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Fernando Pessoa – Páginas Íntimas e de Auto interpretação.

Introdução – O relativismo criador de Fernando Pessoa – Georg Rudolf Lind

- “[...]Fernando Pessoa, raciocinador nato e crítico lúcido desde os princípios da sua


carreira de escritor.” p. IX.
- “[...]o autor esfíngico guardara na gaveta não apenas a mais parte da obra poética,
mas também dos escritos em prosa [...] preocupara-o sobretudo a produção, e muito menos a
publicação das suas obras”. p. X.
- “Sabia muito bem quem era, estava consciente da alta missão do seu gênio e
adivinhava, com certeza, que algum dia obteria a celebridade que desprezara (ou dissera
desprezar) em vida”. p. X
- Guardou tudo na arca
- “A frase de Alberto Caeiro: ‘Não passo de um andaime’, revela, sob a luz destas
considerações, o seu verdadeiro significado”. p. XI.
- “O fragmentário provém da própria maneira de ser do autor. [...] Trabalhava, ao
mesmo tempo, em vários projetos; seguindo um plano preconcebido, anotava, com intervalos
de dias, as suas ideias, continuando ora na parte final, ora no meio, ora no princípio da obra
projetada. Depois cansava-se e passava para outro assunto que o fascinava pela novidade.”
(“Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos
pensamentos, extraordinários, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.”).
p. XII.
- Não gostava de falar de si “Desprezei sempre o falar de mim, prática socialmente
sempre baixa e criticamente sempre errônea” p. XII-XIII.
“[...] não é necessário percorrer o mundo e viver aventuras para ser um poeta genial; a
vocação literária de FP realizava-se dentro de um dia a dia apagado e mesquinho. De vez em
quando uma poesia, uma crítica ou uma página narrativa – e o resto do dia a traduzir cartas
comerciais nos escritórios dos dois Lavados e do Mayer ou conversando com os amigos nos
cafés, uma vida de boemia disciplinada: eis a biografia exterior do maior poeta português
desde Camões.” p. XVIII.
- “É precisamente nestas páginas programáticas sobre o Sensacionismo que
descobrimos a frase-chave para toda a obra de Fernando Pessoa, a explicação de todas as
contradições, a solução de tantos enigmas: ‘Sentir tudo de todas as maneiras’. Outra fórmula-
chave repete: ‘Se plural como o Universo’. Com a ajuda destas duas frases podemos desfazer
todas as contradições aparentes.” p. XIV.
- “O que foi, primordialmente, o impulso cego do seu temperamento de fingidor,
tornou-se depois, através dos esforços da reflexão, o pensamento condutor da sua existência
artístico-ideológica.” p. XIV.
- “[...] multiplicando as suas personalidades em favor da expressão artística[...]”. p.
XIV.
- “[...] uma regra de comportamento ?: ‘Sentir tudo de todas as maneiras’, passar por
tudo sem nunca se ligar a nada, ser tudo ao mesmo tempo e com a mesma legitimação: ser
patriota ardente e indiferente perante a pátria e a religião, ser pagão e cristão gnóstico,
defender a monarquia liberal e o princípio aristocrático e confessar-se liberal até a medula?”
p. XV.
- [...] esta mudança contínua das posições intelectuais justifica-se por ser um método
muito pessoal para criar uma nova expressão artística. p. XV.
- “Brincar com as ideias” – “está na base do que podemos chamar de relativismo
criador de Pessoa; ele examina todas as possibilidades espirituais da época para extrair delas
os elementos para uma nova arte universal[...]”. p. XV.
- “A teoria do Sensacionismo ajuda a esclarecer o nascimento dos heterônimos. A
criação deles não é de modo algum arbitrária – a pequena parte de jogo e mistificação que
nela pode haver é contrabalançada por uma inteligência superior que soube muito bem
enquadrar Caeiro, Reis e Campos nas correntes europeias da época. A estética sensacionista
lembra-nos, finalmente, o procedimento da arte abstrata (embora o poeta não fosse entendido
nas artes plásticas). O que é esta decomposição da realidade nos seus elementos psíquico-
geométricos senão o princípio da arte abstrata voltado para o campo da literatura?” p. XVI.
-“E quando Pessoa proclama que o fim da arte seria ‘criar um todo objetivo’,
intelectualizar as sensações e ‘aumentar a autoconsciência humana’, aproxima-se nitidamente
da posição estética de T. S. Eliot, afastando-se, na mesma medida, do subjetivismo poético
vigente à sua volta, predominando ainda na poesia portuguesa dos nossos dias.” p. XVI

Introdução – Fernando Pessoa, pensador múltiplo

- Pessoa foi seu próprio crítico


- “explica o modernismo pela crise de civilização e cultura o seu tempo” p. XXII
- “O seu pensamento é ironicamente ambíguo.” p. XXII
- “A qualidade do poeta de tipo superior leva-lo-ia à despersonalização. Com efeito, na
concepção de Fernando Pessoa, segundo um fragmento inédito, há quatro graus de poesia
lírica, e no cume da escala, onde ele sem dúvida se coloca, o poeta torna-se dramático por um
dom espantoso de sair de si. No terceiro grau, ‘o poeta, ainda mais intelectual, começa a
despersonalizar-se, a sentir, não já porque não sente, mas porque pensa que sente; a sentir
estados de alma, que realmente não tem, simplesmente porque os compreende. Estamos na
antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima. O temperamento do poeta, seja qual
for, está dissolvido pela inteligência. A sua obra será unificada só pelo estilo, último reduto da
sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo.’ p. XXVI – XXVII.
Fernando Pessoa – “O quarto grau da poesia lírica é aquele, muito mais raro, em que o
poeta, mais intelectual ainda, mas igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização.
Não só sente, mas vive, os estados de alma que não tem diretamente. Em grande número de
casos, cairá na poesia dramática, propriamente dita, como fez Shakespeare, poeta
substancialmente lírico erguido a dramático pelo espantoso grau de despersonalização que
atingiu. Num ou noutro caso continuará sendo, embora dramaticamente, poeta lírico. É esse o
caso de Browning etc. (ut supra) nem já o estilo define a unidade do homem: só o que no
estilo há de intelectual a denota. Assim é em Shakespeare, em quem o relevo inesperado da
frase, a subtileza e a complexidade do dizer, são a única coisa que aproxima o falar de Hamlet
do do Rei Lear, o de Falstaff do de Lady Macbeth. E assim é Browning através dos “Men and
Women” e dos “Dramatic Poems”.
Suponhamos, porém, que o poeta, evitando sempre a poesia dramática, externamente tal,
avança ainda um passo na escala da despersonalização. Certos estados de alma, pensados e
não sentidos, sentidos imaginativamente e por isso vividos, tenderão a definir para ele uma
pessoa fictícia que os sentisse sinceramente (. . .)”
“A heteronímia seria o termo último dum processo de despersonalização inerente à própria
criação poética e mediante o qual Pessoa estabelece uma axiologia literária. O poeta será tanto
maior quanto mais intelectual, mais impessoal, mas dramático, mais fingidor [...] O progresso
do poeta dentro de si próprio realiza-se pela vitória sobre a sinceridade pela conquista (lenta,
difícil) da capacidade de fingir.” p. XXVIII
Fernando Pessoa – “A sinceridade é o grande obstáculo que o artista tem a vencer. Só uma
longa disciplina, uma aprendizagem de não sentir senão literariamente as coisas podem levar
o espirito a esta culminância” Retirado do livro Páginas de Estética e de Teoria Literárias. 
Adolfo Casais Monteiro (Estudos sobre a poesia de F.P) levanta esse problema acerca da
sinceridade – “A missão do poeta não é ser sincero, mas ser verídico. A arte não é apenas
confissão do indivíduo: o artista é, digamos assim, o confessor de toda a gente, e a sinceridade
que dele esperamos é a de encontrar na sua voz o eco da sinceridade de todos os homens,
pelos quais lhe cabe falar, dos quais lhe cabe ser o interprete – sem precisar de ter sentido
aquilo que eles sentiram” (O poeta é um fingidor) p. 63
Fernando Pessoa nem foi e nem deixou de ser sincero, foi poeta.

Notas Autobiográficas e de Autognose

Escrito em 30/10/1908
[...] nenhuma alma há tão solitária como a minha – solitária, note-se, não mercê de
circunstâncias exteriores, mas sim de circunstâncias interiores. O que quero dizer é: a par da
minha grande ternura e bondade, entrou no meu caráter um elemento de natureza,
egocentrismo, portanto de egoísmo, produzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o
desenvolvimento e a plena ação interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, depremindo
a vontade, a sua plena ação externa , a sua manifestação. Hei-de analisar isto; um dia hei-de
examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu caráter, pois a minha
curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade por mim próprio e pelo meu
caráter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.” p. 6/7

- Sobre os projetos para Portugal – Tem vários projetos, mas sofre muito “até os limites da
loucura” a “deficiência por vontade” p. 8
- Além dos meus projectos patrióticos – escrever República de Portugal, provocar aqui uma
revolução, escrever panfletos portugueses, dirigir a publicação de obras literárias nacionais
mais antigas, fundar um periódico, uma revista cientifica, etc [...] conjugam-se para produzir
um impulso excessivo que me paralisa a vontade. O sofrimento que isto produz não sei se
poderá ser definido como situado aquém da loucura. [...] Outros motivos de sofrimento,
alguns físicos, mentais[...] dificuldades de dinheiro – junte-se isto tudo ao meu temperamento
fundamentalmente desiquilibrado e talvez se possa suspeitar qual a intensidade do meu
sofrimento.” p. 8-9.

Medo de ser louco

- “A primeira nutrição literária da minha meninice foi a que se encontrava em numerosos


romances de mistério e de aventuras horríveis. Pouco me interessavam os livros ditos para
rapazes e que relatam vivências emocionantes. Não me atraía a vida saudável e natural.
Anelava, não pelo provável, mas pelo incrível, nem sequer pelo impossível em grau, mais sim
pelo impossível por natureza.
A minha infância decorreu serena (...), recebi uma boa educação. Mas, desde que tenho
consciência de mim mesmo, apercebi-me de uma tendência nata em mim para a
mistificação, para a mentira artística. Junte-se a isto um grande amor pelo espiritual,
pelo misterioso, pelo obscuro, que, ao fim e ao cabo, não era senão uma forma e uma
variante daquela outra minha característica, e a minha personalidade será completa
para a intuição.” p. 12-13 (1906)

- “Eu era um poeta impulsionado pela filosofia [...]. Adorava admirar a beleza das coisas,
descortinar no imperceptível, através do que é diminuto, a alma poética do universo. Há
poesia em tudo – na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na
cidade – não o neguemos – fato evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há
poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia na trepidação dos carros nas
ruas; em cada movimento ínfimo, vulgar, ridículo, de um operário que, do outro lado da
rua, pinta a tabuleta de um talho. O meu sentido interior de tal modo predomina sobre
os meus cinco sentidos – estou convencido – vejo coisas desta vida de modo diferente do dos
outros homens. [...] É que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em
plena consciência da sua queda, atônito com as coisas. Como de alguém que conhecesse a
alma das coisas e se esforçasse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se de que não
era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas de nada mais se
recordando.” p. 14-15

Apontamentos pessoais (1910)


- “Deixei para trás o hábito de ler. [...] O meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um
alcance tais que me permitem assumir qualquer emoção que deseje e penetrar à vontade
em qualquer estado de espírito. Quando àquilo por que sempre se luta com esforço e
angústia, ser-se completo, não há livro que valha. [...] Descobri que a leitura é uma forma
servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?” p. 22-23

- Fala sobre a estabilidade financeira, e sobre a casa.


- “Cada vez estou mais só, mais abandonado. Pouco a pouco quebram-se-me todos os laços.
Em breve ficarei sozinho.” p. 26 (1914).
- “O meu pior mal é que não consigo nunca esquecer a minha presença metafisica na vida. De
aí a timidez transcendental que me atemoriza todos os gestos, que tira todas as minhas frases o
sangue da simplicidade, da emoção direta.” p. 27 (1915).
- “Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as cousas como
verdadeiramente são – como são para os outros. Sinto isto.” p. 27.

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Sobre “Orpheu”, Sensacionismo e Paulismo

“O que quer Orpheu? Criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço. A nossa
época é aquela em que todos os países, mais materialmente do que nunca, e pela primeira vez
intelectualmente, existem todos dentro de cada um, em que a Ásia, a América, a África e a
Oceania são a Europa, e existem todos na Europa, [...] região civilizada que dá o tipo e a
direção a todo o mundo.
Por isso a verdadeira arte moderna tem de ser maximamente desnacionalizada –
acumular dentro de si todas as partes do mundo. Só assim será tipicamente moderna. Que a
nossa arte seja uma onde a dolência e o misticismo asiático, o primitivismo africano, o
cosmopolitismo das Américas, o exotismo ultra da Oceania e o maquinismo decadente da
Europa se fundam, se cruzem se interseccionem. E, feita esta fusão espontaneamente,
resultará uma arte-todas-as-artes, uma inspiração espontaneamente complexa.” p. 113-114.

António Mora – “Da Grécia Antiga vê-se o mundo inteiro, o passado como o futuro,
a tal altura emerge, dos menores cumes das outras civilizações, o seu alto píncaro de glória
criadora.” p. 117.

- “Não somos portugueses que escrevem para portugueses; isso deixamo-lo nós aos
jornalistas e aos autores de artigos de fundo político. Somos portugueses que escrevem para a
Europa, para toda a civilização; nada somos por enquanto, mas aquilo que agora fazemos será
um dia universalmente conhecido e reconhecido.” p. 121

Esboço duma resposta a um inquérito literário, organizado por Eurico de Seabra,


em 31 de Abril de 1916
– “[...] eu considero a literatura como a única verdadeira arte, e as outras ‘artes’ todas
como o resultado de sensibilidades incompletas: a pintura, a escultura, a arquitectura, por
exemplo, como produtos de um incompleto desenvolvimento mental, em que as qualidades de
visualização não estão subordinadas ao domínio da inteligência, de modo que não funcionam,
como deve toda a sensibilidade para ter um perfeito e humano equilíbrio, através da
inteligência, mas independentemente dela, e com outras formas de expressão que não as
coadas através da ideia.” p. 123

“Creio que todo o futuro da arte europeia está no movimento sensacionista. A arte
assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode
ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar
por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo
quanto de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A
arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra – ser a síntese de
tudo. Que cada um de nós multiplique a sua personalidade por todas as outras
personalidades.” p. 124.

Álvaro de Campos: Modernas correntes na Literatura Portuguesa – 1916


“Em todas as épocas e em todos os países debatem-se, um contra a outra, duas
correntes, uma nacional e outra cosmopolita. Talvez fosse mais justo chamar à primeira não já
nacional, mas tradicionalista, porquanto, em países onde não esteja ainda estabelecida uma
corrente nacional, isto é, onde ainda não se saiba o que é um sentimento nacional, esta
corrente vira-se para um passado qualquer – o clássico, por exemplo. Assim, no tempo da
Rainha Isabel em Inglaterra [...] a corrente representada por Shakespeare é a cosmopolita
porque se entrega a si própria, e como entregar-se a si própria é entregar-se às influências do
momento, e como as influências profundas do momento são comuns a todas as nações nesse
tempo, segue que essa corrente é fatalmente o que se pode chamar cosmopolita.”

“Em Portugal hoje debatem-se duas correntes, antes não se debatem por enquanto, mas
em todo o caso a sua existência é antagônica. Uma é a da Renascença Portuguesa, a outra é
dupla, é realmente duas correntes. Divide-se no sensacionismo, de que é chefe o sr. Alberto
Caeiro, e no paulismo, cujo representante principal é o sr. Fernando Pessoa. Ambas são
cosmopolistas, porquanto cada qual parte de uma das duas grandes correntes europeias
actuais. O sensacionismo prende-se à atitude energética, vibrante, cheia de admiração pela
Vida, pela Matéria e pela Força, que tem lá fora representantes como Verhaeren, Marinetti, a
Condessa de Noailles e Kipling; o paulismo pertence à corrente cuja primeira manifestação
nítida foi o simbolismo. Ambas estas correntes tem entre nós este igual característico em
relação ao seu ponto de partida e que é para nos orgulharmos – de que são avanços enormes
nas correntes em que se integram. O sensacionismo é um grande progresso sobre tudo quanto
lá fora na mesma orientação se faz. O paulismo é um enorme progresso sobre todo o
simbolismo e neo-simbolismo de lá fora.” p. 125-126

Carta a um editor inglês


Sobre o sensacionismo
“Descendemos de três movimentos mais antigos – o simbolismo francês, o panteísmo
transcendentalista português, e a baralhada de coisas sem sentido e contraditórias de que o
futurismo, o cubismo e outros quejandos são expressões ocasionais, embora, para sermos
exactos, descendemos mais do seu espírito do que da sua letra. Sabe, o que é o simbolismo
francês, o subjetivismo romântico levado ao extremo, é também a liberdade romântica da
versificação levada igualmente ao extremo. Era, além disso, uma análise extremamente
minuciosa e mórbida (sintetizada para fins de expressão poética) das sensações. Era já um
‘sensacionismo’, embora rudimentar em relação ao nosso.
“Derivamos do simbolismo francês a nossa atitude fundamental de atenção excessiva
às nossas sensações, a nossa, por conseguinte, frequente preocupação com o tédio, a apatia, a
renuncia ante as coisas mais simples e mais normais da vida. [...].
“O panteísmo transcendentalista português” – Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoae –
Saudosismo. “A esta escola de poetas devemos nós, o fato de na nossa poesia, se
interpenetrarem e intertranscenderem espirito e matéria.”

Para a compreensão de Álvaro de Campos

“O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e
no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com
alma.” p. 405

1919 – Sobre Ultimatum


“[...] Se traduzi Ultimatum, foi por ser bem a obra mais inteligente de literatura jamais
saída da Grande Guerra. Podemos contemplar com espanto as suas teorias como
indizivelmente excêntricas, podemos discordar da violência excessiva da invectiva
introdutória, mas ninguém, julgo eu, pode deixar de confessar que o aspecto satírico é
magnífico na sua justeza estudada de aplicação, e que o aspecto teórico, pensemos o que
pensarmos acerca do valor das teorias, te, pelo menos, os méritos raros da originalidade e da
frescura.” p. 410
“A tendência da obra é bem clara – insatisfação ante a incapacidade construtiva
característica da nossa época, em que não surgiu nenhum grande poeta, nenhum grande
estadista, nem mesmo, bem vistas as coisas, nenhum grande general.” p. 410.
“Esta guerra é a dos pigmeus mais pequenos contra os pigmeus maiores. O tempo
mostrará quais são os maiores e quais os mais pequenos, mas, de qualquer modo, são
pigmeus. Pouco importa quem ganha a guerra, pois será ganha, de certeza, por um imbecil.
Pouco importa o que dela resultará, pois o que virá será seguramente imbecilidade. Já chegou
a era da engenharia física, mas estamos ainda longe da era da engenharia mental.” p. 411.
“Álvaro de Campos nasceu em Lisboa em 13 de outubro de 1890, e viajou muito pelo
Oriente e pela Europa, vivendo principalmente na Escócia.” p. 411.