Você está na página 1de 442

SUMÁRIO

PREFÁCIO.................................................................................................................................................................. 4
I-Um testemunho pessoal........................................................................................................................... 4
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO TEMA.................................................................................................. 13
I –Introdução................................................................................................................................................. 13
II–A Primeira Mentira................................................................................................................................ 13
III–Por que a mentira?............................................................................................................................... 21
IV–Como o conceito de “alma imortal” entrou no Judaísmo......................................................29
CAPÍTULO 2 – OS PAIS DA IGREJA E A IMORTALIDADE DA ALMA.............................................37
I–Os Pais da Igreja criam na imortalidade da alma?.....................................................................37
II–A Dormição de Maria e a Imortalidade da Alma.......................................................................48
CAPÍTULO 3 – CONCEITOS BÍBLICOS SOBRE CORPO, ALMA E ESPÍRITO..............................51
I–Conceitos com relação à alma............................................................................................................ 51
II–Qual é o conceito correto?.................................................................................................................. 51
III–O que é o “espírito” [ruach] e o que é a “alma” [nephesh]?..................................................53
IV–A morte da alma.................................................................................................................................... 75
V–Conclusão.................................................................................................................................................. 94
VI–Sobre os significados secundários para a alma........................................................................95
CAPÍTULO 4 – A CRENÇA DA IMORTALIDADE DA ALMA NO ANTIGO TESTAMENTO...103
I –Introdução ao Capítulo...................................................................................................................... 103
II–Moisés, Jó e a Imortalidade da Alma............................................................................................ 104
III–Os Livros Poéticos............................................................................................................................. 109
IV–A posição dos Livros Proféticos.................................................................................................... 120
V–Saul conversou com Samuel depois de morto?........................................................................ 123
VI–A alma no lugar de silêncio............................................................................................................ 129
VII–Conclusão............................................................................................................................................ 132
VIII–Estavam enganados os escritores do Antigo Testamento?............................................136
CAPÍTULO 5 – A CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA NO NOVO TESTAMENTO........146
I–Introdução ao Capítulo....................................................................................................................... 146
CAPÍTULO 5.1 – JESUS PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?...........................................147

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 1


II–A Parábola do rico e do Lázaro...................................................................................................... 147
III–A Origem pagã do Hades................................................................................................................. 154
IV–O que é o Sheol?.................................................................................................................................. 156
V–O Significado da Parábola................................................................................................................. 160
VI–Deus de vivos, não de mortos – Argumento contra ou a favor da imortalidade da
alma?.............................................................................................................................................................. 174
VII–Mateus 10:28 e a destruição da alma....................................................................................... 177
VIII–Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso?.............................................................................. 182
IX–Um espírito não tem carne e ossos............................................................................................. 196
CAPÍTULO 5.2 – O QUE JESUS REALMENTE ENSINOU?............................................................199
X–Sobre a entrada no Reino ou na condenação............................................................................ 199
XI–Sobre Imortalidade e Vida Eterna............................................................................................... 208
XII–Sobre o Estado Final dos ímpios................................................................................................ 210
XIII–A Ressurreição de Lázaro............................................................................................................ 211
CAPÍTULO 5.3 – OS APÓSTOLOS PREGAVAM A IMORTALIDADE DA ALMA?.................216
XIV–Atos dos Apóstolos.......................................................................................................................... 216
CAPÍTULO 5.4 – PAULO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?.........................................225
XV–Ausente do corpo e presente com Cristo................................................................................. 225
XVI–A realidade da ressurreição em contraste com a alma imortal....................................237
XVII–A consolação do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses.....................................................245
XVIII–“Buscando” aquilo que nós já temos?.................................................................................. 250
XIX–Deus, o único que possui a imortalidade............................................................................... 253
XX–Levou cativo o cativeiro.................................................................................................................. 256
XXI–A Bíblia e as Experiências Fora do Corpo.............................................................................. 260
XXII–A Entrada no Reino é somente na Ressurreição...............................................................262
XXIII–Últimas considerações dos ensinos de Paulo contra a imortalidade da alma.....271
CAPÍTULO 5.5 – AFINAL, ALGUM APÓSTOLO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?
.............................................................................................................................................................................. 277
XXIV–O autor desconhecido de Hebreus também desconhecia a Imortalidade da Alma
.......................................................................................................................................................................... 277
XXV–Pedro pregou a Imortalidade da Alma?................................................................................. 289
XXVI–João pregou a Imortalidade da Alma?.................................................................................. 300
XXVII–Mais pilares do imortalismo sendo derrubados............................................................304
CAPÍTULO 6 – O SONO DA MORTE.......................................................................................................... 319

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 2


I–A Metáfora do Sono.............................................................................................................................. 319
II–O “dormir” é referência somente para o corpo?.....................................................................323
CAPÍTULO 7 – A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS............................................................................... 329
I-A Ressurreição é Física?...................................................................................................................... 329
II–O que é a “Ressurreição”?................................................................................................................ 341
III–A recompensa é no momento da morte ou somente na ressurreição?........................343
IV–Morte – o maior inimigo.................................................................................................................. 345
V–O que acontece na Ressurreição?.................................................................................................. 346
CAPÍTULO 8 – A DOUTRINA DO INFERNO E DOS ACONTECIMENTOS FINAIS..................358
I-Introdução ao Capítulo........................................................................................................................ 358
CAPÍTULO 8.1 – INFERNO: TORMENTO ETERNO OU ANIQUILACIONISMO?................361
II–Conceitos errôneos sobre o Inferno............................................................................................ 361
III–O Repertório Bíblico de Aniquilamento................................................................................... 363
IV–Analisando as passagens utilizadas pelos imortalistas......................................................373
V–O Aniquilamento dos Ímpios........................................................................................................... 395
VI–A Lei da Proporcionalidade........................................................................................................... 410
VII-A Lei Moral........................................................................................................................................... 419
VIII–Conclusão........................................................................................................................................... 422
CAPÍTULO 8.2 – OS ACONTECIMENTOS FINAIS........................................................................... 425
I–Onde passaremos a eternidade?..................................................................................................... 425
II-Novos Céus e Nova Terra.................................................................................................................. 428
CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................................................. 433

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 3


A Lenda da Imortalidade da Alma Página 4
PREFÁCIO

I-Um testemunho pessoal

“Se as pessoas que morreram em Cristo já estão no Céu, então qual a necessidade da
ressurreição? Por que elas precisariam deixar o Céu, voltar para o corpo sepultado,
ressuscitar novamente e retornar para o Céu? Será que é por causa deste ‘dilema
doutrinário’, impossível de ser resolvido, que não se vê muita pregação sobre a ressurreição
nas igrejas cristãs que creem no estado consciente dos mortos?”1

Quem estiver lendo este livro pela primeira vez pode se surpreender em saber que seu
autor não é adventista ou testemunha de Jeová, mas um evangélico comum que cria na
imortalidade da alma, a exemplo do que a grande maioria dos evangélicos ainda creem. A
noção de que Deus tenha implantando um elemento imortal no homem, que sobrevive à
parte do corpo na morte e volta para Deus em estado incorpóreo esperando a ressurreição
em um estado intermediário é ponto de fé em muitas religiões, inclusive cristãs.

Nasci e cresci aprendendo a doutrina da imortalidade da alma. Talvez a primeira coisa que
eu tenha ouvido sobre a morte é que a alma é imortal. Sobre ressurreição? Não, isso não
era muito importante. Um mero detalhe desnecessário e de menor importância, que não era
muito ressaltado nas igrejas. Tinha apenas um leve conhecimento sobre ressurreição, mas
sobre imortalidade da alma estava na ponta da língua. Fui doutrinado, tanto pelas igrejas
que eu frequentava quanto pelos sites apologéticos evangélicos na internet, que a alma era
imortal.

Quando comecei a construção de meu primeiro site 2, em 2009, eu dediquei uma página
para “provar” a imortalidade da alma, baseando-me naquelas mesmas meia dúzia de
passagens bíblicas isoladas que todo bom imortalista sabe de cor: partir e estar com Cristo,
as “almas” debaixo do altar clamando vingança, o ladrão da cruz, a parábola do Lázaro, os
espíritos em prisão, etc. Passava essas passagens no site achando que era tudo aquilo que a
Bíblia tinha a dizer sobre o tema. E, nos debates, sustentava essa mesma posição.

Antes de contar como que eu deixei de crer na imortalidade da alma, será necessário
começar contando como que tudo começou. Uma daquelas perguntas que todo cristão tem
em mente mas que apenas alguns poucos têm coragem de assumi-la é sobre como que um
Deus cheio de amor, graça, justiça e misericórdia poderia deixar queimando literalmente
entre as chamas de um lago de fogo e enxofre por toda a eternidade os pecadores que
durante alguns anos não serviram a Cristo em suas vidas terrenas.

Não é preciso ser um filósofo para entender que tal punição seria injusta. Um tormento
infinito por pecados finitos não entrava na minha cabeça, pelo menos não com o Deus que
nos é revelado nas Escrituras, que tanto amou o mundo ao ponto de dar o Seu único Filho

1 MEDEIROS, Gilson. Jesus falou mais sobre o inferno do que sobre o Céu. Será? Disponível em:
<http://prgilsonmedeiros.blogspot.com.br/2009/07/cuidado-com-o-fogo-do-inferno.html>. Acesso em:
22/08/2013.

2 apologiacrista.com

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 5


por todos nós. Se nem eu ou você seríamos tão cruéis e implacáveis ao ponto de mandar o
nosso maior inimigo para literalmente as chamas de um fogo eterno, para sofrer
terrivelmente para sempre e sem volta, quanto menos Deus, que ama muito mais essa
pessoa do que eu ou você!

As explicações que ouvia sobre isso não me eram satisfatórias. Uns diziam que o inferno foi
criado para o diabo e seus anjos, e que “por acidente” os não-cristãos vão acabar
partilhando do destino do diabo e seus anjos. Mas como Deus é onisciente e sabia muito
bem de todo o desenrolar da história humana antes mesmo de criar o homem, fica ainda
mais incoerente crer que ele não tenha previsto esse inferno de tormento eterno para os
homens pecadores. Na verdade, essa explicação não ajudava nada.

Por esta época, eu comecei a me aventurar a ler vários daqueles relatos de vida após a
morte. Li desde pessoas que supostamente foram ao Céu, até pessoas que passaram pelo
inferno e voltaram (há também pessoas que dizem ter visitado o purgatório e o limbo).
Claro que a maior ênfase e quantidade de relatos era deste último, o inferno. Li desde as
visões de Santa Faustina do inferno, até a “divina revelação do inferno” de Mary Baxter, os
“23 minutos no inferno” de Bill Wiese, dentre muitas outras “revelações”, as quais eu me
amarrava, e tinha toda a credulidade do mundo de que tais visões eram reais.

Na época, eu não tinha qualquer conhecimento bíblico sério sobre o que era realmente o
inferno bíblico, apenas tinha aquela visão tradicional de inferno, herdada a nós pela Igreja
Católica na Idade Média, ao maior estilo “Comédia de Dante”. Para mim, o inferno era um
local subterrâneo, onde as almas ou espíritos imortais dos pecadores desciam, e lá eram
atormentados por demônios, por fogo, por torturas colossais de todos os tipos. O inferno
era praticamente uma Disneylândia do demônio, que se divertia à beça torturando os
pecadores.

Em outras palavras, ao invés de o inferno ser uma punição para o demônio (pois
foi “preparado para o diabo e seus anjos” – cf. Mt.25:41), era uma total curtição para ele.
Mas não era somente isso que me estranhava nestes relatos “infernais”. Não era preciso ter
nenhum conhecimento teológico para perceber que os relatos eram sempre contraditórios
entre si (portanto, mutuamente excludentes), e em quase todos os casos as pessoas
encontravam por lá personagens famosos, como Michael Jackson, John Lennon, o papa João
Paulo II, dentre outros. E os “espíritos”? Estes sangravam, vestiam roupas humanas, tinham
até pele e ossos.

Tudo isso me parecia muito estranho, para dizer pouco. Mas o ponto em comum em todas
as visões do inferno é que a pessoa que foi supostamente levada até lá estava ao lado de
Jesus, que se mostrava profundamente triste com o sofrimento daquelas pessoas, quase
que arrependido, como se não tivesse sido ele próprio que tivesse preparado aquele lugar e
soubesse de antemão o destino que os não-salvos teriam ali. Mas dizia que naquele
momento já não restava mais nada a ser feito, pois aquelas pessoas já estariam
condenadas para passarem toda a eternidade naquele lugar. Apenas mais tarde fui entender
que os mortos só serão julgados e condenados na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1;
Jo.5:28,29; At.17:31).

Contudo, ao invés de me conformar com essa explicação, isso piorava ainda mais as coisas,
pois passava a ideia de um Deus que é incapaz de solucionar os problemas ou resgatar as
pessoas daquele lugar terrível, que sabia premeditadamente que aquelas pessoas iriam para
aquele lugar, e, ao invés de decretar um juízo justo e correspondente aos pecados de cada
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 6
um, decide por um tormento eterno para todos, indiscriminadamente. Um rapaz de doze
anos que não conheceu Jesus teria a mesma pena de Adolf Hitler, que exterminou os
judeus.

O diabo, autor do pecado e que peca desde o princípio (cf. 1Jo.3:8), ficaria se divertindo
torturando aqueles que pecaram somente durante algum tempo. Todas as respostas que lia
e ouvia não serviam para melhorar a situação, mas apenas serviam para acentuar o
problema. A base filosófica podia às vezes parecer racional, mas nunca atingia o cerne da
questão. E, com medo de questionar se isso é justo ou não e ir parar neste local infernal,
tinha receio de questionar o próprio Deus sobre isso, ou de perguntar a outras pessoas.

Afinal, o motor que rege muitos crentes para viverem certinho não é Deus ou a vida eterna,
é o fogo do inferno. Muitos crentes querem ser santos à marra, por força de obrigação e não
por livre e espontânea vontade de amar a Deus, porque tem medo de morrer no pecado e
irem parar neste local infernal. Sendo assim, a real motivação para servir a Cristo acaba
sendo escapar do inferno, e não encontrar seu Salvador. Para elas, se um tormento eterno
não existisse, valeria mais a pena viver no pecado!

E cristãos firmados sobre o medo do inferno não são cristãos verdadeiros. O cristão tem que
estar firmado em Cristo, e somente nEle. Mas isso é muito difícil para alguém que tem em
mente a ideia de que, se cometer algum deslize, tem um local embaixo da terra com vários
seres passando por tormentos colossais nas mãos de criaturas demoníacas com um garfo na
mão, junto a um fogo que queima espíritos incorpóreos para sempre.

Seria mais justo que Deus punisse cada pecador com o tanto correspondente aos seus
pecados do que enviar todos juntos para uma mesma condenação de um tormento infinito
por pecados finitos. Da mesma forma que eu considerava injusto que não houvesse castigo
nem punição pelos pecados, igualmente achava injusto que essa punição fosse eterna para
todos, indistintamente. A solução para isso seria um castigo proporcional aos pecados de
cada um, e não uma extinção de vida antes de pagar pelos pecados, e muito menos um
tormento eterno, que só serviria para perpetuar o pecado, os pecadores, o mal, as
blasfêmias e o tormento no Universo para sempre, ao invés de eliminá-lo de uma vez por
todas.

Foi então que, lendo um artigo do doutor Samuele Bacchiocchi (o qual eu faço questão de
citar neste livro em várias ocasiões), eu descobri a verdade sobre o inferno, que consiste
em um castigo proporcional às obras e em aniquilacionismo, e não em um tormento eterno.
É claro que isso não era tudo. Comecei a estudar o assunto e perceber a falácia dos
argumentos imortalistas para um tormento eterno, os quais serão examinados ao longo
deste livro. Descobri, então, que Deus não castiga da mesma forma todos os pecadores com
um tormento eterno para todos indistintamente, mas pune a cada um com o tanto
correspondente pelos seus pecados.

Descobri que Deus não dá “infinitos açoites” em ninguém, mas que uns receberão “muitos
açoites” (cf. Lc.12:47), enquanto outros, por sua vez, receberão “poucos açoites” (cf.
Lc.12:48). Descobri, finalmente, a linguagem bíblica que expressa de maneira grandiosa a
justiça de Deus: que os ímpios serão castigados pelo tanto correspondente aos seus
pecados e, em seguida, eliminados, e não atormentados para sempre.

Essa descoberta foi duplamente libertadora: primeiro, me libertou de um engano bíblico


tremendo que é a crença em um inferno de tormento eterno e consciente, baseando-me em
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 7
uma ou outra passagem isolada, quando a Bíblia por completo rejeita tal doutrina. Segundo,
ela me libertou de outro tormento, o psicológico, pois pude ver novamente como que o
amor e a justiça de Deus andam de mãos dadas, e que Ele não é incoerente com relação ao
destino eterno dos perdidos. Como o próprio Bacchiocchi disse, “a recuperação do ponto de
vista bíblico do juízo final pode soltar a língua dos pregadores, porque podem pregar esta
doutrina vital sem receio de retratar a Deus como um monstro”3.

Mesmo após crer na crença bíblica da destruição eterna dos ímpios e rejeitar a tese do
tormento eterno, o fato é que eu continuei crendo no estado intermediário, onde as almas
dos justos já estariam com Deus e as dos ímpios já estariam no inferno (ainda que não seja
eternamente). Sim, é incoerente crer nisso, pois se a alma sobrevive à morte do corpo é
porque ela não morre; ou seja, que ela é imortal. Mas se ela morre na segunda morte,
então ela não é imortal! Em outras palavras, crer que a alma sobrevive após a morte e ao
mesmo tempo crer que ela perecerá no dia do juízo é ser incoerente: seria o mesmo que
dizer que a alma morre e não morre, que ela é e não é imortal.

Portanto, de duas, uma: ou a crença no tormento eterno do inferno é verdadeira, ou então,


se não é, a própria imortalidade da alma em um estado intermediário é falsa. Demorou
mais algum tempo para descobrir isso, e dessa vez a bomba veio com um
nome: ressurreição dos mortos! Sim, essa crença tão esquecida e praticamente abandonada
pelos pastores e igrejas em nossos dias foi exatamente aquilo que me levou rejeitar a
imortalidade da alma.

É certo que as igrejas que pregam a imortalidade da alma, em sua maioria, não rejeitam a
ressurreição dos mortos. Porém, isso não muda o fato de que ambas as doutrinas são
mutuamente excludentes. Os gregos da época de Cristo, que difundiram enormemente a
tese da alma imortal para o mundo, não criam na ressurreição dos mortos, e por isso
zombaram de Paulo no Areópago (cf. At.17:32). O teólogo luterano Oscar Cullmann logo
percebeu esse contraste e escreveu o livro: “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos
Mortos?”, onde ele aborda tal contraste abismal entre ambas as doutrinas.

O fato é que a imortalidade da alma anula completamente o valor e a importância (e


principalmente a necessidade) da ressurreição. Prova disso é que raramente se vê
pregações colocando o foco na esperança da ressurreição nos dias de hoje. Desde quando a
doutrina pagã na imortalidade da alma entrou no Cristianismo, o foco passou a ser a
esperança da imortalidade da alma, e não mais a esperança de ressurgir dentre os mortos
na manhã da ressurreição do último dia. O foco mudou completamente.

Da Igreja Primitiva, onde nunca se ouviu falar de “alma imortal” [psiquê athanatos], e que
pregava que a única esperança dos cristãos era na ressurreição, para a igreja atual, onde
não se ouve mais pregações sobre a ressurreição, onde ninguém fala que a sua maior
esperança é em ressuscitar dos mortos, onde a crença na alma imortal suprimiu a crença
fundamental na ressurreição. Rejeitar a imortalidade da alma não é apenas repudiar uma
doutrina falsa oriunda do paganismo grego, mas é engrandecer e enaltecer novamente a
ressurreição dos mortos, assim como era crida na Igreja primitiva.

3 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 8


Diante disso, chegou o dia em que eu parei para ler 1ª Coríntios, capítulo 15. Nunca vou me
esquecer daquele dia. Nunca algum capítulo mexeu tanto comigo. A cada verso que lia, a
cada compreensão do ensino de Paulo sobre a ressurreição, eu ficava admirado, e ao
mesmo tempo espantado – como nunca havia percebido aquilo antes? Era difícil acreditar
que a Igreja se distanciou tanto daquele ensino. Era difícil acreditar que a cada versículo eu
me convencia cada vez mais que imortalidade da alma não condiz com ressurreição dos
mortos.

Confesso que fiquei pálido quando li no verso 18 Paulo dizendo que, se não fosse pela
ressurreição, os que dormiram em Cristo já pereceram. Confesso que fiquei mais pálido
ainda quando li no verso seguinte que a nossa esperança em Cristo se limitaria somente a
esta presente vida, se não existisse a ressurreição. Quanto mais eu lia, mais me convencia
que, se não fosse pela ressurreição do último dia, não existiria nada depois da morte. Tanto
é que Paulo diz que, sem ressurreição, seria melhor comer, beber e depois morrer (v.32), e
estaríamos correndo perigos à toa (v.30).

Nunca havia visto um imortalista pregar essas passagens. E até hoje nunca vi alguém as
explicar satisfatoriamente, à luz de sua crença na imortalidade da alma. Afinal, Paulo
poderia ter dito que viveríamos no Céu do mesmo jeito sem a ressurreição, estando com
nossas almas no Paraíso sem um corpo. Para os imortalistas, a ressurreição é isso: um
detalhe desnecessário. Para que ressuscitar um corpo morto, se já estaríamos no Céu? De
qualquer forma, na teologia imortalista, a ressurreição é desnecessária e inútil, pois
estaríamos com Deus no Céu com ou sem um corpo físico glorioso.

Estaríamos desfrutando das delícias do Paraíso para sempre, do mesmo jeito. Estaríamos
com Deus eternamente, independentemente de um corpo se levantar dos mortos ou não.
Mas, se a alma não é imortal, então a ressurreição é totalmente necessária. Sem ela, os
mortos já teriam perecido para sempre (v.18). Sem ela, não haveria outra vida após a
morte, e a nossa esperança seria somente esta vida presente (v.19). Sem ela, é inútil sofrer
perseguições por amor a Cristo (v.30). Sem ela, a própria vida é inútil (v.32). Quanta
diferença entre imortalidade da alma e ressurreição dos mortos!

Depois, li os versos 51-54, onde vejo Paulo dizendo que seremos dotados de imortalidade
somente após a ressurreição, pois ela não é algo que já trazemos conosco em nossa
natureza no presente momento. E vejo também que a morte não é a libertadora da alma
imortal, mas o maior inimigo a ser vencido (vs. 54-55), e que só é tragada na ressurreição
(v.54). Quão importante, gloriosa e fundamental é a ressurreição!

Quando descobri o valor da ressurreição no Cristianismo, o tanto que ela é importante e


como ela foi sendo tão sistematicamente abandonada até chegar aos nossos dias (a tal
ponto que raramente se vê pregações sobre a ressurreição hoje em dia), tentei entender o
porquê que ela foi tão esquecida. Afinal, isso tudo não poderia ter acontecido do nada, sem
uma razão de ser. Ao lermos o livro de Atos vemos que em 2/3 das ocasiões em que a
palavra “esperança” entra em cena ela está relacionada à esperança da ressurreição dos
mortos, no último dia.

O próprio Paulo disse que “nessa esperança”, isto é, na esperança da “redenção do nosso
corpo”, é que “fomos salvos” (cf. Rm.8:24), que tinha “a mesma esperança desses homens,
de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos” (cf. At.24:15), e de que
estava sendo julgado “por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos” (cf.
At.23:6). Se a esperança da ressurreição era o foco da Igreja primitiva e foi perdendo
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 9
espaço até os dias atuais, é porque algo aconteceu, porque alguma outra coisa foi ganhando
este espaço.

E, ao estudarmos a história da Igreja, vemos que no final do século II os filósofos cristãos,


admiradores da filosofia de Platão, decidiram criar um meio de tentar conciliar o ensino da
ressurreição com a imortalidade da alma, inventando um estado intermediário, onde as
almas esperariam em forma incorpórea a ressurreição dos seus corpos. A partir de então, a
imortalidade da alma foi ganhando cada vez mais espaço, e a ressurreição perdendo cada
vez mais. Pois, se a alma já vai para o Céu sem a necessidade da ressurreição, para que
existe ressurreição? A ressurreição seria desnecessária, pois já estaríamos na glória ou pelo
menos assegurados entre os salvos.

E tudo aquilo que Paulo disse aos coríntios em 1ª Coríntios 15 perderia completamente o
sentido e a razão de existir. Ao invés de Paulo estar pregando a necessidade da
ressurreição, ele estaria simplesmente pregando a existência dela. A ressurreição que a
Bíblia ensina é uma ressurreição não apenas física e real, mas necessária e fundamental. A
ressurreição crida pelos imortalistas, no entanto, é inútil e desnecessária (pois já estaríamos
no Céu antes dela e continuaríamos lá sem ela, mesmo se ela nunca existisse).

Esse evidente contraste entre os pontos de vista mortalista e imortalista em relação à vida
após a morte fica ainda mais acentuado quando vemos que, se de fato é apenas na
ressurreição que ganhamos vida, então essa deve ser a nossa maior esperança, mas se a
nossa alma já está no Céu antes dela e sem a necessidade dela, então a nossa esperança
não é a ressurreição dos mortos, como tão insistentemente pregavam os apóstolos, mas a
imortalidade da alma.

E é neste espantalho criado pelos imortalistas e apelidado de “ressurreição” que eles


acreditam: uma ressurreição desnecessária, sem razão lógica de existir, em que viveríamos
muito bem sem ela e onde é absurdo colocar “esperança” numa tão simples religação de
corpo com alma por ocasião da segunda vinda de Cristo. A maior razão deste livro existir
não é dizer que a alma morre, mas é anunciar a verdadeira ressurreição, retornando às
raízes da esperança cristã primitiva, voltando aos primórdios de quando a imortalidade da
alma estava das portas para fora da Igreja, e por essa mesma razão a ressurreição era o
foco de todo o pensamento apostólico e neotestamentário.

Para o inimigo, bastou inventar a mentira de que “certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4),
que o homem rapidamente deixou de lado, arquivado em algum lugar, a sua crença numa
ressurreição vindoura. Bastou ensinar que a alma não morre para trazer junto consigo todas
as outras heresias que vemos hoje: oração pelos mortos, culto aos mortos, intercessão dos
santos falecidos, reencarnação, consulta aos espíritos, purgatório, limbo, dentre outras
inúmeras heresias perpetuadas até os dias de hoje, tendo todas elas essa mesma base
inventada pelo maligno, de que existe vida consciente entre a morte e a ressurreição.

O que vemos, na verdade, é que todas as heresias têm como fundamento a crença de que a
alma sobrevive após a morte. Sem ela, nenhuma das maiores heresias citadas acima
existiria. Sem ela, Satanás não teria um pretexto para fazer com que o povo ascenda velas
aos mortos, beije imagens deles, se prostre diante delas, reze a alguém que já faleceu, ore
por eles ou os consulte. A imortalidade da alma foi a primeira mentira inventada por
Satanás na história da humanidade (cf. Gn.3:4), porque ela é a base e o fundamento de
todas as demais mentiras.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 10


Na verdade, a maioria dos evangélicos perde tempo enquanto refuta a crença no purgatório,
intercessão dos santos, imagens, idolatria, culto aos mortos, dentre tantas outras heresias,
pois elas são apenas a consequência de uma heresia maior. Todas elas
são consequências da crença na imortalidade da alma. Destruindo essa maior mentira,
todas as outras mentiras secundárias caem por terra, sem fazer qualquer esforço, como em
um efeito dominó. Enquanto os evangélicos apenas atacarem essas doutrinas em si
mesmas, não estarão fazendo qualquer progresso. Só conseguirão quando perceberem que
o mal só é cortado se for pela raiz: quando destruirmos a base e o fundamento de todas
essas heresias, que é precisamente a imortalidade da alma.

Em resumo, aqui escreve alguém que sempre foi doutrinado com os ensinos de imortalidade
da alma e tormento eterno, que sempre frequentou igrejas que criam e creem nisso, que
sempre ouviu isso a vida inteira, aí veio a Bíblia e mudou tudo. Como é que isso ocorre?
Somente quando estamos com a mente aberta para a verdade. O curioso é que eu já havia
lido 1ª Coríntios 15 diversas vezes antes daquele dia. Por que nunca havia notado nada
“diferente”? Porque estava com a mente fechada para a verdade.

Enquanto eu estava apenas seguindo uma orientação religiosa proveniente de tradições


humanas denominacionais de uma igreja X ou Y, eu podia ler mil vezes aquele capítulo, que
iria estar como que com um “véu” espiritual me cobrindo. Mas, uma vez que dispus em meu
coração o interesse de descobrir a verdade, e nada além da verdade bíblica, eu conheci a
verdade, e a verdade me libertou. Todos se deparam com a verdade, mas apenas alguns
poucos estão realmente abertos a aceitá-la. Da mesma forma que Cristo bate na porta do
coração de cada um de nós, mas só o aceitamos se estivermos dispostos a isso (cf.
Ap.3:20), o mesmo acontece com as verdades bíblicas. Certa vez um amigo meu comentou
o seguinte:

“Sabe o que acontece, Lucas? O problema é que a gente pode até ampliar alguma coisa
sobre isso, mas não vai pegar. Você, e nem eu, ou quem quer que seja, consegue falar tão
alto. A coisa talvez até mude, talvez, se quem padronizou o mandamento, no caso a Igreja
Católica, reverter o quadro, dizendo que houve um erro. Muitos recebem as mudanças com
alegria, satisfação, concordando com tudo, mas em apenas alguns dias elas voltam à crença
comum. Pode-se encher isso aqui de textos e mais textos que convençam as pessoas que
nada vai resolver. Que se encha isso aqui de argumentos que nos deixem com olhos
lacrimejantes de satisfação, com apenas dez dias sem tocar no assunto, as pessoas são
novamente empurradas para a crença tradicional ensinada há milênios, no que se refere a
esses assuntos”

Essa é a mais pura verdade, e é o que eu mais constato nestes tempos em que eu debato
sobre isso. A maioria das pessoas não segue a Bíblia, segue uma religião. Não segue Cristo,
segue o ensino denominacional mais tradicional. Não falo mal e nem quero desmerecer
nenhuma denominação, mas a verdade está somente na Bíblia. Isso vale tanto para
católicos, como principalmente para os evangélicos, que dizem seguir a Sola Scriptura.

O que vemos é que muitas pessoas não estão com a mente aberta para decidir pela verdade
bíblica. Elas já têm uma verdade pré-estabelecida na mente delas, oriunda da tradição da
igreja X, e defendem essa tradição com unhas e dentes, usando a Bíblia não para descobrir
a verdade que está nela, mas somente para encontrar pretextos e passagens que possam
corroborar com a crença da tradição. Ao invés de fazerem um estudo sério e honesto, com a
mente totalmente aberta para a verdade, elas já estão com uma verdade pré-concebida na
mente delas, e buscam apoio para essa verdade na Bíblia.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 11
Em outras palavras, a Bíblia não é a fonte da verdade para essas pessoas. A fonte da
verdade é a tradição denominacional, e a Bíblia é apenas um meio para dar pretextos para
essa crença. Sendo assim, não me assusta que tantas pessoas leiam 1ª Coríntios 15 a
exemplo de como fazem com inúmeras outras passagens das Escrituras que desmentem
claramente a imortalidade da alma, mas elas continuam batendo nessa mesma tecla.

Enquanto eu estive com a mente fechada, ainda que lesse 1ª Coríntios 15 ou ouvisse falar
sobre ressurreição, não a compreendia. Era como os discípulos, que ouviam Jesus falando
explicitamente a eles que iria morrer e ressuscitar ao terceiro dia, mas mesmo sendo assim
tão claro, eles mesmo assim não entendiam, pois o seu entendimento estava encoberto (cf.
Lc.9:45). Porém, quando estive com a mente aberta para a verdade, a quantidade
insuperável de evidências bíblicas era tão grande que precisei fazer um livro sobre isso.

Com a mente aberta para a verdade bíblica, não foi difícil achar uma riqueza bíblica que eu
jamais teria descoberto se não me lançasse nas Escrituras e mergulhasse nelas. Jamais
teria descoberto tudo isso se não fosse por estar com a mente aberta para a verdade
bíblica. É claro que a ajuda de apologistas experientes me ajudaram bastante neste
processo. Tenho que ser grato a Azenilto Brito (que gentilmente me apresentou o livro de
Bacchiocchi e que me ajudou muito com os seus brilhantes artigos sobre o tema), a
Samuele Bacchiocchi, a Leandro Quadros, a Oscar Cullmann e a tantos outros, em suas
maravilhosas defesas deste ponto sobre a vida após a morte.

Porém, acima de tudo, tenho que ser agradecido a Deus, por ter nos dado a Sua Santa
Palavra. Eu não tive nenhum sonho, nenhuma revelação, não vi Deus, não tive contato com
um anjo poderoso com uma espada na mão, não fui alvo de uma profecia e nem fui
arrebatado ao terceiro céu. Tudo isso que eu descobri não foi de alguma forma
extraordinária: foi somente lendo a Bíblia. Algo tão simples, mas tão pouco praticado por
muitos.

Fico imensamente agradecido ao Senhor por ter me dado a honra de militar por essa
doutrina tão abandonada de nossas igrejas nos dias de hoje, chamada ressurreição dos
mortos, e de poder combater a raiz de todas as heresias e a primeira de todas as mentiras,
chamada imortalidade da alma. É claro que isso me custou caro. Muito caro. Já fui chamado
de “herege” por causa disso não poucas vezes. Muitos outros evangélicos perdem o
prestígio e consideração que tem por mim por verem que eu prego uma coisa que vai contra
a tradição da igreja deles. Já sabia desse risco desde o início.

Se eu quisesse agradar a homens, estaria pregando aquilo que todo mundo gostaria de
ouvir. Se eu quisesse agradar a homens, estaria ensinando que “certamente não morrerás”.
Se a minha intenção em Cristo fosse de fazer amigos que dessem um tapinha nas costas e
me apoiassem em tudo o que eu dissesse, certamente estaria pregando que possuímos uma
alma, e não que somos uma (cf. Gn.2:7). Esse é o preço pago por pregar a verdade, e sei
que pagarei esse preço até o fim da minha vida.

Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se
tão somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me
confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. E, por essa mesma graça, hoje eu
fico muito feliz em ver que tantas pessoas já se libertaram dessa doutrina pagã, e hoje
estão livres para pregar a ressurreição e a vida em Jesus Cristo.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 12


E eu não sou o único. Poderia passar todo o dia mostrando inúmeros teólogos de diferentes
segmentos religiosos evangélicos imortalistas, mas que, através de uma leitura sincera e
honesta das Escrituras, adotaram a postura bíblica da mortalidade natural da alma humana.
Poderíamos referir aqui os nomes de Oscar Cullmann, Clark Pinnock, John Stott, John
William Weham, Edward Green, Philip Hughes, David Edwards, Basil Atkinson, Greg Boyd,
William Branham, Harold Camping, Charles Fitch, Roger Foster, Fudge Edward, Charles
Gore, Henry Grew, Homer Hailey, Emmanuel Pétavel-Olliff, Oliver Chase Quick, Ulrich Ernst
Simon, George Storrs, William Temple, dentre tantos outros eruditos e teólogos de renome,
que não eram adventistas nem testemunhas de Jeová, e que, mesmo fazendo parte de
denominações que pregavam a imortalidade da alma, adotaram a postura de mortalidade
da alma após um exame bíblico sério e honesto consigo mesmos.

Todos eles poderiam ter mantido a sua crença na imortalidade da alma, o que seria muito
mais fácil e confortável para eles. Mas, mesmo sofrendo não poucas vezes a oposição e
perseguição de ataques contrários, eles não puderam fechar os olhos para as tão grandes e
notáveis evidências bíblicas que combatem tão fortemente a crença na imortalidade da
alma, que pode até enganar a muitos com uma dúzia de versos isolados sem exegese, mas
que dificilmente resiste a um exame bíblico criterioso respeitando as normas da
hermenêutica bíblica.

É claro que ainda existem aqueles que hesitam, que perseguem, que chamam os outros de
hereges sem examinar a si mesmos, que olham torto, que são fechados para a verdade ou
que lerão este livro meramente na intenção de refutá-lo. Isso sempre existiu, e sempre
existirá. Paulo foi debochado pelos gregos, porque pregava a ressurreição dos mortos, e
eles a imortalidade da alma (cf. At.17:32). Por isso, não é de se surpreender que a mesma
coisa aconteça nos dias de hoje.

Mas a minha alegria é ver que não estou sozinho nesta batalha – estou cercado de tão
grande nuvem de testemunhas, entre leigos e eruditos, das mais diferentes denominações
religiosas, que cada vez mais estão abrindo os olhos para a verdade e se libertando do
engano. Destes, sou apenas mais um militante. Apenas mais um que, ao invés de iludir
você dizendo que certamente não morrerás, digo que Deus é o único que possui a
imortalidade, mas que Cristo é a ressurreição e a vida.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 13


CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO TEMA

I –Introdução

“Nenhuma das minhas publicações provocou tal entusiasmo ou tão violenta hostilidade”4.

É assim que Oscar Cullmann, renomado teólogo suíço, definiu o seu livro ferrenhamente
atacado: “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos mortos?”, após uma mudança de
posição e consciência sobre a vida pós-morte. A ideia de imortalidade inerente está
enraizada nas principais religiões do mundo, mas atualmente cresce o número de eruditos
que, lendo a Bíblia, abandonam tal crença. O que leva tantos teólogos na atualidade, como
Oscar Cullmann, Clark Pinnock, John Stott, John William Weham, Edward Green, Philip
Hughes, David Edwards, entre muitos outros, a abandonarem a visão de estado
intermediário e de eternidade no lago de fogo, se nasceram aprendendo que tais crenças
eram verdadeiras e apenas as “seitas heréticas” pregavam o contrário? Simplesmente,
continue lendo. Você vai entender!

II–A Primeira Mentira

“Certamente não morrerás” (cf. Gênesis 3:4)

Não é a toa que a crença na imortalidade da alma está presente em praticamente todas as
religiões pagãs. Todos sabem que existem principados (demônios) atuando por trás dos
grandes sistemas religiosos, que monitoram, regem, comandam e perpetuam esses
enganos. Muitas mentiras foram implantadas nas raízes da Igreja ao longo dos séculos, e
como a tradição foi tendo um valor doutrinário cada vez mais acentuado e muito maior do
que a própria Escritura Sagrada, estes enganos passaram a atuar nos cristãos como
verdades independentes da Bíblia.

A justificação ficou por obras, o evangelho deixou de ser “Cristocêntrico”, os que morreram
passaram a ser intercessores, a ressurreição dos mortos começou a perder a sua
importância, a salvação da alma poderia perfeitamente achar-se por meio da venda de
indulgências, a Santa Inquisição tratou de “dar um fim” em quem fosse contra os dogmas
sagrados da tradição e o evangelho puro, simples, sincero e verdadeiro, que não estava
sujeito a acréscimos (cf. Gl.1:8), começou a se desviar do Caminho, do foco, daquilo que
lhes foi originalmente pregado por Cristo e pelos apóstolos.

Ao longo dos séculos, muitos enganos e mentiras foram perspicazmente sendo infiltrados na
Igreja, e o evangelho estava gritantemente angustiado por uma Reforma. Como os dogmas
não podiam ser contestados (eram “infalíveis” por meio do Magistério), ninguém ousava
contrariar aquilo que lhes era dito. E, se alguém ousasse tanto, poderia ser queimado ou
torturado, intitulado como herege e inimigo público da Santa Sé. É claro que existia um
livro, que foi praticamente reprimido das mãos do povo, livro este que continha aquilo que

4 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:


<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 14


foi originalmente anunciado, que continha o evangelho puro, sincero, da maneira como era
no início.

Essas Sagradas Letras tinham que ser reprimidas, ou, doutra forma, as próprias pessoas
acabariam por descobrir dezenas de mentiras que foram invadindo o Cristianismo com o
tempo. O mundo, enquanto sob o jugo da Igreja Romana, vivia em trevas. O povo, sem as
divinas Escrituras traduzidas em sua língua. E o clero, cada vez mais explorando a
ignorância deste povo. Isso levou a Igreja Católica a proibir a leitura da Bíblia e a lutar ao
máximo contra a divulgação dela. O Concílio de Tolosa (1229) categoricamente declarou:

“Proibimos os leigos de possuírem o Velho e o Novo Testamento... Proibimos ainda


mais severamente que estes livros sejam possuídos no vernáculo popular. As
casas, os mais humildes lugares de esconderijo, e mesmo os retiros subterrâneos de
homens condenados por possuírem as Escrituras devem ser inteiramente
destruídos. Tais homens devem ser perseguidos e caçados nas florestas e cavernas,
e qualquer que os abrigar será severamente punido”5

Os leigos eram proibidos de lerem as Escrituras Sagradas em sua própria língua e até
mesmo de possuírem a Bíblia. Tais homens que tivessem uma Bíblia em casa deveriam ser
condenados, caçados, inteiramente destruídos, perseguidos e caçados nas florestas e
cavernas. Nesta época de trevas, a Igreja Católica, a serviço de Satanás, lançava dura
perseguição contra o povo de Deus que se apegava às Escrituras, que tinha que buscar
locais de esconderijo em retiros subterrâneos para poderem ler a Bíblia, mas a Igreja
Católica ordenava caçar e perseguir tais homens até nas cavernas ou em qualquer outro
lugar, até serem destruídos por completo.

Nenhuma perseguição à Bíblia feita por um não-cristão em toda a história da humanidade


se comparou a perseguição elaborada pela Igreja Romana, nem mesmo a de Diocleciano ou
a de Nero. O Papa Pio IX defendia que as sociedades bíblicas eram pestes que deveriam ser
destruídas por todos os meios possíveis:

“Socialismo, comunismo, sociedades clandestinas, sociedades bíblicas... pestes estas


devem ser destruídas através de todos os meios possíveis”6

A leitura da Bíblia era absolutamente proibida aos leigos e considerada como sendo uma
peste:

“Essa peste (a Bíblia) assumiu tal extensão, que algumas pessoas indicaram sacerdotes
por si próprias, e mesmo alguns evangélicos que distorcem e destruíram a verdade do
evangelho e fizeram um evangelho para seus próprios propósitos... elas sabem que a
pregação e explanação da Bíblia são absolutamente proibidas aos membros
leigos”7

5 Concil. Tolosanum, Papa Gregório IX, Anno Chr. 1229, Canons 14:2.

6 Papa Pio IX, em sua Encíclica “Quanta Cura”, Título IV, 8 de Dezembro de 1866.

7 Acts of Inquisition, Philip Van Limborch, History of the Inquisition, cap. 8.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 15


John Wycliffe (1328 – 1384 d.C), que lutou fortemente pela restauração do evangelho
bíblico e chegou até a elaborar uma tradução das Escrituras para tirar o povo das trevas, foi
chamado de pestilento canalha de abominável heresia, por ter lutado em prol da divulgação
da leitura bíblica pelos leigos:

“O pestilento canalha de abominável heresia, que inventou uma nova tradução das
Escrituras em sua língua materna”8

As decisões dos concílios eram claras: a leitura da Bíblia era proibida aos leigos, mas,
enquanto a Bíblia era um livro proibido, as “Horas da Bem-aventurada Virgem” era
permitido:

“Proibimos ainda que seja permitido aos leigos possuir os livros do Velho e Novo
Testamento, êxito o Saltério, ou o Breviário para dizer o Ofício divino, ou as Horas da
Bem-aventurada Virgem a quem as desejar ter por devoção; porém proibimos estritamente
que esses livros sejam em língua vulgar”9

Em outra encíclica do papa Pio IX, ele reitera a proibição da leitura da Bíblia em língua
vulgar, por sanção geral de toda a Igreja:

"Nas regras que foram aprovadas pelos Padres designados pelo Concílio Tridentino,
aprovadas por Pio IV e antepostas ao Índice dos livros proibidos, lê-se por sanção geral que
não se deve permitir a leitura da Bíblia publicada em língua vulgar”10

O papa Leão XII também se revoltou contra aqueles que tentavam trazer ao povo a tão
sonhada leitura da Bíblia em sua própria língua:

“Não se vos oculta, Veneráveis Irmãos, que certa Sociedade vulgarmente chamada bíblica
percorre audazmente todo o orbe e, desprezadas as tradições dos santos Padres, contra o
conhecidíssimo decreto do Concílio Tridentino [v. 786], juntando para isso as suas forças e
todos os meios, tenta que os Sagrados Livros se vertam, ou melhor, se pervertam nas
línguas vulgares de todas as nações”11

O papa Pio VII reforça que não somente ele, mas também os seus predecessores avisavam
constantemente que a leitura da Bíblia ao povo é mais um dano do que algo útil, e a única
versão permitida era a Vulgata Latina:

"Porque deverias ter tido diante dos olhos o que constantemente avisaram também os
nossos predecessores, a saber: que se os sagrados Livros se permitem correntemente e
em língua vulgar e sem discernimento, disso há de resultar mais dano que utilidade.

8 Condenação de Wycliffe pelo Concílio de Constança, em 1415.

9 Concílio de Tolosa, 1229, cap. 14.

10 Pio IX, Encíclica Inter praecipuas, 16 de Maio de 1844.

11 Leão XII, Encíclica Ubi primum de 5 de Maio de 1824.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 16


Ora, a Igreja Romana que somente admite a edição Vulgata, por prescrição bem notória do
Concílio Tridentino (ver 785 s), rejeita as versões das outras línguas”12

Como a Vulgata estava escrita em latim e praticamente a totalidade do povo da época não
entendia nada deste idioma (alguns mal sabiam a sua própria língua, quanto menos o
latim!), então eles astutamente permitiam somente esta versão da Bíblia, para que o povo
não entendesse nada do que estava escrito.

Também o papa Clemente XI, em sua Constituição Dogmática “Unigenitus”, condenou


vigorosamente como erradas uma série de reivindicações feitas por Pascásio Quesnel.
Entre elas, inclui-se a necessidade de estudar as Escrituras, que a leitura da Bíblia é para
todos, que é danoso querer retrair os cristãos da leitura bíblica, que as mulheres poderiam
ler a Bíblia, que os cristãos poderiam ler o Novo Testamento, que o povo simples teria o
direito de ler as Escrituras, entre outros:

70. Útil e necessário é em todo tempo, em todo lugar e para todo gênero de pessoas
estudar e conhecer o espírito, a piedade e os mistérios da Sagrada Escritura.

71. A leitura da Sagrada Escritura é para todos.

81. A obscuridade santa da Palavra de Deus não é para os leigos razão de dispensar-se da
sua leitura.

82. O dia do Senhor deve ser santificado pelos cristãos com piedosas leituras e, sobretudo,
das Sagradas Escrituras. É coisa danosa querer retrair os cristãos desta leitura.

83. É ilusão querer convencer-se de que o conhecimento dos mistérios da religião não
devem comunicar-se às mulheres pela leitura dos Livros Sagrados.

84. Arrebatar das mãos dos cristãos o Novo Testamento ou mantê-lo fechado, tirando-lhes
o modo de entendê-lo, é fechar-lhes a boca de Cristo.

86. Arrebatar ao povo simples este consolo de unir a sua voz à voz de toda a Igreja, é uso
contrário à prática apostólica e à intenção de Deus.

(Denzinger #1429-1434, 1436, 8 de Setembro de 1713)

Por que estamos dizendo tudo isso? Simplesmente porque a própria Igreja Católica sabia
que tinha algo a esconder. Sabia que, se as Sagradas Letras fossem reveladas ao povo,
muitas lendas que foram surgindo através dos séculos pela tradição iriam ruir
sistematicamente. O próprio Magistério católico reconhecia que, de fato, muitas doutrinas
mentirosas que vão contra o evangelho verdadeiro foram, ao passar dos séculos,
encontrando lugar na Igreja. Uma dessas principais mentiras era que, como o catecismo
católico expõe: “A Igreja ensina que toda alma espiritual é criada imediatamente por Deus--
não é ‘produzida’ pelos pais – e também é imortal: não perece quando se separa do
corpo por ocasião da morte”13

12 Pio VII, carta Magno et acerbo, 3 de Setembro de 1816; Denzinger # 1603.

13 Catechism of the Catholic Church, pág.93.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 17


Apesar de boa parte dos “rebeldes” serem facilmente silenciados de um ou de outro jeito
(na maioria das vezes, do outro), começaram a surgir homens levantados por Deus a fim de
fazer com que, ao passar dos séculos, a doutrina fosse aos poucos voltando ao foco inicial.
Muitas doutrinas claramente contraditórias à Palavra de Deus foram aos poucos sendo
repensadas. O próprio Martinho Lutero chegou a expressar-se de maneira contraria às teses
de imortalidade da alma, colocando-a no grupo das “monstruosidades sem fim no monte de
estrume dos decretos romanos”:

“Contudo, eu permito ao Papa estabelecer artigos de fé para si mesmo e para seus próprios
fiéis – tais como: que o pão e o vinho são transubstanciados no sacramento; que a essência
de Deus não gera nem é gerada; que a alma é a forma substancial do corpo humano; que
ele [o papa] é o imperador do mundo e rei dos céus, e deus terreno; que a alma é
imortal; e todas estas monstruosidades sem fim no monte de estrume dos
decretos romanos – para que tal qual sua fé é, tal seja seu evangelho, e tal a sua igreja,
e que os lábios tenham alface apropriada e a tampa possa ser digna da panela"14

Em outra ocasião, Lutero chamou a imortalidade da alma de "sonho humano" e de "doutrina


de demônios":

"Daí os especialistas em Roma recentemente pronunciaram um decreto sagrado [no Quinto


Concílio Laterano, 1512-1517] que estabelece que a alma do homem é imortal, agindo
como se nós não disséssemos todos em nosso comum Credo, “eu acredito na vida eterna”.
E, com a assistência do gênio Aristóteles, eles decretam além disto que a alma é
“essencialmente a forma do corpo humano”, e muitos outros esplêndidos artigos de
natureza parecida. Estes decretos são, de fato, mais apropriados para a igreja papal,
pois eles possibilitam a eles manter sonhos humanos e as doutrinas de demônios
enquanto eles pisam e destroem a fé e ensino de Cristo"15

A visão de Lutero era de uma natureza humana holista, de uma alma mortal e de os mortos
“dormindo” até a manhã da ressurreição do último dia, quando “Ele nos chamar e nos
acordar juntamente com todos os Seus queridos filhos para a Sua eterna glória e juízo” .
Enquanto isso, eles “nada sentem absolutamente”:

“Não há ali deveres, ciência, conhecimento, sabedoria. Salomão opinou que os mortos
estão a dormir, e nada sentem absolutamente. Pois os mortos ali jazem, não levando
em conta nem dias nem anos; mas, quando despertarem, parecer-lhes-á haver dormido
apenas um minuto”16

“Assim como alguém que dorme e chega a manhã inesperadamente, quando acorda, sem
saber o que aconteceu: assim nós nos ergueremos no último dia sem saber como chegamos
a morte e como passamos por ela. Nós dormiremos até que Ele venha e bata na

14 Martinho Lutero, Assertio Omnium Articulorum M. Lutheri per Bullam Leonis X. Novissimam
Damnatorum.

15 Lutero, LW 32:77.

16 Exposição do Livro de Salomão, Chamado Eclesiastes, de Lutero.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 18


pequena sepultura e diga: Dr. Martinho, levanta-te! Então eu me erguerei num
momento e serei feliz com Ele para sempre”17

“Nós devemos aprender a ver nossa morte com a luz correta, de forma que não fiquemos
alarmados por causa dela, como o descrente faz; porque em Cristo ela não é de fato morte,
mas um fino, doce e breve sono, que nos traz libertação deste vale de lágrimas, do pecado
e do temor e extremidade da verdadeira morte e de todos os desfortúnios desta vida, e nós
devemos estar seguros e sem cuidado, descansando docemente e gentilmente por um
breve momento, como em um sofá, até o tempo quando ele nos chamar e nos
acordar juntamente com todos seus queridos filhos para sua eterna glória e gozo.
Pois já que nós o chamamos de sono, nós sabemos que não ficaremos nele, mas seremos
novamente acordados e vivificados, e que o tempo durante o qual dormimos, não parecerá
mais longo do que se nós tivéssemos apenas caído no sono. Daí nós devemos nos censurar
por estarmos surpresos ou alarmados com tal sono na hora da morte, e de repente formos
revividos da cova e da decomposição, e inteiramente bem, novo, com uma pura, clara e
glorificada vida, encontrarmos nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nas nuvens”18

Infelizmente, a noção de Calvino de que a alma era imortal acabou falando mais alto e a
maioria das igrejas reformadas acabaram adotando a tese da imortalidade da alma. Para
não causar divisão e nem atrito com os demais reformadores, Lutero acabou não
dogmatizando a questão e deixou-a em aberto para quem quisesse crer que a alma era
imortal (como Calvino cria) ou para quem se unisse à sua crença particular na mortalidade
natural da alma.

Isso não impediu que, com o tempo, um número impressionante de mestres e teólogos
respeitados e reconhecidos começassem a repensar as suas doutrinas de imortalidade da
alma à luz das Sagradas Escrituras, e passaram a ver que, de fato, a doutrina da
imortalidade da alma não bate com a doutrina da ressurreição e muito menos com o que as
Sagradas Letras tem a nos dizer. O número de pessoas que deixam a visão dualista da
natureza humana impressiona não apenas pela quantidade, mas também por estar em
franco crescimento. De fato, a imortalidade da alma pode ser classificada como sendo a
primeira mentira que entrou no mundo e provavelmente a última a sair dele.

Muitas pessoas de bem têm sido enganadas atualmente sobre o estado dos mortos. Mas
não é de hoje que isso acontece. Deus disse para o homem, como consequência do pecado:
“Certamente morrerás” (cf. Gn.2:17). Mas Satanás, a serpente, retrucou: “Certamente que
não morrerás” (cf. Gn.3:4). Quem estava com a razão? Deus ou Satanás? Certamente que
Deus.

A própria presença da “árvore da vida” no jardim do Éden indica claramente que a


imortalidade era condicional à participação do fruto de tal árvore. Nós não tínhamos uma
“alma imortal”! Com a Queda da humanidade, quando o pecado entrou no mundo, a morte
(que não estava prevista no plano inicial de Deus para com a Sua Criação) passou a tornar-
se uma realidade. O estado do homem alterou-se, e este passou a ser um ser mortal.

17 The Chrislian Hope-pág.37.

18 Compend of Luther’s Theology, editado por Hugh Thomson Kerr, Jr., p. 242.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 19


A segurança de imortalidade baseava-se em partilharem da árvore da vida no Jardim, que
lhes garantia exatamente a imortalidade (cf. Gn.3:22). É evidente que Deus não iria colocar
tal árvore a disposição caso já tivesse implantado uma alma eterna que lhes garantisse tal
imortalidade. Visto que a condição para “viver para sempre” constituía-se na participação do
fruto da árvore da vida, fica muito claro que eles não detinham em si mesmos a
imortalidade, supostamente na forma de um elemento eterno implantado em seu ser. Se
Deus colocou no ser humano uma alma imortal, então por que razão existiria a “árvore da
vida” no Jardim do Éden?

Ora, se já fôssemos imortais isso seria totalmente desnecessário! Se o homem comesse da


árvore da vida, se tornaria imortal (cf. Gn.3:22). Contudo, foram expulsos do Jardim do
Éden, sem terem comido da árvore da vida, e dois querubins ficaram na guarda do
Jardim, exatamente a fim de que não comessem da árvore da vida e vivessem eternamente
(cf. Gn.3:24). Tudo isso seria totalmente desnecessário se já possuíssemos uma alma
imortal. Para que guardar o homem de comer do fruto da árvore da vida e viver para
sempre se ele já era imortal por meio de uma alma eterna que já lhes teria sido
implantada?

O homem seria imortal caso comesse do fruto da árvore da vida, mas não comeu. Deus não
fez o homem com o conhecimento do bem e do mal, mas ele comeu do fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal e teve tal conhecimento. Da mesma maneira, Deus não fez
o homem com uma alma imortal. A imortalidade era condicional a participação do fruto da
árvore da vida, assim como o conhecimento do bem e do mal era condicional a participação
daquela árvore. Mas, ao contrário do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal na
qual eles comeram, eles não comeram do fruto da árvore da vida!

O resultado disso é que o homem não tornou-se um ser imortal. Ele, “morrendo, morreria”
(cf. Gn.2:7). O homem era mortal pela sua natureza original, sem uma alma imortal, mas
com a possibilidade de receber a imortalidade por meio da participação da árvore da vida.
Isso, contudo, ele perdeu ao ser expulso do Jardim, e, portanto, perderam a possibilidade
de participação na árvore da vida que lhes poderia nutrir de imortalidade. O homem perdeu
a imortalidade quando foi expulso do Éden, e assim a morte veio a partir do pecado, sendo
revertida na ressurreição (cf. 1Co.15:22,23).

A Bíblia, contudo, nos apresenta que a árvore da vida (imortalidade) estará novamente
presente no Paraíso, somente aos salvos, após a ressurreição dos mortos (cf.
Ap.22:2). E acontecerá que “quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água
da vida” (cf. Ap.22:17). O homem, agora sim, se tornaria imortal. A árvore da vida
representava a imortalidade na comunhão com Deus, mas com o pecado fomos privados do
acesso desta fonte de eternidade, que agora continua na presença dEle, onde iremos
desfrutá-la depois que formos ressuscitados (cf. Ap.22:2). A eternidade no homem era
condicional, não a uma alma que lhes teria implantada, mas sim a obediência ao Ser
Criador do Universo, como um dom de Deus.

O homem foi privado da árvore da vida para que não se tornasse imortal como Deus, e, de
fato, não comemos da árvore da vida (cf. Gn.3:22-23). Com a desobediência a Deus, a
participação na árvore da vida foi cortada (cf. Gn.3:22,23), o que demonstra claramente
que a imortalidade não residia numa alma imortal recém-implantada, mas sim na
obediência a Deus. A desobediência foi o que ocasionaria a morte, em um contraste direto
com a vida eterna residente na forma da árvore da vida. Quando entrou o pecado do
mundo, juntamente com ele entrou a morte: O processo da morte teria início.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 20
O texto original hebraico simplesmente reza que: “Morrendo, morrereis”. A Bíblia não diz
que “no dia em que comerdes, certamente morrerás no mesmo dia”. Diz somente que ele
morreria, mas não diz quando. A morte não estava no plano inicial de Deus para com a Sua
Criação. Contudo, com o pecado reinou a morte (cf. Rm.5:21; Rm.5:12), que só será
revertida na ressurreição do último dia (cf. 1Co.15:51-55; 1Co.15:22,23; Jo.6:39,40).

No dia em que Adão comesse daquela árvore proibida ele ia morrer, ou seja, tornar-se-ia
um ser mortal, o que ele realmente se tornou. O processo de morte como consequência do
pecado alcançaria a todos os seres humanos a partir do momento em que este pecasse
contra Deus, tornando-se receptível ao processo de morte que lhes sucederia. Analisando o
texto original hebraico, vemos que, realmente, a morte seria a cessação total de vida.

O que foi dito a eles: ”umê`êtshadda`ath thobh vârâ` lo' tho'khal mimmennu kiy beyom
'akhâlkhamimmennu moth tâmuth” (cf. Gn.2:17). Analisando as duas últimas palavras,
vemos claramente quando é que o homem morreria: “moth tâmuth” – traduzindo:
“morrendo morrereis”. Isso é omitido pela maioria das versões vernáculas porque contraria
diretamente a posição imortalista de que ocorreu apenas uma “morte espiritual” e que esta
morte teria acontecido logo naquele mesmo dia, ignorando o fato de que o hebraico diz
taxativamente que tal morte seria quando o homem morresse – “morrendo, morrereis”.

Passando para o bom linguajar português dos dias de hoje, o que Deus estava dizendo era
que “quando vocês morressem iriam morrer mesmo”! A morte seria o fim total de qualquer
existência humana, corpo e alma, pois, como consequência do pecado, o processo de morte
teria início a partir do primeiro falecimento. A verdade incontestável é que não existiria
nenhum estado de vida entre a morte e a ressurreição.

Ora, se o homem continuasse vivo em um estado intermediário após a morte corporal que
todos nós passamos, então o homem não morreria completamente – ele estaria vivo em um
estado desencarnado. Essa é exatamente a mentira que a serpente pregou à Eva (cf.
Gn.3:4), e que engana milhões de pessoas até hoje, invalidando toda uma consequência de
morte – física e espiritual – que o homem encontraria como consequência do pecado.

Ademais, a mentira de Satanás seria classificada como uma “verdade”, uma vez que o
homem não morreria mesmo – viveria eternamente por meio de uma alma imortal que teria
sido supostamente implantada no ser humano. Fica muito claro que o homem não seria
inerentemente imortal, mas passaria por um estado de morte – “morrendo, morrereis” –
por causa do pecado, uma “lacuna”, um período sem vida entre a morte e a ressurreição,
fato esse que Satanás queria desmentir, dizendo que “certamente não morrerás” (cf.
Gn.3:4).

O processo de morte alcançaria todos os seres humanos, pois “o salário do pecado é a


morte” (cf. Rm.6:23) e “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (cf.
Rm.3:23), por isso, “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). Isso tudo nos deixa
claro que a morte como consequência do pecado não alcançaria tão somente o corpo, mas o
ser integral do ser humano, corpo e alma (cf. Ez.18:4,20; Gn.2:7). Como bem disse o
pastor luterano Martin Volkmann: “Como vemos, há duas concepções de vida após a morte.
A diferença, segundo certo modo de pensar, é que a parte supostamente imortal não foi
afetada pelo pecado em nós, enquanto na outra forma de pensar reconhece-se a
natureza radical do pecado e proclama uma nova vida através da obra salvadora
de Deus”.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 21
A morte seria a cessação total de vida. Corpo e alma foram afetados pelo pecado. A
imortalidade não era uma possessão natural através de uma alma recém-implantada, mas
condicionada à obediência a Deus na participação da árvore da vida. Mas o homem pecou.
Transgrediu a ordenança divina. Trouxe a morte para si mesmo. Perdeu a participação na
árvore da vida. Tornou-se naturalmente mortal. E, a partir deste dia, ele morreria na morte
– não teria uma existência contínua em forma incorpórea após a morte.

Felizmente, a Palavra de Deus nos apresenta uma reviravolta neste quadro, apresentando
que o processo de morte iniciado em Adão e a cessação de vida como consequência do
pecado não seria um quadro perpétuo, mas seria revertido em Cristo, na Sua Vinda: “Pois
da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados.
Mas cada um por sua vez: Cristo, as primícias; depois, quando ele vier, os que lhe
pertencem” (cf. 1Co.15:22,23).

O processo de cessação de vida na morte, ocorrido com todos os seres humanos e iniciado
em Adão – “em Adão todos morrem” – seria revertido no “último dia” (cf. Jo.6:39,40),
quando Cristo há de vivificar os que lhe pertencem por ocasião de sua segunda vinda,
porque Ele venceu a morte (cf. Hb.2:14), dando-nos também vitória sobre a morte na
ressurreição (cf. 1Co.15:54). Neste momento, então, Cristo nos resgatará da morte, nos
vivificará e nos levará para as nossas moradas celestiais onde Ele está (cf. Jo.14:2,3).

Em Adão todos morrem porque ele certamente não viveria eternamente (cf. Gn.2:17;
Gn.3:4), mas como consequência do pecado ele passaria por um estado sem vida que teria
início no momento da morte física. Mas a esperança cristã é a de que este estado não é
perpétuo, mas é revertido pelo milagre da ressurreição, que nos traz vida e nos resgata da
morte a fim de possuirmos a nossa herança celestial em Cristo.

Por isso os cristãos tem na ressurreição a sua maior esperança (cf. At.26:7), pois é ela que
nos diz que nem tudo está perdido, que o trabalho dos cristãos não é em vão (cf.
1Co.15:32), que haverá o momento em que a morte será tragada pela vitória (cf.
1Co.15:54), que aqueles que fizeram o bem “sairão para a ressurreição da vida” (cf.
Jo.5:29), quando terão a recompensa pelo o que fizeram em vida e tomarão posse de suas
moradas eternas. A ressurreição é o antídoto para a morte, é o milagre que Deus
providenciou a fim de que não ficássemos para sempre sem vida, mas que por meio de
Cristo pudéssemos herdar a vida eterna.

Claro, não demorou muito para Satanás entrar em cena e deturpar essa verdade,
propagando o que hoje é a base e fundamento da doutrina imortalista, retirada
diretamente da boca da serpente: “Certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4) – o
homem seria inerentemente imortal! A ressurreição já não era mais o antídoto para a
morte, mas sim a libertação da alma se desprendendo da prisão do corpo, como pregava
Platão. Este foi, com toda a certeza, o primeiro sermão imortalista na história, a primeira
das mentiras que Satanás implantou no mundo: a lenda da imortalidade da alma.

III–Por que a mentira?

Por que a mentira? – O motivo desta pergunta é: “Qual é o objetivo de Satanás em pregar
tal mentira?”. Certamente que ele teria uma boa razão para isso, além de contradizer o

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 22


ensino claro de Deus (cf. Gn.2:17). Para respondermos a esta pergunta, temos
primeiramente que ter em mente que o principal objetivo de Satanás é desviar o cristão da
verdade. Passar a ideia de um Deus mal.

Eis aí a principal das armas de engano de Satanás: Desviar o caráter imutável do amor
de Deus. Satanás é a serpente, é aquele que engana. Quanto mais pessoas ele conseguir
desviar de Deus, de preferência passando a ideia de um deus sanguinário, que tem uma ira
pelos ímpios que não cessa nunca, melhor. Infelizmente, essa tática tem causado muito
sucesso nas nossas igrejas.

Muitos milhões de indivíduos no mundo todo abandonam a crença em Deus por causa desta
ideia, por não conseguirem admitir que Deus possa ser ao mesmo tempo bom e mal e com
duas faces, ou que para demonstrar Sua justiça tenha que atormentar eternamente no fogo
a alma de bilhões de pessoas, e acabam por pensar: “Ele não existe”. Muitos têm saído das
fileiras do Cristianismo por causa deste assunto. Isto poderia ser evitado, caso fosse feito
um estudo sincero, honesto e fiel à exegese e ao contexto das Escrituras, que é o que
faremos ao longo de todo este estudo.

O Dr. Samuelle Bacchiocchi elucida a questão nas seguintes palavras:

“Um Deus que inflige torturas infindáveis a Suas criaturas assemelha-se muito mais a
Satanás do que a um Pai amoroso a nós revelado por Jesus Cristo (...) A justiça divina
nunca poderia requerer para pecadores finitos a infinita penalidade da eterna dor, porque o
tormento infindável não serve a qualquer propósito reformatório, precisamente porque não
tem fim”19

John Stott manifesta a mesma opinião, ao dizer:

“Eu não minimizo a gravidade do pecado como rebelião contra Deus, nosso Criador, mas
questiono se o tormento eterno consciente é compatível com a revelação bíblica da divina
justiça”20

A verdade é que muitas pessoas têm deixado as fileiras do Cristianismo por não poderem
acreditar que Deus, em Sua Onisciência, poderia criar seres sabendo que os puniria com um
tormento eterno e infindável de maneira premeditada. Seria muito mais lógico e racional
(pela justiça e pelo amor de Deus) crermos que Ele puniria a cada um de acordo com aquilo
que cada ser merece, e não uma pena infindável para cada ser que comete pecados finitos,
tendo como consequência a queima eterna de sua alma em um verdadeiro lago de fogo.

Se tal fato sucedesse, poderíamos também dar margens a movimentos como a “Santa”
Inquisição, por exemplo, que matou e torturou milhões na Idade Média, mas, como apontou
Azenilto Brito, “se Deus é impiedoso ao punir pecadores com tormentos infindáveis no

19 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

20 STOTT, John. Essentials: A Liberal-Evangelical Dialogue. Londres: Hodder and Stoughton, 1988,
p. 316.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 23


mundo por vir, porque não devia a Igreja agir de modo semelhante neste presente mundo,
torturando e queimando os heréticos?”21

O assunto é motivo de entusiasmo para os ateus, e a grande maioria dos cristãos


defensores da imortalidade da alma não conseguem conciliar o amor divino com a crueldade
eterna que seria tal destino aos impenitentes. Ademais, muitos cristãos que já estão dentro
da Igreja não saem, não por buscarem um comprometimento sincero e verdadeiro com
Deus, mas para escaparem de um tormento eterno no inferno. O Cristianismo não somente
muda de sentido como também perde o foco, o amor, a justiça e a misericórdia nos
revelada mediante o evangelho. Na verdade, todos estes atributos – e muitos outros –
fazem parte da natureza divina e nenhum deles daria margem a um tormento eterno por
pecados finitos.

Como a Igreja pode coerentemente apresentar Deus como sendo alguém que amou o
mundo de tal maneira que enviou o Seu único Filho para que todo aquele que nele crê não
pereça, mas tenha a vida eterna (cf. Jo.3:16), se, por outro lado, odeia os pecadores de tal
maneira que os envia para um lago de fogo e enxofre onde passarão tormentos infinitos
perpetuados por toda a eternidade sob choro e ranger de dentes e sofrendo torturas
colossais? Se Deus ama os pecadores (como a teologia moderna ensina), como conciliar
isso com permitir tamanhos horrores aos pecadores impenitentes?

Ora, se nem mesmo uma pessoa humana, falível e que nem ama tanto assim o próximo (ou
é até mesmo odeia o próximo) não chegaria ao ponto de enviá-lo para “o quinto dos
infernos”, sob as chamas de um fogo eterno para sofrer tormentos horríveis por toda a
eternidade, quanto menos Deus, que em teoria é aquele que mais ama, que mais perdoa e
que é a fonte de toda a misericórdia! Enquanto a Igreja tiver a noção deste deus mutável,
que ama os pecadores nesta vida mas já preparou um inferno eterno onde eles deverão
sofrer horrivelmente após a morte e para sempre, dificilmente um descrente poderá
compreender perfeitamente o amor de Deus que excede todo o entendimento. Sempre terá
em mente este contraste que vai claramente contra a moral humana, quanto mais a divina.

Apenas um regresso às Escrituras nos faria ter em mente um Deus justo e verdadeiro, que
recompensa os justos com a vida eterna e que pude os ímpios de acordo com aquilo que
cada um merece, e não com um tormento eterno para todos indistintamente. Isso sim é
unir a justiça e o amor de Deus como descrito no evangelho bíblico. A justiça e o amor de
Deus andam juntos, e o que Satanás mais quer é desqualificá-los ao perpetuar a primeira e
provavelmente a maior de todas as mentiras – a da “imortalidade da alma”.

Um exame fiel e honesto das Escrituras não apenas mostra o quanto não-bíblica é essa
doutrina, mas também nos faz voltar ao Cristianismo puro e verdadeiro focado em um Deus
de amor e justiça e na ressurreição para a vida eterna que Ele nos concede pela Sua Graça.
A imortalidade condicional e a “vida somente em Cristo” afirmam a realidade do inferno sem
impugnar o caráter de Deus, e dá honra completa para Cristo como "a ressurreição e a
vida”.

21 BRITO, Azenilto Guimarães. Implicações Morais e Cosmológicas do Tormento Eterno. Disponível em:
<http://www.salvos.com.br/inferno>. Acesso em: 15/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 24


A crença na imortalidade inerente como base de fé – Satanás continua usando dos mais
variados meios a fim de perpetuar a primeira mentira, pois isso é um forte meio de desviar
as pessoas da sinceridade e pureza devidas a Cristo. Por meio da crença da sobrevivência
da alma na morte, inúmeras religiões do mundo terminam cursando os mais variados meios
de consulta aos mortos em desobediência à Palavra de Deus.

Existem religiões que tem como base a doutrina da sobrevivência da alma em um estado
intermediário. Caso essa doutrina esteja errada, a religião termina. O culto aos mortos no
catolicismo é um bom exemplo disso, uma vez que Cristo deixou claro que “só ao Senhor
teu Deus darás culto” (cf. Mt.4:10) e que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e
os homens, Cristo Jesus” (cf. 1Tm.2:5).

Satanás usa das mais variadas maneiras para deturpar a Palavra de Deus e perpetuar a
primeira mentira, da imortalidade da alma, a fim de que o que Paulo mais temia
acontecesse: “Pois, assim como Eva foi enganada pelas mentiras da cobra, eu tenho medo
de que a mente de vocês seja corrompida e vocês abandonem a devoção pura e sincera a
Cristo” (cf. 2Co.11:3). A imortalidade da alma foi a doutrina que Satanás encontrou uma
“brecha” a fim de que o evangelho fosse sutilmente modificado por meio de homens que
“introduziram secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os
resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (cf. 2Pe.2:1).

O culto aos mortos é um bom exemplo de um meio que a Serpente continua utilizando a fim
de desviar o cristão do evangelho puro e genuíno somente a Cristo. Quando o evangelho
deixa de ser Cristocêntrico, a missão de Satanás está completa. E qual é o meio que ele
usa para perpetuar tais enganos? Claro, a mesma mentira pregada à Eva no Jardim:
“...certamente não morrereis” (cf. Gn.3:4).

O que Satanás ensina, na verdade, é bem simples. Ele diz que o nosso “verdadeiro eu”, a
nossa “alma eterna”, não morre. De modo que, se não formos tão bons, “a reza resolve
tudo”! Tal visão de imortalidade inerente que Satanás ensina é bem mais simples do que o
que Deus quer que creiamos: que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4), porque a
consequência do pecado seria “moth tâmuth” – “morrendo, morrereis” (cf. Gn.2:17). Todas
as práticas de culto aos mortos, de intercessão de santos já falecidos, de invocação ou
comunicação com os mortos ou de qualquer coisa do gênero, que quase sempre geram
idolatria e apego no coração dos homens àquilo que já morreu ao invés de se focar Naquele
que está vivo (Jesus), tem como base e fundamento a crença na imortalidade da alma.

No espiritismo, então, a coisa complica ainda mais. A consulta aos mortos, que existe de
maneira “mascarada” no catolicismo mediante a oração que é um claro meio de
comunicação, é “desmascarada” no espiritismo que abertamente declara isso
convictamente. A própria crença na reencarnação, que é crida não somente por espíritas
mas também por muitos outros grupos panteístas (como o budismo e o hinduísmo) também
tem por base a crença que a alma sobrevive consciente após a morte. Afinal, se a alma não
sobrevive, não há como reencarnar.

A Bíblia afirma categoricamente que “entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a
seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem
feiticeiro; nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem
quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por
estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti" (cf. Dt.18:9-12). Afinal,
“a favor dos vivos consultar-se-ão os mortos?” (cf. Is.8:19). Não!
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 25
Deus sabe muito bem dessa impossibilidade de comunicação dos mortos com os vivos, e foi
por isso o Senhor proibiu o seu povo israelita de tentar tal “comunicação”, a fim de que não
fossem enganados por espíritos demoníacos (cf. Lv.19:31; 20:6; 1Sm.28:7-25; Is.8:19;
1Tm.4:1; Ap.16:14), dada a devida impossibilidade de comunicação com os que já
morreram (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó
14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). Dada tal impossibilidade, quem se
apresenta no “além" para se comunicar com os vivos são os espíritos dos demônios, e se
aproveitando, é claro, da mentira da imortalidade da alma.

Tudo isso poderia ser perfeitamente removido e o evangelho restaurado caso fosse realizado
um exame apurado das Escrituras, analisando a um conteúdo total e não se apegando
cegamente a um texto ou outro descontextualizado tomando tais textos isolados como regra
de doutrina. Mas, como Jesus disse em Mateus 28:20 para ensinarmos tudo, também
precisamos revelar às pessoas o que realmente acontece depois da morte, pois isso nos
faria voltar ao evangelho Cristocêntrico tão abandonado por consequência da primeira
mentira.

Imagine um mundo onde todos creem conforme a Bíblia diz: que a alma que pecar, essa
morrerá (cf. Ez.18:4). Imagine um mundo onde a mentira de que “certamente não
morrerás” não engana mais ninguém. Imagine um mundo onde todos creem que a
ressurreição é o caminho para uma nova vida no retorno à existência. Ou seja: imagine o
mundo todo seguindo os padrões bíblicos. No que isso implicaria? Isso implicaria na
completa inexistência da idolatria no mundo, visto que grande parte dela subsiste com base
na crença que “espíritos” ou “almas” subsistem após a morte e são dignos de serem
consultados, venerados, cultuados ou adorados.

Isso implicaria na completa inexistência de todos os falsos sistemas religiosos que tem por
base a crença que a alma é imortal, o que inclui espiritismo, catolicismo, budismo,
hinduísmo, religiões panteístas, politeístas e pagãs, que tem como fundamento a crença da
transmigração das almas, da reencarnação, da evocação dos mortos, da intercessão dos
falecidos, da veneração e culto aos defuntos. Isso implicaria também em um mundo mais
Cristocêntrico, isto é, um mundo onde Aquele que vive é o único digno de toda a glória,
toda a honra, toda a majestade e todo o louvor, pois é aquele que venceu a morte e
ressuscitou, Cristo Jesus.

Todas as orações e todo o culto em todo o mundo seriam voltados e dirigidos unicamente
Àquele que era, que é e que há de vir. Todas as nações seriam felizes e haveria paz no
mundo, pois “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor” (cf. Sl.33:12). Todos os nossos atos de
adoração seriam sempre voltados por Ele e para Ele. Você poderia pensar: “Este é um
mundo utópico, imaginário, impossível de ser verdade um dia”. Mas seria isso tão somente o
reflexo de um mundo onde a primeira mentira implantada pela serpente já não teria mais
lugar, e as suas consequências também não. O único que fica feliz da vida em ver o povo
continuar crendo e propagando a heresia de que a alma é imortal é o diabo que inventou
essa mentira, pois é por meio dela que ele sempre enganou e continua cegando bilhões de
pessoas em todo o planeta.

A imortalidade da alma é a carta “coringa” de Satanás. É por meio dela que tantas pessoas
desviam o foco e a atenção que deveriam ser direcionadas a Deus. Sem essa carta na
manga, dificilmente o Inimigo conseguiria desenvolver outros métodos para desviar a
devoção pura e sincera somente a Cristo. Por outro lado, o exame sincero e honesto das
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 26
Escrituras nos faria desmantelar sistemas religiosos totalmente baseados na crença em uma
alma imortal. Isso faria voltar ao evangelho puro e sincero de devoção somente a um
homem, aquele que mesmo tendo morrido ainda vive, e por isso pode interceder por nós –
Cristo: “Portanto, ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele,
aproximam-se de Deus, pois vive sempre para interceder por eles” (cf. Hebreus 7:25).

Resumindo este ponto, o que devemos ter em mente é que toda falsa doutrina criada
por Satanás tem algum objetivo por detrás dela, e este objetivo nunca é levar o cristão
mais perto de Cristo e da devoção única a Ele, mas sempre reside em desviar as pessoas da
devoção única ao Senhor (cf. 2Co.11:3). Seria muito estranho que o diabo quisesse
“inventar a mentira da mortalidade da alma”, uma vez sendo que isso apenas serviria para
destruir por completo com todos os enganos existentes nos mais diversos sistemas
religiosos falsos que existem no mundo, e que se baseiam na crença em uma alma imortal.

Em outras palavras, o diabo não ganharia nada pregando a mortalidade da alma; ao


contrário, apenas perderia o seu império de engano e o veria caindo às ruínas. Teria que
inventar outras mentiras que substituíssem a crença em uma alma imortal para conseguir
conduzir novamente o povo à perdição. Não faz qualquer sentido a mortalidade da alma ser
uma “heresia”, pois heresia é algo criado por Satanás com uma finalidade que de alguma
forma consiste em poder desviar o cristão de Cristo. Quem é que vai “se desviar de Cristo”
por crer que a vida termina na morte e recomeça na ressurreição? Ninguém. Ao contrário,
iria apenas reforçar a importância do papel da ressurreição dentro da comunidade cristã.
Iria fazer-nos retornar aos primórdios da fé, aos tempos em que a ressurreição era a maior
esperança dos cristãos (cf. At.24:15; 26:6; 28:20; 23:6; 26:7).

Mas seria totalmente lógico que ele implantasse a mentira da imortalidade da alma e
assim conseguisse enganar cada vez mais pessoas através dela, como de fato engana, pois
a imortalidade da alma sim tem o poder de desviar o cristão de Cristo, de criar falsos
sistemas religiosos em torno dela, de servir como base para a perda de um evangelho
Cristocêntrico para colocar o foco nos mortos, para dar plausibilidade às crenças na
transmigração e reencarnação das almas, evocação e consulta aos espíritos, oração e
intercessão dos mortos e pelos mortos, culto e veneração àqueles que já morreram, e por aí
vai.

Por isso que foi a primeira mentira implantada pela serpente no Jardim (cf. Gn.3:4).
Note que Satanás não perdeu tempo em implantar essa mentira no mundo. Ela não foi a
terceira, nem a quarta mentira inventada. Não foi inventada depois de muitos séculos, foi a
primeira, foi a que serviu como ponto de partida para todas as demais mentiras que vimos
acima.

Por tudo isso, eu concordo plenamente com a colocação verdadeira feita pelo professor
Sikberto sobre isso: “A imortalidade da alma é a base doutrinária da rebelião de
Lúcifer, e o fundamento das demais mentiras. Sempre que ele entra em ação em
uma situação nova, a primeira coisa que tenta fazer crer é que a alma não morre.
E sabe por quê? Pelo fato de que assim é mais fácil crer nas demais mentiras
dele”22

22 MARKS, Sikberto. História da Adoração. Disponível em: <http://cristoembrevevira.com/introducao-a-


historia-da-adoracao/>. Acesso em: 15/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 27


Desvantagens óbvias em crer que os mortos já estão no Céu – Embora para algumas
pessoas o simples fato de pensar que os seus entes queridos não estejam neste exato
momento no Paraíso possa ser uma dura realidade, também devemos ressaltar o fato de
que, em primeiro lugar, em absolutamente nunca alguém na Bíblia é consolado com a
notícia de que alguma pessoa já tenha subido aos Céus.

Pelo contrário, é dito de maneira clara há uma multidão de mais de três mil pessoas no
Pentecoste que Davi não subiu aos Céus (cf. At.2:34), algo que os apóstolos evitariam ao
máximo de pronunciar diante de tão grande multidão no caso de Davi, ao contrário, já
tivesse subido aos Céus. Em segundo lugar, quando o apóstolo Paulo envia consolações aos
tessalonicenses sobre os seus parentes falecidos ele foca-se inteiramente na esperança da
ressurreição, e não no “fato” de que eles supostamente já estivessem no Céu ou em algum
lugar de bem-aventurança (cf. 1Ts.4:13-18).

Tal consolação focada completamente na esperança da ressurreição do último dia não seria
logicamente cabível caso a ressurreição fosse somente um mero “detalhe” e as suas almas
já estivessem no Paraíso. Até porque, se tal se sucedesse, bastaria que Paulo relatasse isso
e pronto – já estariam consolados. O próprio fato de ele omitir completamente tal menção
nos faz pensarmos que ou (1) Paulo não os consolou direto da maneira que qualquer
imortalista faria; ou (2) eles realmente não estão no Céu, mas irão ressuscitar no último
dia, o que explicaria devidamente o porquê de Paulo tê-los consolado somente com a
esperança de alcançar superior ressurreição.

Em terceiro lugar, ao enviar consolações à família de Onesíforo (já morto), ele novamente
em nada fala que este já estivesse desfrutando das bênçãos paradisíacas; pelo contrário, de
novo foca-se inteiramente na esperança de alcançar a misericórdia de Deus “naquele dia”:
“Conceda-lhe o Senhor que, naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor!” (cf.
2Tm.1:17).

Ademais, tal “consolação” não faria sentido em caso que Onesíforo já estivesse no Céu
porque se assim fosse ele já teria alcançado a misericórdia de Deus já adentrando no
Paraíso junto com os demais santos. Isso é somente lógica. Até mesmo quando Jesus Cristo
foi consolar as irmãs de Lázaro, já falecido, ele em nada indica que já este estivesse na
“glória”, mas insiste em apontar a ressurreição “no último dia” como única fonte de
consolação (cf. Jo.11:17-27).

Além disso, ressalta o aspecto inconsciente e não-consciente do ser racional na morte ao


fazer a devida analogia de Lázaro com um estado de “sono”, uma indicação de inatividade, e
não de atividade: “Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou
despertá-lo do seu sono” (cf. Jo.11:11). Se Lázaro estivesse consciente na glória
desfrutando das maravilhas do “estado intermediário” então a analogia correta seria com o
“acordado” e não com o “dormindo”, tendo que ser “despertado” de seu “sono”. A
caracterização é de inconsciência na morte e de um “despertar” na ressurreição.

Vemos, portanto, que se ninguém em parte alguma da Bíblia enviou “consolações”


baseando-se no suposto “fato” de que alguém já estivesse no Céu, então não seria absurdo
demais acreditar que, de fato, eles não estão lá. Difícil mesmo seria acreditar que os
apóstolos criam na imortalidade da alma e mesmo assim insistiam em nunca se basear nela
para consolar alguém, como todo e qualquer bom imortalista faz nos dias de hoje, focando-
se na crença de que o falecido “já está no Céu” e não que “ele irá ressuscitar um dia”.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 28
O que realmente vemos é o apóstolo Paulo focando-se no momento em que realmente
atingiremos a imortalidade, que é quando todos os que estão dormindo, “num momento,
num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta, a trombeta soará, e os mortos
ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é
corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da
imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é
mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada
foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua
vitória?” (cf. 1Co.15:51-54).

Tal imortalidade não é obtida no momento do nascimento mediante a posse de uma “alma
imortal”, mas sim no momento da ressurreição dos mortos. Por fim, seria imensamente
mais desfavorável imaginarmos, por exemplo, que alguma pessoa justa morra e a sua
“alma imortal” parta de imediato ao Paraíso, aguardando a entrada celestial dos seus entes
queridos, mas passa-se o tempo e... nada. Passa-se mais tempo e eles continuam sem
aparecer por lá.

Mais algumas gerações vão passando e, vendo que ninguém ali se achega, tem que chegar
à triste conclusão de que os seus parentes morreram sem alcançar a salvação e, pior, estão
sofrendo em torturas colossais em um inferno de fogo e enxofre, assim condenados por
toda a eternidade. Como pode ter paz e alegria celestiais um homem sob tais condições?
Felizmente, o que a Bíblia nos mostra é que nós, os vivos, de modo nenhum precederemos
os que dormem – entraremos nas nossas moradas no mesmo instante deles (cf. 1Ts.4:15),
quando Cristo voltar para nos levar onde ele está (cf. Jo.14:2,3).

A motivação errada – Se para manter alguém na linha for preciso a ameaça de um inferno e
demônios torturadores terríveis, então nesse contexto Jesus se torna apenas um meio
utilizável para se escapar do mal. O objetivo e finalidade dessa "conversão" é fugir do
inferno e não Jesus. Para aqueles que tem a fé edificada sobre a rocha que é Cristo, a bem-
aventurança de obter superior ressurreição e uma vida eterna somente em Cristo é
motivação mais do que suficiente que o mundo jamais poderia imaginar, ainda assim
continuarei cristão, pois eu não fui convertido pelo medo de um tormento eterno.

Certa vez, enquanto eu debatia com um católico romano, ele me veio com a seguinte
indagação: “Que vantagem teriam os justos diante dos maus, se ambos morrem, acabam-
se e simplesmente a única vantagem é os justos gozarem a vida eterna”? Infelizmente, esse
é um pensamento bastante comum entre os defensores do tormento eterno.

Lamentavelmente, acham ser pouco e insuficiente gozar de uma vida eterna em um Paraíso
junto a Deus. Só teria validade caso víssemos os “hereges” queimando eternamente,
incluindo muitos parentes e até mesmo irmãos! Adoraríamos a Deus por medo e não por
amor! Infelizmente, para muitos o Paraíso só seria uma recompensa mesmo caso houvesse
pessoas queimando para todo o sempre. Se não houvessem seres queimando
miseravelmente por toda a eternidade vivendo terrores colossais, então nem vale a pena
ser justo!

A vida eterna é suficiente para mim. Adoro a Deus não com medo de um inferno eterno,
mas pelo dom da vida eterna que ele concede gratuitamente a todos aqueles que creem.
Infelizmente, a doutrina da imortalidade da alma cria “cristãos” edificados sobre o medo do
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 29
inferno e não sobre a graça de Deus. Disso resulta toda uma desvalorização do que é o dom
da vida eterna e da imortalidade que Deus concede aos justos pela Sua Graça. Os livros de
Mary Baxter, por exemplo, produzem "conversões" motivadas pelo medo do inferno. Nos
seus livros, os “espíritos” ali mencionados detêm inclusive ossos e sangue! Pasme! Isso sem
mencionar o fato de que os “espíritos” da “Divina Revelação do Inferno” descem a este
lugar ainda vestidos com as suas roupas usuais! As outras “revelações” infernais vão daí
para pior!

Isso nos mostra claramente que tais “revelações” realmente não passam de mais investidas
do maligno a fim de perpetuar, de todas as maneiras possíveis, a primeira mentira. O que o
diabo mais quer é “revelar” para o povo aquilo que Deus não revelou na Bíblia, ainda mais
quando tal revelação claramente a contraria. Pessoas assim vivem debaixo de um legalismo
terrível e suas vidas se tornam um verdadeiro inferno. Elas são atormentadas pela
insegurança da própria salvação e enxergam Deus de forma volúvel, mutável e leviano. E a
fé dessas pessoas depende desse tormento pra continuarem "firmes na fé", pois se o
inferno não existir mais para elas, então elas pensam que já não vale a pena viver em
santidade.

Elas vivem em santidade para que o diabo não tenha brechas e não serem lançadas no
inferno. A santidade torna-se apenas um mecanismo contra o mal e não o propósito da vida
cristã. Definitivamente, são inúmeras as razões pelas quais Satanás prega a doutrina da
imortalidade da alma nos grandes sistemas religiosos, e perpetua estes enganos, com uma
única finalidade, que aliás é próprio de sua própria natureza: desviar o caráter de Deus.
“Propague a mentira que afaste as pessoas deste Deus, e esvazie as fileiras da Igreja”.

IV–Como o conceito de “alma imortal” entrou no Judaísmo

Como já vimos, a primeira vez em que a doutrina da imortalidade da alma entrou no mundo
foi através da serpente, no Jardim do Éden, proferindo o que seria hoje a base da doutrina
imortalista: “...certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4). Essa mentira foi a primeira que
Satanás implantou no mundo, por inúmeros motivos, como vimos:

(1) Impugnar o caráter imutável do amor [e justiça] de Deus;

(2) Ser a base das demais mentiras que resultam em adoração e culto às criaturas mortas,
espiritismo, paganismo, consulta aos mortos, intercessão dos santos, purgatório,
reencarnação, etc;

(3) Tirar do evangelho o Cristocentrismo primitivo;

(4) Se a pessoa não morre, ela não tem a necessidade de um arrependimento sincero e
genuíno (através de um processo de santificação), para ser separada do mundo e tornar-se
propriedade exclusiva do Senhor, pois bastaria apenas ser “mais ou menos boa” e depois da
morte “as rezas resolvem tudo”;

(5) Faz com que o foco das pessoas seja de escapar de um inferno horrivelmente
atormentador ao invés do foco ser em Cristo Jesus e na graça divina;

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 30


(6) Desvaloriza o conceito de “vida eterna”, uma vez que todas as pessoas teriam uma vida
eterna de qualquer jeito (no Céu ou no inferno), e a vida eterna não seria um dom e não
seria somente em Cristo, mas existiria também uma vida eterna com o diabo;

(7) Despreza o verdadeiro valor da ressurreição dos mortos para a vida ou para a
condenação, uma vez que os mortos já estariam no Céu ou no inferno, sendo, portanto,
totalmente desnecessário e inútil tal ressurreição dos mortos;

(8) O objetivo e finalidade da “conversão” de um cristão seria de escapar de um inferno


eterno e não Jesus;

(9) Cria cristãos edificados sobre o medo e sobre uma consciência errada com relação a
Deus, ao invés de estarem edificados sobre o amor e sobre a graça do Pai; e, finalmente:

(10) Tira a honra completa para Cristo como "a ressurreição e a vida”, com o objetivo de
esvaziar as fileiras da Igreja a fim de trazê-las para religiões falsas edificadas sobre a
crença na alma imortal para continuarem subsistindo.

Satanás é considerado pela Bíblia o “pai da mentira” (cf. Jo.8:44), que, ao ser expulso do
Céu, procurou de todas as maneiras atacar a criação do Deus, o homem, uma vez que ele
não tinha força suficiente para confrontar diretamente a Deus. O resultado disso foi a
implantação de diversas mentiras, quase todas elas construídas sobre a crença de que
“certamente não morrerás”, e a partir daí o ensino em um estado intermediário consciente
dos mortos e em um tormento eterno se tornaram realidade para boa parte dos
antediluvianos e foi retomado pelas pessoas no tempo de Ninrod.

O criador da imortalidade natural da alma é Satanás (cf. Gn.3:4), mas, depois, ele se
utilizou de recursos humanos para difundir tal doutrina pelo mundo afora, na “confusão das
línguas” na Torre de Babel, se disseminando pelo mundo, sendo maior o número de pessoas
a crer na alma imortal do que as que criam na mortalidade natural da alma.

Uma vez que tal ideia foi criada pelo diabo, ficou muito fácil torná-la plenamente difundida
entre as religiões pagãs que não tinham comprometimento com o Deus de Israel. Afinal,
são os próprios espíritos malignos que regem e perpetuam estes enganos, e com facilidade
vemos que a grande maioria das religiões pagãs da antiguidade passaram a seguir também
a mentira propagada pela boca da serpente no Éden.

Os hebreus, contudo, tinham o Deus vivo, e por isso acreditavam em uma natureza humana
holista, e não dualista do ser humano. Eles estavam protegidos pelo Deus de Israel de
doutrinas falsas que pudessem enganar até os homens justos. Os povos pagãos, contudo,
não tinham o Deus de Israel, estando completamente expostos às doutrinas dos demônios,
os verdadeiros agentes por detrás dos “ídolos” (cf. 1Co.10:20). O resultado disso foi que
sem a menor dificuldade praticamente todas elas adotaram a mesma mentira proferida à
Eva no Jardim e passaram a crer na doutrina da imortalidade da alma, em suas mais
diferentes formas.

Com o passar do tempo, a crença na sobrevivência da alma passou a se tornar realidade até
mesmo entre os judeus, o povo do Deus vivo, mas somente depois que o Antigo
Testamento foi concluído. Segundo a própria Enciclopédia Judaica, a imortalidade da
alma não é ensinada nas Escrituras e os judeus só passaram a crer nela através de Platão,

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 31


seu principal expoente, em um verdadeiro sincretismo religioso com o helenismo
predominante naquela época e naquela região, por ocasião da diáspora judaica:

"A crença de que a alma continua existindo após a decomposição do corpo é uma
especulação... que não é ensinada expressamente na Sagrada Escritura... A crença na
imortalidade da alma chegou aos judeus quando eles tiveram contato com o
pensamento grego e principalmente através da filosofia de Platão (427 - 347 a.C.),
seu principal expoente, que chegou a esse entendimento por meio dos mistérios órficos e
eleusianos, que na Babilônia e no Egito se encontravam estranhamente misturados"23

Para entendermos como isso se deu, temos que regressar à história dos hebreus. Israel era
um só povo unido até 922 a.C, quando as doze tribos se dividiram em dois reinos, o reino
do Sul (liderado por Judá) e o reino do Norte (liderado por Efraim). O reino do Norte foi
invadido pelos assírios em 725 d.C, e o rei Salmanaser V conquistou Israel, prendeu o rei e
levou cativos os israelitas para outra terra. O mesmo veio a acontecer tempos mais tarde
com o reino do Sul, em 586 a.C, nas mãos dos babilônicos. Eles foram levados cativos e
foram dispersos pelas outras regiões do mundo, daí o nome diáspora, que vem de
dispersão. Quando eles foram expulsos da terra de Israel, eles se misturaram aos outros
povos e adaptaram muito de sua cultura e doutrina para si.

Ocorre que essa época da diáspora judaica se deu exatamente no período helenístico,
onde os gregos impunham sua cultura os povos conquistados:

“Designa-se por período helenístico (do grego, hellenizein – ‘falar grego’, ‘viver como os
gregos’) o período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a
morte de Alexandre o Grande em 323 a.C e a anexação da península grega e ilhas por
Roma em 146 a.C. Caracterizou-se pela difusão da civilização grega numa vasta área que se
estendia do mar Mediterrâneo oriental à Ásia central. De modo geral, o helenismo foi a
concretização de um ideal de Alexandre: o de levar e difundir a cultura grega aos territórios
que conquistava”24

Um dos elementos principais da cultura grega era a filosofia, e dentro dessa área se
destaca Platão. Ele foi o maior divulgador da doutrina da imortalidade da alma na Grécia
Antiga, e a alma ser imortal era um elemento essencial em sua filosofia. Com o período
helenista, essa filosofia (de que a alma é imortal) chegou em grande peso aos demais
povos, em especial aos hebreus, que não mais tinham um território próprio e estavam
“dispersos entre os gregos” (cf. Jo.7:35), e esses hebreus foram helenizados, isto é,
adquiriram para si a forma de pensar dos gregos, mesclando às crenças já cridas por eles.

O resultado disso é que eles continuaram crendo em ressurreição, mas passaram a incluir
em sua cultura a tese grega pagã de que a alma é imortal. Daí surge o tal do “estado
intermediário”, que foi inventado pelos imortalistas numa tentativa de conciliar ambas as
crenças, a imortalidade da alma e a ressurreição, pois, enquanto essa ressurreição não
ocorre, as almas dos que morreram estariam no Céu esperando essa ressurreição acontecer,
num estágio intermediário, entre a morte e a segunda vinda de Cristo.

23 Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566.

24 Wikipédia, a enciclopédia livre. Período helenístico. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Per


%C3%ADodo_helen%C3%ADstico>. Acesso em: 12/09/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 32


Durante o período helenista foram fundadas várias cidades de cultura grega, e dentre elas
destaca-se Alexandria, que era uma espécie de “centro do helenismo”, com forte
concentração da cultura grega. Muitos judeus foram dispersos para essa cidade. Um dos
judeus helenizados que começaram a propagar fortemente a imortalidade da alma foi Filon,
sobre quem a Enciclopédia Judaica afirma:

“Não há referências diretas na Bíblia para a origem da alma, sua natureza e sua relação
com o corpo, e essas perguntas deram espaço para as especulações da escola judaica de
Alexandria, especialmente de Filon, o judeu, que procurou na interpretação alegórica de
textos bíblicos a confirmação de seu sistema psicológico. Nos três termos (‘ruach’, ‘nephesh’
e ‘neshamah’) Filon viu a corroboração da visão platônica de que a alma humana é
tripartite (τριμεής), tendo uma parte racional, uma segunda mais espiritual, e uma terceira
como sendo a sede dos desejos”25

Essa crença grega foi originalmente rejeitada pelos judeus da palestina, como atesta a
Enciclopédia Judaica citando o Talmude:

“Essa crença foi rejeitada pelos estudiosos do Talmude, que ensinaram que o corpo está em
um estado de perfeita pureza (Ber. 10a;. Mek 43b), e está destinado herdar sua morada
celestial (...) Os rabinos afirmaram que o corpo não é a prisão da alma, mas, ao contrário, o
seu meio de desenvolvimento e aperfeiçoamento”26

Por isso mesmo, nada é dito na Enciclopédia Judaica sobre os judeus crerem que a alma é
um elemento imaterial e imortal antes dessa helenização com as teses gregas. Ao contrário,
ela diz claramente:

“Uma vez que a alma é concebida como sendo apenas a respiração (‘nephesh’, ‘neshamah’,
comp. ‘anima’), e inseparavelmente ligada, senão identificada, com o sangue da vida (Gn
9:4; 4:11; Lv 17:11), nenhuma substância real pode ser atribuída a ela. Assim, quando o
espírito ou sopro de Deus (‘Nishmat’ ou ‘Ruach Hayyim’), que é o que se acredita que
mantém corpo e alma juntos, tanto dos homens como dos animais (Gn 2:7; 6:17; 7:22; Jó
27:3), é retirado (Sl 146:4) ou retorna a Deus (Ec 12:7; Jó 34:14), a alma desce ao Sheol
ou Hades, para lá ter uma sombria existência, sem vida e consciência (Jó 14:21; Sl 6:5;
115:7; Is 38:19; Ec 9:5; 9:10). A crença em uma vida contínua da alma, que é a base da
primitiva adoração aos antepassados e dos ritos de necromancia, praticados também pelo
antigo Israel (1Sm 28:13; Is 8:19), foi desencorajada e suprimida pelo profeta como
antagônica à crença em YHWH, o Deus da vida, o Governador do Céu e da Terra”27

E sobre o significado original de “espírito” entre os judeus da época do Antigo Testamento


ela diz:

25 Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma".

26 ibid.

27 Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 33


“O relato mosaico da criação do homem fala de um espírito ou fôlego com que foi dotado
por seu Criador (Gn 2:7), mas esse espírito é concebido como sendo inseparavelmente
ligado, senão totalmente identificado, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11).
Somente através do contato dos judeus com o pensamento persa e grego surgiu a
ideia de uma alma desencarnada, tendo sua própria individualidade”28

A Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional também revela que os israelitas não criam na
imortalidade da alma antes de serem tardiamente influenciados por Platão:

"Quase sempre somos mais ou menos influenciados pela ideia grega platônica, que diz que
o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita
e não é encontrada em nenhum lugar do Antigo Testamento"29

Claro que Deus só deixou que tal fato se concretizasse depois do Antigo Testamento ter sido
concluído, pois Ele cuida de não haver doutrinas falsas em Sua Palavra. Quando o último
livro do Antigo Testamento foi escrito (que foi o livro de Malaquias, em 397 a.C), ainda não
havia ocorrido esse sincretismo com o paganismo grego, que, como vimos, se deu a
partir de 323 a.C. Sendo assim, podemos chegar à conclusão de que Deus guardou a Sua
Palavra do paganismo, salvaguardando o Antigo Testamento de conter alguma filosofia
imortalista de séculos posteriores, quando já estavam influenciados pela filosofia grega.

O fato da doutrina na alma imortal ter sido propagada entre os judeus através do
sincretismo com a filosofia platônica, também atestado pela própria Enciclopédia Judaica,
explica o porquê dos livros apócrifos contidos nas Bíblias dos católicos estarem repletos de
informações claras sobre a “imortalidade da alma” e sobre a existência do estado
intermediário, e até mesmo do “purgatório” e de oração pelos mortos, pois foram escritos
depois de ter se consumado tal contato com o paganismo.

É evidente que tal pensamento para os hebreus só se tornou realidade a eles a partir do
sincretismo religioso com as religiões pagãs, por ocasião da diáspora judaica, quando o
povo hebreu esteve exposto às doutrinas helenísticas de grande influência, incluindo a forte
concepção grega de imortalidade da alma impregnada por Platão na Grécia Antiga.

Quando os judeus estiveram expostos a tais pensamentos, passaram então a escrever e a


acreditar em tais superstições, contrariando o pensamento holístico bíblico de séculos
anteriores (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó
14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). Na própria narração da criação humana é
narrado o simplismo bíblico no homem tornar-se uma alma (cf. Gn.2:7), algo muito
diferente dos contos pagãos em que os seres humanos recebiam (ou “obtinham”) uma alma
eterna/imortal que lhes era infundida.

Na Bíblia Sagrada, “espírito” significa somente “vida”, e não uma outra pessoa consciente
dentro do ser humano (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29), algo
muito diferente do que criam as religiões pagãs e politeístas da época. Na diáspora judaica,
influenciados pelo sincretismo pagão, o povo judeu passou a claramente declarar a posição
de imortalidade da alma (cf. Sabedoria 3:1-4; 5:1-4; 2:23; 3:2,4; 8:19,20; 9:15).

28 Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma".

29 Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional, 1960, vol. 2, "Morte", p. 812.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 34


O livro de “Sabedoria”, por exemplo, cita passagens de livros bíblicos escritos séculos depois
da morte de Salomão (em 998 a.C) e faz isso da Septuaginta grega, que começou a ser
traduzida por volta de 280 a.C. Por isso, o livro “Sabedoria de Salomão”, na verdade, não
tem nada a ver com Salomão, que claramente negava a vida após a morte (cf. Ec.3:19,20;
Ec.9:5; Ec.9:6; Ec.9:10), isso evidentemente séculos antes da diáspora judaica. Atualmente
acredita-se que o escritor tenha sido um judeu de Alexandria, no Egito, por volta de meados
do primeiro século antes de Cristo.

O escritor deste livro faz uso fortemente da filosofia grega, mostrando grande particular
familiaridade com ela. Ele usa terminologia platônica na divulgação da doutrina da
imortalidade da alma (cf. Sabedoria 3:1,4; 5:1-4; 2:23; 3:2,4; 8:19,20; 9:15). Outros
conceitos pagãos apresentados são a pré-existência das almas humanas e o conceito de que
o corpo é um impedimento ou estorvo para a alma (cf. 8:19, 20; 9:15). É óbvio que tais
ensinamentos não existem em parte nenhuma da Bíblia canônica e muito menos antes da
diáspora, pois tais ensinamentos estão clarissimamente relacionados ao sincretismo com o
dualismo platônico.

ANTES DA DIÁSPORA DEPOIS DA DIÁSPORA


“Porque os vivos sabem que hão de “As almas dos justos estão nas mãos de
morrer, mas os mortos não sabem coisa Deus, e nenhum tormento jamais os
nenhuma, nem tampouco terão eles tocará [...] pois na verdade eles estão
recompensa, porque a sua memória jaz no em paz, e a esperança deles é plena
esquecimento. Amor, ódio e inveja para imortalidade” (cf. Sabedoria 3:1-4)
eles já pereceram; para sempre não têm
eles parte em coisa alguma do que se faz
debaixo do sol [...] Tudo quanto te vier à
mão para fazer faze-o conforme as tuas
forças, porque no além, para onde tu vais,
não há obra, nem projetos, nem
conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf.
Eclesiastes 9:5, 6 e 10)

Antes daquele momento, nada de imortalidade da alma; depois daquele momento,


inúmeras menções explícitas dela. No livro anteriormente citado, lemos algumas destas
“descrições”: "As almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará o tormento da
morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam; e a sua saída deste mundo foi
considerada como uma aflição, e a sua separação de nós como um extermínio; mas eles
estão em paz (no céu). E, se eles sofreram tormentos diante dos homens, a sua esperança
está cheia de imortalidade” (cf. Sabedoria 3:1-4)

Fica mais do que claro que tais menções explícitas de imortalidade da alma nos livros não-
canônicos (ou “apócrifos”) foram feitas não pela inspiração divina, mas sim pelo sincretismo
com o paganismo grego, “coincidentemente” no exato momento da diáspora judaica. Se a
imortalidade da alma fosse a doutrina do Antigo Testamento antes da influência de
ensinamentos gregos de dualismo entre corpo e alma, então o que deveríamos esperar
seria justamente inúmeras e constantes menções plenamente definidas de imortalidade da
alma neles (assim como vemos constantemente ensinamentos dualistas depois da
diáspora).

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 35


Tal fato, contudo, está muito longe de ser realidade. O próprio fato de os hebreus
começarem a escrever sobre a imortalidade da alma a partir da diáspora corrobora com a
História que nos mostra que houve tal sincretismo pagão por esta época. O Dr. Samuelle
Bacchiocchi acrescenta:

“Durante esse período inter-testamentário, o povo judeu esteve exposto, tanto em seu lar,
na Palestina, quanto na diáspora (dispersão), à cultura e filosofias helenísticas (gregas) de
grande influência. O impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas,
inclusive na adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaicas produzidas
nessa época”30

Vemos, portanto, que como o resultado deste impacto foi o que resultou na difusão da
doutrina da imortalidade da alma entre os judeus, que entrou no judaísmo não por uma
ordenança divina, mas decorrente do puro sincretismo religioso com as religiões
pagãs.

Mas havia ainda uma linha de pensamento que corria no mundo judaico em paralelo com a
visão dualista helenista. Esta outra linha de pensamento diz respeito ao judaísmo
palestino que se manteve fiel aos escritos bíblicos veterotestamentários. Um dos livros que
nos mostra isso é o apócrifo de 2ª Baruque, que, em linguagem bem semelhante aos
ensinos canônicos neotestamentários provenientes da palestina, afirma que os mortos
“dormem no pó da terra” e na segunda vinda do Messias “todos os que adormeceram na
esperança dEle ressuscitarão; todos os justos serão reunidos num instante e os ímpios
lamentarão, pois o tempo de seu tormento é chegado” (cf. 2ª Baruque cap.30).

A linha de pensamento é fortemente semelhante ao pensamento do Novo Testamento e


expressa com exatidão a figura bíblica adequada para a morte: o sono (cf. Jo.11:11); o
local onde estão os mortos: o pó da terra (cf. Dn.12:2); a esperança do verdadeiro cristão:
a ressurreição (cf. Hb.11:35); o momento em que os justos serão todos ajuntados
juntamente: na segunda vinda de Cristo (cf. 1Ts.4:15); e quando é que os ímpios
finalmente serão atormentados: somente na ressurreição que lhes é chegado o momento da
sua punição (cf. 2Pe.2:9).

Esta linha de pensamento ainda corrente no primeiro século (2ª Baruque foi escrito em fins
do primeiro século d.C ou início do segundo) ainda corria entre o judaísmo palestino. Uma
linha que mantém a esperança focada na ressurreição (cf. At.24:15), que prega que só
Deus é possuidor natural de imortalidade (cf. 1Tm.6:16), e que o homem tem que buscá-la
porque não a possui naturalmente (cf. Rm.2:7). Essa é a linha de pensamento
neotestamentária utilizada pelos apóstolos.

Foi somente a partir de meados do segundo século que os filósofos primitivos cristãos
adotaram o conceito grego de imortalidade da alma, algo presumível uma vez que tal
conceito era fortemente difundido nas comunidades não-cristãs. Muitas doutrinas foram
corrompidas ao longo dos séculos, incluindo a concepção do dualismo grego dominante na
época.

30 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 36


Por este tempo a ideia da existência de uma alma imortal tomou conta do Cristianismo,
permanecendo até os dias de hoje, na maioria das igrejas cristãs. Tendo como única fonte
de fé as Sagradas Escrituras disponíveis em sua época, e que negavam em absoluto
qualquer tipo de vida pré-ressurreição (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4;
Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17), os
apóstolos a seguiam em não tomar parte com tal doutrina que, até esta época, estava das
portas para fora da Igreja.

O próprio fato da vida ser apenas a partir da ressurreição fazia com que o foco da Igreja
primitiva fosse completamente voltado ao glorioso dia da ressurreição dos mortos, assunto
este que era a base de todo o Novo Testamento, sendo mencionadas algumas centenas de
vezes (ex: Atos 16:6-8; Hebreus 11:35; Atos 4:2; 17:18; Atos 23:6; 24:15, que mostram
que a esperança dos cristãos era na ressurreição).

Por que quase não ouvimos falar na doutrina da ressurreição entre as igrejas cristãs dos
dias de hoje? Porque elas passaram a adotar a imortalidade da alma. O helenismo
trouxe aos hebreus uma mescla das doutrinas gregas de imortalidade da alma com as suas
próprias convicções a respeito a ressurreição dos mortos. O resultado desta mescla foi que
eles não deixaram de conceber a doutrina da ressurreição, mas incluíram junto a ela uma
nova ideia que com o passar dos tempos foi deixando a realidade da ressurreição cada vez
mais insignificante: a imortalidade da alma.

Na época de Cristo, imortalidade da alma e ressurreição dos mortos eram dois opostos. Os
gregos acreditavam na doutrina da imortalidade (e os cristãos dos dias de hoje misturam os
dois). Naquela época, contudo, uma vez que a esperança cristã era a da ressurreição, se
você quisesse pregar que os mortos já tinham ido para a glória teria que pregar deste jeito:

“Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a
fé de alguns” (cf. 2Tm.2:18). O próprio apóstolo Paulo teve sérios problemas em Atenas por
causa da crença deles na imortalidade da alma, como é dito em Atos 17:32. A verdade é
que Paulo pregava a ressurreição, e, os gregos, a imortalidade incondicional da alma. O
resultado disso foi a rejeição por parte deles aos ensinamentos de Paulo.

A esperança bíblica primitiva era sempre voltada à ressurreição, e não à imortalidade da


alma. A crença na alma imortal não apenas desqualifica e tira a importância da ressurreição,
como também a anula como sem sentido, uma vez que todos iríamos continuar no Céu ou
no inferno do mesmo jeito sem ela. Tal detrimento óbvio entre imortalidade da alma e
ressurreição dos mortos é tão evidente que levou muitos grandes escritores a exporem tal
discrepância, como o grande teólogo luterano Oscar Cullmann e o doutor adventista
Samuelle Bacchiocchi (que colocaram tal contradição no título de seus livros).

O autor deste livro disponibilizará de mais de duas centenas de provas contra a doutrina
dualista ao longo de toda a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, que serão mostradas e
comentadas uma a uma ao longo de todo o livro, revelando como que tal doutrina não é
apenas a primeira mentira, como também a maior de todas as mentiras de todos os
tempos.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 37


CAPÍTULO 2 – OS PAIS DA IGREJA E A IMORTALIDADE DA ALMA

I–Os Pais da Igreja criam na imortalidade da alma?

Os Pais da Igreja foram os influentes cristãos, bispos, teólogos e mestres que marcaram
história na Igreja primitiva nos primeiros séculos e cujos trabalhos foram utilizados como
precedentes doutrinários nos séculos seguintes. O estudo dos escritos dos Pais da Igreja é
denominado “patrística”, e seu conteúdo é de profunda relevância quando buscamos saber
se a Igreja cristã dos primeiros séculos cria ou não em alguma doutrina. Afinal, se os Pais
da Igreja que conviveram tão próximos aos apóstolos, como Policarpo (69-155 d.C) que foi
discipulado pelo próprio apóstolo João, ou Inácio (35-107 d.C), que também conviveu com
os apóstolos, estavam equivocados, então toda a verdade cristã deixada pelos discípulos de
Jesus foi corrompida dentro de um período de tempo extremamente curto.

Doutra forma, se confirmamos que os primeiros cristãos criam de acordo com a crença
bíblica sobre a vida após a morte, temos a ratificação de que os bispos que sucederam os
apóstolos salvaguardaram a doutrina bíblica a este respeito, e que apenas tardiamente a
Igreja se desviou do curso. Por isso, embora a Bíblia seja a nossa única regra de fé e
prática, o estudo da patrística não perde seu valor por isso, mas nos ajuda a entender se os
primeiros cristãos da Igreja primitiva criam na imortalidade ou na mortalidade da alma,
assim como as epístolas apostólicas nos ajudam a entender a visão daqueles que
conviveram pessoalmente com Cristo. Afinal, se aqueles que conviveram de perto com os
apóstolos não criam na imortalidade da alma, tampouco cremos que os próprios apóstolos
tenham passado tal ensino a eles.

Que a imortalidade da alma não era uma crença adotada pelos primeiros Pais da Igreja, em
especial os do século I até meados do século II d.C, isso fica evidente pela própria
argumentação imortalista que sempre cita apenas os Pais de tempos bem posteriores,
começando por Orígenes e avançando até Agostinho. Eles realmente não têm nenhuma
prova irrefutável dessa doutrina que possa ser encontrada em qualquer obra de qualquer
Pai da Igreja que tenha convivido mais de perto com os apóstolos. Neste capítulo, portanto,
irei provar resumidamente como que a patrística refuta a imortalidade incondicional da alma
naquilo que tange aos primeiros séculos de Cristianismo.

Inácio de Antioquia (68 – 107 d.C) cria que seria encontrado como discípulo de Policarpo
depois que a ressurreição tivesse sido consumada, e não imediatamente após a morte em
algum estado intermediário:

”Uma vez que a Igreja de Antioquia da Síria está em paz, como fui informado, graças à
vossa oração, fiquei mais confiante na serenidade de Deus, se com o sofrimento eu o
alcançar, para ser encontrado na ressurreição como vosso discípulo”31

Era na ressurreição – e não após a morte – que Inácio se reencontraria com Policarpo, e
seria reconhecido como seu discípulo. O mesmo ele afirma aos cristãos de Éfeso:

31 Carta de Inácio a Policarpo, 7:1.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 38


”Fora dele [Jesus], nada tenha valor para vós. Eu carrego as correntes por causa dele. São
as pérolas espirituais com as quais eu gostaria que me fosse dado ressuscitar, graças à
vossa oração. Desta desejo sempre participar para me encontrar na herança dos
cristãos de Éfeso, que estão sempre unidos aos apóstolos pela força de Jesus Cristo”32

Inácio queria se encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, mas a pergunta que não quer
calar é: “quando”? Qualquer imortalista responderia que seria logo após a morte e antes
da ressurreição, quando supostamente a “alma imortal” de Inácio partiria para o Céu e se
encontraria na sua herança, junto aos cristãos de Éfeso. Porém, Inácio diz claramente que
seria na ressurreição que isso aconteceria! A crença de Inácio de que era somente na
ressurreição dos mortos que os cristãos entram em sua herança celestial e se reencontram
com os demais cristãos era crida também por Policarpo (69 – 155 d.C), contemporâneo de
Inácio, que afirmou que a ressurreição não é somente do corpo (como creem os
imortalistas), mas também da alma:

“Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os
mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do
corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo”33

Justino (100 – 165 d.C) foi ainda mais além e declarou que aqueles que criam que a alma
vai para o Céu após a morte e antes da ressurreição nem sequer poderiam ser considerados
cristãos, mas estariam no grupo daqueles que eram considerados «ímpios e hereges», que
ensinavam «doutrinas que são em todos os sentidos blasfemas, ateístas e tolas»:

"Além disso, eu indiquei-lhe que há alguns que se consideram cristãos, mas são
ímpios, hereges, ateus, e ensinam doutrinas que são em todos os sentidos
blasfemas, ateístas e tolas. Mas, para que saiba que eu não estou sozinho em dizer isso
a você, eu elaborarei uma declaração, na medida em que puder, de todos os argumentos
que se passaram entre nós, em que eu devo registrá-las, e admitindo as mesmas coisas
que eu admito a você. Pois eu opto por não seguir a homens ou a doutrinas humanas, mas
a Deus e as doutrinas entregues por Ele. Se vós vos deparais com supostos Cristãos que
não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no
ato de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis Cristãos . Mas
eu e os outros, que somos cristãos de bem em todos os pontos, estamos convictos de que
haverá uma ressurreição dos mortos, e mil anos em Jerusalém, que será construída,
adornada e alargada, como os profetas Ezequiel e Isaías e outros declaram"34

O Diálogo com Trifão, escrito por Justino, é ainda mais interessante por ser apresentado em
forma de diálogo. Nele, podemos ver as incoerências da crença de que a alma é imortal e
também como que os primeiros cristãos contestavam essa crença de origem pagã. Por
exemplo, Justino afirma que as almas dos homens são em tudo semelhante às almas dos
animais:

32 Inácio aos Efésios, 11:2.

33 O Martírio de Policarpo, 14:2.

34 Diálogo com Trifão, Cap.80.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 39


Velho: E todas as almas de todos os seres vivos podem compreendê-Lo? Ou são as almas
dos homens de um tipo e as almas dos cavalos e de jumentos de outro tipo?

Justino: Não. Mas as almas que estão em todos são semelhantes. (Capítulo 4)

Aqui Justino declara que as almas humanas não são diferentes das dos animais. Se lermos o
relato da criação em Gênesis, vemos que ambos são descritos como sendo alma-nephesh
(cf. Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). Alguns imortalistas, na tentativa de
refutar este fato bíblico, tentam dizer que as almas dos animais são diferentes das almas
humanas, pois a deles seria mortal, enquanto a nossa seria imortal. Isso é o que o homem
velho estava dialogando com Justino, mas este nega que haja diferença entre ambas as
almas, exatamente como prega a doutrina bíblica holista!

Mais a frente, vemos um interessante diálogo de Justino com o Velho, onde os dois
discorrem sobre a natureza do universo e sobre o destino da alma após a morte. Desde que
o universo lhes pareceu ser gerado (como a Bíblia ensina que foi), eles concluem que as
almas não podem ser imortais, mas morrem após a morte do corpo:

Velho: Você diz que o mundo também é não-gerado?

Justino: Alguns dizem que sim. Eu, porém, não concordo com eles.

Velho: Você está certo, pois que razão alguém tem para supor que um corpo tão sólido,
possuindo resistência, composto, mutável, em decomposição, e renovado a cada dia, não
surgiu de alguma causa? Mas se o mundo é gerado, as almas necessariamente
também são geradas, e talvez em algum momento elas não existam, porque elas
foram feitas por conta dos homens e outros seres vivos, se você for dizer que eles foram
gerados totalmente à parte, e não juntamente com seus respectivos órgãos.

Justino: Isso parece estar correto.

Velho: Não são, pois, imortais?

Justino: Não, desde que o mundo pareceu-nos ser gerado. (Capítulo 5)

Justino afirma que as almas não são imortais, porque o universo foi gerado. Então, vem a
parte que alguns imortalistas se utilizam, tirando-a de seu devido contexto, que é
quando o velho que debate com Justino (e não o próprio Justino) afirma que as almas não
morreriam completamente, mas as almas dos justos iriam para um “lugar melhor” após a
morte, e as dos injustos iriam para um “lugar pior”, esperando o dia do julgamento. Já vi
alguns imortalistas fazerem uso dessa passagem na intenção de passar a ideia de que
Justino não cria que a alma morria após a morte, mas eles se esquecem de que foi o
próprio Justino que corrigiu este pensamento do homem velho logo na sequencia
do Diálogo:

Velho: Mas eu não digo, na verdade, que todas as almas morrem... mas depois da morte
as almas dos piedosos permanecem em um lugar melhor, enquanto as dos injustos e
perversos estão em um lugar pior, esperando o momento do julgamento. Assim, alguns que
tem sido dignos de serem apreciados por Deus nunca morrem, mas outros são punidos,
desde que Deus quer que eles existam e sejam punidos.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 40
Justino: O que você diz, então, é de uma natureza similar com o que Platão ensina sobre o
mundo, quando ele diz que ele é realmente sujeito à decadência, na medida em que foi
criado, mas que nem vai ser dissolvido, nem encontrar-se com o destino da morte por conta
da vontade de Deus. Parece-lhe que o mesmo pode ser dito da alma, e em geral de todas as
coisas? Para as coisas que existem depois de Deus, ou em qualquer momento
existem, estas têm a natureza de decadência, e podem ser apagadas e deixarem
de existir, pois só Deus é ingênito e imortal, e por isso mesmo Ele é Deus, mas
todas as outras coisas criadas por Ele são corruptíveis. Por esta razão ambas as
almas morrem, uma vez que, se fossem ingênitas, elas nem teriam pecado, nem seriam
preenchidas com a loucura, e nem seriam covardes ou ferozes; nem seriam de bom grado
se transformarem em porcos e as serpentes em cães, se fossem não-geradas.

Note que o homem velho realmente propôs a imortalidade da alma a Justino, mas foi o
próprio Justino quem refutou aquele pensamento logo em seguida, dizendo que o homem
velho estava pensando da mesma forma que Platão, de que o mundo não vai ser dissolvido,
e de que o mesmo poderia ser aplicado com relação à alma (que não se dissolveria após a
morte). Isso estaria errado pelo fato de que as coisas criadas por Deus tem uma natureza
corruptível, e por essa razão “ambas as almas morrem”, isto é, tanto as almas dos
homens como também as dos animais perecem após a morte, não são imortais como cria
Platão. Mais adiante, Justino reitera mais uma vez que a alma deixa de existir após a morte,
e que o homem não existe mais quando o espírito da vida é retirado dele, não existindo
mais a alma:

“Sempre que a alma tem de deixar de existir, o homem não existe mais, o espírito da
vida é removido, e não há mais alma, mas ele vai voltar para o lugar de onde foi feito”35

Para Justino, quando Deus retira do homem o sopro de vida que Ele soprou originalmente
nas narinas de Adão, o homem não existe mais, a alma deixa de existir e «não há mais
alma»; o homem como um ser integral volta para o lugar de onde ele foi formado: o pó da
terra. Por isso, a ressurreição é a única esperança para trazer o homem de volta à
existência, como Justino também declara a Trifão:

Trifão: Diga-me, então, devem os que viviam de acordo com a lei dada por Moisés,
viverem da mesma maneira com Jacó, Enoque, Noé, na ressurreição dos mortos, ou
não?

Justino: Quando citei, senhor, as palavras ditas por Ezequiel, que, ”mesmo que Noé, Daniel
e Jó estivessem nela, eles não poderiam livrar seus filhos e suas filhas, o pedido não lhes
seria concedido", mas que cada um deve ser salvo pela sua própria justiça, disse também
que aqueles que suas vidas foram reguladas pela lei de Moisés de igual modo devem ser
salvos. Pois o que está na lei de Moisés é naturalmente bom, piedoso e justo, e foi prescrito
a ser praticado por aqueles que devem obedecê-la, e foi designada para ser realizada em
virtude da dureza dos corações do povo, e feita também para aqueles que estavam debaixo
da lei. Desde aqueles que fizeram o que é universal, naturalmente, e eternamente bom é
agradável a Deus, eles serão salvos por esse Cristo na ressurreição, em pé de
igualdade com os homens justos que foram antes deles, ou seja, Noé e Enoque, e Jacó, e
quem mais existir, juntamente com aqueles que conheceram esse Cristo, Filho de Deus, que

35 Diálogo com Trifão, Cap.6.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 41


foi a estrela da manhã e submeteu-se ao encarnar-se, e nascer desta virgem da família de
Davi, a fim de que, por nesta dispensação, a serpente que peca desde o princípio e os anjos
com ele possam ser destruídos, e que a morte possa ser desprezada, para sair
eternamente, na segunda vinda de Cristo, aqueles que acreditam n'Ele e viveram
aceitavelmente. (Capítulo 45)

É tão claro como a luz do dia o fato de que Justino cria que seria na ressurreição (que
acontece na segunda vinda de Cristo) que aqueles que já morreram (tais como Noé, Enoque
e Jacó) iriam ser salvos e sair para a vida eterna. Por isso ele se regozijava da morte: não
por pensar que tinha uma “alma imortal” que sobrevivesse conscientemente após a morte,
mas por crer que Deus o ressuscitaria e o tornaria imortal nessa ressurreição:

“Mas nós nos regozijamos da morte, acreditando que Deus nos ressuscitará a nós pelo
seu Cristo, e nos fará incorruptíveis, e intactos, e imortais, e sabemos que as
ordenanças impostas em virtude da dureza dos corações do povo em nada contribuem para
o desempenho da justiça e da piedade”36

Por tudo isso, a vida eterna seria herdada somente após a santa ressurreição, e não antes
dela:

“Ele [Josué] não apenas teve o seu nome alterado, como também foi sucessor de Moisés,
sendo o único de seus contemporâneos que saiu do Egito, ele levou os sobreviventes para a
Terra Santa e foi ele, e não Moisés, que conduziu as pessoas para a Terra Santa, e assim
como ela foi distribuída por sorteio para os que entraram junto com ele, assim também
Jesus Cristo virá novamente e distribuirá a boa terra para cada um, embora não da mesma
maneira. Pois o primeiro [Josué] deu-lhes uma herança temporária, visto que ele não era
nem Cristo, que é Deus, nem o Filho de Deus; mas este último [Jesus], após a santa
ressurreição, nos dará a posse eterna”37

Os homens de todas as épocas que creram em Cristo e que viveram de acordo com a
Palavra de Deus “estarão” {futuro} naquela terra, e “herdarão” {futuro} o eterno e
incorruptível bem:

“E, portanto, todos os homens em todos os lugares, quer escravos ou livres, que creem em
Cristo, e reconheceram a verdade em suas próprias palavras e dos Seus profetas, sabemos
que eles estarão com ele naquela terra, e herdarão o eterno e incorruptível bem”38

Se Justino cresse que herdamos a vida eterna antes da ressurreição (no momento em que a
alma “voa” para o Céu após a morte), então ele teria dito que os que já morreram já estão
naquela terra prometida por Deus, e que já herdaram o eterno e incorruptível bem. O fato
de ele colocar tudo no tempo futuro nos mostra mais uma vez que ele não cria na
imortalidade da alma. A posse da vida eterna era vista como um acontecimento depois da
ressurreição dos mortos, e não antes:

36 Diálogo com Trifão, Cap.46.

37 Diálogo com Trifão, Cap.113.

38 Diálogo com Trifão, Cap.139.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 42


“E a Palavra, sendo o Seu Filho, veio até nós, tendo sido manifestado em carne, revelando
tanto si mesmo como também o Pai, dando-nos a ressurreição dos mortos e, depois, a
vida eterna”39

Por isso mesmo ele advogava a tese bíblica de que a ressurreição não é meramente do
corpo, mas do corpo e da alma, pois tanto o corpo como a alma formam o homem, e
consequentemente tanto o corpo como a alma morrem, e tanto o corpo como a alma
ressuscitam na ressurreição:

“Pois o que é homem, senão um animal racional composto de corpo e alma? É a alma
chamada de homem por si mesma? Não, mas é chamada a alma do homem. Será que o
corpo pode ser chamado de homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se, então,
nenhum deles é por si só o homem, mas o que é composto dos dois juntos é
chamado de homem, e Deus chamou o homem para a vida e ressurreição, Ele
chamou não uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo”40

“Se Ele não tinha necessidade da carne, por que Ele iria curá-la? E o que é o mais
convincente de todos: Ele ressuscitou os mortos. Por quê? Não era para mostrar como a
ressurreição deveria ser? Como, então, Ele ressuscitará os mortos? Suas almas ou os
seus corpos? Manifestamente ambos”41

Arnóbio foi outro a declarar que a tese da imortalidade da alma era crida em sua época por
“pensadores recentes e fanáticos”:

"Não há motivo, portanto, que nos engane, não há motivo que nos faça conceber
esperanças infundadas aquele que se diz por alguns pensadores recentes e fanáticos
pela excessiva estima de si mesmos que, as almas são imortais”42

Essa é uma declaração enfática que nos leva a crer novamente que quando a imortalidade
da alma entrou na Igreja não foi por ser pregada desde sempre pelos apóstolos, mas foi ao
longo de um processo de desvio doutrinário, começando a ser pregada por apenas alguns
“recentes”, que, influenciados pela filosofia grega platônica, trouxeram para dentro da
Igreja o conceito pagão de que a alma seria imortal. Os pensadores da época que criam que
a alma era imortal eram questionados pela sua própria infantilidade e ignorância em ver
este assunto desta forma:

“Mas se você está realmente certo de que as almas dos homens são imortais e dotadas
de conhecimento, quando elas voam para cá, deixe-me questionar a juventude que

39 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.1.

40 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.8.

41 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.9.

42 Arnóbio, op. cit., Liv. II, 14-15; pag. 51.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 43


você vê as coisas pela sua ignorância, estando acostumado aos caminhos dos
homens”43

Arnóbio enfatiza também que as almas não são incorpóreas, o que é outra base e
fundamento da tese imortalista que é derrubada, juntamente com a crença de que elas
seriam “imortais”:

“Além disso, o mesmo raciocínio não só mostra que elas [as almas] não são
incorpóreas, mas também as privam de toda e qualquer imortalidade, e remete-as
para os limites dentro dos quais a vida é normalmente fechada”44

Por fim, outros dois autores cristãos do segundo século d.C que são bem importantes para
entendermos o pensamento presente na Igreja da época, são Teófilo de Antioquia (120 –
180 d.C) e Taciano, o Sírio (120 – 180 d.C), que são da mesma época, sendo que ambos
eram filósofos e ambos discorreram amplamente sobre a ressurreição, sobre a natureza
humana e sobre a vida após a morte. Começaremos por Teófilo, que escreveu três livros a
Autólico, e disse:

“Ó homem, se compreenderes isso, e viveres de maneira pura, piedosa e justa, poderás ver
a Deus. Antes de tudo, porém, entrem em teu coração a fé e o temor de Deus, e então
compreenderás isso. Quando depuseres a mortalidade e te revestires da
incorruptibilidade, verás a Deus de maneira digna. Com efeito, Deus ressuscitará a
tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o
imortal, contanto que agora tenhas fé nele. Então reconhecerás que falaste injustamente
contra ele”45

Acima constatamos três pontos principais. O primeiro, é que a natureza humana atual é
mortal. A segunda, é que a alma ressuscita juntamente com o corpo, o que era uma crença
comum no século d.C. E o terceiro, que é somente na ressurreição, quando o homem se
torna imortal, que ele verá o imortal, Deus. A doutrina tardia da imortalidade da alma
mudou tudo isso, pois prega que o ser humano possui atualmente a imortalidade na forma
de uma alma imortal, ensina que a ressurreição é somente do corpo e também que veremos
a Deus logo após a morte, antes mesmo da ressurreição. Quanta diferença disso para aquilo
que os Pais da Igreja criam e ensinavam!

Outro fato que Teófilo nos mostra e que, como já vimos, é totalmente compatível com a
Bíblia e com aquilo que disse Justino de Roma, é que os animais também são almas
viventes:

“E disse Deus: ‘Que as águas produzam répteis de alma vivente e aves que voam sobre a
terra debaixo do firmamento do céu’. E assim se fez. E Deus fez os monstros grandes do
mar, e toda alma dos animais que se arrastam, que as águas produziram conforme suas
espécies, e todo volátil alado segundo a sua espécie. E Deus viu que era bom. E Deus os

43 Arnóbio, Against the Heathen , Livro II, Cap.24.

44 Arnóbio, Against the Heathen, Livro II, Cap.26.

45 Teófilo a Autólico, Livro I, Cap.7.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 44


abençoou, dizendo: ‘Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar, e que as aves se
multipliquem sobre a terra’. Houve tarde e houve manhã: quinto dia.E disse Deus: ‘Que a
terra produza alma vivente conforme a sua espécie, quadrúpedes e répteis e feras da
terra segundo a sua espécie’. E assim se fez. E Deus fez as feras da terra conforme a sua
espécie e os animais segundo a sua espécie, e todos os répteis da terra”46

Depois que a doutrina pagã da imortalidade da alma ganhou força dentro do Cristianismo,
ficou comum os teólogos da imortalidade negarem que os animais sejam ou possuam alma,
e a grande maioria das traduções vertem os textos acima (a exemplo de outros onde
aparece nephesh para os animais) como “criaturas viventes”, antes que como “almas
viventes”, que é o real significado do hebraico nephesh. Tudo para negar que os animais são
tão nephesh quanto o ser humano, e que, por isso, nephesh não é nem nunca foi um
elemento eterno, imortal e imaterial presente na natureza humana.

O curioso é que estas mesmas traduções que adulteram o original hebraico e traduzem por
“criatura” onde deveria ser “alma” relacionando-se aos animais, no mesmo contexto
traduzem a mesma palavra [nephesh] por alma mesmo quando se refere a seres humanos!
A manobra por trás disso tudo é muito clara: eles querem passar a falsa ideia de que
nephesh (alma) é um elemento imortal e imaterial que está presente em nós mas não nos
animais; por isso, traduzem essa palavra por “alma” quando se refere aos seres humanos,
mas não traduzem por “alma” quando a mesma palavra é aplicada igualmente aos animais,
ou senão todos ficariam sabendo que nephesh não é um elemento imortal coisa nenhuma.

Teófilo também faz um contraste entre nós e Deus, mostrando que Deus é imortal,
enquanto o homem deixa de existir por um tempo, até voltar à existência em uma
ressurreição futura:

“Os luzeiros contêm o exemplo e símbolo de um grande mistério, pois o sol é símbolo de
Deus e a lua o é do homem. Como o sol difere muito da lua em poder e glória, assim Deus
é muito diferente da humanidade; como o sol permanece sempre cheio e não
diminui, assim Deus permanece sempre perfeito, repleto de poder, inteligência, sabedoria,
imortalidade e de todos os bens. Em troca, a lua perece cada mês, e de certo modo,
morre, e é símbolo de como é o homem; depois torna a nascer e cresce, para
demonstrar a ressurreição futura”47

De todos os escritos de Teófilo, o meu preferido é aquele em que ele trata mais diretamente
sobre a constituição da natureza humana. A crença unânime entre os imortalistas é a de
que o homem foi criado naturalmente possuindo a imortalidade, isto é, que a alma é
naturalmente imortal, e isso vale para todo mundo, justos ou ímpios, crentes ou incrédulos.
Por outro lado, eu não digo que a alma foi criada naturalmente imortal (o que já vimos que
é uma heresia), mas nem que ela foi criada mortal, e sim que foi criada com a
possibilidade de ambas, mas o homem, ao escolher o pecado, trouxe a morte a si
mesmo, e, desta forma, o homem não se tornou imortal, mas mortal por natureza. É
exatamente isso o que Teófilo nos explica com grande sabedoria nessas palavras:

46 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.11.

47 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.15.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 45


“Poder-se-á dizer: ‘O homem não foi criado mortal por natureza?’ De jeito nenhum. ‘Então
foi criado imortal?’ Também não dizemos isso. ‘Então não foi nada?’ Também não
dizemos isso. O que afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem
imortal. Porque se, desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por
outro lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte.
Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma coisa
e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imortalidade, guardando o
mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e chegaria a ser
deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria a causa
da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos . O
que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e desobediência, agora
Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e misericórdia, contanto que o
homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem, desobedecendo, atraiu sobre si a
morte, assim também, obedecendo à vontade de Deus que quer, pode adquirir para si a
vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e mandamentos santos, e todo aquele que os
cumpre pode salvar-se e, tendo alcançado a ressurreição, herdar a imortalidade”48

Teófilo acima foi simplesmente brilhante em suas colocações. Deus não criou o homem com
uma alma imortal, pois, se o tivesse criado imortal, «o teria feito deus»; nem tampouco o
criou mortal, senão poderia parecer que Deus é a causa da morte, ou seja, que Ele não
deixou a nós outra opção a não ser a morte. A imortalidade ou mortalidade, portanto,
estava dependente da escolha do homem. Dito em termos simples, a possibilidade de
possuir a imortalidade não estava baseada em uma alma imortal recém-implantada,
mas condicionada à obediência a Deus.

Mas, no Jardim, o homem preferiu comer do fruto proibido, pecou e desobedeceu ao


Criador, e atraiu a morte para si mesmo. Desde então o homem passou a ser naturalmente
mortal, por causa do pecado, que afetou tanto o corpo como a alma. O homem, desta
forma, «se tornou a causa da morte para si mesmo, porque Deus o fez livre e senhor de
seus atos». O homem tornou-se naturalmente mortal pela sua própria negligência e
desobediência. Mas Deus, pela Sua misericórdia, deu-nos a possibilidade de sermos
imortais, se obedecermos a vontade de Deus, podendo adquirir a vida eterna.

A pergunta que devemos fazer é: “O que Deus providenciou para poder nos conceder uma
vida eterna (imortalidade)”? A resposta não é uma alma naturalmente imortal, mas sim a
ressurreição dos mortos. A ressurreição é, por assim dizer, o “antídoto” para a
imortalidade, é por meio dela que os santos podem obter a vida eterna. Foi por isso que
Teófilo disse que, tendo alcançado a ressurreição, podemos herdar a imortalidade.

A imortalidade não é uma posse já garantida através da detenção de uma alma imortal em
nossa própria natureza, mas sim algo que herdaremos, no futuro, através da ressurreição
dos mortos, para aqueles que forem obedientes a Deus. Este pensamento mina toda uma
noção de imortalidade natural da alma, onde o homem já foi criado possuindo naturalmente
a imortalidade, onde tanto justos como ímpios viverão eternamente e são imortais, onde o
pecado afeta apenas o corpo e não a alma, e onde a ressurreição não passa de uma
encenação desnecessária e já estaríamos no Céu muito antes dela acontecer.

48 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.27.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 46


Essa realidade que os imortalistas não podem aceitar, que é o fato de que há uma “lacuna”
(inexistência) entre a morte e a ressurreição, que a Bíblia metaforicamente chama de
“sono”, era muito bem crida pelos Pais da Igreja, como Taciano, que também reiterou que,
da mesma forma que o homem não existe antes de nascer, ele também não existirá após a
morte, só voltando a existir através da ressurreição, quando se dará a reintegração de todos
os homens por ocasião do julgamento:

“Por isso, também cremos que acontecerá a ressurreição dos corpos depois da consumação
do universo, não como dogmatizam os estóicos, segundo os quais as mesmas coisas
nascem e perecem depois de determinados períodos cíclicos, sem utilidade nenhuma, mas
de uma só vez. Totalmente acabados os tempos que vivemos, dar-se-á a reintegração de
todos os homens por razão do julgamento. Então seremos julgados não por Minos ou
Radamante, antes de cuja morte, como dizem os mitos, nenhuma alma era julgada, mas o
juiz é o próprio Deus que nos criou. Por mais que nos considereis charlatães e palhaços,
nada disso nos importa, depois que cremos nesta doutrina. Com efeito, do mesmo modo
como, não existindo antes de nascer, eu ignorava quem eu era e só subsistia na
substância da matéria carnal – mas uma vez nascido, eu, que antes não existia, acreditei
em meu ser pelo nascimento – assim também eu, que existi e que pela morte deixarei
de ser e outra vez desaparecerei da vista de todos, novamente voltarei a ser como
não tendo antes existido e portanto nasci. Mesmo que o fogo destrua a minha carne, o
universo recebe a matéria evaporada; se me consumo nos rios ou no mar, ou sou
despedaçado pelas feras, permaneço depositado nos tesouros de um senhor rico. O pobre
ateu desconhece esses depósitos, mas Deus, que é rei, quando quiser, restabelecerá em seu
ser primeiro a minha substância, que é visível apenas para ele”49

A mesma verdade da natureza humana criada “neutra” podendo se tornar mortal ou imortal
pela sua própria escolha é reforçada também por Taciano:

“Todavia, como a virtude do Verbo tem em si a presciência do futuro, não por fatalidade do
destino, mas por livre determinação dos que escolhem, predisse os acontecimentos futuros,
freou a maldade por suas proibições e louvou os que perseveram no bem. Aconteceu,
porém, que os homens e os anjos seguiram e proclamaram Deus àquele que, por ser
criatura primogênita, superava os demais em inteligência, justamente ele que se havia
revelado contra a lei de Deus. Então a virtude do Verbo negou a sua convivência não só ao
que se tornara cabeça desse louco orgulho, mas também a quantos o haviam seguido. E o
homem, que tinha sido criado à imagem de Deus, apartando-se dele o espírito
mais poderoso, tornou-se mortal e aquele que fora primogênito, por sua transgressão e
insensatez, foi declarado demônio, e os que imitaram suas fantasias se transformaram no
exército dos demônios que, por razão de seu livre-arbítrio, foram entregues à própria
perversidade”50

“Nós não fomos criados para a morte, mas morremos por nossa própria culpa. A
liberdade nos deixou; nós que éramos livres, nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo
pecado. Deus não fez nada mau; fomos nós que produzimos a maldade; nós que a
produzimos, porém somos também capazes de recusá-la”51

49 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.6.

50 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.7.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 47


E a realidade de que a ressurreição não é somente do corpo, mas também da alma,
também era crida por Taciano, seguindo o exemplo de todos os outros Pais da Igreja de sua
época que já foram citados fazendo o mesmo tipo de menção, tais como Justino, Policarpo e
Teófilo:

“Com efeito, nem a alma poderia por si mesma jamais se manifestar sem o corpo, e nem a
carne ressuscita sem a alma”52

A alma, segundo Taciano, não pode jamais se manifestar sem o corpo. Ele certamente
deveria explicar isso para os imortalistas atuais, que creem e ensinam que passaremos
longos tempos manifestados no Céu apenas em alma e sem um corpo físico ressurreto. O
próprio Credo Apostólico (de origem antiga) prega a ressurreição do corpo, sem nada dizer
a respeito de imortalidade da alma.

Diante de tudo isso, a afirmação de que a imortalidade da alma é uma doutrina ortodoxa do
Cristianismo é uma lenda para aqueles que no mínimo se dão ao trabalho de estudar a
fundo os escritos patrísticos do primeiro ao segundo século d.C, que constituem um
verdadeiro arsenal de declarações altamente destrutivas contra os pilares da crença pagã
em uma alma imortal. Não, os Pais da Igreja mais próximos dos apóstolos jamais creram
que a alma era imortal, pois essa nunca foi uma doutrina apostólica. Com Orígenes, famoso
por fantasiar e metaforizar tudo, e Clemente de Alexandria (que em muito seguiu a linha de
Orígenes), o Cristianismo passou a adotar a crença de que possuímos uma alma imortal.

Curiosamente, nem mesmo estes autores sabiam direito do que estavam falando. Orígenes,
que mais tarde foi declarado herege pela própria Igreja, não foi apenas aquele que começou
a propor que a alma era imortal; ele também propôs a preexistência das almas ou
reencarnação, ao induzir que foram os méritos de uma vida anterior que fizeram com que
Jacó tivesse sido amado por Deus:

“Então, depois de ter examinado mais a fundo as Escrituras a respeito de Jacó e Esaù,
achamos que não depende da injustiça de Deus que antes de ter nascido e de ter feito
algum bem ou mal - isto é nesta vida -, tenha sido dito que o maior serviria o menor; e
achamos que não é injusto que no ventre da mãe Jacó tenha suplantado seu irmão (...), se
crermos que pelos méritos da vida anterior com razão ele tenha sido amado por
Deus por merecer ser preferido ao irmão”53

O Dicionário de Teologia Evangélica também destacou essa influência grega sofrida por
Orígenes:

"A especulação acerca da alma na Igreja pós-apostólica foi fortemente influenciada pela
filosofia grega. Podendo ser visto pelo fato de Orígenes ter aceitado as doutrinas de Platão,
sobre a preexistência da alma, originalmente como uma mente (nous em grego) pura, a

51 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.11.

52 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.15.

53 Orígenes, I Principi, Torino 1968, Livro II, 9, 7.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 48


qual, por causa do seu afastamento de Deus, se abrandou para a condição de alma
(psyche), perdendo assim a sua participação na chama divina ao voltar-se para a Terra"54

O outro, por sua vez, propôs que os apóstolos foram evangelizar no inferno:

“Os apóstolos, seguindo o Senhor, evangelizaram também aqueles que se


encontravam no Hades; evidentemente era necessário que os melhores discípulos se
tornassem imitadores do Mestre também lá”55

Até mesmo Voltaire percebeu essa grande confusão que se tornou a Igreja depois da adoção
da crença de que a alma era imortal – cada um cria em uma coisa diferente:

“Que importam em questões inacessíveis à razão, essas novelas criadas por nossas incertas
imaginações? Que importa que os pais da Igreja dos quatro primeiros séculos
acreditassem que a alma era corporal? Que importa que Tertuliano, contradizendo-
se, decidisse que a alma é corporal, figurada e simples ao mesmo tempo? Teremos
mil testemunhos de nossa ignorância, porém nem um só oferece vislumbre da verdade” 56

Então, aquilo que antes era o evangelho simples, puro e sincero, onde a alma era
naturalmente mortal por causa do pecado e o homem poderia se tornar imortal na
ressurreição da alma e do corpo, se tornou a maior bagunça, e dali para frente começaram
a dar margens a uma série de outras grandes heresias que foram surgindo com o passar
dos tempos. Dentre tais heresias, destaca-se a crença no purgatório, a intercessão dos
santos (crida por muitos Pais da Igreja a partir do terceiro século d.C), a da preexistência
da alma, a da reencarnação, a da comunicação ou evocação dos mortos, a das rezas aos
mortos, e por ai vai.

O Cristianismo já estava infectado pela primeira mentira pregada pela serpente – que
“certamente não morrerás” (Gn.3:4), que era e é a base para todos os demais enganos e
mentiras perpetuados até os nossos dias. A partir do momento em que alguns «pensadores
recentes e fanáticos» começaram a implantar a semente da imortalidade da alma no seio da
Igreja antiga, uma série de outras heresias destrutivas começaram a entrar na Igreja como
o fruto deste processo. Graças a Deus que, possuindo tão grande arsenal de centenas de
provas bíblicas contra a imortalidade da alma e mais um outro arsenal insuperável de
provas históricas de que os primeiros Pais da Igreja jamais deram crédito a essa heresia,
hoje podemos rejeitar essa doutrina profana e colocá-la no mesmo lugar onde ela se
encontrava na época dos apóstolos: das portas para fora da Igreja Cristã e alicerçada
unicamente no mais puro paganismo.

II–A Dormição de Maria e a Imortalidade da Alma

54 Dicionário de Teologia Evangélica, "Alma", 1992, p. 1037.

55 Clemente de Alexandria, op. cit., Livro VI, 45,5: pag. 688-689.

56 Voltaire, Sobre a Alma, Cap.1.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 49


A “Dormição de Maria” é a crença de que Maria “dormiu” (morreu) e ressuscitou
posteriormente, assim como Jesus Cristo, sem ter sofrido a corrupção no túmulo. Ela é crida
pela Igreja Católica Ortodoxa, que comemora a morte de Maria e a sua ressurreição de
corpo e alma aos céus como a “Festa da Dormição da Mãe de Deus” no dia 15 de Agosto
(28 de Agosto no calendário juliano). Essa doutrina que sugeriu a assunção de Maria,
embora não haja nenhuma pista de que tenha sido proveniente dos apóstolos, é de origem
antiga, pois no quarto século d.C já haviam Pais da Igreja defendendo ou supondo essa
ideia. Mas a pergunta principal a se destacar aqui sobre a dormição de Maria é: o que
aconteceu com Maria entre a sua morte e assunção?

Como vemos, a Igreja Católica Ortodoxa crê que Maria ressuscitou de corpo e alma, e não
se ressuscita algo que não esteja morto. A crença presume que Maria morreu
completamente – corpo e alma – e posteriormente passou pela ressurreição, não
meramente corporal, mas uma ressurreição de corpo e alma. A Igreja Romana igualmente
crê que “Maria foi assunta de corpo e alma à glória celeste”57. Se Maria foi assunta de
corpo e alma à glória celeste, isso significa que a alma de Maria não estava já no Céu
quando ela ressuscitou.

A doutrina, portanto, presume que Maria morreu de corpo e alma e ressuscitou de


corpo e alma. A Igreja Ortodoxa declara isso categoricamente, enquanto que a Igreja
Romana, embora oficialmente não tenha tido uma declaração em ex cathedra que confirme
se Maria morreu ou não, conta com diversas declarações de papas e doutores da Igreja que
também criam que Maria passou pela morte. O papa João Paulo II, por exemplo, em sua
Audiência Geral de 25 de Junho de 1997, citou São Tomás de Aquino e disse:

“No que diz respeito às causas da morte de Maria, não parecem fundadas as opiniões que
querem excluir as causas naturais. Mais importante é investigar a atitude espiritual da
Virgem no momento de deixar este mundo. A este propósito, São Francisco de
Sales considera que a morte de Maria se produziu como efeito de um ímpeto de amor. Fala
de uma morte ‘no amor, por causa do amor e por amor’ e por isso chega a afirmar que a
Mãe de Deus morreu de amor por seu filho Jesus (Tratado do Amor de Deus, Liv. 7, cc.
XIII-XIV). Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, do ponto de vista
físico, tenha produzido a morte de Maria, pode-se dizer que o trânsito desta vida para a
outra foi para Maria um amadurecimento da graça na glória, de modo que nunca melhor
que nesse caso a morte pode conceber-se como uma ‘dormição’"58

Vemos claramente, portanto, o papa João Paulo II em uma audiência geral afirmando que
Maria morreu, e citando São Francisco de Sales que cria da mesma forma. O padre Miguel
Ángel Fuentes segue essa mesma linha e cita também outro teólogo católico para confirmar
a sua posição de que Maria passou realmente pela morte:

“Segundo G. Alastruey ('Tratado da Virgem Santíssima', BAC, Madrid 1945, pp. 405 e
seguintes), somente para citar um dos mais influentes mariólogos, a verdadeira doutrina (e

57 §966 do Catecismo Católico.

58 Audiência geral de 25 de Junho de 1997 de João Paulo II. Disponível em:


<http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1997/documents/hf_jp-
ii_aud_25061997_po.html>. Acesso em: 21/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 50


que deve se ter como teologicamente correta) é que a Virgem Maria verdadeiramente
morreu”59

O mesmo cita também Agostinho, Jerônimo, João Damasceno, André de Creta, João de
Tessalônica e Nicolás Cabasilas em apoio da tese de que Maria realmente morreu, de acordo
com a tradição tanto grega como latina. Portanto, vemos que a crença crida pela Igreja
Católica Romana também é a mesma crença da Igreja Católica Ortodoxa, de que:

1º Maria morreu de corpo e alma.

2º Maria ressuscitou de corpo e alma.

3º Maria foi assunta aos céus de corpo e alma.

Se a alma de Maria já tivesse subido aos céus no momento da morte, então Maria não teria
sido assunta “de corpo e alma” como pregam a Igreja Romana e Ortodoxa, mas teria sido
assunta somente de corpo, porque a alma supostamente já estaria no Céu. Isso
mostra clarissimamente que até a época em que se deu essa tradição não se cria na
imortalidade da alma, doutrina esta que ensina que a alma é imortal e parte desta vida
imediatamente no momento da morte, e que a ressurreição é somente do corpo. Se os
cristãos dos primeiros séculos cressem na imortalidade da alma, teriam ensinado que
apenas o corpo de Maria que morreu, que a alma dela subiu ao Céu no momento da morte
corporal, e que apenas o corpo ressuscitou e foi assunto ao Paraíso, como creem os
imortalistas atuais60.

A ressurreição de corpo e alma de Maria sugere fortemente que até aquela época a Igreja
ainda não havia ensinado errado a doutrina da imortalidade da alma. Para que os mais
mariólogos pudessem colocar Maria no Céu, não apelaram para uma “imortalidade da alma”,
pois essa doutrina não existia na Igreja, por isso tiveram que sugerir a crença
na assunção de Maria, onde tanto o corpo quanto a alma que morreram ressuscitariam e
adentrariam os céus. Tempos mais tarde, quando a doutrina da imortalidade da alma
ganhou força na Igreja da época, ficou muito mais fácil para os católicos colocarem todos os
santos no Céu: bastou ensinar que a alma era imortal.

Desta forma conseguem sustentar até hoje suas crenças na canonização dos santos,
intercessão dos santos, oração pelos mortos, purgatório e consulta aos mortos em cima
deste sustentáculo da imortalidade da alma, que é a base e fundamento de todas as demais
heresias. Os primeiros cristãos não tinham tal crença, tanto é que a palavra
“cemitério” veio dos cristãos primitivos. Os romanos chamavam de “necropolis”, que era
a cidade dos mortos, mas os cristãos, por crerem diferente dos romanos pagãos que
ensinavam a vida no pós-morte, decidiram dar um nome diferente ao local onde colocamos

59 FUENTES, Miguel Álgel. Él Teólogo Responde. Disponível em:


<http://www.exsurgedomini.xpg.com.br/>. Acesso em: 21/08/2013.

60 Vale destacar que eu não estou aqui defendendo a veracidade da crença na assunção de Maria, mas
demonstrando historicamente que, até o período em que tal crença foi proposta, não se criam na
imortalidade da alma – e isso independe totalmente se a crença de que Maria foi assunta aos céus é
verdadeira ou falsa.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 51


os mortos, chamando-o de “cemitério”, que vem do grego kimitírion, significando
“dormitório”.

Por que os cristãos primitivos deram o nome de “dormitório” para o lugar dos mortos, ao
invés de manterem o nome de necropolis? Porque, diferentemente dos pagãos que criam
que a alma era imortal, eles acreditavam que os mortos estavam realmente “dormindo” 61
até a volta de Jesus e a ressurreição para a vida.

61 No capítulo 6 deste livro analisaremos o que exatamente os cristãos primitivos queriam dizer quando
falavam que os mortos “dormem”.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 52


CAPÍTULO 3 – CONCEITOS BÍBLICOS SOBRE CORPO, ALMA E ESPÍRITO

I–Conceitos com relação à alma

Dualismo – A visão do ser humano no contexto imortalista é que este possui uma natureza
dualista, isto é, tem um corpo e possui uma alma [nephesh, no hebraico, psiquê, no grego],
que seria imortal e estaria presa dentro do corpo e que é liberta por ocasião da morte
deste, indo imediatamente para o Céu ou para o inferno, durante toda a eternidade. Na
ressurreição, apenas o corpo morto ressuscita, pois a alma imortal já está lá, liberta do
corpo, há muito tempo, religando-se a este por ocasião da ressurreição dos mortos que se
dá no momento da segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).

Essa é a visão dualista da natureza humana, de imortalidade da alma. Noutras palavras,


você é uma pessoa que tem outra “pessoa” dentro de você. A visão tricotomista do ser
humano ensina o mesmo contraste dualista de corpo e alma e prega que nós somos um
espírito, possuímos uma alma e moramos em um corpo. Portanto, ambas as visões –
dualista e tricotomista – serão refutadas da mesma forma, visto que possuem os mesmos
conceitos básicos sobre a constituição da natureza humana.

Holismo – O conceito holista da natureza humana prega, ao contrário da imortalidade, que o


ser humano não tem uma alma: ele é uma alma. Ele vive como uma alma, ele morre como
uma alma. Uma alma vivente significa apenas um “ser vivo”. Nós não temos uma alma
imortal presa dentro do nosso corpo que é liberta por ocasião da morte. A morte é o último
inimigo a ser vencido (pelo fator “ressurreição”), e não o libertador da “alma imortal” (cf.
1Co.15:26). Pessoas morrem, pessoas ressuscitam.

Corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa e não pessoas separadas. O
espírito é o princípio ativador da vida, é aquilo que dá animação ao corpo, é o sopro de
Deus por meio do qual respiramos e somos seres (almas) viventes. É esse o simplismo
bíblico sobre a criação da natureza humana, que elimina os complexos malabarismos
propostos por Platão em sua tese sobre a natureza dualista e a sobrevivência da alma após
a morte em um estado consciente.

II–Qual é o conceito correto?

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de


vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7)

Eis aí a passagem bíblica acerca da criação do ser humano, que nos dá um perfeito
entendimento dos conceitos bíblicos de corpo, alma e espírito. É aqui que entra em cena
algo muito desconhecido pela maioria das pessoas: biblicamente, o homem não tem uma
alma, ele é uma alma. Ele “TORNOU-SE” uma alma e não “obteve” uma! A alma é o que o
homem passou a ser, e não o que ele obteve de Deus. O corpo é a alma em sua forma
exterior. A ideia hebraica de personalidade é a de um corpo animado pelo fôlego de vida
(espírito) que alimenta o corpo, e não de uma alma presa dentro deste corpo. Assim,
podemos entender que:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 53


“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o
fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma vivente [alma]” (cf. Gênesis 2:7
– grifo meu)

A passagem bíblica que relata a criação do ser humano também nos deixa um sentido claro
de corpo, alma e espírito. Nenhum é um elemento que Deus implantou no homem, imaterial
e imortal, que saia dele após a morte, com consciência e personalidade. O espírito é tão
somente o fôlego de vida que Deus soprou em nós e que o possuímos pela duração de
nossas vidas terrenas. Nós permanecemos com este fôlego que nos concede respiração para
continuarmos vivos durante a nossa existência terrestre, mas, quando este sopro se vai, as
“almas viventes” tornam-se “almas mortas”.

O que retorna a Deus é o princípio de vida que ele soprou em nós a fim de conceder
animação ao corpo formado do pó, e não uma alma imortal. Este princípio animador da vida
é possuído tanto por homens como por animais (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20;
Gn.7:15; Sl.104:29). Este princípio é garantido tanto aos seres humanos quanto aos
animais pela duração de sua existência terrena. A alma, no conceito bíblico, é que o ser
humano “tornou-se” e não “obteve”. Deus não colocou uma alma no homem. Por isso
mesmo, morrendo o homem, morre a alma (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21;
Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21).

Já a visão dualista em sua totalidade defende que o sopro de vida que Deus soprou em
nossas narinas é a própria alma imortal implantada no ser humano. Sendo assim, o sopro
de Deus em nossas narinas é o espírito (alma) imortal implantado nele, totalmente
independente do corpo, preso dentro dele e liberto após a morte, com consciência e
personalidade. Sendo assim, a narrativa de Gênesis 2:7 deveria ser entendida da seguinte
maneira:

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o


fôlego de vida [espírito/alma imortal], e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf.
Gênesis 2:7 – grifo meu)

Essa é, contudo, uma interpretação tendenciosa que deturpa completamente a clareza do


texto bíblico. Não é necessário ser nenhum grande teólogo para perceber que tal
interpretação é inválida pelo fato que adultera os sentidos primários de corpo, alma e
espírito, que são deixados de maneira bem clara na narrativa da criação da natureza
humana em Gênesis 2:7. Além de ignorar o fato de que a primeira vez que alma [nephesh]
é mencionada na Bíblia é relacionado ao próprio ser humano como um todo, tornando-se
uma alma e não obtendo uma, também altera nephesh para o meio do versículo quando na
realidade ela é claramente relacionada ao final deste. Tudo não passa de uma completa
manipulação bíblica textual.

A passagem da criação do homem coloca nephesh no fim do verso, e não no meio como
querem os imortalistas. A alma é o que o homem “tornou-se”; o “espírito” é o que foi
soprado nele para dar animação ao corpo formado do pó. Pelo fato de Deus não ter revelado
a Moisés uma realidade dualista do ser humano, este narra simplesmente o princípio
animador da vida dando animação a uma “alma vivente”. Esse total simplismo bíblico nega
inteiramente que a natureza humana seja dualista, composta por uma alma imortal e por
um corpo mortal. A revelação de Deus a Moisés incluiu apenas um corpo proveniente do pó

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 54


tornando-se animado, sem qualquer tipo de alma sendo ingerida dentro da substância
corporal para lhe conceder imortalidade.

A forte tentativa de ignorar o simplismo bíblico no relato da criação humana não provém de
alguma razão teológica (de fato, os imortalistas fazem de tudo para colocar uma “alma
imortal” no relato da criação onde não aparece nada disso), mas sim porque negam em
aceitar o fato óbvio de que a narração da criação traz uma natureza holista e não dualista
do ser humano. Isso, evidentemente, os faria negar a sua crença de que Deus tenha
implantado no homem um elemento eterno lhe concedendo imortalidade, o que daria um
fim na doutrina do “estado intermediário” e do tormento eterno.

Que nephesh não é o próprio espírito [ruach, no hebraico] implantado no ser humano com
imortalidade e personalidade, isso fica muito bem claro na Bíblia Sagrada, embora sejam
coerentes em alguns de seus sentidos secundários. A ignorância em aceitar o sentido claro
de corpo, alma e espírito de acordo com a Bíblia segundo Gênesis 2:7 causa, além de
adulterações no sentido do texto, uma confusão ainda maior para solucionar os problemas
depois, por causa da interpretação tendenciosa e errônea por parte dos dualistas. E este é
apenas o início do fim da imortalidade da alma.

III–O que é o “espírito” [ruach] e o que é a “alma” [nephesh]?

Espírito, no original hebraico “ruach”, significa literalmente: “sopro, vento”. É o fôlego de


vida que Deus soprou em nossas narinas tornando-nos almas viventes. Para os imortalistas,
significa nada a mais e nada a menos do que a própria alma imortal implantada no homem,
um segmento com consciência e personalidade. Mas isso não é verdade. A seguir, apresento
inúmeras provas de que o espírito não tem parte nenhuma com um ser vivo inteligente que
sobrevive fora do corpo:

O fôlego de vida sai do ser humano – Uma grande prova de que o fôlego de vida (espírito)
que Deus soprou em nós não é uma alma imortal, é que a Bíblia afirma categoricamente
que nós o perdemos por ocasião da morte (cf. Jó 27:3; Jó 34:14-15). Ora, se fosse uma
entidade consciente presa dentro de nós, então continuaria conosco após a nossa morte,
mas isso não é verdade: a Bíblia caracteriza a morte como a retirada do fôlego de vida
(sopro). Isso prova que o “espírito” que possuímos nada mais é do que o sopro da parte de
Deus que concede animação ao corpo, sendo freqüentemente caracterizado como sendo o
“sopro de Deus” (cf. Jó 33:4).

Quando é retirado por Deus (expirando), o fôlego é reintegrado no ar, por Deus. O próprio
fato de nós possuirmos o “fôlego de vida” não significa possuir em si mesmo a imortalidade,
porque na morte este princípio volta para Deus. Isso nos mostra que a vida deriva de Deus,
é sustida por Deus e retorna para Deus por ocasião da morte. “Espírito”, no conceito bíblico,
em nada tem a ver com uma entidade viva e consciente tal como no estilo kardecista ou
platônico.

Tal fato é acentuado por Jó ao declarar: “Enquanto em mim houver alento, e o sopro de
Deus no meu nariz, nunca os meus lábios falarão injustiça, nem a minha língua pronunciará
engano” (cf. Jó 27:3,4). Enquanto o sopro de Deus está nas nossas narinas, nunca Jó

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 55


pronunciaria qualquer palavra de engano. Quando, porém, o sopro se vai, o que é dele?
Nada, não mais existe (cf. Jó 7:21; Jó 14:10-12).

Por isso ele acentua que enquanto estiver com ele o sopro de Deus nas suas narinas, os
seus lábios não pronunciariam engano. O sopro (fôlego de vida) é inteiramente dependente
de estar nas nossas narinas (corpo físico) para continuar ativo, dando continuidade a vida.
Sem o corpo físico, este princípio deixa de conceder vida em si mesmo. Ademais, se o
espírito [ruach – sopro] fosse a própria alma imortal implantada em nós, então a declaração
de Jó nos levaria a crer que a “alma imortal” está situada no nariz de cada indivíduo:
“Enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz” (cf. Jó 27:3).

Também lemos na passagem anteriormente citada: “E formou o Senhor Deus o homem do


pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma
vivente” (cf. Gn.2:7). Ora, é aí que se situa essa “alma imortal”, no nariz de cada indivíduo?
É mais do que evidente que o espírito (fôlego de vida) não é a alma implantada no ser
humano nas suas narinas, mas simplesmente o princípio que anima o corpo, concedendo-
lhe respiração a fim de se tornar um ser ativo.

Isso explica o fato bíblico deste princípio encontrar-se nas nossas narinas, e não na “alma”
ou em alguma outra parte do corpo. Evidentemente, o fôlego de vida (espírito) que
possuímos não tem parte nenhuma com uma noção dualista de corpo e alma; antes, é o
princípio animador do corpo, que garante a existência da vida terrestre de toda a carne, e
que volta para Deus quando expiramos na morte. Dizer que o fôlego de vida (espírito) que
foi soprado no homem em Gênesis 2:7 é uma “alma imortal” é o mesmo que dizer que
possuímos a alma em nosso nariz, o que creio não ser nem um pouco razoável.

O princípio animador do corpo - O corpo é formado de matéria, de pó. O espírito é o que dá


animação ao corpo, e assim tornamo-nos almas viventes. Sem o espírito em nós, o nosso
corpo morto não passa de matéria (pó) inanimado, sem vida. O que é o “espírito”, então? É
exatamente aquilo que dá animação ao corpo, é a “vida” por assim dizer. Obviamente não
tem parte nenhuma com algum outro “você” que volta para Deus, mas representa tão
somente a vida deixada nas mãos do Criador; é por isso que a Bíblia apresenta os animais
com o mesmo espírito-ruach possuído pelos humanos (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22;
Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29). No livro de Apocalipse é lido que até uma imagem de
escultura é dotada de espírito [pneuma, no grego] para tornar-se um ser animado:

“E foi-lhe concedido que desse espírito [pneuma] à imagem da besta, para que também a
imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a
imagem da besta” (cf. Apocalipse 13:15)

Aqui vemos que a imagem de escultura (um ser inanimado) foi dotada de espírito [pneuma]
e assim foi dada animação [vida] à imagem. É mais do que óbvio que Deus não colocou
uma “alma imortal” dentro da imagem e muito menos alguma entidade consciente que volta
com personalidade e inteligência para Deus, mas simplesmente concedeu-lhe o fôlego da
vida para dar animação à imagem de pedra. É exatamente a mesma coisa que sucedeu aos
seres humanos.

A mesma coisa sucedeu a nós: fomos formados do pó da terra, de matéria inanimada; até
que Deus soprou em nós o espírito [vida] dando animação à matéria formada do pó – e
assim o homem tornou-se uma alma [ser] vivente. O espírito é o que vem da parte de Deus
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 56
e que dá animação a um elemento inanimado, tornando tal elemento em animado,
concedendo-lhe vida. Quando as pessoas morrem, elas perdem a vida [espírito], tornam-se
novamente em matéria inanimada (pó), é por isso que a Bíblia afirma que o espírito de
todos retorna a Deus (cf. Ec.12:7), pois as pessoas perdem a vida, voltam a ser pó.

Deus, contudo, ressuscitará os nossos corpos mortais, soprando novamente em nós o


espírito [vida] na ressurreição (para sermos novamente um ser animado, vivente)
tornando-nos novamente em “almas viventes”. Tal fato é relatado com clareza em
Apocalipse:

“Então vi uns tronos; e aos que se assentaram sobre eles foi dado o poder de julgar; e vi as
almas daqueles que foram degolados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de
Deus, e que não adoraram a besta nem a sua imagem, e não receberam o sinal na fronte
nem nas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse
20:4)

Aqui é nos dito que as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus
reviveram. Se elas “reviveram”, é porque estavam mortas. O que aconteceu, então, nessa
ressurreição? Aconteceu que Deus soprou em nós novamente o espírito que vem da parte
dEle, para que saíssemos do estado inanimado (i.e, sem vida), tornando-nos novamente em
almas viventes:

“Assim diz o Soberano, o Senhor, a estes ossos: Farei um espírito entrar em vocês, e vocês
terão vida. Porei tendões em vocês e farei aparecer carne sobre vocês e os cobrirei com
pele; porei um espírito em vocês, e vocês terão vida. Então vocês saberão que eu sou o
Senhor” (cf. Ezequiel 37:5,6)

“Por isso profetize e diga-lhes: Assim diz o Soberano, o Senhor: Ó meu povo, vou abrir os
seus túmulos e fazê-los sair; trarei vocês de volta à terra de Israel. E quando eu abrir os
seus túmulos e os fizer sair, vocês, meu povo, saberão que eu sou o Senhor. Porei o meu
espírito em vocês e vocês viverão, e eu os estabelecerei em sua própria terra. Então vocês
saberão que eu, o Senhor, falei, e fiz. Palavra do Senhor” (cf. Ezequiel 37:12-14)

Notem que não é o nosso espírito que deixa o Céu para se religar ao corpo por ocasião da
ressurreição, mas sim o espírito de Deus que concede vida que nos é soprado novamente;
fazendo-nos sair dos túmulos, o local onde o povo que já morreu se encontraria. Nós
estaríamos sem vida na morte, mas Deus nos concederia novamente o espírito que parte
dEle a fim de nos conceder novamente vida por ocasião da ressurreição.

Não existe nenhuma religação entre corpo e alma, mas tão somente o princípio animador da
vida sendo novamente concedido a nós por ocasião da ressurreição dos mortos. Podemos
assim traçar uma correta analogia com a imagem inanimada de Apocalipse que recebeu o
espírito para tornar-se animada:

A NATUREZA HUMANA A IMAGEM DE APOCALIPSE


SEGUNDO GÊNESIS 2:7 13:15
Feito do pó da terra Feita de pedra
Material inanimado Material inanimado
Foi-lhe dado o espírito Foi-lhe dada o espírito
Passou a ter vida (tornou-se um Passou a ter vida
ser vivente)

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 57


Tornou-se um ser animado Tornou-se um ser animado

Como vemos, o “espírito” que possuímos é nada a mais do que aquilo que dá animação ao
corpo (matéria), concedendo-lhe vida. A analogia com a imagem de pedra relatada no
Apocalipse é válida porque o mesmo que sucedeu aos seres humanos sucedeu também à
imagem, ambos tornaram-se um ser animado após ser lhes soprado o espírito. É evidente
que o “espírito” soprado não é uma “alma imortal” (pois se assim o fosse então por lógica a
imagem de pedra também a deveria possuir, pois também foi dotada de espírito-pneuma),
mas é tão somente o princípio de vida concedido às criaturas viventes durante a
permanência de sua existência terrestre.

É claramente nos referido que o motivo dos ídolos mudos não serem vivos é decorrente do
fato de não possuírem “espírito-ruach”: “Eis que está coberto de ouro e de prata, mas no
seu interior não há fôlego [ruach] nenhum” (cf. Hc.2:9). E também em Jeremias: “Todo
ourives é envergonhado pela imagem que ele esculpiu; pois as suas imagens são mentira, e
nelas não há fôlego [ruach]” (cf. Jr.10:4).

Aqui vemos que os que não têm vida são descritos como sem “espírito-ruach”. Os ídolos são
considerados como “sem vida” pelo fato de serem destituídos de espírito-ruach, que é o
princípio animador de toda a vida. Quando um ídolo ou uma imagem ganha animação, é
descrito como constituído de “espírito-pneuma” (cf. Ap.13:15), porque passou a ter vida.
Em outras palavras, o espírito é nada a mais do que o poder capacitador de vida a qualquer
ser vivente, mesmo quando se trata de imagens de pedra ou de animais, como veremos
mais adiante.

Ele não é uma alma imortal, e nem algo que traz consigo imortalidade, consciência e
personalidade após a morte, mas apenas a vida que possuímos em nossa jornada em nossa
terrestre. Se o espírito fosse uma alma imortal, então a imagem de pedra de
Ap.13:15 e os animais também teriam “almas imortais”, pois são descritos
possuindo “espírito-pneuma”. Quando o espírito é retirado do ser humano, este volta
para o pó da terra (cf. Sl.104:29; Sl.146:4; Gn.3:19). Da mesma forma, quando o espírito
concedido temporariamente àquela imagem lhe é retirado, esta volta a ser uma pedra
inanimada. O processo é o mesmo: seres ou objetos inanimados que temporariamente
ganham vida pelo sopro do espírito-ruach em seu interior e que tornam-se novamente
inanimados (sem vida) após este sopro retornar ao Criador.

Sai o espírito, volta ao pó – Confirmando o fato anterior, vemos que os autores bíblicos
correspondiam bem ao fato de que a saída do espírito-ruach por ocasião da morte não
significa a continuação da vida em um outro estágio ou em uma dimensão superior, mas sim
a cessação dela. O salmista expressa em palavras o que aconteceu na criação humana e o
que acontece ao fim dela: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados” (cf. Sl.104:30). O
sopro de Deus [fôlego] nas nossas narinas, também denominado por “espírito-ruach” (cf. Jó
33:4; Jó 32:8; Is.42:5), é o que nos faz vivos – nos transforma em “almas viventes” (cf.
Gn.2:7).

A pergunta que fica é: quando este “fôlego” ou “espírito” deixa o corpo por ocasião da
morte (ao expirar), o que acontece ao ser racional? O verso anterior do Salmo no qual
acabamos de passar responde corretamente a esta pergunta: “Quando escondes o teu
rosto, entram em pânico; quando lhe retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó” (v.29).
O ser racional simplesmente volta ao pó. Quando o fôlego [espírito] é retirado do ser

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 58


humano, este não parte desencarnado para um estado intermediário, mas simplesmente
deixa de existir – volta a ser pó.

A saída do espírito por ocasião da morte não significa um ser racional deixando o corpo. Jó
declara isso enfaticamente nas seguintes palavras: “Porém, morto o homem, é consumido;
sim, rendendo o homem o espírito, então onde está ele? Como as águas se retiram do
mar, e o rio se esgota, e fica seco, assim o homem se deita, e não se levanta; até que não
haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf. Jó 14:10-12).

Aqui vemos a entrega do espírito não significa levar consciência e personalidade na morte,
porque mesmo assim ele não é despertado até não existir mais céus. Após afirmar que o
homem rende o seu espírito na morte, Jó faz a pergunta que não quer calar: “Onde ele
está”? Isto é, para onde ele vai? O que acontece com ele? Simplesmente, deixa de existir.
Não vai desencarnado para o Céu. Ele torna-se como as águas que se retiram do mar e
como um rio que se esgota e fica seco. Essa analogia feita por Jó nos mostra claramente
que o homem não mais existe.

Assim como quando as águas se retiram do mar este já não existe, e quando o rio se esgota
fica seco e desaparece, assim também do mesmo modo o homem na morte já não existe. O
ser racional só volta a atividade quando “não existir mais céus” (v.12), o que o Novo
Testamento relaciona à “ressurreição do último dia” (Jo.6:39,40), quando “os céus e a terra
que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para a
destruição dos ímpios” (cf. 2Pe.3:7).

Se a retirada do espírito do homem na morte significa a ida imediata na presença de Deus


em estado desencarnado, então a analogia feita por Jó seria nula e sem sentido. Tal
analogia nos revela que o ser racional deixa de existir após a entrega do espírito-ruach. Tal
fato é apresentado com ainda mais clareza no Salmo 146:4 – “Quando o espírito deles se
vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4).

A entrega do espírito não significa a continuação de vida em um estado desencarnado, mas


sim a cessação dela, pois os “pensamentos perecem”. Sendo que os próprios imortalistas
atribuem o processo de pensamento como função da alma, a sede dos pensamentos, seria
imprescindível que eles continuassem existindo após a entrega do espírito na morte, caso
fosse um ser racional com inteligência e consciência. Contudo, os próprios pensamentos
perecem, pois não existe ser racional na morte.

A alma e o sangue – Em Levítico 17:11, lemos: “Porque a vida da carne está no sangue”.
No texto original hebraico, “vida” aqui é a tradução de nephesh, de modo que a
transliteração correta da passagem seria: “A alma da carne está no sangue”. O motivo pelo
qual a alma é igualada ao sangue provém do fato de que a vitalidade da vida-nephesh
reside no sangue. Em outras palavras, sem sangue não há vida-nephesh. O corpo não é a
prisão de uma alma imaterial, pois a alma da carne está no sangue.

Isso não faz sentido caso a alma fosse algo imaterial implantado dentro de nós, pois se
assim o fosse não teria parte nenhuma com o sangue. Também lemos certa afirmação em
Gênesis no mesmo estilo: “Carne, porém, com sua vida [nephesh] isto é, com seu sangue,
não comereis. Certamente requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida [nephesh];

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 59


de todo animal o requererei, como também da mão do homem, sim da mão do próximo de
cada um requererei a vida [nephesh] do homem” (cf. Gn.9:4,5).

Ora, se a vida (alma- nephesh) do homem é o sangue, então sem o sangue não há vida
(alma-nephesh). Isto é somente lógica. O homem sem sangue não pode permanecer vivo
de acordo com esta declaração de Gênesis. Pois a vida [alma-nephesh] está no sangue.
Como então assumir que uma pessoa sem sangue (um espírito incorpóreo, por exemplo)
possa ser considerada viva em um “estado intermediário”? Não faz sentido. Sem sangue
não há vida, pois “a alma da carne está no sangue”. Como o erudito Basil Atkinson
corretamente assinala: “A alma do homem está em seu sangue e, de fato, o seu sangue é a
sua alma”.

O maior problema da teologia imortalista é que eles pensam que o sangue está relacionado
apenas ao corpo físico, externo, e que, portanto, sem sangue não há mais vida no corpo,
mas a alma não é afetada com isso e permanece viva subsistindo sem o corpo em algum
lugar. Em outras palavras, para os dualistas é extremamente crucial que o sangue seja a
vitalidade apenas do corpo e não da alma. Caso contrário, a alma não escaparia da morte,
tanto quanto o corpo. O texto bíblico, porém, ao invés de dizer “o sangue do vosso corpo”,
diz “o sangue da vossa alma” (nephesh – Gn.9:5). Isso mostra que a alma subsiste viva
através do sangue tanto quanto o corpo físico.

E assim matamos dois coelhos de uma só vez: o primeiro, é aquele que desassocia a alma
do sangue e ensina que somente o corpo é movido pelo sangue e só existe com a vitalidade
deste (o que já vimos que é falso, pois o sangue desempenha o mesmo papel para com a
alma), e o segundo é o de que a alma seria uma entidade espiritual imaterial infundida
dentro de nós. Se fosse, não estaria dependente de algo físico e tangível (como o sangue),
e a Bíblia não diria que “a sua alma-nephesh, isto é, o seu sangue, não comereis”, pois
seria ilógico e sem qualquer possibilidade “comer a alma, ou seja, o sangue”.

Uma coisa estaria tão desassociada da outra que tal sentença seria no mínimo absurda.
Uma seria tangível e a outra intangível, uma seria material e a outra imaterial, uma
desceria ao túmulo na morte e a outra aos céus, uma estaria ligada ao corpo e a outra ao
espírito. Como dizer que a alma é o sangue com tantos contrastes que a teologia imortalista
afirma que os separa? Uma coisa não teria nada a ver com a outra, e, portanto, não seriam
igualadas. Só foram porque a linha dualista que separa a alma do corpo e os contrasta
realmente não tem qualquer cabimento bíblico.

Portanto, não restam objeções ao fato de que não existe alma sem sangue; sem sangue
não há vida. Não existe qualquer chance ou possibilidade de existir um “estado
intermediário” de “espíritos incorpóreos” pré-ressurreição ausentes de corpo. O fato bíblico
de que a alma da carne está no sangue e de que a vida [nephesh] do homem é o seu
sangue nos mostra que não pode uma pessoa ser considerada como “viva” em algum lugar
sem a vitalidade da vida-nephesh que reside no sangue.

Na morte, o coração deixa de bater, o sangue deixa de circular, e tornamo-nos almas


mortas. Só voltaremos ao estado de vida novamente quando estivermos com a vitalidade da
vida, com o sangue, sem o qual não existe vida [alma-nephesh]. Poderíamos resumir o
argumento nas seguintes premissas:

(1) A alma da carne está no sangue – cf. Lv.17:11.


(2) Não existe vida [alma - nephesh] sem sangue – cf. Gn.9:4,5.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 60
(3) Na morte, perdemos o sangue, a vitalidade da alma.
(4) Sem o sangue que dá vida a alma, não existe alma.
(5) Só voltaremos a ser reconstituídos de sangue novamente na ressurreição.
(6) Logo, a alma ganha vida novamente a partir da ressurreição dos mortos.

O homem torna-se uma alma vivente – Uma outra prova importante para que possamos
compreender que o espírito não é uma alma imortal é a própria continuação da passagem
de Gênesis 2:7 – “...soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma
alma vivente”. Duas coisas são interessantes aqui. Em primeiro lugar, a alma é o que o
homem “tornou-se”, e não o que ele “obteve”. Como já vimos, Deus não colocou uma alma
no homem, como erroneamente pensa a doutrina dualista.

Em segundo lugar, com a implantação do sopro de Deus em nossas narinas, o homem


tornou-se uma “alma vivente”, e não uma “alma imortal”! Ora, se a interpretação correta
fosse a dualista, então a sequência imediata de tal passagem seria que o homem tornou-se
(ou melhor, “obteve”) uma “alma imortal”, “imaterial”, pois o termo “alma vivente” após a
implantação do espírito-ruach implica que pode se tornar “alma morta” após a retirada do
espírito-ruach. Isso é somente lógica.

Quando a Bíblia diz que em resultado do sopro divino “o homem tornou-se uma alma
vivente”, ela está dizendo apenas que o corpo formado literalmente do pó da terra ganhou
animação e se fez um ser vivo, que respira – nada além disso. O sangue (vitalidade da alma
– cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5) começou a circular, o cérebro começou a raciocinar e o coração a
bater, com todos os sinais ativados. O homem tornou-se uma “alma vivente”, ou seja, ou
ser vivo, que deixa de existir na morte e volta à existência na ressurreição gloriosa.

Não houve um componente imaterial e imortal colocado no ser humano. Declarado em


termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”!
Evidentemente a alma é considerada “vivente” enquanto vive, passando a ser “alma morta”
por ocasião da retirada do fôlego de vida [espírito] no falecimento. Uma alma vivente
significa simplesmente um ser vivo, que morre. Alma é vista como a natureza humana como
um todo, e não como uma parte do ser humano separada do corpo e presa dentro deste.

O espírito sobe para Deus – Outra prova patente contra os imortalistas é o que Salomão
descreve em Eclesiastes: “E o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o
deu” (cf. Ec.12:7). É fato bíblico que todas as pessoas (sendo justas ou ímpias) desciam
para o Sheol na morte (cf. Gn.37:35; Jó 10:21,22; Sl.94:17; Gn.42:38; Gn.42:29,31;
Is.38:10,17; Sl.16:10; Sl.49:9,15; Sl.88:3-6,11; Jó 17:16). Para os imortalistas, Sheol é a
habitação dos espíritos incorpóreos e conscientes. Já para os mortalistas, significa
puramente “sepultura”, em um sentido mais amplo, como veremos mais adiante. O debate
sobre o conceito correto sobre Hades/Sheol será abordado mais a frente neste livro.

O que temos de fato, por hora, é que todas as pessoas desciam ao Sheol por ocasião da
morte. Onde se localiza o Sheol? Localiza-se nas regiões inferiores da terra (cf. Ef.4:9), no
“coração” desta terra (cf. Mt.12:40), em oposição ao Céu (cf. Mt.11:23). Os seguidores da
revolta de Coré “desceram... vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30,33). Eis aqui já a primeira
contradição dos imortalistas: O “espírito” sobe para Deus, e não “desce” para o Sheol
(cf. Ec.12:7)! Se o espírito fosse um elemento com consciência e personalidade, ele
deveria descer e não subir. Mas isso jamais é dito na Bíblia, pelo simples fato de que o
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 61
espírito é nada a mais do que o dom da vida [fôlego] concedido durante a duração de
nossas vidas terrenas, e não algum segmento que leva consigo consciência e personalidade
após a morte.

Sobe para Deus por ocasião da morte porque deriva de Deus, e volta para Deus. Salomão é
bem claro em dizer que o espírito subiu para Deus, e não “que desceu para o Sheol”!
Nisso vemos uma clara evidência que o espírito está longe de ser a própria pessoa como
uma entidade viva e consciente, mas é tão somente o princípio de vida que retorna para
Deus no momento da morte. Sendo que na época de Salomão todas as pessoas desciam ao
Sheol, que biblicamente fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), como é que
Salomão diz que o espírito sobre para Deus? Também em Atos 2:27, falando a respeito de
Jesus, entre a sua morte e ressurreição, o texto assim narra: “Porque não deixarás a minha
alma no Hades, nem permitirás que aquele que te é leal veja a corrupção”.

E também em Mateus 12:40 – “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no
ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração
da terra”. A alma de Jesus passou os três dias e três noites em que esteve morto no Sheol,
que fica debaixo da terra, e não no Paraíso! Isso, contudo, não impediu ele tivesse
entregado o seu espírito ao Pai nos dias em que esteve morto: “Pai, ao Senhor entrego o
meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46).

Ora, como é que Cristo passou os três dias em que esteve morto no Sheol (cf. Mt.12:40;
At.2:27), que fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), se a Bíblia diz que o
“espírito” dele subiu para Deus? Obviamente, porque o “espírito” não é o nosso “próprio eu”,
não sendo uma “alma imortal”, mas é tão somente o princípio animador da vida concedido
por Deus tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua existência
terrena, que volta para Deus por ocasião da morte.

Nisso fica claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” liberto na morte, pois, se assim
fosse, seguir-se-ia que Cristo teria passado (os dias em que esteve morto) com o Pai, e não
debaixo da terra, no Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27), pois o espírito sobe, e não desce!
Vemos, portanto, que se a visão dualista de que o espírito é um segmento consciente que
leva consigo personalidade, deveríamos pressupor que:

(1) O espírito desceria para o Sheol, e não voltaria a Deus (cf. Ec.12:7).

(2) Sendo que Cristo entregou seu espírito ao Pai, ele deveria ter subido aos céus na
morte, e não descido ao Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27).

Contudo, estas duas premissas imortalistas contrariam diretamente a Bíblia Sagrada, como
já vimos.

NA BÍBLIA SAGRADA NA TEOLOGIA DUALISTA


O espírito sobe para Deus na O espírito de todos deveria descer
morte – cf. Ec.12:7 (para o Sheol) na morte
Jesus entregou ao Pai o seu Se o espírito fosse um segmento
espírito mas mesmo assim esteve consciente com personalidade,
no Sheol (regiões inferiores da Cristo deveria logicamente estar
terra – cf. Ef.4:9) na morte com o Pai enquanto esteve morto

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 62


Vale também ressaltar que Cristo, depois de três dias em que esteve morto, ainda assim
declarou a Maria Madalena: “Não me detenhas, porque ainda não subiu para o Pai” (cf.
Jo.20:17). Óbvio, porque a entrega de seu espírito ao Pai não significou o seu regresso a
Ele, pelo fato de que o espírito não é um segmento consciente e com personalidade, mas
tão somente o princípio animador do corpo.

Tudo isso nos mostra de forma mais do que clara e lúcida de que o espírito que possuímos
não é uma outra pessoa que é liberta conscientemente após a morte, mas sim um princípio
que ativa o corpo concedendo-lhe animação. Como o corpo volta para o pó da terra na
morte, ele deixa de ser animado e, portanto, o espírito-ruach perde o seu sentido de
animação do corpo e volta para Deus por ocasião da morte.

A “salvação universal dos espíritos” – Uma verdade universal é dita em Eclesiastes 12:7 - “E
o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” . Essa é uma verdade
universal, ou seja, o espírito de todos volta para Deus, que o deu. Em lugar nenhum da
Bíblia está escrito que o espírito dos ímpios desce para o inferno ou para o diabo. Não, pois
todos os espíritos sobem para Deus.

Nisso também fica mais do que claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” fora do
corpo, pois, se assim o fosse, então teríamos uma salvação universal (de justos e ímpios),
pois o espírito de todos sobre para Deus! O que Salomão estava falando era simplesmente
para que se lembrassem do seu Criador nos dias da sua juventude (v.1), antes que chegue
à velhice (v.2-6), e com a morte “o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus,
que o deu” (v.12).

Esse processo é ocorrido em todos os seres humanos sejam justos ou ímpios. Assim como
todas as criaturas humanas devem se lembrar do Criador na juventude e assim como tanto
justos como ímpios envelhecem, assim também o espírito de todos sobre para Deus por
ocasião da morte. Em momento nenhum o autor deixa passar qualquer hipótese de que o
termo se restringisse apenas aos salvos, porque o próprio contexto mostra um processo que
sucede a todos os seres humanos.

O que Salomão (autor do livro de Eclesiastes – cf. Ec.1:1) estava relatando é uma verdade
universal de que o espírito [de todos] por ocasião da morte retorna a Deus, quem o deu. O
que retorna a Deus se refere ao espírito de todos os homens, não somente dos justos, mas
de “toda a carne”. O próprio fato do espírito de todas as pessoas voltar a Deus na morte nos
prova novamente que este espírito-ruach não é uma alma imortal ou a própria pessoa em
estado desencarnado, pois se assim sucedesse então apenas o espírito das pessoas boas
que subiria para Deus, e o das pessoas más desceria para o inferno ou para o diabo.

Todos os espíritos sobem para Deus porque o nosso espírito não é uma entidade consciente
com personalidade com destinos diferentes entre bons e maus após a morte, mas tão
somente o fôlego de vida presente em todas as criaturas durante a nossa existência
terrestre, princípio este que retorna para Deus porque provém dEle mesmo a fim de dar
animação para o corpo formado do pó. Por isso, o autor não faz a mínima questão de
diferenciar o destino do espírito de bons ou de maus por ocasião da morte. Novamente a
doutrina imortalista entra em choque contra os princípios da exegese e hermenêutica.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 63


Os animais também como alma – Uma outra prova clara de que “alma vivente” não significa
“alma imortal” é o fato de que aos animais também foi designado o termo “alma vivente -
nephesh hayyah” (cf. Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). A maioria das
pessoas desconhecem tal fato simplesmente porque os seus tradutores decidiram traduzir o
termo hebraico “nephesh hayyah” como “criaturas viventes” em referência aos animais, e
como “alma vivente” nas referências a seres humanos.

O motivo, evidentemente, não é por causa dos manuscritos originais, mas sim por
consequência de suas convicções religiosas, de que o homem conta com uma alma imortal
não possuída pelos animais. Em decorrência disso não quiseram comprometer as suas
doutrinas da imortalidade da alma humana criando um dilema de primeira ordem, e
tomaram a liberdade de traduzir o nephesh do hebraico como “criatura” quando em
referência aos animais e como “alma” quando em referência aos seres humanos.

Essa é a mesma adulteração reconhecida em outras inúmeras passagens bíblicas que


mostram também a alma-nephesh sendo morta ou destruída, o que também é ocultado
pela grande maioria das versões, embora fosse um conceito amplamente difundido na
Bíblia. O original, contudo, traz nephesh [alma], tanto a seres humanos, como também aos
animais. O termo alma-nephesh é empregado tanto para as pessoas quanto para os animais
porque ambos são seres conscientes.

Tanto homens como animais partilham do mesmo princípio animador de vida, isto é, o
“fôlego da vida”. Todo o ser vivente relaciona-se a todas as criaturas, não somente ao
homem, mas também aos animais (cf. Jó 12:10). O homem não recebeu uma alma de
Deus; ele tornou-se uma alma vivente, assim como os animais. A natureza de todo o
ser vivente é mortal, e não imortal, o que somente Deus é (cf. 1Tm.6:16).

Herdaremos uma natureza imortal com a ressurreição dos mortos na segunda vinda de
Cristo (cf. 1Co.15:53; 1Co.15:23). A alma não é algo imaterial e nem imortal, pois até
mesmo os animais são referidos como alma-nephesh. Sendo que no mesmo contexto em
que Deus dá a revelação a Moisés sobre a criação em Gênesis 1 e 2 a palavra nephesh
[alma] é uma referência não somente aos humanos mas também aos animais, fica claro
que Moisés não imaginava que este termo hebraico significasse em si mesmo a detenção de
imortalidade.

Doutra forma, teria ele apenas feito menção a este termo quando em referência aos
humanos, somente. Para ele o termo significava tão somente um ser consciente, sujeito a
morte tanto quanto os animais. Por isso, ele não se incomodava e nem se intimidava em
fazê-lo em menção a humanos e a animais. Quando os defensores da imortalidade da alma
se deparam com o fato bíblico de que nephesh também é mencionado em referência direta
aos animais e no mesmo contexto dos seres humanos, se dão conta do dilema
intransponível que são obrigados a encarar.

Afinal, se a alma é imortal e imaterial, então os animais também partilhariam desta mesma
qualidade que deveria estar presente somente nos seres humanos. A única solução lógica
para isso é exposta por Basil Atkinson: “Eles [o homem e os animais] não são criaturas
bipartites que consistem de uma alma e um corpo que podem ser separados e prosseguir

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 64


vivendo. Suas almas são a totalidade deles e compreende seus corpos, bem como suas
faculdades mentais”62

Os animais com espírito e fôlego – Ademais, exatamente a mesma palavra, no original


hebraico ruach, que é traduzida por “espírito”, é usada tanto em relação aos seres humanos
quanto a animais (cf. Gn.7:15; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.6:17; Sl.104:29). Ou seja: os
animais também possuem espírito-ruach da mesma forma que os seres humanos! A Bíblia
não faz sequer a menor distinção entre eles. O espírito “de toda a carne” entrou na arca de
Noé, e não foram apenas seres humanos que lá entraram:

“E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto
de Noé na arca” (cf. Gênesis 7:15)

Note que de toda a carne em que havia espírito de vida entraram de dois em dois para a
arca de Noé. Será que foram apenas os humanos que entraram na arca? É claro que não.
Isso deixa claro que os animais também possuem espírito de vida, pois o espírito-
ruach não é uma detenção apenas dos humanos. Dizer que os animais têm fôlego, mas não
tem espírito, é negar dois fatos claros na Bíblia Sagrada.

O primeiro, é que espírito [ruach] é usado tanto a animais como a seres humanos
indistintamente (cf. Gn.7:15). A Bíblia não faz a mínima distinção, porque “entraram na
arca de dois a dois de toda carne em que há um espírito vivo” (cf. Gn.7:15 – Young’s Literal
Translation). Se alguém alega que os animais não têm espírito, então além de contradizer a
Bíblia seria forçado a negar também que os seres humanos o possuam, pois a mesma
palavra é usada para os dois no mesmo contexto!

Também lemos em Gênesis 6:17:

“Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne
que há espírito [ruach] de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará”

A passagem é bem clara em relatar a eliminação completa de toda a carne em que há o


espírito-ruach, por ocasião do dilúvio. Se fosse correta a interpretação dos dualistas de que
o espírito significa uma alma imortal e que apenas os humanos a possuem, então
deveríamos pressupor que somente os seres humanos foram eliminados por ocasião do
dilúvio, pois a Bíblia relata bem claramente que toda a criatura em que houvesse espírito-
ruach seria desfeita. É evidente que os animais também foram eliminados no dilúvio, porque
eles também possuem espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29;
Ec.3:19,20).

Em Gênesis 7:21,22 lemos novamente a confirmação bíblica de que os animais também


possuem espírito-ruach: “E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave
como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o
que tinha fôlego de espírito [ ruach] de vida em seus narizes, tudo o que havia na
terra seca, morreu” (cf. Gn.7:21,22). Também lemos no Salmo 104:29 o rei Davi afirmando
que os peixes e os outros animais marinhos também possuem ruach:

62 ATKINSON, Basil F. C. Life and Immortality. Londres, pp. 1-2;.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 65


“Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia
está a terra das tuas riquezas. Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde há
seres sem número, animais pequenos e grandes. Ali andam os navios; e o leviatã que
formaste para nele folgar. Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo
oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes
o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu
pó. Envias o teu espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (cf. Salmos
104:24-30)

Diante do contexto, o escritor bíblico inspirado não está falando de seres humanos, mas de
animais marinhos, pequenos e grandes. E o que ele diz? Que, quando Deus retira-hes o
fôego (que o original hebraico traz ruach, espírito!), eles morrem e voltam ao pó! No verso
seguinte, é nos dito como eles são criados: Deus envia-lhes o espírito [ruach], e eles são
criados, e quando esse espírito [ruach] lhes é retirado, eles morrem e voltam ao pó. Ou
seja: o que diferencia humanos de animais no quesito da vida após a morte não é a suposta
possessão de um espírito no íntimo do ser, nem a posse de um espírito na criação ou a
retirada dele appós a morte, pois isso tudo isso acontece também com os animais,
mas é o fato de que um ressuscita e o outro não. Daí toda a importância da ressurreição no
NT, como sendo a esperança dos cristãos.

Isso tudo mostra que é fato indiscutível que os animais também possuem o mesmo espírito-
ruach possuído pelos seres humanos. Será que os animais ao morrer irão para o estado
intermediário junto com os homens? Claro que não. Fica claro que espírito significa
“vida”, e não um ser inteligente que sai do corpo na hora da morte. O segundo erro
provém do fato de que o espírito é o próprio fôlego de vida, conforme descrição de Gênesis
2:7 e o paralelismo de Jó 33:4, de Jó 32:8 e de Isaías 42:5. E todos – humanos e animais –
possuem o mesmo fôlego, e não fôlegos diferentes:

“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e
lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo
fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são
vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó”
(cf. Eclesiastes 3:19,20)

O que sucedeu na criação do homem é exatamente o mesmo que aconteceu na criação dos
animais: Deus soprou-lhes o fôlego de vida [espírito] e eles tornaram-se almas viventes.
Não há diferença alguma e nem vantagem nenhuma conosco em relação aos animais que
nos permita desfrutar de uma imortalidade inerente e incondicional diferentemente deles
que voltam para o pó. Todos foram feitos do pó e voltarão para exatamente o mesmo lugar:
o pó.

O mais interessante sobre esta última passagem (cf. Ec.3:19,20) é que o autor faz uso do
hebraico ruach (espírito) no mesmo contexto dos seres humanos, dizendo ainda que ambos
são iguais! “Todos tem o mesmo espírito-ruach” (v.19)! O escritor inspirado faz questão de
ressaltar o fato de que não apenas o fôlego-neshamah, como também o espírito-ruach é
possuído pelos animais, e, se adiantando a quaquer objeção imortalista, afirma ainda que o
espírito possuído por ambos é o mesmo, refutando qualquer psosibilidade de o espírito dos
humanos ser uma “alma imortal” e dos animais ser uma mera “respiração”!

Ele iguala em absoluto o espírito dos homens com o dos animais dizendo que são a mesma
coisa (v.19), e por consequência disso a vantagem dos homens sobre os animais não é
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 66
nenhuma (v.19), e, finalmente, conclui dizendo que o local que os homens partem na
morte é o mesmo caminho dos animais (v.20). Francamente, mas apenas uma
interpretação textual extremamente tendenciosa e mal feita que poderia chegar ao ponto de
negar o fato óbvio de que o espírito possuído pelos seres humanos não é diferente daquele
que é detido pelos animais, e que em decorrência deste fato ambos perecem igualmente na
morte e tem o mesmo destino: o pó da terra.

Aqui é claramente indicado a nós que o motivo pelo qual o homem não possui vantagem
nenhuma sobre os animais decorre do fato de que ambos possuem o mesmo espírito-ruach.
Ora, se o espírito-ruach dos animais não lhes concede uma imortalidade, então é óbvio que
o dos seres humanos também não lhes dá tal vantagem. Como os defensores da alma
imortal fizeram com tão grande prova irrefutavelmente contra o ensinamento dualista?
Simples, adulteraram a tradução. Preferiram tomar a liberdade em traduzir por “fôlego”
antes do que por “espírito”, como deveria ser traduzido. O hebraico tem palavra exata para
ambos, mas Salomão faz menção do ruach [espírito] para os animais e o faz no mesmo
contexto dos seres humanos e igualando-os a estes!

É óbvio que o “espírito” possuído por nós não significa uma alma imortal e muito menos
alguma qualificação em nós presente que nos ofereça vantagem alguma sobre os animais
ou que nos leve para o Céu após a morte. Antes, é nada a mais do que a vida presente não
apenas nos seres humanos, como também nos animais. O destino de ambos é o pó da
terra. Felizmente, a Bíblia nos assegura que existirá a ressurreição dos mortos para todos os
seres humanos (cf. Dn.12:2), que acontece na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).
É a ressurreição, e não a possessão de uma “alma” ou um “espírito”, que nos distinguem
dos animais no quesito “morte”.

Devemos também considerar mais alguns fatos importantes a ser mencionados. O primeiro
deles é que se os escritores bíblicos tivessem a ideia de que apenas os humanos possuem
espírito e os animais possuem apenas o “fôlego” (como ensinam os imortalistas), então eles
utilizariam essa segunda palavra para quando relacionado aos animais, pois o hebraico
possui palavra para fôlego [neshamah] e para espírito [ruach]. Mas quando aplicado aos
animais, ao invés de mencionarem apenas o fôlego-neshamah, eles mencionavam o
espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29)!

E, pior ainda, eles a mencionavam junto com os seres humanos sem fazer a menor
distinção entre eles (cf. Gn.7:15; Gn.6:17; Gn.7:21,22)! E mais, quando o rei Davi foi tratar
de peixes, ao invés de ele mencionar apenas o fôlego (como qualquer imortalista faria), ele
faz questão de mencionar o próprio espírito-ruach (Sl.104:29). Finalmente, se o fôlego é
aquilo que dá animação ao corpo e o espírito é uma alma imortal e consciente, então a
estátua de pedra do Apocalipse deveria ter sido revestida de fôlego para dar animação à
imagem, e não de espírito. Vemos, contudo, que o apóstolo João descreve a imagem de
pedra recebendo espírito-pneuma para conceder animação, e não “fôlego” (cf. Ap.13:15)!

Portanto, a não ser que os imortalistas queiram dar lições de Bíblia aos escritores bíblicos,
fica mais do que claro que o espírito que possuímos nada mais é do que o próprio fôlego de
vida que nos dá animação ao corpo formado do pó. Isso explica o paralelismo bíblico entre
fôlego e espírito (cf. Jó 33:4; Jó 32:8; Is.42:5), indicando que ambos tratam-se do mesmo
elemento e não de elementos diferentes; ambos são aquilo que dá animação à matéria,
nenhum sendo uma “alma imortal” ou algum elemento eterno constituído de personalidade,
pois até mesmo os animais o possuem.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 67


A imensa dificuldade por parte dos imortalistas em conciliar os conceitos de corpo, alma e
espírito com a Bíblia Sagrada, é que eles usam os conceitos kardecistas e platônicos de
dualidade de corpo e alma com o espírito sendo uma entidade consciente com
personalidade. Quando tentam conciliar isso com a Bíblia (que nos deixa um conceito
simples, claro e coerente desses princípios básicos) resulta em uma total confusão de
ideias, pois o dualismo grego de corpo e alma influenciado pelas doutrinas de origens pagãs
não se mistura com as doutrinas bíblicas acerca da criação do homem.

“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais,
e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o
mesmo fôlego [ruach – espírito], e a vantagem dos homens sobre os animais não
é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram
feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20)

O espírito não é uma entidade que traz consigo vida e personalidade após a morte – Uma
prova muito forte disso é o fato de que, falando de meros peixes, o salmista afirma: “Se
lhes cortas a respiração [ruach], morrem, e voltam ao seu pó” (cf. Sl.104:29). Ora, nem
mesmo qualquer imortalista chegaria ao ponto de alegar que o espírito-ruach dos peixes
leva consigo personalidade e consciência na morte. Dizer que com os seres humanos é
totalmente diferente é forçar o texto, pois a mesma expressão é empregada para ambos (cf.
Sl.104:29; Gn.7:15; Gn.7:22; Ec.3:21).

O processo que acontece com os humanos é o mesmo que acontece com os peixes:
“Escondes a tua face - e ficam perturbados, Tu ajunta o seu espírito – eles expiram, e
voltam para o pó” (cf. Sl.104:29 - Young’s Literal Translation). Embora você provavelmente
já tenha ouvido algo assim antes com relação aos seres humanos, essa passagem está
falando de meros peixes! Compare, por exemplo, tal passagem acima (referindo-se a
peixes) com o que Jó declara: “Se fosse a intenção dele, e de fato retirasse o seu espírito e
o seu sopro, a humanidade pereceria toda de uma vez, e o homem voltaria ao pó” (cf. Jó
34:14,15).

Veja que o mesmo processo que ocorre com os seres humanos acontece também com os
peixes: Deus retira o seu espírito [ruach], e eles voltam ao pó. Não há a mínima diferença
entre o processo que ocorre com um e o que sucede ao outro. Claro, os imortalistas
evidentemente preferiram traduzir na maioria das vezes “respiração” no Salmo 104:9 para
os peixes e “espírito” para os homens em Jó 34:14,15. Mas a palavra usada no original
hebraico é a mesma para ambos [ruach] e o processo que ocorre também é exatamente o
mesmo.

Sendo assim, o “espírito” que Cristo e que Estêvão entregaram a Deus nada mais era do
que as suas vidas humanas que voltavam para Deus que soprou-lhes o fôlego enquanto
estes ainda viviam. O espírito que retorna para Deus é, como vimos, simplesmente o
princípio animador da vida que concedido por Deus tanto para homens como para animais
durante a jornada terrestre.

O “espírito” não é o nosso “verdadeiro eu” – Certa vez, vi uma exemplificação que
compreende muito bem os sentidos reais de alma e espírito humanos no contexto da
criação. A vida surge quando um corpo inanimado (pó) se une com a força vital,
denominada de ruach (espírito ou respiração). Como resultado desta união, o homem
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 68
tornou-se uma alma vivente (cf. Gn.2:7). Em momento nenhum lhe é infundida uma alma;
ao contrário, ele se faz uma alma vivente quando Deus lhes sopra a respiração
[fôlego/espírito] nos seus corpos.

Poderíamos compará-lo com a “eletricidade” nesta analogia. A questão que fica é: O que
sucede à alma vivente, como resultado da junção da respiração com o pó? A resposta para
essa pergunta pode ser ilustrada através da nossa ilustração com a lâmpada. A lâmpada
pode ser analogicamente comparada com o corpo e a eletricidade com o espírito. Enquanto
a eletricidade circula por dentro da lâmpada, há luz. A luz é como a alma vivente, o ser
racional. Quando, porém, desligamos o interruptor da luz e a eletricidade cessa de circular
na lâmpada, para onde é que a luz vai?

Simplesmente deixa de existir. Não vai para uma outra dimensão. Ao sair da lâmpada, ela
simplesmente acaba. Igualmente, quando Deus resolve desligar a “eletricidade” da nossa
vida, o fôlego deixa de entrar de entrar em nosso corpo. Para onde vai a alma vivente? Para
onde vai a pessoa? Vai imediatamente para o Céu, para o inferno ou para o purgatório?
Não, deixa de existir. Exatamente como a luz. A Bíblia descreve este estado como um sono
pacífico (cf. Sl.13:3).

Mais um outro exemplo elucidativo: a alma é o resultado da junção do pó da terra com o


fôlego da vida (cf. Gn.2:7). Assim, entendemos que não há uma alma viva [vivente] sem o
corpo (pó) com o espírito (fôlego de vida). É como a água, que é a combinação de oxigênio
e hidrogênio. Mas se você separar os dois elementos a água desaparece. Não existe uma
alma vivente sem o corpo com o fôlego de vida. Poderíamos elucidar a questão da seguinte
maneira:

LÂMPADA + ELETRECIDADE = LUZ


LÂMPADA – ELETRECIDADE = SEM LUZ

OXIGÊNIO + HIDROGÊNIO = ÁGUA


OXIGÊNIO – HIDROGÊNIO = SEM ÁGUA

PÓ DA TERRA + FOLÊGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA VIVENTE [vida]


PÓ DA TERRA – FOLÊGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA MORTA [sem vida]

Estêvão conhecia a Bíblia, e sabia que o espírito voltava para Deus que é quem o deu (cf.
Ec.12:7). E quando ele entregou o espírito (cf. At.7:59,60), para onde Estêvão foi? Ele foi
para o Céu ou para o inferno? Ele foi arrebatado? Foi levado para junto de Cristo? Não. A
Bíblia diz simplesmente que ele “adormeceu” (cf. At.7:60). Igualmente, Jesus Cristo
entrega o espírito no momento da morte (cf. Lc.23:46), mas a Bíblia afirma que a sua alma
esteve no Sheol (cf. At.2:27), no coração da terra durante os três dias e três noites em que
esteve morto (cf. Mt.12:40), e não no Paraíso! Além disso, declara à Maria Madalena, após
três dias que esteve morto, que ainda não subiu para o Pai (cf. Jo.20:17). Isso nos revela
que o comprometimento de seu espírito (cf. Lc.23:46) não foi o seu regresso ao Pai. O
espírito separado do corpo não é o "real" você!

Na morte, o real volta ao pó (cf. Gn.3:19). O espírito de todos volta para Deus (cf. Ec.12:7),
pois foi Deus quem o deu. Esse é o princípio básico da vida: a vida deriva de Deus, é
sustida por Deus e volta para Deus por ocasião da morte. O corpo se desintegra (volta a ser
pó) e o fôlego da vida (espírito), que Deus assoprou originalmente nas narinas de Adão,
retorna para Ele. Esse é um princípio universal de que Deus recebe o espírito de todos,
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 69
evidentemente não sendo o nosso “verdadeiro eu”. Outra designação comum na Bíblia com
relação ao sentido de “alma” é de “vida”. A vida é o resultado do que o homem foi formado
(ou seja, pó da terra + fôlego de vida = vida [alma vivente]). Por isso mesmo, em muitas
ocasiões a palavra “alma” é corretamente traduzida simplesmente por “vida” ou como “vida
eterna” no sentido ampliado de alma-psiquê empregado no Novo Testamento.

Tal sentido secundário não adultera o sentido primário simplesmente porque não apresenta
nenhuma contradição com outras verdades bíblicas (como Gênesis 2:7 que narra o
simplismo bíblico da alma como resultado e não como parte da porção), e, ainda mais, é um
significado secundário plausível uma vez que a vida é o resultado dos elementos que
tornaram o homem um ser animado. Em outras palavras, se uma “alma vivente” é
simplesmente um “ser vivo”, a alma pode ser assim classificada, então, como a própria vida
humana. Veremos mais detalhes sobre isso neste estudo ao explorarmos algumas
passagens bíblicas tais como, por exemplo, a de Mateus 10:28, usada pelos imortalistas
como suposta “prova” da imortalidade da alma.

O corpo é a alma visível – A partir do relato da criação humana em Gênesis 2:7, podemos
perceber claramente que o homem é uma alma e possui um fôlego de vida que dá a
animação ao corpo formado do pó. O que seria então o “corpo”? Nada mais é do que a alma
visível. A alma é a pessoa integral, como o resultado do corpo formado do pó da terra com a
fusão do fôlego de vida [espírito] soprado em suas narinas para o homem tornar-se um ser
vivente. Dito em termos simples, o corpo não é a prisão da alma, mas reflete a própria alma
como visivelmente ela é. O Dr. Hans Walter Wolff faz a seguinte ponderação:

“O que nephesh [alma] significa? Certamente não a alma [no sentido dualístico tradicional]
(...) O homem não possui nephesh [alma], ele é nephesh [alma], ele vive como nephesh
[alma]”63

A Bíblia confirma tal posição relatando inúmeras vezes a morte do corpo como a morte da
alma (ver Lv.19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm.5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ag.2:13).
Nestas passagens, o original hebraico traz alma [nephesh] embora fosse o corpo (ou
“carne”) que jazia morto. Por exemplo: “Todos os dias da sua consagração para o Senhor,
não se aproximará de um cadáver” (cf. Nm.6:6). No original hebraico dessa mesma
passagem lemos: “kol-yemêy hazziyro layhvh `al-nephesh mêth lo' yâbho'” (cf. Nm.6:6).

Também lemos em Números 9:7 – “Estamos imundos por termos tocado o cadáver de um
homem; por que havemos de ser privados de apresentar a oferta do Senhor, a seu tempo,
no meio dos filhos de Israel?” (cf. Nm.9:7); no original hebraico: “vayyo'mru hâ'anâshiym
hâhêmmâh 'êlâyv 'anachnu themê'iymlenephesh 'âdhâm lâmmâh niggâra` lebhiltiy
haqribh 'eth-qorbanAdonay bemo`adho bethokh benêy yisrâ'êl” (cf. Nm.9:7).

Lemos também em Números 19:11 – “Aquele que tocar em algum morto, cadáver de
algum homem, imundo será sete dias” (cf. Nm.19:11); no original hebraico: “hannoghêa`
bemêth lekhol-nephesh 'âdhâm vethâmê' shibh`ath yâmiym” (cf. Nm.9:11). E dois versos
à frente: “Todo aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, e não se
purificar, contamina o tabernáculo do Senhor; essa pessoa será eliminada de Israel; porque
a água purificadora não foi aspergida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua

63 WOLFF, Hans Walter. Anthropology of the Old Testament. Filadélfia, 1974, p. 1.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 70


imundícia” (cf. Nm.19:13). No texto original hebraico: “kol-hannoghêa` bemêth
benephesh hâ'âdhâm 'asher-yâmuth velo'yithchathâ' 'eth-mishkan Adonay thimmê'
venikhrethâh hannephesh hahiv'miyyisrâ'êl kiy mêy niddâh lo'-zoraq `âlâyv thâmê' yihyeh
`odhthum'âtho bho” (cf. Nm.19:13).

Poderíamos ficar o livro todo repassando inúmeras passagens bíblicas que demonstram de
maneira clara que para os hebreus o corpo nada mais era do que a própria alma visível, não
tinha absolutamente parte nenhuma com qualquer segmento imaterial ou imortal. Por isso,
o cadáver de um homem era frequentemente relacionado à alma que jazia morta porque o
corpo é a alma visível.

Para Moisés e para os hebreus, a alma nunca foi imortal. Mas, para aquelas pessoas que
insistem em se opor à doutrina da mortalidade bíblica, “estarão em apuros para explicar
aquelas passagens que falam de uma pessoa morta como uma alma-nephesh morta (Lev.
19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6, 11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13: Ageu 2:13). Para elas é
inconcebível que uma alma imortal possa morrer com o corpo”64

A alma não é algo imaterial – Nenhum escritor bíblico tinha em mente a crença de que o
corpo é a prisão de uma alma imaterial dentro dele. Isso fica muito claro na Bíblia por
inúmeras razões. Em primeiro lugar, porque a Bíblia afirma que a alma emagrece: “E ele
lhes cumpriu o seu desejo, mas enviou magreza às suas almas” (cf. Sl.106:5). Evidente
que, se a alma fosse uma entidade imaterial, então ela não poderia “emagrecer” de jeito
nenhum! É óbvio que a alma é o ser integral do homem e, sendo assim, ela também
emagrece junto com o corpo (lembre-se de que o corpo é a alma visível).

Se a alma emagrece, então ela não é imaterial mas sim algo bem material, que nasce, que
cresce, que emagrece, que engorda, que sente sede, que envelhece e que morre. Se a
crença dos escritores bíblicos fosse de que apenas o corpo que sofre todas essas alterações
físicas naturais (como nascer, crescer, emagrecer, morrer, etc), então o salmista certamente
teria empregado a palavra hebraica bashar, que significa “corpo”, e não nephesh (alma). O
mesmo pode ser dito com relação aos demais pontos que apresentarei a seguir.

Isaías nos diz que “será também como o faminto que sonha, que está a comer, porém,
acordando, sente-se vazio; ou como o sedento que sonha que está a beber, porém,
acordando, eis que ainda desfalecido se acha, e a sua alma com sede; assim será toda a
multidão das nações, que pelejarem contra o monte Sião” (cf. Is.29:8). Uma entidade
imaterial não pode sentir sede, pois a sede é uma característica do corpo físico. No máximo
poderia sentir sede em um sentido puramente metafórico, como quando o salmista afirma
que tem “sede de ti [de Deus]” (cf. Sl.143:6). Mas no contexto no qual o texto de Isaías
está inserido percebemos facilmente que se trata não de uma linguagem poética ou
alegórica, mas natural e literal.

Ele fala de pessoas fisicamente famintas que sonham em comer algo, mas que acordam e
veem que estão vazias, e de pessoas com sede que sonham que estão bebendo algo, mas
que acordam e ainda estão desfalecidas, e a sua alma com sede. Sede do que? Sede de
Deus? Não, sede de beber algo, como o contexto indica. Trata-se de pessoas fisicamente

64 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 71


com sede, que sonham em estar bebendo algo, mas acordam e percebem que não beberam
nada, que ainda estão desfalecidas fisicamente, que a sua alma continua com sede. Nisso
fica muito claro que a alma é o próprio ser vivente como pessoa, e não algo imaterial dentro
dele.

Outro exemplo semelhante ocorre quando os israelitas murmuravam no deserto na


insistência por carne: “Agora, porém, seca-se a nossa alma [nephesh], e nenhuma cousa
vemos senão este maná” (cf. Nm.11:16). Eles estavam falando de um maná físico, e de
uma sede real, não meramente de algo simbólico ou em algum sentido espiritual. Portanto,
a alma que está seca se refere ao próprio físico que clama por outra comida além do maná.
Ou seja, a alma é identificada novamente como sendo algo físico e visível na forma do
corpo, e não em uma substância imaterial residente dentro do corpo.

Existem muitas coisas que um elemento imaterial não pode fazer. Uma dessas é chorar, por
exemplo. Contudo, lemos na Bíblia que a alma de tristeza verte lágrimas: “Chora de tristeza
a minha alma; reconfortai-me segundo vossa promessa” (cf. Sl.119:28). Se a alma derrama
lágrimas, então ela não é imaterial. Nada há nas Escrituas nada que possa mostrar que a
alma é um segmento imaterial na natureza do homem, afinal, se assim fosse esperaríamos
que ela não pudesse derramar lágrimas, uma vez sendo isso um fenômeno natural,
material, físico, visível.

Além disso, a Bíblia afirma categoricamente que a alma desce à cova após a morte (cf. Jó
33:18,22,28,30; Is.38:17; Sl.94:17). Se a alma fosse algo imaterial, então ela de maneira
nenhuma poderia descer à sepultura na morte (ela deveria era subir ao Céu ou ir para o
inferno). Também sabemos que a Bíblia afirma inúmeras e incansáveis vezes que a alma
morre, e uma entidade imaterial não pode falecer (ver a morte da alma em Nm.31:19;
Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30;
Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20; At.3:23;
Tg.5:20, etc).

Jó fala que “se comi os seus frutos sem dinheiro, e sufoquei a alma dos seus donos, por
trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Jó” (cf. Jó
31:39,40). “Sufocar a alma” significa sufocar a própria pessoa, porque algo imaterial não
pode ser sufocado. Por fim, a Bíblia declara a alma como em Gênesis 2:7: uma pessoa, e
não uma entidade imaterial. Assim podemos entender que Abraão “tomou a Sarai, sua
mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que
lhe acresceram em Harã; e saíram para irem à terra de Canaã; e chegaram à terra de
Canaã” (cf. Gn.12:5). Abraão não estava tomando para si substâncias imateriais, mas sim
algo bem material, pessoas, de carne e osso.

Concluímos, pois, que a alma não é um segmento imaterial, mas sim a própria vida humana
como o resultado da junção do pó da terra com o fôlego de vida (para dar animação ao
corpo morto), resultando em um ser vivo. Enquanto o dualismo platônico ensina que a
alma-psiquê é algo imaterial, intangível, invisível, eterno e imortal, as Sagradas Escrituras
apresentam a alma como referência a criaturas terrestres, incluindo os animais, referindo-
se a algo bem material, tangível, visível e mortal.

Sumariando, corpo e alma não são duas pessoas dentro de um único ser (um mortal e outro
imortal), mas sim duas características da mesma pessoa. A alma é a sede dos
pensamentos, que também perecem com a morte (cf. Sl.146:4). O corpo é um homem

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 72


como um ser concreto. Isso não significa dualismo entre corpo e alma, mas sim duas
características da mesma pessoa.

Como disse Dom Wulstan Mork:

“Não havia a dicotomia grega de alma e corpo, de duas substâncias opostas, mas uma
unidade, homem, que é bashar [corpo] de um aspecto e nephesh [alma] de outro. Bashar,
pois, é a realidade concreta da existência humana, nephesh é a personalidade da existência
humana”65

De fato, a própria Enciclopédia Católica fez uma interpretação muito feliz daquilo que
realmente significa “alma”, sem ter parte com algum segmento imaterial preso dentro do
homem:

“Nephesh [né·fesh] é um termo de muito maior extensão do que nossa ‘alma’, significando
vida (Êx 21.23; Dt 19.21) e suas várias manifestações vitais: respiração (Gn 35.18; Jó
41.13,21), sangue [Gn 9.4; Dt 12.23; Sl 140(141).8], desejo (2 Sm 3.21; Pr 23.2). A alma
no Antigo Testamento significa, não uma parte do homem, mas o homem inteiro — o
homem como ser vivente. Similarmente, no Novo Testamento significa vida humana: a vida
duma entidade individual, consciente (Mt 2.20; 6.25; Lu 12.22-23; 14.26; Jo 10.11, 15, 17;
13.37)”66

A alma na cova – Outro fator importante que mostra que os escritores do Antigo e do Novo
Testamento não imaginavam uma natureza dualista do ser humano é a resposta para a
pergunta: para onde vai o corpo quando morre? Biblicamente, para a cova, a sepultura. De
acordo com os imortalistas, a alma tem um destino diferente do corpo, prosseguindo de
imediato ao Céu ou ao inferno.

Sendo a alma a própria pessoa integral como o resultado do pó da terra com o fôlego de
vida, entendemos que não há uma alma viva sem a combinação de corpo e espírito. Sem
corpo não há uma alma vivente e sem espírito também não há alma viva. O que a Bíblia diz
a respeito disso? A alma regressa ao lugar de silêncio (a sepultura) ou seria levada para
tormentos eternos ou imediatamente ao Céu, tendo destinos diferentes do corpo? No livro
de Jó temos a resposta a esta questão:

“Para apartar o homem do seu designo e livrá-lo da soberba; para livrar a sua alma da
cova, e a sua vida da espada” (cf. Jó 33:18). Como vemos, o lugar para onde a alma
regressaria seria à cova (sepultura), e não para uma outra dimensão! Também continuamos
lendo no mesmo capítulo: “Sua alma aproxima-se da cova, e sua vida, dos mensageiros
da morte” (cf. Jó 33:22). Novamente é relatado o fato bíblico de que o lugar para onde a
alma se aproxima não é para o Céu ou para o inferno, mas para a cova. E novamente
continuamos lendo:

“Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer para a cova, e viverei para
desfrutar a luz” (cf. Jó 33:28). A clareza da linguagem é tão evidente que não necessita de

65 MORK, Dom Wulstan. The Biblical Meaning of Man. Milwaukee, Wisconsin, 1967, p. 34.

66 New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XIII, p. 467.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 73


maiores elucidações. O lugar para onde a alma iria era para a cova, não era o destino
apenas do corpo! Por que Eliú no livro de Jó omite completamente que a alma suba
consciente para o Céu, inferno, ou qualquer outro canto, mas diz que ela desce para a cova?

Ele estava tentando enganar os teólogos da doutrina da imortalidade? Bom, talvez. Mas,
apesar de ter todas as possibilidades de narrar a sobrevivência da alma à parte do corpo, já
assegurada em algum lugar “entre os salvos”, ele afirma de maneira categórica que o local
da alma é na cova. Ele manifesta claramente a sua visão holista bíblica de que a alma não
tem destinos diferentes do corpo após a morte. Ademais, além de relatar que a sua alma
desceria para a cova caso morresse, ele ainda afirma que, uma vez que continua com vida,
“viverei para desfrutar a luz”.

Em outras palavras, caso ele morresse já não veria mais luz nenhuma! Como se isso tudo
não fosse suficientemente claro, o salmista declara o mesmo ponto de vista do livro de Jó,
assumindo exatamente a mesma posição de que não é apenas o corpo que jaz na sepultura,
mas a alma também: “Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria
no lugar do silêncio” (cf. Sl.94:17). Ora, qual era o lugar do silêncio no qual o salmista
declara que partiria a sua alma?

Evidentemente não é uma referência ao Céu com altos louvores e muito menos aos terrores
e gritarias do fogo do inferno; sendo, antes, uma clara referência à sepultura, o verdadeiro
lugar do silêncio para o qual o salmista afirma categoricamente que não o corpo tão
somente, mas também a alma partiria após a morte. Quando o rei Ezequias estava à beira
da morte, ele relata a sua convicção de que a sua alma partiria para a cova, para a
corrupção:

“Foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a
livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados”
(cf. Is.38:17). O Senhor livrou a sua alma de ir para onde? Pro Céu? Pro inferno? Pro
purgatório? Não, de ir pra cova. Ezequias sabia que o destino de sua alma seria para a
cova, para o lugar de corrupção. Por isso mesmo, ele clama pela manutenção de sua vida
no capítulo inteiro (cf. Isaías 38). No Salmo 88:3, o salmista expressa a mesma ideia:

“Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura”
(cf. Sl.88:3). Outro fato interessante encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate
da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre, para que viva para sempre e
não sofra decomposição” (cf. Sl.49:8,9). Aqui fica claro que a alma também pode sofrer
decomposição; contudo, é passível de ser resgatada [na ressurreição] para viver para
sempre e não sofrer decomposição [na sepultura].

Com toda a clareza necessária, a Bíblia não deixa espaços para a heresia de que o corpo é a
prisão de uma alma imaterial e imortal que tem destinos diferentes após a morte partindo
para o Céu ou para o inferno. Antes, a alma, como é a própria pessoa humana como o
resultado do pó da terra com o fôlego da vida (cf. Gn.2:7), jaz na sepultura. Não obstante a
isso, o salmista afirma: “Na prosperidade repousará a sua alma, e a sua descendência
herdará a terra” (cf. Sl.25:13). A alma também “repousa”, não é só o corpo que dorme!

Muito embora os escritores bíblicos tivessem a sua disposição a plena condição de relatar
que o corpo somente é que desce a cova ou que “repousa”, eles insistem em declarar que a
alma [nephesh] desce a cova, a corrupção, ao silêncio. Ponderamos: iriam todos eles

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 74


relatar que a alma jaz na cova caso tivessem em mente que após as suas mortes a sua
alma partiria logo para qualquer lugar, menos para a cova?

É óbvio que não! A crença dos escritores bíblicos era de uma natureza holista e não dualista
do ser humano, de modo que a alma não escapava da sepultura. É digno de nota, também,
o fato de que nunca em passagem nenhuma da Bíblia há qualquer declaração de algum
relato da alma subindo ao Céu ou descendo para o inferno. Em absolutamente todas as
vezes em que alguém relata o local onde a sua alma partiria com a morte, diz respeito
somente a sepultura.

Evidentemente a alma descer para a cova é a conclusão dos escritores bíblicos diante do
fato de que a alma morre, e é exatamente isso o que veremos a seguir. Afinal, “que homem
há, que viva, e não veja a morte? Livrará ele a sua alma do poder da sepultura?” (cf.
Sl.88:48). Não! Ninguém! Todos os homens são mortais e não tem uma vida inerentemente
imortal; a alma de todos está sujeita ao poder da sepultura! O salmista deixa nítido que
todos os homens morrem e descem à sepultura, e que esta morte não se resume apenas ao
corpo, mas também à alma, fazendo a pergunta retórica: “livrará ele a sua alma do poder
da sepultura”?

Diante de tudo isso, apenas alguém bem mal intencionado para acreditar que os escritores
bíblicos acreditavam que a alma tinha destinos diferentes do corpo após a morte, uma vez
que a Bíblia apresenta tantas vezes não só a morte da alma, mas também a sua descida ao
silêncio e a cova (sepultura), bem como que a alma está “repousando”. Sendo assim, a
visão bíblica, como vimos, é holista, e não dualista.

Paralelismo entre corpo e alma - Somente aquele que entende que corpo e alma são duas
características da mesma pessoa e não duas coisas opostas, entenderá o paralelismo bíblico
entre corpo e alma: “Ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente; a minha
alma tem sede de Ti; meu corpo Te almeja” (cf. Sl.63:1). Corpo e alma não são dois
opostos; doutra forma seria impossível que eles fossem colocados intercambiavelmente.
Isso seria uma afronta para a doutrina dualista, que prega exatamente o contrário disso,
isto é, que corpo e alma são dois opostos, dois extremos distintos, material e imaterial,
mortal e imortal.

Qual nada, ambos são colocados intercambiavelmente em um paralelismo bíblico, porque


são duas manifestações da mesma pessoa, e não formas diferentes de existência. Nisso fica
muito claro a visão bíblica holista em detrimento da doutrina dualista. Colocar corpo e alma
intercambiavelmente como paralelismo seria uma completa afronta à visão grega dualista,
que prega exatamente o inverso disso, isto é, que um é antagônico – oposto – ao outro.

O mesmo paralelismo é feito no Salmo 84:2 entre alma, coração e carne e também em Jó
14:22 incluindo corpo e alma. Devemos sempre lembrar que, de acordo com o dicionário,
paralelismo é “um encadeamento de funções sintáticas idênticas ou um encadeamento
de orações de valores sintáticos iguais. Orações que se apresentam com a mesma estrutura
sintática externa, ao ligarem-se umas às outras em processo no qual não se permite
estabelecer maior relevância de uma sobre a outra”67.

67 Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Paralelismo_sint%C3%A1tico>. Acesso em: 15/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 75


Paralelismo é, portanto, quando duas linhas expressam o mesmo pensamento em
linguagem ligeiramente diferente, ou quando o pensamento da primeira linha é completado,
ampliado ou intensificado na segunda, tendo a mesma aplicação prática. Noutras palavras,
se corpo e alma fossem dois distintos opostos como pregam os dualistas (o corpo mortal e a
alma imortal; o corpo corruptível e a alma incorruptível; o corpo material e a alma
imaterial), então o que esperaríamos seria justamente uma antítese, isto é, um contraste
nítido entre ambos que expressaria tal discrepância.

Contudo, o que vemos na Bíblia é que corpo e alma são usados intercambiavelmente como
paralelismo, porque não são dois opostos e nem duas “pessoas” dentro de um único ser,
mas sim duas características da mesma pessoa, pois os dois estão intimamente
relacionados; o corpo é a forma exterior da alma e a alma é a vida interior do corpo
humano. Por isso, eles não são opostos (como ensinavam os gregos dualistas), mas
intercambiáveis (como apregoa o holismo bíblico). Tal definição fere gritantemente o
conceito platônico da “alma imortal”.

A sede dos pensamentos – Alguma parte dos defensores da imortalidade da alma sustentam
que o fato dela ser utilizada biblicamente como fonte dos pensamentos humanos significa
que ela é um segmento imortal. Sustentam a diferença entre a parte mortal (que não
pensa) e a imaterial implantada por Deus (que comanda os sentimentos humanos). Essa
conclusão, contudo, carece inteiramente de respaldo teológico. Isso porque o coração
também é utilizado biblicamente como sede dos pensamentos, ainda mais do que a própria
alma.

Por exemplo, é nos dito que o coração é sede de alegria (cf. Pv.27:11), coragem (cf.
Sm.17:10), tristeza (cf. Ne.2:2), desânimo (cf. Nm.32:7), perturbação (cf. 2Rs.6:11),
tenção (cf. Is.35:4), ódio (cf. Lv.19:17), amor (cf. Dt.13:3), confiança (cf. Pv.31;11),
generosidade (cf. 2Cr.29:31), inveja (cf. Pv.23:17). O coração estremece (cf. 1Sm.28:5),
excita-se (cf. Sl.38:10), desmaia (cf. Gn.45:26), adoece (cf. Pv.13:13), desfalece (cf.
Gn.42:28), agita-se (cf. Pv.13:12).

Em outras ocasiões, o coração é claramente indicado como sendo a fonte dos pensamentos
e sentimentos do ser humano: “Pois do coração procedem os maus pensamentos, os
homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as
calúnias” (cf. Mt.15:39). Por isso mesmo, “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu
coração, porque dele procedem as fontes da vida” (cf. Pv.4:23). E quando Davi diz a
Salomão: "E você, meu filho Salomão, reconheça o Deus de seu pai, e sirva-o de todo o
coração e espontaneamente, pois o Senhor sonda todos os corações e conhece a motivação
dos pensamentos” (cf. 1Cr.28:9).

Portanto, se a alma é imortal porque em determinadas ocasiões é utilizada como fonte de


sentimentos e emoções, então o coração certamente não pode deixar de ser também. O
próprio fato de organismos materiais que perecem com a morte do corpo serem utilizados
como sede dos pensamentos juntamente com a alma, nos mostra que ambos não são duas
partes distintas (uma pensante e outra matéria irracional), mas sim duas manifestações do
mesmo ser mortal.

Não existe um aspecto espiritual em contraposição ao físico, nem o ser “interior” em


oposição ao “exterior”, mas sim o ser como criatura viva, consciente e pessoal. O

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 76


paralelismo bíblico entre alma e coração como sede dos pensamentos nos mostra que eles
não são duas entidades distintas, mas consistem em duas maneiras de se referir a si
próprio. Os escritores bíblicos se utilizavam de paralelismo entre coração e espírito como
sede dos sentimentos: “O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar
os ossos” (cf. Pv.17:22).

E também de paralelismo entre coração e alma: “O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à
prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma” (cf. Dt.13:3). Tal
paralelismo entre coração e alma nos mostra que ambos são tão somente agentes materiais
utilizados intercambiavelmente ao tratar-se dos pensamentos e sentimentos humanos. O
coração e a alma não são dois opostos (um material e outro imaterial; um mortal e outro
imortal), mas dois agentes que estão intimamente ligados entre si, sendo duas
características da mesma pessoa, e não entidades opostas.

Isso nos permite perfeitamente acentuarmos o parelelismo entre alma e coração e


colocarmos ambos como sede dos pensamentos, o que infelizmente não é possível no
modelo dualista tradicional. A verdade bíblica é a de que o sopro de Deus que nos traz
fôlego de vida é visivelmente presente na forma da respiração, e a alma é visivelmente
presente na forma do corpo. Por isso, corpo, alma, espírito e coração não são opostos e
nem distintos, mas características da mesma pessoa, o ser integral holista do ser humano.
A Bíblia Sagrada, em sua totalidade, contradiz gritantemente os conceitos platônicos da
“alma imortal”.

IV–A morte da alma

No Antigo Testamento – A Bíblia relata a morte da alma tantas inúmeras vezes que eu tive
que resumir citações condensadas aqui ao invés de passar uma a uma. O arsenal bíblico da
morte da alma é tão significativo ao ponto de nenhum exegeta sério poder contestar que
este é um fato. Ela não sobrevive a parte do corpo, mas, pelo contrário, morre com ele,
pelo que não existe “alma vivente” sem o corpo com o fôlego de vida. Quando o fôlego de
vida [espírito] é retirado, nós que somos almas viventes nos tornamos almas mortas. É por
isso que a Bíblia fala tão frequentemente na morte da alma também.

No Antigo Testamento, os escritores bíblicos quase cansaram de falar que a alma morre. No
texto original hebraico, a alma morria, era transpassada, podia ser morta, morria para esta
vida e morria para a próxima, a alma morria a toda hora. Josué conseguiu o “feito” de
exterminar muitas almas... (ver Josué 10:28 no original hebraico: “Ve'eth-maqqêdhâh
lâkhadh yehoshua` bayyom hahu' vayyakkehâlephiy-cherebh ve'eth-malkâh hecherim
'othâm ve'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lo' hish'iyr sâriydh vayya`as lemelekh
maqqêdhâh ka'asher `âsâhlemelekh yeriycho”).

A tradução literal ficaria assim: “Naquele dia tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o rei
a espada e exterminou toda a alma que nela vivia, sem deixar sobreviventes. E fez com
o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó”. E não foi só essa vez que Josué
conseguiu o feito extraordinário de matar não só o corpo, mas a alma também: em Josué
10:30, 31, 34, 36 e 38, a alma costumava morrer sempre. No original hebraico, Josué
“matou a espada todas as almas” (cf. Js.10:30), e “exterminou toda a alma” (cf.
Js.10:28). Definitivamente, se existia uma imortalidade da alma, então Josué deveria
ganhar uma medalha de honra ao mérito por tais feitos.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 77


Se alguém “matava uma alma acidentalmente”, podia fugir para uma cidade de refúgio
(cf. Js.20:3). Era possível aniquilar uma alma sem intenção (cf. Js.20:9). A alma morria
tantas vezes, que uma referência completa a todas as passagens nos faria superar os
limites de escopo deste livro. É claro que a maioria das versões bíblicas a nossa disposição
simplesmente não traduzem a palavra “alma” como colocada no original hebraico [nephesh]
pelo simples fato de que isso seria uma afronta à teoria imortalista de que é só o corpo que
morre e a alma não. Os personagens bíblicos não acreditavam que seria apenas o corpo que
morreria, pois eles categoricamente afirmam: “Quem contará o pó de Jacó e o número da
quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim
como o seu” (cf. Nm.23:10).

Veja que ele não diz: “que meu corpo morra a morte dos justos”, o que presumivelmente
seria a única coisa que os defensores da imortalidade da alma afirmariam. A própria alma
não escaparia da morte, e essa era a tão forte convicção de toda a Bíblia. A esperança deles
não era que as suas almas fossem imortais, mas sim que elas morressem as mortes
dignas dos justos, isto é, com honra. Este seria o fim deles, e não um início de uma nova
existência!

Tal convicção de que a alma também não escapa da morte pode ser encontrada mais
inúmeras vezes: “Dai-me um sinal seguro de que salvareis meu pai, minha mãe, meus
irmãos, minhas irmãs e todos os que lhe pertencem e livrareis as nossas vidas da morte”
(cf. Js.2:13). Caso os israelitas atacassem Jericó, as “vidas” da família de Raabe seriam
mortas. Poucos sabem, contudo, que o original hebraico verte novamente a morte da alma-
nephesh ao invés de “vida” como é traduzido por muitas versões. A Versão King James é
uma das versões que traduzem nesta passagem corretamente a morte da alma, como
sendo o próprio término da vida, a cessação da existência.

Em Deuteronômio 19:11, a tradução em português assim reza: “Mas, se alguém odiar o seu
próximo, ficar à espreita dele, atacá-lo e matá-lo, e fugir para uma dessas cidades...”.
Contudo, o original hebraico traz novamente a morte da alma: “Vekhiy-yihyeh 'iysh
sonê'lerê`êhu ve'ârabh lo veqâm `âlâyv vehikkâhu nephesh vâmêth venâs'el-'achath
he`âriym hâ'êl”. “Matá-lo” aqui é a tradução do original hebraico que traz nephesh: matar
a alma!

Em Jó 27:8, quando lemos que Deus eliminaria os ímpios, tirando a sua vida, o original
traduz por “tira a alma” [nephesh]: “Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado,
quando Deus lhe tira a alma [nephesh]”? O fato bíblico é que “a alma que pecar, essa
morrerá” (cf. Ez.18:4; Ez.18:21). Se Deus tivesse feito a alma imortal, teria dito a Ezequiel
que “a alma que pecar viverá eternamente em estado desencarnado”; ou, então, diria que
“a alma que pecar nunca morrerá”! Contudo, vemos que nem mesmo a alma está isenta da
morte.

Os autores bíblicos usavam e abusavam da morte da alma. Outro fato interessante


encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará
a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição” (cf.
Sl.49:8,9). Se a alma fosse algo à parte do corpo que se desliga deste por ocasião da
morte, então ela jamais poderia em circunstância alguma sofrer decomposição. O que
deveria sofrer decomposição seria o corpo, somente, e não a alma. Contudo, o verso 8 faz
menção a nephesh - alma!

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 78


A verdade é que no original hebraico a alma é explicitamente morta: “Para que nelas se
acolha aquele que matar alguém [nephesh] involuntariamente” (cf. Nm.35:15).
Evidentemente o hebraico nephesh [alma] nunca é traduzido na maior parte das versões
pelo simples fato de que isso iria suscitar o questionamento de que a alma claramente
morre com a morte do corpo. Por isso, traduzem até o “matar alguém”... e daí pulam
imediatamente para o: “...involuntariamente”.

Não traduzem por “matar alguma alma”, pois desta forma é muito mais fácil enganar os
leitores que não tem como descobrir usando apenas a linguagem disponível no texto em
português se o verso verte a morte apenas do corpo ou também da alma. O que bem
podemos observar, ao longo de toda a Bíblia, é que a alma morre tanto quanto o corpo (ou
até mais), mas isso é escondido dos leitores pela maioria das traduções. Tais casos
semelhantes ocorrem inúmeras vezes nas Escrituras.

Alguns, na tentativa de provar que a alma é imortal, argumentam usando o texto de 1ª Reis
17:21-22, que assim diz: “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor, e
disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-Te que faças a alma deste menino tornar a entrar nele. E o
Senhor atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu” (cf.
1Rs.17:20-22). Mas, na realidade, tudo o que este texto nos mostra é que a alma do
menino, que estava morta, voltou a ter vida – ele tornou-se novamente um ser vivente,
uma alma vivente. Corrobora com isso a variante linguística do texto, como observa o Dr.
Samuelle Bacchiocchi:

“Esta leitura, que se acha à margem da versão AV, apresenta uma construção linguística
diferente. O que retorna às partes interiores é a respiração. A alma como tal nunca se liga a
algum órgão ‘interior’ do corpo. O retorno da respiração às partes interiores resulta no
reavivamento do corpo, ou, poderíamos dizer, faz com que se torne uma vez mais uma alma
vivente”68

Concorda com isso também o significado secundário de alma como sendo "vida". Cristo
disse que aquele que queria segui-lo teria que odiar a sua alma-psiquê (cf. Jo.12:25). Odiar
a "si mesmo"69 ou a um elemento imortal que o próprio Deus tenha implantado no homem,
como creem os imortalistas, não faz qualquer sentido, razão pela qual a maioria das
traduções bíblicas tem vertido a passagem por "vida"70. Isso é o mesmo que ocorre em 1ª
Reis 17:22, onde alma aparece no sentido de vida. A "vida" voltou ao menino, como diz a
NVI: "O Senhor ouviu o clamor de Elias, e a vida voltou ao menino, e ele viveu" (cf.
1Rs.17:22), e desta forma ele passou a ser uma alma vivente novamente, não mais uma
alma morta71. Sobre isso, Bacchiocchi acrescenta:

68 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

69 Cristo disse para amar o próximo como a si mesmo (cf. Mt.22:39), e não para odiar a si mesmo, o que
seria uma contradição.

70 Tal como fazem a Almeida Revisada e Imprensa Bíblica, a Nova Versão Internacional e a Sociedade
Bíblica Britânica, além das versões católicas Ave Maria, a Bíblia de Jerusalém e versão da CNBB.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 79


“Até mesmo o Interpreter’s Dictionary of the Bible [Dicionário bíblico do intérprete], de
concepção liberal, em seu verbete sobre a morte declara explicitamente: ‘A partida do
nephesh [alma] deve ser vista como uma figura de linguagem, pois não continua a existir
independentemente do corpo, mas morre com ele (Núm. 31:19; Juí. 16:30; Eze. 13:19).
Nenhum texto bíblico autoriza a declaração de que a ‘alma’ é separada do corpo no
momento da morte. O ruach, ‘espírito’, que faz do homem um ser vivente (cf. Gên. 2:7), e
que ele perde por ocasião da morte, não é, falando-se apropriadamente, uma realidade
72
antropológica, mas um dom de Deus que retorna a Ele ao tempo da morte. (Ecl. 12:7)’”

Além disso, aquele que matasse alguma alma deveria ficar sete dias fora do arraial:
“Acampai-vos por sete dias fora do arraial; todos vós, tanto o que tiver matado alguma
alma [nephesh], como o que tiver tocado algum morto” (cf. Nm.31:9). Se tais
“exterminadores de alma” vivessem no século presente e vissem o que o conceito de “alma”
se tornou após a adoção universal do conceito platônico para este termo, iriam ficar
realmente assombrados em descobrir que mataram almas imortais!

A morte do corpo está sempre ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da
alma. Nós não temos uma alma presa dentro de nós que é liberta por ocasião da morte; nós
somos essa “pessoa” que morre e que revive por ocasião da ressurreição (cf. Ap.20:4)! É
por isso que, quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão, a Bíblia nos diz
repetidas vezes que “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (cf. Js.10:28, 30, 31,
34, 36, 38). Definitivamente não haviam avisado Josué que no máximo o que ele matou foi
somente um corpo!

Em Deuteronômio 11:9, lemos que “havendo alguém que aborrece o seu próximo, e lhe
arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere de golpe mortal, e se acolhe a uma destas
cidades...”. A frase “o fere de golpe mortal” é uma infeliz tradução do original hebraico que
diz “fere a alma-nephesh mortalmente”. Jamais poderíamos imaginar que um cidadão iria
com a sua espada transpassar tanto um indivíduo num combate ao ponto de matar até a
alma “imortal” e imaterial que essa pessoa possui dentro dela! É nítido que a alma não era
crido como sendo algo imaterial com imortalidade preso dentro de nós, o que também fica
claro em Jeremias:

“Então disse eu: Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste grandemente a este povo e
a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe até à alma” (cf. Jr.4:10). Se
a alma fosse algo imaterial, não poderia ser atingida por objeto algum material e nem ser
penetrada! Uma entidade imortal e imaterial não pode ser ferida com espada ou algum
outro instrumento; contudo, lemos que “vos estejam à mão cidades que vos sirvam de

71 Algum imortalista poderia aproveitar essa ocasião para objetar dizendo que "alma" também deveria
ser traduzida por "vida" nas mais de 58 citações explícitas onde ela morre, como se resolvesse o
problema da morte da alma. Contudo, "matar a vida" não faz qualquer sentido, mostrando que nessas
ocasiões alma aparece em seu significado primário, de um ser vivo, e eliminando aqui a possibilidade de
se tratar de um elemento imortal que sobrevive à parte do corpo após a morte, que é o significado
principal de alma na visão imortalista.

72 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 80


cidades de refúgio, para que ali se acolha o homicida que ferir a alguma alma [nephesh]
por engano” (cf. Nm.35:11).

Aqui o “ferir” é propriamente a morte, porque o que a atinge é um homicida. Obviamente a


morte do corpo é a morte da alma, pelo fato de que a alma não é um segmento imaterial
que não pode ser atingido e nem destruído. Nenhum autor bíblico acreditava que existia
uma alma imortal e imaterial presa dentro do nosso corpo, pois, se assim fosse, então a
alma jamais e em circunstância alguma poderia ser morta e nem destruída em hipótese
nenhuma!

Isaías fala a respeito de Jesus nessas palavras: “Por isso lhe darei a sua parte com os
grandes, e com os fortes ele partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a
morte, e foi contado com os transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos,
e intercedeu pelos transgressores” (cf. Is.53:12). Comentando essa passagem, o Dr.
Samuelle Bacchiocchi afirma: “’Ele derramou’ é versão do hebraico arah que significa
‘esvazia, desnudar, ou deixar a descoberto’. Isso significa que o Servo Sofredor esvaziou-Se
de toda a vitalidade e força da alma. Na morte, a alma não mais funciona como o princípio
animador da vida, mas descansa na sepultura”73

De qualquer forma, eles não insistiriam tanto na morte da alma, com os tradutores bíblicos
na grande maioria dos casos traduzindo por “pessoa” ao invés de “alma-nephesh”, como
deve ser traduzido, presumivelmente por causa de crerem que a alma é imortal e não pode
ser morta, contrariando a Bíblia toda (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21;
Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21). Em Números 31:19,
lemos que a morte do corpo é a morte da alma:

“Acampai-vos sete dias fora do arraial; qualquer de vós que tiver matado alguma pessoa
[nephesh] e qualquer que tiver tocado em algum morto, ao terceiro dia e ao sétimo dia, vos
purificareis, tanto vós como os vossos cativos” (cf. Nm.31:19). O original novamente traz a
morte da alma: “Ve'attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol horêgh
nephesh vekhol noghêa` bechâlâltithchathe'u bayyom hasheliyshiy ubhayyom
hashebhiy`iy 'attem ushebhiykhem”.

Qualquer erudito familiarizado com as Escrituras também irá se deparar repetidamente com
a forte convicção bíblica de que, caso as pessoas morressem, as suas almas não
escapariam da morte. Isso explica o porquê que, em tantos casos, vemos os salmistas
agradecendo a Deus por ter livrado a alma deles da morte, prolongando os dias de vida
deles, ou, então, dizendo que a sua alma morreria a morte dos justos:

“Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés
da queda” (cf. Sl.116:8).

“Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome” (cf. Sl.39:19)

“Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da queda, para andar
diante de Deus na luz dos viventes?” (cf. Sl.56:13)

73 ibid.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 81


“Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma
morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10)

“E a sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida aos que trazem a morte” (cf. Jó
33:22)

“Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente
morrerá; porque qualquer que nele fizer alguma obra, aquela alma será eliminada do
meio do seu povo” (cf. Êx.31:14)

“Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, mas entregou à
pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50)

“E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a
sua alma se angustiou até a morte” (cf. Jz.16:16)

“Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a
presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas
viúvas no meio dela” (cf. Ez.22:25)

“E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei,
a eles, e a toda a alma que nela havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá
como fizera ao rei de Jericó” (cf. Js.10:28)

“Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem
sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza” (cf. Ez.22:27)

Estes são alguns exemplos de passagens nas quais não precisamos ir até o original hebraico
para revelarmos que o original traz a palavra “alma”, pois as próprias versões em português
(ou a maioria delas) já traduzem por “alma” nestes versos, traduzindo nephesh por alma
como realmente deve ser, em um contexto onde ela é morta, ou destruída, ou eliminada, ou
devorada! Vale lembrar sempre que existe uma outra grande maioria de passagens
bíblicas relatando a morte e extermínio da alma, em que nephesh não foi traduzido por
“alma” como corretamente deveria ser, mas o que restou a nós já é mais do que o suficiente
para imputarmos a doutrina de que a alma não morre como algo completamente antibíblico.

Os escritores bíblicos jamais disseram que a alma é um elemento imaterial e imortal, mas
sim algo bem material e que morre. Por tudo isso, não existe alma imortal; o fato de a alma
morrer tanto provém de que uma “alma vivente” não significa uma “alma imortal”, mas
simplesmente um “ser vivo”, sujeito a morte: “Eis que todas as almas são minhas; como a
alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf.
Ez.18:4).

O Dr. Bacchiocchi ainda acrescenta:

“As pessoas tinham grande temor por suas almas [nephesh] (Jos. 9:24) quando outros
estavam buscando suas almas [nephesh] (Êxo. 4:19; 1 Sam. 23:15). Eles tiveram que fugir
por suas almas [nephesh] (2 Reis 7:7) ou defender suas almas [nephesh] (Est. 8:11); se
não o fizessem, suas almas [nephesh] seriam totalmente destruídas (Jos. 10:28, 30, 32,
35, 37, 39). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4, 20). Raabe pediu aos dois espias

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 82


israelitas que salvassem sua família falando em termos de “livrareis as nossas vidas [almas-
VKJ] da morte” (Jos. 2:13)”74

Sumariando, vemos que, biblicamente, a alma morre (cf. Ez.18:4), perece (cf. Mt.10:28), é
destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da morte (cf. Sl.78:50), é completamente
eliminada (cf. Êx.31:14), desce à cova na morte (cf. Jó 33:22), revive na ressurreição
[porque estava morta antes disso] (cf. Ap.20:4), é totalmente destruída (cf. Js.10:28), é
derramada na morte (Is.53:12), é penetrada pelo fio da espada (cf. Jr.4:10), é passível de
sofrer decompisição [na sepultura] (cf. Sl.49:8,9), “repousa” na morte (cf. Sl.25:13), é
sufocada (cf. Jó 31:39,40), é devorada (cf. Ez.22:25), pode ser assassinada (cf. Nm.35:11)
e exterminada (cf. At.3:23).

Que a alma não é e nem nunca foi imortal, isso também fica evidente pelo fato de que, em
mais de 1600 citações em que aparece “alma” na Bíblia, em nenhuma delas é seguida do
termo “eterno” [aionios] ou “imortal” [athanatos], o que obviamente seria feito caso a alma
fosse eterna ou imortal. Porém, isso nunca ocorre nas Escrituras, que preferem insistir
constantemente em dizer que a alma morre, é destruída, exterminada e aniquilada (cf.
Nm.31:19; 35:15,30; 23:10; Js.20:3,9; Js.20:3,28; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14,15;
Jz.16:30; 16:30; Ez.18:4,21; 22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20, etc).

A Bíblia usa e abusa de todos os termos genéricos para a morte da alma. Junte isso ao fato
que vimos acima, de que nunca algum escritor bíblico fez qualquer questão de dizer que a
alma seria ‘eterna’ ou ‘imortal’ (em mais de 1600 citações), porque eles sabiam bem que a
alma morre com a morte do corpo. Ou seja: temos centenas de centenas de citações
mostrando explicitamente e expressamente a morte da alma, mas nenhuma que de forma
direta afirme que a alma é “imortal” (athanatos) ou “eterna” (aionios)! Isso vai frontalmente
contra o dualismo grego que divulgava a imortalidade da alma amplamente e nunca ousava
dizer que a morria podia ser morta, o que seria uma completa afronta para os gregos
dualistas, um verdadeiro escândalo para eles.

Se a alma de fato fosse imortal, o que deveríamos esperar seria uma “enchente” de citações
bíblicas falando sobre a “alma eterna”, a “alma imortal”, a “imortalidade da alma”, etc. O
próprio fato de a Bíblia insistir tanto na morte da alma ao invés de promover a imortalidade
desta é suficientemente incontestável a fim de desqualificarmos inteiramente esta doutrina
por não possuir um mínimo de respaldo teológico sério. Crer que a alma é imortal é estar
com os olhos “vendados” (cf. 2Co.4:4) a luz de todas as evidências.

No Novo Testamento – O Novo Testamento confirma, mantém e amplia a crença bíblica de


que a alma morre. Jesus nos contou sobre aquele que pode destruir o corpo e a alma (cf.
Mt.10:28), Tiago nos diz que a alma está sujeita à morte (cf. Tg.5:20) e Pedro declara que
ela pode ser exterminada:

“E acontecerá que toda a alma que não escutar esse profeta será exterminada dentre o
povo” (cf. Atos 3:23)

74 ibid.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 83


Neste texto a palavra usada para o extermínio da alma é exolothreuo, que, de acordo com o
léxico de Strong, significa “derrubar do seu lugar, destruir completamente, extirpar” 75. Não
tem qualquer relação com um prosseguimento eterno e ininterrupto de vida consciente, mas
diz respeito a um extermínio, uma completa cessação de existência. A palavra grega
exolothreuo denota o completo extermínio da alma. Embora os escritores bíblicos tivessem
a completa decisão de escolha entre respaldar a morte do “corpo” ou da “pessoa”, duas
palavras disponíveis tanto no grego como no hebraico, eles insistem na morte e extermínio
da alma [nephesh/hebraico – psuchê/grego].

Paulo também afirma, no auge da tempestade de Atos 27, que “nenhuma vida se perderá”
(cf. At.27:22). O “perder-se” aqui referido é claramente relacionado com a cessação de
vida, a morte na qual passaria aquelas pessoas em caso que o navio se afundasse. Poucas
pessoas sabem, contudo, que o original grego traz “alma-psiquê” novamente: “kai abs=ta
abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê gar psuchês oudemia estai ex umôn
plên tou ploiou”. Em outras palavras, eles teriam as suas próprias almas mortas.

O apóstolo Paulo usou a palavra para alma-psiquê apenas treze vezes em seus escritos (de
1600 em que aparece na Bíblia). A razão mais razoável para isso é que ele não queria dar
entender aos seus leitores um sentido equívoco daquilo que seria a “alma”, em direto
contraste com o pensamento platônico que a divulgava amplamente. Por isso mesmo, ele
jamais se utilizou do termo “alma-psichê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Pelo
contrário, relata que “é semeado um corpo natural [psychikon] e ressuscita um corpo
espiritual. Se há corpo natural [psychikon], há também corpo espiritual” (cf. 1Co.15:44).

Aqui ele se utiliza de um derivado de alma-psyche a fim de denotar a natureza do corpo


natural que está sujeito à morte [e consequente ressurreição], e não a algum elemento
imaterial ou imortal. “Corpo natural” aqui é a tradução do grego que diz: “soma psuchikos”,
que literalmente significa: “corpo psíquico” (psiquê significa alma). Alma-psiquê, portanto,
está relacionada a um corpo natural que morre e que ressuscita, e não a um elemento
imaterial, intangível e imortal desassociado do corpo natural e mortal.

Os manuscritos originais da Bíblia (AT/hebraico; NT/grego) sempre insistem que a alma não
é uma parte divisível do corpo ou algum potencial imaterial presente na natureza humana
trazendo consigo imortalidade, mas sim a própria pessoa como um ser vivo, como uma
alma vivente. Paulo e Barnabé eram “homens que têm arriscado a vida [psiquê] pelo nome
de nosso Senhor Jesus Cristo” (cf. At.15:26), porque a alma-psiquê também morre. Por
isso, ela também é colocada em risco de acordo com os perigos em determinada localidade.
Eles colocaram a própria alma em risco por amor a Cristo, porque a alma também pode ser
morta. Se assim não fosse, eles estariam arriscando apenas o corpo mortal, e não a alma,
pois esta supostamente seria imortal e inatingível a qualquer perigo de vida.

Em Mateus 2:20, é nos dito que já morreram os que buscavam a alma-psiquê do menino
Jesus:

“Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque já morreram
os que buscavam a alma da criancinha” (cf. Mateus 2:20)

No grego:

75 Léxico da Concordância de Strong, 1842.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 84


“legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou kai poreuou eis gên israêl
tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou”

O termo “buscar a alma”, diante do contexto, tem clara ligação com buscar a morte
daquela criança, que era o objetivo de Herodes: matar o menino Jesus. Ocorre que o
evangelista Mateus, ao invés de dizer que eles matariam apenas o corpo, emprega
novamente o termo “alma-psiquê”, pois a morte seria total: corpo e alma. Jesus disse em
Mateus 16:25 que “todo aquele que quiser salvar a sua alma [psiquê], perdê-la-á; mas todo
aquele que perder a sua alma [psiquê] por minha causa, achá-la-á”.

O termo “perder a alma” aqui diz respeito ao martírio que todos os discípulos de Cristo
passaram. Eles “perderam a alma”, isto é, tiveram um fim nesta vida pelas mãos de homens
cruéis, visando “ganhá-la” num momento futuro, na ressurreição dos mortos. Mais uma vez,
a morte não está relacionada ao corpo de modo estrito, mas também à psiquê: alma! Outra
clara referência neotestamentária sobre a morte da alma está em Marcos 3:4, quando
Cristo diz:

“A seguir, disse-lhes: ‘É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma má ação, salvar
ou matar uma alma?” (cf. Marcos 3:4)

No grego:

“kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai ê


kakopoiêsai psuchên sôsai ê apokteinai oi de esiôpôn”

De acordo com a Concordância de Strong, a palavra grega apokteino significa:

615 αποκτεινω apokteino


de 575 e kteino (matar); v
1) matar o que seja de toda e qualquer maneira.
1a) destruir, deixar perecer.

Portanto, apokteino psiquê denota a morte completa da alma, e não uma “imortalidade
natural” dela. Pedro, ao dizer que morreria por Cristo, chegou a dizer:

“Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a minha alma em
benefício de ti!” (cf. João 13:37)

No grego:

“legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi akolouthêsai arti tên
psuchên mou uper sou thêsô”

Pedro estava simplesmente dizendo que estava disposto a morrer por Cristo, e para isso diz
que entregaria a sua psiquê por amor do Mestre, isto é, estaria disposto a entregar a sua
própria alma à morte em benefício de Cristo. Ele não cria que no máximo entregaria um
corpo para morrer, mas a alma. Ele não via a alma como um elemento imaterial e imortal,
mas como algo tão fadado à morte quanto o próprio corpo. E o mesmo pode ser dito com
relação ao Filho do homem, que daria a sua alma-psiquê como resgate em troca de muitos:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 85


“Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse, mas para ministrar e
dar a sua alma como resgate em troca de muitos” (cf. Mateus 20:28)

No grego:

“ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai dounai tên
psuchên autou lutron anti pollôn”

“Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua alma em benefício das
ovelhas” (cf. João 10:11)

No grego:

“egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper tôn
probatôn”

“Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua alma a favor de seus
amigos” (cf. João 15:13)

No grego:

“meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn philôn autou”

“Dar a sua alma” nada mais é do que entregar a sua própria vida à morte, em favor da
humanidade. Psiquê mais uma vez não é vista como algo imortal, mas algo sujeito à morte,
como o corpo. Finalmente, em Apocalipse 20:4 é nos dito que as almas dos que foram
degolados por causa do testemunho de Jesus reviveram. Se elas “reviveram”, é porque
estavam mortas antes disso:

“E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas


daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não
adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em
suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse 20:4)

Neste contexto em que as almas revivem, não aparece corpo-soma na passagem, mas
apenas a referência às almas-psiquê que João viu em sua visão ganharem vida novamente
no ato da ressurreição. Dizer que aquilo que reviveu foi somente o corpo é entrar em
gritante contradição com o texto bíblico, que em momento nenhum fala de corpos. O texto
não diz: “as almas daqueles corpos que foram degolados”, mas sim “as almas daqueles
que foram degolados”. Foram “as almas daqueles que foram degolados” que reviveram, e
não “os corpos daqueles que foram degolados”.

Dizer que o “daqueles” está associado ao corpo (que nem sequer aparece no texto) e não
ao referencial direto (“almas”) é no mínimo querer ferir a exegese e amputar as regras de
interpretação textual. “Daqueles” é uma referência clara ao referencial mais direto, ou seja,
“as almas”. Um exemplo prático para elucidar a questão: se eu dissesse que “a gasolina
daqueles carros que pararam de funcionar foi recolocada”, o que é que foi recolocado? A
gasolina ou os carros? Óbvio: a gasolina. É a gasolina daqueles carros, e não os próprios
carros. Em Apocalipse 20:4 é exatamente a mesma estrutura textual que aparece. Vemos

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 86


que as almas daqueles mártires reviveram. O que reviveu? A resposta também é óbvia: as
almas daqueles que foram degolados!

Além disso, o original grego traz o artigo definido, que no grego é "των" (ho), e que é
traduzido na maioria das versões por “daqueles”:

“kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai tas psuchas tôn
pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai oitines ou
prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona autou kai
ouk”

De acordo com o léxico da Concordância de Strong, significa:

3588 ο ho que inclui o feminino η he, e o neutro το to


em todos as suas inflexões, o artigo definido; artigo
1) este, aquela, estes, etc.
Exceto “o” ou “a”, apenas casos especiais são levados em consideração.

Este artigo inclui o feminino e também o neutro, o que mostra que está apenas reiterando
que o sujeito é mesmo as almas, e não algum outro. “Corpo-soma” é masculino, e não
feminino; ademais, nunca que o artigo definido ho toma o lugar de sujeito da frase, ele
apenas é um artigo definido que confirma o sujeito da frase, não é utilizado para fazer uma
distinção das “almas”, mas é um prosseguimento do relato delas, ainda com elas (as
almas) sendo o sujeito único da frase. Portanto, em momento nenhum a referência e o
sujeito da frase deixa de ser “as almas”, o que nos mostra que:

• Almas são decapitadas (morrem)


• Almas revivem na ressurreição

Por tudo isso, vemos que o Catecismo Católico que afirma que “a alma não perece com a
morte do corpo”76 mostra uma total carência de conhecimento e discernimento bíblico. Isso
explica o porquê do “problema da Bíblia” como já foi aqui exposto; e, de fato, até hoje a
grande maioria das traduções continuam omitindo dos seus leitores a morte da alma com a
morte do corpo. Mas, fazer o que: essa é a única maneira de “salvar” a doutrina de que a
alma não morre e está viva em algum lugar, escondendo e omitindo dos seus leitores a
verdade bíblica da morte da alma, o que exterminaria com um império de cegueira
espiritual que tenta monopolizar a opinião escondendo a verdade dos olhos do povo,
perpetuando estes enganos através das tradições humanas.

Citações explícitas da morte da alma nos originais – Como foi dito, as versões vernáculas à
nossa disposição na grande maioria das vezes omitem as menções à morte da alma quando
ela aparece, e para que isso seja verificável de forma mais clara e próxima dos leitores
segue abaixo uma lista completa com 58 citações explícitas da morte da alma, afora
aquelas onde a morte da alma vem implicitamente no texto e outras várias menções ao
longo de toda a Escritura.

No Pentateuco:

76 §366 do Catecismo Católico.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 87


(Gênesis 19:19-20) - Ora, por favor, teu servo achou favor aos teus olhos, de modo que
estás magnificando a tua benevolência de que usas para comigo, para preservar viva a
minha alma, mas eu — eu não posso escapar para a região montanhosa, para que não se
apegue a mim a calamidade e eu certamente morra. Ora, por favor, esta cidade está
perto para se fugir para lá... e minha alma viverá.

(No Hebraico) - hinnêh-nâ' mâtsâ' `abhdekha chên be`êyneykha vattaghdêlchasdekha


'asher `âsiythâ `immâdhiy lehachayoth 'eth-naphshiy ve'ânokhiy lo''ukhal lehimmâlêth
hâhârâh pen-tidhbâqaniy hârâ`âh vâmattiy hinnêh-nâ' hâ`iyr hazzo'th qerobhâh lânus
shâmmâh vehiy' mits`âr'immâlthâh nâ' shâmmâh halo' mits`âr hiv' uthechiy naphshiy.

(Gênesis 37:21) - Ouvindo isso Rubem, tentou livrá-lo da mão deles. De modo que disse:
Não golpeemos fatalmente a sua alma.

(No Hebraico) - vayya`as gam-hu' math`ammiym vayyâbhê' le'âbhiyvvayyo'mer le'âbhiyv


yâqum 'âbhiy veyo'khal mitsêydh benoba`abhurtebhârakhanniy naphshekha.

(Êxodo 31:14) - E tendes de guardar o sábado, pois é algo santo para vós. O profanador
dele será positivamente morto. Caso haja alguém fazendo nele alguma obra,
então essa alma tem de ser decepada do meio do seu povo.

(No Hebraico) - ushemartem 'eth-hashabbâthkiy qodhesh hiv' lâkhem mechaleleyhâ moth


yumâth kiy kol-hâ`osehbhâh melâ'khâh venikhrethâh hannephesh hahiv' miqqerebh
`ammeyhâ.

(Levítico 19:28) - E não vos deveis fazer cortes na carne em prol duma alma falecida e
não deveis fazer tatuagem em vós.

(No Hebraico) - vesereth lânephesh lo' thittenu bibhsarkhem ukhethobheth qa`aqa`lo'


thittenu bâkhem 'aniy Adonay.

(Levítico 21:1, 11) - Ninguém se pode aviltar entre o seu povo por uma alma falecida. E
não se deve chegar a uma alma morta. Não se pode aviltar por seu pai e por sua mãe.

(No Hebraico) - vayyo'mer Adonay 'el-mosheh 'emor 'el-hakkohaniym benêy 'aharon


ve'âmartâ 'alêhemlenephesh lo'-yithammâ' be`ammâyv ve`al kol-naphshoth mêth lo'
yâbho'le'âbhiyv ule'immo lo' yithammâ'.

(Levítico 23:30) - Quanto a qualquer alma que fizer qualquer sorte de obra neste mesmo
dia, terei de destruir esta alma dentre o seu povo.

(No Hebraico) - vekhol-hannephesh 'asher ta`aseh kol-melâ'khâh be`etsem hayyom


hazzeh veha'abhadhtiy 'eth-hannepheshhahiv' miqqerebh `ammâh.

(Levítico 24:17) - E caso um homem golpeie fatalmente qualquer alma do gênero


humano, sem falta deve ser morto.

(No Hebraico) - ve'iysh kiy yakkeh kol-nephesh 'âdhâm moth yumâth.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 88


(Números 19:13) - Todo aquele que tocar num cadáver, a alma de qualquer homem que
tenha morrido, e não se purificar, profanou o tabernáculo de Jeová, e essa alma terá de
ser decepada de Israel.

(No Hebraico) - kol-hannoghêa` bemêth benephesh hâ'âdhâm 'asher-yâmuth


velo'yithchathâ' 'eth-mishkan Adonay thimmê' venikhrethâh hannephesh hahiv'miyyisrâ'êl
kiy mêy niddâh lo'-zoraq `âlâyv thâmê' yihyeh `odhthum'âtho bho.

(Números 23:10) - Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que
a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu.

(No Hebraico) - miy mânâh `apharya`aqobh umispâr 'eth-robha` yisrâ'êl


tâmoth naphshiy moth yeshâriymuthehiy 'achariythiy kâmohu.

(Números 31:19) - Quanto a vós mesmos, acampai sete dias fora do acampamento. Todo
aquele que tiver matado uma alma e todo aquele que tiver tocado em alguém que foi
morto — deveis purificar-vos no terceiro dia e no sétimo dia.

(No Hebraico) - ve'attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol


horêgh nephesh vekhol noghêa` bechâlâltithchathe'u bayyom hasheliyshiy ubhayyom
hashebhiy`iy 'attem ushebhiykhem.

(Números 35:11) - E tendes de escolher cidades convenientes para vós. Servirão para vós
de cidades de refúgio, e para lá terá de fugir o homicida que sem querer golpear
fatalmente uma alma.

(No Hebraico) - vehiqriythem lâkhem `âriym `ârêy miqlâthtihyeynâh lâkhem venâs


shâmmâh rotsêach makkêh-nephesh bishghâghâh.

(Números 35:30) - Todo aquele que golpear fatalmente uma alma deve ser morto
como assassino, pela boca de testemunhas, e uma só testemunha não pode
testificar contra uma alma para ela morrer.

(No Hebraico) - kol-makkêh-nephesh lephiy `êdhiym yirtsach 'eth-hârotsêach ve`êdh


'echâdhlo'-ya`aneh bhenephesh lâmuth.

(Deuteronômio 19:11) - Porém, caso haja um homem que odeie seu próximo, e ele se
tenha posto de emboscada contra este e se tenha levantado contra ele e golpeado
fatalmente a sua alma, e ele tenha morrido, e o homem tenha fugido para uma destas
cidades.

(No Hebraico) - vekhiy-yihyeh 'iysh sonê'lerê`êhu ve'ârabh lo veqâm `âlâyv


vehikkâhu nepheshvâmêth venâs'el-'achath he`âriym hâ'êl.

(Deuteronômio 22:26) - E não deves fazer nada à moça. A moça não tem pecado que
mereça a morte, pois, assim como um homem se levanta contra seu próximo e deveras o
assassina, sim, uma alma, assim é neste caso.

(No Hebraico) - velanna`ar [v][la][na`arâh] lo'-tha`aseh dhâbhâr 'êynlanna`ar [la]


[na`arâh] chêthe' mâveth kiy ka'asher yâqum 'iysh `al-rê`êhuuretsâcho nephesh kên
haddâbhâr hazzeh.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 89
Nos Históricos:

(Josué 2:13-14) - E tereis de preservar vivos meu pai e minha mãe, e meus irmãos, e
minhas irmãs, e todos os que lhes pertencem, e tereis de livrar as nossas almas da
morte. A isto lhe disseram os homens: “Nossas almas hão de morrer em vosso lugar”!

(No Hebraico) - vehachayithem 'eth-'âbhiy ve'eth-'immiy ve'eth-'achayve'eth-'achothay


['achyothay] ve'êth kol-'asher lâhem vehitsaltem 'eth-naphshothêynu mimmâveth
vayyo'mru lâh hâ'anâshiym naphshênuthachtêykhem lâmuth 'im lo' thaggiydhu 'eth-
debhârênu zeh vehâyâh bethêth-Adonay lânu 'eth-hâ'ârets ve`âsiynu `immâkh chesedh
ve'emeth.

(Josué 10:28, 35) - E naquele dia Josué capturou Maquedá e passou a golpeá-la com o fio
da espada. Quanto ao seu rei,devotou à destruição tanto a ele como a toda alma que
havia nela. Não deixou restar sobrevivente. E foram capturá-la naquele dia e começaram a
golpeá-la com o fio da espada, e naquele dia devotaram à destruição toda alma que
nela vivia, segundo tudo o que tinham feito a Laquis.

(No Hebraico) - ve'eth-maqqêdhâh lâkhadh yehoshua` bayyom hahu' vayyakkehâlephiy-


cherebh ve'eth-malkâh hecherim 'othâm ve'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lo' hish'iyr
sâriydh vayya`as lemelekh maqqêdhâh ka'asher `âsâhlemelekh yeriycho vayyilkedhuhâ
bayyom hahu' vayyakkuhâ.lephiy-cherebh ve'êth kol-hannephesh 'asher-bâh bayyom
hahu' hecheriymkekhol 'asher-`âsâh lelâkhiysh ph.

(Josué 11:10-11) - E foram golpear toda alma que havia nela com o fio da
espada, devotando-as à destruição. Não sobrou absolutamente nada que respirasse, e
ele queimou Hazor com fogo.

(No Hebraico) - vayyâshâbhyehoshua` bâ`êth hahiy' vayyilkodh 'eth-châtsor ve'eth-


malkâh hikkâhbhechârebh kiy-châtsor lephâniym hiy' ro'sh kol-hammamlâkhoth hâ'êlleh
vayyakku 'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lephiy-cherebh hacharêm lo'nothar kol-
neshâmâh ve'eth-châtsor sâraph bâ'êsh.

(Juízes 16:16) - E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e
molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte.

(No Hebraico) - vayhiy kiy-hêtsiyqâh lo bhidhbhâreyhâ kol-hayyâmiymvatte'alatsêhu


vattiqtsar naphsho lâmuth.

(Juízes 16:30) - E Sansão passou a dizer: “Morra a minha alma com os filisteus”
Então se encurvou com poder e a casa foi cair sobre os senhores do eixo e sobre todo o
povo que havia nela, de modo que os mortos, que entregou à morte ao ele mesmo morrer,
vieram a ser mais do que os que entregara à morte durante a sua vida.

(No Hebraico) - vayyo'mer shimshon tâmoth naphshiy `im-pelishtiym vayyêthbekhoach


vayyippol habbayith `al-hasserâniym ve`al-kâl-hâ`âm 'asher-bo vayyihyu hammêthiym
'asher hêmiyth bemotho rabbiym mê'asherhêmiyth bechayyâyv.

(1 Reis 19:4) - E ele mesmo entrou no ermo, sentou-se debaixo de certo zimbro. E
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 90
começou a pedir que a sua alma morresse a dizer: “Já basta, Senhor, agora tira a
minha alma, pois não sou melhor que os meus pais”.

(No Hebraico) - vehu'-hâlakh bammidhbâr derekh yom vayyâbho' vayyêshebh tachath


rothem'echâth ['echâdh] vayyish'al 'eth-naphsho lâmuth vayyo'mer rabh `attâhAdonay
qach naphshiy kiy-lo'-thobh 'ânokhiy mê'abhothây.

Nos Poéticos:

(Jó 7:15) - De modo que a minha alma escolhe a sufocação, a morte em vez de meus
ossos.

(No Hebraico) - vattibhchar machanâq naphshiy mâvethmê`atsmothây.

(Jó 11:20) - E falharão os próprios olhos dos iníquos; e perecerá deles o lugar de refúgio,
e sua esperança será a expiração da alma.

(No Hebraico) - ve`êynêy reshâ`iym tikhleynâhumânos 'âbhadh minhem vethiqvâthâm


mappach-nâphesh ph.

(Jó 27:8) - Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado, quando Deus lhe tira a
alma?

(No Hebraico) - kiy mah-tiqvath chânêph kiy yibhtsâ` kiyyêshel 'eloah naphsho.

(Jó 33:22) - E sua alma se chega à cova, e sua vida aos que infligem a morte.

(No Hebraico) - vattiqrabh lashachath naphsho vechayyâtho lamemithiym.

(Jó 36:14) - Sua alma morrerá na própria infância, e sua vida entre os homens que se
prostituem no serviço dum templo.

(No Hebraico) - tâmoth banno`ar naphshâm vechayyâthâm baqqedhêshiym.

(Salmos 22:29) - Todos os gordos da terra comerão e se curvarão; diante dele se


dobrarão todos os que descem ao pó, e ninguém jamais preservará viva a sua própria
alma.

(No Hebraico) – dashen erets akal shachah yarad aphar kara paniym chayah nephesh.

(Salmos 49:8,9) - Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para
sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição.

(No Hebraico) – âch lo'-phâdhoh yiphdeh 'iyshlo'-yittên lê'lohiym kophro veyêqar


pidhyon naphshâmvechâdhalle`olâm.

(Salmos 56:13) - Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da
queda, para andar diante de Deus na luz dos viventes?

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 91


(No Hebraico) – natsal nephesh maveth regel dchiy halak paniym elohiym owr chay.

(Salmos 78:50) - Ele passou a preparar uma senda para a sua ira. Não refreou a alma
deles da própria morte; e entregou a vida deles à própria pestilência.

(No Hebraico) - yephallês nâthiybh le'appo lo'-châsakhmimmâveth naphshâm


vechayyâthâm laddebher hisgiyr.

(Salmos 116:8) - Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das
lágrimas, e os meus pés da queda.

(No Hebraico) - kiy chillatstâ naphshiy mimmâveth'eth-`êyniy min-dim`âh 'eth-raghliy


middechiy.

Nos Profetas:

(Isaías 53:12) - Por isso lhe darei a sua parte com os grandes, e com os fortes ele
partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os
transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos
transgressores.

(No Hebraico) - lâkhên 'achalleq-lo bhârabbiym ve'eth-`atsumiym yechallêq shâlâl


tachath'asher he`erâh lammâveth naphsho ve'eth-poshe`iym nimnâh vehu' chêthe'-
rabbiym nâsâ' velapposhe`iym yaphgiya` s.

(Jeremias 2:34) - Também, nas tuas saias foram achadas as manchas de sangue das
almas dos pobres inocentes. Não as encontrei no ato de arrombamento, mas [estão] em
todas estas.

(No Hebraico) - gambikhnâphayikh nimtse'u dam naphshoth 'ebhyoniym neqiyyiym lo'-


bhammachtereth metsâ'thiym kiy `al-kâl-'êlleh.

(Jeremias 4:10) - Então disse eu: “Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste
grandemente a este povo e a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe
até à alma”.

(No Hebraico) - vâ'omar 'ahâh 'adhonây Adonay.'âkhên hashê' hishê'thâ lâ`âm hazzeh
veliyrushâlaim lê'mor shâlomyihyeh lâkhem venâghe`âh cherebh `adh-hannâphesh.

(Jeremias 40:14) - E passaram a dizer-lhe: “Acaso não sabes que o próprio Baalis, rei dos
filhos de Amom, enviou Ismael, filho de Netanias, para golpear-te a alma?” Mas Gedalias,
filho de Aicão, não lhes deu crédito.

(No Hebraico) - vayyo'mru 'êlâyv hayâdhoa` têdha` kiy ba`aliysmelekh benêy-`ammon


shâlach 'eth-yishmâ`ê'l ben-nethanyâh lehakkothekhanâphesh velo'-he'emiyn lâhem
gedhalyâhu ben-'achiyqâm.

(Ezequiel 13:19) - E porventura me profanareis para com o meu povo em troca de


punhados de cevada e por pedacinhos de pão, para entregardes à morte as almas que

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 92


não deviam morrer e para preservardes vivas as almas que não deviam viver, pela
vossa mentira ao meu povo, os que ouvem a mentira?

(No Hebraico) - vattechallelnâh 'othiy 'el-`ammiy besha`alêy se`oriymubhiphthothêy


lechem lehâmiythnephâshoth 'asher lo'-themuthenâh ulechayyoth nephâshoth 'asher lo'-
thichyeynâh bekhazzebhkhem le`ammiy shome`êy khâzâbhs.

(Ezequiel 17:17) - E Faraó não o fará eficiente na guerra por meio duma grande força
militar e por meio duma congregação numerosa, levantando um aterro de sítio e
construindo um muro de sítio, a fim de decepar muitas almas.

(No Hebraico) - velo' bhechayil gâdhol ubheqâhâl robh ya`aseh'otho phar`oh


bammilchâmâh bishpokh solelâh ubhibhnoth dâyêq lehakhriyth nephâshoth rabboth.

(Ezequiel 18:4) - Eis que todas as almas — a mim me pertencem. Como a alma do pai,
assim também a alma do filho — a mim me pertencem. A alma que pecar — ela é
que morrerá.

(No Hebraico) - hên kol-hannephâshoth liy hênnâh kenephesh hâ'âbhukhenephesh


habbên liy-hênnâh hannephesh hachothê'th hiy' thâmuth s.

(Ezequiel 22:25) - Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que
ruge, que arrebata a presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas,
multiplicam as suas viúvas no meio dela.

(No Hebraico) - qesher nebhiy'eyhâ bethokhâh ka'ariy sho'êghthorêph


thâreph nephesh 'âkhâlu chosen viyqâr yiqqâchu 'almenotheyhâ hirbubhethokhâh.

(Ezequiel 22:27) - Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa,
para derramarem sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza.

(No Hebraico) - sâreyhâbheqirbâh kiz'êbhiym thorephêy thâreph lishpâkh-dâm


le'abbêdh nephâshothlema`an betsoa` bâtsa.

(Ezequiel 33:6) - E no que se refere ao vigia, se ele vir a espada chegar e realmente não
tocar a buzina e a espada vier e lhes tirar a alma, terá de ser tirada pelo seu próprio
erro, mas o seu sangue exigirei de volta da mão do próprio vigia

(No Hebraico) - vehatsopheh kiy-yir'eh 'eth-hacherebh bâ'âh velo'-thâqa`bashophâr


vehâ`âm lo'-nizhâr vattâbho' cherebh vattiqqach mêhem nâpheshhu' ba`avono nilqâch
vedhâmo miyyadh-hatsopheh 'edhrosh s.

Jesus Nos Evangelhos:

(Mateus 2:19-20) - E disse: “Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra
de Israel, porque já morreram os que buscavam a alma da criancinha”

(No Grego) - teleutêsantos de tou êrôdou idou aggelos kuriou a=phainetai kat onar
tsb=phainetai tô iôsêph en aiguptô legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou
kai poreuou eis gên israêl tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 93
(Mateus 20:28) - Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse,
mas para ministrar e dar a sua alma como resgate em troca de muitos.

(No Grego) - ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai
dounai tên psuchên autou lutron anti pollôn.

(Marcos 3:4) - A seguir, disse-lhes: “É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma
má ação, salvar ou matar uma alma?”

(No Grego) - kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai
ê kakopoiêsai psuchên sôsai ê apokteinai oi de esiôpôn.

(Lucas 6:9) - Jesus disse-lhes então: Eu vos pergunto: é lícito, no sábado, fazer o bem ou
causar dano, salvar ou destruir uma alma?

(No Grego) - eipen a=de tsb=oun o iêsous pros autous a=eperôtô tsb=eperôtêsô umas
a=ei tsb=ti exestin a=tô tsb=tois a=sabbatô tsb=sabbasin agathopoiêsai ê
kakopoiêsai psuchên sôsai ê b=apokteinai ats=apolesai.

(Lucas 17:33) - Todo aquele que buscar manter a sua alma a salvo para si mesmo, perdê-
la-á, mas todo aquele que a perder, preservá-la-á viva.

(No Grego) - os ean zêtêsê tên psuchên autou a=peripoiêsasthai tsb=sôsai apolesei
autên tsb=kai os a=d a=an tsb=ean apolesê tsb=autên zôogonêsei autên.

(João 10:11) - Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua alma em
benefício das ovelhas.

(No Grego) - egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper
tôn probatôn.

(João 12:25) - Quem estiver afeiçoado à sua alma, destruí-la-á, mas quem odiar a sua
alma neste mundo, protegê-la-á para a vida eterna.

(No Grego) - o philôn tên psuchên autou a=apolluei tsb=apolesei autên kai o misôn
tên psuchên autou en tô kosmô toutô eis zôên aiônion phulaxei autên.

(João 13:37) - Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a
minha alma em benefício de ti!

(No Grego) - legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi
akolouthêsai arti tên psuchên mou uper sou thêsô.

(João 15:13) - Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua
alma a favor de seus amigos.

(No Grego) - meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn
philôn autou.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 94


Discípulos e Apóstolos Cristãos no Resto do Novo Testamento:

(Atos 3:23) - Deveras, toda alma que não escutar esse Profeta será completamente
exterminada dentre o povo.

(No Grego) - estai de pasa psuchê êtis ab=ean ts=an mê akousê tou prophêtou ekeinou
a=exolethreuthêsetai tsb=exolothreuthêsetai ek tou laou.

(Atos 15:25,26) - Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns homens e


enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que arriscaram as suas
almas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.

(No Grego) - edoxen êmin genomenois omothumadon a=eklexamenois tsb=eklexamenous


andras pempsai pros umas sun tois agapêtois êmôn barnaba kai paulô anthrôpois
a=paradedôkosi tsb=paradedôkosin tas psuchas autôn uper tou onomatos tou kuriou êmôn
iêsou christou.

(Atos 27:20-22) - E, não aparecendo, havia já muitos dias, nem sol nem estrelas, e
caindo sobre nós uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de nos
salvarmos. E, havendo já muito que não se comia, então Paulo, pondo-se em pé no meio
deles, disse: Fora, na verdade, razoável, ó senhores, ter-me ouvido a mim e não partir de
Creta, e assim evitariam este incômodo e esta perda. Mas agora vos admoesto a que
tenhais bom ânimo, porque não se perderá a alma de nenhum de vós, mas somente o
navio.

(No Grego) - kai abs=ta abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê
gar psuchês oudemia estai ex umôn plên tou ploiou.

(Romanos 11:3) - Mataram os teus profetas, só eu sobrei, e eles estão procurando a


minha alma.

(No Grego) - kurie tous prophêtas sou apekteinan tsb=kai ta thusiastêria sou kateskapsan
kagô upeleiphthên monos kai zêtousin tên psuchên mou.

(Hebreus 10:38-39) - Ora, nós não somos dos que retrocedem para a destruição, mas
dos que têm fé para preservar viva a alma.

(No Grego) - o de dikaios a=mou ek pisteôs zêsetai kai ean uposteilêtai ouk eudokei
ê psuchê mou en autô êmeis de ouk esmen upostolês eis apôleian alla pisteôs eis
peripoiêsin psuchês.

(Tiago 5:20) - Sabei que aquele que fizer um pecador voltar do erro do seu
caminho salvará a sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados.

(No Grego) - ginôsketô oti o epistrepsas amartôlon ek planês odou autou


sôsei psuchên a=autou ek thanatou kai kalupsei plêthos amartiôn.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 95


(Apocalipse 12:11) - E eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da
palavra do seu testemunho, e não amaram as suas almas, nem mesmo ao encararem
a morte.

(No Grego) - kai autoi enikêsan auton dia to aima tou arniou kai dia ton logon tês
marturias autôn kai ouk êgapêsan tên psuchên autôn achri thanatou.

(Apocalipse 16:3) - E o segundo derramou a sua tigela no mar. E este se tornou em


sangue como de um morto, e morreu toda alma vivente, [sim,] as coisas no mar.

(No Grego) - kai o deuteros tsb=aggelos b=exechee ats=execheen tên phialên autou eis
tên thalassan kai egeneto aima ôs nekrou kaipasa psuchê a=zôês tsb=zôsa apethanen
a=ta en tê thalassê.

(Apocalipse 16:3) - E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de


julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela
palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal
em suas testas nem em suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos.

(No Grego) - kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai
tas psuchas tôn pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai
oitines ou prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona
autou kai ouk.

É impressionante a quantidade esmagadora de evidências bíblicas claras e diretas que


atestam a mortalidade da alma. Essa doutrina é biblicamente muitíssimo mais óbvia e
evidente do que praticamente todas as doutrinas que cremos, incluindo Trindade, divindade
de Cristo, forma de batismo, discussões escatológicas, livre arbítrio, soteriologia ou outras
discussões semelhantes, em que, na maioria dos casos, temos uma dúzia de versículos
bíblicos que são usados para fundamentar determinado ponto de vista da fé cristã, mas
quando tratamos da mortalidade da alma existem literalmente centenas e centenas de
citações explícitas de que a alma morre, não deixando qualquer sombra de dúvida
sobre o tema aos leigos. Infelizmente, embora as evidências sejam esmagadoras e em um
mundo normal nenhuma pessoa com a mente aberta negaria a clareza da mortalidade
bíblica, isso é muito diferente quando tratamos deste tema com aqueles que já estão pré-
condicionados a crerem diferente.

V–Conclusão

A vista de tudo isso, podemos certamente concluir que, no conceito bíblico, e não no
conceito kardecista, platônico ou pagão que infelizmente acabaram influenciando a nossa
cultura, a designação de “corpo”, “alma” e “espírito”, de acordo com as Escrituras, são:

CORPO ESPÍRITO ALMA


Matéria, pó. O corpo é a alma É sopro de Deus que ele A pessoa integral como o
visível. soprou em nós concedendo resultado do pó da terra com
animação ao corpo o fôlego da vida, isto é, o
formado do pó. É a própria próprio ser vivo.
vida presente tanto em

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 96


homens como nos animais.

O Dr. Samuelle Bacchiocchi definiu bem os princípios bíblicos acerca de corpo, alma e
espírito na visão bíblica holista, dizendo que “o corpo, o fôlego de vida, e a alma estão
presentes na criação do homem, não como entidades separadas, mas como características
da mesma pessoa. O corpo é o homem como um ser concreto; a alma é o homem
como um indivíduo vivo; o fôlego de vida ou espírito é o homem tendo sua fonte
em Deus”77.

Nós não somos uma pessoa com outra pessoa dentro de nós; antes, “corpo, alma e espírito”
são três características da mesma pessoa. Entender os conceitos bíblicos acerca de corpo,
alma e espírito é de fundamental importância para rejeitarmos a doutrina errônea de
“imortalidade da alma”.

VI–Sobre os significados secundários para a alma

Certamente existem vários sentidos secundários de alma ou espírito, mas, uma vez que o
homem “tornou-se” uma alma (e não “obteve” uma), sendo assim alma, e não possuindo
uma, e uma vez que o espírito não é a própria alma, não é o nosso próprio “eu”, não é algo
com personalidade e consciência, volta o espírito de todos para Deus por ocasião da morte,
entre muitos outros fatores que vimos anteriormente, fica claro que o sentido de “alma”
como uma entidade imortal/imaterial presa dentro do nosso corpo e liberta por ocasião da
morte é perder completamente o sentido primário e legítimo de definições de alma e
espírito, por tudo aquilo que vimos acima, para seguir os padrões gregos dualistas de corpo
e alma.

Os sentidos secundários de alma e espírito jamais podem corromper os seus sentidos


primários, pois se assim fosse criaria um dilema teológico de primeira ordem e acarretaria
em uma série de contradições bíblicas pelo o que vimos até aqui. Uma vez que o homem
não obteve alma nenhuma (mas tornou-se uma) e que a alma morre, qualquer
interpretação que defina o corpo como a prisão de uma alma imaterial e imortal levando
consigo consciência e personalidade seria falsa. O corpo nunca foi uma prisão da alma.

Tais conceitos foram completamente deturpados, primariamente com o dualismo platônico


de corpo e alma difundido na Grécia Antiga, e chega aos dias de hoje com ainda mais força
despertado pelo espiritismo kardecista com suas concepções dualísticas da natureza
humana, conceitos esses que batem de frente com a Palavra de Deus, que nada nos diz
sobre Ele ter formado dentro do homem uma alma imortal. Os imortalistas pregam os
conceitos espíritas de corpo, alma e espírito, e assim tentam misturar com a Bíblia: o
resultado é uma completa e total confusão.

Seguem-se treze pontos no quadro a seguir que resumem bem isso:

NA TEOLOGIA MOTIVO NA BÍBLIA SAGRADA


IMORTALISTA
(1) Apenas o espírito dos Sendo que o espírito seria O espírito de todas as pessoas
justos sobe para Deus após a uma entidade consciente, – justas ou ímpias – retorna

77 ibid.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 97


morte então o dos justos deveria para Deus na morte (cf.
subir para Deus (cf. Ec.12:7)
Lc.23:46), e o dos ímpios
deveria ter um destino
diferente descendo para o
Hades, que fica nas
regiões inferiores desta
terra (cf. Mt.11:23;
Ef.4:9; Mt.12:40).
Contudo...

(2) Ao entregar o espírito na Sendo que o espírito é a Depois de três dias morto,
morte, Jesus foi para o Pai própria pessoa inteligente, Jesus ainda não havia subido
então quando Cristo ao Pai (cf. Jo.20:17)
entregou o seu espírito
para o Pai (cf. Lc.23:46),
seria lógico que Cristo já
tivesse subido para o Pai
depois da morte.
Contudo...
(3) Ao entregar o espírito Se Deus está no Paraíso, e A alma de Cristo passou os
para Deus, Jesus foi para o Cristo ao morrer entregou três dias e três noites no
Paraíso o seu espírito ao Pai, coração da terra, no Sheol,
então a sua alma lá nas regiões inferiores da terra,
deveria ter passado os e não no Paraíso (cf. At.2:27;
três dias em que esteve Mt.12:40)
morto. Contudo...
(4) O homem obteve uma Essa é a base da doutrina O homem tornou-se uma
alma imortalista, de que Deus alma (cf. Gn.2:7)
supostamente teria
implantado uma alma nos
seres humanos.
Contudo...
(5) Apenas os seres Se o espírito fosse Os homens e os animais
humanos possuem espírito realmente uma entidade possuem espírito-ruach (cf.
consciente e dotada de Gn.6:17; Gn.7:21,22;
personalidade em nós Ec.3:19,20; Gn.7:15;
implantada, então Sl.104:29)
somente os humanos a
possuiriam. Contudo...
(6) Existe vida sem sangue Nosso espírito sobrevive Não há vida sem sangue; a
em um “estado alma da carne está no sangue
intermediário” antes da (cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5)
ressurreição quando
ganharemos novamente
um corpo. Contudo...
(7) Nós já possuímos a Se o nosso “verdadeiro Nós temos que buscar a
imortalidade eu”, a nossa alma, fosse imortalidade (cf. Rm.2:7)
eterna, então nós já
seríamos detentores da
imortalidade,

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 98


supostamente na forma
de um elemento eterno
implantado em nosso ser.
Contudo...
(8) A alma vai para o Céu ou Essa é a base da doutrina A alma retorna para a cova na
para o inferno na morte imortalista. Contudo... morte (cf. Jó 33:18; Is.38:17;
Jó 33:22; Sl.94:17; Jó 33:28;
Sl.49:8,9; Jó 33:30)
(9) A alma é eterna e imortal Apesar de nunca na Bíblia A alma morre (cf. Nm.31:19;
inteira tais termos Nm.35:15,30; Js.20:3,9;
precederem a palavra Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt.
“alma”, é assim que os 19:6, 11; Jr.40:14,15;
imortalistas acreditam. Jz.16:30; Nm.23:10;
Contudo... Ez.18:4,20; Jz.16:30;
Nm.23:10; Mt.10:28;
Ez.22:25,27; Jó 11:20;
At.3:23; Tg.5:20)
(10) O homem já foi criado Um elemento eterno já Se o homem comesse da
com a imortalidade teria sido implantado em árvore da vida seria imortal
nós logo na criação do ser (cf. Gn.3:22)
humano, concedendo-lhe
imortalidade. Contudo...
(11) Nós já somos Mediante uma alma Só alcançaremos a
revestidos de imortalidade eterna em nós imortalidade quando seremos
implantada, nós já somos revestidos dela a partir da
revestidos de ressurreição dos mortos (cf.
imortalidade, para 1Co.15:51-54)
desfrutar dela em um
“estado intermediário”
pré-ressurreição.
Contudo...
(12) A alma é algo imaterial A base da teologia que A alma é visivelmente
divide a natureza humana presente na forma do corpo, e
entre o corpo material e até mesmo em cadáveres (cf.
uma “alma imaterial” que Lv.19:28; 21:1, 11; 22:4;
possuiríamos presa dentro Nm.5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10;
do corpo. Contudo... 19:11, 13; Ag.2:13), pois o
corpo é a forma exterior da
alma
(13) Corpo e alma são dois Sendo o corpo mortal e a Corpo e alma são usados
opostos alma imortal; o corpo intercambiavelmente como
corruptível e a alma paralelismo bíblico (cf. Sl.63:1)
incorruptível; o corpo
material e a alma
imaterial; corpo e alma
são antagônicos entre si –
dois opostos. Contudo...

Em resumo, os sentidos secundários de espírito e alma devem necessariamente seguir a


mesma linha a partir de seu sentido principal e primário, ou, senão, a própria Bíblia
seria contraditória e confusa consigo mesma. Além disso, poderíamos sempre dar a

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 99


qualquer palavra bíblica o significado que bem quiséssemos ao nosso bel prazer. A exegese
seria inútil, a hermenêutica ficaria amputada. Quem se importaria com o que alma significa
primariamente ou sem seu devido contexto, se cada um pode dar a ela o sentido que bem
quiser na passagem que bem entender? Alma, como vimos, possui o significado primário de
um ser vivo, o “todo” do ser humano, cujas características são:

• Corruptível (emagrece, sente sede, chora, desce à cova da corrupção na morte)


• Mortal (a morte do corpo é a morte da alma)
• Material (visível na forma do corpo)
• Algo que somos (e não algo que detemos)

Diante dos sentidos primários para alma presentes na própria narração da natureza humana
em Gênesis 2:7 e também ao longo de toda a Escritura, os sentidos secundários jamais
podem contrariar os sentidos primários, como se pudesse significar ao mesmo tempo:

• Incorruptível
• Imortal
• Imaterial
• Algo que obtemos

Isso seria o mesmo que dizer que os significados secundários de uma palavra
corrompem, substituem ou contradizem seus significados primários, o que
evidentemente nada mais é senão aleijar a exegese. Podemos dar a palavra significados
secundários de acordo com cada situação? Sim, podemos. Mas este significado é dado ao
nosso bel prazer? Não. Pode entrar em contradição com seus significados primários? Nunca!
Muito pelo contrário: são exatamente os significados primários de um determinado termo
bíblico que dão significados secundários a esta mesma palavra. Por exemplo, sabemos que
alma é, primariamente, o ser integral, o ser vivo. Por isso, não seria errado dizer que a
alma é a própria vida, uma vez sendo que pela junção do corpo com o espírito a própria
vida se formou, teve início, como consequência da junção daqueles dois elementos. Por
isso, nesse sentido, “alma” significa “vida”.

Note que este sentido está correto e plausível diante do significado primário da palavra
e da descrição bíblica segundo Gênesis 2:7. Não é um significado arbitrário, não contradiz
em primeira mão o fato de que o homem não obteve uma alma mas se tornou uma, não
entra em contradição com nenhum dos fatos apresentados neste estudo. Por isso, o
imortalista que alega que em Gênesis 2:7 o homem realmente é uma alma mas que em
outras situações o homem não mais é uma alma mas possui uma, está entrando em sérias
contradições com a Escritura.

É o mesmo que afirmar que o significado secundário da palavra é o mais correto e que toma
o lugar do significado primário, que um significado secundário pode entrar em contradição
com o significado primário e que o homem ao mesmo tempo é uma alma e possui uma
alma, o que é totalmente contraditório. Uma coisa é compreender que biblicamente o
homem é uma alma e a partir deste conceito primário ir descobrindo sentidos
secundários que tem como base este sentido primário real, outra coisa inteiramente
distinta é concordar com isso mas ao mesmo tempo formular sentidos secundários que
em nada tem a ver com o sentido primário e que ainda o contradiz!

Em outras palavras, se o homem é holista (como aqui ficou provado que é), então dentro
desta linha holista devemos procurar os sentidos secundários, pois o homem não pode ser
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 100
holista e dualista ao mesmo tempo; ou seja, a alma não pode ser mortal em um lugar e
imortal em outro. Ou a alma é mortal ou é imortal. Como vimos, há um arsenal bíblico
insuperável de citações Escriturísticas que revelam expressamente que a alma morre;
portanto, não há lugar para o dualismo na Bíblia, nem mesmo em sentidos secundários. O
fato da natureza humana ser holista elimina qualquer sentido secundário dualista
para a alma.

Quando você vê uma pessoa, você está vendo uma alma, que morre. Uma alma vivente é
simplesmente um ser vivo, mortal, que só atinge o patamar de imortalidade a partir da
realidade da ressurreição (cf. 1Co.15:51-54), somente no último dia. O corpo é a alma
visível. Por isso, é errado dizer que “você é um espírito que possui uma alma”. É o espírito
chamado de homem por si mesmo? Não, mas é chamado de “espírito do homem”. Sendo
assim, você não é um espírito que possui uma alma, mas é um ser vivo (alma vivente) que
é constituído de um organismo físico (corpo) com todas as suas funções, junto à força vital
(fôlego de vida) que dá vida ao corpo durante a sua jornada terrestre. Não existe nenhum
segmento imaterial, ou imortal, que leve consigo consciência e personalidade, que Deus
tenha implantado no ser humano.

É digno de nota que sempre a Bíblia afirma que é o espírito [princípio animador da vida]
que volta para Deus por ocasião da morte (cf. At.7:59; Lc.23:46; Ec.12:7), tanto de justos
como de ímpios (cf. Ec.12:7), sendo que nunca é nos dito que a alma volta para Deus ou
desce para o inferno. Salomão nos escreve que o espírito volta para Deus (cf. Ec.12:7);
Estêvão entregou o espírito para Deus na morte (cf. At.7:59), do mesmo modo Jesus
entregou o espírito na morte (Lc.23:46). Por que nunca em parte alguma da Bíblia há
sequer qualquer menção da alma voltando para Deus ou sendo entregue nas suas mãos
após a morte?

A razão para isso é simples: o que retorna a Deus não é uma alma imortal, mas
simplesmente o princípio animador da vida concedido por Deus tanto aos seres humanos
quanto aos animais pela duração de sua existência terrena. O fôlego de vida [espírito] é nos
concedido como “empréstimo” a fim de animar um ser inanimado (pó). Quando, porém,
esse espírito deixa de dar animação ao corpo (que volta a ser pó), Deus recebe de volta
para ele aquilo que já era dele mesmo. Por isso, o espírito de toda a carne volta para Deus,
que é quem o deu (cf. Ec.12:7). O ser racional simplesmente deixa de existir – volta a ser
pó: morre.

Como disse o Dr. Bacchiocchi:

“Enquanto permanecer o ‘sopro de vida’ [espírito], os seres humanos são ‘almas viventes’.
Quando, porém, o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia
frequentemente se refere à morte humana como a morte da alma (Lev. 19:28; 21:1, 11;
22:4; Núm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ageu 2:13)”78

Na ressurreição, Deus sopra novamente em nossas narinas o fôlego de vida que retorna a
Ele, o nosso corpo é ressuscitado glorificado, e nos tornamos novamente em almas
viventes. Quanto ao fator ressurreição, veremos mais sobre isso nos próximos capítulos. A
pergunta, no entanto, que quisemos responder neste ponto é: onde no relato da criação

78 ibid.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 101


Deus aparece implantando uma alma imortal no homem? Exatamente... em lugar
nenhum.

Quando analisamos a criação da natureza humana, vemos como fica absurdamente claro
que nós não fomos dotados de uma alma imortal cativa dentro de nós. Assim como Deus
soprou o fôlego de vida em nossas narinas (cf. Gn.2:7), ele soprou nos animais também (cf.
Ec.3:21; Gn.7:15). E exatamente a mesma expressão “alma vivente” empregada aos seres
humanos também foi empregada aos animais. Em Gênesis 2:19, Adão foi convidado para o
nome de cada “alma [nephesh] vivente”. O que aconteceu no relato da criação dos seres
humanos foi exatamente o mesmo que aconteceu com os animais.

A nossa diferença é que fomos criados a imagem e semelhança de Deus, sem, contudo,
sermos compostos da mesma substância, como Deus. Deus é espírito, Deus é imortal; Ele
possui auto-inerência à vida eterna. O homem, por outro lado, foi formado a partir dos
elementos da terra como um material inerte, o cadáver físico de matéria orgânica no chão -
até que Deus soprou nele o fôlego da vida. Ao ponto que o homem passou a ser alma
vivente.

O argumento mais inútil já utilizado pelos defensores da tese de que o homem é matéria e
possui em si mesmo uma substância imaterial é dizer que pelo fato do homem ser formado
a imagem e semelhança de Deus lhe dá o direito de ser como Deus, imortal. Isso é um
completo disparate. Por essa mesma linha de raciocínio, poderíamos presumivelmente
pressupor que o homem deveria também ser onisciente, onipresente e onipotente – porque
Deus é!

É óbvio que nem onipresença, nem onisciência, nem tampouco onipotência ou imortalidade
é possuído por outro a não ser o próprio Deus vivo, que é “o único que possui a
imortalidade” (cf. 1Tm.6:16). Dizer que o homem é eterno não é o colocar no mesmo
patamar de Deus, mas também fazer dele próprio deus. Ele contaria com um poder divino
inerente dentro dele mesmo e possuiria aquilo que somente Deus possui (cf. 1Tm.6:16). Tal
visão é ferrenhamente contrária ao que a Bíblia nos mostra, afinal, “que é o homem mortal
para que te lembres dele?” (cf. Sl.8:4).

Nada além de substância materiais que perecem na morte, sendo milagrosamente recriado
pelo fator ressurreição. O ser humano é um ser distinto de Deus: Deus é eterno, o homem é
finito; Deus é imortal, o homem é mortal; Deus não tem começo e nem fim, o homem
naturalmente tem um começo e um fim temporal. Mas Deus, pela Sua infinita graça e
misericórdia, trouxe-nos “a ressurreição e a vida” (cf. Jo.11:25) por meio de Jesus Cristo,
pelo que nós poderemos desfrutar da imortalidade condicional a partir deste prorrogamento
de vida que é a ressurreição dentre os mortos na segunda vinda de Cristo.

Bacchiocchi ainda acrescenta:

“Nada na Escritura sugere que o homem transmite a imagem de Deus por possuir atributos
divinos, como a imortalidade. Não existem razões válidas para isolar a imortalidade como o
único atributo divino que se tenciona expressar pela frase ‘imagem de Deus’”79

79 ibid.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 102


A “alma” é algo que somos, não é algo que nós temos. Na ressurreição, seremos dotados de
imortalidade e incorruptibilidade (cf. 1Co.15:54,55). Enquanto isso, os seres humanos são
criaturas de pó: “Defendes o órfão e o oprimido, a fim de que o homem, que é pó, já não
cause terror” (cf. Sl.10:18); “Com o suor do teu rosto comerás pão, até que voltes a terra,
porque dela foste tirado; pois és pó e ao pó tornarás" (cf. Gn.3:19). Abraão respondeu e
disse: "Eis que agora eu me comprometi a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” (cf. Gn
18:27). A nossa estrutura é puramente o pó: “Pois ele conhece a nossa estrutura, ele
lembra que somos pó” (cf. Sl.103:14).

É interessante notar que, enquanto o dualismo e tricotomismo afirmam que nós somos
espírito (que por definição seria algo imortal e imaterial), a Bíblia declara que nós somos
pó (que por definição não é nada senão algo corruptível e fadado à inexistência).
Infelizmente, muitas pessoas hoje em dia preferem seguir doutrinas de homens famosos
que guiam ao erro do que se apegar ao que é simples e claro através da Escritura Sagrada.

O Salmo 104 retrata muito bem o processo que ocorre com o ser humano. Não é algo
complexo, pelo contrário, completamente simples. Na criação: “Quando sopras o teu fôlego,
eles são criados” (v.30); e na morte: “Quando escondes o teu rosto, entram em pânico;
quando lhe retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó” (v.29). Deus não formou o
homem a partir de alguma substância espiritual divina, mas sim exatamente do pó da terra
(cf. Gn.2:7).

Concluindo, nós não temos uma alma imortal em nosso ser, o nosso “verdadeiro eu” não
tem destinos diferentes após a morte, senão ao pó. Nós não temos alma, somos "almas
viventes" [nephesh] (cf. Gn.2:7), assim como os animais. Claro, não demorou muito para
que Satanás aparecesse em cena contrariando o aviso de Deus sobre o pecado e suas
consequências mortais. Tentando Eva com o fruto proibido, ele disse: "você certamente não
morrerá...” (cf. Gn.3:4). Em certo sentido, os conceitos modernos de alma imortal e
reencarnação visam transmitir a mesma ideia, de que o homem é inerentemente imortal,
que ele realmente não vai morrer. Ezequiel disse exatamente o oposto: "... A alma que
pecar, essa morrerá" (cf. Ez.18:4,20).

Como bem colocou o teólogo luterano Oscar Cullmann:

“A doutrina grega da imortalidade e a esperança cristã na ressurreição diferem tão


radicalmente porque o pensamento grego tem uma interpretação completamente diferente
da criação. A interpretação judaica e cristã da criação exclui todo o dualismo grego de corpo
e alma”80

A natureza holista do ser humano é tão evidente que todas as tentativas de negar o
simplismo bíblico na criação do homem caem em inúmeras contradições e erros de primeira
ordem, porque a narração do Gênesis é gritantemente contrária a uma suposta “alma
imortal/imaterial” implantada no ser humano. Moisés (autor do Gênesis) não tinha sequer a
mínima ideia de dualismo; e, se tal fosse o caso, decerto teria relatado a criação como
sendo da seguinte forma:

80 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:


<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 103


“...Deus formou o homem do pó da terra e incluiu nele um espírito eterno e o
homem obteve uma alma imortal”

Apesar de isso parecer ser uma piada diante do que realmente está na Bíblia (e uma piada
de mau gosto), incrivelmente é deste modo que os imortalistas imaginam, e empreendem
todos os seus malabarismos “exegéticos” para tentar forçar o texto ao máximo a fim de
passar tal ideia falsa e completamente distorcida do que o texto bíblico diz. Provavelmente
seria assim que Moisés teria escrito caso imaginasse que o homem possui uma alma imortal
diferentemente dos animais.

É óbvio que isso não aparece em lugar nenhum da Bíblia, porque o simplismo bíblico exclui
qualquer tentativa de dualismo entre corpo e alma. Deus soprou o fôlego para dar animação
ao corpo formado do pó, e assim o homem tornou-se uma alma vivente. Não existe nada,
absolutamente nada mesmo, nem sequer alguma pista, de alguma alma imortal implantada
nos seres humanos. Os dualistas tentam achar a tal da “alma imortal” onde não existe, e
isso acaba acarretando em uma série de contradições sérias como vimos acima. Não é a toa
que o Dicionário e Enciclopédia Bíblica Online, a mais completa enciclopédia bíblica em
Língua Portuguesa, que por vezes apresenta tendências dualistas, mesmo assim declara no
tema de imortalidade da alma:

“Nos autores não cristãos, Heródoto, historiador grego que viveu alguns séculos antes de
Cristo, diz-nos que os egípcios foram os primeiros que ensinaram a imortalidade da alma
humana. Logo depois Platão ensinou ao mundo grego a mesma verdade, dizendo ter
aprendido essa doutrina de outro filósofo, chamado Pitágoras. Platão baseou uma boa
porção dos seus ensinamentos morais nesta grandiosa crença, o ser bom ou o ser mau é
que determina o futuro da alma, sendo pitorescamente descritos os tormentos dos maus, e
a felicidade dos bons. Na Sagrada Escritura, ‘E formou o Senhor Deus o homem do pó da
terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.’ (Gn
2.7). A alma é a combinação do corpo e do fôlego de vida, quer dizer, sem corpo não há
alma e sem fôlego de vida também não há alma. O fôlego de vida é a mesma coisa que
espírito (Jó 27:3). Quanto à vida futura, a Escritura claramente nos ensina que o corpo volta
a ser pó e o espírito, ou fôlego de vida, volta para Deus. 'Eis que todas as almas são
minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar,
essa morrerá.' Ezequiel 18:4. Nós aspiramos possuir a imortalidade. A Bíblia usa a palavra
alma 1600 vezes, mas nunca usa a expressão: 'alma imortal'. Receberemos a imortalidade
quando Jesus voltar (1Tim 6:16 e Rom 2:7)"81

81 Disponível em: <http://dicionariobiblico.elosdejesus.com.br/imortalidade-da-alma/2520>. Acesso


em: 15/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 104


CAPÍTULO 4 – A CRENÇA DA IMORTALIDADE DA ALMA NO ANTIGO
TESTAMENTO

I –Introdução ao Capítulo

Da primeira a última página da Bíblia, a doutrina da imortalidade da alma não resiste a um


exame apurado das Escrituras. Já começando com o Antigo Testamento. Um exame das
páginas do AT nos faz perceber que os escritores inspirados não tinham a mínima noção de
uma existência consciente imediatamente após a morte. As evidências são tão fortes que as
explicações dos imortalistas quanto ao AT muitas vezes chegam a negar que os escritores
sabiam mesmo do que estavam falando: “eles não tinham tanto conhecimento” – dizem
eles.

Outros apelam com explicações que deixam a desejar e muito, e, ainda outros,
simplesmente deixam sem explicação mesmo – o que vale na verdade é só o Novo
Testamento! Sim, o NT certamente que vale também como regra de fé e doutrina, mas o AT
jamais pode ser esquecido, porque “toda a Escritura é divinamente inspirada” (cf.
2Tm.3:16), e as Escrituras que os apóstolos tinham disponíveis a seu tempo eram
exatamente os escritos do AT que negavam a vida após a morte em um estado
intermediário.

Toda Escritura é divinamente inspirada. O Espírito Santo que inspirou as páginas do Antigo
Testamento é o mesmo Espírito que dirigiu as páginas do Novo. Ou os dois testamentos
pregam a vida pós-morte antes da ressurreição do último dia, ou nenhum dos dois pregam!
A fortíssima luz das evidências nos deixa claramente a segunda opção como a única via. Na
verdade, ambos não se contradizem – um confirma o outro.

O fato é que ambos derrubam a imortalidade da alma, tanto o Novo como o Velho.
Começaremos com as definições de ambos os grupos e em seguida passaremos a ver os
ensinamentos veterotestamentários com relação à vida após a morte. Nos próximos
capítulos, o foco será centralizado no estado entre a morte e a ressurreição que os seres
humanos passam, para, no fim, passarmos aos acontecimentos finais.

Holismo – Na visão bíblica holista da natureza humana, o homem na morte está


inconsciente, lit. morto (i.e, sem vida). Não existe nenhuma forma de vida incorpórea e
consciente entre a morte e a ressurreição, pois a morte implica na cessação total de vida
para qualquer ser humano. Este estado entre a morte e a ressurreição é o que a Bíblia
caracteriza como um estado de “sono” (cf. Sl.13:3; Jo.11:11), uma metáfora adequada para
o estado inconsciente do ser racional na morte.

O despertar da ressurreição na volta de Cristo traz novamente a vida aos que nEle
dormiram, revivendo e sendo julgados para a vida ou para a condenação. Tal ensinamento é
amplamente fundamentado pela Escritura Sagrada, como veremos ao longo de todo este
estudo. A ressurreição dos mortos implica em dar a vida a alguém que está sem vida, e não
em um processo de religação de corpo com alma, pois tal suposição é estranha à luz das
Escrituras. A morte do corpo implica na morte da alma, uma vez que o corpo é a alma
visível.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 105


Dualismo – Para os defensores da doutrina da imortalidade da alma, o corpo é uma prisão
da alma, que é liberta por ocasião da morte, indo direto ao Céu ou ao inferno (algumas
vertentes pregam também o purgatório, limbo, e outros “compartimentos”), e lá esperam
até a ressurreição dos mortos, quando as suas almas imortais se religam novamente ao
corpo. Defendem esta tese baseando-se em algumas passagens bíblicas isoladas entre si,
as quais analisaremos amplamente ao longo deste estudo.

Para eles, existe existência de vida entre a morte e a ressurreição em um estado


incorpóreo, e a maior parte dos defensores desta doutrina acredita que os mortos já foram
julgados, baseando este ensinamento em Hebreus 9:27, mas tem grande dificuldade em
explicar outros textos que refutam absolutamente isso (ex: At.17:41; 1Pe.4:5; 2Tm.4:1).
As amplas referências bíblicas ao “sono” para os mortos se referem em sua totalidade
somente ao corpo, e não à alma. A alma, imaterial e imortal por natureza, jamais pode
morrer.

II–Moisés, Jó e a Imortalidade da Alma

Segundo reza a tradição, o autor de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio


teria sido Moisés, o que também é confirmado biblicamente (cf. Lc.24:44; 2Cr.25:4). Estes
livros são muito importantes, pois relatam fatos como a criação do homem, bem como a
sua natureza humana. Em termos simples, se existisse uma alma imortal, aí estaria uma
ótima oportunidade de mencionar tal fato tão importante no tocante a natureza do homem.
Mas nada de imortalidade é mencionado nos cinco livros de Moisés. No relato acerca da
criação do ser humano bem como a sua natureza, ela é apresentada de maneira holista, e
não dualista (cf. Gênesis 2:7 – ver Capítulo 3).

Vimos neste estudo que o mesmo processo que sucede aos homens sucede também aos
animais. Afinal, “o que sucede aos filhos dos homens é mesmo que sucede aos animais,
lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo
fôlego [espírito - ruach], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma,
porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e
todos voltarão ao pó” (cf. Ec.3:19,20).

É comum a Bíblia igualar absolutamente os homens com os animais, pelo simples fato de
que não existe vantagem nenhuma de um em relação a outro. Ambos são feitos do pó e o
único lugar para o qual voltam é para o pó. Disso resulta toda uma infinidade de passagens
bíblicas em que o homem é igualado aos animais pelo fato de não possuir nenhuma
vantagem sobre eles: “O homem, mesmo que muito importante, não vive para sempre, é
como os animais, que perecem” (cf. Sl.49:12).

Tais comparações não fariam sentido em caso que nós (ao contrário deles) fôssemos
dotados de uma alma imortal que nos diferenciasse deles no quesito pós-morte. Isso seria
uma clara vantagem nossa. Deus soprou o fôlego que garante vida aos animais do mesmo
modo que soprou aos seres humanos (cf. Ec.3:19,20), ambos possuem “espírito” [ruach] –
cf. Gênesis 7:15; Eclesiastes 3:19,20; Salmo 104:29 -, que é o que garante a vida; ambos
expiram o ruach na morte (cf. Sl.104:29; Ec.12:7), e a ambos é referido o termo alma-
nephesh (cf. Gn.2:7; Gn.1:20). Não foi dado aos seres humanos nenhuma vantagem sobre

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 106


os animais quando o assunto é o destino pós-morte, e por isso que Salomão os iguala
absolutamente quando trata disso (cf. Ec.3:19,20).

O mesmo que sucedeu aos homens sucedeu aos animais, os humanos não têm a vantagem
de possuírem uma “alma imortal”! Deus não colocou uma alma no homem. Moisés é bem
claro no relato da criação em negar qualquer vestígio de um elemento transcendental que
garanta imortalidade incondicional, intrínseca, com consciência e personalidade na morte.
No aspecto prático, é óbvio que nos cinco livros de Moisés não existe qualquer menção de
vida dentre os mortos em um “estado intermediário”. Pelo contrário, quando Caim mata
Abel, o Senhor Deus diz: “O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão
está clamando” (cf. Gn.4:10).

O Abel como pessoa não poderia clamar nada depois da morte porque ele estava passando
por aquilo que a Bíblia caracteriza por “inconsciência” (cf. Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4;
Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17) e por
“sono” (cf. Sl.13:3; Sl.25:13; Jó 14:11-12; 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51; 1Ts.4:13;
1Ts.4:14; 1Ts.4:15). Por isso, o que clamava não era o próprio Abel, mas sim o sangue
dele. Evidentemente é uma personificação e não uma realidade, pois o sangue não tem vida
e personalidade em si mesmo. É comum a Bíblia personificar personagens inanimados (ex:
Juízes 9:8-15; 2 Reis 14:9; Habacuque 2:11; Lucas 10:40; Mateus 3:9; ver Jó 12:7 e 8;
Gênesis 4:10; Apocalipse 10:3).

Se Abel estivesse vivo em um “estado intermediário”, Deus teria dito que ele próprio [Abel]
que estava clamando. Mas como ele não está, então Deus teve que personificar algo sem
vida [o sangue] para exercer a linguagem do “clamor”. Ainda mais importante do que isso é
o que relata outro escritor bíblico tão antigo quanto Moisés: Jó. Este homem teve a sua
história narrada aproximadamente no ano 2000 a.C. Se no caso de Moisés a natureza
dualista do homem é totalmente omitida e rejeitada, no caso de Jó os seus diálogos com
seus companheiros (Bildade, Zofar, Eliú e Elifaz) é extremamente produtivo em termos
práticos.

Nele, Jó comenta: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará
sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a
Deus, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus
rins se consomem no meu interior” (cf. Jó 19:25-27). Até mesmo Jó, há dois mil anos a.C,
já sabia que só iria ver a Deus quando por fim o Redentor (figura de Cristo) se levantasse
sobre a terra, e não antes disso!

Jó também é o mesmo que diz: “Mas, morto o homem, e, consumido; sim rendendo o
homem o espírito, então onde está? Como as águas se evaporam de um lago, e o rio se
esgota e seca; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf.
Jó 14:10-12). Jó sequer imaginava que ao morrer estaria na presença imediata de Deus,
por isso revela que teria que esperar até que “não houvesse mais céus”, pois só neste
momento veria a Deus (cf. Jó 19:25-27), sendo despertado de seu estado caracterizado de
“sono” (cf. Jó 14:12).

Para Jó, a morte não seria um passaporte para estar imediatamente com Deus, porque ele
fala claramente de esperar até não mais “existirem os céus” (cf. Jó 14:11) e até ser
“substituído” (cf. Jó 14:14). A esperança de Jó, assim como a de todos os cristãos, é
na ressurreição do último dia, e não na partida da alma na morte! E, como se isso
não fosse suficientemente claro, Jó continua a dizer: “Morrendo o homem tornará a viver?
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 107
Todos os dias da minha vida esperaria, até que viesse a minha mudança. Chamar-me-ias, e
eu te responderia...” (cf. Jó 14:14, 15). Jó sabia muito bem que, “morrendo... morreria” (cf.
Gn.2:7). Mas ele tinha a esperança de ver a Deus no tempo do fim, e somente no tempo do
fim, quando o seu Redentor se levantaria sobre a terra.

Este é o momento da ressurreição do último dia (cf. Jo.6:39,40), que o Novo Testamento
relaciona à segunda vinda de Cristo (ver 1Co.15:22,23). É só neste momento que veremos
a Deus. Jó definitivamente não cria numa natureza dualista do ser humano. Isso explica o
porquê de ele dizer que “o único lar pelo qual espero é a sepultura” (cf. Jó 17:13), porque
ele não cria que o ser humano fosse um ser dividido em corpo e alma, cada qual com
destinos diferentes após a morte. Se assim fosse, a sepultura não seria o seu único destino,
mas o destino apenas do corpo, uma vez sendo que o ser racional dele (que seria a alma) já
estaria assegurada entre os salvos em alguma espécie de Paraíso, o que é claramente
rejeitado por ele que cria que o seu único destino era o túmulo.

Jó também sabia que, caso morresse (cf. Jó 3:11), não iria imediatamente para junto de
Deus, mas estaria permanecendo em “repouso” (cf. Jó 3:13,17; 14:10-12), no mesmo lugar
onde encontra-se os justos com os ímpios (cf. Jó 3:17-19), sendo que já não se ouvem
mais gritos (cf. Jó 3:18) e todos estão em sossego (cf. Jó 3:18), algo impossível para
alguém que está em um lugar ouvindo os gritos de espíritos que estão em meio às chamas:

“Ali os ímpios já não se agitam, e ali os cansados permanecem em repouso; os prisioneiros


também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos. Os simples
e os poderosos ali estão, e o escravo está livre de seu senhor” (cf. Jó 3:17-19)

Jó não tinha a menor visão de vida após a morte onde justos e ímpios teriam destinos
distintos no pós-vida, mas sim de um lugar onde estão “os simples e os poderosos” (v.19),
os cansados, os prisioneiros e os homens livres (vs.18-19). A linguagem sobre permanecer
em repouso (v.17) mostra claramente que ele não tinha a menor noção dos ímpios sofrendo
horrivelmente gritando entre as chamas de um fogo eterno aterrorizante, pois cria que “os
ímpios já não se agitam” (v.17), denotando um estado de inatividade. Já “não se ouvem
mais gritos” (v.18), o que seria difícil de se esperar caso a descrição fosse das chamas de
um fogo infernal.

Não há qualquer citação sobre a presença de Deus naquele lugar, nem de anjos, nem de
demônios, nem de suplícios, nem de regozijos. Tão somente o simplismo do sono da morte.
Tudo isso nos mostra que o local de repouso, inatividade, sem gritos e sem distinção entre
justos e ímpios que Jó tinha em mente após a morte não era outro senão a sepultura. Não
havia qualquer visão sensacionalista sobre a vida pós-morte e muito menos uma
imaginação aflorada como um “inferno de Dante”. Em meio a tantas evidências claras de
que Jó não acreditava na existência de uma suposta “alma imortal” que lhe garantisse
sobrevivência após a morte, os dualistas conseguem encontrar uma “brecha” em Jó 26:5,
que supostamente “provaria” a sobrevivência da alma em um estado intermediário.

Algumas traduções em língua portuguesa vertem da seguinte maneira o verso: “A alma dos
mortos treme debaixo das águas com seus habitantes”. Essa tradução, contudo, não é fiel
aos manuscritos originais. A palavra usada nos manuscritos originais do hebraico é Há
Rephaim, que significa literalmente “os gigantes”, e não “almas”! Tal tradução de “a alma
dos mortos” não corresponde ao que o texto original do hebraico diz, pois a referência é aos
Rephains e não a “almas”-nephesh. Várias das melhores traduções do mundo vertem o
texto da maneira como ele verdadeiramente o é, como a Young’s Literal Translation (que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 108
mantém uma tradução fiel aos manuscritos originais), e traduz: “Os refains são formados
debaixo das águas com seus habitantes”.

Os Rephains foram gigantes que habitaram na Palestina e outros lugares, mas foram
destruídos por outros povos e por fim acabaram por desaparecer. Com o tempo, a
expressão passou a significar qualquer ser gigantesco, como as baleias, por exemplo. Jó
26:5 deveria ser melhor traduzido por “os gigantes tremem debaixo das águas com seus
habitantes” – uma clara alusão aos grandes animais marinhos, como as baleias. Tal
tradução de “as almas dos mortos” nem corresponde aos textos originais e nem faz
qualquer tipo de lógica, pois as almas dos mortos não ficam “debaixo da água tremendo”...

Vale também ressaltar que para Jó os ímpios não estavam sendo atormentados no dado
momento. Se fosse este o caso, então seria imprescindível que isso tivesse sido mencionado
em algum lugar no diálogo ou filosofias com os seus amigos, uma vez que eles abordavam
bastante o aspecto da outra vida e a vantagem entre justos e ímpios. Contudo, o que lemos
é que os maus não estão no inferno, mas estão “reservados”, no túmulo, para o dia do
Juízo:

“Pois dizeis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que morava o ímpio?
Porventura não perguntastes aos viandantes? e não aceitais o seu testemunho, de que o
mau é preservado no dia da destruição, e poupado no dia do furor? Quem acusará diante
dele o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que fez? Ele é levado para a sepultura, e
vigiam-lhe o túmulo” (cf. Jó 21:28-32).

Também em Jeremias 12:3, lemos que os ímpios estão “reservados... para o dia da
matança” (cf. Jr.12:3). A punição não é algo já vigente, mas um acontecimento futuro. Em
momento nenhum é dito no livro de Jó que a morte seria um prêmio ou um passaporte para
um Paraíso. Pelo contrário, a morte é caracterizada como um inimigo. A situação de Jó era
tão decadente que até a morte seria melhor alternativa para ele. Isso porque a morte dos
justos era absolutamente igualada a dos ímpios (cf. Jó 21:23-26). Não existia “vantagem”
dos bons em detrimento dos maus no sentido de que a alma de todos desceria para a cova
com a morte (cf. Jó 33:18,22,28,30).

Quando é retirado o espírito do homem, para onde este vai? Para junto de Deus? Para Jó,
não exatamente. Retirado o espírito, o homem não vai para junto de Deus, mas volta para o
pó da terra (cf. Jó 34:14,15). Não só ele, mas o salmista também declara a mesma
realidade: “Quando escondes o rosto, entram em pânico; quando lhes retira o fôlego,
morrem e voltam para o pó” (cf. Sl.104:29). E em outra parte: “Quando o espírito deles se
vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4). Os
hebreus, ao contrário dos gregos, acreditavam em uma natureza humana holista, e não
dualista. É mais do que evidente que Jó não acreditava em imortalidade da alma nenhuma.

Até por isso, ele afirma: “Porém os olhos dos ímpios desfalecerão, e perecerá o seu refúgio;
e a sua esperança será o expirar da alma” (Jó 11:20). Ora, já vimos que o extirpar da
alma significa a própria morte desta (cf. Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10;
Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.22:25,27), com destino à cova (cf. Jó 33:18,22,28,30;
Is.38:17; Sl.94:17), sendo que a vida humana sobe para Deus (cf. Ec.12:7).

Ora, a coisa mais ridícula que algum defensor da imortalidade da alma ousaria dizer era que
a esperança dos ímpios seria o extirpar da alma, pois isso remeteria a um imediato
lançamento da alma em um lago de fogo eterno completamente atormentador. De jeito
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 109
nenhum que essa seria a “esperança” deles! O “extirpar da alma” seria o seu maior medo, e
não sua esperança. É óbvio que para Jó não existia qualquer existência de vida antes da
ressurreição dos mortos, concluindo-se então que logicamente a situação destes ímpios
seria aqui na terra ruim ao ponto da morte ser um “alívio”, pois eles deixariam
absolutamente de existir, ainda que durante algum tempo, até a ressurreição.

É evidente que na própria visão veterotestamentária haverá um dia que Deus determinou
para julgar todo o mundo (cf. Ec.11:9), mas este castigo seria proporcional ao que lhes é
merecido e não seria antes da ressurreição, pois, se tal se sucedesse, então o extirpar da
alma seria a consequência mais agonizante e aterrorizadora que algum ímpio já poderia
passar! Isso estaria longe, muito longe de ser uma “esperança”! É muito claro que para Jó
não existia tormento para os ímpios logo após a morte, e nem vida antes da ressurreição.

Para Jó, o homem é mortal e não imortal (cf. Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2) – “Como pode o
mortal ser justo diante de Deus?” (9:2) -, declaração, aliás, que permeia a Bíblia toda com
respeito à natureza humana (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12; Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4;
Rm.1:23). Existem biblicamente (AT e NT) dezenas de dezenas de menções com relação à
natureza humana definindo-a como “mortal”, como o próprio Deus diz em Isaías: “Eu, eu
sou aquele que vos consola; quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal,
ou o filho do homem, que não passa de erva?” (cf. Is.51:12).

O homem é um mero ser mortal, não passa de uma simples erva, não possui em si mesmo
um segmento transcendental que lhe dê imortalidade. Por isso mesmo, ele não deve ser
temido (v.12), pois “não passa de erva” (v.12). Tal analogia feita por Deus seria nula e sem
sentido em caso que, ao contrário da simples erva, o “verdadeiro eu” do ser humano fosse
imortal, e não mortal como diz o próprio verso. Aqui a comparação do homem com a erva é
claramente relacionada ao fato de ele ser mortal. Se o homem tivesse uma alma imortal,
então a erva também deveria ter, pois, doutra forma, tal analogia seria oca e sem sentido.
Os dois são mortais; nenhum dos dois tem um elemento imortal – por isso, neste
sentido o homem não tem nenhuma vantagem sobre a “erva” (cf. Is.51:12), como o próprio
Deus afirmou.

Ademais, se o “verdadeiro eu” do ser humano fosse imortal, seria bem presumível que
também houvessem dezenas de menções a essa parte imortal do homem; contudo, em
absolutamente todas as ocasiões em que a natureza humana é colocada em jogo, ela
sempre aparece como “mortal”, e nunca como “imortal” (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12;
Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4; Rm.1:23; Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2). Tal quadro que nos é
apresentado mostra-nos claramente que o ser humano não é um ser dualista (parte mortal
e parte imortal), mas plenamente mortal.

Jó também sabia que, morrendo, já não existiria mais: “Por que não perdoas as minhas
ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás,
mas eu já não existirei” (cf. Jó.7:21). Se Jó morresse e sua alma imortal fosse levada
para junto de Deus, então este “acharia” Jó! De maneira nenhuma que Deus não
encontraria Jó após a sua morte como é claramente relatado em 7:21, caso este estivesse
com o próprio Deus logo após a morte.

Mas a razão pela qual o Deus onipresente não encontraria Jó é que este, morrendo, já não
existiria. A mesma verdade é relatada no Salmo 39:13. Não é possível “encontrar” algo que
não mais existe. Nem Moisés com a criação do ser humano, nem Jó na conversa com seus
amigos, acreditavam em qualquer imortalidade da alma. Um nega uma natureza dualista do
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 110
homem, o outro nega um estado intermediário das almas. O fato em comum é que
ambos levantam a bandeira contra a imortalidade da alma.

III–Os Livros Poéticos

São chamados de “Livros Poéticos” aqueles livros que se destacam dos demais do Antigo
Testamento pelo gênero devocional de seu conteúdo. São cinco ao todo: Jó, Salmos,
Provérbios, Eclesiastes e Cantares. Já vimos a evidência de Jó. Veremos agora o
testemunho de Eclesiastes.

O Testemunho de Eclesiastes - O livro de Eclesiastes certamente que desperta uma grande


curiosidade por parte dos leitores. As filosofias do “sábio”, filho de Davi (cf. Ec.1:1), sobre a
vida pós-morte, apresenta uma grande recusa da possibilidade de existir vida em um estado
intermediário antes da ressurreição. Do início ao fim de Eclesiastes, vemos que Salomão
segue um princípio e segue essa linha em seus pensamentos. A lógica presente no livro é
que não existe vida após a morte. A partir disso, é comum vermos o autor igualar a morte
dos homens com a dos animais, por exemplo:

“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e
lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo
fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são
vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf.
Eclesiastes 3:19,20)

A razão pela qual os homens não terem vantagem nenhuma sobre os animais é que o
destino dos dois é o mesmo após a morte. Nisso fica claro que Salomão não cria em uma
natureza dualista do ser humano, com uma alma imortal que o diferenciasse dos animais.
Isso implicaria em uma evidente vantagem dos homens sobre os animais! Aliás, já vimos
que até aos animais foi designado o mesmo termo “nephesh hayyah” que foi designado aos
seres humanos (cf. Gn.2:7; Gn.1:20).

Como vimos no capítulo 3 deste estudo, no original hebraico a palavra aqui utilizada por
Salomão (cf. 3:19) é ruach-espírito. Os seres humanos possuem o mesmo espírito-ruach
dos animais e, por isso, não possuem nenhuma vantagem sobre eles. Isso nos mostra
claramente que o nosso espírito-ruach não é uma “alma imortal” ou algo que garanta
imortalidade levando consigo consciência e personalidade após a morte, pois, se assim
fosse, o espírito-ruach dos humanos seria gritantemente diferenciado do espírito-ruach dos
animais, e Salomão não os igualaria.

É evidente que em vários aspectos temos vantagens sobre eles; quando, porém, a questão
é a natureza e destinos pós-morte, ambos são absolutamente igualados (cf. Ec.3:19):

ESPÍRITO DO DESTINO DO MATERIAL DO CONCLUSÃO


HOMEM E DOS HOMEM E DOS QUAL FORAM
ANIMAIS ANIMAIS FEITOS
O mesmo (cf. 3:19) O pó da terra (cf. Feitos do pó (cf. A vantagem de
3:20) 3:20) homens sobre
animais no quesito
de natureza e

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 111


destinos pós-morte
não é nenhuma (cf.
3:19)

Seguindo essa linha de raciocínio, Salomão diz também que o destino pós-morte dos tolos é
o mesmo do sábios (cf. Ec.2:15), que o sábio morre do mesmo jeito que o tolo (cf.
Ec.2:16), que o destino dos justos é o mesmo destino dos ímpios (cf. Ec.2:14), que o
destino dos homens é o mesmo dos animais (cf. Ec.3:19), e que todos vão para o mesmo
lugar após a morte (cf. Ec.3:20): “E, ainda que vivesse duas vezes mil anos e não gozasse o
bem, não vão todos para um mesmo lugar?“ (cf. Ec.6:6); “Tudo sucede igualmente a todos;
o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que
sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao
que teme o juramento” (cf. Ec.9:2).

Salomão não diferenciava o destino dos justos e dos ímpios, tampouco com o dos animais,
porque não cria em uma alma imortal deixando o corpo na morte. Ele não acreditava em
uma alma imortal que era julgada no momento da morte com destinos diferentes, não
existia uma recompensa logo após a morte: o destino de ambos era o mesmo.

“Assim que também isto é um grave mal que, justamente como veio, assim há de ir; e que
proveito lhe vem de trabalhar para o vento... Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa:
comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo
do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção” (cf. Eclesiastes
5:16,18).

Com a realidade da ressurreição dentre os mortos, é comum vermos os escritores do Novo


Testamento proferirem que a recompensa será dada a cada um no momento da segunda
vinda de Cristo (cf. Mt.16:27; Ap.22:14; 1Pe.5:4; 5; Lc.14:14; 2Tm.4:1), que é quando os
mortos serão ressuscitados (cf. 1Co.15:22,23; 1Ts.4:15), para aí entrarem no gozo do
Paraíso (cf. Jo.14:2-4; 1Ts.4:15). Salomão não acreditava na vida imediatamente após a
morte e não tinha o foco centrado na ressurreição como os escritores do Novo Testamento
tinham, razão pela qual, ao invés de escrever focado no momento da ressurreição (como
faziam os escritores neotestamentários), escrevia focado naquele estágio imediatamente
após a morte, antes da ressurreição, que é um estado sem vida.

Mais significativo ainda do que isso são as comparações que Salomão faz: “Se o homem
gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua
alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor
do que ele” (cf. Ec.6:3). Qualquer leitor honesto concluirá que, para Salomão, uma criança
abortada é sinal de alguém que perdeu totalmente o dom da vida. Se ela tivesse
automaticamente uma vida no Paraíso ou em algum lugar garantida entre os salvos, não
valeria tal comparação que Salomão faz neste verso.

E ele continua: “Porquanto debalde veio, e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu
nome. E ainda que nunca viu o sol, nem conheceu nada, mais descanso tem este do que
aquele” (cf. Ec.6:5). A vantagem de um aborto sobre os vivos não baseava-se em possuir
automaticamente uma vida eterna com Deus, mas sim decorrente do fato de que “nunca
veria o sol”. Salomão realmente acreditava que “os mortos não sabem de nada” (cf. Ec.9:5)!
Entender o pensamento de Salomão é de fundamental importância para compreendermos a
revelação no livro de Daniel:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 112


“E muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros
para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2)

Outra comparação que Salomão faz é relatada em Eclesiastes 9:4, que diz que um cão vivo
vale mais do que um leão morto: “Quem está entre os vivos tem esperança; até um
cachorro vivo é melhor do que um leão morto!” (cf. Ec.9:4). É claro que se os mortos
estivessem vivos gozando de bem-aventuranças então um leão morto valeria muito mais do
que um cão vivo! Como Salomão não acreditava em vida após a morte, então mesmo um
“leão”, se estivesse morto, valeria menos até mesmo em relação a um “cão” vivo!

Vale ressaltar também que, para Salomão, nós [os que estamos “debaixo do sol”] somos os
únicos vivos. Não existem vivos em algum outro lugar. Quem está entre os vivos somos
nós, que ainda temos esperança. O verso seguinte também elucida o anterior mostrando o
porquê do cão vivo valer mais do que um leão morto: porque os mortos não estão cônscios
de coisa alguma:

“Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma,
nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao
esquecimento. Também o seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram, e já não
têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol” (cf.
Eclesiastes 9:5,6)

Aqui Salomão apenas reitera aquela linha de raciocínio que ele já mantém desde o início de
seu livro, desta vez de forma ainda mais direta: os mortos não sabem de coisa nenhuma
(cf. Ec.9:5), tem a memória entregue ao esquecimento (cf. Ec.9:5), e sentimentos de amor,
ódio e inveja já pereceram (cf. Ec.9:6). Como os imortalistas respondem a evidência de
Eclesiastes? A maioria afirma que tudo isso se limita ao que acontece “debaixo do sol”. A
expressão “debaixo do sol” se refere realmente ao nosso mundo; porém, Salomão a usou
porque na mente dele não há a mínima ideia de que os mortos cheguem a outro lugar! Os
hebreus não pensavam como os gregos. De fato, Salomão fala muito das coisas que
acontecem “debaixo do sol”, como em Eclesiastes 9:6:

“Amor, ódio e inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa
alguma do que se faz debaixo do sol” (v.6)

Aqui ele diz que as coisas que acontecem debaixo do sol (tais como amor, ódio e inveja) já
não são possíveis para os mortos, que não sabem de “coisa nenhuma” (v.5). Ele não está
dizendo que os mortos não desfrutam de amor, ódio e inveja debaixo do sol, mas sim que
os sentimentos de amor, ódio e inveja não são possíveis aos que já morreram, mas apenas
aos que estão debaixo do sol, isto é, aos vivos. As interpretações tendenciosas dos
imortalistas em suas tentativas de negarem o óbvio do texto bíblico se mostram
completamente fracassadas quando se deparam com uma interpretação de texto simples e
ao mesmo tempo precisa.

Se, portanto, o sentimento de amor só está presente entre os vivos, ou seja, entre aqueles
que estão debaixo do sol, então só nos restam duas alternativas: ou os mortos estão
realmente inconscientes, isto é, sem vida; ou, então, eles estão vivos em algum lugar e não
tem amor por ninguém! Qual é o mais provável? Que o sentimento de amor já não exista
entre os mortos ou que ele não exista exatamente porque são os próprios mortos que não
estão com vida?

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 113


Além disso, é extremamente impreciso dizer que Salomão só se preocupava com os vivos,
pois ele fala também com relação à vida no além, ele fala do estado dos mortos:

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além,
para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”
(cf. Eclesiastes 9:10)

Fica claro que também no além, na “habitação dos mortos”, não existe qualquer atividade
ou sabedoria. O original hebraico traz neste verso a palavra “Sheol”, transliterado para
Hades no grego do NT. Para os defensores da imortalidade, este lugar é referência a
“habitação consciente dos espíritos”. Salomão liquida com isso usando as palavras hebraicas
ma`aseh', cheshbown e chokmah, que de acordo com a Concordância de Strong, tais
palavras transliteradas demonstram que os mortos:

(1) Não tem nenhum conhecimento, obras ou atividade [ma`aseh]82


(2) Não tem inteligência e nem dispositivo de razão [cheshbown]83
(3) Não tem sabedoria, habilidade e nem inteligência [chokmah]84

Evidentemente um estado de completa inconsciência.

O Espírito Santo não “inspirou errado” o livro de Eclesiastes, e tentar negar todas as
evidências deste livro como prova contra a imortalidade da alma é no mínimo estar com a
mente totalmente fechada para o conteúdo geral do livro, é negar todo um raciocínio que o
autor mantém desde o princípio de seu livro. Fica claro, diante de todas as evidências,
passagens bíblicas, bem como a linha de raciocínio que Salomão segue desde o seu início,
que ele não cria de maneira nenhuma em qualquer “alma imortal” que sai do corpo no
instante da morte. A visão de Salomão não é única, mas reflete uma regra do AT: não
existe a imortalidade da alma.

Outro argumento bastante utilizado por alguma parte dos defensores da imortalidade
intrínseca com relação ao livro de Eclesiastes é que ele não acreditava que pudesse existir
vida em qualquer era futura. Sendo assim, o argumento deles é que, se nos basearmos no
livro de Eclesiastes como evidente prova contra o estado intermediário, teríamos que negar
também qualquer vida futura – até mesmo por meio de uma ressurreição – porque
(segundo eles) Salomão não acreditava em nenhum tipo de vida para nenhuma era.

Esse argumento falha em dois pontos principais. Em primeiro lugar, porque seria o mesmo
que negar que o Espírito Santo dirigia Salomão em seus ensinamentos. Se o Espírito Santo
dirigia os ensinamentos dele e ele conta um “engano”, seria o mesmo que afirmássemos
que o Espírito Santo “inspirou errado” e escreveu mentiras e enganações na Bíblia Sagrada,
o que é um ultraje contra a divindade. Se, contudo, tomarmos o outro ponto (de que
Salomão não estava inspirado), então deveríamos também negar a Bíblia como regra de fé,
pois ela não seria considerada “segura” em seus ensinamentos.

82 Léxico da Concordância de Strong, 4639.

83 Léxico da Concordância de Strong, 2808.

84 Léxico da Concordância de Strong, 2451.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 114


Afinal, se Salomão pôde escrever bobagens e ensinar doutrinas erradas e antibíblicas aos
seus leitores – e está na Bíblia – quem pode nos garantir que não existam outros vários
erros doutrinários presentes nos demais livros que também fazem parte do cânon bíblico? A
única maneira de salvaguardar a inspiração das Escrituras e a infalibilidade (segurança)
doutrinária dela é admitindo também a inspiração de Eclesiastes no mesmo nível dos
demais livros.

Ademais, se Salomão errou ao escrever isso, deveríamos também negar que toda a
Escritura (incluindo Eclesiastes, é claro) seja divinamente inspirada, e deste modo
estaríamos chamando o apostolo Paulo de mentiroso, pois ele afirmou que “toda Escritura
é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a
educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado
para toda boa obra” (cf. 2Tm.3:16), e não apenas parte dela. Aqui vemos que a Escritura é
útil não somente para aperfeiçoar o caráter das pessoas (como alguns pensam), mas
também como “ensino”, isto é, em questões doutrinárias.

Em segundo lugar, é um completo equívoco dizer que Salomão desacreditava


completamente que os mortos ressuscitariam um dia. Tão certo como ele desacreditava
completamente em que os atuais mortos já estivessem vivos em sua época em algum tipo
de “estado intermediário” (cf. Ec.9:5,6; 9:10), também é certo que ele sabia muito bem que
Deus haveria de julgar a cada um pelo que fez e lhes conceder uma vida eterna (aos
justos). De fato, Salomão fala da "eternidade" no coração humano (cf. Ec.3:11) e de
imortalidade quando ele declara que o homem um dia irá "à casa eterna" (cf. 12:5).

Ele enfatiza também que devemos temer ao Senhor porque num certo dia "de todas estas
coisas Deus nos pedirá contas" (cf. 11:9). A realidade do dia do juízo quando estaremos
diante de Deus é reiterada por ele no capítulo seguinte, quando ele conclui o livro dizendo
que “Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja
bom, seja mal” (cf. Ec.12:14). Isso é claramente uma menção ao juízo que acontece na
segunda vinda de Cristo. Portanto, a partir de Eclesiastes, podemos perceber o que é abaixo
relatado:

VIDA TERRENA ESTADO RESSURREIÇÃO (JUÍZO)


INTERMEDIÁRIO PARA A VIDA ETERNA
A breve vida em que Um estado em que os Um estado de vida em que
passamos “debaixo do sol” mortos se encontram Salomão acentua que
atualmente e que Salomão estaremos em “moradas
define como “sem eternas” (cf. 12:5) e que
inteligência, razão, certamente passaremos pelo
conhecimento ou sabedoria” juízo de Deus que nos julgará
(cf. 9:10), e que “os mortos por tudo o que fizermos (cf.
não estão cônscios de coisa 11:9; 12:14)
alguma” (cf. 9:5), sendo
que os sentimentos como
“amor, ódio e inveja já
pereceram” (cf. 9:6)

Outra prova clara de que o livro de Eclesiastes não contradiz o restante dos ensinamentos
bíblicos neotestamentários é o fato de que ele próprio escrevia sabendo que o espírito
retornava para Deus por ocasião da morte: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 115


volta a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7). Este ensino não é contrário ao do NT, pelo contrário,
corresponde exatamente ao ensino neotestamentário: “Pai ao Senhor entrego o meu
espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46). Note que o que Salomão declara em
Eclesiastes é exatamente aquilo que é confirmado pelo NT. Salomão, que sabia muito bem
que o espírito subia para Deus, afirmava também categoricamente, neste mesmo livro, que
os mortos não estão conscientes de coisa alguma (cf. Ec.9:4,5; 9:10) e que o homem
possui o mesmo espírito-ruach dos animais, tendo o mesmo destino que eles tem ao
morrerem (cf. Ec.3:19).

A palavra usada no original hebraico de Eclesiastes 9:10 é “Sheol”, que para os imortalistas
é a morada dos espíritos, que se localiza nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9;
Mt.12:40; Mt.11:23). Tanto isso não é verdade que Salomão afirma que o espírito [de
todos] sobe para Deus (cf. Ec.12:7), e sabia que neste local não existia nenhum tipo de
sabedoria ou conhecimento (cf. Ec.9:10), que os mortos não sabiam de nada (cf. Ec.9:5), e
iam todos [justos ou ímpios] para o mesmo lugar após a morte (cf. Ec.3:20).

Em outras palavras, Salomão sabia que o espírito subia para Deus, mas também sabia que
não tinha parte alguma com alguma “entidade viva e consciente” que nós levamos conosco
após a morte. Vemos claramente que Salomão não contraria os ensinos neotestamentários,
ao contrário, concorda com eles:

ECLESIASTES NOVO TESTAMENTO


“E o pó volte à terra, como o era, “Pai ao Senhor entrego o meu
e o espírito volta a Deus, que o espírito. E com estas palavras
deu” (cf. Ec.12:7) morreu” (cf. Lc.23:46)
RESULTADO RESULTADO
Mesmo assim os mortos não Mesmo assim Jesus não havia
sabem de nada (cf. 9:5) e não tem subido ao Pai mesmo três dias
amor, ódio ou inveja que já não depois de ter sido ressuscitado
existem para eles (cf. 9:6), que (cf. Jo.20:17)
não tem inteligência, razão,
conhecimento ou sabedoria (cf.
9:10)

Sendo assim, Eclesiastes não representa nenhuma contradição com o restante da Bíblia e
podemos chegar à fácil conclusão de que o Espírito Santo não inspirou errado nenhum
escritor bíblico. Tal testemunho de Eclesiastes reflete todo o pensamento do Antigo e do
Novo Testamento, como veremos mais adiante. Tudo o que Salomão fez, e que
comprovamos até aqui, é negar absolutamente qualquer imortalidade da alma em um
estado intermediário, pois ele não havia sido influenciado pela filosofia grega de dualismo
que viria mais tarde.

Embora seja verdade que ele ressaltasse muito mais o período sem vida entre a morte e a
ressurreição, também é fato que ele cria que um dia viria o juízo (cf. Ec. 11:9; 12:14) e
uma vida eterna (cf. Ec.12:5). Portanto, ele pode ser usado como prova de alguém que cria
em vida futura após o juízo, mas não cria na imortalidade da alma, pois não aceitava um
estado já consciente dos mortos atuais em algum estado intermediário entre a morte e a
ressurreição.

O “espírito” que subia para Deus (cf. Ec.12:7), como já vimos no capítulo 3 deste livro, não
era uma alma imortal, mas a própria vida humana de todos os homens, justos ou

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 116


pecadores. Por isso, alegar em cima desta passagem a “imortalidade da alma” significa
negar todo o restante do livro de Eclesiastes que explicitamente nega isso, e também inferir
que os ímpios assim como os justos estarão com Deus após a morte, quando apenas os
justos deveriam estar com Ele. Afinal, segundo Salomão é o espírito de todos os homens
que volta a Deus após a morte, e não apenas o dos justos ou daqueles que merecem o Céu
(cf. Ec.12:7).

Sendo assim, é correto afirmar que Salomão não via o espírito como sendo uma alma
imortal ou alguma entidade incorpórea e consciente que leve consigo personalidade e
racionalidade após a morte, motivo pelo qual ele declara que os animais possuem
exatamente o mesmo espírito-ruach possuído pelos seres humanos (cf. Ec.3:19) e, por
conta do fato de que o espírito presente em ambos serem o mesmo, o destino de ambos
após a morte também seria o mesmo: o pó da terra (cf. Ec.3:20).

O que nos distingue dos animais no que tange à vida após a morte, tanto para Salomão
como também para os demais escritores bíblicos, não é que nós sejamos possuidores de
uma alma-nephesh e os animais não, ou que nós sejamos detentores de espírito-ruach e os
animais não, mas sim que nós ressuscitaremos do pó, e os animais não. Por isso ele diz
em Eclesiastes 3:21 que o nosso espírito volta para Deus (que soprará novamente em nós
pela ressurreição, tornando-nos novamente “almas viventes”), mas o dos animais volta à
terra (de onde não tem mais volta).

O Livro dos Salmos - Outro livro de valor histórico de grande consideração para analisarmos
o pensamento do povo do Antigo Testamento na questão relativa à vida pós-morte, é a
coletânea de hinos, salmos e corinhos, também entre os Livros Poéticos aos quais
denominamos de “Salmos”. Nele, vemos inúmeras considerações importantes que nos
fazem confirmar aquele pensamento de Salomão em Eclesiastes, como vimos acima. Dos
cento e cinquenta salmos, não vemos nenhuma menção explícita ou mesmo implícita de um
estado intermediário ou de uma imortalidade da alma. Ao contrário, vemos constantemente
menções bem explícitas de que não existe vida entre a morte e a ressurreição. Uma prova
óbvia disso é o fato dos mortos não poderem mais se lembrar de Deus:

“Na morte não há lembrança de ti. E no Sheol, quem te louvará?” (cf. Salmos 6:5).

A razão pela qual os mortos não se lembrarem de Deus é porque perderam completamente
a consciência, porque o processo de pensamento cessa quando o corpo morre. Mesmo no
inferno ou em qualquer outro lugar, entre os mortos justos ou ímpios, se houvesse
consciência após a morte poderiam recordar-se de quem é Deus. Na verdade, a primeira
pessoa na qual eles se lembrariam seria de Deus! É impossível concluirmos que os
mortos estão conscientes sem poderem nem ao menos recordar-se de Deus, uma vez que é
Deus quem nos julga, é Deus quem manda para o Céu ou para o inferno, é Deus quem tem
o domínio sobre o passado, o presente e o futuro das pessoas.

Se existisse vida inteligente entre a morte e a ressurreição, então onde fosse que os mortos
estivessem (seja no Céu, no inferno, ou em qualquer outro lugar), seriam capazes de se
lembrar de Deus! É evidente que os mortos não se lembram mais de Deus porque não tem
mais consciência alguma. Veja que o salmista não expressa uma dúvida se os mortos
lembram ou se não lembram de alguma coisa; pelo contrário, afirma de forma categórica a
sua convicção que não é possível haver lembrança na morte. Ou seja, se a alma é mesmo
“imortal”, neste caso ela sofre de um grave problema de amnésia.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 117
O Salmo 115 também garante de forma clara que os mortos não louvam a Deus (cf.
Sl.115:17), e no verso seguinte reitera que quem louva a Deus são os vivos (cf. Sl.115:18).
Essa verdade é confirmada em Isaías 38:19, que diz que “os vivos, e somente os vivos,
que te louvam, como eu te louvo agora”. Na morte não existe mais nenhum louvor a Deus
(cf. Sl.6:5; Sl.115:17). Nenhum salmista ou qualquer escritor fez distinção entre os mortos
justos ou ímpios – somente os vivos é que louvam a Deus! Ponderamos: caso os salmistas
soubessem que a alma dos mortos está consciente, insistiriam tanto em dizer que na morte
não é possível louvar a Deus? É evidente que não, pois quem já estivesse no Paraíso, em
um lugar de alegria, ou em algum lugar assegurado entre os salvos, poderia perfeitamente
louvar a Deus.

Afinal, “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para
a glória de Deus o Pai” (cf. Fp.2:10,11). É evidente que os mortos não louvam a Deus e
quem louva é somente os vivos em decorrência da inconsciência pós-morte que determina a
impossibilidade de se louvar a Deus entre os que morreram (cf. Sl.6:5). Isso porque eles
não estariam vivos em algum lugar, mas sem vida, no pó da terra: “Que proveito obterás no
meu sangue, quando baixo à cova? Louvar-te-á, porventura, o pó? Declarará ele a tua
verdade?” (cf. Sl.30:9). Aqui novamente o salmista reitera a sua posição de negação à
existência de vida entre os mortos. Se ele morresse, nada mais poderia dar de proveito
para Deus. A razão disso? Viraria pó: “Louvar-te-á, porventura, o pó”?

Claramente o salmista diz que o lugar para onde todas as pessoas vão após a morte não é o
Céu ou o inferno com as suas almas imortais, mas o pó da terra. Ao comparar a morte com
o pó, o salmista claramente mostra que não há consciência na morte, porque o pó não
pode pensar. Por isso mesmo, não seria de proveito nenhum para Deus, e nem ao menos
poderia louvá-lo depois da morte (cf. Sl.30:9). Como se isso não fosse suficientemente
claro, o Salmo 146 confirma novamente a crença na inconsciência pós-morte, ao afirmar
que os mortos não pensam: “Quando eles morrem, voltam para o pó da terra, e naquele dia
perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4).

Sendo que na morte os pensamentos perecem, é evidente que não há alma consciente que
sobreviva a parte do corpo em um estado desencarnado. Se o processo de pensamento que
os próprios imortalistas atribuem como função da alma sobrevivesse à morte do corpo,
então os pensamentos dos que morressem continuaria, e não pereceria! No momento da
morte os pensamentos perecem porque a pessoa simplesmente deixa de existir e passa à
inconsciência que a Bíblia caracteriza de “sono” relativo ao estado dos mortos (cf. Sl.13:3).

Os mortos não mais pensam. Alegar que essa passagem diz respeito somente ao corpo é se
mostrar extremamente arbitrário e desonesto consigo mesmo, visto que os próprios
imortalistas atribuem o processo de pensamento como função da alma, e, portanto,
na morte os pensamentos não “pereceriam”, mas continuariam existindo à parte do corpo, a
não ser que a alma realmente morra, como já constatamos aqui.

Portanto, a não ser que os imortalistas refaçam toda a sua teologia e digam que a sede dos
pensamentos não é mais atribuição da alma mas somente do corpo e a alma não tem
qualquer ligação com isso, eles terão que admitir a morte da alma com o fim dos
pensamentos. Se você quiser testar a honestidade intelectual de determinado defensor da
imortalidade da alma, basta mostrar esse verso bíblico a ele. O tempo todo eles dizem que
a sede dos pensamentos é associada à alma, mas quando chegamos a uma passagem

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 118


bíblica que explicitamente diz que estes pensamentos perecem após a morte, aí não é mais
a alma não, é o corpo somente!

Ademais, vemos biblicamente que os que já morreram estão numa “terra de silêncio”, e não
de gritarias características do inferno ou de algum lugar de tormento, ou de altos louvores e
regozijos característicos do Paraíso: “Os mortos, que descem a terra do silêncio, não
louvam a Deus, o Senhor” (cf. Sl.115:17). Que nítido contraste com a visão popular
“barulhenta” da vida após a morte, na qual os salvos louvam a Deus no Paraíso e os não-
salvos gritam desesperadamente no inferno! É evidente que a terra de silêncio na qual não
é possível mais louvar-se a Deus diz respeito à sepultura e não a alguma “habitação dos
espíritos”. A tentativa imortalista em afirmar que essa passagem também diz respeito
somente ao corpo e não à alma também é um completo fracasso, visto que o mesmo
salmista afirma taxativamente que é a alma que habitaria neste local de silêncio:

“Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar de silêncio” (cf.
Salmos 94:17)

É a alma que vai para o lugar de silêncio, não meramente um corpo morto. O local de
silêncio não é o Céu ou o inferno, mas puramente sepultura para onde a alma, o ser integral
do salmista, partira na morte. Mais uma vez vemos que as interpretações tendenciosas que
os imortalistas são forçados a adotarem para salvarem a crença deles numa “alma imortal”,
dizendo que as referências dizem respeito apenas ao corpo e não à alma, fracassam
miseravelmente por uma exegese simples e por passagens bíblicas onde os próprios
escritores inspirados deixavam nítido e evidente que essa inconsciência se trata da alma, e
não apenas do corpo.

Os salmistas sabiam que os mortos não veem mais a luz: “Irá para a geração de seus pais;
eles nunca verão a luz” (cf. Sl.49:19). Se os mortos estivessem vivos no Céu, no inferno, no
Sheol, ou onde quer que fosse, eles poderiam ver a luz como resultado e consequência da
visão. Contudo, não mais veem a luz porque eles já não estão cônscios de coisa alguma. O
salmista esperava ver Deus, mas não quando ele morresse e a sua alma imortal partisse
para o Céu, mas sim quando ele “despertasse”, na ressurreição:

“Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar, ficarei satisfeito em
ver a tua semelhança” (cf. Salmos 17:15)

O salmista só esperava ver a face de Deus quando “despertasse”, e não quando morresse. O
“despertar” diz respeito à ressurreição dos mortos do último dia, quando “muitos dos que
dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e
desprezo eterno” (cf. Dn.12:2). Sendo que é só nesse “despertar” que o salmista veria a
Deus, então é óbvio que ele não o estaria vendo antes disso. Ele expressa nitidamente a
sua convicção de que o momento de ver a Deus seria somente na ressurreição. Onde ele
estaria agora, então? Dormindo o sono da morte: “Ilumina-me os olhos, para que eu não
durma o sono da morte” (cf. Sl.13:3).

É digno de nota que o salmista esperava ver a Deus quando ele “despertasse” (uma clara
figura da ressurreição – cf. Dn.12:2), ele não tinha a mínima ideia de que estaria
imediatamente com Deus depois da morte por meio de uma alma imortal, por isso relata
que o momento em que veria a face de Deus é na ressurreição – quando despertasse! É
mais do que claro que nenhum dos salmistas acreditava na vida consciente após a morte

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 119


em um estado intermediário dos mortos. Isso fica ainda mais evidente ao vermos que o
salmista usou neste verso a palavra hebraica “quwts”, que significa exatamente: “ser
arrancado do sono; despertar; surgir”. É uma claríssima referência à ressurreição, e
prova disso é que exatamente esta mesma palavra é utilizada por Daniel para falar do dia
em que os mortos hão de ressurgir:

“E muitos dos que dormem no pó da terra despertarão [quwts], uns para vida eterna, e
outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2)

Também em Isaías 26:19 essa mesma palavra é usada como clara referência à ressurreição
dos mortos:

“Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem [quwts]!” (cf. Isaías
26:19)

Agora voltando para o Salmo 17:15 – “Mas eu, confiado na vossa justiça, contemplarei a
vossa face; ao despertar [quwts], saciar-me-ei com a visão de vosso ser”. Não poderia
haver linguagem mais clara e lúcida do que essa a fim de denotar que só veremos a Deus
na ressurreição, e não antes disso. É no despertar-quwts da ressurreição que veremos a
Deus, e não na morte-moth/tâmuth., em algum estado intermediário pré-ressurreição.

O Salmo 88:12 diz: “Acaso, nas trevas se manifestam as tuas maravilhas? E a tua justiça,
na terra do esquecimento?” (cf. Sl.88:12). O local é descrito como terra do
“esquecimento”, pois não mais pode lembrar-se de coisa alguma, nem mesmo de Deus (cf.
Sl.6:5). Note que os mortos não estão numa terra de consciência ou de atividade, mas sim
de esquecimento, uma clara linguagem de inconsciência, e não de consciência. Os que já
morreram não mais veem manifestadas as maravilhas de Deus (cf. Sl.88:12).

Davi também faz a pergunta retórica: “Será que fareis milagres pelos mortos? Ressurgirão
eles para vos louvar?” (cf. Sl.88:10). Alguém que já morreu não mais pode louvar a
Deus; por isso, seria necessário que eles “ressurgirem” para louvá-Lo. O estado em que eles
estão agora os impede de louvar ao Senhor, pelo que Davi aponta à ressurreição como
sendo o único modo pelo qual os que já morreram possam voltar a louvar o Senhor. Se os
que já morreram já pudessem louvar a Deus, então não faria sentido eles terem que
“ressurgirem” para poderem louvá-Lo!

Ainda mais se considerarmos que a palavra hebraica “koom” – subir; levantar; ressurgir
– está no sentido de ressurreição (como vemos que a Bíblia usa – cf. Dn.12:2; Dn.12:13;
Jo.3:14; Jo.12:32; Jo.12:34), vemos que o salmista expressa a sua convicção de que
apenas por meio da ressurreição é que os que já morreram poderão louvar a Deus. A frase
“ressurgirão eles para vos louvar” só faz sentido se, realmente, eles não estão louvando a
Deus no presente momento, sendo, portanto, necessário eles ressurgirem
(ressuscitarem) para isso. É uma enfática declaração de que só poderemos voltar a louvar o
Senhor após a morte no momento da ressurreição, e não antes disso, em algum estado
intermediário através de uma alma imortal que já estivesse no Céu antes da ressurreição do
último dia.

Uma tentativa dos imortalistas de fugirem de algumas dessas claras evidências contrárias a
eles reside em tentar provar que logo após a morte os salmistas pensavam que seriam
imediatamente levados para junto de Deus, usando textos como o Salmo 49:15 – “Mas
Deus remirá a minha alma do poder do Sheol, pois me receberá”. Como pode isso se a
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 120
Bíblia diz claramente que a alma vai para o lugar de silêncio (cf. Sl.94:17), e não para o
lugar de louvores no Paraíso? É uma contradição bíblica?

Logicamente que não. O Salmo apenas fala que Deus remirá a alma do poder do Sheol, que
a luz da Bíblia Sagrada é a sepultura (cf. Sl.115:17; Sl.88:11; Sl.94:17; Gn.37:35), que
Deus não a esqueceria naquele local de escuridão, pelo contrário, iria recebê-lo com Ele,
através de uma ressurreição dentre os mortos. Remir a alma do poder do Sheol não
significa não ir ao Sheol, pois a crença do AT era unânime em acreditar que todos iam para
lá após a morte (cf. Sl.18:5; Gn.37:35; 44:31; Jó 17:13), mas diz respeito a ser resgatado
da morte, remido daquele local de escuridão, através da ressurreição. Prova disso é que em
Atos 2:27 essa mesma passagem é relacionada à ressurreição e não ao momento da morte.
Em Oséias 13:14, também lemos sobre Deus remir a alma do poder do Sheol, na seguintes
palavras:

“Eu os redimirei do poder do Sheol; eu os resgatarei da morte. Onde estão, ó morte, as


suas pragas? Onde está, ó sepultura, a sua destruição?” (cf. Oséias 13:14)

Ocorre que o apóstolo Paulo relaciona este momento ao da ressurreição do último dia:

“Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos mas todos seremos transformados,
num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta
soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque
é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é
mortal se revista da imortalidade. Mas, quando isto que é corruptível se revestir da
incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a
palavra que está escrito: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, a tua
vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (cf. 1ª Coríntios 15:51-55)

Vamos ligar os pontos:

1º O salmista diz que teria a sua alma remida do poder do Sheol.

2º Em Oséias 13:14 Deus diz o mesmo.

3º E o apóstolo Paulo relaciona o texto de Oséias ao momento da ressurreição.

Portanto, fica claro que remir a alma do Sheol (sepultura) não significa não ser conduzido
até lá, mas ser resgatado por meio da ressurreição, quando seremos transformados em
seres incorruptíveis e imortais. O único meio de voltar a vida é através de uma ressurreição
dentre os mortos. E essa verdade também é exposta no Novo Testamento, mais
especificamente com a ressurreição por ocasião da volta de Cristo, quando a pessoa que
está presa ao poder do Sheol ressuscitará para entrar na Jerusalém Celestial, e é só neste
momento que a morte é vencida (cf. 1Co.15:54-55).

Que todas as pessoas partiam para o Sheol após a morte, tanto justos como ímpios, isso é
mais do que evidente para qualquer leitor honesto da Bíblia, fato comprovado em inúmeras
passagens, das quais segue-se uma pequena lista: Gên.37:35; Jó 10:21,22; Sal.94:17;
Gên.42:38; Gên.42:29,31; Isa.38:10,17; Sal.16:10; Sal.49:9,15; Sal.88:3-6,11; Jó
17:16. Cada uma dessas passagens reflete o fato de que tanto justos como ímpios desciam
ao Sheol (sepultura) após a morte, não tinham destinos diferentes. O filho de Jacó, José,
partiria para o Sheol caso morresse (cf. Gn.37:35), e ele era considerado um homem justo.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 121
Prova ainda mais forte é que até mesmo a alma de Cristo esteve no Sheol enquanto esteve
morto (cf. At.2:27), colocando um “ponto final” em qualquer discussão do tipo. Tanto justos
como ímpios jazem no Sheol após a morte.

O testemunho dos salmistas, que reflete todo o pensamento dos escritores divinamente
inspirados do Antigo Testamento, é que os mortos não louvam a Deus (cf. Isaías 38:19;
Salmos 6:5), não sabem de nada (cf. Eclesiastes 9:5), valem menos do que um cachorro
vivo (cf. Eclesiastes 9:4), sua memória jaz no esquecimento (cf. Eclesiastes 9:5), não tem
lembrança de Deus (cf. Salmos 6:5), estão num lugar de esquecimento (cf. Salmos 88:12),
não confiam na fidelidade de Deus (cf. Isaías 38:18), não falam da sua fidelidade (cf.
Salmos 88:12), estão numa terra de silêncio - e não de gritaria do inferno ou de altos
louvores do Céu (cf. Salmos 115:17; 94:17), não podem ser alvos de confiança (cf. Salmos
146:3), tem que ressurgir para poder louvar a Deus (cf. Salmos 88:10), somente O verão
após a ressurreição (cf. Salmos 17:15) e não pensam (cf. Salmos 146:4).

Definitivamente um estado de plena e total inconsciência entre aqueles que dormem em


suas sepulturas aguardando a ressurreição dentre os mortos.

IV–A posição dos Livros Proféticos

Ezequiel - Os Livros Proféticos se destacam dos demais por serem as palavras de Deus
liberadas pelos profetas. Concentrem-se muito mais no que Deus falou do que nos eventos
históricos em que falaram da parte do Senhor. No livro de Ezequiel, por exemplo, vemos o
Senhor Deus dizendo através daquele profeta:

“A alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ezequiel 18:4)

Essa passagem pode ser um susto para muitas pessoas – sim, a alma [nephesh] – morre.
Isso porque, como vimos no capítulo 3 deste estudo, nós temos uma natureza holista, e não
dualista. Nós somos nephesh, e não “temos” nephesh. A alma [pessoa] que pecar, morrerá!
A consequência do pecado foi mortal para toda a natureza humana, atingindo não apenas o
corpo, mas também a alma. Deus não disse que apenas “o corpo que pecar... morrerá”; ao
contrário, tanto o corpo como a alma foram sujeitos aos efeitos destrutivos resultantes do
pecado. Por isso mesmo, a alma também pode ser devorada:

“Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a
presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas
viúvas no meio dela” (cf. Ezequiel 22:25)

O orginal hebraico traz neste verso a palavra “aw-kal'”, que significa literalmente:
“consumir; devorar”. A alma [nephesh] não é isenta do consumir e devorar do corpo. O
mesmo autor também afirma que as almas [nephesh] também são destruídas (cf.
Ez.22:27). Como no caso de Ezequiel 18, a grande maioria destes relatos não expressa
apenas um “pensamento do profeta” que poderia estar “ultrapassado” para os dias de hoje,
porque é o próprio Deus vivo que falava por meio do profeta.

Por exemplo: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do
filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). Aqui é evidentemente o
próprio Deus que estava falando (o profeta apenas passou por escrito aquilo que lhe havia

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 122


sido dito), porque as “todas as almas são minhas”, isto é, de Deus (em primeira pessoa), e
essas almas também morrem. Se as almas não estivessem sujeitas à morte, então não
seria apenas a Bíblia que estaria equivocada, mas o próprio Deus estaria mentindo para o
profeta.

Isaías - O livro de Isaías relata o momento crucial em que o rei Ezequias encontrava-se à
beira da morte. O profeta Isaías é enviado a este rei para lhe dizer que ele iria adoecer de
uma enfermidade mortal que sofria (cf. Is.38:1). Qual foi a reação de Ezequias? Ficou feliz
pois sabia que iria estar imediatamente com Deus ou em algum paraíso? Não. Na verdade,
ele orou sob lágrimas clamando pela manutenção de sua vida. No capítulo inteiro é
mencionado como ele se alegrou ao ver que Deus lhe havia acrescentado quinze anos à sua
vida. Ora, se Ezequias pensasse que a sua alma imortal iria partir de imediato a um lugar
de conforto e bem-aventurança, então iria desejar a morte acima de todas as coisas!

A morte, porém, é tratada como um inimigo na Bíblia, o último inimigo a ser vencido (cf.
1Co.15:26). Não existe vida ou bem-aventuranças na morte. Ezequias queria fugir deste
inimigo, e conseguiu, ao menos temporariamente. Em toda a sua declaração de louvor a
Deus por este ter-lhe concedido a manutenção de sua vida, ele revela o que realmente
aconteceria caso ele tivesse morrido. É nos dito que ele não veria mais os moradores do
mundo: “jamais verei homem algum entre os moradores do mundo” (cf. Is.38:11), e
também declara que “não tornarei mais a ver o Senhor, o Senhor, na terra dos viventes;
não olharei mais para a humanidade” (cf. Isaías 38:11).

Isso prova claramente que os que já morreram não estão de forma alguma conscientes do
que aqui acontece (como pregam algumas religiões), pois Ezequias demonstra nitidamente
a sua convicção que não mais veria ou olharia para qualquer cidadão deste mundo. Isso é
consequente do fato de que ele próprio sabia que não estaria consciente depois que
morresse. Afirma, alguns versos em seguida, o destino para o qual partiria sua alma na
morte:

“Foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a
livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados”
(cf. Isaías 38:17)

Ou seja, a cova, o local de corrupção, para o qual a sua alma não escaparia. Ele não diz que
se morresse a sua alma iria ao Céu ou ao inferno, mas à cova, isto é, à sepultura. E diz que
seria a sua alma (nephesh) quem partiria para a cova após a morte, e não apenas o corpo!
Em seguida, ele afirma também qual seria o estado dos mortos naquele momento em que
ele passaria também a ficar em caso que a sua vida lhe fosse retirada:

“Pois não pode louvar-te o Sheol, nem a morte cantar-te os louvores; os que descem
para a cova não podem esperar na tua fidelidade. Os vivos, somente os vivos, esses
te louvam como hoje eu o faço; o pai fará notória aos filhos a tua fidelidade” (cf. Isaías
38:18,19)

É evidente que do início ao fim Ezequias apresenta a sua convicção e linha de raciocínio de
que não existe vida na morte. Diante do que é aqui exposto, percebemos que:

(1) Caso ele morresse, não estaria mais ciente das coisas que acontecem neste mundo (cf.
Is.38:11)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 123
(2) A sua alma iria para a cova com a morte (cf. Is.38:17)
(3) Na morte não há louvor a Deus (cf. Is.38:18)
(4) Os mortos não podem louvar a Deus e nem cantar louvores (cf. Is.38:18)
(5) Eles não esperam a fidelidade de Deus (cf. Is.38:18)
(6) Somente os que estão na terra dos viventes é que o louva (cf. Is.38:19)

Definitivamente Ezequias não acreditava em uma existência consciente com Deus logo após
a morte. Do início ao fim ele mostra a sua visão holista da natureza humana corrente nas
Escrituras, sabendo que a morte era a total cessação de vida. Ele não esperava partir rumo
a lugar algum de bem-aventurança, nem mesmo estaria com vida, pois se fosse assim
poderia louvar a Deus, entoar-lhe cânticos e esperaria pela Sua fidelidade!

É evidente que alguém que volta ao pó da terra, estando inconsciente, deixando de existir o
ser racional, realmente não pode realizar tais coisas. Note também que Ezequias não
somente relata que os mortos não louvam a Deus, como também denota a sua
impossibilidade. Os mortos “não podem”, isto é, “não tem como”, “não é possível”, não
existe meio nenhum de algum morto cantar louvores ao Deus Altíssimo.

É claro que tal impossibilidade só poderia ser fruto de uma inconsciência pós-morte, e por
isso ele diz em seguida que os mortos não esperam pela fidelidade de Deus, fato este que
seria uma inverdade profunda caso eles já estivessem na presença de Deus ou em lugar
entre os salvos. Os mortos não esperam mais na fidelidade de Deus, não por já estarem na
presença dEle, mas porque na morte simplesmente deixam de existir – “o que é dele?” (cf.
Jó 14:10); nada, não mais existe (cf. Jó 14:10,12; Jó 7:21).

Por fim, em Isaías lemos que os patriarcas não tinham a mínima ideia do que acontece
entre os vivos:

“Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece;
tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome” (cf. Isaías
63:16)

Para algumas religiões, os patriarcas como Abraão e Jacó não apenas conhecem os que
estão vivos hoje, mas também rezam e intercedem por nós. Já para a Bíblia, Abraão não
nos conhece, e Israel não nos reconhece.

Daniel - O livro profético de Daniel é um que diz da forma mais clara e explícita a
ressurreição dos mortos. É nele que lemos que “muitos dos que dormem no pó da terra
despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Dn.12:2).
Nele, lemos que os mortos que ressuscitassem estariam “no pó da terra” (cf. Dn.12:2), e
não no “Céu” ou no “inferno” para reincorporarem em seus corpos mortos; e logo no
versículo seguinte tal confirmação de que a entrada na herança só viria no fim, com a
ressurreição:

“Tu, porém, vai até ao fim; porque descansarás, e te levantarás na tua herança, no fim dos
dias” (cf. Daniel 12:13)

Como podemos ver Daniel só se levantará no “tempo do fim”, no fim dos dias, e só depois
disso entrará na sua herança. A Young’s Literal Translation verte por “ficará na tua sorte no
fim dos dias”. A versão King James with Strongs também traduz semelhantemente: “tu
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 124
ficarás em tua sorte no fim dos dias”. Fica muito evidente que é só no final dos tempos,
depois da ressurreição, que entraremos em nossas moradas celestiais. Isso está de total
conformidade com o Novo Testamento que afirma de forma clara que só entraremos em
nossas moradas quando Cristo voltar (cf. Jo.14:2,3; Mt.25:31-34), que é o momento da
ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). Deus, de forma mais do que clara, deixa
evidente para o próprio Daniel que a sua entrada no Paraíso não seria algo iminente, pelo
contrário, seria algo que só aconteceria no fim dos dias.

O “descansar” aqui é a indicação do estado no qual Daniel estaria na morte, o que a Bíblia
relativiza com um estado de “sono” (ver Sl.13:3; 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51;
1Ts.4:13; 1Ts.4:14; 1Ts.4:15; 1Co.11:30; 1Co.15:6; 1Co.15:18); o “levantar” é claramente
relacionado com a ressurreição dentre os mortos (ver João 3:14; João 12:32; João 12:34);
o “fim dos dias” é o momento em que ele [Daniel] seria “levantado” [ressuscitado], o que a
Bíblia caracteriza como sendo “no último dia” (ver João 6:39; João 6:40), e é somente
neste momento em que Daniel entraria em sua herança, no fim dos dias.

Ele não entra na herança logo após a morte com a sua “alma imortal”, mas
somente quando fosse ressuscitado no último dia. Isso por si só é prova mais do que
suficiente para desmontar completamente a falsa doutrina da imortalidade da alma, pois
não reflete um “pensamento ultrapassado do Antigo Testamento”, mas é o próprio Deus
falando para o profeta, de que este não estaria com Ele imediatamente na morte como um
acontecimento iminente, mas deixando claro que tal fato concretizar-se-ia apenas no final
dos dias, e através de uma ressurreição!

V–Saul conversou com Samuel depois de morto?

A passagem mais usada pelos imortalistas para mostrar a crença na vida pós-morte no
Antigo Testamento é – pasme – uma sessão espírita. O relato da suposta conversa com o
“espírito” de Samuel se encontra em 1ª Samuel 28. Isso só pode ser mesmo fruto de uma
teologia fraca que na carência de evidências sólidas ou factuais precisa apelar para coisas
do tipo. Nem mesmo os imortalistas mais sérios creem que foi mesmo Samuel quem
apareceu a Saul, há muitos imortalistas honestos que admitem que se trata de um espírito
maligno se fingindo de Samuel. Temos várias razões para desacreditar que, de fato, o
espírito de Samuel tenha conversado com Saul (além do fato de que, como vimos, não
existe uma alma imortal no homem).

Em primeiro lugar, Deus havia cortado todo o tipo de comunicação dEle com Samuel. Esse
fato é extremamente importante: “E perguntou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe
respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas” (cf. 1Sm.28:6). Deus
realmente não estava disposto a dar nenhum tipo de mensagem dEle a Saul. Isso aconteceu
porque este havia desobedecido às ordens do Senhor. Havia se tornado repugnante a Ele, e
por isso Deus não lhe mandava uma resposta, nem por sonhos, nem por visões, nem por
profetas e nem mesmo pelo Urim. Em outras palavras, Deus definitivamente havia cortado
todo e qualquer laço com o rei Saul.

Logo, não foi Samuel quem apareceu a Saul. Se Deus não havia dado resposta a Saul,
então Ele não mandaria Samuel falar com ele. Dizer que foi de fato Samuel quem apareceu
a Saul significa dizer que Deus mudou de opinião tão rapidamente com relação a dar uma
mensagem a Saul, se arrependendo de não ter dado a mensagem antes. Ora, por que razão

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 125


Deus não mandaria a resposta a Saul por meio de meios legais e lícitos para o povo
israelita, como o Urim, os profetas, ou por sonhos ou por visões, mas ao invés disso foi dar
a resposta a Saul justamente por meio de uma prática condenada pelo próprio Deus?

Em outras palavras: se Deus não havia dado resposta a Saul pelos meios “lícitos”,
por que iria dar a resposta por um meio ilícito e contrário àquilo que Ele mesmo
tinha ordenado? Sabendo que o nosso Deus “não muda” (cf. Ml.3:6) e que nEle “não há
mudança nem sombra de variação alguma” (cf. Tg.1:17), é incoerente crer que Ele primeiro
não quis responder Saul, mas depois mudou de ideia e quis respondê-lo; que primeiro não
quis dar uma resposta nem mesmo por meios lícitos que convém, mas depois decidiu
responder-lhe justamente através de uma prática pagã condenada pelo próprio Deus!

Em segundo lugar, a própria passagem diz claramente, no verso 6, que Deus não queria
mandar uma resposta para Saul por meio de nenhum profeta. Sabemos que Samuel era
um profeta. Se fosse da vontade de Deus ter enviado uma resposta através de Samuel,
que era profeta, Ele certamente já o teria feito antes, quando Saul havia consultado os
próprios profetas. Mas vemos o texto bíblico dizendo claramente que Deus não queria
usar profetas para falar com Saul (v.6). Portanto, sendo Samuel um profeta e sabendo
que Deus não queria usar profetas, não é correta a afirmação de que Samuel apareceu a
Saul em En-Dor.

Em terceiro lugar, devemos lembrar que consultar os mortos era uma prática pagã
totalmente repudiada pelas Escrituras e abominada por Deus (cf. Ex.22:18; 1Sm.28:3).
Deus não enviaria o seu servo Samuel a falar com o rei Saul se Ele próprio havia proibido
esse tipo de comunicação! A razão pela qual a comunicação com os mortos era proibida é
porque quem aparece de fato é um demônio, e não “espíritos”, já que, como vimos,
“espírito” na Bíblia não tem parte nenhuma com uma entidade imaterial presa dentro do
nosso corpo com personalidade e consciência.

Em quarto lugar, Deus ordenou que Saul devia morrer exatamente em decorrência desta
atividade de buscar estabelecer esse tipo de comunicação proibida pelo próprio Deus (cf.
1Cr.10:13). Ora, se Deus decidiu se comunicar com o rei Saul por aquele meio
(“permitindo” a aparição de Samuel a ele), então Ele terminou traindo ao rei! Como
podemos imaginar um Deus traiçoeiro assim? Pois além de ser volúvel por determinar algo e
logo em seguida mudar de ideia (passando a ideia de alguém que passa por cima de Suas
próprias regras), ainda castiga com morte o rei justamente porque foi em busca de uma
comunicação proibida, mas que, na verdade, teria sido propiciada pelo próprio Deus!

Em quinto lugar, porque Samuel, como profeta de Deus, não iria tomar a iniciativa de
atender ao chamado de uma feiticeira, o que contrariaria diretamente a ordem divina de
que os vivos não busquem comunicar-se com os mortos. Além disso, não se submeteria às
regras de necromancia, que não iriam jamais interferir em alguém que realmente estivesse
na presença de Deus. As Escrituras afirmam que quem buscasse a prática de necromancia
seria contaminados por ela (cf. Lv.19:31; Ap.22:15).

Se Samuel atendesse ao chamado da feiticeira estaria contribuindo para uma prática


condenada por Deus, e, além disso, estaria se contaminando em decorrência disso, e se
assim sucedesse nem mesmo poderia mais voltar à companhia divina, pois na presença de
Deus não entra quem se contamine (cf. Ap.21:27).

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 126


Então, de duas possibilidades, temos apenas as seguintes propostas:

(1) Ou Deus ordenou que Samuel se apresentasse a Saul, o que é improvável e antilógico,
tendo em vista que Ele não quis comunicar-se com Saul pelos meios legais e lícitos (v.6),
seguindo-se que muito menos iria se comunicar com ele justamente mediante uma prática
condenada por Ele próprio (cf. Lv.24:7) e, pior que isso, depois puni-lo com a morte
justamente por esta prática propiciada pelo próprio Deus!

(2) Ou foi Samuel quem quis se apresentar ao chamado da feiticeira por conta própria, algo
que é ainda mais absurdo, tendo em vista que ele estaria se contaminando com esta prática
e estaria indo contra as permissões do próprio Deus. Se a premissa 1 estiver errada, então
Deus não quis se comunicar com Saul por tal meio, e, se Samuel mesmo assim se
apresentou a Saul, então ele só poderia ter “passado por cima” das ordens de Deus ao se
apresentar à feiticeira. De qualquer modo, a encruzilhada é notável: ou Deus ordenou que
Samuel se apresentasse (o que já vimos que é ilógico e de todo incoerente), ou então
Samuel passou por cima do próprio Deus (muito, muito mais ilógico e incoerente!). A única
conclusão lógica que podemos chegar é que não foi Samuel quem se apresentou a Saul em
En-Dor.

Em sexto lugar, se foi de fato Samuel quem se apresentou para Saul, então teríamos que
dar crédito para todas as sessões espíritas abrindo uma clara possibilidade de eles estarem
realmente se comunicando com os “espíritos”. Afinal, se Samuel pôde tranquilamente se
apresentar diante daquela feiticeira mesmo sendo contra a vontade e a Palavra de Deus,
quem é que garante que o mesmo não pode se repetir nos dias de hoje, e os “espíritos” (de
santos, inclusive) apareçam com “mensagens” às pessoas vivas da terra?

Em sétimo lugar, o que a feiticeira diz ter visto foi um ser sobrenatural, ou seres
sobrenaturais — “um deus-elohim”. Este termo é utilizado com grande frequência quando
com relação a falsos deuses (cf. Gn.35:2; Êx.12:12; Êx.20:3), e Paulo nos diz que o agente
que atua por detrás dos “deuses” são os demônios (cf. 1Co.10:20). Portanto, nada mais
aconteceu senão “o próprio Satanás se transfigurando em anjo de luz” (cf. 2Co.11:14). Vale
ressaltar que em momento nenhum da Bíblia o profeta Samuel é descrito como sendo um
“deus” (elohim), mas o diabo, sim, este é descrito como sendo o “deus deste século”
(cf. 2Co.4:4). Portanto, é muito mais lógico e coerente que quem tenha se apresentado
tenham sido demônios, e não o próprio profeta.

Em oitavo lugar, porque o referido ser que a feiticeira viu “subia de dentro da terra”
(v.13). Ora, os seres “divinos” não vem de “dentro da terra” (tal citação é estranha à
Bíblia), mas sim do alto (cf. Gn.22:11,15; 2Rs.2:11; Is.6:1,2; Is.32:15; Lc.2:13,14;
Mt.3:16,17; Ap.14:6). Os próprios imortalistas entram em séria contradição com a sua
própria teologia aqui neste ponto, pois eles afirmam que o espírito que possuímos é uma
“alma imortal” com consciência e personalidade que sobrevive à parte do corpo após a
morte, e Salomão, ainda nos tempos do Antigo Testamento, afirma que o espírito sobe
para Deus após a morte (cf. Ec.12:7).

Portanto, se o espírito é a tal “alma imortal”, então os espíritos ou almas imortais deveriam
estar no Céu na época do Antigo Testamento, e não debaixo da terra. Consequentemente,
Samuel estaria lá em cima, com Deus, entre os salvos, e não “debaixo da terra”, de onde
a feiticeira o viu. Ela disse claramente que “vejo deuses que sobem da terra” (v.13), e não
que descem do Céu.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 127


Então, visto que o espírito sobe para Deus e não “desce” para debaixo da terra, se fosse o
Samuel verdadeiro ele não estaria sendo visto “subindo da terra”, a não ser que o espírito
dele tenha subido para Deus, depois descido de novo para debaixo da terra, depois subido
de novo para atender à necromancia da feiticeira... enfim... diante de tamanha contradição
lógica só nos resta desacreditar na implausível interpretação que alguns imortalistas fazem
desta passagem, dizendo que era mesmo Samuel quem apareceu e caindo em uma série de
contradições insuperáveis pela frente, que inteiramente refutam tal teoria mirabolante.

Em nono lugar, porque a “predição” do suposto Samuel de que “amanhã tu e teus filhos
estareis comigo” (v.19) significaria então que os profetas de Deus e reis apóstatas
compartilham a mesma habitação após a morte? Não, isso é um absurdo e antibíblico.
Mesmo se Samuel estivesse vivo em algum lugar, Saul (um rei ímpio de acordo com a
Bíblia) não estaria na mesma habitação de Samuel! Se o espírito de Samuel estava no
Paraíso com Deus, então de modo algum que Saul, um rei ímpio, estaria com o próprio
Samuel após a morte.

O pseudo-Samuel cria que justos e ímpios partilhariam conscientemente o mesmo lugar


após a morte, estaria um junto do outro, o que é negado pela própria teologia imortalista!
Como crer em um “Samuel” que cai em tantas contradições ao ponto de contradizer a
própria teologia imortalista com as suas declarações? E como podem os imortalistas
fazerem uso dessa passagem como suposta “prova” da imortalidade da alma, se ela quando
analisada em seu todo refuta as próprias crendices populares sobre Céu e inferno e destinos
diferentes entre justos e ímpios após a morte e antes da ressurreição?

De acordo com a própria teologia popular que segue a tendência imortalista, os ímpios já
estão no inferno e os justos já estão no Céu e, portanto, Saul não estaria “comigo” (junto
com Samuel) mas sim queimando em uma outra dimensão enquanto Samuel desfrutava das
bênçãos paradisíacas (enquanto atendia o chamado de feiticeiras...). Veja que é a própria
doutrina imortalista entrando novamente em contradição com ela mesma.

Em décimo lugar, segundo boas traduções (como a versão inglesa King James e a espanhola
Reina Valera), a feiticeira disse que avistava “deuses”, no plural (v.13). Será que Samuel
veio acompanhado de um comitê de santos que subiam da terra para atender ao chamado
da feiticeira? Não, tudo indica que tratavam-se de espíritos malignos.

Em décimo primeiro lugar, porque Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (v.19), como
dizia a profecia do pseudo-Samuel. A profecia indicava que Saul viria a ser morto pelas
mãos dos filisteus. Mas o fato é que Saul se suicidou (cf. 1Sm.31:4), e veio parar nas mãos
dos homens de Jabes-Gileade (cf. 1Sm.31:11-13), e não dos filisteus (nem Saul e nem os
moradores de Jabes-Gileade eram filisteus). Saul apenas passou pelas mãos dos filisteus,
mas não foi entregue aos filisteus. Ele foi entregue aos cidadãos de Jabes-Gileade, após
cometer suicídio. Claro que o pseudo-Samuel não podia prever esse detalhe.

Em décimo segundo lugar, porque a profecia de “Samuel” era que no dia seguinte “tu e teus
filhos estarão comigo” (v.19). Isto indica que todos os filhos de Saul estariam com ele, pois
não foram feitas exceções na mensagem de Samuel. Na melhor das hipóteses, a maioria
dos filhos [em geral] estariam mortos com ele. Contudo, metade dos filhos não morreram.
Saul tinha seis filhos e três deles sobreviveram. Morreram na batalha Jônatas, Abinadabe e
Malquisua (cf. 2Sm.31:8-10; 21:8).

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 128


Alguns imortalistas contestam este fato alegando que a profecia poderia ser considerada
verdadeira se somente um filho morresse. Isso, porém, não é verdade. Ela não diz “alguns
dos teus filhos”, mas diz claramente “os teus filhos”. Se isso não implica em totalidade, pelo
menos implica em maioria geral. Mas nem em um caso nem em outro a profecia obteria
êxito, visto que a metade dos filhos de Saul permaneceram vivos após a batalha!

Esses fatos contrastantes tornam essas profecias de “Samuel” uma flagrante contradição
com o testemunho da parte de Deus a respeito do verdadeiro Samuel, que “nenhuma das
suas palavras deixou cair em terra" (cf. 1Sm.3:19). Por mais que Satanás quisesse colocar
os filhos (a profecia não traz exceção a ninguém e ainda generaliza) na morte, apenas
conseguiu isso com a metade deles. Como o diabo não é onisciente como Deus é, ele não
pôde fazer profecias exatas, mas apenas generalizações, em estilo sibilino, e ainda por cima
erradas, quando muito apenas parcialmente corretas.

Em décimo terceiro lugar, e provavelmente o maior de todos os vários erros da “profecia” do


pseudo-Samuel, vemos ele afirmando que “amanhã você e seus filhos estarão comigo
(mortos)” (v.19). Entretanto, isso só ocorreu dias depois, e não no dia seguinte (cf.
1Sm.30:1; 31:1-6). Alguns imortalistas tentam contornar tamanha contradição tão evidente
entre o relato do pseudo-Samuel e este fato bíblico dizendo que a palavra “amanhã” refere-
se a um tempo indefinido, o que implica que Saul e seus filhos não precisariam morrer no
dia seguinte.

Contudo, a palavra utilizada no original hebraico para “amanhã” neste texto é mahar, que
significa realmente dia seguinte, e não um tempo indefinido, como em Êxodo 9:5:1, 1ª
Samuel 20:5, Provérbios 3:28, Isaías 22:13 e em outros textos. A palavra utilizada para
“amanhã”, portanto, tem o sentido de dia seguinte, e não de tempo indeterminado.

Se o pseudo-Samuel cresse que a morte de Saul e de seus filhos não fosse no dia seguinte
mas em algum tempo mais tarde, teria empregado o plural (“daqui alguns dias”), ou
expressões mais gerais de um tempo indeterminado ainda que iminente, como “em breve”,
ou simplesmente não mostraria nenhuma expressão temporal, muito menos empregaria
mahar, que significa dia seguinte, se soubesse que seria em qualquer outro dia menos no
dia seguinte! Na verdade, as contra-argumentações imortalistas, que carecem inteiramente
de fundamento bíblico, servem apenas para tentar contornar o fato óbvio de que o pseudo-
Samuel que se apresentou em En-Dor errou, errou e errou em suas predições.

Em qualquer outro lugar da Bíblia onde mahar é apresentado eles nem sequer contestam o
fato de que se trata realmente do dia seguinte, mas, como aqui vai contra a teologia deles,
então eles precisam apelar e dizer que aqui, e somente aqui, essa palavra tem um “sentido
diferente e mais amplo”, que não significa aquilo que sempre significa em todo o Antigo
Testamento, e que “Samuel” preferiu a utilizar mesmo correndo o risco de ser “mal
interpretado” quando poderia ter empregado inúmeras expressões diferentes que poderiam
se encaixar corretamente no tempo da morte de Saul e seus filhos!

De fato, fica difícil ver quem erra mais: se foi Saul com as suas predições ou se são os
imortalistas em suas inúteis tentativas de tentar negar a todo o custo o óbvio da Bíblia
Sagrada a fim de defender uma profecia nitidamente falsa. Finalmente, em décimo quarto
lugar, a Bíblia diz que Saul entendeu que era Samuel (cf. 1Sm.28:14). Partindo do
pressuposto de que o rei Saul havia entendido (na percepção dele) que tratava-se de
Samuel, o texto continua relatando como era na visão deste. Foi Saul que “deduziu” que o
vulto que subia da terra, ao qual ele não via, era o profeta Samuel. Não foi Deus que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 129
disse que era Samuel, foi o rei Saul que entendeu que supostamente tratar-se-ia
de Samuel.

Com efeito, a alegação imortalista de que o texto bíblico fala de “Samuel” e não de
“demônio” fracassa exatamente em não admitir o óbvio do texto bíblico, de que este tratava
o caso do ponto de vista do próprio Saul e de acordo com o entendimento deste. Saul
realmente achava que era Samuel, por isso o texto diz que “Saul entendeu que era
Samuel” (v.14) e continua o relato de acordo com a opinião de Saul, isto é, que se tratava
de Samuel e não de um espírito maligno. Ignorar que o texto está retratando claramente a
percepção de Saul e não dando um “veredicto” sobre se era ou não Samuel é
simplesmente ignorar a exegese correta do texto em seu todo. Exemplos similares a este
ocorrem aos montões no Antigo Testamento.

Por exemplo, sabemos que o sol não “parou” de fato, mas a Bíblia afirma que o sol parou
(cf. Js.10:13). Por que a Bíblia disse isso? Ela mentiu? Não, ela apenas relatou aquele
acontecimento do ponto de vista de Josué, que com o conhecimento limitado da época
achou que o sol havia “parado”. Ou seja, embora a Bíblia diga que “o sol parou”, o que ela
quer dizer com isso é que Josué entendeu que o sol havia parado. Da mesma forma, o texto
de 1ª Samuel 28 retrata o acontecimento do ponto de vista de Saul, como também o verso
14 deixa bem claro.

Embora esteja escrito que “era Samuel”, o que ela quer dizer com isso é que Saul entendeu
que era Samuel, que com o seu conhecimento limitado das coisas espirituais achou que era
o profeta “subindo de dentro da terra”. Sendo assim, é errado tentar tirar alguma noção de
“argumento” em cima do fato de que o texto bíblico traz “Samuel” e não “demônio”, a não
ser que o entendimento de Saul estivesse correto, o que provamos aqui que não estava, por
todas as razões apresentadas acima.

Concluímos, pois, que não foi Samuel quem se manifestou em En-Dor. Tudo não passou de
uma fraude e artimanha de um espírito maligno. Satanás é experiente, perito em
contrafazer as coisas de Deus, e até mesmo em imitar falsamente os mortos. Nem com
sessão espírita a imortalidade da alma consegue se sustentar. O fato é que os escritores
bíblicos, inspirados pelo Espírito Santo, jamais falaram em imortalidade da alma, mas
sempre respaldaram frequentemente que os mortos passam inconscientes o sono da morte
(cf. Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9;
Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). E, contra fatos, não há argumentos – nem mesmo sessão
espírita.

VI–A alma no lugar de silêncio

“Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio ” (cf.
Salmo 94:17)

Essa informação, presente no Salmo 94, é também de extrema importância para


compreendermos o pensamento dos escritores do Antigo Testamento, também guiados pelo
Espírito Santo assim como os do Novo. Já provamos aqui neste estudo, por tudo o que
analisamos até aqui, que a doutrina do Antigo Testamento é fortemente contrária à posição
de imortalidade da alma e a qualquer tipo de vida inteligente entre a morte e a
ressurreição, e refutamos as interpretações errôneas que os imortalistas fazem em cima de

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 130


algumas passagens veterotestamentárias usadas como suposta “evidência” de vida após a
morte em um estado desencarnado.

O nosso próximo passo, agora, é refutarmos os argumentos que são usados por boa parte
deles a fim de negar tão tamanha evidência bíblica acerca do pensamento dos escritores
bíblicos do Antigo Testamento relacionado ao estado dos mortos. Para muitos teólogos da
imortalidade da alma, todas as posições sobre os mortos tratam-se apenas e tão somente
do corpo. Isso é errado por vários motivos. Em primeiro lugar, porque, como vimos no
capítulo 3, a natureza humana é holista, e não dualista. Em outras palavras, quando nós
morremos, é a pessoa integral que morre. Isso é muito claro nas Escrituras Sagradas que o
conceito de “alma” e “espírito” na Bíblia não remete a uma alma imortal com personalidade
própria ou a um segmento preso dentro de nós que é liberto por ocasião da morte.

Em segundo lugar, porque seria completamente ilógico os escritores do Antigo Testamento


escreverem tanto sobre a vida após a morte e fazerem sempre referencias a “perecem os
pensamentos” (cf. Sl.146:4), “não sabem de nada” (cf. Ec.9:5), “sua memória jaz no
esquecimento” (cf. Ec.9:5); “não tem lembrança de Deus” (cf. Sl.6:5), “não louvam ao
Senhor” (cf. Is.38:19), “já não existe” (cf. Jó 7:21), dentre tantas inúmeras citações que
poderíamos aqui citar, e estarem sempre falando só do corpo, nunca da alma! É totalmente
inimaginável que tais pessoas estivessem tão excessivamente preocupadas em narrar tanto
o estado de um simples corpo morto ao invés de falar sobre a vida pós-morte espiritual!

Esperaríamos justamente o contrário: que eles constantemente fizessem amplas descrições


daquilo que realmente importa, do destino da alma e do ser racional após a morte, e não de
uma simples “carcaça” que nada mais vale. Será que os autores bíblicos iriam desperdiçar o
tempo deles fazendo descrições de um mero corpo morto que já virou pó, quando poderiam
ter a oportunidade de descrever o que seria muito mais importante, que seria o lado
consciente e racional que os imortalistas atribuem à alma? Lógico que não! Portanto, alegar
que os autores bíblicos estavam sempre narrando o estado corporal depois da morte e não
o estado da alma (i.e, do ser racional ativo e pensante) é incorrer em uma grande
incoerência lógica.

Além disso, fato é que os próprios imortalistas associam o “verdadeiro eu” (i.e, o lado
racional, a consciência humana) à alma ou ao espírito. Eles dizem que você é um espírito,
possui uma alma e habita em um corpo. Em outras palavras, este seu corpo é um mero
revestimento, pois a sua consciência, racionalidade, fonte dos pensamentos, é tudo
relacionado à alma, e não ao corpo. O interessante é que o salmista disse explicitamente
que na morte “os pensamentos perecem” (cf. Sl.6:5). Se a racionalidade é atribuída à alma
e não ao corpo, é lógico que a citação bíblica diz respeito à alma. Não esperaríamos que o
salmista dissesse que depois da morte não há mais pensamentos se estes continuassem no
pós-vida através do mesmo “processador” que os mantinha ativos aqui na terra: a alma.

Em terceiro lugar, a descrição é com relação ao estado dos mortos. Quanto a isso não
resta dúvidas de que eles sabiam muito bem que era um estado de plena inconsciência,
caracterizado como um “sono” (cf. Jó 14:11-12; cf. Sl.76:5; 90:5), e nisso vemos
unanimiidade entre todos os salmistas e escritores do Antigo Testamento. Se o estado dos
mortos fosse de consciência e de atividade, então a figura usada não seria uma que indica
que os mortos estão dormindo, mas uma que indicasse que eles estão acordados. O fato do
“sono” ser utilizado como metáfora para o estado dos mortos prova que os escritores
bíblicos acreditavam que os mortos não estavam conscientes, pois se assim o fosse
escolheriam uma metáfora de “acordado”, e não de “dormindo”.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 131
Em quarto lugar, as referências tratam-se de indivíduos, e não de meros corpos. É a
pessoa integral que morre, é a pessoa integral que perecem os pensamentos. Deus não
disse: “no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma
sobreviverá num estado desincorporado”. Antes, declarou: “Vós”, ou seja, a pessoa inteira,
“morrereis”. Deus não disse que “a alma que pecar, essa viverá eternamente em um estado
desencarnado”; ao contrário, disse que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4).

No livro de Daniel, o próprio Deus chega a ele e diz: “Tu, porém, vai até ao fim; porque
descansarás, e te levantarás na tua herança, no fim dos dias” (cf. Dn.12:13). Deus estava
falando com indivíduo Daniel ou só com o corpo dele? “Tu, porém” é uma referência ao
próprio Daniel como pessoa, e não somente ao corpo dele! “...porque descansarás”... quem
descansarás? O indivíduo Daniel ou só o corpo dele? Não seria melhor então Deus corrigir a
sua frase para não confundir ou enganar Daniel e dizer: “porque o teu corpo
descansarás”... como induzem os imortalistas? Não, Deus não disse para Daniel: “teu corpo
dormirá, mas você ficará comigo”! É ao próprio Daniel, a pessoa integral, que são referidas
todas essas coisas. Deus estava falando com o ser racional de Daniel, e é o seu ser racional
que “descansaria” com a morte e só “despertaria” no final dos dias.

É extremamente confuso e incoerente crer que Deus estava falando apenas com o corpo
de Daniel, mas não com o ser racional pensante (alma) dele! Ele não estava falando
apenas com a “carcaça”, Ele estava falando com o ser pensante, racional, o verdadeiro “eu”,
que na visão dos imortalistas é a alma. Portanto, a passagem se aplica à alma. Mas quando
eles veem que essa mesma passagem fala em descansar e se levantar (i.e, morrer e
ressuscitar) para somente no final dos tempos entrar na sua herança celestial, aí a conversa
muda, não é mais a alma não, é só o corpo mesmo!

Então, a regra “exegética” dos imortalistas baseia-se no seguinte raciocínio: o “verdadeiro


eu” do ser humano é a alma, e, portanto, as citações diretas ao “eu” se referem à alma, ao
indivíduo como ser racional. Mas se algum texto bíblico fala do “eu” dormindo,
ressuscitando ou em estado inconsciente, aí não é mais a alma, é só o corpo mesmo! Essa
teologia confusa só pode ser fruto do desespero em precisar negar a obviedade dos textos
bíblicos que clarissimamente negam um estado consciente do ser racional na morte.

As suas crenças baseadas numa tradição que diz que a alma é imortal é tão forte que eles
são forçados, estando ou não de acordo com as regras básicas da exegese e da
hermenêutica, a negarem a priori qualquer texto bíblico que fale do “eu” em estado
inconsciente, ou de morte, ou de ressurreição, conquanto que em todas as outras ocasiões
na Bíblia este “eu” se refira à alma. Isso tudo somente para salvar uma crença confusa,
antibíblica e cheia de engano, que necessita de verdadeiros “malabarismos teológicos” para
sustentá-la. Por mais incrível que possa parecer, os imortalistas conseguem o extraordinário
feito de “interpretarem” Daniel 12:13 da seguinte maneira:

“Tu – isto é, o teu corpo, mas não a tua alma – vai até o fim; porque o teu corpo
descansarás, e somente ele se levantará na sua herança, no fim dos dias, enquanto você já
estará comigo no Céu muito antes disso”

Vejam só até onde eles precisam chegar para salvar a tese da alma imortal! De fato, a
interpretação simples, correta e objetiva dessa passagem mostra exatamente o inverso
disso:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 132


“Tu [i.e, o indivíduo como pessoa, o ser racional, corpo e alma], porém, vai até ao fim;
porque [tu – corpo e alma, ser integral] descansarás, e [tu – corpo e alma, ser integral]
levantarás na tua herança, no fim dos dias”

O sujeito (“tu”), como vimos, se aplica ao próprio Daniel como pessoa, e a pessoa não se
resume ao seu corpo somente, mas a corpo e alma. E este mesmo sujeito é repetido
no mesmo contexto sequencialmente em se tratando de morte e ressurreição, e de entrar
na herança celestial somente no fim dos tempos. Definitivamente, uma exegese honesta e
sincera desfaz completamente as “interpretações” dos imortalistas, porque um exame
bíblico sincero e honesto desmente completamente o engano da imortalidade da alma.

Em quinto lugar, os escritores falavam da vida do além: “Tudo quanto te vier à mão para
fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde vais, não há obra, nem
projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf. Ec.9:10 - ARA). E é no “além” que
não há obra, projeto, conhecimento ou sabedoria! No “além” [Sheol] não existe inteligência
ou razão [khesh-bone'], logo, não há consciência. A palavra aqui utilizada no original
hebraico é “Sheol”, que, segundo os imortalistas, é a morada consciente dos espíritos,
enquanto que a sepultura seria o destino unicamente do corpo. Ocorre que Salomão diz que
no Sheol, isto é, neste local que os imortalistas dizem estar a alma à parte do corpo e
vivendo conscientemente, não há obra, nem projetos, nem conhecimento e nem
sabedoria alguma.

Como poderiam eles estarem fazendo referência apenas ao corpo, se o autor bíblico fala do
“além” [Sheol], que os próprios imortalistas admitem ser o destino da alma e não do corpo,
e dizem que neste local para onde a alma vai não existe qualquer conhecimento, sabedoria
ou obra? Se fosse mesmo da opinião dos escritores bíblicos de que é apenas o corpo que
fica inconsciente após a morte, eles não teriam retratado o Sheol (onde ficaria a alma)
como um local onde não existe consciência, no máximo falariam da sepultura (onde ficaria o
corpo) desta maneira. Portanto, as citações dizem respeito ao corpo e à alma, ao todo do
ser humano, ao ser vivo como pessoa, corpo e alma, e não apenas a uma parte dele.

Em sexto lugar, os escritores do Antigo Testamento não acreditavam que a alma permanecia
viva, mas que ela morria: “Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da
morte, mas entregou à pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50); “Quem contará o pó de
Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e
seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10); “E naquele mesmo dia tomou Josué a
Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei, a eles, e a toda a alma que nela
havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó” (cf.
Js.10:28). Se a alma morre, então ela não é imortal. E, se os escritores bíblicos não
hesitavam em mencionar a morte da alma, então as diversas menções explícitas à
inexistência no pós-vida não tem relação somente ao destino do corpo.

Em sétimo lugar, a Bíblia também declara que o local da alma seria a cova (não era apenas
o destino corporal): “Eis que foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém,
amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti
todos os meus pecados” (cf. Is.38:17); “Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer
para a cova, e viverei para desfrutar a luz” (cf. Jó 33:28). Embora os escritores bíblicos
pudessem perfeitamente colocar em pauta a sua visão “dualista” de que era apenas o corpo
morto que partiria para a sepultura, enquanto a alma supostamente tomasse um rumo
diferente, eles fazem questão de mencionar que o destino do corpo é o mesmo destino da
alma – a cova (cf. Sl. 94:17; Is. 38:17; Jó 33:28; Jó 33:18; Jó 33:22; Jó 33:30). Se eles
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 133
retratavam a alma na cova, então não era crença deles de que fosse apenas um corpo
morto que já descesse na morte.

O que vemos em todo o Antigo Testamento é, portanto, a confirmação daquilo que nós
vimos historicamente: que a doutrina da imortalidade da alma era completamente estranha
para os hebreus, só se tornando realidade para os helenistas a partir da diáspora judaica. É
mais do que claro que, para os escritores do Antigo Testamento, a alma ia para apenas um
lugar após a morte, que por sinal era o mesmo de justos e ímpios: a sepultura (Sheol).

Este é o lugar de silêncio do qual o salmista fala, este é o local onde perecem os
pensamentos (cf. Sl.146:4), onde é impossível louvar a Deus (cf. Sl.6:5), onde os mortos
não sabem de coisa nenhuma (cf. Ec.9:5), onde a memória dos mortos jaz no esquecimento
e perecem sentimentos de amor, ódio e inveja (cf. Ec.9:5,6), o local onde não há mais
sabedoria alguma e nem planejamento (cf. Ec.9:5), o local onde a pessoa já não existe (cf.
Jó 7:21) e para a alma [a própria pessoa] vai após a morte (cf. Sl.94:7; Is.38:17).

Não é no Céu ou no inferno. É no pó da terra (cf. Gn.3:19; Sl.22:15; Is.26:19; Jó 7:21;


Dn.12:2). Haverá, porém, o dia em que “muitos dos que dormem no pó da terra
despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf.
Dn.12:2). Essa é a verdade bíblica, presente não só na teologia do Antigo Testamento, mas
também a mesma do Novo, como veremos no próximo capítulo.

VII–Conclusão

Pelos escritos do Antigo Testamento, podemos afirmar categoricamente a crença deles de


que:

Numeração Declarações relativas ao estado dos Base bíblica


mortos veterotestamentária
1 Os mortos não estão cônscios de Eclesiastes 9:5
coisa nenhuma
2 Um cachorro vivo vale mais do que Eclesiastes 9:4
um leão morto
3 No “além” [Sheol] não há sabedoria Eclesiastes 9:10
[khok-maw']
4 No “além” [Sheol] não há Eclesiastes 9:10
conhecimento [dah'-ath]
5 No “além” [Sheol] não há inteligência Eclesiastes 9:10
[khok-maw']
6 No “além” [Sheol] não há dispositivo Eclesiastes 9:10
de razão [khesh-bone']
7 Apenas os vivos [os que estão Eclesiastes 4:2
“debaixo do sol”] estão com vida
8 A vantagem dos homens sobre os Eclesiastes 3:19
animais é nenhuma
9 O destino de bons e de ímpios é o Eclesiastes 2:14,15
mesmo depois da morte
10 O destino dos homens e dos animais Eclesiastes 3:20
é o mesmo depois da morte
11 Fôlego de vida é a mesma coisa que Gênesis 2:7; Jó 33:4;

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 134


espírito 32:8; Isaías 42:5
12 O fôlego de vida dos homens é o Eclesiastes 3:19
mesmo dos animais e não há
diferença entre eles
13 O espírito de toda a carne [justos e Eclesiastes 12:7
ímpios] volta para Deus por ocasião
da morte
14 A memória dos mortos jaz no Eclesiastes 9:5
esquecimento
15 Sentimentos como amor, ódio e Eclesiastes 9:4
inveja já pereceram para os mortos
16 Na morte não há lembrança de Deus Salmos 6:5
17 Os mortos não louvam ao Senhor Isaías 38:19
18 Na morte os homens não têm Salmos 30:9
proveito nenhum para Deus
19 Os mortos não pensam Salmos 146:4
20 Os mortos estão numa terra de Salmos 115:17
silêncio
21 A alma vai para um lugar de silêncio Salmos 94:17
22 A alma vai para a cova Jó 33:18,22,28
23 Nós só veremos a Deus no tempo do Jó 19:25-27
fim
24 Nós só veremos a Deus após a Salmos 17:15
ressurreição
25 Nós só entramos em nossa herança Daniel 12:13
celestial na ressurreição do final dos
dias
26 Os mortos não olham mais para a Isaías 38:11
humanidade
27 Os mortos estão numa terra de Salmos 88:12
esquecimento
28 O único destino do homem após a Jó 17:13
morte é a sepultura
29 O homem é como os animais que Salmos 49:12
perecem
30 As referências ao “dormir” tratam-se Daniel 12:13
de indivíduos, do ser racional, e não
de meros corpos
31 Até não haver mais céus, o homem Jó 14:10-12
não despertará e nem levantará de
seu sono
32 O homem na morte já não existe e Jó 7:21
Deus não pode encontrá-lo
33 O homem na morte torna-se como Jó 14:11-12
um lago ou rio cujas águas se
secaram
34 O homem não levanta de seu estado Jó 14:12
de inatividade até “não existirem
mais céus”
35 Os ímpios não possuirão uma Salmos 21:9; 37:22; 37:9;
eternidade, mas serão devorados, 37:10; Provérbios 10:25
consumidos, eliminados, não
existirão e serão exterminados

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 135


36 Os ímpios deixarão de existir e Salmos 104:35; 49:8,9;
apenas os justos viverão para Provérbios 2:22; 19:16;
sempre 11:19
37 No dia do Juízo, o Senhor não Malaquias 4:1
deixará nem raiz e nem ramo dos
ímpios
38 Neste mesmo dia, os ímpios se farão Malaquias 4:3
em cinzas debaixo dos pés dos justos
39 A alma repousa após a morte Salmos 23:13
40 A alma também pode sofrer Salmos 49:8,9
decomposição; contudo, é passível
de ser resgatada [na ressurreição]
para viver para sempre e não sofrer
decomposição [na sepultura]
41 Os mortos não mais confiam na Isaías 38:18
fidelidade de Deus
42 Os mortos não falam da fidelidade de Salmos 88:12
Deus
43 Não existem gritos no “além” (Sheol) Jó 3:18
44 Sheol não é uma “morada de Gênesis 37:35; Salmos
espíritos”, mas uma figura da 141:7
sepultura
45 O “além” (Sheol) é um lugar de Jó 3:11,13,17; 3:18
repouso
46 O Sheol é um lugar de silêncio Salmos 115:17; 94:17
47 O Sheol é um lugar de escuridão (e Jó 10:20,21; Salmos
não de “fogo”, o que remeteria a 88:10-12
luminosidade)
48 São os ossos (e não “espíritos”) que Salmos 141:7
descem ao Sheol na morte
49 Os mortos não veem mais a luz Salmos 49:19
50 Todos descem para o Sheol na morte Jó 3:11-19
51 O Sheol é o pó da terra Jó 17:16
52 O local de habitação na morte é no Isaías 26:19
pó da terra
53 A consciência dos mortos é Salmos 30:9
comparada com o pó da terra – ou
seja, não há nenhuma
54 Até as ovelhas vão para o Sheol na Salmos 49:14
morte
55 O mau não está no inferno. Está Jó 21:28-32
“reservado” no túmulo até o dia do
juízo
56 O homem tornou-se (não “obteve”) Gênesis 2:7
uma alma
57 Não existe alma sem sangue Levítico 17:11; Gênesis:
9:4,5
58 O corpo é a alma visível Levítico 19:28; 21:1,11;
22:4; Números 5:2;
6:6,11; 9:6,7,10; 19:11,13
59 A estrutura dos homens é puramente Salmos 103:14; Gênesis
o pó 18:27
60 Apenas os vivos possuem o “espírito Gênesis 7:15

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 136


de vida”
61 A alma [nephesh] pode ser Josué 10:28, 30, 32, 35,
totalmente destruída 37, 39
62 O processo que ocorre aos homens é Salmos 104:29; Eclesiastes
o mesmo processo que sucede aos 3:19,20
animais na morte
63 Espírito significa “vida” e não um ser Salmos 104:29; Jó 12:10
inteligente que sai do corpo na hora
da morte
64 Tanto homens como animais expiram Salmos 104:29; Eclesiastes
o espírito-ruach na morte 12:7
65 A alma morre Ezequiel 18:4,10
66 A alma é exterminada Josué 10:28
67 A morte do corpo é a morte da alma Números 31:19; 35:15,30;
Josué 20:3,9; Gênesis
37:21;
68 A alma-nephesh pode ser Deuteronômio 11:9
transpassada mortalmente
69 Se você matar uma alma, poderá Josué 20:3
fugir para uma cidade de refúgio
70 A alma emagrece Salmos 106:15
71 A alma sente sede Isaías 29:8
72 A própria vida vai para a sepultura Salmos 88:3
após a morte
73 A alma vai para a cova da corrupção Isaías 38:17
[sepultura]
74 Até o sangue desce ao Sheol na 1 Reis 2:9
morte
75 O homem é um ser mortal e não Jó 9:2; 10:15; 4:17;
imortal Salmos 56:4; 9:17; Isaías
51:12
76 O Antigo Testamento nunca usa os Nunca usa mesmo
termos para “eterno” ou “imortal”
para a alma
77 O homem retorna para o pó na morte Salmos 103:14; Gênesis
3:19; 18:27
78 Os animais também são Gênesis 1:20,21,24,30;
denominados de “almas viventes” 2:19; 9:10,12,15,16
79 O homem não comeu da árvore da Gênesis 3:24
vida para ser imortal vivendo
eternamente
80 A presença da “árvore da vida” no Gênesis 2:9
jardim do Éden indica que a
imortalidade era condicional à
participação do fruto de tal árvore
81 O conhecimento do bem e do mal foi Gênesis 2:22,23
adquirido ao comerem da árvore da
ciência do bem e do mal; mas a
imortalidade não foi adquirida pois o
homem não comeu da árvore da vida
82 No relato da Criação de Gênesis 1 e 2 Nada mesmo
nada é dito de Deus ter formado
dentro do homem uma “alma” ou
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 137
“espírito” imortal
83 Os animais também possuem Gn.6:17; Gn.7:21,22;
espírito-ruach Gn.7:15; Sl.104:29
84 O homem certamente morreria Gênesis 2:7
(Heb.: Morrendo, morrerás)
85 A mentira da serpente [Satanás] é a Gênesis 3:4
base da doutrina imortalista:
“Certamente que não morrerás”

Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e honestidade constata com facilidade que
definitivamente os escritores do Antigo Testamento não acreditavam absolutamente em
nenhuma vida logo após a morte. Eles tinham a consciência de que só voltariam de seu
estado de inatividade com o despertar da manhã da ressurreição. Esse pensamento não é
contrário ao do Novo, pelo contrário, o ensinamento neotestamentário confirma o Antigo.

VIII–Estavam enganados os escritores do Antigo Testamento?

“Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa” (cf.
Números 23:19)

Até este ponto já vimos inúmeras evidências claras de que nenhum escritor do Antigo
Testamento acreditava em uma vida logo após a morte ou em um estado intermediário das
almas. Também já refutamos os argumentos usados pelos imortalistas numa tentativa de
anular as esmagadoras evidências do Antigo Testamento. À luz de tudo isso, devemos
perguntar: “estariam certos os escritores do Antigo Testamento em pregar a inconsciência
após a morte, ou eles estariam enganados em suas teologias por terem pouco
conhecimento”?

Por mais estranho que possa parecer, sim, existem imortalistas mais honestos, que
admitem que os escritores do Antigo Testamento negavam a vida após a morte, mas tentam
contornar este fato dizendo apenas que “eles tinham um conhecimento limitado” e que o
Novo Testamento “corrigiu o Antigo” e começou a pregar a imortalidade da alma. Porém,
não restam dúvidas que os escritores do Antigo Testamento não estavam sendo enganados.
Na verdade, se os escritores veterotestamentários estavam sendo enganados, então quem
os estava enganando era o Espírito Santo, pois é Ele quem inspirou as Sagradas Letras:

“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e
perfeitamente habilitado para toda boa obra” (cf. 2ª Timóteo 3:16)

Notem que toda a Escritura é declarada como sendo inspirada, o Antigo Testamento não
era uma exceção à regra. Se, portanto, eles erraram, então erraram inspirados pelo Espírito
Santo! Ou pior: o próprio Espírito Santo, que inspirou as Escrituras, levou os escritores do
Antigo Testamento a errarem! Eles estavam escrevendo enganos inspirados!

De fato, a única diferença entre os escritores do Antigo e do Novo Testamento é que no


Novo o foco é maior na ressurreição dos mortos para a vida eterna, enquanto que no Antigo
o foco é maior no estado imediato pós-morte, uma vez que eles não conheciam Jesus para
saberem que são ressuscitados com a Sua Volta, embora soubessem que no final seriam

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 138


ressuscitados e recompensados para herdarem a vida eterna (cf. Dn.12:2; Jó 19:25-27;
Sl.58:9-11; Sl.37:22; Sl.37:9). Ou seja: ambos refutam a imortalidade da alma, mas cada
um da sua maneira.

Os autores do Antigo Testamento não estavam inspiradamente errados e nem enganando o


povo do século XXI, a única coisa que mudava era o foco, concentrado no estado dos
mortos imediatamente após a morte: de inconsciência. No Novo Testamento, a ressurreição
de Cristo assegura a nossa própria ressurreição (cf. 1ª Coríntios 15), como primícia
daqueles que dormem para um dia entrarem na vida eterna. Por isso, enquanto o foco
veterotestamentário é no estado atual dos mortos de inconsciência, o foco
neotestamentário é totalmente na ressurreição dos mortos para a vida eterna, como
veremos mais adiante neste estudo ao analisarmos o Novo Testamento e a sua posição com
relação à vida pós-morte.

É fato que eles sabiam que, no tempo do fim, voltariam a ver a Deus (cf. Jó 19:25-27),
quando até não mais “existirem os céus” (cf. Jó 14:11). O salmista também escreve que
Deus não esqueceria a sua alma no Sheol, mas lhe receberia com Ele (cf. Sl.49:15), o que o
Novo Testamento atribui à ressurreição dentre os mortos (cf. At.2:27). O Antigo Testamento
nos mostra a realidade da ressurreição “para a vida eterna ou para o desprezo eterno” (cf.
Dn.12:2), e que eles entrariam na herança quando se “levantassem” (cf. Dn.12:13), uma
figura da ressurreição. Davi deixa implícito que um dia os mortos ressurgiriam para louvar a
Deus (cf. Sl.88:10), e em outra passagem deixa claro que veria a Deus “quando
despertasse” (cf. Sl.17:15), novamente um indicador da ressurreição dos mortos.

Jesus Cristo também aplica o texto de Êxodo 3:6 {Sou o Deus de Isaque, Abraão e Jacó}
como prova da ressurreição dos mortos (cf. Lc.20:37). Em Atos 13:34,35, vemos Paulo
aplicando o texto de Isaías 55:3 como prova da ressurreição. Neste mesmo livro, há a
menção explícita de que “os vossos mortos revivam; que seus cadáveres ressuscitem!” (cf.
Is.26:19). Ezequiel nos diz que a alma pode sofrer a morte final ou viver (cf. Ez.18:4,20), e
o salmista afirma que “a herança deles [dos salvos] será eterna” (cf. Sl.37:18) e que terão
uma vida eterna (cf. Sl.37:27).

Quanto à realidade do juízo vindouro, eles também tinham esse conhecimento, pois
afirmavam que “o Senhor não o abandonará em suas mãos e, quando for julgado, não o
condenará” (cf. Sl.37:33). Eles sabiam que seriam julgados, mas esperavam não sofrer a
condenação. Da mesma, Salomão também inclui o fato de que os mortos seriam julgados
um dia, quando Deus um dia "de todas estas coisas nos pedirá contas" (cf. Ec.11:9). O
próprio “livro da vida” era realidade não apenas ao período neotestamentário, mas no
próprio Antigo Testamento (cf. Sl.69:28; Sl.139:16; Êx.32:33).

Por tudo isso (e muito mais) torna-se inútil a tentativa frustrada por parte dos imortalistas
em dizer que os escritores do Antigo Testamento não tinham o devido conhecimento por
suas “limitações da época” ou que não acreditavam na ressurreição para a vida eterna ou
no juízo vindouro. É claro que eles acreditavam nestas coisas, só não aceitavam na doutrina
herética da imortalidade da alma e, por isso, não faziam menção nenhuma a ela. Ademais,
existem certas passagens do Antigo Testamento que não podem ser um “engano” dos
escritores por “falta de conhecimento”, simplesmente porque é o próprio Deus vivo
(imutável, que não pode mentir) que disse tal coisa.

Por exemplo, em Ezequiel 18:4,20 (ao falar da morte da alma) é o próprio Deus falando ao
profeta, e não apenas um pensamento deles. Também em Daniel 12:13 é o próprio Deus
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 139
dizendo ao profeta que este só entraria na sua herança prometida no final dos tempos,
através da ressurreição dos mortos (ser “levantado” – cf. Dn.12:13 com Jo.3:14; 12:32, 34,
que é uma figura da ressurreição) para só neste momento entrar na sua herança, no final
dos tempos, e não imediatamente em seguida por meio de uma “alma imortal”. Isso não era
apenas um “pensamento do profeta”, mas era o próprio Deus falando para ele, e Deus não
pode mentir.

Inúmeros exemplos poderiam ser citados aqui. E, mesmo quando é apenas o escritor bíblico
fazendo as suas ponderações, temos que lembrar que ele estava sendo dirigido e inspirado
pelo Espírito Santo (cf. 2Tm.3:16). Embora tenham sido homens aqueles que escreveram as
mensagens, "nunca, jamais, qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto,
homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (cf. 2Pe.1:21). O Espírito
Santo é imutável. Isso significa que ele não poderia ter inspirado um autor a escrever uma
coisa sobre os mortos e depois inspirado outro a escrever uma coisa totalmente diferente.

A Bíblia não é contraditória em seus ensinamentos. Os escritores do Antigo Testamento


sabiam que iam levantar do estado de inatividade (cf. Dn.12:13; Dn.12:2; Jó 19:25-27;
Sl.49:15; Sl.73:21-24). Essa não é uma posição contraditória à do Novo Testamento, muito
pelo contrário, é a mesma do Novo (cf. 1Co.15:18; 1Co.15:22,23; Jo.14:3; 2Tm.4:6-8).
Jamais poderíamos imaginar que os escritores do Novo Testamento fossem contradizer o
Velho! Ainda mais quando vemos noções de que a única fonte de fé deles era a Escritura, e
não a tradição judaica, sabiam também que toda Escritura era divinamente inspirada (cf.
2Tm.3:16), e citavam inúmeras vezes partes da Escritura para basear os seus ensinos,
principalmente tratando-se das epístolas apostólicas.

Fica muito claro que todos os apóstolos liam as Escrituras e as compreendiam, colocavam-
nas como a fonte de fé divinamente inspirada e baseavam os seus escritos fundamentando-
se também naquilo que tinham de Escritura na sua época - o Antigo Testamento. Os cristãos
de Bereia foram desafiados a consultarem nas Escrituras para verem se aquilo que Paulo
dizia era mesmo verdade (cf. Atos 17:11), e eles foram elogiados por isso. Temos que
lembrar que, naquele tempo, a única “Escritura” que eles possuíam era precisamente
o Antigo Testamento.

É completamente impossível pensarmos que os apóstolos estavam pregando um evangelho


diferente daqueles que eles tinham como referência no Antigo Testamento. Se Paulo
pregasse a imortalidade da alma contraditoriamente ao ensinamento claro do Antigo
Testamento, os cristãos de Bereia teriam “desmascarado” ele, pois estes “eram mais nobres
do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse,
examinando todos os dias as Escrituras [AT], para ver se tudo era assim mesmo”
(cf. At.17:11). Até mesmo Jesus desafiava a procurarem na Escritura, o Antigo Testamento
(cf. Mt.21:42).

Jesus citava repetidamente o Antigo Testamento, que era a Escritura vigente em Seu tempo.
Reconhecia sua autoridade como livro histórico, como um manual de instrução da vida
prática, e também como fonte de doutrina religiosa. O apóstolo João também diz para
examinar as Escrituras (cf. Jo.5:39), a exemplo de Paulo que incentivava Timóteo a
examinar a Escritura (cf. 2Tm.3:15) e a dedicar-se à leitura pública dela (cf. 1Tm.4:13).
Devemos sempre lembrar que a única Escritura que eles tinham disponível naquela época
era exatamente os escritos do Antigo Testamento. Jesus Cristo repetidamente citava as
Escrituras e mantinha a sua firme posição de que o Antigo Testamento era a Palavra de

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 140


Deus escrita, afirmando inúmeras vezes que "está escrito ... está escrito ... está escrito ..."
(cf. Mt.4:4,7,10).

Esta frase aparece mais de noventa vezes no Novo Testamento, o que nos mostra que não
apenas Jesus, mas todos os apóstolos criam ser o Antigo Testamento regra confiável de fé e
doutrina que não poderia ser anulada, confirmando a suprema autoridade divina da Palavra
de Deus escrita. Ao contrário do que pensam alguns, o Antigo Testamento não é apenas um
bom livro de regras morais, mas é também regra de doutrina religiosa, de fonte de ensino
(cf. 2Tm.3:16). Afinal, “tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (cf.
Rm.15:4)!

Ademais, as Escrituras declaram enfaticamente que “é impossível que Deus minta" (cf.
Hb.6:18). O apóstolo Paulo confirma o fato declarando que "Deus que não pode mentir" (cf.
Tt.1:2), pois Ele é “o mesmo ontem, hoje e eternamente” (cf. Hb.13:8), Ele é o Senhor e
não muda (cf. Ml.3:6), é o Deus onisciente, “que não muda como sombras inconstantes” (cf.
Tg.1:17) e, portanto, não poderia colocar doutrinas falsas em Sua Palavra e depois ter
mudado de opinião no Novo Testamento, especialmente em doutrina religiosa com relação à
vida após a morte.

Ele é a Verdade (cf. Jo.14:6), e Jesus declarou ao Pai que “a tua Palavra é a verdade” (cf.
Jo.17:17). Não há como imaginarmos que poderia haver alguma mentira incluída nas
Escrituras sobre o estado dos mortos, pois isso faria de Deus um mentiroso, mas “as tuas
palavras são em tudo verdade” (cf. Sl.119:160). Em tudo, inclusive no Antigo Testamento!
O Antigo Testamento é Palavra de Deus tanto quanto o Novo e, por isso, não pode mentir e
nem mudar de opinião como parte dos imortalistas pensam que mudou. Jesus referiu-se ao
Antigo Testamento como sendo a "Palavra de Deus", que "não pode falhar" (cf. Jo.10:35).
Ela veio “da boca de Deus” (cf. Mt.4:4) e, por isso, não contém falsos ensinamentos.

Jesus confirmou várias vezes que o Antigo Testamento era Palavra de Deus ao afirmar aos
fariseus que eles estavam "invalidando a palavra de Deus" pela sua própria tradição (cf. Mc
7:13). Paulo declara a mesma posição ao referir-se às Escrituras como sendo "a palavra de
Deus" (cf. Rm.9:6). Enquanto Paulo lhes expunha as Escrituras (AT), a Bíblia afirma que ele
expunha a “palavra de Deus” (cf. At.13:44; At.18:11). Os cristãos que foram dispersos
anunciavam a “palavra de Deus” (cf. At.13:5), tendo como única fonte de fé exatamente o
Antigo Testamento. Igualmente, o autor de Hebreus afirma que eles presisavam serem
ensinados “novamente sobre os princípios elementares da palavra de Deus” (cf. Hb.5:12). O
único lugar onde os hebreus eram ensinados era nas Escrituras; o autor de Hebreus,
portanto, a coloca como a sendo a “palavra de Deus”.

Isso tudo nos mostra que o Antigo Testamento era considerado como “Palavra de Deus”, e
Deus não pode mentir, enganar, mudar de ideia depois ou ter falta de conhecimento sobre
determinado tema. É bem notório que “aquele que desobedecer a um desses mandamentos,
ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no
Reino dos céus” (cf. Mt.5;19). Jesus afirmou categoricamente que "até que o céu e a terra
passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra" (cf. Mt 5:18).
Os defensores da imortalidade da alma não apenas tiram vários “is” ou “tios” de Eclesiastes,
dos Salmos, de Daniel, Jó, de Isaías, Ezequiel, etc, como também adicionam nela o que eles
jamais mencionaram: a falsa doutrina da imortalidade da alma.

Não, os apóstolos não eram contrários àquilo que a Palavra lhes ensinava. Ensinamentos
morais de regra de doutrina e de fé, jamais poderiam ter sido alterados! Isso nada mais é
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 141
do que uma artimanha maligna para desqualificar as doutrinas bíblicas, negar a
infalibilidade doutrinária das Escrituras e negar que um mesmo Espírito inspirou e dirigiu
ambos os Testamentos que não podem ser contraditórios entre si. Um confirma o outro, e
não o anula ou o altera como “totalmente ultrapassado”! O que Satanás mais quer é anular
a Escritura, que “jamais pode ser anulada” (cf. Jo.10:35), passando a ideia de que os
ensinamentos veterotestamentários estão ultrapassados e fora de tempo e que o Novo
Testamento contradiz o Antigo Testamento e a Bíblia choca-se consigo mesma em questão
de doutrina.

Essa artimanha maligna tem enganado milhões de pessoas no mundo todo que acabam
mesmo que impropositalmente renegando o Antigo Testamento que é a Palavra do Deus
vivo, desacreditando nela e, pior ainda, se opondo às Escrituras! A conclusão que vemos,
que ficará ainda mais clara após analisarmos o conteúdo do Novo Testamento, é que eles
não contrariavam o Velho, pelo contrário, o confirmavam. O Novo Testamento não anula
o Velho, mas o confirma, porque os dois fazem parte da Palavra de Deus escrita,
que não engana ninguém.

Para refutar tais indivíduos, não basta simplesmente dizer que o Antigo Testamento está na
Bíblia tanto quanto o Novo Testamento. Eles vão dizer que a circuncisão, a guarda do
sábado e outros ritos cerimoniais, festas judaicas, lei mosaica, foi tudo abolido na Nova
Aliança. E pra eles a mortalidade da alma foi junto e a alma se tornou imortal, ou melhor,
“descobriram” isso! Ocorre aqui que o que foi abolido na Antiga Aliança não tem nada a
ver com assuntos sobre vida após a morte, mas sim com a lei cerimonial, isto é com
o lado cerimonial da lei que impunha uma série de obrigações ao povo judaico, a maioria da
qual foi abolida por Cristo na Nova Aliança, chegando ao fim desde que Jesus ressuscitou.

Desde que Jesus ressuscitou não precisamos mais nos circuncidar no oitavo dia, não
precisamos mais celebrar um ano do Jubileu, não precisamos de mais cidades de refúgio,
não precisamos festejar a festa do Purim, fazer ofertas diversas que estavam prescritas na
Lei, observar dias de festa, sacrificar um cordeiro todos os dias, etc. Porque essas coisas
chegaram fazem parte da lei cerimonial judaica, e foi substituída por alguma outra coisa
no Novo Testamento.

Por exemplo, a circuncisão foi substituída pelo batismo (cf. Cl.2:11-12), o sacrifício de
cordeiros foi substituído pelo sacrifício do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo (cf. Hb.9:13-14), o
sábado cerimonial era uma representação descanso celestial eterno (cf. Hb.4:4-11), e assim
por diante. Mas a imortalidade ou mortalidade da alma não é uma obrigação
cerimonial da lei judaica! Ou seja: não tem nada a ver! Impossível que a alma fosse
mortal até Jesus morrer na cruz e imortal depois que Ele ressuscitou! Isso não tem qualquer
ligação com as cerimônias judaicas que foram abolidas no Novo Concerto! Prova disso é que
os próprios pregadores da imortalidade da alma (sejam católicos ou protestantes) pregam
muitas coisas provenientes do Antigo Testamento.

Para ser mais sincero, a maioria das pregações atuais baseiam-se muito mais no Antigo
Testamento do que no Novo. Pregam sobre os patriarcas, sobre os reis de Israel, sobre os
Dez Mandamentos, sobre o dízimo, sobre não fazer imagens de escultura baseando-se em
Êxodo 20:4 (que desde que me lembro se encontra no AT), sobre não falar o nome de Deus
em vão (apenas alusões sobre juramentos são feitas no NT, mas sobre não falar o nome de
Deus em vão em qualquer situação é mandamento apenas do AT, não sendo repetido no NT,
e mesmo assim todos consideram verdadeiro), sobre não praticar incesto (que por incrível
que pareça só se encontra no AT e não no NT, e mesmo assim todos concordam que incesto
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 142
é errado), enfim, pregam inúmeras coisas (doutrinas e práticas) baseando-se no Antigo
Testamento.

Isso significa que eles próprios creem na validade doutrinal do Antigo Testamento para os
nossos dias (embora nem sempre confessem isso abertamente). Se eles creem também no
Antigo Testamento, isso significa que nem tudo do Antigo Testamento foi abolido. Temos,
assim, que usar de critério para sabermos o que foi abolido e o que não foi. Não é
simplesmente fazer como os imortalistas fazem à moda do “bem me quer, mal me quer”
dizendo simplesmente: “essa doutrina eu gosto, ela fica, mas essa eu não gosto, então ela
foi abolida”. Não! Como em tudo na vida, não é o gosto pessoal que determina o que foi
abolido e o que não foi. O que determina é aquilo que Paulo disse aos Colossenses:

“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma
maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os
principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Portanto,
ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua
nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (cf.
Colossenses 2:14-17)

Aqui Paulo fala sobre o que que Cristo aboliu (riscou) com a entrada da Nova Aliança. Ele
afirma que Cristo riscou uma cédula de ordenanças, cravando-a na cruz. Ou seja: há coisas
que Cristo deu um fim nelas depois que morreu. Então, para que a questão não ficasse por
demais “vaga”, em aberto, ele afirma expressamente o que é isso que Cristo aboliu: os ritos
e leis cerimoniais da lei judaica relacionados à comida e bebida, aos dias de festa e
sábados. Em outras palavras, ele diz que o que foi abolido diz respeito às práticas e ritos
cerimoniais da lei judaica, como já foi explanado. É isso o que vai embora, e não assuntos
como a vida após a morte, como alguns creem! É evidente que a vida após a morte não era
um cerimonial ou rito da lei judaica.

Portanto, as questões relacionadas aos ritos e cerimônias judaicas que estão prescritos na
lei deles chegaram ao fim, mas os outros assuntos que não tem relação com a lei cerimonial
(que não foram ordenanças dadas somente aos judeus de acordo com a cultura deles)
continuam valendo, evidentemente. É por isso que incesto é proibido, que usar o nome de
Deus em vão é pecado, que a imortalidade da alma é uma falsa doutrina. Porque o Antigo
Testamento condena expressamente essas coisas, e elas não têm qualquer relação com “leis
cerimoniais”!

Sendo assim, a pretensão daqueles que querem por um “fim” ao Antigo Testamento naquilo
que tange ao estado pós-morte fracassa absolutamente. Não, Deus não deixou o povo em
“trevas” no Antigo Testamento sem saber nada sobre a vida após a morte e os enganando
fazendo-os pensar que não existia vida após a morte quando existia. Deus desde sempre
deixou claro que a vida eterna é somente após a ressurreição, e isso desde os tempos do
Antigo Testamento!

Os que dizem que não, geralmente argumentam que o povo do Antigo Testamento não tinha
conhecimento sobre os assuntos relacionados à vida após a morte, o que incluiria a
ressurreição, evidentemente. Mas isso é puramente uma clara distorção da verdade. O
Antigo Testamento ensina clara e explicitamente a ressurreição, tanto quanto
nega clara e explicitamente a imortalidade da alma. É por isso que Daniel fala em
ressurreição:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 143


“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão [quwts], uns para vida eterna, e
outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2)

É por isso que Isaías também explicitamente fala em ressurreição:

“Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão [quwts]; despertai e
exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho será como o orvalho das ervas, e a
terra lançará de si os mortos” (cf. Isaías 26:19)

E é por isso que o salmista também usa exatamente a mesma palavra no hebraico utilizada
por Daniel e por Isaías para descrever a ressurreição, em um contexto em que ele deixa
claro que ele só veria a Deus depois que “despertasse” [quwts – ressuscitar], e não antes
disso:

“Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar [quwts], ficarei
satisfeito em ver a tua semelhança” (cf. Salmos 17:15)

A ressurreição aparece outras incontáveis vezes no Antigo Testamento de forma indireta,


mas só de mostrar que Davi, Isaías e Daniel escreveram explicitamente sobre a ressurreição
(e ainda dizendo que só obteriam vida eterna e veriam a Deus depois dessa ressurreição ter
se consumado) já nos deixa claro e lúcido que os autores do Antigo Testamento tinham sim
uma visão concreta sobre o que aconteceria após a morte. Assim como acontece dezenas
de vezes no Novo Testamento, os escritores do Antigo Testamento também falavam sobre
ressurreição, também diziam que obteriam vida somente após ela ter se consumado e
também criam que o estado pós-morte era um “sono”:

“Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte” (cf. Salmos 13:3)

Além disso, eles também tinham uma visão sobre o “livro da vida”, que seria um livro onde
estariam anotados os nomes dos salvos que herdariam a vida eterna:

“Sejam eles tirados do livro da vida e não sejam incluídos no rol dos justos” (cf. Salmos
69:28)

“Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos
no teu livro antes de qualquer deles existir” (cf. Salmos 139:16)

“Respondeu o Senhor a Moisés: Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim”
(cf. Êxodo 32:33)

Eles também tinham uma visão bem concreta de que existiria uma vida eterna:

“Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna,
outros para a ignomínia, a infâmia eterna” (cf. Daniel 12:2)

“Ele vos pediu a vida, vós lha concedestes, uma vida cujos dias serão eternos” (cf.
Salmos 21:4)

“O Senhor vela pela vida dos íntegros, e a herança deles será eterna” (cf. Salmos 37:18)

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 144


“É como o orvalho do Hermon, que desce pela colina de Sião; pois ali derrama o Senhor a
vida e uma bênção eterna” (cf. Salmos 133:3)

E eles também tinham uma visão bem concreta no que tange ao pós-morte na questão do
juízo. Criam que Deus um dia julgaria todos os homens:

“E saía um rio de fogo, de diante dele. Milhares de milhares o serviam; milhões e milhões
estavam diante dele. O tribunal iniciou o julgamento, e os livros foram abertos” (cf. Daniel
7:10)

“Por isso os ímpios não resistirão no julgamento, nem os pecadores na comunidade dos
justos” (cf. Salmos 1:5)

“O Senhor reina para sempre; estabeleceu o seu trono para julgar” (cf. Salmos 9:7)

“Trarei vocês para o deserto das nações e ali, face a face, os julgarei” (cf. Ezequiel 20:35)

“Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja
bom, seja mal” (cf. Eclesiastes 12:14)

“Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude!
Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas
essas coisas Deus o trará a julgamento” (cf. Eclesiastes 11:9)

Portanto, tendo em vista tudo isso, dizer que as provas bíblicas abundantes que negam
explicitamente a imortalidade da alma com uma objetividade incontestável “não valem”
somente porque estão no Antigo Testamento, alegando que os escritores bíblicos daquela
época não tinham conhecimento sobre a vida após a morte, é totalmente errado porque:

1º O Antigo Testamento é Palavra de Deus tão inspirada e inerrante em matéria de fé


quanto o Novo (cf. 2Tm.3:16), é fonte de ensino doutrinário (cf. Rm.15:4), é “peneira”
contra falsos ensinos (cf. At.17:11), e, como Deus não pode mentir (Tt.1:2), nem mudar
(cf. Ml.3:6), nem a Sua Palavra falhar (cf. Sl.33:4), jamais teria inspirado errado qualquer
escritor bíblico do Antigo Testamento, nem tampouco permitido que em Sua Palavra
houvessem enganos como fruto de um suposto “conhecimento limitado” em termos de
matéria de fé. Jesus disse que “a Escritura não pode ser anulada” (cf. Jo.10:35). Sendo que
na sua época toda “Escritura” que eles possuíam era o Antigo Testamento, é lógico que
Cristo estava proibindo que anulassem alguma matéria de fé por algum outro ensinamento
(a lei cerimonial não era matéria de fé e doutrina, mas costumes, cerimoniais e rituais
prescritos aos judeus, e isso que chegou ao fim na Nova Aliança).

2º Os próprios imortalistas creem em muitas coisas que estão no Antigo Testamento


(mesmo naquelas que não são explicitamente repetidas no Novo Testamento, tal como não
fazer imagens de escultura, não usar o nome de Deus em vão e não praticar incesto).

3º O que chegou ao fim na Nova Aliança diz respeito à lei cerimonial judaica relacionada
aos ritos e ordenanças prescritos ao povo judeu na época da Antiga Aliança (cf. Cl.2:14-17).
Não tem absolutamente nada a ver com a crença ou descrença na mortalidade ou
imortalidade da alma e no estado dos mortos!

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 145


4º Os escritores do Antigo Testamento tinham sim uma visão concreta sobre o que
aconteceria depois da morte. Eles escreviam explicitamente sobre o sono da morte (cf.
Sl.13:3), sobre ressurreição dos mortos (cf. Dn.12:2), sobre a existência do livro da vida
(cf. Sl.69:28) e sobre a realidade do dia do juízo (cf. Ec.12:14), assim como os escritores do
Novo Testamento, que não mudaram nada daquilo que os autores do Antigo acreditaram e
escreveram sobre isso; pelo contrário, reiteraram a realidade de que a morte é um sono e
que a vida eterna é depois da ressurreição e do juízo para condenação final. Ou seja: os
escritores do Antigo Testamento tanto tinham uma visão concreta sobre o destino pós-
morte que os seus ensinos sobre isso serviram como base de tudo aquilo que foi
exaustivamente repetido no Novo Testamento sobre este tema! O Novo Testamento não
mudou nem acrescentou nada ao Antigo, apenas confirmou e reiterou amplamente as
verdades já contidas no tempo veterotestamentário.

5º Portanto, é de todo incoerente dizer que o Antigo Testamento “não vale”. Se Deus havia
revelado a eles a ressurreição dos mortos, por que iria “esconder” a imortalidade da alma
deles? O que Ele ganharia com isso? Tudo o que iria fazer seria deixá-los confusos, crendo
em uma mentira, e pior ainda: escrevendo na Bíblia, a Palavra de Deus inspirada, infalível e
inerrante, que a alma morre (cf. Js.10:28), é destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da
morte (cf. Sl.78:50), é eliminada (cf. Êx.31;14), é totalmente destruída (cf. Nm.31:19), é
devorada (cf. Ez.22:25), é assassinada (cf. Nm.35:11), é exterminada (cf. At.3:23) e desce
à cova na morte (cf. Jó 33:22). E, além disso, que...

1. Os mortos não podem louvar a Deus, mas somente os vivos – Sl.6:5; Is.38:19.

2. No Sheol (“morada dos mortos”) não há lembrança de Deus – Sl.6:5.

3. No Sheol Deus não é louvado e nem lembrado – Sl.6:5; Is.38:18,19.

4. Os que estão no Sheol não confiam na fidelidade de Deus – Is.38:18.

5. O Sheol é um local de escuridão – Sl.88:12.

6. O Sheol é uma terra de esquecimento, e não de memória – Sl.88:12.

7. Deus está “escondido” daqueles que estão no Sheol – Sl.143:7.

8. Ao morrer, os pensamentos perecem – Sl.146:4.

9. Um cachorro vivo vale mais do que um leão morto – Ec.9:4.

10. Os mortos não sabem de coisa nenhuma – Ec.9:5.

11. A memória dos mortos jaz no esquecimento – Ec.9:5.

12. Sentimentos como o amor já desapareceram para eles – Ec.9:5.

13. No além não há obra, nem projeto, nem conhecimento e nem sabedoria alguma –
Ec.9:10.

E contra isso não há lei.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 146


CAPÍTULO 5 – A CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA NO NOVO
TESTAMENTO

I–Introdução ao Capítulo

Já vimos até aqui que a noção da natureza humana na concepção hebraica bíblica é de uma
natureza holista e não dualista do ser humano, confirmado pela descrição da criação
humana de Gênesis 1 e 2 e pelos escritos veterotestamentários que negam em completo a
doutrina de que o corpo é a prisão de uma alma imortal.

A visão bíblica do Antigo Testamento era de que o homem é uma alma, e não de que ele
possui uma, por isso é tão constante a linguagem denotativa de inconsciência no pós-
morte e da própria morte da alma. A noção de dualidade só veio a se tornar realidade para
os judeus helenistas a partir do período intertestamentário, depois da conclusão do Antigo
Testamento, quando o povo judeu esteve exposto na diáspora judaica à filosofias e culturas
helenistas (gregas), que mantinham forte influência nos povos dispersos, incluindo a
concepção do dualismo impregnado por Platão na Grécia Antiga.

Nosso próximo passo, a partir de agora, será estabelecer se o Novo Testamento altera a
Palavra de Deus escrita no Antigo Testamento ou se a apoia, no tocante à natureza humana
e seu destino. Uma absurda falácia que é constantemente utilizada pelos imortalistas como
uma tática de pressão é a de que os mortalistas tem que apelar para as passagens do
Antigo Testamento, porque o Novo não traria vantagem nenhuma à crença na mortalidade
da alma.

Isso, na verdade, é um conceito completamente deturpado do Novo Testamento. Em


primeiro lugar, a Bíblia é uma coisa só. O Antigo Testamento deve ser utilizado como regra
de fé e doutrina tanto quanto o Novo e é tão inspirado quanto o Novo. Em segundo,
pessoalmente, se tivesse que escolher entre o Antigo ou o Novo Testamento para anular a
imortalidade da alma, eu ficaria mil vezes com o Novo. O Novo Testamento não só confirma
o Antigo, como também possui inúmeras provas contra a imortalidade da alma muito mais
do que o Antigo Testamento possui, como veremos ao longo de todo o resto deste estudo.

Prossiga a leitura, e você verá que, de fato, um mesmo Espírito dirigia ambos os
Testamentos, divinamente inspirados, que não se contradizem naquilo que afirmam e que
não entram em choque entre si. A visão do Novo Testamento confirma a visão do Antigo
porque o que os apóstolos tinham como fonte de fé e base de doutrina em sua época (as
Escrituras) eram exatamente os escritos veterotestamentários que negam a visão dualista
de imortalidade da alma. Começaremos com aquilo que foi diretamente dito por Jesus, e
depois passaremos às epístolas apostólicas.

Muitas refutações de teses imortalistas serão feitas nesta parte, cada uma por sua ordem.
Serão passados a partir de agora não somente as provas neotestamentárias da mortalidade
da alma, como também um longo estudo sobre todas as passagens que são utilizadas pelos
imortalistas, como supostas provas do dualismo platônico na Bíblia, refutando todas as
defeituosas interpretações que são feitas em cima delas, e, como veremos, a maioria delas
são provas contra (e não a favor) da visão dualista, sendo descaradamente tiradas de seu

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 147


devido contexto ou que não respeitam a regra gramatical dos manuscritos originais do Novo
Testamento, escritos em grego.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 148


CAPÍTULO 5.1 – JESUS PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei
comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. João 14:2,3)

Nós não entraremos em nossas moradas celestiais depois que morrermos, mas quando Ele
voltar. Isso entra em total acordo com o ensinamento bíblico acerca de quando seremos
ressuscitados dentre os mortos e vivificados, que será exatamente nesta segunda vinda:
“Pois da mesma forma como em Adão todos morreram, em Cristo todos serão vivificados.
Mas cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe
pertencem” (cf. 1Co.15:22,23). Se Cristo tivesse a intenção de lhes pregar a imortalidade
da alma indubitavelmente diria que os lugares estariam disponíveis aos salvos conforme
fossem morrendo e as suas almas se achegassem no Céu para assumi-las.

Mas, se Cristo não ensinou a imortalidade da alma, como entender determinadas passagens
bíblicas que tem sido constantemente vistas pela ótica dualista? A primeira delas que
veremos, e que talvez seja a mais explorada pelos imortalistas, é a parábola do rico e do
Lázaro. Para tanto, muitas questões terão que ser abordadas aqui. Questões históricas e
bíblicas, que poucas pessoas levam em consideração, mas que são de extrema importância
para chegarmos a uma conclusão satisfatória.

II–A Parábola do rico e do Lázaro

Um argumento bastante usado pelos dualistas é de que não se trata de uma parábola, pois
ela possui nomes. Ora, isso é totalmente compreensível pelo fato de que os judeus
colocavam Abraão acima de Jesus: “Nosso pai é Abraão ... És maior do que o nosso pai
Abraão?” (cf. Jo.8:39,53; Mt.3:9). O que simplesmente Jesus faz é pôr na boca Abraão
exatamente as palavras que ele teria dito em pessoa: “Se não ouvem a Moisés e aos
profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”
(cf. Lc.16:31).

Para isso é evidente que teria que citar nomes. Além disso, não há absolutamente nenhuma
regra que obrigue que uma parábola não tenha nomes. Jesus contou parábolas sem precisar
dizer para as pessoas: “Atenção, isso é uma parábola...”! A parábola do rico e do Lázaro fica
entre parábolas, como podemos ver a seguir:

CAP.14 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA GRANDE FESTA


CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA
CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA MOEDA PERDIDA
CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO
CAP.16 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR DESONESTO
CAP. 16 DE LUCAS – A ******** DO RICO E LÁZARO
CAP.17 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO EMPREGADO
CAP.18 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA VIÚVA E DO JUIZ

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 149


Nisso fica claro que a história tratava-se realmente de uma parábola. A parábola diz que
"havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta
daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caiam da mesa do rico; e até os cães
vinham lamber as úlceras" (cf. Lc.16:20,21). Igualmente, vemos que o homem rico da
parábola não era apenas rico, mas vaidoso e se vestia do melhor daquilo que podia usufruir:
"púrpura e linho finíssimo" (cf. Lc.16:19). Ele “todos os dias se regalava esplendidamente”
(cf. Lc.16:19), ou seja, era de absolutamente alta classe.

Ponderamos: onde é que você já viu um banquete de alta classe de um rico que permitisse
que um mendigo cheio de chagas ficasse sentado à sua porta, e que, além disso, ainda
deixava que comesse das migalhas de sua mesa? Se isso já é uma possibilidade
altissimamente improvável nos nossos dias, isso era completamente impossível de
acontecer naquela sociedade judaica.

O rico de jeito nenhum iria permitir que os seus visitantes (também ricos tais como ele)
passassem pela porta com um mendigo, que, além disso, ainda estava coberto de chagas,
em uma doença contaminosa, possivelmente a própria lepra, comum naqueles dias. Isso
não faz a personalidade de um judeu rico daquela época (muito menos um que teria sido
mandado para o inferno em seguida). Como se esse cenário não fosse suficientemente
improvável, ainda vemos também cachorros que lambiam as suas chagas! Quando vemos
tal cenário, vemos que isso era impossível!

Tratava-se somente de uma história que Jesus criou do mesmo modo que ele criou outras
histórias (parábolas) com uma lição moral a ser dela retirada. E, de fato, Cristo tinha um
ponto muito importante para chamar a atenção de seus ouvintes, como veremos mais
adiante. Para isso ele usava uma parábola, como é a do rico e do Lázaro. Cristo não
precisava dizer: “Olha, gente, isso é uma outra parábola”; pelo simples fato de que ele
“nada lhes dizia sem usar alguma parábola” (cf. Mt.13:34).

Em Lucas 12:41 os seus discípulos interpretaram um ensinamento de Cristo como sendo


uma parábola, mas em lugar nenhum vemos Cristo dizendo que aquilo era uma parábola
(ver Lucas 12:35-41). Os seus discípulos sabiam que ele lhes falava por meio de parábolas
ao contar histórias, e não precisavam questioná-lo quanto a isso, muito menos quando tal
história localiza-se exatamente no meio de outras histórias parabólicas! O mesmo quadro
ocorre em Mateus 7:17, quando os seus discípulos interpretam os seus ensinos como sendo
uma parábola (cf. Mt.7:15-17), embora em lugar nenhum Cristo tenha feito qualquer
questão de mencionar que aquilo tratava-se realmente de uma parábola.

Em outra ocasião, em Mateus 15:14, Pedro identifica um ensinamento de Cristo como sendo
uma parábola, embora em lugar nenhum Jesus tenha feito questão de ressaltar que aquilo
era mesmo uma parábola, e em Lucas 6:39 o evangelista conta o mesmo ensinamento mas
omite que aquilo tratava-se de uma parábola. Se Lucas conta o mesmo relato encontrado
em Mateus e não diz que se tratava de uma parábola (sendo que em Mateus está bem claro
que era), então vemos que Lucas citava parábolas de Cristo sem necessariamente afirmar
estar se tratando de uma parábola. Mas se toda vez que Cristo contasse parábolas tivesse
que haver a menção de que aquilo é uma parábola, então Mateus entraria em contradição
com Lucas, pois ambos contam a mesma história, mas um diz que é uma parábola e o outro
não diz nada!

Do mesmo modo, em Lucas 5:36 o autor diz que Cristo dizia uma parábola aos seus
seguidores, mas em Marcos 2:21 a mesma história aparece sem qualquer menção de
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 150
estar ligada a uma parábola. Tudo isso nos faz ter a certeza de que, realmente, Jesus
ensinava aos seus discípulos por meio de parábolas, que não tem qualquer necessidade de
serem mencionadas como tal. Se até mesmo nestes contextos os seus discípulos sabiam
que aquilo era parábola, mesmo sem ninguém ter dito expressamente que era uma, quanto
mais quando vemos que tal história parabólica de Lucas 16 está exatamente entre várias
outras parábolas que Jesus estava contando!

Se você está contando várias piadas numa roda de amigos, não precisa repetir o tempo
todo que ao término de uma você estará iniciando outra piada. Todos já saberão disso. Da
mesma forma, se Cristo estava contando várias parábolas uma em seguida da outra, era
completamente desnecessário dar um aviso de alerta avisando que aquilo era parábola e
não um relato real. Isso já era simplesmente óbvio. Os únicos que não conseguem entender
isso são os imortalistas, que por não compreenderem nem o contexto nem o significado de
uma parábola precisam ignorar tudo isso e fazerem de conta de que não é parábola, é
realidade, e de que, se não fosse uma história real, Jesus precisaria ter parado a conversa,
avisado que era outra parábola, e só assim eles ficariam satisfeitos!

Ademais, vários detalhes na parábola nos mostram que aquilo não era um relato real, mas
uma ficção. Por exemplo, veremos que o rico possui um corpo físico com língua e todos os
outros membros do corpo, que ele sentia sede, que precisava beber água, que conseguia
conversar com quem estava no Céu mesmo enquanto queimava em meio às chamas de
fogo, dentre outros tantos fatos que nos mostram claramente que tudo aquilo não passava
de mera parábola assim como todas as outras, cuja significância estava baseada no
ensinamento moral por trás dela, e não no relato em si como sendo algo literal.
Veremos que uma parábola nunca, jamais e em circunstância alguma pode ser
fundamentada como regra de doutrina pelos seus meios parabólicos.

Parábolas não tem meios literais - É mais especificamente neste ponto que colocamos um
fim na superstição de que existe um estado intermediário das almas porque os meios de
uma parábola tem que ser literais. É aí que muita gente se engana: parábolas não
necessitam de meios literais, ao contrário, apresentam uma lição moral valiosa por
detrás de meios não necessariamente literais. Uma prova muito forte disso é o simples
fato de que Jesus contou muitas parábolas, e se fôssemos tomar literalmente todos os
meios que ele usa, iríamos encontrar inúmeros “absurdos”.

Por exemplo: neste mesmo contexto da parábola do rico e Lázaro há a parábola do


administrador desonesto (cf. Lc.16:1-12). Veja o que o verso 8 diz: “O senhor elogiou o
administrador desonesto, porque agiu astutamente. Pois os filhos deste mundo são mais
astutos no trato entre si do que os filhos da luz” (cf. Lc.16:8). Analisando a parábola
literalmente, poderíamos chegar à infeliz conclusão de que Cristo aprovava a administração
desonesta. Contudo, ele não estava incentivando a prática de administração desonesta, até
mesmo porque em parte alguma a Bíblia aprova tal prática, mas a lição moral da parábola
não é sobre administrar desonestamente (cf. Lc.16:9). Os meios da parábola não são
reais e não influenciam sua lição moral!

Do mesmo modo, Jesus contou uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca
desfalecer (cf. Lc.18:1-8). Nela, o juiz (que representa Deus, aquele que atende as nossas
orações) é tratado como “um homem mau que nem ao homem respeitava” (cf. Lc.18:2). É
óbvio que o que Cristo queria realmente ensinar não era que Deus é um homem mau, mas
sim que se até um homem mau atende aos nossos pedidos, quanto mais o nosso Pai que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 151
está no Céu nos atenderá (que não é mau coisa nenhuma, mas poderíamos chegar a essa
conclusão caso tomássemos os meios dessa parábola como reais). Novamente, vemos uma
lição moral (de orar sempre e nunca desfalecer) sendo ensinada através de meios não
reais/literais.

A mesma coisa veremos que sucede também na parábola do rico e Lázaro. Uma lição moral
(de advertência à incredulidade dos fariseus e às tradições da época) sendo ensinada
através de meios não reais/literais. Essa é uma regra comum em todas as parábolas, que os
imortalistas só não admitem que possa valer também para Lucas 16:19-31, porque
implicaria em abrir mão de uma das únicas passagens bíblicas que supostamente
favoreceriam a doutrina grega da imortalidade da alma.

Em outra parábola, Deus é retratado como “um homem severo que ceifas onde não
semeaste e ajuntas onde não espalhaste” (cf. Mt.25:24). Diante do contexto, este “homem”
é Aquele que distribui os dons (talentos) aos homens e a quem nós devemos prestar contas
um dia. Quem ele é? Óbvio: Deus. Mas será que Deus é “um homem severo que ceifa onde
não semeou e ajunta onde não espalhou”? Claro que não. Tomemos os meios de uma
parábola como reais e mudamos totalmente a visão de um Deus de amor e justiça que a
Escritura nos revela do início ao fim!

Vejam que curioso: se tomarmos os meios dessa parábola como reais, todo o conceito de
Deus apresentado em toda a Escritura muda. Da mesma forma, se tomarmos a
parábola do rico e Lázaro como literal, todo o conceito sobre a natureza humana e seu
destino pós-morte apresentado em toda a Escritura muda. Mas no primeiro caso os
imortalistas aceitam facilmente que se trata de meros meios não-literais e irreais
característicos de uma parábola, enquanto que no segundo caso não aceitam de jeito
nenhum, pois estão presos em seus sofismas sobre a existência de uma alma imortal e
precisam se apegar a todo e qualquer custo a passagens claramente parabólicas como a de
Lucas 16 para fundamentar as suas teses!

Tome também, por exemplo, outro meio de parábola contada por Cristo: “Então o senhor
disse ao servo: Vá pelos caminhos e valados e obrigue-os a entrar, para que a minha
casa fique cheia” (cf. Lc.14:23). Será que as pessoas são forçadas a entrar no Céu, sendo
obrigadas a isso, contra a vontade delas? É claro que não, pois Deus nos concedeu o livre
arbítrio. Ninguém é obrigado ou forçado por Deus a ser salvo, pois a salvação é algo que
implica em perseverança (nossa) até o fim (cf. Mt.24:13), ninguém vai pro Céu contra a sua
própria vontade.

Mas se as parábolas são reais em seu todo e seus meios são apresentados literalmente,
então somos obrigados a entrar no Reino de Deus, não há escapatória, seremos salvos
querendo ou não! O que é mais razoável de se aceitar? Que Deus nos obriga a entrar em
Sua casa, ou que as parábolas não possuem meios reais, mas apenas uma verdade moral
por detrás de um ensinamento com meios simbólicos?

Evidentemente que as parábolas não tem meios literais, jamais podemos fundamentar uma
doutrina bíblica sustentada por meios de parábolas. Se dissermos que a parábola de Lucas
16 (do Rico e do Lázaro) obrigatoriamente tem que ter meios reais e literais,
consequentemente as demais parábolas de Cristo também devem ter meios reais e literais.
Por que a parábola do rico e Lázaro teria que ser exatamente a única exceção à regra? Será
que é porque somente deste jeito que os imortalistas conseguem sustentar a doutrina da
imortalidade da alma baseando-se em tal parábola?
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 152
Ora, se fôssemos literalizar a parábola, encontraríamos, como vimos, uma série de
problemas e contradições de primeira ordem à frente. As parábolas não podem jamais
serem tomadas literalmente pelos seus meios, pois se fosse assim deveríamos chegar à
infeliz conclusão de que Deus é um juiz mau e que não respeita ao homem, que é um
homem severo que planta aonde não semeou, que aprova a prática de administração
desonesta e que obriga as pessoas a entrarem no Céu!

É óbvio que Deus não é nenhuma dessas coisas porque as parábolas nunca podem ser
tomadas literalmente – em circunstância nenhuma – mas devemos retirar delas a sua lição
moral. O mesmo deve ser dito também com relação à parábola do rico e do Lázaro. Qual é a
sua lição moral? Ela se encontra no verso 31:

“Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que
ressuscite alguém dentre os mortos” (cf. Lucas 16:31)

Vemos, portanto, que a lição moral da parábola contada por Cristo em Lucas 16:19-31 em
nada tem a ver com a imortalidade da alma, mas, ao contrário, tem relação com a
incredulidade dos fariseus em rejeitarem os ensinamentos de Cristo – nem sequer uma
ressurreição os faria persuadir. Quando tratamos de descrições bíblicas claras e reais (não
em textos parabólicos ou simbólicos), os meios são necessariamente reais e literais ao todo.
Contudo, isso não acontece quando estamos tratando de uma parábola. Parábola não
necessita de meios reais, mas sim de lições morais que levam o ouvinte à reflexão. O
principal problema daqueles que pregam a existência da alma imortal é não saberem ao
certo o que é uma parábola:

PARÁBOLA
Acepções
■substantivo feminino
1 narrativa alegórica que transmite uma mensagem indireta, por meio de comparação ou
analogia
1.1 narrativa alegórica que encerra um preceito religioso ou moral, esp. as encontradas nos
Evangelhos
Ex.: a p. do filho pródigo

Vejamos então o significado de alegoria:

ALEGORIA
Acepções
■substantivo feminino
1 modo de expressão ou interpretação us. no âmbito artístico e intelectual, que consiste em
representar pensamentos, ideias, qualidades sob forma figurada e em que cada elemento
funciona como disfarce dos elementos da ideia representada.

Como o próprio dicionário atesta, parábolas são estórias de ficção, que Jesus
frequentemente empregava para ensinar alguma coisa aos seus ouvintes. Parábolas não são
e nem nunca foram histórias contadas com a intenção de passar meios reais. Se fosse
assim, não faria uso de uma parábola. Parábola é quando o autor utiliza-se de meios ou
cenários quaisquer, sem a obrigatoriedade de serem verdadeiros ou literais, para ensinar
uma lição moral por finalidade, mediante a metaforização ou personificação de personagens
inanimados, como é o caso da conversa entre árvores registrada em 2ª Reis 14:9.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 153
Isso nós podemos ver ao longo de várias parábolas contadas por Cristo, que claramente não
são fatos reais – são parábolas. Por exemplo, é extremamente improvável que houvesse um
homem que vendeu todos os seus bens para comprar uma pérola de grande valor (cf.
Mt.13:46), pois isso não faria sentido. Também não houve um administrador infiel elogiado
pelo seu senhor (cf. Lc.16:8). Da mesma forma, Cristo também afirmou sobre ter de
arrancar os olhos ou cortar pernas e braços para entrar no Reino dos céus. Será que por
isso no Reino haverá caolhos, manetas e pernetas – tudo isso literalmente? É claro que não.
Tudo isso é obviamente uma linguagem altamente metafórica, tanto quanto a parábola do
rico e do Lázaro.

Mais ainda que isso, uma outra prova fatal que nos faz concluir que Cristo não estava como
finalidade dado uma aula sobre o estado dos mortos, é o fato de que nem mesmo as
palavras “alma-psiquê” ou “espírito-pneuma” aparecem nesta parábola. Pelo contrário, o
rico possuía um corpo físico com dedo, língua e que sente calor e pede água para matar a
sede (cf. Lc.16:24). A própria sede é uma característica do corpo, e não de um espírito
“imaterial”, “fluídico”.

Um espírito desprovido de corpo não tem nada disso, e a Bíblia diz que nós só teremos um
corpo novamente após ressurgirmos dos mortos (cf. 1Co.15:42-44). Jesus disse claramente
que um espírito não tem nem carne e nem ossos (cf. Lc.24:39). Será que Cristo se
enganou dizendo que o rico possuía língua no Hades ou os corpos dos
personagens foram parar no Hades por engano? Nenhuma das duas, era mera
parábola: não exigia meios reais! Se o objetivo de Cristo ao contar esse parábola fosse
exatamente anunciar a imortalidade da alma, então seria completamente indispensável a
menção de “almas” ou de “espíritos” deixando o corpo e partindo para o “além”.

Contudo, os personagens ali citados vão com os seus corpos para o Hades, tudo nos mostra
que o que aconteceu foi a personificação de personagens inanimados e, por este
motivo, não eram os “espíritos” que desciam ao Hades, mas sim os próprios corpos.

Como bem assinalou o doutor Samuelle Bacchiocchi:

“Os que interpretam a parábola como uma representação literal do estado dos salvos e
perdidos após a morte defrontam problemas insuperáveis. Se a narrativa for uma descrição
real do estado intermediário, então deve ser verdadeiro em fato e coerente em detalhe.
Contudo, se a parábola for figurada, então somente a lição moral a ser transmitida deve nos
preocupar. Uma interpretação literal da narrativa se despedaça sob o peso de seus próprios
85
absurdos e contradições, como se torna evidente sob exame detido”

A questão aqui é muito simples: se a intenção de Cristo em contar essa parábola fosse de
alguma forma fazer uma descrição fiel do atual estado dos mortos, então é óbvio que os
personagens estariam no Hades em forma de espíritos incorpóreos, e não com os próprios
corpos físicos, como um exame da parábola nos indica claramente. O fato de eles estarem
lá com seus próprios corpos prova inequivocadamente que o que ocorreu neste caso nada
mais foi senão a personificação de personagens inanimados, o que é muito comum na
Bíblia. Corpos já mortos foram personificados e ganharam vida dentro de um contexto

85 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, p. 136.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 154


parabólico, isto é, de uma estória alegórica para ensinar alguma lição moral como
finalidade.

O que ocorreu, portanto, não foi uma descrição do atual estado dos mortos como “espíritos
incorpóreos” em um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, mas sim a
personificação de corpos mortos como se estivessem vivos, e do que aconteceria
neste contexto parabólico. Tanto quanto a linguagem parabólica da conversa entre árvores
em 2ª Reis 14:9 não significa que as árvores realmente conversam entre si, a parábola do
rico e Lázaro não prova que espíritos incorpóreos mantém consciência no pós-morte, mas
apresenta a mesma personificação de personagens inanimados que ocorre tanto em 2ª Reis
14:9 como em diversas outras ocorrências bíblicas num mesmo contexto alegórico ou
parabólico.

Isso também é constatado pelo fato de que o rico pede que joguem um pingo água para
molhar a sua língua, enquanto ele queimava em meio às chamas! Além da sede literal (por
água) ser uma característica corporal (e não de um “espírito”, como anjos ou demônios, por
exemplo), de que serviria um “dedo” molhado “em água” para aliviar tamanhos rigores
extremos de um fogo devorador e literalmente verdadeiro que o rico estaria passando
naquele exato momento e também por toda a eternidade?

Ademais, a própria parábola diz que havia um abismo muito grande entre ambas as partes,
motivo pelo qual o rico não podia ser molhado com água. Contudo, ele conversava com
Abraão como se estivesse face-a-face com ele! Ora, se ele conversava tão perfeitamente
com Abraão, então ele também poderia perfeitamente ser molhado com água, pois a
distância assim o permitiria.

E será possível compreender absolutamente o que cada pessoa da cena diz sendo que neste
mesmo cenário havia um barulho horrivelmente aterrorizante de fogo em atividade e
milhões ou bilhões de pessoas queimando e gritando aos prantos naquele mesmo
momento? Quem iria compreender o que alguma pessoa fala em tal cenário? Como se tudo
isso não fosse suficientemente claro, será que no Reino poderemos conversar com os não-
salvos enquanto eles queimam em meios às chamas? Pois, pela parábola, tal comunicação
entre os salvos e os não-salvos seria perfeitamente plausível.

Poderíamos, caso tomássemos os meios da parábola como literais, ver e conversar com os
nossos parentes não-salvos enquanto eles queimam no inferno! Certamente bater papo com
alguém nestas condições e neste cenário, é uma terrível falta de bom senso. Os que não
forem salvos jamais poderão se unir novamente com os que forem salvos (por meio de uma
conversa, por exemplo), pois a morte significa a separação total entre ambos os grupos. É
isso o que também é ilustrado nesta parábola.

Não, meus amigos, definitivamente não foi o estado dos mortos que foi ilustrado nesta
parábola, não houve nenhuma descrição de “estado intermediário” algum, mas apenas e tão
somente a personificação de personagens inanimados ganhando vida (típico de parábola),
em um cenário corrente na época, como veremos mais a seguir. Com toda a clareza, os
imortalistas que insistirem em admitir a parábola do rico e Lázaro como sendo “prova” do
dualismo platônico na Bíblia, encontrarão tamanhos dilemas insuperáveis pela frente a tal
ponto de terem que reformular toda a sua teologia acerca de como é o pós-morte.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 155


Sobre o Hades – Outro fato que ajuda ainda mais a derrubarmos a má interpretação dos
dualistas é o lugar para onde teria ido o rico:

“E, no Hades, viu Abraão e Lázaro, em seu seio” (cf. Lucas 16:23)

A clareza da linguagem é evidente: o rico estava no Hades. E é a partir desta parábola que
surge a idéia de que todos os “espíritos” desencarnados vão para o Hades após a morte,
com divisão para justos e ímpios. Ora, qual doutrina básica da fé cristã que tem por base
uma parábola? Nenhuma. Mas a parábola do rico e Lázaro (como única suposta “descrição”
do “estado intermediário” encontrada na Bíblia) obrigatoriamente tem que ser literalizada e
fundamentada como doutrina bíblica (para eles).

Afinal, a maior base da doutrina imortalista é justamente os meios de uma parábola, em


que os corpos descem junto para o “estado intermediário” conversar com os que já
morreram enquanto se queimam entre as chamas. Pasme! Mas, mesmo que este fosse o
caso, a História nos mostra que o Hades, como um local de tormento em que o rico estava,
é de origem totalmente pagã, e não bíblica. Veremos a seguir onde nasceu o Hades e como
entrou de braços abertos na doutrina imortalista.

III–A Origem pagã do Hades

A origem pagã do Hades - Na literatura hebraica, o Sheol (transliterado para “Hades” no


grego), não era um local de habitação de espíritos vivos e conscientes em estado
desencarnado. Já vimos que os autores do Antigo Testamento não tinham a mínima ideia de
vida consciente antes da ressurreição, muito menos de almas imortais ou espíritos em um
estado intermediário.

A vida pós-morte na visão do Antigo Testamento era que os mortos não louvam a Deus (cf.
Is.38:19; Sl.6:5), não sabem de nada (cf. Ec.9:5), valem menos do que um cachorro vivo
(cf. Ec.9:4), sua memória jaz no esquecimento (cf. Ec.9:5), não tem lembrança de Deus (cf.
Sl.6:5), não confiam na fidelidade de Deus (cf. Is.38:18), não falam da Sua fidelidade (cf.
Sl.88:12), estão numa terra de silêncio, e não de gritaria do inferno ou de altos louvores do
Céu (cf. Sl.115:17), não podem ser alvos de confiança (cf. Sl.146:3), não pensam (cf.
Sl.146:4), não tem proveito nenhum para Deus depois de morto (cf. Sl.30:9), são
comparados com o pó (cf. Sl.30:9), etc.

Mesmo assim, eles falavam constantemente em Sheol (Hades), como o local para onde vão
os mortos. Algumas referências são: Jó 7:9, Salmos 18:5, Salmos 86:3, Salmos 139:8,
Provérbios 30:16, Gênesis 37:35, Eclesiastes 9:10, entre outros. Ora, como podem os
escritores do Antigo Testamento desacreditarem completamente no estado intermediário
mas falarem tanto no Sheol? É evidente que, para eles, Sheol estava longe de ser um local
de habitação consciente de espíritos incorpóreos, mas era meramente uma figura para a
sepultura.

Na passagem de Malaquias (último livro do AT) para Mateus (o primeiro do NT) há um


período de quatrocentos anos (conhecido como “período intertestamentário”). Neste período
é que os hebreus estiveram dispersos para as nações influenciadas pelo dualismo grego que
estabelecia nelas uma forte ligação ética, cultural, social e filosófica, por meio da doutrina

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 156


helenista. Tais filosofias correntes na Grécia Antiga (especialmente a amplamente difundida
doutrina da “imortalidade da alma”) acabaram entrando no judaísmo helenista.

Tal impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas, incluindo na


adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaicas (inclusive vários “livros
apócrifos”) produzidas nessa época. De acordo com os professores Stephen L. Harris e
James Tabor, Sheol é um lugar de “vazio” que tem suas origens na Bíblia Hebraica e no
Talmud:

"Seres humanos, como os animais do campo, são feitos de ‘pó da terra’ e na morte eles
retornam ao pó (Gênesis 2:7; 3:19). A palavra hebraica Alma (Nephesh, Psyche),
tradicionalmente traduzida por ‘alma viva’, mas mais adequadamente compreendida como
‘criatura vivente’ é a mesma para todas as criaturas viventes e não se refere a nada
imortal... Todos os mortos descem ao Sheol, e lá eles jazem no sono juntos. Seja bom ou
mau, rico ou pobre, escravo ou liberto (Jó 3:11-19). Ele é descrito como uma região ‘escura
e profunda’, ‘a cova’, e ‘a terra do esquecimento’, interrupção da vida (Salmos 6:5; 88:3-
12). Se se encara situações extremas de sofrimento no mundo dos vivos acima, como
aconteceu com Jó, o Sheol pode ser visto como um alívio bem-vindo à dor - basta ver o
terceiro capítulo de Jó. Mas, basicamente, ele é um tipo de ‘nada’ (Salmo 88:10)”86

Harris partilha observações similares em seu “Compreendendo a Bíblia”, e acentua o fato de


que houve uma associação com as religiões pagãs no período helenista que modificou o real
significado de “Sheol” bíblico:

“Quando os escribas judeus helenistas traduziram a Bíblia para o grego, eles


usaram o termo ‘Hades’ para traduzir Sheol, trazendo uma associação mitológica
completamente nova à ideia de existência póstuma. Nos mitos da Grécia Antiga, o
Hades, nomeado a partir da deidade sombria que o reinava, era originalmente similar ao
Sheol hebraico, um submundo escuro no qual todos os mortos, a despeito do mérito
individual, eram indiscriminadamente colocados"87

Sobre seu significado original, a Enciclopédia Britância afirma:

“O Sheol estava localizado em alguma parte ‘debaixo’ da terra. A condição dos mortos não
era de dor nem de prazer. Nem a recompensa para os justos nem o castigo para os iníquos
estavam relacionados com o Sheol. Tanto os bons como os maus, tiranos e santos, reis e
órfãos, israelitas e gentios – todos dormiam juntos sem estarem cônscios uns dos
outros”88

A própria Enciclopédia Católica reconhece isso ao dizer:

86 TABOR, James. What the Bible says about Death, Afterlife, and the Future. Disponível em:
<http://clas-pages.uncc.edu/james-tabor/>. Acesso em: 15/08/2013.

87 HARRIS, Stephen L. Understanding the Bible: the 6th Edition (McGraw Hill 2002) p. 436.

88 Enciclopédia Britânica, 1971, Vol. 11, p. 276.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 157


“Na Bíblia, [Sheol] designa o lugar de completa inércia ao qual se desce quando se morre,
quer alguém seja justo quer ímpio, rico ou pobre”89

Esta é uma verdade indiscutível: o Sheol estava longe de ser uma habitação consciente de
espíritos. Contudo, houve uma associação mitológica com as filosofias gregas (de
imortalidade da alma). Em outras palavras, o sentido bíblico de Sheol foi totalmente
deturpado pelo sincretismo com a mitologia pagã. Na mitologia grega o mundo dos
mortos, chamado apenas de Hades, era o local no subterrâneo para onde iam as almas
das pessoas mortas (sejam elas boas ou más), guiadas por Hermes, o emissário dos
deuses, para lá tornarem-se sombras. É um local de tristeza. No fim da luta dos deuses
olímpicos contra os Titãs (a Titanomaquia), os deuses olímpicos saíram vitoriosos.

Então, Zeus, Posídon e Hades partilharam entre si o universo: Zeus ficou com os céus e as
terras, Posídon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos. Os titãs
pediram socorro a Érebo do mundo inferior; Zeus, então, lançou Érebo para lá também,
assim tornou-se a noite eterna do Hades (Érebo também é outra designação do mundo
inferior). Das Idades do Homem e suas raças, a raça de bronze, raça dos heróis, e a raça de
ferro vão para o Hades após a morte.

Este sincretismo com as religiões pagãs que resultou em uma aplicação totalmente diferente
de Sheol/Hades: a de um local no subterrâneo para onde vão as almas das pessoas mortas
(sejam elas boas ou más), no “Mundo dos Mortos”, denominado Hades. Querendo ou não,
gostado ou não, é uma clara deturpação imortalista do que realmente é o Sheol. Tirando os
maiores absurdos, que jamais seriam assumidos pelos cristãos (como, por exemplo, o fato
de serem guiadas por Hermes, o emissário dos deuses, ou dos Titãs pedirem a ajuda de
Érebo), a essência pagã de Hades, como um local de habitação de espíritos, foi absorvida
da mitologia pagã direto para a teologia bíblica dos imortalistas.

IV–O que é o Sheol?

O que é o Sheol? - Como já vimos acima, antes da mitologia pagã se infiltrar dentro dos
moldes do Cristianismo, Sheol era puramente sepultura. É claro que a sua aplicação varia de
passagem a passagem, mas nunca no sentido mitológico de “habitação de espíritos”. O
Sheol bíblico é um local de silêncio, e não de gritaria do inferno:

“Os mortos, que descem à terra do silêncio, não louvam a Deus, o Senhor” (cf. Salmos
115:17)

“Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (cf.
Salmos 94:17)

Mais claro ainda é o Salmo 94:17, que diz de forma enfática que o que habita no silêncio é a
própria alma, derrubando a toda e qualquer tentativa de vulgarizar o termo como se fosse
“silêncio somente para o corpo”. O salmista sabia muito bem que o local para onde iria após
a morte seria de silêncio, e não de louvores entre os salvos ou de gritaria do inferno.
Convenhamos: qual é o lugar do “silêncio” que o salmista fala? Claramente a sepultura. O
local para onde a alma vai após a morte (cf. Sl.94:17), em estado de total inconsciência (cf.

89 Nova Enciclopédia Católica, Vol. 13, p. 170.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 158


Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.30:9; Sl.88:12). Outra prova clara de que os
hebreus do Antigo Testamento sabiam muito bem que Sheol não era inferno, mas sim
sepultura, é Jacó enterrando o seu filho José:

“E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém,
recusou ser consolado, e disse: Na verdade, com choro hei de descer para meu filho até o
Sheol. Assim o chorou seu pai” (cf. Gênesis 37:35)

Jacó evidentemente ainda não sabia que na mitologia pagã grega (de imortalidade da alma)
o Hades ficava no centro da Terra. Jacó foi cavando até o inferno para enterrar o seu filho
José? Não, Jacó sabia muito bem que Sheol era puramente sepultura. Ele sabia disso porque
essa era a crença da época, o sentido puro de Sheol.

Ademais, Jacó foi enterrar o corpo morto de José e não uma alma ou espírito incorpóreo.
Sheol não é um local de espíritos sem corpo, mas sim de corpos mortos. Sheol é claramente
identificado como sendo sepultura, o pó da terra. Outras inúmeras passagens nos trazem
um sentido completo de que Sheol não era habitação consciente de espíritos
desencarnados. Alguns exemplos, por exemplo, podem ser encontrados em Jó e em
Salmos:

“Porventura não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco
eu tome alento. Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e
da sombra da morte” (cf. Jó 10:20,21)

“Será que fazes milagres em favor dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam?
Será que no Sheol ainda se fala do teu amor? Será que naquele lugar de destruição se fala
da tua fidelidade? Será que naquela escuridão são vistos os teus milagres? Será que na
terra do esquecimento se pode ver a tua fidelidade?” (cf. Salmos 88:10-12).

Como podemos ver, a terra era claramente descrita como uma “escuridão”. Ora, se o Hades
é um local de tormento, com fogo e tudo, então o fogo remeteria à luminosidade. O local
não seria nem lugar de “escuridão” e muito menos lugar de “densas trevas”. Onde há fogo,
há luz. Essa descrição do Sheol bíblico anula a concepção pagã em um Hades cheio de fogo
e espíritos vivos ali queimando. O Salmo 49:14 também deixa claro que até as ovelhas vão
para o Sheol na morte:

“Como ovelhas são postas na sepultura [Sheol, no original hebraico]...” (cf. Salmos 49:14)

É óbvio que o Sheol é apenas o pó da terra, o destino de todas as criaturas viventes. Jó


também nos esclarece que o Sheol bíblico está longe de ser morada de espíritos queimando
em meio às chamas, ao dizer que naquele lugar ele “já agora repousaria tranquilo; dormiria,
e, então, haveria para mim descanso... Ali, os maus cessam de perturbar, e, ali, repousam
os cansados; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do
feitor de escravos” (cf. Jó 3:13,17,18). Já não se ouve mais gritos, algo inconcebível caso
Jó tivesse a ideia de que aquele local era um lugar de tormento ou de gritos de espíritos em
meio às chamas.

No livro de Eclesiastes também lemos:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 159


“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no além
[Sheol], para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria
alguma” (cf. Eclesiastes 9:10)

A palavra usada em Eclesiastes 9:10 com relação ao Sheol é que não há chokmah
[inteligência, razão]. Morre o homem e o ser racional se vai. Não há inteligência, não há
consciência. Biblicamente, Sheol não é, e nunca foi, uma morada de espíritos vivos e
conscientes em alegria ou em tormento com fogo. Como se não fosse suficientemente claro
o fato de que no Sheol não há obra, nem projeto, nem conhecimento, e nem sabedoria, o
salmista afirma que “quem morreu não se lembra de ti; e no Sheol quem te louvará?” (cf.
Sl.6:5). É evidente que no Sheol não se pode louvar a Deus. Fica a pergunta: que tipo de
“espírito” que é salvo e vai para este lugar sem poder louvar a Deus?

O único argumento utilizado pelos imortalistas na tentativa de contradizer o fato bíblico de


que o Sheol é o equivalente à sepultura é que os hebreus tinham palavra específica para
“sepultura”, que é qéver, então Sheol deve significar algo diferente disso. Isso, por si só,
não significa nada, pois no hebraico e no grego há diversas palavras sinônimas, que
possuem a mesma aplicação prática. Na própria língua portuguesa, aplicamos exterminar e
aniquilar com o mesmo sentido, bem como adversário e antagonista, oposição e antítese,
enfermo e doente, desagradar e descontentar, futuro e porvir, enorme e imenso, imparcial
e neutro, dentre tantas outras palavras sinônimas. Diante disso, por que Sheol e sepultura
não podem ser palavras sinônimas, assim como sepultura e túmulo?

Em segundo lugar, existe uma diferença básica entre Sheol e qéver. Hades ou Sheol não se
refere a um único sepulcro (gr.: tá‧fos), nem a um único túmulo (gr.: mné‧ma), nem a um
único túmulo memorial (gr.: mne‧meí‧on), mas à sepultura comum da humanidade, onde os
mortos e enterrados não são vistos. Assim, vemos que Sheol é aplicado quando a referência
é à sepultura comum da humanidade (em um sentido coletivo), enquanto qéver se refere ao
um único sepulcro (em um sentido individual).

Sheol é o sentido mais amplo da sepultura, tendo a mesma aplicação prática desta, pois
quem está na sepultura está no Sheol, da mesma forma que quem está em São Paulo está
no Brasil. Sheol é o “mundo dos mortos”, não como um local de habitação de espíritos
conscientes, mas de almas mortas (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3,9; Gn.37:21;
Dt.19:6,11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10), em local de total silêncio (cf. Sl.115:17;
Sl.94:17), e em estado de total inconsciência (cf. Sl.146:4; Sl.6:5; Ec.9:5,6; Ec.9:10).

No caso da revolta de Coré, por exemplo, relatada em Números 16, a terra “abriu a sua
boca” e os seus seguidores “desceram vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30; Nm.16:33). Seria
extremamente inimaginável pensarmos que a terra abriu a boca para eles caírem até o
centro da terra onde ficaria o Sheol, sendo que no meio dessa queda os seus corpos foram
transformando-se automaticamente em espíritos desencarnados. A evidência aqui é tão
forte que os próprios imortalistas admitem que Sheol aqui significa o pó da terra, corpos
físicos sendo esmagados pela força da natureza através da ação divina (embora eles
afirmem que este caso é uma “exceção”, o que vemos que não – é a regra!).

Obviamente que o que aconteceu realmente é que a terra abriu a boca e os tragou
enquanto ainda estavam vivos, descendo para a “cova” (ou “pó”), o que mostra a total
correspondência entre estes dois termos. Mais forte ainda do que isso é o paralelismo
evidente que constatamos em Jó: “Descerá ela às portas do Sheol? Desceremos juntos ao
pó?” (cf. Jó 17:16). Aqui vemos Jó fazendo o uso de um paralelismo entre o “Sheol” e o
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 160
“pó”. Paralelismo é a sucessão de partes do discurso que tem entre si uma relação de
similaridade de conteúdo; um encadeamento de funções sintáticas idênticas de valores
iguais. Jó identifica o Sheol como sendo a mesma coisa que o pó da terra, ao relacionar
ambos na mesma sentença expondo tal paralelismo. Após afirmar que ele desceria ao
Sheol, afirma categoricamente que este lugar é o pó (cf. Jó 17:16).

Ainda que os escritores do Antigo Testamento falassem constantemente em Sheol,


desacreditavam completamente em qualquer estado intermediário. Talvez seja por isso que
o apóstolo Paulo, em suas epístolas, não tenha mencionado absolutamente nenhuma vez a
palavra “Hades” – o termo já estava paganizado. Aliás, nem Paulo, nem Tiago, nem Pedro,
nem Judas, e nem o desconhecido autor de Hebreus: todos pareciam desconhecer tal
palavra, não sendo mencionada em parte nenhuma de suas epístolas. Só há uma única
razão mais provável para isso, que é exatamente não querer confundir os leitores dualistas
com o sentido pagão de Hades, já em vigor em sua época.

O Sheol também é caracterizado como “a terra das trevas e da sombra da morte” (cf. Jó
10:21,22), onde os mortos nunca mais vêem a luz (cf. Sl.49:20; 88:13). É também, como
vimos, a “região do silêncio”, e não de gritaria do inferno ou de louvores do Paraíso (cf. Sl.
94:17; 115:17), para onde caminha a alma rumo ao local do silêncio (cf. Sl.94:17). A ideia
de descanso ou sono no Sheol fica evidente no livro de Jó que clama em meio a seus
tormentos físicos: “Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? [...]
Porque já agora repousaria tranquilo; dormiria, e então haveria para mim descanso [...] Ali
os maus cessam de perturbar, e ali repousam os cansados” (cf. Jó 3:11,13,17).

No Salmo 141:7 também fica mais do que evidente que Sheol é claramente identificado
como sepultura: “Ainda que sejam espalhados os meus ossos à boca da sepultura [Sheol]
quando se lavra e sulca a terra”. Até os ossos desciam para o Sheol! Se Sheol fosse um
local de morada de “espíritos”, o salmista certamente mencionaria isso, mas além negar tal
fato ele acentua que são os ossos que descem ao Sheol, o que nos revela que é um local
não de “espíritos”, mas de corpos mortos, que jazem na sepultura.

Um dos textos mais claros de que o Sheol é uma referência à sepultura é o de Isaías 14:11,
que diz: “Sua soberba foi lançada na sepultura [Sheol], junto com o som das suas liras;
sua cama é de larvas, sua coberta, de vermes”. O detalhe é que o texto se refere a ele
estar sendo comido de larvas e coberto de vermes, o que nos mostra a total
correspondência entre o Sheol e o túmulo, abaixo da terra, e de quem estar lá ser um corpo
morto, um cadáver, e não alguma alma ou espírito incorpóreo.

De igual modo, Davi adverte seu filho Salomão com relação a Simei: “Mas, agora, não o
considere inocente. Você é um homem sábio e saberá o que fazer com ele; apesar de ele já
ser idoso, faça-o descer ensangüentado à sepultura [Sheol]” (cf. 1Rs.2:9). Novamente,
o original hebraico verte a palavra “Sheol”, e não “sepultura” como a maioria dos tradutores
preferiram traduzir. Aqui vemos que alguma pessoa pode descer ensanguetada ao Sheol, o
que nos mostra claramente que o Sheol não é uma morada de espíritos incorpóreos, mas
sim a própria sepultura, para o qual é o destino dos corpos que morreram (espírito não
sangra!).

Por isso, até mesmo o sangue das pessoas descem ao Sheol [sepultura]. Isso explica o
porquê que em absolutamente nenhuma parte das Escrituras é mencionado espírito-
ruach/pneuma no Sheol/Hades. Este nunca foi algum tipo de “morada de espíritos”! Fica
mais do que claro que nenhum escritor bíblico pensava em Sheol como uma morada
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 161
consciente de espíritos desencarnados, como um local de tormento ou suplício. Se fosse
esse o sentido primário de Sheol, então veríamos uma infinidade de passagens bíblicas que
relatam tal fato, o que não é verdade. Aliás, nem sequer o elemento “fogo” aparece
relacionado em qualquer descrição bíblica do Sheol. Que maneira “estranha” de
descrever o inferno!

Portanto, vemos que o Sheol bíblico não é um lugar onde Caim está queimando há seis mil
anos até hoje, mas sim uma figura da sepultura, o lugar para onde parte a alma após a
morte (cf. Is.38:17; Sl.94:17; Jó 33:18; Jó 33:22; Jó 33:28; Jó 33:30). Sheol é sepulcro,
pó, profundezas da terra, morte, vazio, túmulo. Jamais foi morada de espíritos em plena
atividade e consciência, em regozijo ou em tormento. Nunca é mencionado tormento no
Sheol. Na parábola do rico e do Lázaro, o que ocorreu foi uma metaforização e
personificação dos personagens (Abraão, Lázaro, o rico) bem como do próprio cenário onde
se passava a parábola (Sheol), que não exige meios literais.

Prova forte disso é que a própria parábola retrata o rico indo para a sepultura (v.22), e
depois mostra ele no Hades (v.23) sem fazer menção de “almas” ou “espíritos”, mas com o
seu próprio corpo natural (v.24), o que nos mostra a correspondência entre a sepultura e o
Hades, e que nos revela que o que de fato ocorreu foi uma metaforização e personificação
própria dos meios de uma parábola, como é no caso de 2ª Reis 14:9 em que as árvores
falam.

Entender o significado bíblico e puro de Sheol é profundamente necessário para


compreendermos que o que ocorreu em Lucas 16 nada mais foi senão a personificação não
apenas dos personagens ali presentes, como também do próprio cenário em que aquilo tudo
se passava. Como já vimos, eram corpos físicos que desceram ao Hades na parábola, e
conferimos também que o Hades (Sheol) bíblico é a sepultura, que nada mais é senão o
local de corpos físicos. A única coisa que muda é a personificação de tais personagens,
ganhando vida neste lugar, como um fundo parabólico onde se passa aquilo que realmente
Jesus queria ensinar como a lição moral da parábola.

V–O Significado da Parábola

Voltando à parábola - Já vimos que a parábola não pode ser analisada literalmente. Vários
fatores corroboram para isso, incluindo o fato de que os personagens possuem corpos reais,
com língua, dedo, sentimento de sede, o local onde a parábola se passava e outras
parábolas que claramente também não necessitam de meios reais. Observe esta outra
parábola bíblica:

“Porém Jeoás, rei de Israel, enviou a Amazias, rei de Judá, dizendo: O cardo que está no
Líbano enviou ao cedro que está no Líbano, dizendo: Dá tua filha por mulher ao meu filho;
mas os animais do campo que estavam no Líbano, passaram e pisaram o cardo” (cf. 2ª Reis
14:9). Analisando literalmente (assim como fazem com a parábola do Lázaro), cardo e
cedro (que são árvores) falam. Creio que a maioria das pessoas concorde comigo que as
árvores não falem.

São parábolas, e parábolas são metáforas, alegoria, estória, ficção, que não podem ser
classificadas literalmente. Se pretendêssemos usar as parábolas literalmente, deveríamos –
usando a mesma lógica que os imortalistas fazem com a parábola do Lázaro – dizer que as

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 162


árvores também falam e fundamentarmos isso como doutrina. Felizmente, parábolas não
são relatos literais, e sim metáforas com uma lição moral.

Sendo assim, podemos ficar tranquilos sabendo que as árvores realmente não falam, pois
parábolas não apresentam meios reais, mas apenas lições morais por detrás de um cenário
fictício. É evidente que cada elemento na parábola acima de 2ª Reis tinha o seu devido
significado e a sua devida lição moral. Nada mais que dois reis: o de Judá (Amazias), e o de
Israel (Jeoás) são personificados pelas árvores. Jeoás compôs a parábola para Amazias.
Este não a atendeu (cf. 2ª Reis 14:11), e por isso, o povo do “cardo” (Amazias) foi ferido
pelos “animais do campo” (exército do “cedro” – Jeoás). A lição da parábola não era que as
árvores falam, mas sim uma mensagem aos que lessem a metáfora a partir da
personificação de personagens inanimados. A mesma linguagem vemos em várias outras
partes da Bíblia:

“Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós.
Mas a oliveira lhes respondeu: Deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em mim
prezam, para ir balouçar sobre as árvores? Então disseram as árvores à figueira: Vem tu, e
reina sobre nós. Mas a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom
fruto, para ir balouçar sobre as árvores? Disseram então as árvores à videira: Vem tu, e
reina sobre nós. Mas a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus
e aos homens, para ir balouçar sobre as árvores? Então todas as árvores disseram ao
espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós. O espinheiro, porém, respondeu às árvores: Se de
boa fé me ungis por vosso rei, vinde refugiar-vos debaixo da minha sombra; mas, se não,
saia fogo do espinheiro, e devore os cedros do Líbano” (cf. Juízes 9:8-15)

Novamente, a lição não era que as árvores ou os espinheiros falem ou dialoguem entre si.
Tudo não passava de mera parábola em que as oliveiras, a figueira e a videira
representavam aqueles que não quiseram reinar sobre as “árvores” (povo de Siquém). As
mais valiosas árvores do Oriente Médio aqui simbolizam os homens principais de Siquém, e
o espinheiro era um arbusto farpado comum nas colinas da Palestina e representava
apropriadamente Abimeleque, que nada produzia de valor. Os meios eram puro simbolismo
e representação comum na Bíblia Sagrada, não eram verdades literais porque nem árvores,
nem cedros, nem cardos, nem oliveiras, nem figueiras, nem videiras e nem espinheiros
falam!

É óbvio que a única coisa que devemos tirar como verdade literal é a sua lição moral, e não
os seus meios. O mesmo deve ser dito com relação à parábola do Lázaro, em que houve
uma personificação, vivificação dos personagens ali apresentados (Lázaro, o rico e Abraão)
bem como uma metaforização do cenário (Hades) que, como vimos, é puramente sepultura.
É comum a Bíblia personificar personagens inanimados.

A PERSONIFICAÇÃO BÍBLICA DE PERSONAGENS INANIMADOS


1 “Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à oliveira: Reina tu
sobre nós” (cf. Juízes 9:8-15)
2 “O cardo ... mandou dizer ao cedro ... Dá tua filha por mulher a meu filho” (cf. 2ª
Reis 14:9)
3 “Disseram então as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós” (cf. Juízes 9:12)
4 “Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento”
(cf. Habacuque 2:11)
5 “Se eles se calarem, as próprias pedras clamarão” (cf. Lucas 10:40; Mateus 3:9)
6 “O ouro e a prata de vocês enferrujaram, e a ferrugem deles testemunhará contra

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 163


vocês e como fogo lhes devorará a carne” (cf. Tiago 5:3)
7 “A voz do sangue do teu irmão clama da terra a mim” (cf. Gênesis 4:10)
8 “Quando ele bradou, os sete trovões falaram” (cf. Apocalipse 10:3)
9 “Ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel” (cf. Hebreus
12:24)
10 “E ouvi o altar responder: Sim, Senhor Deus todo-poderoso, verdadeiros e justos
são os teus juízos” (cf. Apocalipse 16:7)
11 “Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês
foi retido com fraude, está clamando contra vocês” (cf. Tiago 5:4)
12 “Então jubilarão as árvores dos bosques perante o Senhor, porquanto vem julgar a
terra” (cf. 1 Crônicas 16:33)
13 “Pois com alegria saireis, e em paz sereis guiados; os montes e os outeiros
romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores de campo baterão
palmas” (cf. Isaías 55:12)
14 “Mas, pergunta agora às alimárias, e elas te ensinarão; e às aves do céu, e elas te
farão saber; ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes o mar to
declararão” (cf. Jó 12:7,8)
15 “Ressoe o mar, e tudo o que nele existe; exultem os campos, e tudo o que neles
há!” (cf. 1 Crônicas 16:32)
16 “Os rios batam as palmas; regozijem-se também as montanhas” (cf. Salmos 98:8)

Tudo isso acima tem um nome: alegoria. Tudo tem uma lição moral para aprendermos por
detrás de um cenário com personagens inanimados, sem vida, que ganham vida na
parábola ou na alegoria que está sendo dita, com a finalidade de ensinar alguma coisa aos
ouvintes. Obviamente, essa “alguma coisa” que se quer ensinar aos ouvintes não é o
próprio cenário em si ou seus meios (que árvores, rios, altares, trovões, sangue, pedra,
ouro ou pessoas após a morte falem), mas sim aquilo que moralmente podemos depreender
por meio destas alegorias.

Nada indica que o salmista esteja querendo passar a ideia de que rios batem palmas e as
montanhas se regozijam (cf. Sl.98:9), nada indica que Jó queria passar a ideia de que a
terra e os peixes falam (cf. Jó 12:7,8), nada indica que João cria que altares e trovões falam
(cf. Ap.10:3; 16:7), nada indica Moisés cria que o sangue tem voz (cf. Gn.4:10), nada
indica que o escritor bíblico cria que as árvores conversam entre si (cf. Jz.9:8-15;
2Rs.14:9), nada indica que Cristo pensava que as pedras falavam (cf. Lc.10:40), e da
mesma forma nada indica que esse mesmo Jesus cria que corpos mortos que
desciam ao Hades ganhavam vida literalmente (cf. Lc.16:19-31).

As pessoas se esquecem que é comum a Bíblia personificar personagens inanimados, ainda


mais em um contexto parabólico ou simbólico! Biblicamente, as árvores, sangue e trovões
falam mais do que os mortos, que, quando falam, é em um contexto claramente metafórico,
inserido em um contexto alegórico que dá margens a isso. Os meios de uma parábola nunca
podem ser considerados literais e, por isso, o nosso próximo passo a partir de agora é
descobrirmos o que representa cada elemento personificado na parábola do Lázaro.

Entendendo a parábola - A Bíblia não diz que o rico era um rico ímpio. Diz apenas que era
“um homem ímpio e... morreu” (cf. Lc.16:22). E isso nunca, jamais, em circunstância
nenhuma, pode ser considerado um “pecado” digno de lançar uma alma no fogo do inferno.
Se fosse assim, então muitos homens por serem ricos deveriam partilhar do inferno
também, incluindo Abraão, Isaque, Jacó, Jó, José de Arimateia, etc. Lembre-se que estamos
analisando a parábola literalmente, como os imortalistas o querem que façamos para
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 164
fundamentar uma doutrina bíblica. A parábola diz apenas que era um homem rico. Em
momento nenhum diz que era um homem mau ou profano.

E quanto a Lázaro? A situação piora ainda mais para o lado dos imortalistas, pois a parábola
diz apenas que ele “era um homem pobre e... morreu”. Ora, jamais poderíamos pressupor
que ser pobre ou mendigo é passaporte para a salvação. Não. A Bíblia não ensina, em
nenhum lugar, que por ser pobre ou ter sofrido muitas dores, alguém tem a garantia
celestial. Isso não é bíblico! E a parábola nada diz de ser Lázaro um mendigo do “bem”, diz
apenas ser um mendigo. Pense: se o rico fosse uma representação de todos os justos e
Lázaro representasse todos os ímpios (como querem os imortalistas), então não seria
estranho que em momento nenhum Jesus dissesse que o rico era ímpio ou que o pobre
Lázaro era justo?

Afinal, isso seria da maior fundamental importância caso fosse este o caso que Cristo
quisesse ilustrar. Se fosse este o caso, então nos seria dito claramente que o rico era ímpio
e o mendigo era justo. Mas isso não nos é relatado, porque, como veremos, não era isso o
que Jesus ilustrar. Ademais, se a parábola deve ser analisada literalmente, então
deveríamos colocar todos os pobres no Céu e todos os ricos no inferno. Irmão, são
parábolas, e parábolas não tem meios reais, jamais podem entendidas literalmente.

Além disso, a parábola nos indica que Lázaro era do pior tipo de gente, com o corpo todo
carcomido e cheio de chagas por uma doença terrível, presumivelmente a lepra. A
obrigação, por Lei, de qualquer leproso (ou nestas condições do Lázaro da parábola) era de
passar longe das demais pessoas e ainda gritar: “Imundo! Imundo!” (cf. Lv.13:44-46). Isto
quando não eram apedrejados. Pobres criaturas!

Agora continue imaginando o cenário: um rico, de alta classe, de repente se depara com
esse pobre “farrapo” de gente, com cães lambendo as feridas em carne viva, devorada pela
lepra. Qual seria sua reação? Deixaria ele comer da comida ou o expulsaria dali? Lembrem-
se, pessoas como o pobre Lázaro nem mesmo podiam chegar perto de alguma pessoa da
sociedade! Quanto mais comer das migalhas de algum homem rico!

Qual seria sua atitude ao encontrar, na porta de sua casa um leproso, em tamanho
avançado grau de enfermidade? Sua reação é uma incógnita, mas a do Rico da parábola,
não. Não só o permitiu comer das migalhas, como também não o expulsou dali (o que
estaria de acordo com a própria Lei dos judeus) e, além disso, pelo relato percebemos que
tal fato deve ter durado dias de benevolência! Portanto, esse Rico da parábola não era um
homem mau, mas bom, de coração e inclinado a fazer tal “caridade”.

Ora, se Lázaro por ser mendigo foi para o Seio de Abraão, por que o rico também não foi,
uma vez que não é nenhum “pecado” ser rico, e esse da parábola demonstrou alguma
humanidade? Por que o rico também não foi salvo, se a parábola deve ser analisada
literalmente ou se a intenção de Cristo era representar os homens ímpios que vão para o
inferno a partir dessa parábola? Se essa fosse a intenção de Cristo, deveríamos esperar que
ele narrasse um homem rico completamente desumano, ímpio, ladrão, que merecesse
verdadeiramente um inferno para si.

Esperaríamos realmente a descrição de alguém que nem ao menos deixa o pobre comer das
migalhas e que ainda o chutaria para fora, ou que consegue a sua riqueza por meios
desonestos. Contudo, isso está muito longe de ser o caso! Ademais, se os salvos
personificados pelo mendigo conversam com os ímpios no inferno, personificados pelo Rico,
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 165
imaginemos, por exemplo, que você esteja no Céu, gozando a bem-aventurança, quando,
de repente, você ouve gritos, e estes aumentam gradativamente.

Você então contempla seu parente ou amigo no inferno, com o fogo o consumindo por
completo, sob gritos e torturas horríveis. Medite: como você se sentiria, vendo-o do lado de
lá, um amigo ou parente nesta condição terrível? Afinal, se a parábola deve ser analisada
literalmente, então o Céu e o inferno são separados por uma “parede-de-meia”, certo? Ora,
é impossível acreditarmos numa coisa dessas, mas tal cenário insuportável é o que
deveríamos admitir em caso de aceitar que os meios da parábola são literais.

Selecionei uma lista com apenas vinte de todos os absurdos a que chegaríamos caso
fundamentássemos a parábola como uma doutrina bíblica:

ERROS E CONSTATAÇÕES DA ANÁLISE LITERAL DA PARÁBOLA PELOS SEUS


MEIOS
1 Os mortos partem para o outro mundo não como “espíritos”, mas com o seu
próprio corpo com dedos, línguas, etc.
2 Os “espíritos” sentem sede (v.24).
3 Ser rico é motivo de ser mandado ao inferno, apesar de ter demonstrado tão
grande benevolência para com o pobre Lázaro e a própria parábola nada dizer de
que o Rico era um homem mau!
4 Ser mendigo é passaporte para o Céu, uma vez que a parábola em nada indica que
o mendigo era um homem justo ou que cria no Senhor.
5 O Céu e o inferno ficam um bem do lado do outro (veríamos os nossos amigos ou
parentes queimando lá do outro lado!).
6 Apesar de haver um “abismo intransponível” entre ambas as partes, os salvos
podem ficar conversando a vontade com os ímpios que estão queimando no
inferno (vs. 25 e 26). A comunicação entre os justos do Céu e os ímpios do inferno
é perfeitamente possível (poderíamos ficar conversando com os nossos amigos ou
parentes enquanto estes estão entre as chamas de um fogo eterno e devorador).
7 É possível falar perfeitamente como em uma conversa normal enquanto queima-se
entre as chamas de um fogo verdadeiro (vs. 23-31).
8 O mediador não é Jesus, mas Abraão, para atender o chamado do rico (ver 1ª
Timóteo 2:5; João 14:6; Efésios 2:18, etc).
9 Usando a mesma lógica que os imortalistas usam com a análise literal dos meios
de uma parábola, concluímos que as árvores falam (cf. 2ª Reis 14:11).
10 O rico pedia que Lázaro molhasse apenas a língua dele enquanto queimava entre
as chamas, ao invés de lhe dar um verdadeiro “banho de água”!
11 Se os mortos justos partem para o “Seio de Abraão” na morte, para onde partiu
Abraão quando morreu?
12 Para onde iam os que morriam antes de Abraão?
13 Caim inaugurou o tormento do Hades e está queimando há seis mil anos até hoje.
14 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz
conclusão de que Deus é um juiz mau que nem ao homem respeita (meios da
parábola de Lucas 18:1-8).
15 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz
conclusão de que a Bíblia aprova a prática de administração desonesta (meios da
parábola de Lucas 16:1-12).
16 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz
conclusão de que e Deus é um homem severo que ceifas onde não semeaste e
ajuntas onde não espalhaste (meios da parábola de Mateus 25:24)
17 Imediatamente após a morte vem o juízo (cf. Hb.9:27). Mas na parábola o rico e

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 166


Lázaro foram conduzidos aos seus respectivos lugares sem sequer passarem por
algum julgamento antes, que sequer é mencionado ao longo de toda a parábola.
Sendo assim, ou o autor de Hebreus se engana ao dizer que o que sucede a morte
é o juízo e não a condenação ao inferno ou o gozo do Paraíso, ou a parábola não
deve traduzir acontecimentos reais.
18 Se o Hades/Sheol é alguma “morada de espíritos”, então Davi estava enganando-
se a si mesmos e aos outros ao escrever que são os ossos que descem ao Sheol
(cf. Sl.141:7 – “Sheol”, no original hebraico)
19 Como explicar que na própria lição moral da parábola (ou seja, o que realmente
devemos retirar dela como fonte de doutrina teológica), o personagem Abraão fala
em “ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (vs. 30 e 31), confirmando
que só a ressurreição é o caminho do retorno de quem morreu à existência?
20 O rico reconhece Abraão (v.23), o que demonstra que tinha familiaridade com ele,
mas na própria parábola Abraão cita Moisés (v.29), que é de séculos posteriores.
Se essa parábola for considerada real, corroboraria com a tese de que os mortos
sabem o que acontece no mundo dos vivos, o que é negado pelos protestantes.

É evidente, portanto, que se trata de mera parábola e como as outras devemos tirar dela a
sua lição moral e não analisá-la literalmente e muito menos podemos sair por aí
fundamentando importantes doutrinas bíblicas edificando-as sobre meios de parábolas!
Assim como na parábola de 2ª Reis a lição não era que as árvores falam, mas cada
elemento tem o seu devido significado, assim também o é na parábola do rico e Lázaro. O
nosso próximo passo, então, será desvendarmos o que cada um representava na parábola.
Antes, porém, um pequeno adendo para a refutação de outros argumentos imortalistas
comumente enfrentados.

As contradições imortalistas – Os imortalistas, ao sustentarem essa parábola como sendo


real e literal quando querem refutar os mortalistas, incorrem em uma série de contradições
bíblicas com a doutrina deles mesmos. Um dos exemplos mais claros que podemos citar é a
interpretação deles sobre o “espírito” que volta a Deus após a morte. À luz da Bíblia, esse
espírito nada mais é senão o sopro de vida que volta a Deus após a morte porque provém
dEle, mas os imortalistas precisam sustentar que esse espírito que volta para Deus é a
própria alma imortal, um ser consciente com personalidade que vai para o Céu
imediatamente após a morte.

Sendo assim, a interpretação deles de textos como Eclesiastes 12:7 é de que logo ao
morrermos nossa alma deixa o corpo e vai para a presença de Deus. Mas, sabendo que
Deus está no Céu, como é que nesta parábola Abraão e Lázaro estavam no Hades, que fica
nas profundezas da terra e não no Céu, como o próprio Senhor Jesus deixou claro em
Mateus 11:23? Pois ele disse: “E tu, Cafarnaum, será elevada até ao Céu? Não, você
descerá até o Hades! Se os milagres que em você foram realizados tivessem sido
realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje” (cf. Mt.11:23).

Se o Hades não é o Céu, mas fica em oposição a este (um está “acima” de nós e outro
“abaixo”) e o espírito volta a Deus após a morte (cf. Ec.12:7), como é que Abraão, Lázaro e
o rico estavam no Hades na parábola, e não no Céu ou em alguma dimensão celestial? Isso
fica claro na própria parábola, que diz:

“No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe,
com Lázaro ao seu lado” (cf. Lucas 16:23)

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 167


Como vemos, o rico estava no Hades, e não com Deus nas regiões celestiais. E Abraão, por
sua vez, também não poderia estar no Céu, porque estava tão próximo do rico que
podia vê-lo e conversar com ele! Se tudo isso se passava no Hades, que para os
imortalistas é um local embaixo da terra onde espíritos sobrevivem conscientemente à parte
do corpo, como conciliar isso com o texto de Eclesiastes 12:7, que diz que o espírito volta
para Deus na morte, e não que desce ao Hades? Na teologia bíblica mortalista é fácil
responder a esta pergunta, pois o Hades é uma figura da sepultura para onde vamos ao
morrer, e o espírito não é uma “alma imortal” ou um ser consciente e racional à parte do
corpo, mas apenas o sopro de vida de Deus.

Mas como os imortalistas interpretam que a alma é imortal e o espírito é uma entidade
consciente, teriam que explicar como é que o espírito sobe para Deus, como disse Salomão
(cf. Ec.12:7), Jesus (cf. Lc.23:46) e Estêvão (cf. At.7:59), e a alma vai parar no Hades, que
é onde estavam Abraão e Lázaro nesta parábola. Ou eles interpretam a parábola
alegoricamente (como deveriam fazer) ou é a própria teologia deles próprios que vai por
água abaixo.

Outra passagem que refuta a interpretação imortalista de Lucas 16 é a de Hebreus 9:27,


que diz que imediatamente após a morte segue-se o juízo, e não o Céu ou o inferno. Ou
seja: a próxima experiência consciente que alguém desfrutará após a morte será o imediato
encontro com o tribunal de Cristo (para os justos) ou o grande trono branco (para os
ímpios). Mas nessa parábola contada por Cristo não há qualquer menção ao juízo
seguindo-se à morte. Não é nos dito que o rico morreu, foi julgado e depois condenado a
sofrer no Hades, mas que ele foi direto para o Hades. Sendo assim, ou o autor de Hebreus
errou ao dizer que logo após a morte vem o juízo, ou a parábola não é uma história real
contada por Jesus, mas uma alegoria.

Ora, sabemos que este juízo só ocorrerá na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1) e que os ímpios só
serão julgados após o término do milênio (cf. Ap.20:11-15), seguindo-se, portanto, que o
rico não foi literalmente enviado ao Hades conscientemente para ser atormentado, mas
espera o dia do juízo, que é de fato a próxima experiência que alguém tem depois de
morrer. Portanto, as verdades literais da Bíblia anulam qualquer possibilidade de essa
parábola ser um acontecimento real ou retratar algo que de fato ocorra com alguém após a
morte, e de quebra põe a própria teologia imortalista em confusão consigo mesma.

Refutando contra-argumentos – A contra-argumentação mais famosa utilizada pelos


imortalistas é que, mesmo que Lucas 16 seja uma parábola e não necessariamente precise
relatar meios literais, a imortalidade da alma deve mesmo assim ser considerada através
desta passagem porque Jesus não iria “confundir” os seus ouvintes judeus incrédulos, que
poderiam pensar que realmente aquele estado intermediário existia. Para eles, se aquela
descrição da parábola fosse fictícia, isso causaria enorme confusão na mente daquelas
pessoas e muitos poderiam tomar aquilo como sendo um retrato da verdade. A vista deste
argumento, temos que fazer as seguintes considerações:

1º Em primeiro lugar, o povo daquela época, diferentemente do atual, já estava habituado


com o uso de parábolas e sabiam que elas não poderiam ser levadas ao pé da letra. Jesus
só lhes falava por meio de parábolas (cf. Mt.13:34), e, se eles fossem literalizar cada uma
delas, poderiam ter depreendido vários erros teológicos dos quais já constatamos aqui,
como, por exemplo, a alegação de que Deus é um juiz ímpio (cf. Lc.18:2), que colhe onde
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 168
não semeou (cf. Mt.25:24), que obriga as pessoas a irem para o Céu (cf. Lc.14:23), ou que
aprova a prática da administração desonesta (cf. Lc.16:8). Mas nunca vemos alguém
acusando Jesus por insinuar que ele aprovava a administração desonesta, que colocava um
caráter ímpio em Deus ou que não respeitava a nossa própria liberdade. Portanto, podemos
perceber claramente que o próprio povo da época entendia que as parábolas não podiam
ser interpretadas literalmente. Se eles não faziam isso com as outras parábolas, também
não iriam aplicar este princípio na do rico e Lázaro para serem “confundidos”!

2º Em segundo lugar, se Jesus não poderia fazer uso dessa parábola em função da
“confusão” que causaria em seus ouvintes, então ele não obteve tanto sucesso, visto que o
Hades que ele mencionou era totalmente diferente daquele que é crido hoje pelos
imortalistas. Por exemplo, na parábola Céu e inferno ficam lado a lado, já na teologia
imortalista ficam em dimensões diferentes. Na parábola, os salvos e os perdidos conversam
numa boa, já na teologia imortalista não há contato entre os salvos e perdidos que se
foram. Na parábola, o rico tinha um corpo físico com língua, dedos, e sentia sede. Já na
teologia imortalista, é apenas um espírito incorpóreo que desce ao Hades. Sendo assim, se
este argumento imortalista realmente procede, certamente se volta contra eles mesmos
quando analisado mais de perto.

3º Em terceiro lugar, temos que ressaltar que Jesus não estava contando essa parábola aos
incrédulos (multidão), mas aos seus próprios discípulos. Isso por si só já fulmina com esse
argumento imortalista, pois, se Cristo contou essa parábola aos seus próprios discípulos (e
estes já estavam muito bem doutrinados por Cristo), não haveria possibilidades de
“confundir a multidão” que vivia em trevas. Podemos perceber que Jesus falava em
particular com os seus discípulos e não com toda a multidão através da leitura do verso
seguinte, que deixa claro que Jesus estava falando “aos discípulos” – Lucas 17:1. Temos
que lembrar que o original da Bíblia não continha a divisão por capítulos e versículos, e,
portanto, Lucas 17:1 era simplesmente a continuação direta e imediata do relato descrito
até o verso 31 em Lucas 16, que deixa evidente que a conversa era entre Jesus e seus
discípulos, e não entre Jesus e a multidão.

4º E, em quarto lugar, devemos lembrar que seus discípulos, evidentemente, já eram muito
bem doutrinados por Cristo, e portanto não teriam qualquer problema com essa parábola. O
pastor adventista Valdeci Junior costuma contar aos seus ouvintes uma história semelhante
a que Jesus contou em Lucas 16:19-31, dizendo90:

«Certa vez, morreram, na mesma hora, em lugares diferentes mas não muito distante um
do outro, dois homens. O primeiro era um senhor simples, sem estudos, motorista de
ônibus na pequena região onde morava. Era conhecido de todos, principalmente pela má
execução de sua tarefa profissional. Era muito, mas muito barbeiro. Foi assim a vida toda,
até que morreu em acidente de transito. O segundo homem era o pastor da cidadela.

Pois bem, chegaram na porta do céu praticamente juntos. São Pedro atendeu primeiro o
motorista. No questionário de admissão para entrar no céu, quando São Pedro queria saber
quem ele era, aquele homem começou a explicar: eu sou aquele conhecido motorista de
ônibus, da empresa tal, de tal cidade, e tal e tal... Ah, ta! Disse São Pedro. Você é o

90 Disponível em: <http://www.nasaladopastor.com/2011/03/parabola-do-rico-e-do-lazaro-vai-


pro.html>. Acesso em: 15/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 169


motorista barbeiro! “Justamente”, respondeu o homem! Pois bem! Disse São Pedro. Entre!
O Céu é todo seu!

O pastor, que estava assistindo a entrevista enquanto esperava para ser também atendido,
pensava: “Se este homenzinho foi admitido ao Céu, imagine eu, o pregador”.

São Pedro se virou para o pastor: “Você é o próximo?”

“Sim”, respondeu o pastor, todo empolgado: “Sou o pastor, da mesma cidade deste
barbeiro que acabou de entrar...”

São Pedro cortou: “Olha, eu sei quem você é. Infelizmente, você não tem entrada livre ao
Céu. Não poderá ficar aqui”.

“Mas como?”, contestou o pastor. “Este homenzinho ignorante, iletrado, que fazia seu
trabalho mal feito, que não pregava, que vivia dando prejuízo pra empresa, que sempre
deixava todos os seus passageiros tensos e temerosos, vai entrar no Céu, e eu, o pregador,
que vivia na igreja, que falava da palavra de Deus, que procurava deixar todos em paz, não
poderei entrar?”

“É justamente nesta diferença que está a razão da rejeição de sua entrada em face da
admissão do motorista”, respondeu São Pedro.

“Não entendi”, disse o pregador.

O apóstolo porteiro do Céu explicou: “É que enquanto você estava na igreja, com seus
sermões sem vida, colocando todos os seus fiéis para dormir, o motorista estava colocando
todos os seus passageiros para rezar”»

Depois que ele conta a história, ainda antes de revelar ao auditório qual será o assunto do
dia, começa a perguntar às pessoas quais são as lições que elas tiraram desta história. É
interessante notar alguns pontos da reação do auditório. Assim que termina a história, os
ouvintes sorriem e vão fazendo a lista das lições aprendidas:

“Nem todo o que me diz Senhor, Senhor entrará no reino dos céus”
“Os simples também têm entrada no Céu”
“É melhor a devoção do que o formalismo”
“Ser pastor não garante a salvação”
“O pregador deve fazer bons sermões”
“O Céu não admite só pela aparência”
“As aparências enganam”
“Devemos vigiar e orar”

E por aí vai...

Interessante é que absolutamente ninguém até hoje diz que viu nesta história lições como:

“São Pedro está lá na porta do Céu esperando por nós”


“Antes de entrarmos no Céu teremos que passar por uma entrevista”
“Assim que morremos chegamos ao Céu”
“Pode ser que cheguemos à porta do Céu e não sejamos admitidos”
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 170
“A alma é imortal”

Ninguém se escandaliza por isso ou ridiculariza a história. Esperam então que ele introduza
o assunto da palestra baseado em alguma das lições que conseguiram tirar dela. Começam
a imaginar qual será o tema da noite. Jamais pensam que ele iria falar da parábola do rico e
do Lázaro. Ele se aproveitou de uma crendice popular apenas como um cenário onde se
passava uma historia inventada, a fim de ensinar algumas lições. Por que?

1º O auditório sabe que esta não é uma historia verdadeira.

2º Eles conhecem a crendice popular de que quem morre vai pro Céu, e na entrada
encontra São Pedro.

3º Eles não creem nesta crendice como doutrina. Sabem que isto não é verdade (ele já
conhece o auditório e sabe que eles creem como ele crê, sobre o destino do homem após a
morte).

4º O auditório vai conseguir captar as lições que ele quer ensinar com mais facilidade, pois,
através de uma metáfora, está figurando o ensino. Isto é didática. A primeira vez que ele
ouviu esta historia, ela foi contada por um palestrante que não cria na imortalidade da
alma, para um publico que também não cria. Na ocasião, todos entenderam a mensagem. A
questão de mortalidade ou imortalidade nem foi cogitada por ninguém. Não era este o
assunto.

Isto foi o que Jesus fez. Ele se utilizou de um cenário popular como um fundo fictício onde
se passava a parábola do rico e Lázaro, na qual ele ensinou aos seus discípulos as lições
morais que iremos analisar a partir de agora. Isso obviamente não confundiria os discípulos
nem a ninguém que entendesse um pouco de Bíblia para saber que a natureza humana é
holista, que a morte é a cessação da existência e a ressurreição é o antídoto para a vida
eterna, tanto quanto a palestra do pastor Valdeci Junior, que vimos acima, não levou
ninguém a tirar a conclusão de que aquela história ensina a imortalidade da alma, nem
tampouco chegou a “confundir” alguém.

O significado dos elementos da parábola - O homem rico representava a nação judaica, que
se orgulhava de se auto-considerar “os filhos de Abraão” (cf. Jo.8:33). Eram o povo
escolhido de Deus, a nação eleita, sacerdócio real, tinham a Lei de Deus, os Mandamentos,
eram os filhos legítimos de Abraão. Deus lhes computou todas as responsabilidades do
Reino como os Seus filhos, como a Sua nação eleita.

Contudo, rejeitaram o Messias, rejeitaram o Filho de Deus encarnado, preferiram seguir os


seus caminhos e as suas tradições, fundamentando-as na segurança de serem os filhos de
Abraão, a nação de Jeová e, portanto, os filhos legítimos do Reino. Em contraste, como eles
consideravam os gentios? Os consideravam como os coitados, considerados como cães,
imundos e indignos do favor do Céu, pelos judeus. Não foram os “escolhidos de Deus”,
eram, portanto, os “Lázaros espirituais”.

Enquanto os judeus receberam tudo de bom nesta vida, recebendo o favor de Deus como a
nação eleita e sacerdócio real, para lhes ser computada como justiça, os gentios
(representados pelo mendigo Lázaro) eram os “pobres” do Reino. Ficavam para trás, o

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 171


máximo que faziam era “comer as migalhas” daqueles que faziam parte do Reino, os
judeus, representados pelo Rico.

Como o rico, os judeus não estendiam a mão para auxiliar os gentios em suas necessidades
espirituais. Permitia apenas comer das migalhas. Cheios de orgulho, consideravam-se o
povo escolhido e favorecido de Deus; contudo, não serviam nem adoravam a Deus.
Depositavam confiança na circunstância de serem filhos de Abraão, dizendo: “Somos
descendência de Abraão” (cf. Jo.8:33), e diziam isso orgulhosamente.

Assim, foram os judeus comparados ao homem Rico da parábola, pelo fato de que possuíam
as riquezas do evangelho, mas, no entanto, não cumpriram a vontade de Deus a respeito
deles, que era de ser a luz dos gentios. No campo religioso, os pobres gentios pegavam
mesmo apenas as migalhas. Uma cena que exemplifica bem esse quadro encontra-se no
evangelho de Mateus:

“E, partindo Jesus dali, foi para as bandas de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananéia,
que saíra daquelas cercanias, clamou dizendo: Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de
mim, que minha filha está miseravelmente endemoniada. Mas Ele não lhe respondeu
palavra. E os discípulos, chegando ao pé dEle, rogaram-lhe dizendo: Despede-a, que vem
gritando atrás de nós. E Ele respondendo disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas
perdidas da casa de Israel. Então chegou ela e adorou-O dizendo: Senhor, socorre-me. Ele
porém, respondendo disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.
E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que
caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande
é a tua fé: Seja isto feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha
ficou sã” (cf. Mateus 15:21-28).

Aquela mulher cananéia (gentios) também queria compartilhar das “migalhas” da mesa,
assim como o mendigo Lázaro. Uma descrição perfeita daquele cenário. O que Jesus fez?
Elogiou a sua fé. Apesar de ele ter sido chamado para a “casa de Israel”, ficou
impressionado com a fé dos gentios, pois “nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé”.
Aquela gentia contentava-se em comer das migalhas da mesa, como é o caso de Lázaro na
parábola.

Outro exemplo disso encontra-se em Mateus 8:5-13. Nesta experiência, o centurião


expressou exatamente o que os judeus pensavam dos gentios: “Não sou digno de que
entreis em minha casa” (v.8). No entanto, o centurião demonstrou grande fé quando disse:
“Diga somente uma palavra e meu criado sarará” (v.8). Jesus curou o servo daquele gentio
e publicamente elogiou sua fé com estas palavras: “Nem mesmo em Israel encontrei tanta
fé” (v.10), e, por fim, assegurou que muitos gentios irão se assentar na mesa com Abraão
(cf. Gl.3:27-29; Rm.10:12).

Apesar de serem considerados “a descendência de Abraão”, os gentios demonstravam uma


fé muito superior do que a dos próprios israelitas! Embora estes fossem “os ricos do Reino”,
devendo ser a luz das nações e os reis da terra deveriam caminhar vendo a glória de Deus
que paira sobre eles (cf. Is.60:3), não aproveitaram essa sua riqueza. Os gentios, contudo,
mesmo sendo os “Lázaros espirituais”, desprezados pelos judeus por não serem os “filhos
de Abraão”, demonstraram uma fé muito superior a dos próprios judeus.

No pátio do Templo de Jerusalém havia uma linha demarcatória que, no caso de ali algum
gentio passar, morria imediatamente (cf. At.21:29), isso porque eram considerados indignos
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 172
pelos judeus de cultuar a Deus no Seu Templo. Portanto, Cristo quis ensinar nesta parábola
que os judeus (Rico) banqueteavam-se na mesa da verdade, enquanto os gentios (Lázaro),
eram como os cachorrinhos que procuravam a todo custo apanhar ao menos das migalhas
do evangelho.

E, de fato, eles passaram a fazer parte da mesa de Deus, unidos em “um só povo” (cf.
Jo.11:52). Isso serviu de lição moral ao grupo dos fariseus, que eram exatamente aqueles a
quem Cristo condenava nesta parábola (v.14,15). A maior prova de que o Rico (nação
judaica) recebeu “seus bens em sua vida”, como nos informa a parábola, foi o fato de ter
sido chamada para ser o sacerdócio real de Deus na Terra, nação santa, peculiar.

Sobre ela o Senhor dispensou, por séculos, bênçãos sem limites, além de dar-lhes uma
terra onde mana leite e mel e, finalmente, deu-lhes o próprio Messias, o Salvador. A reação
do rico (judeus), contudo, foi esta: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”
(cf. Jo.1:11). Os judeus, portanto, rejeitaram o Messias (o Rico morre). Assim sendo,
perderam a soberania divina sobre as demais nações.

O evangelho haveria de ser então anunciado em seu poder aos gentios (Lázaro), a fim de
que também eles participassem da mesa do Reino. Não comeriam mais migalhas da mesa
do Senhor, mas fariam parte do banquete do Reino (cf. Lc.13:29). O que Jesus faz? Ele tira
do próprio Abraão, sobre o qual aquela nação judaica se orgulhava em sua chamada
“superioridade”, as palavras que este haveria de ter dito em pessoa: “Se não ouvem a
Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (cf.
Lc.16:31).

Essa é a lição moral da parábola. Nada, nem mesmo uma ressurreição, poderia converter
aquela nação novamente. Tornaram-se cegos espirituais, cavaram-se a si mesmo um
abismo intransponível entre eles e Deus, entre eles e a salvação (cf. Lc.16:26). A parábola,
portanto, não deve ser interpretada literalmente pelos seus meios fundamentando-a como
doutrina, pelo contrário, tem cada elemento o seu devido significado ao exemplo das outras
parábolas que também não apresentam meios literais, mas uma verdade moral por detrás
de um cenário fictício.

Ele contou a parábola do Rico e do Lázaro, em que o homem rico representava o próprio
povo judeu que teve todas as oportunidades nesta vida, mas a desperdiçou, enquanto, em
contraste, os gentios (representados por Lázaro na parábola) eram os “Lázaros espirituais”,
desprezados pelos judeus, mas que desfrutariam de muito maior bem-aventurança do que a
própria nação judaica que se autoproclamava os “filhos de Abraão”. O quadro todo
representava aquela nação judaica que se orgulhava por serem os filhos de Abraão
escolhidos de Deus (representados pelo Rico), quando, na verdade, os que são da fé é que
são os verdadeiros filhos de Abraão (representados pelo pobre Lázaro), como disse o
apóstolo Paulo: “Estejam certos, portanto, de que os que são da fé, estes é que são filhos
de Abraão” (cf. Gl.3:7).

Por fim, a lição moral da parábola é que, “se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco
acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (cf. Lc.16:31). Os fariseus
desprezavam Jesus, não acreditavam nele, o perseguiam, apesar de todos os feitos
milagrosos de Cristo, incluindo o de ressuscitar os mortos. Jesus havia ressuscitado
exatamente um homem chamado Lázaro (cf. Jo.11:43,44), que havia voltado à vida após
quatro dias em que esteve morto, mas nem mesmo assim os fariseus acreditaram nele, e
ainda continuavam a o perseguir!
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 173
Os que não escutam Moisés e os profetas também não vão acreditar em Cristo, nem mesmo
se os mortos ressuscitarem. De fato, essa verdade foi ainda mais ressaltada pela reação dos
dirigentes dos judeus quando Jesus ressuscitou Lázaro, no relato de João 11. Ao invés de
eles passarem a acreditar em Cristo, começaram a persegui-lo ainda mais do que antes:

“Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho, e diziam: Que


faremos? Porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão
nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação (...) Ora, os principais dos
fariseus tinham dado ordem para que, se alguém soubesse onde ele [Jesus] estava, o
denunciassem, para o prenderem” (cf. João 11:47-48,57)

“E os principais dos sacerdotes tomaram a deliberação para matar também a Lázaro;


porque muitos dos judeus, por causa dele, iam e criam em Jesus” (cf. João 12:10-11)

Então, Cristo ensina que para aqueles que se proclamavam os “filhos de Abraão”, nenhuma
prova – nem mesmo sequer uma ressurreição, como foi a de Lázaro – os fariam mudar de
opinião e converter-se. O próprio Abraão que os condenava!

Jesus não estava dizendo que literalmente algum morto teria que voltar a vida para contar
sobre os tormentos do Hades, convertendo assim aquela nação judaica, pois a Bíblia traz
um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (cf. 1Rs.17:17-24;
2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11), mas absolutamente nenhuma
delas teve uma experiência de pós-morte para compartilhar. Lázaro, que foi trazido à vida
após quatro dias morto não teve nenhuma experiência fora do corpo, e muito menos
alguma “mensagem” para trazer a família nenhuma.

O que Jesus estava fazendo era uma exortação à comunidade: ouvirem a Moisés e aos
profetas (i.e, a Escritura da época), antes que seja tarde demais. Isso porque as tradições
humanas daquele povo já estavam se sobrepondo a “Moisés e os profetas”, já estavam
tomando o lugar da Sagrada Escritura (cf. Mc.7:13). Se considerando filhos de Abraão
(Rico) que são beneficiados no banquete do Reino de Deus, desprezavam os gentios
(Lázaro), que tinham que comer das migalhas que caíam de suas mesas. Mas este quadro
estava se revertendo. A partir do período da Graça, eram os gentios que desfrutariam das
bem-aventuranças do Reino, ao passo que aqueles que se apoiavam na descendência
natural de Abraão seriam condenados pelo próprio Abraão.

Conclusão – A parábola apresenta através de meios não-literais (fictícios) diversos princípios


morais que estavam sendo rejeitados pelos judeus da época de Cristo, em especial o
repúdio aos gentios, que haveriam de desfrutar muito maior bem-aventurança que os
próprios judeus. Eles “virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão
à mesa no reino de Deus” (cf. Lc.13:29), junto a Abraão e os patriarcas (cf. Lc.13:28),
enquanto os incrédulos ficarão de fora:

“Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os
profetas no reino de Deus, e vós lançados fora. E virão do oriente, e do ocidente, e do
norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (cf. Lucas 13:28-29)

O quadro descrito em Lucas 13:28-29 é tipificado na parábola do Rico e Lázaro. Na


parábola, o pobre, representando a multidão de gentios convertidos, está ao lado de Abraão
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 174
(cf. Lc.16:22), exatamente como em Lucas 13:28, ao passo que os incrédulos estão de fora
do Reino, o que também é tipificado na parábola (cf. Lc.16:23). Assim como em Lucas
13:28-29, na parábola os gentios convertidos representados por Lázaro desfrutam das bem-
aventuranças do Reino como em um verdadeiro banquete, após terem desfrutado apenas
das “migalhas” enquanto estiveram aqui na terra (cf. Lc.16:21).

Sendo assim, podemos dizer que a parábola do Rico e Lázaro é uma tipificação do ensino de
Cristo descrito em Lucas 13:28-29, mas com maior riqueza de ensinos morais a serem
obtidos dela, como vimos acima. Note que o verbo em Lucas 13:28-29 está em todo o
momento no tempo futuro. Cristo diz que “haverá” choro e ranger de dentes (v.28), e não
que está havendo choro e ranger de dentes. Da mesma forma, diz que muitos virão do
oriente e do ocidente para fazerem parte do Reino, e não que já estejam lá (v.29). Eles se
assentar-se-ão à mesa de Deus, como em um acontecimento futuro (v.29).

Portanto, aquilo que acontecerá futuramente foi tipificado na parábola do Rico e Lázaro,
não de forma literal, mas com a personificação dos personagens ali citados e transmitindo
um ensinamento moral aos seus discípulos. A parábola em si não é a descrição de como
será o pós-vida, mas uma tipificação desta. Na parábola é tipificado aquilo que virá a ser,
isto é, gentios de todas as nações fazendo parte do Reino junto a Abraão, incrédulos de
fora, reforço ao apego às Escrituras (“Moisés e os profetas” – cf. Lc.16:31) e a rejeição à
incredulidade dos líderes dos judeus. De fato, à exemplo da lista de lições aprendidas na
história do pastor Valdeci Junior, podemos listar também aquilo que aprendemos com a
parábola do Rico e Lázaro:

1º Que, diferentemente dos fariseus que pensavam que as riquezas eram um sinal da
aprovação divina (e estes eram extremamente apegados ao dinheiro - cf. Lc.16:14),
haverão homens ricos (v.19) que estarão de fora do Reino (vs.22-23).

2º Que, diferentemente da crendice popular de que a pobreza e a doença eram coisas do


diabo, haverão homens extremamente pobres e doentes que serão salvos (vs.20-21).

3º Que os gentios que na época comiam apenas das migalhas passarão a desfrutar da mesa
do Reino de Deus ao lado de Abraão (v.21).

4º Que o simples fato de se apoiar na descendência natural de Abraão em nada significa


que é realmente filho de Deus (v.24).

5º Que os que desprezam a Cristo estão cavando para si mesmos um “abismo


intransponível” entre eles e Deus (v.26).

6º Que nem todo aquele que reivindica para si mesmo o direito de ser chamado filho de
Abraão ou de Deus é realmente um convertido (vs.24-25).

7º Que a ressurreição é o único caminho para quem morreu voltar à existência (v.31).

8º Que até mesmo um grande sinal miraculoso como ressuscitar os mortos não é suficiente
para fazer que os descrentes creiam em Cristo Jesus (vs.30-31).

9º Que a oportunidade de salvação se limita ao “hoje”, e não depois da morte, quando nada
mais pode ser feito (v.s.24-31).

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 175


10º Que a Sagrada Escritura (“Moisés e os profetas” – v.31) é o único meio através do qual
um incrédulo pode se se arrepender e se converter de seus maus caminhos.

Na parábola do Rico e Lázaro, Cristo mostra que é nesta vida os homens decidem seu
destino eterno, porque, depois, será apenas por meio da ressurreição que voltaremos à
existência (cf. Lc.16:31) e seremos ressurretos para a vida eterna ou para a condenação (cf.
Jo.5:28-29), de acordo com os atos praticados em vida (cf. 2Co.5:10), sem segunda chance
após a morte (cf. Hb.9:27). Durante o presente momento, essa salvação é oferecida por
Deus a toda criatura, sem distinção entre ricos e pobres, judeus ou não-judeus. Mas, se os
homens desperdiçam as oportunidades se apoiando em tradições humanas antes que nas
Escrituras, acabam por si mesmos cavando entre eles e Deus um abismo intransponível.

VI–Deus de vivos, não de mortos – Argumento contra ou a favor da imortalidade


da alma?

Outra passagem que tem sido olhada pela ótica dualista é o que Jesus diz em Lucas
20:38,39 – “Ora, Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para ele todos
vivem”. Infelizmente, bastaria que as pessoas lessem o versículo anterior para entender o
que Jesus queria provar com aquilo: “E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o
indicou no trecho referente à sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para
ele todos vivem. Então disseram alguns dos escribas: Mestre, respondeste bem. Dai por
diante não ousaram mais interrogá-lo” (cf. Lc.20:37-40).

Do início ao fim Jesus estava usando tal passagem para provar a ressurreição dos mortos, e
não uma imortalidade da alma. O fato é que, pelo contexto, Cristo estava debatendo com
uma seita da época, chamada de “saduceus”. Estes saduceus não acreditavam na
ressurreição dos mortos:

“Então se aproximaram dele alguns dos saduceus, que dizem não haver ressurreição, e
lhe perguntaram...” (cf. Marcos 12:18)

Então, Jesus, para provar que os mortos hão de ressuscitar, citou o trecho que diz que Deus
é o Deus de Isaque, Abraão e Jacó, provando assim que eles ainda seriam ressuscitados;
eles não estavam mortos para todo o sempre como acreditavam esses saduceus (que não
criam na ressurreição para trazer de novo alguém a vida), porque se fosse assim Deus iria
dizer que era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

O intuito de Cristo, portanto, era mostrar para aquele grupo de religiosos, que não
acreditavam na ressurreição, que essa era um fato que iria acontecer, pois Deus não é um
Deus de mortos. Logo, todos os mortos – incluindo Isaque, Abraão e Jacó – seriam
ressuscitados, ao contrário do que acreditavam os saduceus, e viveriam com Deus. Do início
ao fim a passagem é para provar a ressurreição dos mortos:

“E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o indicou no trecho referente à sarça,


quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (cf. Lucas
20:37,38)

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 176


Fica muito mais do que claro que Jesus usou essa passagem para desacreditar aquilo que os
saduceus acreditavam, isto é, que os mortos não vão ressuscitar nunca. Se a ressurreição
não acontecesse, Deus seria Deus de mortos. O evangelho de Marcos também é revelador
para descobrirmos o que Jesus estava querendo dizer com esta passagem:

“Pois, quando os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do Céu, e ninguém casará”
(cf. Marcos 12:25)

“Quando os mortos ressuscitarem”, e não quando a nossa alma imortal deixa o corpo por
ocasião da morte! Jesus disse claramente, no contexto, que é “quando os mortos
ressuscitarem”, é isso o que Jesus queria provar. Se a intenção de Cristo fosse provar a
imortalidade da alma (algo estranho, pois a pergunta não foi sobre isso, mas sobre a
ressurreição), então decerto teria dito: “Quando vocês morrerem... serão como anjos
no Céu”, se a alma fosse direto para o Paraíso. Contudo, Cristo é claro em dizer: “Quando
os mortos ressuscitarem serão como anjos no Céu”.

Na verdade, quando os defensores da imortalidade da alma usam esta passagem como


suposta “prova” do estado intermediário, eles mal sabem que tudo não passa de um famoso
“tiro no pé”. Além de demonstrar uma lastimável interpretação de texto (sem observar o
contexto histórico e a contextualização textual que desmontam por completo com a
interpretação deles), a passagem ainda sustém uma grande prova contra o estado
intermediário. Por quê? Simplesmente porque Cristo afirma categoricamente que “quando
os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do Céu” (cf. Mc.12:25).

Se o espírito dos salvos partisse para o Paraíso logo no momento da morte em um “estado
intermediário”, então certamente Cristo teria dito que “quando morrerem... serão como
anjos no Céu”. Contudo, é somente na ressurreição que tal fato se concretiza, o que
fulmina com a existência de um suposto estado intermediário. Ademais, os próprios
saduceus (que não acreditavam em nada após a morte e nem em ressurreição) sabiam que
o Mestre não acreditava em um “estado intermediário”, por isso perguntam a ele focando no
momento da ressurreição, pois é somente neste momento em que os mortos voltam à vida:

“Na ressurreição, de qual deles será ela esposa, pois os sete por esposa a tiveram?” (cf.
Marcos 12:23)

Se Jesus cresse na imortalidade da alma, os saduceus o teriam indagado sobre essa


possibilidade de a alma ser imortal, e não sobre a possibilidade de a ressurreição acontecer.
Eles questionaram direto a ressurreição sem cogitar qualquer estado intermediário ou
imortalidade da alma (que eles também não criam) porque sabiam que Jesus cria na
ressurreição, e não na imortalidade da alma. Por isso, o foco da discussão em todo o
momento não foi sobre se a alma é ou não é imortal, mas sim se a ressurreição vai ou não
vai ocorrer. Aparentemente, a questão relativa a um estado intermediário não era um ponto
de discussão. Nem Jesus nem os saduceus que o questionavam criam nela, e por isso o
único que foi debatido foi a ressurreição, que Cristo ensinava e os saduceus não.

Além disso, devemos ressaltar o fato de que, neste mesmo contexto, Cristo relata que “não
podem mais morrer, pois são como os anjos. São filhos de Deus, visto que são filhos da
ressurreição” (cf. Lc.20:36). Aqui vemos que os que partem deste mundo tornam-se
imortais (“não podem mais morrer”) e tornam-se como os anjos (“são como os anjos”) a
partir da ressurreição dentre os mortos, como é claramente indicado pelo contexto (vs.
33 e 34) e pelo próprio fim do verso que torna tal afirmação muito evidente ao relatar
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 177
explicitamente que são “filhos da... ressurreição” (v.36). Não desfrutaremos de imortalidade
em um estado intermediário, mas somente quando Jesus voltar e nos ressuscitar para
entrarmos na vida eterna (cf. Jo.5:28,29).

Vemos, portanto, que esta passagem, em lugar de favorecer a doutrina grega da


imortalidade da alma, constitui-se exatamente em uma forte confirmação de que a vida
eterna e a era vindoura se dará pela ressurreição dos mortos! Finalmente, como se
tudo isso não fosse suficientemente claro para vermos como os imortalistas deturpam essa
passagem bíblica tirando-a do seu contexto, devemos ressaltar também que a lógica de
Cristo nesta passagem só faria sentido em caso que os mortos estivessem literalmente
mortos mesmo (i.e, sem vida) e só ganharão vida a partir da ressurreição.

Como podemos provar este ponto de vista?

Em primeiro lugar, porque se Cristo tivesse provado que os mortos estão atualmente vivos
(como os imortalistas interpretam erroneamente o verso 38), então isso, por si só, em
absolutamente nada provaria que os mortos irão ressuscitar, pois Cristo usou aquilo para
provar a ressurreição que os saduceus desacreditavam (cf. Lc.20:37; Lc.20:33), e tal
argumento dele no verso 38 (supostamente de que os mortos já estivessem vivos) não
seria nenhuma “prova incontestável” da ressurreição, uma vez que os mortos poderiam
viver eternamente em um estado desencarnado (como criam os gregos de sua época) na
forma de uma alma imortal, sem passar pela ressurreição. Sendo assim, Jesus teria tentado
provar a ressurreição por meio de um argumento que não prova a ressurreição! Afinal, que
os mortos estão vivos não é prova de que eles irão ressuscitar. Os próprios gregos de sua
época criam nisso e não criam na ressurreição.

Se, contudo, ponderamos que os mortos estão sem vida, vemos que tal afirmação de Cristo
(de que Deus não é Deus de mortos) prova totalmente a ressurreição, uma vez que, sem
ela, Deus seria Deus de mortos, e que o próprio fato de Ele ser Deus de vivos prova que
eles sairão deste estado de morte (i.e, sem vida), para necessariamente passarem por
uma ressurreição, ganhando vida, pois senão Deus seria um Deus de mortos e diria que
era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Então torna-se lógico que tal argumento de Cristo só seria validado caso os mortos
estivessem literalmente mortos (i.e, sem vida) para ganharem vida somente a partir da
ressurreição, pois somente desta maneira o objetivo de Cristo em provar a ressurreição se
concretizaria. Se os mortos já estivessem vivos, tal passagem não provaria a ressurreição, e
o argumento seria inútil. Mas se os mortos estão realmente sem vida, então o fato de que
eles viverão um dia prova totalmente que uma ressurreição deve ocorrer.

Vemos, portanto, que tal pretensão imortalista falha em inúmeros aspectos, como vimos:

1º O argumento de Cristo para provar a ressurreição somente a provaria efetivamente em


caso que os mortos estivessem literalmente mortos (sem vida) como de fato eles estão.

2º Se os que morreram já estivessem com vida em uma forma incorpórea, Jesus teria
usado um argumento para provar a ressurreição que simplesmente não prova a
ressurreição!

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 178


3º Cristo não quis de maneira nenhuma provar que os mortos já estão vivos, pois o verso
37 diz claramente que ele usou tal argumento para provar “que os mortos hão de
ressuscitar”, e não de que eles já estão vivos em algum lugar.

4º Os que morrem são filhos “da ressurreição” (v.36), e não da alma imortal, do estado
intermediário ou da imortalidade da alma. Eles são considerados “filhos da ressurreição”
porque é somente a partir dela que eles ganham vida.

5º Nós nos tornaremos semelhantes aos anjos (não no aspecto físico, mas no sentido de
que não possa mais se dar em casamento – v.35) quando “os mortos ressuscitarem” (cf.
Mc.12:25), e não quando a alma supostamente parte do corpo rumo a um “estado
intermediário” imaginário.

6º O saduceus sabiam que Jesus não acreditava no estado intermediário, por isso
perguntaram direto se “na ressurreição, de qual delas será ela esposa...” (cf. Mc.12:23). A
imortalidade da alma ou existência de um estado intermediário nem ao menos era um ponto
de discussão entre eles, pois tanto Cristo como os saduceus não criam nisso, e por essa
razão o debate entre os dois foi sobre a ressurreição, que era crida por Jesus e rejeitada
pelos saduceus.

Vemos, portanto, que quando analisamos o devido contexto, tal passagem não apresenta
absolutamente nenhuma, mas nenhuma mesmo, prova da “imortalidade da alma”, mas
constitui-se em uma fortíssima prova contra ela. Como em todas as outras passagens que
são utilizadas por eles, basta analisarmos o próprio contexto e deixarmos o texto fluir
normalmente que toda e qualquer pretensão imortalista cai por terra e volta-se contra os
seus próprios proponentes.

VII–Mateus 10:28 e a destruição da alma

A passagem de Mateus 10:28, em que Jesus diz: “Não temais os que matam o corpo e não
podem matar a alma; temei antes aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o
corpo”, tem sido vista pelas lentes dualistas como um apoio para a doutrina da imortalidade
da alma, possivelmente como a única passagem bíblica dentre mais de 1600 em que a
“alma” é mencionada com possibilidade de ser imortal. Tal interpretação, contudo, carece
inteiramente de fundamento.

Se o que Jesus queria provar em Mateus 10:28 era a doutrina da imortalidade da alma, por
que então a continuação deste mesmo diz que a alma-psiquê é destruída junto com o
corpo? Afinal, como disse Cullmann, “se a alma é destruída, então ela não é imortal” 91. E, se
Cristo queria provar que a alma nunca é destruída, então certamente não teria dito que ela
pode perecer. Um elemento imaterial não poderia jamais sofrer a destruição que afeta o
corpo e nem ser destruído.

Se o que está em jogo em Mateus 10:28 é a alma como um elemento, como creem os imortalistas, isso
refutaria a própria tese da imortalidade da alma, pois a continuação lógica de um texto que diz que os
homens podem apenas matar o corpo mas não podem matar a alma é que Deus destruirá tanto um

91 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:


<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 179


como o outro. Não há a menor lógica em dizer que os homens podem matar o corpo e não a alma e
Deus também só mata o corpo e não a alma, ou pior: que os homens possam matar o corpo e não a
alma e Deus não mata nem um nem outro!

É óbvio que a mensagem de Jesus sobre temer a Deus acima de todas as coisas só faria sentido se, de
fato, os homens matassem o corpo e Deus matasse o corpo e a alma, isto é, que ele matasse mais do
que os homens são capazes de fazer. Isso implica necessariamente em uma destruição- apollumi no
sentido de cessação de vida, de morte no mesmo sentido de não-vida que o verso trata. Se o “destruir”
aqui é uma mera referência a “fazer perder” ou “lançar” (como vertem algumas traduções) mas não a
matar literalmente (fazer com que deixe de existir) o texto estaria dizendo que os homens matam apenas
o corpo e não a alma e Deus também mata apenas o corpo e não a alma.

Isso obviamente anula toda a mensagem de não temer quem pode dar um fim apenas ao corpo, se Deus
da mesma forma também só desse um fim ao corpo! Evidentemente, não estamos dizendo que em
outras ocasiões apollumi não possa significar meramente “perdição” e não “destruição” (pois ambos são
significados da palavra), mas sim que neste contexto específico de Mateus 10:28 seria um absurdo
interpretar apollumi em outro sentido que não seja o de aniquilamento, pois faria com que o texto
estivesse dizendo que não é para temer aqueles que só podem matar o corpo, mas era para temer
aquele que também só mata o corpo!

Em outras palavras, se “alma” aparece aqui no sentido de elemento da natureza humana, como creem
os imortalistas, essa seria uma prova indiscutível e irrefutável do aniquilacionismo da alma dos ímpios,
que Deus aniquila no geena tanto o corpo quanto a alma dos ímpios, o que implica na inexistência do
tormento eterno do inferno que creem os dualistas. Isso os faria renegar suas próprias convicções
teológicas a respeito do inferno, para salvar a crença da sobrevivência da alma em um estado
intermediário.

Sendo assim, alma no sentido de elemento em Mateus 10:28 é um golpe de morte na própria doutrina da
imortalidade da alma, pois provaria que esse elemento chamado “alma” é aniquilado no geena
juntamente com o corpo. Os imortalistas não teriam qualquer vantagem sobre os mortalistas em usarem
Mateus 10:28 com alma no sentido de elemento, pois estariam refutando a si mesmos. Uma análise
meticulosa da passagem, no entanto, nos mostrará que Cristo não usou alma no sentido de elemento da
natureza humana em Mateus 10:28.

Para entendermos o que Jesus realmente quis dizer nesta passagem, teremos que regressar
rapidamente para os conceitos básicos sobre corpo e alma, e depois analisarmos o contexto
em que Cristo aplicava a palavra “alma” em seus ensinos. Voltando a Gênesis 2:7, que fala
sobre a criação do homem, vemos que Deus “formou o homem do pó da terra [corpo], e
soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma
vivente [alma]” (cf. Gn.2:7 – grifo meu).

Este é o sentido primário de alma. Sendo que o homem “tornou-se” alma, e não “obteve”
uma, é fato que qualquer interpretação que induzisse que temos em nós uma alma imortal
presa dentro do nosso corpo estaria errada. Primeiramente, temos que lembrar que existem
sentidos secundários de alma-psiquê. Uma vez que corpo, alma e espírito são características
da mesma pessoa, então é excluído de imediato a possibilidade de que a nossa natureza
seja dualista. Se o homem é alma, ele não pode ter/possuir alma, pois isso altera o sentido
primário do que é alma. Isso, contudo, não exclui a possibilidade de haver sentidos
secundários em que a palavra alma-psiquê é empregada, em um sentido que não altere o
seu significado primário. Um bom exemplo disso é psiquê no sentido de “vida”.

Jesus conhecia muito bem as Escrituras, e sabia perfeitamente que em nenhuma vez a
alma-nephesh/psiquê é apresentada na Bíblia como sendo “eterna” ou “imortal”; ao
contrário, a Bíblia afirma categoricamente que a alma perece com a morte do corpo (cf.
Nm.31:19; Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15;
Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20;

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 180


At.3:23). Para entendermos, portanto, a aplicação que Ele fez nessa passagem, temos que
entender que, de acordo com a criação da natureza humana em Gênesis 2:7, a vida surge a
partir da implantação do fôlego de vida:

CORPO [PÓ] + FÔLEGO [ESPÍRITO] = VIDA

Assim, “alma vivente” ou “ser vivo” tem a mesma aplicação. Ambos significam a vida
humana que resulta de um corpo animado pelo fôlego da vida. Constantemente a Bíblia
emprega o termo psiquê no sentido de “vida”, principalmente no Novo Testamento. O
sentido neotestamentário de “alma” passou também a abranger a vida eterna àqueles que
aceitam a Cristo e seguem ao evangelho (cf. 1Co.15:51-54 com Mt.19:29). Inúmeros
exemplos podem ser citados como provas de tal fato, como podemos verificar em Mateus
16:25,26:

“Porquanto, quem quiser salvar a sua vida [psiquê] perdê-la-á; e quem perder a vida
[psiquê] por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo
inteiro e perder a sua alma [psiquê]? Ou que dará o homem em troca da sua alma
[psiquê]?”

Os tradutores da maioria das versões preferiram verter psiquê por “vida” do que
propriamente por “alma”, presumivelmente por crerem que ela é imortal e que não pode ser
“perdida”. No v.26, “perder a psiquê” significa perdê-la no fogo do juízo que há de devorar
os rebeldes (cf. Hb.10:26,27; Ap.20:9). Mas, no v.25, Cristo diz que é possível um homem
“perder a psiquê” por Sua causa! Isso evidentemente criaria um dilema teológico de
primeira ordem, razão pela qual os tradutores resolveram o dilema e traduziram psiquê
como “vida” no v.25 e como “alma” no v.26, variando a tradução de psiquê de acordo com a
sua própria ótica do que acreditam ser a melhor correspondência do termo.

Como vimos no capítulo 3, Cristo também disse que aquele que queria segui-lo teria que
odiar a sua alma-psiquê (cf. Jo.12:25). Odiar a "si mesmo" ou a um elemento
transcendental que o próprio Deus tenha implantado no homem, como creem os
imortalistas, não faz qualquer sentido, razão pela qual a maioria das traduções bíblicas tem
vertido a passagem por "vida”. Quando voltamos a Mateus 10:28 e fazemos o mesmo,
interpretando “alma” não como um elemento mas como uma representação da vida
póstuma que adquirimos na ressurreição, vemos que qualquer favorecimento à doutrina da
imortalidade da alma desaparece. O Dr. Samuelle Bacchiocchi também faz importantes
observações sobre o sentido de psiquê como vida eterna:

“Cristo ampliou o sentido veterotestamentário de nephesh-alma como vida física tornando-a


inclusiva da vida eterna recebida por aqueles desejosos de sacrificar a vida presente (alma)
por Sua causa. Encontramos confirmação para o sentido ampliado de alma na redação de
João da mesma declaração de Cristo: ‘Quem ama a sua vida [psychê], perde-a; mas aquele
que odeia a sua vida [psychê] neste mundo, preserva-la-á para a vida eterna’ (João 12:25).
A correlação entre ‘este mundo’ e ‘vida eterna’ indica que alma-psychê é empregada para
referir-se tanto à vida terrena quanto à vida eterna”92

O Dr. Edward Schweizer também faz uma importante observação a este respeito:

92 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 181


“Na versão joanina da declaração de Cristo é evidente que a alma não é imortal, porque
doutro modo não devíamos ser instados a detestá-la. Psychê é a vida dada ao homem por
Deus e que mediante a atitude do homem para com Deus recebe o seu caráter como mortal
ou eterno... Daí nunca lermos da psychê aionios ou athanatos (alma eterna ou imortal),
somente da psychê (alma) que é dada por Deus e mantida por Ele para zoe aionios [vida
eterna]”93

Bacchiocchi ainda acrescenta:

“O significado de alma como vida eterna aparece também em Lucas 21:19, onde Cristo
declara: ‘É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas’. O contexto indica que
Cristo não está falando da preservação da vida terrena, porque Ele prediz que alguns de
seus seguidores serão traídos e postos à morte (v. 16). Aqui a alma-psychê é claramente
entendida como vida eterna conseguida por aqueles dispostos a fazerem um compromisso
total, sacrifical com Cristo. Este é o sentido ampliado que Cristo atribui à alma; um sentido
que nega a noção da alma como uma entidade imaterial, imortal que coexiste com o corpo.
O erro mais tolo que qualquer um pode cometer é ‘ganhar o mundo todo e perder a sua
alma [psychê]’ (Mar. 8:36)”94

Vemos, portanto, que o termo alma-psiquê no NT chegou a incluir o dom da vida eterna que
é recebido por aqueles sacrificam a sua vida terrena por amor a Cristo. Tal imortalidade a
Bíblia nos deixa claro que obteremos a partir da ressurreição dentre os mortos (cf.
1Co.15:51-54), e é neste sentido ampliado de alma-psychê que devemos entender a
declaração de Cristo em Mateus 10:28. Matar o corpo mas não matar a alma significa matar
apenas para esta vida [primeira morte], mas não ter o poder para destruir na morte eterna
[segunda morte]. Deus, contudo, tem o poder para eliminar ambos: tanto para a primeira
morte como para a segunda, no lago de fogo (cf. Ap.20:14), privando o pecador da vida
eterna obtida pelos salvos que comem da árvore da vida (cf. Ap.22:2).

Matar o corpo significa a eliminação desta vida presente, mas isso não mata a alma [vida
eterna] que é recebida por ocasião da ressurreição àqueles que se sujeitaram ao senhorio
de Cristo. Os homens podem, no máximo, pôr alguma pessoa a dormir (morrer), mas nunca
destruí-la em definitivo até a segunda morte, como Deus faz. O corpo está representando
essa presente vida terrena, ao passo que a alma está no sentido da vida póstuma, adquirida
após a ressurreição. Em outras palavras, levando em consideração o sentido ampliado de
“alma” em seus ensinos, o que Cristo estava dizendo era:

“Não temais aqueles que podem pôr um fim à sua existência terrena, mas não podem fazer
nada quanto à vida póstuma, temei antes aquele que pode dar um fim tanto à sua vida
terrena quanto à vida futura”

Outra prova definitiva de que era este o sentido da frase de Jesus é o fato de que esta
mesma passagem encontra eco no evangelho de Lucas, mas este omite a palavra “alma-

93 SCHWEIZER Edward, “Psyche,” Theological Dictionary of the New Testament, ed., Gerhard Friedrich,
(Grand Rapids, 1974), Vol. 9, p. 640.

94 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o


destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 182
psiquê”, presumivelmente para não confundir os leitores com o conceito dualista da época,
explicando o sentido da declaração de Cristo que foi transmitida em termos literais por
Mateus:

“E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que
fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem
poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei” (cf. Lucas 12:4,5)

E é exatamente este o sentido da frase de Cristo. O que Lucas faz é clarear aos seus leitores
aquilo que Jesus estava querendo dizer: não temer aquele que pode matar apenas o corpo
[primeira morte], temei antes aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no
inferno [segunda morte]. Por qual motivo Lucas iria deixar de escrever exatamente as
palavras que Cristo de fato disse, para ao invés disso omitir a palavra “alma-psiquê” e ir
direto para o significado e aplicação da frase? A única razão lógica para isso é que ele não
queria confundir os leitores dualistas da época.

Mais ainda que isso, a passagem no versão de Lucas 12:4-5 (no mesmo texto de Mateus
10:28) nos revela que a alma não vai direto para o “inferno” depois da morte do corpo.
Alguns imortalistas poderiam objetar levantando a questão que Cristo afirmou que “temei
antes aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno”. Para os imortalistas,
a palavra aqui traduzida por “inferno” (que não existe nos manuscritos originais, mas é uma
palavra de origem latina acrescentada depois de muitos séculos), deveria presumivelmente
se tratar do suposto “estado intermediário” em que a alma estaria passando após a morte
do corpo.

Este local, para eles, é o Hades (transliterado grego de “Sheol”). Não iremos voltar
novamente aos conceitos básicos já mostrados sobre Sheol/Hades, até porque já fizemos
isso aqui neste estudo. O que eu quero provar aqui é que Cristo nega que a alma parta de
imediato a um “estado intermediário” após a morte do corpo. Isso nós descobrimos ao
lermos os manuscritos originais do grego:

“upodeixô de umin tina phobêthête phobêthête ton meta to apokteinai tsb=exousian


echonta a=exousian embalein eis tên geennan nai legô umin touton phobêthête” (cf. Lucas
12:5)

Percebam na palavra grifada no texto acima do original grego, que o local para onde Cristo
disse que a alma partiria após a morte do corpo é ao geena. Tal local, contudo, ainda está
para ser inaugurado, após o término do milênio. Em outras palavras, Hades seria onde os
mortos se encontram atualmente sem vida [primeira morte] e geena é o local onde os
ímpios que ressuscitarão serão lançados.

Ao dizer que “temei antes aquele que depois de matar o corpo tem poder para lançar no
inferno [geena]”, Cristo nega em absoluto que exista alguma vida consciente em forma de
espírito incorpóreo no Hades (estado intermediário), porque se fosse assim o que sucederia
a morte do corpo seria o lançamento da alma no Hades. Contudo, após a morte do corpo
lemos que o que sucede é o lançamento no “inferno” [geena], a morte final, ou seja, não
existe um estado intermediário!

O quadro abaixo ilustra o que acima foi dito:

VIDA TERRENA ESTADO INTERMEDIÁRIO ESTADO FINAL


A Lenda da Imortalidade da Alma Página 183
[PRIMEIRA MORTE] [SEGUNDA MORTE]
Morte do corpo (=morte ??????? A alma é lançada no inferno-
para essa vida) geena (=morte eterna)

O quadro acima apenas ajuda a ilustrar o que é aqui exposto. Após a morte do corpo, a
alma é lançada no geena, que ainda não foi inaugurado! Nisso fica nitido a inexistência de
um “estado intermediário” com consciência, pois, se tal sucedesse, então a alma partiria a
um estado intermediário na morte, e não ao estado final pós-ressurreição. Depois da morte
corporal (primeira morte) o que vem direto é o lançamento da alma ao geena [segunda
morte], que é inaugurado depois da ressurreição dos mortos, sem qualquer menção a um
estado intermediário entre a morte e a ressurreição.

As palavras de Cristo em Lucas 14:5 foram exatas e ajudam absolutamente a confirmar a


interpretação correta de Mateus 10:28 em detrimento da posição dos defensores da
imortalidade da alma. Assim, fica ainda mais claro o sentido de alma em Mateus 10:28,
como vemos no quadro abaixo:

VIDA TERRENA ESTADO FINAL

“Não temais aqueles que podem “Temei antes aquele que pode dar
pôr um fim à sua existência um fim tanto à sua vida terrena
terrena, mas não podem fazer quanto à vida futura”
nada quanto à vida póstuma”

Vemos, portanto, que tal passagem de Mateus 10:28 é, mais uma vez, uma arma contrária
à imortalidade da alma. Ela prova a inexistência de um “estado intermediário”, e de fato nos
revela que haverá um dia em que Deus eliminará para sempre os pecadores, em uma
segunda morte final e irreversível. E, se isso não é aniquilamento final, então não sabemos
como isso poderia ser traduzido em palavras.

VIII–Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso?

A última das falsas interpretações dos verdadeiros ensinos de Cristo por parte dos
defensores da doutrina da imortalidade da alma é também uma das últimas mensagens que
Cristo trouxe enquanto ainda estava em vida. Segundo os dualistas, o que Jesus disse ao
ladrão ao seu lado na cruz foi que estaria naquele mesmo dia com ele no Paraíso: “Em
verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (cf. Lc.23:43).

O que poucas pessoas sabem, contudo, é que temos muitas evidências de que o ladrão,
realmente, não esteve no Paraíso naquele dia. Mas como não? A Bíblia não diz claramente
isso? Na verdade, não. O fato é que o original grego não tinha vírgulas, e o texto original
assim reza: “Kai eipen autw amhn soi legw shmeron met emou esh en tw paradeisw” (cf.
Lc.23,43).

Em primeiro lugar, é bom mencionarmos logo que a adição presente em muitas Bíblias, da
palavra “QUE”, não existe nos originais. O que Jesus realmente disse ao ladrão da cruz foi:
“Em verdade te digo hoje estarás comigo no Paraíso”. Como o texto original não possui
vírgulas e o texto deixa em aberto a questão, poderíamos colocá-la em dois lugares
diferentes, entretanto é algo que mudaria completamente o significado da frase.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 184


Esta poderia ser: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (dando a entender
que estaria naquele dia no Paraíso com o ladrão da cruz) ou então: “Em verdade te digo
hoje, estarás comigo no Paraíso” (ele garantia “hoje” que o ladrão estaria no Paraíso).

É algo parecido com uma rebelião em determinada cidade, em que o governante comunicou
a revolta ao seu superior, dizendo: “Devo fazer fogo ou poupar a cidade?” A resposta do
superior foi: “Fogo não, poupe a cidade”. Infelizmente, o funcionário do correio trocou a
vírgula e escreveu o seguinte na resposta do telegrama: “Fogo, não poupe a cidade”.

E assim cidade foi totalmente destruída.

Mas como podemos saber que Jesus realmente não disse: “Em verdade te digo, hoje
estarás comigo no Paraíso”? Temos muitos motivos para desacreditar que o ladrão esteve
naquele mesmo dia com Cristo no Paraíso. Algumas das principais razões são:

Após três dias, Jesus ainda não havia subido ao Pai – Uma verdade que nos é reveladora
para concluirmos que Cristo não esteve com o ladrão da cruz naquele mesmo dia no Paraíso
é o fato de que, após três dias morto, Jesus ainda não havia subido ao Pai, e declarou a
Maria Madalena: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai” (cf. Jo.20:17).
Ora, se Jesus ainda não havia subido ao Pai após três dias, então não poderia ter estado
naquele mesmo dia com o ladrão da cruz no Paraíso!

Alguns imortalistas rejeitam essa evidência pela alegação de que Jesus esteve no Paraíso
"em espírito" nesses dias, mas não corporalmente. Se isso fosse verdade, porém, Cristo
teria mentido a Maria Madalena, já que o texto em questão não faz menção ao corpo de
Nosso Senhor, mas sim ao ser racional dele. O texto não diz que ele não subiu “apenas
corporalmente”, o texto fala da pessoa de Cristo, do ser racional, que o próprio Cristo não
passou pelo Paraíso nos dias em que esteve morto. Admitindo-se que o ser racional seja a
"alma" ou o "espírito", como alegam os imortalistas, seria incoerente crer que Jesus
estivesse apenas se referindo ao corpo. Essa interpretação também fere as regras da lógica
e do bom senso, como observa o prof. Azenilto Brito:

“Para os imortalistas, quando Jesus declarou que não subiu para o Pai em João 20:17 Ele
quis dizer — minha alma é que subiu; agora é que vou completo, corpo e alma... Conclusão
absurda, para dizer o mínimo”95

É evidente que, caso Cristo tivesse subido ao Paraíso, então ele relataria isso a Maria
Madalena ou, no mínimo, omitiria tal declaração tão categórica de que ele não esteve no
Paraíso, optando por dizer algo como “já subi e subirei de novo”. Infelizmente para os
imortalistas, a única coisa que Cristo disse é que ainda não havia subido ao Pai, algo que
não seria verdade caso o “verdadeiro eu” de Cristo já tivesse subido.

Alguns imortalistas, em uma outra tentativa em demonstrar alguma objeção ao argumento


baseado em João 20:17, dizem que o fato de Jesus ter subido ao Pai não implica que ele
tenha ido ao Paraíso, como se o Paraíso ficasse em um lugar e Deus em outro! Esse “Paraíso

95 BRITO, Azenilto Guimarães. "Deixar o corpo e habitar com o Senhor". Disponível em:
<http://www.iasdemfoco.net/defesaPag.asp?Id=114>. Acesso em: 15/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 185


sem Deus” que eles creem certamente não é o Paraíso bíblico, mas um que eles inventaram
no desespero em oferecerem alguma refutação decente ao texto de João 20:17, que por si
mesmo é óbvio e refuta as teses imortalistas. Eles creem que Paulo foi “arrebatado ao
Paraíso” (cf. 2Co.12:4) e não viu nem Deus por lá (seria o mesmo que eu o convidasse a
estar na minha casa e eu mesmo não estivesse lá), e inacreditavelmente interpretam que a
“árvore da vida, que está no Paraíso de Deus” (cf. Ap.2:7), está em um lugar onde nem
Deus está!

Ou seja: que o Paraíso é chamado de “Paraíso de Deus” mas não é onde Deus está! É a
mesma coisa de a minha casa se chamar de “casa do Lucas” mas o Lucas não mora lá. Eles
pensam que Deus estava de “férias” naqueles três dias, longe do Paraíso dele mesmo! Além
disso, notemos que Jesus entregou o seu espírito ao Pai ao morrer (cf. Lc.23:46), e para os
imortalistas esse espírito é a alma imortal que deixa o corpo com consciência e
personalidade após a morte. Sendo assim, é imprescindível que Jesus estivesse com o Pai
naquele mesmo dia, ou senão eles teriam que reformular toda a teologia deles acerca
daquilo que é o “espírito”.

Portanto, a declaração categórica de que Jesus não subiu ao Pai (cf. Jo.20:17) entra em
choque com a crença deles de que o espírito é um ser consciente e racional, visto que por
essa lógica Cristo deveria ter subido ao Pai imediatamente na morte já que havia entregado
o seu espírito a Ele. Ou esse espírito não é um ser consciente e racional como os
imortalistas creem, ou Jesus fez uma encenação ao entregar o seu espírito ao Pai na morte
para depois dizer que ainda não havia subido ao Pai.

Jesus desceu, não subiu – Outro fator de clareza fundamental para concluirmos que Cristo
realmente não subiu ao Pai no dia em que morreu é o fato de que, nos três dias em que ele
esteve morto, ele esteve no Sheol, e não no Paraíso. Tal fato é relatado no livro de Atos,
quando Pedro falava a respeito da ressurreição de Jesus: “Porque não deixarás a minha
alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (cf. At.2:27). Pedro na
realidade usou a passagem do livro dos Salmos em que Davi citava tal passagem, que diz:
“Pois não abandonarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu santo veja a
corrupção” (cf. Sl.16:10). De acordo com o léxico da Concordância de Strong, a palavra
traduzida por "deixar" vem do grego "egkataleipo", que tem o sentido de abandonar:

1459 εγκαταλειπω egkataleipo


de 1722 e 2641; v
1) abandonar, desertar.
1a) deixar em grandes dificuldades, deixar abandonado.
1b) totalmente abandonado, completamente desamparado.
2) deixar para trás, desistir de sobreviver, falecer.

Como vemos, a alma de Jesus foi retirada do Sheol ao ser ressuscitado, e não do Paraíso.
Ele não viu a corrupção pois não foi deixado abandonado no Sheol, onde esteve enquanto
morto, mas foi retirado de lá apenas três dias depois. Aqui vemos mais uma vez que Sheol
significa sepultura, a "cova da corrupção" (cf. Is.38:17), e o detalhe é que Pedro e o
salmista declaram que foi o local para onde a alma de Cristo — e não apenas o corpo —
esteve na morte.

No grego de Atos 2:27:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 186


"oti ouk egkataleipseis tên psuchên mou eis a=adên tsb=adou oude dôseis ton osion sou
idein diaphthoran" - Atos 2:27

No hebraico do Salmo 16:10:

"iy lo'-tha`azobh naphshiy lish'ol lo'-thittênchasiydhkha lir'oth shâchath" - Salmos 16:10

O próprio Cristo afirmou que esse Sheol (transliterado ao grego como "Hades") fica nas
regiões inferiores da terra, em oposição ao Paraíso: “E tu, Cafarnaum, será elevada até ao
céu? Não, você descerá até o Hades! Se os milagres que em você foram realizados
tivessem sido realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje” (cf. Mt.11:23; ver
também: Ef.4:9; Mt.12:40).

Portanto, vemos que a alma de Cristo passou os três dias em que esteve morto no Sheol,
que não é o Paraíso, muito pelo contrário, está em um local em oposição a ele (cf.
Mt.11:23). O Filho do homem estaria “três dias e três noites no coração da terra” (cf.
Mt.12:40), não apenas de forma corporal, mas como alma, conforme diz a profecia do
salmista (cf. Sl.16:10) e a confirmação do apóstolo Pedro (cf. At.2:27), e não no Paraíso.
Tendo isso em mente, até aqui podemos perceber que:

• O ser racional de Cristo não passou pelo Paraíso nos três dias em que esteve morto (cf.
João 20:17).

• A alma de Cristo não esteve no Paraíso nos dias em que este esteve morto, mas no Sheol
(cf. At.2:27; Sl.16:10), que fica nas regiões inferiores da terra (cf. Ef.4:9; Mt.12:40), em
oposição ao Paraíso (cf. Mt.11:23), e não no próprio Paraíso.

Tudo isso já nos mostra que Jesus não pode ter dito que o ladrão estaria com Ele naquele
mesmo dia no Paraíso, se nem o próprio Cristo esteve no Paraíso nos dias de sua
morte. A interpretação correta de Lucas 23:43 deve estar de acordo com as regras da
hermenêutica, que afirma que a Bíblia explica a própria Bíblia. Sendo que é tão nítido
biblicamente que Cristo não esteve no Paraíso quando morreu, a interpretação correta de
Lucas 23:43 é contrária à oferecida pelos imortalistas.

Numa tentativa desesperada em negarem o óbvio e tentarem conciliar suas teses com
aquilo que a Bíblia declara taxativamente sobre para onde Cristo foi após a morte, alguns
imortalistas afirmam que Jesus esteve no Sheol mas ao mesmo tempo esteve com o ladrão
da cruz no Paraíso, fazendo uso de sua onipresença. Tais malabarismos exegéticos só são
feitos para negar a clareza da linguagem bíblica sobre a mortalidade da alma, pois em
outras circunstâncias nenhum deles diz que Jesus, enquanto esteve entre nós, vivia em dois
lugares ao mesmo tempo.

Ninguém afirma que Jesus viva em Nazaré mas simultaneamente estava no Egito, na
América, no Paraíso e no Hades. Enquanto Jesus esteve limitado a um corpo, ele jamais fez
uso do atributo da onipresença. Ele era um homem, e, assim como nós, se estava em um
lugar, não estava em outro. Jesus não nasceu em todos os lugares do mundo por ser
onipresente, ele nasceu em Belém. Jesus não cresceu em todos os lugares do mundo por
ser onipresente, ele cresceu em Nazaré. Jesus não pregava em todos os lugares do mundo
por ser onipresente, ele pregava no Templo. Jesus não morreu em todos os lugares do
mundo por ser onipresente, ele morreu no Gólgota.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 187


Da mesma forma, após a morte Jesus não estava no Sheol e ao mesmo tempo no Paraíso
por ser onipresente, a Bíblia diz que ele passou os três dias e três noites no Sheol. Jesus
esvaziou-se a si mesmo ao se fazer humano (cf. Fp.2:6,7), ele só voltou a fazer uso de seus
atributos divinos na glorificação. Nasceu, cresceu, viveu e morreu como homem. E, como
homem, não esteve em dois lugares ao mesmo tempo, seja na vida ou na morte. Isso por si
só já é mais que o suficiente para liquidar com a antibíblica tese de que o ladrão esteve com
Cristo naquele mesmo dia no Paraíso, mas prosseguiremos com mais provas em diante para
enriquecermos ainda mais as evidências deste estudo sobre Lucas 23:43.

O contexto – O que foi dito pelo ladrão da cruz no verso anterior a esta resposta de Cristo
(no verso 42), no original grego foi: μνήσθητί = Lembra-te \ μου = de mim \ ὅταν =
quando \ ἔλθῃς = vier \ εἰς = em \ τη ὴ ν = o \ βασιλείαν = Reino \ σου = de ti. Ou seja,
“Lembra-te de mim quando vieres no teu Reino”. Tal é o texto original no grego e
confirmado pelas melhores versões a nossa disposição, tais como a versão Trinitariana, a
Versão Italiana de G. Deodatti, a Francesa L. Segond, a Inglesa de King James, Almeida
Revisada e Atualizada, entre outras.

Cristo buscava assegurar ao ladrão da cruz que não precisava pensar em termos de tempo
tão remoto para ser lembrado por Ele. “Hoje lhe garanto que estarás comigo no
Paraíso”, é o sentido lógico diante de tal contexto. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se
dele no futuro quando Ele viesse no Seu Reino visível (v.42), mas Jesus respondeu o
lembrando imediatamente - “hoje” - assegurando que estaria com Ele no Paraíso.

“Em verdade te digo hoje”, isto é, eu lembro agora mesmo, não precisa pensar em um
tempo tão distante, hoje mesmo eu te digo que você estará comigo no Paraíso. Esse é o
sentido lógico pelo contexto. Note que o próprio ladrão sabia que não iria ao Céu
imediatamente após a morte, já que pediu para Cristo se lembrar dele “quando viesse
em seu Reino”, ou seja, na segunda vinda de Cristo.

O ladrão não morria naquele mesmo dia – Um condenado a morte de cruz geralmente
demorava dias para morrer na cruz. Lemos em João 19:31-33 um costume antigo realizado
pelos judeus: “Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto
como era a Preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que lhes
quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade,
quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas vindo a
Jesus, e vendo-O já morto, não lhe quebraram as pernas” (cf. Jo.19:31-33).

Qual seria a razão pela qual devia-se quebrar as pernas dos crucificados? Porque o
crucificado não morria no mesmo dia. Cristo foi exceção ao caso porque expirou antes (cf.
Lc.23:46), ele não morreu como resultado da hemorragia. Os outros, contudo, ainda
ficavam vivos agonizando durante dias – não poderiam estar com Cristo naquele mesmo dia
em questão. Isso é o que a História e a Bíblia Sagrada nos mostram. Diz o comentário de J.
B. Howell:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 188


“O crucificado permanecia pendurado na cruz até que, exausto pela dor, pelo
enfraquecimento, pela fome e a sede, sobreviesse a morte. Duravam os padecimentos
geralmente três dias, e às vezes, sete"96

Arnaldo B. Christianini segue na mesma linha e afirma:

“Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados
na cruz, e lá ficaram diversos dias, até morrerem (...) Se era necessário quebrar as pernas
aos dois malfeitores, antes do pôr do sol, é porque não haviam morrido ainda. Na pior das
hipóteses viveram ainda, pelo menos, um dia a mais do que o Mestre. Como podia, um
deles, estar no mesmo dia junto de Jesus?”97

Vemos, portanto, que historicamente os ladrões que morriam na cruz não faleciam no
mesmo dia da crucificação. E a Bíblia confirma isso? Sim, confirma. Na passagem
anteriormente citada, vemos que “os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os
corpos na cruz, visto que era véspera do sábado, pediram a Pilatos que se lhes quebrassem
as pernas, e fossem tirados” (cf. Jo.19:31). Por que as pernas dos crucificados foram
quebradas? Para matá-los logo? Se alguém quisesse matá-los, bastaria uma lancetada no
coração ou no fígado deles (como foi feita com Cristo porque viram que já estava morto).

A finalidade em quebrar as pernas deles não era para matá-los, mas porque havia uma
tradição entre os judeus que não permitia que o condenado ficasse dependurado na cruz no
dia de sábado. Por isso, lhes quebravam as pernas e era descido do madeiro e assim
permanecia até o fim do sábado. Prova ainda mais forte de que tal procedimento não
resultava em morte imediata dos crucificados é a grande surpresa de Pilatos (experiente em
crucificações) em ver que Jesus já havia morrido:

“E Pilatos se admirou de que {Cristo} já estivesse morto” (cf. Marcos 15:44)

Pilatos ficou pasmo em ver que Jesus já estivesse morto. Certamente deveria ter dito algo
como: “Já morreu?!” Por que Pilatos “se admirou”? Por certo, Pilatos, veterano em mandar
pessoas para cruz, já familiarizado com as crucificações, admirou-se diante de um fato
inusitado: era algo incomum alguém morrer no mesmo dia da crucificação! O léxico de
Strong define a palavra aqui traduzida por "admirou-se" como sendo:

2296 θαυμαζω thaumazo


de 2295; TDNT - 3:27,316; v
1) admirar-se, supreender-se, maravilhar-se.
2) estar surpreendido, ser tido em admiração.

Assim vemos que o fato de alguém morrer naquele mesmo dia da crucificação era algo
extraordinário, bem fora do normal, um fato que causa espanto, surpresa, admiração. Foi
assim com Jesus, mas nada indica que tenha assim sido também com os ladrões ao seu
lado na cruz. Ao contrário, a evidência indica que eles permaneceram vivos depois da morte
de Cristo, pois este foi o único a ter o lado furado por uma lança por já ter morrido naquele

96 Comentário de S. Mateus, p. 500.

97 CHRISTIANINI, Arnaldo. Sutilezas do Erro. Casa Publicadora Brasileira, 1ª edição. São Paulo: 1965, p.
222.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 189


mesmo dia (cf. Jo.19:33-34), os demais permaneceram vivos dependurados do madeiro até
o fim do sábado para depois serem outra vez amarrados à cruz. Não era intenção dos
romanos matá-los, mas deixá-los sofrendo (cf.Jo.19:32).

Concluímos, pois, que historicamente e biblicamente o ladrão não morria naquele mesmo
dia, e isso, unido às razões já apresentadas, nos mostra claramente que o ladrão não
poderia estar naquele mesmo dia com Cristo no Paraíso – que, por sinal, também não subiu
por lá enquanto esteve morto (cf. Jo.20:17; At.2:27).

Evidências Históricas – Como já foi demonstrado, no original grego (Koiné) em que a Bíblia
foi escrita não existia vírgulas, o que dá margens para os tradutores as colocarem de acordo
com as suas tradições religiosas. Mas, posteriormente, o grego passou a ter vírgula, e como
era costume dos Pais da Igreja citarem constantemente as Escrituras em seus próprios
escritos, eles transcreveram o texto de Lucas 23:43 da forma mais coerente que vimos
acima: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no Paraíso”. Por exemplo, Hesíquio de
Jerusalém, que foi um cristão presbítero e exegeta do quinto século d.C, transcreveu essa
passagem de Lucas 23:43 da seguinte maneira:

“Verdadeiramente eu lhe falo hoje”98

Teofilacto declarou o mesmo ao escrever Lucas 23:43 do seguinte modo:

“Verdadeiramente eu lhe falo hoje”99

Como vemos, os próprios Pais da Igreja de épocas posteriores (onde já existia a vírgula)
reconheciam que Jesus lhe falava “hoje” que o ladrão estaria com Ele no Paraíso, e não que
o ladrão estaria no Paraíso naquele mesmo dia. Vale ressaltar um detalhe importante: a
maioria dos Pais da Igreja, especialmente a partir do terceiro século d.C, começaram a
adotar a tese da imortalidade da alma, contrariando a visão de dois séculos de Cristianismo
(conforme já conferimos no capítulo 2 deste livro). Isso significa que estes Pais da
Igreja, mesmo sendo imortalistas, reconheciam que a forma gramatical do grego
apontava que a vírgula deveria ser colocada depois do “hoje”.

O mesmo acontece nos dias de hoje: vários imortalistas já abandonaram este “argumento
de Lucas 23:43”, uma vez que perceberam que a passagem pode perfeitamente ser
entendida e interpretada dentro do prisma mortalista, sem qualquer problema. A
interpretação de que Lucas 23:43 é uma “prova” da imortalidade da alma só começou a
surgir vários séculos depois, quando começaram a pedir provas bíblicas que
fundamentassem essa doutrina, e, sem encontrar quase nenhuma, tiveram que apelar para
passagens como essa, que nem mesmo os primeiros imortalistas lançaram mão dela,
entendendo que a pontuação realmente era contra, e não a favor da tese deles neste texto.

Vale também ressaltar que não foram apenas os Pais da Igreja que entenderam que a
vírgula em Lucas 23:43 deve ser colocada antes do “hoje”, pois muitos outros manuscritos
antigos atestam o mesmo. Os Manuscritos Bc e Sy-C, Antigo Siríaco, que são

98 Hesichius de Jerusalem, em Patrologia Grega, Volume Noventa e Três, 1433.

99 Teofilacto em Patrologia Grega, em Patrologia Grega, Volume Cento e Vinte e Três, 1104.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 190


grandemente respeitados na comunidade acadêmica e apologética e que datam do terceiro
século AD, sendo um dos manuscritos do NT mais importantes que temos até hoje, verte o
texto de Lucas 23:43 colocando a vírgula depois do “hoje”:

"Eu digo a você hoje, que Comigo tu deve estar no Jardim de Éden"100

Por fim, o próprio Vaticanus 1209, um dos melhores manuscritos gregos do Novo
Testamento, que data do século IV d.C e que é uma das fontes pelas quais os estudiosos
mais trabalham na identificação do original do NT, traz o seguinte em Lucas 23:43:

Note que no texto grego há um ponto depois da palavra “semeron” (dia), e não antes dela.
Este Condex Vaticanus foi considerado por Westcott e Hort como o melhor manuscrito grego
do NT, e é também um dos manuscritos mais antigos da Bíblia, sendo inclusive mais antigo
do que o Codex Sinaiticus. É interessante também os comentários do erudito Earle Ellis em
sua obra “The Gospel of Luke”, no comentário da Bíblia New Century:

“Alguns manuscritos produzidos razoavelmente cedo colocam a vírgula depois de ‘hoje’ e


assim, continuam com a referência a parousia do verso 42”101

Isto, sem dúvida, mostra que este erudito sabe a respeito da pontuação no Ms Vaticanus
em Lucas 23:43, bem como em outros respeitados manuscritos antigos.

A gramática – Ainda que o texto original não possua vírgulas, a forma linguística em que ele
é escrito nos ajuda a desvendarmos qual é o seu real sentido na passagem em pauta. No
português, quando traduzimos a frase podemos colocá-la em antes ou depois do advérbio
“hoje” (como vimos acima), e ambas as traduções aparentemente podem dar sentido real à
frase. Contudo, quando pegamos os manuscritos originais no grego e ponderamos em onde
colocar a vírgula, tal não faz sentido se ela for colocada antes do “hoje”, como querem os
imortalistas. Por quê? Simplesmente porque isso criaria um dilema de primeira ordem por
falta de lógica no próprio texto.

Grande parte dos tradutores simplesmente ignoram a palavra ἐμο ῦ = de mim. Sem
considerar esta palavra o sentido original do foi dito se perde. Vejamos a tradução do verso
palavra por palavra:

καιὴ = E \ εἶπεν = disse \ αὐτῷ = a ele \ Ἀμήν = amém \ σοι = a ti \ λέγω = digo \
σήμερον = hoje \ μετ᾿ = depois \ ἐμοῦ = de mim \ ἔσῃ = serás \ ἐν = em \ τῷ = o \
παραδείσῳ = paraíso.

100 Manuscritos Bc e Sy-C - Antigo Siríaco.

101 Publicado por Wm.B.Eerdmans Publishing Co. Grand Rapids Michigan, reprint of 1983.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 191


A palavra μετ᾿ significa “comigo”, como também significa “depois”, se você considerar que
μετ᾿ está no sentido de “comigo”. Necessariamente, temos que ignorar a palavra ἐμο ῦ = de
mim. Comigo de mim, não faz sentido algum. A vírgula não pode ficar antes de “hoje”. A
vírgula deve ser colocada após o “hoje” e também após o “depois”. Considerando todas as
palavras como elas são literalmente e traduzindo corretamente, o sentido original do foi dito
fica muito claro:

“E disse a ele; Amém a ti digo hoje, depois, de mim serás em o paraíso”. Depois de todas as
coisas concluídas, o ladrão com certeza absoluta será do nosso Salvador. Jesus entregou ao
ladrão da cruz a promessa de que este estaria no Paraíso. ‘Hoje’ é o momento em que esta
promessa lhe foi dita. Naquele momento Cristo assegurou a ele tal promessa.

Mas em resposta a que foi feita a promessa?

Verso 42... μνήσθητί = Lembra-te \ μου = de mim \ ὅταν = quando \ ἔλθῃς = vier \ εἰς
= em \ τη
ὴ ν = o \ βασιλείαν = Reino \ σου = de ti.

“Lembra-te de mim quando vier em o reino de ti”. O ladrão tinha dúvida se aquilo poderia
ser possível e, por isso, seu pedido a Jesus foi que este se lembrasse dele, não quando
morresse, mas quando Ele viesse em seu poder visível. Então, naquele momento, o
hoje, Cristo lhe deu esta certeza. Ele lhe garantiu: “depois, de mim serás em o paraíso”.

A preposição μεταὴ indica um tempo – depois; após; além de. Depois que todas as coisas
forem concluídas, quando Cristo vier na Sua Glória, o ladrão estará na glória com o Senhor
Jesus. Naquele momento, o ‘hoje’ do verso, o ladrão recebeu a certeza de que, no futuro,
estaria com Cristo no Paraíso.

ἐμοῦ ou μου é um pronome na primeira pessoa do singular, que não pode ser ignorado. No
grego a pontuação não é absolutamente necessária para a compreensão textual, mas no
português se você não organizar as palavras da maneira correta e usando a pontuação, o
texto fica sem nenhum sentido, e ainda dá margens para más interpretações.

Refutando objeções – A principal objeção sustentada pelos defensores da imortalidade da


alma neste texto é que seria inteiramente desnecessário a adição do "hoje", pois se Jesus
dizia aquilo naquele momento (o "hoje") não seria preciso adicionar que estava dizendo
aquilo hoje. Em resposta a essa objeção, devemos ressaltar, em primeiro lugar, que é muito
comum na Bíblia a utilização do "hoje" em construções de frases em muito semelhantes à
de Lucas 23:43. Por dezenas de vezes vemos declarações semelhantes que são precedidas
pelo "hoje", como, por exemplo:

(Jeremias 42:21) - E vo-lo tenho declarado hoje; mas não destes ouvidos à voz do Senhor
vosso Deus, em coisa alguma pela qual ele me enviou a vós.

(Deuteronômio 6:6) - E estas palavras, que te ordeno hoje, estarão no teu coração.

(Deuteronômio 11:8) - Guardai, pois, todos os mandamentos que eu vos ordeno hoje,
para que sejais fortes, e entreis, e ocupeis a terra que passais a possuir.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 192


(Deuteronômio 30:18) - Então eu vos declaro hoje que, certamente, perecereis; não
prolongareis os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a
possuas.

(Deuteronômio 4:40) - E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que te


ordeno hoje para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os
dias na terra que o Senhor teu Deus te dá para todo o sempre.

(Atos 20:26) - Portanto, eu lhes declaro hoje que estou inocente do sangue de todos.

As passagens acima são apenas alguns exemplos do emprego do "hoje" na mesma


construção de frase que observamos em Lucas 23:43. Constatamos facilmente que
expressões semelhantes a essa são utilizadas aos montões na Bíblia:

"...te ordeno hoje" (cf. Dt.6:6; 11:8; 4:40; 30:11; 27:10; 15:5; 30:8; 27:1; 10:13;
11:13; 15:5; 8:11; 28:14; 27:4; 13:18; 19:9; 8:1; 1:28; 28:1; 28:13)

"...declaro hoje" (cf. Je.42:21; Dt.30:18; At.20:26)

"...testifico hoje" (cf. Dt.8:19; 32:46)

"...ponho hoje" (cf. Dt.4:8)

"...proponho hoje" (cf. Dt.30:15; 11:32)

"...vos mando hoje" (cf. Dt.11:27)

"...vos anuncio hoje" (cf. Zc.9:12)

Lucas 23:43 não faz parte de uma exceção, faz parte de uma regra. De fato, o Dr. Rodrigo
Silva, em sua tese de doutorado na Pontífica Faculdade de Teologia Nossa Senhora da
Assunção, intitulada "Análise Linguística do Sémeron em Lucas 23:43", provou com base em
uma minuciosa investigação das ocorrências do advérbio sémeron nos textos gregos do
Antigo Testamento (tradução da Septuaginta) e do Novo Testamento que “na maioria
absoluta dos casos” em que existe uma ambiguidade semelhante à de Lucas 23:43, “a
ligação de sémeron com o primeiro verbo demonstrou-se a mais natural”. A expressão
"hoje" ligada ao verbo não é redundante, é enfática, e ocorre aos montões na Bíblia. Mesmo
se fosse uma exceção, isso de modo nenhum invalidaria o argumento, visto que exceções
também existem na Bíblia em grande quantidade.

Além disso, alegam também que Jesus se expressou diversas vezes dizendo "em verdade te
digo" além de em Lucas 23:43, mas que em nenhuma delas ele adicionou o "hoje", à
exceção de Marcos 14:30. Sendo assim, se Jesus não teve uma boa razão para mudar sua
forma habitual de dizer o "em verdade te digo", ele deve ter se expressado conforme os
imortalistas creem. O que eles não são capazes de imaginar, porém, é que existe uma boa
razão pela qual Jesus adicionou o 'hoje'. E isso está totalmente relacionado ao verso
anterior, em que o ladrão diz: “και ελεγεν τω ιησου μνησθητι μου κυριε οταν ελθης εν τη
βασιλεια σου”, corretamente traduzido por: “Lembra-te de mim quanto vieres no teu
Reino”.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 193


A palavra grega aqui traduzida por "vir" (e que algumas versões traduzem por "entrar") é
erchomai, que, de acordo com o NAS New Testament Lexicon grego, significa: "vir de um
lugar para outro". Ainda segundo o léxico do grego, na grande maioria das vezes em que
essa palavra aparece no Novo Testamento significa vir:

Vieram: 225 vezes.


Vêm: 222 vezes.
Vem: 64 vezes.
Chegando: 87 vezes.
Foi: 18 vezes.
Vai: uma vez.
Chegou: uma vez;
Entrou: duas vezes.

Esse verbo aparece mais de quinhentas vezes ligado a "vir" e apenas duas vezes ligado
a "entrar", e mesmo assim muitas traduções preferiram traduzir por "quando entrar no teu
Reino", para dar algum sentido à declaração posterior de Cristo de que estaria naquele
mesmo dia com Ele no Paraíso. O Thayer's Greek Lexicon afirma que essa palavra tem
relação com: (a) a volta invisível de Cristo do Céu; (b) equivalente a vir para fora, mostrar-
se. De acordo com Buttmann, "quando é usado com substantivos de tempo, expressa um
sentido futuro, virá" (Buttmannm 204; Winer Gramática § 40, 2). Alguns exemplos de
quando esse verbo ocorre na Bíblia são:

(Mateus 3:7) - Mas, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham
[erchomenous] para o batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da
ira vindoura'?

(Mateus 3:11) - Eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem
[erchomenos] depois de mim é maior do que eu e eu não sou digno nem mesmo de lavar as
suas sandálias.

(Mateus 3:14) - João, porém, tentou impedi-lo, dizendo: 'Eu preciso ser batizado por você,
e você vem [erche] a mim?

(Mateus 3:16) - Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento os céus se
abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo [erchomenon] sobre
ele.

(Mateus 5:17) - Não pensem que vim [elthon] para abolir a lei ou os profetas; não vim
[elthon] para abolir, mas para cumprir.

(Mateus 6:10) - Venha [eltheto] o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra com
no Céu.

A nota de rodapé da Nova Versão Internacional também faz uma importante observação em
Lucas 23:42:

"Muitos manuscritos dizem: 'quando vieres no teu poder real'" (NVI)

Os judeus criam que a vinda do Messias acarretaria na vinda imediata do Reino em sua
forma visível, com um Cristo político e libertador. Contudo, a vinda de Jesus trouxe o Reino
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 194
em sua forma espiritual, dando-nos vitória sobre as forças das trevas. Quando o ladrão
pede para ser lembrado por Cristo “quando vieres [erchomai] no teu Reino”, ou
"quando vieres no teu poder real", conforme muitos manuscritos antigos trazem, ele
revela a sua convicção de que ele só voltaria à vida novamente quando a vinda visível do
Reino de Cristo for consumada, pois é somente neste momento (da segunda vinda de
Cristo, a Sua Volta Gloriosa), que os mortos serão ressuscitados.

O ladrão sabia que ele iria morrer e pede para ser lembrado por Cristo naquele dia tão
esperado em que Ele viesse em Seu reino em sua forma visível, destruindo o poder da
morte e dando vida aos mortos. É neste momento que o ladrão queria ser lembrado por ele,
porque é somente neste momento em que os mortos ressuscitam para estar com Cristo.
Jesus, então, declara ao ladrão que não precisava pensar em tempos tão remotos para ser
lembrado por ele, mas que hoje mesmo lhe garantia que com Ele estaria no Paraíso. Ele
não precisaria ficar na ansiedade da volta de Jesus para ser lembrado somente dois mil
anos depois para saber de seu destino final, pois naquele mesmo momento, o "hoje" em
questão, Cristo lhe assegurava a salvação.

O verso 42, portanto, deixa claro que o próprio ladrão sabia que não entraria no Paraíso
naquele mesmo dia, por isso pediu para ser lembrado por Cristo somente quando na Sua
Segunda Vinda. Cristo, então, lhe assegurou naquele mesmo dia que o ladrão estaria com
ele no Paraíso. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no futuro quando Ele viesse em
seu poder visível, mas Jesus respondeu lembrando a ele imediatamente, o “hoje” do verso,
e garantindo que com Ele seria no Paraíso. Sendo assim, o emprego do "hoje" no verso 43
não é desnecessário e nem redundante. Ele não apenas serve para enfatizar como ocorre
em outras dezenas de vezes na Bíblia, mas também para antecipar a garantia da salvação
ao crucificado. Como observa Bacchiocchi:

“A razão para esta ligação excepcional do advérbio ‘hoje’ à frase ‘verdadeiramente, te digo’
poderia muito bem ser o contexto imediato. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no
futuro quando estabelecesse o Seu reino messiânico. Mas Jesus respondeu lembrando ao
penitente ladrão imediatamente, ‘hoje’, e por reassegurar-lhe que ele com Ele estaria no
Paraíso”102

Mas e as traduções bíblicas? – É alegado também pelos imortalistas que, se a vírgula deve
ser colocada depois do "hoje", e não antes dele, como foi provado aqui tendo em vista todo
o contexto textual, a gramática do texto em grego, a hermenêutica, os documentos antigos
e as evidências históricas, então praticamente todas as versões que existem hoje estão
todas adulterando a Bíblia, e que a única versão correta das Escrituras seria a "Tradução
Novo Mundo", das Testemunhas de Jeová, que traduz o verso desta maneira.

Isso simplesmente não é verdade. É fato que as traduções que optaram por colocar a
vírgula depois do "hoje" erraram, mas elas não erraram por desonestidade (o que seria
adulteração na Bíblia), pois o verso realmente deixa em aberto as duas traduções no grego
em primeira instância, mas por seus próprios pressupostos teológicos, pois todas elas
defendem a tese de imortalidade da alma. Igor Miguel, um erudito do grego bíblico,
esclareceu sobre a questão das traduções bíblicas nas seguintes palavras:

102 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 195


"Sabe-se que toda tradução é naturalmente interpretativa e hermenêutica. Ou seja, está
sempre submetida aos conceitos e ponto de vista do tradutor. Há os que sustentam uma
'imparcialidade' ou 'neutralidade' em traduções. Porém, cientificamente, sabe-se que a
'neutralidade' é um mito. O tradutor pode tender à 'imparcialidade', porém sempre há algo
de sua individualidade e subjetividade que estarão presentes em sua produção textual.
Nesta mesma linha, há o mito da 'tradução fiel', que é tratar a tradução como uma
reprodução literal e precisa da fonte primária. Em outras palavras, uma tradução da Bíblia
em português (ou qualquer outra língua) que se diga 100% fiel às fontes originais. O ideal
de uma 'tradução fiel' é uma impossibilidade técnica, não há como fazer uma tradução que
reproduza fielmente, em todos os aspectos, o que o autor quis dizer. Pois é óbvio, que o
sentido de um texto só pode ser entendido em todas suas dimensões de significado, quando
inserido em sua língua e contexto originais. Ao passar este significado ou sentido para uma
outra língua, há perdas, limitações naturais que ocorrem pelo simples fato de ser uma
tradução"103

E ele conclui dizendo:

"Por isto, não existem traduções perfeitas, ou uma que possa ser considerada a melhor.
Existem boas traduções da Bíblia publicadas por editoras Evangélicas, Católicas e Judaicas,
porém, estão todas suscetíveis às críticas e às mesmas vulnerabilidades textuais que já
foram mencionadas... toda tradução tem seu valor, o que não anula obviamente, suas
limitações"104

Essas colocações são decididamente importantes porque nos ajudam a compreender a razão
pela qual a grande maioria dos tradutores optaram por colocarem a vírgula antes do "hoje":
porque estão tendenciados a isso em vista de seus próprios conceitos teológicos. Isso é
muito diferente de dizer que eles "adulteraram" a Bíblia. Significa apenas que, quando
chega a um ponto de disputa teológica, sempre optam por seguir a linha teológica que a
determinada sociedade bíblica adota - na maioria dos casos, a de imortalidade da alma. Por
isso, é evidente que as traduções de imortalistas (como as Almeidas ou as católicas) vão
optar por colocar a vírgula antes do "hoje", ao passo que as traduções de mortalistas (como
TJS ou adventistas) vão optar por colocar a vírgula depois do "hoje".

Isso não representa nada em questão de exegese, porque a obrigação do tradutor não é de
ser um exegeta, mas meramente de traduzir. Quem terá o trabalho de reunir todas as
evidências bíblicas na busca da compreensão correta do texto são os eruditos bíblicos, os
críticos textuais, não os tradutores. Por isso, a grande quantidade de versões bíblicas com a
vírgula colocada antes do hoje apenas reflete que a grande maioria dos tradutores são
imortalistas, nada a mais do que isso. Se a maioria fosse mortalista (o que algum dia pode
chegar a ser), a maioria colocaria a vírgula depois do "hoje".

Isso obviamente não implica que as versões que se equivocaram colocando a vírgula antes
do "hoje" estejam erradas em seu todo, nem muito menos implica que as traduções que
optaram pela vírgula depois do "hoje" estejam certas em todo o resto. Todas as traduções

103 MIGUEL, Igor. Problemas da Bíblia Hebraica em Português. Disponível em:


<http://www.welingtoncorp.xpg.com.br/biblia_hebraica_portugues.pdf>. Acesso em: 15/08/2013.

104 ibid.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 196


bíblicas erram em alguns pontos e acertam em outras, e todas as traduções bíblicas tendem
pelo lado teológico aceito por eles quando há uma passagem de tradução livre e fruto de
interpretação bíblica.

Além disso, não é verdade que a Tradução Novo Mundo seja a única que coloca a vírgula
depois do "hoje". Outras versões, como a Tradução Trinitariana, em português, editada em
1883 pela “Trinitarian Bible Society” de Londres, diz:

“Na verdade te digo hoje, que serás comigo no Paraíso”

Da mesma forma, o Emphasized New Testament, de Joseph B. Rotherham, impresso em


Londres, em 1903, assim traduz Lucas 23:43:

“Jesus! Lembra-te de mim na ocasião em que vieres no Teu reino. E Ele disse-lhe: Na
verdade, digo-te neste dia: Comigo estarás no Paraíso”

O The New Testament, de George M. Lamsa, diz:

“Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso”

A chamada Concordant Version, em inglês, assim traduz:

“E Jesus lhe disse: ‘Na verdade a ti estou dizendo hoje, comigo estarás no Paraíso'”

O famoso Manuscrito Curetoniano da Versão Siríaca, que está hoje no Museu Britânico,
assim diz:

“Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, que comigo estarás no Jardim do Éden”

O comentário da Oxford Companion Bible ainda diz:

“’Hoje’ concorda com ‘te digo’ para dar ênfase à solenidade da ocasião; não concorda com
‘estarás’”,

No Apêndice n°. 173, a famosa Oxford Companion Bible acrescenta:

“A interpretação deste versículo depende inteiramente da pontuação, a qual se baseia toda


na autoridade humana, pois os manuscritos gregos não tinham pontuação alguma até o
nono século, e mesmo nessa época somente um ponto no meio das linhas, separando cada
palavra... A oração do malfeitor referia-se também àquela vinda e àquele Reino, e não a
alguma coisa que acontecesse no dia em que aquelas palavras foram ditas".

E concluem dizendo:

“E Jesus lhe disse: ‘Na verdade te digo hoje’ ou neste dia quando, prestes a morrerem, este
homem manifestou tão grande fé no Reino vindouro do Messias, no qual só será Rei quando
ocorrer a ressurreição – agora, sob tão solenes circunstâncias, te digo: serás comigo no
Paraíso”.

Por fim, a versão impressa da Nueva Reina Valera de 2000 assim traduz:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 197


"Então Jesus lhe respondeu: ‘Eu te asseguro hoje, estarás comigo no paraíso’"

Portanto, é simplesmente falsa a afirmação de que a única versão da Bíblia que traduz
Lucas 23:43 da maneira correta é a Tradução Novo Mundo das Testemunhas de Jeová.

De fato, Lucas 23:43 é uma mensagem em que Cristo diz ao ladrão da cruz: "Em verdade
te digo hoje, estarás comigo no Paraíso", mas que os tradutores bíblicos imortalistas
preferiram por suas próprias convicções teológicas traduzirem por: "Em verdade te digo,
hoje estarás comigo no Paraíso".

E assim exegese foi totalmente destruída.

IX–Um espírito não tem carne e ossos

Depois que Jesus ressuscitou, ele apareceu aos discípulos, que se assustaram, pensando
estar vendo um espírito, ao que ele responde dizendo que um espírito não tem carne e
ossos como ele tinha:

"E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes:
Paz seja convosco. E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum
espírito. E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos
aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me
e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho" (cf. Lucas
24:36-39)

Para os imortalistas, se Jesus cresse na mortalidade da alma teria dito que não existia
espírito, e não que um espírito não tem carne e osso. A resposta para essa alegação
imortalista é muito simples: Jesus não poderia ter dito que não existem espíritos pela
simples razão de que os anjos (bem como os demônios) são espíritos (cf. Hb.1:14), assim
como o próprio Deus (cf. Jo.4:24).

Portanto, se Jesus simplesmente dissesse que "não existem espíritos" ele estaria negando a
existência de Deus, dos anjos e dos demônios. Tudo aquilo foi fruto do desespero
momentâneo dos discípulos de Cristo ao ver alguém misteriosamente entrando "do nada"
no meio da casa, que estava "com as portas fechadas" (cf. Jo.20:26), sem chances de
algum desconhecido "aparecer" no meio deles. Então, no pânico, eles pensaram "estar
vendo um espírito", que poderia ser um anjo do bem ou do mal, ou até mesmo um
fantasma, como ocorreu em outra ocasião, em que os discípulos pensaram estar vendo um
fantasma na hora do pânico, ao ver o mesmo Jesus andando por sobre as águas:

"E, vendo que se fastigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta
vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante.
Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, acharam que era um fantasma, e deram
grandes gritos" (cf. Marcos 6:48,49)

Qualquer um sabe que fantasmas não existem de verdade. E eu tenho certeza que na
teologia dos apóstolos também não havia lugar para tal crendice popular. Mas, na hora do
desespero, eles gritaram apavorados, confundindo Jesus com um "fantasma", ainda que
fantasmas não existam. Da mesma forma, quando Jesus apareceu "do nada" dentro da casa

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 198


onde eles estavam reunidos a portas fechadas, o pânico tomou conta dos discípulos de tal
forma que eles, a exemplo da ocasião anterior em que pensavam estar vendo um
"fantasma", acharam que era um "espírito".

Nada indica se esse "espírito" que eles achavam que Jesus era fosse um espírito humano
incorpóreo, como creem os imortalistas, pois anjos e demônios também são espíritos, e na
hora do desespero até fantasmas (que são popularmente conhecidos como sendo espíritos)
eram cridos pelos discípulos, o que não implica na existência real deles. Esse "ser" que eles
achavam estar vendo podia ser, na imaginação deles, qualquer coisa, visto que por várias
ocasiões as pessoas não reconheceram Jesus, como no alto mar (cf. Mc.6:48,49), na
travessia de Emaús (cf. Lc.24:16), ou na pescaria que também ocorreu depois da
ressurreição (cf. Jo.21:4):

"E, sendo já manhã, Jesus se apresentou na praia, mas os discípulos não reconheceram que
era Jesus" (cf. João 21:4)

"Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que não o reconhecessem" (cf. Lucas
24:16)

"E, vendo que se fastigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta
vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante.
Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, acharam que era um fantasma, e deram
grandes gritos" (cf. Marcos 6:48,49)

Portanto, podemos ver que:

• Os discípulos estavam apavorados, como quando pensavam estar vendo um fantasma,


pois não é normal que uma pessoa entre "do nada" no meio de uma casa que estava às
portas fechadas, com medo dos romanos.

• Os discípulos, como em outras ocasiões, não estavam reconhecendo Jesus.

• No desespero e sem reconhecer quem era, pensaram que era um "espírito",


semelhantemente a quando creram que estavam vendo um "fantasma" na outra ocasião.

• Não é possível precisar ao certo que tipo de espírito eles acreditavam que era no
momento do pânico, visto que anjos e demônios também são espíritos, e que crendices
populares como fantasmas também são considerados como sendo espíritos.

• Jesus, por sua vez, não poderia responder dizendo que "espíritos não existem", pois
estaria negando a existência de espíritos que realmente existem, como anjos, demônios e o
próprio Deus, que é espírito. Não é porque existem determinadas crendices populares falsas
(como a crença em fantasmas e em espíritos humanos desencarnados, como no
espiritismo) que não existe nenhum tipo de espírito.

• Ao dizer que um espírito não tem carne nem ossos, Jesus acalmou os ânimos dos
discípulos, para que não mais pensassem estar vendo algum ser misterioso, como um
fantasma ou algum espírito do mal. É muito pouco provável que os discípulos acreditassem
que se tratasse do próprio Senhor Jesus em forma incorpórea, pois se os discípulos
tivessem identificado Jesus ali, ainda que em forma incorpórea, teriam ficado felizes,
jubilosos, exultantes ao reverem o Mestre. Se eles ficaram com medo e pensaram estar
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 199
vendo "um espírito", é porque eles não reconheceram Jesus, a não ser que tivessem medo
de Jesus! Evidentemente, o medo deles não era se Jesus estava em estado corpóreo ou
incorpóreo, mas sim se aquilo que eles viam fosse alguma coisa digna de medo, como
quando eles achavam estar vendo um fantasma e se amedrontaram, porque não sabiam
que era Cristo.

Concluindo, não há absolutamente nada conclusivo em Lucas 24:39 que ao menos indique
que a alma humana é imortal. Todo o texto pode ser perfeitamente entendido e plenamente
assimilado tendo em vista a ótica mortalista e bíblica, sem a necessidade de implicar na
existência de um elemento eterno e que sobreviva com consciência à parte do corpo após a
morte. Os imortalistas tem que, a todo custo, forçar a interpretação da passagem para que
favoreça a interpretação deles. O espírito não pode ser outra coisa senão um espírito
humano, os discípulos não poderiam estar enganados pelo pânico como quando achavam
estar vendo um fantasma, e Jesus tinha que ter dito que espíritos não existem, mesmo que
isso fosse impossível já que anjos, demônios e o próprio Deus são espíritos. Tudo isso fruto
da misteriosa forma de formular argumentos, inventada pelos imortalistas.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 200


CAPÍTULO 5.2 – O QUE JESUS REALMENTE ENSINOU?

Tivemos que mostrar muitas refutações a diversas interpretações defeituosas de passagens


que são usadas constantemente pelos imortalistas, para a partir disso apresentarmos quais
foram os verdadeiros ensinos de Cristo, pois de fato muitas palavras de Jesus foram mal
interpretadas, tiradas de seu devido contexto, sem ser fiel e verdadeiro para com a
gramática dos manuscritos em grego ou vistas com a ótica dualista de imortalidade da
alma.

Como vimos, nenhuma delas apresenta qualquer prova que chegue perto de abalar os
fortes fundamentos da doutrina da imortalidade condicional a partir da ressurreição, como é
relatado do início ao fim da Bíblia. Na realidade, grande parte delas não somente mostram o
quanto a interpretação “pró-imortalidade” está equivocada, como também, em muitas
ocasiões, constituem-se em fortes provas contrárias a ela. Vemos isso quando respeitamos
as regras da exegese e colocamos cada passagem no devido contexto em que ela se insere.

Dadas as devidas refutações, passaremos agora a mostrar aquilo que Jesus Cristo
realmente afirmou com relação à natureza humana e a vida pós-morte. Como veremos,
todos os ensinamentos de Cristo são coerentes em negar veementemente qualquer
pretensão de dividir a natureza humana entre o aspecto material e o aspecto
imortal/imaterial. Ao contrário, veremos que a entrada no Reino é somente por ocasião da
ressurreição, bem como a entrada na condenação que os ímpios sofrerão, e todos os outros
fatores corroborando para isso nos ensinamentos de Jesus Cristo acerca da vida pós-morte.

X–Sobre a entrada no Reino ou na condenação

A Parábola do Joio e do Trigo – Ironicamente, comecemos com isso mesmo – uma parábola!
Mas essa, por sua vez, possui a explicação do próprio Cristo sobre o significado de sua
própria parábola, sobre o que significa cada elemento e sobre os tempos em que tais coisas
se dariam. Nessa parábola vemos Cristo ensinando sobre o estado dos mortos e sobre os
destinos finais. Veremos o que ele conta:

“Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia
a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio
no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o
joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu,
no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: Um inimigo é quem
fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes
disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai
crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei
primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu
celeiro” (cf. Mateus 13:24-30)

Em seguida, os discípulos pedem que Cristo explique essa parábola, e a explicação do


Mestre vem na sequência:

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 201


“Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa. E chegaram ao pé dele os seus
discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse-
lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa
semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou,
é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é
colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho
do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que
cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de
dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos
para ouvir, ouça” (cf. Mateus 13:36-43)

Essa parábola de Cristo simplesmente concorda com tudo aquilo que já vimos aqui: que os
justos não entram no Paraíso com as suas “almas imortais” logo após a morte, mas
somente no fim do mundo, momento em que os mortos serão vivificados (cf.
1Co.15:22,23), para a partir daí entrarem no Paraíso (cf. Jo.14:2,3; Jo.5:28,29). Do mesmo
modo, os ímpios não são condenados a ficarem queimando antes da ressurreição no fim do
mundo. A parábola do semeador nos ilustra bem esse quadro:

“E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que
vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis
também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da
ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o
queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro” (cf. Mateus 13:28-30)

Vemos, portanto, que o trigo (filhos do Reino) e o joio (filhos do maligno) são deixados
juntos, isto é, no mesmo lugar, até a ocasião da ceifa. Um não está separado do outro,
como um no Céu e outro no inferno, muito pelo contrário, são mantidos juntos até a ceifa e
é só neste momento em que o joio (ímpios) irá queimar, e o trigo (justos) irá ser ajuntado
no “celeiro” (Reino dos céus).

Conforme a explicação que Cristo dá em seguida com relação à parábola, vemos claramente
que a ceifa é somente no fim do mundo: “O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o
fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos” (cf. Mt.13:39). Em outras palavras, o trigo
(justos) só será ajuntado no celeiro (Reino) no fim do mundo!

Até lá, ambos estão no mesmo lugar (cf. Mt.13:30). É só por ocasião da ceifa, que acontece
“no fim do mundo”, que os justos se separarão dos ímpios para aí sim entrarem no “celeiro”.
Isso é um golpe fatal na teoria de que entramos no Céu imediatamente após a morte ao
mesmo passo que os ímpios vão para o inferno também imediatamente após a morte, e na
ressurreição do último dia ambos são ressuscitados para continuarem no mesmo lugar em
que já estavam antes. Igualmente notório é o fato de que os ímpios só serão queimados no
fogo na consumação deste mundo:

“Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo”
(cf. Mateus 13:40)

Isso prova que eles não estão queimando ainda, pelo contrário, só serão queimados no fogo
“na consumação deste mundo” (v.40). É na “consumação do mundo” – no final dos tempos,
na última era, no fim do mundo – que os ímpios serão queimados no fogo. Não é algo que
já esteja em atividade! O ensinamento de Cristo nega absolutamente que os ímpios já
possam estar queimando atualmente em algum lugar, porque tal fato só se tornará
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 202
realidade para eles no final dos tempos, na consumação deste mundo quando a Bíblia diz
que haverá a separação entre os justos e os ímpios (cf. Mt.13:30), por ocasião da ceifa (cf.
Mt.13:29,30), que acontece somente no fim do mundo (Mt.13:39).

Também é notório que é somente neste momento que os justos herdam o Reino do Pai:

“Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça”
(cf. Mateus 13:43)

Note que é somente neste momento que os justos entram no Reino. O original grego traz a
palavra “tote”, que, de acordo com o Léxico da Concordância de Strong, significa:
“quando; o momento em que; naquele tempo; então” 105. Ou seja, é somente naquele
tempo, quando daquele momento, que os justos brilharão como o sol no Reino de Deus.
Pelo contexto de Mateus 13, este momento é claríssimamente definido como sendo na
consumação deste mundo, no fim das eras:

“O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os


anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste
mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que
causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali
haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de
seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (cf. Mateus 13:39-43)

O que Cristo ensina é bem claro: os justos só serão ajuntados para o celeiro no fim do
mundo (cf. Mt.13:30), e os ímpios só serão queimados no fogo na consumação deste
mundo (cf. Mt.13:40). Para um bom entendedor, meia-palavra basta. Mas Cristo foi bem
mais preciso que isso!

Separação entre justos e ímpios apenas no fim do mundo – Mais uma vez, em uma
parábola próxima à anterior, Cristo assegurou que a separação entre os bons e os maus só
se dará na consumação dos séculos: “Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma
rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes. E, estando cheia, a puxam
para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam
fora. Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de
entre os justos. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes”
(cf. Mt.13:47-50).

Aqui vemos novamente em cena a segurança de Cristo em afirmar que a separação entre
justos e ímpios só ocorrerá na consumação dos séculos, sendo que antes disso eles estão
no mesmo lugar, e não em lugares ou dimensões diferentes! Ademais, Cristo também
deixou mais do que claro aqui que os maus só serão lançados na fornalha de fogo para
terem prantos e ranger de dentes na consumação dos séculos.

Não é algo que já esteja em atividade com os ímpios sofrendo tormento. Antes da
“consumação dos séculos”, eles estão no mesmo lugar, ou seja, se os ímpios já estão
queimando com fogo, então os justos também estão! É óbvio que todos os grupos não se

105 Léxico da Concordância de Strong, 5119.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 203


encontram senão no pó da terra (cf. Is.26:19; Gn.3:19; Sl.22:15; Jó 7:21; Dn.12:2), o
que explica o porquê que Cristo só os diferenciou por ocasião da consumação dos tempos.

Tudo isso nos mostra que, realmente, Cristo queimará [futuro] a palha no fogo (cf.
Lc.3:17), eles não estão queimando [presente]. O joio, os cestos ruins e a palha serão
queimados na consumação dos séculos, na consumação das eras. Não é algo que já esteja
em atividade em algum lugar.

A entrada no Reino é somente na segunda vinda de Cristo - “Quando o Filho do Homem


vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial.
Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o
pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à
sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu
Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do
mundo” (cf. Mateus 25:31-34)

Aqui fica mais do que claro que a entrada no Reino se dará por ocasião da revelação
gloriosa de Cristo, quando o Filho do Homem vier na sua glória para separar os bons dos
maus. Se os justos já estivessem desfrutando das bem-aventuranças do Reino, então Cristo
diria para eles “continuarem no Reino”. Contudo, a clareza da linguagem textual não
deixa margem para duplas interpretações: os justos não estavam no Reino, mas entrariam
no Reino a partir da revelação gloriosa do Filho do Homem, ou seja, na segunda vinda de
Cristo. Ele não disse “continuem no Reino”, mas sim: “entrem no Reino” – “o recebam”!

Ninguém entra em algum lugar se já estava lá. Ninguém diz: "entre na casa" para um
convidado que já está hospedado em sua casa há muito tempo. Vale ressaltar que o que
está em jogo aqui não é apenas a recompensa, como alegam alguns imortalistas, mas é o
próprio Reino, o próprio Paraíso celestial. Impossível conciliar isso com a tese de que tais
pessoas já estavam há séculos no Reino como espíritos incorpóreos para "receberem" o
Reino que já tinham e "entrarem" no Paraíso em que já estavam. A palavra grega
kleronomeo, usada aqui em Mateus, implica em "tornar-se participante de; obter"106, e não
pode ser ignorada.

Ademais, também é digno de nota que é somente nesta vinda gloriosa do Filho do homem
com todos os anjos que as ovelhas serão separadas dos bodes – elas não estão separadas
ainda. Do mesmo modo, um pouco mais à frente é dito ao grupo da direita para entrarem
no inferno (v.41), também a partir daquele momento. Se eles já estivessem no inferno isso
não faria sentido, pois eles já estariam queimando como “espíritos”, para ressuscitarem,
serem julgados, e continuarem queimando do mesmo jeito!

É muito claro a partir destes textos que a separação entre os justos e os ímpios não vem
senão por ocasião da consumação do mundo, e é neste momento que os justos recebem o
Reino prometido e nesta ocasião é que os ímpios são queimados. Não é no momento da
morte com as suas “almas imortais”. Os justos viriam receber o Reino que lhes fora
prometido desde a criação do mundo, lhes sendo concedido naquele momento.

106 Léxico da Concordância de Strong, 2816.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 204


Lembro-me de certa vez, há muito tempo atrás, quando debatia em uma rede social com
um defensor da doutrina da imortalidade que, ao se deparar com tal passagem e todas as
suas implicações que destacamos aqui, simplesmente teve que dizer: “Não tem como
refutar”, e para disfarçar a falta de contra-argumentação ainda completou dizendo: “você
tinha que estar certo em alguma coisa”! De fato, tal passagem é tão expressamente clara
que não abre espaços nem para refutações e nem para duplas interpretações.

É inimaginável que Cristo tenha que separar os dois grupos caso eles já estivessem bem
separados (uns no Céu e outros no inferno), e não tem como se conceber que Cristo diria
“venham receber o Reino” a pessoas que já estivessem desincorporadas no Reino há
milênios, ou até mais! Realmente, não existe como refutar a clareza e objetividade da
linguagem de Cristo em dizer de maneira explícita qual é o tempo em que os justos
receberiam o Reino e em que finalmente seriam separados dos ímpios.

Tudo isso ocorre, contudo, não quando as suas almas partem para o Céu com a morte, mas
sim por ocasião da revelação gloriosa de Cristo, “curiosamente” o mesmo momento em que
se dá a ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). O Reino, que lhes estava “preparado”
desde a fundação do mundo (v.34), finalmente lhes seria concedido. E quando isso
acontecerá? A resposta se encontra no verso 31: “Quando o Filho do homem vier em sua
glória, com todos os anjos”. Trata-se da volta gloriosa de Jesus Cristo, e é só neste
momento em que os da direita, os justos, entram no Reino (v.34).

Voltarei e tomar-vos-ei comigo – Outro argumento conclusivo contra a teoria de que ao


morrermos somos imediatamente conduzidos ao Paraíso antes da ressurreição dos mortos é
o fato de que Jesus não deixou margem de dúvidas quanto à data em que os seus discípulos
seriam levados ao Paraíso:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei
comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. Jo.14:2,3). A clareza da
linguagem é tão evidente que não abre espaços para duplas interpretações. A entrada no
Paraíso se dá por ocasião da volta de Cristo, e não por uma alma imortal que deixa o corpo
por ocasião da morte.

A clareza da linguagem é tão clara que já foram feitas inúmeras tentativas frustradas para
negar tamanha evidência, mas todas elas fraquejam em suas tentativas. A primeira
objeção diz que Jesus, ao dizer que voltaria para tomá-los consigo, referia-se ao tempo
apocalíptico quando ele arrebataria os salvos que ainda estivessem vivos aqui na terra.
Contudo, o contexto deixa bem claro que ele estava dizendo aquilo para os seus
discípulos (cf. Jo.13:36), e não para qualquer um em alguma era apocalíptica. Na verdade,
Jesus estava respondendo a uma pergunta de Simão Pedro (v.36), dizendo em seguida para
os discípulos:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei
comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. João 14:2,3)

Será que algum apóstolo está vivo até os dias de hoje para ser arrebatado nesta promessa?
É claro que não! Fica mais do que claro que Jesus, falando aos seus discípulos, indicava
claramente que eles só ocupariam as suas moradas no Paraíso por ocasião da Sua Volta
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 205
gloriosa. A segunda objeção imortalista contra a evidência deste texto é que Jesus estaria
falando da morte deles para ocuparem os seus lugares no Paraíso. Contudo, isso é ferir o
contexto bíblico que afirma de forma categórica de que tal fato se dará não pela morte dos
apóstolos, mas sim por ocasião da volta de Cristo.

“Voltarei e tomar-vos-ei comigo” é uma clara referência a volta de Jesus. Em outras


circunstâncias, tal fato não seria alvo de objeção alguma, mas tendo em vista que
comprometeria a doutrina imortalista, tentam negar o evidente. Ademais, Cristo não disse:
“Quando vocês morrerem vão ocupar as moradas”, mas sim: “Quando eu voltar tomar-vos-
ei comigo”... para só então ocuparem as moradas.

E, por fim, o contexto deixa evidente que Cristo irá “preparar um lugar” (v.3), para depois
voltar (uma vez) para buscar aqueles que lhe pertencem. Se essa objeção estivesse correta,
então Cristo voltaria sucessivas vezes ininterruptas para buscar crente após a morte.
Porém, Cristo falava de um evento específico, de uma vinda em especial, para tomar todo o
corpo apostólico e não sobre vindas diferentes e variadas para cada um individualmente e
em tempos distintos.

A terceira objeção por parte dos imortalistas é que Cristo pudesse estar se referindo à sua
ressurreição dentre os mortos. Contudo, essa teoria falha no mesmo ponto da anterior:
“voltarei e tomar-vos-ei comigo” é uma clara referência à segunda vinda de Cristo, nunca
indicando que tratasse da ressurreição do Senhor. Se a referência fosse à ressurreição de
Cristo, isso faria de Jesus um mentiroso ao dizer que prepararia as moradas no Paraíso,
uma vez que tal fato não seria possível já que enquanto ele esteve morto antes de sua
ressurreição não esteve no Céu para “preparar” morada alguma, pelo contrário, ele não
subiu ao Céu (cf. Jo.20:17), e ficou três dias e três noites no Sheol (cf. At.2:27; Mt.12:40),
e não no Paraíso “preparando moradas”.

Finalmente, essa teoria falha ainda mais porque negaria que Jesus tomaria os seus
discípulos consigo. Se fosse uma referência à ressurreição de próprio Cristo, então teríamos
um grande problema uma vez que Jesus não “tomou consigo” em suas moradas discípulo
nenhum por ocasião da sua ressurreição! Isso seria um disparate e uma promessa não
cumprida se Cristo estivesse mesmo falando da ressurreição dele mesmo!

Por fim, devemos ressaltar que, para onde Cristo iria, nem sequer os seus próprios
discípulos poderiam segui-lo (cf. Jo.13:36). Por isso, faz-se necessário que Ele volte para
nos levar onde ele está [segunda vinda de Cristo], para estarmos com Ele onde ele estiver
(cf. Jo.14:3). Todas as objeções à clareza da linguagem de João 14:2,3 são refutações
fracas, quase sempre interpretações forçadas do texto bíblico numa tentativa desesperada
em negarem o óbvio daquilo que diz as Escrituras.

Jesus não disse que os lugares estariam disponíveis aos salvos conforme fossem morrendo
e suas almas chegassem no Céu para assumi-las. Seria impossível Cristo voltar para levar
os seus discípulos ao Céu caso eles já estivessem lá, pois Jesus não teria que voltar para
buscar novamente aqueles que já estivessem no Paraíso.

É óbvio que eles só entram na segunda vinda, quando Cristo voltar para nos levar onde ele
está, e não quando a suposta “alma imortal” deixa o corpo após a morte, em algum estado
intermediário dos mortos. Se a alma fosse imortal, o texto estaria dizendo que, "quando eu
for e vos preparar lugar, vocês virão a mim quando morrerem, para que, onde eu estou,
estejais vós também". Porém, a linguagem bíblica expressa é clara ao ponto de nos fazer
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 206
entender que apenas pela ressurreição, quando Jesus vier nos buscar, é que entraremos em
nossas moradas celestiais. E não restam objeções a tal fato.

Para onde Cristo vai, só iremos na ressurreição – “Disse, pois, Jesus: Ainda um pouco de
tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou. Vós me buscareis, e não
me achareis; e onde eu estou, vós não podeis vir” (cf. Jo.7:33,34). Quando Jesus afirma
em João 7:34 que “onde eu vou, vós não podeis ir”, os imortalistas são rápidos em
responder que Cristo estava falando com os fariseus e, portanto, eles vão queimar para
sempre e não podem ir onde Cristo vai. O problema, contudo, é que essa mesma verdade é
afirmada não apenas aos fariseus incrédulos, mas aos próprios discípulos dele!

Isso fica claro em João 13:33 em que ele afirma: “Meus filhinhos, vou estar com vocês
apenas por mais um pouco. Vocês procurarão por mim e, como eu disse aos judeus, agora
lhes digo: Para onde eu vou, vós não podeis ir” (cf. Jo.13:33). Não apenas os judeus
hipócritas de João 7:34, mas também os seu próprios seguidores em João 13:33 não
poderiam ir para onde Jesus partiria. Quando que eles poderiam, então, juntar-se a ele? O
próprio Mestre responde alguns poucos versos à frente:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos tomarei para
mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (cf. Jo.14:2,3). Ou seja,
quando Ele [Cristo] voltar em Sua segunda Vinda. Não, essa não é apenas uma repetição do
argumento passado acima, mas é um complemento muito importante, pois Cristo afirma
categoricamente que os próprios apóstolos não poderiam estar com Cristo e nem sequer o
achar quando ele partisse para a outra vida, mesmo Simão Pedro afirmando que daria a
própria vida para seguir a Jesus: “Pedro perguntou: Senhor, por que não posso seguir-te
agora? Darei a minha vida por ti” (cf. Jo.13:37).

Em outras palavras, não adiantava procurar entre o “povo espalhado pelos gregos” (cf.
Jo.7:35), não adiantava nem mesmo morrer (cf. Jo.13:37), pois para onde Cristo iria,
absolutamente ninguém poderia ir até ele. Por isso, faz-se necessário ele voltar e nos levar
com ele, para só aí estarmos onde ele está – aquele local onde ninguém poderia segui-lo
(nem mesmo morrendo para isso) – o Paraíso.

Se a morte introduzisse a alma de Pedro imediatamente no Céu com o próprio Jesus, então
ele logicamente poderia segui-lo ao dar a vida por ele. Contudo, Cristo é enfático em relatar
que nem mesmo a morte os traria para onde ele iria (cf. Jo.13:37; 13:33), o que nos revela
que, realmente, é apenas com uma segunda vinda do próprio Cristo em que os apóstolos
estariam de fato com ele (cf. Jo.14:2,3), através da ressurreição dos mortos.

A justa recompensa na ressurreição – "E serás bem-aventurado; porque eles não têm com
que to recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos"
(Lc.14:14). Jesus aqui afirma que a recompensa será dada na ressurreição. Ir ao estado
intermediário já não é uma forma de recompensa? Claro que sim, afinal no estado
intermediário já haverá a distinção de pessoas salvas e perdidas e as perdidas estariam em
um fogo atormentador e os salvos curtindo as delicias da vida eterna (pelo menos é assim
que os imortalistas ensinam).

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 207


Se existe um estado intermediário junto a Deus, com todos os outros santos, desfrutando
das bênçãos paradisíacas e da profunda felicidade que é estar com o Pai em contraste com
esta vida terrena, então isso seria uma forma de recompensa – e bota “recompensa” nisso!
Contudo, a declaração de Cristo é categórica ao afirmar que a recompensa pelas dada aos
justos não vem no momento da morte, mas sim na ressurreição dos mortos!

Ao tentar conciliar a existência do estado intermediário com a recompensa que só é dada no


momento da ressurreição, os imortalistas caem em uma séria contradição, pois, se tal
estado intermediário no Céu com Deus realmente existisse, então os que morressem já
estariam desfrutando das bênçãos paradisíacas, sendo recompensados. Contudo, Jesus
nega isso ao afirmar claramente que a recompensa dada aos que se esforçam nessa vida é
na ressurreição dos mortos, o que contraria o ensino do “estado intermediário”.

Na verdade, não há sequer “pista” alguma que indique que os justos seriam nem mesmo
recompensados gradativamente ao longo de tal “estado intermediário”, afinal, se a
recompensa é a ressurreição, então estar com Deus desfrutando das delícias celestiais em
um estado intermediário não é uma recompensa. Pelo menos seria essa desastrosa
conclusão que deveríamos pressupor em caso que, de fato, existisse esse “estado
intermediário”. Isso contraria também o ensino expresso no Concílio de Trento, considerado
infalível para os católicos, que de forma explícita declara que a recompensa vem
imediatamente após a morte, e não na ressurreição dos mortos, como disse Jesus:

“Quando morremos, experimentamos o que se chama o juízo individual. A Escritura diz que
'aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo' (Heb.
9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para bem
ou mal. Sabemos ao mesmo tempo qual será o nosso destino final. No fim dos tempos,
quando Jesus voltar, virá o juízo geral ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus
25:31-32: 'Quando o filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se
assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações; e ele
separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos cabritos.' Neste juízo geral
todos os nossos pecados serão revelados publicamente (Lucas 12:2-5)”107

Distorcendo o significado do texto de Hebreus 9:27 (que veremos mais adiante), a Igreja
Católica Romana mantém a ideia de que existem dois juízos, conquanto que a Bíblia afirme
tão claramente que existe apenas un único juízo (cf. Rm.2:16; At.17:31; 1Co.3:13;
Dn.12:13; 2Tm.4:1,8), e que a recompensa vem imediatamente após a morte e antes da
ressurreição, ainda que Cristo tenha sido tão direto em afirmar que os justos só serão
recompensados na ressurreição dos mortos (cf. Lc.14:14). Tudo isso nos mostra mais uma
vez o contraste entre a teologia da imortalidade da alma e o ensino bíblico: eles precisam
multiplicar a existência de juízos e antecipar o momento da recompensa, de outro modo não
haveria como pregar a doutrina dualista de uma forma que passasse um mínimo de
coerência.

A condenação é somente no último dia – "Há um juiz para quem me rejeita e não aceita as
minhas palavras; a própria palavra que proferi o condenará no último dia” (cf. Jo.12:48).
As palavras de Cristo são tão lúcidas que não necessitam nem um pouco de maiores
elucidações. Qual é o momento em que os ímpios serão condenados? Logo depois da morte
quando são lançados no inferno ou somente no último dia? Jesus nos responde a esta

107 Concílio de Trento, Decreto sobre o Purgatório, Denzinger # 983.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 208


questão dizendo claramente e sem rodeios que serão condenados “no último dia” e – que
grande "coincidência" – este é o momento da ressurreição:

“E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me
deu, mas que eu o ressuscite no último dia” (cf. João 6:39)

Vemos, portanto, que a condenação dos ímpios não é logo depois da morte em um “estado
intermediário” e muito menos que eles já estejam sofrendo suas condenações em algum
lugar, pois a sua condenação é somente no último dia, o dia da ressurreição dos mortos.
Considerar que os ímpios já estejam atualmente queimando em um lugar de fogo
denominado de “inferno” ou “Hades” significa crer que eles já sofreram a condenação antes
mesmo do momento em que Cristo disse que eles seriam condenados!

É óbvio que se o momento da condenação dos ímpios é no último dia, segue-se logicamente
que eles não estão na condenação, como pensam os imortalistas. Infelizmente, os
defensores da alma imortal nunca poderão admitir tal verdade declarada por Cristo, pois
isso invalidaria a tese pagã de que milhões de pessoas supostamente já estão sofrendo a
condenação de um inferno de fogo em atividade e fulminaria com a lenda da imortalidade
da alma.

A entrada no Reino ou na condenação é por ocasião da volta de Cristo – Confirmando as


claras palavras de Cristo aos seus discípulos assegurando-lhes que o momento em que eles
teriam parte em suas moradas celestiais seria na Sua Volta (cf. Jo.14:2,3), porque é este o
momento da ressurreição (cf. 1Co.15:22,23), o próprio Jesus lhes conta uma parábola em
que confirma tal ensino de que a entrada no Reino ou na condenação ocorre por ocasião da
Sua Volta, e não de alguma “alma” ou “espírito” que parta desencarnado antes disso.
Vejamos o que ele ensina:

“Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que
tinha recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco
talentos; veja, eu ganhei mais cinco’. O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel!
Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu
senhor!’” (cf. Mateus 25:19-21)

Qual é o momento em que o servo bom e fiel tomou parte na alegria do Senhor? Antes ou
depois da volta do seu senhor? Não foi antes, mas depois! É muito claro aqui que o “senhor”
da parábola é uma representação do próprio Cristo que há de voltar para então
recompensar a cada um, e os servos fieis só entram no gozo do Senhor quando o dono da
vinha [representação de Cristo] voltar, “depois de muito tempo” (v.19)!

Ele não poderia ser mais claro e exato do que isso ao afirmar os tempos e datas em que se
daria tal acontecimento. Também vemos neste mesmo contexto que é somente quando o
Senhor volta que os seus servos têm que prestar contas a ele (vs. 20, 22). É no momento
da volta de Cristo, e não antes dela, que teremos que prestar contas perante Ele por tudo o
que fizemos! E, finalmente, também é este o momento em que o servo mau é lançado na
trevas (v.30).

Portanto, a partir de tal parábola de Cristo percebemos que: (1) entraremos na alegria do
Senhor por ocasião da Sua Volta; (2) seremos recompensados por ele nessa ocasião; (3) é

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 209


também nessa ocasião em que teremos que prestar contas a ele; e (4) é também na volta
de Cristo que os servos infieis são lançados nas trevas.

Todas essas conclusões negam em absoluto a imortalidade da alma, pois tal doutrina,
estranha à Bíblia, prega exatamente o inverso disso: de que já entramos na alegria do
Senhor em um estado intermediário muitíssimo antes da Volta de Cristo (alguns dois mil
anos antes de sua volta), de que somos recompensados entrando no Céu logo depois da
morte, de que prestaremos contas a ele antes da sua vinda e de que os servos infieis já
estão queimando atualmente e estão esperando entre as chamas a volta de Cristo para
prestarem contas e voltarem a queimar novamente depois disso.

A vergonha dos ímpios é na segunda vinda – “Se alguém se envergonhar de mim e das
minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará
dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (cf. Mc.8:38). O momento
em que o Filho do homem irá se envergonhar dos pecadores é quando ele vier na glória de
seu Pai com todos os santos anjos, algo que vai de frente à doutrina da imortalidade da
alma, uma vez que os ímpios já estariam queimando no inferno muito antes disso e,
portanto, já sendo envergonhados. O próprio Cristo, contudo, afirma que aquela geração iria
passar vergonha na Sua Vinda, e não antes disso.

O próprio fato de Cristo ter feito uma referência àquela geração judaica de sua época
(“nesta geração” – v.38), prova que eles não podem estar queimando atualmente, uma vez
que deste modo aquela geração já estaria sendo envergonhada, mas Cristo afirma
categoricamente que tal fato concretizar-se-á na Sua vinda, na ressurreição dos mortos
para a vida ou para a vergonha da condenação. É bem nítido que aquela geração que
pereceu não está já na condenação do inferno, pois desta forma eles já estariam
condenados e envergonhados antes da volta de Cristo!

XI–Sobre Imortalidade e Vida Eterna

Cristo e a Vida Eterna – É fator bem importante, primeiro, considerar que nem todos
alcançam uma vida eterna, que não existe uma vida eterna no inferno, que a vida eterna é
a partir da ressurreição e que a imortalidade é um dom de Deus para ser buscada. Nos
aprofundaremos mais neste ponto principalmente quando passarmos aos ensinos de Paulo,
por hora limitemo-nos acerca dos ensinamentos de Jesus Cristo, que disse:

“E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha


mão” (cf. João 10:28)

Se Cristo me dá a vida eterna, isso quer dizer que não temos uma natureza imortal, e sim
que essa imortalidade é totalmente dependente de Cristo se somos salvos. Essa verdade é
tão fundamental que é pregada por várias outras vezes por Cristo. A vida eterna está
reservada apenas e tão somente aos filhos de Deus: “Para que todo o que nele crê tenha a
vida eterna” (cf. Jo.3:15). Note que Cristo fez a promessa de dar a vida eterna somente
àqueles que nEle crerem. E ainda acentua: “E esta é a promessa que ele mesmo nos fez, a
vida eterna” (cf. 1Jo.2:25). Mas, por que razão que Jesus iria dar uma vida eterna a alguém
que já possuísse em si mesmo uma alma imortal? Essa é uma questão que imortalistas tem
uma grande dificuldade de explicar.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 210


“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o
Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (cf. João 6:27)

“De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida
eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (cf. João 6:40)

Além disso, é importante considerarmos que a vida eterna é uma herança: “Certo homem
de posição perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (cf.
Lc.18:18). Se a vida eterna já fosse garantia de todos por terem uma “alma imortal”, então
este homem não teria que perguntar para Cristo o que ele devia fazer para herdá-la,
pois ele já a teria de qualquer jeito! Mas apenas os justos herdam vida eterna. Em João
6:51, Cristo faz a seguinte afirmação:

“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente” (cf. João
6:51)

Logo, quem não come do pão da vida não viverá eternamente. O ensinamento é claro em
desfazer a imortalidade incondicional por meio de uma alma eterna, pois a conjunção “se”
expressa uma condição: apenas aqueles que comem do pão poderão viver eternamente.
Isso nos mostra que não existe uma alma imortal implantada nos seres humanos, pois é
apenas por meio de Cristo (e não mediante uma alma imortal) que os justos viverão
eternamente no futuro, e os ímpios (que não comem do pão vivo) não viverão eternamente
em algum lugar.

Isso é confirmado novamente por Cristo: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e
igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá” (cf.
Jo.6:57). Novamente aqui é acentuado o fato de que a vida é somente em Cristo. Apenas
por meio dEle é que podemos viver eternamente. O que vai além disso deve fazer parte da
mentira de Satanás (cf. Gn.3:4).

Os apóstolos contrariavam a Cristo? – Os apóstolos não contrariam a Cristo, muito pelo


contrário, seguem na mesma linha. O apóstolo Paulo afirma que a imortalidade é por meio
do evangelho (cf. 2Tm.1:10). Ora, se a imortalidade é por meio do evangelho então
aqueles que desprezam o evangelho não possuem a imortalidade. O apóstolo João vai além
e declara que o assassino não tem a vida eterna permanente em si (cf. 1Jo.3:15), e
assegura que a vida é somente em Cristo (cf. 1Jo.5:12). Os ímpios, ao contrário, não
verão a vida (cf. Jo.3:36). Importante ressaltar também que a vida eterna e a imortalidade
é a partir da ressurreição dentre os mortos.

Apenas Deus tem uma “vida eterna” permanente em si no sentido completo da palavra, não
tendo nem princípio nem fim de dias, sendo eterno literalmente. Aos justos é concedida
uma vida eterna e imortalidade, não como Deus possui (i.e, imortalidade inerente, sem
início e nem fim), mas sim uma imortalidade condicional (de seguir o evangelho e de aceitar
a Cristo – cf. 2Tm.1:10; Jo.6:51; Jo.6:57).

Essa imortalidade é a partir da ressurreição dentre os mortos. É por isso que a imortalidade
tem que ser buscada (cf. Rm.2:7), e revestida (cf. 1Co.15:53), na ressurreição (cf.
1Co.15:51-54). Ora, ninguém busca aquilo que já se possui. Essa realidade, da vida eterna
a partir da ressurreição, é ainda mais acentuada pelo próprio Cristo, que declara: “Não
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 211
fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos
túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem da ressurreição para a vida; e os
que fizeram o mau da ressurreição para a condenação” (cf. Jo.5:28,29).

Eles não estão na vida, mas sairão para a vida a partir da ressurreição. A vida está
relacionada à ressurreição porque ela está condicionada a ela. Ademais, todos ressuscitarão
vindos do túmulo (e não do Céu, do inferno ou do purgatório) a fim de comparecer no
tribunal divino. A Bíblia afirma que só Deus possui a imortalidade como uma possessão
presente:

“O único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem ninguém jamais
viu nem pode ver. Para ele, honra e poder para sempre. Amém” (cf. 1Tm.6:16). Para a
humanidade, a imortalidade é ainda um prêmio a ser buscada: “... para aqueles que pela
paciência em fazer bem, procuram glória, honra e imortalidade, ele dará a vida eterna” (cf.
Rm.2:7). Definitivamente, Jesus e os apóstolos jamais ensinaram a doutrina da imortalidade
da alma.

XII–Sobre o Estado Final dos ímpios

Mais ensinamentos de Cristo – Os ensinamentos de Cristo acerca do estado final dos ímpios
é bem claro, e do início ao fim nega toda e qualquer “imortalidade” que seja concedida
também a eles. Um bom exemplo disso é o que o Mestre narra em Marcos 12:1-9:

“Certo homem plantou uma vinha, colocou uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para
prensar as uvas e construiu uma torre. Depois arrendou a vinha a alguns lavradores e foi
fazer uma viagem. Na época da colheita, enviou um servo aos lavradores, para receber
deles parte do fruto da vinha. Mas eles o agarraram, o espancaram e o mandaram embora
de mãos vazias. Então enviou-lhes outro servo; e lhe bateram na cabeça e o humilharam. E
enviou ainda outro, o qual mataram. Enviou muitos outros; em alguns bateram, a outros
mataram. Faltava-lhe ainda um para enviar: seu filho amado. Por fim o enviou, dizendo: A
meu filho respeitarão. Mas os lavradores disseram uns aos outros: Este é o herdeiro.
Venham, vamos matá-lo, e a herança será nossa. Assim eles o agarraram, o mataram e o
lançaram para fora da vinha. O que fará então o dono da vinha? Virá e exterminará
aqueles lavradores e dará a vinha a outros” (cf. Marcos 12:1-9)

O que Cristo ensina nessa parábola acerca do fim dos ímpios é bem claro. Se ele quisesse
induzir que seriam dotados de imortalidade igual aos justos e ficando para sempre no lago
de fogo (conscientemente), então provavelmente teria dito que eles seriam “castigados
eternamente”, ou que “torturaria aqueles homens para sempre”. Mas claramente não é isso
o que Jesus ensina sobre o destino final dos pecadores. O Nosso Senhor compara a
destruição dos ímpios com joio reunido em molhos para ser queimado (cf. Mt.13:30). Ora,
acaso o joio que é queimado (que representa os ímpios) possui um material imortal e
indestrutível? É claro que não. Assim também os ímpios, representados pelo joio, não são
indestrutíveis.

A Bíblia diz claramente que os ímpios não terão corpos incorruptíveis, que é exclusividade
apenas dos justos (cf. Fp.3:20,21; 1Co.15:35-55). Paulo também afirma isso
categoricamente: “Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá
corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna” (cf. Gl.6:8).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 212
Em oposição a uma “vida eterna”, os ímpios possuirão corpos corruptíveis. Se fossem
queimar eternamente seriam exatamente o contrário, isto é, incorruptíveis. A comparação
de Cristo com o joio que é queimado é exata, pois, assim como o joio, os ímpios não ficam
queimando para sempre: são corruptíveis como o joio, e não incorruptíveis como os justos.

Ademais, como apontou o Dr. Samuelle Bacchiocchi em "Imortalidade ou Ressurreição?",


Jesus fez a devida analogia do destino dos não-salvos com ervas reunidas nos molhos para
serem queimadas (cf. Mt.13:30,40), os maus peixes que lançados fora (cf. Mt.13:48), as
plantas ruins que foram arrancadas (cf. Mt.15:13), a árvore que não dá frutos que é
cortada (cf. Lc.13:7), os galhos secos que foram queimados (cf. Jo.15:6), os servos infieis
exterminados (cf. Lc.20:16), o mau servo que foi despedaçado (cf. Mt.24:51), os galileus
que pereceram (cf. Lc.13:2,3), as dezoito pessoas que foram esmagadas pela torre de
Siloé (cf. Lc.13:4,5), os antediluvianos que foram destruídos pelo dilúvio (cf. Lc.17:27), as
pessoas de Sodoma e Gomorra que foram consumidas pelo fogo (cf. Lc.17:29) e os
servos maus que foram executados (cf. Lc.19:14,27).

Nenhuma dessas comparações do fim dos ímpios induz a uma existência eterna, muito pelo
contrário, remete a uma destruição completa, a um fim de existência.

XIII–A Ressurreição de Lázaro

A Ressurreição de Lázaro – Outro fato de fundamental importância que revela que Cristo
jamais ensinou a doutrina da imortalidade da alma é a ressurreição de Lázaro, o que fica
mais evidente quando analisamos cuidadosamente o contexto:

“Chegando, pois, Jesus, encontrou-o já com quatro dias de sepultura. Ora, Betânia distava
de Jerusalém cerca de quinze estádios. E muitos dos judeus tinham vindo visitar Marta e
Maria, para as consolar acerca de seu irmão. Marta, pois, ao saber que Jesus chegava, saiu-
lhe ao encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa. Disse, pois, Marta a Jesus: Senhor,
se (estivesses aqui) meu irmão não teria morrido. E mesmo agora sei que tudo quanto
pedires a Deus, Deus to concederá. Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir.
Disse-lhe Marta: Sei que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia. Declarou-
lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto,
viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto? Respondeu-lhe
Marta: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao
mundo” (cf. João 11:17-27)

Muitas coisas podemos considerar a partir deste relato. Em primeiro lugar, quando Jesus
consolava as irmãs de Lázaro (já morto), em nada indicou que este estivesse na “glória” ou
contemplando a face de Deus, mas apenas lhes dá a esperança da ressurreição (cf.
Jo.11:17-27). Ele aponta a ressurreição “no último dia” como única fonte de consolação.

Se Lázaro já estivesse na “glória”, então Jesus iria aproveitar tal oportunidade a fim de
ressaltar que era sem sentido o pranto por ele, uma vez que já estaria em um lugar
muitíssimo melhor, e seria muito mais desvantajoso para ele (Lázaro) ter que voltar para
esta presente terra cheia de perdição. Em outras palavras, seria melhor para Lázaro tê-lo
deixado onde ele estava! Mas Cristo não somente o ressuscita como também usa como
fonte de consolação a base na ressurreição do último dia.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 213


Em momento nenhum ele chega a induzir que Lázaro já estivesse desfrutando de alguma
bem-aventurança paradisíaca, e se tal fato fosse verdade então ele mencionaria às irmãs
dele sem a menor hesitação, uma vez que estavam não só elas, mas todos os outros, aflitos
de espírito e chorando pela sua morte.

Contudo, não somente Cristo usa como a única base de consolação a esperança da
ressurreição, como também Marta reage às palavras dEle nessa mesma base, confirmando
sua esperança na ressurreição. De acordo com o texto, Jesus consolou a irmã de Lázaro
dizendo que este iria “ressurgir”. Marta sabia disso, mas sabia também que ele só iria
ressurgir na ressurreição do último dia. Este fato é muito importante, pois mostra que
Marta acreditava que Lázaro só voltasse à vida através da realidade da ressurreição, que se
dá somente no último dia, o dia da volta de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).

Marta certamente que não estava falando apenas de um simples corpo morto que voltaria a
vida, pelo contrário, referia-se ao próprio Lázaro como pessoa, como ser racional. Marta
acreditava realmente que seu irmão estava literalmente morto, e chorava, pois acreditava
que só ressurgiria na ressurreição do último dia. Um pouco mais de raciocínio e saberíamos
o porquê que a esperança de Marta era na ressurreição do último dia: porque era somente
neste momento em que ela (Marta) voltaria a encontrá-lo (Lázaro).

O momento em que ambos seriam reapresentados e poderiam exultar-se de alegria e


satisfação não seria quando Marta também morresse e a sua alma se encontrasse com
Lázaro; pelo contrário, tal reencontro só se daria na ressurreição do último dia, pois é
somente neste momento em que Lázaro voltaria à vida e Marta (que certamente também
passaria pela morte) também, e ambos seriam apresentados. Isso explica a esperança de
Marta em voltar a vê-lo na ressurreição do último dia, o que também foi a única fonte de
consolação dada a ela.

Cristo não contradiz essa concepção de Marta, muito pelo contrário, concorda com ela, e por
fim diz: “...quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (v.25). Cristo não disse
“...ainda que morra, vive...”, pelo contrário, afirmou: “ainda que esteja morto, viverá”. Do
princípio ao fim, Jesus nega qualquer existência de um estado intermediário consciente em
que Lázaro estivesse vivo, pois se este fosse o caso então Ele teria dito que “ainda que
esteja morto... vive”, o que indicaria o estado consciente (de vida) do ser racional na
morte. O Mestre, contudo, nega este estado, pois afirma que tal vida não é algo presente,
mas sim um acontecimento futuro: “ainda que morra... viverá” – verbo no futuro,
indicando a esperança da ressurreição no último dia como único meio de alguma pessoa
voltar à existência.

O ensinamento é que quem nele crer “viverá eternamente” (cf. Jo.6:58), e não “vive...
eternamente”. A posse da eternidade é um acontecimento futuro, e não algo já presente –
ainda que morra, viverá! Alguns ainda objetam dizendo que no verso seguinte ele diz que
nós não morremos nunca, como algumas versões erroneamente traduzem: “todo aquele
que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (v.26). Contudo, esta tradução segue
novamente as tendências dualistas dos tradutores, e não o original grego. O texto original
traz: “ou mh apoqanh eiV ton aiwna" – não morrerá eternamente.

Como vemos, no verso 25 Jesus falava do estado atual dos mortos negando que estes
estivessem com vida e indicando que a posse da vida aos mortos é um acontecimento
futuro, e no verso seguinte (v.26) ele falava da morte eterna [segunda morte] na qual os
justos não passarão, mas somente aqueles que não forem encontrados no livro da vida no
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 214
dia do Juízo, na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1). Algumas versões traduzem este
texto corretamente de acordo com o original grego, como é o caso da NVI e da ARA.

Tal passagem é, portanto, um golpe de morte na doutrina do estado intermediário


consciente dos mortos. Todos passaremos pelo estado de morte (i.e, sem vida) entre a
morte e a ressurreição, mas apenas os ímpios sofrerão também a morte eterna [segunda
morte] em contraste com os justos que terão a vida eterna. É exatamente isso que Cristo
descreve nos versos de João 11:25,26, sem fazer nenhuma indicação de estado consciente
dos mortos, mas, ao contrário, dizendo que apenas no futuro os que já morreram
desfrutarão de vida.

Além de tudo isso, devemos lembrar também que o texto absolutamente não fala de lugar
nenhum em que Lázaro tivesse passado pelos quatro dias em que esteve morto. Cristo não
disse: “Lázaro, sobe”, ou então: “Lázaro, desce”; pelo contrário, disse simplesmente:
“Lázaro, sai para fora” (cf. Jo.11:43). O ser racional de Lázaro estava na sepultura, e não no
alto (Céu) ou embaixo (inferno).

Como os próprios imortalistas atestam que o processo de pensamento é ligado a alma e


como função desta, sendo o próprio ser racional de Lázaro, é imprescindível que Jesus se
dirigisse a este ser racional (alma) com o grito de “Lázaro, desce!” – se estivesse no Sheol
ou no inferno – ou então: “Lázaro, sobe!” – se estivesse com Deus no Céu. Contudo, vemos
que o ser racional não estava em outro lugar senão na própria sepultura.

Se Lázaro tivesse alguma “experiência sobrenatural” nos quatro dias em que esteve morto,
João certamente iria narrar tal fato sem hesitação alguma. Afinal, seria tema
importantíssimo e de maior interesse. Contudo, Lázaro nenhuma informação trouxe da sua
suposta passagem pela glória celestial; aliás, nem ele e nem qualquer das outras sete
pessoas que foram levantadas dentre os mortos (cf. 1Rs.17:7-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15;
8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11) tiveram qualquer experiência entre a morte e a ressurreição
para compartilhar conosco.

Isso seria de importância fundamental para calar alguns grupos daquela sociedade judaica,
como os saduceus, que não acreditavam em nada após a morte nem em ressurreição.
Contudo, nem eles tiveram história nenhuma para contar, nem qualquer escritor bíblico fez
questão relatar tal suposição. Isso não é meramente um “argumento do silêncio” como
argumentam alguns. Mas, mesmo que assim fosse, o bom senso nos leva a acreditar que
qualquer experiência fora do corpo entre a morte e a ressurreição seria narrada por quem
tivesse passado por tal fato.

Uma prova muito forte disso são as várias pessoas que entraram em estado de “quase-
morte”, e o cérebro criou imagens de “paraísos” ou do “inferno”, sem, contudo, as pessoas
haverem falecido de fato. Todas elas narram tais acontecimentos sem a menor hesitação, e
não somente isso, mas tal fato é o primeiro a ser mencionado por elas. Na Bíblia Sagrada,
contudo, absolutamente nada disso acontece. As pessoas que literalmente morreram (não
ficaram apenas em estado de “quase-morte”) não tiveram nada e história nenhuma para
relatar.

A razão pela qual Lázaro e as outras sete pessoas levantadas dentre os mortos não tiveram
nada para contar é que elas passaram pelo “sono da morte”, assim como todas as pessoas
passam, até Cristo Jesus nos trazer de volta a vida, como ele prometeu: “Eis que virá a

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 215


hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e os justos sairão para a
ressurreição da vida; e os maus para a ressurreição da condenação” (cf. Jo.5:28,29).

Os que pregam a teoria do “estado intermediário” com as nossas “almas imortais” encaram
uma grande confusão: ou Cristo retirou Lázaro do conforto no Paraíso (no “Seio de
Abraão”), para trazer de volta a este mundo que jaz no maligno - cometendo assim uma
maldade para com Lázaro -, ou então teria retirado Lázaro do inferno (algo muito
improvável, pois era um seguidor do Mestre que Lhe amava), mas teria sido assim
antibíblico, concedendo-lhe uma segunda oportunidade de salvação. Não, Jesus não tirou
Lázaro do Paraíso à força para trazer de volta para este mundo (o que, aliás, faria Lázaro
ter ficado revoltadíssimo!).

O que os imortalistas imaginam Deus dizendo, jamais aconteceu: “’Lázaro, você já está aqui
há quatro dias, mas agora você vai ter que voltar, porque o meu Filho está te
ressuscitando!’ ‘Mas Deus, eu quero ficar aqui’! ‘Vai nada, Lázaro, você vai embora...!’” É
óbvio que esse absurdo jamais aconteceu, o que realmente aconteceu é o que Jesus disse
em João 11:11 – “Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme,
mas vou despertá-lo do seu sono”. Como acertadamente apontou o professor Gilson
Medeiros, seria um absurdo olhar o relato da ressurreição de Lázaro segundo a ótica
dualista de imortalidade da alma:

“Se já recebemos a recompensa logo por ocasião da morte, como querem os infernistas,
como será que Lázaro, irmão de Marta e Maria, deve ter se sentido depois que Jesus o
ressuscitou? Segundo a heresia pregada nas igrejas cristãs, ele foi chamado de volta para
este mundo de pecado e sujeiras depois de ter experimentado 4 dias de ‘glória’ no Céu.
Perceberam o absurdo de se crer no paganismo grego?! Prefiro ficar com a Bíblia!”108

Conclusão – Concluímos, pois, que Jesus em momento algum pregou a doutrina da


imortalidade da alma. Pelo contrário, muitas passagens foram distorcidas por parte dos
dualistas, mas todas elas não passam por um teste de fogo bíblico, em poucas linhas são
facilmente refutadas. Uma doutrina que apresenta como principal fundamento os meios de
uma parábola não pode ser alvo de muita confiança.

Na verdade, não merece nem um mínimo de confiança. Nosso Senhor assegurou aos
apóstolos que para onde ele iria, eles não poderiam ir (cf. Jo.13;33). Contudo, apresenta-
lhes a esperança de que chegaria o dia em que ele voltaria para lhes tomar consigo, para
que onde ele estaria, lá estivessem eles também (cf. Jo.14:2,3). A necessidade da
ressurreição traduz-se em dar a vida a quem está sem vida, e não a um simples fato de
um espírito sem corpo ganhar um e continuar no Céu do mesmo jeito.

Tal fato é assegurado pelas palavras de Cristo de que entrariam na vida a partir a
ressurreição (cf. Jo.5:28,29), que a alma não vai diretamente para a vida eterna mas é
preservada até este momento em que entraria na vida [através da ressurreição] (cf.
Jo.12:25), que a condição de ter vida é de segui-Lo (cf. 2Tm.1:10; Jo.6:51; Jo.6:57), da
realidade de que só a partir dessa ressurreição é que os justos se separarão dos ímpios (cf.

108 MEDEIROS, Gilson. Jesus falou mais sobre o inferno do que sobre o Céu. Será? Disponível em:
<http://prgilsonmedeiros.blogspot.com.br/2009/07/cuidado-com-o-fogo-do-inferno.html>. Acesso em:
22/08/2013.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 216


Mt.25:31,32), para só aí entrarem no celeiro, fato que se dará no fim do mundo (cf.
Mt.13:39), e de igual modo os ímpios só serão queimados na consumação deste mundo (cf.
Mt.13:40), na consumação dos séculos (cf. Mt.13:47-50).

Os justos entrarão no Reino não quando eles morressem e as suas almas imortais partissem
para o Céu, mas sim quando o “Filho do homem vier na sua glória e todos os anjos com ele”
(cf. Mt.25:31-34), pois é somente neste momento em que os justos recebem o Reino que
lhes fora prometido desde a fundação do mundo (cf. Mt.25:34).

Tudo isso prova que não há separação de corpo e alma por ocasião da morte com destinos
diferentes a justos e ímpios, estabelecidos definitivamente em seus destinos finais por toda
eternidade logo após o momento da morte, através de uma alma imortal sendo liberta da
prisão do corpo. Corpo e alma não são opostos. A esperança do cristão é a de que “ainda
que morra, viverá” (cf. Jo.11:25), e não a de que “ainda que morra, vive”!

Seria excelente se todas as pessoas viessem a refletir sinceramente sobre o tema, e


deixassem de crer na mentira de Satanás (cf. Gn.3:4), para crerem que “virá a hora em
que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e os justos sairão para a
ressurreição da vida; e os maus para a ressurreição da condenação” (Jesus Cristo, em João
5:28,29).

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 217


CAPÍTULO 5.3 – OS APÓSTOLOS PREGAVAM A IMORTALIDADE DA
ALMA?

XIV–Atos dos Apóstolos

“Ao contrário, tinham alguns pontos de divergência com ele acerca de sua própria religião e
de um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (cf. Atos 25:19)

Para descobrirmos se a Igreja primitiva adotava a doutrina da imortalidade da alma, temos


o testemunho ocular de uma pessoa que conviveu com os primeiros apóstolos, um médico
que contou a história dos primeiros anos do Evangelho: Lucas. Quando o sincronismo com
as religiões pagãs ainda não havia penetrado nos moldes do Cristianismo e a doutrina que
era pregada vinha diretamente daqueles que eram testemunhas oculares do Messias, que
conviveram com ele e estavam com ele, sendo deixados aqui com a missão de pregar o
evangelho a toda criatura (cf. Mc.16:15), a doutrina da imortalidade era deixada das portas
para fora da Igreja.

Como iremos ver ao longo da evidência de Atos, a pregação era totalmente voltada para a
ressurreição dentre os mortos, não só de Cristo, mas de todos os cristãos por ocasião da
Sua Volta. A pregação era o Cristo que, mesmo morto, ainda vive, e vive para todo o
sempre. E aos demais estaria valendo essa mesma lógica? Certamente que não. A primeira
evidência que veremos é a de Davi.

Davi morto, Jesus vivo – A primeira forte evidência que veremos é a que Pedro se refere a
Davi, fazendo um contraste com Jesus Cristo. O que Pedro nos revela em Atos 2:34
certamente que não é aquilo que a maioria dos imortalistas imaginam:

“Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara: Disse o Senhor ao meu
Senhor: Assenta-te à minha direita” (cf. Atos 2:34)

A clareza da linguagem é indiscutível: Pedro estava dizendo que Davi não havia subido aos
céus. Os imortalistas geralmente objetam a essa passagem alegando que o corpo de Davi
não havia subido ao Céu, mas a alma dele havia subido. Isso, contudo, carece de
confirmação bíblica.

Em primeiro lugar, Pedro jamais poderia ter dito que Davi não havia subido ao Céu
corporalmente, mas já havia subido em espírito, porque isso levaria a confundir uma
enormidade de pessoas que estavam acompanhando o discurso. Devemos lembrar que o
apóstolo estava pregando para nada a mais nada a menos que três mil pessoas, que, além
disso, eram descrentes ouvindo a pregação do Evangelho. A maioria poderia ser pessoas
humildes, que não teriam a tamanha “habilidade” que os imortalistas têm de discernir que a
alma subiu, mas o corpo não.

Certamente que eles iriam pensar como o texto parece indicar claramente: que Davi (a
pessoa de Davi, e não "uma parte" dele) não havia passado pelo Céu. E isso já seria o
suficiente para negarem o evangelho com o pretexto de heresia por não terem entendido
direito o que Pedro estava tentando dizer nesta passagem. As pessoas que ouviam viva-voz

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 218


a pregação de Pedro iriam pensar realmente que Davi não havia subido aos céus, e não
fazer malabarismos mentais para negarem este fato.

Em segundo lugar, o próprio Pedro jamais iria querer confundir a multidão. Se Davi
estivesse já no Céu ele não diria que ele não estava e ainda omitiria explicações! O apóstolo
na iria “confundir” a multidão de tal maneira a induzir que apenas um corpo morto não
havia subido, mas que a “alma imortal” já estivesse lá. Se tal caso procedesse, certamente
que Pedro faria uma distinção, explicando que Davi não havia subido apenas corporalmente,
e explicando que a alma já havia subido para não confundir o pessoal.

Em terceiro lugar, isso é ferir o texto bíblico, que omite completamente que Davi tenha
subido em forma incorpórea. O texto só diz que ele não subiu. Dizer que Davi subiu sem
um corpo é colocar na boca de Pedro aquilo que ele jamais afirmou e ir absolutamente
“além daquilo que está escrito” (cf. 1Co.4:6).

Em quarto lugar, se a passagem deve ser interpretada conforme essa opinião, então
deveríamos entender que o escritor de Atos (Lucas) deixou entender errado. O jeito certo
seria: “Porque Davi não subiu corporalmente aos céus...”. Tal declaração seria a mais
lógica e se Lucas tivesse a intenção de dar a frase tal sentido ele teria essa opção pronta, a
mão, que poderia ser perfeitamente utilizada. Mas é óbvio que o texto não diz isso, o que o
texto realmente diz é: “Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara...”. Lucas
era um escritor bem inteligente para deixar passar batido tão tremenda confusão aos seus
leitores. Qualquer imortalista daria uma ênfase ao fato de que Davi não subiu aos céus
corporalmente apenas, se esse fosse o caso. Mas em nada o texto nos indica isso. O ser
racional de Davi (geralmente associado à alma ou ao ser pensante) não havia subido aos
céus.

Em quinto lugar, conforme veremos mais adiante, o contexto da passagem não confirma tal
ideia. O contexto faz uma antítese com Cristo, que está vivo e já subiu ao Céu. Se Davi
também tivesse subido ao Céu, essa analogia seria nula e sem sentido. E, em sexto, a
referência faz alusão a pessoa de Davi, ao Davi como indivíduo. Não como um Davi
separado, “cortado pela metade”, mas ao Davi integral, como pessoa. Quando falamos de
indivíduos, tratamos da pessoa integral que não subiu aos céus. Davi não teve um corpo
que morreu e uma alma que subiu ao Céu. Davi, como pessoa, não havia subido aos céus.

Outra “explicação” que já fora levantada para essa passagem é que os mortos estariam no
“Paraíso” e não no “Céu”, e, por isso, Davi não subiu para o Céu (sim, eu já ouvi essa
“explicação”!). Essa última objeção é a mais absurda de todas por dois principais motivos. O
primeiro, segundo e terceiro Céu incluem todas as dimensões existentes de vida humana ou
espiritual. Pedro não disse que Davi não subiu somente ao “primeiro ou segundo céu”, pelo
contrário, relata que Davi não subiu aos Céus, no plural, ou seja, Davi não subiu para
lugar nenhum! O Paraíso, portanto, localiza-se no “terceiro Céu”, que inclui todas as
dimensões espirituais, no qual Davi também não subiu. Logo, tal objeção é inválida e não
ajuda em nada para “melhorar” as coisas.

Em segundo lugar, para confirmar o fato de que o Paraíso é o terceiro Céu, o apóstolo Paulo
escreve: “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu
[...] foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é
permitido falar” (cf. 2Co.12:2,4). Aqui vemos claramente o paralelismo de Paulo em afirmar
primeiramente que foi arrebatado ao terceiro Céu e, em seguida, confirmar que este local é
o Paraíso. E Davi não subiu a nenhum dos Céus (nem ao terceiro). Portanto, não restam
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 219
objeções contra o fato de que verdadeiramente Davi não subiu para lugar nenhum – nem
para o primeiro, nem para o segundo e nem para o terceiro céu, que é o Paraíso.

O Contexto

Este mesmo texto de Atos que diz que Davi não subiu aos céus faz um paralelo entre Davi e
Cristo, dizendo que este último não está morto que nem Davi, mas vivo, e já subiu aos céus
(cf. At.1:3; At.2:33), como podemos observar claramente inclusive no verso anterior, com
respeito a Cristo: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do
Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (cf. At.2:33).

Enquanto Davi, em contraste, o texto diz que: “Irmãos, seja-me permitido dizer-vos
claramente a respeito do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e o seu túmulo
permanece entre nós até hoje” (At.2:29). Mas por que o autor iria fazer uma declaração tão
óbvia como essa? Certamente que ele estava acentuando uma antítese: Davi está morto,
mas Jesus está vivo.

O seguinte quadro ajuda a elucidar o contraste feito por Pedro:

CONTRASTE ENTRE JESUS E DAVI


JESUS CRISTO DAVI
Já subiu aos Céus – At.2:33 Não subiu aos Céus – At.2:34
Está com Deus (Pai) – At.2:33 Está na sepultura – At.2:29
Está vivo – At.1:3; ; 2:31; 2:33 Está morto e o seu túmulo se encontra entre
nós até hoje – At.2:29

O contraste entre Cristo e Davi é evidente no discurso de Pedro e qualquer bom analisador
bíblico consegue discernir a devida antítese entre um e outro em seu discurso. O bom
senso, a lógica, o contexto e a antítese clara são fortes evidências de que não existe a
imortalidade da alma, e não somente isso, mas elimina a possibilidade de haver um “estado
intermediário” nos Céus, pois nem sequer Davi (homem que era segundo o coração de Deus
– ver Atos 13:22) poderia ser achado por lá.

O Original Grego

Além de tudo isso que já vimos até aqui provando que, de fato, Davi não subiu de forma
alguma para os céus, outro fato de importância fundamental a ser mencionado é que, no
original grego, a palavra utilizada para “não subiu aos céus” é “ou”, que, de acordo com a
Concordância de Strong109, é um negativo absoluto, geralmente usado em perguntas
diretas que se esperam uma resposta afirmativa. Ela difere da palavra grega geralmente
utilizada para "não", que é "mê", porque passa claramente a ideia de uma negação
absoluta, como um "nunca", e não de uma negação parcial. Por essa mesma razão a
tradução de Knox verteu o texto por: "Davi nunca subiu aos céus...".

A utilização do "ou" em contraste com o "não" comum (mê) refuta duas teses imortalistas
quanto a este texto. A primeira, que já vimos, é a de que uma parte de Davi subiu (a alma),
e outra não subiu (o corpo). A negação absoluta abrange o todo de Davi e não apenas uma
parte dele. É como se o texto estivesse dizendo: "absolutamente Davi não subiu aos céus",
ou seja, em termos absolutos.

109 Léxico da Concordância de Strong, 3756.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 220


E a segunda é a tese de que Davi não havia subido naquele momento em que ele escrevia o
verso, mas que já estivesse no Paraíso quando Pedro discursava, o que também é refutado
pelo sentido da frase, de que Davi nunca subiu aos céus. O texto não diz que Davi "não
havia (no passado) subido aos céus", passando a ideia de que ele poderia ter subido depois,
mas expressa uma negativa absoluta, que não abrange apenas o tempo passado com
possibilidade de alteração no presente, mas algo que nunca aconteceu, um "não" em
termos absolutos, no sentido completo da palavra. Desta forma, o texto inegavelmente põe
a imortalidade da alma das portas para fora da Igreja primitiva, e isso diante de uma
multidão de mais de três mil pessoas.

A insistência de Paulo: Jesus está vivo! – Uma prova muito forte de que todos os que
morreram estão literalmente mortos, e não “vivos em outro mundo”, é a insistência de
Paulo na presença do rei Agripa em provar que Jesus Cristo, mesmo morto, está vivo. É dito
para esse rei: “Ao contrário, tinham alguns pontos de divergência com ele acerca de sua
própria religião e de um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (cf.
At.25:19). Ponderamos: qual seria a razão da insistência de Paulo em provar que Jesus,
mesmo morto, ainda vive?

Simplesmente pelo fato de que os outros que morreram não estão vivos. É por isso que
Paulo tanto insistia para provar que Jesus, mesmo morto, ainda vive. Se todas as pessoas
ao morrerem fossem diretamente ao Céu ou ao inferno, vivas em algum lugar, será que
Paulo precisaria insistir com eles para provar que Jesus está vivo? Absolutamente que não!
Não seria nem necessário provar, já que todos os mortos já estariam vivos em algum lugar!

Sendo que todos os mortos estariam, na teologia imortalista, vivos em algum lugar (e não
somente Jesus) seria inútil Paulo ter que insistir que alguém que já morreu está vivo. Ou se
a única coisa que Paulo queria provar era que Jesus ressuscitou, então Lucas (escritor de
Atos) indiscutivelmente deveria ter relatado que foi a ressurreição que Paulo queria provar –
e não que Cristo estava (naquele momento) vivo, em detrimento dos demais.

Note que o texto não diz que o espanto do rei Agripa foi apenas por Jesus ter ressuscitado,
mas por alguém que já morreu estar com vida. Ele não diz simplesmente: "o qual Paulo
insiste que ressuscitou", mas sim: "o qual Paulo insiste que está vivo". Se a imortalidade da
alma fosse a crença dos primeiros apóstolos na Igreja primitiva, então Paulo definitivamente
não teria que reiterar a sua posição de que Jesus está vivo, até porque todos os mortos já
estariam vivos! E, se é somente por meio da ressurreição que alguém que já morreu ganha
vida, então a imortalidade da alma é ainda mais claramente negada.

Se Paulo teve que insistir com eles para provar que Jesus está vivo, então evidentemente é
porque os outros em geral estão realmente mortos – não estão vivos em estado
“desencarnado”. Essa passagem não faz lógica nenhuma na teologia dos imortalistas: todos
os mortos estariam vivos mesmo! O motivo pelo qual Paulo tinha que insistir com eles para
provar que Jesus, mesmo morto, está vivo, vem pelo fato evidente de que os outros em
geral estão, realmente, mortos. Novamente o contraste: Cristo, mesmo morto, ainda vive,
ao contrário dos demais mortos.

Imagine, por exemplo, na trágica queda do World Trade Center, em 11 de Setembro de


2001, se eu dissesse a você que houve um sobrevivente que caiu de um dos últimos
andares, mas estava vivo. Certamente que poucas pessoas acreditariam logo de cara: eu
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 221
teria que insistir com você para provar que realmente houve um sobrevivente, que se
salvou em meio à tragédia.

Agora, imagine que no dia 11 de Setembro não houve atentado algum. Os prédios não
foram atingidos por nenhum avião, não houve explosões e ele permaneceu intacto, perfeito,
sem nenhum arranhão. Eu teria que insistir com você para que acreditasse que existia
alguma pessoa viva naquele prédio? É claro não! Isso seria óbvio, pois logicamente todas as
pessoas estariam vivas!

Qualquer pessoa que faça uso de um raciocínio lógico percebe o motivo óbvio e evidente
pelo qual Paulo dizia que Jesus, mesmo morto, ainda vive: porque os outros que morreram
realmente não estavam vivos. A verdade é que Paulo teve que insistir que Jesus ainda vive
porque os outros mortos em geral estão, realmente, mortos – sem vida. Poderíamos
resumir o argumento da seguinte maneira:

(1) Paulo precisou afirmar na presença do rei Agripa a sua convicção de que Cristo mesmo
morto está vivo.

(2) Se todos os mortos estivessem vivos, então não seria preciso insistir para provar que
algum morto está vivo, pois isso seria algo óbvio e qualquer que já morresse estaria vivo
em algum lugar de qualquer jeito, através de uma alma imortal que sobrevive à morte.

(3) Logo, o bom senso nos diz que os que já morreram estão literalmente mortos (i.e, sem
vida), o que explica o porquê de Paulo ter que insistir em provar que Cristo está vivo.

Paulo contra os imortalistas – “Quando ouviram sobre a ressurreição dos mortos, alguns
deles zombaram, e outros disseram: 'A esse respeito nós o ouviremos uma outra vez'” (cf.
At.17:32). Paulo foi a Atenas, pregar o Evangelho no coração da crença da imortalidade da
alma. O contexto mostra que Paulo estava ensinando sobre o Deus vivo, o “Deus
desconhecido” dos gregos (v.23). Até este momento, eles o ouviam atentamente. Isso,
contudo, durou apenas até o devido instante em que Paulo declarou uma verdade cristã,
mas contrária aos ensinamentos pagãos, dizendo uma coisa que fez com que os atenienses
zombassem dele e parassem de escutá-lo: A Ressurreição dos Mortos.

O que acontece, e mais chama a atenção, é o motivo pelo qual eles rejeitaram a doutrina de
Paulo: porque eles acreditavam na imortalidade da alma. Aí está a chave de todos os
problemas. Paulo pregava a ressurreição, os atenienses pregavam a imortalidade. Enquanto
a esperança cristã primitiva era de alcançar superior ressurreição no último dia, a esperança
dos gregos era de ver a “alma imortal” deixando o corpo depois da morte. Obviamente eles
não puderam aceitar o ensinamento de Paulo, e zombaram dele.

O evangelho que Paulo pregava era totalmente diferente daquilo que os gregos acreditavam
sobre a vida pós-morte, a ideia de imortalidade incondicional e inerente, também enraizada
no catolicismo e em muitas igrejas protestantes. Foi, aliás, da filosofia grega secular que o
conceito antibíblico de imortalidade da alma entrou nas raízes do Cristianismo. Imortalidade
da alma e ressurreição dos mortos são dois opostos. Nesse caso, Paulo sofreu o maior
embate de ideias que persiste até os dias de hoje: Imortalidade da Alma x Ressurreição
dos Mortos.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 222


A Ressurreição dos Mortos: O Foco da Igreja – Contando apenas o livro de Atos dos
Apóstolos (sem levar em conta as epístolas pastorais), são feitas mais de 25 exposições da
palavra “ressurreição” e seus derivados. Por que a Igreja primitiva focava tanto na
ressurreição dentre os mortos? Veja, por exemplo, o que o apóstolo Paulo disse em Atos
26:6-8:

“Agora, estou sendo julgado por causa da minha esperança no que Deus prometeu aos
nossos antepassados. Esta é a promessa que as nossa doze tribos esperam que se cumpra,
cultuando a Deus com fervor, dia e noite. É por causa dessa esperança, ó rei, que estou
sendo acusado pelos judeus. Por que os senhores acham impossível que Deus
ressuscite os mortos?” (cf. Atos 26:6-8)

É exatamente isso. A esperança de Paulo era focada no dia em que todas as pessoas hão de
ressuscitar dentre os mortos. “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite
os mortos?” Se existisse uma “imortalidade da alma”, um elemento que está preso dentro
do nosso corpo, liberto por ocasião da morte, todos os mortos justos já estariam no Céu
(como é pregado pelos imortalistas) e o foco na esperança da ressurreição de um simples
corpo morto seria totalmente sem sentido, a esperança seria em uma “alma imortal” que se
libertaria do corpo rumo ao Paraíso.

Uma vez que todos já estivessem no Céu naquele momento, não haveria um motivo lógico
para acharem impossível que Deus ressuscite os mortos, e o foco da esperança não seria de
uma ressurreição de um simples corpo morto que já virou pó, mas sim de uma alma imortal
que deixa o corpo por ocasião da morte. Não seria estranho que, no livro da História da
Igreja, houvesse dezenas e dezenas de menções da “ressurreição dos mortos”, mas
nenhuma (absolutamente nenhuma mesmo) falando de “imortalidade da alma”, ou de
“estado intermediário”?

Afinal, se essa doutrina de “imortalidade da alma” fosse realmente uma realidade entre os
primeiros cristãos, seria completamente imprescindível que os apóstolos fizessem várias
menções a ela, ainda mais quando vemos eles fazendo dezenas de menções claras sobre a
ressurreição dos mortos no último dia. Adicione então a isso todas as cartas apostólicas que
também não mencionam nada de “alma imortal”, mas continuam falando em outras
centenas de vezes sobre a ressurreição, e você verá o resultado.

A pregação dos primeiros apóstolos e da Igreja primitiva era sempre focada na esperança
da ressurreição dentre os mortos. Essa doutrina, como já vimos anteriormente, não
combina em absolutamente nada com a imortalidade da alma. Isso porque não faz sentido
nenhum focar na ressurreição dos mortos se todos ao morrerem vão direto para o Céu ou
para o inferno e o fato da ressurreição é quase insignificante já que eles já estariam lá! É
por isso que nas nossas igrejas de hoje pregações sobre a ressurreição dos mortos
praticamente inexistem.

Pregações sobre a “ressurreição dos mortos” praticamente não existem porque a doutrina
pagã de imortalidade da alma sobrepõe grandemente a realidade da ressurreição. A
ressurreição dentre os mortos virou apenas uma ressurreição de um corpo morto, que na
maioria dos casos já virou pó. A única coisa que muda é que os “espíritos desincorporados”
acabam “ganhando novamente um corpo”.

Por este motivo, torna-se ilógica pregações sobre a simples ressurreição de um mero corpo
morto: a realidade dentro da maioria das igrejas cristãs é de imortalidade da alma, e não de
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 223
ressurreição dos mortos! Pregações sobre os que “estão na glória” são mais do que comuns,
mesmo não se importando com o fato dos apóstolos jamais falarem tal coisa. A ressurreição
perdeu o seu sentido. Ficou “fora de moda”.

Isso é bem diferente daquela esperança, que os primeiros cristãos sustentavam dentro de si
mesmos com todas as forças: A Esperança da Ressurreição dentre os Mortos. Uma vez
que os mortos em geral estão literalmente mortos, só ressuscitando no último dia, torna-se
comum pregações focadas sobre a esperança de ressurgir dentre os mortos no último dia e
torna-se lógica frases como: “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os
mortos?”

Respondendo a pergunta do início, por que os apóstolos focavam tanto na ressurreição


dentre os mortos sem dar nenhuma pista de “imortalidade”? Porque pessoas morriam, e
pessoas eram vivificadas. Eis a raiz da questão: a ressurreição é para a pessoa integral, e
não para um simples corpo morto que já virou pó que se une à sua “alma imortal” que lhe
espera lá em cima.

Aí vermos tanto foco da Igreja primitiva e dos primeiros apóstolos na ressurreição e nada de
“imortalidade”, em contraste com as igrejas dos dias de hoje, em que as pregações sobre a
ressurreição desapareceram pelo simples fato de que perderam o sentido diante da
imortalidade da alma. Voltemos ao evangelho puro e sincero. Voltemos ao foco da
ressurreição dentre os mortos.

A verdade é que imortalidade da alma e ressurreição são dois opostos, e a primeira anula a
segunda e torna a ressurreição algo completamente desnecessário. Para que “ressurreição”
se sem ela nós ficaríamos no Céu eternamente do mesmo jeito? De modo nenhum que a
esperança viva dos primeiros apóstolos seria totalmente voltada à ressurreição. A doutrina
da imortalidade da alma diminui completamente o sentido e o valor do que a ressurreição
representa no Cristianismo.

É de se espantar o fato de os apóstolos darem tanta importância à ressurreição, ao ponto


de dizerem que era essa a única esperança deles (cf. At.23:6; 24:5; 26:6-8), se ela se
resume simplesmente a isso: na prática... nada. Já estaríamos no Céu. Já estaríamos na
presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Então, pra que serve, na prática, uma
ressurreição? Seria um mero "religar entre o corpo e a alma", como dizem os imortalistas?
Não, em toda a Bíblia não há qualquer citação de um “religar” entre corpo e alma na
ressurreição.

Você irá folhear a Bíblia inteira e nunca verá alguém colocando a sua esperança no fato da
alma ser imortal. Mas, em lugar disso, irá olhar mais à frente, até contemplar aquela
mesma esperança tão admiravelmente crida e desejada pelos apóstolos:

“Não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos
interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso
corpo. Pois nessa esperança fomos salvos” (cf. Romanos 8:23-24)

“Agora, estou sendo julgado por causa da minha esperança no que Deus prometeu aos
nossos antepassados. Esta é a promessa que as nossas doze tribos esperam que se cumpra,
cultuando a Deus com fervor, dia e noite. É por causa desta esperança, ó rei, que estou
sendo acusado pelos judeus. Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite
os mortos?” (cf. Atos 26:6-8)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 224
"E tenho em Deus a mesma esperança desses homens: de que haverá ressurreição
tanto de justos como de injustos" (cf. Atos 24:15)

“Irmãos, sou fariseu, filho de fariseu. Estou sendo julgado por causa da minha esperança
na ressurreição dos mortos!” (cf. Atos 23:6)

A palavra “esperança” aparece nove vezes no livro de Atos. Em seis delas é para se referir
a esperança de ressuscitar dentre os mortos (2/3 das ocasiões). Como seria bom ver a
Igreja voltar ao foco primitivo, onde a esperança não estava numa imortalidade da alma,
mas em estar com Cristo através da ressurreição dentre os mortos, a nossa esperança.

Não existe vida antes da ressurreição – Finalmente, devemos ver a afirmação que Paulo faz
em Atos: “O fato de que Deus o ressuscitou dos mortos, para que nunca entrasse em
decomposição, é declarado nestas palavras: ‘Eu lhes dou as santas e fieis bênçãos
prometidas a Davi’. Assim ele diz noutra passagem: ‘Não permitirás que o teu Santo sofra
decomposição’” (cf. At.13:34,35). Vamos por partes. O verso 35 nos faz explicitamente
pensarmos na ressurreição, pois ele não sofreria decomposição no túmulo. Mas e o verso
34? Será que Paulo citou um verso do AT de maneira errada? O que ele tem a ver com a
ressurreição? Vejamos novamente o verso 34:

“O fato de que Deus o ressuscitou dos mortos, para que nunca entrasse em decomposição,
é declarado nestas palavras: ‘Eu lhes dou as santas e fiéis bênçãos prometidas a Davi’”
(v.34)

Quais são as santas e fieis bênçãos que foram prometidas a Davi, e que se cumpriram em
Cristo? A de exercer um reinado perpétuo (cf. 1Rs.9:5). Cristo não poderia exercer tal
reinado perpétuo enquanto morto, pois, como vimos, não existe vida consciente entre a
morte e a ressurreição. Por isso, para tomar posse dessa promessa feita a Davi ele deveria
passar por uma ressurreição. Quando assumimos a posição de imortalidade da alma, esse
verso não faz sentido nenhum a fim de provar irrefutavelmente a ressurreição, mas quando
assumimos a posição mortalista tudo começa a fazer sentido.

A lógica é bem simples: Se ele receberia as bênçãos prometidas a Davi de exercer um


reinado perpétuo, então ele necessariamente deveria passar por uma ressurreição, pois
não existe glória e benção antes da ressurreição, enquanto morto. A morte é um
estado sem vida (i.e, sem existência consciente), em que o ser racional deixa de existir.
Mas, se lhe eram prometidas as santas e fieis bênçãos, então ele deveria sair deste estado
de inatividade para ser abençoado. Nisso fica nítido que ele necessariamente deveria ser
ressuscitado, e vemos que o apóstolo Paulo citou um versículo certo e que realmente prova
a ressurreição.

Este verso só provaria de fato a ressurreição se antes dela não existisse vida
(consequentemente não existiria as bênçãos prometidas no verso), pois doutra forma ele
poderia perfeitamente estar desfrutando da bênção com ou sem a ressurreição
(supostamente na forma de um espírito incorpóreo no Céu). Paulo segue a linha de
raciocínio de que entre a morte e a ressurreição não existe vida e, por isso, se lhe era
predito as bênçãos do reinado perpétuo, então ele deveria necessariamente ressuscitar para
desfrutá-las, pois elas não são possíveis antes da ressurreição em decorrência do fato de
eles estarem sem vida.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 225
Ele segue a seguinte lógica que contraria a posição dos imortalistas de que existe “glória”
antes da ressurreição:

(1) Era predito profeticamente a respeito de Cristo que este iria receber as bênçãos de
Davi.

(2) Como não existe existência consciente entre a morte e a ressurreição, segue-se que
antes da ressurreição ele não poderia desfrutar daquilo que foi descrito no verso.

(3) Logo, ele necessariamente teria que ser ressuscitado.

Qual nada, este versículo passado por Paulo só provaria de fato a ressurreição se na morte
não fosse possível se cumprir em Cristo aquilo que fora prometido a Davi.

Conclusão – Quando lemos todos os vinte e oito capítulos que nos mostram o pensamento
da Igreja primitiva, vemos que eles não tinham qualquer relação com a doutrina dualista de
imortalidade da alma. Para os imortalistas, Davi já subiu aos céus; já para Pedro, Davi
nunca subiu aos céus (cf. At.2:34), e o contexto nos mostra que ele só entra quando
“[Cristo] ponha todos os teus inimigos como estrado dos teus pés” (v.35), uma referência
ao que Jesus fará por ocasião da ressurreição (cf. 1Co.15:25). A verdade é que Davi está
morto, no túmulo (cf. At.2:29), pois, “tendo Davi servido ao propósito de Deus em sua
geração, adormeceu” (cf. At.13:36). Cristo, em contrapartida, está vivo (cf. At.2:33;
19:25).

A declaração de Pedro no pentecoste com relação ao estado de Davi jamais seria proferida
por um defensor da imortalidade da alma, e isso explica o porquê que a esperança dos
primeiros apóstolos era total e completamente voltada ao dia da ressurreição (cf. At.23:6;
17:18; 17:32; 26:6-8; 24:15), porque é somente este o momento em que “os mortos
viverão” (cf. Is.26:19). O próprio fato de Paulo ter a necessidade de provar que Cristo,
mesmo morto, ainda vive (cf. At.19:25), prova que os que morreram não desfrutam de vida
ainda, senão na ressurreição dos mortos do último dia. Como Cristo ressuscitou primeiro, já
desfruta de vida (cf. At.2:27,28).

Não é a toa que Paulo teve tão grande contenda com os gregos dualistas quando o tema era
a ressurreição dos mortos (cf. At.17:32), porque a doutrina da imortalidade da alma anula o
sentido e valor que a ressurreição tem dentro do Cristianismo. Enquanto a doutrina era pura
e sincera, o foco era completamente voltado na ressurreição; quando, porém, o dualismo
grego entrou também na teologia cristã, a ressurreição foi praticamente abandonada dos
púlpitos, dando lugar àquilo que jamais foi mencionado por apóstolo algum: A Lenda da
Imortalidade da Alma.

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 226


CAPÍTULO 5.4 – PAULO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?

“Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não
ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (cf. 1 Coríntios 15:32)

O apóstolo Paulo é outra peça fundamental para compreendermos se a Bíblia é contra ou a


favor da imortalidade da alma. Dois terços dos livros do Novo Testamento são de autoria do
apóstolo. Ele, além de ver a Cristo na estrada de Damasco, teve o apostolado marcado por
revelação direta por parte de Jesus Cristo (cf. Gl.1:11,12), tendo sido inclusive arrebatado
ao terceiro céu (cf. 2Co.12:2-4). Sem dúvida, se tem alguém instruído na verdadeira
doutrina, esse alguém é Paulo.

O evangelho paulino tampouco podia ser mudado (cf. Gl.1:8,9). Já vimos anteriormente que
Paulo inclusive foi censurado em Atenas exatamente por pregar a doutrina da ressurreição,
em contraste direto com a “imortalidade da alma” pregada pelos atenienses (cf. At.17:32).
Mas, para vermos se Paulo pregava ou não a doutrina da imortalidade da alma, iremos
começar pelo fim: quando é que Paulo “estaria com Cristo”?

XV–Ausente do corpo e presente com Cristo

Ausente do corpo e presente com Cristo. Quando? – Começaremos o nosso estudo sobre o
pensamento de Paulo em relação à vida após a morte analisando de forma aprofundada as
passagens que mais são constantemente utilizadas pelos imortalistas na tentativa de
ensinar que Paulo era adepto da doutrina imortalista. Eles citam principalmente duas
passagens nas quais o apóstolo expressa o mesmo pensamento, de que queria "partir e
estar com Cristo", ou que desejava estar "ausente do corpo e presente com Cristo".
Examinaremos tais passagens dentro de seu devido contexto, analisando-as
exegeticamente, a fim de vermos se os argumentos imortalistas são ou não coerentes:

“Porquanto, para mim, o viver é cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne
traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado,
estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente
melhor” (cf. Filipenses 1:21-23)

Para entendermos o que Paulo fala em Filipenses 1:21-23 é de extrema importância


analisarmos o que ele diz em 2ª Coríntios 5:1-8, pois ele reafirma exatamente o que ele
disse aos filipenses (sobre partir e estar com Cristo), mas de forma mais extensa e
aprofundada, explicando dentro do contexto o que ele entendia como sendo esse partir e
estar com Cristo:

"Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de
Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também
gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu; Se, todavia, estando
vestidos, não formos achados nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo,
gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o
mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual
nos deu também o penhor do Espírito. Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo

A Lenda da Imortalidade da Alma Página 227


que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (porque andamos por fé, e
não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com
o Senhor" (cf. 2ª Coríntios 5:1-8)

Os imortalistas tem o costume de jogarem o verso 8 de 2ª Coríntios 5 de forma isolada,


retirando-o de seu devido contexto, como já é de costume, sempre isolando um verso de
seu contexto. A razão pela qual eles nunca falam do contexto que envolve esses textos é
porque sabem que a análise meticulosa deles refuta as suas próprias teses de imortalidade
da alma. Paulo inicia o verso 1 de 2ª Coríntios 5 dizendo:

"Se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma
casa não feita por mãos, eterna, nos céus" (v.1)

Quando Paulo fala que a nossa casa terrestre vai se desfazer, ele não está se referindo à
nossa casa literal onde moramos, construída a base de tijolos, mas sim do nosso corpo
mortal, fazendo a mesma analogia que fez o escritor de Hebreus a este respeito, quando
disse:

"... mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que
nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos" (cf. Hebreus
3:6)

Quando “a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer” não é uma referência à uma
casa literal feita à base de madeira ou tijolos onde Paulo morava, ele não estava preocupado
com o destino de uma moradia terrena porque ele disse claramente que “até agora não
temos tido residência certa” (cf. 1Co.4:11). Se ele nem moradia fixa tinha e frequentemente
escrevia em prisões, é evidente que a referência é ao seu próprio corpo terreno.

Portanto, dentro da analogia que faz o apóstolo Paulo, ao dizer que essa casa terrestre
deste tabernáculo se desfará ele estava se referindo à sua própria morte corporal, ou
seja, a este presente corpo mortal que passará pela morte física. Mas Paulo continua nessa
mesma analogia, dizendo que, quando essa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer
(i.e, quando este corpo mortal perecer) temos de Deus um edifício, uma casa não feita por
mãos, eterna, nos céus. A que ele se refere aqui? Logicamente, se a casa deste tabernáculo
se refere ao nosso presente corpo mortal e corruptível, o edifício eterno a que Paulo se
refere diz respeito ao nosso corpo imortal e incorruptível da ressurreição.

Da mesma forma que o apóstolo não estava falando de casas literais de tijolos na primeira
parte do verso, mas de um corpo mortal e corruptível que temos hoje, igualmente na
continuação do verso ele complementa essa mesma analogia, não se referindo a uma casa
literal nos céus (como uma "mansão celestial", como pensam alguns), mas sim a um corpo
imortal e incorruptível, em contraste a este presente corpo mortal e corruptível que
possuímos hoje. Somente desta forma a analogia de Paulo faria sentido. Ele afirma que iria
morrer fisicamente (casa terrestre deste tabernáculo se desfazendo), para obter um edifício
superior e eterno (corpo imortal da ressurreição). Mais claro ainda é a afirmação
subsequente, onde ele diz:

“...temos d