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IBDH

Revista do
Instituto Brasileiro de Direitos Humanos

Ano 16, Vol. 16, Número 16 - 2016


IBDH Revista do
Instituto Brasileiro de Direitos Humanos
Ano 16, Vol. 16, Número 16 - 2016
Organizadores:
Antônio Augusto Cançado Trindade
César Oliveira de Barros Leal

Editor-Adjunto
Valter Moura do Carmo

Conselho Editorial
Antônio Augusto Cançado Trindade
César Oliveira de Barros Leal
Paulo Bonavides
Fides Angélica de Castro Veloso Mendes Ommati
Antônio Álvares da Silva
Antônio Celso Alves Pereira
Antônio Otávio Sá Ricarte
Homenageada especial Bleine Queiroz Caúla
Carlos Weis
Fides Angélica de Castro Veloso
Catherine Maia
Mendes Ommati Elkin Eduardo Gallego Giraldo
2ª Vice-Presidente do IBDH Elvira Domínguez-Redondo
Emilia Segares
O conteúdo dos artigos Emmanuel Teófilo Furtado
Filomeno Moraes
é de inteira responsabilidade Gonzalo Elizondo Breedy
dos autores. Juan Carlos Murillo
Juana Maria Ibáñez Rivas
Permite-se a reprodução parcial Julieta Morales Sánchez
ou total dos artigos aqui Lília Maria de Moraes Sales
publicados desde que seja Margarida Genevois
Pablo Saavedra Alessandri
mencionada a fonte.
Philippe Couvreur
Renato Zerbini Ribeiro Leão
Distribuição: Ruth Villanueva Castilleja
Instituto Brasileiro de Direitos Sílvia Maria da Silva Loureiro
Humanos Valter Moura do Carmo
Wagner Rocha D’Angelis
Projeto Gráfico/Capa
Rua José Carneiro da Silveira, 15 - Nilo Alves Júnior
ap. 301. Cocó Diagramação
CEP: 60192.030 Franciana Pequeno
Fortaleza - Ceará - Brasil Revisão
César Oliveira de Barros Leal
Telefone: +55 85 3234.32.92
http://www.ibdh.org.br
Revista do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos.
E-mail: cesarbl@matrix.com.br V. 16, N. 16 (2016). Fortaleza, Ceará.
A Revista do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos, 2016. Anual.
1. Direitos Humanos - Periódicos. I. Brasil.
Instituto Brasileiro de Direitos Humanos Instituto Brasileiro de Direitos Humanos.
é uma publicação anual do IBDH. CDU
Sumário Ano 16, Vol. 16, Número 16 - 2016
Conselho Consultivo do IBDH................................................................ 05
Ano 16, Vol. 16, Número 16 - 2016
Apresentação............................................................................................09

I- Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina


Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí.........................................................11

II- Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?


Alán Arias Marín......................................................................................29

III- Direito à Afetividade Divergente no Contexto da Pós-Modernidade:


O Relativismo como Estratégia de Atuação Prestacional do Estado
Ana Barros..............................................................................................49

IV- Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre


a Complementaridade da Responsabilidade Internacional do Indivíduo
e do Estado
Antônio Augusto Cançado Trindade......................................................59

V- A Consolidação dos Direitos Humanos: Apontamentos acerca do Processo


Histórico e de Aspectos Teórico-Práticos Atinentes à sua Efetivação
Arnaldo Fernandes Nogueira e Marinina Gruska Benevides................77

VI- Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ
Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis...................................................................................91

VII- Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial


Catherine Maia....................................................................................................................................................................117

VIII- El Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos y la Audiencia de Custodia


César Oliveira de Barros Leal............................................................................................................................................137

VIX- Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture
Claudio Grossman..............................................................................................................................................................149

X- A Evolução da Definição dos Crimes Internacionais: Uma Comparação entre o Estatuto de Roma, o Direito Francês
e o Direito Brasileiro
Fernanda Figueira Tonetto.................................................................................................................................................171

XI- La Justicia Penal Juvenil en la Jurisprudencia de la Corte Interamericana de Derechos Humanos


(Con Especial Referencia a Centroamérica)
Javier Llobet Rodríguez......................................................................................................................................................181

XII- El Derecho Penal Internacional: Un Derecho Protector de los Derechos Humanos y de las Garantías Individuales
José Luis de la Cuesta.........................................................................................................................................................207

XIII- De la Teoría de los Cristales Rotos a la Ruptura de los Derechos Humanos


Juan Sebastián Verástegui Marchena.................................................................................................................................217

XIV- International Humanitarian Law in the Jurisprudence of the Inter-American Court of Human Rights
Juana María Ibáñez Rivas..................................................................................................................................................225

XV- La Corte, el Sistema Interamericano de Protección de los Derechos Humanos, el Deber de Investigar y la Justicia Transicional
Manuel E. Ventura Robles..................................................................................................................................................245

XVI- Raízes Jusnaturalistas do Conceito de Direitos Originários dos Índios na Tradição Constitucional Brasileira:
Sobre o Conceito de Indigenato
Pedro Calafate.....................................................................................................................................................................263

XVII- Humanismo e os Direitos Humanos de Indígenas e Negros e a Contribuição de Francisco de Vitória desde Salamanca-ES
Racquel Valério Martins.....................................................................................................................................................281
XVIII- El Compromiso del Magistrado Antônio Augusto Cançado Trindade con los Derechos Humanos.
Sus Opiniones Disidentes en la Corte Internacional de Justicia
Rocío Abellán Bordallo................................................................................................................................................295

XIX- Os Limites da Jurisdição Penal Brasileira e o Princípio Constitucional da Intangibilidade da Coisa Julgada Face
aos Desafios da Prática do Tribunal Penal Internacional
Silvia Maria da Silveira Loureiro, Caio Henrique Faustino da Silva e Marcello Philippe Martins Aguiar................313

ANEXOS

XX- Discurso - Breves Recordações de Minha Trajetória Internacional


Antônio Augusto Cançado Trindade............................................................................................................................335

XXI- Human Rights in Europe: An Insider's Views


Andrew Drzemczewski................................................................................................................................................343

XXII- Ética Humana y Animales Domésticos no Humanos


Eugenio Raúl Zaffaroni................................................................................................................................................357

XXIII- Diritti Fondamentali e Democrazia Costituzionale


Luigi Ferrajoli...............................................................................................................................................................367

XXIV- Saudação na Abertura Oficial do V Curso Brasileiro Interdisciplinar em Direitos Humanos: O Princípio de Humanidade
e a Salvaguarda da Pessoa Humana (5 a 16 de setembro de 2016, em Fortaleza, Ceará, Brasil)
César Oliveira de Barros Leal......................................................................................................................................381

XXVI- Saudação no Encerramento do V Curso Brasileiro Interdisciplinar em Direitos Humanos: O Princípio de Humanidade
e a Salvaguarda da Pessoa Humana (5 a 16 de setembro de 2016, em Fortaleza, Ceará, Brasil)
César Oliveira de Barros Leal......................................................................................................................................385
CONSELHO CONSULTIVO DO IBDH
• Antônio Augusto Cançado Trindade (Presidente de Honra)
Ph.D. (Cambridge – Prêmio Yorke) em Direito Internacional; Professor Titular
da Universidade de Brasília e do Instituto Rio Branco; ex-Juiz e ex-Presidente da
Corte Interamericana de Direitos Humanos; ex-Consultor Jurídico do Ministério
das Relações Exteriores do Brasil; Membro do Conselho Diretor do Instituto
Internacional de Direitos Humanos (Estrasburgo) e da Assembleia Geral do
Instituto Interamericano de Direitos Humanos; Membro Titular do Institut de
Droit International e Juiz da Corte Internacional de Justiça (Haia).

• César Oliveira de Barros Leal (Presidente)


Pós-doutor em Estudos Latino-americanos pela Faculdade de Ciências Políticas e
Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México; Pós-doutor em Direito
pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Santa Catarina; Doutor em
Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Nacional Autônoma do México;
Procurador do Estado do Ceará; Professor aposentado da Faculdade de Direito
da Universidade Federal do Ceará; Membro da Assembleia Geral do Instituto
Interamericano de Direitos Humanos, da Academia Brasileira de Direito Criminal
e da Academia Cearense de Letras.

• Paulo Bonavides (1º Vice-Presidente)


Doutor em Direito; Professor Emérito da Faculdade de Direito da Universidade
Federal do Ceará; Professor Visitante nas Universidades de Colônia (1982),
Tennessee (1984) e Coimbra (1989); Presidente Emérito do Instituto Brasileiro
de Direito Constitucional; Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa;
Titular das Medalhas “Rui Barbosa”, da Ordem dos Advogados do Brasil (1996) e
“Teixeira de Freitas”, do Instituto dos Advogados Brasileiros (1999).

• Fides Angélica de Castro Veloso Mendes Ommati (2ª Vice-Presidente)


Coordenadora do Curso de Direito do Instituto Camilo Filho; Presidente da
Academia Piauiense de Letras Jurídicas; Membro da Academia Piauiense de Letras;
Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros.

• Andrew Drzemczewski
Ph. D. (Universidade de Londres); ex-Professor Visitante da Universidade de
Londres; Diretor da Unidade de Monitoring do Conselho da Europa; Conferencista
em Universidades de vários países.

• Antonio Sánchez Galindo


Ex-Diretor do Centro Penitenciário do Estado do México; ex-Diretor Geral de
Prevenção e Readaptação Social do Estado do México; ex-Professor de Direito Penal
da Universidade Nacional Autônoma do México; ex-Diretor Técnico do Conselho

5
Conselho Consultivo do IBDH

de Menores da Secretaria de Segurança Pública do México; Membro da Academia


Mexicana de Ciências Penais e da Sociedade Mexicana de Criminologia.

• Bárbara Pincowsca Cardoso Campos


Mestra em Direito pela Universidade de Brasília (UnB); Bacharel em Relações
Internacionais pela UnB; Bacharel em Direito pelo Centro Universitário de Brasília
(UniCEUB); Pesquisadora do Grupo “Crítica & Direito Internacional” da UnB;
Professora Titular de Relações Internacionais da Universidad Católica de Pereira,
Colômbia.

• Christophe Swinarski
Ex-Consultor Jurídico do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV-Genebra);
Delegado do CICV no Extremo Oriente e ex-Delegado do CICV na América do Sul
(Cone Sul); Conferencista em Universidades de vários países.

• Dean Spielmann
Juiz e Presidente da Corte Europeia de Direitos Humanos; Membro do Conselho
de Administração do Instituto Internacional de Direitos Humanos (Estrasburgo).

• Fernando Luiz Ximenes Rocha


Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará; Professor da Faculdade
de Direito da Universidade Federal do Ceará; ex-Diretor Geral da Escola Superior
da Magistratura do Ceará; ex-Procurador Geral do Município de Fortaleza; ex-
Procurador do Estado do Ceará; ex-Procurador Geral do Estado do Ceará; ex-
Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará.

• Héctor Fix-Zamudio
Professor Titular e Investigador Emérito do Instituto de Pesquisas Jurídicas da
Universidade Nacional Autônoma do México; Juiz e ex-Presidente da Corte
Interamericana de Direitos Humanos; Membro da Subcomissão de Prevenção de
Discriminação e Proteção de Minorias das Nações Unidas; Membro do Conselho
Diretor do Instituto Interamericano de Direitos Humanos.

• Hélio das Chagas Leitão Neto


Ex-Secretário de Justiça e Cidadania do Estado do Ceará; ex-Presidente da Seccional
do Ceará da Ordem dos Advogados do Brasil; Pós-graduado em Direito Processual
pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará.

• Jaime Ruiz de Santiago


Ex-Professor da Universidade Ibero-americana do México; ex-Encarregado de
Missão do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR)
no Brasil; ex-Delegado do ACNUR em San José da Costa Rica; Conferencista em
Universidades de vários países.

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Conselho Consultivo do IBDH

• Jayme Benvenuto Lima Júnior


Mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco; Consultor Jurídico
do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP).

• Jean François Flauss


Secretário Geral do Instituto Internacional de Estrasburgo; Professor de Direito
Internacional da Universidade de Lausanne (Suíça).

• Jorge Padilla
Graduado em Administração de Negócios Internacionais; Consultor Permanente
do Instituto Interamericano de Direitos Humanos desde 2003; Consultor
Corporativo em Projetos de Responsabilidade Social; Professor Titular da Faculdade
de Ciências Sociais na Universidade Autônoma da América Central, Costa Rica.

• Karel Vasak
Ex-Secretário Geral do Instituto Internacional de Direitos Humanos; ex-Consultor
Jurídico da UNESCO.

• Linos-Alexandre Sicilianos
Juiz da Corte Europeia de Direitos Humanos; Membro do Conselho de
Administração do Instituto Internacional de Direitos Humanos (Estrasburgo).

• Néstor José Méndez González


Advogado; Professor da Faculdade de Direito da Universidade Nacional Autônoma
do México; Diretor Geral do Instituto Nacional de Apoio a Vítimas e Estudos em
Criminalidade (México).

• Manuel E. Ventura Robles


Ex-Juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos; Membro Associado do
Instituto Hispano-Luso-Americano de Direito Internacional.

• Pedro R. David
Juiz ad litem do Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas para a ex-
Iugoslávia, Haia, Holanda; Juiz da Câmara Federal de Cassação Penal da República
Argentina; Doutor em Ciência Política pela Universidade John F. Kennedy, Buenos
Aires, Argentina; Doutor em Direito e Ciências Sociais pela Universidade Nacional
de Tucumán; Doutor em Sociologia pela Universidade de Indiana, Estados Unidos.

• Sébastien Touzé
Professor da Universidade de Estrasburgo; Secretário-Geral do Instituto Internacional
de Direitos Humanos René Cassin (Estrasburgo); Membro do Conselho da
Sociedade Francesa de Direito Internacional; Professor Associado do Instituto
de Altos Estudos Internacional e do Centro de Pesquisa em Direitos Humanos e
Direito Humanitário da Universidade de Paris II (Panthéon-Assas).

7
Conselho Consultivo do IBDH

• Sérgio Urquhart de Cademartori


Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina; Professor do
Programa de Doutorado da Universidade de Granada Espanha; Professor Associado
da UFSC; Pesquisador Nível 2 do CNPq; Membro do Instituto de Direito
Administrativo de Santa Catarina (IDASC).

• Sheila Lombardi de Kato


Desembargadora do Tribunal de Justiça do estado de Mato Grosso; Coordenadora-
Geral do Programa Nacional de Direitos da Mulher.

• Soledad García Muñoz


Advogada; Diplomada em Direitos Humanos pela Universidade Carlos III de
Madri; Professora da Universidade Nacional de La Plata e da Universidade de
Buenos Aires; Coordenadora do Escritório Regional na América do Sul do Instituto
Interamericano de Direitos Humanos.

8
APRESENTAÇÃO
O Instituto Brasileiro de Direitos Humanos (IBDH) tem a satisfação de dar a público o décimo-
sexto número de sua Revista, instrumento pelo qual contribui com periodicidade anual e distribuição
gratuita (graças ao respaldo do Banco do Nordeste) ao desenvolvimento do ensino e da pesquisa na
área dos direitos humanos, visando a promovê-los, de forma ampla, mas principalmente na realidade
brasileira. No entendimento do IBDH, o ensino e a pesquisa em direitos humanos giram em torno de
alguns conceitos básicos, devendo-se afirmar, de início, a própria universalidade dos direitos humanos,
inerentes que são a todos os seres humanos, e consequentemente superiores e anteriores ao Estado e a
todas as formas de organização política. Por conseguinte, as iniciativas para sua promoção e proteção
não se esgotam – não se podem esgotar – na ação do Estado.
Há que destacar, em primeiro plano, a interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos
(civis, políticos, econômicos, sociais e culturais). Ao propugnar por uma visão necessariamente integral
de todos os direitos humanos, o IBDH adverte para a impossibilidade de buscar a realização de uma
categoria de direitos em detrimento de outras. Quando se vislumbra o caso brasileiro, dita concepção
se impõe com maior vigor, porquanto desde seus primórdios de sociedade predatória até o acentuar
da crise social agravada nos anos mais recentes, nossa história tem sido até a atualidade marcada pela
exclusão, para largas faixas populacionais, seja dos direitos civis e políticos, em distintos movimentos,
seja dos direitos econômicos, sociais e culturais.
A concepção integral de todos os direitos humanos se faz presente também na dimensão temporal,
descartando fantasias indemonstráveis como a das “gerações de direitos”, que têm prestado um
desserviço à evolução da matéria, ao projetar uma visão fragmentada ou atomizada no tempo dos
direitos protegidos. Todos os direitos para todos é o único caminho seguro. Não há como postergar para
um amanhã indefinido a realização de determinados direitos humanos.
Para lograr a eficácia das normas de proteção, cumpre partir da realidade do quotidiano e reconhecer
a necessidade da contextualização dessas normas em cada sociedade humana. Os avanços nesta área
têm-se logrado graças, em grande parte, sobretudo, às pressões da sociedade civil contra todo tipo de
poder arbitrário, somadas ao diálogo com as instituições públicas. A cada meio social está reservada
uma parcela da obra de construção de uma cultura universal de observância dos direitos humanos.
Os textos, em vários idiomas, que compõem este décimo-sexto número da Revista do IBDH,
a exemplo das edições anteriores, enfeixam uma variedade de tópicos de alta relevância atinentes à
temática dos direitos humanos. O presente número antecede a realização em Fortaleza do VI Curso
Brasileiro Interdisciplinar em Direitos Humanos: Direitos Humanos e Meio Ambiente, no período de
28 de agosto a 08 de setembro de 2017, uma iniciativa conjunta do IBDH e do Instituto Interamericano
de Direitos Humanos (IIDH), através de seu Escritório Regional em Montevidéu, contando com a
parceria e o apoio de numerosas instituições locais, nacionais e internacionais, entre elas a Embaixada
da Austrália, a União Europeia e o Parlamento Europeu.
Este Curso anual, que reúne uma centena de participantes nacionais e estrangeiros, representa um
divisor de águas na trajetória do IBDH, abrindo-lhe portas para alianças estratégicas com instituições
públicas e privadas.
No presente domínio de proteção impõem-se maior rigor e precisão conceituais, de modo a
sustentar a vindicação dos direitos humanos em sua totalidade, e a superar o hiato existente entre o
ideário contido na Constituição Federal e nos tratados em que o Brasil é Parte e nossa realidade social.
Essa dicotomia entre “falar e agir” provoca um considerável desgaste e uma descrença generalizada.
Isso é deplorável, na medida em que devemos não apenas conhecer nossos direitos, mas também saber
defendê-los e exigir sua proteção por parte do poder público, reduzindo assim o espaço ocupado pela
injustiça, pela violência e pela arbitrariedade.

9
Apresentação

Proclamações de direitos não são suficientes, como já alertava há décadas o lúcido pensador Jacques
Maritain, para quem não é admissível perverter a função da linguagem, a serviço dos que nos roubam
a fé na efetivação dos direitos humanos, inerentes aos seres humanos e à sua condição de dignidade.
Aos direitos proclamados se acrescem os meios de implementá-los, inclusive diante das arbitrariedades
e mentiras dos detentores do poder. Entende o IBDH que o direito internacional e o direito interno se
encontram em constante interação, em benefício de todos os seres humanos.
Assim sendo, o IBDH persiste em manifestar sua estranheza ante o fato da não aplicação cabal do
art. 5º, § 2º, da Constituição Federal Brasileira vigente, de 1988, o que acarreta responsabilidade por
omissão. A juízo do IBDH, por força do art. 5º, § 2º, da Carta Magna, os direitos consagrados nos tratados
de direitos humanos em que o Brasil é Parte se incorporam ao rol dos direitos constitucionalmente
consagrados. Impõe-se tratá-los dessa forma, como preceitua nossa Constituição, a fim de alcançar uma
vida melhor para todos quantos vivam em nosso país.
Nesse sentido, o IBDH continua repudiando as alterações introduzidas pelo posterior art. 5º, § 3º,
da Emenda Constitucional nº 45 (promulgada em 08.12.2004), o qual revela inteiro desconhecimento
da matéria, na perspectiva do Direito Internacional dos Direitos Humanos, dando ensejo a todo tipo
de incongruências – inclusive em relação a tratados de direitos humanos anteriores à referida Emenda
– ao sujeitar o status constitucional de novos tratados de direitos humanos à forma de aprovação
parlamentar dos mesmos. Esta bisonha novidade, sem precedentes e sem paralelos, leva o IBDH a
reafirmar, com ainda maior veemência, a autossuficiência e autoaplicabilidade do art. 5º, § 2º, da
Constituição Federal brasileira.
Na mesma linha de pensamento, o IBDH também rechaça as críticas de determinados detentores
do poder a decisões de órgãos internacionais de supervisão dos direitos humanos, pelo simples fato
de serem tais decisões desfavoráveis ao Estado brasileiro. Algumas críticas, reveladoras de ignorância,
chegaram ao extremo de proporem represálias a órgãos internacionais que estão cumprindo o seu
dever, em defesa dos justiciáveis. A esse respeito, nunca é demais recordar que os Estados Partes na
Convenção Americana dos Direitos Humanos, que reconheceram a competência compulsória da
Corte Interamericana de Direitos Humanos, assumiram o compromisso de dar plena execução às
Sentenças da Corte Interamericana. Isto se impõe bona fides, em razão do princípio geral do direito
pacta sunt servanda. A nenhum Estado Parte é dado evadir-se do fiel cumprimento de suas obrigações
convencionais.
Reiteramos, enfim, que a Revista do IBDH, como repositório de pensamento independente e
de análise e discussão pluralistas sobre os direitos humanos, persegue o desenvolvimento do ensino
e da pesquisa sobre a temática no Brasil. Desse modo, na tarefa de consolidação de um paradigma
de observância dos direitos humanos em nosso meio social, espera o IBDH dar uma permanente
contribuição.

Antônio Augusto Cançado Trindade

César Oliveira de Barros Leal

10
ESTRUCTURA JUDICIAL DE DERECHOS HUMANOS
CONTEXTUALIZADA EN ARGENTINA

Adrián Manzi
Doctor en Psicología; Investigador en Psicología Política; Docente de Psicología Política;
Universidad Nacional de San Luis, Argentina; Becario Posdoctoral.

Elio Rodolfo Parisí


Doctor en Psicología; Director del Proyecto de Investigación Psicología Política;
Docente de Psicología Social y de Psicología Política, Universidad Nacional de San Luis, Argentina.

RESUMEN ejercer derechos en caso de ser violentados o


excluidos. La impunidad es en la justicia, lo que
El comprobado estatuto jurídico de el adormecimiento colectivo y desvalorización
detenidos-desaparecidos de más de 7.000 de lo público es en la identidad, son parientes
personas a fines de los años ´70 y comienzos contemporáneos en nuestros procesos subjetivos.
de los ´80, comportó una problematización
que influyó la subjetividad de millares de Palabras clave
argentinos y tuvo repercusiones a nivel de
jurisdicción internacional. Consideramos que la Derechos humanos; Estatuto jurídico de
construcción de la política de derechos humanos detenidos-desaparecidos; subjetividad de los
no constituye totalmente un intento de argentinos
emancipación económica a través de lo jurídico,
sino que es el resultado de la interacción que se ABSTRACT
ha producido entre un ejercicio argentino del The proved legal status of over 7,000
poder con características represivas y perversas detained and missing people between the late
-que maneja una determinada economía- 70s and early 80s created a problem that affected
política y las formas de relaciones sociales e the subjectivity of thousands of Argentineans
institucionales- y la resistencia de los argentinos and had international jurisdiction-level
frente a los avatares de ese estilo de imposición consequences. We think that the construction of
del mercado. human rights policy is not an attempt of economic
Los derechos humanos abren el ciclo de emancipation through legal mechanisms. We
una nueva regulación del Estado argentino, believe it is the result of an interaction between
cuando éste impulsó medidas que enaltecían the Argentine exercise of power with repressive
a la “libertad” dentro del campo económico y and wicked characteristics – that manages a
cívico. Nuestro análisis considera al sistema particular political and economic model, as
judicial como una táctica de dominación más, well as social and institutional relationships -,
como una de las agencias del poder que tiene and the resistance of Argentineans against the
variadas estrategias y técnicas (de dominación). drawbacks resulting from market conditions.
El tiempo judicial que procesa, prescribe, The issue of human rights set up a new
o pospone la sentencia, es un factor que cycle in the intervention of the Argentine State
subjetiviza, en tanto que demora resarcimientos when actions that preserved civic and economic
y resocialización, frustrando psicológicamente, “freedom” were promoted. Our analysis sees
agotando fuerzas, aglutinando humanos the legal system as another domination device,
como desechos, precarizando la vida cívica, as one of the agents of power that resorts to
adormeciendo el cuerpo colectivo, promoviendo different domination strategies and techniques.
la impotencia colectiva. Dentro de esta dinámica The judicial time involved in prosecuting,
se juega la posibilidad de ser ciudadanos y hacer prescribing or postponing a sentence is a

11
Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí

subjectivizing factor, in the sense that it intentaron establecerse como factores crónicos
represents a delay in legal redress cases and en la vida política argentina.
resocialization processes. The resulting effects of Para ello nos hemos servido de análisis
this situation involve psychological frustration del estadísticas oficiales y de organismos
and weakening, accumulation of human beings no gubernamentales, conjuntamente con
as if they were piles of waste, eroding civic bibliografía académica pertinente, haciendo
life, numbing the collective body, and building específicas referencias a los hechos que, por
collective impotence. In this context, there is a su trascendencia, han planteado a la política,
chance of claiming for one’s rights when they a la economía, y a la sociedad en general, un
are violated or omitted. Impunity is to justice problema por resolver o, más bien, la demanda
what collective numbness and undervaluation de intervenir en las formas, lógicas y objetivos,
of the public domain is to identity. They are con que funcionan las instituciones sociales y
contemporary relatives, and all of them co-exist los valores que se promueven con éstas. Es por
in our subjective processes. esto que para nosotros, la

Keywords (…) problematización no quiere decir


representación de un objeto preexistente,
Human Rights; Legal Status of detained como así tampoco creación mediante el
and missing people; argentineans´ subjectivity discurso de un objeto que no existe. Es el
conjunto de las prácticas discursivas o no
PROBLEMATIZACIÓN Y CONSTRUCCIÓN discursivas que hace que algo entre en el
DE VERDADES EN CONTEXTO juego de lo verdadero y de los falso y lo
constituye como objeto para el pensamiento
Tomando el análisis foucaultiano, la (Foucault, 1999: 371).
gubernamentalidad implica un conjunto de
instituciones, de procedimientos, de análisis, La violación a los derechos humanos
cálculos y tácticas que tienen como objetivo durante los ´70 y principios de los ´80 constituyó
la población, como forma mayor de saber la una seria problematización para toda la sociedad
economía política y como instrumento técnico argentina. Por lo que entendemos que existe una
los dispositivos de seguridad. Centrada en historia de la verdad en las pasadas y actuales
este principio foucaultiano, la cuestión es violaciones a los derechos humanos de muchos
problematizar sobre la constitución del sujeto argentinos, o que cada verdad de algún grupo
argentino, es decir, la experiencia de sí, en social, tiene su propia historia, sin excluir ni
la Argentina de estos últimos años; la de los anular a otras. Las estrategias de las relaciones
tipos y estilos de gobiernos que establecemos de fuerza entre los distintos sectores sociales; los
los argentinos estando los derechos humanos tipos de saber que se impusieron unos a otros
implicados. y a sí mismos; las técnicas que se desplegaron
Analizar cómo se formó la experiencia de y el dispositivo que se afianzó, establecieron
vida en la que están ligadas las relaciones con una historia de la verdad en la que se analiza
uno mismo y con los demás cuando los crímenes y caracteriza la introducción del mercado
de lesa humanidad, el empleo y el desempleo; financiero, el retroceso del Estado de Bienestar,
la distribución de la pobreza y la concentración la emergencia de las verdades en términos de
de la riqueza; las movilizaciones grupales o construcción de identidades, de recuperación
masivas; la sexualidad reprimida y represora; la de la memoria, la verdad y la justicia, de
precariedad del sistema de salud (entre ellos el de judicialización de los delitos de lesa humanidad,
salud mental) y la emergencia de enfermedades y, en un movimiento político de los últimos ocho
supuestamente superadas; la natalidad y la años, de recuperación del Estado como entidad
mortalidad materna e infantil; el aumento del reguladora y administradora.
delito común y de guante blanco; el aumento A nuestro entender la problematización
de la cantidad de presos y el hacinamiento de comporta la elaboración de dominar ciertos
los mismos en comisarías y penitenciarías; la hechos, ciertas prácticas, ciertos pensamientos;
irresponsabilidad del Estado argentino ante la que constituyen la libertad en relación con lo
comunidad internacional; la suma de todos que se hace. El estado de la situación social en
estos factores hicieron, no tanto su eclosión la Argentina de los últimos 50 años se puede
y apoteosis en la vida pública, sino más bien, adjetivar de convulsivo, donde la demanda

12
Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina

de libertad no f es sólo patrimonio de quienes CONDICIONES DE SUBJETIVIDAD


son gobernados y oprimidos, sino de quienes
gobiernan y también de aquellos que expresan Para nosotros existe una consolidación
de unas series de mecanismos psicológicos
que la intervención del poder estatal es excesiva,
colectivos y la transformación o extrapolación
corrupta e ineficiente. Es decir, no hay que olvidar
de éstos, en prácticas de la vida política
que siempre hay quienes buscan determinar
institucional.
la libertad de los demás. Para Foucault, “la
libertad es la condición ontológica de la ética. La constante negación y el silenciamiento,
Pero la ética es la forma reflexiva de la libertad” por un lado, por parte de los gobernantes
(Foucault, 1999: 396). Por lo que significamos militares y cómplices civiles, concluyeron en dos
que, de acuerdo con los espacios y tiempos de mecanismos de proceder psíquico (constantes
libertad que nos brindamos entre nosotros entre los sectores que más polarizaron a
la sociedad en esa época): la negación y la
como sociedad organizada y convulsionada,
desmentida. Alrededor de éstos fue que se
construimos nuestra ética, que no es otra cosa
retroalimentaron otros mecanismos, entre ellos
que aquello que somos capaces de hacer y de
la promoción de la culpa que retroalimentaba el
decir con lo que de conciencia tenemos en tanto
silencio; la desvalorización y condena constante
somos seres con condición ontológica.
de los discursos de los opositores que apelaban
El comprobado estatuto jurídico de a la justicia; el afianzamiento del miedo como
detenidos-desaparecidos de más de 7.0001 controlador social; la descalificación de los
personas a fines de los años ´70 y comienzos trabajadores y de las identidades argentinas;
de los ´80, comportó una problematización y el socavamiento de procesos psíquicos
influyó la subjetividad de millares de argentinos fundamentales, como la memoria y la
y tuvo repercusiones a nivel de jurisdicción capacidad de analizar críticamente a la realidad
internacional. debido a la promoción de información falsa y
El fenómeno problemático en la Argentina, desequilibrante.
no sólo fue la detención-detención de personas, Mientras que, por otro lado, en la situación
sino también la problemática de cómo decir otra de interactuar –inevitablemente- con todos
verdad. Cuestión que acentúa la relación que estos mecanismos, se afianzaron mecanismos
existe entre lo que se conoce y la libertad para de: denuncia legal, legítima y pública; excesiva
decirlo y también para creerlo o escucharlo. “Me judicialización de la política; de movilización
parece que hay que distinguir las relaciones de simbólica y solidaria permanente, por los que
poder como juegos estratégicos de libertades se sintieron avasallados en sus derechos; de
y los estados de dominación, que son los que búsqueda de identificación con semejantes bajo
habitualmente se llama el poder. Y entre ambos, la misma situación; de resistencia a conformarse
se encuentran las tecnologías gubernamentales” con la historia oficial creando recursos para
(Foucault, 1999: 413-414). Consideramos a cuestionarla y desenmascararla; de búsqueda
los derechos humanos como un dispositivo de ayuda extranjera y estatal económica y a
caracterizado como de seguridad en términos nivel judicial; y de producción científica de
de economía política y de gubernamentalidad; conocimientos que lleva como estandarte la
concretizándose mediante agencias en términos recuperación de “la memoria, la verdad y la
sociológicos; cronificándose en términos de justicia” (que también implicó la reconstrucción
administración de la vida y de la muerte; y de las mismas).
estabilizándose en términos de subjetividad. Por un lado, el nivel tecnológico de
Sabemos que las instituciones no son industrialización moderna, el avance en la libertad
de mercado, y paralelamente, el establecimiento
entelequias y las consideramos productos de
de un alto nivel de precariedad social en que nos
cristalizaciones de los procesos subjetivos, de
ha tocado vivir a los argentinos, durante los años
posiciones frente al saber y de utilización del
´70 en adelante, fue encarado a través de grupos
mismo, de lógicas de identificación con sentidos
de poder que determinaron que esta unión se
y significados de las conductas, y de estructuras
resolviera con un mecanismo de aberración
económicas-políticas del cuerpo.
jurídica: el plan sistemático de detención-

13
Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí

desaparición de personas y la expropiación ilegal las formas de racionalidad que el hombre


de recursos humanos y materiales; acompañado construye para dirimir el campo de lo normal
esto de una coherente administración de la con lo anormal, la razón de la locura; nosotros
economía, que era consecuente con la política abordamos el campo de los derechos humanos,
implementada, aunque le restaba soberanía a los no para describir al ser argentino en términos
ciudadanos del país. de qué tanto goza o en cuánta medida son
Y por otro, teniendo en cuenta que el ocupar vulnerados sus derechos fundamentales, sino
lugares estratégicos de poder para establecer para analizar los mecanismos subjetivos que
ciertos contenidos y significados como verdades, aplicamos a nosotros mismos, para gobernarnos.
por parte de la resistencia o del mismo poder, está Es decir, cuáles son las estrategias y técnicas/
determinado por la historia de las condiciones tecnologías dentro de la gubernamentalidad, que
políticas económicas; nos animamos a decir que los ciudadanos argentinos utilizamos y que nos
nació -y se instaló gradualmente, con el modelo permiten distinguir y describir el uso reflexivo
neoliberal- una práctica social con gran tinte que hacemos de nuestra moderna libertad.
simbólico; una táctica de resistencia al poder: con Los derechos humanos cooperan en el
tiempos sintomáticos de ocupación de espacios disciplinamiento y en la regularización en, y
públicos revestidos de sentido económico. Es de, la sexualidad, la delincuencia, la locura, la
decir, se configuraron muchos despliegues pobreza, la identidad, de cada uno y de cada grupo
simbólico-públicos (o colectivos) de cómo que se manifieste. Lo que queremos significar es
enfrentar y establecer la ley, la ley de verdades. que las prácticas de la medicina, la psiquiatría, la
Fue el comienzo de un largo camino en búsqueda psicología, la educación, los aparatos judiciales,
de verdades negadas, en medio del auge del los trabajos sociales, las prisiones, son a las
reinado de una soberanía económica financiera disciplinas y a la regulación, lo que los derechos
y extranjera, y de la lucha jurídica de todos los humanos son a la política y al equilibrio
implicados (víctimas y victimarios) de toda esta (regulación) social, cuando éste manifiesta no
época. Marchas y Movilizaciones permanentes lo alienado, lo enfermo, lo incapaz, lo anormal,
son, en sentido argentino y moderno, un andar lo peligroso, lo carente, sino, cuando expresa
la impotencia psíquica que se sufre en un país lo excluido económicamente, lo innombrable
en Estado de Derecho que tuvo mucho de políticamente, muchas veces lo inclasificable
autoritarismo, de indiferencia, y bastante de jurídicamente y lo expropiado perversamente.
ocultamiento de pruebas, negación de los hechos Consideramos que la construcción de la
y de las respectivas responsabilidades. política de derechos humanos no constituye
A la negación de la situación, al totalmente un intento de emancipación
silenciamiento de las voces; al mecanismo de la económica a través de lo jurídico, es el resultado
proyección de la culpa hacia los ciudadanos; a la de la interacción que se ha producido entre un
complicidad y a la impunidad por parte de los ejercicio argentino del poder con características
burócratas del poder (gobernantes, empresarios represivas y perversas -que maneja una
y figuras del poder), se le asocian las acciones determinada economía-política y las formas
de búsqueda de reciprocidad de sentimientos: de relaciones sociales e institucionales- y la
los de denuncia incansables ante la justicia, resistencia de los argentinos frente a los avatares
la concurrencia a arduas movilizaciones; de ese estilo de imposición del mercado. Esta
la demostración pública del sufrimiento en construcción ha dado lugar a un comportamiento
términos de vida digna y de goce de derechos; característico de la sociedad argentina de
y, a la vez, una proliferación de la actividad enfrentamiento -del goce- de diferentes derechos,
judicial, tanto en sucesos de neto corte social entre diferentes actores.
como de corte político, además del campo Hemos ido analizando cómo el Estado ha
específicamente penal. dejado de participar y de administrar cuestiones
Así como Foucault abordó la sexualidad centrales de la planificación urbana, de la
para analizar las diferentes formas de moral productiva, de la educativa, de la salud y de
(estética y ética en el caso del estudio sobre los justicia, a partir de las décadas del ´70, mediante
griegos) que el hombre se da a sí mismo, cuando metodologías perversas y como consecuencia
la conducta sexual se toma como entidad por de un orden establecido por el establishment
pensar, o cuando abordó la locura para describir internacional, que logró que Argentina perdiera

14
Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina

su soberanía social y política y quedara, mínima parte de la sociedad argentina para que
funcionalmente en manos del mercado. La participe así, de una moderna libertad elegida.
desinversión en temas centrales como el empleo, Es decir, gran parte de la sociedad que ha sido
salud, educación, vivienda, fue implementada por excluida en el goce de la moderna libertad tiene
los adláteres del F.M.I. Los problemas referidos la posibilidad democrática de amedrentarse,
al resurgimiento de enfermedades que estaban ya más que de ampararse, en el sistema jurídico
superadas, al índice de analfabetismo, a la falta argentino, ahora reasegurado por el sistema
de capacitación profesional o técnica de muchos internacional.
sectores sociales, a la precariedad laboral y Ahora bien, hasta el año 2015 la tasa de
también en términos de ofrecimientos de bienes desocupación ha bajado al 7% según las fuentes
y servicios alrededor del hábitat barrial, urbano oficiales; la pobreza e indigencia han disminuido
o rural y hasta la vivienda misma, el aumento de en algunos sectores; la criminalización de la
la desocupación, emergieron de manera ruidosa protesta social y la represión a las manifestaciones
durante los ´90 y principios de siglo, entre sectoriales también ha mermado considerable
otros factores. Por otra parte, la ausencia de y notoriamente como así también las políticas
instituciones articuladoras que permitieran una represivas de desalojo y el trabajo esclavo,
mejor distribución de información acerca de los entre otros, por un lado. Y por otro lado, la
problemas reales por solucionar de cada región extensa población carcelaria y las muertes de
o barrio, y también de aquellas que puedan los presos está siendo materia de atención para
impulsar políticas de política social, abrieron un las políticas estatales de algunas provincias en
abanico de posibilidades para que el mundo de las unión con los organismos de derechos humanos;
ONG tuviera su auge y su eficaz funcionalidad. los altos índices de prostitución y trata de
ONGs que respondían en muchos casos al mujeres y niños están dándose a conocer y ya
mandato impuesto por el Banco Mundial, para tienen un lugar en la agenda pública gracias a
que confluyeran en el campo social desarticulado la voluntad política del Estado Nacional; la
y desmembrado, como forma emblemática de situación de los psiquiátricos y las condiciones
“contener” aquello a lo que se había visto forzado de los internados y detenidos ha sido debatida
el Estado a desatender. En muchos otros casos, de tal manera que ha sido promulgada la nueva
por ejemplo, hubo organizaciones civiles que se ley de salud mental; la violencia de género ha
formaron para actuar en defensa de los derechos salido a la luz y se están promoviendo campañas
humanos. nacionales educativas para concientizar sobre
este tipo de violencia como así también ya se
EL SISTEMA JUDICIAL COMO TÁCTICA han dado juicios con carátula de “femicidio”; los
Los derechos humanos abren el ciclo de procesos por los crímenes de lesa humanidad y
una nueva regulación del Estado argentino, los enjuiciamientos y sentencias a funcionarios
cuando éste impulsó medidas que enaltecían policiales y civiles se han concretado algunos y
a la “libertad” dentro del campo económico y otros se están llevando a cabo todavía. Todo esto
cívico. A la extremada defensa de la “libertad configura el exigido disciplinamiento argentino
económica” le correspondió su determinado de su Estado y de su sociedad.
saldo social y cultural. Para unos, este saldo se Lo fundamental es que existe un
denomina memoria, verdad y justicia, para otros, conocimiento que circula gracias a la voluntad
es sólo la incansable e inacabable presencia de la de una sociedad civil que agrupa y reconstruye
pobreza y de la vagancia. En tanto que otros lo un tejido social, y a una política de Estado que
consideran como la corrupción constante de los actualmente permite y alienta a que los distintos
funcionarios públicos, sindicalistas y privados, grupos sociales tengan voz e incidencia en la
no pudiendo hacer frente a la discusión real de vida pública y a un Estado que toma decisiones
los derechos humanos en Argentina. políticas donde se está incluyendo en la agenda
Si nos guiamos por las estadísticas sobre política la cuestión social. Esta emergencia y
economía política y los índices de criminalidad, amplia puesta en circulación de conocimientos
este estilo de democracia argentina no tuvo como habla de la puesta en la agenda política y jurídica
objetivo llevar adelante el ejercicio de la libertad por parte del Estado Nacional, y también gracias
como variable que subjetiviza a sus ciudadanos, al esfuerzo de los ciudadanos argentinos que se
sino más bien, a la mercantilización de una organizan civilmente, sobre algunos de estos

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Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí

conocimientos que se refieren a la violación de lo público es en la identidad, son parientes


de los derechos de manera sistemática en la contemporáneos en nuestros procesos subjetivos.
Argentina. Por esto mismo es que no hay que La gubernamentalidad en la Argentina,
confundir derechos humanos con acción del si se toma como foco de referencia a los
sistema judicial. derechos humanos, tiene características de
Nuestro análisis considera al sistema judicial expropiación de recursos humanos, materiales
como una táctica de dominación más, como y simbólicos, con cierto marco de legalidad
una de las agencias del poder que tiene variadas -en términos legislativos- y de normalidad -en
estrategias y técnicas (de dominación), entre términos estadísticos-. No sólo apuntamos
las que podemos nombrar: la ejecución de un al estilo de ética de la negación, del silencio o
proceso penal mediante denuncia; la secuencia y de la complicidad que deberíamos erradicar
continuidad de los pasos procesales en su debido en política de derechos humanos, y a lo
tiempo y forma y el acatarse a ellos; la posibilidad o sublime de las conductas de denuncia pública
no de que exista una jurisprudencia sentada sobre y movilización permanente; sino más bien,
el caso requerido o demandado; la negligencia evaluamos a todos estos mecanismos como
en el procesamiento que lleva a que los tiempos productores de comportamientos, hábitos y
legales se venzan en pos de una estrategia política subjetividades eficaces para el funcionamiento
y no de una interpretación de normas jurídicas (lo de la gubernamentalidad argentina.
que conlleva muchas veces a una excarcelación Queremos significar que la negación de los
o extinción de una causa); la probabilidad de hechos y el silenciamiento de los mismos no
falta de recursos técnicos y materiales para llevar es patrimonio del Estado autoritario, aunque
las investigaciones a cabo; la no cooperación existan todavía funcionarios cómplices de
mediante información fehaciente de las fuerzas muchos delitos. Es en la sociedad en general
de seguridad; la impericia de las instituciones donde se han diseminado estos comportamientos
policiales y judiciales en conjunto; la falta de mayoritariamente, y en donde se manifiestan
voluntad política para ejecutar ciertas causas y los fenómenos más lúgubres –tal como hemos
la presencia de miedo por parte de funcionarios evidenciado como con la trata de personas o
judiciales para mantener denuncias y procesos la violencia de género-, no siendo el Estado el
judiciales, las posibilidades de apelación y de promotor de tales características, sino más bien
interposición de amparos. Estas características no individuos o grupos que se conducen de esta
atañen a la totalidad del sistema judicial ni a la manera y que bien pueden pertenecer al Estado
actividad de todos los profesionales a cargo, pero como empleados.
sí se encuentran diseminadas por determinados
tribunales de justicia del país. La importancia EL DISPOSITIVO DE LOS DERECHOS
de esclarecer y caracterizar cuáles tribunales y HUMANOS
quiénes son los funcionarios responsables de Los derechos humanos constituyen un
cada intervención judicial, es responsabilidad mecanismo que es axiológico porque integran
tanto de la ciudadanía como del mismo Estado. los aspectos universalistas de la vida, el trabajo
Es en este sentido que decimos que lo contrario al y el lenguaje, y son mercantilistas, porque
silencio no es la denuncia pública, sino más bien reciben los impactos de una verdad que el
el esclarecimiento de responsabilidades civiles. mercado –que con su lógica de acumulación
El tiempo judicial que procesa, prescribe, y producción- inocula todo lo que toca. Es
o pospone la sentencia, es un factor que también jurídico, porque determina la condición
subjetiviza, en tanto que demora resarcimientos de los seres humanos, en tanto persona,
y resocialización, frustrando psicológicamente, colectividad o minoría, y en la medida de nuevas
agotando fuerzas, aglutinando humanos tipologías y clasificaciones por considerar. Se
como desechos, precarizando la vida cívica, advierte también, una tendencia de los órganos
adormeciendo el cuerpo colectivo, promoviendo jurídicos nacionales por regirse por los tratados
la impotencia colectiva. Dentro de esta dinámica internacionales de derechos humanos, haciendo
se juega la posibilidad de ser ciudadanos y hacer referencia a ellos en sus fallos. Lo que significa
ejercer derechos en caso de ser violentados o que -la internacionalización- da testimonio de
excluidos. La impunidad es en la justicia, lo que que el hombre se convirtió en sujeto de derecho
el adormecimiento colectivo y desvalorización internacional y los Estados en responsables

16
Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina

internacionales de sus políticas internas. Y que términos de riqueza-pobreza (salud-enfermedad,


esta normatividad no es exclusiva de los Estados, o tasas de natalidad y de mortalidad); y a
sino de los órganos o tribunales que ejercen la la distribución y generación de recursos, a
jurisdicción supraestatal. la información adquirida y manipulada. El
Los derechos humanos constituyen un concepto de Foucault de dispositivo de seguridad,
dispositivo de seguridad dentro del análisis nos permite caracterizar a los derechos humanos
del concepto de gubernamentalidad. También con capacidad de absorber las categorías de regla/
observamos, que la presencia de agencias conflicto, función/norma, sistema/significación;
operativas claves, como la civil y la judicial, pudiendo ellos aportar al conocimiento general de
constituyen a la economía política de la las ciencias humanas sobre el hombre argentino.
población argentina, cuando ésta hace uso Además de saber acerca del argentino en tanto
de la moderna libertad. También afirmamos representación, permite graficar la genealogía del
que la desocupación, la precarización del biopoder argentino en tanto hermenéutica.
trabajo, la criminalización de la pobreza y de El dispositivo de seguridad permite, de
la inmigración, la judicialización de la protesta diferentes maneras, que las cosas sucedan, para
social, el abuso infantil, la violencia de género, poder conocerlas y así actuar sobre ellas. Su
la violencia policial y militar institucional y los objetivo no es prohibir, ni fijar, ni clasificar (como
pactos políticos con sectores financieros, fueron las disciplinas, en tanto son éstas economía
y son la estrategia política de los sectores que anatomo-política del cuerpo). Permiten un cierto
ejercieron el poder, imponiendo la fuerza material “dejar hacer”, ya que los derechos humanos
y simbólica y expropiando recursos humanos y advienen allí donde la biopolítica llama, es decir,
materiales. Las agencias civil y judicial sirven donde la incidencia sobre los movimientos
para sostener, de diferentes maneras, a aquellos poblacionales de gran escala se hace necesaria.
ciudadanos que quedaron y quedan por afuera Es entre una mecánica de la disciplina y un
del Estado de Derecho. derecho de soberanía que se juega el ejercicio de la
Los derechos humanos en tanto Dispositivo, dominación. Es decir, entre saber demandar y el
hacen valer –opcionalmente- un tipo de relación amedrentamiento judicial. Pero estos dos límites
de poder que la ley reconoce y legitima; que son tan heterogéneos que no pueden reducirse
la sociedad utiliza para reclamar; a la que los uno al otro. La producción de conocimiento
individuos se sujetan con fervor; que el Estado de las ciencias humanas en Argentina, y como
también utiliza y reproduce políticamente en otros países, absorbe las características de
generando conductas e incita e induce, a la vez esta yuxtaposición -de estas dos heterogéneas
que registra (y con ellas realiza estadísticas); que dimensiones- por el choque de la mecánica de las
el mercado desecha; y que la justicia ampara. disciplinas económico políticas y la organización
Inversamente, es en el ámbito del mercado de la soberanía del derecho. El saber producido
donde los derechos humanos son tazados y por una sociedad, es decir, el despliegue de las
cotizados, de acuerdo con las legislaciones que tecnologías políticas modernas -que impacta
éste produce en relación con sus expectativas sobre los sistemas jurídicos de la soberanía- es lo
de inversión, de tasas de interés, de costos de que lo llevó a Foucault, a observar este fenómeno
producción y de mano de obra disponible; de de funcionamiento global de la sociedad y
promoción social, de contribución moral, pero llamarla sociedad de normación.
más que nada, de obtención de ganancias. Hemos referido que los tiempos formales
El marco de seguridad en el cual los derechos del sistema de derecho funcionan como
humanos tendrían efectividad táctica, es a partir amedrentamiento social por parte del poder,
del momento en que se racionalizarían las como parte del juego entre la mecánica
políticas de Estado introduciendo la legislación de la disciplina y el saber del derecho. Los
en derechos humanos. Éstas girarían en torno mecanismos de producción de conocimiento,
al poder subjetivante-objetivante que tiene la de “saber hacer” de la sociedad, promueven la
positividad de los derechos humanos sobre los actividad cultural en estos espacios de relaciones
sujetos; a los ultrajes y demandas que existen de de fuerzas. Y por mecanismos entendemos,
los mismos; a los enfrentamientos y consensos no las diversas configuraciones de sentido que
de los distintos sectores de la sociedad; a los pueden establecer los conocimientos de un
equilibrios y desequilibrios poblacionales en grupo social, de un análisis sociológico, de una

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Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí

medicina aplicada, o la información de una sensación de impunidad que surge, es la relación


ONG; sino la dinámica social desplegada en con un desmedido esfuerzo entre lo que se sabe
toda esta relación. Muchas veces, la argentina acerca de los crímenes y la corrupción, y los
administra su justicia haciendo uso político de su procesos y los estatutos necesario para que esto
Constitución Nacional y de los códigos y tratados que se conoce funcione como verdadero. Hay un
internacionales, penales y también del tiempo vasto sector social que no le reconoce todavía
procesal. Más que una cuestión de normas y de al gobierno de Néstor Kirchner y de Cristina
interpretación de las mismas, es una cuestión Kirchner su intervención activa frente a sucesos
de tiempos y de formas, de estructuras y de de notable importancia como lo son la anulación
recursos para movilizarla. Es decir, en muchos de las leyes de obediencia debida y punto final;
casos importantes, se deja a que prescriban las la consecución de los delitos de lesa humanidad
causas, y después se toma conciencia si fue contra militares, civiles y eclesiásticos; la
decisión penal, política, o social. reestructuración de las fuerzas de seguridad
El inconveniente es que el Estado y su papel preventivo en las manifestaciones
está obligado a cumplir con los estándares públicas; el enfrentamiento al monopolio de los
internacionales, pero sólo pocos funcionarios medios de comunicación; la renegociación de la
del Estado son penalizados por malversación deuda externa, la re-estatización de la seguridad
de los recursos administrativos, en caso que social, la modificación de la Carta Orgánica del
el detrimento del goce de los derechos sea Banco Central, entre otras acciones de carácter
denunciado, comprobado y sentenciado. fundamentales para la vida cívica.
Pareciera que la judicialización de muchos de Aún se percibe cierta función de
los derechos humanos no permite visualizar complementariedad del sistema judicial a
las causas de la ineficiente administración de las políticas administrativas, promoviendo y
los recursos y definir: si es por faltas cometidas estableciendo obligaciones legales al Estado,
por funcionarios públicos, a los cuales les cabría pero aún no se establecen responsabilidades
responsabilidad; por la escasez de recursos de funcionarios de hacer incurrir al Estado en
y de funcionarios públicos que lleven a cabo irresponsabilidad internacional. A la vez, en la
los medios idóneos y las medidas operativas efectividad y necesidad del control y denuncia
eficaces; o por violaciones cometidas directa, de las violaciones a derechos, se comprueba
indirecta o sistemáticamente desde el poder que es la sociedad civil, reconocida simbólica
estatal o privado. y materialmente, la que porta la legitimidad
La complicidad y los pactos de silencio son y la fuerza de ejercer los medios idóneos para
legitimados a nivel macro político por un lado que funcione el sistema del derecho. Por lo que
y, por supuesto, a nivel micro político, por el también significa que, sin la movilización de este
otro. Es decir, la forma en que fue establecido sector, los crímenes o delitos referidos a derechos
el sistema financiero (en la que la predominó la humanos, tanto los de primera como de segunda,
especulación y no el desarrollo productivo real) tercera y cuarta generación, difícilmente hayan
por un lado; y los altos índices de violencia contra sido denunciados al no tener la ciudadanía
la mujer, los niños y los ancianos, ya sea en la recursos (educativos y materiales) necesarios
familia o en las instituciones, la prostitución y y suficientes para saber y poder actuar. Entre
la trata de personas, el alto índice de menores el disciplinamiento del mercado excluyente y
detenidos y aprehendidos, comprueban la el derecho a demandar los delitos, los sectores
existencia, o la posibilidad del pacto cómplice sociales (no las clases sociales) luchan dentro del
legitimado, por otro. No agrupamos los efectos sistema judicial. Es también, en este sentido, que
micro políticos del lado del poder estatal la lucha de clases habría quedado atrás, es decir,
solamente, sino que en muchos casos se utiliza ya no se trataría de qué clase social detentará el
el poder estatal para fines privados mediante la poder en el ejecutivo y legislativo, sino que sería
legitimidad de estos pactos informales. en la justicia el otro lugar donde se dirimirían los
Y si en la Argentina el proceso de conflictos, si queremos decirlo así, de clase.
finalización de implementación de las medidas Ahora bien, el Estado Nacional, en los
neoliberales estuvo marcado por un alto nivel últimos 8 años ha impulsado también medidas
de represión entre los años 1994 y 2004, en el económicas tales como: salida de default, re
que la complicidad la hizo más profunda aún, la estatización de los fondos de las AFJP, aumento

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Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina

del PBI y crecimiento anual casi del 9% multiplicidad de grupos organizados -con
durante 2010 y 2011, aumento de las reservas verdades irrefutables- acerca de la vida cultural
para lograr soberanía política, integración y argentina. Aparecieron otros relatos de la vida
fortalecimiento al MERCOSUR, entre las más sociopolítica con otros objetivos éticos, distintos
llamativas. Y entre las medidas más sociales a los impuestos por el discurso oficial. Grupos
ha conseguido promulgar la ley de matrimonio que subjetivizan, enumeran, regulan, registran,
igualitario, ha implementado el aumento a controlan, asientan, disciplinan a otros grupos, a
los jubilados dos veces por año, ha promovido través de su saber ejercido y de su conocimiento
la asignación universal por hijo (que exige producido. Gubernamentalizan a la población,
libreta escolar y de vacunación de los/las hijos/ porque también subjetivizan ciudadanos a partir
as para recibir el beneficio), ha aumentado la de técnicas sobre los ciudadanos en respuesta
inversión en educación y en Ciencia y Técnica, a la violencia sistemática, por un lado. Y por
y ha implementado el Programa de Mejora en otro, producen un conocimiento con valor de
Equidad Educativa, entre las más contundentes. verdad que tiene efectos políticos sobre lo que
Y a nivel político, la integración a la UNASUR la sociedad conoce. Y como hemos venido
y el interés brindado hacia la misma desde sosteniendo, desde una perspectiva más general,
el Estado Nacional en pos de una unidad son portadoras de un saber-hacer que generan
latinoamericana que reasegure los procesos espacios para que ciertos sectores ejerzan su
democráticos de los países que la integren, es poder de ciudadanos.
otro aspecto de relevancia para nuestro trabajo. Como pensamos nosotros, y como dice
Por lo que la recuperación de la disputa del Foucault, no todo saber es máscara del poder,
goce de los derechos económicos y sociales y no todo poder es el mal. Es decir, no todo
para los ciudadanos se estaría re desplazando, ejercicio del poder viene acompañado de
nuevamente, hacia la esfera política, es decir, la coerción, engaño o artimaña para mantener al
democrática. Pero aún es muy poco el tiempo otro (sujeto a) en una posición de vulnerabilidad,
como para establecer un diagnóstico diferenciado de ignorancia que perjudica su vivir cotidiano o
de estas políticas más sociales que especulativas. que menoscaba su capacidad de decisión. Pero
Con respecto a los delitos de lesa humanidad, también, por su parte, el sector represivo militar
a pesar del aumento de ejecución de causas en y policial que se encargó de auto amnistiarse, no
estos últimos años, el tiempo retardado y la no pudo evitar que se los persiguiera y procesara,
unificación de causas, evidencian una falta de vigilara y castigara por estos grupos organizados
voluntad jurídica en algunos sectores reacios que profesionalizaron su conocimiento, su
a estos procesamientos, más no en todos los investigación de los hechos.
tribunales. Los vínculos de complicidad entre la El conocimiento generado por estos grupos
violencia ejercida por el sistema represor y los (hijos de la represión estatal) de que existió y
funcionarios de la justicia –que fueron puestos existe una complicidad civil y una delincuencia
en el proceso- se comprueban por la falta de empresarial y también sindical, visualiza que
ejecución de las debidas etapas del proceso los delitos de lesa humanidad y las respectivas
judicial y la ausencia de una investigación condenas a los responsables no son el único
comprometida y radical que se necesita para y magnánimo logro. La referencia de estos
avanzar. Lo homogéneo del sistema judicial conocimientos a los sectores más vulnerados y
actualmente, está más referido a una falta de vulnerables no tiene como finalidad victimizarlos
demanda de recursos materiales, logísticos y o manipularlos mediática o políticamente,
de articulación para desplegar sus funciones; sino más bien el de destacar la situación de
mostrando que el Estado de Bienestar también distribución de la pobreza, del delito y la violencia
se habría retirado en la esfera judicial. -sistemáticamente desplegada- por ciertas
instituciones estatales y también privadas.
NUESTRAS LIBERTADES Durante los últimos 30 años, el contenido
Si la dictadura militar y las cúpulas del de la información estadística en materia criminal
poder civil produjeron un fuerte deterioro y de violación de derechos humanos, comprueba
de la dignidad de la vida y de su aspecto la relación directa entre el aumento de los delitos,
material y simbólico, no es menos cierto que la criminalización indiscriminada de la clase
como consecuencia de ello proliferaron una social baja, la mortalidad de los más vulnerables

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Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí

como lo son las niñas y niñas y las instituciones nuestra capacidad civil organizativa en la
públicas legislativas, de orden y de seguridad. política, ya que aquello que debió ser materia
Los relatos que cuentan ciertas organizaciones administrativa se dirimió en el campo de la
no gubernamentales se refieren a la economía justicia. Para poder gozar del ejercicio de la
política de la vida y de la muerte argentina, libertad, es fundamental que los demás valores
en cuanto que éstas son las contabilizadas y fundamentales, como la salud, la vivienda y el
analizadas. Es decir, vislumbran lo político y trabajo sean estables y equitativos. Pero sobre
lo económicamente útil desde una ideología todo, es esencial conocer el estado actual de
alienante, pues son capaces de considerar la posibilidad que se tiene de ejercer como
como perspectiva, aquellas vidas sociales que individuos pertenecientes a la sociedad, para
son impedidas de desarrollarse en dignidad y ejercer la libertad.
bienestar y de vociferar sus identidades. La exigencia de control de gestión por
La sociedad civil se resguarda en sus parte de los grupos civiles es proporcional a
conocimientos históricos para protegerse del la complicidad de los funcionarios públicos,
brazo armado, no sólo del Estado, sino también policiales, judiciales o políticos, con los grupos
de los sectores dominantes, de aquellos que sociales que especulan en la legalidad del sistema
imponen la fuerza con violencia material y financiero. La atención que el Estado Nacional
simbólica. Es decir, existen técnicas de gobernarse le está prestando a las demandas exigidas por
a uno mismo y a los demás cuando la violencia muchos de los organismos de derechos humanos,
entra en la lucha en las relaciones sociales: hace enfocar a la corrupción y al delito ya no
negación, silencio, complicidad, solidaridad, como si fuera sólo patrimonio del Estado, sino
denuncia pública, movilización, judicialización. que también se encuentra desplegada en las
El mercado cuenta la demanda y la oferta de demás esferas de la vida social en general. Los
productos (incluyendo al hombre como objeto, mecanismos de negación y silencio, complicidad y
es decir, como mano de obra o como producto denuncia, solidaridad y movilización que venimos
consumible) y el sistema jurídico construye describiendo en estas relaciones de fuerza, hacen
su castillo del derecho. Nuestra sociedad de al equilibrio justo que los argentinos le otorgamos
normación, soberaniza y disciplina, regula las a nuestra libertad. Y por justo no entendemos el
relaciones de fuerza existentes mediante la momento apropiado, sino la propia ética, el propio
agencia civil y judicial, en tanto relatos llamados uso reflexivo de nuestra libertad. Y, en la medida
delitos de lesa humanidad, criminalización de en que significamos lo que actuamos y ponemos
la pobreza, violencia de género, discriminación, en práctica lo que sabemos, construimos nuestra
mortalidad maternal, mortalidad infantil, ética.
violencia institucional. Es decir, se han cosificado Nuestra ética argentina es el resultado de
las técnicas de gobierno de los otros cuando nuestro uso reflexivo que estamos haciendo de
los ápices de la vida y la muerte muestran sus nuestra libertad como cultura occidental. Y si
índices. Régimen argentino de la verdad. nuestras libertades fundamentales se dirimen
Creemos, por nuestra parte, que la en el campo judicial, si nuestra condición
sobrevaloración del sistema de derechos para ontológica la dirigimos al campo de la justicia,
resguardarnos y perseguir los delitos comunes, nuestra ética está impregnada, teñida, influida
hace perder el ímpetu, en el imaginario social, mayormente por la estructura, la forma, la
lo que de convicción ética -de los grupos dinámica y la lógica del sistema judicial, con las
organizados de derechos humanos- tienen de características de ceguera y sordera y no tanto
fuerza para politizar su verdad, y lo de voluntad por la predominancia de la interacción entre las
política el actual Gobierno Nacional impulsa. otras instituciones culturales.
Además, la justicia argentina ha demostrado en Se acepta con ignorancia -y de manera
muchos casos trabajar más con la especulación supina- por una gran parte de la población
temporal de los procesos penales que con la la existencia clara de deshumanización, de
conducta ética e interpretación de normas. crueldad y de matanza de cierto sector social, y
Pero, en muchos otros casos ha demostrado se consolida la renegación de que las políticas,
estar a la altura del contexto internacional al por ejemplo, penales tienen efectos opuestos
condenar a responsables de delitos contra la a la finalidad que proponen. No siendo el
humanidad. Aun así, nos cuesta reconocer Estado el que actualmente esté publicitando y

20
Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina

promoviendo políticas represivas y regresivas, domésticas, la puesta en agenda pública del debate
y sí, en cambio, ciertos sectores sociales y para la despenalización del aborto, campañas
mediáticos. públicas y programas de concientización de la
La criminalización del sector pobre y violencia familiar de género y maltrato infantil
empobrecido de la sociedad, a través de los provinciales y nacionales, entre otras medidas
mensajes mediáticos de “la inseguridad”, hace de importancia.
eclosión en el uso desmedido de la prisión La violencia se repite, está naturalizada,
preventiva y de la aprehensión por delitos leves. y es mantenida gracias a una falta de posición
Por un lado, la ecuación psíquica es la equivalencia que no acepta estos mecanismos psicosociales
de que, a mayor pobreza, mayores son los de esclarecimiento. Consideramos que las
delitos, y generalmente es por razón de falta de consecuencias de este comportamiento que se
voluntad de trabajo y de inclinación al delito por repite, no sólo de la violencia, sino también
parte de éste sector. Y por otro, el no recordar, de la ignorancia, produce no sólo el efecto de
de manera específica, que la acumulación de imitar esta conducta, sino que su condición
factores del delito de los funcionarios públicos, complementaria es el del silencio y por ende la
que anteriormente promovieron esta situación complicidad, que grafican a gran escala una masa
social, y la no observancia de que esta modalidad poblacional inclinada a la sumisión y tienen
produce más delincuencia y más precariedad mucha influencia sobre las personas que no
en la forma de vida en la sociedad en general, tienen definida su propia historia socio-política.
son efectos coyunturales propios de nuestro Esta ausencia de posición de muchos argentinos
acontecer psíquico. ante la violencia que se ejerció y se ejerce desde
En el campo de violencia familiar no el más fuerte al más débil, establecieron una
existe en la actualidad un registro sistemático masa capaz de cometer delitos por comisión
e información oficial fehaciente sobre este y por omisión, y pertenecen a una mayoría
fenómeno, pero sí está en conocimiento que silenciosa que configuran una gran red reticular
el índice es bastante alto. Es decir, no hay colectiva que reproduce modos de subjetivizarse
estadísticas fiel a la realidad que precise sobre el más proclive a la prepotencia, a la fuerza
número y tipo de violencia, lo que significa, por bruta, al engaño, a la estafa, y al sentimiento
un lado, la prueba fehaciente de la naturalización de dominación sobre el otro, que suscitando
de estas conductas tanto a nivel privado como a conductas de interlocución, de comunicación y
nivel moral, que hace que los índices de estos de reconstrucción social, frente a un problema o
delitos se mantengan estables; y por otro, la situación tensa en la vida social.
dificultad –y en muchos caos la imposibilidad- Otro gran aspecto social, la condena
de llevar a cabo políticas públicas concretas para manicomial, que pasa por el circuito de
disminuir estos tipos de conductas delictuosas en desamparo y maltrato al que están destinados
ciudadanos argentinos. Aunque la información a sufrir, no todos, pero sí una gran mayoría
sobre violencia familiar circula en ámbitos más de aquellos que no pueden subsistir psíquica
que nada aledaños al sistema judicial, mientras y/o físicamente por sus propios medios. Las
tanto, los grupos femeninos y/o feministas, o estadísticas comprueban que la cronicidad de
aquellos ocupados de la problemática de género los índices de internados, el tipo de proceso
en defensa a los derechos humanos, hacen por el cual se detienen y se internalizan, las
hincapié en que, la mejor forma de luchar contra características de los pacientes catalogados como
este tipo de violencia, es la distribución de “pacientes sociales”. Las prácticas naturalizadas
esta información, acompañada de una política de aislamiento, medicación, golpes, torturas,
educativa con una legislación que la ampare para y la constante de muertes de las personas que
poder proponerle a la sociedad cierta voluntad habitan por estos lares, entre otros, determinan
de cambio. Lo que demandan no es sólo la que el sistema de salud, lejos de promover
posición de opresión de las mujeres, sino el resocialización, cronifica estándares psíquicos
deseo de participar del goce de la libertad como funcionales a esta cultura que económicamente
ciudadanas. Pero aun así, el Estado Nacional desecha lo inservible, moralmente deshumaniza
actualmente está dando respuesta a estas a los desamparados y judicialmente expropia
demandas a través de, por ejemplo, el proyecto vidas. Si bien se ha promulgado la nueva ley de
de ley para regular la actividad de las empleadas salud mental en donde hay cambios sustanciales,

21
Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí

por ejemplo, en la determinación de la autoridad misma de esa identidad o entidad que se le


para internar o dar tratamiento a quien lo necesite llama ideológica, de la práctica de la libertad. Si
y en el tiempo máximo posible de internación, en la Argentina se prometió libertad de mercado
aún no hay resultados significativos como para durante los ´70 y los ´90, fue rebatida por el alto
analizar críticamente esta nueva legislación. y crónico índice al que se llegó de desamparados
Pero sí se reconoce nuevamente la intervención en los hospitales psiquiátricos y por el alto índice
activa de un Estado. de pobreza que demostró la década pasada. Si se
La expropiación de recursos humanos, prometió seguridad jurídica desde los gobiernos
materiales y simbólicos y la práctica sistemática de facto, se desmoronó esta promesa por las
de detención-desaparición de personas tendrían detenciones-desapariciones. Si se quiso establecer
su continuidad, su correlato, en las circunstancias con fuerza el Estado de Derecho, queda objetado
democráticas actuales en la existencia de redes por la violencia sistemática de las fuerzas de
de tratas de mujeres, niñas y niños con fines de seguridad hacia jóvenes estigmatizados y el alto
explotación sexual en donde sectores pudientes y índice de aprehendidos y detenidos mayormente
ciertos funcionarios públicos participan más con de clase baja (llegando al hacinamiento en las
fines privados que con objetivos represivos. La cárceles y penitenciarías) durante la dictadura,
producción de la pobreza en este ámbito cultural durante la década de los ´90 y primeros años
ofrece un valor de cambio bastante redituable del nuevo siglo. Si se gobernó con seriedad
y descartable, en términos de mercado. La administrativa y republicana, quedan refutadas
producción de mecanismos de negación, silencio las recetas económicas aplicadas ya que, entre
y complicidad son efectivos y eficaces en estos otros índices, el nivel de desempleo pasó el 20%
campos socioculturales, en términos morales. en el 2001.
La sospecha, la acusación y la desvalorización
de las personas, son la contrapartida a la culpa Existen zonas culturales esclarecedoras
por pagar por sexo y al castigo por pertenecer al sobre cómo la vida argentina desembocaron en
grupo de consumidores. la muerte en constante escala hasta principios
de siglo. En las movilizaciones y manifestaciones
Ahora bien, desde el Estado se está
públicas, en las prisiones y seccionales de
promoviendo medidas de acción positiva que
policía, en los psiquiátricos, en los lugares de
aseguren el goce de derechos fundamentales
recreación sexual, en los asesinatos de sumario
a estas personas que son las que están más
desprotegidas, mediante la campaña pública de (gatillo fácil), en la desigualdad de género, en los
visualización e información de esta perniciosa hospitales maternos e infantiles. Estas zonas en
actividad. Si bien podrían existir grupos informales estos espacios culturales llamados instituciones
dentro del ámbito estatal que responden al delito actuales, funcionan como la exteriorización de
de trata de personas y prostitución de las mismas, las estructuras psíquicas necesarias, no para
se observa actualmente que desde el Estado se superar el terror, el efecto o las consecuencias de
las está persiguiendo más que ocultando. Más la dominación; sino como eficientes frente a la
que nada, este tipo de delincuencia se encuentra impotencia que genera el sentido socio político
desplegada como ámbito privado. de nuestra administración de la muerte, de la
Un análisis de las formas de dignidad de la vida durante esos nefastos años.
gubernamentalidad y un estudio de la historia Por nuestra parte, consideramos que los
de la subjetividad nos permitió distinguir los procesos de subjetivación de los argentinos que
emplazamientos y las transformaciones en la se han dado en los últimos años, configuran
cultura argentina de los modos de ejercicio de una complejidad que describe un notable
la libertad entre unos y otros, dominados y los desconocimiento acerca de nosotros mismos
dominadores, opresores y oprimidos, resistentes (en tanto somos estadística económico-política
y resistidores. No en términos de verdadero y practicantes de modernas libertades) y acerca
y falso, sino en términos de qué es lo que de lo que podemos hacer con este saber que
podemos hacer con esto que poco que sabemos producimos. Pero también reflexionamos en que
de nosotros, qué es lo que puede hacer un grupo estamos ante un momento en la vida político
de argentinos con aquello que sabe de sí mismo. institucional argentina en que el Estado está
No es sólo una cuestión de identidad tomando más participación con respecto a temas
ideológica, sino es más bien la constitución que sólo el Estado puede asegurar.

22
Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina

Al haber considerado a los derechos Esta conclusión, hace referencia a la


humanos como dispositivo de seguridad, nos estructura en la que se asienta el cuantioso y
permitió vislumbrar los juegos en las relaciones valiosísimo saber, que organizaciones sociales
de fuerza que se impusieron unos saberes sobre o no gubernamentales, a nivel socio educativo
otros, y cómo las construcciones de verdades (como quieran llamarlas, de todas forman son
han configuraron la gubernamentalidad de la sociedad) han producido y producen; a la
argentina. La libertad argentina no ha sido una determinación a poder manejar este saber y estos
cuestión de oferta y militarización, al mejor conocimientos a nivel político y la importancia
estilo estadounidense, o de modernización con que promete la puesta en la agenda pública de
arte como los franceses; sino una ha sido una muchos de estos conocimientos; y al efecto que
cuestión de miedo, ceguera y sordera. Foucault, está produciendo la voluntad política de que
en cuanto al saber, dice: “Creo que ahora el estos conocimientos se integren.
saber en nuestras sociedades es algo tan amplio Podríamos decir que, en la Argentina, se
y tan complejo que se ha convertido realmente vivió durante años en la época de la Stultífera
en el inconsciente de nuestras sociedades. No Navis2 con una ética de la empresa pirata.
sabemos lo que sabemos, no sabemos cuáles son
los efectos del saber” (Watanabe, 1999: 174).

23
Adrián Manzi y Elio Rodolfo Parisí

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26
Estructura Judicial de Derechos Humanos Contextualizada en Argentina

NOTAS

1. 6.700 fueron las denuncias recibidas por la más próximas a los ritos, indudablemente.
C.I.D.H. cuando hizo su visita “in locus” a la (…) Así se comprende mejor el curioso sentido
Argentina en 1979. Por su parte, la Comisión que tiene la navegación de los locos y que le
Nacional de Personas Desaparecidas recibió da sin duda su prestigio. Por una parte, posee
9.000 denuncias en 1984. En cambio, los una eficacia indiscutible; confiar el loco a
organismos de DDHH denuncian la detención- los marineros es evitar, seguramente, que el
desaparición de 30.000 personas durante la insensato merodee indefinidamente bajo los
última dictadura. muros de la ciudad, asegurarse de que irá lejos
2. En referencia al primer capítulo de “La Historia y volverlo prisionero de su misma partida. (…)
de la Locura”, de Michel Foucault de 1964: Hacia el otro mundo es adonde parte el loco en
su loca barquilla; es del otro mundo de donde
“Un objeto nuevo acaba de aparecer en el viene cuando desembarca. La navegación del
imaginario del Renacimiento; en breve, loco es, a la vez, distribución rigurosa y tránsito
ocupará un lugar privilegiado: es la Nef des absoluto. En cierto sentido, no hace más que
Fous, la nave de los locos, extraño barco ebrio desplegar, la situación liminar del loco en el
que navega por los ríos tranquilos de Renania horizonte del cuidado del hombre medieval,
y los canales flamencos. (…) De todos los situación simbolizada y también realizada
navíos novelescos o satíricos, el único que por el privilegio que se otorga al loco de estar
ha tenido existencia real, ya que sí existieron encerrado en las puertas de la ciudad; su
estos barcos, que transportaban de una ciudad exclusión debe recluirlo; sino puede debe tener
a otra sus cargamentos insensatos. Los locos de como prisión más que el mismo umbral, se le
entonces vivían ordinariamente una existencia retiene en los lugares de paso. (…) ¿Porqué de
errante. Las ciudades los expulsaban de sus pronto esta silueta de la Nave de los Locos, con
recintos. (…) Se podría pensar que se trata de su tripulación de insensatos, invade a los países
una medida general de expulsión mediante la más conocidos? Es que la locura simboliza
cual los municipios se deshacen de los locos toda inquietud, surgida repentinamente en el
vagabundos, hipótesis que no basta por explicar horizonte de la cultura europea a fines Edad
los hechos, puesto que ciertos locos son curados Media. La locura y el loco llegan a ser personajes
como tales, luego de recibidos en hospitales, ya importantes, en su ambigüedad: amenaza y
antes de que se construyeran para ellos casas cosa ridícula, vertiginosa sinrazón del mundo
especiales. (…) Es que la circulación de los y ridiculez menuda de los hombres” (Foucault,
locos, el ademán que los expulsa, su partida 1990: 20-21, 22, 24, 25, 28).
y embarco, no tienen todo su sentido en el
solo nivel de la utilidad social o de seguridad
de los ciudadanos. Hay otras significaciones

27
DERECHOS HUMANOS: ¿UTOPÍA SIN CONSENSO?1

Alán Arias Marín


Profesor de filosofía política en la UNAM e investigador del CENADEH. México.

RESUMEN Palabras clave


En el texto se realiza una aproximación Derechos humanos; globalización; abordaje
crítica del discurso de los derechos humanos, multidisciplinario; igualdad de género; utopía.
a partir del hecho de que, si bien ha habido
importantes intervenciones críticas en el trayecto ABSTRACT
histórico de los derechos humanos, no se ha
This text constitutes a critical approach of
propuesto una reconsideración de los derechos
the discourse of human rights, from the fact that
humanos bajo explícitas premisas críticas y,
although there have been critical interventions
mucho menos, articulada con los presupuestos
in the historical course of human rights, has not
teóricos de una concepción radicalmente
proposed a review of human rights under explicit
diferente a las tradiciones dominantes cristiano-
critical premises, much less articulated with
liberales de los derechos humanos. El debate
the theoretical premises of a radically different
contemporáneo de los derechos humanos
from Christian-liberal human rights dominant
afirmaría que su carácter emancipatorio
conception. The contemporary debate on human
resulta problematizado, lo que se agudiza,
rights claim that its emancipatory character is
todavía más, toda vez que no hay un consenso
problematized, since there is no consensus about
acerca de lo que los derechos humanos son en
what human rights actually are. In that sense,
realidad. En ese sentido, las consideraciones
the considerations presented in this article are
que se presentan en este artículo se postulan,
postulated, methodological and heuristically
metodológica y heurísticamente, a través de
through thesis; which approach critical issues
tesis; las cuales, en su conjunto, abordan temas
in contemporary discussion of human rights.
cruciales inscritos en el debate contemporáneo
These issues are: critical characterization of
de los derechos humanos. La secuencia de los
the concept of human rights; the process of
temas obedece a una intención argumental.
globalization as a basic theoretical matrix of
Estos temas son: la caracterización crítica del
human rights; the need for a multidisciplinary
concepto de derechos humanos; el proceso de la
approach to human rights; the multicultural
globalización como matriz teórica básica de los
challenge for human rights; the importance of
derechos humanos; la necesidad de un abordaje
a gender equality perspective on human rights;
multidisciplinario de los derechos humanos; el
the centrality of the victim to the discourse
reto multicultural para los derechos humanos;
of human rights; epistemological obstacles
la importancia de una perspectiva de igualdad
to develop a critical notion of victim, and the
género en los derechos humanos; la centralidad
struggle for recognition as a foundation of the
de la víctima para el discurso de los derechos
movement of human rights. Thereby, this text
humanos; los obstáculos epistemológicos para
aims to initiate a review of human rights under
desarrollar una noción crítica de víctima, y la
critical premises.
lucha por el reconocimiento como basamento
del movimiento de los derechos humanos desde
una perspectiva crítica. Con ello, el artículo
Keywords
pretende iniciar una reconsideración de los Human rights; globalization; multi-
derechos humanos bajo premisas críticas. disciplinary approach; gender equality; utopia.

29
Alán Arias Marín

1. INTRODUCCIÓN de resistencia y emancipación frente a las muy


diversas formas de opresión, explotación y
El mejor momento para desmitificar dominación.
cualquier utopía es cuando esta está en crisis.
Por su parte, para Samuel Moyn4,
¿Son los derechos humanos un movimiento
es incuestionable que el discurso de los
utópico? ¿Su discurso se corresponde a esa
derechos humanos se ha vuelto hegemónico
pretensión? ¿Pueden los derechos humanos
en las condiciones del mundo globalizado,
ser un proyecto emancipatorio? Ciertamente,
conformándose como el referente legal y valorativo
la modernidad es una época fértil en utopías,
de la gobernanza global. Sin embargo, una
incluidos los derechos humanos que han sido
posición crítica tendría que proponerse explicar
tardíamente una de ellas y que son, hoy por
cómo es que ha ocurrido esta transformación
hoy, una de sus expresiones paradigmáticas. No
con la extraordinaria preponderancia adquirida
obstante, en esta segunda década del siglo XXI,
en la segunda mitad del siglo XX.
¿siguen siéndolo? En todo caso, si es que lo son,
lo que no hay es un consenso respecto de ello. Es Para Moyn resulta anacrónico, como lo
más, teniendo a la vista el debate contemporáneo hacen las corrientes hegemónicas del discurso
de los derechos humanos, el acuerdo sobre su convencional de los derechos humanos, trasladar
carácter utópico resulta imposible, toda vez que al siglo XVIII las características de su concepto
no hay un consenso acerca de lo que los derechos moderno. Esto es, buscar las raíces y las fuentes
humanos son en realidad. de los derechos humanos en las doctrinas de
la Ilustración o, incluso, en los comienzos del
En todo caso, en un plazo históricamente
mundo de la posguerra, sería -en su opinión-
breve el imaginario simbólico de la (nueva)
simplemente un error metodológico y político y
utopía emancipadora y humanista de los
cultural.
derechos humanos ha vivido su cenit, su
fracaso y –acaso- ¿su crisis? Durante el último En cambio, el auge de los derechos humanos
decenio del siglo XX y lo que va del presente en tanto discurso de validez moral de alcances
siglo, los derechos humanos se han convertido pretendidamente universales, sólo encuentra su
en lenguaje de una política emancipatoria. sentido si abandonamos el intento de justificarlo
Como consecuencia de la crisis de los discursos a partir de un origen mitológico de raíces
emancipatorios, simbolizada por el colapso de ancestrales. Así pues, la legitimidad del discurso
las utopías socialista y comunista, el discurso de de los derechos humanos tendría un muy
los derechos humanos no sólo ha reemplazado el reciente surgimiento, de no hace más de cuarenta
vacío dejado por la ausencia tanto de una política años. La profundidad y potencia de los derechos
revolucionaria como de una reformista, sino humanos radicaría en su novedad. La verdadera
que, desde algunas perspectivas críticas, se ha búsqueda de su significado contemporáneo no
reconstituido como un lenguaje de la resistencia estaría en el pasado, cercano o remoto, si no en
y la emancipación, vinculado a los ensayos por la especificidad contemporánea de su discurso y
desarrollar una política progresista a principios su correspondencia y/o articulación crítica con
del siglo XXI.2 las condiciones del presente globalizado.
De acuerdo con Boaventura de Sousa Moyn arguye que la historia de los derechos
Santos, a partir del periodo de posguerra y, en humanos se ha resistido a reconocer que su
particular, en las últimas tres décadas del siglo discurso es “solamente una atractiva ideología
XX, ha surgido una nueva cultura jurídica entre otras”. Sin embargo, “en su aparición
cosmopolita a partir de un entendimiento como la última utopía, después de que utopías
trasnacional del sufrimiento humano y de la predecesoras y rivales se derrumbaran [...], los
opresión social.3 Dicha cultura ha evolucionado derechos humanos fueron obligados a asumir la
de forma gradual hacia un régimen de derechos gran misión política de proporcionar un marco
humanos, principalmente articulado por la global para la consecución de la libertad, la
coalición de organizaciones no gubernamentales identidad y la prosperidad”.5--
locales, nacionales y transnacionales, mismas Como contrapunto, ha cobrado mayor
que han creado el potencial para la globalización relevancia la imposibildad política de intervenir
de la resistencia. De esta manera, los derechos con un sentido y una legitmidad humanista
humanos se han concebido como parte de una en las diversas situaciones de crisis de los
más amplia constelación de luchas y discursos derechos humanos. Ejemplo de ello, serían los

30
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

innumerables genocidios que históricamente tales derechos pierden su razón de ser cuando se
siguieron a la Segunda Guerra Mundial: convierten en la ideología o idolatría política de
Camboya (1975-79), Rwanda (1994), Bosnia las sociedades capitalistas y cumplen su función
(1995) y Timor Oriental (1999), entre otros, así contemporánea de “misión” civilizadora.
como el pasmo producido por los atentados del En este sentido, de acuerdo con Douzinas,
11 de septiembre y sus secuelas de invasiones y las demandas y luchas de los derechos humanos
de continuidad y potencialización terrorista. son capaces de visibilizar la exclusión, la
Actualmente, los derechos humanos, dominación, la explotación y las pugnas que
mantienen vigentes algunos destellos de su permean la vida social y política pero, al mismo
halo de utopía, aunque, de modo prematuro, tiempo, ocultan y aíslan las raíces profundas de
también cohabita en ellos una especie de la contienda y la dominación, pues reducen la
nostalgia precipitada y vívida respecto de ese lucha y la resistencia a los términos de simples
su reciente y fulgurante momento utópico. Los remedios legales e individuales que, de tener
derechos humanos han mantenido e –incluso- éxito, conducirían solamente a mejoras pequeñas
incrementado su presencia y algunas de sus vías e individuales y a un marginal e insignificante
de intervención, también, de modo intermitente reacomodo del edificio social.
y con modalidades de baja intensidad, palpitan Si bien, en las sociedades capitalistas
en los tópicos de la justicia de transición; no más desarrolladas, los derechos humanos
obstante, también –y agudamente- se perciben despolitizan la política y se transforman en
sus fallos y frustraciones como momentos estrategias publicitarias6; en sociedades con
constitutivos del conjunto mayor de las fragilidad institucional, los derechos humanos
consecuencias indeseadas y/o perversas de la constituyen aún una posbilidad mínima de
globalización. resistencia frente a la opresión de la autoridad.
De nueva cuenta, ¿se encuentran los El discurso contemporáneo de los derechos
derechos humanos en crisis? En todo caso se humanos se erige sobre un espacio de debilidades
trataría de un retorno a un modo suyo de existir, teóricas desde su refundación en 1948. La utilidad
muy propio de los avatares del movimiento y del debate por un empeño de re-pensamiento
que tendría que resultarles muy familiar. No y/o re-legitimación de los derechos humanos
obstante, siguen enhiestos y con valía como requiere de la postulación de imperativos
contrapunto a momentos críticos, represivos críticos, mismos que fungen como una especie
y autoritarios, como potenciales indicaciones de guía mínima para un discurso contemporáneo
de alarma ante las situaciones de excepción y crítico de los derechos humanos. Para ello, se
manifiestas (más débilmente también como propone un orden de articulación de tesis sobre
advertencias ante la mutación de las situaciones la base de aspectos fragmentarios, apuntadas
y estados de excepción en estados excepcionales desde las paradojas, crisis y aporías de ese
extendidos y/o permanentes), normalizados a discurso. Entre los imperativos mínimos aquí
fuer de la velocidad y saturación inclementes propuestos y que serán desarrollados de manera
de acontecimientos, informaciones y datos de esquemática y no exhaustiva, se encuentran el
las convulsas condiciones que privan en las imperativo multidisciplinario, el multicultural,
sociedades globalizadas. Reminiscencias de el relativo a la equidad de géneros y la necesaria
su propio espíritu funerario original y de su reconstrucción crítica de la noción de víctima.
compromiso ético, derivado de su momento
refundacional en 1948, reacción después de 2. ¿QUÉ SON LOS DERECHOS
Auschwitz, Hiroshima-Nagasaki y el Gulag,
aunado a su aspiración de no repetición de lo
HUMANOS? EL DEBATE ENTORNO A
acontecido. SU DEFINICIÓN
Los derechos humanos son quizás –pese a Los derechos humanos son ciertamente
todo- la institución liberal más importante. No derechos. Aunque, en rigor, son más humanos
obstante, cada uno de los principios centrales de que derechos, esto es, son primordialmente
la teoría de los derechos humanos requeriría de humanos. Valga esta perogrullada, casi
una revisión penetrante. Para Costas Douzinas, olvidada y borrada del discurso dominante y
el fin de los derechos humanos es resistir la las modalidades juridicistas de los derechos
opresión y la dominación pública y privada; humanos, al menos, temática poco frecuente

31
Alán Arias Marín

en las reflexiones acerca de ellos. Debido En el camino de llegar a ser derechos


a ello, se pretende una reverberación del positivizados, los derechos humanos contienen
hecho de que, si bien ha habido importantes e implican una multiplicidad de prácticas
intervenciones críticas en el trayecto histórico de humanas, de acciones y también de discurso.
los derechos humanos, no se ha propuesto una En principio y muy probablemente en cada
reconsideración de ese proyecto humanístico comienzo singular de esos procesos (cursos
bajo explícitas premisas críticas y, mucho casuísticos históricamente especificados),
menos, articulada con los presupuestos teóricos tales comportamientos teórico-prácticos, esos
de una concepción radicalmente diferente a las cursos de acción y sus dichos de lenguaje, esos
tradiciones cristiano-liberales de los derechos comportamientos con los discursos que los
humanos (al menos de 1948 a la fecha). acompañan (curso-discurso), han de ser y han
Conviene, en consecuencia, aunque sido acciones de rechazo, de inconformidad
sea someramente, una aproximación e incomodidad, gestos y actos de indignación
fenomenológica a los derechos humanos en frente al abuso de poder; conceptualmente dicho,
tanto que objeto de estudio de las ciencias prácticas de resistencia ante el abuso de poder.
humanas, históricas y/o sociales (y del derecho Pero esas resistencias son, han sido y serán
en tanto que una disciplina más de ese conjunto muy probablemente prácticas emancipatorias. Se
de saberes). Señalar la pertinencia de un análisis trata de instantáneas y sutiles –aunque decisivas-
previo a su conformación como movimiento transiciones de la resistencia a la emancipación.
social, una indagación respecto de sus premisas. Luchas de resistencia al abuso de poder que
¿Qué son? ¿De qué están hechos? ¿Cómo se pueden convertirse, a veces casi de inmediato o
construyen? ¿Cuál es su estructura? ¿Cómo están paciente y acumulativamente, en el horizonte
configurados? Preguntas, todas ellas, propias de de una emancipación. Instauración y/o rescate
una interrogación crítica (Kant) en relación a sus de espacios de libertad, ámbitos emancipados,
condiciones de posibilidad y/o sus existenciarios, liberados, asegurados y consolidados por una
condiciones de su existencia (Heidegger- específica correlación de fuerzas, espacios libres
Sartre); reflexión preliminar, antecedente de de esos abusos de poder que han sido resistidos
su configuración sea como movimiento social y de esas opresiones autoritarias presentes en
o como derechos positivizados en los planos todos los espacios de la vida social y en todas
nacional e internacional. las formas históricas (del padre, del patriarca, del
Antes de ser, de convertirse en derechos jefe, del rey, del Papa, del Estado; aunque también
propiamente dichos, previamente a devenir del capataz, del maestro, el cura, el marido, el
libertades y espacios liberados regulados jefe de oficina, del dueño del negocio…).
positivamente, fueron, han sido, son y habrán Esos espacios ganados de libertad pueden –y
de ser, ante todo, acciones humanas. Prácticas así ha sido a menudo en la historia- procesarse
individuales y/o colectivas, practicidades dotadas todavía con mayor complejidad, sofisticar sus
siempre de intencionalidad, así como prácticas discursos y relatos; apostar a una regulación
con sus propios e inherentes momentos teóricos normativa de esos ámbitos, antes espacios de
(más o menos desarrollados discursivamente, opresión y ahora liberados. Normalización de
más o menos conscientes, a final de cuentas, esos ámbitos ganados por las luchas colectivas
siempre relatos con diversas modalidades). e individuales. Prácticas regulatorias que se
Los derechos humanos como prácticas reelaboran normativamente y cristalizan en
sociales susceptibles de emplazar e instituir derechos de uso y en costumbres, mismas
hechos sociales, acontecimientos en la historia. que, a su vez, han podido derivar en derechos
Acciones humanas con la potencia suficiente positivizados.
para intervenir en las condiciones prevalecientes, Los derechos humanos son derechos,
generar situaciones precipitadas por actos que llegan a ser derechos en virtud de que contienen
modifican la correlación de fuerzas pre-existente; en su formulación jurídica esa sustancia
acciones humanas que alteran, en algún práctica formalizada de luchas de resistencia
sentido, el orden de las cosas prevaleciente, que y emancipación, también de prácticas de
modifican el ámbito dominante de lo político y regulación cristalizadas normativamente. Los
de la política vigentes, que promueven el cambio derechos humanos son derechos, pero lo son
o el statu quo. toda vez su densidad práctica consustancial a las

32
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

acciones humanas constituyentes de los procesos principales.7 Tales “escuelas” serían: naturalista
y los fenómenos sociales. Esa practicidad (ortodoxia tradicional); deliberativa (nueva
multidimensional dotada de intencionalidades ortodoxia); protesta (de resistencia) y discursiva-
resistentes, emancipatorias y regulatorias y contestataria (disidente, nihilista).
de sus consustanciales momentos teóricos De manera sucinta y básica se explica que
y discursivos conforman las condiciones de el modelo y/o tipo ideal de la escuela o tendencia
posibilidad necesarias, su momento preliminar naturalista concibe los derechos humanos
instituyente (los existenciarios de su existencia) como dados o inherentes; la deliberativa como
como movimiento social y como conjunto de acordados o socialmente consensados; la
agregaciones normativas positivizadas, que disidente como resultado de las luchas sociales
conocemos como derechos humanos. y políticas; en tanto, la contestataria como un
Los acontecimientos históricos y sociales hecho de lenguaje, meros discursos referidos a
instituidos por esos procesos de lucha, verdaderos los derechos humanos.
momentos de fusión, exitosos y victoriosos o Conviene, aunque sea indicativamente,
fallidos y derrotados, se realizan a lo largo de la señalar algunos de los autores más
historia. En determinadas condiciones políticas, representativos del mapa de las diferentes
sociales y culturales se instituyen, normalizan tendencias que componen el universo del debate
e institucionalizan, se serializan, bajo una contemporáneo acerca de los derechos humanos.
correlación de fuerzas políticas específicas en
Para la escuela naturalista y su concepción
cada caso.
de que los derechos humanos están basados
Al decir que los derechos humanos son en la naturaleza misma o, eventualmente, en
derechos pero que –en rigor- son más humanos términos de un ser sobrenatural, los derechos
que derechos; se dice que son formalmente humanos son entendidos definitivamente como
jurídicos pero hechos, creados, constituidos e universales en tanto que son parte de la estructura
instituidos de materia práctica. del universo, si bien pueden ser traducidos
prácticamente de diversas formas. Entre los
3. NOTAS SOBRE EL DEBATE autores contemporáneos más representativos de
CONTEMPORÁNEO DE LOS la escuela “naturalista”, estarían Jack Donnelly
DERECHOS HUMANOS (con fuerte acento consensual),8 Alan Gewirth9 y,
en nuestro medio, destacaría la obra de Mauricio
Los derechos humanos son controversiales Beuchot.10
y para nada autoevidentes. Así lo enuncia Por lo que toca a la escuela “deliberativa”,
la teoría crítica en clara contraposción a la el basamento de los derechos humanos consiste
afirmación que el discurso dominante juridicista en la construcción de consensos sobre cómo la
(naturalista y/o liberal) ha planteado, que los política de la sociedad debe de ser orientada;
derechos humanos son universales y obvios, consecuentemente, la universalidad de los
existentes en los individuos por el hecho de derechos humanos es potencial y depende de la
ser personas humanas; derivados de la razón, capacidad que se tenga para ampliar el consenso
racionales en sentido fuerte y, por tanto, que no acerca de los mismos. La figura más destacada
son ambiguos, ni objeto de controversia. Estas de esta corriente deliberativa es, sin duda,
pretensiones universalizantes y la generalidad Jürgen Habermas,11 en la misma línea destaca
relativamente sin límites de sus contenidos como referente John Rawls, así como Michael
posibles, convierte cualquier indagación o Ignattieff,12 Sally Engle Merry,13 y, en el ambiente
conversación acerca de los derechos humanos en doméstico, Fernando Salmerón14 y León Olivé.15
un conjunto práctico y discursivo inabarcable;
lo que origina, tanto en la experiencia práctica La escuela de protesta o de resistencia
como teórica, una ausencia de acuerdo respecto en el debate actual de los derechos humanos
de lo que los derechos humanos son en realidad. encuentra en Ettienne Balibar,16 Costas
Douzinas,17 Upendra Baxi18 y Neil Stammers19
Previa depuración abstracta de la discusión sus mejores representantes; en el medio local
sobre las diversas “escuelas” o corrientes destacan los trabajos de Luis Villoro.20 Para
teóricas de los derechos humanos, ceñida a la la escuela de protesta, los derechos humanos
producción teórica y académica contemporánea, están arraigados a la tradición histórica de las
se distinguen cuatro conceptualizaciones luchas sociales, si bien mantienen un sentido de

33
Alán Arias Marín

apertura hacia valores de carácter trascendental es su negatividad, su renuencia deliberada a toda


(en contraposición al estricto laicismo de la aspiración positivizante.
perspectiva deliberativa liberal). Es por ello que Son discernibles los elementos críticos en
consideran universales a los derechos humanos las diversas perspectivas teóricas (filosóficas,
en cuanto a su fuente, toda vez que la condición políticas y jurídicas) que componen el escenario
de sufrimiento y la potencial victimización de del debate contemporáneo de los derechos
los sujetos tiene carácter universal. humanos. La masa crítica de un discurso de los
Por último, la escuela discursiva o derechos humanos en clave deconstructiva estará
disidente sostiene que el fundamento mismo constituida por la revisión de las tendencias típico
de los derechos humanos no es otro que un ideales en curso (representadas genéricamente
hecho de lenguaje, la cuestión irrebatible de en las “escuelas” referidas) y análisis de las
que en los tiempos contemporáneos se habla interconexiones singularizadas que -de hecho-
constantemente acerca de ellos y que tienen configuran las aportaciones individualizadas
un carácter referencial; por supuesto no le de los diversos autores (señalados en párrafos
atribuyen a los derechos humanos ningún anteriores).
carácter de universalidad, de modo que, son En ese sentido, es pertinente la
un elemento táctico sumamente aprovechable reivindicación de lo que es un postulado
puesto que los contenidos se pueden establecer irrenunciable del discurso crítico: el riguroso
discrecionalmente en ellos. De esa escuela cuestionamiento de las propias posiciones
discursiva destacan Alasdair MacIntyre,21 filosóficas, sociológicas y políticas, así como de
Jacques Derridá,22 Makau Mutua,23 Wendy las relaciones entre ellas; aquí se sostiene que el
Brown,24 y Shannon Speed;25 en el ambiente proyecto y el discurso de los derechos humanos
local ha reflexionado en términos análogos, ha de someterse sistemáticamente a tales
entre otros, Cesáreo Morales.26 prácticas auto-correctivas (autocríticas).
Bajo ese marco esquemático general, las De otra parte, y en consonancia con otro
tesis aquí presentadas buscan inscribirse en el de los principios operativos básicos del discurso
horizonte de una contribución a una teoría crítica crítico, los derechos humanos son entendidos
de los derechos humanos. Que, en las condiciones radicalmente como un fenómeno histórico.
contemporáneas, ha de entenderse como un En tanto que conjunto multidimensional de
proceso en construcción (work in progress), una prácticas humanas y sus correspondientes
pretensión que habría de combinar elementos saberes e ideologías, el movimiento de los
teóricos propiamente críticos y orientaciones derechos humanos se encuentra especificado
políticas de emancipación en correspondencia históricamente; los factores históricos y las
con las condiciones socio-económicas, políticas condiciones sociales, políticas y culturales
y culturales del momento histórico para “ajustar conforman variables indispensables para
cuentas” de modo sistemático con la versión comprender y explicar su desarrollo previo y su
juridicista, de corte naturalista y raigambre caracterización actual.
liberal y cristiana que conforma la perspectiva
La adopción de una perspectiva modulada
dominante del discurso contemporáneo de los
por la tradición de la teoría crítica supone asumir
derechos humanos.
dos premisas metodológicas fundamentales
Se dice que es un work in progress porque un respecto del concepto derechos humanos.
(o el) discurso crítico de los derechos humanos Por un lado, los derechos humanos son
como tal no existe. El objetivo de este proceso considerados como movimiento social, político
no será producir un discurso alternativo respecto e intelectual; así como (su) teoría propiamente
del discurso dominante –y hasta hegemónico- dicha. Su determinación básica, a lo largo de la
en el mundo institucional y extra-institucional historia, consiste en su carácter emancipatorio
del movimiento de los derechos humanos. (resistencia al abuso de poder, reivindicación de
El modo de la teoría crítica no consiste en ser libertades y derechos, regulaciones garantistas
alternativo –opcional- a la teoría dominante. por parte del Estado); atentos a su sustrato
La especificidad del discurso crítico radica en político indeleble y más profundo –condición de
la operación y el trabajo negativos respecto los toda libertad- la exigencia de reconocimiento y,
discursos hegemónicos y/o dominantes.27 La por tanto, la afirmación de la igualdad.
determinación característica del discurso crítico

34
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

Cabría el entendimiento de los derechos en una herramienta desmovilizadora, incluso,


humanos como movimiento, si bien no como mediante una justificación ideológica de nuevas
un movimiento social clásico y, ni siquiera, un formas y lógicas de intervención, en legitimantes
movimiento social de nuevo tipo. Convendría de la configuración de un nuevo poder político,
pensar el movimiento de los derechos humanos económico y militar en el plano global. La
a la manera metafórica de lo que Maffesoli pregunta decisoria de si los derechos humanos,
reivindica como una comunidad imaginada;28 de ser auspiciadores de inéditos espacios e
en el que cabrían el conjunto de tradiciones, identidades libres no se han convertido en
prácticas, principios, herramientas jurídicas, medios de regulación serializados de los seres
valores y simbología que conforman la tradición humanos.
histórica, filosófica, ética, jurídica y cultural de Crisis, pues, en virtud de una no
los individuos y los colectivos identificados con correspondencia entre el programa humanista y
su reivindicación y defensa. sus concreciones efectivas, dada la percepción y
Los derechos humanos son simultáneamente el diagnóstico respecto a su situación de crisis
proyecto práctico y discurso teórico (lejos de teórica; crisis conceptual y cultural presente en
ser sólo derechos). Su consistencia es la de sus dimensiones tanto externa como interna. En
una multiplicidad de prácticas sociales que lo exterior, expresada en la paradoja de ser –hoy
se despliegan en diversas dimensiones y se por hoy– un discurso referencial dominante, en
configuran en variados repertorios estratégicos términos valorativos y normativos y, al mismo
y tácticos.29 Su intencionaldad o sentido busca tiempo, ser objeto de instrumentalizaciones
teórica y prácticamente la instauración de políticas, manipulaciones legitimatorias,
acontecimientos. Acontecimientos en sentido discursos y prácticas desmovilizadoras,
político fuerte, es decir, irrupción de exigencias predominantemente regulatorias e inhibidoras
de reconocimiento, resistencias o impulsos de pretensiones y de prácticas emancipatorias;
emancipadores que modifican las correlaciones crisis también por, en virtud de su referencialidad
de fuerza y dominio prevalecientes;30 por tanto, valorativa y política dominante, el uso banal y el
acontecimientos instituyentes de nuevas abuso expansivo y vulgarizador del lenguaje de
relaciones o modificadas correlaciones de poder. los derechos humanos.
Esta determinación de su carácter político, en Por otro lado, en lo que se refiere a su
sentido estricto, fundacional (diferenciado de dimensión interna, propiamente discursiva, los
la política instituida), le imprime su sentido derechos humanos viven su crisis en virtud de
instituyente y, en la dimensión propiamente una radical inadecuación de su composición
jurídica, conformados como práctica seminal; conceptual y sus proposiciones teóricas
los derechos humanos como la afirmación del respecto de las efectivas condiciones sociales,
derecho a tener derechos, en la formulación de políticas y culturales del momento histórico
Hannah Arendt.31 contemporáneo. En suma, se puede afirmar
que la consecuencia indeseada y/o perversa
4. DERECHOS HUMANOS: HACIA UNA de la historia reciente del movimiento de los
CARACTERIZACIÓN CRÍTICA derechos humanos es la pérdida, en múltiples
y diferenciados planos, de sus potencialidades
La exigencia contemporánea de una
emancipatorias.
aproximación crítica a los derechos humanos
se justifica, en primera instancia, por la no El discurso actual dominante de los derechos
correspondencia entre el desarrollo discursivo humanos -sus formulaciones juridicistas
y normativo del proyecto de los derechos hegemónicas (naturalista y/o liberales)- no
humanos y su situación práctica de crecientes constituye una expresión teórica suficiente
vulneración, irrespeto y manipulación de los respecto de las necesidades prácticas del
mismos. Más a fondo, la pregunta inquietante proyecto-movimiento de los derechos humanos
acerca de si los derechos humanos -ese en las condiciones actuales, tanto en sus medios
movimiento-comunidad imaginado- son e intrumentos como en sus objetivos. Existe,
efectivamente una barrera contra el abuso de históricamente, ese defecto de construcción, la
poder y la dominación, un aliento a la resistencia imposibilidad –desde hace décadas- de vincular
y la emancipación o, por el contrario, se han directa y adecuadamente la práctica y la teoría
convertido en un instrumento de dominación, de los derechos humanos con su forma original

35
Alán Arias Marín

renovada, la correspondiente a su refundación condiciones particulares de crisis humanitarias


contemporánea en la Declaración Universal de y durante periodos delimitados, en ambientes
los Derechos Humanos de la ONU (1948). represivos nugatorios de los derechos civiles
Se sabe que la figura histórica de los y políticos, propios de dictaduras y/o Estados
derechos humanos, en su fase de reformulación autoritarios; pero que, a contrapelo, resultan
y desarrollo contemporáneos, surgió inaplicables e inviables, en términos generales, en
reactivamente luego del final de la Segunda las condiciones mayoritariamente predominantes
Guerra Mundial. Ese discurso, matriz normativa en Estados con regímenes razonablemente
y teórica de toda la evolución posterior –su democráticos o, al menos, dotados de sistemas
forma “clásica”- no fue expresión adecuada de formalmente legales de democracia.
las nuevas condiciones emergentes del mundo Las potencialidades de un desarrollo
de la posguerra, ni contó con un diagnóstico, vivo, creativo, del proyecto y el discurso de los
acorde a sus propias finalidades, respecto derechos humanos ha resultado obstaculizado
de las tensiones de la llamada Guerra Fría, por las modificadas condiciones históricas de las
mismas que caracterizaron a la segunda mitad sociedades y los Estados a través de la segunda
del siglo XX, prácticamente hasta los años 90. mitad del siglo XX y lo que va del presente. Es por
Posteriormente, la comunidad-movimiento de ello pertinente y adecuado un replanteamiento
los derechos humanos fue mucho menos capaz crítico, que tome en consideración los
de captar y representar, de modo teóricamente factores históricos y asuma con radicalidad
pertinente y prácticamente viable, el desarrollo las condiciones sociales, políticas y culturales
posterior al colapso del socialismo real, así como actuales para ensayar –así- una reformulación
comprender las determinaciones del proceso de (una re-legitimación) contemporánea de los
globalización con una interpretación de la matriz derechos humanos.
teórico-conceptual derivada de ella.
Resultado de esas deficiencias conceptuales 5. LOS DERECHOS HUMANOS EN EL
y culturales, el discurso y el movimiento de MUNDO GLOBAL
los derechos humanos vive una crisis práctica
La complejidad inherente al debate
y teórica que reclama un replanteamiento
contemporáneo de los derechos humanos
crítico y, consecuentemente, la construcción
encuentra ciertas claves de comprensión si se le
de una narrativa dotada de argumentos de re-
relaciona con las condiciones de su especificación
legitimación.
histórica. Los grandes cambios sociales, políticos,
En rigor, los derechos humanos en su económicos y tecnológicos de finales del siglo
formulaciones actuales dominantes, no son sino XX a la fecha están determinados por el proceso
un resultado sintético de la situación dramática de globalización; por eso podemos afirmar que
precedente, caracterizada por la emergencia de la la especificidad contemporánea de los derechos
barbarie absoluta en los campos de exterminio, humanos encuentra su configuración principal en
a la que se alude con el concepto-paradigma de la globalización. No obstante, la conexión entre
Auschwitz. Se trató de una reacción ilustrada el discurso de los derechos humanos y el proceso
y de rescate de valores y principios éticos, globalizador sólo puede aparecer comprensible si
de matriz liberal-cristiana. Sin embargo, el mediado por una matriz teórica básica, dotada de
optimismo respecto de un posible regreso a principios constructivos y operacionales práctico-
valores de convivencia civilizada, normados por materiales y también conceptual-culturales
el derecho, sobre la base de la dignidad humana, generados por las condiciones inherentes de la
no apreciaba en toda su radicalidad el golpe globalización, sus tendencias determinantes y sus
devastador infligido a toda pretensión teórica y tensiones polarizantes.
política del proyecto mismo de la Ilustración del
Las condiciones actuales de la sociedad
que abrevaba.32
globalizada muestran, por un lado, una
Lo anterior ayuda a entender, si bien fuerte tendencia hacia la homogeneización,
parcialmente, por qué es que las propuestas teóricas posibilitada por pautas económicas, culturales y
de los derechos humanos y sus traducciones técnicas –estándares, hábitos y modas a partir
jurídicas positivas, pese a su vulnerabilidad del consumo y la producción– extendidas por
teórica y sus paradojas, resultan asequibles y todo el mundo; y, no obstante, por el otro lado,
útiles (aún si en un plano de mera denuncia) en el reforzamiento de una heterogeneidad cultural

36
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

a partir de la reivindicación de las diferencias mercado local y mundial, ciudad y campo, y entre
inscritas en las identidades étnicas, religiosas, trabajo manual e intelectual (trabajo productivo
culturales y hasta de modos de vida de diverso e improductivo). Esta fase está cargada de
tipo, que determinan que -en dichas condiciones implicaciones sociales y culturales condicionadas
sociales y culturales- unas y otras cohabiten en desde una novedosa y revolucionaria base
el seno de una tensa paradoja bipolar. informática y cibernética, características de
Un discurso renovado de los derechos la época contemporánea, que problematizan
humanos podría afirmarse como un territorio los códigos de la producción de verdades y que
discursivo de mediación –y no solamente realizan rotundamente la tendencia de que las
referencial normativo– entre la afirmación de fuerzas productivas principales, las que más y
los universales, con su cuota correspondiente mejor valorizan valor, sean la ciencia y la técnica.
de violencia, condición de su afirmación y Podemos adelantar que la matriz teórico
realización como tales (universales impuros), de conceptual de la globalización en lo que se
matriz occidental; y el cuestionamiento radical refiere a los derechos humanos, en particular,
ejercido por los relativismos culturales y los y a las ciencias y los movimientos sociales, en
particularismos nacionales, étnicos, religiosos y general, implican la postulación de un conjunto
lingüísticos: el desafío multicultural a Occidente.33 de imperativos articulados en torno a la
Paradoja de bipolaridad persistente, que no corrosión de la idea de los universales, mismos
tiende a resolverse a favor de uno de los polos que serán desarrollados en posteriores capítulos
en tensión –homogeneización o heterogeneidad- del presente texto. Entre los que destacan: uno
sino que, más bien, genera un campo de fuerzas multidisciplinario, de carácter epistemológico,
de complejas tensiones, pues a medida que respecto de la vieja división del trabajo
las relaciones sociales se amplían, se produce intelectual; un imperativo multiculturalista,
también una intensificación de las diferencias, lo de carácter político, ético y cultural frente a
que indica que los procesos globalizadores carecen las formas pretendidamente universales de la
de esa unidad de efectos que generalmente se da cultura occidental, como la democracia y los
por sentada al hablar de globalización. derechos humanos; y la afirmación ineludible
de la perspectiva de género como forma esencial
Así, el término globalización se suele
de reivindicación de la diferencia frente a
relacionar con la aprehensión de su carácter
pretendidos universalismos justificadores, a final
irresuelto, sus tensiones contradictorias y sus
de cuentas, de multiplicidad de desigualdades.
efectos indeseados: de la “sociedad de riesgo”34
o “sociedad líquida”,35 con espacios que fluyen,36
(en) un “mundo turbulento”37 y “desbocado”,38
6. MULTIDISCIPLINARIEDAD Y DERE-
susceptible al “choque de civilizaciones”39 CHOS HUMANOS
fundamentado a partir del surgimiento de un Derivada de la matriz teórica básica
“sistema mundial capitalista”40 y que produce, generada por la globalización, sus consecuencias
como efecto de su carácter paradojal, procesos y determinaciones, en particular una de ellas, la
de “individualización”,41 “retribalización”,42 del debilitamiento crítico del Estado nacional y de
“transculturalización” y “reterritorialización”.43 la noción dura de soberanía, es que las tendencias
Por lo que, de modo escueto, se puede contrapuestas de la globalización condicionan
señalar que la globalización es un fenómeno social al movimiento y a la teoría de los derechos
emergente, un proceso en curso, una dialéctica humanos, es en virtud de ello, que se ha inducido
dotada con sentidos contrapuestos, opciones y desarrollado recientemente una mutación en
de valor ineludibles, con carga ideológico- el discurso juiridicista dominante. Se trata de un
política y de matriz económico-tecnológica. desajuste crítico que tiende a desplazar al derecho
La globalización, bajo la determinación de su del centro hegemónico en el discurso de los
fuerte variable económica, forma parte del viejo derechos humanos y que propicia la irrupción del
proceso –siempre creciente– de mundialización conjunto de las ciencias sociales y la filosofía en
del sistema capitalista (teorizado de modo su conformación y desarrollo internos.
canónico por Karl Marx44). El impacto de este desarrollo crítico de
Se trata de una fase de peculiar intensidad del la teoría de los derechos humanos no ha sido
sentido expansivo de la valorización del capital, referencia exclusiva del ámbito jurídico, sino
desdibujando las distinciones clásicas entre que se ha extendido al de las ciencias sociales

37
Alán Arias Marín

en su conjunto; ha inducido una relativización incorporar –como método de control– diversos


de sus respectivos campos de conocimiento y puntos de vista o dictámenes referenciales
una interrelación más intensa entre las distintas basados en otras disciplinas.
disciplinas.45 Asimismo, en ciertos territorios, Para el estudio crítico de los derechos
como la filosofía del derecho y la filosofía política, humanos, como conocimiento de la conexión
a un radical y complementario intercambio del saber teórico con una práctica vivida, como el
conceptual. De lo indicado aquí es que se estudio de un objeto práctico y su correspondiente
desprende un imperativo multidisciplinario al “dominio objetual”47 tenemos que asumir la
discurso de los derechos humanos; exigencia que crítica de la comunicación hegemonizada por el
interpela toda pretensión crítica y de adecuación a discurso jurídico, que contiene una legitimidad
las circunstancias reales de una teoría actualizada limitada a lo legal,48 una legitimidad incompleta
de los derechos humanos. La complejización, y, por ende, sólo en y de apariencia. Por ello,
extensión y debilitamiento del derecho como hemos de evitar a toda costa arribar a una
la modalidad hegemónica en la descripción, consideración derivada exclusivamente del
constitución y legitimación teorética de los tipo de experiencia y acción determinados con
derechos humanos ha llevado a la necesidad de criterios unilateralmente jurídicos: positividad,
una aproximación multidisciplinaria. legalidad y formalismo.
El movimiento y el discurso de los derechos El trabajo interdisciplinario representa
humanos son tema relevante y esencial, un intento de colaboración entre disciplinas;
referente obligado tanto política como jurídica en ese sentido, el discurso de los derechos
y socialmente, en el debate contemporáneo. La humanos no sólo habla de jurisprudencia, leyes
complejidad y riqueza que engloba el concepto y normas sociales, sino también de economía,
derechos humanos, nos impele a trasladar su psicoanálisis, sociología, religión y antropología.
estudio –una migración cultural– hacia una El trabajo entre disciplinas nos permite analizar
perspectiva más amplia que la generada por (en sentido fuerte), descomponer temas que
la especialización actual de las disciplinas del en apariencia refieren sólo a un área del
conocimiento humano Si bien es cierto que el conocimiento, sino observar el hecho de que
estudio del tema de los derechos humanos nos también interpela a otras ramas separadas del
ha remitido tradicionalmente al terreno jurídico, conocimiento humano y de la naturaleza.
también es cierto que el debate y la investigación
En el plano subsiguiente a la
están (y han estado) lejos de agotarse en ese
interdisciplinariedad, corresponde a la
ámbito. El otrora discurso dominante del Derecho
multidisciplinariedad, es decir, al conjunto de las
se ha visto impelido a un replanteamiento radical
ciencias sociales y a la filosofía (social, política,
respecto de los derechos humanos y a enfrentar
del derecho) lidiar con ese objeto poliédrico,
inéditos problemas conceptuales, así como
complejo y múltiple que es el movimiento-
numerosos desafíos teóricos y metodológicos en
comunidad imaginada de los derechos humanos.
ese ámbito.
Práctica valorativa, de intervenciones múltiples,
En una perspectiva multidisciplinar no generadora de normas e instituciones diseñadas
es plausible un solo enfoque, un solo método, con la finalidad de la protección y el respeto de
una sola perspectiva para entender y hacer la dignidad de las personas.
frente a sistemas complejos determinantes en
Discurso social multidisciplinar que es
la vida social46 como es el caso de los derechos
discurso de los movimientos y las instituciones y
humanos y de otros discursos y conocimientos
de la relación –feliz o infeliz– con las instituciones
ligados a la acción. Es necesario fragmentar
mismas. Asumir la multidisciplinarierad de los
y estudiar analíticamente las piezas de los
derechos humanos presupone y produce una
sistemas complejos para poder entender el
distancia (insuperable y/o insoportable) para
sistema en su conjunto, ya que, de no hacerlo,
con las instituciones que los administran y
sólo conoceremos los elementos por separado y
gestionan y (autocríticamente) para quien piensa
no su estructura y totalidad. La posibilidad de
esa relación. Ya no es posible un pensamiento
un discurso multidisciplinario de los derechos
ingenuo, se quebranta la inocencia respecto de
humanos sólo se podrá construir en ausencia
permitir el cumplimiento feliz de las expectativas
de enfoques universales, mediante la búsqueda
de las instituciones. Esa es una de las paradojas
de sistemas de definición y por la necesidad de
de tensión irresoluble de los derechos humanos.

38
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

La paradoja posee, al menos, la virtud de del principio de autonomía y en el potencial


recordar una de las características fundamentales criterio para el constructo de las identidades
de las ciencias de la sociedad: todas las individuales y colectivas. El poderoso imperativo
aseveraciones que se enuncian pueden y deben multicultural –especie de gran envite teórico y
predicarse del sujeto que realiza la reflexión. Si cultural de las diferencias- se convierte en un
la teoría de los derechos humanos no introduce desafío e impele a un diálogo con las culturas
esa distancia objetivadora (crítica), entonces, periféricas, pero también en el seno mismo de las
el discurso de los derechos humanos sucumbe sociedades democráticas de Occidente, respecto
a la pendiente resbaladiza del maniqueísmo. a las reivindicaciones valorativas de diferencia y
La parábola del inquisidor radical que desde reconocimiento culturales.
las organizaciones de la sociedad civil abdica Esta irrupción del pluralismo y la
a favor de una representación populista del heterogeneidad en disputa con el universalismo
pueblo o el inquisidor institucional que desde y la homogeneidad, todavía dominantes -aunque
el poder de las instituciones públicas de defensa erosionados-, se encuentra indisolublemente
de los derechos humanos abdica a favor de las asociada a la figura del Estado. La tensión
autoridades estatales. entre derechos humanos (cuyo horizonte
El problema no consiste en hacer lo intelectual y derechos positivizados se ubican
interdisciplinario o lo multidisciplinar per se, tradicionalmente en un plano de adscripción
sino qué es lo multidisciplinar que hay hacer. No universal y bajo un principio de igualdad general),
se trata de un imperativo de moda intelectual, y, el multiculturalismo (como reconocimiento a
ni siquiera de la aplicación de un correctivo las diferencias de pertenencia cultural e identidad
teórico que pondere la hegemonía del discurso particulares), surge cuando las demandas de
jurídico dados sus efectos debilitadores de la grupos culturalmente diferenciados, reticentes
teoría y la práctica de los derechos humanos. a la aceptación del significado universalmente
Resulta pertinente asumir el imperativo válido de los valores y las finalidades de la cultura
multidisciplinario, producto obligado de la occidental dominante, paradigmáticamente
complejidad de la globalización, toda vez su expresados en la forma democrática y en los
inherente correspondencia con el sentido derechos humanos, resultan imposibles de
emancipatorio que anima o debiera animar la reivindicar sin desprenderse de su interrelación con
teoría y la práctica de los derechos humanos. el Estado (que las asume como inasimilables), ese
espacio político –de supuesta igualdad universal–
7. EL RETO MULTICULTURAL PARA LOS integrado a partir de conceptos universales y
DERECHOS HUMANOS presuntas condiciones de homogeneidad queda
puesto en cuestión.
La globalización también ha alterado el
No obstante, lo que prevalece es la
significado contemporáneo de la soberanía
confrontación práctica e intelectual, toda
política y jurídica y, con ello, se ha agudizado
vez el carácter inescapable del conflicto de
un debilitamiento de las estructuras estatales
valores implícito en el impulso históricamente
frente a las dinámicas que rigen el escenario
dominante de la perspectiva occidental y sus
global. El desplazamiento de la centralidad
formas político culturales (derechos humanos
del Estado (y su soberanía) se contraponen y
incluidos). Así, las contradicciones se precipitan
colisionan, determinando espacios y tiempos de
al territorio dirimente de la política y la lucha
incertidumbre, agravados por nuevos tipos de
por el reconocimiento como condición básica de
violencia (algunos extremos como la violencia
la construcción y entendimiento de los derechos
del terrorismo y el narcotráfico en algunos
humanos.
países, hasta prácticas de genocidio y limpieza
étnica) donde, con la participación del Estado, En esa discusión –derivada del
los derechos humanos quedan situados en una desafío teórico, político e institucional del
tensa ambigüedad crítica (legal, política y moral). multiculturalismo- la temática de los derechos
humanos ha ocupado un lugar central, tanto
Con el fin del bipolarismo global,
como objeto de crítica valorativa, toda vez que su
un conjunto de fuerzas, reacciones, viejas
construcción y fundamentación se han realizado
reivindicaciones y aspiraciones encontraron en
en clave monocultural (occidental); así como
la afirmación de la heterogeneidad un punto
por el desarrollo de un debate de revaloración,
focal; la diferencia se constituyó, así, en el motor

39
Alán Arias Marín

redefinición y relegitimación del discurso y la humana en sociedades y periodos históricos


teoría de los derechos humanos de cara a las específicos.49 Esta simbolización cultural de la
modificadas condiciones de nuestras sociedades diferencia anatómica sexual toma forma en un
globales. conglomerado de prácticas, ideas, discursos,
símbolos y representaciones sociales que
8. LA PERSPECTIVA DE GÉNERO EN LOS influyen y condicionan la conducta objetiva y
DERECHOS HUMANOS subjetiva de las personas en función de su sexo.
La noción de género ofrece la posibilidad
El feminismo y los estudios de género
de pensar el carácter de constructo cultural que
tuvieron un desenvolvimiento8. intelectual y un
tienen las diferencias sexuales, el género es una
arraigo material inusitado y exitoso a lo largo
producción social y cultural históricamente
del siglo pasado. Si alguna revolución cultural
especificada, más allá de la propia estructuración
contemporánea se mantiene invicta esa es la
biológica de los sexos (incluso, de la orientación
del feminismo contemporáneo (con todo y sus
de las preferencias), de las identidades de género,
contradicciones, divisiones y diásporas). Al
de su función y relevancia en las organizaciones
igual que otros movimientos sociales radicales
sociales. Desde luego, es relevante el papel
que reivindican reconocimiento, el feminismo
innegable y paradigmático que opera en la
inserta la cuestión propia de las diferencias
estructuración de la igualdad y la desigualdad en
dentro del ámbito y el lenguaje de pretensión
las sociedades.
universalista propio de los derechos humanos.
Propiamente, el discurso feminista es uno que Asimismo, detrás de los movimientos
emplaza el debate sobre los derechos humanos reivindicatorios y en particular del movimiento
a partir de la subversión de la distinción entre feminista, existe una “semiotización de lo
universalidad y diferencia. social”;50 esto es, que la fuerza inventiva del
movimiento feminista, sus contribuciones,
La coincidencia epocal en el surgimiento
no sólo pasan por las posibilidades heurísticas
tanto del pensamiento político liberal de la
del concepto y la perspectiva de género sino
Declaración de los Derechos del Hombre y del
también por todo lo que deriva de su potencial
Ciudadano como del pensamiento feminista
crítico y desconstructor de ciertos paradigmas
emergente, ambos a finales del siglo XVIII, ha
teóricos, pero también prácticos.51 Con ello,
producido al menos dos principios definitorios
tal semiotización de lo social debe entenderse
de la disociación entre feminismo y derechos
como el sello del horizonte epistemológico
humanos; por un lado, respecto del universalismo
contemporáneo; resultado de las estrategias
de las Declaraciones canónicas y, por otro lado,
teóricas más diversas, desde la recuperación
la afirmación de presupuestos implícitos en la
de la dimensión del sentido de historicistas
perspectiva del concepto de género, la noción de
y hermeneutas, hasta el giro lingüístico de
diferencia, así como de los recursos conceptuales
estructuralistas, post-estructuralistas y filósofos
y políticos presentes en la tradición del discurso
del lenguaje; y al arribo conclusivo a tesis
y la práctica feministas.
sólidamente establecidas y ya teóricamente
Género es un (relativamente) nuevo referenciales, como la de que “toda relación
concepto, que además de su inherente ánimo social se estructura simbólicamente y todo orden
crítico, contiene pretensiones políticas simbólico se estructura discursivamente”.52
reivindicativas radicales. Con esto, no se trata
Los afanes teóricos del feminismo no son
sólo de situar la noción de género en relación con
fáciles de deslindar de la política feminista. Con
la perspectiva interpretativa que lo tiene como
su práctica política las feministas contribuyeron
matriz, esto es, con los movimientos feministas,
a cimbrar ciertos paradigmas políticos de la
sino la de enfatizar su carácter esencialmente
derecha y de la izquierda acerca de cómo pensar
político.
y hacer política. La posición teórica feminista
El concepto de género es simbolización ha emplazado, a través de la idea de género,
de la diferencia sexual; aquí lo propiamente la desarticulación de ciertos paradigmas de la
simbólico consiste en la institución de códigos modernidad y de la lógica esencialista en que se
culturales que, mediante prescripciones sustentan.
fundamentales –como es el caso de las de
Dos de los principales dispositivos teóricos
género- reglamentan el conjunto de la existencia
criticados, en su momento, por la teoría

40
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

feminista, el cuestionamiento del paradigma des-construcción de los relatos socio-estatales


liberal y sus ejes fundamentales, el racionalismo de integración y consuelo del sufrimiento. La
y el humanismo, han incidido directamente militancia de los derechos humanos al lado de
en el corpus conceptual de las configuraciones las víctimas y el compromiso de su teoría con
clásicas dominantes del discurso de los derechos el desentrañamiento crítico de lo que provoca el
humanos. La hostilidad histórico-emblemática sufrimiento, la violencia y la vulneración de la
del feminismo respecto de las teorías embrionarias dignidad de las personas, impone nuevas tareas
de derechos humanos (plasmada en la condena a la agenda teórica y práctica del movimiento de
a la guillotina de la “girondina” Olympe de los derechos humanos.
Gougés, opuesta a la ejecución del rey y autora La meditación acerca del sufrimiento
de la malhadada Declaración de los derechos de resulta inexcusable en la actualidad, en tanto
la mujer y de la ciudadana…), encontró respaldo que aparece como la vía material que comunica
teórico y conceptual fuerte (aunque tardío), tanto con la noción de víctima así como
mediante la problematización con perspectiva de con el concepto de dignidad. Para la teoría
género de la desigualdad y la discriminación de contemporánea de los derechos humanos, la
las mujeres en las concepciones, textos y prácticas relación entre violencia y dignidad vulnerada
originarios del movimiento y el discurso de los no es directa. Está mediada por la (noción de)
derechos humanos. víctima. Tanto la violencia como la dignidad
El arraigo de las teorías feministas humana (vulnerada) son perceptibles a partir
en los modos culturales y de pensamiento de la vida dañada en las víctimas, cuyo registro
contemporáneos, su distancia crítica respecto radica en las narrativas del sufrimiento.
al proyecto y discurso de los derechos Una perspectiva crítica de la idea de víctima
humanos, ha mostrado desconstructivamente propicia la apertura a una doble dimensión
las inconsistencias de su matriz universalista; epistemológica, tanto propiamente cognoscitiva
asimismo, ha cuestionado el prejuicio radical de como en su función heurística: (a) la víctima es
la izquierda, especialmente la de corte marxista, punto de partida metodológico, plausible para
que no permitía incorporar y reconocer en sus una investigación crítica del núcleo básico ético
organizaciones y en su discurso la especificidad de una teoría de los derechos humanos, a partir
de la problemática de género, el carácter del estudio de la violencia; (b) la víctima es la
propiamente cultural de su origen y que –con mediación necesaria con la dignidad dañada o
ello- negaba e invisibilizaba la marginación, el vulnerada que se implica en ella, toda vez que la
menosprecio y la subordinación de las mujeres aproximación o el asedio conceptual a la idea de
en el universo político cultural de las izquierdas. dignidad humana sólo ocurre idóneamente por
vía negativa, esto es, a través de las múltiples
9. VÍCTIMAS Y DERECHOS HUMANOS formas de daño y de vulneración de la dignidad
DESDE UNA PERSPECTIVA CRÍTICA de las personas.
Una de las cuestiones trascendentes que La revisión crítica de la noción de víctima, de
el discurso crítico de los derechos humanos no alta complejidad y riqueza de determinaciones,
puede soslayar, es la pregunta acerca si la teoría supone asumirla como la mediación plausible
social y filosófica del siglo XXI será capaz de entre las nuevas determinaciones y modalidades
encontrar significado al sufrimiento humano de la violencia estatal y societal contemporánea
socialmente generado. La validez y autenticidad respecto de la dimensión de la dignidad humana.
del empeño crítico del discurso de los derechos El apelar a las violaciones de la dignidad humana
humanos ante el sufrimiento de las víctimas, en el siglo XX, con el involucramiento del discurso
sólo podrá ser reivindicado y sustentado si de los derechos humanos en ello, posibilitó el
mantiene la consciencia alertada respecto descubrimiento de la función heurística de la
del reconocimiento de la fragilidad de las noción de víctima y, con ello, el concepto de
pretensiones de la teoría crítica, así como de la dignidad humana pudo cumplimentar con su
condición malamente existente de los derechos tarea como fuente de ampliación de nuevos
humanos en la actualidad. derechos.
El discurso crítico de los derechos humanos, No obstante, resulta pertinente desconstruir
en tanto que saber alimentado de prácticas de críticamente la noción de la dignidad humana,
resistencia, tiene que ser parte activa en esta asumirlo como una noción vacía de contenidos

41
Alán Arias Marín

conceptuales y no como derivada de alguna derecho internacional de los derechos humanos


fundamentación axiomática particular (de la Resolución 60/147 (Asamblea ONU, 16
imposibles consensos); recurrir –en cambio- a un diciembre, 2005) es el instrumento legal
uso del concepto de dignidad como postulado de más avanzado respecto de las víctimas y sus
la razón práctica contemporánea, como referente correspondientes derechos.57 No obstante que
de potencialidad normativa para la convivencia esta definición contiene elementos novedosos,
social.53 La dignidad humana vulnerada por la no deja de ser insuficiente para una construcción
violencia tiende a convertirse, entonces, en la vía crítica de la noción de víctima. La definición
que constata y confirma, en clave de derechos (amén del proverbial auto-referencialismo
humanos, la condición de víctimas, en el criterio del derecho internacional) resulta limitada,
que pondera y reconoce su sufrimiento y el simplificadora y restrictiva.
horizonte proyectivo de su emancipación. Lo anterior refuerza la pertinencia de
La revisión crítica de la noción de víctima, un trabajo teórico-político-jurídico para la
con la mira en la pretensión de contribuir a construcción de un concepto –complejo, suficiente
una fundamentación ética de los derechos y funcional– de víctima. Teóricamente se hace
humanos, supone asumirla como la mediación evidente la necesidad de construir una noción
plausible entre las nuevas determinaciones y metodológicamente comprensiva y explicativa
modalidades de la violencia estatal y societal a la vez. Comprensivo, en el sentido de ser
contemporánea con la dimensión de la dignidad construido de acuerdo a sus finalidades prácticas
humana.54 Su estudio, resulta un asunto crucial (lógica medios-fines), y, explicativo, en tanto que
para el discurso social, filosófico y jurídico de los dotado de elementos aptos para la producción
derechos humanos. Análisis y reinterpretación de conocimiento de base empírica: observación,
de la ecuación discursiva señera de los derechos descripción, ordenamiento, clasificación,
humanos, el clásico nudo fundamental cuantificación, proyección de modo que sirva
–históricamente siempre repensado– de la relación para el establecimiento de relaciones causa-efecto
violencia-víctima-dignidad. Como se sabe, la (lógica de antecedentes y consecuentes).
relación entre violencia y dignidad vulnerada no La parafernalia técnico-administrativa
es directa, se encuentra mediada por la noción relativa al interés pragmático, propio del saber
de víctima, de ahí su importancia teórica y jurídico, ha resultado ser velo y complemento
metodológica. Así, la problemática generada por de los significados de sacrificio y resignación
el tratamiento crítico55 de esos temas constituye inherentes a la idea de víctima, contenidos
actualmente –como desde su origen– la columna arcaizantes y con resonancias teológicas,
vertebral de los derechos humanos. tales traslapes y reverberaciones son parte
La noción de víctima, en la evolución y en de un proceso de re-victimización o de una
las cristalizaciones diversas de sus significados, sistematización formalista y formalizadora de la
es una noción vaga, cargada de polivalencia victimización.
semántica y de polisemia cultural, donde, sin La crítica reflexiva y la práctica respecto del
embargo, los significados sacrificiales persisten concepto de víctima lleva a un replanteamiento
a lo largo del tiempo y las diferencias culturales, respecto de ideas y prácticas asociadas con ella,
prevalecen y siguen siendo dominantes. Esta tal sería el caso de la crítica hacia el uso de la
noción, de entrada, estimula aproximaciones vulnerabilidad ligada a sus connotaciones como
intuitivas y favorece una batería de prejuicios, debilidad; la noción convencional de víctima
fundamento de muchos de los obstáculos se limita al umbral de la queja victimante,
epistemológicos56 para la producción de un dificultando todavía más la proclama de la
concepto crítico de víctima. protesta, como consecuencia no logra acceder a
El modo de trabajo o procesamiento la conformación de un discurso teórico y práctico
racional sobre el concepto de víctima ha tenido crítico y transformador de la víctima en su
tradicionalmente la deriva dominante del condición yaciente, adolorida y subordinada.58
derecho, de manera que la noción de víctima Amén de todos esos elementos, que
con mayor y mejor carga intelectual resulta ser son intrínsecos, inmanentes, al concepto
predominante y unidimensionalmente juridicial convencional de víctima, hay que considerar
(en la perspectiva legal, ser víctima se reduce los factores extrínsecos, trascendentes, entre los
a ser víctima de un delito). En el plano del que se destacan las referencias a la etnicidad,

42
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

las circunstancias socioeconómicas, la edad y el índole sacrificial y juridicista. No obstante, las


tipo de áreas donde se desenvuelven las víctimas. dificultades epistemológicas no se agotan en ello.
En términos genéricos todos estos elementos ¿Quién define a la víctima? La necesidad de
exógenos remiten al exceso de violencia y su designar a la víctima, de ser mostrada, verificada,
correlativo plus de sufrimiento socialmente creída, en tanto que tal, resulta inherente y
producido e indican una multiplicación de consustancial al carácter de la noción de víctima,
potenciales víctimas en las actuales circunstancias resultado de una interacción de poder (mando-
de las sociedades de riesgo contemporáneas. obediencia o dominante-dominado o victimante-
Estos factores extrínsecos, que configuran victimado); la noción de víctima es relacional.
el entorno o contexto que induce (potencia El primer criterio definitorio de la víctima –y un
o estimula) un exceso de sufrimiento social primer obstáculo a su conocimiento crítico- es el
inasimilable, inducen perentoriamente la de la discriminación política. La calificación de
necesidad de procurar un concepto de víctima quién es víctima se realiza desde el interior de una
complejo amplio, dinámico y funcional para política. Las víctimas de los actos de terrorismo
lidiar mejor (procesar adecuadamente) esa del 11 de septiembre son calificadas, sin asomo
sobrecarga de violencia sobre la sociedad. de duda, como víctimas; en tanto que civiles
Es más fácil hablar de la injusticia que de muertos por la acción de un avión no tripulado
la justicia. La justicia es oscura; la injusticia en Afganistán, resultan ser daños colaterales.
clara. Sabemos mejor qué es la injusticia, pero es Un segundo obstáculo epistemológico,
mucho más difícil hablar de lo que es la justicia. matriz de sucesivos problemas es el hecho de
¿Por qué? Porque hay un testigo de la injusticia la auto-designación de la víctima. La víctima
que es la víctima. La víctima puede decir: aquí se presenta como tal; si la aceptamos en tal
hay una injusticia…Pero no hay testimonio condición, entonces, la noción de víctima deja de
posible de la justicia, nadie puede decir: yo soy el ser una cuestión de conocimiento y se convierte en
justo… Así establece Alain Badiou59 las premisas una cuestión de creencias. Para ganar legitimidad
para ensayar una fundamentación de la ética en (recordar que sólo es legítimo lo que se cree
clave victimal. legítimo –vieja enseñanza del viejo Weber-) la
Estar del lado de las víctimas (Foucault) víctima tiene que probar que es víctima.
es el compromiso moral por excelencia La consecuencia genera una nueva
del movimiento de los derechos humanos dificultad. La víctima que se nos revela lo
(defensores, estudiosos, activistas, agentes hace por vía de mostrar (ofrecer-se) como el
jurídicos, políticos…). Esa toma de postura espectáculo del sufrimiento. Aquí la injusticia
no supera, pero sí resalta, la asimetría entre es un cuerpo sufriente visible; la injusticia
la víctima de la injusticia y la idea de justicia. es el espectáculo de las personas sometidas a
Disonancia entre derecho (procedimental) y suplicios, hambrientas, heridas, torturadas (en la
justicia (valorativo). Derridá sentencia que el gran fuerza del espectáculo hay un sentimiento
derecho por el hecho mismo de ser deconstruible de piedad, que genera un impulso a la acción, a la
posibilita la desconstrucción; en tanto que la solidadridad… aunque –como advertía Adorno-
justicia al no ser de suyo deconstruible resulta ser hay que tener mucho cuidado con la piedad o
–per se- la deconstrucción misma. El revulsivo con la compasión.
crítico (teórico y práctico) permanente. Pero si la víctima es el espectáculo del
sufrimiento, se puede equívocamente concluir
10. OBSTÁCULOS EPISTEMOLÓGICOS que la justicia atañe solamente a la cuestión
PARA UNA NOCIÓN CRÍTICA DE del cuerpo, el cuerpo sufriente, las heridas de la
VÍCTIMA vida que parecen dejar sin aliento a la idea, a lo
enhiesto más allá de la víctima que yace sufriente.
Los problemas para la producción de una La injusticia se revela a partir de una queja. La
definición crítica de víctima, que atienda con injusticia está ligada a la protesta de la víctima.
rigor las exigencias teóricas y prácticas que el Uno de los caminos a explorar para
tiempo presente reclama, requiere, en primera la conformación de un concepto crítico de
instancia, de una deconstrucción de la noción víctima, consiste en la reconfiguración de la
dominante de víctima, caracterizada como de tensión fundamental inherente a las relaciones

43
Alán Arias Marín

de poder, cuyo resultado es una interacción negado la idea de que las víctimas sean también
intersubjetiva en la que uno o unos mandan sujetos de derecho.
y dominan y otro u otros obedecen y son Por último, la tercera forma esfera o forma
dominados. Honneth reconstruye una tipología de menosprecio, es la deshonra o desvalorización
(a partir de la tradición crítica, dialéctica: social. Aquí se menosprecia el modo de vida
Hegel-Marx-Adorno-Habermas-Honneth) de de un individuo singular o de un grupo, esto
tres modalidades de menosprecio, condición es, la degradación del valor social de formas
básica de la victimización de los sujetos. El de autorrealización.62 Los individuos sufren la
menosprecio (su contraposición dialéctica será consecuencia de que no pueden recurrir, a través
la exigencia de reconocimiento) se propone como del fenómeno positivo de la apreciación social, a
un “comportamiento que no sólo representa una su propia autovaloración y, en el mismo sentido,
injusticia porque perjudica a los sujetos en su el individuo se ve inducido y presionado a devaluar
libertad de acción o les causa daño, sino también su forma de vida propia y a sufrir una pérdida de
en la designación de los aspectos constitutivos autoestima. La imagen de víctima resulta aquí
de un comportamiento por el que las personas sintomática, toda vez que esa condición es una
son lesionadas en el entendimiento positivo de sí figura inferiorizada y fuertemente cargada de un
mismas y que deben ganar intersubjetivamente”. sentido propicio a la compasión.
Las formas o figuras del menosprecio son, Cada una de estas formas de menosprecio,
principal y paradigmáticamente: la humillación circunstancias que son vividas como injustas
física; la privación de derechos; y, la desvalorización y/o que provocan sensaciones de desprecio,
social. La primera esfera o forma de menosprecio son las que configuran también exigencias de
lo constituye la humillación física, misma que reconocimiento. La clave de la conexión entre
comprende: el maltrato, la tortura y la violación, daño moral y negación de reconocimiento es la
que pueden considerarse, amén de violaciones a experiencia concreta de la víctima, violaciones
los derechos humanos o delitos, como las formas a la dignidad y ausencia de respeto hacia los
más básicas de victimización del ser humano60. individuos: la humillación y maltrato físico, la
Asimismo, la constituyen formas de ataque a la privación de derechos o la desvalorización social.
integridad física y psíquica. Se trata del intento Del lado de la víctima, lo que la define es que no
de apoderarse del cuerpo de otro individuo contra puede ver garantizada su dignidad o su integridad,
su voluntad, como en la tortura o en la violación. en términos de Honneth, “sin la suposición de
En esta forma de menosprecio, se identifica un cierto grado de autoconfianza, de autonomía
estrechamente su relación con la de víctima. Sin garantizada por la ley y de seguridad sobre el
embargo, se puede ser víctima también a partir de valor de las propias capacidades, de modo que
la privación de derechos y de la explotación social. no le resulta imaginable el alcance de su auto-
La segunda esfera o forma de menosprecio realización”.63
la constituye la desposesión, la privación de
derechos y la exclusión social. Esa forma de 11. LA LUCHA POR EL RECONOCIMIEN-
menosprecio se da cuando el hombre es humillado TO Y EL MOVIMIENTO DE LOS DE-
al no concederle la imputabilidad moral de una
persona jurídica de pleno valor, en la privación RECHOS HUMANOS
de determinadas prerrogativas y libertades Es cierto que se hace y se puede hacer
legítimas.61 Se considera que el individuo no tiene política con los derechos humanos, se les puede
el estatus de un sujeto de interacción moralmente instrumentalizar y utilizar para objetivos ajenos,
igual y plenamente valioso. políticamente correctos o impresentables, al
En la historia del derecho, particularmente, servicio de los de arriba o los de abajo, por el
en el desarrollo del derecho penal, la figura de mantenimiento del statu quo o su modificación,
víctima y su apartamiento del proceso judicial fue igualitarios o para agudizar las desigualdades. No
premisa indispensable para la realización de un obstante, esas instrumentalizaciones políticas,
proceso objetivo, significativo paso civilizatorio no eliminan el sentido político inmanente
que contribuyó a la superación del ojo por ojo; propio de los derechos humanos.
empero, históricamente se ha producido un Ese sustrato, lo intrísecamente político del
efecto indeseado, no sólo se ha distanciado a la proyecto y el discurso de los derechos humanos,
víctima sino que se la ha excluido y con ello ha radica en que lo específico y común de esas

44
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

múltiples prácticas de resistencia, reclamo, de su identidad –por la vía de la conciencia


imposición y emplazamiento de actos, hechos de haber sufrido una injusticia. Es a partir de
o acontecimientos de tensión de la correlación este momento que la víctima, al igual que los
de fuerzas conlleva e implica exigencias de maltratados, excluidos o despreciados, diversos
reconocimiento. Ese carácter consiste en grupos victimizados que han experimentado
emplazar relaciones de poder en términos de formas de negación del reconocimiento, no sólo
reconocimiento, de lucha por el reconocimiento, sufren a partir del menosprecio de su condición,
en otras palabras, instaurar acontecimientos sino que pueden descubrir que el menosprecio
políticos, tal es lo que define lo esencialmente en sí mismo puede generar sentimientos,
político de los derechos humanos.64 emociones y el impulso moral que motivan e
Al resistir (decir: “¡no!, ¡basta!, ¡así no!, ¡no impelen comportamientos y acciones (prácticas)
más!), los individuos y grupos se oponen al abuso para devenir en sujetos activos de luchas por
de poder, pero también reivindican, emplazan, reconocimiento.
estatuyen una exigencia de reconocimiento Situar el concepto de reconocimiento, con
respecto del otro, del que violenta, abusa, explota… su potencial carácter crítico, des-constructivo,
¿Reconocimiento de qué? De la dignidad…, en la construcción de un concepto crítico
responde el discurso de los derechos humanos; de víctima (complejo, abierto, dinámico,
de la alteridad -en pie de igualdad- en virtud de funcional), significa asumir la centralidad del
ser sujetos libres. Los sujetos enhiestos (víctimas conflicto bajo un entendimiento de su función
puestas de pie) reivindican emancipación, positiva (creativa) de integración social, a
libertades -derechos-, regulaciones, garantías (de condición de que se le deje de ver de un modo
cara al Estado); se plantan libremente, con valor, limitado y negativo, como ha sido el caso desde
desafiantes… con dignidad, se dice. la perspectiva teórica dominante. Las luchas de
Dignidad que es discernible, constatable reconocimiento, históricamente, han generado
y afirmable sólo por vía negativa. Ante su la institucionalización de ciertas prácticas
denegación, el abuso y las violencias que la sociales que evidencian el pasaje de un estadio
vulneran; ante la negación de libertades y la moral a otro más avanzado –un aumento de la
desigualación de los iguales, esas promesas sensibilidad moral, señala Honneth.66
incumplidas de la Ilustración moderna65, de las La lucha de los grupos sociales por alcanzar
que se nutre el imaginario conceptual y político formas cada vez más amplias de reconocimiento
del movimiento (comunidad imaginada) de los social se convierte, muta, en una fuerza
derechos humanos. estructurante del desarrollo moral de la sociedad.
Desde esa radicalidad, relativa al carácter Ese ha sido el sentido humanista del movimiento
político intrínseco de los derechos humanos, y la teoría de los derechos humanos; toca a su
es que resulta adecuado suponer que estarían reformulación crítica, insistir en la articulación de
en condiciones de posibilidad de sobreponerse la noción –yaciente- de víctima con un proyecto
al politicismo inherente en la calificación –enhiesto- de resistencia y emancipación.
de las víctimas y la autodesignación de las Así, en dicha perspectiva, la lucha social
mismas y –asimismo- coadyuvar al diseño e no puede explicarse sólo como resultado de una
instrumentación de una política, entendida lucha entre intereses materiales en oposición sino
como disciplina ante las consecuencias del también como consecuencia de los sentimientos
acontecimiento, una política victimológica en morales de injusticia; una gramática moral de los
clave de derechos humanos. conflictos sociales67. La víctima, cuya visibilidad
La noción crítica de víctima, en tanto es posible a través del sufrimiento, se constituye
que elemento apto para coadyuvar a una primordialmente en esa imagen inicial de
fundamentación ética de los derechos humanos, injusticia; no debiera permanecer en la queja sino
asume un papel trascendente en la lucha de levantarse para la proclama (¿son los derechos
sujetos que reivindican aspectos no reconocidos humanos el revulsivo de esa metamorfosis?).

45
Alán Arias Marín

NOTAS

1. Este artículo fue publicado originalmente en la 15. León Olivé, Ética y diversidad cultural, UNAM,
Revista Derechos Humanos México, CNDH, Instituto de Investigaciones Filosóficas, FCE,
Núm. 24, México, 2015, págs. 15-34. 1993.
2. Ver Michael Hardt y Toni Negri, Imperio, 16. Étienne Balibar, Race, Nation, Class: ambiguous
Buenos Aires, Paidós, 2002 y Michael Hardt y identities, Verso, 1991.
Toni Negri Multitud, Guerra y democracia en 17. Costas Douzinas, The End of Human Rights:
la era del Imperio, Barcelona, Debate, 2004. Critical Legal Thought at the Turn of the
3. Boaventura de Sousa Santos, Sociología jurídica Century, Hart Publishing, 2000.
crítica. Para un nuevo sentido común en el 18. Upendra Baxi, The Future of Human Rights,
derecho, Madrid, Trotta, p. 410. Oxford University Press, 2008.
4. Ver Samuel Moyn, The last utopia, Human 19. Neil Stammers, Human Rights and Social
Rights in History, Cambridge, Belknap Press, Movements, Pluto Press, 2009.
2012.
20. Luis Villoro, Los retos de la sociedad por
5. Samuel Moyn, op. cit. p. 120. venir. Ensayos sobre justicia, democracia y
6. Ver las obras de Costas Douzinas, The End of multiculturalismo, FCE, 2007.
Human Rights: Critical Legal Thought at the 21. Alasdair MacIntyrer, Tras la virtud, Crítica,
Turn of the Century, Hart Publishing, 2000; y 2001.
Costas Douzinas, Human Rights and Empire,
the political philosophy of cosmopolitism, 22. Jacques Derrida, On Cosmopolitanism and
Routledge-Cavendish, 2007. Forgiveness, Routledge, 2001.
7. Ver Marie-Benedicte Dembour, Who believes 23. Mutua Makau, Human Rights: A Political and
in Human Rights? Reflections on the European Cultural Critique, University of Pennsylvania
Convention, Cambridge University Press, Press, 2002.
London, 2006; y Marie-Benedicte Dembour, 24. Wendy Brown, “The Most We can Hope For…”:
Jane Cowan, Richard Wilson (eds.), Culture and Human Rights and the Politics of Fatalism,
Rights: Antropological Perspectives, Cambridge The South Atlantic Quarterly 103:2/3, Spring/
University Press, London, 2001. Summer, Duke University Press, 2004.
8. Jack Donnelly, Derechos humanos universales: 25. Shannon Speed, Rights in Rebellion: Indigenous
teoría y práctica, Gernika, 1994. Struggle and Human Rights in Chiapas,
9. Alan Gewirth, The Community of Rights, Stanford University Press, 2008.
University of Chicago Press, 1996. 26. Cesáreo Morales, “¿Qué es el hombre como
10. Mauricio Beuchot, Derechos Humanos. Historia tal?”, Revista Derechos Humanos México,
y filosofía. Biblioteca de Ética, Filosofía del Número 7, CNDH, México, 2008.
Derecho y Política, Distribuciones Fontamara, 27. A la manera clásica de la crítica en el discurso
México, 2008. marxiano. Crítica de la economía política
11. Jürgen Habermas, Facticidad y Validez: sobre el (en tanto que teoría de vanguardia, expresión
derecho y el estado democrático de derecho en de “la clase ascendente”, la burguesía), así
términos de teoría del discurso, Trotta, 1998. como de las aportaciones socio-históricas de
avanzada en la cultura teórica de su tiempo, el
12. Michael Ignatieff, Human Rights as Politics and “socialismo utópico” y la filosofía alemana (sus
Idolatry, Princeton University Press, 2001. versiones “dialécticas”). Ver Karl Korsch, Karl
13. Sally Engle Merry, Human Rights and Gender Marx, Ariel, Madrid, 1981 y Jürgen Habermas,
Violence: Translating International Law into La reconstrucción del materialismo histórico,
Local Justice, University of Chicago Press, Taurus, Madrid, 1976.
2009. 28. Benedict Anderson, Comunidades imaginadas,
14. Fernando Salmerón, Derechos de las minorías y FCE, Buenos Aires, 1993.
tolerancia, UNAM, 1996.

46
Derechos Humanos: ¿Utopía sin Consenso?

29. Esos serían hipotéticamente los contenidos California, Stanford University Press, 1995,
o notas de los derechos humanos entendidos p.10.
experimentalmente en tanto que concepto. 47. Jürgen Habermas, Teoría de la acción
30. Alain Badiou, El ser y el acontecimiento, comunicativa, vol. 1, Taurus, 1987, pp. 76 y
Ediciones Manantial, Buenos Aires, 1999. sigs.
31. Hannah Arendt, Sobre los orígenes del 48. Aquí se asume la lectura de que la noción
totalitarismo, Alianza Editorial, Madrid, 1982. –weberiana– de la legitimidad reducida a
32. Theodor W. Adorno y Max Horkheimer, la legalidad es insuficiente y requiere de
Dialéctica de la Ilustración, Ediciones AKAL, complementación; legitimaciones referidas
2007. a la eficacia de las acciones y a temáticas de
legitimidad sustancial como los conceptos
33. Giacomo Marramao, Pasaje a Occidente, Ed. de justicia, bien común, desarrollo humano,
Katz, Buenos Aires, 2006. etcétera.
34. Ülrich Beck, La sociedad del riesgo mundial: 49. Martha Lamas (comp.), El género. La
en busca de la seguridad perdida, Barcelona, construcción cultural de la diferencia sexual,
Paidós, 2008. México, Programa Universitario de Estudios de
35. Zygmunt Bauman, Tiempos líquidos, Género-UNAM/Miguel Ángel Porrúa, 1996.
Barcelona, Tusquets Editores, 2007. 50. Griselda Gutiérrez, “El concepto de género:
36. Manuel Castells, La era de la información, una perspectiva para pensar la política”, en La
tomo I, México, Siglo XXI Editores, 2002. ventana, núm.5, Universidad de Guadalajara,
México, 1997, p. 59.
37. James Rousenau, Distant Proximities:
Dynamics Beyond Globalization, Princenton, 51. Ibídem, pp. 60 y sigs.
Princenton University Press, 2002. 52. Ibídem, p. 59.
38. Anthony Giddens, Un mundo desbocado, 53. Para un desarrollo más extenso de esta idea ver
México, Taurus, 1999. Alán Arias Marín, “Derechos humanos: entre
39. Samuel Huntington, El Choque de civilizaciones la violencia y la dignidad”, Revista Derechos
y la reconfiguración del orden mundial, España, Humanos-México, CNDH, Núm. 19, México,
Ediciones Paidós, 2005. 2012, pp. 33-34.
40. Immanuel Wallerstein, El moderno sistema 54. Alán Arias Marín, “Derechos humanos: entre
mundial II. El mercantilismo y la consolidación la violencia y la dignidad”, Revista Derechos
de la economía-mundo europea, 1600-1750, Humanos-México, CNDH, Núm. 19, México,
México, Siglo XXI Editores, 1998. 2012.
41. Ülrich Beck y Elisabeth Gernsheim, 55. Ibídem, pp. 16 y sigs.
La individualización: el individualismo 56. Gastón Bachelard, La formación del espíritu
institucionalizado y sus consecuencias sociales científico, Siglo XXI, México, 2000.
y políticas, Barcelona, Paidós, 2003.
57. “…se entenderá por víctima a toda persona que
42. Michel Maffesoli, El tiempo de las tribus, haya sufrido daños individual y colectivamente,
México, Siglo XXI Editores, 2004. incluidas lesiones físicas o mentales, sufrimiento
43. Néstor García Canclini, La globalización emocional, pérdidas económicas o menoscabo
imaginada, Barcelona, Paidós, 1999. sustancial de sus derechos fundamentales,
como consecuencia de acciones u omisiones
44. Karl Marx, Elementos fundamentales para
que constituyan una violación manifiesta de las
la crítica de la economía política, Volumen 1
normas internacionales de derechos humanos
Gründisse, México: Siglo XXI, 20, 1977, pp.
o una violación grave del derecho internacional
179-214.
humanitario”. (Resolución 60/147, ONU, 16
45. Ariadna Estévez y Daniel Vázquez (coords.), de diciembre, 2005).
Los derechos humanos en las ciencias sociales:
58. Algunas de las premisas para la construcción de
una perspectiva multidisciplinaria, FLACSO-
un concepto crítico de víctima son revisadas en
CISAN-UNAM, México, 2010.
Alán Arias Marín, “Aproximación a un concepto
46. Stephen Kline, Conceptual Foundations crítico de víctima en derechos humanos”,
of Multidisciplinary Thinking, Stanford, Revista Derechos Humanos México, Núm.

47
Alán Arias Marín

20, CNDH, México, 2012. Más adelante; ver 2004 y Chantal Mouffe, El retorno de lo político,
Capítulo X, pp. 123-178…p.ej. OJO TODAS las Barcelona, Paidós, 1999.
autocitas… eliminar algunas… 65. Resulta indispensable el estudio del modo de
59. Alain Badiou, op.cit., p. 49. materialización de los procesos de exclusión,
60. Axel Honneth, Reconocimiento y menosprecio. investigados ejemplarmente por Foucault y del
Sobre la fundamentación normativa de una proceso de la desigualación, modélicamente
teoría social, Katz editores, Buenos Aires, 2010, analizado por Marx. Para una presentación
p. 37. sintética de esos procesos en contexto de derechos
humanos, ver Alán Arias, “Globalización y
61. Axel Honneth, Reconocimiento, op. cit., p. 97. debate multicultural. Un nuevo imperativo
62. Ídem. contemporáneo”, Revista Derechos Humanos
México, CNDH, México, núm. 12, México,
63. Axel Honneth, Reconocimiento, op. cit., p. 31
2008.
64. Se haría necesario para el argumento la
66. Axel Honneth, Reconocimiento, op. cit., p. 37.
pertinencia de la distinción entre lo político y
la política; no es aquí el momento (ni hay el 67. Ver Axel Honneth, The Struggle for Recognition.
espacio) para tal desarrollo. En ese sentido ver The Moral Grammar of Social Conflicts,
Claude Lefort, La incertidumbre democrática. Cambridge, The MIT Press, 1995.
Ensayos sobre lo político, Anthropos, España,

48
DIREITO À AFETIVIDADE DIVERGENTE NO CONTEXTO
DA PÓS-MODERNIDADE: O RELATIVISMO COMO
ESTRATÉGIA DE ATUAÇÃO PRESTACIONAL DO ESTADO

Ana Barros
Bacharel em direito pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e Comunicação Social – Jornalismo
pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Especialista em direito processual civil e direito
e processo tributário (Universidade Cândido Mendes – Rio de Janeiro).

RESUMO líquida de Bauman (2004), mas toma emprestado


lições de Bobbio (2004), Rosa e Csucsuly
Este artigo busca identificar uma estratégia (2013), Piovesan (2014), Finnis (2012), Farias e
de ação que permita ao Estado atuar afinado com Rosenvald (2010), Pinto (2000), Soares (2000),
seu papel de promotor dos direitos humanos no Santos (1997), Dias (2007), dentre outros.
contexto das demandas por legitimidade social Na empreitada, não se acanha em recorrer
para novas possibilidades afetivas. O método de a estudiosos de outras vertentes da ciência,
abordagem utilizado foi o dedutivo, com pesquisa como Capra (1982), Becker (2008) e Zohar
a textos de lei e doutrina. Conclui-se que, diante (1990), no entendimento de que a complexidade
das exigências que marcam a pós-modernidade, contemporânea não admite, a qualquer ramo das
é imprescindível que o Direito encontre na ciências humanas, a proposta de compreensão
flexibilidade e no respeito à autodeterminação da realidade sem interação com as demais áreas
um caminho para se manter relevante. do conhecimento.
Ainda, na certeza de que toda delimitação
Palavras chave
pressupõe uma exclusão e seguindo a lógica de
Direitos humanos; afetividade divergente; Lôbo (2002), o presente escrito faz referência
atuação estatal. a modelos afetivos diferenciados, mas não os
lista: cabe à vida real, não ao papel, apontar
ABSTRACT os fenômenos sociais que, apresentando-se
This paper seeks to identify a strategy of espontaneamente, exigirão a atenção protetiva
action that allows the State to perform its role do Direito.
the promoter of Human Rights in the context of
demands for social legitimacy to new affective 2. AUSÊNCIA DE PARADIGMAS EM
possibilities. The method of approach was TEMPOS DE ILIQUIDEZ, QUANDO
deductive, used to research texts of law and NEM O CORRER DO TEMPO É UMA
doctrine. The paper concludes that, towards
the requirements that mark postmodernity, CERTEZA.
it’s imperative that Law finds in flexibility and Se há uma característica marcante
respect for self-determination a way to stay na Modernidade, tomada como momento
relevant. socioideológico, foi o destaque dado à
racionalidade e ao cientificismo. A confiança
Keywords iluminista no progresso ofereceu à Modernidade
Human rights; divergent affectivity; state base simbólica para um ideário de conquista
performance. e colonização fortemente impregnado pela
antropologia setecentista, rejeitando qualquer
1. INTRODUÇÃO divergência ao modelo eurocêntrico, cujo projeto
civilizador, na visão de Bauman:
A presente pesquisa baseou-se
principalmente no conceito de modernidade

49
Ana Barros

Era, na sua essência mais íntima, um esforço fronteiras, através das globalizações, ditas assim
para suprimir toda relatividade, portanto toda porque a globalização não foi um evento único,
pluralidade de modos de vida. O que emergiu foi mas diversos “conjuntos de relações sociais que,
uma noção absoluta de “civilização humana”, por óbvio, dão origem a diferentes fenômenos de
uma noção coerente e unitária que não tolerava globalização” (SANTOS, 1997, p. 14).
oposição e não comportava concessão alguma Quase ao mesmo tempo, o progresso
nem qualquer limitação (BAUMAN, 2010, científico alcançava novos paradigmas, diante dos
p. 132). quais não eram admissíveis certezas absolutas.
Argumenta Bauman que o conceito de A física clássica se viu incapaz de explicar a
civilização da Modernidade era “uma gerência realidade subatômica. A visão newtoniana de um
dirigida pelo conhecimento, acima de tudo tempo contínuo e imutável cedeu às conclusões
voltada para a administração de corpos e mentes da Teoria da Relatividade: mesmo ele, o tempo,
individuais” (BAUMAN, 2010, p. 133). De não é único – existe em multiplicidade, fluindo
Bacon (saber é poder) a Descartes (cogito, ergo de maneira diferente para cada pessoa, a partir de
sum), passando pela mecânica newtoniana e pelo uma relação inquebrantável com o deslocamento
contratualismo de Locke, Hobbes e Rousseau, no espaço (REEN, 2004). O paradigma cartesiano,
vigoravam afirmações incontestáveis, apenas intrinsecamente fragmentário e separatista,
não identificáveis como dogma porque esse perdeu destaque diante da constatação de que os
termo tem sentido intrinsecamente incompatível sistemas físicos existem como padrões de energia
com o conhecimento científico – já que ligado à dinâmica. Nasceu a física quântica, afirmando
crença e à desnecessidade de comprovação, por não existir diferença substancial entre onda e
óbvio excluídas do rol de ideias predominantes partícula, matéria e energia.
na época. Nesse projeto ideológico, alcançar a O paradigma ora em transformação
certeza sobre qualquer assunto era o objetivo dominou nossa cultura durante muitas centenas
primal da ciência, e a validade da premissa era de anos, ao longo dos quais modelou nossa
medida por sua “capacidade de sobrepujar e moderna sociedade ocidental e influenciou
reduzir à insignificância todas as reivindicações significativamente o resto do mundo [...]. Valores
alternativas de verdade” (BAUMAN, 2010, que estiveram associados a várias correntes
p. 136). da cultura ocidental, entre elas a revolução
Talvez seja discutível se os filósofos da científica, o Iluminismo e a Revolução Industrial
Era Moderna alguma vez enunciaram, para [...]. Incluem a crença de que o método científico
a satisfação de todos, os fundamentos da é a única abordagem válida do conhecimento;
superioridade objetiva da racionalidade, da a concepção do universo como um sistema
lógica, da moralidade, da estética, dos preceitos mecânico composto de unidades materiais
culturais, das regras de vida civilizada etc. elementares; a concepção da vida em sociedade
ocidentais. Contudo, o fato é que eles nunca como uma luta competitiva pela existência; e
deixaram de procurar esse enunciado, e quase a crença do progresso material ilimitado, a ser
nunca pararam de acreditar que a busca teria - alcançado através do crescimento econômico
devia ter - sucesso (BAUMAN, 2010, p. 167). e tecnológico. Nas décadas mais recentes,
Apesar da convicção modernista na lógica concluiu-se que todas essas ideias e esses valores
do desenvolvimento lógico e contínuo, este estão seriamente limitados e necessitam de uma
encontrou limite: consolidados os Estados revisão radical (CAPRA, 1982, p.20).
nacionais, não havia mais espaços geográficos Conceitos como holismo, indeterminismo,
a conquistar. Talvez a falta desse elemento auto-organização, incerteza e potencialidades
básico – o horizonte incivilizado – fez com que (ZOHAR, 1990) se tornaram frequentes
a lógica fagocitária do Capitalismo se voltasse na análise de um cotidiano permeado por
contra ela mesma: os processos e estruturas de insegurança econômica, política, social,
dominação, conflito e integração pelo consumo, ambiental e psicológica. Enfraquecimento da
dos quais nasceu a geopolítica estabelecida até proteção estatal, competição intrínseca, fim
o final do Século XX, passaram a exigir mais das perspectivas de longo prazo, catástrofes
espaço de ação. O resultado dessa dinâmica foi naturais, epidemias, desemprego, violência
a expansão do molde produtivo. Este passou urbana e terrorismo, insatisfação administrada
a transitar mundialmente, desconsiderando e canalizada para o consumo – com exclusão

50
Direito à Afetividade Divergente no Contexto da Pós-Modernidade: O Relativismo como Estratégia de Atuação Prestacional do Estado

sistemática dos inaptos para o ritual da para adotar novos costumes afetivos ou inovar,
compra –, ineficácia dos antigos modelos de criando os seus próprios.
autoidentificação nos loci sociais, além da
ascensão do Mercado como poder motor das 3. AMORES LÍQUIDOS E NOVAS
sociedades globais, fazem parte de um cenário CONFIGURAÇÕES AFETIVAS
no qual as forças se sobrepõem e catalisam
mutuamente, sem tempo/espaço para análises Bauman (2004) é profundamente crítico
mais detalhadas e reflexões profundas. a esse comportamento, denominado por ele
como liberdade hedonista da pós-modernidade:
Esses elementos, interconectados e
a busca do prazer autorizando adesão a qualquer
implacáveis, abalaram de morte as certezas
formato afetivo que confira satisfação pessoal e
que sustentavam os ideais da Modernidade,
felicidade a seus componentes. O autor discorda
acelerando a tendência à entropia no sistema
fortemente quanto a este novo comportamento
global. A desorganização atingiu todas as esferas
representar uma conquista de liberdade no
da vida social e afetou a percepção do indivíduo
tocante às relações interpessoais e à manifestação
sobre si mesmo e seu lugar na comunidade:
sexual. Em sua visão, a aparente permissividade
A transformação que estamos vivenciando e fugacidade das relações seriam novas formas
agora poderá muito bem ser mais dramática do de aprisionamento, nos quais a afetividade não
que qualquer das precedentes, porque o ritmo de é marcada pela constância dos laços, mas pela
mudança em nosso tempo é mais célere do que no fragilidade, pela facilidade de desconexão e ênfase
passado, porque as mudanças são mais amplas, na quantidade – diante da inaptidão social para
envolvendo o globo inteiro, e porque várias o cultivo da qualidade nos vínculos emocionais.
transições importantes estão coincidindo [...]. Essa efemeridade não é uma escolha individual,
A crise atual, portanto, não é apenas uma crise na análise de Bauman: apenas uma consequência
de indivíduos, governos ou instituições sociais; é da Contemporaneidade a sujeitar os indivíduos.
uma transição de dimensões planetárias. Como
Bauman (1998) afirma não ser essa
indivíduos, como sociedade, como civilização e
mudança nos padrões de comportamento um
como ecossistema planetário, estamos chegando
fato inédito e enfatiza o caráter utilitarista das
a um momento decisivo (CAPRA, 1982, p.22).
atuais alterações, inserindo-as numa progressão
Antítese da ultrapassada era das verdades sócio-histórica da afetividade: no que ele
absolutas, a Contemporaneidade dá, como única denominou a primeira revolução sexual, o sexo
certeza possível: aceitável foi restrito ao âmbito das famílias, no
Abandonar a própria busca, tendo se objetivo de promover a integração e o controle
convencido de sua futilidade. Em vez disso, [...] social, uma vez que estas eram “as únicas
tenta se conciliar com uma vida sob condições de instituições que conduziam a pressão combinada
incerteza permanente e incurável; uma existência do sistema panóptico até cada simples membro
em presença de uma quantidade ilimitada de da sociedade” (BAUMAN, 1998, p.183). A
formas competidoras de vida, incapaz de provar intenção deliberada de controlar cada aspecto da
que seus termos se baseiam em algo mais sólido vida humana usou “o direito e os meios legais
e vinculante que as suas próprias convenções para interferir em áreas das quais os antigos
historicamente conformadas. (BAUMAN, 2010, poderes, embora opressivos e exploradores,
p. 167) mantinham distância” (BAUMAN, 2004, p. 43).
A partir desse cenário, Bauman denomina Na segunda revolução sexual,
modernidade líquida o estágio atual de correspondente à ascensão do modelo
sociabilidade, que pode ser resumida, grosso contemporâneo de socialização, o sexo tem como
modo, nas palavras-chave individualidade, função ser elemento de “desregulamentação
insegurança, imediatismo e consumo. Essa e privatização do controle, da organização
conjuntura alterou a dinâmica de todas as do espaço e dos problemas de identidade”
interações humanas, inclusive as relações (BAUMAN, 1998, p.183). Assegura o autor que:
afetivas, que, albergadas na transitabilidade Se no curso da primeira revolução sexual,
imbutida no conceito eudemonista de família, o sexo converteu-se num maior material de
não mais se veem obrigadas a encaixar nos construção das estruturas sociais duráveis e
modelos preexistentes e pré-aprovados: cada das extensões capilares do sistema global de
vez mais indivíduos se sentem desimpedidos

51
Ana Barros

construção da ordem, hoje o sexo serve, antes um movimento oposto, mais tradicionalista, já
e acima de tudo, ao processo de atomização em que nenhum reajuste nas interações humanas
andamento. Se a primeira revolução dispunha a acontece sem negociações e sem conflitos. Como
atividade sexual como a medida de conformidade reação ao movimento, dir-se-ia libertário, que
com as normas socialmente promovidas, defende os direitos de autodeterminação afetiva,
a segunda a redispunha como o critério de forças contrárias pugnam por manter a relevância
adequação individual e aptidão corporal – os das instituições consideradas tradicionais e
dois maiores mecanismos de autocontrole na rejeitar o espectro ampliado de modelos possíveis
vida do acumulador e colecionador de sensações de afetividade. Defendendo bandeiras similares,
(BAUMAN, 1998, p.183). iniciativas parlamentares como o PL n. 6.583/13
Bauman denuncia o “desemaranhamento (Estatuto da Família), o PL n. 1.672/11 (criação
do sexo do denso tecido de direitos adquiridos do Dia do Orgulho Heterossexual) e o PL n.
e deveres assumidos” (BAUMAN, 1998, p.184), 7.382/10 (penaliza discriminações contra
ao sentenciar que nada, além do próprio ato heterossexuais) mostram que essa insatisfação
sexual, surge proveitoso de tão fugazes conexões, tem notabilidade suficiente para reverberar junto
estabelecidas unicamente pelas sensações e ao poder instituído.
emoções. Apesar dessa visão inicialmente Um olhar isento de qualquer filtro político,
negativa, Bauman (2004) faz um contraponto, analisando apenas o discurso emitido por tais
o de que a ameaça às redes tradicionais de manifestações de vontade, conclui que subgrupos
parentesco tem um lado positivo: retiradas do da sociedade brasileira estão exercendo a
pedestal, alijadas do status quo, deixando de prerrogativa de pressionar contra mudanças que
ser prioritariamente uma instituição e voltando consideram nefastas. O esforço é por neutralizar
a (ou finalmente alcançando) uma natureza de a representatividade buscada por correntes
laço afetivo interpessoal, as relações familiares que buscam espaço social, político e legislativo
se veem em uma condição de delicadeza que para, dentre outras agendas, o livre exercício da
exige zelo por parte de seus integrantes. afetividade. No centro da polêmica, a indisposição
Na percepção de Bauman, ciosos por para conviver com quem é diferente, o inegável
segurança e afetividade real num mundo em incômodo e a necessidade narcísica de reprimir o
conturbação permanente, as pessoas se voltam que não é espelho apenas por não sê-lo.
para a preciosidade das emoções, buscando o Acerca disso, vale o entendimento de
diálogo e os sentimentos. Assim, “antolhos e Bauman (2010) sobre o fato de que os espaços
protetores de ouvidos caíram em desuso: – as sociais contemporâneos – dantes formatados
famílias olham e ouvem atentamente, cheias para a conexão entre as pessoas –, agora se
de disposição para corrigir suas rotas e prontas projetam como campo de diversidade, no qual
a pagar na mesma moeda o carinho e o amor” as tensões da pós-modernidade impulsionam
(BAUMAN, 2004, p. 23). ferramentas de exclusão que guetizam subgrupos
A perceptível alteração nas estruturas diferenciados, reforçando padrões de domínio
afetivas poderia ser identificada como anomia já existentes. Na mesma linha de raciocínio,
(DURKHEIM, 2000), fruto de uma crise moral Becker denominou outsiders “aqueles que se
causada pelo enfraquecimento da coesão social, desviam das regras do grupo” (2008, p. 17),
e que fortalece nos indivíduos a noção da divisa indivíduos estigmatizados por apresentarem
entre os limites pessoais e os objetivos grupais – comportamentos divergentes das regras sociais
caso não fosse analisada como fenômeno social estabelecidas, formuladas como lei formal ou
que é, profundamente integrado ao momento acordos tácitos de tradição.
sócio-histórico. É possível compreender o desejo As sociedades modernas não constituem
por liberdade afetiva – real ou aparente – como organizações simples em que todos concordam
legítimo, inerente ao contexto no qual está quanto ao que são as regras e como elas devem ser
inserido, e deve ser reconhecido com tal. As novas aplicadas em situações específicas [...]. À medida
necessidades exigem alteração de instituições que as regras de vários grupos se entrechocam
tradicionais e um obrigatório reacomodamento e contradizem, haverá desacordo quanto ao tipo
do tecido social. de comportamento apropriado em qualquer
No entanto, assim como natural é essa busca situação dada (BECKER, 2008, p.25).
por inovação, natural também é a existência de

52
Direito à Afetividade Divergente no Contexto da Pós-Modernidade: O Relativismo como Estratégia de Atuação Prestacional do Estado

Para Becker, as concepções de desvio proposta factível de tratamento, por parte do


comportamental podem ser identificadas a partir Estado, para os conflitos sociais e jurídicos que
do viés estatístico, patológico ou a sociológico. envolvem novas configurações de afetividade?
Mais simples delas é a estatística, definindo
como desviante “tudo que varia excessivamente 4. DIREITOS HUMANOS À AFETIVIDADE
com relação à média” (BECKER, 2008, p.21). E O RELATIVISMO COMO ESTRATÉGIA
Acerca do desvio comportamental, Becker
aponta sua artificialidade como ponto crítico: NORMATIVA EM TEMPOS FLUIDOS
Ele é criado pela sociedade. Não digo isso São considerados como direitos humanos,
no sentido em que é comumente compreendido, segundo o artigo 2º da Declaração Universal dos
de que as causas do desvio estão localizadas na Direitos Humanos (DUDH), aqueles comuns a
situação social do desviante ou em “fatores todos os seres humanos, sem distinção de etnia,
sociais” que incitam sua ação. Quero dizer, isto nacionalidade, orientação sexual, raça, religião,
sim, que grupos sociais criam desvio ao fazer as nível econômico, instrução ou julgamento
regras cuja infração constitui desvio, e ao aplicar moral. Seguindo a mesma linha de raciocínio,
essas regras a pessoas particulares e rotulá-las a Declaração dos Direitos Sexuais (aprovada
como outsiders. Desse ponto de vista, o desvio no XIII Congresso Mundial de Sexologia, Hong
não é uma qualidade do ato que a pessoa comete, Kong, em 1997) destaca, dentre outros, os
mas uma consequência da aplicação por outros, direitos à expressão e à livre associação sexual.
de regras e sanções a um infrator. O desviante Acerca da evolução dos direitos humanos,
é alguém a quem esse rótulo foi aplicado com Bobbio (2004) alega que, a partir da superposição
sucesso; o comportamento desviante é aquele de suas dimensões, o cenário para a efetivação
que a pessoas rotulam como tal. (BECKER, dessas primazias sofreu radical inversão de
2008, p.21) perspectiva, exigindo agora do Estado uma
Segundo Becker, como é do convívio social prestação positiva em favor do cidadão,
que emergem as regras de comportamento, há inafastável da dinâmica de nações nas quais
enorme dificuldade para definir, na prática, o vige o estado democrático de direito. Isso
que é ou não disfuncional para uma sociedade acontece porque a concretização dos direitos
– bem mais do que parece ser na teoria. A humanos não é automática, senão construída
natureza outsider de um comportamento não a partir da interação entre todos os atores
depende dele, o comportamento, mas do juízo sociais – incluso o Estado. No tocante aos
de valor emitido por terceiros. Ademais, mesmo direitos afetivos, especificamente, é preciso criar
para atitudes claramente reprováveis (na ótica condições normativas para que a diversidade
de quem retém a legitimidade para assim julgá- seja exercitada, uma vez que a ideia de igualdade
las), o comportamento despadronizado receberá e dignidade humana, como hoje entendida,
tratamento mais ou menos sancionador de acordo pressupõe a promoção, por parte do Estado, do
com muitas variáveis: quem se sente prejudicado, respeito às diferenças.
a intensidade da percepção desse prejuízo, e até Bobbio (2004) é firme na convicção de que
o capital social do próprio outsider, dado que essa efetivação deve ser garantida através de
“regras tendem a ser aplicadas mais a algumas políticas públicas: validar na lei e nos programas
pessoas que a outras” (BECKER, 2008, p.25). estatais de ação põe os direitos humanos mais a
Diante dessa conjuntura repleta de salvo de violações do que estariam se mantidos
dubiedade, a normatização do comportamento em solenes e bem-intencionadas declarações.
– que se considera hoje função do Estado –, é Piovesan (2014) lhe faz eco ao exigir um papel
tarefa extremamente delicada, e acaba por ativo do Estado, não apenas defensor dos já
se concretizar às forças brutas, pela pressão concretizados, mas propulsor de novos direitos:
social, e não por critérios de equanimidade Não tem apenas por vocação proteger
ou justiça. Nesse contexto, merece estudo o direitos, mas também expandi-los e ampliá-los,
papel do Judiciário diante das alterações de vivificando os direitos fundamentais consagrados
comportamento social, especificamente em na Constituição Federal e não fossilizando-
referência à popularização de novos arranjos os. Para tanto, ressalta-se a relevância da
afetivos, e no contexto da efetividade dos direitos interpretação evolutiva e dinâmica, que leve em
à livre determinação. É possível apontar uma

53
Ana Barros

consideração as transformações sociais, os novos essenciais à pessoa humana, como a dignidade,


fatos e os novos valores (PIOVESAN, 2014, p.9). a solidariedade social, a igualdade substancial e
Apesar de impresso em propostas como as a liberdade” (FARIAS; ROSENVALD, 2010, p.
supracitadas, o direito à afetividade diferenciada 108).
parece ainda ser uma realidade distante, ao Diante da chancela constitucional, cabe ao
menos no âmbito brasileiro, no qual ainda não legislador lançar-se à faina de trazer as novas
é corriqueira a aceitação de arranjos afetivos que relações sociais para o campo da normatividade.
escapam do modelo tradicional e “muitas vezes Para isso, é necessário compreender a sociedade
práticas (anti) democráticas fazem com que os como ela é, e essa compreensão passa por
direitos sexuais esperem na fila de distribuição abandonar a concepção orgânica tradicional,
de liberdades” (ROSA; CSUCSULY, p. 24). que prioriza a sociedade em detrimentos dos
A omissão do Estado sobre a temática indivíduos. A postura ideal seria compreender
dos direitos humanos – seja pela ausência da a sociedade a partir de sua base, ou seja,
elaboração de políticas públicas ou regulação aproximando-se dos indivíduos que a compõem.
para matérias de conteúdo potencialmente (BOBBIO, 2004).
polêmico, seja pela emissão de decisões judiciais Se o ideário modernista dava azo a
cegas às diferenças individuais –, reforça o admitir que “a cultura e a ética refletiriam
desrespeito aos valores propostos pela DUDH padrões universalmente racionais e, portanto,
e pela própria Constituição Federal de 1988. universalmente humanos” (SOARES, 2000, p.
A falta de posicionamento nas questões sobre 264), na Contemporaneidade, em que as certezas
a autodeterminação afetiva abre espaço para a absolutas foram liquefeitas (e liquidadas), tentar
perpetuação do conflito social e perverte a função compreender a sociedade a partir de padrões
estatal de garantir a dignidade das pessoas. imutáveis é postura absolutamente anacrônica
Restam lesados os indivíduos diferentes, – já não é admissível a existência de uma
que deveriam ter a primazia do tratamento moral universal a embasar valores universais
diferenciado quando a igualdade os inferioriza ou (PIOVESAN, 2006). Em pensamento análogo:
descaracteriza (SANTOS, 1997, p. 19). Acerca Somos efeitos de histórias incorporadas,
dessa omissão estatal, Dias: de discursos múltiplos que se completam,
A tendência do legislador é de arvorar-se no se contradizem e que nos formam enquanto
papel de guardião dos bons costumes, buscando identidades, ao mesmo tempo fragmentadas e
a preservação de uma moral conservadora. É o complexas. É neste cenário que se constituíram
grande ditador que prescreve como as pessoas as posições éticas, os sentimentos religiosos de
devem proceder, impondo condutas afinadas com respeito ao próximo, as solidariedades advindas
o moralismo vigente. Limita-se a regulamentar da proteção mútua e as necessidades impostas
os institutos socialmente aceitáveis e, com isso, pelos diferentes momentos das relações de
acaba refugiando-se em preconceitos. Qualquer poder nas comunidades humanas. (PINTO,
agir que se diferencie do parâmetro estabelecido é 2000, p. 33).
tido como inexistente por ausência de referendo Acerca da multiplicidade de discursos e
legal (DIAS, 2007, p.2). interesses, propõe Capra (1982) ser necessário
Diante da fragmentação crescente, não é reexaminar as premissas e principais valores
mais legitimamente possível ao Estado eximir- culturais: rejeitar os que são obsoletos e mantidos
se da obrigação de reconhecer as múltiplas apenas pela tradição; abrir espaço pra novos
possibilidades afetivas praticadas na sociedade, modelos conceituais. Acredita ele que, nessa
quanto mais seus direitos. A problemática que se fase de transição, em que a pós-modernidade
faz presente é entender como o Estado pode agir ainda se estabelece, deve-se reduzir ao máximo a
para suprir “a necessidade de construir cenários discórdia e rupturas desnecessárias, compreender
capazes de conjugar diferenças e propostas a ânsia por mudança e a ânsia por manutenção,
democráticas que garantam os mesmos meios apesar de opostas, como imanentes à condição
a todos de gozarem os direitos” (PINTO, 2000, humana, elementos válidos que contribuem, a
p.13). Segundo Farias e Rosenvald (2010), partir de sua amálgama, para a formação de um
o primeiro passo já foi dado, na medida em novo cenário societal.
que “o constituinte assegurou a todos uma Portanto, é essencial que se vá além
nova tábua axiomática, privilegiando valores dos meros ataques a determinados grupos ou

54
Direito à Afetividade Divergente no Contexto da Pós-Modernidade: O Relativismo como Estratégia de Atuação Prestacional do Estado

instituições sociais, mostrando que suas atitudes procura preservar, na maior intenidade possível,
e comportamento refletem um sistema de valores os valores contrapostos (SILVA, 2005, p. 314).
que sustenta toda a nossa cultura, mas está No entanto, conforme expresso na
ficando agora obsoleto. Será necessário reconhecer Declaração de Princípios Sobre a Tolerância
e comunicar amplamente o fato de que as nossas (aprovada na 28ª. Conferência Geral da Unesco,
mudanças sociais correntes são manifestações de em novembro de 1995), essa transigência não é
uma transformação cultural muito mais ampla e uma benesse do Estado, por ser “antes de tudo,
inevitável (CAPRA, 1982, p.23). uma atitude ativa fundada no reconhecimento
A consciência da existência do dos direitos universais da pessoa humana e das
multiculturalismo é, no dizer de Santos liberdades fundamentais do outro” (UNESCO,
(1997), uma condição prévia à existência 1995). Nesse contexto, o próprio termo tolerância,
de equilíbrio na consecução de uma política segundo Pinto, tem conteúdo demeritório e
estatal contemporânea em direitos humanos. perigoso, porque “a tolerância pensada em
Consequentemente, exige do Estado uma atitude termos políticos pode levar à perigosa ideia do
proativa, inabitual aos meandros do poder mal menor, da abertura limitada à presença do
porque, “numa palavra atenta, o legislador, outro, deixando intacta a fronteira entre quem
fora de períodos sempre breves de crise política tolera e quem é tolerado, onde o segundo não
e social, é naturalmente conservador como modifica o primeiro”. (PINTO, 2000, p. 34).
é naturalmente dogmático” (CRUET, 1956, Manter a mera tolerância, na visão
p.189). A alteração dos hábitos sociais acontece de Pinto, é uma postura condescendente
em complexidade e rapidez muito superior à e contraprodutiva, porque contém ilhadas
capacidade legislativa de acompanhá-las. Por as diferenças, ao invés de impulsioná-las à
isso, tratamento mais versátil e ferramentas interação e ao verdadeiro convívio igualitário e
menos restritoras poderiam ser usadas, de forma solidário. “Pedir aos poderosos do mundo que
que o direito se adeque à sociedade, e não o sejam tolerantes é pedir muito pouco neste fim
contrário. de século. É reconhecer como justas as relações
Um exemplo dessa estratégia, já perceptível de poder que constituem os tolerantes e os
no contexto brasileiro, é a proliferação de tolerados” (PINTO, 2000, p. 37). A receptividade
princípios: menor ênfase na objetividade estrita a novas identidades e a legitimação para suas
das regras (aptas apenas a disciplinar situações práticas sociais e afetivas apontam, no dizer
concretas e preestabelecidas) e valorização das da autora, para um desmonte do status quo e
diretrizes gerais do ordenamento jurídico (com desvalorização de premissas dantes consideradas
aptidão de encontrar soluções para demandas não dominantes. O novo cenário obriga a tratar
previstas através do sopesamento de valores). Se, quem apresenta comportamento diferenciado
por um lado, o destaque dados aos princípios na não como desviante, outsider, anomia a ser
legislação e judicialização das questões afetivas reprimida ou tolerada – e sim como componente
pode oferecer sensação de insegurança jurídica – do totus social, elemento diferenciado em um ou
devido à sua pluralidade semântica–, por outro outro aspecto, mas cidadão merecedor da plena
amplia o espectro protetivo do Direito a maior tutela estatal.
campo de fenômenos humanos. Abandonando de vez a visão antropológica
A ponderação de valores, interesses, setecentista – e desde que não se ingresse no
bens ou normas consiste em uma técnica de terreno da patologia ou da tipificação criminosa,
decisão judicial utilizável nos casos difíceis, análise não afeta ao escopo desse artigo –,
que envolvem a aplicação de princípios (ou, deve o intelectual contemporâneo do Direito
excepcionalmente, de regras) que se encontram levar em conta que, assim como não há níveis
em linha de colisão, apontando soluções diversas progressivos de civilização, não devem existir
e contraditórias para a questão. O raciocínio comportamentos afetivos mais ou menos
ponderativo, que ainda busca parâmetros de aceitáveis, morais superiores ou inferiores,
maior objetividade, inclui a seleção das normas padrões de comportamento execráveis ou
e dos fatos relevantes, com a atribuição de imponíveis. “Essa é uma ruptura profunda,
pesos ao diversos elementos em disuputa, em que atinge a todos e que modifica a cada um,
um mecanismo de concessões recíprocas que não somente aqueles que se constituem como
novos”. (PINTO, 2000, p. 38).

55
Ana Barros

A nova tarefa da ciência jurídica, dado O desafio da pós-modernidade se apresenta


esse contexto, seria “lutar contra absolutismos enorme para o Direito, assim também para
parciais locais com a mesma energia com a qual todos os ramos do conhecimento humanos.
seus predecessores lutaram por um absolutismo Acerca dessa dificuldade, fica o conselho de
“imparcial” universal” (BAUMAN, 2010, p. 179). Santos (1997, p. 30) em prol do enfrentamento
Uma estratégia viável para a atuação do Estado, da delicada questão dos direitos humanos na
no sentido de abraçar as pluralidades e enfatizar pós-modernidade: “Seja como for, o importante
sua função de protetora e impulsionadora da é não reduzir o realismo ao que existe, pois, de
efetividade dos direitos humanos – mormente os outro modo, podemos ficar obrigados a justificar
direitos afetivos, seria a proposta elaborada por o que existe, por mais injusto ou opressivo
Bauman (2010). Ao discorrer sobre a produção que seja”. Cabe aos estudiosos da ciência
intelectual durante e após a Modernidade, o autor jurídica despir-se dos preconceitos, reconhecer
assevera que é momento de fazer decair o modelo a mudança de paradigma e abrir mentes e
do intelectual Legislador, que encerra em tábula corações para a nova realidade social, que se
rasa o que é certo e errado, não levando em conta metamorfoseia continuamente mesmo diante
as diferenças inerentes. Entende Bauman que de olhos indispostos a enxergar.
deve entrar em ação um intelectual Intérprete,
que não mais arroga para si o privilégio de 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
sentenciar a verdade - na consciência de que ela
Percebe-se que a Contemporaneidade
não é única, de que a pluralidade de sentidos da
oferece desafios para todas as áreas da ciência,
Contemporaneidade exige renúncia à elitização
obrigada à velocidade, à interconexão e ao
de padrões.
pluralismo. Para o Direito, essa tarefa é ainda
Ainda no que se concerne à tarefa do Direito mais espinhosa: como sua função é normatizar
como instituição mediadora entre os atores a atuação humana em sociedade, obedecer
sociais, prevê Bauman que a melhor postura a critérios friamente lógicos, contendo em
seria tentar antecipar “um inventário de cenários padrões estanques as subjetividades, juízos de
possíveis e de suas probabilidades” (2010, p. valor, necessidades e desejos humanos, sempre
175). Essa inexatidão, ao invés de problema, seria deu margem a imprecisões e injustiças, pela
a solução para tempos de pluralismo, e até um impossibilidade de abarcar completamente as
dever moral dos intelectuais. Em sua opinião, pulsões individuais no contexto da pacificação
abandonar as certezas não tornaria o Estado social.
mais fraco, apenas mais adaptado e eficiente na
Como todas as instituições humanas, deve
tarefa de reproduzir e impor seu poder (2010).
o Direito evoluir, adaptar-se à sociedade – porque
A ideia de Bauman está afinizada com exigir o contrário é engodo autorreferencial.
o que Finnis (2012) nomeou “Novo Direito Para se manter-se relevante no contexto atual,
Natural”. Nele, a busca mais ética seria buscar especificamente no que se refere a efetivar os
um vocabulário em comum para as diferentes direitos humanos à livre manifestação do afeto,
vivências, de modo a determinar a intersecção uma proposta de atuação seria abdicar à postura
entre os valores morais e os bens jurídicos impositora de verdades absolutas em prol de
opostos: embora existam problemas para os um tratamento mais receptivo às diferenças,
quais não se pode alcançar uma única solução, sensível à constatação de que encaixotar as
há sempre a possibilidade do diálogo entre as idiossincrasias humanas em regras excludentes
posições conflitantes na busca por um repertório e inexpugnáveis é empreitada tendente ao óbvio
em comum. fracasso.

56
Direito à Afetividade Divergente no Contexto da Pós-Modernidade: O Relativismo como Estratégia de Atuação Prestacional do Estado

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57
Ana Barros

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ZOHAR, Danah. O ser quântico: uma visão
revolucionária da natureza humana e da

58
ATOS DE GENOCÍDIO E CRIMES CONTRA
A HUMANIDADE: REFLEXÕES SOBRE A
COMPLEMENTARIDADE DA RESPONSABILIDADE
INTERNACIONAL DO INDIVÍDUO E DO ESTADO(*)

Antônio Augusto Cançado Trindade


Juiz da Corte Internacional de Justiça (Haia); ex-Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos;
Professor Emérito de Direito Internacional da Universidade de Brasília; Doutor Honoris Causa de diversas
Universidades na América Latina e na Europa; Membro Titular do Curatorium da Academia
de Direito Internacional da Haia, e do Institut de Droit International.

RESUMO personality and capacity, as well as international


responsibility. This latter, expanded in a
A atual era dos tribunais internacionais consolidated way, covers the responsibility
dá testemunho da expansão da personalidade of States, international organizations and
e capacidade jurídicas internacionais, assim individuals, as subjects of international law. The
como da responsabilidade internacional. Esta international adjudication of cases concerning
última, expandida de forma consolidada, cobre a genocide and crimes against humanity has
responsabilidade dos Estados, das organizações shown that the responsibilities of individuals
internacionais e dos indivíduos, como sujeitos and of the State are complementary to each
do direito internacional. A adjudicação other, one cannot be dissociated from the other,
internacional de casos atinentes ao genocídio e they are interrelated. The approximations and
crimes contra a humanidade tem demonstrado convergences between the International Law
que as responsabilidades dos indivíduos e do of Human Rights, International Humanitarian
Estado são complementares uma à outra, uma Law, International Refugee Law, also encompass
não pode ser dissociada da outra, encontram- today International Criminal Law.
se inter-relacionadas. As aproximações e
convergências entre o Direito Internacional Keywords
dos Direitos Humanos, o Direito Internacional
Humanitário, o Direito Internacional dos International tribunals; international
Refugiados, também abarcam hoje o Direito personality, capacity and responsibility; subjects
Penal Internacional. of international law; genocide; crimes against
humanity; International Law of Human Rights;
Palavras chave International Humanitarian Law; International
Refugee Law; International Criminal Law.
Tribunais internacionais; personalidade,
capacidade e responsabilidade internacionais; I. EXPANSÃO DA RESPONSABILIDADE
sujeitos do direito internacional; genocídio;
crimes contra a humanidade; Direito INTERNACIONAL
Internacional dos Direitos Humanos; A evolução do direito internacional
Direito Internacional Humanitário; Direito contemporâneo nas últimas décadas vem dando
Internacional dos Refugiados; Direito Penal mostras da expansão da personalidade jurídica
Internacional. internacional (abarcando os Estados, povos,
indivíduos e a humanidade como um todo), - à
ABSTRACT qual se junta a capacidade jurídica internacional,
The current era of international tribunals - assim como da responsabilidade internacional.
bears witness of the expansion of international No entanto, esta evolução histórica continua
em curso, buscando superar obstáculos ou

59
Antônio Augusto Cançado Trindade

vazios dogmáticos do passado. Com a expansão Convenção de 1948 está em conformidade com
já consolidada da responsabilidade jurídica os travaux préparatoires daquela Convenção,
internacional, nos últimos anos tem se advertido com o seu rationale, e com seu objeto e fim,
para dificuldades encontradas particularmente recaindo a proibição do genocídio no domínio
na expansão da responsabilidade internacional. do jus cogens (pars. 85-92). Os estudos sobre
A adjudicação das violações dos direitos o genocídio e o conhecimento acumulado nas
inerentes à pessoa humana tem consolidado as últimas décadas sobre a matéria têm revelado
obrigações dos Estados (no Direito Internacional que “o genocídio tem sido cometido na história
dos Direitos Humanos) de respeitar e fazer moderna na execução de políticas estatais” (pas.
respeitar tais direitos, com suas consequências 93). E acrescentei:
jurídicas (dever de prover reparações, em todas
Tentar tornar a aplicação da Convenção
suas formas, às vítimas)1.
contra o Genocídio aos Estados uma
As obrigações dos indivíduos passam tarefa impossível, deixaria a Convenção
a ser reconhecidas (e.g., no Direito Penal sem sentido, uma quase letra morta;
Internacional), mas as consequências do criaria ademais uma situação em que
descumprimento das obrigações internacionais determinados atos criminais odiosos
por parte dos distintos sujeitos do direito estatais, equivalendo a genocídio,
internacional vêm sendo tratados na doutrina ficariam impunes, – sobretudo por não
haver atualmente nenhuma Convenção
jurídica de modo insuficiente, e as respostas
internacional sobre Crimes contra a
judiciais têm sido insatisfatórias, e nem sempre Humanidade. O genocídio é efetivamente
adequadas2. Efetivamente, a determinação da um crime hediondo cometido sob a direção,
responsabilidade penal internacional do indivíduo ou cumplicidade complacente, do Estado e
e da responsabilidade internacional do Estado seu aparato4. A contrário do que presumiu
não se autoexcluem, mas se complementam, e de o Tribunal de Nuremberg em seu célebre
modo ainda mais cogente quando os indivíduos Julgamento (parte 22, p. 447), os Estados
perpetradores das atrocidades (atos de genocídio, não são “entidades abstratas”; tem estado
crimes contra a humanidade, violações graves concretamente engajados, juntamente com
perpetradores individuais (seus assim-
dos direitos humanos e do Direito Internacional
chamados “recursos humanos”, agindo
Humanitário) atuam como agentes do Estado
em seu nome), em atos de genocídio, em
ou executam políticas estatais criminais. Nestas momentos históricos e lugares distintos.
circunstancias, os Estados em questão são tão
responsáveis como os indivíduos perpetradores. Tanto os indivíduos como os Estados
têm, conjuntamente, sido responsáveis
Com esta ótica e neste propósito, pode-
por tais atos hediondos. Neste contexto,
se proceder a uma releitura da jurisprudência a responsabilidade do indivíduo e do
dos tribunais penais internacionais (ad hoc e Estado são complementares. Em suma, a
“mistos” ou “híbridos”3) contemporâneos. Há determinação da responsabilidade do Estado
nela elementos que nos permitem buscar e não pode de modo algum ser descartada na
identificar aproximações e convergências entre interpretação e aplicação da Convenção
o Direito Internacional dos Direitos Humanos contra o Genocídio. Ao adjudicar um caso
e o Direito Penal Internacional, levando à como o presente, relativo à Aplicação da
constatação da coexistência e complementaridade Convenção contra o Genocídio (Croácia
versus Sérvia), a CIJ deveria ter em mente
das mencionadas responsabilidades do Estado
a importância da Convenção como um
e do indivíduo, reveladoras da expansão da
relevante tratado de direitos humanos, com
responsabilidade internacional em nossos todas as suas implicações e consequências
tempos. Tais elementos se encontram, e.g., nas jurídicas. Deveria ter em mente a
relações entre os indivíduos integrantes da linha significação histórica da Convenção para a
de comando e a execução de políticas criminais humanidade (pars. 94-95).
do(s) Estado(s).
É altamente preocupante constatar que
Com efeito, em meu Voto Dissidente na
genocídios têm sido cometidos em todas as
recente Sentença da CIJ (de 03.02.2015) no caso
eras da história da humanidade. Como poderei
da Aplicação da Convenção contra o Genocídio,
em meu referido Voto Dissidente, dos tempos
ponderei que a determinação da responsabilidade
da Ilíada de Homero, das tragédias de Ésquilo
do Estado (a par da do indivíduo) sob a
e Sófocles e Eurípides, até os nossos dias, é

60
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado
impressionante constatar a extrema crueldade aos associados nas hostilidades militares - e nos
com que os seres humanos têm tratado seus crimes cometidos - no Kossovo em 1998-19999.
semelhantes, inflingindo-lhes o mal (pars. Até o presente (abril de 2015), o TPII
14-18, 265 e 487-489). Genocídios têm sido já condenou cinco indivíduos pelo crime de
cometidos em distintos continentes, desde a genocídio: R. Krstic, V. Popovic, L. Beara, D.
antiguidade até o presente. Nikolic e Z. Tolimir. Suas condenações10 se
Alguns exemplos da constatação e referem às execuções em massa de homens
reconhecimento judicial de sua ocorrência na e jovens bósnios muçulmanos (em idade de
atualidade podem aqui ser evocados, sem o combate), em Srebrenika, em julho de 1995.
propósito de ser exaustivo, mas tão só ilustrativo. Na condenação de R. Krstic, o TPII entendeu
A existência dos tribunais internacionais que sua atuação, como vice-comandante do
contemporâneos, torna mais factível esta Drina Corps do exército bósnio-sérvio (VRS), era
constatação, em distintos continentes, com imputável à Sérvia, por ser o VRS um órgão de
atenção voltada às já mencionadas coexistência facto da Sérvia (República Federal da Iugoslávia).
e complementaridade da responsabilidade Sua condenação (de 19.04.2004, Sala de
internacional do indivíduo e do Estado. Recursos) teve, assim, incidência na própria
responsabilidade do Estado. O TPII também
II. RESPONSABILIDADES DO INDIVÍDUO deu por estabelecida a existência de um plano,
E DO ESTADO: CONSTRUÇÃO da “liderança política e/ou militar do VRS”,
para “remover permanentemente a população
JURISPRUDENCIAL bósnia muçulmana de Srebrenika, uma vez
tomado o enclave”11. A execução em massa dos
1. Ocorrências no Continente Europeu bósnios muçulmanos em Srebrenika também foi
Assim, no tocante à devastação das guerras perpetrada consoante um “plano”12.
nos Bálcãs durante a década de noventa, já no Do mesmo modo, no caso V. Popovic, o
caso D. Tadic (Sentença de 15.07.1999, Sala TPII deu por estabelecido (1ª Sala, Sentença de
de Recursos), o Tribunal Penal Internacional 10.06.2010) que havia um plano “da liderança
ad hoc para a Ex-Iugoslávia (TPII) houve por política e militar bósnia-sérvia” de eliminar
bem estender seu exame do caso também à os homens e jovens (em idade de combate)
estrutura de poder e comando do exército sérvio de Srebrenika e Zepa, e de remover pela força
e das forças armadas da República Srpska (VJ/ a população muçulmana13, o TPII também
JNA e VRS), sob as ordens de Belgrado5. No determinou que os ataques subsequentes contra
caso M. Milutinovic, N. Sainovic, D. Ojdanic, a população civil em Srebrenika e Zepa foram
N. Pavkovic, V. Lazarevic e S. Lukic6 (Sentença perpetrados consoante a diretiva 7 (de março de
de 26.02.2009, 1ª. Sala), o TPII cotejou as 1995) do “Comando Supremo” (de R. Karadzic)14.
responsabilidades dos indivíduos na linha de Tais decisões vêm de ser mantidas pela Sala de
comando com as do Presidente S. Milosevic Recursos do TPII (Sentença de 30.01.2015), que
como “Comandante Supremo” do exército sérvio vem de condenar V. Popovic por genocídio.
(consoante as decisões do Conselho Supremo de Também no caso Z. Tolimir, o TPII (1ª.
Defesa – SDC), e com o papel e os poderes do Sala, Sentença de 12.12.2012) estatuiu que
SDC propriamente dito7. o massacre genocida de Srebrenika de 1995
No caso M. Martic (Sentença de seguiu um plano, que também previa a remoção
12.06.2007, 1ª. Sala), o TPII examinou, inter forçada da população por “órgãos militares e do
alia, a cooperação da liderança (incluindo M. Estado” da passagem de veículos de assistência
Martic) da República Srpska com a Sérvia, e humanitária15. Outros elementos se encontram
o apoio financeiro e logístico e militar desta na jurisprudência do TPII, em minha percepção
recebido8, e o “objetivo político” da liderança também vinculando a responsabilidade
sérvia sob a Presidência de R. Milosevic (pars. individual à do Estado, em condenações outras
329-338). E, no recente caso N. Sainovic, N. que por genocídio.
Pavkovic, V. Lazarevic e S. Lukic (Sentença de Assim, por exemplo, no caso M. Martic,
23.01.2014, Sala de Recursos) o TPII tomou - que organizava a “cooperação” (que existia
em conta as ordens do Presidente S. Milosevic desde o início de 1991) entre os bósnios-sérvios
e a Sérvia, - o TPII (1ª. Sala, Sentença de

61
Antônio Augusto Cançado Trindade

12.06.2007) determinou a estreita cooperação e a assistência militar prestada pelo exército


existente entre as lideranças da República Srpska sérvio (JNA) aos bósnios-sérvios, e os vínculos
na Bósnia-Herzegóvina e da Sérvia, com vistas estreitos entre eles (pars. 258-274 e 276, e cf.
a unir as áreas sérvias na Croácia e na Bósnia par. 282). Entendeu que os sucessivos crimes por
à Sérvia; determinou, ademais, o propósito eles cometidos os levariam a cometer também
criminal comum de S. Milosevic, R. Karadzic e genocídio de parte dos bósnios muçulmanos
R. Mladic de unificar tais territórios por meios como um grupo (par. 292). S. Milosevic tinha
criminosos16. Tais decisões foram mantidas conhecimento de tudo, e nada fez para impedir
pela Sala de Recursos do TPII (Sentença de ou evitar a ocorrência de genocídio em distintas
08.10.2008). localidades18, e punir seus perpetradores (par.
Pode-se ainda recordar, no tocante ao caso 309). Tais ocorrências demonstram, em minha
M. Mrksic, M. Radic e V. Sljivancanin (2007), percepção, de que não há aqui como dissociar a
- também conhecido como caso do Hospital responsabilidade individual da responsabilidade
de Vukovar, – que tanto M. Mrksic como V. do Estado.
Sljivancanin eram oficiais (responsáveis por Quase uma década antes, já em sua Decisão
crimes de guerra) do exército JNA, órgão de jure de 11.07.1996, o TPII (1ª Sala) determinou,
da República Socialista Federal da Iugoslávia, no caso R. Karadzic e R. Mladic, que os crimes
predecessora da República Federal da Iugoslávia contra membros de determinados segmentos da
e da Sérvia. A JNA engajou-se no ataque feroz população civil seguiam o mesmo padrão, eram
a Vukovar, e permitiu que paramilitares “planificados e organizados a nível estatal”,
(associados) torturassem e assassinassem tendo como “objetivo comum”, pela “limpeza
prisioneiros croatas detidos em Ovcara, em étnica”, de um novo Estado “etnicamente puro”
situação de extrema vulnerabilidade. Enfim, (par. 90). Tais atos constituíam crimes contra
os casos M. Milutinovic et allii (Sentença de a humanidade, cometido em escala ampla e de
26.02.2009) e N. Sainovic et alii (Sentença de modo sistemático (par. 91). Posteriormente as
23.01.2014) se referiam a um padrão vasto e acusações contra R. Karadzic e R. Mladic foram
sistemático de crimes cometidos em Kossovo (em ampliadas, de modo a abarcar atos de genocídio
1998-1999) contra civis kosovares-albaneses, (cf. supra). As responsabilidades dos indivíduos
sob instruções do Presidente S. Milosevic em e do Estado afiguram-se aqui inter-relacionadas.
Belgrado. Aqui, uma vez mais, seria inviável
tentar dissociar a responsabilidade penal 2. Ocorrências no Continente Africa-
individual da correspondente responsabilidade no
do Estado. Passando do continente europeu ao
No caso inacabado de S. Milosevic17, ex- continente africano, é de conhecimento geral que
Presidente da Sérvia, o TPII (1ª. Sala, Decisão coube ao Tribunal Penal Internacional ad hoc
de 16.06.2004) viu-se diante de acusações (em para Ruanda (TPIR) a primeira determinação
três seções) relativas a ocorrências na Croácia, judicial (1ª. Sala, Julgamento de 02.09.1998) a
Bósnia-Herzegóvina e Kossovo. O TPII, em sua qualificar as ocorrências em Ruanda em 1994
Decisão de 2004, concentrou-se sobretudo nas como genocídio contra os Tutsis, no caso de
acusações atinentes aos crimes perpetrados na J.-P. Akayesu, ex-prefeito da comuna de Taba.
Bósnia, e determinou a existência da intenção O extermínio dos Tutsis, como hoje se sabe,
genocida por parte da liderança bósnia-sérvia ocorreu por toda parte em Ruanda, inclusive
(R. Karadzic – par. 240). O Presidente sérvio S. em igrejas, hospitais e escolas, causando cerca
Milosevic era “o arquiteto da política de criar de 800 mil a um milhão de vítimas19. Tanto o
uma Grande-Sérvia”, e “pouco ocorria sem genocídio como crimes contra a humanidade
o seu conhecimento e envolvimento”, e sua foram perpetrados pelos hutus contra os
manipulação dos meios de comunicação sérvios tutsis, em ampla escala, e de modo continuado
para impor uma propaganda nacionalista (paras. e sistemático, inclusive “em zonas sob o
249 e 255, e cf. pars. 235-237). controle de forças governamentais”; entre os
Quanto à relação entre o Presidente S. perpetradores, estavam inclusive “membros da
Milosevic e as autoridades político-militares guarda presidencial”20.
bósnias-sérvias, o TPII assinalou a autoridade Houve abundância de provas no sentido de
e influência de S. Milosevic sobre R. Karadzic, que o genocídio e crimes contra a humanidade

62
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado
vitimando o grupo tutsi (em razão de sua Ruanda”, ficou claro que se podia - concluiu o
origem) foram perpetrados pelos hutus “de TPIR - inferir a intenção genocida, o cometimento
forma concertada, planificada, sistemática e do genocídio contra o grupo tutsi em Ruanda
metódica”21; as vítimas, em sua grande maioria, em 1994 (pars. 728 e 730). Agregou o TPIR (1ª.
eram não-combatentes, incluindo mulheres e Sala, Sentença de 02.09.1998) que os estupros e
crianças22. Foi o que determinou, uma vez criado, violência sexual que vitimaram as mulheres tutsi
o próprio TPIR, que reconheceu a necessidade constituíram genocídio (par. 731), e destacou o
de situar as ocorrências no contexto da própria extremo sofrimento por eles causado: observou o
história de Ruanda23. O envolvimento direto das TPIR que era este “um dos piores meios de causar
autoridades administrativas locais no genocídio dano” nas vítimas. E acrescentou o TPIR que os
em Ruanda foi demonstrado pelo TPIR no estupros e violência sexual eram cometidos tão
célebre caso J.-P. Akayesu, a cuja Sentença passo só contra as mulheres tutsi, tendo sido muitas
a seguir a dedicar atenção. delas sujeitadas às piores humilhações públicas,
Com efeito, na referida Sentença de mutiladas, e estupradas várias vezes, não raro
02.09.1998 no caso J.-P. Akayesu, o TPIR (1ª. em público (...) e por mais de um agressor.
Sala) demonstrou que o genocídio dos tutsis foi Tais estupros resultaram na destruição física e
organizado e planejado pelas próprias autoridades psicológica das mulheres tutsi, de suas famílias
públicas, pelos membros da RAF (facção em e suas comunidades. A violência sexual era parte
conflito com a RPF) e pelas forças políticas que integrante do processo de destruição, alvejando
sustentavam o poder dos hutus. Os prefeitos das especificamente as mulheres tutsi e contribuindo
comunas (como J.-P. Akayesu) tinham grande em particular a sua destruição e à destruição do
poder local, que normalmente obedeciam suas grupo tutsi como um todo (par. 731).
ordens (pars. 74 e 77), ainda que excedessem Pode-se aqui constatar, com clareza, o
seus poderes (como, e.g., a de mandar prender engajamento da responsabilidade penal do
rivais ou oponentes políticos - par. 76). O indivíduo (J.-P. Akayesu), assim como da
TPIR encontrou explicação para as ocorrências responsabilidade do Estado, pelas ocorrências
de 1994 - os massacres dos tutsis - na própria que conformaram o genocídio em Ruanda
história de Ruanda (pars. 78-129). O genocídio, em 1994. A condenação de J.-P. Akayesu por
- afirmou o TPIR, - foi cometido em Ruanda genocídio foi em seguida confirmada pelo TPIR
em 1994 contra os tutsis como um grupo (em (Sala de Recursos, Sentença de 01.06.2001 - par.
razão de sua origem e não por estarem engajados 143). A este caso somam-se outros, igualmente
no conflito24); “meticulosamente organizado”, revelando, em minha percepção, a coexistência
teve os próprios “massacres centralmente e complementaridade da responsabilidade penal
organizados e supervisionados”, e foi instigado internacional individual e a responsabilidade
pelos meios de comunicação (para. 126). internacional do Estado.
Os Tutsis, em sua maioria, - agregou o TPIR, Em outro caso, o de Jean Kambanda, o
eram não-combatentes, inclusive “milhares TPIR (Sentença de 04.09.1998) viu-se di ante
de mulheres e crianças” indefesas (par. 128). das confissões do próprio ex-Primeiro Ministro
Houve “atrocidades irrefutáveis” cometidas em de Rwanda (J. Kambanda) de sucessivos crimes
Ruanda, e particularmente na comuna de Taba cometidos, inclusive de genocídio, durante os
(par. 129). O prefeito de Taba, J.-P. Akayesu, ataques vastos e sistemáticos contra a população
não só tinham conhecimento destas atrocidades, civil tutsi, vitimando inclusive mulheres e
como as testemunhou e até mesmo incitou crianças, que buscavam refúgio em lugares como
publicamente e ordenou as vastas matanças as prefeituras, igrejas, escolas e estádios (pars. 39
(com o uso de machetes lá ocorridas), inclusive e 39(i)). Esta política de extermínio era controlada
de refugiados e professores, massacrados por pelo governo, e o próprio Primeiro Ministro J.
serem tutsis (pars. 313-314, 641-642, 361, Kambanda confessou ter exercido sua autoridade
707, 709, 716, 718 e 729). A Interahamwe de jure e de facto sobre os funcionários públicos
assassinou numerosos anciãos, mulheres e e militares perpetradores dos crimes (par. 39(ii)).
crianças (par. 355); numerosas mulheres Tutsis Participou J. Kambanda de reuniões com
foram sistematicamente estupradas (par. 706). prefeitos de planejamento dos massacres, e
De todas estas ocorrências, “não só na demitiu o prefeito de Butare por ter se oposto
comuna de Taba”, mas generalizada “em toda aos mesmos, designando um novo prefeito para

63
Antônio Augusto Cançado Trindade

assegurar os massacres também na comuna de Sala, Sentença de 03.12.2003, par. 951), que
Butare (par. 39(iii)). O Primeiro-Ministro emitiu ademais afirmou que as emissões conclamavam
em que apoiou e encorajou os Interahamwe ao extermínio do “grupo étnico tutsi”, tido como
na perpetração dos assassinatos em massa “inimigo” (par. 949).
dos segmentos populacionais tutsi, e assumiu Formou-se uma “ideologia política” de
responsabilidade por suas ações (par. 39(v)). ódio (par. 951), incitando ao uso de machetes
Estimulou as alas jovens treinadas pela RAF para exterminar os tutsis (par. 950). Um
(Forças Armadas de Ruanda) a participar nos dos três condenados, J.-B. Barayagwiza, era
massacres, e determinou a distribuição de armas inclusive Diretor de Assuntos Políticos do
e munições (par. 39(iv) e (xi)). Ministério das Relações Exteriores de Ruanda
O Primeiro Ministro J. Kambanda (par. 6) e líder do partido político CDR no poder
confessou ademais ter feito uso dos meios de (par. 976), e participou - agregou o TPIR - na
comunicação para incitar a população a cometer própria organização do extermínio dos tutsis
os massacres dos tutsis, tendo apoiado, neste (par. 1067). Posteriormente, o TPIR (Sala de
propósito, a Radio-Télévision Libre des Mille Recursos, Sentença de 28.11.2007) confirmou
Collines (RTLM) para que continuasse a instigar sua condenação, por ter planificado, incitado
as atrocidades, e declarado que considerava a e dirigido os atos de violência dos militantes
RTLM “uma arma indispensável na luta contra do partido CDR e dos Impuzamugambi
o inimigo” (par. 39(vii)). Visitou as prefeituras no extermínio dos tutsis, inclusive com o
de várias comunas (e.g., as de Butare, Gitarama, fornecimento de armas (pars. 882-883, 886 e
Gikongoro, Gisenyi e Kibuye), encorajando 959-960).
os prefeitos e a população a cometer mais Além da jurisprudência do TIPR acima
massacres (par. 39(viii)). Fez o mesmo em assinalada, um estudo recente da matéria
discursos em reuniões públicas em várias partes também detecta a participação de agentes
de Ruanda (par. 39(x)). Confessou ademais ter do Estado, e de milícias sob seu controle, no
testemunhado pessoalmente os massacres dos genocídio em Ruanda, na execução da “política
tutsis (par. 39(xii)). governamental genocida” de exterminar
Ao tomar nota das confissões do ex- os tutsis25. O próprio TPIR constatou a
Primeiro Ministro J. Kambanda, o TPIR (1ª. Sala, participação de oficiais públicos no extermínio,
Sentença de 04.09.1998) aceitou-as, e deu por e.g., também nos casos Kayishema e Ruzindana
estabelecido que ele cometeu genocídio e crimes (Sentença de 21.05.1999) e Musema (Sentença
contra a humanidade (par. 40(1)-(5)). Dois anos de 27.01.2000), sobre as ocorrências na comuna
depois, na Sentença 10.10.2000, o TPIR (Sala de Bisesero e Kibuye26. Aqui, novamente, se
de Recursos) confirmou a determinação da 1ª. configuram conjuntamente, a meu ver, tanto
Sala, da perpetração de genocídio e crimes contra a responsabilidade penal individual como a
a humanidade no caso de Jean Kambanda. No responsabilidade do Estado.
cas d´espèce, resulta claríssima, em minha A par das referidas decisões do TPIR,
percepção, a interrelação entre a responsabilidade também relatos de sobreviventes e testemunhas
penal internacional do ex-Primeiro Ministro de das trágicas ocorrências em Ruanda em
Ruanda e a responsabilidade internacional do 1994 deram conta de que o genocídio foi
Estado. detalhadamente preparado por muito tempo,
No caso conhecido como dos Meios de envolvendo os governantes e suas milícias27.
Comunicação (caso de F. Nahimana, J.-B. Houve incitação, a exemplo das emissões da
Barayagwiza e H. Ngeze), o TPIR condenou os Radio-Télévision Libre des Mille Collines,
três indiciados por genocídio, pelo papel que instigando à violência extrema28. Os numerosos
exerceram no controle dos meios de comunicação massacres contra os Tutsis deixaram um quadro
em Ruanda (RTLM e Kangura), nas emissões da mais completa devastação, com milhares de
de incitamento ao ódio étnico e extermínio cadáveres empilhados nas ruas das comunas ou
dos segmentos tutsis da população. Segundo o boiando nos rios e lagos29.
TPIR, o governo de Ruanda não impediu que os Outro tribunal penal internacional a dar
meios de comunicação - em particular a RTLM sua contribuição à matéria em apreço tem sido
- transmitissem mensagens incitando aos atos a Corte Especial de Serra Leoa (CESL - tribunal
de genocídio. Foi o que determinou o TPIR (1ª. “internacionalizado” ou “híbrido” ou “misto”),

64
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado
no caso Charles Taylor (2013), primeiro ex-Chefe o sofrimento infligido à população de Serra Leoa
de Estado (desde o Tribunal de Nuremberg) a (par. 679), e, além de causarem tanto dano às
ser julgado e condenado por crimes de guerra e vítimas e seus familiares imediatos, alimentaram
crimes contra a humanidade. Como Presidente um conflito que tornou-se uma ameaça à paz
da Libéria, seus atos eram imputáveis ao Estado; e segurança internacionais na sub-região do
com efeito, fez ele uso de sua posição, do aparato sudoeste da África (par. 683). Ainda que a CESL
estatal e dos recursos público, para encorajar tivesse se concentrado na responsabilidade
e dar assistência ao cometimento dos crimes penal internacional do Presidente Ch. Taylor,
contra a população civil de Serra Leoa, como abstendo-se de caracterizar a ação estatal como
determinou a CESL. “criminal”, deixando esta tarefa a cargo de
Com efeito, em sua Sentença de 18.05.2012, outros tribunais internacionais com “autoridade
a CESL (1ª. Sala) constatou uma política e sobre os Estados” e encarregados de “interpretar
estratégia (da RUF/AFRC) de campanha de o direito da responsabilidade do Estado” (par.
terror para a perpetração dos crimes, em ampla 456), a correlação entre uma e outra ficou clara
escala, contra a população civil de Serra Leoa (cf. supra).
(pars. 6905 e 6911). Envolvia ela a provisão de A CESL (Sala de Recursos) observou,
armas e pessoal militar para a perpetração das ademais, que os Estados têm contraído
atrocidades30, - que incluíram assassinatos, “obrigações para impedir e punir indivíduos
estupros e escravidão sexual, raptos, trabalho por violações graves do Direito Internacional
forçado, amputações, recrutamento de crianças- Humanitário mediante tratados que têm se
soldados (par. 6905). Nos pontos resolutivos, tornado direito consuetudinário estabelecendo
a CESL concluiu pela perpetração dos crimes a responsabilidade penal individual por tais
contra a humanidade de assassinatos em massa, violações” (par. 457). Recordou que os próprios
estupros e escravidão sexual (par. 6994). Estados têm criado tribunais internacionais
Na Sentença seguinte, de 30.05.2012, a “para punir crimes de guerra, crimes contra a
CESL se concentrou nos “fatores agravantes”, a humanidade e genocídio” (par. 463); ela própria (a
saber: o fato de terem sido os crimes cometidos Sala de Recursos da CESL) se via obrigada a aplicar
em igrejas, mesquitas, escolas e hospitais; de também o “direito internacional consuetudinário
terem sido cometidos de modo extraterritorial, existente” sobre a matéria (par. 464). Ainda que
no país vizinho Serra Leoa pelo então Presidente um tribunal internacional - como a CESL - se
da Libéria; de serem as vítimas pessoas inocentes concentre na determinação da responsabilidade
(pars. 26-29 e 95-96). Acrescentou a CESL que penal internacional do indivíduo, deixando a
o então Presidente Ch. Taylor era também determinação da responsabilidade internacional
membro do Comitê dos Cinco (em seguida dos do Estado a outro tribunal internacional (dotado
Seis) do ECOWAS, que integrava o processo pelo de jurisdição para isto), as circunstâncias das
qual a comunidade internacional buscava trazer ocorrências na devastação em Serra Leoa (supra)
a paz à Serra Leoa. Ao invés de contribuir ao deixam clara a impossibilidade de dissociar uma
mesmo, traiu-o, ao apoiar as operações militares responsabilidade da outra.
criminosas de destruição (incorrendo em um Reconhece-se hoje que uma significativa
“betrayal of public trust”), o que constituiu contribuição da jurisprudência da CESL reside
“um fator agravante de muito peso” (pars. em sua adjudicação de casos de recrutamento de
97-99 e 102-103). Ademais, valeu-se o então crianças-soldados (menores de 15 anos), usadas
Presidente da Libéria da campanha de terror, da para participar ativamente nas hostilidades32.
devastação e do sofrimento infligido à população Pela primeira vez, foi tal crime processado por
de Serra Leoa para obter lucros financeiros no um tribunal penal internacional, a CESL (caso
suprimento de diamantes do país vizinho, outro S. Hinga Norman, Decisão de 31.05.2004),
“fator agravante” (pars. 98-99). em uma contribuição ao Direito Internacional
Enfim, na Sentença condenatória de Humanitário33. Assinalou a CESL a proibição
26.09.2013, a CESL (Sala de Recursos) reiterou de direito internacional consuetudinário desse
estes pontos31, e acrescentou que, embora Ch. recrutamento forçado de crianças-soldados (que
Taylor, então Presidente da Libéria, “nunca já existia bem antes do desenrolar das ocorrências
estivesse fisicamente presente em Serra Leoa”, em meados de 1996), aplicável não só às forças
suas ações em escala extraterritorial prolongaram armadas, mas também a atores não-estatais34.

65
Antônio Augusto Cançado Trindade

3. Ocorrências no Continente Ameri- “autores intelectuais ou materiais” dos “atos de


genocídio” como a “responsabilidade do Estado”,
cano por serem tais crimes, em sua maioria, - na
Passando do continente africano ao expressão da CEH, - “producto de una política
continente americano, em meus Votos preestablecida por un comando superior a sus
Individuais na Corte Interamericana de Direitos autores materiales” (par. 5)
Humanos (CtIADH), a partir do caso Myrna Ponderei, a seguir, que, o fato de a CtIADH
Mack Chang versus Guatemala (Sentença de carecer de jurisdição para se pronunciar sobre
18.09.2003), passei a examinar o que denominei “atos de genocídio” sob a Convenção Americana
de “complementaridade entre a responsabilidade sobre Direitos Humanos, não eximia o Estado
internacional dos Estados e a responsabilidade demandado de sua responsabilidade pelas
penal internacional dos indivíduos”, tal ocorrências (pars. 7-8). Depois de debruçar-me
como consta em meu Voto Arrazoado sobre a responsabilidade internacional agravada
naquele caso (pars. 14-20). Observei que era (pars. 24-28) e o princípio de humanidade
próprio da evolução do direito internacional (pars. 9-23), retomei a questão da existência
contemporâneo, fortalecendo-o (a exemplo da dos crimes de Estado (pars. 34-36) e da
adoção do Estatuto do TPI), a criminalização coexistência da responsabilidade internacional
das violações graves dos direitos humanos e do do Estado e do indivíduo. Sobre tal coexistência
Direito Internacional Humanitário; com isto, a e complementaridade, ponderei o seguinte:
comunidade internacional se insurgia contra a
Não me parece haver impedimento jurídico
impunidade (pars. 14-17 e 35-40). Não há como
algum para a determinação concomitante
tentar eludir o crime de Estado, a consciência
da responsabilidade internacional do
jurídica universal despertou enfim para isto (pars.
Estado e a responsabilidade penal dos
25-32). Aqui se configura a responsabilidade indivíduos nos termos anteriormente
internacional agravada, - agreguei, - com todas assinalados (par. 25, supra), no tocante
as consequências jurídicas para as reparações à Convenção Americana, revelando
(pars. 41-55). a interação entre os ordenamentos
Logo depois, em meu Voto Arrazoado no jurídicos internacional e nacional, no
caso do Massacre de Plan de Sánchez versus presente domínio de proteção dos direitos
Guatemala (Sentença de 29.04.2004), permiti- humanos. (...) No plano estritamente
me recordar que o próprio Relatório final da internacional, subsiste, não obstante, um
Comissão de Esclarecimento Histórico (CEH) da desenvolvimento insuficiente da matéria,
Guatemala registrou 626 massacres cometidos refletido na atitude persistente de tratar a
pelas forças do Estado (exército apoiado por responsabilidade internacional do Estado
paramilitares) durante os ataques armados; 95% e a responsabilidade penal dos indivíduos
dos massacres foram perpetrados, com extrema de forma separada e compartimentalizada.
crueldade, entre 1978 e 1984, e 90% em áreas Na atual etapa de desenvolvimento
habitadas sobretudo pelo povo maia. O massacre insuficiente da matéria, os tribunais
de Plan de Sánchez foi um deles, situado na internacionais de direitos humanos (as
“estratégia estatal destinada a destruir um grupo Cortes Europeia e Interamericana, e
étnico” (pars. 2-4). futuramente a Africana) se concentram na
primeira (a responsabilidade internacional
Em seu referido Relatório intitulado do Estado), ao passo que os tribunais
Guatemala - Memoria del Silencio, - acrescentei, penais internacionais ad hoc (para a Ex-
- a CEH se referiu à ocorrência de violações Iugoslávia e para Ruanda) e o Tribunal Penal
graves de direitos humanos, de “atos de Internacional (TPI) voltam-se à segunda
genocídio” contra membros dos povos maia- (a responsabilidade penal internacional
ixil, maia-achi, maia-k´iche´, maia-chuj e dos indivíduos). Mas a responsabilidade
internacional do Estado e a do indivíduo são
maia-q´anjob´al. No entender da CEH, os
complementares. A Convenção Americana
vitimados de tais atos de genocídio foram sobre Direitos Humanos, ao concentrar-
sobretudo os membros “mais vulneráveis” das se na responsabilidade internacional do
comunidades maias (especialmente crianças Estado por violações dos direitos por ela
e idosos), e tais atrocidades comprometiam protegidos, não se exime, no entanto, de
tanto a responsabilidade individual de los assinalar - em seu nem sempre recordado

66
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado
artigo 32(1)35 - que `toda pessoa tem tão só ao primeiro dos elementos assinalados,
deveres para com a família, a comunidade de relevância a uma abordagem da referida
e a humanidade´. complementaridade.
A reação às violações graves e sistemáticas Tal elemento reside na condição jurídica
dos direitos humanos e do Direito do indivíduo como “sujeito tanto ativo (Direito
Internacional Humanitário constitui em Internacional dos Direitos Humanos) como
nossos dias uma legítima preocupação passivo (Direito Penal Internacional) do Direito
da comunidade internacional como um Internacional, ou seja, como titular de direitos e
todo; tal reação se impõe com ainda maior
portador de obrigações que emanan diretamente
força quando as vítimas são vulneráveis
do Direito Internacional. A condição do indivíduo
e indefesas (como no presente caso do
Massacre de Plan de Sánchez), e a estrutura como tal representa, como tenho assinalado
do poder público encontra-se deformada em numerosos escritos, o legado mais precioso
e posta a serviço da repressão e não da da ciência jurídica a partir de meados do século
busca do bem comum. A responsabilidade XX38” (par. 35). Em relação ao TPII e ao TPIR, -
penal internacional do indivíduo, em meu agreguei, - o Tribunal Penal Internacional (TPI)
entendimento, não exime a do Estado; as permanente “representa um avanço no tocante em
duas coexistem, sendo este reconhecimento particular à presença e participação das vítimas no
de crucial importância para a erradicação curso de seu procedimento”39 (par. 36), por ser
da impunidade. Tanto o Estado como seus
agentes são destinatários diretos de normas um significativo ponto de confluência
do direito internacional contemporâneo; entre o Direito Penal Internacional
a conduta de ambos é prevista e regida contemporâneo e o Direito Internacional
por este último, devendo, pois, tanto o dos Direitos Humanos. Já não se trata
Estado como seus agentes responder pelas de uma justiça tão só punitiva ou
consequências de seus atos e omissões sancionatória, mas, ademais, também
(pars. 37-39)36. reparatória (Estatuto de Roma, artigo 75),
e prevendo distintas formas e modalidades
Posteriormente, em meu Voto Arrazoado no de reparação (Regulamento do TPI, regra
caso Goiburú e Outros versus Paraguai (Sentença 98), tanto individuais como coletivas. Em
de 22.09.2006), atinente às atrocidades da nada surpreende que, em seus primeiros
chamada “Operação Condor” no Cone Sul da pronunciamentos, - no caso Th. Lubanga
América Latina37, voltei a examinar os “elementos Dyilo e a investigação da situação na
para uma aproximação à complementaridade República Democrática do Congo40, -
entre o Direito Internacional dos Direitos tenha o TPI feito referência expressa à rica
jurisprudência da Corte Interamericana41.
Humanos e o Direito Penal Internacional” (pars.
O Direito Internacional dos Direitos
34-53), destacando cinco elementos, a saber: a) a Humanos e o Direito Penal Internacional
personalidade jurídica internacional do indivíduo; contemporâneo podem aqui se reforçar
b) a complementaridade entre a responsabilidade mutuamente, em benefício último dos
internacional do Estado e a do indivíduo; seres humanos.
c) a conceituação dos crimes contra a humanidade;
d) a prevenção e a garantia de não-repetição; e e) A consolidação da personalidade penal
internacional dos indivíduos, como sujeitos
a justiça reparatória na confluência do Direito
ativos assim como passivos do direito
Internacional dos Direitos Humanos e do Direito internacional, fortalece a responsabilidade
Penal Internacional. (accountability) no Direito Internacional
Observei que “os crimes contra a por abusos perpetrados contra os seres
humanidade situam-se na confluência entre humanos. Desse modo, os indivíduos
o Direito Penal Internacional e o Direito também são portadores de deveres sob
Internacional dos Direitos Humanos”, e expus o Direito Internacional, o que reflete a
consolidação de sua personalidade jurídica
minhas razões (pars. 42, e cf. pars. 39-43). E
internacional42. Desenvolvimentos na
insisti nas aproximações entre estes dois ramos
personalidade jurídica internacional e na
do direito de proteção, e na complementaridade responsabilidade internacional se dão pari
entre a responsabilidade internacional do Estado passu, e toda esta evolução dá testemunho
e a responsabilidade penal internacional do da formação da opinio juris communis no
indivíduo (par. 39). Para os propósitos das sentido de que a gravidade de determinadas
presentes reflexões, limito-me a referir-me violações dos direitos fundamentais da

67
Antônio Augusto Cançado Trindade

pessoa humana afeta diretamente valores importava com as condições infra-humanas de


básicos compartilhados pela comunidade vida da população, em uma afronta à dignidade
internacional como um todo43 (pars. 37-38). humana; recorria sem escrúpulos ao uso da força,
em uma campanha de terror de perseguições “de
4. Ocorrências no Continente Asiático base política” (par. 805).
Passando, enfim, ao continente asiático, A CECC agregou que Nuon Chea participou,
no tocante à jurisprudência da Câmara Especial na cúpula do Partido único, desde o início, da
nas Cortes do Camboja (CECC - Corte Especial formulação da política de deslocamento forçado
do Camboja), o caso de Nuon Chea e Khieu da população seguido de crimes, para evacuar
Samphan ilustra o papel exercido por altas as áreas urbanas e “coletivizar” as “zonas
autoridades públicas nas atrocidades cometidas liberadas” (pars. 842-843). Segundo esta política
pelo regime de Pol Pot no Camboja (1975-1979). estatal, os “traidores” seriam “liquidados” (pars.
Nuon Chea exerceu vários cargos públicos, 844-846). Na cúpula do Partido único (CPK),
inclusive como Ministro da Propaganda e Nuon Chea conduziu “sessões de doutrinação”
Informação, dentre outras funções na alta para a execução dos crimes (pars. 853-854). A
hierarquia do regime do Partido Comunista do CECC condenou, então, Nuon Chea, por crimes
Kampuchea (CPK). Assim o assinalou a CECC, contra a humanidade (pars. 877-878, 883, 887,
em sua recente Sentença (de 07.08.2014 - par. 904 e 906-907), “cometidos na execução das
9); também Khieu Samphan exerceu funções e instruções do Partido” (par. 888), e acrescentou
posições distintas - como, e.g., Presidente do que
Presídio Estatal - no regime do CPK (par. 10). Nuon Chea, juntamente com Pol Pot,
Os líderes do CPK - prosseguiu a CECC - exerceram o poder decisório último do
deslocaram à força as populações, de cidades e Partido, e usaram a autoridade de jure e
vilas a áreas rurais, e procederam à “reeducação” de facto para instruir as tropas e soldados
dos “maus elementos” e à eliminação dos do Khmer Rouge de menor hierarquia a
cometer crimes de assassinato, extermínio,
“inimigos”, tendo em sua mira determinados
perseguição política e outros atos
grupos, como os cham, os vietnamitas, os desumanos de deslocamento forçado e
budistas e os oficiais do ancien régime (par. 102). ataques contra a dignidade humana (par.
Os crimes cometidos, em grande escala e de modo 884, e cf. par. 887).
sistemático, contra a população civil cambojana,
incluíram assassinatos, deslocamento forçado, A CECC, em seguida, determinou que
extermínio, desaparecimentos forçados de Khieu Samphan também planejou e cometeu
pessoas, perseguição política. Tais atrocidades crimes contra a humanidade (pars. 996-997).
vitimaram centenas de milhares de civis em Tanto Nuon Chea como Khieu Samphan
todo o Camboja, e geraram fluxos maciços de estavam plenamente cientes das políticas que
refugiados nos países vizinhos (pars. 193, 546- resultariam na ampla escala de tais crimes, em
547 e 553-554). meio à doutrinação para eliminar os “inimigos”
As atrocidades foram perpetradas na do regime do Khmer Rouge (pars. 1040-1041).
execução de um plano de políticas estatais, Neste caso de Nuon Chea e Khieu Samphan,
impostas pelo Partido único (CPK - pars. 193 a responsabilidade penal de ambos afigura-se
e 195). À violenta evacuação da população, de relacionada à responsabilidade estatal.
Phnom Penh e outras cidades, seguiram-se os Já há cerca de uma década, ao concluir a
crimes mencionados44. Ademais, numerosas investigação no caso de Nuon Chea e Khieu
vítimas - além das assassinadas - morreram Samphan, a CECC identificou (Ordonnance
nas estradas, de enfermidades, de falta de água de 15.09.2010) a existência de um plano da
e alimentos, de falta de assistência médica e liderança do CPK, posto em prática, de extermínio
higiene (pars. 556, 558 e 560). A CECC estatuiu - com actus reus e mens rea de genocídio - dos
que os oficiais e soldados do Khmer Rouge integrantes dos grupos cham (um grupo étnico
cometeram crimes contra a humanidade (par. e religioso) e vietnamita (pars. 1336 e 1343).
643), em seu afã de implementar sua “revolução Numerosas vítimas foram exterminadas em
socialista” no Camboja (pars. 777-778 e 804). ampla escala, de forma deliberada e sistemática,
Tratava-se - acrescentou a CECC - de “políticas por pertencerem a tais grupos (pars. 1337-1340
criminais” do regime do CPK, que não se e 1344-1347).

68
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado
Assim, a par do extermínio dos e supervisão do pessoal na tortura e execução
cambojanos “inimigos” do regime do Khmer sistemáticas de prisioneiros” (par. 377). No
Rouge, este último buscou, em relação aos entender da CECC, tal crueldade “situa este
integrantes do grupo cham, destruir também caso entre os mais graves diante dos tribunais
sua cultura, tradições e idioma, destruí-los penais internacionais” (par. 376). Neste caso
por completo (pars. 1341-1342). E, no tocante do Camarada Duch, uma vez mais, afiguram-
aos vietnamitas, o regime de Pol Pot buscou se inter-relacionadas a responsabilidade penal
destrui-los também pela propaganda (do CPK) individual e a responsabilidade estatal.
de guerra anti-vietnamita, a incitação ao ódio,
a perseguição e a escalada de deportações, além III. COMPLEMENTARIDADE DA RESPON-
dos assassinatos em massa (pars. 1348-1349). SABILIDADE INTERNACIONAL DO
Tratava-se de políticas estatais, relacionadas
com a responsabilidade penal dos indivíduos em INDIVÍDUO E DO ESTADO
questão (nos altos escalões da liderança do CPK). Não obstante a contribuição da construção
No caso de Kaing Guek Eav (Camarada jurisprudencial em curso sobre a matéria
Duch), Diretor do sinistro Centro de Detenção (supra), o tratamento da questão central da
S-21 (e áreas em seus arredores), a CECC complementaridade da responsabilidade
determinou (Sentença de 26.07.2010) sua internacional do indivíduo e do Estado
responsabilidade pelo estabelecimento do por parte da doutrina jusinternacionalista
mesmo com uma “função criminal”, e pela permanece insuficiente, se não insatisfatório.
prática (no período de 1975-1979) de extrair Consideravelmente maior atenção deveria ter
confissões, mediante interrogatório e tortura, já sido dispensada à questão. Parte da doutrina
seguidos de trabalho forçado e execuções, dos mostra-se disposta a buscar uma aproximação
que se suspeitava serem “inimigos” do regime do entre as responsabilidades individual e do
CPK (pars. 23-24, 111, 514 e 520-521). Muitos Estado, mas experimenta dificuldades por não
detidos, quando não executados, morriam de conseguir desvencilhar-se da visão estatocêntrica
enfermidades, falta de nutrição e “dor física e - atada a dogmas do passado - do ordenamento
psicológica, em meio ao “medo extremo” (par. jurídico internacional45. Ainda assim, diante
597). Comentou a CECC que se utilizavam de circunstancias agravantes, logra estabelecer
“políticas stalinistas” (par. 110). aquela aproximação entre a responsabilidade
Os ataques contra a população cambojana, penal do indivíduo e a responsabilidade estatal
- agregou a CECC, - ocorreram paralelamente ao agravada46.
conflito armado entre o Camboja e o Vietnã, e o Outra corrente doutrinária admite as
CPK atacou seus próprios nacionais, tidos como responsabilidades concomitantes to Estado e
“inimigos” do regime do Khmer Rouge; os que do indivíduo por crimes de guerra ou crimes
terminavam detidos na prisão S-21 provinham contra a paz (atinentes - segundo ela - às relações
de “todas as partes do país e de todos os setores da interestatais), mas se mostra inteiramente
sociedade cambojana” (pars. 322-323). A CECC hesitante em admiti-las conjuntamente em
afirmou ser o Camarada Duch “criminalmente relação a atos de genocídio, dada a suposta
responsável dos crimes “de caráter hediondo e impossibilidade de um Estado de se tornar
particularmente chocante” de tortura e execução responsável penalmente47, distintamente de
(nas cercanias de Phnom Pehn) de mais de um indivíduo. As duas responsabilidades, -
12,200 vítimas (par. 597). prossegue ela, - são de natureza diferente; em
Na Sentença subsequente (de 03.02.2012), casos “excepcionais”, pode-se admitir que um
a CECC (Sala de Recursos) confirmou as mesmo ato ilícito possa dar origem às duas
condenações (pars. 1-2, 376) por crimes contra responsabilidades, a do Estado e a do indivíduo
a humanidade (par. 7). Agregou a CECC que (atuando como agente estatal)48.
constituíam “fatores agravantes” as “condições Em minha percepção, a incongruência
deploráveis” em que se encontravam os desta corrente doutrinária resulta sobretudo de
detidos antes das execuções (pars. 375-376), seu enfoque estritamente interestatal, ainda que
e o fato de que o Camarada Duch valeu-se se trate de uma convenção como a Convenção
de sua posição central de liderança na prisão contra o Genocídio de 1948. Não pode esta
S-21 para “abusar” no “treinamento, ordens ser adequadamente abordada com as atenções

69
Antônio Augusto Cançado Trindade

voltadas às susceptibilidades interestatais. para executar suas políticas criminais49. As


A referida Convenção se orienta aos seres responsabilidades dos indivíduos e do Estado
humanos, aos grupos humanos vitimados, encontram-se comprometidas, e a determinação
real ou potencialmente. No decorrer de dois da responsabilidade do Estado é particularmente
procedimentos prolongados dos dois casos importante para assegurar as reparações
perante a CIJ atinentes à Convenção contra o adequadas às vítimas.
Genocídio (Bósnia-Herzegóvina versus Sérvia, A evolução neste sentido (ainda que
2007; e Croácia versus Sérvia, 2015), a CIJ, a responsabilidade estatal seja tida como
superando hesitações, entendeu que a referida “civil”) vem sendo reforçada pelo advento das
Convenção se estende também à determinação proibições absolutas do jus cogens50. Cabe
da responsabilidade estatal.
ademais ter em mente que as Convenções de
Em meu Voto Dissidente na recente Direito Internacional Humanitário - que são
Sentença da CIJ de 03.02.2015 no caso da também direito internacional consuetudinário
Aplicação da Convenção contra o Genocídio - devem ser cumpridas em todas e quaisquer
(Croácia versus Sérvia), sustentei que a circunstancias, em benefício de todas as
determinação da responsabilidade do Estado pessoas protegidas. O foco encontra-se na
não só foi o que buscaram os redatores daquela pessoa humana, e não nos Estados em suas
Convenção (como seus travaux préparatoires relações recíprocas. Efetivamente não se trata de
revelam), mas está também em linha com seu normas reduzidas à reciprocidade das relações
rationale, assim como seu objeto e fim (pars. interestatais, mas de normas imperativas de
85-95). A Convenção contra o Genocídio visa salvaguarda da integridade da pessoa humana,
prevenir e sancionar o crime de genocídio, - que
que recaem no domínio das responsabilidades
é contrário ao espírito e propósitos das Nações
tanto dos Estados como dos indivíduos51.
Unidas, - de modo a liberar a humanidade desse
flagelo. Adverti que tentar tornar a aplicação O próprio Direito Internacional
da referida Convenção uma tarefa impossível Humanitário transcendeu a obsoleta visão
a tornaria sem sentido, uma quase letra morta interestatal, e dela se liberou, ao dar maior ênfase
(par. 94). - à luz do princípio de humanidade - às pessoas
protegidas e à responsabilidade pela violação de
A própria Carta das Nações Unidas, - recordei,
seus direitos. As pessoas protegidas não são um
- professa a determinação de assegurar o respeito
simples objeto de regulamentação, mas sujeitos
aos direitos humanos em toda parte; o princípio
de humanidade, - na linha do secular pensamento do direito internacional52. É o que se depreende
jusnaturalista (recta ratio), - permeia desse modo claramente do fato de as quatro Convenções
o Direito das Nações Unidas (pars. 73-76). de Genebra de 1949 proibirem firmemente os
Ademais, - agreguei, - o princípio de humanidade Estados Partes derrogações - por acordos especiais
tem angariado reconhecimento judicial, por - das regras nelas enunciadas, e em particular
parte tanto dos tribunais internacionais de restringir os direitos das pessoas protegidas nelas
direitos humanos como dos tribunais penais consagrados53. Com efeito, o impacto das normas
internacionais (pars. 77-82). As violações graves do Direito Internacional dos Direitos Humanos
dos direitos humanos e os atos de genocídio, entre vem, já por longo tempo, tendo repercussões no
outras atrocidades, violam as proibições absolutas corpus juris e aplicação do Direito Internacional
do jus cogens (par. 83). Humanitário54.
Outra corrente doutrinária, mais esclarecida Ainda sobre a complementaridade da
que a anteriormente mencionada, recorda de responsabilidade internacional do indivíduo
início que a própria conceituação dos crimes e do Estado, cabe manter em mente que os
internacionais decorre de evolução do direito Estados cometem crimes por meio de indivíduos
internacional geral ou costumeiro, e não mais se (não apenas seus agentes em todos os níveis
pode negligenciar o fato de que tanto indivíduos hierárquicos, mas inclusive mercenários
como Estados podem ter sua responsabilidade recrutados); a responsabilidade de ambos se
engajada por crimes internacionais. No caso compromete (por ação ou omissão), tornando-
dos crimes mais hediondos, como atos de se aqui necessária a luta contra a impunidade
genocídio e crimes contra a humanidade, pelas atrocidades perpetradas55. Em suma, a
indivíduos contam com os recursos do Estado coexistência da responsabilidade internacional

70
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado
do indivíduo e do Estado é hoje reconhecida pela hierarquia do poder público dos Estados em
maior parte da doutrina contemporânea. questão, por genocídio e/ou crimes contra a
Os Estados contam com indivíduos para humanidade. Os interna corporis da CESL e da
perpetrar crimes internacionais, e os indivíduos CECC chegam inclusive a buscar, em particular,
contam com o aparato estatal para fazê-lo (a - no legado do Tribunal de Nuremberg, - o juízo
partir da planificação, sobretudo em se tratando daqueles mais responsáveis por tais crimes61.
de genocídio e crimes contra a humanidade). Não há que esquecer que, afinal, o Tribunal
Cabe recordar, a respeito, que a Comissão de Nuremberg condenou, por crimes contra a
de Direito Internacional (CDI) das Nações humanidade, comandantes e altos funcionários
Unidas, ao retomar em 1984, uma iniciativa de do regime do Terceiro Reich, assim como
três décadas antes, de elaborar seu Projeto de entidades criminosas do mesmo (como, e.g., a
Código de Crimes contra a Paz e a Segurança da SS e a Gestapo)62. As atrocidades da II guerra
Humanidade, ponderou que, ainda que tivesse mundial foram perpetradas em execução de uma
inicialmente em mente a responsabilidade penal política estatal de extermínio de seres humanos.
de indivíduos, esta se configurava sem prejuízo Nos últimos anos, os tribunais penais
da responsabilidade internacional dos Estados56. internacionais “híbridos” ou “mistos” têm,
Não surpreendentemente, o referido Projeto de com isto, a meu ver contribuído, juntamente
Código, adotado enfim em 1996, dispôs sobre as com o TPII e o TPIR, à aproximação
responsabilidades tanto do indivíduo (artigo 2) das responsabilidades internacionais do
quanto do Estado (artigo 4)57. indivíduo e do Estado no direito internacional
No entanto, a conceitualização desta contemporâneo. Nesse sentido, o que não
conjugação de responsabilidades não é uniforme. dizer, por exemplo, dos casos do ex-Presidente
Para alguns, as duas responsabilidades Charles Taylor, do ex-Primeiro Ministro Jean
se complementam, mas cada uma delas Kambanda, de autoridades públicas como J.-P.
mantém sua autonomia58; para outros, a Akayesu e Nuon Chea (braço direito do líder
complementaridade de ambas vai mais além Pol Pot) e Camarada Duch, do caso inacabado
(Estados e indivíduos sendo sujeitos plenos do do Presidente S. Milosevic, dos atuais processos
direito internacional), deslocando-se a ênfase contra R. Karadzic e R. Mladic, dos dirigentes da
às vítimas, e ao dever de reparação dos danos Operação Cóndor no Cone Sul, dentre outros?
a elas causados59, para pôr fim à impunidade e A aproximação das responsabilidades
assegurar a realização da justiça. internacionais do indivíduo e do Estado por
crimes internacionais é de grande importância
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS também para o tratamento adequado da questão
Os avanços na justiça internacional são algo das reparações às vítimas e seus familiares. A
auspicioso, que não pode admitir retrocessos. A consideração da responsabilidade tão só do
expansão da jurisdição internacional em nossos indivíduo - separadamente da estatal - leva a
dias faz-se acompanhar pari passu da expansão da dificuldades quase intransponíveis (como as hoje
personalidade (e capacidade) e responsabilidade enfrentadas pelo TPI), geradas pela assimetria
internacionais. A complementaridade das entre a responsabilidade individualizada e a
responsabilidades internacionais do indivíduo natureza coletiva de crimes como o genocídio
e do Estado é algo ineludível. Podemos melhor e os crimes contra a humanidade, com suas
apreciar esta evolução se nos detivermos em numerosas vítimas63. Há que ter sempre em
sua perspectiva histórica, e constatarmos que a mente que, não raro, os indivíduos condenados
barbárie tem estado presente em toda a história agiram como agentes do Estado, fizeram uso de
da humanidade: civilização e barbárie são seus recursos e atuaram em seu nome. Ao se
duas faces da mesma moeda60. Assim sendo, considerar também a responsabilidade do Estado,
os avanços na justiça internacional hão de ser esta última inclusive viabiliza as reparações64.
preservados e cultivados, para que não haja O fato de terem os tribunais penais
retrocessos. internacionais (ad hoc e “híbridos” ou “mistos”)
Como visto anteriormente, tanto o TPII condenado, por genocídio e crimes contra a
como o TPIR, tanto a CESL como a CECC, humanidade, agentes estatais, autoridades
determinaram, em distintos continentes, a públicas nos mais altos escalões do poder
responsabilidade de indivíduos, na mais alta estatal65, demonstra claramente, em meu

71
Antônio Augusto Cançado Trindade

entender, a inter-relação da responsabilidade contemporâneo, - o Direito Internacional dos


individual com a responsabilidade estatal. Direitos Humanos, o Direito Internacional
Assim, em nada surpreende que o labor daqueles Humanitário e o Direito Internacional
tribunais, de determinação da responsabilidade dos Refugiados, somados ao Direito Penal
penal internacional dos indivíduos, tenha sido Internacional, - em suas aproximações e
marcado, de meados da década de noventa convergências67, nos daremos conta de que
até o presente, por uma certa tensão com as no novo jus gentium de nossos tempos a
prioridades dos Estados, que insistem em sua centralidade é da pessoa humana, e não dos
visão estatocêntrica do ordenamento jurídico Estados. Só assim poderemos nos desvencilhar
internacional, mesmo em face da meta das perigosas distorções do prisma estritamente
professada de construção de uma “cultura de estatista, com suas consequências nefastas. Os
responsabilidade” ligada à paz e à justiça no avanços na justiça internacional constituem
plano internacional66. hoje um patrimônio jurídico de todos os povos,
Esta tensão em nada impede seguir adiante e em última análise da própria comunidade
no labor de realização da justiça. Se apreciarmos internacional como um todo.
em conjunto todas as vertentes de proteção
da pessoa humana no direito internacional

72
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado

NOTAS

(*) Conferência ministrada pelo Autor, no Palácio 16. Pars. 141-142, 159, 442-444 e 446.
da Paz, na Haia, Holanda, aos 03 de março de 17. O julgamento teve início em 12.02.2002, e
2015. o procedimento terminou em 14.03.2006,
1. Cf. A.A. Cançado Trindade, El Ejercicio de la devido à morte do acusado em 11.03.2006.
Función Judicial Internacional - Memorias de la 18. O TPII citou especificamente as áreas de Brcko,
Corte Interamericana de Derechos Humanos, Prijedor, Sanski Most, Srebrenika, Bijeljina,
3ª. ed., Belo Horizonte/Brasil, Edit. Del Rey, Kljuc e Bosanki Novi.
2013, Anexo IV (reparações), pp. 327-354.
19. L. Aspegren e J.A. Williamson, “The Rwanda
2. Cf., inter alia, e.g., A. Bleckmann, “General Tribunal and Genocide”, in From Human
Theory of Obligations under Public Rights to International Criminal Law - Studies
International Law”, 38 German Yearbook in Honour of an African Jurist, the Late Judge
of International Law (1995) pp. 27 e 36-39; L. Kama (eds. E. Decaux, A. Dieng e M. Sow),
M.G. Bullard, “Child Labor Prohibitions Are Leiden, Nijhoff, 2007, pp. 204-205, 218 e 221-
Universal, Binding, and Obligatory Law: The 222.
Evolving State of Customary International Law
Concerning the Unempowered Child Laborer”, 20. Ibid., p. 209.
24 Houston Journal of International Law 21. Ibid., pp. 211-212 e 215. O próprio Conselho
(2001) pp. 144, 146, 151, 158-159, 162, 167 e de Segurança das Nações Unidas, depois de
171-172. apreciar o relatório, nesse sentido, sobre a
3. Ou “internacionalizados”, e.g., para Serra Leoa, Situação dos Direitos Humanos em Ruanda
Timor-Leste, Kossovo, Bósnia-Herzegóvina, (de 25.05.1994), do rapporteur especial da
Camboja e Líbano antiga Comissão de Direitos Humanos da
ONU (R. Degni-Ségui), - qualificando as
4. As declarações periciais examinadas pelo TPII, ocorrências de genocídio, - adotou sua resolução
por exemplo, no caso S. Miloseviæ (2004), 935(1994), de 01.07.1994, expressando
assinalaram que o conhecimento sedimentado sua profunda preocupação com as violações
sobre a matéria demonstra que as autoridades vastas e flagrantes do Direito Internacional
estatais são sempre responsáveis por um Humanitário, incluindo atos de genocídio,
processo genocida. Examino este ponto, inter cometidos em Ruanda; ibid., pp. 210-211.
alia, em meu extenso Voto Dissidente na
recente Sentença da CIJ de 03.02.2015 no caso 22. Ibid., p. 217.
da Aplicação da Convenção contra o Genocídio 23. f. ibid., p. 215.
(Croácia versus Sérvia).
24. Para o TPIR, o conflito pode ter facilitado
5. Pars. 150-152, 154-156 e 167. a execução do genocídio (par. 127); no
6. Em que apenas o primeiro foi inocentado, e os entanto, - acrescentou, - o genocídio foi
demais cinco foram condenados. “fundamentalmente diferente do conflito” (par.
128).
7. Pars. 255, 257, 260, 433, 440, 468, 482 e 485.
25. L. Aspegren e J.A. Williamson, “The Rwanda
8. Pars. 159-160 e 442-446. Tribunal and Genocide”, in op. cit. supra n.
9. Pars. 836-839 e 881. (19), pp. 219-220.
10 Sentenças de 19.04.2004 (R. Krstic), 26. Ibid., pp. 218-221.
30.01.2015 (V. Popovic, L. Beara e D. Nikolic) 27. J.A. Berry e C.P. Berry (eds.), Genocide in
e 12.12.2012 (Z. Tolimir). A única Sentença Rwanda - A Collective Memory, Washington
ainda pendente de recurso é a de Z. Tolimir. D.C., Howard University Press, 1999, pp. 3, 5
11 TPII (1ª. Sala, Sentença de 02.08.2001), paras. e 53.
28 e 612. e cf. paras. 52 e 452. 28. Ibid., p. 87.
12. Ibid., pars. 87 e 427. 29. Ibid., p. 17.
13. Pars. 199 e 1306. 30. Pars. 6913, 6916 e 6920-6921, 6928, 6931,
14. Pars. 760, 762, 767, 775-776 e 1085. 6936, 6947-6949, 6865, 6967 e 6969.
15. Pars. 1013, 1046, 1069 e 1071. 31. Pars. 678, 684-685 e 687.

73
Antônio Augusto Cançado Trindade

32. O. Njikam, The Contribution of the Special 1996; Neira Alegría versus Perú, 1996;
Court for Sierra Leone to the Development Paniagua Morales versus Guatemala, 2001;
of International Humanitarian Law, Berlin, Baena Ricardo e Outros versus Panamá, 2001,
Duncker & Humblot, 2013, pp. 74, 109, 204- entre outros.
205, 207 e 210. 42. H.-H. Jescheck, “The General Principles
33. bid., pp. 176, 197, 213, 217, 282 e 284. of International Criminal Law Set Out in
34. Ibid., p. 212. Nuremberg, as Mirrored in the ICC Statute”,
2 Journal of International Criminal Justice
35. Sobre a correlação entre deveres e direitos. (2004) p. 43.
36. E agreguei que, “apesar de terem os fatos ocorrido 43. Cf., e.g., A. Cassese, “Y a-t-il un conflit
há 22 anos atrás, permanecem seguramente insurmontable entre souveraineté des États
vivos na memória dos sobreviventes. Os anos et justice pénale internationale?”, in Crimes
de silencio e humilhação, face às dificuldades internationaux et juridictions internationales
de localização dos cemiterios clandestinos (eds. A. Cassese e M. Delmas-Marty), Paris,
e da exumação dos cadáveres do massacre, PUF, 2002, pp. 15-29; e cf., em geral, [Vários
e da prolongada denegação de justiça, não Autores], La Criminalización de la Barbarie:
lograram apagar a memória dos sobreviventes La Corte Penal Internacional (ed. J.A. Carrillo
do ocorrido em Plan de Sánchez no dia 18 de Salcedo), Madrid, Consejo General del Poder
julho de 1982” (par. 40). Judicial, 2000, pp. 17-504.
37. Para um estudo de caso a respeito, cf. A.A. 44. Pars. 630, 645, 683-686, 805, 842, 860-861 e
Cançado Trindade, Évolution du Droit 867-868.
international au droit des gens - L´accès des
45. Cf. B.I. Bonafè, The Relationship between State
particuliers à la justice internationale: le regard
and Individual Responsibility for International
d’un juge, Paris, Pédone, 2008, pp. 132-144 e
Crimes, Leiden, Nijhoff, 2009, pp. 7, 66-67 e
151-184.
125.
38. Cf., inter alia, A.A. Cançado Trindade,
46. Ibid., pp. 17-18, 31, 37, 79, 131-133, 135, 144-
“International Law for Humankind: Towards a
145 e 253-255.
New Jus Gentium - General Course on Public
International Law (Part I)”, 316 Recueil des 47. C. Dominicé, “La question de la double
Cours de l’Académie de Droit International de responsabilité de l´État et de son agent”, in
la Haye (2005) caps. IX-X, pp. 252-317; A.A. Liber Amicorum Judge M. Bedjaoui (eds. E.
Cançado Trindade, El Derecho Internacional Yakpo e T. Boumedra), The Hague, Kluwer,
de los Derechos Humanos en el Siglo XXI, 1999, pp. 144-148 e 150-152.
2a. ed., Santiago, Editorial Jurídica de Chile, 48. Cf. ibid., pp. 156-157.
2006, pp. 319-376; A.A. Cançado Trindade, El
49. É inegável que os Estados podem tornar-se
Acceso Directo del Individuo a los Tribunales
responsáveis por crimes internacionais, tanto
Internacionales de Derechos Humanos, Bilbao,
por ação como por omissão; V.-D. Degan,
Universidad de Deusto, 2001, pp. 9-104;
“Responsibility of States and Individuals for
A.A. Cançado Trindade, Tratado de Direito
International Crimes”, in International Law in
Internacional dos Direitos Humanos, vol. III,
the Post-Cold War World – Essays in Memory
Porto Alegre/Brasil, S.A. Fabris Ed., 2003, pp.
of Li Haopei (eds. Sienho Yee e Wang Tieya),
447-497.
Routledge, London/N.Y., 2001, pp. 203-204,
39. Estatuto de Roma, artigos 68 e 75, e Regulamento, 209, 221 e 223.
regras 16, 89 e 90-93, - acrescida da criação da
50. Ibid., pp. 203-204 e 207-208, e cf. p. 220.
Unidade de Vítimas e Testemunhas (Estatuto,
artigo 43(6), e Regulamento, regras 16-19), e 51. Cf., neste sentido: A.A. Cançado Trindade,
do Fundo Fiduciário para as Vítimas (Estatuto, Derecho Internacional de los Derechos
artigo 79, e Regulamento, regra 98). Humanos, Derecho Internacional de
los Refugiados y Derecho Internacional
40. Cf. ICC (Pre-Trial Chamber I), doc. ICC- Humanitario - Aproximaciones y
01/04, de 17.01.2006, pp. 14-15, 29 e 34; de Convergencias, Genebra, CICV, [2000], pp.
31.03.2006, p. 12; e de 31.07.2006, pp. 8-9. 1-66; L. Condorelli, “Responsabilité étatique
41. Referências aos casos, e.g., Blake versus et responsabilité individuelle pour violations
Guatemala, 1998; Meninos de Rua versus graves du droit international humanitaire”,
Guatemala, 1999; El Amparo versus Venezuela, in Man´s Inhumanity to Man - Essays on

74
Atos de Genocídio e Crimes Contra a Humanidade: Reflexões sobre a Complementaridade da Responsabilidade
Internacional do Indivíduo e do Estado
International Law in Honour of A. Cassese International Responsibility Today - Essays
(eds. L.C. Vorah et alii), The Hague, Kluwer, in Memory of O. Schachter (ed. M. Ragazzi),
2003, pp. 214, 216 e 218-219. Leiden, M. Nijhoff, 2005, pp. 253, 256-260,
52. As Convenções de Genebra de 1949 se basearam 262 e 269.
nos direitos das pessoas protegidas(e.g., 60. A.A. Cançado Trindade, Os Tribunais
Convenção III, artigos 14 e 78; Convenção IV, Internacionais e a Realização da Justiça, Rio de
artigo 27). Janeiro, Edit. Renovar, 2015, pp. 69-137.
53. Convenções I, II e III, artigo 6; e Convenção IV, 61. S. Linton, “Cambodia, East Timor and Sierra
artigo 7. Leone: Experiments in International Justice”,
54. A.A. Cançado Trindade, “The Emancipation 12 Criminal Law Forum (2001) pp. 199 e 219,
of the Individual from His Own State - The e cf. pp. 229, 236-237 e 244-245.
Historical Recovery of the Human Person as 62. Cf., e.g., P. Roland, Os Julgamentos de
Subject of the Law of Nations”, in Human Nuremberg - Os Nazistas e Seus Crimes contra
Rights, Democracy and the Rule of Law - Liber a Humanidade, São Paulo, M. Books, 2013, pp.
Amicorum L. Wildhaber (eds. S. Breitenmoser 23, 31, 73, 95, 99, 109, 137, 2013 e 203.
et alii), Zürich/Baden-Baden, Dike/Nomos, 63. E. Dwertmann, The Reparation System
2007, pp. 155-156. of the International Criminal Court - Its
55. Cf. M. Kamto, “Responsabilité de l´État et Implementation, Possibilities and Limitations,
responsabilité de l´individu pour crime de Leiden, Nijhoff, 2010, pp. 4-5, 53 e 295-297.
génocide - quels mécanismes de mise-en- 64. E não de forma bastante limitada, como através
oeuvre?”, in Génocide(s) (eds. K. Boustany e D. do Trust Fund para as vítimas; cf. ibid., pp. 67-
Dormoy), Bruxelles, Bruylant/Éd. Université de 68, 71 e 76. Para um estudo geral da matéria, a
Bruxelles, 1999, pp. 489-490, 492, 495-496, partir da posição das vítimas (e de seus direitos),
500 e 509. cf. Luke Moffett, Justice for Victims before the
56. Cf. ILC, The Work of the International Law International Criminal Court, London/N.Y.,
Commission, 8a. ed., vol. I, N.Y., U.N., 2012, Routledge, 2014, pp. 1-289.
p. 103. 65. Cf., sobre este ponto, [Vários Autores,]
57. Cf. ILC, The Work of the International Law Prosecuting Heads of State (eds. E.L. Lutz e
Commission, 8a. ed., vol. II, N.Y., U.N., 2012, C. Reiger), Cambridge, Cambridge University
pp. 305-306. Press, 2009, pp. 1-293.
58. P.-M. Dupuy, “International Criminal 66. Cf., sobre este último ponto, e.g., B. Broomhall,
Responsibility of the Individual and International Justice and the International
International Responsibility of the State”, in Criminal Court: Between Sovereignty and the
The Rome Statute of the International Criminal Rule of Law, Oxford, Oxford University Press,
Court: A Commentary (eds. A. Cassese, P. 2003, pp. 185-186 e 189-192.
Gaeta e J.R.W.D. Jones), vol. II, Oxford, Oxford 67. Cf. A.A. Cançado Trindade, Derecho
University Press, 2002, pp. 1086-1089, 1091- Internacional de los Derechos Humanos,
1093 e 1095-1099. Derecho Internacional de los Refugiados
59. A.A. Cançado Trindade, “Complementarity y Derecho Internacional Humanitario -
between State Responsibility and Individual Aproximaciones y Convergencias, Genebra,
Responsibility for Grave Violations of Human CICV, [2000], pp. 1-66.
Rights: The Crime of State Revisited”, in

75
A CONSOLIDAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS:
APONTAMENTOS ACERCA DO PROCESSO HISTÓRICO
E DE ASPECTOS TEÓRICO-PRÁTICOS ATINENTES
À SUA EFETIVAÇÃO*

Arnaldo Fernandes Nogueira


Advogado militante de Direitos Humanos; Mestre em Planejamento
e Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará.

Marinina Gruska Benevides


Advogada; Psicóloga; Doutora em Sociologia pela UFC; Pós-doutora em Direitos Humanos
e Democracia na Universidade de Coimbra; Professora do Mestrado em Planejamento
e Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará.

RESUMO multiple subjects involved in the struggles for


realization of their needs or claims. The article
O presente artigo descreve o processo analyzes some theoretical and practical aspects
histórico concernente ao surgimento e à related to the problem of realization of human
consolidação dos direitos humanos. Para tanto, rights. Finally, after finishing an analysis of
foi efetuada uma revisão bibliográfica sobre o the historical framework and relevant political
assunto, a fim de buscar expor sobre como esse situation of human rights, it is concluded that
processo se deu e ainda se desenvolve, tanto a consistent way to overcome the negative
em nível internacional como nacional, tendo overview that affects the full realization of
em vista os múltiplos sujeitos envolvidos nas fundamental human rights is to promote large
lutas pela realização de suas necessidades ou investments in education human rights.
pretensões. Discorre, ainda, sobre alguns aspectos
teórico-práticos atinentes à problemática da Keywords
efetivação dos direitos humanos. Por fim, depois
de realizada uma análise do liame histórico Effectiveness; historical process; human
e das conjunturas políticas pertinentes aos rights.
direitos humanos, conclui-se que um caminho
consistente para a superação do panorama 1. INTRODUÇÃO
negativo que afeta a plena efetivação dos direitos O presente momento histórico é bastante
humanos fundamentais é a promoção de complexo. Verificam-se um amplo espectro de
amplos investimentos em educação em direitos previsão legal e a existência de espaços públicos
humanos. que contam com instituições bem estruturadas
para atuar na promoção e defesa dos direitos
Palavras Chave humanos fundamentais, tanto em âmbito
Efetivação; processo histórico, direitos internacional como nacional.
humanos. Entretanto, percebe-se uma dificuldade
recorrente tanto do ponto de vista da compreensão
ABSTRACT de como se deu o desenvolvimento dos direitos
humanos, processo ainda em construção, quanto
This article describes the historical process
de aspectos inerentes à sua efetivação. Tal fato
concerning the emergence and consolidation of
constitui, na verdade, um grave déficit cultural
human rights. To this end, a bibliographic review
que certamente contribui para a disseminação
on the subject was undertaken in order this
de um clima de apatia e conformação diante das
process was and still is being developed, both at
injustiças que ocorrem cotidianamente.
the international and national levels, given the

77
Arnaldo Fernandes Nogueira e Marinina Gruska Benevides

Um caminho para a possível superação pois oriundo da natureza que dotava o ser
desse estágio deficitário em termos de humano de razão. Dessa capacidade racional o
engajamento de amplos setores sociais – no ser humano retirava as condições necessárias
que diz respeito à tomada de consciência acerca para construir o pacto pelo qual todas as pessoas
das questões sociais e à necessária mobilização abririam mão de parte de suas liberdades em
numa perspectiva de mudança qualitativa da favor da construção de uma vontade geral voltada
realidade – é a amplificação dos investimentos à realização do bem comum.
em educação em direitos humanos. Essa concepção teórica se tornou hegemônica
Sendo assim, o presente artigo tem o no século XVIII, e serviu de fundamento para
propósito de contribuir com a difusão do processo uma série de rebeliões que derrubaram regimes
de desenvolvimento e consolidação dos direitos monárquicos absolutistas. A mais conhecida
humanos, sem prescindir na indispensável delas foi a Revolução Francesa, que, dentre
abordagem crítica, a fim de possibilitar a outros feitos, produziu a denominada Declaração
disseminação de informações relevantes nessa Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão.
matéria. A partir daí tem-se o mais importante marco
originário majoritariamente aceito na história
2. O RECONHECIMENTO INTERNA- dos direitos humanos, os quais muitos estudiosos
CIONAL DOS DIREITOS HUMANOS como BOBBIO (2004); COMPARATO (2013); e
TRINDADE (2011) didaticamente classificam,
Por muito tempo prevaleceu uma tradição conforme foram surgindo em cada momento
cultural que considerava natural existirem histórico, como pertencentes a gerações ou
algumas pessoas como possuidoras de direitos, dimensões (característica inerente à abrangência
e outras como seres inferiores ou mesmo de seus titulares: indivíduos e coletividades).
como meros objetos. Assim era, por exemplo,
Outra consequência fundamental do
a realidade dos cidadãos atenienses ou dos
relevante marco histórico acima referido foi a
patrícios romanos, os quais possuíam uma
consolidação do Republicanismo1 como regime
série de direitos em relação à vida privada e até
de governo predominante, após o período das
a possibilidade de participação nos assuntos da
revoluções (notadamente a norte-americana e a
vida pública, diferentemente do que ocorria com
francesa).
as mulheres, pessoas consideradas incapazes, e
com estrangeiros ou escravos, tidos como uma Como na época a cultura política era
espécie de propriedade. bastante elitista e as ideias iluministas eram
oriundas de setores da burguesia emergente,
As demandas por ampliação das liberdades
que estava mais preocupada em consolidar e
individuais, em larga medida sufocadas
expandir seus privilégios, a primeira dimensão
pelo amplo poder do senhorio e do clero (no
de direitos era restrita a aspectos das chamadas
período feudal) ou pelo poder absoluto dos reis
liberdades individuais (basicamente direitos
(absolutismo monárquico), foram se tornando
civis e políticos). Certamente são primordiais,
predominantes em decorrência das insurreições
mas não suficientes para conferir uma vida
que ocorreram.
plenamente digna a todas as pessoas.
As ideias associadas à defesa das liberdades
Após uma gradativa consolidação dos
individuais diante de opressões arbitrárias
direitos individuais e políticos básicos – pelo
praticadas por regimes monárquicos, que quase
menos do ponto de vista formal, uma vez que
sempre exerciam governos despóticos, ficaram
previstos nos ordenamentos jurídicos nacionais,
conhecidas como iluministas, pois defendiam a
e, portanto, passíveis de cobrança por parte
separação entre o Estado e a Igreja e sustentavam
da população junto às instituições públicas –
que os indivíduos, movidos pelas luzes advindas
segmentos populares interessados no usufruto
da própria razão, deveriam constituir um
pleno e na ampliação desses direitos, bem como
contrato social a partir do qual resultaria um
na afirmação e consolidação de novos, passaram
conjunto de normas legitimadas pela vontade
cada vez mais a se organizar e se mobilizar para
geral e, assim, poderiam se autogovernar por
tornar suas pretensões realidade.
meio de representantes dotados de legitimidade.
Com efeito, a conjuntura se tornou favorável
O fundamento do direito originário dos
à ampliação de direitos, sobretudo, a partir de
indivíduos a princípio era considerado divino,
quando ocorreram revoluções populares, como

78
A Consolidação dos Direitos Humanos: Apontamentos Acerca do Processo Histórico
e de Aspectos Teórico-Práticos Atinentes à sua Efetivação
no México, em 1910, e na Rússia, em 1917, decorrentes da atividade de órgãos como a
tendo como consequência o surgimento de uma Corte de Haia, o Tribunal Penal Internacional
nova dimensão de direitos humanos. Em maior e os Comitês de Tratados, tendo em vista o
medida eram identificados com o princípio da monitoramento da situação de concretização
igualdade material/substantiva, pois se buscava dos direitos previstos nas normas internacionais
principalmente o reconhecimento de direitos das quais diversos países são signatários.
sociais predominantemente associados às A propósito das duas dimensões de direitos
relações de trabalho e propriedade. anteriormente apontadas, relevante salientar
Paralelamente ao surgimento, consolidação que estudiosos as diferenciam sustentando
e ampliação da chamada segunda dimensão que além do tempo histórico em que surgiram
de direitos humanos ocorreram duas grandes (a primeira decorrente das revoluções liberais,
guerras mundiais na primeira metade do século e as segundas das revoluções socialistas), e da
XX. A primeira, entre 1914 e 1918, e a segunda amplitude de seus destinatários (indivíduos na
entre 1939 e 1945, tiveram um resultado primeira e coletividades na segunda), existem
devastador, com milhões de mortos e muita características próprias que as distinguem
destruição em diversos países, principalmente quanto ao exercício dos direitos.
na Europa. Assim, os chamados direitos de primeira
Consequência positiva – associada ao dimensão impõem uma ação negativa do Estado,
grande trauma decorrente das duas grandes no sentido de não impedir que as pessoas possam
guerras mundiais, as quais envolveram a exercer livremente suas liberdades individuais ou
participação direta ou indireta de países de seus direitos políticos, desde que não contrariem
diversos continentes – foi a reunião de líderes disposição proibitiva expressa em lei vigente. Ou
políticos de diversas partes do mundo no seja, almeja-se proteção dos indivíduos contra
final da primeira metade do século XX, com o arbitrariedades do Estado.
propósito de buscar uma solução diplomática Os direitos de segunda dimensão suscitam
que apontasse para um futuro menos ameaçador uma ação positiva do Estado, uma vez que para
para a humanidade. serem efetivados os direitos sociais requerem
O resultado do entendimento entre diversos que os poderes públicos exerçam regulação sobre
líderes mundiais, notadamente os representantes o mercado, a fim de coibir abusos nas relações
dos países diretamente envolvidos na segunda de trabalho, por exemplo, ou que promovam
grande guerra mundial e que restaram vitoriosos, políticas públicas com a finalidade de concretizá-
foi a constituição da Organização das Nações los. Têm em vista a satisfação das necessidades
Unidas (ONU), que teve como documento da população que, por sua vez, contribui para a
fundante a Carta das Nações Unidas, assinada manutenção do Estado por meio do pagamento
em 26 de junho de 1945, na cidade de São de tributos. Ou seja, almeja-se garantir direitos
Francisco (EUA)2, por 51 países (primeiros por meio da elaboração e execução de políticas
membros) de diversos continentes do planeta. públicas.
Vale destacar que a fundação da ONU – com Com o passar dos anos, notadamente no
posterior promulgação da Declaração Universal período posterior à segunda guerra mundial, os
dos Direitos Humanos (1948), e depois do Pacto direitos humanos têm se desenvolvido tanto
dos Direitos Civis e Políticos (1966), e do Pacto do ponto de vista de seu conteúdo quanto
dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de mecanismos voltados à sua promoção,
(1966) – constitui um marco fundamental monitoramento e controle. Para isso foi
para a consolidação dos direitos humanos, elaborada uma enorme quantidade de normas
pois pela primeira vez foi criado um sistema internacionais e, além do sistema ONU, foram
internacional de direitos humanos. Entre suas criados sistemas regionais de promoção e proteção
principais funções está a de legislação, por meio dos direitos humanos, como a Organização
da elaboração de tratados, convenções etc., dos Estados Americanos (OEA), o Conselho da
promoção, por meio da edição de publicações e Europa, e a Organização da Unidade Africana.3
apoio a programas de cooperação para difusão (PIOVESAN, 2013).
de informações sobre o conteúdo de seus Quanto ao conteúdo dos direitos humanos,
documentos; e controle, por meio da produção de vale destacar, ainda, que contemporaneamente
relatórios e análises de comunicações e petições, se reconhece uma terceira dimensão de direitos

79
Arnaldo Fernandes Nogueira e Marinina Gruska Benevides

considerados difusos, pois pertencentes a todas – quando comprovado em definitivo que os


as pessoas ao mesmo tempo. A defesa dos Estados-membros se comportarem de forma
patrimônios cultural e ambiental é sua principal injusta ou a demora de sua ação gere justo receio
referência. de prejuízo iminente.
Atualmente já se fala numa quarta
dimensão de direitos, também considerados 3. O RECONHECIMENTO DOS DIREITOS
difusos, os quais dizem respeito a princípios HUMANOS NO BRASIL
fundamentais cuja afirmação é indispensável em
O Brasil é um país onde os aspectos gerais
tempos de risco de retrocessos, como o direito à
da sociedade demoraram a se desenvolver.
democracia participativa e à paz entre os povos.
Durante muitos anos, desde o descobrimento
(BONAVIDES, 2003).
formal em 1500 até 1930, predominou um
Não obstante a força didática que possui a modo de produção com características feudais
exposição sobre o que se considera as diversas ou semifeudais, marcado por muitas opressões,
fases do longo processo histórico de afirmação, principalmente em relação a grupos minoritários
consolidação e ampliação dos direitos humanos, subjugados, como índios e negros. A não
importa advertir que o referido processo não existência de uma cultura política desfavorecia
ocorreu nem ocorre de maneira uniforme em o reconhecimento de reivindicações populares,
todo o mundo. Os fatos históricos dependem de notadamente em termos de garantias de direitos.
aspectos conjunturais próprios de cada realidade (CARVALHO, 2013).
e, consequentemente, não necessariamente
Após o fim do ciclo econômico do pau-
obedecem a uma forma sequencial semelhante
brasil, primeira base econômica do período
em todas as realidades sociais e culturais.
colonial (1500 a 1882), cuja mão de obra era
Não menos imprescindível é ter clareza predominantemente constituída por índios
de que inexiste um quadro fechado de direitos escravizados, iniciou-se a busca por outros meios
humanos, no plano internacional ou no plano de geração e acumulação de riquezas. Revelou-
nacional, uma vez que é sempre possível se como promissora, em parte do Nordeste,
a emergência de novos direitos. Conforme a criação de gado e, principalmente, o cultivo
esclarece André Carvalho Ramos (2014, p. 27), de cana-de-açúcar, enquanto no Sul-Sudeste,
“[a]s necessidades humanas variam e, de acordo posteriormente, a atividade da mineração
com o contexto histórico de uma época, novas estimulou a exploração de outras partes do
demandas sociais são traduzidas juridicamente e território do país, com as chamadas entradas
inseridas na lista dos direitos humanos”. e bandeiras. Nesse período, se por um lado
A propósito, o jurista alemão Rudolf von existia algum trabalho livre, pois uma parte das
Ihering (2003, p. 27) adverte que: “o fim do pessoas que se aventuravam a desbravar terras
direito é a paz, o meio de que se serve para consideradas inóspitas o fazia por própria conta
consegui-lo é a luta. [...] A vida do Direito é a e risco, o que prevalecia era a ‘lei do mais forte’
luta: luta dos povos, dos governos, das classes de modo que por certo ocorreu muita violência
sociais, dos indivíduos”. nessa época, principalmente por meio da
Por fim, importa acrescentar que não basta exploração de trabalho compulsório e extermínio
que os direitos humanos sejam reconhecidos em de povos originários que ousassem resistir ao
normas internacionais e tenham sua promoção domínio/exploração. (FAUSTO, 2013).
e controle realizados através de organismos Em decorrência de muitas revoltas,
multilaterais como a ONU e a OEA. Aliás, a inclusive pela insatisfação com a exploração da
regra geral do sistema internacional é que os metrópole (Portugal) sobre a Colônia, ocorreu
direitos constantes nos diversos tratados ou a proclamação da Independência do Brasil, em
outros que venham a ser reconhecidos devem, 1822. Algumas décadas depois, quando foi se
também, constar no ordenamento jurídico dos sedimentando o poderio da classe proprietária
Estados-membros, os quais possuem o encargo nos centros urbanos, principalmente no
de efetivar tais direitos4 por meio de instituições Sudeste, com destaque para a acumulação de
nacionais, ainda que eventualmente busquem riquezas em decorrência dos resultados obtidos
cooperação internacional. Assim, somente se com a exploração da cultura cafeeira, em grande
deve recorrer aos organismos que integram medida baseada no uso intensivo de mão de obra
o sistema internacional – global ou regional

80
A Consolidação dos Direitos Humanos: Apontamentos Acerca do Processo Histórico
e de Aspectos Teórico-Práticos Atinentes à sua Efetivação
escrava importada da África, foi proclamada a considerada uma das melhores que o Brasil
República no final de 1889. já teve, a qual ampliou consideravelmente os
Ainda no final do II Reinado, pouco antes direitos e garantias fundamentais.
da proclamação da República - devido aos altos O período seguinte, denominado Quarta
custos para a manutenção dos escravos, com República (1946-1964), foi de muitas turbulências
muitos casos de mortes advindas de maus- políticas, tanto que o país teve, em um período
tratos, por doenças e suicídio, além de muitas de 18 anos, a impressionante quantidade de 9
ocorrências de fugas, pressão de parte da (nove) presidentes da República. Contudo, houve
comunidade internacional, principalmente da um processo intenso de tomada de consciência
Inglaterra, e do fortalecimento do movimento e mobilização social, notadamente durante o
abolicionista, inspirado, sobretudo, por ideias governo João Goulart (popularmente conhecido
iluministas - foi decretada a abolição da como Jango), o qual possuía em sua plataforma
escravidão, pelo menos do ponto de vista formal. de governo a realização das chamadas “reformas
Com isso, foi intensificada a atração pela de base”, que incluíam reforma agrária, reforma
mão de obra imigrante, que em grande parte urbana, reforma educacional, reforma fiscal,
fugia de guerras e/ou da recessão econômica, reforma eleitoral, dentre outras medidas que
principalmente na Europa. Após o declínio da previam forte intervenção na economia.
economia cafeeira essa força de trabalho foi O conjunto de propostas do chamado “Plano
aproveitada no desenvolvimento do processo de Trienal”, do governo João Goulart, contava com
industrialização. ampla simpatia popular e apoio de movimentos
Os imigrantes, em geral, possuíam melhores sociais que cresciam em importância, mas
níveis educacionais que a média dos brasileiros, despertou a ira de setores conservadores da
fator decisivo para que surgissem os primeiros sociedade, os quais formaram uma aliança elitista
movimentos contestatórios voltados, também, envolvendo setores da classe média, da Igreja,
a reivindicações de direitos, notadamente do empresariado, das oligarquias e das forças
relacionados a questões trabalhistas. armadas, além de contar com apoio da grande
Posteriormente, com a decadência da cultura mídia e até auxílio estrangeiro, principalmente
política predominante no período da chamada por parte dos EUA. Tal articulação nefasta, sob
República Velha (1889-1930), denominada de o falso pretexto de evitar a conversão do governo
‘política do café com leite’, pois sua hegemonia ao regime comunista, resultou num Golpe
político-econômica se concentrava em maior de Estado com a deposição do Presidente da
medida entre São Paulo e Minas Gerais, ocorreu República e a instauração, a partir de 1964, de
a chamada Revolução de 30. Houve uma um regime ditatorial que durou mais de 20 anos.
significativa mudança conjuntural no país, com Foram tempos difíceis, com forte censura
o fortalecimento da construção de um projeto ao exercício de liberdades individuais e muita
nacional, bem como ênfase ao processo de repressão, resultando em milhares de casos de
industrialização da economia brasileira. perseguição, prisão arbitrária, sequestro, tortura
No período histórico que se iniciava, o qual e até assassinato. Tudo praticado sob a égide de
foi denominado de Era Vargas (1930-1945), em um evidente Estado de Exceção, que promoveu
alguma medida se avançou no reconhecimento mudança constitucional – com a imposição
de direitos, principalmente direitos trabalhistas, de uma nova Constituição em 1967. Esta foi
com a criação da CLT, do Ministério do Trabalho, substancialmente alterada dois anos depois,
da Justiça do Trabalho e da Previdência Social, através da Emenda Constitucional n° 16, além
que passou a ser prevista constitucionalmente. de ser contrariada pela imposição de normas
Nessa época também foi reconhecido o direito arbitrárias, os chamados atos institucionais. O
à sindicalização, embora com forte atrelamento pior deles foi o de número 5 (conhecido como
ao Estado.5 AI-5), outorgado no final de 1968.
Entretanto, na fase que ficou conhecida Com o passar dos anos, conforme crescia
como Estado Novo (1937-1945) houve diversos a repressão do governo ditatorial, aumentava
retrocessos, principalmente em relação aos a resistência de grupos organizados e setores
direitos civis e políticos. Com o fim desse período cada vez mais amplos da sociedade. Assim, os
ocorreu uma recuperação, sendo elaborada e governos que se sucederam, comandados por
promulgada uma nova Constituição (1946), generais, foram cada vez mais se desgastando

81
Arnaldo Fernandes Nogueira e Marinina Gruska Benevides

até que ficou insustentável a continuidade do e garantias proclamados nos principais tratados
regime. internacionais, inclusive.
Como consequência das muitas Ocorre que os direitos humanos, como
arbitrariedades praticadas durante anos resultantes de processos históricos, não surgem
sucessivos, desde 1964, cresceu no país de uma só vez, para todas as pessoas, nem de uma
a conscientização sobre a importância da vez por todas. Por isso, não se pode ter certeza de
democracia. Setores da sociedade, sobretudo os que, uma vez conquistado o reconhecimento de
de base popular, se organizaram e promoveram direitos, posteriormente não ocorrerão tentativas
uma ampla mobilização que resultou no de retrocessos.
chamado ‘Movimento Diretas Já’ (1983-1984). No período pós-Constituição de 1988,
Além da luta pela reconquista e ampliação foi se consolidando no Brasil uma perspectiva
dos direitos civis e políticos, foi intensa a luta política centrada no superdimensionamento da
pelo reconhecimento de direitos econômicos, importância da economia para o desenvolvimento
sociais, culturais e ambientais. Resultado desse do país, de modo que se passou a considerar
processo foi a realização de uma Assembleia o mercado como o principal referencial para a
Constituinte (1987-1988), que contou com tomada de decisões políticas.
significativa participação popular em todo o seu O resultado dessa vertente político-
decurso. No final de 1988 foi promulgada uma ideológica, denominada neoliberalismo,
nova Constituição (a 6ª do país; se contarmos que em alguma medida subsiste até os dias
com a EC n° 1 de 1969 são 7), a qual foi atuais (ANDERSON, 2009), é a destinação
apelidada de “Constituição Cidadã”, sobretudo de grande parte dos recursos do orçamento
pela importância dada a princípios fundamentais para pagamento de juros e a priorização na
como: soberania, cidadania, dignidade da pessoa realização de investimentos em infraestrutura
humana, valores sociais do trabalho e da livre voltada à reprodução de capital, em detrimento
iniciativa, pluralismo político e democracia, da necessidade de investimentos em políticas
todos previstos logo em seu artigo 1º. públicas essenciais para a efetivação de direitos
O respaldo dado à legitimidade política é (educação, saúde, moradia etc.), que, obviamente,
tamanho que o texto da CF/88 prevê, de modo são do interesse da maioria da população.
expresso, no parágrafo único de seu primeiro Além disso, são constantes as ameaças
artigo, que “todo o poder emana do povo, que de flexibilização de direitos historicamente
o exerce por meio de representantes eleitos ou conquistados, como direitos trabalhistas e
diretamente, nos termos desta Constituição”. quaisquer outros que sejam considerados como
Com a elevação no nível de consciência obstáculos ao progresso, hegemonicamente
geral da sociedade acerca da relevância dos identificado com os processos de reprodução
direitos humanos, bem como da necessidade de ampliada de capital: direito ambiental, dos povos
devolver processos de organização e luta para indígenas etc.
afirmação, consolidação e ampliação dos direitos
fundamentais, tanto no que diz respeito aos 4. ASPECTOS TEÓRICO-PRÁTICOS
direitos civis e políticos quanto no concernente ACERCA DA EFETIVAÇÃO DOS
aos direitos econômicos, sociais, culturais e
ambientais, há quem considere que a partir do DIREITOS HUMANOS
Golpe Militar e da resistência que ocorreu em Durante muitos anos a compreensão
face do regime ditatorial que o sucedeu, houve acerca do fundamento dos direitos humanos7
o florescimento dos direitos humanos no Brasil. foi se transformando, sendo cada vez mais
Destarte, tivemos com a Constituição de 1988 generalizada, nos dias atuais, a compreensão de
a consolidação de uma ampla gama de direitos que esses direitos encontram seu fundamento
fundamentais, de modo que se é desarrazoado no reconhecimento da essencialidade, e,
considerar esse como marco originário dos consequentemente, na necessidade de
direitos humanos no Brasil, não se deve ter preservação da dignidade8 inerente à pessoa
dúvida em afirmar que o processo que culminou humana. Isso porque “[o] caráter único e
na promulgação da CF/88 representou um salto insubstituível de cada ser humano, portador
sem precedentes no reconhecimento de direitos de um valor próprio, veio demonstrar que a

82
A Consolidação dos Direitos Humanos: Apontamentos Acerca do Processo Histórico
e de Aspectos Teórico-Práticos Atinentes à sua Efetivação
dignidade da pessoa existe singularmente em com a finalidade de favorecer uma minoria de
todo indivíduo” (COMPARATO, 2013, p. 43). privilegiados em detrimento da maioria das
A par disso, Norberto Bobbio (2004, pp. pessoas, postas em situações de marginalização/
23/5), discutindo o assunto, asseverou que “o exclusão. A esse confronto entre diferentes
problema fundamental em relação aos direitos concepções de direitos humanos Boaventura de
do homem, hoje, não é tanto o de justificá-los, Sousa Santos (2013, p. 57) denomina “tensões”,
mas o de protegê-los”. Por isso, “o problema dentre as quais destacamos três, quais sejam:
que temos diante de nós não é filosófico, mas tensão entre o universal e o fundacional; entre
jurídico e, num sentido mais amplo, político”. a igualdade e o reconhecimento da diferença;
entre o desenvolvimento e a autodeterminação.
São inúmeras as disposições normativas
que versam sobre direitos humanos, bem No que se refere à primeira (universal x
como a prescrição de meios para garantir a fundacional) das tensões acima mencionadas,
sua concretização. Além disso, são diversas as trata-se da postura de imposição de um
instituições - em nível internacional global e determinado modelo civilizacional de modo
regional, além de nacional e local - com poderes generalizado, em todos os tempos e lugares,
para fazer cumprir as referidas disposições. Por ignorando ou mesmo suprimindo perspectivas
que, então, existe tanta dificuldade em se alcançar de identidades que possuem memória, história e
a plena efetivação dos direitos humanos? raízes únicas e específicas. Isso pode representar,
inclusive, uma grave contradição, uma vez
Sem a pretensão de sermos exaustivos,
que discursos de suposta necessidade de
consideramos que um dos principais fatores
universalização de direitos têm sido utilizados,
a serem observados é o predomínio do poder
na verdade, com o fito de buscar legitimar a
político-econômico de setores privilegiados da
generalização de uma determinada perspectiva
sociedade, que, notadamente a partir do advento
fundacional. Senão vejamos o que diz SANTOS
e consolidação do modo de produção capitalista,
(2013, p. 58):
se identifica com a classe proprietária dos meios
de produção (Marx e Engels, 2011). [O] que consideramos hoje como universal
é o fundacional do ocidente transformado em
Ocorre que mesmo a clássica compreensão
universal. É, por outras palavras, um localismo
do mundo dividido entre burguesia e proletariado
globalizado. A hegemonia econômica, política,
tem passado por profundas transformações,
militar e cultural do ocidente nos últimos cinco
principalmente em decorrência do fenômeno da
séculos conseguiu transformar o que era (ou se
financeirização da economia, impulsionada pela
supunha ser) único e específico desta região do
chamada globalização dos mercados.
mundo em algo universal e geral.
Essas transformações sociais, com
Se, por um lado, existem tentativas de
reflexos econômicos, políticos e culturais, têm
imposição de determinado modelo civilizacional,
ocasionado impactos devastadores em relação
por outro os povos que sofrem essa pressão ou
à realização dos direitos humanos (vistos pela
as consequências desse processo tendem a opor
ótica neoliberal, em alguma medida, como
resistências. Neste caso, importa evidenciar, não
obstáculos ao progresso). Assim, o Estado,
se trata em verdade de uma disputa de universal
tido como excessivamente caro e ineficiente,
x fundacional, mas de duas perspectivas que
perdeu em larga medida sua capacidade de
são fundacionais, sendo que uma pretende
investimentos em políticas sociais, e passou a
modificar ou suprimir a outra. E essa rivalidade
agir sobremaneira como mediador de eventuais
de particularismos – que geralmente possuem
conflitos de mercado, relativos à concorrência.
identidades bastante distintas – diz Santos (2013,
Além disso, embora atualmente exista nos p. 59), convida “a um pluralismo que, para não
principais fóruns e instâncias internacionais ser paralisante e segregador, deve transformar-se
praticamente um consenso acerca do num vasto campo de tradução intercultural”.
fundamento e da essencialidade dos direitos
Quanto ao segundo tipo de tensão
humanos, há uma disputa de interpretação
(igualdade x diferença), temos que este se
acerca da prevalência de determinados tipos
comunica com o primeiro (acima mencionado),
de direitos sobre outros, bem como do uso
pois a igualdade colocada a serviço de um
de certos discursos voltados à legitimação
universalismo homogeneizador tende a
ou acobertamento de situações de opressões
descaracterizar/suprimir as identidades locais

83
Arnaldo Fernandes Nogueira e Marinina Gruska Benevides

fundadas em particularidades identitárias. Em Eis o terceiro tipo de tensão ora colocado em


contraposição à postura opressiva que representa evidência.
a generalização de uma igualdade monolítica, Diante da grave crise sistêmica cada vez
os grupos que resistem, como, por exemplo, mais perceptível, cujos resultados negativos
mulheres, negro(a)s, gays, lésbicas, indígenas, são suportados quase que exclusivamente pelos
entre outros, desenvolvem lutas que têm como setores subalternos da sociedade, uma perspectiva
característica fundamental a afirmação do direito de superação somente será possível a partir da
ao reconhecimento da diferença. Ou seja, do união de esforços das populações exploradas.
direito de ser diferente, de não se adaptar a um Estas devem se organizar em movimentos sociais
padrão dominante que não raro gera injustiças. a fim de fortalecer suas lutas, numa perspectiva
Propugnando pelo equilíbrio entre a de globalização contra-hegemônica. Por isso,
efetivação do princípio da igualdade sem Santos (2013, p. 95) sugere que:
prejuízo do direito ao reconhecimento da Neste contexto, só é possível perturbar o
diferença, Boaventura de Sousa Santos (2010, p. automatismo político e econômico deste modelo
462) defende que “temos o direito de ser iguais mediante ação de movimentos e organizações
quando a diferença nos inferioriza; temos o sociais suficientemente corajosos para darem
direito a ser diferentes quando a igualdade nos a conhecer o lado destrutivo deste modelo
descaracteriza”. sistematicamente ocultado, dramatizarem a sua
Componente da mesma trama de negatividade e forçarem a entrada desta denúncia
universalização de determinados direitos que na agenda política.
em especial interessam a um pequeno grupo Importa, ainda, constatar que um dos
de pessoas, por meio da globalização pautada reflexos da situação de marginalização social,
numa perspectiva de igualdade homogeneizante, associada à situação de negação de direitos, é
o direito ao desenvolvimento (reduzido apenas o aumento vertiginoso da violência perceptível.
ao aspecto econômico) atualmente tem sido A sociedade brasileira é marcada pela exclusão
apontado pelo discurso hegemônico como algo de grandes contingentes de pessoas do mercado
inexorável. de trabalho, do acesso a bens de consumo
Sem negar a importância que tem o básicos, da educação de qualidade, dentre outros
desenvolvimento, inclusive econômico, para a direitos fundamentais. A presença do Estado
própria efetivação dos direitos humanos numa para tais pessoas ocorre, mormente, pelo seu
perspectiva emancipatória, convém refletirmos viés repressivo. Os segmentos pauperizados da
sobre que tipo de desenvolvimento deve sociedade são alvo de segregação, tanto quando
prevalecer. são retirados do convívio social para compor a
Destarte, o que se tem percebido é a grande maioria da população carcerária como
tentativa de imposição em escala global – quando eliminados fisicamente, enquanto
inclusive com destacado apoio de organismos vítimas da maioria dos assassinatos ocorridos.10
internacionais como FMI, Banco Mundial e Sendo assim, na prática pode-se dizer que
OMC – de um modelo de desenvolvimento existem pessoas na sociedade brasileira que
extremamente predatório em relação aos seres são consideradas descartáveis e, portanto,
humanos que se encontram em situação de “matáveis” (AGAMBEN, 2010).
vulnerabilidade social, e ao meio ambiente, cada Consequência dessa realidade aviltante
vez mais devastado em função da maximização é que uma das linguagens usadas por algumas
do lucro. pessoas marginalizadas para expressar suas
Assim, a globalização9 neoliberal tem como frustrações e revoltas, evidentemente, tenderá
uma de suas principais pretensões a reprodução a ser aquela que aprenderam em seu cotidiano,
de um modelo capitalista de desenvolvimento qual seja: a violência. Por isso, essa violência que
que busca a supressão de todas as estruturas vem “de baixo” pode ser entendida como reflexo
que representam algum obstáculo à máxima da violência que vem “de cima”, notadamente
reprodução do Capital. Isso inclui a corrosão da quando os poderes públicos não cumprem o papel
soberania dos Estados e, (in)consequentemente, que lhes cabe na garantia de direitos humanos
do direito de autodeterminação dos povos, e na promoção da cidadania. (WACQUANT,
inclusive quanto ao direito de escolha sobre que 2005)
tipo de desenvolvimento preferem fomentar.

84
A Consolidação dos Direitos Humanos: Apontamentos Acerca do Processo Histórico
e de Aspectos Teórico-Práticos Atinentes à sua Efetivação
Sendo as sociedades desiguais desde muito Humanos da ONU, em seu livro “Ódio ao
tempo, situação que se agrava mais e mais com ocidente”, evidencia bem a gênese de um
o passar das épocas até os dias atuais, é também processo de ódio (em grande medida fundado em
bastante antigo o desenvolvimento de métodos aspectos racionais) que possui raízes profundas,
de controle pelos quais as classes dominantes apontando, dentre outras causas para esse
ditam regras. Estas, em larga medida são aceitas fenômeno, a postura ambígua/contraditória,
e/ou reproduzidas pela maioria da população em principalmente por parte de poderosos países
diversos lugares. ocidentais, no atinente à distância entre o
A forma de condicionamento dos discurso de defesa dos direitos humanos e a
indivíduos que não se enquadram no padrão falta de concretização ou mesmo a negação dos
estético/comportamental imposto pelas elites se mesmos em decorrência de posturas assumidas
dá de diversas formas, pelo desenvolvimento de por tais nações. Não é por outra razão que esse
mecanismos de controle. Estes, em muitos casos autor afirma: “Ora, todo o discurso dos direitos
são sutis, como o enquadramento dos corpos dos humanos mantido pelo Ocidente é marcado pela
indivíduos a controles disciplinares existentes linguagem dupla, ou pior: por uma verdadeira
em diferentes formas, lugares e dimensões, o esquizofrenia”. (ZIEGLER, 2011, p. 119).
que constitui uma verdadeira teia de comandos Fazendo um retrospecto dos compromissos
que se difundem por praticamente todas as firmados no documento intitulado de Millenium
relações sociais e correspondem ao que o filósofo Goals (Objetivos do Milênio)11, elaborado
Foucault (2012) denomina microfísica do poder. no contexto da ONU com a participação de
Setores da sociedade reproduzem – representantes de 192 países, no ano 2000, os
consciente ou inconscientemente – discursos quais deveriam ser cumpridos até 2015, Ziegler
favoráveis à via do aumento da repressão como aponta que, em 2008, “nenhum dos problemas
sendo um meio eficaz de solução do problema da listados está em vias de ser resolvido. Muito
violência, mas quem possui uma compreensão pelo contrário. Vários deles – autonomia das
crítica da realidade compreende que se trata, mulheres, doenças, educação, pobreza extrema
na verdade, de uma questão de política [tendo e subnutrição – não deixaram de piorar”. (Idem,
em vista a efetivação dos direitos de cidadania p. 132).
para todos(as), e não somente de polícia, que Esse sentimento de revolta não povoa
em muitos casos é violadora de direitos. Sendo a mente apenas de pessoas da academia ou
assim, atentemos para a elucidativa ponderação que vivem diretamente afetadas pela ação ou
de João Ricardo W. Dornelles (1993, p. 64): omissão das potências do Ocidente. Vejamos
O crime é uma realidade presente, e mais recente declaração do próprio Secretário-Geral
presente será quanto mais desigual e injusta da ONU, Ban Ki-moon, durante a abertura
seja uma sociedade. Dessa maneira, o contínuo da 3ª Conferência de Doadores para a Síria,
desrespeito aos direitos humanos e o tratamento ocorrida na cidade do Kuwait, em 31 de março
da questão social sob a óptica de guerra interna de 2015: “Sinto vergonha, raiva e frustração com
somente levará a um nível intolerável o quadro a impotência da comunidade internacional em
de crise em que vivemos. parar a guerra Síria”.12
Outrossim, crucial salientar que um grave
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
aspecto relacionado à questão dos direitos
humanos diz respeito à falta de efetividade dos Os direitos humanos fundamentais – ao
mesmos, malgrado as muitas promessas feitas longo da história e em todo o mundo – são
em todo o mundo e a vultosa quantidade de resultantes de amplos processos de lutas
normas e documentos firmados pelos governos que são travadas via de regra entre grupos de
de centenas de países. Este fato, inclusive, pessoas privilegiadas, as quais hegemonizam
contribui para gerar uma forte desconfiança o controle do poder predominante, e grupos de
em relação ao funcionamento das instituições pessoas subalternizadas ou marginalizadas que
públicas e até mesmo alimentam ódio/revolta perseguem a satisfação das condições necessárias
por parte das pessoas que se sentem enganadas. a uma vida digna e, ao mesmo tempo, resistem
Jean Ziegler, experiente diplomata que já às constantes tentativas de retrocessos.
ocupou diversos cargos de grande envergadura, Em nível internacional percebe-se que,
dentre os quais o de Alto Comissário de Direitos notadamente a partir do final da Segunda Guerra

85
Arnaldo Fernandes Nogueira e Marinina Gruska Benevides

Mundial, houve um avanço significativo no A partir da promulgação da Constituição


desenvolvimento de instituições encarregadas de 1988, o Brasil passou a vivenciar uma época
pela legislação, promoção e controle dos direitos mais virtuosa em termos de reconhecimento
humanos, econômicos, sociais, culturais e e promoção de direitos humanos. Porém,
ambientais. Por outro lado, constata-se que a contraditoriamente, inclusive por influência
preponderância dos interesses na viabilização da conjuntura internacional, marcada pela
de condições favoráveis à máxima expansão dos consolidação de uma ideologia política alicerçada
na globalização dos mercados, são constantes as
mercados em nível mundial acaba prejudicando
ameaças de retrocessos.
diversas perspectivas de efetivação dos direitos
humanos, além de constantemente promover Uma mudança significativa na conjuntura
mundial e nacional – numa perspectiva
situações de violações, as quais afetam,
de substancial reconhecimento, máximo
sobretudo, os setores sociais subalternizados.
desenvolvimento e plena efetivação dos
No Brasil, observa-se que o processo direitos humanos – certamente depende do
de reconhecimento e expansão dos direitos aprimoramento da tomada de consciência por
humanos se deu de forma lenta ao longo dos parte da população acerca das reais causas dos
períodos históricos sucessivos, desde a época problemas que cotidianamente vivencia, bem
colonial até os dias atuais, destacando-se o como da edificação de valores essenciais à
fato de este país possuir um curto período de construção de uma sociedade de fato solidária
existência contínua no que pertine a um regime e equitativa. Um caminho para isso é o forte
político democrático, além do fato de serem investimento em educação, a qual deve ser
constantes as ameaças de retrocessos em termos referenciada na promoção dos direitos humanos
para todas as pessoas.
de conquistas de direitos fundamentais.

86
A Consolidação dos Direitos Humanos: Apontamentos Acerca do Processo Histórico
e de Aspectos Teórico-Práticos Atinentes à sua Efetivação

REFERÊNCIAS

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uma nova cultura política. 3ª ed. São Paulo:
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87
Arnaldo Fernandes Nogueira e Marinina Gruska Benevides

NOTAS

* Artigo baseado no primeiro capítulo de Foram lutas de várias décadas, originárias de


dissertação defendida em 09/06/2015, como movimentos das inúmeras organizações, de
requisito para obtenção do grau de Mestre diferentes matizes ideológicos, incluído até
em Planejamento e Políticas Públicas, na as marchas e quarteladas dos militares, que
Universidade Estadual do Ceará – UECE. levaram às transformações do Estado brasileiro
1 Termo derivado de República, palavra composta e à construção de um novo arcabouço jurídico
por dois termos (res+publica) provenientes do institucional, que objetivava dar conta das
latim, que significa coisa pública. transformações que estavam se operando no
âmbito das estruturas de produção”. (GOHN,
2 Na ocasião foi realizada a Conferência 2003, pp. 200/201)
das Nações Unidas sobre Organização
Internacional. 6 Tamanha era a amplitude do conteúdo da EC
nº 1/69, que muitos a consideram como uma
3 Diante de tal cenário, tem se desenvolvido um nova Constituição.
fenômeno social que Cecília Macdowell Santos
denomina de ativismo jurídico transnacional, 7 Para um maior aprofundamento sobre o assunto
que, segundo a mesma, é “um tipo de ativismo vide CARBONARI, Paulo César (Org.). Sentido
focado na ação legal engajada, através das filosófico dos direitos humanos: leituras do
cortes internacionais ou instituições quase pensamento contemporâneo 3. Passo Fundo:
judiciais, em fortalecer as demandas dos IFIBE, 2013.
movimentos sociais; realizar mudanças legais 8 A propósito, Luís Roberto Barroso (2013, pp.
e políticas internas; restaurar ou definir 14/71) sustenta que “[a] dignidade humana,
direitos; e/ou pressionar os Estados a cumprir como atualmente compreendida, se assenta
as normas internacionais e internas de direitos sobre o pressuposto de que cada ser humano
humanos”. In SUR – Revista Internacional possui um valor intrínseco e desfruta de
de Direitos Humanos, vol. 4 n° 7, São Paulo uma posição especial no universo”, pois “[a]s
2007, p. 28; Disponível em: < http://www. coisas que têm preço podem ser substituídas
scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid por outras equivalentes. Mas quando uma
=S1806-64452007000200003>; Acesso em coisa está acima de todo preço e não pode
08/03/2015. ser substituída por outra equivalente, ela tem
4 Relevante observar que, no plano constitucional, dignidade. Assim é a natureza singular do ser
os direitos humanos geralmente são humano”.
denominados direitos fundamentais, sendo 9 Tomando por referência os países nos quais a
esta, no meu entender, muito mais uma globalização se faz sentir de forma diferente, o
distinção doutrinária e de técnica legislativa, sociólogo Boaventura de Sousa Santos (2005,
pois certamente os direitos fundamentais em p. 55/6) entende que o “este termo só deveria
essência são direitos humanos, assim como ser usado no plural”, pois “enquanto feixes
os chamados direitos humanos não deixam de relações sociais, as globalizações envolvem
de ser direitos fundamentais. Para um maior conflitos e, por isso, vencedores e vencidos”.
aprofundamento sobre a categoria direitos 10 Segundo o Mapa da Violência 2014, “as taxas de
fundamentais vide FERRAJOLI, Luigi. Por uma homicídio na população jovem passam de 19,6
teoria dos direitos e dos bens fundamentais. em 1980 para 57,6 em 2012 por 100 mil jovens,
Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, o que representa um aumento de 194,2%, no
2011. restante da população, que denominamos não
5 A propósito do que se pode constatar até aqui, jovem, no mesmo período, passam de 8,5 para
interessante observar o que esclarece Maria 18,5 por 100 mil: crescimento de 118,9%. (...)
da Glória Gohn: “[a] despeito de inúmeras As taxas juvenis, em 2012, mais que triplicam
interpretações que atribuem as conquistas as do resto da população. Fica evidente que
realizadas às elites, por serem esclarecidas ou os homicídios juvenis explicam uma parcela
maquiavélicas, antecipando-se aos conflitos e significativa do crescimento da violência no
decretando regras de controle social por meio período. Em 2012, os jovens de 15 a 29 anos de
dos políticos, foram as lutas dos trabalhadores, idade representavam 26,9% do total dos 194,0
pertencentes às camadas populares ou média da milhões de habitantes do país, mas foram alvo
população, que conquistaram as leis surgidas. de 53,4% dos homicídios”. Esse cenário se

88
A Consolidação dos Direitos Humanos: Apontamentos Acerca do Processo Histórico
e de Aspectos Teórico-Práticos Atinentes à sua Efetivação
mostra ainda mais grave quando observamos mais jovens negros que brancos) para 168,6%
as estatísticas fazendo um recorte racial, em 2012, o que representa um aumento de
senão vejamos: “Entre os anos 2002 e 2012, 111% na vitimização de jovens negros”. [grifei]
a tendência nos homicídios segundo raça/cor (WAISELFISZ, 2014, pp. 177/184).
das vítimas foi unívoca: queda dos homicídios 11 Foram estabelecidos como “Objetivos do
brancos – diminuem 24,8% – e aumento dos Milênio”: I. Erradicar a pobreza extrema
homicídios negros: crescem 38,7%. Tomando e a fome; II. Garantir educação básica de
em consideração as respectivas populações, qualidade a todas as crianças em idade escolar;
as taxas brancas caem 24,4% enquanto as III. Promover a igualdade entre os sexos e a
negras aumentam 7,8%. Com isso o índice de autonomia da mulher; IV. Reduzir a mortalidade
vitimização negra total passa de 73,0 % em infantil; V. Melhorar a saúde das gestantes; VI.
2002 (morrem proporcionalmente 73% mais Combater a aids, a malária e outras epidemias;
negros que brancos) para 146,5% em 2012, VII. Garantir a proteção ao meio ambiente;
o que representa um aumento de 100,7% na VIII. Estabelecer uma parceria mundial para o
vitimização negra total. (...) Entre os jovens desenvolvimento.
a situação é mais preocupante: o número de
vítimas brancas cai 32,3%. O número de vítimas 12 Fonte: Nações Unidas no Brasil; Disponível em
jovens negras aumenta 32,4%: diametralmente <http://nacoesunidas.org/sinto-vergonha-raiva-
oposto. As taxas brancas caem 28,6% enquanto e-frustracao-com-a-impotencia-da-comunidade-
as negras aumentam 6,5%. Com isso, o índice internacional-em-parar-a-guerra-siria-diz-chefe-
de vitimização negra total passa de 79,9% da-onu-no-kuwait/>; Acesso em 31/03/2015.
em 2002 (morrem proporcionalmente 79,9%

89
DIREITOS HUMANOS E A CORTE INTERNACIONAL
DE JUSTIÇA: UM ESTUDODE CASO SOBRE A
APLICAÇÃO DA CONVENÇÃO DE GENOCÍDIO PELA CIJ

Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva


Professor Doutor, de Direito Penal e Direito Internacional na Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais e na Universidade Federal de Minas Gerais.

Roberta Cerqueira Reis


Doutoranda em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais; Mestre em Direito Internacional
pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

RESUMO and how they can influence the construction


of their memories and overcoming trauma
Este artigo visa a discutir as especificidades and rebuilding social tissue. We revise how
de um julgamento internacional envolvendo International Courts specialized in Human
graves violações de Direitos Humanos e a Rights and International Criminal Tribunals
maneira como o judiciário internacional aborda have been dealing with the matter so that we
a questão, notadamente, a Corte Internacional can, finally, address the International Court of
de Justiça. Discute-se a importância do Justice. In conclusion, there is a case study of
judiciário no reconhecimento das vítimas e a sua the trials before the ICJ regarding violations to
influência na formação da memória do conflito, the genocide convention in the dissolution of
podendo (ou não) contribuir para a sua superação the former Yugoslavia, case Bosnia vs. Former
e recomposição do tecido social. Realiza-se uma Yugoslavia (Serbia) and Croatia VS. Serbia.
breve revisão sobre como o assunto é tratado
nas Cortes especializadas em Direitos Humanos Keywords
e pelos Tribunais Penais Internacionais para,
finalmente, analisar como a Corte Internacional Memory; recognition; genocide;
de justiça trabalha a questão. Ao final tem-se International Court of Justice; Balkans.
um estudo de caso envolvendo o julgamento
pela Corte Internacional de Justiça da demanda 1. INTRODUÇÃO
Bósnia VS. Iugoslávia (Sérvia) e Croácia VS. Sérvia A justiça internacional tem sido colocada,
discutindo o descumprimento da Convenção muitas vezes, como condição para a paz. A
de Genocídio no contexto da dissolução da Ex- própria Carta das Nações Unidas, em seu
Iugoslávia. preâmbulo, sugere essa ideia de uma justiça que
supera o uso da força.
Palavras chave Com base neste sonho de uma justiça
Memória; reconhecimento; genocídio; internacional que aplaque a necessidade de os
Corte Internacional de justiça; Balcãs Estados recorrerem ao uso da força houve um
crescimento significativo do número de cortes
ABSTRACT e tribunais internacionais, especialmente
vinculados ao tema de direitos humanos, como
This paper addresses the specificities
os Tribunais Penas Internacionais, os Tribunais
of international trials of gross human rights
híbridos, as Cortes Regionais de proteção dos
violations and how international courts
Direitos Humanos e muitos outros.
approach this issue, notably, the International
Court of Justice. We discuss the importance Os adeptos deste pensamento defendem
of international trials in recognizing victims que apenas um julgamento pode ser capaz

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Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

de colocar fim aos sentimentos de vingança pretender construir um relato histórico, mas
privados. “Criminalizar a guerra, acrescentam, simplesmente apurar condutas individualizadas.
torna-a ainda mais terrível”1. Este sentimento de Pretendemos, neste artigo, criticar essa
paz pela justiça alimenta o sonho do direito que visão tradicional do papel de um julgamento.
supera a violência. Partimos da premissa de que um julgamento
A incapacidade da justiça internacional em internacional faz muito mais que apenas
prevenir ou impedir catástrofes humanitárias destacar fatos de uma história consumada. Não
tem causado ceticismo com relação às promessas existe história consumada. O julgamento está
de um direito que supere a força. Tenta-se inserido nesta história e a constrói. Ele não está
fortemente separar o direito internacional da a posteriori.
política internacional e isto tem impossibilitado O processo judicial se concentra em
uma compreensão mais ampla da capacidade determinar condutas típicas ou violações a
de um julgamento internacional, esvaziando de tratados, perdendo de vista seu papel enquanto
significado as cortes internacionais. narrador de uma memória que irá determinar
A ideia de que ao Direito compete julgar e à a construção daquela sociedade. O olhar
política agir parte do pressuposto de que a justiça excessivamente preso ao passado faz perder de
se apresenta a posteriori, depois que os eventos vista o significado do ato de julgar para o futuro.
já se desenrolaram e apenas cumprem o papel Entendemos que o juiz ao narrar os fatos o
de destacar fatos atomizados do contexto de faz de uma perspectiva completamente diversa
uma histórica consumada. A justiça se sentaria daquela do historiador. Cria-se, no bojo do
na confortável cadeira do post facto e daria uma processo uma narrativa acerca do conflito e nesta
conotação moral aos fatos históricos. criação o tribunal age politicamente. A escolha
A abordagem minimalista de que o direito de fatos, de testemunhas que serão ouvidas
deve se ater apenas à aplicação da lei (law, nothing e dispensadas, a ordem das provas, tudo isso
but the law) angariou adeptos juristas e políticos. são escolhas que terão repercussões políticas.
O julgamento não deve pretender escrever A justiça internacional constrói realidade
história, para não perder sua objetividade. Além discursivamente ao alinhar os fatos de forma A
disso, argumentam os críticos, a história escrita ou B e, neste sentido, age politicamente3.
nos tribunais é limitada e míope devido às Questionamos essa percepção de que os
limitações típicas do procedimento judicial. julgamentos internacionais não interfiram no
Hannah Arendt2 deixa essa posição clara caminhar da história, eles são responsáveis
em seu livro emblemático, Eichmann em pela construção de uma narrativa e formulação
Jerusalém, quando critica fortemente a posição de uma memória que irá definir as decisões e
da promotoria que falava em nome das vítimas o curso daquela sociedade. Sugerimos que os
e julgou todo o nacional-socialismo na figura de julgamentos moldam o futuro e são responsáveis
Eichmann. Em Responsabilidade e Julgamento a pela reconstrução social.
filósofa postula: As Cortes e os juízes, muitas vezes,
Pois como os juízes se deram o trabalho preocupam-se com questões que não guardam
de apontar explicitamente, na sala de nenhum compromisso com a memória, as
um tribunal não está em julgamento vítimas ou mesmo com a verdade. A necessidade
um sistema, uma história ou tendência de manutenção de precedentes jurídicos,
histórica, um ismo, o antissemitismo, determinar a extensão da competência da
por exemplo, mas uma pessoa, e se o réu própria corte ou mesmo promover a carreira
é por acaso um funcionário, ele é acusado individual do juiz, são questões que perpassam
precisamente porque até um funcionário os julgamentos e interferem na narrativa e na
ainda é um ser humano, e é nessa qualidade
seleção das cenas (o que inclui a seleção de
que ele é julgado.
quais testemunhos serão colhidos e quais serão
O julgamento deve se ater às provas dispensados)4.
e testemunhas e não se aventurar em Este artigo se lança a discutir a importância
relatos históricos que não dizem respeito à dos julgamentos internacionais para a
ação individual do réu. Um julgamento se construção da memória dos conflitos, propondo
diferenciaria das Comissões da Verdade, por não uma ideia de reparação para as vítimas5 que

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Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

podem ser reconhecidas em uma arena política (ONU) ao final da Segunda Guerra Mundial,
que lhes possibilita uma reconciliação com o garantindo um fórum de debate e a possibilidade
passado, superação do trauma e a chance de de solução de controvérsias que não envolvesse
reconfiguração da memória do conflito. o uso da força.
Este debate, por sua vez, não é algo A ONU representou uma guinada dos
verdadeiramente novo, ele tem sido realizado Estados em prol da relativização da ideia de
no âmbito das chamadas cortes especializadas soberania, antes vista como inviolável. A própria
em Direitos Humanos (Corte Interamericana de estrutura da Organização demonstra que se
Direitos Humanos, Corte Europeia de Direitos colocou certo limite ao poder soberano dos
Humanos, Tribunais Penais Internacionais, Estados que não mais podem agir livremente
etc). No entanto, pretendemos com este artigo dentro de seus territórios, ignorando as suas
levar esta discussão para um terreno mais árido, obrigações internacionais e a necessidade de
a Corte Internacional de Justiça, onde o tema de proteção dos indivíduos.
Direitos Humanos ainda é tratado com algum Para Cançado Trindade6:
estranhamento.
Adentramo-nos, pois, definitivamente
Cientes da complexidade do feito não
na era dos direitos humanos, na qual
temos pretensão de exaurir o assunto e, mais Estado algum pode deixar de responder
ainda, pretendemos trazer o debate a um caso pelo tratamento dispensado a seus
concreto julgado pela Corte: Caso Croácia VS. habitantes. Longe de recair em seu domínio
Sérvia, no qual se discutiu o descumprimento da reservado, como se invocava no passado,
Convenção de Genocídio. é essa hoje uma matéria de interesse
O caso escolhido sinaliza para a importância reconhecidamente legítimo por parte da
comunidade internacional.
do debate aqui proposto. A CIJ é a principal
Corte do sistema internacional e a tendência é A era dos direitos humanos inaugurou a
que seja, cada vez mais, chamada a decidir casos perspectiva de que a proteção internacional dos
envolvendo violações de Direitos Humanos. indivíduos deve suplantar a proteção do Estado
Como teremos a oportunidade de detalhar logo enquanto instituição que, na vasta maioria das
nas linhas iniciais deste trabalho, o Direito vezes, é conivente ou comete grandes atrocidades.
Internacional dos Direitos Humanos avançou As pessoas devem ser protegidas pelo simples
imensamente no pós-Segunda Guerra Mundial fato de pertencerem à raça humana e não
e a tendência é que continue a crescer. por pertencerem ao Estado A ou B, uma ideia
O debate do papel da CIJ como Corte de universalista, contida no preâmbulo da Carta da
Direitos Humanos deverá ser enfrentado pelos ONU e que ganha destaque no chamado Direito
estudiosos do Direito Internacional mais cedo Internacional dos Direitos Humanos.
ou mais tarde. Todos os principais tratados de O Direito Internacional dos Direitos
Direitos Humanos elegem a CIJ como foro para Humanos é um ramo autônomo do Direito
discutir as suas violações, este é o caso, veremos Internacional que se baseia na lógica de proteção
em detalhes, da Convenção de Genocídio. dos indivíduos e não dos Estados7.Todo o
Discutir participação de vítimas e arcabouço normativo que compõe a disciplina
construção da memória no âmbito da CIJ poderá deve ser interpretado de modo à realização
soar a alguns leitores algo excêntrico e fora de desta proteção que se aperfeiçoa no acolhimento
lugar. No entanto, ousamos trazer estas linhas internacional dos indivíduos que sofreram com
e propor um olhar humanizado para o Palácio a violência perpetrada por Estados ou indivíduos
da Paz. agindo em seu nome.
Não se trata da regulamentação de uma
2. A INESCAPÁVEL RELAÇÃO ENTRE relação entre iguais, mas sim da proteção do elo
O DIREITO INTERNACIONAL DOS mais fraco da cadeia, remediando o desequilíbrio
DIREITOS HUMANOS E AS VÍTIMAS entre o Estado e o indivíduo. “No presente
domínio deste direito de proteção, as normas
DE VIOLAÇÕES jurídicas são interpretadas e aplicadas tendo
A busca pela paz foi o grande motivador sempre presentes as necessidades prementes de
para a criação da Organização das Nações Unidas proteção das supostas vítimas.”8

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Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

A categoria humana e o indivíduo se ou está sendo cometido um crime da


inseriram no debate interestatal9 angariando competência do Tribunal;
às vítimas acessos diversos aos mecanismos
b) O caso é ou seria admissível nos termos
internacionais de proteção como no caso do artigo 17; e
dos direitos de petição contidos no Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos e no c) Tendo em consideração a gravidade
Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, do crime e os interesses das vítimas, não
Sociais e Cultura, ambos de 1966 e seus existirão, contudo, razões substanciais para
Protocolos Facultativos. crer que o inquérito não serve os interesses
da justiça.
O sistema de petição individual permitiu ao
Direito Internacional amparar aqueles que não De igual modo, a centralidade da participação
podem buscar suporte em seus próprios Estados das vítimas nos procedimentos perante a Corte
exercendo sua função de proteção de forma mais Interamericana de Direitos Humanos fez com
contundente. Se retomarmos a ideia de que o que o Regulamento Interno da Corte trouxesse 69
objetivo de criação do Direito Internacional (sessenta e nove) menções às vítimas, permitindo
é a possibilidade de uma paz e superação dos sua interveniência direta nos procedimentos,
conflitos, percebemos que o Direito Internacional conforme previsão do artigo 25, 1.
dos Direitos Humanos tem buscado esse feito
1. Depois de notificado o escrito de
por intermédio da introdução da vítima no
submissão do caso, conforme o artigo 39
sistema internacional. deste Regulamento, as supostas vítimas ou
A proteção das vítimas pelo Direito seus representantes poderão apresentar de
Internacional dos Direitos Humanos tem se forma autônoma o seu escrito de petições,
expressado, de um ponto de vista judicante, argumentos e provas e continuarão atuando
principalmente nas Cortes Regionais de dessa forma durante todo o processo.
proteção dos Direitos Humanos (como a Corte
A participação das vítimas no sistema da
Interamericana, Europeia e a recém-criada Corte
Corte Europeia de Direitos Humanos é ainda
Africana) e Tribunais Penais Internacionais.
mais significativa ao permitir o peticionamento
Estes foros especialmente desenvolvidos direto dos indivíduos que sofreram violações,
para a proteção dos Direitos Humanos têm conforme artigo 34 da Convenção Europeia de
baseado sua jurisprudência e sua orientação Direitos Humanos que instituiu a Corte:
de modo geral na figura da vítima através de
uma efetiva participação dos sobreviventes Petições individuais. A corte poderá receber
nos processos judiciais. A título de exemplo, petições de qualquer pessoa, organização
o Tribunal Penal Internacional traz em seu não governamental ou grupo de indivíduos
reclamando serem vítimas de violação por
Estatuto 38 (trinta e oito) menções às vítimas,
qualquer das altas partes contratantes dos
incluindo a possibilidade de participação direta direitos estabelecidos nesta Convenção
dos sobreviventes nos processos. O interesse das ou em seus protocolos. As altas partes
vítimas será considerado, de acordo com o artigo contratantes se comprometem a não
53 do Estatuto do Tribunal Penal Internacional, obstaculizar de qualquer maneira o efetivo
inclusive para a abertura de inquéritos: exercício deste direito.

Artigo 53 Esta guinada para um viés de proteção dos


indivíduos no sistema internacional, através da
Abertura do Inquérito
figura de proteção das vítimas, sinaliza para o
1. O Procurador, após examinar a papel desempenhado pelo Direito Internacional
informação de que dispõe, abrirá um na busca por uma resposta para o sofrimento
inquérito, a menos que considere que, nos das vítimas de violações de direitos humanos
termos do presente Estatuto, não existe cometidos pelos Estados.
fundamento razoável para proceder ao
Ao abraçar as vítimas e lhes oportunizar
mesmo. Na sua decisão, o Procurador terá
em conta se: a reparação por um mal sofrido pelas mãos
do Estado o Direito cumpre sua função
a) A informação de que dispõe constitui apaziguadora e aplaca os desejos de vingança e
fundamento razoável para crer que foi, de revolta que na maioria das vezes impossibilita

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Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

a reestruturação de uma determinada sociedade. um órgão judicante e busca, justamente, aplacar


O Direito Internacional dos Direitos Humanos estes sentimentos através da possibilidade de
ao dar voz às vítimas reequilibra a equação dar voz à vítima e chance de que a mesma se
Estado/indivíduo e devolve a força do direito. confronte com o Estado violador (ou indivíduo
Ao se debruçar na necessidade de violador).
recuperação da vítima e de seu sofrimento as Além disso, as reparações, muito mais
Cortes de Direitos Humanos têm se orientado que a indenização, pecuniária envolvem uma
para uma visão que extrapola a simples noção obrigação de fazer dos Estados, seja a obrigação
de retribuição normalmente atribuída aos de investigar e julgar o caso internamente
órgãos jurisdicionais. A importância de todo o (como a sentença do caso Julia Lund na Corte
procedimento, ao final, é a reparação das vítimas Interamericana), seja através da necessidade de
que efetivamente tiveram os seus direitos se desenvolver políticas públicas que impeçam
violados. que os eventos se repitam.
A reparação parte do pressuposto de que as A vítima (ou seus familiares) têm seu
vítimas não esperam apenas uma indenização sofrimento reconhecido e levado em consideração
ou a condenação de seus algozes. Mais que isso, por um órgão judicante internacional que lhes
as vítimas esperam ser reconhecidas e ter seu ampara e lhes franqueia a justiça buscada.
sofrimento apresentado ao mundo. As vítimas O respeito às vítimas permite uma chance
querem reparação pelo mal que sofreram e não de reconciliação entre os indivíduos e seus
necessariamente a retribuição desse mal. Estados (ou seus agentes) de modo a favorecer
No caso da Corte Interamericana a o restabelecimento da paz e a superação do
reparação tem sido aplicada hodiernamente conflito que, em primeira e última instância, é a
através das obrigações de promover políticas razão de ser do Direito Internacional
públicas que evitem que o mesmo evento volte Infelizmente, ao saímos do arcabouço das
a ocorrer. Foi o caso, por exemplo, da família Cortes criadas especificamente para a promoção
de Damião Ximenes Lopes que guardava um dos Direitos Humanos, a participação das vítimas
senso de justiça e a necessidade de que o Brasil nos processos internacionais tem provocado
demonstrasse respeito pela sua dor. Nas palavras controvérsia entre os acadêmicos e praticantes
da irmã de Damião Ximenes, citada pelo juiz do Direito Internacional principalmente por
Antônio Augusto Cançado Trindade em seu tocar no infindo debate sobre a condição do
voto separado10: indivíduo como sujeito ou não de direitos no
sistema internacional.
(...) Como irmã mais velha, eu cuidava
de certa forma dele, (...) o acompanhava, A doutrina tradicional tem batido o martelo
o levava para minha casa, o visitava. (...) na questão entendendo que os indivíduos não
A minha relação com ele era a melhor podem ser considerados sujeitos de direito
possível, mais do que irmã, um pouco mãe internacional público, por faltar-lhes capacidade
também. (...) Eu o vi já no caixão, pronto jurídica para firmar tratados, nos termos
para o sepultamento. (...) Pude observar das Convenções de Viena sobre Direito dos
várias marcas de tortura. (...) Ele havia Tratados de 1969 e 1986, que garantiram tal
sido espancado. (...) [Tudo isto] me deixou
prerrogativa apenas aos Estados e Organizações
chocada, me deixou aterrorizada, eu tive
muitas e muitas noites de pesadelos (...).
Internacionais Governamentais.
Fiquei aterrorizada (...). Eu sentia dor Este pensamento se difundiu com o
no peito, mas não era dor que lacerava positivismo jurídico, sobretudo no século XIX,
o coração, mas a minha alma. (...) [O como uma reação ao jusnaturalismo de Hugo
ocorrido] ainda hoje tem efeito, (...) são seis Grotius e Francisco de Vitória que claramente
anos de desespero por justiça. (...) Entrei permearam a origem do Direito Internacional. O
em uma grande luta por justiça (...). Eu tive
positivismo rompeu com a lógica jusnaturalista e
três anos de depressão, (...) viajei muito em
busca de justiça (...)
garantiu o protagonismo dos Estados no sistema.11
A valorização do Estado no Direito
A irmã de Damião não esperava receber Internacional orientou a criação do Tribunal
indenização, pecúnia. Ela espera reconhecimento. Permanente de Justiça Internacional em 1920
Ter seu sofrimento reconhecido pelo Estado que que afirmou a ideia de que os Tratados não
o promoveu. A reparação é algo possível para

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seriam aplicáveis aos indivíduos, mas sim aos maioria das vezes, descompromissadas com a
Estados. realidade das vítimas dos conflitos.
A jurisprudência pró Estado do Tribunal A produção acadêmica, doutrinária
Permanente teve continuidade quando da sua e jurisprudencial que tem demonstrado a
substituição pela Corte Internacional de Justiça importância da reconstrução social para a
(CIJ) que herdou toda a estrutura institucional superação efetiva dos conflitos, não tem
de seu predecessor, inclusive a exclusividade aparecido nas decisões da Corte. Principalmente
dos Estados para demandar esculpida no artigo se considerarmos que boa parte da produção
34.1 do seu Estatuto: “Só os Estados poderão ser acadêmica tem se voltado para o estudo do
partes em questões perante a Corte”. papel das vítimas nesta reconstrução. Não basta
A Corte Internacional de Justiça sediada no reconstruir prédios, precisamos reconstruir
Palácio da Paz, na Haia ergue-se em um grande pessoas, relembrando o belo ditado libanês13. A
monumento dedicado ao Direito Internacional. paz, tão cara ao direito internacional, não tem
A CIJ é o mais importante órgão jurisdicional do tido lugar no grande Palácio da Carnegieplein.
Sistema das Nações Unidas, tendo seu Estatuto Reconhecer o papel da vítima para a
como anexo da Carta da ONU. A maneira como superação dos conflitos não significa negar a
sua jurisprudência se desenvolve atrai a atenção centralidade dos Estados no sistema. São eles os
de todo o sistema internacional, tratando-se de atores por excelência. O indivíduo se projeta no
um importante peso no cálculo custo-benefício sistema internacional por meio de seu vínculo
dos Estados no que toca o cumprimento ou não de nacionalidade, de modo que as demandas
de tratados internacionais perante a CIJ que envolvem os direitos de
A Corte, herdeira de uma tradição alguém individualmente acabam se tornando a
positivista em que o protagonista das demanda do Estado de sua nacionalidade. Este,
relações internacionais é o Estado, zela pelo por exemplo, foi o caso da demanda envolvendo
tradicionalismo e estabilidade jurídica por meio a República da Guiné e a República Democrática
da previsibilidade de suas decisões. do Congo, que discutiu a extradição do Sr.
Ahmandou Sadio Diallo na Corte Internacional
O tradicionalismo da Corte e sua
de Justiça.
orientação pró-Estado tem se confrontado com
a mudança paradigmática descrita por Cançado Não tem sido incomum que a Corte
Trindade12 como a era dos Direitos Humanos. Internacional de Justiça se depare com casos
Houve um aumento significativo do número de como o Diallo em que os direitos de indivíduos
Tratados que envolvem o tema da proteção dos e nacionais de Estados partes na demanda estão
indivíduos, inclusive tratados como os já citados em pauta. Em retrospectiva breve podemos citar
em que é permitido o acesso direto das pessoas os seguintes exemplos14: Disputa fronteiriça entre
à jurisdição internacional (direitos de petição). Burkina Faso e Nigéria que envolveu os direitos
de povos nômades; Caso Bélgica e Senegal sobre a
O sistema internacional, dinâmico, mudou
Convenção contra a Tortura (CAT); Caso Georgia
radicalmente sua orientação desde 1920 quando
e Rússia sobre a Convenção sobre a Eliminação
foi criado o Tribunal Permanente de Justiça
de todas as formas de discriminação racial; Caso
Internacional. O poder do Estado, desde o final
Alemanha e Itália com interveniência da Grécia
da 2ª Guerra Mundial sofreu limitações e os
em que se envolveu a imunidade do Estado
indivíduos, como vimos, receberam proteção
alemão para os pagamentos de indenizações
internacional.
às vítimas italianas e gregas; Caso Bósnia vs.
O anacronismo de decisões baseadas Sérvia e Montenegro, e Croácia vs. Sérvia, ambos
em uma orientação jurisprudencial arcaica e envolvendo a aplicação da Convenção sobre
excessivamente protetiva dos Estados tem gerado Genocídio; entre vários outros.
um descompasso entre a Corte e o mundo.
Infelizmente a maneira como a Corte
O Palácio da Paz, casa da justiça e do direito
tem se comportado ao julgar as demandas que
internacional, tem visto ecoar em seus belos e
envolvem temas de Direitos Humanos não
suntuosos salões, demandas que envolvem um
necessariamente tem sinalizado para uma
clamor de proteção jurídica para os indivíduos,
evolução do Direito Internacional dos Direitos
obtendo como resposta decisões tímidas e, na
Humanos.

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Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

A CIJ tem julgado, de um modo geral, tem sido trazida a debate perante a CIJ com
demandas que envolvem Direitos Humanos com certa frequência e embaraço, demonstrando a
a mesma orientação dada a tratados comuns, necessidade de se repensar, com urgência, qual
esquecendo-se da especificidade da matéria e é o papel da Corte na busca pelos objetivos
de toda a construção acadêmico-doutrinária e esboçados na Carta da ONU e em seu Estatuto.
jurisprudencial das cortes específicas de Direitos
Humanos, como as dos sistemas regionais e 3. A CONVENÇÃO DE GENOCÍDIO
demais tribunais que lidam na área, como os (1948) E A CORTE INTERNACIONAL
tribunais penais.
DE JUSTIÇA
Existem, felizmente, alguns lampejos
em que a Corte se permite alguma abertura à A Convenção para Prevenção e Repressão
jurisprudência das Cortes especializadas, como do crime de genocídio, firmada em 1948, desde o
no caso Diallo em que pela primeira vez em sua momento de sua elaboração teve como objetivo
história a CIJ se referiu à jurisprudência da Corte e finalidade a proteção de grupos e indivíduos.
Interamericana e da Corte Europeia de Direitos Nos trabalhos preparatórios da Convenção, este
Humanos. telos se tornou explícito quando se discutiu a
No caso Diallo a Corte deu um passo além possibilidade de os Estados fazerem “reservas”
ao abraçar seu papel de proteção dos indivíduos à Convenção. De acordo com os comentários
e buscar promover a reparação devida em feitos no draft da Convenção:
decorrência de todo o sofrimento enfrentado No presente estágio do trabalho
pelo Sr. Diallo, nacional da Guiné, que possuía preparatório, há dúvida com relação a
vastas propriedades no Congo, tendo vivido no reservas serem permitidas ou se será
país por mais de trinta anos e se tornado credor incluído um artigo relacionado a reservas
do Estado. Após sua decisão de cobrar as dívidas nesta Convenção. Nós nos restringiremos
do governo congolês o Sr. Diallo foi expulso do aos seguintes apontamentos: 1)Nos parece
Congo e teve toda a sua considerável propriedade que reservas de modo geral não têm lugar
em uma Convenção desta natureza que não
confiscada pelo Estado.
lida com os interesses privados dos Estados,
A Corte determinou que as indenizações mas com a preservação de elementos da
fossem pagas diretamente ao Sr. Diallo pessoa ordem internacional (...)
que efetivamente sofreu os danos de confisco de
sua propriedade e expulsão injusta da terra onde A Assembleia Geral das Nações Unidas,
viveu por mais de trinta anos. em 1951, formalizou consulta perante a Corte
Internacional de Justiça a respeito da possibilidade
Ao determinar que o pagamento fosse
de se fazerem reservas à Convenção, resultando
efetuado à vítima e não ao Estado demandante
na célebre Opinião Consultiva sobre o tema que
a Corte assume a jurisprudência das Cortes de
representou a primeira orientação jurisprudencial
Direitos Humanos e a ideia de reparação das
no sentido de que a Corte possui a máxima
vítimas, extrapolando uma visão estadocêntrica.
importância na interpretação e consolidação da
O fato de a CIJ não ser uma corte Convenção de Genocídio. Esta centralidade da
exclusivamente voltada à promoção dos direitos Corte está inclusive estampada no artigo IX da
humanos (como a Corte Interamericana), não Convenção que prevê explicitamente de quem
significa que ela também não o possa ser quando é a competência para a apreciação de casos de
for submetido à apreciação um caso de violação violações dos seus ditames.
de direitos dos indivíduos como o caso Diallo
bem demonstra. Art. IX - As controvérsias entre as Partes
Contratantes relativas à interpretação,
Lamentavelmente, o avanço verificado no aplicação ou execução da presente
caso Diallo não tem se sustentado em todas as Convenção, bem como as referentes à
demandas envolvendo Direitos Humanos. Os responsabilidade de um Estado em matéria
dois casos mais célebres envolvendo a aplicação de genocídio ou de qualquer dos outros atos
da Convenção para a prevenção e repressão do enumerados no art. III, serão submetidas à
crime de genocídio (1948) provocou desgosto por Corte Internacional de Justiça, a pedido de
parte da doutrina do Direito Internacional dos uma das Partes na controvérsia.
Direitos Humanos e não sem razão. A Convenção

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Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

O papel central da Corte perante esta A própria data da Convenção, um dia antes
Convenção traz implicações extremamente da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
interessantes, especialmente se considerarmos sinaliza para a importância dada pelos Estados
a “divisão de trabalho” existente no Sistema a este instrumento como forma de proteger as
Internacional que tem compartimentado temas populações civis de todo o globo.
entre as diversas Cortes especializadas. A Corte Internacional de Justiça, portanto,
A Corte Internacional de Justiça, por ao ser lançada no artigo IX da Convenção como
exemplo, não é considerada uma corte de Direitos competente para julgamento das violações
Humanos. Como discutido, ela se orgulha em de seus artigos estará julgando um diploma
manter uma posição tradicionalista e orientada normativo básico do Direito Internacional dos
à preservação da vontade, o mais livre possível, Direitos Humanos, funcionando, portanto,
dos Estados (orientação voluntarista). Tudo isso mesmo que a contragosto, como uma Corte de
radicalmente oposto a todo o arcabouço doutrinário Direitos Humanos.
e jurisprudencial do Direito Internacional dos A existência das chamadas cortes
Direitos Humanos, essencialmente voltado à especializadas não retira da CIJ seu protagonismo
proteção dos indivíduos. para a apreciação da Convenção de Genocídio.
No entanto, esta separação entre o papel da A centralidade da Corte não significa, contudo,
Corte Internacional de Justiça e o das Cortes de que ela pode ignorar o trabalho já desenvolvido
Direitos Humanos se torna prejudicado quando pelas Cortes especializadas, notadamente,
a Convenção de Genocídio determina que a os Tribunais Penais Internacionais que já
competência para julgamento pertença à CIJ. trabalham o tema de genocídio de forma habitual
Afinal, a Convenção para genocídio tem sido e têm muito a contribuir para a avaliação da
incluída no rol das chamadas “core conventions”, Corte sobre a matéria.
ou convenções núcleo do sistema universal de A Convenção de Genocídio envolve uma
proteção dos Direitos Humanos. multiplicidade de temas do direito internacional,
A pertença da Convenção de Genocídio como o penal, os direitos humanos, a capacidade
na categoria de tratados de direitos humanos se dos Estados, sua sucessão (caso Iugoslávia e
justifica inclusive historicamente. A ocorrência Sérvia) e o direito dos tratados de modo geral.
do holocausto no curso da Segunda Guerra Não é possível uma avaliação purista e destacada
mundial, sem dúvida foi o grande motivador de uma matéria sem tocar nos demais temas.
para a mudança de paradigma no sistema O genocídio é um evento global que resvala
internacional, para uma atenção mais voltada em diversos tópicos de interesse do sistema
à proteção dos direitos humanos e limitação do internacional, não é possível julgar um item
poder soberano dos Estados. De mesmo modo, sem considerar a cena completa. Não é possível
o holocausto também foi o responsável pela considerar a Convenção de Genocídio como uma
cunhagem do termo genocídio, uma palavra convenção qualquer, esquecendo-se de seu papel
criada para descrever um fenômeno até então histórico na promoção dos Direitos Humanos.
sem precedentes históricos.15 A avaliação atomizada sem considerar
Através de uma dedução lógica podemos a especificidade dos casos de genocídio e dos
concluir que foi o genocídio o grande motivador do Direitos Humanos de modo geral, impede que
Direito Internacional dos Direitos Humanos no a CIJ possa avançar em sua jurisprudência,
pós-Segunda Guerra. Não tivesse Hitler chocado assumindo uma postura mais condizente com
o mundo com sua indústria da morte talvez os os preceitos da Carta da ONU de promoção da
Estados nunca se atentassem para a importância paz e da justiça internacional.
de controlar as políticas de atrocidade contra a A cooperação entre as Cortes internacionais
população civil. Seria, a nosso ver, um equívoco possibilitaria à Corte uma compreensão mais
lógico não considerar a Convenção de Genocídio ampla sobre o próprio fenômeno do genocídio
como um instrumento do Direito Internacional que, para sua ocorrência, demanda a conivência
dos Direitos Humanos. Não é possível falar do do Estado (por ação ou omissão) com grupos de
processo de internacionalização dos Direitos indivíduos que cometem o crime. A faceta da
Humanos sem referência ao genocídio da responsabilidade individual se complementa
Segunda Guerra. com uma responsabilidade do Estado.

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Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

A Convenção de Genocídio não é apenas um permitem o genocídio. A responsabilidade dos


tratado de direito penal, mas também deve Estados será, por óbvio, de natureza civil e não
ser entendida de forma mais compreensiva criminal, como ocorre aos indivíduos.
como um instrumento de direitos humanos.
Ambos, direito internacional penal e Além da Repressão, a Convenção também
direitos humanos são dois lados de uma postula a Prevenção ao Genocídio, atribuição esta
mesma moeda – a proibição do genocídio. que ninguém na doutrina jusinternacionalista
Eles se complementam como medidas para discute ser dirigida aos Estados e que tem
garantir a proibição do genocídio de forma deixado (e muito) a desejar.
efetiva. A noção coletiva do genocídio não
A Prevenção é a principal ferramenta do
nega seu caráter de direitos humanos.16
direito internacional para promoção da paz e
A existência de um viés voltado à a superação de conflitos. Os Estados são os
responsabilidade de indivíduos não exclui o principais responsáveis em garantir, por meio
relevante debate sobre responsabilidade dos da estabilidade de suas instituições, que atos de
Estados. “A análise da Convenção afirma que genocídio não ocorram em seus territórios. No
apesar do foco em sua faceta de direito penal, entanto, assistimos justamente as instituições
ela também traz obrigações que ultrapassam estatais envolvidas nos crimes. Um genocídio
a criminalização e punição, o que é bastante dificilmente ocorre sem que sinais anteriores
relevante para as disputas interestatais”17 sejam dados. As hostilidades entre os grupos,
geralmente, antecedem a violência física. Os
A própria Convenção de Genocídio de
Estados têm o dever de aplacar esses ânimos e
1948 possui um duplo viés: a repressão e a
não permitir que o conflito escale.
prevenção dos crimes de genocídio. A repressão
tem sido realizada por meio dos Tribunais Uma vez ocorrido um conflito que envolve
Penais Internacionais que dirigem sua atuação a ocorrência de genocídio o Estado precisa,
aos indivíduos que atuaram para a realização do novamente, assumir a responsabilidade de
crime, seja por “mão própria”, como mandantes apaziguar os grupos internos e garantir que todos
ou ainda por omissão. A responsabilidade convivam novamente no mesmo território.
criminal é atribuída a pessoas físicas que A reconstrução social pós conflito perpassa,
possuem dolo e não a entidades abstratas como como discutimos, o empoderamento e a
o Estado. reintegração das vítimas (e dos autores). São os
No entanto, a repressão dirigida meramente indivíduos prejudicados com a guerra que terão
aos indivíduos nos parece condescendente com a capacidade de reconstruir a comunidade. A
os Estados. O genocídio é um crime coletivo Corte Internacional de Justiça tem um papel
por natureza. Ninguém sozinho consegue nesta reconstrução, afinal, somente por meio
cometer genocídio, faz-se necessário um conluio desta recuperação das vítimas que se poderá
entre vários indivíduos. Estes conluios, por cogitar algum tipo de paz no território.
si, tampouco conseguem angariar a estrutura A memória do conflito e a das vítimas será a
necessária para a prática que normalmente base de reconstrução da sociedade. As narrativas
envolve: uma propaganda inflamante, a exclusão sobre o conflito embasam, em grande medida, a
das vítimas da comunidade política e imaginada18 história do Estado e a maneira como as decisões
e, por fim, uma matança generalizada e que não futuras serão tomadas. Não é sem motivo que
constitui crime perante o Estado onde ocorre. a memória do holocausto é constantemente
Parece bastante improvável que um celebrada na Europa, por meio de inúmeros
genocídio possa ocorrer sem que o Estado não monumentos, filmes, museus, existe até o dia
tenha, de alguma maneira, participado, ainda de relembrar o holocausto (27 de janeiro). A
que por omissão. A responsabilidade penal celebração desse evento garante que as pessoas
individual, portanto, tem liberado o Estado de não esqueçam e que suas decisões se pautem
suas responsabilidades perante a Convenção de naquela vivência.
Genocídio. O holocausto moldou o homem europeu
A CIJ surge, amparada pela competência do moderno e baseia, em grande medida, as
artigo IX da Convenção, como uma maneira de instituições sólidas em torno de uma estabilidade
responsabilização dos Estados que participam ou na região. A memória garante que os indivíduos
se reconheçam parte de uma história comum,

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Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

trágica, que os vitimizou, mas que eles Haia, interrompeu o curso de seu julgamento
superaram. pelos crimes de guerra e genocídio nos Balcãs. O
A justiça internacional possui um papel Tribunal Penal Internacional Ad-hoc para a Ex-
nesta equação histórica que garante a estabilidade Iugoslávia já havia emitido, até aquele momento,
ou a instabilidade pós-conflito. Se a Convenção setenta julgamentos das responsabilidades
de Genocídio possui como dever a prevenção do individuais dos envolvidos nos crimes.
genocídio e a Corte Internacional de Justiça tem Após tantos anos de espera, era imensa a
um dever na promoção da paz e superação de expectativa para ouvir a Corte Internacional de
conflitos, novo olhar deve ser lançado sobre o papel Justiça se pronunciar pela primeira vez quanto ao
da memória e das vítimas nos procedimentos mérito da Convenção de Genocídio e a limpeza
envolvendo a Convenção na CIJ. étnica noticiada amplamente por inúmeros meios
A Corte poderia com competência atuar de comunicação, especialmente pelo jornalista Roy
nos moldes de uma Corte de Direitos Humanos, Gutman20 que ganhou um prêmio Pulitzer com a
em que há uma abertura à participação das série de reportagens intitulada “Testemunha de
vítimas e preocupação concernente à memória Genocídio” (Witness to genocide).
e importância de estabilidade no local do Imensa foi a surpresa dos presentes na
conflito. No entanto, a ausência de participação sessão solene de leitura do Summary e das
das vítimas e desconsideração com o papel da inúmeras associações de vítimas que lotavam
memória continuam marcando os procedimentos o lado de fora do Palácio da Paz quando o
na CIJ. Recentemente o debate envolvendo presidente Higgens entoou:
a aplicação da Convenção de Genocídio pela
A Corte (…) (2) por treze votos a dois,
Corte reacendeu a discussão sobre seu papel na
promoção dos Direitos Humanos. Entende que a Sérvia não cometeu
Em 09 de fevereiro de 2015, houve a entrega genocídio, através de seus órgãos ou pessoal
final do julgamento do caso Croácia contra a cujos atos atraíssem sua responsabilidade
Sérvia e a demanda reconvencional da Sérvia o que sob o direito internacional costumeiro,
em violação às suas obrigações sob a
acirrou os ânimos dos estudiosos e praticantes do
Convenção para a Prevenção e Repressão do
Direito Internacional dos Direitos Humanos. A crime de genocídio. (CIJ, 2007, parágrafo
Corte repetiu os mesmos equívocos amplamente 471, tradução nossa)
debatidos quando do julgamento do caso da
Bósnia e Herzegovina VS. Sérvia e Montenegro, Nem mesmo sob a figura de conspiração ou
cuja sentença foi entregue em 2007. cumplicidade foi a Sérvia condenada pela CIJ:
Houve ampla repercussão, em grande (3) por treze votos a dois,
parte negativa, acerca das escolhas adotadas
na sentença e que gerou um contundente voto Entende que a Sérvia não conspirou para
dissidente do ilustre juiz Antônio Augusto cometer genocídio, tampouco incitou o
Cançado Trindade. cometimento de genocídio, em violação
às suas obrigações sob a Convenção para
a Prevenção e Repressão do Crime de
4. ESTUDO DE CASO: OS JULGAMENTOS Genocídio.
DO GENOCÍDIO NOS BALCÃS
(4) por onze votos a quatro,
O tempo da justiça não respeita o tempo
dos homens19. A sentença da Corte para o caso Entende que a Sérvia não foi cúmplice de
da Bósnia VS. Iugoslávia (Sérvia) foi entregue genocídio, em violação às suas obrigações
em fevereiro de 2007, mais de uma década após sob a Convenção para a Prevenção e
Repressão do Crime de Genocídio. (CIJ,
o ajuizamento da ação. Quando o presidente
2007, parágrafo 471, tradução nossa
Higgins fazia a leitura do Summary no grande
salão da justiça do Palácio da Paz o governo O ataque a Srebrenica, no entanto, foi
radical nacionalista sérvio já não estava no poder visto como genocídio pela Corte e a Sérvia foi
e a sangrenta guerra já fazia parte do passado. condenada por não ter se mobilizado para evitar
Nem mesmo Milosevic assistiu à decisão que o ataque ocorresse:
da Corte Internacional de Justiça. Sua morte,
em março de 2006, enquanto estava preso na

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Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

(5) por doze votos a três, entende que a Nem mesmo os esforços conjuntos do
Sérvia violou suas obrigações de prevenir o governo sérvio e bósnio em punir os violadores e
genocídio sob a Convenção para a Prevenção encontrar os inúmeros desaparecidos na guerra
e Repressão do Crime de Genocídio, no tem resultado em uma diminuição da tensão
que diz respeito ao genocídio ocorrido em
entre os povos, como demonstra o ataque com
Srebrenica em julho de 1995. (CIJ, 2007,
parágrafo 471, tradução nossa) pedras ao Primeiro Ministro da Sérvia durante a
celebração do aniversário do massacre noticiada
Apesar do reconhecimento do genocídio em pela BBC em 11 de julho de 201521:
Srebrenica e da inação da Sérvia em evitar seu
Triste, mas previsível, Sr. Vucic foi vaiado
cometimento, pelas mãos do general Mladic,
por muitos da multidão. Alguns até
comandante da JNA, a Corte não condenou a jogaram objetos enquanto ele prestava suas
Sérvia ao pagamento de reparações ao Estado da condolências no cemitério. O imã lembrou a
Bósnia, menos ainda considerou as inúmeras multidão de que era um momento de prece.
vítimas do país (ou mesmo as de Srebrenica): Mas a raiva ali permanece. (...) Enquanto
alguns cantavam “responsabilidade”e
(9) por treze votos a dois, “genocídio” outros continuaram jogando
objetos – relatos sugerem pedras, garrafas
Entende que, com relação às violações
de água e um sapato estão entre os itens
pela Sérvia das obrigações referidas nos
usados.
subparágrafos (5) e (7) acima, as conclusões
da Corte nestes parágrafos constituem A falta de participação das vítimas durante
a apropriada satisfação, e que o caso não
os procedimentos do caso Bósnia vs Sérvia
é para se determinar o pagamento de
compensação, ou, no que toca a violação e a maneira como a CIJ lidou com as provas
mencionada no subparágrafo (5), uma carreadas aos autos (e as não carreadas e que a
diretriz para se fornecer garantia de não Corte não buscou acesso embora tenham sido
repetição seria apropriada. (CIJ, 2007, referidas pelas partes) podem ter alguma relação
parágrafo 471, tradução nossa) com a falha solução jurídica apresentada e
seu total fracasso em reduzir as tensões locais
A impunidade da Sérvia em nada contribuiu e contribuir para uma efetiva superação dos
para amenizar a narrativa histórica entre os conflitos.
bósnio-sérvios que aponta para uma vitimização
histórica e nega a ocorrência (amplamente A decepcionante resposta da Corte no caso
documentada) do genocídio. A Corte perdeu da Bósnia, no entanto, não seria a última. A
uma oportunidade de mudar a narrativa deste Guerra nos Balcãs gerou nos anos 1990 uma
conflito, em prol de uma responsabilidade pelos segunda demanda perante a CIJ discutindo a
eventos ocorridos. Assumir a responsabilidade e aplicação da Convenção de Genocídio, dessa
honrar as vítimas seria uma forma de estabelecer vez trazida pela Croácia em 1999. A sentença
os pilares de uma paz duradoura nos Balcãs. do caso Croácia contra a Sérvia foi entregue
em 03 de fevereiro de 2015 e lamentavelmente
A Celebração, em 2015, dos vinte anos assistimos à reprodução do fiasco anterior.
de Srebrenica demonstrou a má construção da
memória do conflito na Bósnia e o abismo que O regime sérvio, amparado pela
continua separando os sérvios dos muçulmanos jurisprudência da CIJ, não reconhece a sua
no país. Diversos meios de comunicação participação e, muito menos, a existência
publicaram notícias que indicam isso, como o do genocídio nos Balcãs. Este fato político se
trecho da reportagem de 17 de julho de 2015 da escorou no direito para sua legitimação, mas
The Atlantic: não encontra nenhuma relação com as provas
analisadas pela Corte.
Na manhã seguinte, entrevistas com Os analistas e acadêmicos que se debruçaram
uma dúzia de bósnio-sérvios vivendo sobre o processo da Bósnia são unânimes em
próximo de Srebrenica produziu respostas
identificar que as provas são conclusivas de que
similares. Enquanto dezenas de milhares
de muçulmanos bósnios passavam para
era a República Federal da Iugoslávia (FRY) quem
comemorar os vinte anos do massacre, financiava as milícias radicais que cometeram
sérvios menosprezavam a reunião e a ideia as principais atrocidades. Todo o equipamento,
de que 8.000 mortos seria uma “farsa”, estrutura logística e treinamento era franqueado
“um circo”, e “faz de conta”. em Belgrado. Além disso, o general Mladic

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Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

que emitiu diversas ordens de ataques brutais por denunciar por um crime mais fácil de ser
contra a população civil respondia diretamente provado para garantir a condenação ou, ainda,
a Milosevic. fazer os acordos prévios (plea bargains).
A Corte aplicou, a nosso ver As provas, de um modo geral, foram
equivocadamente, o chamado “effective control tratadas de forma inadequada pela CIJ. Seja
test” (teste do controle efetivo), desenvolvido em por se exigir da Bósnia (e depois à Croácia) um
sua jurisprudência no caso Nicarágua vs EUA, elevado ônus da prova, impedindo seu acesso a
para verificar se havia ou não um controle efetivo diversos documentos que estavam em poder da
por parte da FRY das milícias. De acordo com o Sérvia, seja pela má utilização da jurisprudência
referido teste, o ônus recai sobre o Estado que do TPIY.
alega em provar que os perpetuadores tinham Aliado a isso, temos a desconsideração
o objetivo de cometer genocídio e que seriam dos inúmeros depoimentos das vítimas do
órgãos ou estavam sob o efetivo controle do conflito e a impossibilidade de sua participação
Estado acusado. Qualquer autonomia por parte nos procedimentos da Corte. Certamente,
dos autores derruba a tese de responsabilidade sua presença teria fornecido um panorama
estatal.22 geral capaz de comprovar a intenção genocida:
Um padrão tão elevado e exigente de prova destruição dos templos, a separação das famílias,
torna-se um importante limitador para o Estado os estupros generalizados, os assassinatos dos
demandante. A intenção e o controle tampouco homens, meninos e idosos, as deportações e o
podem ser demonstrados de forma global (no todo projeto de tornar as municipalidades atingidas
do conflito) mas sim, especificamente, para cada etnicamente puras.
caso em particular. O “controle geral” adotado No processo da Croácia, a testemunha
pelo TPIY no caso Tadic23 foi desconsiderado Katic, por exemplo, uma das poucas ouvidas
pela Corte por ampliar excessivamente a pela Corte compareceu na sessão do dia 05 de
responsabilidade dos Estados. março de 2014 e deu o seguinte depoimento:
Com o ônus sobre a Bósnia em demonstrar a
Era o dia 10 de novembro quando a JNA
intenção da Sérvia em cometer genocídio liberou
chegou na vila. A infantaria e os soldados
a Corte de analisar todas as municipalidades andavam em frente aos tanques. Eu nunca
atingidas no conflito, o que a teria franqueado havia visto nada como aquilo em toda
um panorama completo sobre a verdadeira minha vida, mas isso não é importante. O
intenção de formação da Grande Sérvia que que é importante é a minha experiência.
motivou os massacres. Aquilo era o fim. Eles derrubaram casa
Vários documentos que poderiam provar a por casa a tiro. Atrás do lugar onde estava
a corporação médica havia uma casa com
conivência de Belgrado para com os massacres
civis e eles entraram no porão e mataram
não estavam acessíveis para a Bósnia, como Dragica Gabric, que era Sérvia. Ela foi
por exemplo, as notas taquigráficas das sessões queimada viva e o marido dela, Janko,
do Conselho Superior de Defesa da Sérvia. O eles o levaram com eles. Eu não sabia para
pedido da Bósnia para que a Corte determinasse onde eles o estavam levando. (CIJ, Compte
a entrega do documento não foi atendido e, Rendu, volume 09, p. 20, tradução nossa)
mesmo assim, este fato não foi usado para
inverter o ônus da prova em desfavor da Sérvia.24 Este depoimento encontra-se coordenado
com os vários depoimentos constantes nos
Bastante criticado (e criticável), também, foi
anexos dos memoriais apresentados pela
a interpretação dada pela CIJ para o fato de que
Croácia no julgamento. Como, por exemplo, o
a promotoria do TPIY optou por não denunciar
depoimento da testemunha Z.L.:
diversos autores pelo crime de genocídio. A
Corte entendeu que isto sinalizaria para a não Eles trancaram 104 de nós em um hangar,
ocorrência do genocídio de forma generalizada. éramos na maioria mulheres, crianças e
Esqueceram-se, lamentavelmente, que no TPIY idosos. Os comandantes eram dos “Águias
apura-se a responsabilidade individual e não Brancas”26 (...). Pouco a pouco, à noite,
Estatal. Pode ocorrer de não haverem indícios do os Chetniks levavam nossos homens em
caminhões. Desta forma eles levaram vinte
mens rea25 daquele indivíduo, mas se analisado
e sete homens e ninguém mais soube deles.
no globo se perceba um padrão genocida. Além Minha irmã e eu dormíamos em camas de
disso, a liberdade do promotor lhe permite optar

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Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

palha no porão quando um Chetnik bêbado, Paul Ricoeur29 e as lacunas deixadas pela má
FKDPDGR 67(92 3(5,ý YHLR FRP XPD formação das memórias se tornam evidentes no
lanterna. Ele se aproximou e me sacudiu, depoimento da testemunha L.B.:
naquele momento eu senti a alma deixar o
meu corpo. Nós tínhamos de nos exercitar Eu acho que o assassinato dos Britvecs
todas as manhãs e então eles abusavam de ocorreu algumas semanas antes do
nós. (Memorial Croácia, volume 02, parte assassinato de seis pessoas idosas em
01, anexo 33, pagina 111, tradução nossa) %RVDQVNL .RYDĀHYDF SRUTXH DSyV XP
período, Bude me disse que eu não poderia
Ou ainda, a testemunha B.H. LUjLJUHMDGH6mR3HGURHP.RYDĀHYDFSRLV
ela havia sido queimada (...). Contudo,
Eles vieram naquela noite por volta de eu não estou seguro com relação ao que
meia-noite e foram embora por volta eu lhe disse porque eu não me lembro
das 4 da manhã. Eles bateram na porta e completamente de como os incidentes
ameaçaram matá-la. Como ela estava com ocorreram cronologicamente enquanto
medo ela abriu a porta. Vugdelija forçou eu estive em Crna Draga em 1991 e
a entrada e a agarrou pelo pescoço com 1992, devido ao fato de que eu estava
uma mão estrangulando-a e cobriu sua constantemente sob pressão e com medo,
boca e o nariz com a outra, sufocando-a. então eu não prestava muita atenção no
Ele buscava marcas alemãs e lhe disse que acontecia e quando, e eu não podia
que a mataria, cortaria ela em pedaços e anotar nada. Como consequência de tudo
a estupraria. Então ele a jogou na cama e o que eu passei, as vezes eu não consigo me
amarrou suas mãos nas costas. Naquele acompanhar (estou me referindo a minha
momento B não tinha ar e estava exausta e memória) e minha esposa pode confirmar
não conseguia mais se defender (...). Poucas isso.(Anexo 341 do Memorial da Croácia,
horas depois quando ela pode andar, ela volume 2, parte 3, p. 31, tradução livre)
correu nua e descalça por cerca de 300-400
metros até a casa dos vizinhos e parentes A vítima não consegue colocar os eventos
que testemunharam o drama que ela e o em ordem cronológica tendo em vista a natureza
marido passaram. (Memorial Croácia,
da experiência traumática que não é bem gravada
volume 02, parte 03, anexo 439, pp. 250-
251, tradução livre) na memória no momento de sua ocorrência.
O depoimento acima aponta para outra
Narrativas como estas se misturam a uma característica do trauma, mencionada por
infinidade de outras de igual teor que foram Caruth30 ao retomar a história freudiana do
apresentadas à Corte Internacional de Justiça, acidente de trem. Uma pessoa que sofre um
ao longo dos dezesseis anos de tramitação da desastre de trem não tem consciência do que
demanda envolvendo a Croácia e a Sérvia. Estes está havendo durante o acidente, ocorre uma
relatos de violência evidenciam a dificuldade “fuga”. A mesma fuga vivenciada pela vítima
em se estudar crimes contra a humanidade, L.B. que traduziu isso como se fosse uma “falta
genocídios, limpezas étnicas e demais massacres de atenção” nos eventos ou no momento em que
apenas a partir de uma perspectiva jurídica eles ocorriam.
positivista. A incredulidade com que a vítima de um
Um processo envolvendo a ocorrência de crime de genocídio se depara quando sofre a
genocídios demanda do juiz a sensibilidade e agressão tem ainda relação com a origem da
compreensão das implicações daquela causa violência. Normalmente a violência é cometida
do ponto de vista do trauma vivenciado pelos por indivíduos que elas já conhecem como
indivíduos e pela sociedade e as implicações vizinhos e, em alguns casos, pessoas que
deste trauma para a formação da memória social. eram suas amigas. Isto pode ser percebido em
O julgamento passa a fazer parte da história do depoimentos juntados pela delegação croata em
conflito, ao construir narrativamente a memória seus memoriais, como o de A.S.:
por meio do preenchimento das lacunas deixadas
Durante a conversa com Micá eu tentei
pelo trauma. O trauma prejudica a formação
falar normalmente de modo a convencê-lo
das memórias, pois abala as defesas psíquicas de que ele não precisaria fazer aquilo, afinal
da vítima interferindo no processo normal em eu o conheço pessoalmente e também à sua
que as memórias são gravadas27. A quebra do família, mas ele não recuperava a sua razão,
mecanismo mimese/muthos28 apontadas por ele começou a usar um linguajar vulgar, me

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Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

dizendo que eu era uma “prostituta ustasha Eu quis dizer o Exército da Iugoslávia que
e que eu deveria ser estuprada e depois tinha todo o apoio da população sérvia
morta” (...) (CIJ, Memorial da Croácia, local. Quem deu a eles o direito de entrar
volume 2, parte 1, anexo 126, p. 360, pacificamente na minha vila, destruir
tradução nossa) minha casa, matar meu irmão, arruinar
minha irmã, me privar de metade da
E o de D. I.: minha vidae matar tantos da minha vila.
Dez por cento dos vileitos em minha vila
Na foto Nº. 12 está uma pessoa que fez foram mortos. Quem lhes deu esse direito?
muitos coisas ruins em nossa vila e nós o (...) (CIJ, Compte Rendu, volume 9, p. 24,
chamamos de “Kristus”, o pai dele é Milos tradução nossa)
e o seu nome é Milan Dragicevic. Nós
tínhamos boa relação com estas pessoas Aliado à prova testemunhal, vem a vasta
antes. Estes eram pessoas locais que prova documental do memorial da Croácia,
chamaram os outros. As armas foram dadas
especialmente o documento juntado no volume
a eles pelo exército porque eles usavam
uniformes militares. (CIJ, Memorial da
4, anexo 14 que demonstra a orientação
Croácia, vol. 2, parte 2, anexo 208, p. 121, intelectual que amparou o nacionalismo sérvio.
tradução nossa) Em 1986 a Academia Sérvia de Artes e Ciências
lançou um memorando que contemplava as
A vítima vivencia, ainda, uma perda de demandas de construção da Grande Sérvia. Este
confiança nas instituições e no mundo. Existe documento ficou conhecido como a “Ideologia
uma dificuldade em aceitar que aconteceu, fato da Grande Sérvia” e conclui clamando para
extremamente comum entre os sobreviventes que todo o povo sérvio se unisse em prol da
do holocausto que não conseguiam separar o construção deste novo Estado. Em tradução livre
real e irreal,tendo em vista a abrupta inversão assim é parte da conclusão do documento:
de valores que se dá no contexto de conflitos.
Trata-se do que Primo Levi bem descreveu no A primeira exigência de nossa
transformação e renascimento é uma
sonho que lhe atormentou por toda sua vida
mobilização democrática de todas as
pós-Auschwitz31: Qual é a realidade? Auschwitz forças intelectuais e morais da nação, não
e o estado de exceção ou essa tênue e frágil paz apenas para realizar decisões tomadas por
que nos conforta e que pode acabar a qualquer nossos líderes políticos, mas também para
momento? desenvolver programas e mapear o nosso
Genocídios não ocorrem sem algum nível futuro de forma democrática. Pela primeira
de conivência dos Estados. A responsabilidade vez em nossa história recente, expertise
e experiência, consciência e coragem,
individual, franqueada pelos Tribunais Penais,
imaginação e responsabilidade se unirão
como o TPIY, deve ser complementada com para levar adiante esta tarefa da maior
as devidas responsabilizações dos Estados que importância para toda a sociedade, com
descumprem seu dever para com a sua população princípios de um programa a longo prazo.
civil ou, para os juspositivistas, os deveres
assumidos quando da ratificação da Convenção A Academia Sérvia de Ciências e Artes
para a Prevenção e Repressão do Crime de mais uma vez expressa sua vontade de fazer
tudo o que ela pode para reunir os esforços
Genocídio. Não é sem motivo que o artigo IX da
para lidar com estes assuntos cruciais e
Convenção prevê que a CIJ, uma corte estatal, os deveres históricos que incumbem à
será o foro de discussão da Convenção. nossa geração. (CIJ, Memorial da Croácia,
No caso da Croácia, as provas de conivência volume 4, anexo 14, p. 85, tradução nossa)
da FRY no cometimento do genocídio estavamnos
autos do processo. Foi a construção da Grande Além de ter sido juntado pela Croácia em
Sérvia que levou à expansão territorial e à seu Memorial perante a Corte Internacional de
limpeza étnica que garantiriam uma Iugoslávia Justiça, o documento foi amplamente utilizado
para e pelos sérvios. (BBC, 1995). pela promotoria do Tribunal Penal Internacional
Ad-hoc para a Ex-Iugoslávia demonstrando
A conivência do exército iugoslavo (JNA)
claramente a ideologia nacionalista que banhava
extrapolou o mero apoio logístico, tendo
o conflito nos Balcãs.
resultado em ataques efetivos a vilas na Croácia,
como o descrito pela testemunha Katic, em seu Este memorando referendou
depoimento perante a CIJ: cientificamente uma ideologia acentuando os

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Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

ideais nacionalistas de construção da Grande Nós passamos aquela noite no corredor


Sérvia como algo irrefutável, cuja veracidade de nossa casa, não nos era permitido
possuía um rigor científico. dormir em nossa casa. No dia seguinte eles
disseram que nós croatas não poderíamos
As decisões que ordenavam os massacres, mais ficar ali, que alia era Sérvia e que
conforme ficou bem demarcado pela “na Grande Sérvia não havia lugar para
jurisprudência do Tribunal Penal Internacional croatas”que eles nos perseguiriam até o
Ad-hoc para a ex-Iugoslávia e demonstrado Adriático, e que nós teríamos que pular no
documentalmente nos memoriais da Croácia mar nós mesmos. Foi assim que nós fomos
foram tomadas pelos líderes político-militares exilados de nossa casa. (CIJ, Memorial
(General Mladic, Radovan Karadzic, Slobodan Croácia, volume 2, parte I, anexo 76, p.
Milosevic, Borisav Jovic, Milan Babic, entre 208, tradução nossa)
outros) em nome da Ex-Iugoslávia, mas em Se o Estado patrocina atrocidades e se
favor da construção do novo Estado da Sérvia. favorece delas em sua própria criação, como
As pichações nas paredes das cidades destruídas esperar que as vítimas voltem a confiar nas
apontavam a ironia do Estado iugoslavo: A águia instituições? Como reintegrá-las, no pós-
de duas cabeças símbolo sérvio seguido das boas conflito, à vida social? Neste momento surge
vindas à cidade morta (welcome to the dead a importância do judiciário para recuperar essa
village) (CIJ, Memorial da Croácia, vol. 3, figura confiança.
17.3)
O processo de superação dos conflitos
Os depoimentos dramáticos de testemunhas perpassa essa integração da vítima no corpo
demonstram a inação das autoridades quando se social. Retirar os sobreviventes do isolamento
tratava das denúncias de abusos realizados pelas e inseri-los em uma narrativa comum ajuda
forças armadas oficiais e das várias milícias na superação do trauma e recomposição da sua
que funcionavam paralelamente em prol do memória. É importante saber que o que ocorreu
projeto da Grande Sérvia. Como, por exemplo, foi uma realidade, que constituiu um crime e os
a testemunha F.D. que informa que “todos os responsáveis foram punidos.
sérvios que fossem membros da polícia ou da
A oportunidade de falar perante o Tribunal,
estrutura de autoridade tinham sua própria
contar sua história e ouvir a de outros, como já
faxineira que também, sob coerção, tinha que
argumentamos, possui um importante efeito
ser sua amante”(Memorial da Croácia, volume
para as vítimas e, consequentemente, para
2, parte 1, anexo 106, p. 323, tradução nossa).
a superação dos conflitos. Este momento do
Tal depoimento se coaduna com o de testemunho, dado perante uma instituição sólida
várias mulheres que foram vítimas de violência e importante como é o caso da CIJ, ajudaria
sexual por parte de homens que representavam a recuperar um senso de justiça e confiança
o Estado e que deveriam protegê-las. Todas as institucional. Para Humphrey33:
tentativas de denúncia eram desprezadas ou
seguidas de punição que, em grande parte das Atrocidade seleciona vítimas e as reduz a
vezes, envolvia novas violências (principalmente objetos desumanizados. A dor da vítima e
sexuais), como o irreproduzível depoimento de seu sofrimento ficam abaixo da moralidade,
M.M. vítima de violência sexual, transcrito no elas perdem a audiência moral. Ainda
assim, paradoxalmente, testemunhar
anexo 117, do volume 2, parte I do memorial da
é essencial para o reconhecimento do
Croácia. sofrimento da vítima, para a compaixão
A “limpeza étnica” foi patrocinada por e cuidado. Testemunhar é o veículo para
forças oficiais como meio de se construir a reverter o efeito da desumanização das
Grande Sérvia. A política de atrocidade possui o atrocidades e recuperar a humanidade das
simbolismo de que “matar o Outro é um ato de vítimas e seus mundos sociais.
eliminação e purificação. O corpo é ritualmente No entanto, o procedimento perante a Corte
transformado através da violência e expulso dificulta a participação das vítimas, impedindo
da comunidade dos vivos.”32 O mapa social se que ela possa funcionar, como as cortes de
reduz em termos de poluição, impureza, a ideia Direitos Humanos têm feito, como um espaço
de que algumas pessoas estão fora do lugar que para a reparação e recuperação das vítimas e das
deveriam estar. Como a família de J.V.: sociedades pós-conflito.

105
Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

O caso Croácia vs Sérvia trouxe um Por fim a Corte se volta aos numerosos
problema para a oitiva das vítimas pretendida depoimentos anexados pela Croácia
pela Croácia. O medo das ameaças fez com que em seus memoriais escritos. Enquanto
duas testemunhas tivessem de ser ouvidas em reconhece as dificuldades de se obter
evidência nas circunstâncias desse caso,
sessão fechada. As demais que foram ouvidas
a Corte, por outro lado, nota que muitos
em plenário, no entanto, não podiam dar seu desses depoimentos produzidos pela
testemunho perante as demais testemunhas e, Croácia são deficientes. Além disso, certos
consequentemente, não ouviam os testemunhos depoimentos consistem em relatos da
dos outros. Isso foi uma medida tomada pela polícia croata de um ou vários indivíduos
Corte para garantir a segurança das testemunhas e que não estão assinados por estas pessoas
e, também, para garantir uma neutralidade e e não contém indicação de que estes
imparcialidade dos depoimentos. indivíduos sabiam de seu conteúdo. Além
disso, as palavras usadas parecem ser as
A imparcialidade dos julgamentos é um dos policiais. A Corte considera que não
pressuposto da atuação jurisdicional. Mas pode atribuir nenhum peso de evidência
também o é a aplicação da justiça. Anos de a tais depoimentos. (CIJ, 2015, parágrafo
estudo, análises clínicas e prática nos Tribunais 167-199, tradução nossa)
Penais identificaram que as vítimas não podem
dar um relato neutro e preciso quanto aos fatos, Conforme era sabido, muitos sobreviventes
devido à própria natureza da violência e do temem pela própria vida e preferem ficar no
trauma que atrapalha na formação da memória. anonimato. Inclusive, dois foram ouvidos
Isto não pode diminuir a importância do pela própria Corte em sessão fechada. A não
depoimento das vítimas. Ao contrário, o próprio indicação do depoente ou a falta de assinatura
fato de que ela possui uma memória malformada não poderiam ter sido motivo para desconsiderar
e traços do trauma já sinalizam para a existência a palavra daquelas vítimas. Na verdade, o
da violência. sobrevivente espera que sua dor seja reconhecida.
Disso decorre, ainda, a necessidade de se O rigor de prova exigido pela Corte
ouvir várias e não apenas uma vítima. É preciso tornou praticamente impossível para a Croácia
confrontar a narrativa individual com a coletiva, comprovar o mens rea do genocídio. A prova
encaixando as peças faltantes ou destoantes precisaria ser conclusiva e não haver nenhuma
formando o “quebra-cabeças” que representa a dúvida quanto à intenção de se eliminar no todo
realidade social do conflito. ou em parte os membros do grupo:
A oitiva de diversas vítimas possibilita, o que toca à força da prova, a Corte,
ainda, a construção de um panorama geral do citando casos anteriores, relembra que
conflito. Existe um forte indício do caráter quando se trata de alegações contra
generalizado do ataque e do mens rea do Estados que envolvam imputações de
genocídio se uma narrativa se repete nas palavras excepcional gravidade, como é o presente
caso, elas devem ser provadas por evidência
de sobreviventes de diversas localidades, como os
totalmente conclusivas (...)(CIJ, 2015,
anexos juntados pela Croácia em seus memoriais
parágrafo 167-199, tradução nossa)
e que traziam depoimentos de indivíduos de
várias municipalidades todos descrevendo as Este rigor exigido pela CIJ faz sentido nos
mesmas violências, as mesmas faixas brancas Tribunais Penais, em que se está lidando com
nos braços, as mesmas práticas de violência penas privativas de liberdade. No entanto, em
sexual, as mesmas práticas de trabalho forçado uma corte que aplica sanções de natureza civil,
e separação das famílias, os mesmos insultos em um caso delicado como o de um genocídio,
(ustasha) etc. que envolve trauma e todas as dificuldades dele
Infelizmente, a Corte ao tratar em sua decorrentes para a narrativa dos depoentes, a
sentença dos depoimentos dos sobreviventes, exigência se torna impossível de ser cumprida.
inclusive os inúmeros anexados nos memoriais Com o elevado ônus da prova dirigido à
da Croácia, não teve o cuidado de lidar com a Croácia e os depoimentos das vítimas sem peso
especificidade da prova e estabeleceu que não probante, a CIJ acabou considerando que não
poderiam ser considerados confiáveis por não havia provas para determinar a ocorrência dos
estarem assinados ou não conterem a indicação estupros e demais atos de violência sexual como
do depoente:

106
Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

sendo perpetrados pela JNA e demais milícias sentença. A Corte já havia se pronunciado
sérvias: negativamente com relação ao caso da Bósnia
e alterar sua jurisprudência significaria a
Na questão de se os atos que possam ser
instabilidade jurídica internacional. Outro
enquadrados no artigo II (d) da Convenção
foram cometidos contra o grupo protegido,
ponto que influi é de natureza política. A Sérvia
a Corte entende que a Croácia não é candidata a ingressar na União Europeia e uma
demonstrou que estupros e outros atos de sentença de genocídio poderia ter consequências
violência sexual foram perpetrados pela imprevisíveis do ponto de vista da pretensão
JNA e forças sérvias contra os croatas na sérvia. Na balança da justiça internacional a
intenção de impedir os nascimentos no proteção do Estado pesou mais do que as vítimas.
grupo, e o actus reus do genocídio, conforme
Felizmente, o ilustre juiz Antônio Augusto
o sentido do artigo II (d) da Convenção não
foi estabelecido. (CIJ, 2015, parágrafo 395-
Cançado Trindade, ex juiz e presidente da Corte
400, tradução nossa) Interamericana de Direitos Humanos, trouxe um
voto dissidente que sinaliza para a possibilidade
A CIJ, por fim, decidiu não ter havido de abertura na Corte Internacional de Justiça
genocídio nos Balcãs. Todas as vítimas que para a discussão dos Direitos Humanos e o papel
por dezesseis anos aguardaram o julgamento dos indivíduos no contencioso interestatal.
não tiveram o fechamento imaginado. Não Antônio Augusto Cançado Trindade possui
foi dado o devido reconhecimento para sua uma interessante carreira jurídica internacional.
dor e as atrocidades patrocinadas pela FRY. Com uma orientação abertamente ligada aos
Todo o seu esforço narrativo e de superação do Direitos Humanos, ele é hoje, sem sombra de
trauma restaram infrutíferos. A Corte perdeu dúvida, um dos mais importantes nomes do
a oportunidade de reescrever a memória do Direito Internacional no mundo.
conflito e cumprir seu dever de promover a paz e
A sua indicação para compor a Corte
a solução dos conflitos. Para Humphrey34
Internacional de Justiça em 2008, veio após sua
Aqueles que não podem evitar os legados expressiva carreira na Corte Interamericana de
da violência em massa são aqueles que Direitos Humanos, a que ele teve a oportunidade
precisam continuar vivendo juntos depois de presidir e, na ocasião, promover uma
de tudo. Para eles a tarefa imediata é abertura para a participação das vítimas nos
primeiro, prevenir que a violência retorne procedimentos.
e segundo, reconstruir uma sociedade
nacional justa. Uma estratégia para Bastante significativo o fato de que um juiz
prevenir o retorno da violência e parar os e acadêmico voltado a área de Direitos Humanos
efeitos da violência passada assombrar as tenha obtido a maior votação na Assembleia
relações individuais e sociais é confrontar Geral e Conselho de Segurança para compor a
o passado. Recordação pública do passado CIJ em sua história.
através dos testemunhos das vítimas é a
Assim, foi com bastante interesse que
principal estratégia para revelar e curar,
seja por intermédio de julgamentos ou
a comunidade internacional aguardou o
tribunais. posicionamento do juiz acerca do high profile
case Croácia vs. Sérvia. O voto dissidente
Sequer houve a abertura de uma sessão na de Cançado Trindade não decepcionou com
sentença concernente a reparações às vítimas. 142 (cento e quarenta e duas) páginas e 547
A Corte se limitou a “encorajar as partes (quinhentos e quarenta e sete) parágrafos. Seu
a continuar cooperando para oferecer uma posicionamento com relação ao caso, expresso de
reparação apropriada às vítimas, de modo a forma veemente, trouxe o alento que se esperava
consolidar a paz e a estabilidade na região.”(CIJ, de um posicionamento verdadeiramente voltado
2015, parágrafo 522-523, tradução nossa) para atender a razão de ser da Convenção de
O resultado deste julgamento sinaliza para o Genocídio: proteção dos indivíduos contra as
grande abismo que tem separado as preocupações barbáries patrocinadas por seus Estados ou com
do Direito Internacional dos Direitos Humanos sua conivência.
e aquela do Direito Internacional público geral. O voto se pauta, como esperado, na
A preocupação com a estabilidade da valorização da proteção dos indivíduos que mais
jurisprudência foi um fator que pesou na sofreram com a Guerra nos Balcãs. A verdadeira

107
Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

preocupação orientada para a realização da de maior instabilidade social e política que é a


justiça para os homens (justiciables) e não para morte de um Estado e surgimento de um novo.
os Estados se expressa logo no primeiro tópico Para Cançado Trindade (2015, p. 13, tradução
abordado no voto: a demora de dezesseis anos nossa)
para entregar o julgamento.
Nestas circunstâncias, seria injusto para
Estes fatos falam por si próprios, com as vítimas se nenhuma responsabilidade
os lamentáveis atrasos no julgamento pudesse ser reivindicada pelo cometimento
do presente caso, tendo em mente em de atos condenados internacionalmente e
particular aqueles que buscam a justiça. suas consequências estendidas no tempo.
Infelizmente, como eu já apontei em outras Argumentar que a responsabilidade
ocasiões recentes nesta Corte, o tempo da desaparece com a dissolução do Estado
justiça humana não é o tempo dos seres tornaria irrelevante a Convenção
humanos. (CANÇADO TRINDADE, CIJ, de Genocídio. Um ato proibido
2015, p. 7, tradução nossa) internacionalmente e a permanência de
suas consequências não podem permanecer
O magistrado segue seu voto analisando sem punição e sem reparação pelos danos.
a questão da especificidade dos tratados de
Direitos Humanos. Para Cançado Trindade, Além da sucessão automática nos tratados
as consequências jurídicas de a Convenção de de Direitos humanos, as provas documentais
Genocídio ser considerada um tratado de Direitos permitiam inferir que a própria Sérvia (FRY)
Humanos implica que os efeitos aplicáveis aos comportou-se como sucessora da antiga
tratados dessa natureza necessariamente lhes Iugoslávia (SFRY).
sejam aplicáveis: Essa questão da sucessão de Estados
tomou grande parte da atenção da Corte que
Está claro que a Convenção de Genocídio se ateve demasiadamente nestas considerações
não é um acordo sinalagmático, em que
procedimentais de competência. A discussão da
os Estados partes se comprometem um ao
outro, ela não simplesmente cria direitos CIJ ao focar no debate de competência não se
e obrigações entre Estados partes de dedicou à discussão da universalidade e o dever
forma bilateral. Como tratado de direitos geral de proteção que perpassam os Direitos
humanos, ela cria um mecanismo de Humanos.
garantia coletiva. No meu ponto de vista, Cançado Trindade buscou trazer a discussão
não é suficiente afirmar (ou reafirmar), das regras procedimentais e técnicas de sucessão
como fez a CIJ há quase duas décadas, que
dos Estados com viés para a especificidade da
a Convenção de Genocídio de 1948 é um
tratado de Direitos Humanos, é preciso Convenção de Genocídio e sua orientação para
extrair as consequências legais disso. a proteção das vítimas.
(CANÇADO TRINDADE, CIJ, 2015, pp. O Estado foi criado para proteger os
12-13, tradução nossa) indivíduos e não pode ser percebido como um
fim em si mesmo. A Convenção de Genocídio
Tendo em vista a especificidade da matéria
oficializa esse direito de proteção que, muitas
que envolve os tratados de Direitos Humanos
vezes, é atropelado por políticas de atrocidades
e a necessidade de proteção dos vulneráveis,
que vitimizam civis e desmancham sociedades.
Cançado Trindade discorda da interpretação da
Para Cançado Trindade (2015, p. 20, tradução
Corte dada ao tema da sucessão de Estados.
nossa)
O dever geral de proteção, típico dos
tratados de Direitos Humanos, implica que seus Os direitos protegidos (...) são inerentes à
efeitos perdurem durante a sucessão de Estados. pessoa humana, e devem ser respeitados
Não há que se questionar acerca da sucessão da pelos Estados. Os direitos protegidos
são superiores e anteriores aos Estados,
SFRY pela FRY e em que momento ela ocorreu,
e precisam ser respeitados por eles, por
afinal, a sucessão em termos de tratados de todos os Estados, mesmo na ocorrência de
Direitos Humanos é automática. rupturas e sucessões. Foi necessário muito
Este fenômeno da sucessão automática se sofrimento e sacrifício para as gerações
extrai da própria natureza do tratado. Caso assim aprenderem isso. O supramencionado
não fosse, os indivíduos (objeto de proteção da corpus juris gentium é indivíduo-orientado,
Convenção) ficariam vulneráveis nos momentos

108
Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

vítima-orientado e não Estado-soberano- A proteção dos vulneráveis necessariamente


orientado. deve implicar a responsabilização dos Estados
e não apenas dos indivíduos que cometeram
Ao traduzir a discussão procedimental
as atrocidades. A imputação individual se
em termos dos direitos humanos, Cançado
complementa com a responsabilidade do Estado,
Trindade humanizou o debate técnico,
através da CIJ de acordo com o artigo IX da
demonstrando o dever dos Estados em proteger
Convenção.
os mais vulneráveis. Dever este que está na
base da sucessão automática que pauta essas Assim, Cançado Trindade discordou
Convenções e, no caso de genocídio, se tornou da Corte no tema do ônus da prova e sua
uma proibição de direito internacional geral valoração. O magistrado colacionou extensa
cogente (jus cogens) que independe da vinculação base jurisprudencial das Cortes Interamericana
voluntarista à Convenção. e Europeia de Direitos Humanos em que
foi adotada a inversão do ônus da prova e a
A discussão crua de sucessão do Estado
possibilidade de inferir a violência a partir de
(SFRY – FRY) perdeu de vista que o objetivo
indícios como covas comuns (em massa) e as
da Convenção de Genocídio é a proteção
expressões de trauma nos sobreviventes.
da população civil que, nas ocorrências de
dissoluções violentas de Estados (como o caso Apesar de a CIJ estar trabalhando com
da SFRY), ficam em extrema vulnerabilidade. a responsabilidade estatal em um tratado
Certamente foge ao telos da Convenção sua de Direitos Humanos, lamentavelmente, a
inaplicabilidade a Estados dissolvidos. jurisprudência das cortes específicas, colacionada
por Cançado Trindade, não foi considerada
O debate preliminar de competência ocupou
ou sequer utilizada como um norteador na
em demasia os trabalhos da Corte, sendo que as
distribuição do ônus da prova. Certamente o
próprias partes não se interessaram tanto nesta
beyond reasonable doubt, utilizado no direito
discussão procedimental, mas sim preferiram
doméstico e nos tribunais penais, não se aplica
focar seus esforços argumentativos no mérito da
às punições cíveis aplicadas pela CIJ e impede a
causa (a existência ou não do genocídio).
reparação tão esperada pelas vítimas. Mais uma
Durante seu voto, Cançado Trindade vez, a solução jurídica não contribui em termos
desenvolve sua linha argumentativa específica de solução do conflito e prevenção de novas
para o tratado em questão. Sendo a Convenção de atrocidades. Nas palavras de Cançado Trindade
Genocídio reconhecidamente direitos humanos, (2015, p. 42, tradução nossa)
nada mais correto que desenvolver o raciocínio
específico da área ao tratar da sua aplicação. Padrões generalizados e sistemáticos
Para Cançado Trindade (CIJ, 2015, pp. 24-26, de destruição são carreados entre a
tradução nossa). propaganda ideológica, sem qualquer
limitação moral, disfarçando a brutalidade
A concepção de direitos humanos e qualquer responsabilidade e apagando
fundamentais e inalienáveis está os sentimentos de culpa. Tudo se perde
fortemente gravada na consciência jurídica na entidade orgânica e totalitária. Estes
universal, apesar de haverem variações em assassinatos em massa frequentemente
sua enunciação ou formulação, o conceito são cometidos sem qualquer reparação aos
marca presença em todas as culturas, e na familiares das vítimas. Além disso, nem
história moderna do pensamento humano todas essas atrocidades são levadas aos
de todos os povos. tribunais internacionais. Quanto àqueles
que foram levados, em um julgamento
(...) Existe, em resumo, no direito internacional que torna os elementos
internacional contemporâneo (convencional do genocídio muito difíceis de serem
e geral), uma consciência maior, em uma determinados, pode manter a sombra da
escala universal, do princípio da humanidade. impunidade e criar uma situação de falta
Graves violações de direitos humanos, atos de lei, contrária ao objeto e propósito desta
de genocídio, crimes contra a humanidade, Convenção.
entre outras atrocidades, são proibições
absolutas de jus cogens. O sentimento de A prova da ocorrência do genocídio, para
humanidade (humaneness) permeia todo Cançado Trindade, deveria ter sido obtida a
o corpo jurídico contemporâneo do direito partir da vasta documentação que sinalizava
internacional. a ocorrência de um ataque generalizado e

109
Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

sistemático contra famílias inteiras, lares, A ausência de um funeral ou possibilidade de


símbolos culturais. Além de mortes aleatórias vivenciar o luto impede que o conflito possa ser
que objetivavam assustar os croatas para que finalizado e a sociedade possa seguir em frente.
eles abandonassem a cidade e fugissem para a O desaparecimento forçado é um crime
área onde seriam permitidos (fora do território permanente e seus efeitos catastróficos
da Grande Sérvia). desestruturam a sociedade de forma perene.
Ao contrário da postura da Corte, o O número de famílias desfeitas e o luto mal
magistrado considerou os depoimentos juntados elaborado causa um efeito devastador na
nos anexos do memorial da Croácia como formação da memória individual e, quando o
indícios e matérias de prova do genocídio fenômeno se alastra por toda a sociedade, na
ocorrido, dando força às palavras das vítimas. memória coletiva.
Para Cançado Trindade os estupros descritos O luto é uma estrutura social
pelos sobreviventes tinham uma conotação de importantíssima na socialização das experiências
eliminação do grupo dando-lhes uma nova etnia de dor. O desaparecimento não permite que esta
(CIJ, 2015, p.70, tradução nossa) estrutura se realize, causando uma quebra no
Os exemplos fornecidos, os testemunhos tecido social e o isolamento dos sobreviventes e
relativos ao cometimento contínuo de seus familiares do restante da comunidade.
estupros em distintas municipalidades, A experiência de Cançado Trindade na
evidenciam o generalizado e sistemático Corte Interamericana de Direitos Humanos lhe
padrão de estupros de membros da permitiu uma compreensão mais adequada dos
população croata, infligindo humilhação efeitos dos desaparecimentos na vida familiar
às vítimas. Estes depoimentos, a seguir
e social de uma dada comunidade. A opção
referidos, formam parte da evidência
submetida pela Croácia, de modo a ilustrar da CIJ em exigir prova do sofrimento para os
as numerosas alegações de estupro nas desaparecimentos destoa da jurisprudência
distintas municipalidades e demonstrar o das cortes de Direitos Humanos. Em seu voto
padrão sistemático destas violações. dissidente podemos perceber a orientação
diferenciada:
Foi também com base nos depoimentos
das vítimas que o magistrado se baseou para Os efeitos do desaparecimento forçado de
identificar o uso das tarjas brancas nos braços pessoas nos familiares são devastadores.
de modo a destacar parcela da população, Ele destrói famílias inteiras, levadas à
estigmatizá-la para discriminá-la na comunidade. agonia ou desespero. Eu aprendi isso com
minha própria experiência na atividade
Na fase escrita dos procedimentos, judicante internacional de casos como
Croácia alegou, em seus memoriais, que, esse. No presente julgamento, a CIJ
em certas municipalidades, a população não parece ter compreendido a extensão
croata foi requerida a se identificar e às desses efeitos devastadores. Exigir dos
suas propriedades com faixas brancas ou parentes, como fez (para. 160) mais prova
outras marcas distintivas. Ela submeteu (do sofrimento), de modo a enquadrar no
vários depoimentos de testemunhas artigo II(b) da Convenção de Genocídio,
referentes a esta prática da Sérvia. configura uma verdadeira “probatio
Com base nas evidencias probatórias (e diabolica”! (CANÇADO TRAINDADE,
depoimentos das vítimas), parece que 2015, p.86, tradução nossa)
a prática de marcar croatas com faixas
brancas era generalizada, a razão era A importância do reconhecimento da dor é
identificar e destacar croatas e sujeitá- fundamental para se reconciliar as sociedades e
los a vários níveis de humilhação, como reconstruir nações. Humphrey35 observa que os
trabalho forçado, violência e limitações projetos de memória pública se baseiam em dois
a sua liberdade de movimentação. (CIJ, caminhos diferentes: reconciliação ou justiça.
2015, p.95, tradução nossa) A reconciliação depende da vontade estatal
que, na maioria das vezes, não possui força ou
O voto dissidente ainda destinou atenção desenvolvimento institucional para promover
ao sofrimento das vítimas que sobreviveram ao um julgamento. Daí a importância da justiça
massacre e tiveram entes queridos desaparecidos.

110
Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

internacional que supre essa ausência de uma em grupos não podem prescindir dos
justiça interna. seus valores culturais, e, em qualquer
circunstância, em qualquer circunstância
A ideia de reconciliação perpassa a construção
(mesmo em isolamento), de suas crenças
de uma memória que englobe as manifestações espirituais. A vida em si mesma, e as
das vítimas que devem ser reintegradas à crenças que ajudam as pessoas a encarar os
comunidade política. A paz e estabilidade em um mistérios que as cercam, caminham juntos.
Estado se relaciona com a sua estrutura social, O direito à vida e o direito a uma identidade
isto fica claro quando olhamos ao próprio caso cultural caminham juntos, eles são
da Iugoslávia, em que um caldeirão social levou à irrelutantetemente interligados. Destruição
sua dissolução violenta. física e biológica é interrelacionada com a
destruição da identidade do grupo como
As Comissões da Verdade pelo mundo e, em parte de sua vida, de suas condições de
alguma medida, as Cortes regionais de Direitos vida. (CANÇADO TRINDADE,2015, p.
Humanos têm se baseado nos testemunhos das 114, tradução nossa):
vítimas para a construção da verdade judicial
e, tangencialmente, a memória do conflito. As A importância dada por Cançado Trindade
relações sociais são reconstruídas por intermédio às destruições dos símbolos culturais para
das vítimas. “O sofrimento individual é o fulcro a configuração actus reus do genocídio se
usado para converter o efeito da repressão em densifica quando o magistrado enumera
um veículo de reconstrução social(...) as políticas diversosdepoimentos de testemunhas que
de testemunhar o trauma é uma estratégia para corroboram a violência generalizada contra o
a reconstrução social”36 grupo específico e direcionada à população civil
e não combatente.
Esta reconstrução da memória por meio dos
testemunhos e participação das vítimas se torna Parece-nos de extrema relevância a
especialmente importante quando abordamos a importância dada pelo magistrado da CIJ
destruição de templos e demais monumentos aos depoimentos. Foi motivado pela fala das
culturais que são consumidos no conflito e, vítimas que o genocídiose tornou sólido no voto
no contexto do genocídio, com a intenção de dissidente. Foi o testemunho que demonstrou o
eliminar as expressões simbólicas do grupo. ataque generalizado e padronizado das tropas da
JNA e milícias sérvias.
A destruição da cultura é indício da
ocorrência de um genocídio e contribui para o A fala das vítimas adquire importância no
desenraizamento das vítimas, aumentando sua bojo do processo e contribui para a construção
desconexão com o corpo social. Os indivíduos de uma história, uma narrativa que dá
se relacionam em uma sociedade por meio de significado aos ataques isolados comparando-
elementos simbólicos que os fazem pertencentes os com as descrições das vítimas de diversas
àquela cultura comum. A destruição destes municipalidades, contrapondo-os e os colocando
elementos destrói os laços sociais. A cultura em um quadro único que sinaliza o genocídio
não pode ser desvinculada das discussões de nos Balcãs.
reconstrução do Estado e a possibilidade de uma A importância dos depoimentos individuais,
paz duradoura. colocados em conjunto, constroem o quebra-
O elemento cultural, infelizmente, não foi cabeças da memória social. Nas palavras de
considerado adequadamente pela Corte que não Cançado Trindade (2015, p. 123, tradução
deu a devida importância para o simbolismo da nossa):
destruição de prédios e símbolos vinculados com Na minha percepção, os depoimentos
a cultura do povo. O entendimento limitou-se das testemunhas em sua totalidade
a considerar que a destruição de templos não fornecem evidência do ataque generalizado
está contemplada no artigo II da Convenção e sistemático de destruição que ocorreu
(parágrafos 388-389). Cançado Trindade, naquelas municipalidades atingidas por
novamente trouxe à CIJ a orientação dos Direitos extrema violência. O padrão de destruição
Humanos para tal discussão: generalizado e sistemático, como
estabelecido no presente caso, consiste
No meu entendimento, esta forma de em generalizada e sistemática perpetuação
destruição é relacionada com a destruição dos atos proibidos (graves violações) pela
física e biológica,pois indivíduos vivendo Convenção de Genocídio.

111
Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

A análise das provas do processo em Corte Interamericana de Direitos Humanos,


conjunto com os depoimentos, não permitiria Corte Europeia de Direitos Humanos, Tribunal
outra conclusão que não a da existência de Penal Internacional, etc) que possuem abertura
um genocídio na Croácia. No entanto, a CIJ para o acolhimento das vítimas e seus
considerou que não haviam provas da intenção testemunhos nos procedimentos.
(mens rea) necessário para a configuração do Lamentavelmente, a Corte Internacional
crime. de Justiça, pudemos ver, ainda é resistente
A conclusão a que chegou a Corte, além em reconhecer seu papel nesta reconstrução
de desconsiderar os depoimentos que foram pós-conflito. Este distanciamento da CIJ para
cuidadosamente avaliados por Cançado os assuntos ligados ao Direito Internacional
Trindade, deixou de considerar qualquer forma dos Direitos Humanos não se coaduna com a
de reparação às vítimas, ainda que a própria CIJ realidade que o próprio órgão vem enfrentando.
já tenha abertura às reparações. Somente nos anos 1990 dois casos
envolvendo descumprimentos da Convenção de
5. CONCLUSÃO Genocídio (uma das core conventions do Direito
A complexidade do tema proposto e as Internacional dos Direitos Humanos) foram
inúmeras lentes pelas quais poderíamos ter submetidos à apreciação da Corte. As demandas
abordado este objeto de estudo tornam árdua ajuizadas pela Bósnia e pela Croácia em desfavor
esta conclusão. da Ex-Iugoslávia (Sérvia) pela Guerra nos Balcãs.
Propusemo-nos a provocar no leitor Conforme pudemos identificar ao estudar
uma reflexão sobre o papel simbólico de um o caso desses julgamentos, a Corte lidou com
julgamento internacional e a importância dificuldades com a especificidade da matéria,
que aquele procedimento tem na formação da não houve abertura para a participação das
memória dos conflitos e o impacto disso na vida vítimas, além de uma excessiva proteção do
das vítimas e sobreviventes. Estado, através de uma distribuição questionável
do ônus da prova e falha na sua valoração.
Julgamentos são revestidos de formalidades
para imbuí-los da necessária imparcialidade A decisão da Corte não contribuiu,
esperada de um órgão judicante. No entanto, portanto, para o reconhecimento do sofrimento
um julgamento que envolva uma criminalidade das vítimas, perdendo a oportunidade de
excepcional, extraordinária (como é o caso dos somar na reestruturação social e superação dos
crimes contra a humanidade e genocídio) deve ódios. Ainda mais grave é a inexistência das
ser tratado com cautela. reparações, deixando as vítimas completamente
desamparadas e entregues a suas próprias dores.
Os crimes contra a humanidade e genocídio
Para Cançado Trindade (2015, p. 130, tradução
são cometidos em um contexto de esfacelamento
nossa)
de todo um tecido social. A sociedade inteira sofre
e se desfaz. O julgamento, portanto, se insere em Nos conflitos violentos que formam o
um contexto de exceção e se coloca de frente a contexto factual do presente caso entre
uma sociedade que luta por recompor seus laços. Croácia e Sérvia, as numerosas atrocidades
O judiciário pode contribuir na construção de cometidas (tortura e matança em
uma narrativa que possibilite àqueles indivíduos massa, violência extrema em campos de
que se vitimizaram a voltarem a viver juntos. concentração, estupros e outras violências
sexuais, desaparecimentos forçados,
Tornar-se responsável pelos atos, reconhecê- expulsões de deportações, condições
los, é vital para a reconstrução de sociedades insuportáveis de vida e humilhações
pós-conflito. É inegável que frente a uma de vários tipos, entre outros), além da
criminalidade dessa natureza o órgão judicante vitimização de milhares de pessoas, fez
tem o dever de garantir essas responsabilizações. o ódio contaminar a todos, e decompor o
Nesse sentido ela faz mais do que um mero milieux social. As consequências, em uma
julgamento neutro e impessoal, ela constrói as perspectiva de longo prazo, são, da mesma
forma, e sem surpresa, desastrosas, dado o
bases de um futuro mais ou menos promissor.
ressentimento transmitido de geração em
Este papel simbólico do julgamento tem geração.
sido abordado pelas Cortes internacionais
especializadas em Direitos Humanos (como a

112
Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

A discussão sobre reconciliação e o papel da vítimas e estabelecer um alto ônus da prova


justiça internacional na superação dos conflitos tornou praticamente impossível provar a
a partir do reconhecimento das vítimas, responsabilidade estatal. Qual será o efeito dessa
encontrou espaço no voto dissidente de Cançado decisão nos casos futuros ou para o ânimo dos
Trindade. A tese esboçada no presente trabalho Estados que pretendam discutir a Convenção de
encontra reverberação no voto que reconhece a Genocídio?
importância da CIJ e da justiça internacional Ao não responsabilizar o Estado, a decisão
na promoção da paz e proteção dos direitos da Corte olvidou-se da necessidade de se
humanos. trabalhar a prevenção ao crime, prevista logo
Não há possibilidade de superação de no título da Convenção. A preocupação com
conflitos em uma sociedade sem que, de a soberania estatal perdeu de vista o sentido
alguma forma, haja uma resposta que aplaque último da Convenção: a proteção dos indivíduos
os ódios e promova uma nova narrativa social mais vulneráveis e a garantia de que tais atos
por intermédio da construção da memória. Não não voltem a ocorrer.
existe memória sem consideração do trauma e A prevenção deve se voltar, ainda, ao tema
suas consequências devastadoras na vida dos do reconhecimento da dor dos sobreviventes
indivíduos. para atingir a reconciliação e reparação às
A CIJ confrontou-se, na presente demanda, vítimas. A responsabilização do Estado é uma
com um desafio para sua jurisprudência: maneira de honrar a memória daqueles que
a necessidade de repensar o seu papel no se foram, humanizando os desumanizados e
direito internacional dos direitos humanos. A reescrevendo a narrativa de caos e ódio para
orientação tradicionalmente voltada à proteção uma de compreensão e reconciliação. “Existe
dos Estados e um conceito clássico de soberania aqui o primado da preocupação com as vítimas
chocou-se com as funções estatutárias que se da crueldade humana, como ao final, a raison
espera da Corte enquanto órgão que contribui d’humanité prevalece sobre a raison d’État”
para a pacificação social. (CANÇADO TRINDADE, 2015, p.142,
Como bem aponta Cançado Trindade tradução nossa)
em seu voto dissidente a opção adotada pela
Corte em desconsiderar os depoimentos das

113
Carlos Augusto Canedo Gonçalves da Silva e Roberta Cerqueira Reis

NOTAS

1. GARAPON, Antoine. Crimes que não se Convention Sixty Years after its Adoption. The
podem punir nem perdoar: Para uma justiça Hague: Asser Press, 2010, p. 249.
internacional. Lisboa: Instituto Piaget, 2002, 17. SEIBERT-FOHR, Anja, op. cit., p. 245.
p. 55.
18. ANDERSON, Benedict R. Comunidades
2. ARENDT, Hannah. Responsabilidade e imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão
julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, do nacionalismo. São Paulo: Companhia das
2004, p. 93. Letras, 2008.
3. GARAPON, op. cit. 19. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto.
4. LAGROU, Pieter. ‘Historical trials’: getting A humanização do Direito Internacional. Belo
the past right – or the future? In DELAGE, Horizonte: Del Rey, 2015.
Christian; GOODRICH, Peter. The Scene of the 20. GUTMAN, Roy. A witness to genocide: the
Mass Crime: History, Film and International 1993 Pulitzer Prize-Winning dispatches on
Tribunals. New York: Routledge Taylor & the “ethnic cleansing” of Bosnia.New York:
Francis Group, 2013. Macmillan Publishing Company,1993.
5. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. A 21. DELAUNY, Guy. Srebrenica massacre
visão humanista do Direito Internacional. Belo anniversary: Crowds chase Serb PM away. BBC,
Horizonte: Del Rey, 2013. 11 de julho de 2015. Disponível em<http://
6. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. www.bbc.com/news/world-europe-33491540>
Tratado de Direito Internacional dos Direitos Acesso em 10 de outubro de 2015.
Humanos. 3 volumes. Porto Alegre: Sergio 22. SCHMITT, Paul. The failure of Genocide suits
Antonio Fabris Editor, 2003, p. 75. at the International Court of Justice: France’s
7. CANÇADO TRINDADE, op. cit, 2003. role in Rwanda and Implications of the Bosnia
8. CANÇADO TRINDADE, op. cit, 2003, p. 45. v. Serbia decision. Georgetown Journal of
International Law, Georgetown, v. 40, pp. 585-
9. Relevante apontar a Resolução da Assembleia 623, 2008-2009.
Geral da ONU número 40/34 de 1985 que
trata especificamente do dever dos Estados em 23. Dusko Tadic (IT-94-1).
promover a proteção das vítimas e investigar/ 24. ABASS, Ademola. Proving State Responsibility
punir os agressores. for Genocide: The ICJ in Bosnia v. Serbia and
10. CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. the international commission of inquiry for
Derecho Internacional de los Derechos Darfur. Fordham International Law Journal,
Humanos: Esencia y Transcendencia (Votos New York, v. 31, pp. 871-910, 2007-2008.
en La Corte Interamericana de Derechos 25. Mens rea é o fim especial de agir exigido
Humanos. 1991-2006). México: Editorial para configurar o crime de genocídio. Trata-
Porrúa: Universidad Iberoamericana, 2007. se do dolo em destruir no todo ou em parte
11. SHAW, Malcolm N. Direito Internacional. São aquele grupo em razão de sua afiliação étnica,
Paulo: Martins Fontes, 2010. religiosa, etc.

12. CANÇADO TRINDADE, op. cit. 2003. 26. Águias Brancas é o nome dado a uma das
milícias sérvias.
13. “We need to rebuild people, not just buildings”
(citado por HUMPHREY, 2002, p. 72). 27. CARUTH, Cathy. Unclaimed Experience:
Trauma, Narrative, and History. Baltimore:
14. CANÇADO TRINDADE, op. cit., 2013. The Johns Hopkins University Press, 1996.
15. SILVA, Carlos Augusto Canêdo Gonçalves 28. Para Ricoeur mimese seria a representação
da.O genocídio como crime internacional. Belo interna feita pelo indivíduo de uma determinada
Horizonte: Liv. Del Rey Editora, 1999. ação. Muthos é a colocação daquele fato
16. SEIBERT-FOHR, Anja. The ICJ judgment em uma ordem. Da relação entre mimese
in the Bosnian Genocide case and beyond: a e muthos surge a narrativa que constituirá
need to reconceptualise? In SAFFERLING, a memória. No entanto, quando o evento a
Christoph; CONZE, Eckart. The Genocide ser gravado for considerado um trauma as

114
Direitos Humanos e a Corte Internacional de Justiça: Um Estudo de Caso sobre a Aplicação da Convenção de Genocídio pela CIJ

resistências psíquicas da vítima ficam abaladas 32. HUMPHREY, Michael. The Politics of Atrocity
o que impede que a experiência seja significada, and Reconciliation. New York: Routledge,
consequentemente, o evento ficará sem a 2002, p. 76.
representação interna gerando o colapso do 33. HUMPHREY, Michael, op. cit.. p. 91, tradução
mecanismo mimese/muthos. nossa.
29. RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas 34. HUMPHREY, Michael, op. cit.. p. 105, tradução
(SP): Papirus, 1994-3v. nossa.
30. CARUTH, op. cit. 35. HUMPHREY, Michael, op. cit.
31. LEVY, Sofia Débora. Holocausto: Vivência e 36. HUMPHREY, Michael, op. cit.. p. 106, tradução
Retransmissão. São Paulo: Perspectiva: Conib, nossa.
2014.

115
PALESTINA E TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL:
RETORNO A UMA SAGA JUDICIAL

Catherine Maia
Professora Doutora na Faculdade de Direito e Ciência Política da Universidade Lusófona do Porto (Portugal);
Visiting Professor no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po)
e nas Universidades Católicas de Lille e Lyon (França).

RESUMO palestino, deparamo-nos com um dos conflitos


internacionais contínuos os mais antigos e
Numa altura em que o Tribunal Penal os mais vivos1, bem como o único conflito
Internacional sofre críticas por vezes duras assimétrico que, após mais de meio século, não
quanto à sua imparcialidade, principalmente encontrou saída2.
por causa do seu foco no continente Africano, a
Numa altura em que o Tribunal Penal
ação da Palestina junto deste Tribunal aparece
Internacional (TPI) sofre críticas por vezes duras
como um verdadeiro desafio para consolidar a quanto à sua imparcialidade, principalmente
credibilidade da justiça penal internacional e por causa do seu foco no continente Africano3,
avançar rumo à universalização do Estatuto a ação da Palestina aparece como um verdadeiro
de Roma, bem como um marco decisivo para desafio para consolidar a credibilidade da
a evolução do conflito israelo-palestino, para o justiça penal internacional e avançar rumo à
reconhecimento da Palestina como Estado na universalização do Estatuto de Roma, bem como
cena internacional e, mais geralmente, para a um marco decisivo para a evolução do conflito
paz no Médio Oriente. israelo-palestino, para o reconhecimento da
Palestina como Estado na cena internacional4 e,
Palavras chave mais geralmente, para a paz no Médio Oriente.
Palestina; Israel; Tribunal Penal Na origem de duas declarações de aceitação da
Internacional; justiça penal internacional. jurisdição do TPI5 antes de se tornar membro
em 1 de abril de 2015, tratar-se-á de analisar os
SUMMARY efeitos das diferentes diligências da verdadeira
saga judicial iniciada pela Palestina na
At a time when the International Criminal perspetiva do julgamento dos autores dos crimes
Court is sometimes harshly criticized about internacionais cometidos no seu território.
its impartiality, mainly because of its focus on Longe de se inscreverem na trama linear de um
the African continent, Palestine’s action at this longo rio tranquilo, estas diligências refletem
Court appears as a real challenge to consolidate as hesitações de um Governo dividido, a braços
the credibility of international criminal justice com uma realidade complexa e tensa no terreno,
and to move towards the universalization of the perante a qual a exacerbação das tomadas de
Rome Statute, as well as a decisive framework for posição torna qualquer análise académica das
the evolution of the Israeli-Palestinian conflict, mais delicadas6.
for the recognition of Palestine as a state on
the international scene and, more generally, for 1. A DECLARAÇÃO DE ACEITAÇÃO DA
peace in the Middle East. JURISDIÇÃO DO TPI DE 2009
Keywords Para aceitar a jurisdição do TPI, os Estados
podem trilhar dois caminhos: quer o da ratificação
Palestine; Israel; International Criminal do Estatuto de Roma de 1998, tornando-se
Court, international criminal justice partes; quer, mantendo-se terceiros, o de uma
Se tomarmos a declaração de independência declaração ad hoc de aceitação da jurisdição do
do Estado de Israel de 1948 como ponto de Tribunal, que pode ser emitida pelo ministro
partida da formalização do conflito israelo- da Justiça ou dos Negócios Estrangeiros em

117
Catherine Maia

exercício7. Esta segunda opção, pouco formal e de TPI, o Conselho dos Direitos Humanos das
uma grande flexibilidade, tem por objetivo evitar Nações Unidas criou a Missão internacional
que um Estado, no território do qual crimes da independente de averiguação dos factos
jurisdição do TPI foram cometidos, se encontre relativos ao conflito de Gaza. Liderada por
na incapacidade de recorrer ao mesmo devido a Richard Goldstone14, esta Missão foi investida
perturbações institucionais graves decorrentes com o mandato de “investigate all violations
de uma situação de conflito armado8. of international human rights law and
Em relação à Palestina, o recurso ao TPI é international humanitarian law that might have
plural com uma primeira declaração aceitando been committed at any time in the context of
a jurisdição deste Tribunal em 2009. Depois da the military operations that were conducted in
operação israelense “Chumbo endurecido” em Gaza during the period from 27 December 2008
Gaza, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, and 18 January 2009, whether before, during
o ministro palestino da Justiça, Ali Khashan, or after” correspondentes à operação israelense
veio entregar pessoalmente em Haia, em 22 de “Chumbo endurecido”. O relatório dessa
janeiro de 2009, uma declaração de aceitação Missão, tornado público em 25 de setembro
da jurisdição do TPI “for an indeterminate de 2009, continha elementos de provas prima
duration”, segundo a qual “the Government of facie da prática de crimes de guerra e crimes
Palestine hereby recognizes the jurisdiction of the contra a humanidade15. Recordando a obrigação
Court for the purpose of identifying, prosecuting dos Estados de investigar alegações de violações
and judging the authors and accomplices of graves do direito internacional dos direitos
acts committed on the territory of Palestine humanos e do direito internacional humanitário,
since 1 July 2002”9. Na ausência de limitação também foi o primeiro relatório internacional a
temporal à aceitação da jurisdição do TPI pela abordar a questão dos procedimentos nacionais
Palestina, o Procurador será competente para iniciados na sequência de tais alegações e a
investigar e processar os crimes cometidos no constatar a sua falta de conformidade com as
território palestino desde a data de entrada em normas internacionais16.
vigor do Estatuto de Roma, ou seja, a 1 de julho Se a declaração palestina era destinada
de 200210. Além disso, em consonância com o a fundamentar a jurisdição do TPI, ela não
artigo 12-3 do Estatuto de Roma, segundo o qual garantia, per se, que os alegados crimes sejam
a jurisdição do TPI pode ser estabelecida quando investigados e processados pelo Tribunal. Duas
um Estado que aceitou a sua jurisdição dispõe, razões para isso, que marcam uma diferença
quer de um título territorial11 quer de um título nítida entre Estados partes e Estados não
pessoal, o Tribunal poderá também exercer a partes: por um lado, os Estados terceiros ao
sua jurisdição relativamente a crimes ou pessoas Estatuto de Roma não podem submeter uma
sob a jurisdição respetiva de Estados que não situação ao Procurador17; por outro lado, no
aceitaram nem ratificaram o seu Estatuto12. Tal é caso de o Procurador escolher não processar, os
o caso de Israel, que assinou o Estatuto de Roma, Estados terceiros estão privados da faculdade de
em 31 de dezembro de 2000, antes de anunciar solicitar à Câmara Preliminar que reconsidere
a sua vontade de não se tornar parte em 28 de tal decisão18, do mesmo modo que a Câmara
agosto de 200213. Qualquer seletividade sendo de Preliminar não tem a possibilidade de convidar o
excluir, o TPI teria competência para investigar, Procurador a reconsiderar a sua decisão de abrir
processar e julgar todos os responsáveis por ou não uma investigação ou de processar ou não
factos incriminados pelo seu Estatuto (princípio à luz de novos factos ou informações19.
da personalidade ativa) e cometidos no território Uma vez recebida a declaração do Estado,
palestino (princípio da territorialidade). o Gabinete do Procurador deve examinar
Concretamente, estão aqui em causa tanto todos os elementos destinados a estabelecer a
cidadãos israelenses como palestinos, ou até de jurisdição do TPI20, nomeadamente se crimes da
outras nacionalidades. Isto mostra o quanto a sua competência foram cometidos21 e, em caso
arma da justiça penal internacional pode ser de afirmativo, em conformidade com o princípio
dois gumes. da complementaridade, se processos penais
Em 3 de abril de 2009, ou seja, apenas foram iniciados a nível nacional para julgar os
alguns meses após a entrega pela Palestina da alegados crimes. Mais especificamente, ele deve
sua declaração de aceitação da jurisdição do examinar se a declaração de reconhecimento

118
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

da jurisdição do TPI cumpre os requisitos do on the applicability of Article 12 paragraph


Estatuto de Roma, o qual só aceita declarações 3”28. Mais amplamente, considerar a declaração
de aceitação por parte de Estados. Confrontado palestina como inválida significava consagrar
com esta questão da qualidade de Estado da os territórios ocupados por Israel como uma
Palestina – questão controversa que continua a zona de impunidade já que, além da hipótese
dividir os próprios Estados como o demonstra totalmente improvável de um encaminhamento
a sua falta de reconhecimento unânime na da situação pelo Conselho de Segurança,
cena internacional –, algum embaraço foi nenhum Estado, parte ou declarante, poderia em
rapidamente percetível. Assim, o Secretário seguida reconhecer a jurisdição do TPI sobre os
acusou receção da declaração palestina em 23 de crimes cometidos nesses territórios.
janeiro de 2009, “without prejudice to a judicial
determination on the applicability of Article 12 2. A DECLARAÇÃO DE ACEITAÇÃO DA
paragraph 3” do Estatuto Roma a esta declaração.
Posteriormente, durante três anos, de janeiro de JURISDIÇÃO DO TPI DE 2014
2009 a abril de 2012, o Procurador do TPI, Luis Um segundo recurso ao TPI ocorreu em
Moreno Ocampo, instruiu a situação palestina, 31 de dezembro de 2014, seguindo o mesmo
antes de suspender a sua análise preliminar em caminho que o primeiro. Entre 2009 e 2014, um
12 de abril de 2012, tendo em conta que era evento significativo sucedeu com a votação na
duvidosa a qualidade de Estado da Palestina,
Assembleia Geral, em 29 de novembro de 2012,
então mera entidade observadora na ONU22,
a favor da adesão da Palestina à ONU não como
e de remeter esta questão para os “competent
Estado membro, como o desejava o Presidente
organs of the United Nations or the Assembly of
Mahmoud Abbas, mas como Estado observador
States Parties”23.
não-membro da ONU29. Tal estatuto afastava,
Tal posição, vindo assim bloquear a portanto, qualquer dúvida quanto à natureza de
iniciativa palestina, tem sido criticada na
Estado da Palestina e abria-lhe a porta para a
doutrina. Vários autores têm argumentado que
ratificação de convenções internacionais, entre
não era necessário que o TPI se pronunciasse in
as quais o Estatuto de Roma. Em abril de 2014,
abstracto sobre a natureza de Estado da entidade
a Palestina ratificou 22 tratados, incluindo as
palestina e, portanto, que “reconhecesse”
um Estado palestino Esta qualificação é da Convenções de Genebra de 1949, mas excluindo
competência de cada Estado nas suas relações o Estatuto de Roma cuja ratificação foi adiada
bilaterais. No âmbito do TPI, uma “abordagem pelo Governo palestiniano, como se fosse uma
teleológica e funcional”24 teria sido suficiente “opção nuclear” de último recurso.
para lhe permitir determinar se as condições Desta vez é o próprio Presidente palestino,
para o exercício da sua competência, tal como Mahmoud Abbas, que assinou a segunda
previstas pelo Estatuto, estavam reunidas no declaração ad hoc pela qual a Palestina
presente caso. Por outras palavras, de acordo com reconhecia a jurisdição do TPI “for the purpose
o princípio geral do contencioso internacional of identifying, prosecuting and judging the
da kompetenz kompetenz, como juiz da sua authors and accomplices of crimes within the
competência, o próprio Estatuto do TPI25, no seu jurisdiction of the Court committed in the
artigo 19-1, exige que este se pronuncie sobre a Occupied Palestinian Territory, including East
sua jurisdição. Cabia, portanto, ao Procurador Jerusalem, since 13 June 2014”30.
decidir se a Palestina podia ser considerada como
um Estado no sentido específico do artigo 12-3 Se o novo encaminhamento ao TPI segue
do Estatuto, e não in abstracto, na aceção do o mesmo caminho que o primeiro, ele difere em
direito internacional geral26. Na falta de decisão, vários aspetos. Ratione loci, em vez do território
o mesmo deveria ter solicitado as câmaras da Palestina, é doravante o território palestino
para permitir uma determinação judicial27. ocupado assim como Jerusalém Oriental que
É interessante salientar que é precisamente são objeto de uma referência explícita. Ratione
neste sentido que se pronunciou o Secretário temporis, se a segunda declaração, como a
do Tribunal que, no momento em que acusou primeira, é válida por um período indefinido, o
receção da declaração palestina de 2009, indicou cursor do ponto de partida da jurisdição do TPI é
que essa declaração palestina era registrada avançado 12 anos mais tarde, para 13 de junho
“without prejudice to a judicial determination de 2014.

119
Catherine Maia

De muitas maneiras, a escolha desta nova para Estado observador não-membro – não
data não é anódina. Pois, foi em 13 de junho de poderia retroativamente validar a declaração
2014, ou seja, no dia após o sequestro e depois de 2009, o caminho da ratificação do Estatuto
o assassinato de três dos seus jovens cidadãos, de Roma ou de uma nova declaração era agora
que Israel lançou na Faixa de Gaza a operação possível34.
militar “Barreira de proteção”, apenas 11 dias
depois de a Palestina conseguir formar um 3. A ADESÃO AO ESTATUTO DE ROMA
Governo de unidade nacional reunindo o Fatah e EM 2015
o Hamas. Esta nova operação militar, que durou
o dobro do tempo que a de 2009, foi muito mais Ultimamente, foi dado um passo adicional
mortal e devastadora. Por conseguinte, sem com a adesão da Palestina ao Estatuto de
esperar o fim das hostilidades, o Conselho dos Roma35, em 1 de abril de 2015, elevando para
Direitos Humanos da ONU decidiu criar, em 23 123 o número total de Estados Partes. Mais uma
de julho de 2014, uma Comissão de inquérito vez, a data não é anódina. Além do impasse sem
internacional independente, fixando o dia 13 de fim do conflito israelo-palestino podendo fazer
junho como data de início do seu mandato. Os com que a justiça penal internacional apareça
objetivos da Comissão eram “to investigate all como uma arma de último recurso, a adesão
violations of international humanitarian law and palestina ocorreu após a rejeição do Conselho
international human rights law in the Occupied de Segurança de adotar uma resolução apelando
Palestinian Territory, including East Jerusalem, à criação de um Estado palestino independente
particularly in the occupied Gaza Strip, in the dentro de um ano36.
context of the military operations conducted Esta adesão, fortemente criticada pelas
since 13 June 2014, whether before, during or autoridades israelenses como um ato hostil,
after, to establish the facts and circumstances não equivale a um recurso por uma declaração
of such violations and of the crimes perpetrated ad hoc. Ratione materiae, ela abre o caminho
and to identify those responsible, to make para o encaminhamento ao TPI da “situação”
recommendations, in particular on accountability palestina na sua totalidade, sem a possibilidade
measures, all with a view to avoiding and ending de restringi-la a factos específicos. Ratione
impunity and ensuring that those responsible temporis, ela torna o TPI competente a partir
are held accountable, and on ways and means to de 1 abril de 2015, sem a possibilidade de julgar
protect civilians against any further assaults”31. retroactivemente atos praticados antes dessa data
O relatório da Comissão, publicado em 24 de (mas depois de 1 de julho de 2002, data objetiva
junho de 2015, destacou graves violações do de entrada em vigor do Estatuto de Roma). Este
direito internacional dos direitos humanos e do limite em relação ao Estado declarante é, no
direito internacional humanitário cometidas por entanto, compensado pelo benefício significativo
ambos os lados, incluindo possíveis crimes de para o Estado parte de poder recorrer à Câmara
guerra32. Preliminar, com vista a pedir ao Procurador
O destino da declaração de 2014 foi para reconsiderar a sua eventual rejeição de não
melhor que o da anterior declaração de 2009. processar37.
Em 7 de janeiro de 2015, o Secretário do TPI Com esta adesão, o objetivo declarado dos
enviou uma carta ao Governo da Palestina Palestinos é fazer julgar os líderes israelenses
informando da aceitação desta declaração e da pelos seus crimes internacionais, ligados ou
sua transmissão para exame à nova Procuradora, não com a ocupação, pelo TPI, ou seja, por
Fatou Bensouda33. Antes da sua recepção, esta um tribunal independente e permanente, que
última tinha-se mostrado favorável a uma tal tem jurisdição sobre os indivíduos (e não os
abordagem. Assim, num artigo publicado a Estados) autores dos crimes mais graves que
29 de agosto de 2014 no jornal britânico The afetam a comunidade internacional como um
Guardian, ela desmentiu os rumores de que todo (genocídios, crimes contra a humanidade,
as pressões sobre o Tribunal teriam levado crimes de guerra e agressões).
o anterior Procurador a rejeitar a declaração A faculdade para a Palestina de encaminhar
palestina de 2009. Comentando os motivos a sua situação ao TPI terá, sem dúvida,
da rejeição, ela proclamou claramente que se a implicações diplomáticas consideráveis para as
alteração do estatuto da Palestina na ONU, em suas relações com Israel e as negociações que
novembro de 2012, – de entidade observadora

120
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

devem levar à criação de dois Estados38. Uma vez se existe uma base razoável para iniciar uma
a máquina judicial lançada, nenhuma marcha investigação ao abrigo dos critérios estabelecidos
atrás será possível, mesmo por considerações pelo Estatuto de Roma. Consequentemente, as
relacionadas com a paz. Isso mostra o quanto informações na posse do Procurador não têm de
esta deve ser manuseada com extrema cautela, e ser “neither comprehensive nor conclusive”42.
o quanto o uso que os Palestinos farão permanece Além disso, elas têm “certainly need not point
ainda incerto39. towards only one conclusion”43. Por outras
palavras, o Procurador poderá concluir que existe
4. DO EXAME PRELIMINAR A UM uma base razoável para a jurisdição do Tribunal,
POSSÍVEL INQUÉRITO mesmo em face de factos contraditórios.
Do ponto de vista temporal, devem ser
Seja qual for o caminho seguido para recorrer
diferenciados os diversos tipos de recursos:
ao TPI, o percurso que vai desde a abertura de
quando o recurso ao TPI é introduzido por um
um exame preliminar até ao inquérito, e depois Estado parte, apenas os crimes cometidos em uma
ao julgamento, é muitas vezes longo e complexo. data posterior à entrada em vigor do Estatuto são
da competência do TPI44, ou seja a 1 de abril de
A abertura de um exame preliminar 2015 para a Palestina; quando o recurso ao TPI é
De acordo com o artigo 53-1 do Estatuto iniciado através de uma declaração de aceitação
de Roma, o Procurador decidirá abrir um por um Estado não parte, ou através de um
exame preliminar depois de ter considerado encaminhamento pelo Conselho de Segurança, o
cumulativamente os seguintes elementos: “(a) Estatuto pode ser aplicado retroativamente, sem
The information available to the Prosecutor poder ir antes da data de 1 de julho de 200245,
provides a reasonable basis to believe that a crime critério respeitado por ambas as declarações de
within the jurisdiction of the Court has been or aceitação da jurisdição do TPI emitidas pela
is being committed; (b) The case is or would be Palestina.
admissible under article 17 [complementarity Do ponto de vista material, apenas os
and gravity]; and (c) Taking into account the factos incriminados no Estatuto de Roma podem
gravity of the crime and the interests of victims, ser julgados pelo TPI, o que abrange atualmente
there are nonetheless substantial reasons to os genocídios46, os crimes de guerra47, os crimes
believe that an investigation would not serve the contra a humanidade48 e, a prazo, agressões49.
interests of justice”. Do ponto de vista espacial ou pessoal, os
Assim, para além dos casos em que uma alegados crimes devem ter sido cometidos quer
investigação seria suscetível de não servir os no território quer por um nacional de um Estado
interesses da justiça40 – hipótese que nunca parte ao Estatuto, por um Estado terceiro que
se apresentou até agora – cabe ao Procurador tenha apresentado uma declaração ad hoc ou por
verificar que duas condições estão preenchidas. um Estado cuja situação tenha sido encaminhada
Em primeiro lugar, deve haver uma “base pelo Conselho de Segurança.
razoável” para acreditar que um crime da Tendo em conta as conclusões das várias
jurisdição do TPI foi ou está a ser cometido. missões de investigação sobre a Palestina, pode-
Por outras palavras, “there must be a reasonable se considerar que, destes diferentes pontos de
basis to believe that the information fulfils all vista, esta “base razoável” de competência existe
jurisdictional requirements, namely, temporal, efetivamente neste caso50.
subject-matter, and either territorial or personal Uma vez estabelecida a jurisdição do TPI,
jurisdiction”41. o Procurador deverá, numa segunda etapa,
Não sendo o exame preliminar um verificar a admissibilidade do caso. De acordo
inquérito, não se trata de identificar ou localizar com o artigo 17-1 do Estatuto de Roma, “a
os autores de crimes no âmbito da jurisdição do case is inadmissible where: (a) The case is
TPI. Na verdade, os poderes do Procurador, nesta being investigated or prosecuted by a State
fase inicial, são muito mais limitados do que which has jurisdiction over it, unless the State
aqueles disponíveis para investigar, o que explica is unwilling or unable genuinely to carry out
um limiar pouco exigente para a administração the investigation or prosecution; (b) The case
da prova. Trata-se apenas de examinar as has been investigated by a State which has
informações disponíveis, com vista a determinar jurisdiction over it and the State has decided

121
Catherine Maia

not to prosecute the person concerned, unless necessary evidence and testimony or otherwise
the decision resulted from the unwillingness or unable to carry out its proceedings”53.
inability of the State genuinely to prosecute; (c) Nesta fase, para distinguir as situações
The person concerned has already been tried for que justificam uma investigação das demais,
conduct which is the subject of the complaint, o Gabinete do Procurador elaborou, de forma
and a trial by the Court is not permitted under pormenorizada, um “processo de filtragem”
article 20, paragraph 3; (d) The case is not of dividido em quatro fases:
sufficient gravity to justify further action by the “78. Phase 1 consists of an initial assessment
Court”. of all information on alleged crimes received
Em virtude do princípio da under article 15 (‘communications’). The
complementaridade, que é a pedra angular do purpose is to analyze and verify the seriousness
funcionamento do TPI, as autoridades nacionais of information received, filter out information
têm a responsabilidade primária do julgamento on crimes that are outside the jurisdiction of
dos autores de crimes internacionais. O TPI the Court and identify those that appear to fall
poderá declarar-se competente somente se o within the jurisdiction of the Court. (…)
Estado em causa não tem vontade ou capacidade 80. Phase 2, which represents the formal
para realizar investigações ou processos, commencement of a preliminary examination
bem como se encerrou um processo por falta of a given situation, focuses on whether the
de vontade ou capacidade de processar. Por preconditions to the exercise of jurisdiction
conseguinte, ele deverá previamente verificar se under article 12 are satisfied and whether there
os crimes alegados são ou têm sido objeto de uma is a reasonable basis to believe that the alleged
investigação ou de um processo. Se assim for, crimes fall within the subject-matter jurisdiction
ele deverá, em seguida, verificar se existe uma of the Court. Phase 2-analysis is conducted
eventual falta de vontade ou de capacidade para in respect of all article 15 communications
investigar e processar51, o que inevitavelmente that were not rejected in Phase 1, as well as of
o levará a formular uma apreciação sobre os information arising from referrals by a State
processos penais nacionais. party or the Security Council, declarations
lodged pursuant to article 12(3), open source
Para identificar uma possível falta de
information, and testimony received at the seat
vontade do Estado num caso, o TPI poderá ter
of the Court.
em conta vários fatores considerados relevantes,
tanto objetivos quanto subjetivos52. Poderão ser 81. Phase 2 analysis entails a thorough
factual and legal assessment of the crimes
considerados, entre muitos outros, como fatores
allegedly committed in the situation at hand
objetivos, a ausência de uma legislação que
with a view to identifying the potential cases
incrimina os factos alegados, a existência de uma
falling within the jurisdiction of the Court.
legislação de amnistia ou de prescrição, pressões
The Office will pay particular consideration to
ou ameaças a testemunhas ou funcionários
crimes committed on a large scale, as part of
judiciais, atrasos injustificados ou uma falta
a plan or pursuant to a policy. The Office may
de imparcialidade ou de independência dos further gather information on relevant national
procedimentos nacionais incompatível com proceedings if such information is available at
a intenção de processar um acusado, e como this stage. Phase 2 leads to the submission of an
fatores subjetivos, a política penal nacional ‘Article 5 report’ to the Prosecutor, in reference
cuja finalidade não deve ser a de subtrair o to the material jurisdiction of the Court as
acusado à sua responsabilidade penal por crimes defined in article 5 of the Statute.
internacionais.
82. Phase 3 focuses on the admissibility
Para identificar uma possível falta de of potential cases in terms of complementarity
capacidade do Estado num caso, o TPI poderá and gravity54 pursuant to article 17. In this
também levar em conta outros fatores, muitas phase, the Office will also continue to collect
vezes ligados ao caos em situações de pós- information on subject-matter jurisdiction,
conflito. Em particular, “the Court shall consider in particular when new or ongoing crimes are
whether, due to a total or substantial collapse alleged to have been committed within the
or unavailability of its national judicial system, situation. Phase 3 leads to the submission of an
the State is unable to obtain the accused or the ‘Article 17 report’ to the Prosecutor, in reference

122
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

to the admissibility issues as defined in article críticas visaram a política penal do Procurador,
17 of the Statute. cuja suposta parcialidade teria permitido abrir
83. Phase 4 examines the interests of exames preliminares apenas no caso de Estados
justice. It results in the production of an ‘Article fracos ou, pelo menos, de situações que não
53(1) report,’ which provides the basis for the envolvem nenhum Estado poderoso61. Os
Prosecutor to determine whether to initiate an exames preliminares atualmente realizados no
investigation in accordance with article 53(1). âmbito das situações no Afeganistão, Iraque,
Ucrânia e Geórgia poderiam refutar essas
84. On the basis of the available information,
críticas se ultrapassarem esta fase preliminar
and without prejudice to other possible crimes para conduzir a investigações envolvendo várias
which may be identified in the course of an grandes potências62.
investigation, the ‘Article 53(1) report’ will
Em seguida, a imparcialidade implica que o
indicate an initial legal characterization of the
Procurador não leve em conta fatores como idade,
alleged crimes within the jurisdiction of the
sexo, língua, religião, fortuna, opiniões políticas,
Court”55.
origem nacional, étnica ou social, situação
De acordo com este processo de filtragem, é geográfica ou equilíbrio regional63. Certamente,
apenas uma vez estabelecida a jurisdição do TPI nas dez situações atualmente submetidas ao
(fase 2) que é verificada a existência de processos TPI, todas – com a exceção da Geórgia – estão
nacionais em curso na fase de apreciação da localizadas no continente Africano. Todavia,
admissibilidade do caso (fase 3). seis resultam de um encaminhamento pelos
Que tal no caso da Palestina? Depois de próprios Estados Africanos64, duas de um
receber a primeira declaração de aceitação da encaminhamento pelo Conselho de Segurança65,
jurisdição do TPI em 2009, o Procurador teve e outras duas de um encaminhamento pelo
de verificar a existência de processos penais Procurador66.
nacionais, tanto na Palestina como em Israel. Finalmente, a objetividade implica, por
No lado palestino, pôde constatar a intenção um lado, que o Procurador conduza exames
da Palestina de realizar investigações no seu preliminares tanto a nível da acusação como
território56; do lado israelense, recebeu um da defesa, por outro lado, que use métodos
relatório segundo o qual processos haviam sido padronizados para avaliar a fiabilidade e coerência
iniciados57. Esta abordagem parece demonstrar das informações recebidas67. É neste sentido
que o Procurador considerou competente o TPI que “to ensure that, in the interests of fairness,
neste caso. Paradoxalmente, no entanto, foi à objectivity and thoroughness, all relevant parties
conclusão oposta que chegou no comunicado de are given the opportunity to provide information
encerramento do exame preliminar da situação to the Office”68.
na Palestina58.
Até à data, a Procuradora abriu, em 16 A abertura de um inquérito
de janeiro de 2015, um exame preliminar da O exame preliminar deve estabelecer, numa
situação na Palestina com base na segunda fase inicial, se as condições estabelecidas pelo
declaração de 201459. A situação palestina Estatuto do TPI autorizam a abertura de um
encontra-se na fase de avaliação da competência inquérito. O seu encerramento pode levar a um
do TPI (fase 2), isto é, numa fase anterior à processo, à ausência de um processo, ou mesmo,
análise da admissibilidade e complementaridade em alguns casos, a uma ausência de decisão.
(fase 3). Esta situação adiciona-se às outras para A abertura de uma investigação é
as quais o Gabinete do Procurador está a realizar condicionada pela existência de uma base
exames preliminares: Afeganistão, Burundi, razoável para processar e varia de acordo com a
Colômbia, Gabão, Guiné, Iraque/Reino Unido, modalidade pela qual se recorreu ao TPI. Quando
Navios de Cômoros, Grécia e Camboja, Nigéria, um Estado terceiro ao Estatuto de Roma recorre
Ucrânia. ao TPI na base de uma declaração de aceitação da
Três princípios deverão nortear o exame sua jurisdição, como o fez a Palestina em 2009 e
preliminar: a independência, a imparcialidade e a em 2014, a iniciativa de uma investigação exige
objetividade. Em primeiro lugar, a independência que o Procurador obtenha uma autorização da
implica que o Procurador atue sem levar em conta Câmara Preliminar. Esta autorização, que tem
influências exteriores60. A este respeito, várias por objetivo fornecer garantias no exercício

123
Catherine Maia

das prerrogativas do Procurador, não prejudica onde foi mencionada explicitamente a ausência
decisões ulteriores que virão a ser adotadas de base razoável para abrir um inquérito74.
pelo Tribunal no que respeita à competência Sobre este ponto, a Palestina destaca-se como
e à admissibilidade69. Por agora, com base uma exceção notável. Na perspetiva da sua
na segunda declaração ad hoc palestina, a primeira declaração de 2009, continua a ser, de
Procuradora não tomou a iniciativa de pedir à facto, o único caso de exame preliminar a ter
Câmara Preliminar a autorização para abrir um sido concluído sem ser objeto de um relatório,
inquérito. Uma resposta negativa da Câmara embora a duração como a complexidade do
Preliminar não impediria que a Procuradora conflito israelo-palestino tivessem certamente
apresentasse, mais tarde, “a further request based necessitado uma análise mais aprofundada75.
on new facts or evidence regarding the same Além disso, embora o relatório anual do
situation”70. No entanto, quando o Conselho de Procurador76 bem como o site internet do TPI
Segurança ou um Estado parte ao Estatuto de tenham, em 2012, classificada a Palestina
Roma recorre ao TPI, o Procurador pode decidir entre os exames preliminares encerrados, o
sozinho a abertura de um inquérito, sem que comunicado de imprensa do Tribunal de 3
seja necessário a autorização prévia da Câmara de abril de 2012 relativo a esta situação não é
Preliminar. Assim, no futuro, se a Palestina explícito sobre este encerramento77.
viesse a escolher submeter a sua situação ao Depois da chegada, a 15 de junho de 2012,
TPI como Estado parte, a Procuradora teria da nova Procuradora, Fatou Bensouda, a situação
a possibilidade de abrir um inquérito proprio da Palestina desapareceu misteriosamente da
moto. lista dos exames preliminares encerrados no
Quando, à luz das informações recolhidas, site internet do TPI. É como se a Procuradora
o Procurador considera que falta uma base tivesse querido apagar qualquer referência
razoável para processar, pode recusar-se a abrir ao anterior encerramento realizado pelo seu
uma investigação. Contrapartida da ampla antecessor com base na declaração de 2009,
margem de apreciação do Procurador no tocante mas não formalizado num relatório público.
à oportunidade de dar início a um processo, as Através de um comunicado de imprensa do
suas decisões estão aqui sujeitas a um controlo TPI, ela anunciou, em 16 de janeiro de 2015,
judicial. Ele está vinculado pela obrigação de que abria um exame preliminar sobre a situação
informar os motivos da sua recusa em relação da Palestina com base na segunda declaração de
à Câmara Preliminar em todos os casos e, além 201478.
disso, em relação ao Conselho de Segurança Desde a sua adesão ao Estatuto de Roma, em
ou a um Estado parte no caso de a situação ter 1 de abril de 2015, a Palestina perdeu a faculdade
sido submetida por um ou outro. Nesta última de apresentar uma nova declaração de aceitação
hipótese, a pedido do Conselho de Segurança ou da jurisdição do TPI e, consequentemente, a
de um Estado parte, a Câmara Preliminar tem possibilidade que os crimes cometidos no seu
a oportunidade de solicitar ao Procurador que território antes da data de 13 de junho de 2014
reconsidere parcial ou completamente a sua possam cair dentro da jurisdição deste Tribunal.
recusa71. Trata-se de um mero convite e não de Na hipótese de uma recusa da Procuradora
uma obrigação para o Procurador que, enquanto para processar com base na declaração ad
responsável pela condução do processo, hoc de 2014, a Palestina não poderia pedir à
permanece o único mestre da oportunidade de Câmara Preliminar para convidar o Procurador
passar da fase do exame preliminar para a fase a “reconsider that decision”79 de não abrir uma
do inquérito e, portanto, mais amplamente, da investigação. Este caminho sendo-lhe fechado,
política penal do TPI72. Isto mostra o quanto “a a única via possível seria então a de submeter
Corte depende substancialmente da seleção, pelo a sua situação ao TPI como Estado parte ao
Procurador, das investigações e dos processos”73. Estatuto de Roma.
Até agora, o Procurador decidiu em quatro
ocasiões no sentido de uma recusa de processar
A ausência de decisão formal
em situações relativas à Venezuela, Coreia, O adjetivo “preliminar” pode sugerir
Navios de Cômoros, Grécia e Camboja, e que o exame preliminar tem por vocação ser
Palestina. O Procurador apresentou, para cada necessariamente transitório. No entanto, o
uma destas situações, um relatório público Estatuto de Roma não impõe qualquer prazo, na

124
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

fase do exame preliminar, para que o Procurador anos. Tal é o caso, nomeadamente, da Colômbia,
tome uma decisão – positiva ou negativa – sobre cujo exame preliminar começou em junho de
a abertura de um inquérito. Dependendo das 2004, continuando desde então durante mais de
circunstâncias de cada caso, pode, portanto, dez anos, sem que se possa ver ainda o desfecho.
decidir continuar indefinidamente a recolher Um tal prazo, particularmente longo, só pode
informações. suscitar a perplexidade sobre a capacidade do
Este ponto foi confirmado na jurisprudência Procurador para determinar simplesmente
do TPI. Em 2006, no âmbito da situação da se existe uma base razoável para processar.
República Centro-Africana, na qual o Procurador Ademais, a ausência de formalização de qualquer
foi solicitado para fornecer informações sobre decisão oferece ao Procurador uma escapatória
o estado de adiantamento dos seus exames fácil ao controlo jurisdicional das suas recusas
preliminares, este tem negado à Câmara de processar, o que certamente restringe a sua
Preliminar III a faculdade de exercer um controlo eficiência e se revela prejudicial em termos de
jurisdicional, na ausência de uma recusa preservação da prova. Essa é a razão pela qual,
formal da sua parte para abrir um inquérito. à luz do princípio do efeito útil consagrado pela
O Procurador, “while committed to reaching jurisprudência do Tribunal Internacional de
decisions under Article 53(1) as expeditiously Justiça (TIJ)82, a doutrina propôs que a Câmara
as possible, submits that no provision in the Preliminar possa impor ao Procurador um prazo
Statute or the Rules establishes a definitive na tomada de decisões, ou que possa deduzir das
time period for the purposes of the completion suas ações ou omissões uma decisão implícita83.
of the preliminary examination”; “this was a O anterior Procurador do TPI tendo levado
deliberate legislative decision that provides the mais de três anos para concluir que não era
required flexibility to adjust the parameters of capaz de decidir sobre a qualidade de Estado
the assessment or analysis phase to the specific da Palestina, é possível prever que a atual
features of each particular situation. That choice, Procuradora não chegará a uma decisão acerca da
and the discretion that it provides, should remain questão da oportunidade de abrir um inquérito
undisturbed”80. Esta argumentação foi seguida, antes de vários anos, ou até que não tomará
neste caso, pela Câmara. No ano seguinte, qualquer decisão a este respeito, deixando o
em 2007, desta vez no âmbito da situação na exame preliminar prolongar-se indefinidamente.
República Democrática do Congo, a Câmara A estas dificuldades já consideráveis, deve-se
Preliminar I rejeitou os pedidos de vítimas para acrescentar, mesmo na hipótese de uma decisão
que ela analisasse a alegada decisão implícita favorável, a possibilidade para o Conselho de
do Procurador de não processar e que tome Segurança de impedir a abertura ou a continuação
medidas de proteção das provas. Mais uma vez, de uma investigação por um período de doze
esta rejeição foi baseada na ausência de decisão meses, renovável, por uma resolução adotada ao
formal pelo Procurador81. abrigo do capítulo VII da Carta da ONU84.
Até agora, a prática do TPI tende a De acordo com previsões mais otimistas,
demostrar uma extrema variabilidade quanto à se a situação da Palestina passasse da fase do
duração dos exames preliminares, indo de alguns exame preliminar para a fase do inquérito, e
dias até vários anos. Assim, em relação aos dois depois para a fase do julgamento, o TPI teria
casos de recurso pelo Conselho de Segurança, então que se determinar sobre a culpabilidade
o Procurador foi capaz de se determinar dos alegados autores de crimes internacionais
rapidamente. No caso de Darfur (Sudão), o cometidos no território palestino, tal como
exame preliminar durou 67 dias, isto é, pouco o uso indiscriminado e desproporcionado
mais de dois meses entre a adoção da Resolução da força armada, o deslocamento forçado de
1593 de 31 de março de 2005 e a decisão de pessoas e a destruição de propriedades. O TPI
abrir um inquérito em 6 junho de 2005. No teria certamente também, e mais amplamente,
caso da Líbia, o exame preliminar durou apenas de se determinar sobre questões importantes
cinco dias entre a adoção da Resolução 1970 e sensíveis conexas, em especial a ocupação
de 26 de fevereiro de 2011 e a decisão de abrir dos territórios palestinos desde 196785, a qual
um inquérito em 3 de março de 2011. Na outra poderia ser qualificada de crime de guerra86, a
extremidade da escala, há situações em que o construção de um muro israelita de separação na
exame preliminar se estende ao longo de vários Cisjordânia, cuja ilegalidade já foi proclamada

125
Catherine Maia

pelo TIJ em 200487, ou ainda o traçado – sempre jurisdição internacional do TPI, com exceção
incerto – das fronteiras delimitando o Estado dos cidadãos israelitas88. E, mesmo se o TPI
palestino e o Estado israelense. considerasse que o sistema judicial israelita
Além da dificuldade de tais questões, carece da independência estrutural e institucional
que estão ancoradas no contexto de um longo necessária para levar a cabo investigações e
conflito velho de quase 70 anos, o TPI terá ainda processos, como foi salientado no Relatório
de apreciar o igualmente delicado respeito do Goldstone de setembro de 2009, ele ainda teria
princípio da complementaridade. É possível que de contar com a indispensável cooperação dos
este princípio funcione contra a Palestina. De Estados envolvidos nos crimes julgados. Todos
facto, enquanto Israel poderá prevalecer-se da estes obstáculos pressagiam o quanto o resultado
qualidade das suas infraestruturas jurisdicionais desta saga judicial iniciada pelas autoridades
nacionais para levar a bom termo investigações palestinas é, até à data, altamente incerto e o
e processos, tal não seria o caso da Palestina quanto este caso pode aparecer como a prova de
que sofre de uma certa fraqueza institucional. fogo para o TPI.
Os cidadãos palestinos ficariam então sob a

126
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

NOTAS

1. Ver M. EYNARD, “La relation juridique entre “¿Es Palestina un Estado? Reflexiones a la
la Palestine et le Procureur de la Cour pénale luz del derecho internacional y de la práctica
internationale”, in T. GARCIA (dir.), La Palestine: europea sobre los acontecimientos recientes
d’un État non membre de l’Organisation des en torno al reconocimiento de un Estado
Nations Unies à un État souverain?, Paris, palestino”, Revista de Estudios Europeos, vol.
Pedone, 2016, p. 95. 65, 2014, pp. 9-40.
2. R. CHARVIN, “Droit international et conflit 5. Ver M.M. EL ZEIDY, “Ad hoc Declarations of
israélo-palestinien”, comunicação apresentada Acceptance of Jurisdiction: The Palestinian
no colóquio “Où en est la Palestine?, organizado Situation under Scrutiny”, in C. STAHN (ed.),
por R. PORTEILLA e P. ICARD, na Universidade de The Law and Practice of the International
Bourgogne (França), em 18 de novembro de Criminal Court, Oxford, Oxford University
2014. Press, 2015, pp. 179-209.
3. Ver C. MAIA, K. HAMA, “La Cour pénale 6. Entre a abundante literatura alimentada por
internationale vue d’Afrique: organe esta saga judicial, ver, nomeadamente: J.
juridictionnel ou organe politique?”, QUIGLEY, “Palestine is a State so the Consent
L’Observateur des Nations Unies, vol. 32, 2012, Declaration is a Valid Basis for Investigation
pp. 75-98. Um novo limiar de insatisfação dos by the ICC”, in R.H. STEINBERG (ed.),
líderes africanos foi franqueado com os processos Contemporary Issues facing the International
sucessivamente lançados pelo TPI contra o Criminal Court, Leiden, Brill/Nijhoff, 2016, pp.
Presidente do Sudão, Omar al-Bashir, em 2009, 39-50; C. MELONI, G. TOGNONI (eds.), Is There a
e depois contra o Presidente do Quênia, Uhuru Court for Gaza? A Test Bench for International
Kenyatta, e do líder líbio, Muammar Gaddafi, Justice, The Hague, TMC Asser Press, 2012;
em 2011. Enquanto era encerrado o caso contra J. DUGARD, “Palestine and the International
Muammar Gaddafi, em novembro de 2011, Criminal Court: Institutional Failure or Bias?”,
após a sua morte, e a Procuradora decidia, em Journal of International Criminal Justice,
dezembro de 2014, o abandono das acusações vol. 11, 2013, pp. 563-570; A. ZIMMERMANN,
contra o Presidente queniano em exercício, por “Palestine and the International Criminal Court
falta de provas suficientes num caso em que a Quo Vadis? Reach and Limits of Declarations
cooperação do Quênia foi escassa, o Presidente Under Article 12(3)”, Journal of International
sudanês, participou oficialmente, em junho de Criminal Justice, vol. 11, 2013, pp. 303-329;
2015, na 25ª cimeira da União Africana sem M.C. KEARNEY, “Palestine and the International
ser inquietado pelas autoridades anfitriãs sul- Criminal Court”, in Palestine and International
africanas. Este evento foi uma oportunidade Law: New Approaches. Proceedings of the
para o Presidente da União Africana de Conference held in Birzeit University, on 24-
ameaçar novamente a retirada do Estatuto 26 September 2010, Birzeit, Birzeit University,
do TPI pelo conjunto dos 34 países africanos Institute of Law, 2011, pp. 137-148; W.T.
que são atualmente partes, com vista à criação WORSTER, “The Exercise of Jurisdiction by the
alternativa de um futuro Tribunal Africano de International Criminal Court over Palestine”,
Justiça e direitos Humanos. The American University International Law
4. Sobre esta questão, ver, nomeadamente: Review, vol. 26, 2011, pp. 1153-1209; D.
C. MAIA, “Les positions politiques et les BENOLIEL, R. PERRY, “Israel, Palestine, and the
justifications juridiques des États au regard de ICC”, Michigan Journal of International Law,
la reconnaissance (ou non reconnaissance) de vol. 32, 2010, pp. 73-127.
la qualité d’État de la Palestine”, in T. GARCIA 7. De acordo com o artigo 12-3 do Estatuto de
(dir.), La Palestine: d’un État non membre de Roma: “If the acceptance of a State which is not
l’Organisation des Nations Unies à un État a Party to this Statute is required (…), that State
souverain?, Paris, Pedone, 2016, pp. 95-125; Y. may, by declaration lodged with the Registrar,
RONEN, “Recognition of the State of Palestine: accept the exercise of jurisdiction by the Court
Still too Much too Soon?”, in C. CHINKIN, F. with respect to the crime in question. The
BAETENS (eds.), Sovereignty, Statehood and accepting State shall cooperate with the Court
State Responsibility: Essays in Honour of James without any delay or exception (…)”.
Crawford, Cambridge, Cambridge University
Press, 2015, pp. 229-247; R. BERMEJO GARCÍA,

127
Catherine Maia

8. Além da Palestina, dois outros Estados não “46. (…) it is common ground that the
partes ao Estatuto de Roma optaram por European Communities concluded two Euro-
apresentar junto do Secretário do TPI uma Mediterranean Association Agreements, first
declaração ad hoc. Tal é o caso da Costa do with the State of Israel and then with the PLO
Marfim que, por uma declaração datada de for the benefit of the Palestinian Authority of
18 de abril de 2003, aceitou o exercício da the West Bank and the Gaza Strip.
jurisdição do Tribunal relativamente aos crimes 47. Each of those two association agreements
alegadamente cometidos no seu território has its own territorial scope. Under Article 83
desde 19 de setembro de 2002. Tal é também thereof, the EC-Israel Association Agreement
o caso da Ucrânia que, por uma declaração applies to the ‘territory of the State of
datada de 25 de fevereiro de 2014, aceitou o Israel’. Under Article 73 thereof, the EC-
exercício da jurisdição do Tribunal sobre crimes PLO Association Agreement applies to the
alegadamente cometidos no seu território entre ‘territories of the West Bank and the Gaza
21 de novembro de 2013 e 22 de fevereiro de Strip’.
2014.
48. That being so, those two association
9. Governo da Palestina, “Declaration recognizing agreements pursue an identical objective –
the jurisdiction of the International Criminal referred to in Article 6(1) of the EC-Israel
Court”, 21 de janeiro de 2009. Association Agreement and Article 3 of the
10. Tal como a declaração palestina de 2009, a EC-PLO Association Agreement, respectively
declaração de aceitação da jurisdição do TPI, – which is to establish and/or reinforce a free
emitida em 2003 pelo Governo da República trade area between the parties. They also have
da Costa do Marfim por intermédio do seu the same immediate purpose – defined, for
Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi feita industrial products, in Article 8 of the EC-
por “an indefinite period”. Esta declaração Israel Association Agreement and in Articles 5
visava inicialmente a crise político-militar que and 6 of the EC-PLO Association Agreement,
se seguiu à tentativa de golpe de Estado de 19 respectively – which is to abolish customs
de setembro de 2002 contra o então Presidente duties, quantitative restrictions and other
em exercício, Laurent Gbagbo. Após as eleições measures having equivalent effect in relation
de 2010, foi confirmada pelo novo Presidente to trade between the parties to each of those
da República da Costa do Marfim, Alassane agreements. (…)
Ouattara, em 14 de dezembro de 2010 e depois 51. It follows from the foregoing that the
em 3 de maio de 2011, fornecendo a base para ‘customs authorities of the exporting [State]’,
o julgamento de Laurent Gbagbo pelo TPI por within the meaning of the two protocols
crimes cometidos em 2010 e 2011, antes de a mentioned above, have exclusive competence
Costa do Marfim decidir ratificar o Estatuto de – within their territorial jurisdiction – to issue
Roma em 15 de fevereiro de 2013. movement certificates EUR.1 or to approve
11. Neste caso, independentemente da questão exporters based in the territory under their
de saber se, tal como é hoje reconhecido por administration.
uma grande maioria de países, a Palestina é de 52. Accordingly, to interpret Article 83 of the
facto um Estado, é inegável que esta é a única EC-Israel Association Agreement as meaning
a deter um título territorial no seu território that the Israeli customs authorities enjoy
e na sua população. É neste sentido que competence in respect of products originating
decidiu o TJCE no seu acórdão proferido em in the West Bank would be tantamount to
25 de fevereiro de 2010, no caso Firma Brita imposing on the Palestinian customs authorities
GmbH c. Hauptzollamt Hamburg-Hafen (C- an obligation to refrain from exercising the
386/08), no qual afirmou que as autoridades competence conferred upon them by virtue
aduaneiras palestinas são as únicas a poderem of the abovementioned provisions of the EC-
exercer sobre as mercadorias produzidas no seu PLO Protocol. Such an interpretation, the
território – incluindo as parcelas ocupadas – as effect of which would be to create an obligation
competências previstas no Protocolo CE-OLP for a third party without its consent, would
de 1997 e, portanto, que o artigo 83 do Acordo thus be contrary to the principle of general
de Associação CE-Israel, que define o âmbito international law, pacta tertiis nec nocent nec
de aplicação territorial deste acordo, deve ser prosunt, as consolidated in Article 34 of the
interpretado em conformidade com o princípio Vienna Convention”.
pacta tertiis nec nocent nec prosunt:

128
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

12. Ao contrário de algumas jurisdições, incluindo rights of the people inherent in the authority
o TIJ, perante as quais a reciprocidade do assumed by the Palestinian Authority must
consentimento é essencial, esta não é uma be fulfilled with greater commitment” (ibid, §
condição de exercício da jurisdição do TPI, 1848). Consciente da importância do princípio
como demonstrado pelo artigo 13-b do Estatuto da complementaridade no funcionamento
de Roma que dá a possibilidade ao Conselho do TPI, Israel, após a publicação do Relatório
de Segurança, agindo ao abrigo do capítulo VII Goldstone, criou a Comissão Turkel, em junho
da Carta da ONU, submeter uma situação de 2010, para investigar as circunstâncias
ao Procurador. Esta rejeição do princípio de do apresamento da flotilha de Gaza no mês
reciprocidade é explicada pelo desejo dos autores anterior. No seu relatório publicado em janeiro
do Estado de Roma de evitar que um Estado de 2011, a Comissão de inquérito concluiu que
possa unilateralmente bloquear a jurisdição do o exército israelita tinha considerado todos os
TPI e, consequentemente, aumentar a eficácia parâmetros numa situação onde teve que lidar
da luta contra a impunidade. com uma violência extrema e inesperada. Além
13. Semelhante à abordagem adotada pelos Estados disso, num segundo relatório de fevereiro de
Unidos em 6 de maio de 2002, o Governo 2013, a Comissão de inquérito constatou que os
de Israel enviou, em 28 de agosto do mesmo mecanismos de investigação israelitas estavam
ano, uma comunicação ao Secretário-geral em conformidade com o direito internacional,
da ONU, na sua qualidade de depositário, a apresentando, no entanto, 18 recomendações
fim de proclamar que “Israel does not intend para melhorar o sistema judiciário nacional
to become a party to the treaty. Accordingly, (The Public Commission to Examine the
Israel has no legal obligations arising from its Maritime Incident of 31 May 2010 – The
signature on 31 December 2000”. Turkel Commission, Second Report Israel’s
Mechanisms for Examining and Investigating
14. Richard Goldstone, cujo nome ficou associado Complaints and Claims of Violations of
ao relatório apresentado em 2009 por esta the Laws of Armed Conflict According to
Missão, foi juiz do Tribunal Constitucional da International Law, “ Chapter D: Do the
África do Sul e Procurador do Tribunal Penal Examination and Investigation Mechanisms
Internacional para a ex-Jugoslávia e do Tribunal in Israel Concerning Complaints and Claims
Penal Internacional para Ruanda. Em 1 de abril of Violations of International Humanitarian
de 2011, num artigo que causou grande alvoroço Law Conform to Israel’s Obligations Under
no momento da sua publicação no Washington International Law? ”, pp. 360ss).
Post, “Reconsidering the Goldstone Report on
Israel and War Crimes”, ele retraiu-se sobre um 17. Estatuto de Roma, artigo 14, a contrario.
ponto específico do relatório, afirmando que 18. Estatuto de Roma, artigo 53-3-a.
a comissão de inquérito que tinha presidido 19. Estatuto de Roma, artigo 53-4.
não tinha provas suficientes para afirmar
com certeza que Israel tinha matado civis 20. Após a apresentação da primeira declaração
intencionalmente. palestina de 2009, o Gabinete do Procurador
recebeu mais de 400 comunicações relativas a
15. Conselho dos Direitos Humanos, Human crimes alegadamente cometidos na Palestina.
Rights in Palestine and Other Occupied Arab Além disso, examinou vários relatórios
Territories, Report of the United Nations Fact- públicos e realizou uma mesa-redonda, em 20
Finding Mission on the Gaza Conflict, A/ de outubro de 2010, com vários especialistas e
HRC/12/48, 25 de setembro de 2009 (ver, em ONGs que vieram expor as suas observações na
particular, as conclusões, §§ 1874ss) sede do TPI. A diversidade das personalidades e
16. A missão concluiu, por um lado, “that there das ONGs que entraram em contato com o TPI
are serious doubts about the willingness of nesta ocasião demonstra quanto as expetativas
Israel to carry out genuine investigations e esperanças eram então fortes.
in an impartial, independent, prompt and 21. No plano da competência ratione materiae do
effective way as required by international TPI, o relatório Goldstone emitido em 2009
law” (ibid, § 1832) e, por outro lado, que ela pela Missão de averiguação dos factos sobre o
“is unable to consider the measures taken by conflito em Gaza, entre outras fontes, permite
the Palestinian Authority as meaningful for estimar razoavelmente que crimes cumprindo
holding to account perpetrators of serious os requisitos do artigo 5 do Estatuto de Roma
violations of international law and believes foram cometidos por ambos os lados durante a
that the responsibility for protecting the operação “Chumbo endurecido” em 2009.

129
Catherine Maia

22. TPI, Gabinete do Procurador, “Situation in international court has power to determine
Palestine”, comunicado de imprensa, 3 de abril its own jurisdiction, even when there is no
de 2012, § 4. explicit provision to that effect” (Situation in
23. Ibid., § 6. É afirmado que a “competence the Central African Republic, The Prosecutor
for determining the term ‘State’ within v. Jean-Pierre Bemba Gombo, Decision on the
the meaning of Article 12 rests, in the first Prosecutor’s Application for a Warrant of Arrest
instance, with the United Nations Secretary against Jean-Pierre Bemba Gombo, Câmara
General who, in case of doubt, will defer to the Preliminar III, ICC-01/05-01/08-14, 10 de
guidance of General Assembly. The Assembly junho de 2008, § 11).
of States Parties of the Rome Statute could also 27. Estatuto de Roma, artigo 19-3: “The Prosecutor
in due course decide to address the matter in may seek a ruling from the Court regarding a
accordance with article 112(2)(g) of the Statute” question of jurisdiction or admissibility”.
(ibid, § 5). 28. TPI, Secretário, 2009/404/SA/LASS, 23 de
24. A. PELLET, “Les effets de la reconnaissance janeiro de 2009.
par la Palestine de la compétence de la Cour 29. A Resolução 67/19 sobre o “O Estatuto da
pénale internationale”, in Mélanges en Palestina nas Nações Unidas” recebeu 138
l’honneur de Madjid Benchikh. Droit, liberté, votos a favor, 9 contra e 41 abstenções.
paix, développement, Paris, Pedone, 2011, p.
328 (tradução nossa). Longe de ser marginal, 30. Presidente do Estado de Palestina, “Declaration
uma tal abordagem funcional é prevalente accepting the jurisdiction of the International
em direito internacional, como evidenciado Criminal Court”, 31 de dezembro de 2014.
pelos numerosos instrumentos que, de acordo 31. Conselho dos Direitos Humanos, Resolução
com uma fórmula habitual, definem os seus S-21/1, “Ensuring respect for international
conceitos-chave para os efeitos da convenção law in the Occupied Palestinian Territory,
em causa (ibid., pp. 329-330). Esta abordagem including East Jerusalem”, 24 de julho de 2014,
também é particularmente justificada aqui § 13. As expressões escolhidas para descrever o
pelo facto de que, “par sa nature même, le mandato da Comissão de inquérito – tal como
Statut [de Rome] a pour objet la sauvegarde “to identify those responsible”, “with a view to
d’intérêts fondamentaux de la communauté avoiding and ending impunity and ensuring
internationale dans son ensemble” (ibid., that those responsible are held accountable” –
p. 342). Além disso, a própria definição do têm uma conotação penal que lembra a função
Estado não escapa completamente: “le droit do TPI.
international contemporain dessine l’État sous 32. Conselho dos Direitos Humanos, Report
la forme d’une figure à géométrie variable, of the Independent Commission of Inquiry
dont le tracé des contours dépend de la matière Established pursuant to Human Rights Council
impliquée, et il le relègue au simple rang Resolution S-21/1, 24 de junho de 2015: “the
d’une ‘notion’ dont l’interprétation dépend de commission was able to gather substantial
‘l’économie et de l’objectif des dispositions’ information pointing to serious violations
au sein desquelles elle figure (...). Les confins of international humanitarian law and
de l’État n’en sont pas moins mouvants, son international human rights law by Israel and
‘périmètre’ n’a rien d’une frontière intangible by Palestinian armed groups. In some cases,
et physiquement bornée. Le droit international these violations may amount to war crimes” (§
appréhende l’État comme une entité qu’il peut 74).
lui-même modeler (…) et ce dernier est, dans
33. Fatou Bensouda substituiu Luis Moreno
le droit international contemporain, de plus en
Ocampo na função de Procurador do TPI em
plus souvent appréhendé différemment selon
15 de junho de 2012.
la norme appliquée” (M. FORTEAU, “ L’État selon
le droit international: une figure à géométrie 34. F. BENSOUDA, “Fatou Bensouda: The Truth
variable? ”, RGDIP, vol. 4, 2007, pp. 762-763). about the ICC and Gaza”, The Guardian, 29
de agosto de 2014:
25. Recorda-se que, entre o direito aplicável, o TPI
aplica em primeiro lugar o Estatuto de Roma, “In November 2012, Palestine’s status was
de acordo com o seu artigo 21-1-a. upgraded by the UN General Assembly to ‘non-
member observer State’ through the adoption
26. É neste sentido que o TPI teve a oportunidade
of Resolution 67/19. My office examined the
de proclamar que, “irrespective of the
legal implications of this development and
terms of Article 19(1) of the Statute, every
concluded that while this change did not

130
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

retroactively validate the previously invalid 38. Algumas personalidades manifestaram a sua
2009 declaration, Palestine could now join the preocupação acerca da opção do TPI. Tal é o
Rome Statute. caso, nomeadamente, de Nabil Abuznaid, o
That Palestine has signed various other embaixador da Palestina na Holanda: “if we
international treaties since obtaining this realize the ICC option, what then? How would
‘observer State’ status confirms the correctness we go forward with the peace process? The day
of this position. Nonetheless, to date, the we sign, things will be different between us
statute is not one of the treaties that Palestine and the Israelis”; “This is not the Palestinian
has decided to accede to, nor has it lodged a preferred choice because going to the ICC is
new declaration following the November 2012 the final divorce: one-way move, no way back”
General Assembly resolution. It is a matter of (C. LIPHSHIZ, “For Ramallah’s Man in The
public record that Palestinian leaders are in the Hague, ICC Drive is Reluctant Duty”, Jewish
process of consulting internally on whether to Telegraphic Agency, 14 de outubro de 2014).
do so; the decision is theirs alone and as ICC 39. Alguns salientaram a terrível eficácia desta
Prosecutor, I cannot make it for them”. “arma”: “La Cour pénale internationale est la
35. De acordo com o artigo 126-2 do Estatuto de seule menace que le Gouvernement israélien
Roma: “For each State ratifying, accepting, prenne au sérieux. Entre janvier 2009 et avril
approving or acceding to this Statute after the 2012, l’armée israélienne n’a mené aucune
deposit of the 60th instrument of ratification, opération d’envergure à Gaza. Après avril
acceptance, approval or accession, the Statute 2012, avec l’éloignement des poursuites, elle a
shall enter into force on the first day of the recommencé à agresser la population de Gaza
month after the 60th day following the deposit dès novembre 2012” (G. DEVERS, C. OBERLIN,
by such State of its instrument of ratification, “Plainte du ministre de la Justice de Palestine
acceptance, approval or accession”. A Palestina et du Procureur général de la Cour de Gaza
tendo aderido ao Estatuto de Roma em 2 de auprès de la CPI”, Médiapart, 4 de agosto de
janeiro de 2015, o mesmo entrou em vigor em 2014).
1 de abril de 2015 para este Estado. 40. Esta expressão aparece no Estatuto de Roma
36. Conselho de Segurança, projeto de Resolução (artigos 53-1-c, 55-2-c, 65-4, 67-1-d), bem como
S/2014/916, 30 de dezembro de 2014. Apenas nas Regras de Procedimento e Prova (regras 69,
8 membros do Conselho de Segurança, em vez 73, 82, 100, 136, 185). O Procurador tem aqui
dos 9 necessários para constituir uma maioria, uma completa liberdade de apreciação, mas o
votaram a favor do texto palestino apresentado Estatuto o obriga a ter em conta a gravidade dos
pela Jordânia (incluindo China, França e crimes processados e os interesses das vítimas,
Rússia), 2 votaram contra (Austrália e EUA) e os quais funcionam como fatores de ponderação:
5 abstiveram-se (Lituânia, Nigéria, República “The interests of justice are only considered
da Coreia, Reino Unido e Ruanda). Este projeto where the requirements of jurisdiction and
de resolução proclamava “the urgent need admissibility are met. While jurisdiction and
to attain, no later than 12 months after the admissibility are positive requirements, the
adoption of this resolution, a just, lasting and interests of justice under Article 53(1)(c) provide
comprehensive peaceful solution that brings a potentially countervailing consideration that
an end to the Israeli occupation since 1967 may give a reason not to proceed. As such, the
and fulfills the vision of two independent, Prosecutor is not required to establish that an
democratic and prosperous States, Israel investigation serves the interests of justice”
and a sovereign, contiguous and viable State (TPI, Gabinete do Procurador, Policy Paper on
of Palestine living side by side in peace and Preliminary Examinations, 2013, § 67). Esta
security within mutually and internationally questão também é tratada em detalhe no Policy
recognized borders” (§ 1). Paper on the Interests of Justice. Elaborado
em 2007 pelo Gabinete do Procurador para
37. Estatuto de Roma, artigo 53-3-a: “At the favorecer a previsibilidade e a segurança
request of the State making a referral under jurídica, este documento confirma a presunção
Article 14 or the Security Council under Article a favor da investigação e acusação uma vez que
13, paragraph (b), the Pre-Trial Chamber may o TPI seja competente e o caso admissível (§ 3).
review a decision of the Prosecutor (…) not
to proceed and may request the Prosecutor to 41. TPI, Gabinete do Procurador, Policy Paper on
reconsider that decision”. Preliminary Examinations, 2013, § 36.

131
Catherine Maia

42. TPI, Situation in the Republic of Kenya, A Procuradora decidiu imediatamente iniciar
Decision Pursuant to Article 15 of the Rome um exame preliminar acerca do ataque
Statute on the Authorization of an Investigation israelense realizado em 31 de maio de 2010
into the Situation in the Republic of Kenya, sobre a Gaza Freedom Flotilla, uma flotilha de
Câmara Preliminar II, ICC-01/09, 31 de março ajuda humanitária de oito navios que viajava
de 2010, § 27. em direção à Faixa de Gaza. No final deste
43. Ibid., § 34. exame preliminar, ela concluiu que era razoável
pensar que os crimes de guerra da competência
44. Estatuto de Roma, artigo 53-1-a. do TPI tinham sido cometidos sobre um dos
45. Estatuto de Roma, artigo 11-1. navios em causa, o Mavi Marmara, quando
46. Estatuto de Roma, artigo 5-1-a. as forças armadas israelenses intercetaram a
flotilha em 31 de maio de 2010. Ela conclui,
47. Estatuto de Roma, artigo 5-1-c.
no entanto, em 6 de novembro de 2014, que
48. Estatuto de Roma, artigo 5-1-b. este caso não apresentava um grau suficiente
49. Estatuto de Roma, artigo 5-1-d. de gravidade: “after carefully assessing all
relevant considerations, I have concluded that
50. Além dos relatórios das comissões de inquérito
the potential case(s) likely arising from an
internacionais estabelecidas pelo Conselho
investigation into this incident would not be of
dos Direitos Humanos mencionados acima,
‘sufficient gravity’ to justify further action by
ver também, entre outros, ONU, Assembleia
the ICC. The gravity requirement is an explicit
Geral: Follow-Up to the Report of the United
legal criteria set by the Rome Statute. Without
Nations Fact-Finding Mission on the Gaza
in any way minimizing the impact of the alleged
Conflict, Doc. ONU A/64/651, 4 de fevereiro
crimes on the victims and their families, I have
de 2010; Second Follow-Up to the Report of
to be guided by the Rome Statute, in accordance
the United Nations Fact-Finding Mission on
with which, the ICC shall prioritize war crimes
the Gaza Conflict, Doc. ONU, A/64/890, 11 de
committed on a large scale or pursuant to a plan
agosto de 2010.
or policy” (“Statement of the Prosecutor of the
51. Ver nomeadamente sobre este ponto: ICC, International Criminal Court, Fatou Bensouda,
Situation in the Democratic Republic of the on concluding the preliminary examination
Congo, The Prosecutor v. Germain Katanga of the situation referred by the Union of
and Mathieu Ngudjolo Chui, Judgment on the Comoros”, 4 de novembro de 2014). Em 16
Appeal of Mr. Germain Katanga against the de julho de 2015, depois das Comores terem
Oral Decision of Trial Chamber II of 12 June interposto recurso, a Câmara Preliminar I pediu
2009 on the Admissibility of the Case, Câmara à Procuradora para reconsiderar a sua decisão
de Recursos, ICC-01/04-01/07 OA 8, 25 de de não abrir um inquérito, argumentando
setembro de 2009, § 78. que esta havia cometido erros de facto quanto
52. Estatuto de Roma, artigo 17-2. à possibilidade de processar indivíduos que
podiam suportar a maior responsabilidade para
53. Estatuto de Roma, artigo 17-3. É interessante
os crimes identificados, mas também quanto à
notar que o TPI teve ocasião de julgar que a falta
escala, natureza, procedimento e impacto dos
de controlo das autoridades nacionais sobre
crimes potenciais (“TPI, Pre-Trial Chamber I
um centro de detenção era suscetível de afetar
requests Prosecutor to reconsider decision not
diretamente o bom desenrolar do inquérito:
to investigate situation referred by Union of
TPI, Situation in Libya, The Prosecutor
Comoros”, 16 de julho de 2015).
v. Saif Al-Islam Gaddafi and Abdullah Al-
Senussi, Decision on the admissibility of the 55. Ver TPI, Gabinete do Procurador, Policy Paper
case against Abdullah Al-Senussi, Câmara on Preliminary Examinations, 2013, § 77.
Preliminar I, ICC-01/11-01/11, 31 de maio de 56. TPI, Gabinete do Procurador, Letter from
2013, § 209. ICC Director, Jurisdiction, Complementarity
54. O elemento de gravidade, quando estão em and Cooperation Division to Deputy High
causa crimes internacionais, não é uma mera Commissioner for Human Rights, UN High
cláusula de estilo, pois já resultou numa recusa Commissioner for Human Rights, OPT/
de investigar no caso da flotilha de Gaza. INCOM/PSE/OHCHR-1/JCCD-Ag, 12 de
Este caso tinha sido submetido ao Gabinete janeiro de 2010, § 19.
do Procurador, em 14 de maio de 2013, pelas 57. Ibid., § 17.
Comores, Estado parte ao Estatuto de Roma e no
qual o navio Mavi Marmara estava registrado.

132
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

58. TPI, Gabinete do Procurador, “Situation in dos Estados árabes e a Associação internacional
Palestine”, comunicado de imprensa de 3 de dos juristas e advogados judeus).
abril de 2012. 69. Estatuto de Roma, artigo 15-4.
59. TPI, Gabinete do Procurador, “Situation in 70. Estatuto de Roma, artigo 15-5.
Palestine”, comunicado de imprensa de 16 de
janeiro de 2015. 71. Estatuto de Roma, artigo 53-3-a. O Estatuto
especifica, no artigo 53-3-b: “In addition, the
60. Estatuto de Roma, artigo 42. Pre-Trial Chamber may, on its own initiative,
61. Ver W.A. SCHABAS, “The Banality of International review a decision of the Prosecutor not to
Justice”, Journal of International Criminal proceed if it is based solely on paragraph 1(c)
Justice, vol. 11, 2013, pp. 545-551. or 2(c) [when an investigation would not serve
62. Sobre este ponto, ver M. EYNARD, “La relation the interests of justice]. In such a case, the
juridique entre la Palestine et le Procureur de decision of the Prosecutor shall be effective
la Cour pénale internationale”, op. cit. No only if confirmed by the Pre-Trial Chamber”.
contexto da situação no Afeganistão, o exame É, portanto, a Câmara Preliminar e não o
preliminar, que visa os crimes cometidos no Procurador quem tem a última palavra aqui.
território do Afeganistão desde 1 de junho de 72. Ver sobre este ponto: R. CRYER, Prosecuting
2006, poderia abranger os crimes cometidos International Crimes: Selectivity and
pela Força internacional de assistência e de the International Criminal Law Regime,
segurança, depois colocada sob o controlo da Cambridge, Cambridge University Press, 2011.
NATO. Neste caso, os cidadãos que podem ser 73. M. EYNARD, “La relation juridique entre la
processados viriam de vários Estados (Albânia, Palestine et le Procureur de la Cour pénale
Alemanha, Austrália, Bélgica, Canadá, Croácia, internationale”, op. cit., p. 115 (tradução
Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, nossa).
Itália, Lituânia, Noruega, Nova Zelândia,
Paquistão, Polónia, Portugal, Roménia, Reino 74. Ver respetivamente: TPI, Gabinete do
Unido, Suécia, República Checa, Turquia). Procurador, Letter of the Prosecutor dated
No contexto da situação no Iraque, o exame 9 February 2006, p. 6; TPI, Gabinete do
preliminar visa crimes que seriam atribuídos Procurador, Situation in the Republic of Korea,
às forças armadas do Reino Unido presentes Article 5 Report, junho de 2014, § 82; TPI,
no território iraquiano entre 2003 e 2008. Gabinete do Procurador, Article 53(1) Report on
No contexto da situação na Ucrânia, o exame the Situation on Registered Vessels of Comoros,
preliminar visa o conjunto dos crimes cometidos Greece and Cambodia, 6 de novembro de 2014,
no território da Ucrânia entre 21 de novembro § 28.
de 2013 e 22 de fevereiro de 2014. No contexto 75. De acordo com o Policy Paper on Preliminary
da situação na Geórgia, finalmente, o exame Examinations de 2013 do Gabinete do TPI:
preliminar visa crimes cometidos em território “Communications deemed to require further
georgiano desde 1 de dezembro de 2003. analysis will be the subject of a dedicated
63. Estatuto de Roma, artigo 21-3. analytical report which will assess whether
the alleged crimes appear to fall within
64. República Democrática do Congo, Uganda, the jurisdiction of the Court and therefore
República Centro-Africana (I e II), Costa do warrant proceeding to the next phase.
Marfim e Mali. Such communications shall be analyzed in
65. Sudão e Líbia. combination with open source information
66. Quênia e Geórgia. such as reports from the United Nations,
nongovernmental organizations and other
67. Estatuto de Roma, artigo 54-1-a. reliable sources for corroboration purposes” (§
68. TPI, Gabinete do Procurador, Policy Paper 79).
on Preliminary Examinations, 2013, § 33. 76. TPI, Gabinete do Procurador, Report on
Esta preocupação é particularmente visível Preliminary Examination Activities 2012, §§
no âmbito do exame preliminar da situação 196-203.
na Palestina para a qual, após a entrega da
sua declaração ad hoc de 2009, o Procurador 77. TPI, Gabinete do Procurador, “Situation in
pediu numerosas peritagens junto de várias Palestine”, comunicado de imprensa de 3 de
personalidades e instituições (incluindo o abril de 2012. Este comunicado de imprensa,
Centro europeu para a justiça e o direito, a Liga publicado apenas dois meses antes da partida
do Procurador Luis Moreno Ocampo, em 15

133
Catherine Maia

de junho de 2012, limita-se a afirmar: “The tratado (TIJ, Interpretation of Peace Treaties
Office could in the future consider allegations with Bulgaria, Hungary and Romania (Second
of crimes committed in Palestine, should Phase), parecer consultivo de 18 de julho de
competent organs of the United Nations or 1950, p. 230: o Tribunal não pode “excee[d] its
eventually the Assembly of States Parties judicial function on the pretext of remedying a
resolve the legal issue relevant to an assessment default for the occurrence of which the treaties
of Article 12 or should the Security Council, in have made no provision”).
accordance with Article 13(b), make a referral 83. Ver G. BITTI, “Article 53 - Ouverture d’une
providing jurisdiction” (§ 8). enquête”, in J. FERNANDEZ, X. PACREAU
78. TPI, Gabinete do Procurador, “The Prosecutor (dir.), Statut de Rome de la Cour pénale
of the International Criminal Court, Fatou internationale: commentaire article par article,
Bensouda, opens a preliminary examination Paris, Pedone, 2012, p. 1211.
of the situation in Palestine”, comunicado 84. O Conselho de Segurança da ONU – cujos três
de imprensa de 16 de janeiro de 2015. A membros permanentes, nomeadamente os
este respeito, a nova Procuradora afirmou Estados Unidos, China e Rússia, têm direito
claramente que a Resolução 67/19 da de veto enquanto são terceiros ao Estatuto de
Assembleia Geral, pela qual a Palestina Roma – tem assim o poder de impedir qualquer
aderiu, em 2012, ao estatuto de Estado não investigação ou processo perante o TPI, mas
observador das Nações Unidas, “does not cure também o de submeter qualquer situação no
the legal invalidity of the 2009 declaration” mundo a este Tribunal.
(ICC, Gabinete do Procurador, Report on the
Preliminary Examination Activities of the 85. Como o TIJ, que lembrou que Israel mantém
Office of the Prosecutor in 2013, § 238). a qualidade de “potência ocupante” em vários
territórios (Consequences of the Construction
79. Estatuto de Roma, artigo 53-3-a. of a Wall in the Occupied Palestinian Territory,
80. TPI, Situation in the Central African Republic, parecer consultivo, 9 de julho de 2004, Reports
Prosecution’s Report Pursuant to Pre-Trial 2004, § 78), o Procurador do TPI afirmou:
Chamber III’s 30 November 2006 Decision “While Israel maintains that it is no longer
Requesting Information on the Status of the occupying Gaza, the prevalent view within the
Preliminary Examination of the Situation in the international community is that Israel remains
Central African Republic, Câmara Preliminar an occupying power under international law,
III, ICC-01/05, 15 de dezembro de 2006, § 10. based on the scope and degree of control that it
81. TPI, Situation in the Democratic Republic has retained over the territory of Gaza following
of the Congo, Observations of the Legal the 2005 disengagement. In accordance with
Representative of VPRS 1 to VPRS 6 Following the reasoning underlying this perspective, the
the Prosecution’s Application for Leave to Office has proceeded on the basis that the
Appeal Pre-Trial Chamber I’s Decision on the situation in Gaza can be considered within the
Applications for Participation in Proceedings framework of an international armed conflict in
of VPRS 1 to 6 ,&&  GH VHSWHPEUR view of the continuing military occupation by
2007. Israel” (TPI, Gabinete do Procurador, Situation
on Registered Vessels of Comoros, Greece and
82. Ver TIJ, Corfu Channel, acórdão de 9 de abril Cambodia, Article 53(1) Report, 9 de novembro
de 1949, Reports 1949, p. 24 (“It would indeed de 2014, § 16).
be incompatible with the generally accepted
rules of interpretation to admit that a provision 86. De acordo com o artigo 8-2-b-viii do Estatuto de
of this sort occurring in a special agreement Roma, entende-se por “crimes de guerra”: “The
should be devoid of purport or effect”). Ver transfer, directly or indirectly, by the Occupying
também TPJI, Free Zones of Upper Savoy and Power of parts of its own civilian population
the District of Gex, despacho de 19 de agosto into the territory it occupies, or the deportation
de 1929, Série A, n°22, p. 13 (“in case of doubt, or transfer of all or parts of the population of
the clauses of a special agreement by which a the occupied territory within or outside this
dispute is referred to the Court must, if it does territory”.
not involve doing violence to their terms, be 87. No seu parecer consultivo de 2004 sobre as
construed in a manner enabling the clauses Legal Consequences of the Construction of
themselves to have appropriate effects”). a Wall in the Occupied Palestinian Territory,
Todavia, o conceito de efeito útil não deve levar, o TIJ concluiu que: “The construction of
sob pretexto de interpretação, a reescrever um the wall being built by Israel, the occupying

134
Palestina e Tribunal Penal Internacional: Retorno a uma Saga Judicial

power, in the Occupied Palestinian Territory, ne pas enquêter. Bien que cette procédure
including in and around East Jerusalem, intentionnellement longue ait débouché sur
and its associated régime, are contrary to du vide en termes de responsabilités, elle a
international law” (§ 163). été efficace par ailleurs puisqu’elle a bloqué
88. Os Estados têm a faculdade de informar a une investigation parallèle ouverte en Espagne
qualquer momento o TPI da abertura de sur la base de la compétence universelle
inquéritos ou processos a nível nacional – inscrite dans son droit interne”. Voltando
os quais podem ser opacos e durar anos –, mais especificamente à ofensiva israelense
impondo então ao Procurador a suspensão em Gaza no verão de 2014: “Israël a annoncé
do processo. Isto mostra quanto o princípio officiellement avoir ouvert treize enquêtes
da complementaridade pode revelar-se criminelles (militaires). Elles concernent la
particularmente protetor para os Estados com mort de 27 membres d’une même famille, dont
um sistema judicial eficiente. Na prática, várias 19 mineurs et deux femmes enceintes; des cas
precedentes realçam os riscos ligados a uma de pillages; le ciblage d’une école de l’Office de
utilização instrumentalizada deste princípio: secours et de travaux des Nations Unies pour
“Ainsi par exemple, la Haute Cour de justice les réfugiés de Palestine dans le Proche-Orient
israélienne a été saisie en 2002 en appel d’une (UNRWA) dans laquelle 15 civils ont été tués;
décision de ne pas ouvrir d’enquête criminelle l’utilisation de boucliers humains et des tirs
contre les responsables présumés de l’assassinat sur des ambulances. Une douzaine de dossiers
ciblé de Salah Shehadeh par le largage d’une ont été rapidement clos sans qu’aucune charge
bombe d’une tonne à minuit sur sa résidence, n’ait été retenue” (S. WEILL, “Ce que change
dans une zone densément peuplée. La Cour a l’adhésion de la Palestine à la Cour pénale
renvoyé l’affaire à l’État, lequel a créé alors un internationale”, Orient XXI, 15 de janeiro de
comité ‘indépendant’ composé exclusivement 2015).
d’anciens officiers militaires israéliens. Il
a fallu huit ans pour finalement décider de

135
EL PACTO INTERNACIONAL DE DERECHOS CIVILES
Y POLÍTICOS Y LA AUDIENCIA DE CUSTODIA

César Oliveira de Barros Leal


Procurador del Estado de Ceará; Profesor jubilado de la Facultad de Derecho de la Universidad Federal
de Ceará; Doctor en Derecho; Posdoctor en Estudios Latinoamericanos (Facultad de Ciencias Políticas y
Sociales de la UNAM); Posdoctor en Derecho (Universidad Federal de Santa Catarina);
Presidente del Instituto Brasileño de Derechos Humanos; Miembro de la Asamblea General
del Instituto Interamericano de Derechos Humanos.

RESUMEN and is welcomed, among other things, as a


precious resource to reduce prison overcrowding.
Después de hacer mención a la Declaración
Universal de los Derechos del Hombre y otros Keywords
instrumentos de protección de los derechos
humanos, el artículo se concentra en el Pacto International Covenant on Civil and
Internacional de Derechos Civiles y Políticos, Political Rights; custody hearing; prison in
bajo cuya inspiración nació la audiencia de flagrante; celerity; legality and necessity of the
custodia, que tiene como objeto garantizar el prison; prison overcrowding.
contacto de la persona presa con la autoridad
judicial veinticuatro horas después de la prisión 1. INTRODUCCIÓN
en flagrante. El autor explica el significado, Me sumerjo en el tiempo para una breve
las particularidades y la importancia de esta incursión histórica y recuerdo, en toda su
iniciativa que tiende a aplicarse con frecuencia exuberancia, el tenor de la Declaración francesa,
cada vez mayor en nuestro país y es saludada, que sirvió como preámbulo a la Constitución
entre otras cosas, como un precioso recurso para de Francia de 1791 y que señaló, con letras
reducir la sobrepoblación carcelaria. doradas, la existencia de principios inmutables
que deberían extenderse a todos los pueblos, en
Palabras Clave todos los tiempos, señalando como derechos
Pacto Internacional de Derechos Civiles esenciales, imprescriptibles y universales,
y Políticos; audiencia de custodia; prisión en la libertad, la seguridad y la resistencia a la
flagrante; celeridad; legalidad y necesidad de la opresión.
prisión; sobrepoblación carcelaria. Mucho después, la Declaración Universal
de los Derechos del Hombre, del 10 de diciembre
ABSTRACT de 1948, inspirada en las constituciones pioneras
de México de 1917 y de Weimar de 1919,
After mentioning the Universal Declaration
amplió anteriores declaraciones de derechos,
of Human Rights and other instruments for
LQGLFDQGR QR VyOR ORV GHUHFKRV WUDGLFLRQDOHV ï
the protection of human rights, the article
FLYLOHV \ SROtWLFRVï VLQR WDPELpQ ORV GHUHFKRV
concentrates on the International Covenant
económicos, sociales y culturales como el derecho
on Civil and Political Rights, under whose
al trabajo, el descanso y la recreación, la salud,
inspiration was born the custody hearing, which
la educación, la habitación, la participación
aims to ensure the contact of the person arrested
en la vida cultural y la protección especial
with the judicial authority twenty-four hours
de la maternidad y de la infancia, derechos
after the arrest in flagrante. The author explains
que se agregan a los civiles y políticos y los
the significance, the particularities and the
completan, en la medida que las dos categorías
importance of this initiative, which tends to be
son interdependientes e indivisibles. Es más,
applied with increasing frequency in our country

137
César Oliveira de Barros Leal

la dicotomía entre esos derechos fue superada Ha sido un largo camino, una trayectoria de
ulteriormente por la Declaración de Viena. avances y retrocesos, de pasos ahora lentos, ahora
Exuberante en su dicción, la Declaración rápidos, a partir del derecho internacional clásico
Universal de los Derechos del Hombre afirma (que veía el Estado como único sujeto de derecho
que todos nacemos libres e iguales en dignidad internacional) hasta el derecho internacional de
y derechos; que todos tenemos derecho a la los derechos humanos. Los sistemas global y
vida, la libertad y la seguridad; que nadie debe regional de protección de los derechos humanos
ser sometido a la tortura ni a tratamiento están cada vez más fortalecidos, haciendo una
inhumano o degradante; y que todo hombre gran diferencia en la afirmación y protección de
tiene derecho a ser reconocido, en todos los esos derechos.
lugares, como persona ante la ley y merece como Entre los instrumentos de protección
tal su amparo. Es cierto que la Declaración de los derechos humanos, creados a partir del
Universal de los Derechos del Hombre dio surgimiento de la Organización de las Naciones
inicio a la edificación de un nuevo campo del Unidas (ONU), además de la Declaración
derecho (hoy reconocidamente autónomo de la Universal de los Derechos Humanos,
ciencia jurídica): el Derecho Internacional de corresponde citar: la Convención Internacional
los Derechos Humanos (International Human sobre la Eliminación de Todas las Formas
Rights Law), iniciado tímidamente después de de Discriminación Racial (1965), el Pacto
la 1ª Guerra Mundial, pero consolidado con el Internacional de Derechos Civiles y Políticos
fin de la 2ª Guerra y todo lo que ella representó (1966), el Pacto Internacional de Derechos
de cruel, de terrible para la humanidad (en Económicos, Sociales y Culturales (1966), el
particular los horrores del nazismo, la barbarie de Protocolo Facultativo al Pacto Internacional
los campos de concentración), en un proceso de de Derechos Civiles y Políticos (1966), la
universalización de los derechos humanos que se Convención sobre la Eliminación de Todas
materializó, en gran medida, con la elaboración las Formas de Discriminación contra la Mujer
de tratados, convenios, pactos, etc., de amplitud (1979), la Convención Internacional contra la
regional y global. Es la fase legislativa del Tortura y Otros Tratamientos o Penas Crueles,
derecho internacional de los derechos humanos, Inhumanos o Degradantes (1984), el Segundo
cristalizado en los documentos que componen Protocolo Facultativo al Pacto Internacional de
la Carta Internacional de Derechos Humanos de Derechos Civiles y Políticos Destinado a Abolir
la ONU. la Pena de Muerte (1989) y la Convención sobre
Incumbe subrayar que, después de la los Derechos del Niño (1989).
proclamación en París de la Declaración De uno de los instrumentos aludidos nos
Universal de los Derechos Humanos, fueron ocuparemos en este texto: el Pacto Internacional
surgiendo gradualmente los sistemas europeo, de los Derechos Civiles y Políticos (PIDCP),
interamericano y africano de protección de centrándonos en su artículo 9º (3), que contribuyó
los derechos humanos1, que se sumaron a a la creación y el desarrollo de una importante
los sistemas nacionales de protección, los herramienta de contención del Estado Penal
denominados derechos internos. (limitación del ius puniendi) y de humanización
Flávia Piovesan, procuradora del estado de del proceso penal, lo que implica una buena dosis
São Paulo, Profesora de la Pontificia Universidad de prevención del crimen (secundaria y terciaria)
Católica de São Paulo y Secretaria Nacional de y el desahogo de las prisiones: la audiencia de
Derechos Humanos (en el gobierno interino de custodia.
Michel Temer), deja claro, en diversos textos, que
vislumbra, en esa progresiva internacionalización 1. EL PACTO INTERNACIONAL DE
de los derechos humanos, el diseño de una DERECHOS CIVILES Y POLÍTICOS
ciudadanía universal, de la cual emanarían
Aprobado el 16 de diciembre de 1966 por
derechos y garantías internacionalmente
la XXI Sesión de la Asamblea General de las
asegurados. En efecto, ciudadanos del mundo,
Naciones Unidas, con entrada en vigor el 23
sujetos de derecho internacional: es lo que
de marzo de 1976, el Pacto Internacional de
somos y seremos siempre, en la dimensión de
Derechos Civiles y Políticos, compone, junto
nuestra condición humana.
con el Pacto Internacional de los Derechos
Económicos, Sociales y Culturales (ambos fueron

138
El Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos y la Audiencia de Custodia

ratificados por Brasil en 1992) y la Declaración 10. 1. Toda persona privada de su libertad
Universal de los Derechos Humanos, la ya deberá ser tratada con humanidad y
mencionada Carta Internacional de los Derechos respeto a la dignidad inherente a la persona
Humanos. humana.

Dividido en seis partes con 53 artículos, 10.2.a. Las personas procesadas deberán
contiene en la tercera parte (la más extensa) el ser separadas, excepto en circunstancias
elenco de los derechos apellidados de primera excepcionales, de las personas condenadas
generación2, entre los cuales se citan el derecho y recibir tratamiento distinto, compatible
con su condición de persona no-condenada.
a la vida; la prohibición de la tortura; el derecho
a la libertad y la seguridad; la prohibición de la 10.2.b. Las personas procesadas, jóvenes,
prisión arbitraria; y el derecho a tratamiento deberán ser separadas de las adultas y
digno y humano A continuación, reproduzco juzgadas lo más rápido posible.
algunos de sus artículos:
10.3. El régimen penitenciario consistirá
6.1. l derecho a la vida es inherente a la en un tratamiento cuyo objetivo principal
persona humana. Ese derecho deberá sea la reforma y la rehabilitación normal de
ser protegido por la ley. Nadie podrá ser los prisioneros. Los delincuentes juveniles
arbitrariamente privado de su vida. deberán ser separados de los adultos y
recibir tratamiento compatible con su edad
7. Nadie podrá ser sometido a la tortura, y condición jurídica.
ni a penas o tratamiento crueles,
Dejo de consignar otros derechos, puesto
inhumanos o degradantes...
que no están directamente relacionados con
9. 1. Toda persona tiene derecho a la temática que nos ocupa, registrando, sin
la libertad y la seguridad personales. embargo, que, conforme al artículo 2.1., los
Nadie podrá ser preso o encarcelado Estados Partes del Pacto se comprometen a
arbitrariamente. Nadie podrá ser respetar y garantizar a todos los individuos
privado de libertad, salvo por los motivos que se hallen en su territorio y estén sujetos a
previstos en ley y en conformidad con su jurisdicción los derechos en él reconocidos,
los procedimientos en ella establecidos. sin discriminación alguna por motivo de raza,
color, sexo, lengua, religión, opinión política
9.2. Cualquier persona, al ser presa, deberá o de otra naturaleza, origen nacional o social,
ser informada de las razones de la prisión y
situación económica, nacimiento o cualquier
notificada, sin demora, de las acusaciones
formuladas contra ella. otra condición.

9.3. Cualquier persona presa o encarcelada 3. EL PACTO INTERNACIONAL DE


en virtud de infracción penal deberá ser
conducida, sin demora, a la presencia del
DERECHOS CIVILES Y POLÍTICOS Y
juez o de otra autoridad habilitada por ley EL CUADRO PERVERSO DEL SISTEMA
a ejercer funciones judiciales y tendrá el
derecho de ser juzgada en plazo razonable
PENITENCIARIO
o de ser puesta en libertad. La prisión Regreso al final del mes de octubre de 2005
preventiva de personas que esperan juicio cuando, integrando la delegación brasileña,
no deberá constituir la regla general, pero la de carácter interministerial, participé en la
soltura podrá estar condicionada a garantías exposición y defensa, por parte del Gobierno
que aseguren la comparecencia de la persona
Federal, del 2º Informe de Brasil acerca del
en cuestión a la audiencia, a todos los actos
del proceso y, en el caso de que sea necesario, cumplimiento del Pacto Internacional de
para la ejecución de la sentencia. Derechos Civiles y Políticos, al Comité de
Derechos Humanos de la ONU, en Ginebra,
9.4. Cualquier persona que sea privada de Suiza (responsable del monitoreo de la aplicación
su libertad por prisión o encarcelamiento del Pacto). Se trataba de la observancia de lo
tendrá el derecho de recurrir a un tribunal dispuesto en el art. 40, según el cual los Estados
para que éste decida sobre la legalidad de su
Partes se comprometen a presentar informes
encarcelamiento y ordene.
sobre las disposiciones que hayan adoptado y
que lleven a efecto los derechos reconocidos en

139
César Oliveira de Barros Leal

el Pacto y sobre el progreso que hayan logrado en otros Tratamientos Crueles, Inhumanos o
lo concerniente al goce de esos derechos: a) en el Degradantes de las Naciones Unidas registraba
plazo de un año a contar de la data de entrada haber recibido “relatos repetidos y consistentes
en vigor del Pacto, respecto a los Estados-partes de torturas y maltratos en São Paulo y otras
interesados; b) sucesivamente, cada vez que el unidades federativas), mostrándose un vasto
Comité venga a pedirlo. Tales informes indican abanico de opciones que abarcan no sólo la
los factores y las dificultades, si los hay, que provisión de medios financieros necesarios para
afecten su aplicación. la optimización de los equipos y de los servicios
En la obra ya citada, relato que, en el y, en consecuencia, el perfeccionamiento de
Palais Wilson, tuve que responder oralmente a la administración prisional, sino también el
preguntas acerca de tres puntos: estímulo a las iniciativas y las buenas prácticas
que permitan, v.g., humanizar la cárcel,
a) el plan de acción brasileño relativo a
disminuir el periodo de clausura y liberar a
las condiciones prisionales inadecuadas y a la
aquellos que permanecen en su interior mucho
capacidad poblacional insuficiente, así como los
allá del tiempo fijado en la sentencia, un absurdo
criterios utilizados en la asignación de recursos
que es más frecuente de lo que uno se imagina y
para los penales estatales (se preguntaba
que fue enfatizado en Ginebra.
igualmente en qué medida la capacidad y las
condiciones de esos establecimientos mejoraron
y se solicitaba información sobre el proyecto de
4. LA AUDIENCIA DE CUSTODIA
establecer directrices para la administración de De acuerdo con cifras exhibidas por el
las prisiones de conformidad con el Pacto); Instituto Latinoamericano de las Naciones Unidas
b) las medidas tomadas para simplificar para la Prevención del Crimen y el Tratamiento
y acelerar los procedimientos de liberación del Delincuente (ILANUD), fundado en 1975 y
de prisioneros y de compensación por el vinculado al Consejo Económico y Social de la
confinamiento prolongado arbitrario, aclarando ONU, con sede en San José, Costa Rica, más del
las razones de ese “extraordinario” fenómeno; 70% de los presos, en un número significativo
de países de América Latina, son provisionales,
c) la disponibilidad y la eficacia de los
lo que confirma la utilización abusiva del
mecanismos de queja en cuanto a abusos
aprisionamiento, una excrecencia que nos
sistemáticos cometidos contra los derechos
incumbe erradicar a toda costa.
humanos de los detenidos en prisiones, cárceles
municipales y otras formas de custodia.3 Muchas han sido las medidas adoptadas, en
distintos países, para intentar reducir el número
Se percibió, entonces, de forma manifiesta,
de presos provisionales: la despenalización de los
que la preocupación subyacente y prioritaria de
delitos menores, es decir, de menor gravedad;
los miembros del Comité era el gran número
la ampliación de la libertad condicional, la
de presos en espera de juicio (en algunos
libertad vigilada, la libertad anticipada y la
casos alcanzando niveles alarmantes), los
prisión doméstica (en ciertos lugares, el empleo
cuales habitan las prisiones de los Estados-
proporcional y equilibrado de los regímenes
Miembros de las Naciones Unidas, lo que
semiabierto y abierto); el uso efectivo de las
colabora desmesuradamente para envilecer
sanciones alternativas a la pena privativa de
las condiciones de los centros de reclusión, en
libertad, especialmente para ciertos grupos de
su gran mayoría precarios y superpoblados,
sancionados (algo que, para muchos, debe ser
escenarios de abandono, arbitrariedades,
hecho con extremo cuidado, a fin de evitar la
violencia, torturas, lo que supone un desprecio a
expansión de la red de control que fortalecería
la dignidad de los cautivos y contrariamente a lo
el camino para la omnipresencia de un Estado
que preconiza el Pacto.
policial); el monitoreo electrónico a distancia
Además de las críticas hechas al modelo como instrumento de control y alternativa
decadente del sistema penitenciario brasileño, a la prisión4; la promoción de mecanismos
prevaleció el interés de obtener respuestas para el de conciliación, de mediación, de justicia
enfrentamiento de sus males, de sus fragilidades, restaurativa5 con reparación a las víctimas; la
de los abusos en ella cometidos, de la tortura redención de la pena por el trabajo, la educación y
que persiste intramuros (siete años después, la lectura; la ampliación del cuadro de defensores
el Subcomité de Prevención de la Tortura y públicos que permitan, con el apoyo de los jueces

140
El Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos y la Audiencia de Custodia

de ejecución, asegurar el derecho de los presos a Humanos, ratificada por Brasil en 1992: Toda
sus beneficios de prelibertad; la determinación persona, detenida o retenida, debe ser conducida,
de que el número de encarcelados no rebase la sin demora, a la presencia de un juez u otra
capacidad de la unidad penal, de acuerdo con el autoridad autorizada por ley a ejercer funciones
límite de plazas y tasas de ocupación, que deben judiciales y tiene el derecho de ser juzgada en
ser de conocimiento público, de conformidad con plazo razonable o de ser puesta en libertad, sin
las buenas prácticas y los principios establecidos prejuicio de que prosiga el proceso. Su libertad
por la Comisión Interamericana de Derechos puede estar condicionada a garantías que
Humanos, así como las recomendaciones de aseguren su cumplimiento en juicio.
las Reglas de Mandela; y, por fin, la adopción Cabe destacar también: a) el art. 306
excepcional de la prisión preventiva, siendo del Código de Proceso Penal (Decreto-ley n.
bienvenida la práctica, exitosa en muchos países, 3.689 del 03 de octubre de 1941): La prisión de
de la audiencia de custodia. cualquier persona y el local donde se encuentre
Pero, ¿qué es la audiencia de custodia? serán comunicados inmediatamente al juez
Inspirada en el Pacto Internacional de competente, al Ministerio Público y a la familia
Derechos Civiles y Políticos (así como en del preso o a la persona por él indicada. § 1o
la Convención Americana sobre Derechos en hasta 24 (veinticuatro) horas después de la
Humanos, el Pacto de San José de Costa Rica), realización de la prisión, será encaminado al juez
la audiencia de custodia tiene por finalidad competente el auto de prisión en flagrante y, en
garantizar el contacto de la persona presa con la el caso de que haya sido registrado en el informe
autoridad judicial 24 horas después de la prisión el nombre de su abogado, copia integral para la
en flagrante, aunque en la práctica, por múltiples Defensoría Pública. § 2o En el mismo plazo, será
razones, difícilmente ese plazo sea cumplido. entregada al preso, mediante recibo, la nota de
culpa, firmada por la autoridad, con el motivo
La audiencia de custodia sirve para que
de la prisión, el nombre del conductor y los dos
el juez: analice la legalidad y la necesidad
testigos”; b) el art. 310 del mismo Código: al
de la prisión, así como verifique eventuales
recibir el auto de prisión en flagrante, el juez
maltratos al preso (es frecuente este relato). En
deberá con fundamento: (Redacción dada por la
el momento de la audiencia, con la presencia
Ley nº 12.403, de 2011) I - Relajar la prisión
del representante del Ministerio Público y de un
ilegal; o (Incluido por la Ley nº 12.403, de 2011);
abogado/defensor público, el juez podrá: relajar
II - Convertir la prisión en flagrante en prisión
la prisión en flagrante legal; decretar la prisión
preventiva, cuando estén presentes los requisitos
preventiva u otra medida cautelar alternativa a la
constantes del art. 312 de este Código, y se
prisión; mantener suelta a la persona de quien se
revelen inadecuadas o insuficientes las medidas
sospecha haber cometido determinado delito, en
cautelares diversas de la prisión; o (Incluido
el caso de que sea necesario aplicar una medida
por la Ley nº 12.403, de 2011); III. Conceder
cautelar.
libertad provisional, con o sin fianza. (Incluido
Dice el art. 9º (3) del Pacto Internacional por la Ley nº 12.403, de 2011). Párrafo único:
de Derechos Civiles y Políticos, de 1966: Caso el juez verifique, por el auto de prisión en
Cualquier persona presa o encarcelada en flagrante, que el agente practicó el hecho en las
virtud de infracción penal deberá ser conducida, condiciones constantes de la fracciones I a III del
sin demora, a la presencia del juez o de otra caput del art. 23 del Decreto-ley n. 2.848, del
autoridad habilitada por ley a ejercer funciones 7 de diciembre de 1940 - Código Penal, podrá,
judiciales y tendrá el derecho de ser juzgada con fundamento, conceder al acusado libertad
en plazo razonable o de ser puesta en libertad. provisional, mediante acta de comparecencia a
La prisión preventiva de personas que esperan todos los actos procesales, so pena de revocación.
juicio no deberá constituir la regla general, pero (Redacción dada por la Ley nº 12.403, de 2011,
la soltura podrá estar condicionada a garantías que, además, no logró mudar, como se esperaba
que aseguren la comparecencia de la persona en de la reforma de 2011, el paradigma de la prisión
cuestión a la audiencia y a todos los actos del como prima ratio).
proceso, en el caso de que sea necesario, para la
Ante el reconocimiento de la insuficiencia
ejecución de la sentencia.
de los artículos apuntados (en la sistemática
Este artículo del Pacto fue reproducido por bajo examen el juez sólo tiene contacto con el
el art. 7º (5) de la Convención sobre Derechos

141
César Oliveira de Barros Leal

ciudadano preso en la fecha de su juicio, lo que de Precepto Fundamental 347 del


puede verificarse meses o años posteriormente Supremo Tribunal Federal, consignando
a su prisión), el proyecto de ley (PLS 554/2011, la obligatoriedad de la presentación de
de autoría del Senador Antonio Carlos la persona presa a la autoridad judicial
competente; CONSIDERANDO lo que
Valadares6), ahora tramitando en el Congreso
dispone la letra “a” de la fracción I del art.
Nacional, prevé, con el fin de alterar el Código 96 de la Constitución Federal, que brinda
de Proceso Penal (compatibilizándolo con el a los tribunales la posibilidad de tratar de
Pacto y la Convención), la obligatoriedad de la la competencia y del funcionamiento de
presentación del preso al juez y la realización sus servicios y órganos jurisdiccionales
de la audiencia de custodia (corrigiendo, así, y administrativos; CONSIDERANDO
una gravísima laguna en el sistema cautelar en la decisión emitida en la Acción Directa
vigor), veinticuatro horas después de la prisión en de Inconstitucionalidad 5240 del
flagrante, con indudables ventajas, referidas por Supremo Tribunal Federal, declarando la
constitucionalidad de la disciplina por los
los estudiosos, entre las cuales se debe destacar:
Tribunales de la presentación de la persona
a) afianza al preso el derecho de ser juzgado en presa a la autoridad judicial competente;
un plazo razonable; b) garantiza el derecho de CONSIDERANDO el informe producido
defensa y el contradictorio; c) inhibe y protege por el Subcomité de Prevención a la Tortura
al individuo de maltratos y la tortura durante y de la ONU (CAT/OP/BRA/R.1, 2011),
después de la prisión; d) asegura el respeto a sus por el Grupo de Trabajo sobre Detención
garantías individuales y su dignidad como ser Arbitraria de la ONU (A/HRC/27/48/
humano, piedra angular del instituto. Add.3, 2014) y el informe sobre el uso de
la prisión provisional en las Américas de la
En esta misma línea, el Consejo Nacional Organización de los Estados Americanos;
de Justicia (CNJ), en asociación con el Tribunal CONSIDERANDO el diagnóstico de
de Justicia de São Paulo y el Ministerio de la personas presas presentado por el CNJ y el
Justicia, dio inicio al proyecto Audiencia de INFOPEN del Departamento Penitenciario
Custodia (recomendando su implantación en Nacional del Ministerio de la Justicia
todo el territorio nacional), con la finalidad (DEPEN/MJ), publicados, respectivamente,
de tornar viable, con la máxima rapidez, la en los años de 2014 y 2015, revelando
presentación a una autoridad judicial de los el contingente desproporcional de
personas presas provisionalmente;
presos en flagrante. En la audiencia participan
CONSIDERANDO que la prisión,
también el representante del Ministerio Público conforme a previsión constitucional (CF,
y un abogado/defensor público. El proyecto art. 5º, LXV, LXVI), es medida extrema que
prevé, por igual, una estructura diversificada que se aplica solamente en los casos expresos en
incluye la creación/estructuración de centrales ley y cuando la hipótesis no admite ninguna
de alternativas penales; centrales de vigilancia de las medidas cautelares alternativas;
electrónica; centrales de servicios y asistencia CONSIDERANDO que las innovaciones
social; y cámaras de mediación penal, encargadas introducidas en el Código de Proceso
de presentar a la autoridad judicial opciones al Penal por la Ley 12.403, del 4 de mayo de
aprisionamiento provisional. 2011, impusieron al juez la obligación de
convertir en prisión preventiva la prisión
Mediante la Resolución n. 213, del en flagrante delito, solamente cuando
15.12.2015, el CNJ había dispuesto sobre la constatada la imposibilidad de relajamiento
presentación de toda persona presa a la autoridad o concesión de libertad provisional, con o
judicial en el plazo de veinticuatro horas. He sin medida cautelar diversa de la prisión;
aquí el preámbulo que transcribimos por su CONSIDERANDO que la conducción
riqueza y amplitud: inmediata de la persona presa a la autoridad
judicial es el medio más eficaz para
CONSIDERANDO el art. 9º, ítem 3, del prevenir y reprimir la práctica de tortura
Pacto Internacional de Derechos Civiles en el momento de la prisión, asegurando,
y Políticos de las Naciones Unidas, así por tanto, el derecho a la integridad física
como el art. 7º, ítem 5, de la Convención y psicológica de las personas sometidas a
Americana sobre Derechos Humanos la custodia estatal, previsto en el art. 5.2
(Pacto de São José de Costa Rica); de la Convención Americana de Derechos
CONSIDERANDO la decisión en los Humanos y en el art. 2.1 de la Convención
autos de la acusación de incumplimiento Contra la Tortura y Otros Tratamientos o
Penas Crueles, Inhumanos o Degradantes;

142
El Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos y la Audiencia de Custodia

CONSIDERANDO lo dispuesto en la persona presa en flagrante delito. Reproduzco a


Recomendación CNJ 49 del 1 de abril continuación algunos de sus artículos:
de 2014; CONSIDERANDO la decisión
plenaria tomada en el juicio del Acto Art. 1º. Queda instituida, en el ámbito de
Normativo 0005913-65.2015.2.00.0000, la jurisdicción de la Comarca de Fortaleza,
en la 223ª Sesión Ordinaria, realizada en el la obligatoriedad de la realización de
15 de diciembre de 2015. audiencia de custodia, para fines de
presentación a la autoridad judicial
El art. 1º de la Resolución es categórico al competente, así definida en los términos
determinar que toda persona presa en flagrante del art. 7º, de esta Resolución, de todas
delito, independientemente de la motivación o las personas presas en flagrante delito.
naturaleza del acto, sea de modo obligatorio, en Art. 2º. La autoridad policial remitirá
hasta 24 horas de la comunicación del flagrante, al Juicio competente para la realización
de audiencias de custodia, en hasta 24
presentada a la autoridad judicial competente, y
(veinticuatro) horas después de la prisión,
oída acerca de las circunstancias en las que se dio el respectivo auto de prisión en flagrante,
su prisión o aprehensión. No nos detendremos en para el fin de atender a la comunicación
el análisis de los dieciséis artículos subsecuentes de que trata el art. 306, § 1º, del Código
(porque rebasaría el propósito de este artículo), de Proceso Penal. § 1º. Protocolizado en
pero llamamos la atención del lector para el la Secretaría del Juicio, ésta certificará si
Protocolo I (documento que tiene por objetivo el auto está debidamente instruido con
presentar orientaciones y directrices sobre la nota de culpa y examen de cuerpo de
aplicación y el seguimiento de medidas cautelares delito de la persona presa, remitiéndolo,
en seguida, mediante despacho del
diversas de la prisión para aquellos presentados
juez, a la Central Integrada de Apoyo
en las audiencias de custodia, conteniendo: al Área Criminal (CIAAC) para fines de
los fundamentos legales y la finalidad de las investigación en cuanto a los antecedentes
medidas cautelares diversas de la prisión; las criminales y eventuales restricciones a la
directrices para la aplicación y el seguimiento libertad del arrestado en flagrante. § 2º.
de las medidas cautelares diferentes de la Antes de determinar la remesa del auto a
prisión; los procedimientos para el seguimiento la CIAAC, el juez podrá evaluar, ante los
de las medidas cautelares e inclusión social) elementos presentes, si el caso comporta,
y el Protocolo II (documento que, a su vez, de inmediato, el relajamiento de la
busca orientar tribunales y a magistrados sobre prisión ilegal o la concesión de la libertad,
independientemente de la presentación
procedimientos para denuncias de tortura y
del preso. § 3º. Devuelto el auto con las
tratamientos crueles, inhumanos o degradantes, informaciones recolectadas por la CIAAC,
donde se consignan: la definición de la tortura; lo que deberá ocurrir con la máxima
las condiciones adecuadas para la escucha del brevedad posible, la persona detenida será
custodiado en la audiencia; los procedimientos convocada por la autoridad policial para la
para la deposición de la víctima de tortura; los realización de la audiencia de custodia y los
procedimientos concernientes a la colección autos de prisión aguardarán en Secretaría
de informaciones sobre prácticas de tortura la realización de la respectiva audiencia.
durante la escucha de la persona custodiada;; § 4º. En las hipótesis en que la prisión en
flagrante sea comunicada durante finales
un cuestionario para auxiliar en la identificación
de semana, feriados u otros períodos en que
y registro de la tortura durante la escucha funcione el régimen del turno, se observará
de la víctima; y las providencias en caso de lo previsto en el art. 8º, fracción III, de
investigación de indicios de tortura y otros esta Resolución. Art. 3º. Compareciendo
tratamientos crueles, inhumanos o degradantes. el arrestado en flagrante, el juez procederá
En el estado de Ceará (soy de este estado, a su inmediata escucha, certificándose,
lo que explica la referencia puntual), el Tribunal sin embargo, que le haya sido dada la
oportunidad, antes de la audiencia, de
de Justicia instituyó, a través de la Resolución n.
tener contacto previo y razonable con
14/2015 del Órgano Especial, ad referendum del defensor constituido, en el caso de que así
Tribunal Pleno, obligatoriedad de la realización haya figurado en ocasión de la redacción
de audiencia de custodia, presidida por autoridad del auto de prisión o hasta el momento de
judicial competente, para presentación de la la apertura de la audiencia, o, al contrario,
con Defensor Público.

143
César Oliveira de Barros Leal

La primera audiencia de custodia en Ceará carcelaria; lo relevante es igualmente impedir


fue llevada a efecto en 2016 por la Sala Única de que el individuo se someta a toda suerte de
Audiencias de Custodia de Fortaleza. Se trataba influencias negativas (prisionización) en espacios
de un crimen de receptación y la presentación saturados donde todo se potencializa, donde
ocurrió sólo cuatro dias después de la detención. todo se exacerba como, por ejemplo, la falta
El preso, puesto que tenía buenos antecedentes, de asistencia material y jurídica, la menguada
empleo y residencia fija, obtuvo la libertad oferta de trabajo, los conflictos interpersonales,
provisional. La experiencia de Ceará fue objeto la violencia (física, moral y sexual), el tráfico de
de debate en el XXII Foro Nacional de Derecho drogas y la corrupción.
Penitenciário: Audiencia de Custodia, realizado Entrevistado sobre el proyecto, el ministro
del 20 al 21 de junio de 2016 por el Centro de Ricardo Lewandowski, Presidente del Supremo
Estudios y Entrenamiento de la Procuraduría Tribunal Federal y del Consejo Nacional de
General del Estado de Ceará, en asociación Justicia, consciente del cambio de cultura
con el Consejo Nacional de Política Criminal y provocado por la audiencia de custodia, la
Penitenciaria, órgano del Ministerio de la Justicia. calificó como un “salto civilizatorio” y adujo:
En los días siguientes, del 22 al 24 de junio, “Nosotros estamos, con ese paso, no sólo dando
el Consejo Nacional de Justicia llevó a cabo, efectividad a un principio importantísimo, que
en la sala de sesiones de la Primera Turma del es el de la dignidad de la persona humana, sino
Supremo Tribunal Federal (STF), el 2º Seminario también cumpliendo una obligación que el
sobre Tortura y Violencia en el Sistema Prisional país asumió al firmar tratados internacionales”
y en el Sistema de Cumplimiento de Medidas (entrevista publicada en Internet). El ministro
Socioeducativas – Actuación del Poder Judicial Luiz Fux, relator de la Acción Directa de
en el Enfrentamiento a la Tortura, con objeto de Inconstitucionalidad n. 5240, propuesta por la
“fortalecer la actuación y el compromiso de los Asociación de los Delegados de Policía de Brasil
jueces en la prevención, identificación y combate contra el CNJ (que el STF en buena hora juzgó
a la tortura, en especial cuando detectadas improcedente), había afirmado en su voto que las
en audiencias de custodia”. En el evento se audiencias de custodia demuestran ser eficientes
promovieron talleres para entrenamiento de los en la medida en que impiden prisiones ilegales
jueces, así como para intercambio de experiencias e innecesarias.
de los diferentes tribunales de las 27 unidades En numerosos países pertenecientes a
federativas. Se informó entonces que el CNJ la Organización de los Estados Americanos
registró cerca de 2,7 mil denuncias de maltratos (OEA) se han tomado providencias congéneres,
y torturas (excesos y abusos policiales) contra de presentación rápida en juicio: México (los
personas presas en flagrante en todo el país. sospechosos deben ser conducidos a un juez en
La idea fundamental que preside la audiencia el plazo de 48 horas o ser liberados), Colombia
de custodia es garantizar la celeridad, prevista (el plazo es de 36 horas), Chile (el plazo es de
en el Pacto y la Convención, permitiéndose, 12 horas para encaminamiento a un fiscal,
tal y como fue mencionado anteriormente, cabiéndole, a su parte, conducir a un juez
examinar la prisión desde diferentes perspectivas en el plazo de 24 horas) y Argentina (el plazo
(ocurrencia de maltratos y tortura, legalidad, viene a ser de 6 horas). Los nombres varían:
necesidad y adecuación de la permanencia de audiencia de flagrante, audiencia de control de
la prisión o concesión eventual de la libertad), detención, etc., pero la esencia es la misma y
imponiéndose o no medidas cautelares. Es el mérito compartido por la mayor parte de las
siempre recomendable, en este contexto, 35 naciones que integran la Organización de los
excluir el ingreso de alguien por un tiempo Estados Americanos (OEA).
indeterminado en el sistema penitenciário. Así
se contribuirá a desahogar las prisiones, lo que CONSIDERACIONES FINALES
por sí solo es un mérito indudable en un país
Para el ya mencionado Comité de Derechos
con más de 600.000 reclusos, solamente detrás
Humanos de la ONU, el lapso temporal entre la
de los Estados Unidos, China y Rusia en las
prisión de un acusado y su comparecencia ante
cifras globales de encarcelamiento7, con déficit
una autoridad judicial no debe ser largo, o sea,
de plazas superior a 230 mil. Pero no sólo se
el plazo ha de ser razonable, en los términos del
versa aquí sobre reducción de la sobrepoblación
art. 5º, LXXVIII, de la Constitución Federal:

144
El Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos y la Audiencia de Custodia

En el ámbito judicial y administrativo, son los impases de un área intensamente afectada


garantizados a todos la razonable duración del por la negligencia y la desidia con que siempre
proceso y los medios que aseguran la celeridad fue tratada por quien debería, al revés, asumir
de su tramitación. la tarea y la responsabilidad de operar cambios.
Muchos se oponen a la audiencia de Los que luchan para que la audiencia de
custodia, alegando ser un mero recurso para custodia se firme en nuestro país, expurgando
disminuir los índices de la población prisional eventuales imperfecciones (estamos gateando
y señalando que los jueces corren el riesgo de en su aplicación práctica y tenemos todavía
proceder a juicios apresurados, sin tener muchas un largo camino de continuo aprendizaje),
veces a su disposición suficientes elementos apuestan, a medio y/o largo plazo, a que los
para una decisión exenta de errores (a manera presos provisionales constituyan una mínima
de ejemplo: la posibilidad de ausencia de una parcela de la población intramuros. Lograr este
ficha criminal actualizada, que informe, de objetivo es un gran paso para el enfrentamiento
modo idóneo, la eventual existencia de procesos de otros males presentes en este universo,
en otros estados). Es evidente que eso ocurre; permitiéndonos soñar con una ejecución penal
nada es perfecto. Pero destáquese que es notorio digna, respetuosa de los derechos humanos del
el éxito de esa iniciativa que se desarrolla conjunto de encarcelados.
actualmente, con la garantía del contradictorio Concluyo, bañado de optimismo, con la
y de la amplia defensa, y que deberá resultar reflexión de Eduardo Galeano, el excepcional
en una disminución gradual y significativa escritor y periodista uruguayo, autor de “Las
del número de presos provisionales; y eso, en Venas Abiertas de América Latina”, preso por
definitiva, tendrá, sin lugar a dudas, una fabulosa la dictadura militar en los años 70 y exilado en
repercusión en el sistema presidial, debiendo ser España hasta 1985, habiendo fallecido en abril
aclamado con el reconocimiento que se exige en de 2015: “La utopía está allá en el horizonte. Me
la celebración de las buenas prácticas. acerco dos pasos, ella se aleja dos pasos. Camino
Haciendo profesión de fe, con el énfasis diez pasos y el horizonte corre diez pasos. Por
determinado por mis convicciones, veo la más que yo camine, jamás alcanzaré. ¿Para qué
audiencia de custodia no como una panacea sirve la utopía? Sirve para eso: ¡para que yo no
(algunos incurren en este equívoco), sino como deje de caminar!”
una respuesta vigorosa, entre otras, para superar

145
César Oliveira de Barros Leal

NOTAS

1 El Sistema de Protección Europeo: Uno de Derechos Humanos (en vigencia desde el 18


los más antiguos y evolucionados sistemas de julio de 1978), de dos órganos: la Comisión
regionales, el sistema europeo de protección Interamericana de Derechos Humanos (con
de los derechos humanos, se funda en el sede en Washington) y la Corte Interamericana
Tribunal Europeo de Derechos Humanos, con de Derechos Humanos (con sede en San José,
sede en Estrasburgo, Francia, también llamado Costa Rica). La Comisión Interamericana de
Tribunal de Estrasburgo o Corte Europea Derechos Humanos: Órgano de la OEA, creado
de Derechos Humanos, órgano judicial con en 1959, está integrado por siete miembros,
función consultiva y contenciosa al que se expertos de reconocida autoridad moral y
encaminan denuncias de violaciones de los versados en derechos humanos, elegidos
derechos humanos previstos en el Convenio por la Asamblea General de la OEA a partir
Europeo de Derechos Humanos y los Protocolos de una lista de candidatos propuestos por
1, 4, 6 y 7, ratificados por algunos Estados. los gobiernos de los Estados miembros. Los
Hasta el año de 1998 eran dos los órganos comisionados, quienes no son representantes
que componían el sistema (el Tribunal y la de los Estados ni de los gobiernos, tienen un
Comisión Europea de Derechos Humanos), mandato de cuatro años, prorrogable por una
pero el Protocolo n. 11, del Convenio Europeo sola vez. La Corte Interamericana de Derechos
de Derechos Humanos, suprimió la Comisión Humanos: Órgano jurisdiccional del sistema
como filtro de las demandas, que pasaron a interamericano de protección, creado en 1969,
ser directamente planteadas al Tribunal. Éste está integrado por siete jueces naturales de
tiene su presidente, dos vicepresidentes y dos Estados Miembros de la OEA (elegidos, según
presidentes de sección con mandato de tres el artículo 52 de la Convención Americana:
años. En cada una de las cuatro secciones se a título personal entre juristas de la más alta
forman, por un ciclo de doce meses, comités autoridad moral, de reconocida autoridad en
de tres jueces, encargados de tamizar las materia de derechos humanos, que reúnan las
denuncias. Hay salas de siete miembros dentro condiciones requeridas para el ejercicio de las
de cada sección que funcionan de modo rotativo más elevadas funciones judiciales conforme a
y la Gran Sala, compuesta por diecisiete jueces, la ley del país del cual sean nacionales o del
por un período de tres años. Estado que los proponga como candidatos).
El Sistema de Protección Africano: La más (Texto extraído, con ajustes, del libro La
nueva Corte regional, la Corte Africana de Ejecución Penal en América Latina a la Luz de
Derechos Humanos y de los Pueblos, ha los Derechos Humanos: Viaje por los Senderos
empezado a tornarse realidad. Ella se suma a la del Dolor, Porrúa, México, 2009, pp. 343-347)
Comisión Africana de Derechos Humanos y de 2 Una nomenclatura que juzgamos inadecuada,
los Pueblos, creada en 1987, un año después de tal y como fue mencionado en la presentación
la entrada en vigor da la Carta Africana (Banjul, de la revista n. 14 del Instituto Brasileño de
Gambia). Su Protocolo, adoptado en 1998, está Derechos Humanos, firmada por mí y por el Prof.
en vigencia desde el 25 de enero de 2004. Dos Dr. Antônio Augusto Cançado Trindade, Juez
años después sus 11 jueces fueron elegidos. Le de la Corte Internacional de Justicia: Hay que
faltan la adopción del Reglamento y la definición destacar, en primer plano, la interdependencia
de su sede permanente (hasta ahora comparte e indivisibilidad de los derechos humanos
la sede con la Comisión en Gambia). Se tiene (civiles, políticos, económicos, sociales y
noticia de que la Asamblea de Jefes de Estado y culturales). Al propugnar por una visión
de Gobierno de la Unión Africana ha aprobado necesariamente integral de todos los derechos
una Resolución que estableció la fusión de la humanos, el IBDH advierte de la imposibilidad
Corte Africana de Derechos Humanos y de los de buscar la realización de una categoría de
Pueblos y la Corte Africana de Justicia. derechos en detrimento de otras. Cuando se
El Sistema de Protección Interamericano: vislumbra el caso brasileño, esa concepción
El sistema interamericano de protección de se impone con mayor vigor, puesto que desde
los derechos humanos se compone, ex vi del los principios de la sociedad predatoria hasta
artículo 33 de la Convención Americana sobre el acentuar de la crisis social agravada en los
años más recientes, nuestra historia ha estado

146
El Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos y la Audiencia de Custodia

marcada por la exclusión, para largas fajas cuales se incluyen las formas o vías alternas de
poblacionales, sea de los derechos civiles y punición y resolución de disputas (instancias
políticos, en distintos movimientos, sea de los por lo general no judiciales, oficiosas, celebradas
derechos económicos, sociales y culturales. por autores como Eugenio Raúl Zaffaroni), en
La concepción integral de todos los derechos especial a través de medidas constructivas, de
humanos se hace presente también en la consenso, como la conciliación y la mediación.
dimensión temporal, desechando fantasías Hacemos referencia a una práctica de justicia
indemostrables como la de las “generaciones de muy distinta de los patrones ordinarios de
derechos”, que ha perjudicado la evolución de la justicia penal, ésta de corte nítidamente
la materia, al proyectar una visión fragmentada disuasorio, retributivo-punitivo, basada en el
o atomizadas en el tiempo de los derechos exceso de formalismos, en la estricta legalidad,
protegidos. Todos los derechos para todos es y una relación traumática, adversarial, a
el único camino seguro. No se puede postergar veces hostil (una ceremonia de degradación,
para un tempo indefinido la realización de usando el lenguaje de Garfinkel), marcada por
determinados derechos humanos. el distanciamiento, un diálogo entre sordos,
3 La Ejecución Penal en América Latina a la cuyos actores principales son estatales –policía,
Luz de los Derechos Humanos: Viaje por los fiscal del MP y juez– ya que el delito es visto,
Senderos del Dolor, Porrúa, México, 2010, p. en un contexto bipolar (bidimensional), como
113. una disconformidad autor-Estado, id est,
como una ofensa contra el Estado (la supuesta
4 Es importante tener en cuenta lo siguiente: Lo víctima, el principal lesionado), poniéndose
sustancial es la convicción que se sedimenta el acento en la ruptura de las leyes, en la
paulatinamente no sólo del estrepitoso fiasco y violación del bien jurídico tutelado y en la
de la consiguiente residualidad de la privación culpa del agente, en una óptica retroactiva,
de libertad, el más pesado eslabón de una cadena con énfasis en el pasado, “olvidándose que,
de puniciones que se perpetúan en el tiempo, en su base, hay generalmente un conflicto
sino también de que el monitoreo electrónico humano, causante de otras expectativas,
no puede ser someramente categorizado como bien distintas, además de la mera pretensión
bueno o malo; es en su empleo positivo o negativo punitiva estatal.” E ignorando, ut retro, casi
que radica la respuesta. Como dice Concepción por completo a la víctima, despreciada en su
Arenal, penitenciarista española, inspectora de identidad y humanidad, sin voz en la respuesta
prisiones femeniles, uno de cuyos lemas era: penal/estatal, convertida en estatua de piedra.
“Odia el delito y compadece al delincuente”: (BARROS LEAL, César, Justicia Restaurativa:
“No hay que acusar a las buenas teorías de las Amanecer de una Era. Aplicación en Prisiones
malas prácticas.” (BARROS LEAL, César, La y Centros de Internación de Adolescentes
Vigilancia Electrónica a Distancia: Instrumento Infractores, Porrúa, México, 2015, pp. 13-14).
de Control y Alternativa a la Prisión en América
Latina, Porrúa, México, 2010, pp. 123-124) 6 Léase: “(...)”§ 1º En el plazo máximo de
veinticuatro horas después de la prisión en
5 Léase: Ante el fiasco unánimemente reconocido flagrante, el preso será conducido a la presencia
de la pena privativa de libertad (parafraseando del juez para ser oído, con vistas a las medidas
a Elías Neuman, nadie puede cubrir con los previstas en el art. 310 y para que se verifique
dedos de una mano los soles de esta evidencia, si están siendo respetados sus derechos
visible como un escorpión en un plato de fundamentales, debiendo la autoridad judicial
leche), máxime en su ilusoria propuesta de tomar las medidas oportunas con vistas a
resocialización, de rehabilitación, además preservarlos y para investigar eventual violación.
de la ineptitud de los modelos hegemónicos § 2º En la audiencia de custodia de que trata
y autoritarios de control y la notoria el párrafo 1º, el Juez escuchará al Ministerio
incapacidad del derecho penal convencional, Público, que podrá, caso entienda necesaria,
de matiz represivo, de vencer los desafíos de la requerir la prisión preventiva u otra medida
criminalidad contemporánea (por ello lo llaman cautelar alternativa a la prisión; enseguida
“tigre de papel”), se robustece cada vez más, oirá al preso y, después de manifestación de la
en el proceso penal y la ejecución de la pena, defensa técnica, decidirá con fundamento en
la percepción de que se requiere un cambio los términos del art. 310. § 3º La escucha a que
significativo en el paradigma de la justicia se refiere el párrafo anterior será registrada en
criminal, con la adopción de nuevos conceptos, autos apartados, no podrá ser utilizada como
de estrategias más eficaces y legítimas, entre las medio de prueba contra el deponente y versará,

147
César Oliveira de Barros Leal

exclusivamente, sobre la legalidad y necesidad abogado, o, en el caso de que no haya o no lo


de la prisión; la prevención de la ocurrencia de indique, en la de Defensor Público, y en la del
tortura o de maltratos; y los derechos asegurados miembro del Ministerio Público, que podrán
al preso y al acusado. § 4º La presentación del inquirir al preso sobre los temas previstos en el
preso en juicio deberá ser acompañada del auto párrafo 3º, así como manifestarse previamente
de prisión en flagrante y de la nota de culpa a la decisión judicial de que trata el art. 310 de
que le fue entregada, mediante recibo, firmada este Código.”
por la autoridad policial, con el motivo de la 7 La población carcelaria de Brasil se convierte en
prisión, el nombre del conductor y los nombres la 3ª mayor del mundo en el caso de que se
de los testigos. § 5º La escucha del preso en consideren a las personas que están en prisión
juicio siempre se dará en la presencia de su domiciliaria.

148
IMPLEMENTING HUMAN RIGHTS IN CLOSED
ENVIRONMENTS THROUGH THE UNITED NATIONS
CONVENTION AGAINST TORTURE

Claudio Grossman
Doctor en Ciencias del Derecho por la Universidad de Ámsterdam; Presidente
del Instituto Interamericano de Derecho Humanos; Miembro de la Comisión
de Derecho Internacional de Naciones Unidas para el período 2017-2021

RESUMEN Palabras claves


Los entornos cerrados plantean un gran Convención contra la Tortura; Comité
desafío para la implementación completa y contra la Tortura; Obligaciones de Derechos
efectiva de las normativas y convenciones de Humanos; Implementación de Derechos
derechos humanos. Sin embargo, muchas Humanos; Entornos Cerrados.
convenciones contienen dispositivos cuales
pueden ser utilizados para seguir desarrollando ABSTRACT
la implementación de los derechos humanos en Closed environments pose a major challenge
esos entornos cerrados. La Convención contra to the full and effective implementation of
la Tortura y Otros Tratos o Penas Crueles, human rights norms and conventions. However,
Inhumanos o Degradantes de las Naciones many conventions contain mechanisms that
Unidas (la Convención) disfruta de varios dichos can be used to further advance implementation
dispositivos que desempeñan un papel importante of human rights in those closed environments.
en el cumplimiento e implementación de las The United Nations Convention against
obligaciones de derechos humanos. Además Torture and Other Cruel, Inhuman or
de la creación del Comité contra la Tortura (el Degrading Treatment or Punishment (the
Convention) has several mechanisms in place
Comité), la Convención también proporciona
that play an important role in enforcing and
estructuras para: informes y observaciones
implementing human rights obligations. Along
finales de los Estados Partes conforme al artículo
with the creation of a supervisory organ, the
19; investigaciones estatales según el artículo 20; Committee against Torture (the Committee),
comunicaciones interestatales bajo el artículo the Convention provides a framework for: State
22; y comunicaciones individuales conforme al Party reporting and concluding observations
artículo 22. Estos mecanismos pueden apoyar (COBs) under art 19; state inquiries under art
a la comunidad internacional en su labor hacia 20; interstate communications under art 21;
la superación de las dificultades respecto a la and individual communications under art 22.
implementación de los derechos humanos en These mechanisms can provide assistance as the
los entornos cerrados. Este artículo presenta una international community works to overcome the
breve descripción del Comité contra la Tortura challenges posed by implementing human rights
y sus métodos de supervisión y seguimiento con in closed environments. This article provides
el propósito de identificar las contribuciones de a brief description of the Committee against
este órgano del tratado a la implementación de Torture and its techniques of supervision and
derechos humanos en los entornos cerrados. follow-up, seeking to identify this treaty body’s

149
Claudio Grossman

contributions to implementing human rights in • provide reparation to victims;9 and


closed environments. • provide trainings to enforcement
agencies,10 among others.
Keywords Articles 19-22 of the Convention set forth
Convention against Torture; Committee techniques to supervise compliance with the
against Torture; Human Rights Obligations; treaty itself. Article 19 applies to all countries
Human Rights Implementation; Closed that have signed and ratified (or acceded to) the
Environments Convention, and requires all States Parties to
submit an initial and then subsequent periodic
1. INTRODUCTION reports to the Committee on any new measures
taken to implement their obligations.11 Pursuant
This article gives a brief description of the
to art 20, the Committee may initiate an inquiry
United Nations Convention against Torture
into well-founded indications of torture by a
and Other Cruel, Inhuman or Degrading
member state.12 In ratifying the Convention,
Treatment or Punishment and its supervisory
a State Party accepts the jurisdiction of the
organ the United Nations Committee against
Committee to conduct art 20 inquiries unless the
Torture, its techniques of supervision and
State Party explicitly opts out. All States Parties
follow-up, seeking to identify the Committee’s
except for the following recognise this procedure:
contributions to implementing human rights in
Afghanistan, China, Equatorial Guinea, Israel,
closed environments. For the purposes of this
Kuwait, Mauritania, Pakistan, Saudi Arabia,
article, closed environments are defined as any
Syria and the United Arab Emirates. The other
place where persons are or may be deprived of
techniques of supervision outlined in arts 21 and
their liberty by means of placement in a public
22 require States Parties to specifically accept the
or private setting in which a person is not
Committee’s competence under those articles.
permitted to leave at will by order of any judicial,
Article 21 establishes a mechanism for interstate
administrative or other order, or by any other
complaints.13 Sixty-one States Parties have
lawful authority.1
accepted this procedure,14 although it has never
The Committee against Torture is a treaty been used. Article 22 establishes a procedure for
body with 10 independent experts elected by individual communications whereby individuals
the States Parties. Its mandate is to supervise can present claims that their rights under the
compliance with the United Nations Convention Convention have been violated.15 Thus far, 65
against Torture and Other Cruel, Inhuman or states have made declarations recognising the
Degrading Treatment or Punishment, which Committee’s competence under art 22.16
was adopted in 1984.2 Currently, 153 states
Each of these mechanisms helps to
have ratified the Convention.3 By ratifying
ensure and supervise compliance with State
the Convention, countries assume a set of
Party obligations under the Convention. The
obligations that include the prohibition of
following sections will examine each supervisory
torture and other forms of cruel, inhuman or
mechanism and how those measures can be used
degrading treatment or punishment (CIDT).
to help overcome the challenge of implementing
Under this Convention, States Parties assume
human rights in closed environments. Part II
different obligations including to:
will discuss state reporting procedures under art
• incorporate the definition of torture into 19; Part III will discuss confidential inquiries
their domestic legal system;4 under art 20; Part IV will discuss interstate
• recognise the non-derogability of the communications under art 21; Part V will
prohibition of torture;5 discuss individual communications under art
• not extradite or return a person to a state 22; and Part VI will discuss follow-up procedures
where he or she would be in danger of and their impact.
torture;6
• extradite or prosecute those individuals 2. ARTICLE 19: COUNTRY REPORTS
alleged to have committed torture;7 Article 19 creates an obligation on States
• prohibit the use of confessions extracted Parties to report to the Committee on their
through torture in any official proceedings;8 compliance with Convention obligations.17 This
procedure is designed to assess compliance with

150
Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture

the Convention. As all States Parties are, upon B. Periodic Reports


ratification of the Convention, bound by the
As mentioned above, periodic reports must
reporting requirements, this is the Committee’s
be submitted every four years after the initial
central procedure to ensure compliance with the
report.23 Under the original reporting procedure,
Convention.18 Under art 19, states are required
once a State Party has submitted its periodic
to submit both an initial report and subsequent
report, the Committee reviews the submission
periodic reports every four years thereafter. The
and requests additional information or updates
Committee considers the State Party reports through a set of written questions known as
as well as State Party replies to subsequent a List of Issues (LOI). The State Party then
written questions from the Committee, and submits replies to the LOI, and the Committee
information submitted by non-governmental will use the periodic report and reply to the LOI,
organisations (NGOs) which is valuable to assist together with other materials, for the dialogue
the Committee’s decision-making process. with the states.
The Committee evaluates the State Party’s
States Parties can submit their periodic
compliance with the various obligations under
reports and respond to the LOI, or they can
the Convention and formalises its findings in submit their report in accordance with a new
an official document known as the Committee’s reporting procedure introduced in 2007 by the
Concluding Observations (COBs). Committee.24 States may voluntarily accept
this new optional reporting procedure to
A. Initial Reports submit a report in response to a list of specific
Under art 19, States Parties are required issues formulated by the Committee called a
to submit an initial report within one year of List of Issues Prior to Reporting (LOIPR). By
ratification of the Convention.19 Initial reports responding to the Committee’s LOIPR, a state
serve as a base line document that lays out fulfils its periodic reporting requirement under
the measures taken by new States Parties to art 19. This optional reporting procedure does
comply with their treaty obligations. States will not apply to initial reports so as to reinforce
often provide explanations of measures taken to States Parties the importance of providing a
to comply with their Convention obligations.20 full-fledged report on all measures related to the
The Committee benefits from thorough initial status of compliance with their obligations.
reports. It is important that both initial and The LOIPR procedure provides numerous
periodic reports do not merely repeat legal benefits:
provisions but instead contain disaggregated data • it simplifies the process, as States Parties
and statistics broken down by gender, race, etc now need only submit one report rather
on complaints involving torture, investigations, than two as previously required when
prosecutions, convictions, sentencing, training states had to submit replies to list of
programs, victims, detainees, and so forth, as issues in addition to the periodic report;
well as relevant facts that will contribute to a • it assists States Parties in preparing timely
meaningful dialogue on actual measures taken and more focused reports;
to implement the Convention. • it enriches the dialogue; and
To assist States Parties in the formulation of • it results in more specific reco-
their initial and periodic reports, the Committee mmendations.
has adopted general reporting guidelines.21
Through the Committee’s advance
The Committee also utilises the Common
identification of key issues of concern, including
Core Document, which was adopted in 2006
recommendations of other United Nations
by a meeting of chairpersons of human rights
human rights mechanisms when appropriate,
treaty bodies, in order to streamline reporting the LOIPR procedure has the broader potential of
on common basic information about the state strengthening coherence and follow-up to treaty
(eg constitutional provisions, data relevant bodies’ recommendations, and allows for a more
for human rights), and avoid unnecessary focused debate and dialogue between the States
duplication.22 Parties and the Committee.25 The procedure
was also designed to help the Committee avoid
unnecessary costs of translating the replies to

151
Claudio Grossman

the LOIs. Of the 88 States Parties consulted, 67 second three-hour oral proceeding that takes
have accepted this optional procedure to date, place the following day, the State Party has a new
three have not (China, Algeria and Uzbekistan), opportunity to prepare and verbally address the
and 18 have either not replied, were already Committee’s questions and concerns. The two
preparing, or had prepared a report under the separate sessions provide the State Party with an
standard procedure.26 opportunity to more fully prepare its responses
The Committee reviews the periodic and create a more focused and informed dialogue.
report, State Party replies to LOIs, and many In order to maximise the impact of its
other reports and documents (reports from work, the Committee authorises webcasting
CAT, other treaty bodies, and NGOs, whose of public proceedings by anyone interested in
contributions enrich the information provided doing so (thus far NGOs). Webcasting began
to the Committee, as well as from special following recommendations by the Inter-
procedures, regional mechanisms, national Committee Meeting of Chairpersons and
human rights institutions, the media, etc) to is consistent with the public nature of the
prepare for a dialogue that takes place during the Committee’s proceedings. Through webcasts of
Committee’s semiannual sessions in Geneva. public proceedings, the Committee and States
Parties are subject to broader scrutiny of the
C. Oral Proceedings way in which they conduct their work.31 In the
The reporting procedures also require Committee’s interpretation, if the meetings are
the States Parties to participate in an oral public, both States Parties and the Committee
proceeding before the Committee.27 The oral are held accountable. To contribute to the
proceeding involves a dialogue between the transparency of the proceedings and provide
State Party’s delegation and the Committee public access to all of the information received by
members based on all the documentation.28 The the Committee from governments, NGOs, and
oral proceedings are the last formal step taken other sources, all of the information is posted on
by the Committee before its adoption of COBs. the Committee’s website. The Committee posts
The purpose of the oral dialogue is to allow a note on the website stating that the ‘OHCHR
States Parties direct access to the expertise of [the Office of the High Commissioner for
the Committee members as a resource to assist Human Rights] is not responsible for the content
states in the compliance with their obligations. of reports provided to the Committee and the
Within this paradigm of cooperation, the provision of these reports on this webpage does
phrase that may best capture the nature of the not imply that the Committee or OHCHR
exchanges is ‘constructive dialogue’.29 However, associate themselves with their content’.32
in cases where, for example, there are mass and
gross violations of the Convention obligations
D. Concluding Observations
including the prohibition of torture, the oral After examination of the reports and oral
proceedings become more adversarial in nature, proceedings the Committee adopts its COBs.
generally due to a lack of cooperation by the The concluding observations, and its process
government represented in the exchanges.30 of adoption and follow-up, have important
The Committee prepares for the oral value. Through the process of adopting COBs,
proceedings, which are held on two consecutive issues are identified, specific recommendations
days during two separate sessions of two and are formulated, and a participatory process is
three hours, respectively, by reviewing the State created that allows for communications and
Party’s initial or periodic report, its response to exchanges with government officials, NGOs,
the LOI, reports submitted by NGOs, and any and the international community. The process
other pertinent documentation or information opens space for cooperation and ongoing
available. The Committee will also meet with communication.
NGOs to further develop its understanding The Committee utilises different procedural
of the issues. During the oral proceedings, the techniques in its COBs to maximise their
Committee questions the State Party about its impact. These techniques include: identifying
compliance with the obligations laid down in positive measures, referring to matters of
the Convention and seeks to resolve any doubts concern, and providing recommendations that
that the Committee might have. During the are specifically targeted, including measures that

152
Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture

the State Party should adopt to comply with its indirectly play a role by referring to conditions
Convention obligations and report back on to that are relevant to the protection of human
the Committee within a year.33 rights in those environments. Issues of direct
impact may include conditions of detention;
1. Identification of Positive Measures treatment of vulnerable individuals (eg
Referring to positive developments is a way persons with disabilities, refugees, indigenous
to encourage states to adopt measures with the populations, etc); and the lack of sufficient
knowledge that the international community development of institutional mechanisms and
will recognise their efforts. Positive recognition procedures to protect individuals in accordance
is certainly also a condition for the realisation with the Convention.42
of the paradigm of constructive dialogue. It In the case of Chile, for example, the
gives balance to the Committee’s expressions of Committee expressed concerns on the
concern on other matters. shortcomings of facilities where adolescents are
Positive measures recognised in COBs held, including the failure to separate different
can include the adoption and ratification of categories of inmates and the inadequate supply
treaties, enacting domestic norms, creating of basic services.43 In the concluding observations
institutions, application of internal norms for China, the Committee identified widespread
by the judiciary, and other mechanisms that allegations of torture, systematic problems in the
implement the Convention. These measures criminal justice system, and the use of confessions
can have significant importance for individuals extracted under torture in prosecutions.44
in closed environments. Recently, for instance, Other examples of issues identified include the
the application of the Istanbul Protocol34 by overcrowding of prisons in Sri Lanka,45 and the
Germany was recognised by the Committee, disproportionately high number of Indigenous
as was that country’s involvement in a joint Australians, specifically women and children,
project with the International Organization for incarcerated in Australian prisons.46
Immigration to identify potential victims of The Committee also often addresses general
trafficking among asylum seekers.35 Similarly, the issues of concern or noncompliance that may have
adoption of the Prison Rape Elimination Act of an impact on the overall human rights condition
2003 by the United States was recognised.36 The in a state, for example, the role of civil society; the
positive measures identified in the concluding relevance of freedom of expression; the training
observations for Sri Lanka include the ratification of public or military officials; the improper
of the Optional Protocol on the Rights of the use of military tribunals; or the obligation to
Child on the Sale of Children, Children’s Rights abrogate amnesty laws. The Committee has, for
and Child Prosecution.37 In the case of China, the instance, expressed concern over the status of
Committee identified the adoption of the 2001 indigenous peoples in Chile,47 as well as the lack
Marriage Law, which prohibits domestic violence, of cooperation between the government of Ghana
as a positive step forward.38 and NGOs concerning access to prisons.48 Other
The Committee has also recently identified examples identified include the use of military
positive measures that include: the judiciary in commissions and review boards for prosecuting
Chile applying the Convention in domestic legal Guantanamo detainees in the United States,49
cases;39 Australia’s commitment to become a and the absence of a vibrant and protected civil
party to the Optional Protocol to the Convention society in Sri Lanka.50
against Torture, and its ratification of the Rome
Statute of the International Criminal Court
3. Follow-up Recommendations
on 1 July 2002;40 and Ghana’s 2007 adoption Starting in 2003, the Committee began to
of a new criminal code which criminalises the identify between three and six recommendations
practice of female genital mutilation.41 that are ‘serious, protective, and are considered able
to be accomplished within one year’, and included
2. Identification of Issues or Matters of them in the COBs.51 The recommendations of
Concern or Noncompliance the Committee can be broad such as when they
refer to the environment or context in which
The Committee often raises issues that
violations take place (eg requesting the abrogation
directly affect people in closed environments, or
of amnesty laws or the reformation of the judicial

153
Claudio Grossman

code).52 They can also address very specific issues. Committee to the disposal of states, as well as
China, for instance, was called upon to ensure the the international community, informing them
right to access a lawyer and independent medical of the status of compliance with obligations
experts, support the exclusion of confessions under the Convention. This process not only
extracted under torture in judicial proceedings, benefits the public at large but individuals in
and end harassment of lawyers and human closed environments as well. Due to the special
rights defenders.53 With regard to Germany, the vulnerability of people in closed environments,
Committee called for strict regulation of the use this process is of particular relevance since it
of physical restraints in state prisons, psychiatric provides specific information and recommends
hospitals and detention centres for foreigners.54 specific measures related to the adoption of
The Committee also required Germany to ensure public policies relevant to their situation.62 The
adequate training for law enforcement officials on Committee is able to identify specific issues
the use of physical restraints.55 Other examples and adopt recommendations aimed at positively
of the Committee’s recommendations include impacting and strengthening human rights in
those to the United States to register all detained closed environments within each State Party.
persons, comply with non-refoulement, cease
extraordinary renditions, close the detention 3. ARTICLE 20: INQUIRY
facility at Guantanamo, and provide statistical Under art 20 the Committee may initiate
data regarding complaints related to torture.56 an inquiry into ‘well-founded indications that
Recommendations can also address indirect torture is being systematically practiced in the
issues, such as the need for cooperation with territory of a State Party’.63 Following its first
international treaty bodies or organisations, or inquiry under this procedure, the Committee
the training of public officials. In the case of adopted a definition of ‘systematic torture’ as
Ghana, the Committee asked it to ‘[strengthen] follows:
its cooperation with, and support to, non-
governmental organisations that undertake The Committee considers torture is
practiced systematically when it is apparent
monitoring activities’.57 For Belarus, the
that the torture cases reported have not
Committee highlighted the role of the state in occurred fortuitously in a particular place
ensuring the functional independence of lawyers, or at a particular time, but are seen to be
access to legal assistance and cooperation habitual, widespread and deliberate in at
between state bodies and lawyers’ self-governing least a considerable part of the territory of
bodies, and recommended that Belarus take the country in question. Torture may in
steps to improve conditions in prisons and create fact be of a systematic character without
a system for inspection by impartial monitors.58 resulting from the direct intention of a
Government. It may be the consequence
Recommendations can identify topics and of factors which the Government has
measures to be adopted relevant to the particular difficulty controlling, and its existence
conditions of each State Party. In this regard, may indicate a discrepancy between policy
the Committee requested, for example, that as determined by the central Government
Ghana strengthen efforts to combat traditions and its implementation by the local
of female genital mutilation, and suggested that administration. Inadequate legislation
the state develop community-based treatments which in practice allows room for the use
of torture may also add to the systematic
for psychiatric patients.59
nature of this practice.64
In its recommendations since 2003,
the Committee always requests the State All inquiries are done in cooperation with
Party to submit a follow-up response.60 Like States Parties and are confidential. However,
the recommendations themselves, requests the Committee may include a summary of the
for follow-up are designed to increase state findings in its annual report after the inquiry
accountability and allow the Committee to is complete. Additionally, with the consent of
focus on issues and recommendations specific the State Party subject to the inquiry, the full
to each State Party.61 report and state response, if submitted, can be
The process of arriving at the COBs, published.65
as described above, is comprehensive and The Committee applied the inquiry
thorough, and opens the expertise of the procedure under art 20 for the first time to

154
Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture

Turkey. The whole procedure lasted from 1990 its report, which included conclusions and
to 1993. Other inquiries followed with regard to: recommendations, to Brazil for comment.70
• Egypt from 1991 to 1996 (this was the The report contains a history of the inquiry,
first inquiry in which the State Party did an overview of Brazil, and a detailed account of
not allow a visit of Committee members information gathered. In the conclusions and
to its territory); observations the Committee stated:
• Peru from 1995 to 2001; The Committee found, as described
• Sri Lanka from 1999 to 2002; in the preceding paragraphs, endemic
overcrowding, filthy conditions of
• Mexico from 1998 to 2003; confinement, extreme heat, light deprivation
• Serbia and Montenegro from 1997 to and permanent lock-ups (factors with severe
2004; health consequences for inmates), along
with pervasive violence as well as lack of
• Brazil from 2002 to 2008; and proper oversight, which leads to impunity.
• Nepal from 2006 to 2011 (like Egypt, In fact, there is widespread impunity for
Nepal did not authorise a visit by the perpetrators of abuse. In addition, the
Committee members to its territory).66 Committee on several occasions received
allegations attesting to the discriminatory
In accordance with art 20, the Committee’s
nature of these conditions given that they
annual report includes a summary account of its affect vulnerable groups and in particular,
proceeding’s results, as well as the comments persons of African descent. The Committee
and observations submitted by Nepal.67 notes that the government of Brazil [ ]
The art 20 report on Brazil, which is fully cooperated with the Committee’s
publicly available on the Committee’s website, visit, constantly expressed its awareness
and concern with the seriousness of the
highlights the procedure and its potential impact
existing problems, as well as its political
on enforcing human rights.68 In late 2002, the will to improve. However, tens of thousands
Committee received allegations, submitted by of persons are still held in delegacias and
several NGOs, of the systematic practice of elsewhere in the penitentiary system where
torture in Brazil.69 The Committee examined torture and similar ill-treatment continues
the information in private meetings. After to be ‘meted out on a widespread and
agreeing that the allegations were well founded systematic basis’.71
and reliable, the Committee submitted the
In 2008, Brazil submitted a response to
information to Brazil for comment. Brazil failed
the report and authorised the publication of
to respond to the documents and the Committee
the report and its response. Brazil disagreed
initiated an art 20 inquiry in late 2003. After
with the Committee on a number of issues72but
some delay, Brazil invited the Committee for an
it provided comprehensive responses to each
official visit in July of 2005, and cooperated fully
conclusion and recommendation identified
with the inquiry. by the Committee’s report. The major issue
Two teams, made of up Committee raised by Brazil concerned the Committee’s
members (including the author of this article), characterization of the situation in county prison
members of the Secretariat and interpreters system as ‘systematic’ torture. For Brazil the
visited several Brazilian states and met with concept of systematic torture required intention
numerous officials, prosecutors, lawyers, judges, and specific purpose that it did not believe
representatives of international organizations, existed in the case of the Brazilian prison system.
and NGOs. During their stay in Brazil, the The Committee disagreed and determined that
Committee members visited a large number of even in the absence of a specific purpose, taking
places of detention, met with alleged victims of into account the overall circumstances, that
torture, and discussed the situation of torture systematic torture was present. While Brazil
victims and their relatives with numerous rejected the Committee’s characterisation as
NGOs. systematic it did acknowledge the seriousness
In late 2006, after collecting testimonies of the situation and made a commitment to
by public officials, recording observations from improve it.
site visits, and reviewing submissions from Article 20 investigations allow the
NGOs and state officials, the Committee sent Committee to investigate claims of the

155
Claudio Grossman

systematic practice of torture, and States important mechanisms to prevent torture,


Parties are able to receive the expertise of the including the development of National Preventive
Committee members on issues that may Mechanisms (NPMs) and unannounced visits to
otherwise have gone unaddressed. Through detention centres by the treaty body established
visits to places of detention and discussions pursuant to OPCAT, ie the Subcommittee on
with civil society and high level authorities, it Prevention of Torture and other Cruel, Inhuman
is possible to adopt sound recommendations or Degrading Treatment or Punishment
informed by the knowledge provided by the (SPT).76 Since the creation of OPCAT, and in
Committee members’ presence on site. Those compliance with the requirements laid down in
recommendations provide information to state the conventions, the SPT and the Committee
authorities and ultimately, if made public, to the meet jointly to exchange information and engage
population of that country and the international in a dialogue designed to achieve the goals of
community at large. The underlying purpose of the Convention. The creation of OPCAT, and
this procedure is to present credible information the combined efforts between the SPT and
by an authoritative organ about the situation of a the Committee (including the art 20 inquiry
country. This process provides relevant findings process) are essential mechanisms to combating
for actors who seek change both within and torture due to the situation of individuals in
outside the government to promote compliance closed environments and vulnerable situations.
with human rights, specifically the obligations
laid down in the Convention. This information 4. ARTICLE 21: INTERSTATE
also offers opportunities for international actors COMMUNICATIONS
to adjust their behavior towards those states that
are in violation of, or in a process of improving, Article 21 of the Convention provides a
human rights.73 framework wherein the Committee can receive
and consider claims made by States Parties
Factors that limit the art 20 procedure from to the Convention against other member
realising its full potential include: the failure in states for failure to fulfil obligations under
the past in negotiating follow-up visits with the the Convention.77 Despite the acceptance
authorities of the State Party concerned; the by 61 States Parties, the art 21 interstate
inability to ensure the protection of those persons communication provision has never been used.
who collaborated with the Committee during its
inquiry; and last, but not least, the concern that States might be reluctant to use this
some States Parties have of allowing the art 20 complaint system because of the potential
political repercussions, including creating a
procedure for fear of negative publicity.74 Despite
confrontational situation among States Sarties.
these challenges, art 20 provides a mechanism
The process may increase political ill-will and
for the Committee to approach states, even if
could also be used vindictively to make counter-
confidentially, highlighting the seriousness
claims against other States Parties. One can
of a situation. If the procedure can take place
imagine, however, circumstances when art
with state cooperation, it will allow members
21 still remains a viable supervisory option,
of the Committee to be directly exposed to the
including situations that concern minorities of
situation on the ground, conduct investigations
one state living in another state.78
into violations that may not have been exposed
through other supervisory techniques of the
Convention, and report to the State Party as
5 ARTICLE 22: INDIVIDUAL
well as the international community measures COMMUNICATIONS
that should be adopted to comply with the Article 22 creates a mechanism wherein
Convention.75 individuals within a State Party can submit
With the adoption of the Optional Protocol communications relating to violations of the
to the Convention against Torture and Other Convention.79 Sixty-five states have recognised
Cruel, Inhuman or Degrading Treatment or the Committee’s competence under art 22.80 As
Punishment (OPCAT) in 2006, the Committee of December 2011, the Committee had heard
gained a valuable tool in conducting art 20 484 communications regarding 29 countries
inquiries, as well as in the performance of other under art 22 (108 cases are pending). Of the 378
duties under the Convention. OPCAT creates communications which have been concluded,

156
Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture

the Committee found a violation of the petitioners, to assist them in evaluating the
Convention in 67 cases and no violation in 123 presence of a potential violation.87 General
cases. Additionally, 125 cases were discontinued Comment 1 also explains the factors taken
and 63 were declared inadmissible.81 into account by the Committee to determine
Cases brought under art 22 so far have whether there has been a violation of art 3. In
been overwhelmingly related to issues under art art 3 communications, the Committee has held
3 (no expulsion, return or extradition) because that the risk of torture to an individual must be
the States Parties who accepted this procedure foreseeable, real and personal, although it need
were often developed countries in Western not be highly probable. The presence of a pattern
Europe, where individuals sought refuge.82 of gross, mass, or flagrant violations of human
Accordingly, the issues brought to the attention rights in a country is not sufficient to prevent
of the Committee related to individuals – extradition under art 3. Conversely, the absence
foreign citizens – who argued that their return of a pattern also does not exclude the possibility
to other countries, usually their own, would of a violation of art 3, since the threat of torture
subject them to the risk of torture.83 Since art must be individual and personal. The situation
22 cases are often focused on alleged violations must be one that presents a risk of torture that
of art 3, the Committee’s main contribution to goes beyond mere theory or suspicion. The
protecting human rights in closed environments Committee considers all relevant evidence in
continues to be achieved through its periodic making its decision and, while it will take into
reporting system under art 19. This may change account determinations by state authorities, it is
in the future due to increasing acceptance by not bound by such determinations when finding
States Parties of the Committee’s competence a violation under art 3.88
under art 22 or if conditions were to change In addition to matters involving art 3,
within states.84 the Committee has had the opportunity in
Individual petitions are an important form a few communications to interpret different
of supervision laid down in the Convention. provisions of the Convention that claim other
While state reports are useful instruments that violations. These issues include, for example,
look at the overall situation of a State Party the responsibility of a state regarding torture
and formulate recommendations geared toward committed by groups that assume quasi-
affecting public policy as a whole, individual government authority.89 In Elmi v Australia, the
petitions concern specific alleged violations of Committee noted that in certain exceptional
rights espoused by the Convention and identify circumstances, actions by groups who assumed
individual victims. Individual petitions allow quasi-governmental authority could fall within
for targeted remedial measures, including full the scope of art 1 (torture) or art 16 (CIDT).90
reparation and rehabilitation when possible, Similarly, the Committee, in Dezmajl v
as well as investigation and punishment of Yugoslavia, explained that if a State Party fails
those guilty of torture.85 In this function, the to adequately respond to torture committed
Committee performs what could be described by private actors its failure could constitute a
as a semijudicial function, resorting to the violation of art 16 by ‘acquiescence’.91
legal tradition to establish facts, the use of legal Through the art 22 petition process,
reasoning, the reliance on precedent, etc. The the Committee has also been able to identify
Committee’s final decisions relating to art 22 important issues regarding the duty of States
petitions are authoritative interpretations of Parties to investigate acts of torture within their
an international treaty, and as such must be territories.92 Since proving torture is often elusive
adhered to by States Parties. Additionally, to with the development of techniques to hide
avoid irreparable damage, the Committee has the evidence, it becomes essential to assess whether
authority to request interim measures while a a government acted promptly in its investigation.
petition is pending without prejudging the merits. The failure to promptly investigate constitutes a
Again, so far, most if not all interim measures violation of the Convention. In Abad v Spain,
have related to alleged violations of art 3.86 for instance, the complainant notified Spanish
Early on, the Committee adopted General authorities on 3 February 1992 that she had
Comment 1, which was designed to interpret been held incommunicado for five days and
art 3 and provide guidance, both to states and subjected to torture and ill-treatment. Spanish

157
Claudio Grossman

authorities did not initiate proceedings until 21 in closed environments, specifically because
February 1992.93 The Committee found that it identifies pertinent issues, for example,
18 days of inaction by the Spanish government incommunicado detentions, lack of proper
was too long and violated the obligation in investigations, absence of systematic review
art 12 to conduct a prompt investigation into of interrogation and detention practices,
allegations of torture or CIDT.94 Furthermore, etc. Moreover, as the Committee requires
the complaint of torture or ill-treatment need investigation and punishment as part of the
not be formal in order to trigger a State Party’s redress required to provide full reparation to
obligation to investigate; an allegation or the victims, which is also an independent obligation
existence of suspicion of a violation from other under the Convention, the Committee’s
sources is sufficient.95 As to the nature of the decisions have deterrent value that goes well
investigation, it must be effective and thorough, beyond the decision in an individual case.111
covering the nature and circumstances of all
the alleged acts, as well as all individuals who 6. FOLLOW-UP PROCEDURES
may have been involved.96 Investigators must be
The Convention has played a leading role
competent and qualified.97
in developing follow-up and reporting procedures
Regarding art 4 of the Convention,98 among the various treaty bodies. The follow-
the Committee in its jurisprudence has held up procedures in place provide the Committee
that light penalties and punishment of the with important and vital tools in supervising
perpetrators of torture are not commensurate state implementation of the Convention. The
with the grave nature of torture and constitute Committee has follow-up procedures for state
a violation of the Convention.99 Inappropriate periodic reporting processes, including the
punishment or light penalties result in de facto concluding observations and recommendations
impunity.100 The Committee has also had
under art 19, as well as for individual complaints
the opportunity to hear and issue decisions
submitted under art 22, and has appointed
concerning universal jurisdiction provided for
rapporteurs for each.
in art 5 of the Convention, which establishes
the duty to try or extradite alleged offenders.101 A. Follow-up under Article 19: Concluding
The International Court of Justice, in the case
of Belgium v Senegal, recently confirmed the
Observations and Recommendations
validity of the Committee’s decision on art 5.102 To further strengthen the impact of the
Other obligations under the Convention concluding observations under art 19, the
explored through art 22 communications Committee developed a system of requiring
include the obligation to: exclude statements countries to report back within one year on three
obtained under torture or ill-treatment under art to six issues selected by the Committee. The
15;103 provide appropriate remedy104 and redress process was designed to increase accountability
or compensation under art 14;105 and keep under by States Parties and address issues that could
systematic review rules for interrogation, arrest be remedied within this time frame. The
and detention under art 11.106 The Committee Committee, in order to help facilitate the
has utilised the art 22 communications process follow-up procedure under art 19, created the
to reiterate the absolute and non-derogable post of Rapporteur for Follow-up to Concluding
character of the prohibition of torture as Observations and Recommendations.112
established in art 2.107 Equally, art 22 has allowed In Chapter IV of its annual report for 2005-
the Committee to decide that death by stoning 2006, the Committee described the framework
constitutes an act of torture,108 incommunicado that it developed to provide for follow-up
detention facilitates the practice of torture,109 subsequent to the adoption of the concluding
and diplomatic assurances cannot be used as a observations on art 19 States Parties reports.113
technique to abrogate obligations under art 3 of At the end of the concluding observations for
the Convention.110 each State Party report, the recommendations
The jurisprudence of the Committee requiring follow-up and reporting within one
may grow even further as it expands to issues year are specifically identified.114 Starting in
other than art 3. This process has tremendous November 2011, the Committee instituted a
relevance for the protection of individuals new procedure to include a paragraph requesting

158
Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture

the State Party to provide, within one year, while 28 states had not supplied any follow-up
information on measures taken relating to: information.120
(a) ensuring or strengthening legal In reviewing follow-up requests sent to a
safeguards for persons deprived of their variety of States Parties over several years, the
liberty; Committee has noted that States Parties are
often requested to remedy similar abuses or
(b) conducting prompt, impartial and violations of the Convention. The actions most
effective investigations; and frequently requested are to:
(c) prosecuting suspects and sanctioning • conduct prompt, impartial, and effective
perpetrators of torture or illtreatment, investigations;
as contained in concluding observations,
• prosecute and sanction perpetrators of
when identified for follow-up.
torture or ill-treatment;
In addition, the State Party concerned • ensure or strengthen legal safeguards for
may be requested to provide follow-up persons detained;
information on other issues identified by the
Committee in the concluding observations, • ensure the right to complain and have
including providing remedies and redress to cases examined;
the victims, when deemed necessary by the • conduct training and awareness-raising;
Committee, and considering the specific
• bring interrogation techniques in line with
situation in that State Party.115
the Convention and, specifically, abolish
The Committee has appointed a incommunicado detention;
Rapporteur on Follow-up to Concluding • ensure redress and rehabilitation;
Observations and Recommendations under • prevent gender-based violence and ensure
art 19 to assess whether issues identified in the protection of women;
concluding observations have been or are being
• monitor detention facilities and places of
addressed by States Parties.116 The Rapporteur is
confinement, and facilitate
charged with assessing whether the information
provided by the States Parties, in response to the • unannounced visits by an independent
issues identified for follow-up in the concluding body;
observations, actually and accurately address the • improve data collection on torture; and
concerns and recommendations raised by the • improve conditions of detention, ie,
Committee. overcrowding.121
When assessing and analysing the responses Based on these issues identified in follow-
submitted by States Parties, the Rapporteur up procedures, many States Parties fail to
considers all sources of information including properly and vigorously investigate and monitor
from other treaty bodies, other sources within abuses.122
the United Nations system, regional human
Article 19 follow-up procedures provide
rights mechanisms, national human rights
States Parties with achievable goals and increased
institutions, NGOs, etc. The Rapporteur may
accountability. Additionally, the follow-up
request that States Parties provide additional
procedures provide both States Parties and the
information if needed. The Rapporteur also
international community with information on
sends reminders to States Parties that have not
compliance with the obligations, including the
supplied follow-up information. During every
protection of people in closed environments,
session, the Rapporteur presents a progress
since the procedure relates specifically to matters
report on the status of the follow-up process;
that are directly relevant to the protection of
the report is then included in the Committee’s
individuals as explained above. If followed fully,
annual report.117 Since May 2007, all of the
compliance with these follow-up procedures will
Rapporteur’s letters regarding follow-up to the
provide a sense of progress, protection against
States Parties have been made public in an
abuse, and a general strengthening of human
effort to maximise accountability and increase
rights globally. If States Parties do not comply
transparency.118 Of 95 States Parties with follow-
with their obligations, the reporting procedure is
up reports due to the Committee by May 2011,
a method to ‘mobilize shame’. The procedure’s
67 had been received by the Committee,119

159
Claudio Grossman

impact will depend on different factors including Since art 22 relates to specific violations
the conditions inside the country as well as the and directly addresses the situation of individual
political will of the international community victims, it has the potential of having significant
to resort to measures established under impact on individuals in closed environments
international law to protect human rights. This who can utilise this process if they believe
technique can appeal to both public opinion their rights have been violated. Additionally,
domestically within the State Party as well as as noted before, individuals in closed
internationally.123 environments can request interim measures,
in addition to submitting a communication.
B. Follow-up for Complaints under Article 22 With the continued declaration of acceptance
The Committee has established a procedure of art 22 and the increasing knowledge of the
for follow-up for individual communications Convention, more individuals will be likely to
submitted under art 22, as well as a corresponding use the individual communications mechanism.
Rapporteur.124 The follow-up procedure for
individual communications furthers the goal 7. CONCLUSION
of art 22 by providing support for individual The international community has created
victims of violations, and continuing to exert a specialised Convention and treaty monitoring
pressure and accountability on non-compliant body (ie the Committee) with substantive
member states. The majority of the cases under obligations, procedures, and institutions for
art 22 that would require follow-up involve, as the purposes of combating torture and other
mentioned above, violations of art 3. In addition forms of CIDT. Those institutions, norms and
to the actual concluding decision on the case, procedures have relevance for the treatment
the art 22 Rapporteur plays an important role in of individuals in closed environments, and
follow-up. the different supervisory techniques under the
The art 22 rapporteurship is newer and Convention open important opportunities in
less developed than the art 19 Rapporteur for this regard by providing authoritative accounts
Follow-up to Concluding Observations and of the status of compliance with the obligations
Recommendations since state reporting has laid down in the Convention. Over the years,
been the core function of the Committee. The the Committee has achieved successes in
role of this newer Rapporteur is to: contributing to the formulation of public policy
transforming countries’ legal norms, including
[monitor] compliance with the the incorporation of the definition of torture
Committee’s decisions by sending notes into domestic legal systems, characterising
verbales to States parties enquiring
torture as a non-derogable right, excluding
about measures adopted pursuant to the
Committee’s decisions; [recommend] confessions extracted under torture for use
to the Committee appropriate action in judicial proceedings, and contributing to
upon the receipt of responses from States better practices concerning prison conditions.
parties, as well as in situations of non- The Committee has also promoted the need
response, and upon the receipt henceforth to properly train public officials through, for
of all letters from complainants concerning example, the utilisation of the Istanbul Protocol,
non-implementation of the Committee’s and has encouraged the ratification of treaties
decisions; [meet] with representatives that strengthen the prohibition of torture
of the permanent missions of States
including OPCAT and the Rome Statute of the
parties to encourage compliance and to
determine whether advisory services or International Criminal Court.
technical assistance by the Office of the Despite these important developments, it
United Nations High Commissioner for cannot be affirmed that torture has decreased
Human Rights would be appropriate or in the world. The Committee continues
desirable; [conduct] with the approval of to witness failures to fully implement the
the Committee follow-up visits to States Convention’s provisions and the Committee’s
parties; [and prepare] periodic reports
recommendations including:
for the Committee on the Rapporteurs’
activities.125 • instances of refusal to adopt a clear
definition of torture and to establish proper

160
Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture

sanctions for torture commensurate with The Committee is also faced with the need
the gravity of the crime; to strengthen the semijudicial nature of the art
• failures to investigate alleged cases of 22 procedure, including further developing its
torture; use of precedent, and its consideration of facts
as determined by domestic legal systems. In this
• impunity for perpetrators of acts of torture;
regard, the Committee’s recent adoption during
• expulsion, return and extradition its 49th session of General Comment 3 on the
of persons to states where there are implementation of art 14 (concerning redress
substantial grounds for believing that they and rehabilitation for victims) by States Parties
are in danger of being subjected to torture; is of crucial value. The aim of General Comment
and 3, which is published on the Committee’s
• ‘rendition’ of suspects to countries that website, is to interpret the obligations of
continue to use torture as a means of States Parties in accordance with art 14 of the
investigation and interrogation. Convention to provide proper reparation and
Deplorable conditions of detention are still rehabilitation to victims of torture and other ill-
the general rule. Forced disappearances continue treatment. Additionally, the General Comment
to deny people their basic legal safeguards, and will contribute to specifying states’ obligations
rehabilitation, redress, or reparation is rarely in individual cases of torture and other forms
provided to victims of torture or their families. of CIDT that have been the objects of art 22
The Convention offers important communications to the Committee.
opportunities to address these violations of The increasing impact and workload of the
human rights and, if fully implemented, would Committee requires a larger commitment of
greatly contribute to the improvement of human resources than is currently available. Presently,
rights in closed environments. the Committee meets twice each year for a
To achieve that goal, different measures total of eight weeks, allowing it to consider
should be adopted to strengthen the Committee’s only 16 States Parties reports per year. With
contributions. The follow-up procedures under more than 100 petitions pending before the
the Convention need to be further developed Committee, the backlog and delay in hearing
so that failure to comply with state obligations communications will only increase as more
will continue to be spotlighted, both to the countries declare their acceptance of art 22. It
State Party and the international community. is, then, crucial for States Parties to realise the
Increased coordination with other treaty bodies, full value of the Committee and other treaty
as well as regional organisations, could add bodies, and provide the Committee and other
additional weight to the Committee’s action and treaty bodies with sufficient means to fulfil their
increase its impact by building and reflecting a functions and assist States Parties in complying
coherent view by authoritative, universal and with their obligations. The High Commissioner
regional bodies. Reaching out to the judiciary, for Human Rights has presented concrete
public defenders and prosecutors, among other proposals for consideration by the international
institutions within States Parties, could also community to strengthen the treaty body system
insure, together with training, that the expertise after an extensive participatory process.
of the Committee is given more weight in The growth of the treaty body system, which
internal state decision making. has doubled in size in recent years, has not been
Increasing publicity of the procedures matched with equivalent resources. The general
and decisions adopted by the Committee, for lack of resources for the Committee has led to a
example through webcasting, allows for further backlog of work and a deterioration of services,
access, knowledge and transparency regarding including translations. Although treaty bodies
the Committee’s activities. Expanding the are continuously working to ensure that their
meeting time of the Committee to receive working methods are efficient and effective, there
information from all sources, including NGOs is further room for improvement, for example,
and individuals, would further enrich its ability by a better control of the time and length of
to place the Committee’s expertise at the the different proceedings, and considering the
disposal of States Parties. possibility of working groups among different
committees with regard to the treatment of

161
Claudio Grossman

communications. However, measures that lead an important layer of legitimacy to the human
to increased efficiency do not necessarily reduce rights work in comparison to the contributions
costs: making the Committee’s work more made by political bodies which, needless to say,
implementable at the national level requires the respond to political imperatives. To achieve
commitment of resources that allow engagement greater legitimacy, political organs should rely
in training, technical cooperation for the even more on the decisions adopted by organs
purposes of upgrading the capacity to prepare made up of independent experts working within
reports, and assisting in the implementation the legal tradition. Making this statement could
of COBs at the national level. States Parties appear naïve, albeit well intentioned. However,
should play a leading role in finding permanent we should not forget that change is possible
solutions to these resource and workload issues and does take place. While the struggle against
so as to ensure full realisation of the objectives racism, dictatorships, discrimination, slavery,
of the Convention. etc has never been easy, the aspiration to live
As the international community continues a full and dignified life including one free from
to debate these challenges, it is crucial to torture and other forms of CIDT is a powerful
understand the value and contributions of and inspirational force whose presence surprises
the United Nations treaty bodies, such as the only those who do not believe in our common
Committee, in protecting individuals in closed humanity and shared expectations.
environments. These supervisory organs add

162
Implementing Human Rights in Closed Environments through the United Nations Convention against Torture

NOTES

1. The definition used in this article is similar to as laid out in the Convention into domestic
art 4 of the Optional Protocol to the Convention law).
against Torture and Other Cruel, Inhuman or 5. Convention, art 2.
Degrading Treatment or Punishment, open
6. Convention, art 3.
for signature 18 December 2002, UN Doc A/
RES/57/199 (entered into force 22 June 2006) 7. Convention, arts 6 and 7.
(OPCAT), which states: ‘deprivation of liberty 8. Convention, art 15.
means any form of detention or imprisonment
9. Convention, art 14.
or the placement of a person in a public or
private custodial setting which that person is 10. Convention, art 10.
not permitted to leave at will by order of any 11. Convention, art 19.
judicial, administrative or other authority’. 12. Convention, art 20.
2. Convention against Torture and Other 13. Convention, art 21.
Cruel, Inhuman or Degrading Treatment or
Punishment, open for signature 10 December 14. The following States Parties have made
declarations under art 21: Algeria, Andorra,
1984, 1465 UNTS 85 (entered into force 26
Argentina, Australia, Austria, Belgium, Bolivia,
June 1987) (Convention).
Bulgaria, Cameroon, Canada, Chile, Costa Rica,
3. On 26 September 2012, the Lao People’s Croatia, Cyprus, Czech Republic, Denmark,
Republic and Nauru became the 153rd State Party Ecuador, Finland, France, Georgia, Germany,
to the Convention. See a full list of countries Ghana, Greece, Hungary, Iceland, Ireland, Italy,
that have ratified the Convention at United Japan, Kazakhstan, Liechtenstein, Luxembourg,
Nations Human Rights Committee, Office Malta, Monaco, Montenegro, Netherlands,
of the High Commissioner of Human Rights, New Zealand, Norway, Paraguay, Peru, Poland,
Committee against Torture <www2.ohchr.org/ Portugal, Republic of Korea, Republic of
english/bodies/cat>. Moldova, Russian Federation, Senegal, Serbia,
4. Convention, arts 1 and 4. The Committee Slovakia, Slovenia, South Africa, Spain, Sweden,
has consistently called upon States Parties to Switzerland, Togo, Tunisia, Turkey, Uganda,
criminalise torture and incorporate the definition Ukraine, United Kingdom of Great Britain and
of torture as laid out in the Convention into their Northern Ireland, United States of America,
domestic legislation. Some states have argued, Uruguay and Venezuela.
however, that using the verbatim definition 15. Convention, art 22.
of torture as laid out in the Convention is 16. The following States Parties have made
not necessary if the elements of torture are declarations under art 22: Algeria, Andorra,
incorporated into domestic law. However, Argentina, Australia, Austria, Azerbaijan,
the Committee considers that the verbatim Belgium, Bolivia, Bosnia and Herzegovina,
definition of torture provides uniformity among Brazil, Bulgaria, Burundi, Cameroon, Canada,
States Parties, contributing to the legitimacy Chile, Costa Rica, Croatia, Cyprus, Czech
of domestic norms. See Committee against Republic, Denmark, Ecuador, Finland, France,
Torture, General Comment No 2, UN Doc Georgia, Germany, Ghana, Greece, Guatemala,
CAT/C/GC/2 (24 January 2008) [9] (‘In some Hungary, Iceland, Ireland, Italy, Kazakhstan,
cases, although similar language may be used, its Liechtenstein, Luxembourg, Malta, Mexico,
meaning may be qualified by domestic law or by Monaco, Montenegro, Morocco, Netherlands,
judicial interpretation and thus the Committee New Zealand, Norway, Paraguay, Peru, Poland,
calls upon each State Party to ensure that all Portugal, Republic of Korea, Republic of Moldova,
parts of its Government adhere to the definition Russian Federation, Senegal, Serbia, Seychelles,
set forth in the Convention for the purpose Slovakia, Slovenia, South Africa, Spain, Sweden,
of defining the obligations of the State’). See Switzerland, Togo, Tunisia, Turkey, Ukraine,
also Committee against Torture, Concluding Uruguay and Venezuela.
Observations of Qatar, UN Doc CAT/C/QAT/ 17. Convention, art 19.
CO/2 (25 January 2013) [8]-[9] (recognising
Qatar’s incorporation of the definition of torture

163
Claudio Grossman

18. Unlike art 20, which is discussed below, States Committee’s evaluation. See Manfred Nowak
Parties cannot opt out of reporting requirements and Elizabeth McArthur, The United Nations
under art 19. As an estimate, the art 19 Convention against Torture: A Commentary
reporting process consumes over 70 per cent (Oxford University Press, 2008) [61].
of the Committee’s time. See, for example, 26. See Committee against Torture, Status of the
Committee against Torture, Provisional Agenda Optional Reporting Procedure of the Committee
and Annotations, 48th sess, Agenda Item 4, UN against Torture and Proposals for its Revision,
Doc CAT/C/48/1 (21 February 2012). UN CAT/C/47/2 (27 September 2011).
19. Convention, art 19(1) (‘The States Parties 27. See Nowak and McArthur, above n 25, [62].
shall submit to the Committee, through the
28. Ibid.
Secretary-General, reports on the measures they
have taken to give effect to their undertakings 29. Ibid, 645-646, [63] (noting, as a point of
under the Convention, within one year after the procedure, that Committee members do not
entry into force of the Convention for the State participate in the consideration of reports of
Party concerned’). states of which they are nationals).
20. Committee against Torture, Provisional Agenda 30. See generally for example, Committee against
and Annotations, 48th sess, Agenda Item 4, Torture, Concluding Observations: Sri Lanka,
UN Doc CAT/C/48/1 (21 February 2012) [7]- UN Doc CAT/C/LKA/CO/3-4 (8 December
[33] (providing information regarding measures 2011).
taken for arts 1-16 of the Convention). 31. See UN Treaty Body Webcast <www.
21. Committee against Torture, Committee treatybodywebcast.org/category/
Guidelines on the Form and Content of Initial webcastarchives/cat> (providing archived video
Reports Under Article 19 to be Submitted of the public sessions of the majority of states
by States Parties to the Convention against that took part in the 49th Session, including
Togo, Mexico, Gabon, Senegal and others).
Torture, UN Doc CAT/C/4/Rev 3 (18 July 2005);
Committee against Torture, General Guidelines 32. The information presented by civil society
Regarding the Form and Contents of Periodic enriches the dialogue between the Committee
Reports to be Submitted by States Parties, UN and States Parties as the submissions provide
Doc CAT/C/14/Rev 1 (2 June 1998). general and specific issues, allowing the states
to corroborate or refute the information relevant
22. See Harmonized Guidelines on Reporting under
to their obligations under the Convention.
the International Human Rights Treaties,
Submissions by civil society include as well
Including Guidelines on a Core Document
as recommendations for action, questions
and Treaty-Specific Documents – Report of the
to be posed to States Parties, suggestions on
Secretary-General, UN Doc HRI/GEN/2/Rev 6
how to ensure compliance, and so forth. The
(10 May 2006). Committee is transparent in publicizing the
23. Convention, art 19(1) (‘Thereafter the States information but exercises its own authority in
Parties shall submit supplementary reports deciding how it will use the information and,
every four years on any new measures taken in light of the dialogue with the State Party and
and such other reports as the Committee may its own observations, the overall value of the
request’). information provided by civil society.
24. 2006-2007 Annual Report of the Committee 33. The Committee is constantly analysing the
against Torture, UN Doc A/62/44 (2007) [23]- effectiveness of its procedures. The Committee’s
[24]. most recent annual report includes specific
25. Reports produced under the LOIPR allow the comments from the Rapporteur on follow-
Committee to raise specific areas of concern to up, Felice Gaer. See Report of the Committee
be addressed by the States Parties resulting in against Torture, UN Doc A/67/44 (2012) 164-
a more focused dialogue and recommendations. 176 (Section IV). The report details patterns of
The Committee can provide specific guidance to compliance and timeliness, and discusses the
tools currently at the Committee’s disposal. In
States Parties as to how they can comply with the
addition, the Committee has made public the
obligations of the Convention in those specific
requirement for States Parties to report within
areas of concern. The Committee is in the
one year. This allows civil society and NGOs
process of evaluating