enquanto Livino, com o agregado, voltava
para casa, Virgulino levava seu irmão ferido para a residência do
tio Manuel Ferreira de Lima, na fazenda Serra Vermelha. Adonde,
o genro deste e tio daqueles, Antônio Matilde Ferreira, entendido
de ferimento, cuidou do sobrinho durante vinte dias, tempo que
levou para ficar bom.* Nisto foi ajudado pelo jovem. de quinze anos
João, irmão do baleado, que ensinava a carta de abe a seus primos,
filhos do dono da Serra Vermelha.

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142 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

* Antônio chegou todo melado de sangue na fazenda Serra Vermelha. Seu "tio"
Ferreira Catendo, inteirado do ocorrido, mandou imediatamente chamar Antônio
Matilde, na Mutuca. Este desinfetou a ferida com álcool e ácido fênico; com uma
navalha flambada cortou a ferida em cruz: queimou um sacatrapo (rosca da vareta
de espingarda) e com ele retirou a bala. Para sarar: fez uma papa 'de azeite doce
com a baba (selva) do cipó de cobra ou tripa de galinha; melou essa mistura em uns
fiapos do linho; xiringou (seringou) água fenicada no orifício; introduziu no furo os
fiapos melados até o fim, deixando-os aí; diariamente a mesma operação; limpa a
ferida vai ela sarando de dentro para fora até fechar sem necessidade de pontos.

Nesse ínterim, José Ferreira tomou um burro e foi à Vila Bela


dar parte e instaurar processo contra as sucessivas provocações
e ameaças de Zé Saturnino, culminadas com o baleamento de seu
filho. Ora, o delegado regional tinha um irmão querendo se casar
com uma irmã de Zé Saturnino. Por isso, todo abusado, mal ouviu o
queixoso, e terminou dizendo, com sarcasmo e menoscabo, que não
se metia na encrenca, pois, conforme o ditado, "entre duas pedras
catolé".

A justiça, subalterna ao mais forte, também fugira de atender a


um justo reclamo de sua alçada e que poderia dar cabo de tais
malquerenças e estabelecer paz em definitivo.* Diante do
fracasso, voltou José Ferreira para casa, humilhado, desfazido,
sofrido, e sem tino para encontrar solução.

"A besta-fera se soltou" — exclamava D. Jacosa.

Foi quando os Ferreiras compreenderam que tinham diante de si


um "terrível inimigo" — o inimigo número 1 — Zé Saturnino!"**

Numa estrofe, sincera e sentida, Lampião lamentou as imposições


do destino:

"Mas, o destino impiedoso,

Foi cruel para comigo.

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143 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

E a sorte caprichosa

Me impôs este castigo.

Quando eu não esperava

Nem em tal coisa pensava

Tinha terrível inimigo!"


* "A Paz é Fruto da Justiça" (Pio XII). Houvesse "Justiça" e não haveria Lampião...
Das instituições humanas a mais falha, quando deveria ser a mais perfeita, porque
básica. — "A lei a gente espicha como quer!" — dizia certo juiz de direito. A justiça
— sempre com letra minúscula, porque maiúscula só a divina, — é jogo de esgrima:
vence o advogado mais atilado. Para libertar o criminoso, a que chamam de
"constituinte", não tem escrúpulo o causídico de empregar a mentira. Isto porque a
falta de consciência não lhe traz remorsos. A corrupção e subserviência de certos
"íntegros", escudados na intocabilidade, transformam o título das peças e
processados jurídicos em farsa. Se não se justifica a atitude de Lampião ao fazer
justiça pelas próprias mãos, a carência de justiça, entretanto, a explica.
** Zé Saturnino é chamado de "inimigo n. 1" porque foi o "primeiro" e não o "maior",
nem o mais importante. Entre os maiores contam-se José Lucena, que assassinou
seu pai, levando-o daí de vez ao cangaço, João Nogueira com sua ambição, Manuel
Neto, por sua tenacidade e crueldade, José Pereira, de Princesa, que ele chamava
de "perverso, falso o desonesto"...
SE HOUVESSE JUSTIÇA NÃO HAVERIA LAMPIÃO

Depois que você ler o artigo do link acima, veja se não concorda
comigo, pois finalizando, digo aos leitores deste apanhado de
palavras em dois livros, sendo que os floreios entre ela são minhas.
Lampião e seus irmãos, juntamente com seus familiares, foram
vítimas sim. Se tivesse havido justiça não teria havido Lampião.
Claro que Lampião não foi bom para o sertão nordestino. Tornou-
se desalmado pelas perseguições sofridas e teria sido talvez um
cidadão íntegro, um padre, um oficial do exército, um bispo,
prefeito ou até mesmo governador. Um poeta, um artista, sei lá!

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144 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Foi mal ter existido? Afirmo com toda veemência: SIM


LAMPIÃO, Justiça abandonada por falta de justiça

Manuel Neto, certa vez, foi encontrado por Gérson Maranhão


perambulando pelos areais do Moxotó, acompanhado apenas de
três homens armados.

Voce não tem medo de andar assim com tão pouca gente?
Perguntou-lhe Gérson.

Não respondeu ele. Nada tenho a perder na vida. Não quero


mesmo viver. Só quero é morrer e o mesmo pensam os três que me
acompanham. Ninguém de nós quer viver, mas só morrer.

O mesmo dizia o sargento Moisés, do povoado Bezerros, então


pertencente ao município de Salgueiro (hoje Verdejante). Tornou-
se ele, por questão de vingança, grande perseguidor de Lampião:
"Meu desejo não é viver, mas morrer" dizia ele.

Também o sargento Lero (Aureliano de Sousa Nogueira), de


Nazaré e perseguidor de Lampião: "Os nazarenos não tinham outro
jeito, ou se acabar nas unhas de Lampião ou se acabar brigando
com Lampião."

O que Lampião fez para esses valentes policiais lhe devotarem


tanto ódio e perseguição? E por que reservei o nome desse artigo
como "Justiça abandonada por falta de justiça"? Todos nós
sabemos que Lampião era um homem perigoso e fez muita miséria
por onde passava nos sertões nordestinos. Existiu algum momento
dele ter uma vida social de honestidade e exemplo de cidadão
pacato e cumpridor das leis?

Para seus cabras Lampião era um idolo. Tinha a força de um mito.


Para isso contribuía sua conquistadora personalidade, excepcional
inteligência, espirito de liderança irresistivel, genialidade

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145 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

guerrilheira, profundo misticismo religioso e outros carismas


notáveis. Além disso o modo como dirigia o grupo: rigorosa moral,
exemplo de honestidade, espírito de justiça, energia de
autoridade, alegria e fraternidade. Dai por que nunca faltaram
cabras que o seguisse e verdadeiras feras humanas, sendo de
todos eles senhor absoluto, da vida e da morte. E para se explicar
por que ele dominava dessa forma podemos ver algumas de suas
decisões:

- por motivo de traição, matou Mourão...

- por razão de falta de respeito moral, matou Cacheado, matou


Sabiá...

- Quando viu que não havia mais jeito de cura, matou outro Sabiá,
o cabra que tinha sido baleado no combate de Mata Grande, e que
vinha sendo conduzido numa rede, por léguas e mais léguas, por
vários dias na direção do Navio.

- Virgulino condoía-se da pobreza. Segundo se conta, quando era


almocreve, fazia questão de não deixar passar, sem sua ajuda, um
esmoler ou necessitado.

- No cangaço exercia a prática de enfermeiro, dentista (extrações


à ponta da faca!) e parteiro.

- Vemos passagens em que favorecia os pobres, quer como produto


dos saques, quer com dinheiro.

Tanto assim que os cantadores nas feiras, o exaltavam pela


justiça que exercia com equidade.

Mas o mundo inteiro ficaria abismado diante de suas legendárias


gestas dilacerantes, hora agindo com loucura vingativa, hora com
pendores de honestidade e bondade, se bem que essa última
afirmativa fosse inferior em quantidade de atos em relação à
primeira. Mas sabemos que os cantadores de feira focavam mais

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146 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

suas estórias nos predicados de homem revoltado pelas injustiças


a ele acometidas e seus feitos mitológicos e quixotescos. Se bem
que entrava também o medo de falar mal do cangaceiro. Sabe lá se
teriam um encontro com ele nas estradas e caminhos?

Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, celebraria em famosa


poesia, para agregar mais ainda a construção de um mito, suas
palavras de protesto em forma de endechas, sua grande decisão
de viver do outro lado da lei. E isso era bastante compreensível
pelo sertanejo pobre, que constantemente era empurrado para o
paredão das injustiças que eram submetidos naquele caldeirão
cultural onde o direito pendia para os afortunados:
"Por minha infelicidade
Entrei nesta triste vida
Não gosto nem de contar
A minha história sentida
A desgraça enche o meu rosto
Em minha alma entra o desgosto
Meu peito é uma ferida.

Aí peguei nas armas


Para a vida defender
Perseguido, aperriado,
Vi que era feio correr,
Vi a desgraça no meu rosto
Então senti-me disposto
Matar para não morrer".

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147 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Foi um alvoroço geral quando os cantores cordelistas levaram


essas palavras de Virgolino Ferreira, entoadas num choro sentido,
pela escolha que o ídolo fizera, praticamente por imposição de uma
casta dominante, que não aceitara por inveja, esse rapazinho de
inteligência fora do comum e que sobressaía-se nos eventos
sociais, onde as mocinhas o olhavam admiradas por sua postura de
corpo e inteligência. Era poeta, músico, ótimo como domador de
cavalos, bom vaqueiro, excelente artífice do couro, bom
negociante, excelente almocreve, fino e educado, religioso e
respeitador. Essa era a imagem lembrada por todos que o
conheciam.

Sim amigos, os cantadores de feira eram os portadores das


palavras do povo que em reconhecimento proclamavam Lampião
com o epíteto de "Santo":
"O Santo Lampião,
Era um homem bem devoto
Só andava pelo voto
Do Padre Cirço Romão

O Santo Lampião
Era um home bem querido
Ele era protegido
Do Padre Cirço Romão

Quando o pai dele foi morto


Depois é que não sabia
O Santo disse um dia
Precisamos nos vingá.

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148 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Lampião é inteligente
Que o povo bem já se vê
o Santo adivinhou
Até o dia de morrê."

Sim amigos, esse era o mundo injustiçado e abandonado em que


viviam os deserdados em sua pobreza infinita, onde os meninos e
meninas acordavam com olhos remelentos e pregados, como se
fosse providência divina para não enxergarem a pobreza em que
viviam, onde até mesmo a água para desgrudarem as pálpebras era
difícil.

Era o mundo pesado caindo nas costas daquele povo sofrido e


injustiçado, onde para fazer justiça, a força das armas eram o
revide para ofensas de toda sorte; injúrias, traições, pagamento
de dividas e de salários, etc., eram resolvidos pela força e o crime
de homicídio era avaliado naquele sertão de "deus dará" pela
balança dos malfeitos cometidos. Era a justiça do povo.

Num mundo abandonado como aquele do sertão, absolutamente


carente de justiça, Lampião iria aparecer, como um enviado quase
hierático, reconhecido e consagrado pelo povo, para fazer justiça:
ofensas de donzelas, resoluções de casamento, pagamento de
dividas e de salários, etc, eram resolvidos por Lampião por onde
passava e que fazia questão de ser sempre justa, pois era
definitiva, aceita por todos sem discussão. Conta-se que até
mesmo crimes de homicídio anteriormente tão frequentes,
rarearam, porque Lampião seria chamado como juiz. Os rapazes
pensavam duas vezes em mexer com uma moça donzela.

Um fato para ilustrar, colhido nos carrascais secos de Custódia,


pelo padre Frederico Bezerra Maciel, conterrâneo de Lampião,
onde este assunto surgira espontâneo e forte, pois ainda menino,
fixou-se, não porém, como obsessão ou mesmo preocupação, mas

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149 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

como estudo pois era admirável e lhe despertara perguntas -


"Quem é este homem para ser tão perseguido?” Perguntas como
essa voejavam de sua mente e se misturavam ao apito nervoso dos
trens que via, bufantes, fumacentos e poeirentos, transportando
tropas volantes, ao toque estridente de cornetas,“ em demanda do
sertão” o campo de batalha da Guerra de Lampião, onde recolhi
dados para esse artigo; sua sextologia LAMPIÃO, SEU TEMPO E
SEU REINADO:
“Seu Capitão e meu Padim, vim aquí pru mode tão dizendo que foi eu que buli com
a moça, mas não foi eu não.
Me diga, zé Júlio, fale a verdade, você é meu afilhado. Só dou proteção dentro do
direito e da justiça.
Juro meu Padim e Capitão, a moça já tava bulida.”

Lampião depois de se inteirar rigorosamente, através de


testemunhas, do caso e da inculpabilidade do afilhado, pune por
ele, sentenciando peremptoriamente ao pai:

Trate de casar sua filha com outro. E não toque em Zé Júlilo, que
não deve nada à honra dela.

E José Tiago da Silva, vulgo Zé Júlio, livrou-se de um casamento


forçado à ponta de faca. Mais tarde, mudou-se ele para Belo
Jardim onde se casou com D. Coleta Cirino. Matutão jeitoso e bom,
tornou-se industrial de laticínios e fazendeiro, além de gostar de
politica, chegando a ser prefeito municipal.

Lampião tornou-se nome internacional e manchete obrigatória nos


maiores jornais do mundo, "New York Times"; "Paris Match" e em
Buenos Aires o "La Nación"

Não admira que a Enciclopéia Britânica, na sua edição brasileira


BARSA, Ihe tenha dedicado verbete especial e na internet,
pesquisa do portal Google, com milhares e milhares de páginas

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150 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

sobre ele, onde numa barafunda de histórias e estórias contam e


inventam casos dele.

O poeta popular João Martins de Ataide, no folheto de sua autoria


"Os projetos de Lampião", põe na boca de Lampião a seguinte
sextilha:
"Muita gente no Brasil
Tem grande ódio de mim,
Outros julgam que eu nasci,
Somente para ser ruim,
Alguém está enganado,
Eu vivo nisto obrigado,
Mas nunca fui mau assim".

Então meus amigos, cheguei a conclusão que ninguém nasce ruim.


Lampião foi levado àquela vida por fatos poderosos que talvez
possa até ter tido inversão se tivesse sido assistido pela justiça
dos homens. Mas, sabemos que esta é falha pois como diz, é a
justiça dos homens! Agregado a isso, tem a questão do ego humano,
o orgulho exacerbado das partes contribuindo para o crescimento
da raiva e da dor. Além disso tem o mal uso das autoridades, de
um poder que achavam ser ilimitado. E quem poderia ser contra?

Vemos assim que até certa época da vida de Virgolino Ferreira,


podemos dizer que era a de um rapaz comum, com seus almejos
normais, dentro dos limites impostos a todos, pela imposição de
uma sociedade imaginada, onde prevalecesse as regras
independente do dinheiro e poder. Mas nunca foi igualitária, até
os dias de hoje, mas houve melhorias. Mas isso não absolve
Lampião. Poderá até absolver Virgolino. Mas nunca poderá
absolver Lampião, pois sua conduta mesmo enaltecida em

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eventos humanísticos que são poucos, abate-se sobre ele a mão


pesada da Justiça por sua vida de crimes e violência.

Palavras finais do autor

As dúvidas, principalmente com as notícias da imprensa e mídia,


fazem que tenhamos de ser seletivos e incrédulos, pois não o
sabemos quais as intenções dos que escrevem, fatos que denigrem
a personalidade de pessoas.

Eu, sinceramente tenho dúvidas de muitas histórias sobre


Lampião. Sei que muitos querem a verdade. Mas que verdade
existe? A minha? A sua? A dos interessados?

Vemos muitos relatos até mesmo de grandes homens que


combateram Lampião, elogiar seu comportamento moral.

Sei ao mesmo tempo e estive em locais em que Lampião e seu


bando agiram em covardia como por exemplo foi o caso da família
Gilo de Floresta, Pernambuco. Foi Lampião enganado por outro
cangaceiro e só veio a saber disso quando no final da refrega, foi
inquirido pelo próprio Manoel Gilo.

Muitos crimes cometeu Lampião, mais um deles foi no ano de


1929 onde seu bando de Lampião esteve no município de
Queimadas, saqueando a cidade que contava com 8 policiais
militares em sua guarnição. Este documentário conta o desfecho
sangrento dessa investida criminosa do cangaceiro
(https://www.youtube.com/watch?v=B7H5RT1NFCo&t=4s).

Outros crimes pavorosos, nos são relatado por Geraldo Antônio


de Souza Júnior no canal YouTube Cangaçologia, onde os crimes
são relatados conforme sequência, pelos Escritores e
Pesquisadores Rubens Antônio da Silva Filho, Luiz Ruben F. A.
Bonfim, o Jornalista e escritor Moacir Assunção, e nossa saudosa

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amiga Mabel Cristine Nogueira, membro das famílias Flor e


Jurubeba. (https://www.youtube.com/watch?v=VqVCg38IfhY&t=131s)

Mas também temos relatos como esses, de Dona Dulce Menezes,


ex-cangaceira, que fala bem de Lampião. (clique nos links abaixo)

 LAMPIÃO ERA BOM


 ENTREVISTA COM A ÚLTIMA CANGACEIRA DE
LAMPIÃO

Lampião era descrito como alguém profundamente religioso.


Tinha respeito pelos padres, em particular Cícero Romão Batista.
Rezava sempre ao meio-dia, relataram seus ex-colegas. Às sextas-
feiras, praticava jejum. Na Semana Santa, não comia carne e
suspendia as operações. Era uma religiosidade primitiva, mística,
típica do catolicismo dos antigos sertões. Muito relacionada às
forças sobrenaturais. O centro de sua fé era a crença no seu
"corpo fechado".

Ainda em vida e durante esses 82 anos após sua morte, cresceu a


imagem de "bandido-herói". Alguns acreditam que mesmo sendo
considerado um fora-da-lei era de uma integridade moral muito
grande. Já outros, odeia-o como um dos mais cruéis criminosos da
Brasil.

Temos relatos gravados que as Volantes faziam igual ou talvez


pior que Lampião, isso para lhes dar combate.

Nessa história, cada um tem sua opinião.


Em seu Cordel, o poeta sergipano João Firmino Cabral, que tive o
privilégio de conhecer e frequentar sua banca de literatura de
cordel, no mercado municipal de Aracaju, Sergipe, disse bem...

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“Aqui termina a história


Do famoso Virgolino.
Se foi bandido ou herói,
Se foi santo ou assassino,
Isso não posso afirmar.
Eu deixo o mundo julgar,
Não o poeta Firmino.”
Cordel de João Firmino Cabral

Outros links interessantes:

MAPA GOOGLE POR ONDE LAMPIÃO PASSOU

POR ONDE PASSOU LAMPIÃO?

Lampião e seus Cangaceiros, os guerreiros do tempo.

Ele tinha no rosto um pavor enorme', disse soldado que matou o


cangaceiro Lampião, há 80 anos.

Grota de Angico – Avaliações de visitantes

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AUTÓPSIA DA CABEÇA DE LAMPIÃO

Relatório de autópsia do Dr. José Lages Filho. A autópsia da


cabeça ocorreu apenas em 31 de julho de 1938, quatro dias após
a morte do bandido. A cabeça de Lampião já estava em más
condições, pois havia sido transportada em um barril de
querosene cheio de água, cachaça e sal, e exibida ao público em
muitas aldeias durante esse período.

O foco na classificação antropológica e nas características


sugestivas de tendências degeneradas de acordo com a doutrina
antropométrica criminal de Lombroso é aparente.

“No Serviço Médico-Legal do Estado de Alagoas, a cabeça do


célebre bandido Lampião, que durante 20 anos foi o terror do sertão
nordestino, foi admitido às 22:00 de 31 de julho de 1938.
Infelizmente, o estado em que chegou ao necrotério não permite um
estudo detalhado e meticuloso à luz da antropometria e anatomia
criminais, pois Virgulino Ferreira foi atingido por um projétil de arma
de fogo que atravessava seu crânio, saindo da região occipital,
atingindo vários ossos, como o osso mandibular no nível de sua
porção média, ossos frontal, parietal direito, temporal e base direito,
que foram reduzidos a múltiplos fragmentos. No entanto, após
cuidadosa reconstituição da cabeça, podemos traçar o perfil
antropológico da seguinte forma: pele marrom-amarela, que a
classifica como pertencente ao grupo dos “Xantodermas
brasileiros”, de acordo com o sistema de classificação de Roquette-
Pinto; - testa fugaz; - cabelos tipo lissotric, pretos, lisos e longos,
dispostos em uma trança pendente; - barba e bigode, com cabelos
lisos, pretos e escamosos; dolicocefálico, contrastando com os
outros indivíduos de sua etnia, o braquicefálico em geral. O
perímetro cefálico é igual a 57 centímetros. O diâmetro ântero-
posterior máximo atinge 150 milímetros. Índice cefálico 75. Face de
tamanho relativamente pequeno, sendo impressionante à primeira

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155 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

observação, as dimensões do pequeno osso mandibular, com os


ramos horizontais formando um ângulo reto no encontro dos ramos
ascendentes correspondentes. Assim, a face total ( - barba e
bigode, com cabelos lisos, pretos e escamosos; dolicocefálico,
contrastando com os outros indivíduos de sua etnia, o
braquicefálico em geral. O perímetro cefálico é igual a 57
centímetros. O diâmetro ântero-posterior máximo atinge 150
milímetros. Índice cefálico 75. Face de tamanho relativamente
pequeno, sendo impressionante à primeira observação, as
dimensões do pequeno osso mandibular, com os ramos horizontais
formando um ângulo reto no encontro dos ramos ascendentes
correspondentes. Assim, a face total ( - barba e bigode, com
cabelos lisos, pretos e escamosos; dolicocefálico, contrastando com
os outros indivíduos de sua etnia, o braquicefálico em geral. O
perímetro cefálico é igual a 57 centímetros. O diâmetro ântero-
posterior máximo atinge 150 milímetros. Índice cefálico 75. Face de
tamanho relativamente pequeno, sendo impressionante à primeira
observação, as dimensões do pequeno osso mandibular, com os
ramos horizontais formando um ângulo reto no encontro dos ramos
ascendentes correspondentes. Assim, a face total ( sendo
impressionante à primeira observação, as dimensões do pequeno
osso mandibular, com os ramos horizontais formando um ângulo
reto no encontro dos ramos ascendentes correspondentes. Assim, a
face total ( sendo impressionante à primeira observação, as
dimensões do pequeno osso mandibular, com os ramos horizontais
formando um ângulo reto no encontro dos ramos ascendentes
correspondentes. Assim, a face total (O comprimento do rosto ) é de
170 mm, o comprimento total da face ( face ) 130 mm, o rosto
simples ( face) comprimento 85 mm, diâmetro bizigomático da face
transversal máxima de 160 mm e índice facial de Broca
53.12. Quanto ao nariz, reto, romboide e com ápice espesso, com a
impressão de óculos mantidos no dorso, possui altura máxima de
37 milímetros. O índice nasal transversal é 74. Uma mesorrina
franca. Lábios finos, a largura da boca medindo 37 mm. Abóbada
palatina ogival. Dentes pequenos, inclusive no grupo
microdontia. Orelhas assimétricas com uma desigualdade manifesta
no desenvolvimento de partes semelhantes - a orelha de
Blainville. O comprimento da orelha direita atinge 65 milímetros. A
largura da orelha direita é de 40 milímetros. O comprimento da

RAUL MENELEU MASCARENHAS 155


156 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

orelha esquerda é de 53 milímetros. Índice de orelha de Topinard,


levando em consideração as dimensões da orelha direita, 165.
Existe uma pigmentação arredondada escura na região masseterica
direita da face, medindo três milímetros de diâmetro, um nevo
congênito. O olho direito tem um leucoma, tingindo toda a
córnea. Em resumo, embora alguns estigmas físicos estejam
presentes na cabeça de Lampião, não encontramos um paralelo
rigoroso entre os caracteres somáticos da degeneração revelados
por este exemplo de criminoso célebre. Assim, observamos como
índices físicos de degeneração apenas as anomalias das orelhas,
denunciadas por uma assimetria chocante, abóbada palatina oval e
microdontia. Faltavam as deformidades cranianas, o prognatismo
da mandíbula e outros sinais aos quais Lombroso emprestava tanto
na caracterização do criminoso nato. Não obstante,
- Dr. José Lages Filho, Médico Forense Policial ”.

Temos também esse artigo Folha de S.Paulo - 13/11/1996

RAUL MENELEU MASCARENHAS 156


157 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Historiadores contestam a versão oficial

WILLIAM FRANÇA

DO ENVIADO ESPECIAL

A história da sobrevivência de Lampião e Maria Bonita é ouvida


no Nordeste desde 1938, logo depois da emboscada na Grota do
Angico. Vários historiadores apontam indícios de que o Rei do
Cangaço estava negociando sua desistência do banditismo.

Segundo Aglae Lima de Oliveira, que estudou o cangaço por 20


anos e escreveu um livro de 400 páginas sobre o caso, Lampião
negociava com interlocutores do governo Getúlio Vargas sua
saída do cangaço. A historiadora diz que, no lugar dele, morreu o
cangaceiro Zé do Sapo.

Outro historiador, Frederico Pernambucano de Mello, diretor da


Fundação Joaquim Nabuco, disse à Folha, em Recife, que Lampião
estava muito rico (tinha cerca de mil contos de réis, o suficiente,
na época, para adquirir 40 grandes fazendas), mas tinha
esgotado suas fontes de arrecadação.

Uma boa fazenda, segundo Mello, custava, naquele tempo, cerca


de 25 contos de réis. A Fundação Joaquim Nabuco é um dos
centros mais importantes de pesquisa e estudo da história do
Nordeste.

Mello afirma que estavam em andamento dois processos de


perdão para Lampião quando ele foi morto, negociados por
políticos que lhe deviam favores em Alagoas e Sergipe. Mas o
historiador acredita que ele tenha morrido - "não existe prova
em contrário, da sua sobrevivência".
RAUL MENELEU MASCARENHAS 157
158 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Lampião tinha essa relação com os políticos e fazendeiros porque


também funcionava como um controlador dos camponeses que
tentavam, eventualmente, contestar o direito à propriedade. O
cangaceiro fazia as vezes de polícia.

"Não dá mais"

A Folha ouviu relato semelhante do ex-cangaceiro Manoel Dantas


Loiola, 82, o Candeeiro, que hoje mora em Guanumbi, no sertão de
Pernambuco. Ele era um dos principais "assessores" de Lampião
nos últimos dois anos de cangaço.

Duas semanas antes do massacre em Angico, Lampião reuniu


alguns de seus homens. Candeeiro contou que ele estava
preocupado porque sua atuação ficava, a cada dia, mais limitada e
tinha contra si a grande invenção da época: o rádio, que permitia
que a polícia soubesse muito mais rapidamente onde ele estava
com seu bando.

"Ele disse que queria ir para Minas, mas que ninguém era
obrigado a ir junto", disse Candeeiro.

Segundo ele, Lampião afirmou o seguinte: "Aqui não dá mais pra


viver. Mas o negócio vai ser meio pesado, porque a gente tem que
atravessar a Bahia". Lampião era jurado de morte e proibido de
entrar no território baiano.

"Cabra mentiroso"

Pelo menos um dos soldados que participaram do ataque a Angico,


Sebastião Vieira Sandes, 81, o Santo, duvida da morte de
Lampião.

Santo era o único que conhecia Lampião pessoalmente, porque,


antes de ser da volante (polícia), tinha servido ao bando do
cangaceiro -foi obrigado a trocar de lado pela polícia, mas ainda
respeitava o ex-patrão.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 158


159 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Santo, que mora em Maceió, recusa-se a dar entrevistas.


Segundo sua família, sempre chama de "cabra da peste
mentiroso" quem afirma que esteve envolvido na morte de
Lampião.

Outro soldado da volante, José Panta Godoy, 83, o cabo Panta, a


quem se atribui o tiro fatal em Maria Bonita, disse à Folha, em
Maceió, que nenhum integrante da volante - exceto Santo -
conhecia Lampião ou Maria Bonita.

"Pela história, sabia que eram eles. Mas foi o soldado Santo quem
confirmou", afirmou Panta. "Ele disse para eu não esbagaçar a
cabeça daquele homem, porque ele era Lampião".

RAUL MENELEU MASCARENHAS 159


160 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Autópsia não foi definitiva

Temos também essa reportagem da Folha de S.Paulo - Autópsia


não foi definitiva - de 13/11/1996.

WILLIAM FRANÇA
DO ENVIADO ESPECIAL
Há vários fatos curiosos envolvendo a história da suposta morte
de Lampião. Um deles é que sua cabeça ficou 30 anos, seis meses
e nove dias insepulta, aguardando pronunciamento da Justiça.
Só foi enterrada em fevereiro de 1969, no cemitério Quinta dos
Lázaros, em Salvador, depois que a Presidência da República
(governo Costa e Silva) o indultou.
Durante todo esse tempo, foi exibida para estudantes e
curiosos. E só foi submetida a um exame necrológico quatro dias
depois do degolamento em Angico.
O autor da única autópsia feita na cabeça, José Lages Filho, do
IML de Maceió, registrou que o estado em que a recebeu - em
decomposição, quatro dias após ser decepada, e com um tiro que
atravessou o crânio- impediu que ele fizesse "um estudo
acurado".
Por isso, ele só sugeriu no laudo que ela pertencesse a Lampião.
Lages Filho escreveu: "Em resumo, embora presentes alguns
estigmas físicos na cabeça de Lampião (...), faltam deformações
e outros sinais aos quais tanta importância emprestava
caracterização do criminoso nato". A Fundação Joaquim Nabuco
tem cópia do laudo.
Mas o fato mais estranho, que assustou até familiares de
Lampião, foi o irmão do cangaceiro, Ezequiel, ter reaparecido
vivo em 1984 na cidade de Juazeiro (CE).
A história registrava que ele, que também era cangaceiro, havia
sido morto em 1926, numa emboscada.
Ezequiel usava o nome de Francisco e só revelou sua identidade
ao buscar em Serra Talhada (PE) documentos para aposentar-se.

RAUL MENELEU MASCARENHAS 160


161 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Personagens remanescentes do cangaço foram taxativos ao


afirmar que só um irmão verdadeiro de Lampião saberia
responder questões que ele respondeu.
Ezequiel contou à época (ele morreu em 1987) que em 1926
desistiu de continuar no banditismo.
Negociou com o Rei do Cangaço e, quando houve uma morte no
bando, o irmão, Lampião, fez com que as roupas fossem trocadas
entre o cangaceiro morto e Ezequiel, que ganhou dinheiro
suficiente para fugir e mudar de vida.
Segundo o relato, foi feito um enterro simulado. A prática de
simulação de enterros foi uma constante no bando de Lampião.
"Ninguém sabia o nome verdadeiro de ninguém. Todo mundo só
tinha apelidos", disse o ex-cangaceiro Candeeiro. Esse recurso
era usado para dar a impressão de que o bando era invencível e
nunca perdia homens nos confrontos.
(WF)

RAUL MENELEU MASCARENHAS 161


162 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Lampião, Lages, Lombroso:


uma autópsia do Rei do Cangaço

Arquivos de Neuro-Psiquiatria
Versão impressa ISSN 0004-282X Versão on-
line ISSN 1678-4227

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.77 no.1 São Paulo jan. 2019


https://doi.org/10.1590/0004-282x20180143

HISTORICAL NOTE

Lampião, Lages, Lombroso: the


autopsy of the bandit king of the
Brazilian backlands
Lampião, Lages, Lombroso: uma autópsia do Rei do
Cangaço
Charles André 1 2
http://orcid.org/0000-0001-
8081-5741

Laura Minc Baumfeld André 3

1
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de
Medicina, Departamento de Neurologia, Rio de Janeiro RJ,
Brasil
2
Sinapse Neurologia e Reabilitação, Rio de Janeiro RJ,
Brasil
3
Promotor do Ministério Público do Estado do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro RJ, Brasil

RAUL MENELEU MASCARENHAS 162


163 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

ABSTRATO

Lampião, o mais famoso líder brasileiro de bandidos, foi


morto e decapitado durante uma emboscada em 1938. O
médico legista da polícia de Alagoas, Dr. José Lages Filho,
fez uma autópsia da cabeça. Fortemente tendencioso às
idéias antropológicas do famoso psiquiatra e criminalista
italiano Cesare Lombroso, o exame encontrou apenas
algumas das chamadas características criminosas
congênitas. A doutrina Lombroso e uma série de teorias
relacionadas influenciou fortemente raciocínio médico e
política na primeira metade do 20 º século. Estudos
genéticos e neurocientíficos modernos ainda estão
procurando as possíveis raízes biológicas do mau
comportamento e da criminalidade.
Palavras-chave: Autópsia; comportamento
criminoso; Medicina forense; Antropologia
Forense; História; século 20

RESUMO

Lampião foi o líder cangaceiro mais famoso do Brasil. Foi


morto e decapitado após emboscada em 1938. O Dr. José
Lages Filho, médico legal da polícia de Alagoas, executou
uma autópsia parcial, restrita à cabeça. O exame focalizou
a busca de traços físicos característicos do chamado crime
nato, de acordo com uma teoria antropológica criminosa
desenvolvida pelo psiquiatra italiano Cesare Lombroso. A
doutrina de Lombroso e outras com ela relacionadas
influencia fortemente o raciocínio médico e político na
primeira metade do século 20. Seus ecos ainda hoje são
perceptíveis em estudos genéticos e neurocientíficos
contemporâneos, que são mostrados como bases
biológicas de desvios comportamentais e de criminalidade.
Palavras-chave: Autópsia; comportamento
criminoso; Medicina Legal; Antropologia
Forense; História; Século XX

“Nunca mais há acendê


O tal Lampião falado .

RAUL MENELEU MASCARENHAS 163


164 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Na capitá do Estado
Sua cabeça se vê
Para o governo conhecê
Sua terrive feição
E dizê: este é o dragão
Forte, cru e valente.
Contudo mandei minha gente
E apagado o Lampião ”.
Manuel Neném

Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938) - mais conhecido


como Lampião - era o líder mais notório de uma forma de
banditismo conhecido no Brasil como cangaço , que era
endêmica no sertão Nordeste na primeira metade do
20 º século.
Seu grupo fora da lei devastou aldeias nas décadas de
1920 e 1930. Os governos regionais e centrais fizeram
muitas tentativas de dizimar suas tropas e finalmente
conseguiram decapitá-lo ao amanhecer de 28 de julho de
1938 - em Angicos, Sergipe. A emboscada resultou na
morte de 11 bandidos (incluindo duas mulheres) e um
soldado. Mais de 20 outros bandidos escaparam 1 . O
apelido Lampião, que em inglês significa “lanterna” ou
“lâmpada de óleo”, foi adquirido porque ele podia disparar
um rifle de ação com alavanca tão rápido que, à noite,
parecia que ele estava segurando uma lâmpada 1 .
Lampião, sua companheira de vida Maria Bonita (Maria
Gomes de Oliveira) e todos os outros que foram
capturados foram decapitados (três deles ainda vivos) e
suas cabeças exibidas em várias aldeias ( Figura 1 )
durante o transporte para Maceió (Estado de Alagoas),
onde foi realizada autópsia limitada.

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165 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Figura 1 Os chefes de Lampião e outros 10 bandidos exibidos em


Piranhas, Alagoas. A cabeça de Lampião está na primeira fila e a
de Maria Bonita logo acima. Fotógrafo desconhecido - CASTRO,
José, em: Ciclo do Cangaço, Memórias da Bahia, vol. 4, Empresa
Baiana de Jornalismo, Salvador, 2002, Domínio
público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=358622
4

MÉTODOS

Pesquisamos o relatório original da autópsia, documentos e


parentes do médico responsável pela autópsia. O presente
texto analisa esses resultados e discute a influência da
criminologia antropológica na época.

RESULTADOS

A autópsia foi realizada em 31 de julho de 1938, durante a


noite, pelo Dr. José Lages Filho (1910-1997). Lages,
formado em 1931 na Faculdade de Medicina da Bahia, era
médico legista desde 1935 ( Figura 2 A). Posteriormente,
foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de

RAUL MENELEU MASCARENHAS 165


166 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Alagoas, em 1950, e tornou-se seu primeiro professor de


Medicina Legal 2 .

Figura 2 Médicos José Lages Filho e Cesare Lombroso. A. Dr.


Lages (lado direito da foto) com Dr. Ezechias da Rocha, médico
clínico associado da Santa Casa de Maceió, onde foi examinado o
chefe de Lampião, e Melchiades da Rocha, jornalista que
documentou toda a história de a morte do
criminoso. https://i2.wp.com/www.historiadealagoas.com.br/wp-
content/uploads/2015/06/Professor-Ezechias-da-Rocha-chefe-da-
Cl%C3%ADnica-da-Santa- Casa-jornalista-Melchiades-da-Rochae-
Dr.-Lages-Filho.jpg B. O criminologista positivista italiano, Dr.
Cesare Lombroso, nascido como Ezechia Marco Lombroso (1835-
1909). Fotógrafo desconhecido - reproduzido em “Rassenkunde
des jüdischen Volkes” por Hans FK Günther 1929, JF Lehmanns
Verlag, Munique. Domínio
público,https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2770466

A cabeça de Lampião, embora já bastante danificada por


quatro dias de conservação inadequada de conhaque e sal,
foi a única que ainda permitiu o exame 1 . A caixa 1 mostra
a descrição da autópsia.

Na autópsia de Lampião, José Lages Filho só conseguiu


encontrar microdontia, assimetria acentuada da orelha e
abóbada palatina oval como traços inatos que ele
considerou relevantes para caracterizar a natureza
criminosa do fora da lei de acordo com os critérios

RAUL MENELEU MASCARENHAS 166


167 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

desenvolvidos e divulgados pelo psiquiatra italiano Cesare


Lombroso (1835- 1909).

DISCUSSÃO

A decapitação de criminosos e inimigos políticos, e mostra


de sua cabeça como uma espécie de troféu, não era
incomum no Brasil durante a 18 ª , 19 ª e início dos anos
20 th séculos, pelo menos na região Nordeste 1 , 3 . Corisco,
um dos tenentes de Lampião, decapitou, enquanto ainda
estavam vivos, seis membros da família do informante da
polícia considerados responsáveis pela emboscada mortal
do chefe e os enviou ao policial que o comandava 1 .
Relatório de autópsia do Dr. José Lages Filho
(tradução dos autores) 1 . A autópsia da cabeça
ocorreu apenas em 31 de julho de 1938, quatro dias
após a morte do bandido. A cabeça de Lampião já
estava em más condições, pois havia sido
transportada em um barril de querosene cheio de
água, aguardente ( cachaça ) e sal, e exibida ao
público em muitas aldeias durante esse período. O
foco na classificação antropológica e nas
características sugestivas de tendências degeneradas
de acordo com a doutrina antropométrica criminal de
Lombroso é aparente.
“No Serviço Médico-Legal do Estado de Alagoas, o chefe do
célebre bandido Lampião, que durante 20 anos foi o terror
do sertão nordestino, foi admitido às 22:00 de 31 de julho
de 1938. Infelizmente, o O estado em que chegou ao
necrotério não permite um estudo detalhado e meticuloso
à luz da antropometria e da anatomia criminais, pois
Virgulino Ferreira foi atingido por um projétil de arma de
fogo que atravessava seu crânio, saindo da região
occipital, atingindo vários ossos, como o osso mandibular
no nível de sua porção média, ossos frontal, parietal
direito, temporal e base direito, que foram reduzidos a
múltiplos fragmentos. No entanto, após cuidadosa
reconstituição da cabeça, podemos traçar o perfil
antropológico da seguinte forma: pele marrom-amarela,
que a classifica como pertencente ao grupo dos

RAUL MENELEU MASCARENHAS 167


168 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

“Xantodermas brasileiros”, de acordo com o sistema de


classificação de Roquette-Pinto; - testa fugaz; - cabelos
tipo lissotric, pretos, lisos e longos, dispostos em uma
trança pendente; - barba e bigode, com cabelos lisos,
pretos e escamosos; dolicocefálico, contrastando com os
outros indivíduos de sua etnia, o braquicefálico em geral. O
perímetro cefálico é igual a 57 centímetros. O diâmetro
ântero-posterior máximo atinge 150 milímetros. Índice
cefálico 75. Face de tamanho relativamente pequeno,
sendo impressionante à primeira observação, as
dimensões do pequeno osso mandibular, com os ramos
horizontais formando um ângulo reto no encontro dos
ramos ascendentes correspondentes. Assim, a face total ( -
barba e bigode, com cabelos lisos, pretos e
escamosos; dolicocefálico, contrastando com os outros
indivíduos de sua etnia, o braquicefálico em geral. O
perímetro cefálico é igual a 57 centímetros. O diâmetro
ântero-posterior máximo atinge 150 milímetros. Índice
cefálico 75. Face de tamanho relativamente pequeno,
sendo impressionante à primeira observação, as
dimensões do pequeno osso mandibular, com os ramos
horizontais formando um ângulo reto no encontro dos
ramos ascendentes correspondentes. Assim, a face total ( -
barba e bigode, com cabelos lisos, pretos e
escamosos; dolicocefálico, contrastando com os outros
indivíduos de sua etnia, o braquicefálico em geral. O
perímetro cefálico é igual a 57 centímetros. O diâmetro
ântero-posterior máximo atinge 150 milímetros. Índice
cefálico 75. Face de tamanho relativamente pequeno,
sendo impressionante à primeira observação, as
dimensões do pequeno osso mandibular, com os ramos
horizontais formando um ângulo reto no encontro dos
ramos ascendentes correspondentes. Assim, a face total
( sendo impressionante à primeira observação, as
dimensões do pequeno osso mandibular, com os ramos
horizontais formando um ângulo reto no encontro dos
ramos ascendentes correspondentes. Assim, a face total
( sendo impressionante à primeira observação, as
dimensões do pequeno osso mandibular, com os ramos
horizontais formando um ângulo reto no encontro dos

RAUL MENELEU MASCARENHAS 168


169 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

ramos ascendentes correspondentes. Assim, a face total


(O comprimento do rosto ) é de 170 mm, o comprimento
total da face ( face ) 130 mm, o rosto simples ( face)
comprimento 85 mm, diâmetro bizigomático da face
transversal máxima de 160 mm e índice facial de Broca
53.12. Quanto ao nariz, reto, romboide e com ápice
espesso, com a impressão de óculos mantidos no dorso,
possui altura máxima de 37 milímetros. O índice nasal
transversal é 74. Uma mesorrina franca. Lábios finos, a
largura da boca medindo 37 mm. Abóbada palatina
ogival. Dentes pequenos, inclusive no grupo
microdontia. Orelhas assimétricas com uma desigualdade
manifesta no desenvolvimento de partes semelhantes - a
orelha de Blainville. O comprimento da orelha direita
atinge 65 milímetros. A largura da orelha direita é de 40
milímetros. O comprimento da orelha esquerda é de 53
milímetros. Índice de orelha de Topinard, levando em
consideração as dimensões da orelha direita, 165. Existe
uma pigmentação arredondada escura na região
masseterica direita da face, medindo três milímetros de
diâmetro, um nevo congênito. O olho direito tem um
leucoma, tingindo toda a córnea. Em resumo, embora
alguns estigmas físicos estejam presentes na cabeça de
Lampião, não encontramos um paralelo rigoroso entre os
caracteres somáticos da degeneração revelados por este
exemplo de um criminoso célebre. Assim, observamos
como índices físicos de degeneração apenas as anomalias
das orelhas, denunciadas por uma assimetria chocante,
abóbada palatina oval e microdontia. Faltavam as
deformidades cranianas, o prognatismo da mandíbula e
outros sinais aos quais Lombroso emprestava tanto na
caracterização do criminoso nato. Não obstante,
- (s.) Dr. José Lages Filho, Médico Forense Policial ”.
Análises frenológicas pós-morte de bandidos também não
eram inéditas. Por exemplo, a Dra. Nina Rodrigues (1862-
1906), Professora de Medicina Legal da Faculdade de
Medicina da Bahia e defensora do positivismo naturalista e
da Escola Lombrosiana, realizou autópsias em alguns
bandidos 4 , 5 . Ele também examinou o chefe de Antônio

RAUL MENELEU MASCARENHAS 169


170 L A M P I Ã O: N O R D E S T E, C O R O N É I S, C A P A N G A S E J A G U N Ç O S

Conselheiro (1830-1897), o líder mestiço da chamada


Guerra de Canudos, cujo corpo foi retirado da sepultura
duas semanas após seu enterro. Curiosamente, Rodrigues
considerou a cabeça normal (não foram encontradas
anomalias degeneradas) 4 , 5 .
Conforme declarado por Lages, a autópsia limitada foi uma
tentativa de determinar se a cabeça e o rosto de Lampião
exibiam os traços característicos de criminosos inatos ( reo
nato, na terminologia de Ferri), conforme descrito por
Cesare Lombroso. Esse influente psiquiatra ( Figura 2 B)
foi pioneiro em Psiquiatria Forense e pai, juntamente com
Raffaele Garofalo (18511934) e Enrico Ferri (1856-1929),
da doutrina conhecida como Antropologia Criminal. Essa
era uma metodologia empiricamente baseada em
criminosos. Contradizia a visão metafísica então dominante
da criminalidade e classificou os criminosos em diferentes
grupos, incluindo criminosos inatos, ocasionais e
apaixonados, epiléticos criminais e imbecis morais .. Com
base em estudos de autópsia realizados em hospitais,
asilos e penitenciárias, Lombroso concluiu, por exemplo,
que a fossa occipital de criminosos italianos famosos, como
o ladrão calabrês Villela, estava mais próxima dos primatas
superiores do que dos humanos.
Segundo Lombroso, aspectos considerados típicos do
caráter criminoso ( estigmas ) representavam uma espécie
de atavismo - regressão ou degeneração para um tipo
humano mais primitivo - que poderia, por exemplo, ser
causado por epilepsia, uma condição do sistema nervoso
que levou à sua degeneração 6 , 7 . Essas características
incluíam características antropométricas e frenológicas /
fisionômicas, como comprimento de braços e pernas,
assimetria facial e inchaços no calvário, mas também
marcas físicas, como tatuagens e características
psicológicas, que hoje em dia provavelmente seriam
consideradas indicativas de transtornos de personalidade
( Quadro 2 ).

Traços físicos característicos de criminosos inatos de


acordo com Cesare Lombroso 6 , 7 . Algumas dessas

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características indicaram propensão a crimes


específicos, incluindo estupro, assassinato etc.
Também foram avaliadas características fisiológicas
(por exemplo, sensibilidade reduzida à dor) e
características psicológicas (vaidade, infantilidade
etc.).

 Altura anormalmente alta


 Cabeça pequena, mas rosto grande
 Solavancos na cabeça, na parte de trás da cabeça
e ao redor da orelha
 Rugas na testa e no rosto
 Testa inclinada
 Cavidades grandes do seio ou face acidentada
 Orelhas grandes e salientes
 Barba escassa e queda de cabelo
 Sobrancelhas grossas, tendendo a encontrar-se
através do nariz
 Nariz bicudo (para cima ou para baixo) ou nariz
achatado
 Queixo saliente
 Maçãs do rosto altas
 Incisivos poderosos, dentes anormais
 Lábios finos (e outras características femininas
encontradas em estupradores)
 Cabelos desgrenhados
 Pescoço fino
 Braços longos
 Tatuagens no corpo, especialmente nas costas e
nos órgãos genitais
 Canhoto
 Olhar indescritível (em ladrões)
 Olhar firme e vitrificado (em assassinos)
 Em mulheres criminosas, masculinidade nos traços
faciais e na voz, excesso de pêlos no corpo,
verrugas, mamilos pequenos ou muito grandes

O trabalho mais influente de Lombroso - L'uomo


delinquente - foi publicado em 1876 6 e logo foi traduzido
para vários idiomas. Seu sistema - inspirado no

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positivismo - foi amplamente adotado na Europa e em


outros países, inclusive no Brasil.
A doutrina lombrosiana era, no entanto, cheia de
preconceitos - contra mulheres, canhotos, profissionais do
sexo etc. Obviamente, a maioria dos epiléticos nunca
comete nenhum crime. Além disso, a maioria das tribos
primitivas ( selvagens segundo Lombroso) tem baixas
taxas de criminalidade; e indivíduos normais podem exibir
qualquer um dos estigmas . As teorias de Lombroso foram
baseadas em observações clínicas e em um grande número
de medidas antropométricas post-mortem, mas foram
desafiadas por análises estatísticas posteriores. Isso foi
usado para criticar a abordagem de Lombroso e fortalecer
uma visão oposta da criminalidade que enfatizava a
importância dos determinantes da sociedade 8 . Essa nova
abordagem acabou substituindo a visão de Lombroso,
especialmente após a Segunda Guerra Mundial.
Lombroso não negou que fatores exógenos pudessem
influenciar as atitudes humanas. Eventualmente, ele
passou a reconhecer a complexa interação entre
predisposição constitucional e fatores sociais /
precipitantes que levam à criminalidade, mas ele achava
que essas últimas influências agiam apenas como
desencadeadores dos fatores endógenos 7 .
Mais tarde, Lombroso estudou mediunidade e passou a
acreditar no espiritualismo. Sua filha Gina Ferrero sugeriu,
no entanto, que esse último interesse poderia estar
relacionado ao aparecimento gradual de demência -
“aterosclerose” 9 .
Como afirma Lages Filho, muitos sinais físicos de
degeneração lombrosiana (prognatismo, deformidades
cranianas etc.) estavam ausentes em Lampião. Apesar
disso, afirmou que os dados anatômicos e antropométricos
sugeriam uma apreciação da "natureza delinqüente" do
famoso criminoso. Isso destaca o quanto as idéias de
Lombroso eram valiosas na época.
Várias doutrinas relacionadas coexistiram ou seguiram a
antropologia criminal, incluindo frenologia, darwinismo
social e eugenia. Essas teorias influenciaram fortemente a
medicina e a política durante a primeira metade

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do século XX , mas acabaram perdendo força,


principalmente após a Segunda Guerra Mundial. Apesar
disso, os princípios gerais por trás dessas idéias de alguma
forma sobrevivem hoje. Os médicos ainda estão buscando
traços biológicos subjacentes à predisposição ao mau
comportamento e ao crime, adicionando frequentemente
argumentos genéticos e neurocientíficos ao campo
controverso 10 . O júri das teorias do determinismo
biológico, no entanto, ainda está de fora.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Sra. Solange Berard Lages Chalita


por destacar as principais realizações de seu pai, Dr. José
Lages Filho, em uma entrevista amigável; e ao Dr. Sérgio
Telles Ribeiro Filho pela edição em inglês.

REFERÊNCIAS

1. Rocha M. Bandoleiros das Catingas. Rio de Janeiro:


Francisco Alves; 1988. [ Links ]
2. Canuto A. Faculdade de Medicina de Alagoas: história de
luta e esperança. Maceió: UFAL; 2006. [ Links ]
3. Tenório DA. A tragédia do populismo: o impeachment de
Muniz Falcão. 2nd ed. Maceió: Edufal; 2007. Raïzes do
conflito: uma violência política em Alagoas; p. 85-
110. [ Links ]
4. Mello FP. Guerreiros do Sol: violência e banditismo no
Nordeste do Brasil. 5a ed. São Paulo: A Girafa; 2004.
[ Links ]
5. Rodrigues RN. Como coletividades anormaes. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira; 1939. A loucura das
multidões; p. 50-77. [ Links ]
6. Lombroso C. L'uomo delinquente: estudo em rapporto
all'antropologia, ala medicina legal e ala disciplina
carcerária. Bolonha: Il Mulino; 2011. [ Links ]
7. Shecaira, SS. Criminologia. 5a ed. São Paulo: Revista
dos Tribunais; 2008. O nascimento da criminologia; 97-
104. [ Links ]

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8. Goring C. O condenado inglês: um estudo


estatístico. Londres: HMSO; 1913 [citado em 12
abr.2018]. Disponível
em: https://archive.org/stream/englishconvictst00goriuoft/
englishconvictst00goriuoft_djvu.txt [ Links ]
McCabe J. (1920). Homens científicos e espiritualismo:
análise de um cético. Idade de vida. 1920 [citado em 8 de
maio de 2018]. 12 de junho; 652-7 Disponível
em: http://www.unz.com/print/LivingAge-1920jun12-
00652 [ Links ]
10. Raine A. A anatomia da violência: as raízes biológicas
do crime. Nova York, Livros Vintage; 2014. [ Links ]
Recebido: 21 de maio de 2018; Revisado: 18 de julho de
2018; Aceito: 16 de agosto de 2018
Correspondência: Charles André; Rua Visconde de Pirajá,
414 / sala 821; 22410-002 Rio de Janeiro RJ,
Brasil; Correio eletrónico : dr.charles.andre@gmail.com
Conflito de interesse: não há conflito de interesse a
declarar.
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Creative Commons, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que
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Menções Honrosas

Raul Meneleu recebe o Diploma “Amigo do Cariri Cangaço” de João de Sousa Lima
Maio 2016

Dentro da solenidade de abertura do Cariri Cangaço Piranhas 2016; fui eleito para o Conselho
Consultivo Alcino Alves Costa, por votação direta pelos membros do colegiado formado por
personalidades do universo do estudo e pesquisa da temática cangaço e correlatas. Na ocasião
recebi diploma de Conselheiro das mãos de Juliana Pereira em 28 de Julho de 2016.

Participando na fundação da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço por ocasião


do “Cariri Cangaço 10 anos” na cidade de Juazeiro do Norte, Ceará. Fundada em 25 de julho
de 2019. Ocupo a cadeira 07 cujo patrono é Luís da Câmara Cascudo.

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Bibliografia

- Élise Grunspan, Lampião, Senhor do Sertão


- Rui Facó, Cangaceiros e Fanáticos
- Nina Rodrigues , As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil
- Lourenço Filho, O Juazeiro do padre Cícero
- Beatos e cangaceiros, Xavier de Oliveira
- A. Montenegro, História do Cangaceirismo
- Jáder de Carvalho. Sua majestade, o juiz
- Luis da Camara Cascudo, Vaqueiros e Cantadores
- Gustavo Barroso, Almas de Lama e de Aço
- Frederico Bezerra Maciel, A Campanha da Bahia
- Maria Helena Guedes , Os Grandes Diamantes Dos Coronéis
- Luis Aguiar da Costa Pinto, Lutas de Famílias no Brasil
- Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do Sol
- José Bezerra Lima Irmão, Raposa das Caatingas
- Frederico Bezerra Maciel, A Guerra de Guerrilhas
- Amaury de Souza, O Cangaço e a Política da Violência no Nordeste Brasileiro
- Luiz Luna, Lampião e seus cabras
- Leonardo Mota, No Tempo de Lampião
- Maria Christina Matta Machado, As Táticas de Guerra dos Cangaceiros
- João Franklin da Silveira Távora, O Cabeleira
- Gustavo Barroso, Heróis e Bandidos
- Nertan Macêdo, Capitão Virgulino Ferreira: Lampião
- Marcos Antônio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, As Cruzes do Cangaço
- Canal TV Maria Bonita, YouTube
- Canal Polícia Militar da Bahia, YouTube

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- Canal Cangaçologia, YouTube


- Antônio Samarone, Em defesa das causas perdidas:
- http://www.cpdoc.fgv.br/
- http://www.eb.mil.br
- Blog Lampião Aceso
- Nertan Macêdo, Lampião
- Alcino Alves Costa, Lampião em Sergipe
- Prof. Milton Barbosa da Silva, Conferência Apresentada no Conselho Estadual de
Cultura

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Está proibida a cópia, redistribuição ou qualquer


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autorização. Essa obra está em inteira concordância
com o Art. 46 da Lei Nº 9.610, de 19 de Fevereiro de 1998

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