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Bate-papo sobre freijó com o luthier Henry Canteri


(HC Guitars)
em dezembro 09, 2017

Saudações!

O freijó é uma das madeiras mais utilizadas pelos luthiers brasileiros na


fabricação de instrumentos musicais de corpo sólido. Apesar disso, as
informações que circulam na rede mundial de computadores sobre essa
madeira são pouco confiáveis, pois muitos são os mitos e preconceitos
disseminados em blogs e comunidades virtuais por pessoas

Para iluminar a questão, conversamos com o luthier Henry Canteri (HC


Guitars), de Bragança Paulista/SP, que além de possuir conhecimentos
práticos sobre madeiras e outros assuntos que envolvem a arte da luthieria,
também possui uma grande bagagem teórica (e uma biblioteca invejável).

Agradecemos imensamente ao luthier Henry Canteri por mais uma


enriquecedora participação.

Guitarras Made In Brasil (GMB): Em termos


sonoros, quais as características do freijó?

Henry Canteri (HC): Gostaria primeiro de


agradecer e dizer que é muito legal fazer esta
nova entrevista e passar um pouco de minha
experiência com o freijó.
Blocos de Freijó

Vamos comparar em termos acústicos com valores de corpo de prova o freijó


com outras madeiras.
O Freijó tem uma frequência de ressonância fundamental (Fr) de 195HZ.
Uma velocidade de propagação sonora (C em m/s) de 5173m/s e um
decaimento
INSCREVER-SE logarítmico (DL em m/s) 0,014m/s. Com base nisso, é uma
madeira que reproduz bem os agudos tem um bom ataque e um ótimo
sustain.

Mogno (Fr)166hz, Velocidade (C m/s) 4422 e decaimento (DL) 0,019m/s.

Cedro (Fr) 142hz , Velocidade (C m/s) 3770 e decaimento (DL) 0,025m/s.

Marupá (Fr)170hz , Velocidade (C m/s) 4519 e decaimento (DL)0,021m/s.

Sobre o ash, possuo somente informação da velocidade de propagação


sonora de 4875 e acredito que outros valores do ash (FR e DL), devido a sua
sonoridade mais brilhante comprovada em algumas guitarras que já tive em
mãos, se assemelhem às nacionais com frequência de ressonância mais
alta.

Em teoria, quanto maior a FR mais aguda a madeira. Quanto maior


velocidade de propagação sonora (C) mais rápido a madeira responde ao
estímulo, o que chamamos de ataque e, quanto menor o decaimento (DL),
maior tempo a madeira continua vibrando o que chamamos de sustain.

Diferentes características sonoras entre as madeiras, embora existam, são


muito pouco para se levar em conta quando se avalia o timbre do
instrumento, Há outros fatores de peso como construção e captação por
exemplo.

Tenho três teles HC aqui, uma de marupá, uma de cedro e uma de freijó
(embora com top em pinho) com praticamente a mesma captação, todas com
braço em maple e escala em bird’s eye maple. Em uma escala comparativa,
a de marupá é a que tem o timbre levemente mais agudo, mas nada
desequilibrado, pois médios e graves também estão lá, possui som mais
estalado (twang), ou seja, muito mais ataque e menor sustain. A de cedro é
bem equilibrada embora predominem os médios, não tem muito ataque e tem
um sustain bom, tenho a impressão que ela está passando por um
compressor. A de freijó com top em pinho tem bons agudos, mas sinto uma
predominância maior dos médios e graves deixando o som mais quente, o
que aparentemente choca e contradiz com a alta frequência FR de 195HZ
encontrada nos testes, talvez devido ao top de pinho, das três é a que tem
maior sustain, provavelmente devido ao peso especifico ser levemente maior
que do marupá e do cedro e por seu decaimento (DL) ser realmente menor.
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(GMB): Geralmente, o freijó é uma madeira muito pesada?

(HC): Pensando-se somente nas madeiras mais tradicionais para o corpo,


diria que é de média para alta densidade, vou colocar alguns valores para
comparação.

Freijó – 0,49g/cm3

Mogno - 0,48g/cm3

Marupá - 0,40g/cm3

Cedro – 0,43g/cm3

Alder – 0,45g/cm3

White Ash - 0.60g/cm3

Swamp Ash – 0,48g/cm3

(GMB) Muitas pessoas afirmam que o freijó


é o “ash brasileiro”. Realmente elas sãos
madeiras semelhantes?

(HC): Visualmente falando, sem dúvida o freijó


é muito parecido com o black ash e com o
Destaque para os veios
swamp ash, um pouco menos parecida com o
white ash. Freijó e ash são equilibradas em termos acústicos, mas acredito
que se estivermos em busca das características do swamp ash, uma madeira
mais leve como o marupá seria mais indicada, embora diferente visualmente.

(GMB) O freijó é uma madeira fácil de ser trabalhada?

(HC): Muito fácil de ser trabalhada, boa de furar, serrar, lixar... Um pouco de
cuidado ao aplainar e fresar para que não lasque.
(GMB) Existe
INSCREVER-SE alguma restrição ou algum tipo de cuidado especial com
relação ao uso do freijó na fabricação de instrumentos musicais? Ele
serve tanto para o corpo quanto para o braço?

(HC): Não vejo problema em se usar o freijó para braço, embora prefira
madeiras mais estáveis com menor contração volumétrica para esta
aplicação, como mogno por exemplo. Para corpos de sólidos, com certeza!
Também acredito que seja uma ótima madeira para se fazer laterais, fundo e
até top de semiacústicas.

Acho que a tradição no uso de certas madeiras, principalmente pelos


grandes fabricantes está mais ligada a oferta, preço e exigências mecânicas
de cada parte do instrumento do que propriamente em características
sonoras. Embora realmente existam diferenças acústicas entre as espécies
em instrumentos sólidos, isso não é tão evidente para alguns ouvidos como
em acústicos (com caixa de ressonância), ficando ainda mais sutis quando
se compara com madeiras de características muito próximas.

Outro ponto é que madeira é um material natural e varia bastante, sendo que
estes valores mencionados acima são valores médios, podem-se ter
amostras de uma espécie que cruzam com valores dentro da faixa de outra
espécie.

Ou seja, a madeira tem som diferente? Sim Tem.

É o principal fator de timbre no instrumento sólido? Não. É apenas um deles,


deve ser levado em consideração, mas é de suma importância avaliar outros
fatores como captação e construção.
Gostaria de acrescentar que temos no Brasil excelentes e belas madeiras
para instrumentos (para não dizer as melhores). Luthiers brasileiros e
internacionais já sabem disso há muito tempo, o livro “Manual of Guitar
Technology” de Franz Jahnel, cuja primeira edição foi no ano de 1965, já
citava várias madeiras brasileiras (cedro, mogno, jequitibá, peroba, freijó,
jacarandá, dentre outras) para o uso em instrumentos. Então acredito ser
muito importante dar o devido valor a madeira nacional.

Alder, ash, maple, baswood, poplar não são melhores que marupá, cedro,
mogno, jequitibá. Mais importante que a espécie, é a integridade e qualidade
da peça de madeira e saber suas características mecânicas, se tem
tendência a rachadura, empenamento etc.
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Referências Bibliográficas indicadas pelo luthier Henry Canteri:

- Evaluation of Selected Amazonian Wood species for musical instrument


Manufacture Harry Jan Van Slooten/Mario Rabelo de Souza (instituto
Nacional de pesquisas da Amazônia).

- Classificação de madeiras para instrumentos musicais – Mario Rabelo de


Souza (Laboratório de produtos florestais/Ministério da Agricultura)

- Manual of Guitar Technology (Franz Jahnel)

- “The Wood database” Website. (http://www.wood-database.com/freijo/)

CONTATOS HC GUITARS/LUTHIER HENRY CANTERI

Facebook: https://www.facebook.com/hcguitars

Blog: http://henrycanteri.blogspot.com.br
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Kaiser Guitars 9 de dezembro de 2017 06:08

Perfeito! =D
Falou tudo, Freijó está entre as melhores que já usei em corpos, excelente madeira.

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