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O papel da mulher no criptojudaísmo português

Professora Anita Novinsky

Diversos trabalhos sobre a condição feminina foram publicados em Portugal e no Brasil


nos últimos anos. Nenhuma pesquisa existe, porém, que trate da condição da mulher
portuguesa de origem judaica, a cristã-nova ou marrana, como vem denominada muitas
vezes pela historiografia contemporânea.

As informações que temos sobre o comportamento, as crenças, as atitudes da mulher


cristã-nova, que ficaram registradas nos processos da Inquisição constituem uma fonte
rara e inexplorada para a história da mulher e da família na cultura portuguesa, dos séculos
XVI ao XVIII. No aniversário dos 500 anos da expulsão dos judeus da Espanha foram
publicados numerosos estudos sobre os sefaradins, mas não abordaram a temática da
mulher marrana, e os que foram escritos nos últimos anos utilizando a documentação
inquisitorial referem-se especificadamente as feiticeiras e beatas (1) .

Entre as raras referências à mulher marrana encontramos uma "Responsa Rabínica", na


qual a mulher é descrita como líder espiritual e também o trabalho biográfico pioneiro de
Cecil Roth sobre Gracia Mendes,recentemente romanceado em "Senhora" (2). Sobre as
portuguesas que partiram para o Novo Mundo em seguida ao descobrimento, as noticias
também são escassas e nenhum tratamento satisfatório existe, como nos diz Charles
Boxer, sobre o lugar que ocupou a mulher na sociedade ibérica colonial (3).

Estimativas demográficas apoiadas em bases cientificas, sobre os cristãos-novos no Novo


Mundo, não são possíveis de se fazer, pois a qualificação "cristão-novo" não acompanha
os nomes dos primeiros colonizadores que ficaram registrados na história. A única fonte
que nos permite localizá-los, aproximadamente, durante a época colonial, são os arquivos
inquisitoriais.

O Brasil foi o refúgio preferido pelos portugueses que procuraram escapar das malhas da
Inquisição portuguesa, e sua história, apesar de inseparável de sua cultura portuguesa de
origem, apresenta aspectos e características que devem ser entendidas e estudadas dentro
do contexto brasileiro colonial. De uma maneira geral, a postura dos portugueses na
América colonial em relação à condição feminina, foi mais dura, rigorosa e conservadora
do que a dos espanhóis.

Essa postura se aplica não somente à situação da mulher, mas também a todo sistema de
organização colonial, que não permitiu nas colônias lusitanas, imprensa, Universidade,
ou a livre leitura. A mulher no Brasil nunca alcançou o "status" da mulher da América
Espanhola, apesar das leis discriminatórias terem sido violadas ininterruptamente pelos
colonos, nas suas vivências quotidianas (4).

Havia uma rigorosa punição aos candidatos a postos oficiais e honoríficos, de se casarem
com mulheres de ascendências judaica, porém o comprometimento sangüíneo foi uma
constante em todo o império espanhol e português. Todas genealogias de famílias cristãs-
novas que analisamos mostram que estavam mescladas com cristãs-velhas. Apesar de não
possuirmos ainda material suficiente para podermos construir modelos e estruturas sobre
a mulher e a família cristã-nova no Brasil, podemos, na base de processos conhecidos,
erguer algumas hipóteses e propor algumas reflexões teóricas.

Inicialmente devemos considerar que a religião judaica sobreviveu clandestina, no Brasil,


durante os três séculos coloniais, do Rio Grande do Norte até a colônia de Sacramento .
O papel que a mulher representou na continuidade desse cripto-judaismo foi fundamental
(5) A religião católica era praticada por certas facções cristãs- novas como obrigação,
enquanto outras seguiam com convicção o catolicismo.

Todas generalizações sobre a religião dos cristãos-novos no Brasil é enganosa. No que


diz respeito a condição feminina, esta variou de região para região dependendo da classe
social e do tipo de família a que pertenciam. Os processos inquisitoriais contêm
informações diversas sobre a sociedade colonial. A situação econômica das famílias, o
nível cultural, o número de filhos, os costumes e as crenças podem ser reconstituídas
através da análise dessa documentação.

Um estudo sobre as famílias cristãs-novas do Rio de Janeiro, presas no século XVIII, nos
fornecem dados que nos permitem reconstruir a estrutura da família nuclear, onde pai,
mãe e filhos solteiros viviam numa mesma casa, e os casados em outras, assim como da
família patriarcal, residentes nas áreas rurais, em seus grandes engenhos de açúcar (6).
Focalizando a família cristã-nova do Rio de Janeiro nesse período, não encontramos na
sua organização familiar diferenças consideráveis da família crista-velha.

Os portugueses, cristãos-novos como os cristãos-velhos reproduziram no Brasil a


estrutura política e social do Reino e carregaram consigo a tendência de copiar os estilos
de vida da pátria. No referente aos cristãos-novos as diferenças que notamos situam-se
mais no plano da estrutura mental do que no comportamento exterior. À medida que a
Inquisição reforçava sua fiscalização sobre a colônia, os cristãos-novos mais se fechavam
entre si. Não temos, porém, dados para afirmar, como num estudo feito sobre o México
que 96% dos casamentos foram endogâmicos (7).

A maioria dos cristãos-novos que viveram no Brasil na época colonial não eram cripto-
judeus. A perseguição inquisitorial teve um cunho racista apoiando-se em informações
obtidas sobre a origem étnica dos portugueses. Isso obrigava os cristãos-novos a jogar
com a sorte, e construir "um mundo dentro do mundo", onde se resguardavam, se
apoiavam e se ajudavam mutuamente (8).

No início da colonização havia poucas mulheres brancas no Brasil e os portugueses


cristãos-novos como cristãos-velhos mesclaram-se com índias e negras. O
desenvolvimento econômico intensificou a imigração e os estudos genealógicos revelam
um aumento na tendência endogâmica, principalmente depois que se intensificou a
fiscalização inquisitorial. Praticar alguns costumes judaicos ou adotar um nome do Velho
Testamento tornou-se extremamente perigoso, particularmente depois que se efetuaram
as primeiras prisões, na última década do século XVI (9).

As mulheres eram vistas pelos Inquisidores como as hereges mais perigosas. As


"confissões" e "sessões de crença" nos permitem extrair um perfil do comportamento
feminino e as "motivações que levaram a sua tenacidade e perseverança na manutenção
da fé antiga. Suas atitudes e opiniões sobre os cristãos-velhos, sobre a Igreja, sobre os
padres, a confissão, os dogmas, sobre o Papa, sobre Deus, o amor, a morte e
principalmente sobre a Inquisição, escoam das páginas dos processos e nos fornecem
material, a vezes único, sobre o cripto-judaísmo na América.

Uma questão premente que se propõe diz respeito aos mecanismos e ferramentas mentais
que permitiram a transmissão do judaísmo durante três séculos nas selvas brasileiras. A
história dos cristãos-novos no Brasil é totalmente diferente da história das comunidades
portuguesas da Europa, Amsterdã, Hamburgo, Florença, Veneza, Salônica, Bayone, etc.,
assim como do Norte da África e Levante, onde o retorno ao Judaísmo moldou um novo
comportamento entre os cristãos-novos ou marranos. As novas comunidades judaicas
consolidaram-se e adquiriram uma estabilidade que durou até o extermínio dos judeus
durante o hitlerismo.

Na América do Sul, o quadro que encontramos é diverso, a começar pelo fato de que nem
discretamente a religião judaica era permitida. Queremos esclarecer en passant que os
portugueses cristãos-novos dispersos pelos quatro cantos do mundo, não podem ser
chamados marranos nem cripto-judeus apesar de descendentes deles. Foram marranos
apenas aqueles que viveram no império espanhol e português.

Os que retornaram ao Judaísmo na Holanda denominavam –se "judeus de nação


portuguesa". A sociedade cripto-judia constituída pelos cristãos-novos na América era
multifacetada e apresentou grande mobilidade. Difícil acompanhar as atividades
econômicas internacionais dos cristãos-novos, suas fugas seus heterônimos. Contudo, em
certas regiões brasileiras, conseguimos traçar a origem de certas famílias a partir do
século XVI.
Apesar da escassez de mulheres nos primórdios da colonização, temos notícias de sua
presença no engenho de S. Vicente desde meados do século XVI, quando em casa do
capitão-mor Jeronimo Leitão, já se praticava a religião judaica. O mesmo se deu no
famoso engenho de Matoim, na Bahia, onde foram presas as primeiras mulheres da
colônia (10).
A literatura portuguesa da época descreve a mulher em geral como intelectualmente
inferior ao homem, mantendo-se a imagem tradicional da tentadora e serva de Satã. Uma
exceção chamou-nos a atenção, principalmente por se tratar de um cronista português,
portador da voz oficial da coroa, Duarte Nunes de Leão. Em sua "Descrição do Reino de
Portugal" dedica três capítulos às admiráveis qualidades da mulher portuguesa em
diversos campos. Descreve seu "valor e coragem", e sua capacidade para artes e letras
(11)
Estudar a família e a mulher cristã-nova no Brasil obriga-nos a considerar alguns aspectos
básicos do Judaísmo referentes à condição feminina, apesar da grande diversidade que
apresentaram sempre as comunidades judaicas dispersas pelo mundo. Os judeus se
adaptaram à sociedade entre as quais viveram e o conhecimento da estrutura familiar das
comunidades judaicas em Portugal, antes da conversão forçada de 1497, é importante.
Contudo, não temos nenhuma pesquisa nesse sentido.
Algumas características que encontramos no Judaísmo, de uma maneira ou de outra,
influíram em todas comunidades judaicas, desde o período bíblico até os dias de hoje.
Assim, por exemplo, no judaísmo tradicional a família era considerada como a menor
unidade social onde a herança cultural e religiosa do judaísmo era transmitida. O
casamento foi uma instituição que sofreu na diáspora muitas variações. As interações do
judaísmo com múltiplas civilizações, culturas, sociedades, durante 3500 anos de história
criou uma grande diversidade de costumes matrimoniais.
Assim, apesar de sua origem religiosa comum, as práticas judaicas entre os ashkenazim
e sefaradim se multifacetaram. A influência da tradição hispano-rabínica não foi a mesma
em todas as regiões, não é idêntico ao das mulheres nas comunidades sefaradins da
Europa e Norte da África. No Brasil não houve uma reconversão ao Judaísmo, mas uma
transferência de práticas abertas para secretas, num contexto social exclusivamente
católico, As leis judaicas eram conhecidas apenas através da tradição oral. A instituição
do casamento e da família é exaltada e louvada e o celibato é condenado tanto no homem
como na mulher.
Um judeu que não tem mulher é considerado metade homem. Os rabinos não
condenavam, como Paulo, os impulsos sexuais como "um mal em si" (12).
Depois do exílio da Babilônia e da conquista romana, a família judia adquiriu um novo
sentido. Com a perda da pátria, a família tornou-se elemento social básico e foi importante
para a evolução do Judaísmo, pois as relações familiares foram colocadas sob a direta
vigilância de Deus. Quando os judeus voltaram do exílio da Babilônia os profetas
exaltaram os retornados a se preocupar com seus lares, mais do que com o Templo (13)
No Brasil o sentido da família manteve-se principalmente na prática secreta do "shabat",
quando se dava a máxima comunhão entre os membros e a refeição era feita em conjunto,
com toda a família e parentes reunidos, com velas acesas e uma prece que era pronunciada
pela mulher.
Também na Páscoa se dava o encontro anual da família, quando o papel da mulher era
fundamental.
Quanto mais alta a esfera social, mais fraca eram as práticas clandestinas judaicas na
colônia e mais assimilados eram os cristãos-novos aos costumes cristãos. A Paraíba onde
o status social da comunidade era inferior ao do Rio de Janeiro, o apego à religião
judaica parece ter sido mais forte (14). Condições históricas diversas transformaram o lar,
a casa, em um fator vital para sobrevivência do Judaísmo e para a preservação de uma
maneira "judaica de viver".

A casa do judaísmo é muito mais importante do que a Sinagoga ou a escola. É da casa e


da família que provem a maior força para a revitalização e continuidade do judaísmo. É
na casa que se realizam as práticas religiosas e cerimoniais. Numa retrospectiva histórica
foi a família, com suas práticas judaicas, que tornou possível os judeus atravessarem 2000
anos e sobreviverem. Existem, pois, dois fatores básicos para um homem ser judeus, a
sinagoga e a casa. Para ser judeu é preciso que o homem conheça as escrituras sagradas
e cumpra as ordens da Lei.
Na "Sinagoga-escola", as crianças aprendem a ler e a rezar e em casa cumprem os
preceitos básicos do judaísmo, as leis dietéticas. Na casa é transmitida toda a memória
histórica, com a manutenção das festas nacionais judaicas. No Brasil, proibida a
Sinagoga, a escola, o estudo, sem autoridades religiosas, sem mestres, sem livros, o peso
da casa foi grande. A casa foi o lugar do culto, a casa tornou-se o próprio Templo. No
Brasil Colonial, como em Portugal, somente em casa os homens podiam ser judeus. Eram
cristãos para o mundo e judeus em casa. Isso teria sido impossível sem a participação da
mulher. Entre 444 processos de brasileiros analisados,principalmente na primeira metade
do século XVIII, 228 pertencem ao sexo feminino. Em alguns autos-de-fé de Lisboa do
século XVIII, o número de mulheres penitenciadas ultrapassou o número de homens. No
auto-de-fé de 9 de julho de 1715 saíram penitenciados 78 réus dos quais 37 eram homens
e 41 mulheres. No auto-de-fé de 26 de Julho de 1712 desfilaram 53 brasileiros. 50 foram
acusados de judaísmo sendo 24 mulheres (15).
A maior parte das mulheres cristãs-novas acusadas de Judaísmo recebeu como sentença
Cárcere e Hábito Penitencial Perpétuo, enquanto as acusadas de outros crimes receberam
penas leves. A Inquisição praticamente dizimou na Paraíba, em uma década, (1726-1736)
uma tradicional comunidade cripto-judia, que podemos acompanhar desde o século XVI.
O número de mulheres presas e condenadas ultrapassou o número de homens. Uma
mulher, Guiomar Nunes, mãe de oito filhos, foi queimada. Dos 444 processos referidos,
228 pertenciam a mulheres, 165 eram do Rio de Janeiro, 2 de Pernambuco, 35 da Paraíba,
2 de Minas, 2 do Pará, 12 sem lugar definido.
Em Portugal, segundo um estudo de José Gentil da Silva, o número de penitenciadas
femininas, como no Brasil variou no tempo e no espaço. Entre 1725 e 1735 em Coimbra,
o número de pessoas do sexo feminino foi superior ao dos homens. Dos três tribunais do
Reino, foi o de Évora foi o que condenou o maior número de mulheres. 37%; Coimbra
vem em segundo lugar com 35% e Lisboa 28% do total das vitimas. Dos que morreram
na fogueira, 44% eram mulheres, 37% em Lisboa, 43% em Évora, e 53% em Coimbra.
(16). O crime mais grave de que foram acusadas as portuguesas cristã-novas na colônia
brasileira foi o da preservação do Sábado, seguido pela Páscoa e pelo jejum do "Dia
Grande" (como era conhecida a festa do Yom Kipur).
Algumas vezes encontramos menção à festa da "rainha Ester" com a qual os cristãos-
novos se identificava de maneira especial, pois Ester teve, como os cristãos-novos, de
manter secreta a sua origem. Quando possível a carne de porco, lebre e coelho eram
evitadas. Mulheres cristãs-novas apresentaram no Brasil uma resistência passiva e
deliberada ao Catolicismo. Foram prosélitas, recebiam e transmitiam as mensagens orais
e influenciavam as gerações mais novas.
O Judaísmo persistiu no Brasil durante 285 anos como expressão religiosa e como
mentalidade, graças a diversos desafios: a discriminação legal, o anti-judaísmo das
massas, o estigma, a Inquisição . Dois fatores foram fundamentais: a mulher e a Memória.
Os Inquisidores sabiam que as mulheres eram as principais transmissoras da heresia
judaica e logo nos primeiros interrogatórios lhes propunham a questão: quem foi que lhe
ensinou? A memória histórica, como diz Pierre Nora é vida, sempre carregada pelos
grupos vivos, aberta a dialética da lembrança e da amnésia, inconsciente de suas
deformações sucessivas.
Enquanto a história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não é mais,
a memória é um fenômeno sempre atual, um lugar vivido no presente eterno. A memória
é afetiva e mágica e se apropria dos detalhes que a confortam, a história conhece apenas
o relativo, a memória é um absoluto (17). Ser cristão-novo significava lembrar-se.
Lembrar-se de lembrar. Foi a transmissão dessa memória que não permitiu que o
judaísmo desaparecesse no Brasil, apesar das perseguições e do medo. Algumas vezes,
mas raramente, chegavam clandestinamente mensagens do Reino. Essas mensagens
transmitiam imagens do Velho Testamento e vinham no meio de caixotes de mercadorias
ou trazidos pelos pilotos das naus, que algumas vezes eram cristãos-novos.
Transcreveremos uma dessas mensagens, onde a memória histórica é evocada, desde o
êxodo do Egito, o cativeiro da Babilônia, a perda da terra, os sonhos da redenção, até as
torturas da Inquisição. Exalta a resistência a agressão. Trata-se de um pedaço de papel
enviado de Lisboa em princípios do século XVII pela mãe de Antônio Rodrigues para o
filho que vivia na Bahia.
A extrema raridade de textos deste tipo confere-lhe uma importância primordial (18).
Durante três séculos a identidade judaica foi transmitida pela mulher e pela memória
histórica. Enquanto a memória guardou e transmitiu as narrativas, mesmo sem a
compreensão do real sentido da religião judaica, já mesclada com a simbologia cristã, a
identidade se manteve.
Gradativamente a memória histórica se apagou e o cripto-judaísmo desapareceu.

APÊNDICE

Treslado do papel que se achou na algibeira dos calções de Antônio Rodrigues * Senhôr,
Deus de Abraão, de Isaac, Deus de Jacó, rei e amparo de sua semente e filhos, Senhor,
Deus de todo (.....)Vós fostes chamado Deus das Maravilhas pelas que usastes com nossos
pais em os tirar do cativeiro do Egito e poder do Faraó.
Vós sois chamado Deus das Grandesas, pelas que com os mesmos usastes, no deserto,
por espaço de quarenta anos. Vós sois Senhor chamado Deus da Justiça pelo que lhe
fizestes, em lhes entregar a terra que a seu pai Abraão prometeste.
Sois Senhor chamado Deus das Vinganças, pelas que com o mesmo povo usastes tantas
vezes até de todo o tirar de sua terra, e levar captivo para a Babilonia pelos grandes
pecados ; vós Senhor chamado Deus das Misericordias, porque todas as vezes, que nestes
trabalhos chamaram por vos lhes acudistes e os livraste, como nesta Babilonia se viu e os
trouxestes a suas casas, em pocessão de suas terras, tanto apesar de seus inimigos, por
caminho só a vós licito.
Vós Senhor chamado Deus das Iras. Porque finalmente irado contra eles , por seus
nefandos e abominaveis pecados , sem algum conhecimento dos beneficios de vós
recebidos, dados de todo a ingratidão e desconhecimento de vosso Santo Nome,
abominavelmente reverenciando os demonios, de todo os destruistes, cansastes e
espalhastes pelas regiões do mundo, captivos e sujeitos, a tantos trabalhos e miserias,
como padecem até agora e padecemos hoje vendo que todas as gentes, tem recolhimento
e terras, onde cabem eles seus filhos , nós de todas as gentes, terras, nações, fomos
aborrecidos, sopeados cativos e odiados, submetidos as que vos vedes, todos os dias
presos, forçados, desterrados, penitenciados e açoitados e queimados: sem a isto nem ao
que mais padecem nossos filhos de vituperio e nossos de deshonra,e, assim toda nossa
geração miseravel e triste posta ao extremo que está , deixada de vosso amparo, submetido
ao cruel e carniceiro inimigo nosso, que é toda a geração terrestre, sem termos, quem no
valha , que nos acuda, se vos bom Deus não sois ; vivo sois vós Senhor vivo por certo o
vosso Santo Nome, bem vedes nossos trabalhos e miserias, baste Senhor o castigo que
temos padecido ,baste o tempo de vossa ausência, baste o mal de nossa peregrinação,
acudi Senhor pois sois chamado, Pai e Deus de misericórdia, olhai que somos vossos
filhos, olhai que somos vosso povo, olhai que somos semente de vossos servos Abrão,
Jaco, Isaque. Não permitais que sejamos consumidos, não permitais que sejamos
acabados pelas mãos de cães que não conhecem vosso Santo Nome, que vós não
reverenciam nem fazem obras de vós servirem, nem merecem tratar e, vosso Santo Nome
tão abominavelmente como fazem, venha-lhes Senhor o que merecem , usai com eles de
justiça e não permaneçam mais, não deis ocasião a que de todo pereçamos em suas mãos
e posto que nossos pecados merecem muito mais, confessamos Senhor que não
merecemos nossos bens por nossos males, nem merecemos levantar os olhos, a vossa
celestial morada, mas Senhor Deus das piedades, com quem as haveis de usar senão com
os filhos de vosso povo; a quem não vos conhece mostrai já quem sois e o poder de vossas
obras, santificando vosso santo nome e mandando-nos nossa saúde para que o mundo veja
seu engano, e o vos demos louvores, pois não aguardando nossa conversão senão em meio
de nossos pecados, chegais ao vosso poderoso (...) e nos arrebatais de meio deste lago, de
onde não poderiamos nunca sair, nem levantar os olhos a vós, com limpeza, se com vossa
extremada bondade e grande misericordia nos não livrais,para que em vossa casa e nossa
terra, debaixo de Nosso Rei e a sombra de vossos ministros vos louvemos com tanta razão
não tendo mais que dizer, que com os corações cheios de alegria darmos graças cantando
(...) para sempre. Amen. Com as armas de Abraão andarei armado, com seu manto
(cobejado ?...)Abraão estava no meu corpo, que nunca me vereis preso nem morto nem
em mãos de meus inimigos posto. Seja comigo Abraão meu guardador, não me ponhas
em olvido, que sou grande pecador, da-me graça e favor para te poder servir e tuas
carreiras, servir Abraão meu gram Senhor – laus Deo. *Fonte : Inquisição de Lisboa.
Cadernos do promotor de Lisboa nº 4 .Ms. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa,
Manuscrito.
*****
NOTAS
*****
(1) Souza, Laura de Mello e , O Diabo e a Terra de Santa Cruz, Feitiçaria e Religiosidade
Popular no Brasil Colonial , S.Paulo, Cia.Das Letras, 1986. Sobre a Mulher na Inquisição
portuguesa veja Silva,José Gentil da , "L'Inquisition au Feminin" in Inquisição –
I Conresso Luso-Brasileiro sobre Inquisição portuguesa, 1989, vol.I pp. 303-323.

(2) Yerushalmi, Josef – From Spanish Court to Italian Ghetto – Isaac Cardoso ,A Study
in Seventeeth Century Marranism and Jewish Apologeties , New York, London. Veja
também Roth Cecil , Dona Gracia Mendes. Vida de una gram mujer, Buenos Aires, ed.
Israel 1953 e Clement Catherine, ,La Senora ,ed. Calman Levy, Paris, 1992.

(3) Boxer, Charles C.R. – Mary and Misogyny. Women in Iberian Expansion overseas,
1415-1815, ed. Duckworth , 1975.
(4) Boxer,-Mary and Misogyny , cit p. 53

(5) Novinsky, Anita – "Una Nueva vision de lo Feminin: La Mujer Marrana" in Ed. Jorge
Nunes Sanches – Historia de la Mujer y la Familia ed. Nacional, Quito, 1991 pp. 69-80
(6) Gorenstein, Lina – Uma familia cristã-nova no Rio de Janeiro . Monografia
de mestrado , dep. História , datilografada ( No prelo ed. Arquivo Nacional do Rio de
Janeiro.
(7) Alberro, Solange – Inquision et Societé, 1577-1780- Mexico 1988
(8) V. Novinsky, Anita – Inquisição cristãos-novos na Bahia, 2ªª edição , ed. Perspectiva,
S.Paulo,1992.
(9 ) Mendonça, Heitor Furtado de – Visitação do Santo Oficio às Partes do Brasil.
Confissões da Bahia 1591-1593. S.Paulo, 1925 . Veja Wiznitzer , Arnold – Os Judeus no
Brasil Colonial ,S.Paulo ed. Pioneira, 1962.
(10) – Ibid
(11) – Leão, Duarte Nunes de – Descrição do Reino de Portugal, ed. 1610 apud Boxer ,
Charles, Mary and Misigyny, cit.
(12) – Baron, Salo W. A Social and Religious History of the Jews , ed. Columbia
University Press, 18 vol. 1958, vol.II p. 217 .
(13) - Baron, Ibid p. 125
(14) – Após o Rio de Janeiro, a mais numerosa comunidade cripto-judaica do Brasil, no
século XVIII, foi a Paraiba. Diversas pesquisas sobre os cristãos-novos da Paraiba
serão publicadas em breve.
(15) – V. Novinsky, Anita – Jewish Roots of Brasil in The Jewish Presence in Latin
America edit.. Judith Elkin & Gilbert W. Merks, Boston, Allen & Unwin, 1987 pp. 33-
44, e Novinsky, Anita , " Sephardim in Brazil . The New Christians in The
Western Sephardim , ed. Richard Barnett and Walter Schwab , Gibraltar Books Ltd.
Grenton , Northants 1989 pp. 431-434.
(16) – Silva, José Gentil da – L'inquisition au Feminin, cit vol I p.305-323.
(17) Nor, Pierre – Les Liews de Mémoire, vol. I ed. Gallimard 1984 p. XIX (18)
Inquisição de Lisboa . Cadernos do Promotor Lisboa num..4, Arquivo Nacional da Torre
do Tombo, Lisboa, Manuscrito.